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proposta desta revista é simples: fazer pensar. No entanto, por vivermos em uma sociedade regida por um sistema de aquisição e valorização do ser através do ter, nosso objetivo não é fácil de alcançar. Pode parecer estranho, mas poucas são as pessoas que se dão o trabalho de pensar. E na tentativa de combater esse fenômeno sufocante, que mecaniza o raciocínio, lançamos esta revista. Com isso, avisamos que o leitor precisará de certa paciência e tempo. Ambas virtudes necessárias pois primamos pelos textos mais longos, contrariando o senso comum da estrutura noticiosa, e matérias atemporais, que tragam recortes da realidade em reportagens que tenham algum potencial de ensinar, questionar padrões ou propor que o leitor saia destas páginas e vá além. Não fazemos ideia se esta revista irá sobreviver, mas decidimos tentar.

Tiago Lobo

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ÍNDICE 05 Colaboradores 07 Palavra do Leitor 08 Brainstorm 10 Visões

Vivendo do lixo

Histórias 16

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A TAVERNA DO VIADUTO Otávio Rocha


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O pichador das Alturas

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Farda Nunca Mais

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Expedição Literária na Terceira Idade

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Há 11 anos caía um Asteroide na Feira do Livro

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O Tempo de Fruet e Os Cozinheiros

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ARTIGO

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EXPEDIENTE Editor e jornalista responsável: Tiago Lobo — MTE 15.997/RS Editor para o inglês: Tiago Bianchi Capa: Uilian Gomes Colaboradores: Débora Birck, Uilian Gomes, Leonel Domingos, Rafaela Ely and Renan Antunes de Oliveira.

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revistapensamento@gmail.com contato@pensamento.org

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COLABORADORES Débora Birck (PG 10, “Vivendo do lixo”). Uma guria de Estância Velha, que saiu da casa dos pais para tentar a sorte em Porto Alegre. Na capital gaúcha virou militante de partido político até descobrir uma forma diferente de ver o mundo, através das lentes de uma câmera fotográfica. Uilian Gomes (A rte de capa). Uilian Gomes tem 34 anos, é natural de Santa Maria e atualmente reside em Porto Alegre. É desenhista e escultor autodidata dentro do estilo Pop art underground. Atualmente trabalha com um estudio de criação autônomo, como designer de propaganda e produtos em midia impressa, digital e 3d. Ja trabalhou como técnico em construção de estradas, eletro-eletronico industrial e barman freelance. R afaela Ely (PG 18, “Pixador das alturas”). Estudante de jornalismo e Educação Física, Rafaela Ely atualmente mora em

uma cidadezinha nos E.U.A. Trabalhou no jornal O Sul, Jornal JÁ e foi colaboradora da revista Aplauso. R enan Antunes de Oliveira (PG 23 “Farda nunca mais”). Vencedor de um prêmio Esso nacional em 2004, com a reportagem “A Tragédia de Felipe Klein”, Renan (ou RAO) vive como um polêmico repórter independente. Tem passagem por veículos como Veja, IstoÉ, Estado e Folha de SP, Grupo RBS, TV Cultura, Rede Globo, Extinto grupo Caldas Júnior e outros. Atualmente publica como freelancer no UOL Notícias e no Jornal JÁ, de Porto Alegre. L eonel Domingos (PG 19 - ilustração). Leonel Domingos nasceu em Portugal e atualmente reside no RJ. É arquiteto, mas divide seu tempo como ilustrador. Possui ilustrações e tirinhas publicadas em revistas e livros de circulação nacional e internacional.

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Não somos perfeitos. Esta página é dedicada para direito de resposta e correção de erros eventuais de nossas reportagens.

