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EDITORIAL

Os caminhos percorridos por uma região, em sua trajetória de crescimento e desenvolvimento, são influenciados por um conjunto variado de fatores, capazes de conformar-lhe pujança ou inexpressividade econômica: infra-estrutura física, recursos naturais, localização geográfica, mercado consumidor, aparato legal, capital intelectual, capacidade de investimento, arcabouço institucional. Todos eles, fortalecidos e explorados com maior ou menor intensidade, em combinações variadas, estão presentes em políticas públicas que se comprometem com geração e distribuição de riqueza. Prolongar os momentos de prosperidade e reduzir os de estagnação, ideal de toda sociedade, é um desafio que, para ser vencido, exige a capacidade coletiva de estabelecer prioridades. Sem fugir à regra, o Estado do Amazonas também registra, em sua história, momentos de prosperidade e estagnação. Sua economia acompanha o desempenho do Pólo Industrial de Manaus (PIM), nascido e gerido sob uma política de desenvolvimento regional baseada na concessão de incentivos fiscais por meio do modelo Zona Franca. Ao longo do tempo, uma conotação negativa associada ao modelo, que remete a operações industriais simples - ou, pior, inexistentes - e pouca agregação de valor, foi se distanciando da realidade, porém sem corresponder à devida alteração na imagem percebida por parte da sociedade brasileira. Neste número, T&C Amazônia procura contribuir para uma melhor compreensão das atividades do PIM, de sua complexidade. E isto é feito a partir da contribuição de gestores e técnicos, das áreas pública e privada que, participando de seus diferentes momentos, apresentam-nos estudos de caso, relatos de pesquisas em andamento e depoimentos. Não se pretende esgotar o assunto neste único número. Tampouco alterar profundamente um conceito firmado no seio da sociedade brasileira ao longo de anos. Pretende-se, sim, acrescentar informação útil para uma reflexão mais aprofundada, deixando por conta da inteligência de nossos leitores, e do tempo, os desdobramentos desejados. E assim, quem sabe, contribuir para que o futuro seja pródigo na oferta dos momentos de prosperidade.

SUMÁRIO ENTREVISTA Sustentabilidade e Descentralização do Desenvolvimento Eduardo Braga.......................................................02 ENTREVISTA Equilíbrio da Balança Comercial do PIM é Meta para 2007 Luiz Fernando Furlan.............................................05 As Empresas CCE e a Regionalização da Produção Marcílio Junqueira.................................................08 ENTREVISTA Um Exemplo de Inserção da Competência Local em Cadeias Globais Manuel Cardoso....................................................14 PONTOS DE VISTA Hidembergue Ordozgoith da Frota, Flávia Skrobot Grosso e Maurício Loureiro...................................20 Infra-estrutura Tecnológica e Capacidade Inovadora: Algumas Evidências do Pólo Industrial de Manaus Conceição Vedovello e Paulo N. Figueiredo...............................................24 O Programa Seis Sigma um Estudo de Caso em uma Empresa do Pólo Industrial de Manaus Ricardo Moura.......................................................29 Desenvolvendo Competências Tecnológicas em uma Empresa do Pólo Industrial de Manaus Nilson Pimentel......................................................35 DEPOIMENTO Com a Palavra, a Experiência Delile Guerra de Macedo e Antonio Sérgio Martins Mello.................................45 ENTREVISTA Engenharia de Produção Consolida Atividades em Manaus Waltair Vieira Machado..........................................50 Capacitação Tecnológica: A Relação entre as Instituições de Ensino Superior e o Setor Produtivo Francisco Paiva e Marco Antônio Rodrigues......................................56 NOTA Por Que T&C? .....................................................64


Sustentabilidade e Descentralização do Desenvolvimento

SUSTENTABILIDADE E DESCENTRALIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO O governador Eduardo Braga expõe suas idéias sobre oportunidades de investimento no Estado do Amazonas e identifica programas e ações de seu governo que contribuem para o desenvolvimento sustentável. T&C Amazônia – A recente prorrogação dos incentivos fiscais para a Zona Franca de Manaus (ZFM) foi alcançada a partir de abrangente mobilização de forças políticas regionais, em especial do Estado que o senhor governa, algo que se justifica pelas importâncias social e econômica do projeto. Qual a sua percepção sobre essa relação de dependência entre a economia local e incentivo fiscal, no longo prazo? Eduardo Braga – O governo do Estado vem trabalhando arduamente para implantar um modelo industrial que garanta, ao mesmo tempo, a consolidação do parque industrial da Zona Franca de Manaus, que hoje é referência no País em tecnologia de ponta, e promova a abertura de novos rumos de desenvolvimento para o Estado. A principal conquista do Amazonas no ano passado, sem dúvida, foi a prorrogação dos incentivos da ZFM porque abriu oportunidades para a elaboração de uma matriz condizente com as necessidades sócio-ambientais do Estado. E s s e f o i u m i m p o r t a n t e pa s s o p a r a a i m p l a n ta ç ã o de programas alternativos de desenvolvimento sustentável, como o Zona Franca Verde e o Complexo Gás-Petroquímico de Urucu. O aproveitamento da biodiversidade para a implantação de nichos de negócios em várias regiões do interior é uma aposta segura nessa direção. Temos, por exemplo, perspectivas de industrialização de açaí em Codajás, com escala de exportação, sem contar outros projetos na área de artesanato, pesca e por aí afora. O turismo é outra importante âncora de crescimento

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econômico. Mas o Estado certamente terá que garantir meios para que esses setores se desenvolvam e a nova política de incentivos fiscais recentemente aprovada pelo Governo é um apoio imprescindível para a descentralização do desenvolvimento, além do parque industrial da ZFM. T&C – Quais os principais aperfeiçoamentos introduzidos por meio da recente alteração na lei estadual de incentivos fiscais, considerando o ponto de vista de consolidação de uma política industrial para o Estado do Amazonas? EB – A isonomia entre as empresas foi sem dúvida um grande avanço permitido pela Lei 2.826, que instituiu um novo modelo de política industrial para o Amazonas. Isso significou condições iguais para todas as indústrias aqui instaladas concorrerem no mercado, corrigindo as distorções existentes. Para o Estado essa lei é uma ferramenta estratégica de desenvolvimento, a médio e longo prazo, porque enseja oportunidades de negócios não só na capital como nos municípios do interior, onde a potencialidade de aproveitamento dos recursos naturais é infinita, mas que era desperdiçada, por falta de uma política consistente de atração de investimentos. O princípio da nova lei é justamente esse, a promoção de novos mecanismos para a redução das desigualdades sociais por meio da geração de emprego e renda, viabilizando a expansão competitiva da atividade industrial. T&C – A conservação da cobertura vegetal original do Estado, em parcela equivalente a 98%, tem sido constantemente afirmada como um dos importantes resultados alcançados em conseqüência do modelo ZFM. Como é possível conciliar este resultado, que é também uma expectativa da sociedade do restante do Brasil e de outros países, com alternativas econômicas reais, como, por exemplo, o estímulo ao agronegócio? EB – O Amazonas é um exemplo inusitado de

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Estado que conseguiu implantar um modelo industrial sem devastar ou agredir o meio ambiente. Temos um parque fabril não-poluente, que permite a conservação de nossas reservas florestais, tanto que o Estado é o que apresenta menor índice de devastação florestal da Região Norte. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Amazonas apresentou, entre 2000 e 2001, um índice percentual de desflorestamento de apenas 0,04%, quando a média na região é de 0,52% ao ano. Acredito que seja possível, sim, expandir os negócios mantendo nosso patrimônio ambiental. Para isso, o Estado vem trabalhando em parceria com o governo federal e demais Estados da região na definição de políticas de desenvolvimento sustentável. O Programa de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia – o PDSA, é um marco na implementação dessa política, mas o Estado vem se antecipando ao impor, na aprovação dos projetos que compõem o Zona Franca Verde, normas de conservação ambiental em todos os setores a serem explorados. T&C – Em seu esforço para divulgar o Estado e aumentar o volume e agregar valor à pauta de exportações, que argumentos o senhor tem utilizado e quais as perspectivas de resultados? EB – O Governo conta com um argumento incontestável que é o imenso potencial de crescimento do Amazonas. O Estado disponibiliza aos potenciais investidores um modelo fundamentado no desenvolvimento sustentável, aliado a um parque produtivo voltado para o fomento de novas tecnologias de processos e produtos. Uma nova etapa na economia foi aberta com a implementação de uma legislação que estabelece a progressividade de incentivos para empreendimentos no interior e moderniza o relacionamento entre as empresas. Há perspectivas de bons negócios na agroindústria com a industrialização de palmito, óleos essenciais e farinha. Na bioindústria é possível explorar o

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setor de fármacos, fitoterápicos e perfumaria; na pesca, negócios com peixes ornamentais e pescados em geral. T&C – Que tipo de desinformação ou preconceito ainda se percebe, nos fóruns que o senhor freqüenta, em relação a Manaus, ao Amazonas e sua atividade industrial? EB – Restrições sempre existem, sobretudo de setores da elite industrial do País que se habituaram a olhar de forma enviesada as iniciativas das regiões mais pobres na busca de melhores condições para o seu desenvolvimento. Mas isso está sendo derrubado pelos fatos. O Amazonas foi o Estado que registrou o melhor desempenho em termos de crescimento industrial este ano e isso não foi por acaso. É fruto de uma política sólida de desenvolvimento, pautada pelo planejamento. O Governo não está trabalhando com a perspectiva de implantar projetos e programas para resolver problemas setoriais. A meta é traçar um modelo para o desenvolvimento do Estado para as próximas décadas, que se traduza na distribuição justa das riquezas econômicas para a população.

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Equilíbrio da Balança Comercial do PIM é Meta para 2007

EQUILÍBRIO DA BALANÇA COMERCIAL DO PIM É META PARA 2007 Em entrevista à T&C Amazônia, Luiz Fernando Furlan, ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, apresenta sua visão do Pólo Industrial de Manaus. É na estrutura do MDIC que está abrigada a Suframa, a autarquia responsável pela administração do principal conjunto de incentivos para a atividade industrial na região. Capacidade competitiva das empresas, aumento das exportações, infra-estrutura logística e desenvolvimento tecnológico são alguns dos pontos destacados. T&C Amazônia – A gestão à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, implicando um contato mais próximo com a atividade industrial incentivada na Zona Franca de Manaus, proporcionou algum tipo de ampliação ou reformulação no seu conceito pessoal sobre esse modelo? Luiz Fernando Furlan – Na minha gestão, tive a oportunidade de ir a Manaus, por algumas vezes, para visitar empresas, participar de reuniões com empresários e autoridades locais e do Conselho da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Nessas ocasiões, pude reafirmar a minha percepção da importância do Pólo Industrial de Manaus (PIM) para o Brasil, pela atração de grandes investimentos de empresas estrangeiras e nacionais, pela geração de empregos e por proporcionar o desenvolvimento de uma região marcada por desigualdades. O Pólo Industrial de Manaus é fundamental para a preservação ambiental da Amazônia Ocidental. Os empregos e a renda nele gerados por suas indústrias – muitas das quais com reconhecido destaque no mercado internacional – evitam a exploração desordenada da natureza para fins de subsistência. Outras autoridades, brasileiras e estrangeiras, deveriam conhecer mais a ZFM

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Equilíbrio da Balança Comercial do PIM é Meta para 2007

para constatar in loco o que eu digo. T&C – De um modo geral, o senhor acredita que mesmo o segmento mais intelectualizado da sociedade brasileira tem uma imagem correta do Pólo Industrial local, sua competência e o estágio evolutivo em que se encontra? LFF – Creio que aos poucos a imagem do Pólo vai se direcionando para a de uma região que concentra empresas dos mais diversos portes, com bom nível de desenvolvimento tecnológico e de produtividade. Manaus não é um entreposto comercial, mas sim uma região que abriga um dos mais importantes pólos industriais do País, onde são fabricados produtos de alto valor agregado. A região amazônica possui potencial elevado para implantação de bioindústrias, além de outras oportunidades de investimentos. Nos últimos anos, as exportações do Estado têm tido uma trajetória crescente, com recordes sucessivos, destacandose produtos de alto valor agregado, como o telefone celular. Além disso, muitas empresas do Pólo já possuem certificação internacional, e a produtividade da mão-de-obra de diversos setores (televisão, lentes e telefone celular, como exemplos) é referência mundial, o que se reflete em novas decisões de investimento. Tudo isso, portanto, contribui para a evolução do modelo local, que procura agregar crescimento econômico com preservação ambiental. T&C – Com base em sua experiência no setor produtivo, como o desempenho das empresas locais poderia ser comparado com a média das empresas nacionais, ou mesmo com um padrão de referência internacional? LFF – Como ressaltado acima, diversas empresas são certificadas internacionalmente e possuem elevada produtividade na mão-de-obra, que muitas vezes é benchmark mundial. A Nokia, por exemplo, é uma das principais exportadoras do País. A única fábrica de discos rígidos da Samsung, fora da Coréia, situa-se em Manaus, e

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já está contribuindo para abastecer o mercado brasileiro com esse produto. T&C – Que fragilidades o modelo ZFM apresenta e que caminhos podem ser apontados para sua superação? LFF – A infra-estrutura logística é um ponto que necessita de melhorias e é crucial para o maior incremento das exportações do Pólo. Nesse sentido, algumas medidas já vêm sendo tomadas, como a implantação do Centro Logístico Avançado de Distribuição - CLAD, nos Estados Unidos, que envolve entreposto alfandegado e um show room permanente, o que contribui para a redução dos custos de transporte e de armazenagem, e permite o acesso a outros mercados além do americano, principal comprador dos produtos do Pólo. A construção de um novo porto será fundamental para imprimir maior eficiência nas transações comerciais do Estado, considerando que as instalações portuárias atuais não permitem um grau de eficiência necessário para os níveis de produtividade e competitividade exigidos pelo comércio internacional. T&C – A implantação da Alca poderia se constituir em uma mudança no paradigma logístico para a indústria localizada em Manaus, transformando a atual desvantagem locacional geográfica em um ponto central estratégico para o comércio no continente? LFF – Por um lado, a localização de Manaus é uma desvantagem competitiva em relação ao mercado interno; por outro, constitui-se em atributo positivo se considerarmos o comércio internacional, em especial o que envolve o continente americano. A proximidade geográfica de Manaus com os países latino-americanos, além de Estados Unidos e Canadá, é fator fundamental para que sejam desenvolvidas estratégias para aprimoramento das exportações do Pólo para esses mercados. E uma logística eficiente, que proporcione ganhos expressivos de produtividade e competitividade aos produtos da região

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destinados à exportação, torna-se um elemento facilitador dessa atividade no contexto de implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). T&C – Supondo uma perspectiva de crescentes pressões internacionais e nacionais contra a concessão de incentivos fiscais, quais seriam, em sua opinião, as melhores opções para o desenvolvimento econômico futuro do Estado do Amazonas? LFF – Do ponto vista interno, os incentivos à Zona Franca foram prorrogados para o ano de 2023, por meio de Emenda Constitucional. Por se tratar de incentivo direcionado para o desenvolvimento regional, ainda há respaldo nas regras internacionais de comércio que contemplam benefícios para iniciativas voltadas para pesquisa e desenvolvimento, e para preservação do meio ambiente. Em um horizonte mais amplo, devemos buscar o fortalecimento do Pólo por meio da ampliação das exportações e do desenvolvimento tecnológico das empresas da região, que lhes garantirão maior competitividade para que, como alternativa complementar ao atual modelo, tenham condições de competir com sucesso em qualquer mercado. Temos como meta o equilíbrio da balança comercial do Pólo em 2007, com cerca de US$ 2,5 bilhões em exportações. Esses valores foram mencionados pela superintendente da Suframa, Flávia Grosso, em recente conferência em Londres. Os principais setores industriais do Pólo já apresentam maior adensamento de suas cadeias de produção, com destaque para o já tradicional pólo de duas rodas e, mais recentemente, para a produção de aparelhos eletroeletrônicos e de informática (telefone celular, por exemplo), que deriva do ingresso de diversos fornecedores. Essa ação, portanto, deve ser intensificada por meio de um esforço que viabilize a atração de novos investimentos em componentes. O aproveitamento racional da biodiversidade regional em bases sustentáveis é outra estratégia para o desenvolvimento

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econômico do Amazonas e, nesse ponto, a implantação efetiva do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) terá um relevante papel, não apenas para o Estado, mas também para toda a Amazônia. A II Feira Internacional da Amazônia, que ocorrerá em setembro/2004, será outra grande oportunidade para empresários mostrarem seus produtos, e para os governos e seus parceiros divulgarem o enorme potencial econômico da região, não só em produtos industrializados e regionais, como também, turístico.

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As Empresas CCE e a Regionalização da Produção

AS EMPRESAS CCE E A REGIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO Marcílio Junqueira* INTRODUÇÃO Trabalho no grupo CCE, em Manaus, há 26 anos. No decorrer deste período pude acompanhar interessante experiência de implantação e crescimento de várias indústrias pertencentes ao grupo. O caso tem algumas características peculiares, sendo que a primeira delas se refere ao local: Pólo Industrial de Manaus, criado por volta de 1970, três anos após a edição do decreto-lei 288, que criou a Zona Franca de Manaus em sua atual feição. Os principais incentivos a atrair as indústrias eram (e ainda são) a isenção do IPI e a redução do Imposto de Importação. Desde o início, foi uma guerra. Fabricantes do Sudeste, em especial São Paulo, sentiram-se prejudicados. Os fabricantes nacionais de componentes de produtos eletroeletrônicos, os primeiros a deslanchar no Pólo de Manaus, gritaram contra a possível substituição dos seus produtos por sucedâneos importados. Mas apenas as primeiras indústrias haviam chegado quando o governo federal, premido pela crise do petróleo de 1973, estabeleceu índices de nacionalização mínimos a serem cumpridos por quem quisesse usufruir os incentivos. A fabricação de componentes em Manaus era, então, uma espécie de objetivo ideal, mas quase utópico. Como - (e por quê?) - implantar indústria de componentes num pólo industrial criticado justamente pela superficialidade das operações de montagem, pela prevalência do uso de insumos importados, pela existência de galpões préfabricados, enfim, por uma indústria que parecia mais disposta a se aproveitar de janela para o exterior, num País fechado em termos de comércio, do que, efetivamente, em criar raízes? Portanto, não foi sem surpresa que acompanhei as decisões da direção da CCE em implantar a

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primeira fábrica de componentes em Manaus, o que ocorreu por volta de 1982. É que tais decisões afrontavam todo o quadro de desconfiança que havia em torno da continuidade do pólo industrial aqui instalado. Acreditava-se que, a qualquer momento, uma “canetada” pudesse desmontar os incentivos, situação de incerteza altamente inibidora de investimentos mais expressivos. Mas as decisões foram tomadas, e acabaram por conformar mais uma peculiaridade de minha experiência como dirigente de indústria: lidar, permanentemente, com um processo de verticalização de atividades que diferenciava o grupo CCE dos demais que vieram para a Zona Franca de Manaus. Outro ponto a destacar é a natureza do grupo. Eu não poderia descrever o ambiente de uma empresa multinacional porque, simplesmente, nunca trabalhei em uma. Minha experiência se deu dentro de empresa nacional, dirigida por empreendedor corajoso (o leitor julgará por alguns números que serão colocados à frente), atuando frente a fortes concorrentes, em geral empresas de âmbito planetário, donas de marcas extremamente conhecidas. Este empreendedor, o Sr. Isaac Sverner, presidente das empresas do grupo, escolheu o que é aparentemente o caminho mais difícil: recusou-se a fazer alguma joint venture com poderoso fabricante estrangeiro, a adotar marca conhecida em detrimento da que havia criado, a importar kits. Neste sentido, passou a fazer parte do reduzido número de empresas brasileiras capazes de resistir ao avanço das concorrentes multinacionais. Hoje, quando analistas econômicos e financeiros visitam as instalações do grupo CCE em Manaus, costumam se surpreender com a dimensão das fábricas. E não sem sentido crítico, talvez duvidando do acerto das escolhas feitas, perguntam qual é a estratégia por trás de tanto investimento na distante Manaus. Estaria o grupo CCE certo ao cercar sua montadora de fábricas de componentes verticalizadas? Antes de tentar responder a esta pergunta,

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vejamos como o grupo evoluiu em sua atividade industrial nestes 30 anos de Manaus e talvez seja melhor que os resultados falem por si mesmos. A TRAJETÓRIA Isaac Sverner nasceu em São Paulo em 1932 e formou-se em engenharia civil nas faculdades Mackenzie. Iniciou suas atividades como industrial em Manaus no ano de 1972, trazendo experiência de trabalho que começara em meados da década de 60, comercializando componentes eletrônicos importados. Crescera rapidamente como importador de válvulas, produto escasso no mercado, e em seguida passara a importar produtos eletrônicos acabados. Logo percebeu que operar no setor importador no Brasil era atividade de risco acima da média. O País vivia às voltas com problemas na balança do comércio exterior e a atividade estava sujeita a restrições impostas pelo governo federal, via de regra em caráter emergencial. Acreditava que, se quisesse permanecer no ramo, que julgava promissor, teria que passar a fabricar os produtos que importava internamente, restringindo-se a trazer de fora apenas os componentes não fabricados no País. Por este motivo, na década de 70, tomou duas providências: adquiriu a Motoplay, uma pequena indústria eletroeletrônica localizada em São Paulo e resolveu verificar as condições existentes na recém-criada Zona Franca de Manaus. Esta iniciativa iria se tornar determinante em sua vida de empreendedor. A primeira empresa do grupo CCE a se implantar em Manaus foi a CCE Indústria de Componentes Eletrônicos da Amazônia S/A. O projeto foi aprovado pela Suframa em 9 de maio de 1972. Naquele tempo, as exigências para aprovação de projetos eram mínimas. O objetivo era atrair empreendedores para uma região distante dos centros consumidores, sem praticamente nenhuma experiência industrial, com base em incentivos fiscais especiais, de cuja continuidade muitos duvidavam. A empresa

