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Esperança Revista

Ano VI – nº 12 – 2º semestre de 2014

A Igreja e o mal do século: Tráfico Humano

Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas

Quando a compaixão fala mais alto


Revista Esperança Ano VI – nº 12 – 2º semestre de 2014

A Igreja e o mal do século: Tráfico Humano

Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas

Quando a compaixão fala mais alto

Capa: pixabay.com

Revista Esperança Publicação semestral das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas Província Nossa Senhora Aparecida Novembro de 2014 Diretora Ir. Sandra Maria Pinheiro, mscs Superiora Provincial Coordenação Geral Ir. Eva Lecir Brocco, mscs Conselheira e Secretária Provincial Direção de Redação Ir. Elizangela Chaves Dias, mscs Ir. Rosa Maria Martins Silva, mscs Ir. Eva Lecir Brocco, mscs Colaboradoras Ir. Andri Renata Vilas Boas, mscs Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs Ir. Daiane dos Santos, mscs Ir. Elizangela Chaves Dias, mscs Ir. Erta Lemos, mscs Ir. Eva Lecir Brocco, mscs Pe. Jaime C. Patias, imc Marcos Beltramin Ir. Neuza Botelho dos Santos, mscs Ir. Rosa Maria Martins Silva, mscs Ir. Sonia Delforno, mscs Vera Cristina Braghetto Buratto Jornalista Responsável AP Comunic Revisão Geral AP Comunic Fotografias Arquivo da Congregação MSCS e Província NSA

Caros Leitores.................................................................... 1 Tráfico de Pessoas, migração e trabalho escravo no Brasil.................................................. 2 A Igreja e o mal do século: Tráfico Humano....................... 6 Quando a compaixão fala mais alto Entrevista com Alício da Silva, de São Tomé e Príncipe – África......................................... 8 Tráfico de Pessoas gera 34 bilhões de dólares ao ano......... 11 “Que é a humanidade? ...pouco menos que um deus!”......................................... 14 Campanha Missionária.................................................... 18 Mensagem do Papa.......................................................... 21 Rede ESI – Uma Educação a favor da vida e da dignidade humana!...................................................... 22 Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas............................................................ 25

Diagramação e Arte Inês Ruivo – HI Design

Tráfico de Pessoas: Dimensões e processo......................... 26

Impressão e Acabamento Edições Loyola Rua 1822, nº 347 04216-000 – São Paulo – sp Tel (55 11) 3385-8500

Vida Consagrada em campo na Copa de 2014................... 28

Tiragem 1500 exemplares Contato Província Nossa Senhora Aparecida Praça Nami Jafet, 96 – 04205-050 – Ipiranga São Paulo – SP – Brasil Tel (11) 2066-2900 www.mscs.org.br e-mail: eva.mscs@terra.com.br

O poder do olhar............................................................. 30 A experiência da confiança, da memória e do reencontro............................................ 32


Caros Leitores

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uanto custa seu sorriso? Quando custa sua saúde? Quanto custa seu trabalho? Deus em seu infinito amor nos criou livres. Todos nascemos livres, desnudos e indefesos. Infelizmente o ser humano se achou superior a Deus e rompeu com a ordem da natureza. Sentir-se dono do outro e tratá-lo como sua propriedade é a atitude mais desumana que existe, é a desigualdade instaurada na terra. Isso não é assunto de antes da Lei Áurea, isso é assunto dos nossos dias. Num submundo que pode passar despercebido para a maioria das pessoas existe o Tráfico Humano. No nível mais criminoso que se possa imaginar, as crianças são geradas com a intenção de terem seus órgãos traficados. Pessoas são negociadas como mercadorias. Não existem fronteiras nem leis e o limite é o tamanho da ganância do homem. E nós, o que fazemos diante disso? Nós Igreja que anunciamos a Boa Nova de Cristo? Nessa edição da Revista Esperança somos convidados a conhecer um pouco dessa lamentável realidade e ainda exortados a tormarmos uma atitude de denúncia e ação contra o tráfico humano. Que nossa Bem Aventurada Assunta Marchetti nos inspire coragem e determinação para vivermos com radicalidade o carisma Scalabriniano, acolhendo e defendendo a vida em todas as circunstâncias e denunciando toda forma de dominação que limita ou impede ao ser humano viver a liberdade de Filhos de Deus, tão necessária em nossa sociedade atual. Boa leitura! Ir. Sandra Maria Pinheiro, mscs

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Superiora Provincial

Esperança | 2º semestre de 2014 | 1


Marc Ferrez/wikipedia.org

Tráfico de Pessoas, migração e trabalho escravo no Brasil

Grupo de escravos e seus filhos reunidos em fazenda de café na Serra da Mantiqueira, Sul de Minas Gerais, no ano de 1885.

Ação abominável, ligada diretamente ao fenômeno da globalização e do crime organizado, o Tráfico de Pessoas que reduz o ser humano a objeto de negociação é fato que marca a história da humanidade desde o tempo de Alexandre Magno (356 - 323 a.C.). No Brasil, o período da colonização portuguesa permitiu o Tráfico de Pessoas por muito tempo, quando um grande contingente de africanos eram arrancados da sua nação em vista do trabalho escravo nas culturas de cana-de-açúcar, cacau e café.

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o contexto atual da economia globalizada o Tráfico de Seres Humanos é uma das maiores chagas que atinge o ser humano. Além de envolver milhões de pessoas, é também uma das atividades mais lucrativas do crime organizado, juntamente com o tráfico de armas e de drogas. Aliás, traficar pessoas (ou às vezes órgãos humanos), drogas e armas são em geral atividades gêmeas. De acordo com a UNODC (Órgão das Nações Unidades contra Droga e Crime), os países com os maiores números de pessoas traficadas são Tailândia, Rússia, Ucrânia, Nigéria, Bielorússia, Romênia, China, Mianmar; e os países de destino das vítimas são geralmente Alemanha, 2 |

Estados Unidos, Itália, Holanda, Japão, Tailândia, Bélgica e Turquia.

Vítimas em terceiro grau De início, é preciso deixar claro que Tráfico de Pessoas e mobilidade humana são duas realidades inextricavelmente entrelaçadas. As redes do tráfico põem em movimento, pelo mundo todo, uma quantidade imensa de pessoas. Nesse deslocamento de magnitude ampla, complexa e diversificada, desfilam tanto jovens e adultos quanto adolescentes e crianças. Dependendo dos fins em jogo, exploração do trabalho ou exploração sexual, predomina, respectivamente, o sexo masculino ou o sexo feminino. Em quase todos os países, atualmente, o tráfico e o fenômeno da migração formam duas realidades estreitamente interligadas. Quantas vítimas do tráfico viajam de forma dissimulada, escondidas sob a categoria de migrantes! Ambas essas realidades encontram-se, ainda, fortemente vinculadas ao “trabalho escravo”. As aspas se devem ao fato de que a escravidão contemporânea diferencia-se da escravidão dos séculos passados, seja na antiguidade seja nos tempos modernos. Historicamente, o escravo era uma peça do senhor, o qual dele podia dispor com total liberdade de compra, venda e uso. No caso do Brasil, conforme não poucos


rias, posteriormente não cumpridas; confinamento por dívidas; jornadas exaustivas, às vezes chamadas de overdose; alimentação pobre, fria e insuficiente; condições insalubres e desumanas de moradia; transporte precário e perigoso, retenção do pagamento e dos documentos; perseguição ameaças com jagunços armados, muito parecidos aos antigos “capitães do mato”; eventuais assassinatos de fugitivos ou mortes por excesso de trabalho... Convém não esquecer que, em menor ou maior grau, tais condições podem ser encontradas tanto no campo como na cidade. Na zona rural, só para citar alguns exemplos, é o retrato comum, por grande parte do território nacional, no corte de cana, nas carvoarias, na pecuária de leite e de corte, no desmatamento e plantio do pasto. Sem falar de outras colheitas e/ou safras, tais como o café, a

A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, promulgada pela Princesa Isabel, representou o fim da escravatura no Brasil. Mas não o fim do “trabalho escravo” em sua concepção contemporânea.

A carta original da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil em maio de 1888.

laranja, o tomate, a mandioca, o abacaxi etc.. A mão-de-obra utilizada se compõe, via de regra, de migrantes temporários ou sazonais, incluindo não raro menores de idade. No mundo urbano, o cenário se repete, entre outros casos, na indústria têxtil de fundo de quintal, nos serviços domésticos mais diversos, na construção civil, nos grandes projetos, como também nos bastidores ocultos dos empreendimentos turísticos. Não é novidade para ninguém que o palco iluminado do turismo costuma esconder corredores sombrios onde personagens anônimos preparam o cenário para o desfile das celebridades. Tais personagens anônimos, em não poucos casos, são os estrangeiros, os diferentes, os que chegam de fora, os outros. Nos meios urbanos, as empresas e/o empreiteiras mesclam imigrantes latinoamericanos com migrantes internos, notadamente nordestinos.

Feridas que não cicatrizam

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estudiosos, a riqueza e o poder do fazendeiro eram medidos menos pela quantidade de hectares de terra de sua propriedade do que pelo número de peças com que podia contar. Seguindo de perto o raciocínio de José de Souza Martins (Cfr. O Cativeiro da Terra), enquanto o trabalhador era escravo, a terra podia ser livre. Quando começou a aumentar a pressão pela libertação dos escravos, criou-se a “lei de terras”, de 1850. Ou seja, se o trabalhador agora se torna livre, a terra deve ser escravizada. A terra passa a ter preço, o que impede que o negro em vias de ser liberto tenha fácil acesso a ela. Vale lembrar que no mesmo ano, 1850, uma lei nos Estados Unidos fazia exatamente o contrário: liberava as terras aos pioneiros que quisessem nelas trabalhar. Daí uma dupla concepção de trabalho, ainda de acordo com Martins. Enquanto para os negros alforriados trabalho era sinônimo de escravidão no eito, na mina ou no serviço doméstico, para os imigrantes que chegavam o trabalho representava a possibilidade de ascensão social. Os colonos italianos que se dirigiam às fazendas de café no estado de São Paulo, por exemplo, nutriam o sonho de adquirir um pedaço de terra com os ganhos dos serviços prestados aos donos dos cafezais. É preciso reconhecer que se tratava de um sonho raramente concretizado. A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, promulgada pela Princesa Isabel, representou o fim da escravatura no Brasil. Mas não o fim do “trabalho escravo” em sua concepção contemporânea. Atualmente, milhões de pessoas seguem trabalhando em condições degradantes, precárias e extremamente aviltantes, análogas ao trabalho escravo. As características são bem conhecidas: aliciamento à base de promessas ilusó-

Três aspectos continuam desafiando os séculos e os esforços da luta pelos direitos humanos. O primeiro é que grande parte do imenso número de “deslocados” por motivos de trabalho, subjugados a condições análogas à escravidão e submetidas à exploração sexual, permanece sendo de origem negra. O estigma parece perseguir a raça que, ao longo do tempo, muitas vezes encontrou no trabalho não tanto a realização de um sonho, mas uma espécie de castigo que acompanha a cor da pele ou a marca da escravidão. Constituem verdadeiras feridas que insistem em não cicatrizar ou em reabrir a cada desafio e a cada circunstância histórica. Outro aspecto desafiador é que cidade e campo, nesse tipo de migração forçada, não são gavetas fechadas e incomunicáveis. Ao contrário, muitos migrantes, conhecem ambas as Esperança | 2º semestre de 2014 | 3


realidades com uma frequência surpreendente. Após o trabalho numa determinada safra rural, por exemplo, podem partir para outro tipo de serviço no meio urbano, igualmente temporário, pesado e mal remunerado. Com efeito, uma boa quantidade de cortadores de cana que se deslocam dos estados do Nordeste para a região de Ribeirão Preto - SP, chamada “Califórnia brasileira”, terminado o corte de cana, se dirigem às cidades litorâneas onde passam o verão como vendedores ambulantes, camelôs, comercializando os objetos mais variados. Um terceiro aspecto que hoje interpela tanto a sociedade quanto as instituições em geral refere-se ao crescente número de mulheres envolvidas no fenômeno da migração.