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Sobre o Jornalismo

na

sociedade de consumo Por Tiago Lobo O papel do jornalista é o de interpretar informações, atribuindo-lhe sentido e precisão na produção de um bem intelectual que dê ao receptor a possibilidade de refletir e de, também, interpretar. É aí que reside a grandeza de um texto, e só então pareceria correto atribuir ao jornalismo o papel de auxiliar na difusão do conhecimento. O ato de informar consiste em transmitir dados técnicos sobre determinado fato. Estes dados, tal qual o Lead, não possibilitam percepção de atmosfera, conjuntura emocional e emissão das particularidades de um fato. A absorção da informação calcada na objetividade jornalística esfria as capacidades emocionais e afeta o entendimento do universo particular de uma ocorrência por parte do receptor. Ser objetivo não é ser pouco preciso. É possível ser objetivo em um texto jornalístico e descrever um acontecimento com precisão e técnicas narrativas literárias que lhe componham as sutilezas que permeiam a história humana. Ora, o jornalismo se nutre da vida e história humana, portanto sua narrativa não deveria desumanizar as personagens das suas tramas de não

ficção. O excesso da objetividade aborta a humanidade de um texto. Então, sendo o ser humano, a vida humana, a matéria prima do jornalismo e de toda narrativa, cabe ao jornalista o papel de extrema relevância de atentar-se para a humanização do seu trabalho. Ir contra o consumo imediatista é uma solução paliativa para o estabelecimento de uma cultura da coletividade e de parcial igualdade. E sendo o jornalismo, e parte do processo comunicacional humano, uma estrutura de contrapoder, a ele lhe cabe o papel de regular e opor-se a degradação e massificação da mente coletiva da sociedade do espetáculo. Se o jornalista escreve para seu leitor é por ele, e para ele, que deve se pautar. A intimidade e circulo de confiança gerado pelos jornais de pequenas esferas de abrangência atendem de forma muito mais direta aos interesses coletivos do que a generalização de abraçar o mundo dos grandes veículos. A estes últimos caberia o papel não de formadores de opinião, mas de proponentes da reflexão. O verdadeiro papel do jornalista é, e sempre foi, fazer pensar.

O verdadeiro papel do jornalista é, e sempre foi, fazer pensar.

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FERNANDO PESSOA

ALBERT EINSTEIN

Poeta

Cientista

“A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar”.

“Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos”.

WILLIAM SHAKESPEARE

SIGMUND FREUD

Poeta

Pai da psicanálise

“O pensamento é escravo da vida, e a vida é o bobo do tempo”.

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“O pensamento é o ensaio da ação”.

HENRY BERGSON

VINCENT VAN GOGH

Filósofo

Pintor Pós-Impressionista

“Pense como um homem de ação, atue como um homem de pensamento”.

“O resultado do pensamento não tem de ser o sentimento mas a atividade”.


GUY DE MAUPASSANT

ALDOUS HUXLEY

Escritor

Escritor

“Dois homens nunca se penetram até a alma, até o fundo dos pensamentos; caminham um ao lado do outro, às vezes abraçados, mas nunca unidos, e a pessoa moral de cada um de nós fica eternamente sozinha por toda a vida”.

“O homem que pretende ser sempre coerente no seu pensamento e nas suas decisões morais ou é uma múmia ambulante ou, se não conseguiu sufocar toda a sua vitalidade, um mono maníaco fanático”.

VOLTAIRE

VICTOR HUGO

Escritor

Poeta

“Quando não há, entre os homens, liberdade de pensamento, não há liberdade”.

“O pensamento é mais que um direito; é o próprio alento do homem”.

ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

PAUL VALÉRY

Escritor

Filósofo

“Só conheço uma liberdade, e essa é a liberdade do pensamento”.

“Todo pensamento é uma exceção da regra geral, que é não pensar”.

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VIVENDO DO LIXO Ao flagrar um morador de rua entrando em um container de lixo orgânico do programa da Prefeitura “Porto Alegre Eu Curto, Eu Cuido”, a fotógrafa Débora Birck não teve dúvidas e registrou um ato desesperado de sobrevivência devido a condição miserável que uma parcela da população gaúcha se encontra

Débora Birck Fotos


A TAVERNA DO VIADUTO OTÁVIO ROCHA Quem desce o viaduto na Av. Duque de Caxias, em direção ao centro, certamente já passou pelo boteco Tutti Giorni. Bar que reúne todo o povão que não quer desembolsar mais do que cinco pilas por um prato feito.