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ocupou um pequeno prédio no centro histórico de Manaus e começou a realizar importações de insumos e operação de simples montagem. Num País em que os produtos eletroeletrônicos estavam sujeitos a elevado imposto de importação, fora da Zona Franca de Manaus, a empresa vendia bem e, logo, passou a montar maiores quantidades em um galpão da avenida Costa e Silva, próximo ao Distrito Industrial que estava sendo preparado pela Suframa para receber as primeiras indústrias. Em 1974, em ambiente de grande incerteza sobre a continuidade da Zona Franca, a CCE iniciou as obras de sua fábrica no Distrito Industrial. Havia criado sua própria marca e deixou de fabricar marcas estrangeiras que havia utilizado nos primeiros anos. A primeira fábrica de componentes do grupo CCE, implantada por volta de 1980, tinha como objetivo a produção de peças metálicas, uma coisa simples. Logo depois, veio a fábrica de transformadores de força; a seguir, veio a injeção de peças plásticas, surgiram as ampliações etc. Atualmente, os investimentos em fabricação de componentes é que diferenciam o perfil do grupo CCE dos demais players do setor eletroeletrônico do Pólo Industrial de Manaus. Das quatro empresas do grupo que atuam em Manaus, três – PCE, Compaz e Placibrás – são de transformação industrial e apenas uma, a CCE da Amazônia S/A, a montadora. Em cálculos recentes, apurou- se que desde o início das atividades em Manaus as empresas do grupo CCE realizaram investimento fixo em construções, instalações, máquinas e equipamentos da ordem de US$ 206 milhões. O grupo opera em 150 mil metros quadrados de área construída, em quatro complexos implantados no Distrito Industrial de Manaus. O resultado do investimento realizado pode ser aquilatado por alguns números de produção, bastante representativos para o padrão brasileiro: • A CCE da Amazônia entregou ao mercado mais de 60 milhões de produtos eletroeletrônicos da marca CCE, entre televisores, aparelhos

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de som, videocassetes, fornos de microondas, DVDs etc., em seus quase 30 anos de existência. As exportações, iniciadas há quatro anos, já contabilizam um milhão de produtos enviados para o exterior; • A PCE, que recicla aparas de papel, iniciou sua produção em 1998 e já entregou mais de 100 milhões de caixas de embalagem ao mercado regional. Seus clientes são as indústrias do Pólo Industrial de Manaus, mas também indústrias do Pará, de Rondônia e do Acre; • A Compaz, fabricante de diversos tipos de componentes, apresenta os seguintes números de produção: o Entre 1997 e 2003: - 186 milhões de peças plásticas, consumindo 44,4 milhões de quilos de resina; - 33,7 milhões de calços de proteção de EPS; - 3 milhões de transformadores de força; - 13,4 milhões de quilos de peças metálicas estampadas; - 3,8 milhões de mecanismos de CD; o Entre 1999 e 2003: - 9,2 milhões de gabinetes de madeira para caixas acústicas; - 14 milhões de alto-falantes. • A Placibrás, única fábrica de placas de fenolite do Pólo, ainda não apresenta estatísticas de produção por haver terminado a implantação em dezembro de 2003. Mas já está em produção e em breve suprirá 100% das necessidades da montadora CCE da Amazônia, devendo, em seguida, lançar-se ao mercado regional. Mencionadas empresas faturaram, em conjunto, R$ 832 milhões em 2003. Compraram insumos nacionais no valor de R$ 345 milhões. Importaram apenas US$ 29 milhões. Constituem complexo industrial que, pela diversificação dos produtos e dos processos de produção aplicados, requerem alguma estratégia na área tecnológica

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e de formação de recursos humanos. É disso que se fala a seguir. A QUESTÃO TECNOLÓGICA O processo de transformação industrial, presente em três fábricas do grupo CCE no Pólo Industrial em Manaus, decorre diretamente do esforço de gerar tecnologia de produto e processo dentro do Brasil. Como foi dito antes, é forte a presença de empresas multinacionais no mercado brasileiro de produtos eletroeletrônicos de entretenimento. Uma das conseqüências disso é que os centros de desenvolvimento dos produtos estão localizados em outros países, cabendo ao mercado brasileiro simplesmente comprar, com pequenas adaptações ao gosto da população, os produtos desenvolvidos lá fora. Neste contexto, empresas nacionais como a CCE têm duas opções: ou se atrelam a alguma multinacional, gerando relação de dependência, ou fazem esforço para desenvolver os produtos que fabricam. A definição estratégica do grupo CCE em relação a esse assunto foi clara desde o início: assim que pudesse, deveria partir para o domínio da tecnologia de seus produtos. Para isso, não bastaria nacionalizar produtos japoneses ou coreanos: era necessário criar os produtos desde o estágio inicial – o design – e investir em recursos humanos, equipamentos e ferramentas. Atualmente, a engenharia de desenvolvimento da CCE tem a capacidade de desenvolver todos os processos necessários a colocar em operação nova linha de produtos em seis meses. Além do produto final, também são desenvolvidos componentes específicos, muitos deles a serem fabricados pela própria CCE. Assim, a CCE tem menor necessidade de importar componentes, gera empregos e negócios dentro do País e melhora a logística de produção. Ao longo do tempo, vários desafios tiveram que ser vencidos. Os resultados obtidos foram se transformando em pontos fortes da CCE. Em alguns casos, a empresa fez parceria com

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empresas e instituições que, por sua esplêndida base tecnológica, lhe deram grande ajuda. Citese, entre outras, a Philips, a Motorola e a USP. A CCE trabalha atualmente na convergência digital de produtos e avança no domínio da tecnologia do DVD. Já fabrica em Manaus alguns componentes, bem como escreve o software que o produto usa. Os televisores, por sua vez, têm se sofisticado em termos de software e simplificado em termos de hardware. A CCE desenvolve televisores que são o estado da arte no mundo analógico e inteligentes para proporcionar um longo período de funcionamento sem necessidade de ajustes. Ou seja, o software utilizado mantém os produtos continuamente ajustados para a melhor performance, considerando as condições em que o produto está sendo usado ou, ainda, o desgaste dos componentes. Como o cinescópio, ao longo do tempo, em breve estes produtos estarão sendo substituídos pelo cristal líquido. É o novo estágio tecnológico no qual os engenheiros da CCE já estão trabalhando para que a produção se inicie em 2005. Tudo isso é realizado por 70 profissionais – designers, engenheiros eletrônicos, engenheiros mecânicos, engenheiros de software, modeladores. Membros desta equipe estão presentes em todas as feiras internacionais de produtos eletroeletrônicos, de modo a acompanhar as últimas tendências e a impedir que a empresa se defase nas definições de médio e longo prazos a serem adotadas. PRÓS E CONTRAS Não se pode deixar de ressaltar que o modelo adotado pelo grupo CCE no Pólo Industrial de Manaus não é o que se recomenda convencionalmente. Centrar as atenções no principal empreendimento e comprar insumos de quem sabe fazer melhor e mais barato – é o que diz a regra geralmente aceita. Os resultados obtidos ao longo de 30 anos, com o notório crescimento das empresas do grupo CCE, indica que, no caso de Manaus, cercar a montadora de fábricas próprias produtoras de componentes pode

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ter sido acertado. A experiência vivida mostrou que: a) Em um pólo industrial localizado a quatro mil quilômetros de distância dos centros mais industrializados do País, e com notórias lacunas na cadeia produtiva, a presença de produção própria de componentes garantiu, em muitos momentos, especialmente naqueles de forte crescimento da demanda, o suprimento necessário ao bom andamento da produção; b) A logística, aqui entendida como os aspectos operacionais do suprimento, pode ser planejada de modo a reduzir custos; c) Foi possível fabricar não somente para a montadora do grupo, mas estender o fornecimento a outros clientes do Pólo que, até mesmo, nos bens finais, concorrem com a CCE no mercado. Assim, a simples verticalização acabou acrescentando novos players no estratégico (para a sobrevivência do Pólo Industrial de Manaus) setor de fabricação de componentes. Prova disso é que as empresas fabricantes de componentes do grupo já empregam mais que a montadora; e o faturamento conjunto destas empresas atinge proporção cada vez mais expressiva em relação ao faturamento de bens finais. Por outro lado, a verticalização, especialmente se abrange, como é o caso da CCE, produtos de diferentes matrizes tecnológicas, traz alguns problemas para os quais é preciso ficar atento: a) Aconselhamento equivocado pode conduzir a erros no dimensionamento da fábrica e na escolha de máquinas e equipamentos, às vezes capazes de causar danos de grande monta; b) A escolha do staff da fábrica deve cercarse de cuidados por se tratar de atividade estranha ao conhecimento principal do

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grupo; c) Em se tratando de várias fábricas é preciso adotar controles que não disfarcem ineficiências e métodos que permitam o correto rateio dos custos dos setores corporativos. Um ponto especialmente importante refere-se à capacitação do pessoal. Normalmente isto é feito por meio de consultorias, revelando a experiência que, de maneira geral, quanto mais específicas, melhor. Aí, as empresas defrontam-se com a tradicional resistência à inovação, acrescida, mais recentemente, de um agravante: o medo que as pessoas têm de perder o emprego em função de racionalização de atividades e ganhos de produtividade. O importante é deter tecnologia de processo que esteja no estado da arte, especialmente se a empresa atingiu produção de grandes proporções. Num mundo cada vez mais concorrencial, não há campo para trabalhar com índices de produtividade e qualidade abaixo da concorrência. CONSIDERAÇÕES FINAIS As empresas ou grupos empresariais adotam, em sua luta pela sobrevivência no mercado e pelo crescimento de sua participação, diferentes estratégias. Se esta ou aquela é a mais correta, melhor examinar os resultados obtidos, até por que as realidades que as empresas enfrentam, as condições de que dispõem, são bem distintas. No caso da CCE, há que ressaltar um ponto: o modelo escolhido pelo grupo dá contribuição expressiva à geração de emprego e renda no Pólo Industrial de Manaus. Apenas um dado: importando, em 2003, apenas US$ 29 milhões, o grupo apresentou faturamento de bens finais da ordem de R$ 650 milhões. Ou seja, cada dólar importado gerou R$ 22,4. Em 2000, cada dólar gerava R$ 5,1, o que revela o esforço realizado p a r a n a c i o n a l i z a r, e n o presente caso, regionalizar a fabricação de componentes. Por outro lado, recente levantamento mostrou que os empregos gerados pelas empresas CCE

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representam algo como 7% do total de empregos do Pólo Industrial de Manaus. A presença de três fábricas do grupo, operando com transformação industrial, não é o que muitos esperam que se encontre na Zona Franca de Manaus. Há quem, contra todas as evidências, continue a diminuir a importância dos processos industriais instalados em Manaus. Mas a verdade é outra: trata-se de centro de produção industrial cada vez mais maduro, integrado, denso. Para isso, pesa a expressiva contribuição das empresas do grupo CCE.

* Marcílio Junqueira é diretor das empresas CCE, em Manaus, desde 1978.

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Um Exemplo de Inserção da Competência Local em Cadeias Globais

UM EXEMPLO DE INSERÇÃO DA COMPETÊNCIA LOCAL EM CADEIAS GLOBAIS Após consolidar sua formação técnica, e aliando-a à experiência docente na área da engenharia, o prof. Manuel Cardoso decidiu prosseguir na materialização de um antigo projeto pessoal: enveredar também pelo mundo dos negócios, estabelecendo uma relação de mútuo benefício com as empresas instaladas no Pólo Industrial de Manaus, focada na prestação de serviços tecnológicos com maior conhecimento agregado. As dificuldades para o estabelecimento dos primeiros contatos, a desconfiança dos clientes potenciais e a estratégia adotada para a construção de sua trajetória são alguns dos pontos registrados neste depoimento a T&C Amazônia. A seguir, os principais trechos da entrevista. T&C Amazônia – Que cenário motivou sua iniciativa de criar uma empresa intensiva em tecnologia para prestar serviços especializados ao Pólo Industrial de Manaus? Manuel Cardoso – Com a crescente globalização econômica, as estratégias para a competitividade exigiram das empresas e do empresariado, especialmente o nacional, uma verdadeira mudança cultural. No mundo até havia um caminho nesse sentido, mas no Brasil isso se deu de uma forma abrupta e rápida. Até o início da década de 1990, o mercado nacional era fechado. As empresas tinham como foco o ganho proporcionado pela ciranda financeira. A partir da abertura da economia brasileira, no início dos anos de 1990, as empresas depararam com a triste realidade da falta de competitividade da indústria nacional, fosse em qualidade, fosse em custo. E isso obrigou-as a mudar o foco. Iniciou-se o movimento pela melhoria da qualidade dos produtos nacionais, uma premissa para que a indústria pudesse sobreviver. Esse episódio ressaltou a importância da competência 14

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técnica, seja na área operacional, na de planejamento ou na de inovação. Como muitas indústrias, no caso do Brasil, são indústrias de commodities, as estratégias que as empresas podem adotar para se tornar competitivas enquadram-se basicamente em duas vertentes. Uma é a busca da redução de custos para alcançar preços competitivos. Mas com o mercado sendo como é agora, globalizado, a busca do consumidor por diversidade e pluralidade de produtos, menores custos, melhor qualidade e, principalmente, menor prazo de entrega, acrescenta um novo fator definitivo, que é o da inovação. Então, embora a busca pela redução de custos seja a vertente principal, há outra vertente que cada vez mais se sobressai, que é a da inovação tecnológica, seja inovação no produto ou seja no processo. O fato de você buscar a redução de custos em cima de um produto já existente, de um processo já estabelecido, tem a sua limitação e a gente observa que os grandes ganhos se fazem a partir da concepção dos produtos, das inovações em cima dos produtos, em que você pode refletir grandes diferenciais competitivos. Tudo isso exige competência e capacidade de realização. Então, essa necessidade abriu de uma forma definitiva as possibilidades de que empresas de tecnologia, com profissionais voltados para tecnologia, tivessem oportunidades dentro do cenário da indústria nacional. Manaus não foi diferente. Pelo contexto do próprio Pólo Industrial, que era muito focado na importação de produtos, ele foi um dos mais afetados, e isso abriu oportunidade para que pessoas como eu pudessem chegar às empresas e oferecer esse diferencial competitivo, baseado em conhecimento e tecnologia. T&C – Houve algum apoio institucional que tenha facilitado os primeiros contatos com o setor produtivo? MC – Na época, a própria Universidade Federal, da qual eu participava, não estava voltada para esses objetivos, e partiu realmente de uma iniciativa própria, pessoal, procurando e até

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acreditando que, a partir de realizações práticas, de resultados tácitos, eu pudesse ajudar a mudar essa mentalidade. A gente observava que já existiam instituições que se propunham a fazer esse trabalho de integração, de relação entre indústria e escola, como é o caso da Fucapi, mas era uma situação muito nova, inclusive para o próprio empresariado. Até então havia sempre aquela relação de desconfiança entre a empresa e o centro de pesquisa e a universidade. A universidade, sempre muito voltada para si própria, com objetivo apenas da pesquisa pura e do ensino, quando a gente acredita que, além da pesquisa e do ensino, deve haver dentro da universidade um foco do que chamamos de extensão, que é a capacidade de fluir o conhecimento gerado na universidade para a sociedade e a sociedade se beneficiar e reconhecê-lo por meio de manutenção de investimentos para dentro da universidade, propiciando a sustentabilidade da mesma. Mas isso tudo é um processo cultural que não se faz da noite para o dia. Você tem de trabalhar a consciência das pessoas, você tem de fazer com que as pessoas acreditem, porque a cultura, com a própria interpretação que o nome permite, relaciona-se com aquilo que as pessoas de uma sociedade acreditam e praticam dentro de um contexto e um convívio social. Então, a partir do momento em que você começa a mostrar ao empresário o quão importante é, para sua própria sobrevivência, o investimento no indivíduo, que é quem realmente faz a diferença, é quem realmente vai propiciar a condição de sua existência, as coisas mudam de figura e o que a gente tem vivenciado esses últimos 14 anos é exatamente isso. T&C – Que aprendizado você obteve que possa servir de recomendação para as instituições de ensino e pesquisa, por exemplo? Ainda é grande o afastamento entre elas e a indústria? MC – É sempre uma preocupação. Nós,

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pesquisadores, também aprendemos muito nesse relacionamento. Aprendemos algumas regras fundamentais, por exemplo, para se ter uma noção da importância da sustentabilidade do que é feito. Saber que nós não temos recursos ilimitados, que eles não serão disponibilizados apenas porque nós somos o bastião do conhecimento da sociedade. É uma mentalidade que teve de ser - e deve continuar sendo - mudada. A preocupação maior é a responsabilidade de saber que num País de recursos tão parcos, com problemas sociais tão gigantescos, aqueles que tiveram a oportunidade de se consolidar com níveis de conhecimento bastante aprofundados, e ao mesmo tempo tendo recursos para que possam desenvolver esses conhecimentos, têm responsabilidade com relação ao retorno que deverão dar à sociedade. Daí a gente aprende que, quando se faz um projeto para uma empresa de tecnologia, há que ter a preocupação da medição dos resultados, inclusive de procurar assegurar que todo o investimento que foi feito correspondeu a um retorno, seja ele tangível ou não tangível, mas que possa se consagrar no conceito das pessoas que investiram e que se beneficiaram, motivando-as a manter o investimento nos institutos de pesquisa e ensino. Isso é um processo lento, mas que está sendo progressivo. Por outro lado, algumas atitudes ainda precisariam ser tomadas para uma maior evolução nesse sentido. Uma delas é a forma com a qual se estabelece a “meritocracia” para os professores e pesquisadores desses centros de pesquisa. Infelizmente, hoje é uma coisa um tanto quanto, ao meu ver, precária e desassociada de tudo isso que eu acabei de falar. T&C – Você poderia explicar um pouco mais esse ponto de vista? MC – Você vê, por exemplo, professor até hoje é reconhecido como pesquisador por meio dos seus trabalhos publicados em revistas. Eu não menosprezo isso, acho que tem o seu valor. Mas, principalmente, para uma sociedade como a nossa, esse tipo de atividade tem de estar atrelado a

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realizações, a resultados tangíveis que possam ser medidos em benefício da própria sociedade, que é o objetivo de tudo, para que não estejam voltados, como hoje, simplesmente, a referências para satisfação de egos, de orgulhos e vaidades. A pergunta correta é o quanto a sociedade se beneficia de toda essa competência e conhecimento que ela investiu de uma forma tão difícil e tão dura, e eu reafirmo que é uma relação extremamente benéfica para ambos os lados, tanto para os institutos de pesquisa e universidade como para as empresas. E eu dou meu testemunho disso com uma empresa que consegui criar em Manaus há 14 anos a partir de observações sobre as oportunidades que a gente poderia estar agregando, principalmente na questão da gestão do conhecimento. Hoje, mais do que nunca, as empresas vêem o conhecimento talvez como o seu maior patrimônio ativo, e a gestão disso se tornou cada vez mais fundamental, principalmente naquela estratégia de inovação, visto que a estratégia de custo está chegando aos seus limites, inclusive pelas próprias limitações legislativas. Não se pode imaginar, por exemplo, querer competir com uma fábrica da China, tentando pagar os salários ao nível dos que são pagos lá. Obviamente, o nosso diferencial tem de estar voltado para o uso do conhecimento, em que você possa fazer melhor, mais barato e diferente de tudo aquilo que existe. T&C – Que repercussões a estratégia de inovação – como você chama – tem provocado na sociedade, ao ser adotada pelas empresas? MC – Tudo isso que eu comentei fortalece o pilar da sociedade, que é o da geração e gestão do conhecimento. Então, eu diria que nossa sociedade, a manauara, dá os primeiros passos para ser sã, forte e crescente, organizada. É preciso parar de pensar que o governo tem que ser a ponte de todas as soluções, imputando a ele a responsabilidade de todas as frustrações. Na realidade, temos de ter a mentalidade de que o governo deve representar nossos anseios e

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operacionalizar os nossos desejos, desde que responsáveis, coerentes e consistentes com a estratégia de crescimento do ser humano em todos os aspectos. E o instrumento primordial para se operacionalizar isto, sem dúvida, é a educação. T&C – O potencial local para implementação de atividades que agregam valor por meio de tecnologia está sendo adequadamente aproveitado? MC – Um bom percentual da riqueza gerada pela atividade industrial não fica em Manaus, e dentro dela incluem-se contratos de serviços para os quais não existiria razão pela qual não pudessem ser realizados localmente. Mas esses serviços demandam a necessidade de várias competências, de várias formações, que hoje não existem localmente, ou sequer um planejamento para isso. Um exemplo básico é que hoje um dos pólos de mais forte crescimento é o pólo de duas rodas, que demanda a formação de vários profissionais, por exemplo, no setor de mecânica, e que nós não temos nenhuma faculdade aqui. Então, o que nos cabe, esperar que o governo baixe um decreto? Não resolve. Tem-se que entender que não é com papel e caneta que se muda um contexto social. O que muda um contexto social é a conscientização, é o aculturamento das pessoas em relação à sua responsabilidade, seus compromissos e a forma com a qual elas terão de operacionalizá-los. Com planejamento, a sociedade local poderia atender às necessidades demonstradas pelas empresas, valorizando principalmente o regional. Não são máquinas, prédios ou balancetes financeiros que realmente vão caracterizar o desenvolvimento do nosso povo, da nossa região. É o nível de competência, de capacitação de nossa gente, que vai se traduzir automaticamente em melhores salários e melhores condições de trabalho, com maiores perspectivas competitivas para atração de novos investimentos. O foco deve ser, hoje e sempre, o ser humano, a competência do ser humano, porque todo o resto vai advir naturalmente disso. E são instituições como