Arrancadas da própria terra e da própria família, costumam ser utilizadas no trabalho temporário e degradante, a exemplo do que ocorre com o Tráfico de Seres Humanos. Também aqui um novo estigma as persegue: no geral, recebem salários inferiores aos homens pelo mesmo tipo de serviço e pela mesma carga de trabalho. Não poucas são vítimas de ambos os estigmas apontados, a raça e o sexo. Isso para não falar de outra marca que também acompanha os migrantes, mulheres e homens, isto é, a origem. Pesa aqui o fato de serem, por exemplo, árabes no continente europeu, latinoamericanos nos Estados Unidos, hispano-americanos em São Paulo; asiáticos e africanos nos países do Primeiro Mundo, e assim por diante.

Origem, trânsito e destino Desempenham os serviços mais sujos e perigosos, pesados e mal remunerados, “pau-para-toda-obra”, como se costuma dizer.

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Catadores de lixo no Recife.

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Que está por trás disso? Dois polos se interligam no cenário mundial do Tráfico de Seres Humanos, da migração forçada e do trabalho escravo. No polo de origem, as condições

precárias de sobrevivência, aliada à falta dos serviços essenciais como saúde e escola, por exemplo, favorecem o aliciamento por parte dos chamados “gatos”. Estes proliferam nas regiões subdesenvolvidas de um determinado país ou nos países periféricos em geral: Ásia, África e América Latina. Podem ser pessoas bem conhecidas, até compadres dos pais e padrinhos dos migrantes em potencial. Devido à abundância de carências locais e regionais, os jovens em especial se tornam presa fácil desses “gatos”, através de promessas de trabalho e futuro promissor. Quanto mais subdesenvolvido o lugar, tanto mais vulneráveis e expostos ao aliciamento se encontram as pessoas. No caso brasileiro, um princípio histórico e estruturalmente perverso da economia costuma ser alimentado ao extremo. Ou seja, o direito à propriedade privada da terra ou ao ganho das empresas, movido pelo motor do lucro e da acumulação de capital, se sobrepõe à dignidade da pessoa humana, enquanto trabalhador e cidadão. Assim é que, historicamente, os modelos políticos priorizam o agronegócio, a empresa agro-industrial, a pecuária, o grande projeto – tudo isso em detrimento da pequena e média produção ou da economia familiar e solidária. Prevalece o que Caio Prado Júnior e Celso Furtado chamaram de tripé da economia brasileira: latifúndio, trabalho escravo e monocultivo de exportação. São chaves ou metáforas que servem não apenas para ler a história socioeconômica e política do país, mas para entender muitas decisões dos últimos governos. Basta citar como exemplos o latifúndio das telecomunicações e dos grandes projetos, a superexploração do trabalho e a sangria das commodities para servir aos interesses dos paí­ ses centrais.


SRTE/SP

Quanto ao polo de destino, como já vimos, os trabalhadores e trabalhadoras tirados do solo pátrio – árido, estéril e abandonado – se dirigem como um rio às regiões que demandam mão-de-obra fácil e barata, especialmente braçal. Como diria Karl Marx, trata-se de um imenso “exército de reserva” que não mora, acampa. Sempre pronto a deslocar-se ao menor sinal de trabalho, nem que seja por um pedaço de pão. Habitam em alojamentos, pensões coletivas ou porões sórdidos, sempre em condições de extrema precariedade, onde a dignidade humana se vê aviltada. Igualmente precárias são as condições de trabalho e saúde, não raro eliminando os mais frágeis e fragilizando os mais fortes. Desempenham os serviços mais sujos e perigosos, pesados e mal remunerados, “pau-para-toda-obra”, como se costuma dizer. No caso dos imigrantes em situação irregular, os “sem papéis”, tudo isso se agrava: a situação de clandestinidade lhes cerra todas as portas, impedindo o acesso aos direitos habituais de uma cidadania justa e digna. Entre os dois polos de origem e destino, está o trânsito. Neste, tanto o transporte como a hospedagem carecem das mínimas condições de humanidade. As promessas do “gato” de que os custos de viagem ficam por conta da empresa morrem logo na chegada. A partir daí, as dívidas começam a acumular-se, numa espiral galopante, fora do alcance dos parcos salários. Isto vale tato para os bolivianos da indústria têxtil em São Paulo, quanto para os peões aliciados para o desmatamento e a preparação de uma fazenda de gado. Os preços das mercadorias compradas no local de alojamento e trabalho são exorbitantes e, por mais que os salários lhes corram atrás, mal conseguem tocar seus calcanhares. O

Haitianos escravizados em oficina de costura em São Paulo cumpriam jornadas de mais de 15 horas sentadas em cadeiras de plástico inadequadas.

Devido à abundância de carências locais e regionais, os jovens em especial se tornam presa fácil desses “gatos”, através de promessas de trabalho e futuro promissor. Quanto mais subdesenvolvido o lugar, tanto mais vulneráveis e expostos ao aliciamento se encontram as pessoas. migrante ou imigrante torna-se um eterno endividado, sem jamais poder saldar seus débitos. Não é uma peça no sentido tradicional, não está atado ao senhor, ao eito ou à mina; mas permanece prisioneiro da ilusão envernizada pela eloquência ou pelas ameaças do “gato”.

Combate e erradicação Como fugir desse círculo fechado, dessa “gaiola de ferro”, para usar a expressão de Max Weber? Eis uma pergunta cuja resposta se bifurca em diferentes direções. Resta para nós o enorme desafio de combater e erradicar o trabalho escravo, o Tráfico de Pessoas e a migração forçada – três lados de um problema único

e extremamente complexo. Cabe o empenho das organizações não governamentais, dos movimentos e pastorais sociais, das entidades de direitos humanos, das campanhas de libertação, das iniciativas de Igrejas em geral, dos órgãos do governo, tais como Ministério do Trabalho, Ministério Público e Polícia Federal. Cabe um enorme mutirão pela liberdade e pela dignidade do ser humano, com direito ao trabalho e à cidadania onde quer que se encontre. Combate e erradicação são as palavras chaves desses esforços sem tréguas. Aqui, mais do que em qualquer outro campo de luta, as ações devem ser integradas. A regra é uma só: unir forças, estabelecer parcerias, costurar redes de apoio e solidariedade. As atividades devem ter alcance simultaneamente local e global, sempre respaldadas por organismos de “costas largas”, pois as ameaças e os riscos são muitos. Velada ou explicitamente, o crime organizado não tem escrúpulos em liquidar pessoas e comprar o silêncio e a conivência das autoridades. Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs Vigário geral da Congregação dos Missionários de São Carlos Scalabrinianos Esperança | 2º semestre de 2014 | 5


www.therecord.com.au

Ir. Azezet Kidane, Missionária Comboniana, em Tel Aviv, homenageada pelo Departamento do Estado Norte Americano com o prêmio dedicado aos heróis contra o Tráfico de Seres Humanos

A Igreja e o mal do século: Tráfico Humano

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eus disse e tudo foi feito... E tudo era bom! Deus disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Mas a grande tentação foi submeter e dominar o irmão, como nos deixa entender os primeiros capítulos da Bíblia Sagrada. Vocacionada à fraternidade, a humanidade prefere responder com a dominação, fazendo-se passar por deus. No entanto, a Igreja, que percorre o caminho do homem, não admite indiferença diante desta realidade cada dia mais visível e degradante. Todos, homens e mulheres, são convocados a despertar do sono da indiferença e tomar posição de combate diante este mal do século que é o Tráfico de Pessoas. Se é desonra e crime traficar armas e drogas, quanto mais o é traficar pessoas! Todas as pessoas de boa vontade sintam-se convocadas ao mutirão de retorno à sanidade da ecologia humana. É preciso preservar a espécie segundo a ordem que foi criada. Não se omita!

Que mundo é este? É um mundo no qual quatro milhões de pessoas: mulheres, jovens, crianças, adolescentes, homens são enganados, iludidos e traficados para serviços indignos, degradantes e para retirada de órgãos. Este trabalho não 6 |

tem o objetivo de desenvolver todas as nuanças deste fenômeno, mas evidenciar o empenho da Igreja Católica no combate deste mal do século. São redes invisíveis, de veneno mortífero que lucra bilhões abusando da inocência e da necessidade de melhores condições de vida dos menos favorecidos, empobrecidos das sociedades em desenvolvimento.

Como a Igreja vê este mundo? Para o Papa Francisco, esta realidade é “uma vergonha”. Dom Moacir Silva, arcebispo de Ribeirão Preto, disse: “Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... Diante de um crime que clama aos céus, como o tráfico humano, não se pode permanecer indiferente, sobretudo os discípulos missionários. E muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cômoda e muda cumplicidade”, citando EG, 211. Isso é muito sério e deve interpelar a consciência de todos os discípulos missionários de Jesus Cristo. É certo que não compete à Igreja tratar este assunto como o devem tratar o governo, a polícia e os meios de comunicação social uma vez que o Tráfico de Pessoas é crime hediondo e deve ser tratado como tal: criminalmente. A Igreja, porém, tem o dever moral e religioso de


chamar à atenção de todos no sentido de não deixar passar despercebido tamanho atentado contra a pessoa humana criada pouco inferior aos anjos (Hb 2,7), com dignidade de filha de Deus e por isso fraterna, irmã, companheira, amiga, colaboradora e não mercadoria que enriquece os sem alma, os avaros, os criminosos, os sem Deus.

O que a Igreja está fazendo para minimizar esta praga? A ação da Igreja vai pelo caminho da denúncia e do anúncio. Ela ilumina com a luz do Evangelho a vida da humanidade, detecta os males, denuncia-os e indica ações que podem devolver ao ser humano a dignidade primitiva. O papa Francisco voltou a denunciar “a praga do Tráfico de Seres Humanos”, uma “atividade ignóbil e vergonhosa para sociedades que se dizem civilizadas”. A Igreja tem tomado consciência da complexidade deste fenômeno, assistindo as vítimas, fomentando a prevenção e incidindo nas políticas públicas. Nesse sentido, o Documento de Aparecida convida a restaurar a vida sobre os princípios cristãos. Esta conversão deve chegar a todos os níveis, recuperando seja a vida e a esperança da vítima, seja a dos envolvidos no tráfico, lembra-nos o CELAM. A Igreja Latino-americana pede aos governos que formulem leis que criminalizem os traficantes e não as vítimas do Tráfico de Pessoas. À mídia, pede-se que faça a sua parte, sensibilizando e conscientizando a população sobre este drama. Muitas organizações não governamentais que lutam contra o tráfico humano continuam tendo como foco principal a educação e o esclarecimento, para que as vítimas não caiam nessa terrível cilada, argumenta a ONG dos Jovens conectados. Outras organizações ligadas à

Igreja Católica vêm desenvolvendo programas de combate ao Tráfico de Seres Humanos através da prevenção, da reintegração das vítimas e da conscientização da opinião pública sobre este crime. É o caso da agência humanitária norte-americana Catholic Relief Services (CSR) que desenvolve o seu trabalho em 91 países, e, no Brasil, da Talitha Kum – Rede Internacional da Vida Religiosa contra o Tráfico de Pessoas.