A

Por Tiago Lobo

porta aberta revela um corredor escuro, com lâmpadas num clima “à meia luz”. A entrada é atrolhada de caixas de cerveja, mesas de bar em pilhas e uma televisão que quase nunca é ligada, pois Ernani, o proprietário, prefere a música. Que, aliás, é tempero indispensável do seu famoso Carreteiro de R$2,00. Até o meio dia o dono conta que “só toca gaudério”, depois a atendente dá o tom e muda de estação. Mas isso varia, pois os clientes mais fiéis dizem que o “Nani bota o som de acordo com o gosto do ouvinte”. As paredes são desordenadamente forradas com fotos, cartazes e centenas de charges feitas por sócios da GRAFAR (Grafistas Associados do Rio Grande do Sul) que são o diferencial do lugar. 16 Pensamento

O cliente pode escolher se prefere as mesas largas de madeira que ficam nos cantos, umas meio bambas, ou às redondinhas de centro, com bancos sem encosto e toalhas xadrez. Parece à Casa dos Sete Anões em tamanho humano e bagunçado.

Tragédia e Glória O lugar existe faz 21 anos, e é familiar. Passou de pai para os filhos Ernani e Emilio Pedrozo, que hoje é fotógrafo da Zero Hora. Após a morte do pai, e um acidente de carro que deixou o atual proprietário em coma por 2 meses, sobrou pro “Nani” a gerência do lugar; ou “Ernanimus Gourmet”, como também é conhecido.


Um prato cheio Assim que cheguei fui servido pelo próprio Ernani, que faz o tipo italiano fanfarrão, “mucho bona gente”, com um avental a tiracolo e um sorriso gentil ao anunciar: — É o melhor almoço do viaduto e pode

ser o pior também, só tem eu. Por 3 pilas recebi um copo de refri e um prato fundo, daqueles de sopa, com 2 folhas de alface, salada de maionese, uma porção monstruosa de carreteiro de lingüiça e um feijãozinho transbordando pelas beiradas. Por incrível que pareça a comida é boa! No carreteiro encontrei um ou outro naco de frango e algo que lembrava meia almôndega. Mas haja fome pra dar conta de um pratão daqueles, e ainda servem uma travessa com uma porção “extra”. Dá pra ver que a coisa é reforçada. O Tutti Giorni fica nos Altos do Viaduto da Borges da Medeiros, n° 788 e funciona de segunda a sábado das 11h às 14h e nas terças-feiras das 19h à 1h. Foto: Débora Birck

O taverneiro, de 46 anos, lidera a cozinha, serve os clientes com uma simpatia inabalável e anda tira um tempinho pra dedilhar seu violão, nas terças, pela noitinha, quando o clima fica mais animado. “Já tivemos umas 150 pessoas, numa terça, de noite, aqui pelo Viaduto. Quando chove e o povo todo vem pra dentro não dá nem pra se mexer”, conta o dono, rindo.

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O PICHADOR DAS ALTURAS Policiais militares foram chamados para deter um pichador que subia num prédio de 16 andares no centro de Porto Alegre, na madrugada do dia 21 de agosto de 2010. Ao chegarem ao local ele já tinha atingido o topo do edifício e descia deixando seus rastros.

“P

Por Rafaela Ely e Tiago Lobo

rendemos o homem-aranha de Porto Alegre; o pegamos no décimo terceiro andar de um prédio!”, anuncia um policial militar no Palácio da Polícia. Ele foi um dos brigadianos que flagrou o pichador LAK?, de 18 anos, no sábado, 21 de agosto de 2010, às 4h35 escalando de mãos nuas dezesseis andares do Edifício Rua do Arvoredo, esquina Fernando Machado com Borges de Medeiros. LAK?, assinatura que nem o autor sabe o significado, deixou a casa onde mora com o pai e a

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avó, no bairro São Lucas, em Viamão, para passear pela Cidade Baixa com amigos da Capital. Então a turma com cerca de dez jovens encontrou um conhecido que tinha algumas latas de tinta e queria “pegar um pico”, como os pichadores se referem aos alvos de seus ataques. Eles se dirigiram até as imediações da Santa Casa para pichar um prédio de oito andares. O plano fracassou. O segurança percebeu o que os rapazes queriam e os expulsou dali. Na saída, em protesto, LAK? chutou um vidro. “Rasguei o dedo, o bagulho saiu sangue, daí eu amarrei a


meia no meu pé.” Mas esse ferimento não estragaria a noite de delinqüências do pichador que se lembrou de um edifício que vinha estudando e disse aos amigos que fossem pra lá.