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a Ufam, como a Fundação Paulo Feitoza, como a faculdade da Fucapi e instituições correlatas a essas como Inpa e outras, que têm essa responsabilidade. E o que nós precisamos é trazer a essas instituições uma visão holística, onde cada uma tem o seu compromisso de participação no anseio de todos, traduzindo em benefícios sociais a riqueza real que é o conhecimento e a sua capacidade associada de aplicação e realização. T&C – Que elemento você apontaria como o principal responsável por seu sucesso ao longo desses anos de atividades? MC – Eu identificava as oportunidades e sabia que tinha a riqueza que era o conhecimento de como aproveitar essas oportunidades. Então, montei um processo que é o desenvolvimento de uma empresa. É claro que teve de ser quebrado o paradigma de que uma região como a nossa, sem tradição nenhuma, tem pouca chance de poder realizar o desejo de desenvolver tecnologias que pudessem posteriormente estar expandindo para além das fronteiras nacionais. Eu acreditei porque, na falta de uma referência anterior, penso que o indivíduo deve trabalhar os seus limites, não pela opinião alheia, mas pela motivação de realizar suas próprias idéias. Procurei oferecer soluções às empresas e a maior dificuldade foi obter o primeiro crédito, alcançado quando mostrei de forma lógica e objetiva o que, o porquê e como eu propunha aqueles trabalhos. A partir daí, era imperativo alcançar os resultados, porque nunca seria dada uma segunda oportunidade. Manaus é uma cidade geograficamente isolada. O nível das relações entre empresas é muito grande. Então, se a pessoa comete algum deslize, rapidamente essa informação se difunde e praticamente inviabiliza uma segunda oportunidade. A minha preocupação sempre foi essa, foi sempre a preocupação de que eu efetivamente pudesse gerar o resultado, comprovando a validade da proposição que eu tinha feito. A partir disso, mantenho uma estratégia simples: consolidar primeiro a relação com as indústrias locais,

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focando bastante em multinacionais ou em empresas com sede no Sul do Brasil e esperar o momento no qual eu me sentisse devidamente consolidado, fortalecido e estruturado para começar a buscar esses mercados pessoalmente, inicialmente dentro do Brasil. T&C – E a etapa mais audaciosa, a da exportação, já foi alcançada? MC – Eu tive duas oportunidades de exportação que me serviram exatamente para ter uma perspectiva clara do que seria no futuro aquela idéia de poder exportar meus produtos. Eu fiz uma aplicação do meu sistema na Europa e outra na China. Situações bastante curiosas e diferentes, mas que me permitiram conhecer um pouco mais o processo de exportar uma tecnologia. Foquei então a abertura e consolidação do meu produto no mercado internacional. Foi um trabalho dificílimo porque, por mais que as empresas com filiais em Manaus relatassem os resultados extremamente positivos que haviam alcançado, a desconfiança era muito grande, principalmente na questão de como seria possível receber suporte de uma empresa que fica a 4.000 km de distância, especialmente em se tratando de uma questão estratégica, como a fabril. Consegui vencer essas barreiras, consegui mostrar os resultados, consegui por meio da qualidade e da tecnologia do produto que nós oferecíamos e seus resultados, começar a abrir esses espaços. Hoje, começam a surgir oportunidades de implantação do mesmo sistema em unidades na América e na Europa, em função de que várias dessas indústrias têm nas unidades do Brasil unidades extremamente competitivas. A minha intenção é poder focar somente nos pólos mais avançados do País, que são o Sul e Sudeste, e o crescimento no mercado exterior, imaginando, é claro, que eu possa consolidar esse sonho de uma empresa nascida no Amazonas, dirigida por amazonense, ter o reconhecimento da sua competência em nível mundial. A gente já está conseguindo isso e quer expandir mais.

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T&C – De uma certa forma, os resultados positivos alcançados e a condição de professor remetem a uma maior responsabilidade sua na criação das condições que permitam que novos exemplos surjam. Como tem sido sua interlocução com alunos e empresários em relação a esse objetivo? MC – Eu costumo até brincar dizendo que talvez esse seja o maior de todos os trabalhos acadêmicos que eu possa ter realizado na minha vida. Eu sempre disse aos meus alunos que afirmar é prerrogativa dos que fazem, conseqüentemente sabem, e não daqueles que acham que sabem. E nada melhor do que um professor deixar como uma lição dada a seus alunos o próprio testemunho, o ensino daquilo que ele pratica. Então, eu acho que, se eu consegui, outros poderão conseguir e espero que não com as mesmas dificuldades que as minhas, mas com dificuldades bem menores, para que a gente possa multiplicar tudo isso várias vezes. Eu diria que outro grande ganho disso foi o fato de mostrar às empresas esse outro lado, fazêlas acreditar mais em pessoas que são visionárias, que são idealizadoras, que detêm o conhecimento mas que precisam fazer com que esse conhecimento traga transformações. E que proporcionem a sustentabilidade para que essa pessoa possa realizar seu trabalho e participar efetivamente do progresso da sociedade. T&C – A relação entre o setor produtivo e as instituições de ensino e pesquisa, que pode ajudar na multiplicação desses casos de sucesso, tem evoluído ao longo desses anos? MC – Mudou muito. E para melhor. Talvez não na velocidade que nós gostaríamos, mas eu diria que o aumento dessa velocidade passa necessariamente por uma mudança de postura na forma de se comunicar. Ainda há um ruído muito alto na comunicação entre as instituições e as empresas, originado dos resquícios daquela cultura de distanciamento entre os centros de pesquisa e as empresas. Eu diria que o maior problema hoje está nos centros de pesquisa, nas universidades, mais do que nas empresas. Normalmente, os

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empresários, até por uma questão de necessidade, de sobrevivência, são pessoas extremamente rápidas e observadoras, e para eles ficou muito clara a importância dessas estratégias de alianças tecnológicas. O problema é das instituições mudarem seu comportamento, parando de achar que o relacionamento com a indústria compromete a sua liberdade de expressão e de trabalho. Isso é uma grande tolice, mas que ainda é muito forte em muitos segmentos acadêmicos. Eu acredito que hoje instituições como a faculdade da Fucapi têm sido um instrumento diferenciado nessa capacidade de comunicação, como é a Fundação Paulo Feitoza também, mas que ainda estão bastante tímidas em relação ao que efetivamente precisamos fazer. Mas os primeiros passos foram dados, seja por iniciativas individuais como a minha, seja por iniciativa como a da faculdade da Fucapi, que já nasceu com esse conceito, com essa idéia e, apesar de todas as dificuldades, tem se realizado com excelentes resultados. O próprio depoimento meu é de que hoje boa parte dos profissionais que trabalham na minha empresa gerando esses resultados tem sua origem dentro da faculdade da Fucapi e também instituições como a Fundação Paulo Feitoza, que tem trazido investimentos prioritários àquilo que eu considero de maior valor agregado. Quando você trabalha em uma empresa de alta tecnologia, o valor agregado não é só algo econômico. É social também, porque demanda uma competência cujo nível de remuneração é extremamente elevado, compatível com o conhecimento e com a capacidade intelectual que indicam à sociedade a necessidade de investimentos no desenvolvimento de competências.

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Pontos de Vista

PONTOS DE VISTA T&C Amazônia formulou três perguntas relacionadas ao Pólo Industrial de Manaus a três líderes de organizações representativas de segmentos importantes da sociedade: Hidembergue Ordozgoith da Frota, reitor da Universidade Federal do Amazonas; Flávia Skrobot Barbosa Grosso, superintendente da Suframa, a autarquia federal que conduz o projeto ZFM; e Maurício Elísio Martins Loureiro, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Compare as respostas.

1.

T&C Amazônia – De que forma é

possível

intensificar

as

interações entre as instituições de ensino e pesquisa e o setor produtivo? Hidembergue Ordozgoith da Frota – Na universidade, a geração de ciências básicas convive harmoniosamente com as ciências aplicadas, muitas vezes sendo impossível diferenciá-las, ambas contribuindo para a inovação tecnológica. Nas últimas décadas, tem sido bastante evidenciada a expressiva diminuição do tempo entre os resultados científicos oriundos das atividades de pesquisas e suas aplicações em produtos de interesse do mercado, com benefício imediato para a sociedade. Um forte exemplo é o que tem ocorrido na área da informática, desde a construção dos primeiros computadores, utilizando transistores, aos dias de hoje, onde o número daqueles dispositivos implantados em circuitos integrados está chegando ao limite máximo que a natureza permite. A interação das universidades e institutos de pesquisa com o setor produtivo resultou em um expressivo desenvolvimento social e econômico para os países que adotaram esse procedimento, fundamentado na transferência de inovações tecnológicas e conhecimentos gerados por aquelas instituições para as empresas e organizações. Como exemplos clássicos desse processo interativo destacam-se as empresas que

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Pontos de Vista

surgiram no Vale do Silício, na Califórnia (Estados Unidos), inicialmente em colaboração com a Universidade de Stanford e depois com a participação de outras instituições de ensino e pesquisa. Esse exemplo de sucesso se estendeu para outros países de todo o mundo, chegando mais recentemente no Brasil. No Amazonas, a interação entre universidade e empresa tem se intensificado, com a crescente qualificação do corpo docente da Ufam em nível de doutorado, desenvolvendo pesquisas nas áreas de automação, otimização de processos, desenvolvimento de sensores, de agenda eletrônica ancorada em servidor web para telefonia celular, sistemas para testes de centrais telefônicas, implantação de ISO 9000 e geração de patentes, em parceria com empresas do Distrito Industrial. As dissertações do curso de Mestrado em Informática têm buscado solucionar problemas ou aprimorar equipamentos com tecnologia digital de empresas do Pólo Industrial de Manaus, com comportamento semelhante do Mestrado em Engenharia da Produção, tendo grande parte do seu corpo discente vínculo com as empresas daquele pólo. A socialização do conhecimento da universidade será enriquecida com a implantação do Centro de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico da Ufam, que tem como finalidade a incubação de empresas em áreas estratégicas para o desenvolvimento regional, com base em estudos e pesquisas desenvolvidos na própria universidade. Para o sucesso de iniciativas como essa é necessário aporte financeiro adequado, que pode ser obtido por meio dos recursos da lei de informática, que devem ser distribuídos levando em consideração as competências instaladas nas instituições, principalmente no que diz respeito a recursos humanos. Flávia Skrobot Grosso – Estão em curso várias estratégias visando tal fim. A primeira é a organização dos esforços de pesquisa a partir de uma visão mais comprometida com o

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desenvolvimento da região que está sendo feita pela Fapeam. A segunda é a criação do Capda (Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia), que passou a abrigar vários programas que contemplam interesses do setor produtivo como tecnologias industriais básicas, microeletrônica e microsistemas, TV digital interativa e outros. A terceira é a atuação da Suframa no financiamento direto de especializações, mestrados e doutorados vinculados aos interesses econômicos da região. A quarta é a aproximação maior que a academia está procurando em relação ao setor produtivo e vice-versa. Acreditamos que está em andamento uma revolução silenciosa nesse campo. São dezenas de iniciativas que, quando começarem a produzir os efeitos, transformarão radicalmente o sistema de C&T&I da nossa cidade. Maurício Loureiro – Tradicionalmente, sempre houve um distanciamento muito grande entre a academia – a intelectualidade, de um modo geral – e o setor industrial implantado no Pólo Industrial de Manaus (PIM). Para reduzi-lo, é necessário criar mecanismos eficazes de catálise, que promovam a aproximação dessas entidades. Parece que os catalisadores naturais desse processo são os órgãos representativos da classe industrial, tais como o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) e a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam). A universidade deve realizar pesquisas e formar especialistas em função das necessidades dos clusters industriais que se implantaram na ZFM ou que tenham potencial para nela instalar-se. Compete às empresas desenvolver produtos que utilizem os conhecimentos gerados pelas pesquisas conduzidas na academia. A sinergia dessa aproximação agregará valor à cadeia de produção da economia local e beneficiará a comunidade amazonense e o País.

2.

T&C – O governo tem exercido adequadamente sua liderança

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Pontos de Vista

para aglutinar os protagonistas ao redor de u m p r o j e t o l o c a l c o l e t i v o pa r a o desenvolvimento econômico sustentável? HOF – A Suframa, como agente do governo federal, tem realizado várias ações importantes para o desenvolvimento sustentável de nossa região, marcando fortemente sua liderança de agência de desenvolvimento regional. Destaca-se a identificação das vocações regionais para a Amazônia e a construção do Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA, como exemplo de projetos sustentáveis. O seu programa de fomentar o capital intelectual está concatenado com os referidos projetos, citando-se como exemplo o apoio financeiro para o desenvolvimento do Doutorado em Biotecnologia, o primeiro doutorado no Brasil nessa área, que está formando pessoal qualificado para atuar nas instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento de produtos, em particular, para o próprio CBA. O CT-PIM, idealizado para a produção de componentes de alta tecnologia para o Pólo Industrial de Manaus, permitirá o adensamento da cadeia produtiva e a diminuição da importação de componentes, contribuindo para o equilíbrio da balança comercial do Estado do Amazonas e para a sustentabilidade do modelo. A Ufam é parceira da Suframa na formação de capital intelectual e produção de conhecimento, bases desses projetos. A Universidade, vinculada ao governo federal, tem dado uma significativa contribuição na formação de recursos humanos para que os projetos mencionados e outros desenvolvidos na região sejam sustentáveis ao longo do tempo, com a implementação de novos cursos de graduação, como os de Engenharia da Produção e Engenharia da Computação, bem como novos cursos de pós-graduação em nível de especialização, mestrado e doutorado, como Informática, Biotecnologia, Desenvolvimento Regional, Inteligência Competitiva, além de vários outros programas que têm larga interface com os projetos dos governos federal e estadual e da iniciativa privada.

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A recente implantação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – Fapeam, que tem como principal objetivo apoiar a pesquisa científica básica e aplicada ao desenvolvimento tecnológico do Amazonas, por meio da concessão de bolsas de estudos e do apoio à implementação de ações de fomento no âmbito do Estado, pode se revelar no futuro como uma das mais importantes iniciativas do governo do Estado para o desenvolvimento econômico e social do Amazonas. FSG – Existem muitas iniciativas louváveis em curso que, acreditamos, buscam a sustentabilidade econômica do nosso modelo. Os três grandes vetores que organizam essa busca são: competitividade e inserção internacional da produção do PIM, sedimentação de uma indústria baseada em insumos da biodiversidade regional, e interiorização dos efeitos econômicos conseguidos em Manaus. Para essas finalidades, a Suframa tem atuado visando ao adensamento da cadeia produtiva das indústrias do PIM, a ampliação dos mercados externos para acesso de nossos produtos, o melhoramento das rotas logísticas com o mercado global, a sedimentação de aparatos institucionais para gerar C&T&I, a implantação do Centro de Biotecnologia da Amazônia etc. O governo do Estado, por sua vez, ampliou os incentivos estaduais para a indústria de componentes visando a adensar a cadeia produtiva; está investindo bastante na geração de conhecimentos das potencialidades regionais; desenvolve um programa (Zona Franca Verde) visando a transformar esses potenciais em realidade; está iniciando um forte esforço de divulgação das vantagens do Estado para atrair investimentos no País e no exterior etc. Não se pode falar de um projeto coordenado mas as grandes linhas de ação seguem uma convergência de fins que dá sinergia à atuação dessas duas esferas de governo. ML – Há iniciativas nesse sentido dignas de

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Pontos de Vista

menção. No âmbito federal, existe um fundo para P&D criado pela Lei de Informática. Na esfera estadual, podemos citar a criação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia e a instituição da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). A despeito dessas iniciativas, ainda há pela frente um longo caminho a ser percorrido antes que se possa responder afirmativamente à questão formulada.

3.

T&C – Existe um futuro sem incentivo fiscal?

HOF – Existe. A implantação dos projetos aqui

mencionados aliados a outros que devem ser desenvolvidos pelo governo do Estado do Amazonas, visando ao uso sustentável dos recursos da região, aliado ao permanente cuidado com a conservação do patrimônio natural, proporcionarão, a médio prazo, as condições para que os produtos aqui fabricados tenham competitividade nos mercados interno e externo, independentemente dos incentivos fiscais concedidos à produção dos mesmos. À medida que tenhamos capacidade de implantar um programa de gestão participativa junto às populações locais e de parcerias com entidades

recursos para sua sobrevivência econômica. Acreditamos que essa renúncia colocada ao lado da chamada renúncia fiscal acabará por mostrar que na verdade o que recebemos seria melhor definido como compensação por renúncia econômica. ML – Certamente existe, desde que sejam eliminados os gargalos infra-estruturais que tornam desfavorável a logística local. Os incentivos fiscais foram criados para compensar os custos adicionais que decorrem da distância em que as empresas locais se encontram face às fontes de matériasprimas e aos mercados consumidores, de modo a torná-las competitivas. Tão logo se otimize a logística e as externalidades locais tenham atingido níveis semelhantes aos existentes em Estados mais desenvolvidos, os incentivos serão dispensáveis. Porém, é importante observar que é imprescindível transformar Manaus em um centro de excelência de formação de recursos humanos, com a existência de um sistema educacional eficiente em todas as fases do ensino, desde o fundamental até a universidade. E que as administrações estadual e municipal se tornem mais racionais e eficazes, reduzindo os excessos burocráticos e a instabilidade de regras, promotoras de incertezas e desconfiança para os investidores.

governamentais e da iniciativa privada, nacionais e internacionais, com certeza poderemos atingir o objetivo maior de estabelecer um projeto local coletivo para o desenvolvimento econômico sustentável da região. FSG – Em uma região como a nossa, ainda distante dos grandes mercados, sempre haverá necessidade de incentivos. Entretanto, o que se pretende é minimizar o peso deles na atração dos investimentos. Acreditamos que isso é possível e é esse o objetivo de todas essas iniciativas referidas anteriormente. Entretanto, pretendemos também, de futuro, colocar em destaque a questão da renúncia econômica que a região faz quando opta por não usar suas florestas como base de

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Infra-estrutura Tecnológica e Capacidade Inovadora: Algumas Evidências do Pólo Industrial de Manaus

INFRA-ESTRUTURA TECNOLÓGICA E CAPACIDADE INOVADORA: ALGUMAS EVIDÊNCIAS DO PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS1 Conceição Vedovello* Paulo N. Figueiredo** 1. INTRODUÇÃO Este artigo apresenta, de maneira concisa, alguns dos resultados de um estudo recentemente concluído no Pólo Industrial de Manaus, que examinou as implicações da infra-estrutura tecnológica para o desenvolvimento de capacidades inovadoras em empresas das indústrias eletroeletrônica, bicicletas e motocicletas (duas rodas) e seus principais fornecedores. Infra-estrutura tecnológica é aqui definida como um conjunto de arranjos institucionais organizados com o objetivo básico de facilitar a disseminação de tecnologia e outros conhecimentos relacionados, de fontes relevantes para as empresas e outras organizações, para auxiliá-las no desenvolvimento de suas competências tecnológicas e na adoção, produção e comercialização de inovações. Estes arranjos institucionais cobrem uma diversidade de mecanismos e processos que servem de apoio para a provisão de serviços, tais como contratos de pesquisa, assistência técnica, certificação, consultoria, treinamento. As “fontes relevantes” incluem, entre outras, universidades e seus diversos departamentos, institutos públicos e privados, bancos de dados e empresas de consultoria. Em geral, estes arranjos institucionais são criados e/ou mantidos através da provisão de recursos (financeiros) públicos que permitem que a oferta de serviços acima mencionada ocorra a um preço abaixo do de mercado (Vedovello e Godinho, 2003). Nesta pesquisa, a definição de infra-estrutura tecnológica transcende a abordagem convencional de infra-estrutura física – baseada somente no capital físico e humano – que apóia as atividades