A vocação cristã exige de cada um de nós uma posição solidária e atenta aos movimentos sociais que empobrecem cada vez mais os menos favorecidos para, de alguma forma, minimizar esta “praga social” que destroi tantas vidas, tantas famílias e tanta esperança de melhores condições de vida. Em Junho de 2012, a missionária comboniana Azezet Kidane foi distinguida pelo Departamento de Estado norte-americano com o prêmio dedicado aos Heróis contra o Tráfico de Seres Humanos pelo seu trabalho a favor da proteção das vítimas e punição dos responsáveis. Ela trabalha como enfermeira voluntária na ONG Médicos pelos Direitos Humanos – Israel, e levou a cabo um projeto de investigação que inclui entrevistas a 1300 vítimas de tráfico, o qual deu a conhecer o Tráfico de Pessoas no deserto do Sinai no Egito: refugiados africanos aprisionados, sujeitos a torturas, trabalhos forçados, violações, escravatura sexual. Eles só queriam chegar em Israel. E o Documento de Aparecida ensina: A Igreja, com sua Pastoral Social deve dar acolhida e acompanhar estas pessoas excluídas nas esferas

a que correspondam (402). Elaborar ações concretas que tenham incidência nos Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam as várias necessidades da população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável (403). A Igreja pode e deve fazer uma permanente leitura cristã e uma aproximação pastoral à realidade de nosso continente para assim ter elementos concretos para exigir daqueles que têm a responsabilidade de elaborar e aprovar as políticas que afetam os povos, que o façam a partir de uma perspectiva ética, solidária e autenticamente humanista (404). Estimula os empresários que dirigem as grandes e médias empresas e os microempresários, os agentes econômicos da gestão produtiva e comercial a criarem fontes de trabalho, preocupando-se com os trabalhadores, considerando-os, eles e suas famílias, a maior riqueza da empresa na conquista do bem comum e a serem pródigos em obras de solidariedade e de misericórdia, pois quem exclui a Deus de seu horizonte falsifica o conceito de realidade e, consequentemente, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas (405). A vocação cristã exige de cada um de nós uma posição solidária e atenta aos movimentos sociais que empobrecem cada vez mais os menos favorecidos para, de alguma forma, minimizar esta “praga social” que destroi tantas vidas, tantas famílias e tanta esperança de melhores condições de vida. Que nossa indiferença seja eliminada pela sensibilidade trabalhada por este tema durante a CF 2014 e refletida em nossos corações sedentos de mais vida para todos! A Igreja somos nós! Ir. Erta Lemos, mscs Ituiutaba - MG Esperança | 2º semestre de 2014 | 7


Quando a compaixão fala mais alto

Entrevista com Alício da Silva, de São Tomé e Príncipe – África

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undial de Futebol. Brasil em campo e gente de coração grande atenta às necessidades dos irmãos para dar um gol de solidariedade e compaixão. Abrir mão da privacidade para acolher a quem se vê com a dignidade perdida. Sair de si, do conforto do cotidiano para dar a mão e um pouco de felicidade a quem havia perdido a esperança. Foi o que vi, vivi e dou testemunho a respeito de uma comunidade de religiosas, em Fortaleza. Quando a compaixão fala mais alto, tudo se transforma para o bem-estar do outro. Ao vivenciar, com emoção, atos de tamanha grandeza, penso: De fato, nem tudo está perdido! Esse mundo ainda tem jeito! Para que você possa entender do que estou falando, vamos conversar com Alício da Silva Gonçalves Carvalho, 40, que veio de Santo Tomé e Príncipe - África, feliz por ter a chance de conhecer o Brasil, mal sabendo que estava sendo traficado e caindo numa armadilha. Seu fim, a cadeia. Seu destino último, a casa das Irmãs, 8 |

que não mediram esforços, após ser provada a inocência de Alício, para acolhê-lo como um amigo e irmão de fé. Alício saiu do presídio e viveu quase dois meses na casa das Irmãs Scalabrinianas. Foram belos momentos de Páscoa!

Agradeço muito a esta congregação, a esta comunidade que apoia os migrantes e que tem me dado muita força, me estenderam as mãos. Peço a Deus que abençoe esta congregação e os fortaleça para que venham a proteger outras pessoas.

Há quanto tempo está no Brasil e porque veio para cá?

O que significou para você vir morar na casa das Irmãs?

Estou há 10 meses e vim para cá através de um amigo para representá-lo numa feira de livros e meti-me numa cilada. Fui preso por estar transportando drogas, sem saber. Mas, graças a Deus consegui provar minha inocência e estou livre.

É uma experiência muito agradável, não tenho palavras, são pessoas muito atenciosas, carinhosas. Elas não me conheciam, mas me ampararam e são pessoas excelentes.

Como você encontrou as Irmãs?

Tenho que agradecer muito as Irmãs, que elas continuem com este coração bondoso de partilhar, acolher e saber servir mais, a cada dia aos migrantes e aos que necessitam.

Consegui encontrar as Irmãs através da minha defensora pública e da juí­za. Quando fui libertado, ela me perguntou se tinha onde ficar e disse que não conhecia ninguém no Brasil e que eu poderia ficar na cadeia mesmo até conseguir voltar ao meu país. E ela me apresentou às Irmãs, as quais me acolheram em sua casa.

Se tivesse que dizer algo para elas, o que diria?

Como sua família recebeu a notícia da sua liberdade? Quando falei com minha família foi a maior a alegria. A primeira pessoa


com quem falei foi com minha irmã Edimi. Disse para ela avisar a mamãe que estava livre e que achava que ficaria na casa das Irmãs, num convento (riso).

Aqui na casa das Irmãs você se sente em casa. Como é seu dia a dia?

dia a Deus que me tirasse daquele lugar, porque não pertencia àquele grupo, e Deus entrou em mim. Eu lá preso, naquele clima de desespero, ofertas para eu poder usar drogas. Mas, como não fumo nem compactuo com isso, Deus me fortaleceu e eu não cai nessa tentação.

Já disse para elas que quem lava a louça sou eu. Mas aqui eu cozinho. Elas me deixam fazer comidas típicas do meu país. Faço uma banana cozida, com peixe cozido bem gostoso e as irmãs adoram arroz com muita verdura... Muito bom (ar de felicidade) também trabalho fora durante o dia.

Teve medo de morrer dentro do presídio?

Qual a sua expectativa?

O que você rezava?

Chegar ao meu país, conseguir meu emprego de volta, retomar minha vida, como antes, mas, com mais cautela. Vou contar minha história para meus filhos, meus conterrâneos e a muito mais pessoas para não caírem nessas armadilhas de maus feitores.

À Nossa Senhora Aparecida. Tinha um terço com o rosto dela, que um presidiário me ofereceu. Pedia a Nossa Senhora de Fátima e a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do meu país, e a um santo muito poderoso, São Tomé, que me fortalecessem porque eu não era traficante. Ganhei este adjetivo porque fui pego com droga. Mesmo nos horários das minhas orações muitos me perturbavam, mas eu sempre insisti até que Deus deu-me a luz... Pedia a Ele, tanto para mim, quanto para outros colegas de prisão, que estão lá presos, que mudem, que deixem os maus pensamentos, os costumes e se tornem pessoas mais dignas, cidadãos de verdade.

Como se sente, sabendo que vai voltar? Uma alegria imensa, saudade da minha mãe, dos meus filhos. Peço a Deus que me proteja, que me guie até chegar lá.

O que significou para você ficar 8 meses num presídio e como inocente?

“Peço a Deus que abençoe esta congregação e os fortaleça para que venham a proteger outras pessoas”.

Fotos: Irmã Rosa Maria Martins Silva

É uma coisa muito complicada. Tive um lugar onde não conhecia ninguém, em meio a pessoas agressivas, outras não, e eu tinha que saber estar, me comportar, saber falar, muitos provocavam, me pisavam, nunca perguntava por quê, ficava na minha, sempre tranquilo. Sempre pe-

Tive medo sim, porque são muito agressivos. Havia situações de violências. Muitos pensam em fazer mal aos outros, inclusive, surgiam casos de homicídios lá dentro e me sentia muito muito abalado e nesses momentos me agarrava em Deus, rezava muito.

Você rezava, então, também para aqueles que estavam no presídio com você? Sempre que eu rezava, rezava também para eles e aprendi uma coisa em São Tomé, através de minha mãe e de um padre chamado Miguel, que nós nunca devemos rezar só para nós. Devemos rezar para nós e para os outros, mas pedirmos sempre para nós também, para que Deus nos abençoe a todos. Quando rezo só para uma pessoa Deus atende, mas quando é para a coletividade, é melhor. Então sempre rezava para todos e também para os meus filhos, minha esposa, embora não estejamos juntos, minha mãe, meu pai, meus irmãos, minha Irmã Edimi que está em Londres, para todos que me deram muita força.

Quando os outros presidiários te viam rezando, diziam algo? Você se sentia provocado por eles? Me perguntavam porque estava a chamar Deus, e me diziam que Ele não me atenderia, que eu ficaria mais dez anos, mas nunca respondi. Pedia ao Senhor que os perdoassem, pois, eram inocentes, não sabiam o que estavam dizendo.Uns conhecem a palavra de Deus, mas ignoram. Muitos fazem por ignorância. Tinha muitas provocações, Esperança | 2º semestre de 2014 | 9


mas me mantive sempre no meu lugar. Me chamavam de gringo e eu ficava na minha, não tinha amizade, ficava isolado, fugia, porque há muita malícia. Em alguns momentos alguns deles queriam me arrumar uma senhora para vir me visitar e eu dizia que não queria... Fiquei todo esse tempo aqui sem mulher, e muito bem. É Todos os domingos eles recebem visitas íntimas, e eu descartei essa possibilidade porque poderiam arranjar-me mais problemas, me usar novamente. Já tive um problema e não quero outro, pensava.

Como é o tratamento no presídio? Qual foi a sua impressão? No presídio os agentes, o individuo quanto está preso, ninguém quer saber o que fez. Quanto ao respeito, tratam todos da mesma forma, para eles, são todos farinha do mesmo saco. Não querem saber se é brasileiro, estrangeiro. Estive doente, com problema de hemorroida, não fui atendido e me curei naturalmente... Pedia socorro, batia na grade. Às vezes levam a gente para a enfermaria, mas lá não tem nada. Oferecem um paracetamol e pronto. Uma vez pedi para falar com a assistente social, era setembro de 2013 e só em março de 14 consegui falar com ela. Dei o numero da minha irmã para dar-lhe notícias, mas é uma indiferença muito grande. Eu como estrangeiro, deveria ter a possibilidade de ao menos uma vez por mês poder fazer uma ligação para a família, mas...nada.

Se tivesse que sugerir algo para melhor estadia dos presidiários, o que pediria? Preso tem que ter trabalho, uma ocupação. Quanto mais tiver mente livre, mais besteira pensa. Há tanta obras que precisam de mão de obra. Que haja acordo entre presidiários e governo e assim perdem tempo de 10 |

contato com o mundo lá fora... Há muito preconceito com relação a ex-presidiário. A pessoa sai, tenta procurar um emprego, quer sair do crime, mas os setores não colaboram. Quando sai, fui á Secretaria de Justiça, voltei abalado. Entrei com uma esperança, mas voltei desanimado. Tem que dar oportunidade. Existem boas pessoas no presídio, por exemplo eu tinha um colega que já saiu... tudo que eu queria ele trazia para mim. E eu lavava a roupa dele todo sábado, a minha e a dele.

Como foi a sua libertação? Como convencer de que você era inocente? O juiz dificilmente acredita nas pessoas, mas eu soube explicar o meu processo, não me mantive quieto, tive que denunciar a pessoa que me fez estar preso. A procuradora geral fez questão de que houvesse uma investigação através da Interpol para tentar conseguir pegar o senhor deputado que me fez cair nesta cilada e a procuradora concordou. A promotora foi mais sensata, humana e o juiz concedeu o pedido da promotora para investigação do caso e houve investigação, como também a interferência do meu pais, por meio do Procurador Geral da República de São Tomé e Príncipe, (pedido de cooperação entre línguas lusófonas), me permitindo explicar as razões da minha prisão, quer dizer, foi uma mais valia. O então deputado me pediu para me encontrar com uma senhora com quem deveria saber preços de livros, e ela depôs a meu favor, e foi muito gratificante. Ela disse que houve correspondência entre ela e o deputado, e justificou que não viemos ao Brasil por conta própria, mas a mando daquele senhor, que pagou a pensão que tivemos. E fomos sinceros, dissemos a verdade. Mesmo que a verdade custe, que as pessoas

tenham dificuldade para entender, é bom falar a verdade.

Tem medo? Tenho medo, porque acho que tem gente de muita influência no meu país, envolvido nisso e tenho medo, medo, medo mesmo. Já pensei em pedir refugio aqui, mas quero também ir a São Tomé pois é meu país. Lá tenho meus filhos, meus familiares. Com medo, mas vou, e quando chegar São Tomé, farei outra queixa contra esse deputado, por danos morais e por tráfico de ser humano, pois fui traficado. Me sinto como traficado porque ele me usou para fim ilícito, quer dizer, pagou a passagem, custeou a despesa toda, para atingir seu objetivo. Que ele pague pelo erro que cometeu. Era uma pessoa amiga, por quem tinha imenso respeito.

Que mensagem você deixam para o leitores da Esperança? É assim, as pessoas que estão mais próximas de nós, nas quais mais confiamos, são as que mais nos passam a perna. Por isso deixo esta mensagem aos outros, que tenham mais juízo, que quando tem uma pessoa próxima que faz muitas ofertas, temos que ter cautela. Quando esmola é demais, o santo desconfia. Desconfiado eu tava, mas tudo em cima da hora, nem deu tempo para fazer nada. Graças a Deus fui absolvido e isso é uma milagre, milagre, milagre mesmo. Minha mãe rezou muito. Minha vó é de muita oração, rezou muito, eu também rezei bastante. Que Ele perdoe meus pecados, meus males, mas o que fiz nem sabia o que tava fazendo. O Senhor me concedeu essa benção que é de louvá-Lo, agradecê-Lo sempre. Ele é meu amigo e guia meus passos. Ir. Rosa Maria Martins Silva, mscs Brasília - DF


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Tráfico de Pessoas gera 34 bilhões de dólares ao ano O Tráfico de Seres Humanos se tornou uma das atividades criminosas mais lucrativas do planeta e movimenta cerca 34 bilhões de dólares ao ano, de acordo com o relatório Global sobre o Tráfico de Pessoas elaborado pelas Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e informações da CPI do Tráfico de Pessoas. Por causa das proporções preocupantes na escala mundial, nos últimos anos, a atividade tem chamado a atenção de governos, organizações não-governamentais, religiosas e civis.