Não consegue parar LAK? trabalha junto com o pai como gesseiro e também é chapeador. Parou de estudar na quinta série. Filho de pais separados, a família sabe que picha e soube de todas

as vezes que foi flagrado. Não gostam, mas a mãe não fala nada e o pai diz que “se for pra pichar, então aproveita e rouba a tinta”. A avó odeia o envolvimento do neto nesse tipo de atividade, apesar disso, foi ela quem o buscou na delegacia na maioria das vezes. Ele começou a pichar com quinze anos, por influência de amigos. No início, ele pichava por diversão, hoje picha por vício. O guri conta que com o passar do tempo ele começou a sentir a adrenalina da pichação e ficou viciado. “Eu não

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consigo parar, é mais forte do que eu, tá ligado?”. Contudo, ele diz que anda parado. A namorada, com quem está junto há dois anos e meio, desconhece o vício do rapaz. LAK? acredita que ela seja uma das responsáveis por essa mudança. “Essa é de fé”, revela o pichador.

Só alegria Durante aquela noite fria, os jovens bebiam vinho tinto, quase um litro por cabeça, e fumavam maconha. Cleber Maciel, o porteiro do prédio, conta que eles estavam alterados. “A rapaziada estava bebendo e gritando, e LAK? estava aí com a gurizada, batendo recordes”.

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Cerca de cinco minutos depois da chegada ao prédio, imagens da câmera de segurança externa do condomínio mostram que o grupo caminhava para cima e para baixo naquele trecho do viaduto Otávio Rocha, arrumando o material necessário para o ataque. Às 3h50, munido com dois litros de tinta e um rolo dentro da mochila que levava às costas, LAK? escalou a lateral do edifício para deixar sua marca. “Nós vimos que o porteiro tava ratiando, aí foi só alegria!” A ideia de LAK? era pichar o ponto mais alto do edifício: a casa da caixa d’água. “O bagulho é lá na altura”, exclama. Contudo, quando chegou ao último andar, deparou-se com um vidro na sacada que o impediu de continuar subindo. Subida essa que, para


muitas pessoas, seria considerada impossível. Ele subiu pelas sacadas até o penúltimo andar, com o dedo cortado, e se gaba à reportagem: “Quando eu cheguei lá em cima, me senti o dono do mundo!”. A primeira letra foi feita do lado esquerdo da sacada. Então o pichador começou a descer. Para pichar, molhava um rolinho na tinta e escrevia, mas as coisas ficaram mais complicadas. Para pichar dos dois lados da sacada, era necessário caminhar sobre uma estreita viga: “eu tinha que botar um pé na janela e um pé no concreto, caminhar até a ponta, depois pular e ficar só no concreto, acocado com a mão na parede pra descer o rolinho. Essa foi à parte mais difícil.”. Estar há quase cinqüenta metros do chão não assustou o guri. “Esse foi o terceiro de altura grave que eu fiz.” Para essa turma, “altura grave” são quinze andares ou mais. Menos que isso é fichinha. O recorde de LAK? é um edifício de trinta andares, o Coliseu, no centro da Capital. Apesar disso, esse foi mais fácil, pois LAK? acessou o prédio por dentro, em uma ação durante o dia. Ele revela que nessas situações, os pichadores vão na “cara-dura”. Inventam alguma história para o porteiro, se ele perguntar alguma coisa, entram no elevador e vão direto para