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Infra-estrutura Tecnológica e Capacidade Inovadora: Algumas Evidências do Pólo Industrial de Manaus

inovadoras das empresas. Além de conhecimento tecnológico e expertise, a infra-estrutura tecnológica também incorpora outros componentes, tais como a absorção e difusão de informações relevantes para os negócios, e desenvolve atividades relacionadas às técnicas organizacionais e de gestão. Utilizamos aqui a taxonomia desenvolvida em Vedovello (1995, 2001) que identifica a natureza, freqüência, resultados e benefícios das ligações estabelecidas entre a infra-estrutura tecnológica e a indústria, e entre os componentes da própria infra-estrutura tecnológica e de inovação. Competências tecnológicas são aqui definidas como os recursos necessários para produzir e administrar inovações nos processos e na organização da produção, no sistema organizacional das empresas, nos produtos, nos 2 equipamentos e nos projetos de engenharia . Tais recursos acumulam-se e incorporam-se não apenas nos indivíduos (competência, conhecimento e experiência) e nas rotinas, nos procedimentos e no sistema organizacional das empresas (Bell & Pavitt, 1995; Figueiredo, 2001, 2003a,b). Embora os temas da infra-estrutura tecnológica e do desenvolvimento de capacidade tecnológica tenham sido abordados na literatura, individualmente, há uma escassez de estudos que examinem a interação entre essas duas questões, à luz de modelos analíticos adequados, particularmente no contexto de economias emergentes. Por isso, esta pesquisa avança em relação aos estudos existentes, tanto em nível nacional como internacional, para examinar em um mesmo estudo, a interação entre essas duas questões. 2. EXAME DA INTERAÇÃO ENTRE INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO DE CAPACIDADES TECNOLÓGICAS EM NÍVEL DE EMPRESAS N O PIM A interação entre infra-estrutura tecnológica e

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o desenvolvimento de competências tecnológicas inovadoras é examinada aqui em uma amostra de 75 organizações: 29 organizações da infraestrutura tecnológica (ex: universidades, institutos de pesquisa); 18 empresas da indústria eletrônica de consumo; nove empresas da indústria de motocicletas e bicicletas (duas rodas), e 19 fornecedores dessas duas indústrias. As organizações que compõem a amostra estão localizadas no Pólo Industrial de Manaus, que iniciou suas atividades no início dos anos 1970 como uma zona franca e hoje se apresenta como a maior concentração de empresas manufatureiras dessas duas indústrias no Brasil. Ou seja, o estudo é realizado numa típica área em desenvolvimento numa economia emergente como o Brasil. A fim de aferir o grau de desenvolvimento de competências tecnológicas nas empresas da amostra, fazemos uso da taxonomia desenvolvida em Figueiredo (2001, 2003), Ariffin (2000) e Ariffin & Figueiredo (2003) que permite a identificação de tipos e níveis de competências tecnológicas. Esse modelo foi adaptado sob medida para a indústria eletroeletrônica e de duas rodas. A partir desse modelo são identificadas quatro funções tecnológicas: gestão de projetos, processos e organização da produção, produtos e atividades relacionadas a equipamentos. Esse modelo faz uma distinção entre competências para usar determinada tecnologia (competências de rotina) e competências para mudar, i.e., realizar atividades tecnológicas inovadoras. Além disso, a aplicação empírica desse modelo permite identificar a velocidade – medida em número de anos – que empresas e/ou setores industriais levam para acumular certos tipos e níveis de capacidade tecnológica. Utiliza-se o modelo desenvolvido em Figueiredo (2001, 2003), adaptado de Lall (1992) e Bell & Pavitt (1995), devidamente calibrado para a observação das indústrias que compõem este estudo. Competências tecnológicas ‘rotineiras’ e ‘inovadoras’ são identificadas através de quatro tipos: gestão de projeto, organização da produção

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e dos processos, produtos e equipamentos. Para a indústria eletrônica e seus fornecedores, essa competência se traduz em níveis de 1 a 6; para a indústria de duas rodas e seus fornecedores, os níveis são de 1 a 7, onde os níveis 1 e 2 são relacionados às competência tecnológicas ‘rotineiras’, e os superiores a 3 dizem respeito a competências tecnológicas ‘inovadoras’. A taxonomia desenvolvida por Vedovello (1995, 2001) é utilizada para examinar as ligações estabelecidas entre a infra-estrutura tecnológica e a indústria, bem como aquelas estabelecidas entre as próprias instituições da infra-estrutura tecnológica. A natureza das ligações é identificada a partir de três grupos de ligações principais ligações informais, de recursos humanos (RH) e formais (mais próximos à atividade de pesquisa). Observa-se, ainda, a freqüência com que as ligações são estabelecidas, os resultados que delas emergem e os benefícios que geram para os parceiros. As organizações examinadas neste estudo foram selecionadas à base de amostragem deliberada (Patton, 1990). Evidências empíricas foram coletadas durante trabalho de campo original e intenso, por mais de um ano, através de três fases: exploratória, piloto e principal – utilizando estratégias múltiplas de coleta de informações. Em relação ao estabelecimento de ligações entre a infra-estrutura tecnológica e as empresas, há uma maior incidência de ligações no setor eletroeletrônico: 50.8% de ligações informais, 24.6% de RH e 24.6% de ligações formais. Para a indústria de duas rodas, as ligações de RH são as mais freqüentes (50%), seguidas das ligações informais (45%) e ligações formais muito escassas. Para o grupo de fornecedores, predominam as ligações de RH (66.1%), seguidas das informais (23.2%) e formais (10.7%). São as empresas do setor eletroeletrônico as mais envolvidas com ligações formais – tanto as estabelecidas localmente como com outras instituições não-locais – refletindo um maior dinamismo tecnológico do setor e uma maior necessidade de complementar

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a sua base de conhecimento. Em relação às ligações estabelecidas entre as próprias instituições da infra-estrutura tecnológica, observamos que 54.2% são informais; 30.1% são de RH, e 55% são formais. Dada a natureza dessas organizações, cujas atividades são, em princípio, mais relacionadas com atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), é interessante observar que as ligações formais apresentam uma baixa ocorrência. Além disso, 61.4% das ligações informais, 69.5% das de RH e 50.9% das formais são estabelecidas localmente (Manaus). Em termos de implicações de política, isto sugere que o aperfeiçoamento das ligações entre essas organizações é uma questão-chave para uma melhor aplicação dos recursos disponíveis (físicos, material, humano, organizacional e financeiro), contribuindo para o fortalecimento do sistema local de inovação. O papel da infra-estrutura tecnológica na acumulação de competências tecnológicas para o conjunto das empresas estudadas (eletrônica, duas rodas e fornecedores) mostra que: Gestão de projetos: todos os grupos de ligações (informal, RH, e formal) são relacionados com o nível 2 de competência ‘rotineira’: 53% para ligações informais, 44.3% para RH e 61.5% para as formais. Organização da produção e dos processos: ligações informais (42.2%) e formais (43.6%) são mais fortemente relacionados com o nível 5 de competência ‘inovadora’, enquanto que as ligações de RH estão distribuídas entre os níveis 3 (29.9%), nível 4 (26.8%), e nivel 5 (28.9%) de competências. Produção: Todos os tipos de ligações são fortemente relacionados com o nível 3 de competência ‘inovadora’: 55.9% para ligações informais, 48.5% para RH, e 48.7% para ligações formais. Equipamentos: Ligações informais (46.1%) e formais (56.4%) são fortemente relacionadas com o nível 2 de competência ‘rotineira’;

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ligações de RH se distribuem entre os níveis 2 (28.9%) e 3 (27.8%). 3. CONCLUSÃO Este artigo apresentou, de maneira sucinta, os resultados da análise das implicações da infraestrutura tecnológica no desenvolvimento de competências tecnológicas em três diferentes setores industriais localizados em uma região em desenvolvimento em uma economia emergente. Além do avanço na literatura, as evidências empíricas sugerem que: (1) Quando as ligações entre as empresas e a infra-estrutura tecnológica se tornam mais formais, elas ocorrem menos freqüentemente, performance encontrada em outros estudos desenvolvidos em outros contextos – Inglaterra, Portugal, e mesmo no Brasil (Vedovello, 1995, 2001). Ligações formais requerem condições específicas, raramente encontradas pelos parceiros, para a sua materialização, tais como: estágio de desenvolvimento tecnológico, capacidade das empresas em integrar novos conhecimentos com a base de conhecimento já existente, expertise dos recursos humanos envolvidos (empresas e infra-estrutura tecnológica), e capacidade financeira para apoiar atividades de P&D mais robustas. (2) As evidências relacionadas com a di v e r s i d a d e d e t i p o s e n í v e i s d e competências tecnológicas inovadoras revelam dinamismo de desenvolvimento de processos tecnológicos nas empresas examinadas. Quando as empresas se movem para a acumulação de níveis mais altos de competências tecnológicas inovadoras, há espaço para o desenvolvimento de competências de P&D para outras atividades como o design, o desenvolvimento de produtos e equipamentos. (3) A análise também sugere que a infra-

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estrutura tecnológica deveria ser considerada com uma questão central n o d e s e n h o e i m p l e m e n ta ç ã o d e p o l í t i c a s governamentais para o desenvolvimento de competências industriais, particularmente no contexto de economias emergentes. (4) Além disso, a função dos processos de aprendizado intra-empresas deveria também ser considerada como um fatorchave influenciando o desenvolvimento de competências empresariais. Finalmente, alinhando-se às conclusões de Ariffin & Figueiredo (2003), este estudo contribui para ampliar e clarificar o entendimento do Pólo Industrial de Manaus. Em outras palavras, contrariando certas generalizações negativas e pessimistas, as evidências desses estudos revelam uma realidade industrial dinâmica, inovadora e competitiva que, certamente, é de importância estratégica para a economia brasileira. Notas 1 Este artigo deriva de uma parte do relatório final do estudo intitulado “Implicações da infra-estrutura tecnológica para o desenvolvimento de capacidades inovadoras nas indústrias eletroeletrônica, de motocicletas e bicicletas (duas rodas) e seus principais fornecedores: construção de base de competitividade – perspectiva 2020” (294 pp). Este estudo foi realizado no âmbito do Programa de Pesquisa em Aprendizagem Tecnológica e Inovação Industrial no Brasil, da Escola

Brasileira de Administração Pública e de Empresas

(Ebape), da Fundação Getulio Vargas (FGV). 2

Nesta pesquisa, não fazemos distinção entre os termos ‘competência’ e ‘capacidade’ tecnológica. Porém, é importante lembrar que o termo ‘capacitação tecnológica’ refere-se ao processo de acumulação de competências ou capacidades tecnológicas através dos vários processos subjacentes de aprendizagem tecnológica – intra e interempresariais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIFFIN, N., FIGUEIREDO, P.N., 2003, Internacionalização de Competências Tecnológicas. Implicações para estratégias governamentais e empresariais de inovação

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e competitividade da indústria eletrônica no Brasil. Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas. BELL, M., PAVITT, K., 1995, “The Development of Technological Capabilities”, in Trade, Technology and International Competitiveness, I. Ul Haque (in collaboration with M. Bell, C. Dahlman, S. Lall and K. Pavitt). Washington, The World Bank, pp. 69101. FIGUEIREDO, P. N., 2001, Technological Learning and Competitive Performance. Cheltenham, UK, and Northampton, MA, USA, Edward Elgar Publishing Ltd., Inc. FIGUEIREDO, P. N., 2003, “Learning, capability accumulation and firms differences: evidence from latecomer steel”, Industrial and Corporate Change, v.12, n. 3, pp. 607-643. LALL, S., 1992, “Technological capabilities and industrialisation”, World Development, v. 20, pp. 165- 86. PATTON, M. Q., 1990, Qualitative Evaluation and Research Methods, 2nd edn, Newbury Park (Ca), Sage. VEDOVELLO, C., 1995, “Science Parks and the University-Industry Links: A Case Study of the Surrey Research Park”. Brighton (UK), SPRU at University of Sussex (PhD Thesis). VEDOVELLO, C., 2001, “Perspectivas e Limites da Interação entre Universidades e MPMEs de Base Tecnológica localizadas em Incubadoras de Empresas”, Revista do BNDES, dezembro. VEDOVELLO, C., GODINHO, M., 2003, “Business Incubator as a Technological Infrastructure for Supporting Small Innovative Firms’ Activities”, International Journal of Entrepreneurship and Innovation Management, v. 3, n°s 1-2, pp. 421.

Science and Technology Policy Research, University of Sussex, Reino Unido). Com extensa publicação na área, recentemente foi editora convidada do International Journal of Entrepreneurship and Innovation Management, Inderscience Ltd. Atualmente, exerce a função de assessora da Presidência da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). As opiniões expressas neste artigo dizem respeito a suas atividades como pesquisadora, não tendo, portanto, vinculação com a instituição com a qual colabora no momento. E-mail: connie@finep.gov.br. ** Paulo Figueiredo é Ph.D. (SPRU – Science and Technology Policy Research, University of Sussex, Reino Unido). É professor nos programas de mestrado e doutorado da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas, coordenador do Programa de Pesquisa sobre Aprendizagem Tecnológica e Inovação Industrial no Brasil, da Ebape/FGV e da Divisão d e C i ê n c i a , Te c n o l o g i a e In o v a ç ã o d a Associação Nacional dos Programas de PósGraduação em Administração (Anpad). Autor de livros, possui extensa lista de publicações em influentes revistas científicas internacionais. Dedica-se ao tema desenvolvimento tecnológico e inovação em empresas que operam em economias emergentes. E-mail: pnf@fgv.br.

* Conceição Vedovello é economista e mestre em economia (PUC-SP) e Ph.D (SPRU –

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O Programa Seis Sigma - Um Estudo de Caso em Uma Empresa do Pólo Industrial de Manaus

O PROGRAMA SEIS SIGMA – UM ESTUDO DE CASO EM UMA EMPRESA DO PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS Ricardo Moura* INTRODUÇÃO A Engenharia de Produção dedica-se ao aumento da eficácia e eficiência de processos que convertem recursos em produtos e serviços. Sistêmica, busca otimizar qualquer tipo de empresa. De abrangência generalista, utiliza conceitos e ferramentas de diversas áreas do conhecimento, tais como matemática, estatística, economia, administração, contabilidade e outras áreas, além, é claro, da própria engenharia. Observando a estrutura das empresas situadas no Pólo Industrial de Manaus – PIM, podemos dizer que, em linhas gerais, elas comportam-se como o macrofluxo apresentado na Figura 1. Cabe ao engenheiro de produção entender todo esse fluxo, da compra de matéria-prima à entrega de produtos aos clientes. Ele deve conhecer as entradas e as saídas de todos esses processos e buscar sua otimização, para um melhor desempenho da organização. O programa Seis Sigma é um programa focado na otimização de processos, e cabe também aos blackbelts (faixas pretas) conhecer todas as entradas e saídas desses processos e buscar sua otimização. No programa Seis Sigma, os blackbelts são profissionais que têm domínio em muitas técnicas voltadas à solução dos problemas da organização, numa clara alusão às artes marciais orientais, onde o mestre “faixa preta” tem domínio de muitas técnicas de luta. Analisando o surgimento do Seis Sigma, sua forma de estruturação e implantação, é mostrada sua aplicabilidade em nossa região, por meio dos resultados obtidos em uma indústria do ramo eletroeletrônico, bem como sua sustentabilidade pós-implantação.

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padrão, ou seis sigmas. Para lidar com valores tão próximos de 100% para o senso comum da época, passou-se a adotar a abordagem de defeitos por milhão ou dpm. Para atuar nos processos e melhorar os seus rendimentos para os níveis propostos, a Motorola lançou mão de uma estrutura semelhante a um exército, composta por funcionários treinados em ferramentas estatísticas aplicadas e um método denominado MAIC (Measure, Analyze, Improve and Control), mas com um formato adaptado à cultura americana, pois as técnicas japonesas de controle da qualidade não combinaram com a cultura e o ambiente americanos. Os americanos deram ênfase a computadores ligados em rede, projetos de experimentos, sistemas de gerenciamento de projetos e ferramentas estatísticas educativas aplicadas aos negócios. Segundo WERKEMA (2000), o Seis Sigma, considerado o “Modelo de Gerenciamento da Qualidade para o Século XXI”, está cada vez mais ganhando evidência. Na imprensa, o Wall Street Journal e o NewYork Times têm publicado artigos sobre os ganhos financeiros que as empresas estão obtendo por meio do Seis Sigma. Além disso, os analistas de Wall Street definem o Seis Sigma como “A Onda do Crescimento Econômico do Futuro”. Todo esse interesse pelo programa Seis Sigma resultou da divulgação dos enormes ganhos financeiros alcançados por empresas como Motorola, Allied Signal, ABB e General Electric, os quais foram atribuídos pelos presidentes dessas empresas à implementação bem-sucedida do programa Seis Sigma. Tudo isso fez com que o programa Seis Sigma evoluísse de uma métrica de melhoria de qualidade para um conceito mais amplo, incorporado nas formulações estratégicas das empresas e sendo considerado até como uma visão de negócio, como mostrado no Quadro 1. A IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA A implantação do Seis Sigma divide-se em duas partes. A primeira é similar à utilizada por vários

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outros programas. Iniciando-se com um diagnóstico de implantação, obtenção do comprometimento da alta direção, escolha do patrocinador e do coordenador de implantação, para que o programa em si seja implantado. A segunda parte se refere à escolha dos projetos, seleção dos candidatos, treinamento e acompanhamento. A forma de implementação proposta deve ser tratada como um programa, que, segundo MAXIMIANO (1997), é um grupo, família ou conjunto de projetos que se deve administrar coordenadamente e pode se desenvolver em paralelo ou seqüencialmente. Cada empresa possui suas particularidades e eventuais problemas a serem solucionados ou minimizados, de acordo com suas metas e diretrizes. Neste sentido, a seleção dos projetos de melhoria deve preceder quaisquer atividades de treinamento. Algumas empresas já o fazem na elaboração de seus planos e metas anuais. Para a implantação do programa Seis Sigma, recomenda-se que a escolha dos projetos anteceda a seleção e treinamento dos candidatos. Portanto, para implantação bem-sucedida do programa Seis Sigma deve-se implantar um sistema de administração por projetos dentro da empresa. ADMINISTRAÇÃO DOS PROJETOS A existência de uma estrutura de condução de projetos passou a ser importante para as empresas, conforme afirmação de vários autores, entre os quais foram destacados: “A execução de projetos tornou-se um fato comum nas empresas, tanto projetos simples como complexos...” (PRADO, 1998). “Projetos são executados em todos os setores da economia e r e p r e s e n t a m u m c o n j u n t o de esforços complexos interdependentes, exigindo elevado esforço de gerenciamento” (CASAROTTO et al., 1999). No programa Seis Sigma, utiliza-se a estrutura

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Convém mencionar também que atualmente existem vários programas de computador específicos para gerenciamento de projetos que podem ser utilizados para a elaboração e acompanhamento da implementação dos projetos individuais, bem como acompanhar a evolução de todos eles, durante a implantação do programa Seis Sigma como um todo. APLICABILIDADE DO MODELO No biênio de implantação do programa em uma indústria eletroeletrônica do PIM, foram treinados 42 blackbelts e 72 greenbelts nas áreas de produção, logística, compras, assistência técnica, almoxarifado, garantia da qualidade, engenharia, planejamento, contabilidade e recursos humanos. De acordo com os índices de referência da consultoria que foi contratada para auxiliar a implantação, a empresa deveria treinar, no mínimo, 2% dos funcionários como blackbelts e 5% como greenbelts, para que a implantação fosse bem-sucedida. Ao término do segundo ano de implantação foram alcançados os índices de 4% para blackbelts e 7% para greenbelts. Com este quadro de funcionários, os projetos concluídos representaram economias, no primeiro ano, de US$ 5 milhões; no segundo ano, esse número chegou a US$ 7 milhões, e no terceiro ano atingiu o patamar de US$ 10 milhões. Com relação ao desempenho da empresa, do ponto de vista de defeitos no mercado com produtos em garantia, alcançou-se um nível Sigma entre 4 e 4,5. Esses números evidenciam a implantação bemsucedida do programa. Não obstante, o presidente mundial da companhia resolveu reestruturar o programa, fazendo um relançamento após o terceiro ano, com o objetivo de desvincular o programa da empresa de consultoria que iniciou sua implantação. Isso deu uma identidade completamente nova e alinhada com a cultura da organização. Devido à forte identificação da operação em Manaus com o Seis Sigma, o modelo aqui

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implantado tornou-se referência e o coordenador do programa teve papel-chave neste relançamento, especificamente nas operações do Brasil, México e Estados Unidos, treinando e avaliando os novos coordenadores e instrutores desses países. CONCLUSÕES E GENERALIZAÇÕES Apesar do programa Seis Sigma se apresentar de forma inicial no atual cenário brasileiro, podese nele observar características únicas. Ele reúne partes essenciais e importantes dos vários outros programas e as apresenta de uma forma clara e metodológica em seus conceitos. Muitos gestores poderiam buscar inspiração em ícones da administração, e, para tal, convidariam seus pares a visitar essas literaturas formais. O Seis Sigma, em sua fase de definição, convida os gestores das empresas a usarem ferramentas simples e visuais, como gráficos de Pareto e gráficos de acompanhamento, ou até outras um pouco mais elaboradas, entretanto abordadas de maneira simplificada, como a ferramenta Desdobramento da Função Qualidade, e engloba muito dos conceitos administrativos modernos em uma abordagem simples e clara. Seguem-se então as fases de Medição, Análise, Melhoria e Controle, todas essas metodologicamente estruturadas. Por fim, segue-se uma etapa de valorização, onde os até então considerados céticos dos programas de melhorias, os responsáveis financeiros, são convidados a validar economicamente os projetos. Esta etapa, que num primeiro momento pode dar um caráter mercenário ao programa, por fim dá a ele sustentação. Cabe ao responsável financeiro a validação dos ganhos e as economias geradas pelos projetos. Neste momento, são reforçados os laços entre os responsáveis pelo programa e a alta administração da companhia, em um círculo virtuoso de incentivo e retorno, retorno e incentivo. Mais ainda, o programa Seis Sigma não possui uma forma definida, um padrão. Ele possui, sim, um núcleo definido, e cabe à companhia que pretende implantá-lo moldar um formato final que

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esteja de acordo com a cultura da organização, outro fator primordial para que o programa se estabeleça de forma sólida e duradoura. Por outro lado, o programa Seis Sigma, por ser um programa de desenvolvimento de projetos multidisciplinares e multifuncionais, gera uma sinergia entre várias áreas da companhia, promovendo a geração e a disseminação do conhecimento. Não há mais detentores de ilhas de conhecimento. São recompensados os indivíduos que, pelo contrário, disseminam idéias e obtêm resultados nas mais diversas áreas. Pode-se concluir, então, que o programa Seis Sigma, guardadas as devidas proporções, possui o efeito de uma instituição geradora e multiplicadora de conhecimento, com uma característica peculiar, que é a clara conexão entre as diretrizes superiores e a aplicação prática das idéias, para a obtenção de retorno dos projetos concluídos. Isto não dá ao programa uma frieza numérica; ele simplesmente valoriza as aplicações práticas e bem-sucedidas, reservando as concepções teóricas aos seus fóruns específicos – no caso, as próprias universidades. Falta-nos, no entanto, uma sistematização adequada deste conhecimento, desta linha de pensamento que se desenvolveu e continua evoluindo no mercado. Falta-nos entender melhor o programa Seis Sigma e, por meio da aplicação dos conhecimentos sistemáticos das instituições de ensino, preparar novas gerações de engenheiros para que, no futuro, possam criar novos e mais eficientes programas.

a Colorado Springs, Air Academy, 4 ed. MAXIMIANO, A. C. A., 1997, Administração de Projetos: como transformar idéias em resultados. São Paulo, Atlas. PRADO, D., 1998, Planejamento e Controle de Projeto. Belo Horizonte, EDG. WERKEMA, M. C. C., 2000, “Estratégia para aumentar a lucratividade”, BANAS Qualidade, ano x, n. 103, pp. 138-143.