S

egundo o governo federal, o Brasil é país de origem e de destino por enviar um grande número de pessoas, especialmente mulheres para a exploração sexual no exterior e por receber estrangeiros para o trabalho escravo, com o favorecimento dos direitos trabalhistas, principalmente no norte do país. O Tráfico de Pessoas, uma das maiores ações criminosas, tem apri-

sionado crianças, homens e mulheres, por meio da exploração sexual e do trabalho forçado. O Governo Federal, por meio da CPI do tráfico, identificou: o trabalho escravo; a exploração sexual; a contratação em escolas de futebol; a adoção clandestina e o tráfico de órgãos como as principais modalidades.

As rotas do tráfico no Brasil No ano de 2013 a Senadora Ângela Portela apresentou ao senado dados da ONU que revelam 241 rotas do tráfico no Brasil: 110 ligadas ao tráfico interno e 131 ao tráfico internacional. De acordo com a Senadora, o norte concentra o maior número de rotas 76, enquanto Centro-Oeste, 33, Sul, 28, e Sudeste, 69.

O tráfico hoje é caracterizado: pelo transporte, o ‘acolhimento’ e o aliciamento de pessoas cujo objetivo final é a exploração. Flávia Morais Deputada relatora da CPI do Tráfico

Para a Deputada Flávia Moraes, identificar as rotas do tráfico é um desafio, porque sua principal característica é a mudança constante. Além disso, falta uma organização conjunta no sistema de combate ao crime.

As vítimas Diariamente, os meios de comunicação relatam casos de tráfico no país. A CPI do Tráfico criada em abril de 2013 tem investido forças para investigação de casos, e conta com a colaboração do Tribunal de Contas da União, do Ministério Público, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e da Polícia Federal para o enfrentamento do problema. Modelos, bailarinas, atletas, crianças são aliciadas com falsas promessas e ao chegarem ao local de destino tem seus documentos subtraídos e são escravizados e/ou prostituídos para pagar uma suposta dívida a seus aliciadores. O caso da senhora Silvânia Mota da Silva, da cidade de Monte Santo-BA, que teve seus cinco filhos retirados para adoção, repercutiu na mídia no final do ano passado. A Esperança | 2º semestre de 2014 | 11


Carmem Kiechofer Topshall mudanças precisam ser feitas na legislação brasileira para que crianças não corram o risco de serem adotadas ilegalmente. A CPI do tráfico se comprometeu, por meio da relatora, Claudia Moraes, de pedir ao Conse-

Acervo Fotográfico da

Câmara / SECOM

“Levaram meus filhos, e eu não posso fazer nada”. A adoção aconteceu sob decisão do juiz Vitor Manoel Xavier Bizerra, em processo sumário. Na ocasião deputados e profissionais do direito se puseram a favor que mudanças precisam ser feitas na legislação brasileira para que crianças não corram o risco de serem adotadas ilegalmente. Silvânia Mota da Silva 12 |

Câmara / SECOM

“Os processos de adoção dos meus três filhos, as mães biológicas estavam presentes nas audiências. Nunca me pediram um centavo. Nunca paguei um centavo porque era um filho que eu estava desejando, não era uma mercadoria que eu comprasse em algum lugar”.

Acervo Fotográfico da

Comissão Parlamentar de Inquérito para o Tráfico de Pessoas acompanha desde então esse caso. Em depoimento, Silvânia contou que não recebeu explicações do como seria a adoção e nem sequer foi ouvida. Segundo ela, um carro do Conselho Tutelar parou na porta de sua casa e as crianças lhe foram tiradas. Em lágrimas, ela declarou: “Levaram meus filhos, e eu não posso fazer nada”. A adoção aconteceu sob decisão do juiz Vitor Manoel Xavier Bizerra, em processo sumário. Na ocasião deputados e profissionais do direito se puseram a favor que

Suposta traficante, sus peita de intermediar adoções irre gulares com os filhos de dona Silvânia.

lho Nacional de Justiça (CNJ) que apurasse a atuação do Juiz. Em fevereiro de 2013 Silvânia teve os filhos recuperados os quais vive na família, na cidade de Monte Santo - BA.

Suposta traficante sofre pressão da CPI Em novembro de 2013, a Comissão Parlamentar de Inquérito do Tráfico de Pessoas convocou para audiência pública os supostos traficantes de crianças para adoção, Carmem Kiechofer e Bernhard Michel Topschall. Eles são suspeitos de aliciar mães no interior da Bahia para adoção irregular de crianças. Carmem


A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Tráfico de Pessoas atua nas investigações do caso de Ludmila Ferreira Verri e sua irmã. Informada por uma colega de trabalho da Agência André Ferreira

O Estado de Goiás lidera o ranking na prostituição, e o interior de São Paulo, o mercado de bebês para adoção clandestina. Flávia Morais Deputada relatora da CPI do Tráfico

gráfico da Câmara / SEC OM

Ludmila Ferreira Verri Models, de São José do Rio Preto-SP, Ludmila aceitou o contrato da proprietária da Raquel Management, Raquel Felipe e foi trabalhar com Vivek Singh, conforme informações da Câmara. De acordo com Ludimilla, ela viajou levando sua irmã de 15 anos. Enganada, com visto de turismo, foi para a Índia. Ela disse que, junto com sua irmã foram levadas para um apartamento sem água e em péssimas condições de higiene. Não tinham tempo para descansar, tomar banho ou se alimentar e não tinham nenhum suporte de nenhuma das agências, nem da agência brasileira, nem de Mumbai. “Passamos por situações terríveis na Índia, principalmente por atitudes de Vivek Singh, que nos forneceu

Audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Tráfico de Pessoas na Câmara dos Deputados – Brasília – 2013. Caso Ludmila. Ao centro, o presidente da CPI, deputado Arnaldo Jordy.

Gustavo Lima /Acervo Foto

Modelos: vítimas dos próprios sonhos

“Passamos por situações terríveis na Índia, principalmente por atitudes de Vivek Singh, que nos forneceu moradia inadequada, salários inferiores ao contratado, agressões verbais, assédios, ameaças, cárcere privado e falta de assistência.”

O Brasil é origem e destino de pessoas. Para o trabalho escravo é destino, até por causa dos direitos trabalhista, principalmente no norte do país e origem para fins de exploração se­xual, tem exportado muitas mulheres para fins de exploração sexual. Flávia Morais Deputada relatora da CPI do Tráfico

Rodolfo Stuckert / Acervo Fotográfico da Câmara / SECOM

teria sido a mediadora da adoção dos cinco filhos da senhora Silvânia, de Monte Santo-BA. Na primeira audiência da CPI, Carmem permaneceu calada todo o tempo, orientada pelo seu advogado, também presente na cessão, chegando a irritar o presidente da CPI, Arnaldo Jordy. “Gostaria de lhe informar dona Carmem, que para as perguntas que lhe fizemos nós temos as respostas. Pessoas que vieram aqui e que disseram ter-lhe visto lá, conversado com a senhora em Monte Santo. Temos gravações suas lá. O seu silêncio pode estar depondo contra a senhora”, ponderou

moradia inadequada, salários inferiores ao contratado, agressões verbais, assédios, ameaças, cárcere privado e falta de assistência”, disse Ludmila. Elas retornaram ao Brasil com ajuda do pai Damião Verri e do consulado. Ir. Rosa Maria Martins Silva, mscs Brasília - DF

Esperança | 2º semestre de 2014 | 13


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“Que é a humanidade?...

...pouco menos que um deus!”

A

s primeiras páginas das Sagradas Escrituras brindam o ouvinte-leitor com uma obra de arte. Em forma de poesia, a pena do autor discorre sobre o ato criador de Deus. No universo, modelado como por mãos de um artista, cada ser tem um espaço e uma função. Ao final de cada dia de trabalho, Deus repousa seu olhar, contempla a sua obra, e se admira com a beleza. Assim diz o narrador: “e Deus viu que era belo”. Por seis vezes o relato da criação repete o refrão “e Deus viu que era belo” (cf. Gn 1,1-25). Termo dos seis dias da criação a última das obras de Deus, a humanidade é a obra-prima do criador (cf. Gn 1,26-31). Assim, o orante exclama no salmo 8,6-7: “Que é a humanidade para dela lembrardes... o fizeste pouco menos que um deus, 14 |

coroando-a de glória e beleza. Para governar as obras de tuas mãos, sob seus pés tudo colocastes”. Ao longo de seis dias, Deus exerce seu poder criador. O poder de Deus é o apelo à vida. Deus fala e os seres ganham vida no universo. Deus se alegra com aquilo que Ele não é. A imagem de Deus que brota deste relato é doçura. Deus domina sem violência. Algumas páginas à frente, porém, o ouvinte-leitor, se depara com o

O tráfico o humano, o tráfico de órgãos, a escravidão, a exploração sexual e qualquer outro tipo de violência não encontram justificações sociais, religiosas, políticas ou econômicas.

problema da violência (cf. Gn 4). A humanidade criada, de algum modo, guarda certa conaturalidade com a terra, pois fora dela moldada, porém ao fim do relato esta relação é rompida, a terra é “maldita” por causa do humano. Maldita, significa marcada pela morte, portadora da morte, e o homem deve lutar com ela para tirar sua subsistência. A cobiça, a avidez, a vontade de apropriar-se, que é fonte de toda a violência, ganha espaço na vida da humanidade, a qual se esconde de Deus. Entre, outras histórias de violência narradas na Sagrada Escritura, está um episódio da vida de José, Gn 37,18-30. Na verdade, esta é uma história de família, o filho mais novo, José, parece desfrutar da preferência e proteção do pai. E isso incomoda os demais irmãos.


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Certo dia, Jacó, o pai de José, pede que ele vá ao enplena de avidez, ambição, e vontade de apropriar-se. É contro de seus irmãos para ver onde estão e como esa real degradação do ser criado para estar no centro do tão, e lhe traga notícias. José vai. Seus irmãos o veem de universo, como imagem e semelhança do Criador. longe, e tramam por fim em seus sonhos. Tomados pelo Em tempo algum a violência encontra justificativa. ciúme, pela inveja, e pela vontade No combate à violência é preciso leis de poder, decidem matá-lo e escon“De que nos aproveita matar justas, que sejam efetivas na defesa o nosso irmão e cobrir-nos der seu copo numa cisterna. A fim da vida. Na Bíblia, estas leis existem, com seu sangue? Vinde, de esconder a versão oficial, tramam e buscam limitar a violência para gavendamo-lo aos ismaelitas!” rantir ao outro o espaço vital. uma versão para contar a seu pai. Em (Gn 37,26-27). todo caso José teria sido devorado por No Primeiro Testamento muitos uma fera. textos legislativos orientam em favor Rubén, porém, sente-se responda vida, desde o “não matarás” (Ex sável pelo pai, pois tem uma dívida 20,30) ao “amarás o teu próximo – mescom ele (cf. Gn 35,22). Senmo o estrangeiro – como a ti do assim, decide salvar José mesmo” (Lv 19,18.34). Nesta da morte, com intenção de ótica respeitar o outro é conlevá-lo ao pai, contudo não dição da própria vida. Deste revelou sua intenção. Enmodo, as leis sociais orienquanto elaboravam uma tam para a proteção da versão para contar ao vida, na base da justiça pai, uma caravana Ise da solidariedade. maelita passa por Essa orientaali. Judá, então, ção continua vátem uma grande lida para os dias ideia: “De que nos de hoje. O tráfico o aproveita matar o noshumano, o tráfico de so irmão e cobrir-nos órgãos, a escravidão, a com seu sangue? Vinde, exploração sexual e qualvendamo-lo aos ismaeliquer outro tipo de violência tas!” (Gn 37,26-27). Quando não encontram justificações passaram os mercadores, os sociais, religiosas, políticas irmãos de José o venderam ou econômicas. A inversão por vinte ciclos de prata. de valores transforma o ser humano No coração dessa narrativa, encontra-se em mercadoria, negando seus sentimentos, uma passagem sobre a violência humana. A hisseus laços sociais, seu protagonismo. A pessoa humatória de José, neste ponto, parece ilustrar a realidade na não deve ser objeto, mas sujeito da própria história, do Tráfico de Pessoas. De fato, neste ponto da narrativa, portanto sua liberdade deve ser respeitada e garantida. José não passa de uma mercadoria. Neste dramático epiIr. Elizangela Chaves Dias, mscs sódio, é possível perceber do que é capaz uma pessoa São Paulo - SP

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Arquivo Província NSA

“Foi para libertar que o Senhor nos escolheu!”


Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo - Scalabrinianas, uma Vocação a favor da Vida!

Centro Vocacional São Carlos Rua Vereador Osvaldo Elache, 71 12570-000 Aparecida – SP Tel (12) 3105-1008 E-mail: vocacoesmscs@uol.com.br


Campanha Missionária

N

a Quaresma deste ano, a Igreja no Brasil já se questionou, por meio da Campanha da Fraternidade, sobre a realidade do Tráfico Humano. A Campanha Missionária 2014, promovida pelas Pontifícias Obras Missionárias durante o mês de outubro, retomou essa reflexão ao propor o tema “Missão para libertar”, e o lema: “Enviou-

-me para anunciar a libertação” (Lc 4, 18). A figura da mão estampada no Cartaz da Campanha, ao mesmo tempo em que diz PARE com o Tráfico de Pessoas, rompe a corrente da maior escravidão moderna. De fato, as vítimas do tráfico humano representam a escravidão moderna. O conceito de tráfico humano, com seus desdobramentos,

“Enviou-me para anunciar a libertação” (Lc 4, 18)

Dia Mundial das Missões - Coleta Nacional - 19 e 20 de Outubro Campanha Missionária 2014 Pontifícias Obras Missionárias - POM

Comissão Episcopal para a Amazônia - CNBB

www.pom.org.br 18 |

inclui o tráfico para a exploração do trabalho; para a exploração sexual; para a extração de órgãos; e tráfico de crianças e adolescentes. Por isso, o tema “Missão para libertar” surge hoje como um grande desafio para a evangelização e exige ações concretas em perspectiva universal. Em uma sinagoga de Nazaré, Jesus inaugura seu ministério recordando a profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu e enviou-me para anunciar a boa-nova aos pobres...” (Lc 4, 18). E continuou: “para pôr em liberdade os cativos...” (Lc 4, 19). Essa passagem inspirou o lema da Campanha Missionária: “Enviou-me para anunciar a liberdade”. Essa missão libertadora vem do Deus da vida, pois é conferida a Jesus pelo próprio Espírito do Senhor, por quem já fora ungido como o messias por ocasião do seu batismo (Lc 3,22). A missão do Messias é de esperança de vida digna, especialmente para quem sofre algum tipo de escravidão. Hoje, Jesus nos desafia a assumirmos essa mesma “Missão para libertar”. Fiel ao projeto de Jesus, em suas iniciativas, a Igreja nos pede uma postura diante da escravidão do tráfico humano em suas diversas

O tráfico humano, Tráfico de Pessoas ou escravidão moderna é um crime que atenta contra a dignidade e os direitos da pessoa humana, já que explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor próprio, ameaça e subtrai sua vida.


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gilizados por sua condição socioeconômica e/ou por suas escolhas, tornam-se alvo fácil para as ações criminosas de traficantes. O perfil dos aliciadores: normalmente é alguém que a vítima conhece, com poder de convencimento – por vezes é também vítima – atraem com proposta de emprego. No caso do trabalho escravo temos o “gato”. O perfil das vítimas: na maioria dos casos, encontram-se em situação de vulnerabilidade por dificuldades econômicas ou por estarem em mobilidade.

Migrações e Tráfico Humano

expressões. Olhando para essa realidade à luz da Palavra de Deus, vemos que essa missão continua urgente e sem fronteiras. As Pontifícias Obras Missionárias (POM) têm a responsabilidade de organizar, todos os anos, a Campanha Missionária, na qual colaboram a CNBB por meio da Comissão para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial, a Comissão para a Amazônia e outros organismos que compõem o Conselho Missionário Nacional (Comina).

O que é Tráfico Humano? Segundo o Protocolo de Palermo em vigor internacionalmente desde 2003, para se configurar como Tráfico são necessários três elementos: os atos (recrutamento, transportes, alojamento), os meios (ameaças, uso da força, rapto, engano, abuso de autoridade, aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre a outra) e a finalidade de exploração (prostituição, exploração sexual, trabalho forçado, remoção de órgãos). É importante salientar que, para a configuração de crime de tráfico humano, o consentimento da vítima é irrelevante. O tráfico humano, Tráfico de Pessoas ou escravidão moderna é um crime que atenta contra a dignidade e os direitos da pessoa humana, já que explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor próprio, ameaça e subtrai sua vida, quer seja da mulher, da criança, do adolescente, do trabalhador ou da trabalhadora – de cidadãs e cidadãos que, fra-

As pessoas normalmente migram em busca de melhores oportunidades de vida. A competição na economia globalizada vem se acirrando nas últimas décadas, implicando na redução de postos de trabalho e precarização das condições laborais, o que aumenta as migrações por todo o mundo. Em processo de migração, as pes­ soas tornam-se mais vulneráveis. Faz-se necessário olhar para as realidades da mobilidade e do trabalho no atual contexto, influenciado pelo fenômeno da globalização. A mobilidade humana não pode ser motivo de exploração social, de perpetuação de injustiças. Segundo o papa Francisco, o Tráfico de Pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas, e que gera outras atividades igualmente perniciosas contra a dignidade humana. O crime organizado tem uma estrutura sofisticada e capilarizada, o que dificulta o seu combate. Existem várias rotas internas e internacionais que saem do interior dos estados em direção aos grandes centros urbanos ou às regiões de fronteira internacional. Dentro do Brasil, uma pesquisa identificou 241 rotas de tráfico para fins de exploração sexual. Uma das suas características é a invisibilidade, um crime que não se evidencia e as vítimas não denunciam. A prática do aliciamento e coação é muito comum. A abordagem normalmente é feita sobre a esperança de melhoria de vida, o que camufla as outras atividades ilegais que estão por trás.

Copa do Mundo e Olimpíadas Alvo de duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Federal, o tema do Tráfico Humano não poderia ser abordado em tempo mais oportuno: se a perspectiva de realização no Brasil de megaeventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2016, que atraem milhares de visitantes, reaviva a preocupação com o aumento de práticas criminosas recorrentes no país. É realidade consumada o trabalho escravo que acompanha o empreendimento de grandes projetos (como barragens, Esperança | 2º semestre de 2014 | 19


linhões, ferrovias e outras obras do próprio governo) a expansão das monoculturas do agronegócio (soja, cana, eucalipto) o avanço da pecuária sobre a floresta. Entre 2003 e hoje, a CPT identificou, no Brasil, cerca de 250 casos de trabalho escravo a cada ano e as equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho já resgataram mais de 30.000 trabalhadores, principalmente no campo. Em 2011 houve libertações em todas as regiões do país, num total de 2.501 pessoas, sendo 613 delas em atividades não agrícolas. Essa realidade afeta também a cidade: bolivianos, haitianos e peruanos traficados para o Brasil são escravizados em oficinas. A cultura atual é cúmplice indireta do tráfico humano e faz da sociedade uma consumidora de pornografia. A prostituição do corpo e da imagem da mulher tornou-se parte integrante de programas de televisão, publicidade e notícias, cultura da vida cotidiana proposta para todos, inclusive para as crianças a quem nós pensamos proteger. O papa João Paulo II denunciava “a difundida cultura hedonista e mercantil que promove a exploração sistemática da sexualidade”. Nela, a pessoa é tratada como objeto e a sexualidade banalizada.

Algumas estatísticas Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em dados de 2012, somam 21 milhões de vítimas, seja no trabalho forçado (14,2 milhões), seja na exploração sexual (4,5 milhões). Na América Latina o número chega a 1,8 milhão. As vítimas são: 74% adultos (15,4 milhões); 26% abaixo de 18 anos (5,5 milhões). Quanto ao gênero: 55% mulheres e meninas; 45% homens e meninos. Países mais afetados: Índia: 14 milhões; China: 3 milhões; Paquistão: 2,1 milhões; Nigéria: 705 mil pessoas; Etiópia: 650 mil pessoas. Fi20 |

nalidades: trabalho forçado: 14,4 milhões; exploração sexual: 4,5 milhões; tráfico de órgãos e adoção ilegal.

Iluminação bíblica Deus criou os seres humanos com a mesma dignidade. As escravidões dos faraós no Egito já mostravam a exploração. Os profetas também denunciaram injustiças contra os mais fracos. Em Jesus Cristo vemos a importância da proximidade entre as pessoas para gerar respeito, fraternidade e solidariedade. A Igreja está intimamente solidária com as pessoas afetadas pelo tráfico humano, pois é uma negação radical do projeto de Deus para a humanidade. Faz parte da missão da Igreja a defesa da dignidade humana, lutar pelos direitos fundamentais e, portanto, comprometer-se para erradi­car os crimes. O fundamento para a dignidade humana está na criação: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). Esse relato exerce uma função libertadora. Na criação, o ser humano é o ponto alto (Sl 8,5). A dignidade requer viver em comunhão nas várias relações, conforme o plano de Deus. O fio condutor do Antigo Testamento, no Êxodo, na Aliança e na ação dos profetas é a libertação e a dignidade do ser humano. No Novo Testamento, em Jesus Cristo, cumpre-se o evento decisivo da ação libertadora de Deus. A revelação em Cristo do mistério de Deus é também a revelação da vocação da pessoa humana à liberdade. Nessa linha de pensamento, o Ensino Social da Igreja adotou a dignidade humana como uma de suas bases fundamentais.

Ações de prevenção O conhecimento da realidade do tráfico humano e suas finalidades sob a luz da Palavra de Deus e dos ensinamentos da Igreja devem levar

a propostas corajosas de ação. A nossa missão é agir para que a sociedade se organize para garantir a conscientização e a prevenção, a denúncia e reinserção social, participação e incidência política, definindo-se os eixos essenciais para o processo de enfrentamento ao tráfico. Como cristãos, somos desafiados a nos comprometer com o processo de erradicação do tráfico humano em suas várias expressões. No irmão traficado, na irmã escravizada, a nossa própria filiação divina vem sendo negada. É a fraternidade que é abolida. O combate à escravidão contemporânea no Brasil iniciou nos anos 1970 com a atuação profética da Igreja, especialmente na figura do bispo Pedro Casaldáliga, que acolheu e tornou públicas as primeiras denúncias de trabalhadores escravizados em plena floresta amazônica. Várias pastorais e organismos atuam em diferentes frentes: A Comissão Pastoral da Terra (CPT), Ações do Setor da Mobilidade Humana – Pastoral do Migrante; Rede Internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico de Pessoas – Thalita Kun; Rede Um Grito pela Vida da CRB; Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP); Cáritas Diocesanas; Centros de Direitos Humanos, da Pastoral do Menor; Grupos de Trabalho na CNBB – Mutirão Pastoral contra o Trabalho Escravo, entre outros. O Brasil já tem políticas contra o tráfico humano: Plano Nacional para erradicação do trabalho escravo (2003 e 2008) e Plano Nacional de enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (2008 e 2013). A problemática é tão séria que a CPI do Tráfico, na Câmara dos Deputados, que era para terminar em 2013, foi prolongada. Em seus trabalhos, a CPI já levou alguns traficantes à prisão. Outros estão sendo investigados. Pe. Jaime C. Patias, imc Secr. Nacional Pontifícia União Missionária.


Mensagem do Papa

Por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade 2014, que aborda o tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e o lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, o Papa Francisco enviou mensagem aos bispos da CNBB e a todos os fiéis das dioceses, paróquias e comunidades do Brasil. No texto, o papa afirma que o Tráfico de Pessoas é uma “uma chaga social”.

Q

ueridos brasileiros, Visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o Tráfico de Seres Humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõe este ano o tema “Fraternidade e Tráfico Humano”. Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano!