o último andar. Quando chegam lá, arrombam as portas com um pé-de-cabra e cometem seus atos de vandalismo. Não foram apenas os edifícios Rua do Arvoredo e Coliseu os alvos de LAK?. Dois prédios na Salgado Filho, um na Otávio Rocha, outro na José do Patrocínio, o Bar Opinião, a chaminé da Usina do Gasômetro, entre outros que também foram pichados por ele. O jovem não lembra exatamente quantas vezes foi preso, umas doze, acha. Em todas elas, foi detido e liberado depois. “Foram dez B.O.s de menor e dois de maior”, calcula. Ele explica que a grande diferença do grafite para a pichação é que o grafite é legal. Há uma autorização do responsável pela propriedade para o uso artístico. A pichação não. Não importa o quão bonito ou feio é o resultado da obra, é vandalismo. “Se o cara pega tu aí pichando, tu toma cana.”

Quando eu cheguei lá em cima, me senti o dono do mundo!

Caiu a casa Uma guarnição da polícia parou na Borges à procura de LAK?. Ele estava no décimo quarto andar. Durante o tempo que os policiais estavam por perto, o pichador ficou Pensamento 21


abaixado para não ser visto. Quando eles foram embora, ele continuou pichando. Mas seu anonimato não durou muito tempo. Em seguida chegaram duas viaturas: uma da Policial Civil e outra da Brigada Militar. A câmera de segurança do hall de entrada mostra dois policiais militares entrando no prédio às 4h24. Poucos minutos depois, o porteiro Cleber acompanha um deles no elevador até o sexto andar. Às 4h35, mais dois policiais foram de encontro ao pichador para efetuar a prisão. LAK? estava deitado na sacada do sétimo andar. Quando foi verificar se os policiais tinham ido embora ele ouviu, do andar de baixo: “ô meu, desce que caiu a casa, pega teu material”. Ele tinha consigo a mochila com uma lata de tinta, que deixou no local, e segurava o rolinho quando disse: “ô, meu, tenho só o rolinho”. “Tá, então desce”, foi a ordem do PM. O pichador saiu algemado pelo apartamento 605, onde, segundo o porteiro, mora um grupo de jovens. Àquela hora, Cleber achou melhor deixar os moradores mais velhos em paz. Às 4h40 LAK? saiu algemado do prédio, acompanhado por quatro policiais.

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A ação da Brigada impediu que o garoto completasse seu nome. A letra K e o ponto de interrogação não foram feitos. Para que suas pichações não sejam reconhecidas pela polícia, LAK? mente a sua tag (marca com o nome do pichador). Isso porque, em Viamão, o guri afirma só ter pichações do seu grupo. Ele toma a precaução de pichar apenas propriedades privadas. “O prédio da Borges é patrimônio privado, não é público. Se fosse público, eu tava fudido”.

O

nosso esporte

“Eu gosto de altura! Nós somos um tipo de alpinista. Esse é o nosso esporte. Nós subimos lá e deixamos nossa marca”. Ele diz que não picha para que as pessoas olhem e pensem que são apenas rabiscos. Ele picha para que as pessoas que conhecem esse universo admirem seu trabalho. “A pichação não se comunica com a sociedade, ela só se comunica entre a pichação”. E nesse arriscado processo, aquele que se sente “o dono do mundo” afirma que “o céu é o limite”.


FARDA NUNCA MAIS Ele era um pracinha que amava a banda Restart e usava calças coloridas como as dos ídolos, mas pro pelotão dele seu gosto é coisa gay. Durou três meses no quartel, até o estupro na frente de 14 colegas – nenhum o ajudou. IPM sob medida recomenda expulsá-lo do Exército. By Renan Antunes de Oliveira