* Ricardo da Silva Moura é engenheiro eletricista e mestre em Engenharia de Produção (Ufam). Atua na indústria eletroeletrônica desde 1986, dedicando-se ao Programa Seis Sigma a partir de 1998. Certificado pela Air Academy Associates nos EUA como Master Blackbelt, atua como instrutor e coordenador do programa Seis Sigma em uma multinacional do PIM. É professor universitário desde 1997.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BREYFOGLE, F. W., 1999, Implementing Six Sigma: Smarter Solution Using Statistical Methods. Austin, Wiley-Interscience Publication. CASAROTTO Fo., N. et al., 1999, Gerência de Projetos / Engenharia Simultânea. São Paulo, Atlas. KIEMELE, M. J., SCHMIDT, S. R., BERDINE, R. J., 1997, Basic Statistics: Tools for Continuous Improvement.

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Desenvolvendo Competências Tecnológicas em Uma Empresa do Pólo Industrial de Manaus

DESENVOLVENDO COMPETÊNCIAS TECNOLÓGICAS EM UMA EMPRESA DO PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS Nilson Pimentel* I. INTRODUÇÃO Estudos sobre o desenvolvimento econômico regional no Amazonas têm de passar por análises de características e variáveis que fundamentaram o projeto econômico de desenvolvimento Zona Franca de Manaus (ZFM). Também, e principalmente, devem estudar os espectros resultantes das variáveis tecnológicas e das técnicas de gestão utilizadas que possibilitaram que o setor industrial atingisse o estágio atual e as trajetórias tecnológicas percorridas, do conjunto de indústrias implantadas no Pólo Industrial de Manaus (PIM). No Brasil, o crescimento do setor industrial permitiu evoluir de uma economia agrarioexportadora para uma economia industrial-urbana diversificada. O processo de substituição de importações ocorreu concomitantemente com a transferência e a introdução de tecnologias, de forma direta ou embutida nas plantas industriais, e nas máquinas e equipamentos presentes no processo de instalação da base industrial brasileira (MCT, 2001). No PIM, não foi diferente. No princípio, adoção de intensividade de trabalho, aquisição de pacotes tecnológicos fechados para simples montagens, produtos destinados exclusivamente ao carente mercado interno fechado, possibilitaram uma certa especialização em linha de montagem simples, dando start para o desenvolvimento de competência tecnológica na nascente indústria eletroeletrônica do Amazonas (Tigre, 1988; Ariffin e Figueiredo, 2003). Só mais recentemente, início dos anos de 1990, quando se tornou evidente que as principais tecnologias modernas não estão facilmente disponíveis para a transferência como estiveram outrora, é que se despertou, principalmente na comunidade tecnológica e em alguns setores do

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meio industrial, para a importância de o Brasil (MCT, 2001) e, particularmente o PIM, disporem de capacidade própria de Pesquisa, Desenvolvimento & Engenharia. A incipiente economia amazonense possui esse Pólo Industrial que comporta indústrias em vários estágios de aprendizagens tecnológicas e que produzem produtos de fronteira tecnológica. Contudo, como importante fator para a competitividade empresarial, ainda é desconhecido por grande número de empresas, técnicos e instituições de interesse no desenvolvimento regional. Tendo passado os últimos 25 anos de trabalho profissional fiscalizando os Processos Produtivos Básicos (PPB), engenharias de processos e produtos, nas indústrias incentivadas pelo governo do Estado, não poderia deixar de relatar essa experiência, dado meu interesse tecnicoprofissional, com a realização de pesquisa que resultou num estudo acadêmico sobre a trajetória de acumulação de competências e os processos subjacentes de aprendizagem tecnológica em uma empresa implantada no PIM, sujeita às mesmas regras das demais indústrias da ZFM. Como sendo uma das pioneiras indústrias implantadas do PIM, que desenvolveu significativo nível de competência tecnológica, não poderemos identificá-la neste artigo, apresentando-a como Manufacturing Case, um caso real, podendo servir como base factual para as demais indústrias do Pólo, interessadas no estudo de desenvolvimento de trajetórias de acumulação de competências tecnológicas como fator primordial de competitividade global. II. MANUFACTURING CASE, UM CASO REAL Questionamo-nos que gestores devem pensar constantemente na importância que pode ter, para a construção do conhecimento, cada uma das decisões que eles tomam com relação à tecnologia (Nonaka e Takeuchi, 1997). Tais decisões devem partir da compreensão da natureza duradoura, sistêmica e social, que é inerente às vantagens

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tecnológicas, como ponto de partida para gerir o conhecimento numa organização, compreendendo as aptidões estratégicas, o que neste caso real, as competências tecnológicas estratégicas, por tratar-se de uma indústria que tem por base a tecnologia da eletrônica e com desenvolvimento de conhecimento tácito na sua mão-de-obra local. Todas as organizações que operam no PIM passam por limitações estratégicas que têm origem nas mesmas atividades que geram as aptidões estratégicas, sob várias formas. As próprias atividades, a solução de problemas, a implementação de novos processos, a experimentação e a importação de conhecimento externo à empresa – são essencialmente inevitáveis no desenvolvimento de novos produtos. A gestão dessas atividades determina se elas favorecem ou inibem o livre fluxo de conhecimentos. Podemos afirmar que o sucesso de empresas de fronteira tecnológica ou de ponta deve-se às suas habilidades técnicas na criação de conhecimento organizacional, isto é, à capacidade que uma empresa tem de criar novo conhecimento, disseminá-lo na organização e incorporá-lo a produtos, serviços e sistemas (Nonaka e Takeuchi, 1997). Para entendermos o conhecimento humano, em termos da variável tecnologia, cabe classificá-lo em dois tipos. Um é o conhecimento explícito, que pode ser articulado na linguagem formal, inclusive em afirmações gramaticais, expressões matemáticas, especificações técnicas, manuais, folhetos e assim por diante. Esse tipo pode ser transmitido formal e facilmente entre os indivíduos. O outro, o conhecimento tácito, difícil de ser articulado na linguagem formal, é o tipo de conhecimento mais importante, é pessoal, incorporado à experiência individual e envolve fatores intangíveis como, por exemplo, crenças pessoais, perspectivas e sistema de valor. Essas duas estruturas básicas se complementam, sendo mais importante a interação entre essas formas de conhecimento como a principal dinâmica da criação do conhecimento na organização de

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negócios (Nonaka e Takeuchi, 1997). Assim, o indivíduo interage com a organização por meio do conhecimento, sendo que a criação dele ocorre em três níveis: no indivíduo, no grupo e na organização. Portanto, essa criação do conhecimento organizacional tem dois componentes principais: as formas de interação e os níveis de criação. Senão, veja nesse caso real. A empresa holding em São Paulo acreditava que era preciso desenvolver tecnologia e não ser apenas um usuário dependente. Com esse determinante, no ano de 1976 cria no Sudeste o Departamento de Engenharia e Desenvolvimento de Produtos, objetivando desenvolver atividades de P&D para sua empresa instalada no Pólo Industrial de Manaus. Em 1982, com sua segunda fábrica instalada em Manaus, expandiu as linhas de produtos e se tornou pioneira ao produzir videocassete com modificações tecnológicas no Brasil, fora de outras empresas que utilizavam a mesma base tecnológica, localizadas nos Estados Unidos e no Japão. Em meados de 1984, passa a produzir a primeira video-câmera no Brasil, como projeto de adaptações tecnológicas para atender padrões e normas técnicas nacionais, desenhado e projetado pela Engenharia de Desenvolvimento da empresa do PIM. No final dos anos de 1980, desenhava-se um novo paradigma tecnológico e organizacional com a incorporação da eletrônica e da informática nos processos produtivos e a adoção de novas técnicas de gestão, objetivando produtos com maior valor agregado. Percebendo haver uma separação enorme em distância e tempo, que isolava os engenheiros de projetos e os de fabricação da planta fabril em Manaus, a empresa-holding transfere para a fábrica do PIM a Engenharia de Produtos, buscando melhor interação entre o que estava sendo projetado e o que poderia ser produzido, tendo como resultante a redução de tempo, desde o desenvolvimento do produto até sua produção, além de uma expressiva melhoria da qualidade e

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uma significativa redução de custos. Com uma avançada política de valorização do capital intelectual, a empresa desenvolve seu projeto de pesquisa e desenvolvimento científico, com dez das mais conceituadas instituições de ensino e pesquisa do País, buscando integrar o esforço de pesquisas nessas universidades com as áreas avançadas de engenharia de produtos e processos da empresa em Manaus. No fim dos anos de 1980, a empresa lança no mercado um novo videocassete, desenvolvido quase que integralmente pela equipe da Engenharia e de P&D, e é agraciada com distinção em design e notoriedade pela imprensa especializada, à época. Objetivando melhoria na qualidade e a redução de defeitos em PCIs, num esforço conjunto de três empresas do grupo, é desenvolvido o primeiro circuito integrado com tecnologia totalmente nacional, dedicado aos aparelhos de videocassete. No início dos anos de 1990, a empresa busca a direção de novas trajetórias de competências tecnológicas e gerenciais, onde técnicas como reengenharia, qualidade total, kanban, just in time, corte de níveis hierárquicos e outras técnicas passam a fazer parte do cotidiano gerencial da fábrica. E, diante desse cenário, o grupo empresarial se prepara para conviver com a nova realidade da economia mundial – a globalização, quando, então, formaliza uma joint venture com uma grande empresa americana da área de informática. Diante da velocidade com que começaram a surgir no mundo, no paradigma da tecnologia da informação, novos produtos e novas técnicas de produção, a empresa inicia um projeto denominado world manufacturing, objetivando consolidar conceitos tecnológicos mundialmente aceitos e intensificá-los na planta fabril de Manaus, sendo capaz de coexistir com seu estoque de capital intelectual, capacitando-o em competitividade mundial com técnicas modernas em automação de manufatura, com o objetivo de atingir a excelência internacional.

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Após a abertura do mercado brasileiro à competitividade globalizada, o grupo empresarial adota mecanismos avançados para suas indústrias do Pólo Industrial de Manaus, destinadas à melhoria da qualidade contínua dos aparelhos aqui fabricados, instalando um laboratório industrial de confiabilidade no Estado do Amazonas. A empresa, atenta à crescente oferta e ao desenvolvimento de novos produtos, reconhece cada vez mais a importância da engenharia e de P&D no processo de fabricação de seus produtos. Percebe que os fatores de êxito estão na forma integrada da estrutura de fabricação e de projetos, e nota que o projeto voltado para a industrialização dependia muito da melhoria na comunicação entre estas duas funções. Então, transfere toda a estrutura da engenharia de desenvolvimento de produtos do Sudeste para a fábrica em Manaus. A partir dessa mudança, todos passam a trabalhar com um objetivo único, integrando todas as fases de criação, de manufatura e de produto final, com inovações que romperam paradigmas formados ao longo de anos. Tratar da gestão de bens cognitivos na empresa, de modo geral, é gerenciar processos de aprendizagem de conhecimentos com indivíduos e sistemas organizacionais, formando base para o desenvolvimento de inovações tecnológicas (Leonard-Barton, 1998). Sabe-se que as trajetórias de aprendizagem tecnológicas são diferenciais competitivos que distinguem uma empresa de outra. Também há a existência de assimetrias entre empresas, em termos de suas tecnologias de processo e qualidade de produto. Isto é, firmas podem geralmente ser classificadas como “melhor” ou “pior” de acordo com sua distância da fronteira tecnológica. Portanto, a gestão desses bens estratégicos determina a capacidade da empresa de sobreviver, adaptar-se e competir tecnologicamente no mercado globalizado (Leonard-Barton, 1998). A competência tecnológica será definida como sendo recurso necessário para gerar e gerenciar mudança tecnológica, incluindo habilidades, conhecimento e sistemas organizacionais.

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Especificamente, competência tecnológica referese às habilidades da empresa para implantar aprimoramentos internos em diferentes funções, tais como processo e organização da produção, produtos, equipamentos e investimentos. Essas aptidões estratégicas na empresa se fundamentam na tecnologia, e se complementam com base em vantagens tecnológicas. Sem embargo de outras aptidões, identificamse aptidões tecnológicas estratégicas como sistemas orgânicos interdependentes, que são originados ao longo do tempo, e no decorrer desse mesmo tempo podem ser desenvolvidos e assimilados pela organização. Pois, para que o conhecimento possa ser comunicado e compartilhado dentro da organização, o conhecimento tácito terá que ser convertido em palavras ou números que qualquer pessoa possa compreender. Como descreve Herbert-Copley (1990), a recepção da informação e dos meios não significa aquisição de capacidade tecnológica. A capacidade de usar com eficácia determinada tecnologia resulta da capacidade dos usuários – pessoa ou organização – e o grau de compreensão necessário tem a ver com o fim almejado pelo emprego da tecnologia. Os conhecimentos tecnológicos não são facilmente imitados, transferidos ou redirecionados de uma hora para outra. As empresas sobreviviam graças à sua capacidade de se adaptarem quando necessário. Contudo, uma adaptação bemsucedida parece envolver o redirecionamento incremental, criterioso, de habilidades e bases cognitivas, de modo que os talentos de hoje se transformem nas aptidões de amanhã. O mecanismo primordial para a criação e o aprimoramento de aptidões tecnológicas é o desenvolvimento de novos produtos e processos, e é nesse contexto de desenvolvimento que exploramos a gestão do conhecimento nas organizações. As aptidões “estratégicas” constituem uma vantagem competitiva para a empresa, tendo sido estabelecidas gradualmente ao longo do tempo e que não podem ser facilmente imitadas. As companhias que se baseiam na tecnologia não

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podem competir se não dispuserem de aptidões industriais que estejam pelo menos em pé de igualdade com as de seus concorrentes. Todavia, tais aptidões somente serão estratégicas se incorporarem conhecimentos explicativos, não disponíveis em fontes públicas, e forem superiores às dos concorrentes (Nonaka e Takeuchi, 1997). Visto o caso real, específico da empresa em questão, no contexto do PIM, que a fase inicial do processo de industrialização se deu por meio de pacotes tecnológicos, feito kits de montagem simples de componentes singelos, em que a utilização de mão-de-obra era intensiva, chegando ao requinte da especialização do processo de linha de montagem simples. No projeto de desenvolvimento regional – Zona Franca de Manaus –, por quase duas décadas as empresas do PIM desenvolveram significativa especialização em processos de montagem, aproveitando as habilidades e aptidões da mãode-obra local. Porém, não foi suficiente para o desenvolvimento de competências tecnológicas locais. No entanto, é improvável que, mesmo excelentes operações de montagens, constituam uma aptidão tecnológica estratégica, uma vez que o teor do conhecimento (inclusive de máquina) requerido para que tais operações tenham um desempenho de máxima qualidade esteja disponível para todos os concorrentes. No contexto regional, podemos fazer analogia com certos aspectos da aquisição de capacidade tecnológica. Na história humana, a assimilação de tecnologias inventadas no estrangeiro tem sido importante para a elevação dos padrões de vida de populações. A diferença entre a idade moderna e épocas anteriores é que, embora existindo maior disparidade de nível tecnológico entre países, há também maior facilidade de comunicações e transporte. Essa maior facilidade aumentou as vantagens aparentes e reais da aquisição de tecnologias estrangeiras; daí a crescente importância da transferência de tecnologia nas discussões sobre desenvolvimento. A questão da trajetória de aprendizagem

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tecnológica, envolvendo componentes da aquisição de tecnologias estrangeiras por países em desenvolvimento, como no caso do Brasil e em particular, nas empresas do PIM, tem que levar em consideração a variável política e regulações econômicas adotadas por governos quanto à proteção de mercado de bens e serviços, como estímulos à absorção da mão-de-obra local. No PIM, as empresas tiveram e têm como aspecto relevante os incentivos fiscais que permitem a redução da incidência de impostos, facilitando o fluxo de kits tecnológicos, inclusive com todos os componentes, processos e demais codificações para o processo de montagem, amarrando todo o fluxo, não induzindo a transferência de tecnologia, com raras exceções caracterizando prática comum. Em muitos países em desenvolvimento, o governo adotou medidas “defensivas” – isto é, medidas para o controle contratual de transferências de tecnologia – a fim de compensar as diferenças do poder de negociação e proteger o desenvolvimento da capacidade tecnológica local. Embora essas regulações tenham ajudado a reduzir o preço e melhorar as condições de influxo contratual, podem também ter afetado a natureza da tecnologia estrangeira que podia ser importada. Os fornecedores estrangeiros de tecnologia não se mostram dispostos a vender quando consideram que seu retorno será muito baixo. Além disso, o investimento estrangeiro direto é, muitas vezes, o único meio de obter acesso às propriedades tecnológicas cuidadosamente guardadas. Não se pode afirmar com clareza que a regulamentação dos influxos formais tenha estimulado o desenvolvimento da capacidade local. Esse desenvolvimento requereu um esforço tecnológico por parte das empresas locais. Esforço este que não é assegurado mediante regulamentação das importações de tecnologia ou por meio de proteção contra as mesmas (MCT, 2001). Entende-se tecnologia como sendo um método de fazer alguma coisa, identificando-se nesse método três elementos básicos: a) a informação sobre o método; b) o meio de empregá-lo, e c) a

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compreensão do mesmo. A informação e o meio de empregar o método podem ser até transferidos, mas a compreensão só pode ser adquirida mediante estudos e experiências. No caso do projeto de desenvolvimento regional – ZFM – notadamente no PIM, a capacidade de produção não foi adquirida pela importação passiva da tecnologia. Exigiu participação e considerável esforço local para dominar o uso da tecnologia e não deixar que permaneça como uma “caixa preta” por parte de algumas empresas. Contudo, a grande maioria não demonstra capacidade nem esforço interno para tirar proveito da “caixa preta” e por não compreender como ou por que ela funciona como parece funcionar. Isto prejudica a capacidade de melhoria na produtividade ou de se adaptar às mudanças circunstanciais. Denota-se que o aumento da capacidade local, adquirida por meio de transferências de tecnologia, reflete-se em outras atividades correlatas, facilitando maior participação local em transferências subseqüentes de tecnologias correlatas e aumentando sua assimilação efetiva. Qualquer projeto acarreta boa dose de receptividade na solução de problemas e na experimentação, à medida que o conceito original é aperfeiçoado e recebe expressão prática. Certos elementos da tecnologia adequada ao projeto são desenvolvidos, aplicando-se o conhecimento tecnológico e os princípios de engenharia a circunstâncias locais especificas. Pode até haver pequenas inovações ou adaptações da tecnologia que está sendo implementada. A apresentação dos processos de aprendizagem da empresa estudada foi baseada na estrutura desenvolvida, que desagrega processos de conversão do conhecimento em processos de socialização e de codificação desse conhecimento. O processo de socialização do conhecimento foi dividido em conhecimentos externos e internos. A exploração das implicações dos processos de aprendizagem para as trajetórias de acumulação de competências tecnológicas foi descrita à luz da estrutura a seguir especificada (Leonard-Barton, 1998).