(Discurso aos novos Embaixadores, 12/XII/2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada? Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais... E isso – pasmem! A troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós: (cf. Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a

Luca Zennaro/Reuters

“A base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo”

no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf. Evangelii gaudium, 75). Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica. Papa Francisco Vaticano, 25 de fevereiro de 2014. Esperança | 2º semestre de 2014 | 21


Uma Educação a favor da vida e da dignidade humana! A Campanha da Fraternidade 2014, com o lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, convocou a todos os cristãos e as pessoas de boa vontade a olharem a triste realidade do trafico humano e se unirem na denúncia e no combate a este grande problema social. Erradicar esse mal com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus é Missão de todo cristão.

A

s Escolas da Rede ESI tem em suas mãos uma parcela significativa da sociedade, pois através dos alunos a mensagem dos educadores chega às famílias, aos amigos, vizinhos, ao bairro... E vai-se criando a consciência coletiva. O saber intelectual que se produz nos espaços da Rede ESI só tem sentido se estiver a serviço da vida e da dig22 |

nidade humana. Assim sendo, nas Escolas Scalabrinianas, enquanto escolas em pastoral, que trazem como causa principal o fenômeno migratório em que, constantemente e de forma cruel, é permeado por esta dura realidade, este tema foi abordado com ações preventivas e atividades marcadas pela esperança e pela confiança na juventude, comprometida com a vida e a dignidade humana.

Preparando os Educadores Com o objetivo de apresentar, tomar conhecimento e formar cons-

Arquivo Rede ESI

Rede ESI

ciência a respeito da temática em questão, na Semana Pedagógica, Os educadores das Escolas da Rede ESI participaram de encontros, palestras, grupos de reflexão a partir do Texto-base e do Cartaz da CF/2014, levando, primeiramente, a uma reflexão pessoal, a fim de que, posteriormente, à medida que os conteúdos fossem sendo desenvolvidos no decorrer do ano em cada segmento, a abordagem pudesse ser feita junto aos educandos, de maneira a inserir tal problemática, obtendo assim a aplicabilidade e, portanto, a eficiência do tema.

Refletindo com os diferentes níveis de Ensino Com a abertura oficial da Campanha da Fraternidade, iniciando-se o Tempo Quaresmal, e nas práticas diárias de oração, das escolas foi inseridas a Oração específica da Campanha


da Fraternidade 2014, como forma de, junto a Deus, elevarem o pensamento e colocarem intenções pela causa de irmãos e irmãs que se veem nestas situações tão fragilizados. No Ensino Médio, os alunos, apoiados pelos professores dos diversos componentes curriculares, tiveram a oportunidade de identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas também por meio de filmes, como por exemplo: Tráfico Humano (Human Trafficking – 2005). Neste, dentre vários pontos a serem observados, deveriam atentar a quatro deles especificamente: o que é o tráfico humano; falsas esperanças; perda da dignidade e tipos de morte, cujo objetivo era o de orientar quanto a serem presas fáceis diante das facilidades e propostas tentadoras oferecidas especialmente no que diz respeito a essa faixa etária, bem como um resgate da dignidade e da liberdade humana. Após o filme foram realizados debates e a atividades que trazia como tema: “Tráfico humano, e eu com isso? O sofrimento do outro reflete em mim?”. No Ensino Fundamental II, o tema foi abordado e discutido nas aulas de Ensino Religioso, Filosofia e Língua Portuguesa, sob a ótica de que o Tráfico Humano é uma chaga social e que a partir das migrações as pessoas tornam-se vulneráveis. Refletiram ainda a preocupação da Igreja com a problemática e que a Quaresma é o tempo de conversão que convida a superar o pecado social, onde o amor de Deus se manifesta mais intensamente na defesa dos injustiçados. Alunos dos 8° e 9° anos puderam expressar, de maneira mais efetiva, suas considerações por meio de sua participação no VI Concurso de Redação organizado pela Rede ESI, e

que trazia como tema: “A Fraternidade e o Tráfico Humano”. No Ensino Fundamental I, os alunos utilizaram os subsídios da CNBB específicos para este segmento, o qual permitiu uma sensibilização bastante efetiva não somente aos educandos, mas também aos seus familiares. Os professores foram orientando, refletindo e dialogando com seus alunos e alunas, os quais apresentaram vários questionamentos a respeito do assunto, e foram compreendendo que se faz necessário estar atento às situações similares que os envolvem em seu cotidiano, destacando, por exemplo, o cuidado com as abordagens feitas por adultos para com as crianças. Para finalizar as atividades, foram propostos

confecções de painéis e cartazes que continham suas reflexões e que expressassem seus sentimentos e o que fazer diante de tal necessidade, exercendo assim a prática da alteridade.

Valores Scalabrinianos Na Educação Infantil, o tema foi trabalhado, de modo especifico no

Encontro “Criança Scalabriniana”. Este encontro, já é tradicionalmente realizado com as crianças das escolas da Rede ESI a cada semestre letivo, com o objetivo de trabalhar os valores Scalabrinianos da acolhida, do respeito, da justiça, da solidariedade, da ética e da compreensão humana, buscando promover a educação integral. Nestes encontros os educadores reúnem as crianças para uma manhã ou tarde de convivência, partilha e reflexão, tendo sempre como linha de condução das dinâmicas, um texto Bíblico. O texto escolhido para este encontro específico foi o de José do Egito, pois o mesmo passou pelo drama de ser vendido como escravo por seus irmãos aos mercadores. A partir deste texto foi definida a sequên­ cia didática para o encontro bem como a abordagem utilizada para as atividades e reflexões realizadas, levando em consideração a faixa etária dos alunos. A Rede ESI, respondendo a missão de escola católica, de modo especial no que se refere à educação da fé, busca integrar em suas atividades a propostas da Igreja, conciliando-a ao conteúdo pedagógico a ser desenvolvido. Neste ano, a realização de ação educativa voltadas para o tema da Campanha da Fraternidade, calou fundo nos corações generosos e sempre abertos dos educadores, das crianças, dos adolescentes e dos jovens que ainda têm esperanças de um mundo melhor. Os gestos concretos resultantes das reflexões propostas foram compromissos com a Vida e pela Vida razão de ser e objetivo central da missão da Igreja. Colaboradoras: Vera Cristina Braghetto Buratto (ESI-São José) Ir. Andri Renata Vilas Boas (ESI-Belém) Ir. Daiane dos Santos (ESI-Auxiliadora) Ir. Eva Lecir Brocco Esperança | 2º semestre de 2014 | 23


Depoimentos

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pesar da importância do tema, que envolve a conscientização e a importância destes “tráficos” mencionados na Campanha, encontrei alguns desafios para abordar o tema com as crianças. Os alunos dos 4º anos apresentaram muitos questionamentos e dúvidas; levando a reflexão e conscientização. Acredito que a principal mensagem ficou registrada “É para liberdade que Cristo nos libertou”. Uma sementinha de conscientização foi lançada e com certeza ficou registrada em cada coração. Professora Fernanda Machado de Souza 4° ano

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om base no tema da campanha da Fraternidade, os alunos do Infantil 4 realizaram um trabalho com a seguinte frase: Pare, olhe, escolha. O caminho que você quer seguir. Em um cartaz, montaram um caminho com atitudes corretas e outro com atitudes que libertam e outras atitudes que escravizam, após conversação sobre as consequências de escolha de cada caminho, os alunos foram levados a refletir sobre qual era o melhor caminho a seguir. Professoras Flávia Beck Pacheco, Bruna Bittar de Almeida e Ediveges Sydor Infantil 4 A, B e C

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o encontro Criança Scalabriniana deste ano, refletimos sobre o tema da Campanha da Fraternidade, os alunos dos 5º anos, confeccionaram cartazes com suas reflexões sobre o assunto. O trabalho resultou em um belíssimo desenho compartilhado pelo grupo. Professoras Lucia Sayevicz e Roberta Benek Rosa

Fotos: Arquivo Rede ESI

5 A, B e C

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Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas Aprovada em 2006, por meio do Decreto n° 5.948, de 26 de outubro de 2006, a Política Nacional de Enfrentamento do Tráfico é entendida como normativo inovador, composto por diretrizes e ações que orientam a atuação do Poder Público neste campo. A elaboração do texto-base é responsabilidade de convidados do Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho e pelo Poder Executivo Federal.

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e acordo com o Ministério da Justiça uma consulta pública foi realizada com o objetivo de conferir legitimidade à nova Política e garantir a participação da sociedade civil no processo, e contou com a opinião de várias organizações não-governamentais, órgãos de governo, bem como técnicos e especialistas no assunto. O Ministério da Justiça considera o Tráfico de Pessoas causa e consequência de violações de direitos humanos, uma ofensa por explorar a pessoa, degradar sua dignidade, limitar sua liberdade de ir e vir. Ele é fruto da desigualdade socioeconômica, da falta de educação, de poucas perspectivas de emprego e de realização pessoal, de serviços de saúde precários e da luta diária pela sobrevivência. Cerca de 1 milhão de pessoas são traficadas anualmente segundo dados da Organização Internacional

do Trabalho (OIT) e 98% desses, são mulheres. O tráfico movimenta 32 bilhões de dólares por ano, sendo, então a segunda maior atividade criminosa do mundo perdendo somente para o tráfico de drogas.

Cerca de 1 milhão de pessoas são traficadas anualmente segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e 98% desses, são mulheres. A Política Nacional procura, responder à problemática do crime em três grandes eixos de atuação: a) prevenção ao tráfico; b) repressão ao crime e responsabilização de seus autores e c) atenção às vítimas. O enfrentamento ao Tráfico de Pessoas articula ações e políticas voltadas à proteção de crianças, adolescentes e mulheres no combate a exploração sexual e na luta contra o trabalho escravo.

De acordo com Marcos Tomaz Bastos, Ministro de Estado da Justiça da Presidência da Repúbica, a Política Nacional está dividida em três capítulos. O Capítulo 1 tem como finalidade traçar diretrizes, princípios e ações no enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. O Capítulo II trata dos princípios, das diretrizes gerais e específicas que conformam e orientam a Política Nacional de Enfrentamento. No capítulo III as diretrizes são desdobradas em ações de competências de órgãos e entidades públicas das áreas de justiça e segurança pública, relações exteriores, educação, saúde, assistência social, promoção da igualdade racial, trabalho, emprego, desenvolvimento agrário, direitos humanos, promoção dos direitos da mulher, turismo e cultura. Para conhecer a Política Nacional de Enfrentamento do Tráfico acesse: portal.mj.org.br Irmã Rosa Maria Martins Silva, mscs Brasília - DF Esperança | 2º semestre de 2014 | 25


pixabay.com

Tráfico de Pessoas: Dimensões e processo

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fenômeno do tráfico pode ser considerado como uma “adaptação” ao crescente desequilíbrio a nível macroeconômico que caracteriza o processo de globalização econômica. Por exemplo, as condições econômicas dos países de origem associadas à distribuição desigual da riqueza e a uma diminuição das oportunidades de trabalho, surgindo altos índices de desemprego, impelem os indivíduos para áreas geográficas onde a procura de trabalho é mais elevada. Este quadro propiciou a exploração dos migrantes em geral e das mulheres em particular. O fato de a migração ser a única expectativa de um futuro melhor diminui a consciência dos riscos e também das precauções. Os traficantes, conscientes dos mecanismos do mercado de trabalho e do contexto social dos países de origem, respondem à ausência de mão-de-obra no Norte preenchendo-a com o inesgotável manancial humano do Sul. Esta equação de desespero e necessidade, por um lado, e de tra-

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balho disponível no estrangeiro, por outro, é a conjugação que favorece esta forma moderna de escravatura. A natureza clandestina e dinâmica do fenômeno é tal que não é possível estimar a sua magnitude. É, sem dúvida, um fenômeno que se estende a todo o planeta. A sua natu-

As modalidades de recrutamento habitualmente observadas: • Falsas ofertas de trabalho por parte de agências de emprego através de anúncios econômicos. • Ofertas de trabalho ou de estudos por parte de amigos, conhecidos ou familiares. • Rapto (recrutamento sob coação). • Venda por parte dos pais.

reza dinâmica permite a circulação de um lugar para outro de acordo com as necessidades, adaptando-se às respostas das instituições e da sociedade civil.