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III. PROCESSOS DE SOCIALIZAÇÃO DO CONHECIMENTO Os processos de socialização de conhecimento são processos pelos quais os indivíduos partilham seu conhecimento tácito (modelos mentais e habilidades técnicas). Em outras palavras, quaisquer processos formais ou informais por meio dos quais o conhecimento tácito é transmitido de um indivíduo ou grupo de indivíduos para outro. O processo de socialização de conhecimento ocorre em nível organizacional. Como sabemos, uma organização não pode criar conhecimento por si só. O conhecimento tácito mobilizado é ampliado “organizacionalmente” por meio dos quatro modos de conversão do conhecimento, combinação, socialização, externalização e internalização, sendo cristalizados em níveis ontológicos superiores. Chamamos isso de “espiral do conhecimento”, na qual a interação entre conhecimento tácito e conhecimento explícito terá uma escala cada vez maior, na medida em que subirem os níveis ontológicos. Assim, a criação do conhecimento organizacional é um processo em espiral que começa no nível individual e vai subindo, ampliando comunidades de interação que cruzam fronteiras entre seções, departamentos, divisões e organizações (Nonaka e Takeuchi, 1997) (Gráfico I). Quando são internalizadas nas bases do conhecimento tácito dos indivíduos, sob a forma de modelos mentais ou know-how técnico compartilhado, as experiências por meio da socialização, externalização e combinação tornam-se ativos valiosos e intangíveis para a organização (Toffler, 1994). Em um futuro não muito distante, a alta gerência será avaliada não apenas pelas medidas de desempenho econômico, também pela qualidade de visão do conhecimento que apresentar aos elementos, tanto de dentro quanto de fora da empresa. A transição para a sociedade do conhecimento certamente acelerará essa mudança. Alguém no topo terá de ser capaz de ver o mundo da perspectiva do conhecimento, mobilizar o poder do conhecimento latente mantido dentro da organização e justificar o conhecimento

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Desenvolvendo Competências Tecnológicas em Uma Empresa do Pólo Industrial de Manaus TABELA I - FUNÇÕES TECNOLÓGICAS E ATIVIDADES RELACIONADAS

NÍVEIS DE COMPETÊNCIAS TECNOLÓGICAS

Investimentos, Planta e Engenharia de Processos

BÁSICO

Decisão da localização da planta, trabalhos de construção civil e instalações.

Implementação dos processos segundo codificação, PCP e ISO, planejamento por lotes, inventários anuais.

Fabricação de produtos codificados (conforme projeto adquirido).

Inserção manual de componentes com linhas de montagem.

RENOVADO

Serviços de engenharia industrial na planta e investimento básico em controles de produção.

Melhoria de processos com a adoção de ferramentas específicas (MASP,CEP,CCQ,etc), utilização do MRP.

Desenvolvimento de novos fornecedores para itens críticos e trabalhos de redução de custos.

Inserção automática de jumpers e componentes axiais.

INTERMEDIÁRIO

Investimentos em engenharia de desenvolvimento de produtos, expansão da planta sem assistência técnica.

SUPERIOR

Elaboração e execução própria de desenvolvimento de projetos de produtos e novos sistemas de produção.

AVANÇADO

Engenharia de classe mundial, novas tecnologias e P&D relacionados.

Processos e Organização da Produção

Produtos

Equipamentos

ROTINA

INOVADORAS Expansão dos processos existentes e ISO 14000, utilização de inventário rotativo, acuracidade dos estoques em 90%, MRP II, redução do tempo de transporte.

Promoção de melhorias com pequenas adaptações e aplica engenharia reversa.

Inserção automática de componentes radiais otimiza rotas de inserção de componentes, desenvolvimento de Jigs de teste na produção.

Desenvolvimento de Inserção automática de Desenho de novos processos dentro componentes SMD, novos designs e da tecnologia existente e manutenção desenvolvimento seis sigma, utilização de preventiva nos de produtos contagem cíclica, equipamentos, utilizando a implantação de sistema implantação de tecnologia integrado dos laboratório de teste e existente, atinge procedimentos (ERP), confiabilidade de manufatura classe acuridade de estoques produtos. mundial. em 98%. Eliminação da Desenvolvimento Desenvolvimento e inserção manual de de novos automatização de componentes, produtos através processos, vendendo monitoração do assistência técnica, automatizada dos desenvolvimento implantando supply equipamentos do de novas chain, CRM. processo produtivo. tecnologias.

Fonte: Elaboração do autor

Gráfico II GRÁFICO DA TRAJETÓRIA DE DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS TECNOLÓGICAS

COMPLEXIDADE DE TECNOLOGIA

TIPOS DE CAPACIDADE TECNOLÓGICAS

FRONTEIRA TECNOLÓGICA

DESENVOLVIMENTO E IMPLEMENTAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS GERENCIAMENTO DE PROJETOS COM CAPACIDADE DE REPLICAR, IMPLEMENTAR E DESENVOLVER TECNOLOGIAS EXISTENTES

ACUMULAÇÃO DE CAPACIDADE TECNOLÓGICA

1970

1973

1976

1980

1983

UNIVERSO TECNOLÓGICO

1986

1990

1993

1996

1998

DESIGN, ENGENHARIA, GERENCIAMENTO, CAPACIDADE DE IMPLEMENTAR PRODUTOS E PROCESSO. CAPACIDADE DE USAR E OPERAR TECNOLOGIAS EXISTENTES

2000

ANO

TRAJETÓRIA DA EMPRESA ESTUDADA

Fonte: Elaboração do autor

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Para tornar-se capaz de evoluir na sua capacidade de desenvolvimento tecnológico, incorporando tecnologia própria à sua produção industrial, visando basicamente a aumentar o valor agregado de seus produtos, a empresa instala a Engenharia de Desenvolvimento de Produtos, que passa a concentrar esforços na capacitação tecnológica interna, ajustada à visão de “criar” o futuro, por meio de uma acelerada busca de atualização tecnológica com muita determinação e um constante aprendizado. Desde a sua criação, a Engenharia de Desenvolvimento de Produtos sempre esteve voltada a desenvolver a capacitação interna em projetos, evitando a importação do trabalho intelectual de alto valor agregado, face aos custos dos demais insumos, além ainda de se colocar sempre em defesa da posição de que é preciso desenvolver tecnologia interna e não apenas ser um usuário dependente. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), “os recursos nunca são os ‘insumos’ do processo de produção, mas sim os serviços que podem ser gerados pelos recursos. Os serviços são uma função da experiência e do conhecimento acumulado dentro da empresa e, portanto, específicos à empresa. Em essência, a empresa é um repositório de conhecimentos”. V. CONCLUSÃO A empresa em análise, acreditando que o seu maior ativo está no potencial intelectual interno, na inteligência, na geração e valorização do conhecimento, passa a investir na formação e especialização de seus profissionais, buscando desenvolver talentos, por meios do estreitamento das relações com o mundo acadêmico, institutos de pesquisas e com os centros de tecnologia da empresa-mãe internacional, criando assim a integração do seu setor produtivo com o de P&D ampliado em pesquisas, objetivando maior competitividade global de seus produtos. Nesse estudo, sem embargo de outras evidências empíricas, foram demonstradas as trajetórias percorridas para que a empresa

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analisada pudesse desenvolver um nível de competências tecnológicas up grade no estado d’arte da tecnologia eletroeletrônica no Pólo Industrial de Manaus. Tem-se que as ações explícitas internas à empresa tendem ao aumento da capacidade tecnológica inovadora, que pode ser argüido, por esferas de governo e planejadores privados, em favor do desenvolvimento tecnológico de empresas em Pólo Industrial de regiões em desenvolvimento econômico regional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIFFIN, N., FIGUEIREDO, P. N., 2003. Internacionalização de Competências Tecnológicas. Implicações para estratégias governamentais e empresariais de inovação e competitividade da indústria eletrônica no Brasil. Rio de Janeiro, Editora FGV. BOWONDER, B., MIYAKE, T., 1994. “Globalization, alliances, diversification and innovation: a case study from Hitachi Ldt”. Creativity and Innovation management. FLEURY, A. C., FLEURY, M. T. L., 1995. Aprendizagem e Inovação Organizacional. Editora Atlas. FRISCHTAK, C. R. et al., 1994. Viabilização da Zona Franca de Manaus [mimeog.]. HERBERT-COPLEY, B., 1990. Technical change in Latin American manufacturing firms: review and synthesis. World Development. KIM, L., 1997. Imitation to Innovation: the dynamics of Korea’s technological learning. Boston, MA, Harvard Business School Press. LEONARD-BARTON, D., 1998. Nascente do Saber. Criando e sustentando as fontes de inovação. Editora Fundação Getulio Vargas. NONAKA, I., TAKEUCHI, H., 1997. Criação de Conhecimento na Empresa. Como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. 3ª ed., Editora Campus. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2001. Programa Tecnologia Industrial. Brasília, Gráfica Imprinta. PRAHALAD, C. K., HAMEL, G., 1997. Competindo

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pelo Futuro. Editora Campus. SOUZA, R. D. F., 2000. “Tecnologia Industrial Básica como fator de Competitividade”, o Revista Parcerias Estratégicas, n . 8, maio. TIGRE, P. B., 1988. “Business strategies in the Brazilian electronics industry”. In: Piragibe, C. [org.]. Electronics industry in Brazil: current status, perspectives and policy options. Brazil, Center of Studies in Scientific and Technological Policy, Ministry of Science and Technology. TOFFLER, A., 1994. Powershift: As Mudanças do Poder. Rio de janeiro, Editora Record. WOMACK, J., JONES, D. T., ROOS, D., 1992. A Máquina que mudou o mundo. Editora

* Nilson Pimentel é engenheiro mecânico (Utam), administrador de empresas e economista (Ufam), pós-graduado em Planejamento Estratégico e MBA in Management (FGV), em Engenharia Econômica (Coppe/Ufrj) e em Consultoria Industrial (Unicamp); é mestre em Gestão Empresarial e Pública (FGV) e técnico de incentivos fiscais/Seplan-Am. É consultor industrial desde 1982. E-mail: nilsonpimentel@uol.com.br.

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COM A PALAVRA, A EXPERIÊNCIA Dois ex-superintendentes da Suframa, Delile Guerra de Macedo e Antonio Sérgio Martins Mello, falam sobre sua passagem frente à autarquia e sua visão das alterações do panorama local em conseqüência do modelo Zona Franca de Manaus. Delile Guerra* – Na minha primeira passagem pela região, como secretário de Planejamento do Estado do Amazonas, no início da década de 1970, a industrialização era incipiente. Limitava-se a velhas fábricas de beneficiamento de borracha, castanha e pau-brasil. Voltei como superintendente da Suframa na década de 1980. O setor industrial já era um setor pujante, mas mesmo assim a mão-de-obra especializada continuava vindo quase toda de outras regiões do País, principalmente do centrosul, e do exterior. Com a expectativa de ampliação do prazo de vigência da ZFM através da nova Constituição, em elaboração à época, percebemos a importância de se criar e desenvolver um parque industrial com inovação tecnológica, que tivesse uma compatibilidade e uma integração entre a universidade, a sociedade e as instituições de pesquisa e de trabalho existentes, estruturando uma base simples - mas importante - de tecnologia e de componentes. Com esse objetivo, fizemos, inclusive, estudos no sentido de criar um distrito de alta tecnologia. Se no início a ZFM era só de importações de material e de componentes, e aqui fazia-se uma junção, isto evoluiu para uma maior especialização. Há uma certa tecnologia. É necessário, para que o processo dê certo, agora com a perspectiva de permanência no tempo até 2023, que se busque aprimorar mais essa aproximação entre inovação tecnológica, as instituições de pesquisa, universidades e as entidades que têm responsabilidade na condução do modelo pelo governo estadual, a própria

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Com a Palavra, a Experiência

Suframa, a Fucapi etc. Se, à minha época, mesmo a peso de ouro era difícil trazer os profissionais para Manaus, hoje já existe a formação local, proporcionada por mais de 20 universidades e escolas reunidas existentes na cidade, formando contingentes de técnicos em todas as áreas e profissionais de importância e de alta relevância para a ZFM, a Amazônia Ocidental e para o próprio País. A experiência para minha vida profissional foi muito boa, não só por ter acompanhado essa evolução, mas de participar diretamente nesse processo. Acrescentou muito a convivência no trópico, de ver surgir, a uma distância colossal dos centros de produção do País, um pólo industrial pujante e a formação de recursos humanos locais. Isso agregou muito. Não só o conhecimento da realidade, mas principalmente da possibilidade do desenvolvimento nacional a partir da Região Norte do País. Sem dúvida, será uma realidade futura, porque os recursos minerais de outras regiões estão esgotando e aqui estão apenas começando a ser explorados. Está tudo por vir. E será importantíssimo porque vários deles são renováveis, como o peixe e a madeira. Pode-se fazer a exploração dessa enorme riqueza sem desperdício e destruição para as gerações futuras. Entendo que, atualmente, qualquer administrador público deve buscar na expressiva riqueza desse Estado as condições para uma industrialização permanente, inclusive para exportação. A descentralização do desenvolvimento só pode ser alcançada pela descentralização também da atividade administrativa e financeira. Não é possível se resolver o que é bom para uma região a partir de Brasília e é importante eu frisar isso. Quando eu fui superintendente, a função tinha responsabilidades grandes. Existia autonomia para resolver quase tudo. O governo federal, em qualquer processo de planejamento de desenvolvimento, tem que adotar a descentralização com responsabilidade,

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mantendo a função de acompanhamento. Infelizmente, por meio da Constituição, os poderes tornaram-se muito concentrados. Mas é muito difícil desenvolver uma região tomando-se as decisões em Brasília. As pessoas que vivem na região são as mais competentes para definir o que querem e as metas para seu desenvolvimento futuro. O governo federal deveria ajudar, descentralizando e restringindo-se às atividades de compatibilização, coordenação e apoio. O que mais me impressiona, ao longo de todo esse tempo, e sempre que tenho a oportunidade de voltar a Manaus, é a mudança da mentalidade do povo. Algo que veio por meio da educação, de todo o processo educativo, e que implicou na melhoria da qualidade de vida associada ao bemestar econômico da população. À minha época como secretário estadual, Manaus era uma cidade acanhada. No segundo momento, à frente da Suframa, já era uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Hoje é uma cidade caminhando para 2 milhões de habitantes. E o que é que se pode sentir de maior mudança? É a maneira dos políticos, da comunidade, da sociedade, dos técnicos e profissionais sentirem a região e a integração do Brasil. E a educação foi muito importante em todo esse processo. Eu acho que a mudança foi grande, muito grande durante esse tempo. Em percepção, em conhecimento da realidade; em conhecimento do Brasil e do mundo. Antonio Sérgio**– O Pólo Industrial de Manaus é um bom exemplo de política de desenvolvimento regional bem-sucedida. A distribuição regional da riqueza requer esforço constante de conquista. A tendência natural é que os investimentos sejam direcionados para onde estão localizadas as elites intelectuais e econômicas do País. A atração de investimentos para as regiões distantes dos centros que concentram e lideram os investimentos requer um grande esforço de mobilização, normalmente amparado por políticas públicas.

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Com a Palavra, a Experiência

A história da Zona Franca de Manaus passa pela visão de implantar modelo de desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental e intensivo em relação à geração de emprego e renda. O projeto teve como principal objetivo a ocupação de região de elevado conteúdo estratégico em função das riquezas naturais, de baixa densidade demográfica e de grande interesse internacional. A Zona Franca foi criada no final dos anos de 1960, período em que o Brasil, a exemplo de outros países da América Latina, vivia a fase da substituição das importações. O conceito, à época, era desenvolver a produção nacional, ainda que isso significasse, inicialmente, a não-observância dos padrões internacionais de preço e qualidade. Houve, no início, um período de grande desenvolvimento para a região, estimulado pelo turismo de compras. O processo avançou pelas décadas de 1970 e 1980. Já em meados da década de 1980 o modelo comercial começou a perder vitalidade em função de outras opções de compras de produtos importados, tal como a fronteira do Brasil com o Paraguai. A redução do fluxo de turistas gerou transtornos para a economia da região. Nesse período, no entanto, houve a transição do comércio, como principal fonte de emprego, para a indústria, que chegou a empregar mais de 90 mil pessoas. O período crítico do modelo ocorreu em 1990, quando iniciou o processo de abertura comercial do País. Essa fase foi marcada pelas incertezas quanto à sobrevivência da Zona Franca. A exposição do País à concorrência externa requeria, naquele momento, que houvesse profunda reestruturação produtiva da indústria brasileira. O pólo de Manaus padecia do natural custo de produção decorrente da logística de distribuição e também do elevado processo de nacionalização exigido à época, que onerava o custo da produção interna, reduzindo o nível de competitividade dos bens finais produzidos na Zona Franca. Essa conjuntura exigiu rápido esforço de adaptação das empresas às novas exigências de

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produtividade e de qualidade. O ajuste estrutural se tornou irreversível. As indústrias tiveram que rever seus processos produtivos. Implantaram os modernos métodos de gestão e se ajustaram às novas regras. O governo propôs ao Congresso a revisão das exigências de nacionalização e sugeriu a adoção do processo produtivo básico, além de flexibilizar a tributação incidente sobre o imposto de importação, substituindo o coeficiente redutor por uma redução linear de 88% da alíquota do II sobre os insumos importados que fossem incorporados ao produto final (exceto para bens de informática e utilitários). Com a implementação dessas medidas, somada ao esforço do empresariado local, houve um rápido processo de modernização industrial, mostrando o grau de amadurecimento do modelo da Zona Franca. O custo principal foi a queda do patamar de empregos, que girava em torno dos 90 mil, e passou para 50 mil. Em abril de 1999 fui indicado Superintendente da Zona Franca de Manaus. Na época, os riscos estruturais estavam superados, mas a conjuntura mostrava-se adversa por conta da flexibilização do Plano Real via depreciação do câmbio, que criou incertezas para o mercado de bens de consumo duráveis, especialmente aqueles mais dependentes de importação de insumos. A produção de televisores chegou a 4,5 milhões, contra 9 milhões de 1997. Não havia outra saída senão a de promover outra mudança estrutural. Desta vez em relação ao mercado-alvo. O mercado interno não poderia ser mais o objetivo principal. As empresas teriam que voltar parcela importante de suas produções para o mercado externo. O superintendente que sucedi, Dr. Mauro Costa, já na sua gestão priorizou metas de exportação. Mantive o discurso da expansão das exportações e incorporei a temática tecnologia como fatores críticos para o sucesso do modelo. O movimento exportador obteve êxito, sendo que algumas empresas optaram pela Zona Franca

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como plataforma de exportação. Como resultado, as exportações passaram da faixa dos US$ 100 milhões, em meados dos anos de 1990, para mais de US$ 1 bilhão, no ano 2002. O exemplo mais destacado é a Nokia, produtora de telefone celular. Presentemente, no campo tecnológico, há um crescente esforço na região. A política de aplicação de parcela do faturamento das empresas de informática em P&D tem propiciado recursos para investimentos em importantes núcleos tecnológicos. Surgem iniciativas como Genius, Feitoza, Fundação Nokia, CT-PIM, além do desenvolvimento de instituições tradicionais como a Fucapi, a Universidade do Estado, Universidade Federal do Amazonas e outros. O esforço deve ser enaltecido. No entanto, para se obter resultados efetivos deverá haver maior articulação entre as diversas instituições, de modo que haja um movimento convergente na busca da excelência em áreas do interesse do Pólo Industrial. As iniciativas deverão ter uma visão estratégica de médio e longo prazos. Há conscientização generalizada de que a forma de perenizar a indústria de Manaus é por meio do domínio do conhecimento. A experiência internacional nos ensina que os países em desenvolvimento, que conquistaram espaço no mercado mundial, tiveram como fundamento do sucesso, maciços investimentos no capital intelectual. O que se deve buscar é a agregação de valor à produção por meio da atração de investimentos que efetivamente aumentem a produtividade e a competitividade, e que incorporem tecnologias de produtos e de processos compatíveis com o estado da arte da técnica. Evidentemente, tudo isso passa por um aspecto fundamental, que é o investimento na formação e na capacitação de recursos humanos para o desenvolvimento científico e tecnológico. Outro aspecto não menos importante é transformar as potencialidades regionais em emprego e renda para a sociedade local. A biodiversidade tem merecido atenção especial. A

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Suframa, acompanhando o Programa Brasileiro da Biodiversidade (Probem), construiu o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), que pretende reunir talentos que possam desenvolver pesquisas para a exploração sustentada da floresta, atuando de forma estreita com o setor produtivo, de modo a propiciar a devida agregação de valor, na região, dos produtos da biodiversidade. A exploração sustentável dos recursos naturais passa pelo respeito ao conhecimento tradicional, bem como pela busca de mecanismos de inserção econômica das populações tradicionais da Amazônia. Deve-se, ainda, zelar pelo estabelecimento de instrumentos que assegurem a justa repartição de benefícios advindos do uso econômico da biodiversidade. O aproveitamento de resto de madeira também se constitui em importante alternativa de renda para a região. O programa Design Tropical, hoje liderado pela Fucapi, tem se apresentado como opção bem-sucedida. O designer Luiz Galvão, à frente deste projeto, tem desenvolvido trabalhos nos mais distantes municípios do Estado do Amazonas, estimulando o surgimento de talentos na área do artesanato. O programa tem propiciado a geração de renda e criado as condições necessárias para que se inicie um processo crescente de exportação de obras artísticas. Além disso, existe estudo elaborado pela Suframa que mapeou, por microrregião, as potencialidades de aproveitamento dos recursos da fauna e flora locais. A exploração de frutas típicas, como o açaí, o cupuaçu etc. e a sua transformação em polpa, doces, é um bom exemplo de agregação de valor ao que a natureza oferece. Outra experiência positiva é o desenvolvimento da piscicultura na região. O ecoturismo é outra excelente oportunidade de aproveitamento da imagem internacional da Amazônia. O turismo é um setor que gera muitos empregos, além de criar um ambiente propício ao empreendedorismo, como, por exemplo, na área do artesanato. É preciso proporcionar à região, no entanto, infra-estrutura adequada para receber os

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Com a Palavra, a Experiência

turistas. Novamente surge a importância de se investir no material humano, capacitando as pessoas que lidarão com o público. Por fim, não há dúvida de que a Amazônia se apresenta para o mundo como região de maiores oportunidades. Cabe, portanto, uma mobilização de todos os brasileiros no sentido de criar as condições para transformar suas potencialidades em riqueza e renda para o País, de forma sustentada.

* Delile Guerra de Macedo foi superintendente da Suframa entre junho de 1986 e agosto de 1987. **Antonio Sérgio Martins Mello foi superintendente da Suframa entre abril de 1999 e agosto de 2001.

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ENGENHARIA DE PRODUÇÃO CONSOLIDA ATIVIDADES EM MANAUS O prof. Waltair Machado apresenta à T&C Amazônia a sua visão dos avanços conquistados pela área da Engenharia de Produção em Manaus, certamente uma das maiores beneficiadas com a instalação do Pólo Industrial. Atividades acadêmicas, relacionamento com o setor produtivo e perspectivas de novas interações são temas abordados em seu depoimento. Confira, a seguir. T&C Amazônia – Como evoluiu a Engenharia de Produção em Manaus nos últimos anos e em que estágio se encontra quando comparada a centros mais tradicionais do País? Waltair Machado – É interessante essa pergunta porque, em que pese ser lugar comum que a Engenharia de Produção tenha se iniciado na Engenharia Mecânica, em Manaus, em função das características do pólo industrial que aqui se instalou, foram demandados da academia local mais os aspectos de gerenciamento vinculados ao setor eletroeletrônico, que era o mais evidente no Distrito Industrial. Profissionais da Ufam foram acionados para dar respostas a necessidades particulares desse setor industrial e os que foram contatados para isso estavam no corpo docente do curso de Engenharia Elétrica. Em meados da década de 1980, profissionais que tiveram uma titulação nessa área mobilizaram-se e introduziram no curso de Engenharia Elétrica algumas disciplinas da área de Engenharia de Produção, buscando atender a essa demanda óbvia do Distrito Industrial por pessoal mais adequado e melhor qualificado nesta área de gestão, gerência de processos e outras sub-áreas da Engenharia de Produção. Com a abertura do mercado brasileiro no começo da década de 1990, as indústrias se viram frente a um desafio muito grande, porque tiveram que competir imediatamente com tecnologias mais modernas,

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instaladas nas indústrias estrangeiras, e essa competição foi muito dolorosa para a indústria nacional, pelo menos para as indústrias aqui instaladas – não só aquelas de origem de capital nacional, mas de capital estrangeiro. Elas tiveram que despender um esforço muito grande para manter a sua competitividade, porque não estavam preparadas para o processo de abertura. Então, foi óbvia a busca frenética por formação de pessoal, treinamento e redirecionamento dos seus processos produtivos, no sentido de cortar custos e se manter competitiva, da melhor forma possível. Uma boa parte das empresas não suportou, algumas foram à falência, outras tiveram que redirecionar os seus horizontes. Sendo assim, a Ufam lançou, em 1993, um curso de especialização na área de Engenharia de Produção. Esse curso foi muito bem-sucedido e atendeu à expectativa da sociedade local. A demanda continuou crescente, os desafios aumentando e o setor produtivo, portanto, beneficiou-se disso; tanto assim que a produtividade voltou a crescer e as empresas tiveram condições de competir nos mercados nacional e internacional. Isso levou as empresas, e basicamente os indivíduos, os executivos dessas empresas, a perceberem que eles precisavam de uma formação um pouco mais aprofundada. Nesse contexto, a Ufam implantou um curso em nível de mestrado em 1999. Àquela altura já haviam sido titulados mais de 300 especialistas por esse programa e, então, havia uma plataforma lançada de conhecimentos, que permitia fazer um aprofundamento, um upgrade da formação do pessoal, naquela época. Então, o curso foi implantado e pelas características do pólo industrial, ele foi proposto no formato dos mestrados profissionalizantes, que à época eram uma novidade, mesmo no Brasil. Quanto à Engenharia de Produção, também percebemos a necessidade de se formar uma escola em Manaus. Como o corpo docente da Ufam ainda não era suficiente para se fazer uma proposta mais arrojada em nível de doutorado, estruturou-se um

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projeto com a participação de 12 profissionais que submeteram-se, no ano de 2000, ao processo de seleção no programa de pós-graduação da Coppe/ UFRJ, ingressaram no doutorado e estão atualmente em fase de elaboração de teses. O projeto conta com o apoio financeiro da Suframa e o ponto interessante é que todos os temas das teses estão relacionados a questões do desenvolvimento regional. Existe a expectativa que, após concluída essa etapa, haja massa crítica para a condução de um programa de doutorado local. O mestrado em EP já titulou cerca de 80 mestres, e a especialização, em torno de 500 especialistas. Complementando ainda essa área, falando em termos de Brasil, a EP tem crescido enormemente e tem sido uma das áreas do conhecimento no Brasil que têm tido a maior taxa de crescimento. Atualmente já são 110 ou 112 cursos de graduação. Por falar nisso, temos também essa atividade em nível de graduação em outras instituições locais, como Fucapi, UEA e Nilton Lins, e agora, recentemente, também implantado na Ufam. A Associação Brasileira de EP (Abepro) tem tido um trabalho muito grande para consolidar a área e preservá-la no seu aspecto legal e organizacional para que ela se desenvolva bastante sólida, porque já está superando outras áreas tradicionais da engenharia. Em cursos de pós-graduação, tem crescido muito: já são cerca de 30 no Brasil; os doutorados ainda são em menor número, mas estão se desenvolvendo. Se eu não me engano, são quatro ou cinco cursos em nível de doutorado no País. A procura nos vestibulares só tem ainda perdido para a tradicional Medicina, e em alguns casos para o Direito, mas é uma área extremamente competitiva e tem dado bom alento aos jovens que procuram por ela, no sentido de se formar e adquirir uma orientação profissional. T&C – Essa demanda por cursos de pósgraduação (lato e stricto sensu), que tem sido grande, especialmente nos últimos dez anos,

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reflete um interesse individual do profissional ou é provocada por uma orientação das empresas? WM – Acredito eu que por ambas as razões. As empresas têm percebido a grande oportunidade de ter profissionais com o perfil dos engenheiros de produção. Eles são os profissionais que melhor conhecem o processo produtivo desde sua base, dos fornecedores, da concepção dos produtos finais, todo o suprimento no processo na cadeia de produção, e não só isso, mas o processo de apresentação do produto ao mercado, o processo de distribuição dele e o acompanhamento após a venda. Ela consegue harmonizar de uma forma mais adequada todo o seu processo produtivo e os seus procedimentos produtivos e isso é muito vantajoso. Por outro lado, a sociedade, de uma forma geral, também tem visto nessa profissão uma oportunidade muito grande, porque normalmente profissionais com esse perfil ocupam posições de destaque nas organizações e isso é vantajoso, porque usualmente significa mais responsabilidades, mais desempenho financeiro; portanto, são profissões mais procuradas. Além disso, o engenheiro de produção tem uma sólida base de informação em ciências exatas e, portanto, é bem treinado na lógica matemática. Isso facilita a tomada de decisão. Por isso, as empresas que contam com esse tipo de profissional geralmente são mais competitivas. T&C – A possibilidade de aproximação entre universidade e empresa nessa área do conhecimento é muito grande. Que benefícios têm sido alcançados por ambos os lados, a partir das interações estabelecidas na sala de aula? WM – De fato, a possibilidade de aproximação é muito grande e tem se verificado de uma forma bastante acelerada. Aqui é interessante a gente chamar a atenção com relação ao caráter dualista da atividade intelectual, basicamente a de pesquisa, onde se aceita um desenvolvimento de pesquisa chamado “pesquisa básica”, no qual, normalmente,

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os pesquisadores não têm tanto compromisso com a aplicação do conhecimento gerado. Na outra vertente, chamada também de “pesquisa aplicada”, há de fato a necessidade, o compromisso de um produto final, de um conhecimento auto-aplicável ou de aplicação imediata na sociedade. Todos os dois lados, na realidade, são desenvolvidos com um tipo de parceria dessa forma, tanto a indústria no caso das pesquisas aplicadas, porque encomenda as próprias pesquisas por meio dos projetos que são propostos, do encaminhamento desses projetos no processo de treinamento de formação de recursos humanos e vice-versa, como a universidade, que, por outro lado, beneficia-se enormemente porque tem um desafio a cumprir e a academia é movida a desafios. Então, se a sociedade industrial, a sociedade de uma forma em geral, busca a universidade com os seus desafios, fazendo a ela propostas de projetos ou recebendo dela propostas, estamos vendo que está havendo interesse de ambas as partes, e, se há esse interesse, as possibilidades de crescimento são muito grandes nas duas situações. Quanto aos benefícios que têm sido alcançados por ambos os lados, há projetos que têm se desenvolvido em parcerias da universidade com o setor industrial, que têm resultado em produtos muito interessantes. Há certas empresas que tiveram a oportunidade de estudar os seus processos produtivos e conseguiram reduzir em determinadas linhas até 30% dos custos de produção, o que é um número fenomenal se considerarmos um setor industrial tão competitivo como é o Distrito Industrial de Manaus. Baseandose num princípio de entendimento da empresa com relação à sua competitividade de produção em determinados setores, ela acabou descobrindo que não era tão competitiva assim; muito ao contrário, sua capacidade de produção estava mal-utilizada e ela só pôde enxergar isso quando foram cotejadas as suas atividades com os modelos teóricos de otimização de produção. Há um bom número de projetos. Nós

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poderíamos nominar aqui pelo menos uns 20 que, com certeza, poderiam ser enquadrados nesse grau de sucesso, e outros de alcance um pouco menor, mas não menos importantes, porque culminaram com treinamento de pessoas e que tiveram as suas atividades otimizadas e melhoradas. Mas, num balanço geral, tem sido muito positivo e ainda acho que o relacionamento está acanhado, pode crescer muito mais. Com certeza, muitos desses indicadores são um pouco mais sutis de serem percebidos. Na realidade, a academia contribui enormemente com a qualidade do capital intelectual que ela fornece e isso favorece a competitividade da indústria e favorece que os seus processos sejam produzidos, as suas atividades sejam desempenhadas com uma maior eficiência e, portanto, com menor custo e, conseqüentemente, aumentando a sua competitividade, só que o número de atividades do setor industrial é muito maior do que os desafios que têm sido colocados, que têm sido apresentados à universidade. Embora a interação com o setor produtivo ainda seja pequena, é muito maior do que historicamente aconteceu. A taxa de crescimento é que é fenomenal, tem sido enorme nos últimos dez anos, a ponto de a gente reconhecer essa diferença já. Mas há muito espaço para ser percorrido; há que se convencer ainda algumas empresas de que essa capacitação local é útil e pode contribuir para suas necessidades. T&C – O que você espera como perspectiva de crescimento para a EP local, especialmente pelas demandas do Pólo Industrial de Manaus? WM – Essa é uma pergunta um tanto quanto complicada porque nós vivemos um momento meio indefinido da organização social local, porque temos um pólo já bastante sofisticado, com carências e demandas por um maior nível de sofisticação. Vou citar um exemplo: a balança comercial do PIM ainda é deficitária em moeda estrangeira, ou seja, o pólo ainda importa mais em moeda estrangeira do que exporta, e isso faz com que o modelo esteja fragilizado frente às

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políticas nacionais. Para minimizar isso, é necessário que o pólo seja auto-suficiente ou pelo menos equilibre essa balança de comércio exterior e exporte mais ou reduza o seu nível de importação. Precisamos diminuir o nosso nível de compra de equipamentos e insumos sofisticados. Para que isso aconteça, temos de desenvolver uma indústria desse calibre aqui na região, mas isto demanda um elevadíssimo grau de conhecimento da sociedade, que nós ainda não temos. Mas as universidades estão se preparando para isso, estão treinando pessoas num nível muito elevado. Cito como exemplo um possível pólo de dispositivos que está sendo pensado como uma das metas a serem alcançadas para se reduzir esse déficit da balança local; então, esse pólo de dispositivos terá melhor chance de ser produtivo e eficiente se ele contiver, por exemplo, bastante componentes de microeletrônica, porque é um item caro nesse processo de compra. Se esse processo for desenvolvido aqui, ele será bastante benéfico nesse intento de equilíbrio da balança. Mas formar isso é um processo muito complicado. Está sendo feito um esforço, mas se a sociedade não perceber isso e cerrar fileiras, fazendo um esforço coletivo, ele poderá não ser bem-sucedido. Então, para que tenhamos chance de preservar a nossa riqueza, esse modelo é muito conveniente, mas é também perigoso que dependamos tanto dele; daí, a importância de crescermos, de tentarmos desenvolver outros setores da comunidade amazonense. Nesse aspecto, a Engenharia de Produção tem um enorme serviço a prestar, pois ela contribui com ferramentas para o desenvolvimento do setor pesqueiro, por exemplo, porque a forma de produção, a forma de industrialização desse setor, a comercialização, seguem padrões que não diferem muito de uma fábrica de parafusos ou de uma fábrica de componentes eletrônicos. É o processo em si que está sendo analisado, a seqüência de atividades, o controle da informação, as interligações das comunicações e o gerenciamento do capital intelectual, o gerenciamento do suprimento da

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matéria-prima, ou seja, tudo isso são ferramentas comuns, por isso, a EP tem essa possibilidade, esse leque enorme de atuações. É essa a razão porque nós entendemos que a perspectiva de crescimento dessa área é muito grande, não só para o PIM, mas para a sociedade amazonense. T&C – Que papel a EP pode desempenhar na escolha de um caminho futuro para a economia local, uma vez que a atividade industrial de Manaus é dependente da ZFM que, por sua vez, é um modelo baseado em benefícios fiscais com prazo de tempo determinado? WM – Esse formato centrado em gestão é uma particularidade da nossa atividade acadêmica momentânea localmente. A EP se envolve com todas as áreas de interesse do processo produtivo, e do processo organizacional e do processo de elaboração de modelos, além de um processo que envolve bastante conhecimento de lógica e de uma sólida estruturação em ciências exatas; daí eu ter mencionado que a EP busca dar um treinamento bastante sólido em ciências exatas para facilitar essa sub-área. A academia da EP em Manaus no momento está focada bastante em processos, por uma questão circunstancial, por uma necessidade do DI daquele momento. Agora já está ficando mais diversificado, agora já há pesquisadores interessados em trabalhar os modelos em si, agir nos modelos e aí precisa de uma abordagem matemática muito mais elaborada e, às vezes, razoavelmente complexa. Isso já está acontecendo também no nosso meio, no meio acadêmico em Manaus. Uma outra faceta que também está se desenvolvendo e vai ser bastante necessária é a área de desenvolvimento de produtos, a área de gestão de projetos que já está mais avançada. Porém, há necessidade de se questionar isso. Eu até tenho feito algumas afirmações que têm preocupado alguns escolares, mas, na realidade, é por provocação mesmo. Acredito que uma sociedade amadurecida conta com um número considerável de executivos com treinamento em

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nível de doutorado. Eu não entendo o doutoramento como uma necessidade apenas para a academia. Eu acredito no enorme potencial que esses executivos têm em tomar decisões com conhecimentos desse nível, ou seja, a minha tese é de que se as indústrias locais melhorarem a qualidade das suas decisões, ou da possibilidade de decisão, o eixo dessas decisões será deslocado para Manaus. Por causa disso, volto a salientar a importância de que as empresas percebam essa oportunidade que está sendo criada na academia local e que se esforcem em induzir os seus executivos a participarem dela, para que ampliem a sua capacitação e melhorem as suas possibilidades de contribuir com as decis��es, para que a qualidade destas seja melhorada e facilitada a transferência delas para cá. O desenvolvimento de projetos, de produtos, essas coisas todas serão inerentes, não há como escapar disso, porque melhoram-se processos até um determinado limite; a partir daí tem que haver um investimento na melhoria dos custos dos projetos em si, do desenvolvimento deles, da validação deles, dos testes. Tudo isso possibilita que a competitividade do setor seja aumentada. Melhorando a nossa capacidade e o nosso conhecimento localmente, nós, com certeza, teremos condições de oferecer a esses setores industriais maior capacidade de competitividade e, certamente, é o que eles procuram, porque o capital não tem bandeira, não importa de onde ele vem, ele precisa ser competitivo e se aqui ele for mais competitivo, aqui ele se instalará, sem a menor sombra de dúvida. Com relação ao amadurecimento da sociedade local, é importante frisar que a própria Suframa – que tem na sua constituição a função de cuidar do desenvolvimento ou pelos menos fomentar o desenvolvimento regional – só recentemente veio, de fato, começar a ter uma participação mais efetiva com relação ao treinamento e ao capital intelectual de nível adequado. Não se ignora, entretanto, os esforços que ela fez ao longo da sua existência, contribuindo com a instalação das universidades, melhorando a sua infra-estrutura,

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mas só mais recentemente é que ela, de fato, passou a se envolver especificamente em determinadas ações voltadas ao aparelhamento de capital intelectual adequado para a região. Paralelamente, o governo do Estado também tem tido ações bastante interessantes nessa direção, haja vista a criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – Fapeam, que são ações que mostram um certo amadurecimento. Mas é importante que essa preocupação também passe a figurar nos líderes da sociedade.

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Capacitação Tecnológica: A Relação Entre as Instituições de Ensino Superior e o Setor Produtivo

CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA: A RELAÇÃO ENTRE AS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR E O SETOR PRODUTIVO Francisco Paiva* Marco Antônio Rodrigues** INTRODUÇÃO Durante anos o investimento industrial em P&D tecnológico permaneceu oscilando na faixa entre 0,5% e 0,7% do Produto Interno Bruto – PIB. No ano de 1997, o Brasil saltou para o nível de 1,15%, totalizando algo em torno de US$ 8 bilhões, segundo o Ministério de Ciência e Tecnologia – MCT. Entretanto, esse valor ainda permaneceu abaixo da média mundial dos países desenvolvidos, que girava em torno de 2,5% (Revista da Indústria, 1998). Nessa mesma ocasião, as inovações geradas por pesquisa chegaram a representar cerca de 40% das vendas de alguns setores da indústria, o que sinalizava uma tendência importante. Segundo depoimento de Roberto Sbragia, membro da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Industriais (Anpei) e professor da Universidade de São Paulo (USP), existia um esforço concentrado de reinvestimento, compra de equipamentos e de laboratórios pelas grandes empresas (Revista da Indústria). Ao mesmo tempo, a principal ferramenta do desenvolvimento tecnológico, a parceria com as estruturas que produzem conhecimento (a academia e os institutos de pesquisa) ainda continuava sendo utilizada abaixo de suas potencialidades, segundo a visão de empresários e acadêmicos. De lá para cá, as universidades, além de fornecer profissionais qualificados, vêm a cada dia aperfeiçoando suas estruturas de atendimento às pequenas, médias e grandes empresas, de todos os setores. Segundo destaca o Fórum Permanente das Relações Universidade-Empresa, conhecido como

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Instituto Uniemp, “a contribuição da pesquisa universitária para a modernização tecnológica não pode mais ser subestimada” (Revista da Indústria, 1998). Por exemplo [...] “O Brasil não teria uma indústria aeronáutica, que hoje ganha concorrências internacionais e é uma de nossas grandes exportadoras, se, desde o início, não tivesse havido uma forte interação entre a Empresa Brasileira de Aeronáutica - Embraer e seus fornecedores, de um lado, e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA, do outro”, disse o Engenheiro Ozires Silva, diretor do Departamento de Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Centro das Indústrias do Estado de São Paulo - Fiesp/Ciesp e ex-dirigente da Embraer (Revista da Indústria, 1998). Segundo o professor José Rego, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, “o papel da pesquisa em um País como o Brasil, [...] sofre de graves hiatos tecnológicos”, portanto precisa apresentar viés, ou seja, mudança de direção, se quiser acabar com a situação de dependência de tecnologias concebidas nos países de Primeiro Mundo. “Não existe país de Primeiro Mundo sem universidade de Primeiro Mundo. Não existe universidade de Primeiro Mundo sem pesquisa de Primeiro Mundo”. Nas universidades, a graduação é a atividade que oferece à sociedade maior contribuição em número de profissionais. Portanto, é preciso encontrar meios de desenvolver nos alunos a cultura de pesquisa, garantindo, assim, a disseminação dessa prática na sociedade. Finalmente, percebe-se que a institucionalização da pesquisa científica e tecnológica ainda é pequena, e suas limitações fazem parte de um quadro mais amplo de baixo desenvolvimento industrial e educacional no Brasil (Schwartzman, 1991). A IMPORTÂNCIA DAS PARCERIAS “A universidade não pode deixar de cumprir seu papel fundamental de educar estudantes e avançar