Os valores anuais das vítimas de tráfico variam entre 500.000 (OIM), 1.000.000 (Interpol) e 700.000 (Departamento de Estado Norte Americano) Infelizmente estamos em presença de estimativas pouco significativas. Para além disso, as rotas do tráfico atingiram uma dimensão alarmante, que preocupa o mundo inteiro. Anteriormente, as rotas do tráfico podiam ser traçadas,sem quaisquer dúvidas, como uma ligação entre o país de origem, geralmente no Sul, e o país de destino, no Norte. Por exemplo, as rotas da Nigéria para Itália, ou do México para os Estados Unidos. A alteração de fatores como a procura dos países de destino e a sua política migratória, os controles fronteiriços, a corrupção dos profissionais das instituições que lidam com as migrações (embaixadas, ministérios, polícias ou serviços de emigração) leva as organizações criminosas dedicadas ao Tráfico de Pessoas a se adaptarem rapidamente, redefinindo as novas rotas. Isto gera uma com-


plexa rede onde não se distinguem facilmente os países de origem, de trânsito e de destino. Apesar das rotas se alterarem frequentemente, as restantes fases do processo mantêm-se e aplicam-se universalmente:

Quando falamos de tráfico, devemos pensar num processo longo e demorado no tempo. Este processo normalmente inclui três momentos chave: o recrutamento, a viagem e a chegada aos países de destino (que pode não ser o mesmo acordado à partida). Às vezes a exploração, um elemento implícito do tráfico que o diferencia do incentivo à imigração clandestina, pode ocorrer antes da chegada ao destino. Ainda que estas quatro formas de recrutamento ocorram em todo o mundo, cada país desenvolveu uma tipologia própria que favorece uma ou outra e que poderíamos definir de um modo “redundante”; a reiteração baseia-se na capacidade persuasiva dos traficantes e na qualidade das redes por eles desenvolvidas. Em muitos países do Leste Europeu, o tráfico esconde-se em anúncios de agências de recrutamento para fins laborais. Por vezes, estas agências são totalmente fictícias, outras vezes são agências genuínas que têm empregados corruptos com ligações aos traficantes. Frequentemente, nas agências genuínas, a incompetência e a irresponsabilidade levam a que haja escassa informação sobre a entidade que emprega. As ofertas são absolutamente credíveis, aliciando as potenciais vítimas com promessas de trabalho em hotéis, restaurantes ou no sector doméstico. A fraude revela-se apenas depois da chegada ao país de destino e quando já não é possível voltar atrás ou pedir ajuda. Noutros países, como é o caso da Nigéria, o recrutamento é pessoalmente levado a cabo por familiares ou conhecidos (tendo em conta o conceito africano de família alargada). O engano esconde-se numa generosa oferta (estudar ou trabalhar no estrangeiro) realizada por um familiar de confiança, o que não levanta suspeitas e tranquiliza todos, pais e filhos. Nem sempre o angariador conhece a extensão da desgraça que aguarda a potencial vítima, mas está consciente da fraude que a envolve. Apesar de existir a prática de rapto, esta constitui mais uma exceção do que uma regra. As estatísticas po-

dem enganar, como é o caso de um artigo que refere a situação da Lituânia, onde em média duas jovens mulheres, estudantes do ensino secundário, “desaparecem” anualmente em cada liceu. O artigo refere que, em 2001, as estatísticas indicam que, “de 600 escolas do ensino secundário, 1200 jovens desapareceram”. Devemos ter muito cuidado com esta terminologia. “Desaparecer” não implica que as jovens foram raptadas. Em muitos casos, as jovens se afastam voluntariamente da família. Normalmente, a nível mundial, a forma mais comum de abordagem é o recrutamento “direto”. Uma pessoa conhecida e de confiança da vítima trabalha,de fato, para o traficante, fornecendo-lhe vítimas. Esta figura pode ser: um conhecido, vizinho/amigo da família, familiar, amigo, noivo, marido, progenitor (es). As ofertas usadas para atrair potenciais vítimas são de um modo geral (por ordem de frequência) para fins de emprego, estudo, acompanhante em viagem de negócios, casamento, entretenimento (dançarinas, acompanhantes, etc.), uma combinação dos acima referidos. A oferta mais comum é um emprego regular, mas muitas são persuadidas com a possibilidade de casar, estudar ou trabalhar no mundo “glamouroso” do espetáculo. Mesmo suspeitando que seja de esperar a prestação de serviços mais íntimos, não têm ideia de que não terão qualquer controlo em relação ao tipo, frequência e condições destes serviços e de que serão, provavelmente, maltratadas e abusadas, mantendo um estatuto de migrante irregular e recebendo apenas uma fração dos seus rendimentos. Na generalidade dos casos, quando chegam aos países de destino ou de trânsito, encontram imediatamente as formas através das quais a vítima é explorada. A frequência depende da zona geográfica: A oferta mais comum é um Prostituição, trabalho agríemprego regular, cola ou industrial, trabamas muitas são lho doméstico, bailarinas/ persuadidas com entretenimento, serviço de a possibilidade de restaurante (garçonete), excasar, estudar ou ploração sexual privada. trabalhar no mundo Na Europa, em Israel e “glamouroso” do na Ásia as formas mais coespetáculo. muns (e visíveis) de exploração são de cariz sexual, enquanto que nos Estados Unidos e no Médio Oriente a exploração para fins laborais, tais como o trabalho doméstico e o trabalho operário/agrícola são mais frequentemente visíveis, mesmo quando a exploração sexual ocorre. Fonte: Documento ”Para compreender e combater o Tráfico de Seres Humanos” – Rede Takitha Kum Esperança | 2º semestre de 2014 | 27


Vida Consagrada em campo na Copa de 2014

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las tem tudo para vencer sempre: trabalham em equipe, adotam estratégias convincentes e são fiéis observadoras das regras do jogo. Com cuidado, pautadas nas orientações do Técnico por excelência, elas evitam cometer faltas e vão ao ataque para ganhar de goleada. Mulheres?! Sim. Elas já formavam um grande time, muito antes de ser pensada a Copa do Mundo no Brasil. Time formado por mulheres fortes, corajosas e altaneiras em uma grande Rede, no mundo inteiro. Mulheres mais experientes, veteranas e junioras. Há muito tempo elas já treinavam no cotidiano, no campo da missão, em todas as cidades que sediam ou não a Copa do Mundo. Elas correm nas estradas, nos becos e nas vielas, fazem a musculação do coração por meio da contemplação do Mistério Divino, pegam os peso da dor de muitos e muitas, os carregam nos próprios ombros e ganham massa física e espiritual, movidas pela paixão que têm pelo jogo a favor da vida.

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Com os pés no chão da realidade, de olhos abertos contra os adversários, pautadas nas orientações do Técnico, contidas nas Sagradas Escrituras, elas fizeram bonito durante a Copa do Mundo e deram conta do recado: Jogaram a favor da vida e denunciaram o Tráfico de Pessoas. Mas com que propósito? Com um único propósito: a defesa da vida. Mas da vida de quem? Das meninas, adolescentes e adultas, dos homens, tantos, de todas as etnias, crenças e de diferente orientação sexual que são escravizados, impedidos de viver com dignidade, porque as suas vidas geram, ao ano, 32 bilhões de dólares para os traficantes de seres humanos. E as copas mundiais são um “prato cheio” para os traficantes. Você sabia? São crianças indefesas adotadas ilegalmente e arrancadas do berço familiar para sempre, meninos adolescentes que, levados para treinos esportivos, se tornam objeto de exploração sexual e escravos de seus aliciadores. Meninas e adolescentes

que para obterem um pouco mais de dignidade acreditam nas promessas de realização dos sonhos e acabam sendo exploradas e escravizadas. O jogo não é fácil. Precisa-se de bons jogadores, de homens e mulheres que acreditam que a vida é mais forte que a morte, que Ressurreição de Jesus não aconteceu por acaso, mas para dar força aos atletas da Vida e do Reino. Por enquanto são elas, as mulheres que estão entrando em campo. Precisa-se também de homens, consagrados por causa do Reino, cristãos comprometidos que entrem com vontade de vencer, que não tenham medo de sofrer alguma contusão, alguma lesão, algum enfarto durante a partida, porque sabem em quem colocaram a esperança, como diz o apóstolo Paulo. O time é muito bem preparado, com regras e objetivos claros. Não há limite para o número de jogadores. A Copa terminou, mas elas continuam em campo, na luta pela defesa da vida. Todos os que acreditam em


viárias, nos ônibus, nos aeroportos, nos hoteis, nas praias e nas praças das cidades que sediaram a Copa.

Saiba como se proteger do Tráfico de Pessoas. Fique atento! • Desconfie de casamentos arranjados por agências e promessas de trabalho com altos rendimentos ou ganhos fáceis; • Não aceite contratos e promessas de emprego sem informações suficientes. Procure se informar com as referências pessoais e profissionais do seu contratante; • Se viajar para o exterior, leve sempre uma cópia autenticada do passaporte e guarde-o separadamente; • Desconfie se alguém pedir para guardar seus documentos pessoais. Mantenha-os sempre em seu poder; • Os consulados e embaixadas do Brasil no exterior existem para ajudar você, independente se sua situação é regular ou não; • Tenha os números de telefones importantes à mão e aprenda a fazer ligações locais e internacionais; • Mantenha contato constante com alguém da sua confiança no seu país de origem, informando sempre onde e com quem você está, para onde está indo quando estará de volta; • Informe aos familiares mudanças de endereço ou de telefone.

Denuncie Se você tem informações ou suspeitas de casos de Tráfico de Pessoas ou outra violação aos direitos humanos, ligue: • 180 para a central de atendimento à mulher; • 100, para denunciar violações aos direitos humanos.

Declaração da Rede Internacional da Vida Religiosa contra o Tráfico de Pessoas Nós Denunciamos que o Tráfico de Pessoas é um crime e que este representa uma grave ofensa contra a dignidade da pessoa humana e uma séria violação dos Direitos Humanos. Como Religiosas, em solidaridade com nossas irmãs e irmãos que sofrem as consequências deste mal não podemos ficar calados. Condenamos fortemente este crime. Dirigimo-nos, sobretudo, aos Governos dos Países de origem, de trânsito e de destino onde as pessoas são comercializadas e convertidas en objetos desta moderna forma de escravidão. Fazemos apelo aos Governos para que assumam sua responsabilidade não somente criando leis que condenem o tráfico e os traficantes, mas, sobretudo aplicá-las em todos os níveis tornando efetiva a defesa e a proteção das vítimas e destinando os recursos necessários para combater este crime. É sua responsabilidade ativar redes nacionais e internacionais capazes de combater eficazmente este mal e eliminar as causas estruturais que geram o Tráfico de Pessoas. Convocamos as Conferências Episcopais, Conferências nacionais dos Religiosos e Religiosas as comunidades católicas e não católicas, a tomar posição e empenhar-se com renovada energia na defesa dos direitos humanos desses irmãos e irmãs nossos e a denunciar toda forma de tráfico. Fotos: Irmã Rosa Maria Martins Silva

Jesus e na sua proposta, de um Reino onde todos tenham o direito de viver com dignidade, onde todos tenham direito à mesa farta e o direito em viver em liberdade são convidados para a partida. Uns como centro-avante, outras/os como ponta de lança, como árbitro, outras como goleiras/os, e ainda, como defesa, meio-campo, atacante, lateral direito, lateral esquerdo, zagueiro. Cada um pode atuar conforme os dons que lhes foram concedidos do alto. O importante é jogar sério e com responsabilidade a favor da vida. Na arquibancada brasileira, elas contam com uma torcida organizada interessantíssima: Religiosos padres, irmãos e irmãs consagradas, de vida apostólica ou contemplativa: São 13.121 padres diocesanos, 454 bispos, 7.580 padres religiosos consagrados, 2.903 Diáconos, 2.702 irmãos religiosos consagrados, 30.528 religiosas consagradas além dos milhares de católicos que se somam ao todo em território nacional 174.780.000. E tem mais: Toda essa torcida é preparada física e espiritualmente para entrar em campo a qualquer momento que for preciso. Ou seja, da arquibancada elas contam com a energia, a unidade e as preces de 510.834 torcedores que abraçaram o celibato e a Vida Consagrada e mais 174.269.166 católicos. Dá para imaginar essa torcida num grande e único “olé” pela vida. Elas têm tudo para vencer. Jogue a favor da vida – denuncie o Tráfico de Pessoas, foi o tema da Campanha realizada durante a Copa do Mundo e que levou às praças desse país milhares de religiosas e religiosos, com o objetivo de prevenir o tráfico e a exploração sexual durante o mundial de futebol. Material impresso com as devidas orientações do conceito de tráfico, de como se prevenir foram distribuídos nas rodo-

Marcos Beltramin Portal RCR/CRB Esperança | 2º semestre de 2014 | 29


O poder do olhar “Jesus olhando bem para ele, com amor lhe disse...” (Mc 10,21).