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o conhecimento humano. Essa formação acadêmica inclui o estabelecimento de parcerias com as empresas para melhor consolidar e valorizar sua missão institucional”. Essas foram as palavras do prof. Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Universidade Estadual de Campinas, em debate na 56ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, realizada em julho de 2004 na cidade de Cuiabá. Segundo o professor, antigamente existiam pensamentos equivocados de que o conhecimento adquirido na universidade podia ameaçar o desenvolvimento tecnológico das empresas. Ainda segundo Cruz (2004), “com o passar dos anos, a academia vem provando que uma de suas funções é exatamente complementar a pesquisa e o conhecimento das empresas”. O prof. Álvaro Prata, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), outro participante do debate, declarou que faltam investimentos em P&D, e isso faz com que as empresas brasileiras estejam inseridas num cenário de baixa competitividade tecnológica. Disse ele: “O Brasil ainda tem uma reduzida capacidade de transformar ciência básica em tecnologia”. Ele acredita que tanto a academia como os institutos de pesquisa vêm ao longo do tempo capacitando com relativo sucesso os alunos e docentes brasileiros. Ainda segundo o professor, o que existe no País é um desequilíbrio considerável na participação de cientistas em P&D no setor industrial. No Brasil a maioria dos pesquisadores está na academia. No momento presente, 73% dos pesquisadores estão nas instituições de pesquisa e apenas 11% nas empresas. Nos Estados Unidos ocorre o contrário: 72% dos cientistas estão na indústria e 18% na academia, relação que permanece a mesma nos outros países desenvolvidos (Prata, 2004). Na verdade, o que ocorre no Brasil é uma inversão de valores no que diz respeito aos mestres e doutores formados nas instituições. O governo federal investe na formação dos recursos humanos de alto nível, mas não prevê o

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aproveitamento desses novos mestres e doutores. Ainda conforme depoimento do prof. Álvaro Prata, deve existir uma interação maior entre os cientistas e as empresas por meio de mecanismos tais como: prestação de serviços, atividades de pesquisa e convênios de cooperação. Ele cita como exemplo a parceria formada entre a UFSC e a Empresa Brasileira de Compressores – Embraco, que resultou na construção de um laboratório de 2,5 mil metros quadrados dentro da universidade, permitindo à empresa uma ampliação em sua produção de 50 milhões de unidades em 1990 para 150 milhões em 1998. Isso provoca iniciativas para o estabelecimento de competências em setores pré-definidos e a formação de recursos humanos comprometidos com o desenvolvimento tecnológico da empresa. Esse entendimento já se faz presente no Pólo Industrial de Manaus – PIM, e pensando dessa forma, a Superintendência da Zona Franca de Manaus – Suframa, cada vez mais empenhada em aumentar a competitividade dos setores produtivos do PIM e com o objetivo de atingir o equilíbrio e superávit da sua balança comercial, criou e está desenvolvendo mais um projeto: o Centro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Pólo Industrial de Manaus - CT-PIM. A Unidade de Gestão Estratégica – UGE, posta em funcionamento em fevereiro de 2003, é a primeira de uma série de outras ações que estão previstas dentro do projeto CT-PIM. A unidade tem como missão o planejamento e execução de programas e projetos definidos pela Suframa. A geração do conjunto de programas e projetos foi formulada com base na gestão estratégica das competências de ciência, tecnologia e inovação; com objetivo de promover a capacitação regional em projetos, fabricação e aplicação de microssistemas. Estes serão atendidos obedecendo a uma escala de prioridades na geração, domínio e ampliação de conhecimentos científico e tecnológico, avançados e inovadores, com a capacidade de contribuir tanto para o desenvolvimento econômico, como para o

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ambiental e social. A UGE tem como competência planejar, acompanhar e avaliar os programas e projetos prioritários para o CT-PIM, bem como a coordenação daqueles que apresentam caráter institucional, identificando e aplicando metodologias capazes de transformar aglomerados de empresas em clusters bem posicionados mundialmente.Todas essas atividades deverão ser desenvolvidas em parceria com instituições acadêmicas locais, nacionais e internacionais com aval dos governos federal e estaduais. Na lista de parceiros já está o International Institute for Management Development e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do MCT. Segundo informativo da Suframa (2003), a unidade é de extrema relevância para a implementação do CT-PIM, pois irá coordenar a interação com universidades, centros de pesquisa e empresas de base tecnológica existentes no mundo, provendo condições necessárias para se promover e manter a integração de agentes de desenvolvimento, proteção ambiental e de investimentos. O alvo dos esforços empreendidos está na formação de uma massa crítica, composta de pessoas e instituições capazes de sustentar uma cadeia que possa fornecer informações tecnológicas para as empresas sediadas na região, dando suporte a uma futura consolidação de clusters nos diversos setores de atuação do PIM. O objetivo de tal empreendimento é atender um dos gargalos identificados no estudo, evidenciando a necessidade de estruturação de um Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação capaz de beneficiar a região de competitividade necessária na conquista do mercado internacional de forma mais consistente e efetiva. Um exemplo disso já ocorreu no ano de 2003 no PIM, quando foi firmado um convênio entre a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), com o objetivo de possibilitar a formação de mão-de-obra local especializada em

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microeletrônica e no desenvolvimento de microssistemas. A parceria foi estabelecida por intermédio do MCT e Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior – MDIC. A iniciativa teve como meta tentar diminuir a dependência do PIM e fortalecer o CT-PIM, visando a “produzir aqui insumos de alto valor tecnológico agregado (microcomponentes), uma vez que há total dependência de importação de chips, por exemplo” (Jornal A Crítica, 10/12/2003). INVESTIMENTO NO CAPITAL HUMANO A economia brasileira, e em particular a do Pólo Industrial de Manaus, na década de 1990 enfrentou um duplo desafio: num cenário mais abrangente, a exemplo de todos os outros pólos, viveu o período de transição rumo a uma economia globalizada; num plano mais localizado, a transição da instabilidade para a estabilidade. Ainda que seja questionável fazer qualquer afirmação em termos conclusivos, não se pode negar que a estabilidade foi uma conquista importante. Se considerarmos o cenário da década de 1980 e início da década de 1990, onde ficaram evidenciadas a estagnação, a elevada taxa de inflação e a crise das dívidas interna e externa – dificilmente poderíamos imaginar uma transição tão rápida para a estabilidade. Esse fato tornouse ainda mais importante devido aos planos malsucedidos na década de 1980, o que deixou como herança uma sociedade frustrada e desiludida. Entre os fatores que tiveram sua importância aumentada com a globalização e a estabilização podemos identificar: a estabilidade e a previsibilidade macroeconômicas; o investimento em capital humano; a agilidade e flexibilidade empresarial etc. Entre esses fatores vamos nos restringir ao investimento em capital humano, ou seja, na formação dos recursos humanos, aqui entendidos não apenas no seu componente cognitivo, mas na interação com as novas tecnologias, respeito à ética e à confiabilidade interpessoal. Dentro desse contexto, passa a ser de

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fundamental importância uma política voltada para o incentivo e desenvolvimento de investimentos em pesquisa e tecnologia. Nesse particular, a adoção do Processo Produtivo Básico – PPB (“ferramenta que consiste em definir um conjunto mínimo de operações realizadas no País, para cada produto ou família de produto”) representa considerável avanço em relação à anterior, conhecida no meio produtivo como Índice de Nacionalização do Produto – INP. O INP acabava obrigando os produtores a usarem componentes nacionais mais caros e tecnologicamente mais atrasados na composição final do produto. Tudo isso em defesa do desenvolvimento da indústria nacional (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos – Eletros, 2000). Aqui vale destacar alguns dados de uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica – SOBEET, publicada em um encarte especial da revista Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro. • “O estudo revelou que as empresas multinacionais que atuam no Brasil investiram, em 1998, algo em torno de US$ 5 bilhões em inovação tecnológica e P&D. Estes recursos foram destinados preferencialmente às universidades brasileiras e a institutos tecnológicos; • Outra informação importante desta pesquisa diz respeito aos condicionantes que afetam a decisão de investir em tecnologia no Brasil: aproximadamente 33% das empresas pesquisadas buscaram incentivos fiscais, e 24,5% destacaram como importante as fontes de financiamentos apropriados para este tipo de gasto. No entanto, a disponibilidade de mão-de-obra de nível superior representou para estas empresas um atrativo de 56%, e a política de comércio exterior, 49% na decisão de investir; • Este contraste aponta, de maneira

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inequívoca, que as empresas não buscam com a mesma intensidade de antes os incentivos tradicionais. A liberdade, a estabilidade da política de comércio exterior e o nível superior da mão-de-obra são os determinantes mais importantes.” As mudanças econômicas que ocorreram no mundo globalizado nos últimos anos, forçaram as empresas a investir nos seus recursos humanos, e para isso foram necessários o aprimoramento tecnológico e o estímulo ao investimento na área de pesquisa e tecnologia. O Pólo Industrial de Manaus já possui hoje mão-de-obra especializada e isso ajuda a ampliar os atrativos que o pólo oferece às empresas que queiram aqui se instalar. Como exemplo dessa capacitação, tem-se a atitude da Philips da Amazônia, que instalou no Amazonas o primeiro centro estratégico de pesquisa fora da matriz holandesa. A primeira parte desse projeto já está funcionando e trabalha com pesquisa nas áreas de redes, terminais e aplicativos, desenvolvendo ferramentas que auxiliarão o Brasil a ingressar no mundo da TV digital. O PAPEL DA FUCAPI DENTRO DESSE CONTEXTO O Livro Branco da Ciência, Tecnologia e Inovação, documento que expressa os resultados da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em setembro de 2001, propõe as linhas de uma política de longo prazo para o setor de C&T nacional. Em relação às bases que nortearam essa proposição, é feito um destaque sobre a necessidade de expansão e modernização do ensino superior no País, cuja oferta, embora crescente, é muito inferior a de países desenvolvidos. Também recebe destaque a necessidade de aumentar a formação de engenheiros tanto em número absoluto como na proporção em relação ao total de alunos formados, pois a ampliação do número de cientistas e engenheiros é condição essencial para inserir a inovação na agenda econômica e social do País.

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Nesse aspecto, salienta-se que é preciso implantar novas diretrizes curriculares, devendo as mesmas periodicamente ser revistas com vistas a formar cientistas, engenheiros e demais profissionais com perfil adequado às novas exigências do Sistema Nacional de CT&I. Uma das diretrizes estratégicas dessa política está relacionada à promoção da inovação para o aumento da competitividade e à inserção internacional das empresas brasileiras. Essa ação deve se dar por meio da promoção e ampliação do esforço privado em P&D com objetivo de elevar a produtividade; da promoção da mudança cultural por meio da valorização da inovação; do incentivo à criação de novas empresas de base tecnológica; do estímulo e apoio à criação de parques tecnológicos; da implantação de novos mecanismos de incentivo às atividades de P&D, entre outras ações. Neste último item, evidenciase a preocupação em ampliar a interação entre as universidades, centros de pesquisa e empresas. A Fundação Centro de Análise Pesquisa e Inovação Tecnológica - Fucapi, instituição privada sem fins lucrativos localizada na capital do Estado do Amazonas, Manaus, foi criada no ano de 1982 com objetivo dar suporte técnico às empresas do setor produtivo. Com o passar dos anos houve uma diversificação das atividades exercidas e também de suas finalidades. Em relação a diretrizes para o setor de C&T, a Fucapi vem caminhando na direção apontada desde 1985, seja por meio de ações na educação voltadas à capacitação tecnológica ou por meio da prestação de serviços técnicos a setores empresariais como centro de pesquisa. Em relação às ações voltadas para a educação, a Fucapi pôs em funcionamento em agosto de 1985, seu primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Eletrônica Digital, em convênio com a Universidade Federal do Amazonas. Nos anos subseqüentes, implementou outros cursos de pósgraduação em parceria com importantes universidades brasileiras. A partir do ano de 2002, com a experiência adquirida e contando com o pessoal

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capacitado em cursos anteriores, deu início a cursos de pós-graduação independentes na área de informática. Considerando a importância de fomentar criação da cultura de inovação tecnológica, promoveu em 2003 o curso “Agente de Inovação e Difusão Tecnológica”, em parceria com Abipti e CNPq. Ainda na década de 1990, percebendo a necessidade de ampliar o espectro de atuação na educação, a instituição constituiu o Instituto de Ensino Superior Fucapi – Cesf, entidade de ensino voltada para a formação de pessoal em nível superior nas áreas de gestão, informática e tecnologia. O primeiro curso de graduação a entrar em funcionamento, Análise de Sistemas, teve início no primeiro semestre de 1998, seguido pelo de Engenharia de Produção Elétrica no segundo semestre do mesmo ano. Hoje, o Cesf oferece dois cursos de engenharia, um de design, três de administração e dois de informática. Para ilustrar a importância e a riqueza da troca de informações entre empresas e a academia, pode-se citar, por exemplo, o cotidiano do curso de Engenharia de Produção Elétrica. Esse curso a p r e s e n ta um corpo discente composto majoritariamente por pessoas que já atuam em empresas do PIM, empresas essas de nacionalidades diversificadas e que contam com diferentes problemas e tecnologias em seus processos produtivos. Essa condição peculiar é bastante interessante, uma vez que favorece o surgimento de muitas e diferentes questões relacionadas à resolução dessas dificuldades. Tal situação promove o surgimento de discussões e também de propostas de solução baseadas no arcabouço teórico disponível. Problemas mais complexos também são, freqüentemente, tratados por meio de trabalhos de conclusão de curso onde um estudo mais aprofundado sobre determinado assunto pode ser realizado pelo próprio aluno. Vale ressaltar que, em ambas as situações, ocorre transferência de conhecimento nas duas direções: das empresas para a academia, produzindo como resultado um maior entendimento das

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necessidades do mercado e forçando os docentes a buscarem novos conhecimentos para solução dos problemas apresentados; e da academia para as empresas, produzindo para a empresa ganhos, sejam em produtividade ou que contribuam para valorização da cultura de inovação. A tentativa de aproximar a empresa e a academia também está presente em estratégias básicas utilizadas na composição do quadro de docentes do curso. Esta consiste em manter, no quadro de professores, tanto profissionais experientes e que estejam atuando no PIM, quanto pessoal com forte vínculo acadêmico. Essa estratégia tem mostrado ser bastante acertada, pois apresenta, entre outras vantagens: a possibilidade de que o aluno, por meio da visão prática dos professores, anteveja dificuldades e possibilidades do mercado de trabalho local; facilita a inserção dos futuros profissionais nas empresas por meio de rede de contatos formada; fomenta a busca pelo domínio da técnica e suas aplicações nas empresas; cria um ambiente propício à discussão de soluções para um problema real tanto no nível prático, quanto no teórico, entre outras. Em relação à necessidade de formar pessoal na área de engenharia com perfil adequado às novas exigências do Sistema Nacional de CT&I, percebe-se, no caso deste curso, uma grande aceitação e a adequação desse profissional ao mercado local. A demanda por profissionais dessa área está aquecida e freqüentemente ultrapassa a capacidade da instituição em atender às solicitações feitas por empresas relacionadas a vagas de estágio ou emprego. Outra iniciativa que certamente conduzirá a um aumento na qualidade do curso oferecido e também indica um maior amadurecimento do processo de aproximação com as empresas, foi o estabelecimento de recente acordo para implantação de laboratórios relacionados às atividades do curso respaldado na legislação de P&D na área de informática. Em termos estatísticos, ao longo de quase 20 anos de ação em educação, a Fucapi já realizou

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20 cursos de pós-graduação lato sensu, capacitando 667 profissionais e mais de 27 mil pessoas em áreas específicas do conhecimento, por meio da unidade de extensão; ações como essa certamente têm dado sua contribuição para o desenvolvimento regional. Dito isso, é importante reiterar que o estabelecimento de mecanismos de aproximação entre a academia e as empresas, análogos aos anteriormente apresentados, ou outros mais adequados à realidade presente no âmbito de atuação dessas instituições podem e devem ser criados. CONCLUSÃO O nível de competitividade tecnológica de uma empresa não deve ser medido apenas pelo montante de tecnologia empregado em seu processo de produção, mas também, pela capacidade de desenvolver tecnologia própria, isto é, a capacidade de transformar ciência em novos produtos. Nos últimos anos é notório o aumento do nível de competição entre as empresas em decorrência do processo de globalização. Para sobreviver nos novos mercados e enfrentar os competidores, as empresas têm procurado capacitar mais e melhor seus colaboradores, permitindo que os mesmos interajam com as novas tecnologias. A participação das universidades e dos centros de pesquisas é importante nesse contexto, uma vez que tais instituições possuem pessoal qualificado, apto a fazer essa capacitação e desenvolver tecnologia demandada pelas empresas. Entretanto, no Brasil, dificuldades históricas têm levado a um baixo aproveitamento dessa potencialidade. As universidades e os centros de pesquisa não têm mantido, de modo geral, um relacionamento tão estreito com os setores produtivos quanto o que se nota em países mais desenvolvidos. Porém, essa situação vem se invertendo. O investimento em P&D tem aumentado, embora ainda esteja abaixo do praticado nos países do Primeiro Mundo. No âmbito do PIM, iniciativas nesta direção vêm sendo

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implementadas com sucesso por diversas entidades, dando provas de que a interação entre os centros de produção do saber e os setores produtivos está aumentando, a exemplo dos casos apresentados. Finalmente, ações que induzam à consolidação dessa cultura de cooperação entre esses setores devem ser estimuladas, pois os ganhos resultantes gerarão reflexos positivos na sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CRÍTICA, 10/12/2003. “Curso capacita em microeletrônica”. Manaus. AMAZONAS EM TEMPO, 03/03/2004. “Philips pode exportar tecnologia produzida na Zona Franca de Manaus”. Manaus. COMPETIÇÃO exige mais pesquisa, 1998. Revista da Indústria. São Paulo. ELETROS, 2000. “Capacidade competitiva do complexo eletroeletrônico”. São Paulo, nov/dez. FIGUEIREDO, Paulo, ARIFFIN, N, 2001. “Acumulação de Capacitação Tecnológica e Inovação na Indústria Eletrônica – Evidências de Manaus (1970-2000)”. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, pp. 207-211, set.-out. INFORMATIVO SUFRAMA, fevereiro de 2003. “Pesquisa e Desenvolvimento”. Manaus, Suframa. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2002. Livro Branco: ciência, tecnologia e inovação. Brasília. REGO, J. I., s/d. Valores Acadêmicos: autonomia, pluralidade e qualidade. Natal. ROMERO, T., 2004. “Em Busca de Parcerias de Sucesso”. Agência FAPESP, Cuiabá. SCHWARTZMAN, S., 1991. “A Capacidade Institucional da Pesquisa no Brasil” in Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro. SOBEET, 2000. “Comportamento tecnológico das empresas transacionais em operação no Brasil” in Conjuntura Econômica,

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março. SUPERINTENDÊNCIA DA ZONA FRANCA DE MANAUS, 1985. Zona Franca de Manaus: Redefinição da Política Industrial. Manaus. SUPERINTENDÊNCIA DA ZONA FRANCA DE MANAUS, 2003. Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação Inaugura Nova Fase de Desenvolvimento. Manaus.

* Francisco Paiva é graduado pela UFPb, especialista e mestre em Engenharia de Produção pela UFSC. Atualmente é professor do Instituto de Ensino Superior Fucapi - Cesf, ministrando aulas nos cursos de Engenharia de Produção Elétrica, Análise de Sistemas e Administração. Atua nas áreas de Pesquisa Operacional e Administração da Produção. ** Marco Antônio Rodrigues é graduado pela Ufam, mestre em Engenharia de Produção pela UFSC. Atualmente é coordenador do curso de graduação em Engenharia de Produção Elétrica do Cesf.

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Por que T&C O significado das iniciais T&C no nome da revista tem despertado a curiosidade de leitores. Tendo parte de seu público-alvo integrado por profissionais pertencentes ao ambiente de ciência e tecnologia, que têm na união das letras C&T uma representação já consagrada, é natural a dúvida quanto à inversão das mesmas no nome da revista. Seria apenas uma forma de destacar a Tecnologia, principal dimensão a abrigar a atenção e os esforços profissionais da Fucapi? A resposta a essa indagação é um sim parcial. É sim, porque realmente há o interesse de ressaltar a importância que merece ser conferida à Tecnologia, cada vez mais a se fazer presente em nosso cotidiano, oferecendo-se como instrumento para a construção de soluções que pavimentam o desenvolvimento regional. É parcial, porque na verdade não se trata apenas da singela inversão de letras. Neste caso, o C refere-se a Conhecimento. Conhecimento sem o qual um país não consegue ocupar um espaço apropriado nas relações econômicas internacionais; Conhecimento cuja limitação igualmente impede que regiões menos desenvolvidas promovam sua integração e crescimento, reduzindo desníveis em um mesmo país; Conhecimento que também pode resultar de experiência acumulada, aquela que, transmitida através de gerações - ainda que sem a chancela científica - compõe de modo próprio a identidade de uma região. Tecnologia & Conhecimento, contribuindo para a expansão das fronteiras de nossas competências. Fundamentais para responder às necessidades da Amazônia. Mas sem sacrificar a sua identidade.


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T&C Amazônia Ano II - Número 5 - Agosto de 2004 ISSN - 1678-3824 Publicação Quadrimestral da Fucapi - Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica.

Conselho Editorial Isa Assef dos Santos Guajarino de Araújo Filho Niomar Lins Pimenta Equipe Editorial Guajarino de Araújo Filho Niomar Lins Pimenta Tricia Cabral Capa Karine Gomes Queiroz Infografias Karine Gomes Queiroz Narle Silva Teixeira Diagramação e Soluções Gráficas Estagiário Breno da Costa Colares Jornalista Responsável Tricia Cabral Reg.: 063 MTb-DRT-Am

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Revista T&C Amazônia - Ediçao 05