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m algum tempo e lugar, houve um momento da história pessoal em que o ser humano tem se perguntado: “Quem sou eu?” “Por que e, para que existo?” Esta pergunta emerge espontaneamente do próprio interior, quando alguém quer ter clareza sobre a própria identidade e o verdadeiro valor de sua vida. Nascido do amor e do desejo de Deus de ter alguém semelhante a Ele com quem criar uma relação pessoal, o ser humano só se conhece verdadeiramente e se compreende a partir de sua origem divina. A pergunta acima referida é muito exigente porque estimula a compreender-se como pessoa, como temperamento, como missão, como vocação, como responsabilidade no mundo em que vive. E, se quiser encontrar uma resposta satisfatória e não apenas seguir o que sugere a propaganda publicitária que propõe uma identidade segundo modelos exteriores pré-fabricados, deve buscar a resposta na própria interioridade e escutar a voz da consciência. Toda ideologia é uma forte convocação para chamar a atenção das pessoas a se voltarem a um ideal de pessoa pré-fabricado, mas que nem sempre corresponde às expectativas mais profundas que se tem na vida. Penso, como referência, o Tráfico de Pessoas para fins interesseiros, cujas propostas ocultam, na maioria das vezes, uma forma disfarçada de manipulação das pessoas que, encantadas com as possibilidades oferecidas, na verdade muito atrativas, acabam entrando em um emaranhado, do qual, depois, é incapaz de se libertar. Propostas, que pareciam de início, tentadoras, podem acabar em terríveis pesadelos. Por isso, antes de qualquer decisão é importante perguntar-se: “Isto corresponde ao plano que Deus tem sobre mim?” Ele que me ama verdadeiramente e quer a minha felicidade.

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A sede de todo ser humano

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Há em todo ser humano um profundo desejo de ter uma vida digna, de realizar-se e de ser feliz. É Deus mesmo que, ao nos criar, coloca este desejo a fim de que a pessoa esteja aberta à sua graça e busque sempre o bem. Este bem e esta felicidade é conquista que exige certo esforço pessoal e uma busca constante.


Ir. Sônia Delforno, mscs Jundiaí - SP

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Vladimir Serov

Porém, muitas vezes a própria sociedade e outras pessoas mesmo, vêm-lhe ao encontro com propostas facilitadas para alcançar este objetivo. Para não cair em uma armadilha é preciso atenção e cuidado em examinar tais propostas que podem ocultar o desejo de manipulação das pessoas, transformando-as em objeto, desrespeitando-lhe a dignidade e exigindo-lhe submissão aos próprios interesses. Basta lembrar os trabalhadores que são mantidos em condição de escravidão, as mulheres submetidas à exploração sexual, as crianças traficadas para adoção ilegal ou para remoção de órgãos, prometendo sempre “status”, sucesso, muito dinheiro, fama, etc... E, uma vez obtido o consentimento da pessoa, a transforma em objeto de seus interesses. Estes são olhares gananciosos que só vêem o que lhes interessa e não leva em consideração o verdadeiro sentido da vida.

Mas, para possibilitar que cada pessoa encontre esta vida em plenitude é preciso que ela seja acolhida, criando espaço para a abertura de coração que cria comunicação e comunhão, fixar nela o olhar com amor, como fez Jesus ao jovem que lhe veio ao encontro perguntando sobre um sentido mais profundo para sua vida. É a única forma de poder mover os desejos da pessoa para que não seja enganada por propostas que, apesar de tentadoras, não a leva a descobrir o verdadeiro sentido da vida. Somente quando não se descobre o valor precioso que se tem como pessoa e como filho de Deus é que se buscam outras riquezas como substitutas, mas que não conseguem preencher o coração humano. Esta é a razão pela qual não é suficiente saber apenas “quem sou”, se não me coloco verdadeiramente em diálogo com o Senhor que é o “TU” com quem me confronto e vou descobrindo verdadeiramente quem sou, como ser amado pelo Deus da vida. É esse colocar-me diante do Senhor que me faz ser uma pessoa nova, diferente e que, com certeza me levará ao crescimento e à plenitude de vida e da alegria que Deus preparou para mim. Ele que sempre quer o meu bem e tudo me concede como graça para que eu possa ser feliz. Que o Espírito de Deus sempre nos ilumine mostrando o melhor caminho para nossa realização pessoal e que saibamos discernir quando as propostas não são coerentes com uma vida digna, renunciando a tudo o que não seja bênção e graça para nossa vida.

Só em Cristo encontramos o verdadeiro sentido da vida Trazendo presente o que diz o apóstolo Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1), somos convidados a voltar nossa atenção para Jesus Cristo que sempre teve um olhar compassivo e misericordioso para com todos e mais que tudo, encarnou-se, fazendo-se um de nós, para nos resgatar de toda forma de escravidão e nos ensinar a viver com dignidade, o plano de amor que Deus tem sobre nós, e assim chegar à plenitude de vida que Deus sonhou para cada pessoa, que criou como filho. Esperança | 2º semestre de 2014 | 31


A experiência da confiança, da memória e do reencontro

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Tráfico de Seres Humanos é um fenômeno global, que vem aumentando visivelmente nas últimas décadas, envolvendo pessoas de todos os gêneros e idades. É um fenômeno complexo e difícil de ser controlado, pois movimenta grandes somas de dinheiro. De acordo com dados publicados pela ONU (Organização das Nações Unidas), a soma é de aproximadamente US$ 12 bilhões anuais no mundo. Equivale dizer que o tráfico humano ocupa o terceiro lugar no elenco das atividades ilegais no mundo, precedida apenas pelo tráfico de armas e de drogas. A pesquisa ressalta ainda que os números são alarmantes, ou seja, são traficadas anualmente entre 1 e 4 milhões de pessoas no mundo. É considerado Tráfico de Seres Humanos o recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas em situa-

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ção de vulnerabilidade, que se vale de meios criminosos como ameaças, uso da força e outras formas de coação e abuso de autoridade. Mais de 90% dos seres humanos traficados são mulheres, jovens e crianças1. O sofrimento e estresse aos quais estas pessoas são submetidas, com frequência as fazem adoecer física e mentalmente, exigindo com urgência intervenções de ajuda. No entanto, para que tal ajuda seja efetiva, requer uma abordagem multidisciplinar e atenciosa que ultrapasse o âmbito estrito dos mecanismos policiais, incluindo cuidados médicos, atendimento social, psicológico, apoio jurídico, entre outros. Neste breve ensaio pretendo enfocar a saúde mental da pessoa vítima do tráfico humano, considerando como esta experiência pode afetá-la na dimensão psicológica, embora saibamos que o tema está associado a muitas outras áreas, igualmente re-

levante. Para isto, tomarei algumas orientações práticas do Manual da OIM2, sobre assistência direta às vítimas de tráfico, no que diz respeito à saúde mental das pessoas que foram traficadas.

O Tráfico de Seres Humanos e a saúde mental As pessoas que viveram o drama do tráfico e chegam aos Centros de Acolhimento, podem relatar muitos sintomas ou reações psicológicas, porém é necessário ter em conta que estas reações dependem de uma variedade de fatores, como por exemplo, a história de vida do indivíduo, experiências vividas no passado, e em muitos casos, estresses associados com medos e incertezas. Com relação às experiências passadas, é importante considerar se, as pessoas traficadas já viveram anteriormente experiências traumáticas ou abusos, mesmo antes de terem


sido traficadas. Estas vivências anteriores reprimidas tendem a re-emergir, diante da experiência estressante do tráfico, afetando a saúde mental da pessoa, e, além disso, têm um impacto muito forte na fase de reinserção. É necessário considerar ainda a situação das pessoas que estão longe de casa, sujeitas às tensões e emoções típicas associadas às migrações, ou seja, dificuldade de comunicação por não conhecer o idioma local, a solidão, barreiras culturais, discriminação e perda de redes anteriores de apoio, incertezas da situação atual e outros. Assim, aos efeitos do trauma provocado pelo tráfico se somam às ansiedades suscitadas pelas preocupações sobre possíveis reações da família, da busca de emprego, medo da perseguição dos traficantes por terem fugido ou terem dívidas por pagar. Frente a esta situação, é comum o relato de reações psicossomáticas como dores de cabeça, pescoço, costas, estômago, etc. Pode também surgir comportamento de risco, associados ao álcool, tabaco, drogas e prática sexuais arriscadas. Estes sintomas devem ser diagnosticados de modo adequado e tratados com seriedade, particularmente porque as pessoas traficadas podem ter sofrido maus tratos físicos ou terem sido lesionados intencionalmente.

Fases do Acompanhamento3

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De acordo com as orientações da OIM, não existem normas rígidas para o apoio à saúde mental das pessoas traficadas. Contudo, alguns profissionais experientes que lidam neste campo e com sobreviventes do trauma, sugerem algumas estratégias de assistência que podem ser úteis à recuperação do indivíduo. O objetivo do apoio psicológico dado aos sobreviventes da situação de traficados é o de “promover a sua capacidade de criar uma vida nova, diferente daquela que viveram enquanto traficados”4. A recuperação é um processo único para cada indivíduo. Existem vários fatores que podem influenciar a resiliência da pessoa e a sua capacidade de adaptação ao mundo que o rodeia de modo saudável, por exemplo, a

gravidade e duração do trauma, situações pessoais, qualidade do apoio, e outros. O depoimento de algumas pessoas que viveram experiências traumáticas permitiu-nos identificar algumas fases do processo: Fase 1. Estabelecimento da segurança: o primeiro passo para a recuperação da pessoa é estabelecer uma relação de confiança, para que ela se sinta acolhida e segura para partilhar sua experiência, ajudá-la a recuperar sua capacidade de autocontrole, incluindo o controle do seu corpo, das suas emoções e do seu ambiente. Fase 2. Recordação e lamento: Esta é a fase na qual as pessoas traficadas recordam a história do que lhes aconteceu, expressam suas mágoas por tudo que sofreu, tanto física como psicologicamente. Contudo, para algumas pessoas, completar esta fase pode durar muito tempo, mais tempo do que ela permanecerá no Centro de Acolhimento. Por isso, se deixa ao indivíduo a decisão de quanto e como vai recapitular os detalhes de sua experiência passada. Fase 3. Reencontro com a vida normal: O passo final para a recuperação é o processo de inserção e reinserção na sociedade e o desenvolvimento das relações com os outros. O processo é lento, para alguns pode durar a vida inteira. Neste sentido o apoio psicossocial que inclui aspectos da educação, ocupação e apoio econômico, é parte integral do progresso da pessoa que continuará ao longo de sua vida. Os profissionais que trabalham na reinserção das pessoas vítimas de tráfico humano relatam que é muito comum eles apresentarem sintomas psicológicos como: a sensação de desânimo, desespero, ideias de suicídio e por vezes sentimentos explosivos e incontroláveis de raiva sem justificativa aparente. Alguns apresentam também alterações mentais, como: amnésia, relatos sem nexo, alterações da capacidade de relacionamento com os outros, tendência ao isolamento e descrença persistente. Finalmente, é bom recordar que um dos aspectos relevantes do apoio à saúde mental se vincula ao modo como as pessoas traficadas são tratadas pelas pessoas que a rodeiam, e o respeito pelas suas escolhas. Ir. Neuza Botelho dos Santos, mscs Aclimação - SP 1. GIANNECCHINI, L. Mulheres jovens e crianças são as principais vítimas do tráfico de seres humanos no mundo. http://amaivos.uol.com.br/ amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_canal=31&cod_noticia=4033 2. OIM=Organização Internacional de Migrações. 3. Cf.: Organização Internacional das Migrações. O Manual da OIM sobre Assistência Direta às Vítimas de Tráfico, 2013. p. 230-231. 4. Ibid. p. 230

Esperança | 2º semestre de 2014 | 33


Oração da Campanha da Fraternidade de 2014

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Ó Deus, sempre ouvis o clamor do vosso povo e vos compadeceis dos oprimidos e escravizados. Fazei que experimentem a libertação da cruz e a ressurreição de Jesus. Nós vos pedimos pelos que sofrem o flagelo do tráfico humano. Convertei-nos pela força do vosso Espírito, e tornai-nos sensíveis às dores destes nossos irmãos. Comprometidos na superação deste mal, vivamos como vossos filhos e filhas, na liberdade e na paz. Por Cristo nosso Senhor. AMÉM!

Revista Esperança nº12  
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