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O

pracinha gaúcho de iniciais DPK, 19, enfrenta o Exército na Justiça Militar. Ele tem poucas chances de ganhar, mas pelo menos honra a tradição de luta do uniforme verde-oliva. DPK está ameaçado de pegar cadeia depois de denunciar ter sido estuprado no quartel por quatro dos 19 colegas de alojamento – os demais disseram que não viram nada acontecer. “Eu fui violentado e quero Justiça”, afirma DPK, 120 dias depois do incidente, acontecido em 17 de maio no quartel do Parque de Manutenção do 3º Exército, em Santa Maria (RS). Um inquérito policial militar (IPM) concluiu que foi sexo consensual. O caso corre em segredo na 3ª Auditoria Militar. A ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário mandou o ouvidor nacional de DH Domingos Silveira investigar o IPM. Ela quer “verificar a situação desta violência que está sendo tratada com tamanho desrespeito”. Durante entrevista no sábado 17, o soldado afirmou que enfrentará a acusação no tribunal. Ele disse que o Exército convenceu seus quatro agressores a mentirem no IPM, oferecendo para eles penas menores em troca de acusá-lo de homossexualismo – o

objetivo seria isentar a instituição da responsabilidade sobre o suposto estupro. Pelo relato, seu pesadelo começou quando se apagaram as luzes do alojamento do 3º Pelotão, às 10 da noite: “Eu fui atacado de surpresa pelos quatro e não tive como reagir”. Um quinto soldado ficou vigiando a porta e, nos beliches, outros 14 assistiram tudo e nada fizeram. O soldado revive o drama numa sala também lotada, por advogados, amigos e familiares, inclusive uma prima adolescente. Olha para o chão e continua: “Eles me jogaram de bruços na cama e taparam minha boca pra não gritar”. Exames de DNA comprovaram que três dos quatro acusados o penetraram. Dia 15, o Ministério Público Militar (MPM) acatou a versão do IPM, denunciando DPK e os demais envolvidos pelo crime de “pederastia e outros atos libidinosos”, artigo 235 do Código Penal Militar, passível de um ano de cadeia e expulsão (no CPM só existe estupro se for entre pessoas de sexos diferentes). A turma dos beliches escapou. O Exército jogou pesado contra DPK durante o IPM. Oficiais, sob a condição de anonimato, foram revelando aos poucos para jornalistas partes escolhidas do inquérito sigiloso, difamando o jovem como ho-

Eu fui atacado de surpresa pelos quatro e não tive como reagir

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mossexual, aidético, suicida e mentiroso. Na versão militar, DPK teria inventado a violação para obter indenização financeira. Toda argumentação do IPM tem base nos testemunhos dos recrutas acusados. Ficou a palavra de um contra quatro. DPK passou de vítima a réu. Dona Ester, 40 anos, mãe do soldado, comanda a defesa dele e partiu para o ataque. Quer responsabilizar o Exército e pedir indenização. Ela contesta a tese central do IPM: “Meu filho não é gay, nunca tentou o suicídio, nem é aidético” – neste caso, exames deram negativos. Ela afirma que o resultado do IPM teria sido manipulado porque foi antecipado em 70 dias pelo general comandante da guarnição de Santa Maria: “Os militares fizeram uma campanha de mentiras para condenar meu filho” (os citados nesta reportagem foram procurados, mas o único a falar foi o comandante). A mãe do soldado disse que DPK se

queixava de assédio no pelotão desde fevereiro, quando foi ao quartel pela primeira vez usando calça justa e colorida, à moda da banda Restart, a favorita dele.

Alojamento do 3º pelotão Segundo o IPM, 20 soldados estavam no alojamento na hora do incidente, contando com DPK. Um ficou de sentinela. Os quatro acusados pelo ataque encostaram três beliches, improvisando a cama onde deitariam DPK. A sessão de sexo durou 30 minutos. Os outros 14 recrutas, interrogados pelo capitão Newmar Schmidt, disseram não ter visto nem ataque nem orgia. “Muitos viram e nenhum me ajudou”, insiste DPK. “Durante três meses os carinhas do pelotão fizeram piadas, passavam a mão na minha bunda, mas nunca pensei que chegariam a tanto”, relem-

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bra. Ele acha que o assédio começou mesmo por causa do figurino Restart. “O pessoal aqui diz que minha roupa é coisa de gay”. Peritos encontraram esperma dos soldados JS, JPR e VRS nas ceroulas de DPK (os nomes completos não podem ser citados por causa do segredo de Justiça). O último a ser ouvido no inquérito foi DPK. Ele manteve que foi violentado. No interrogatório, Schmidt perguntou se para subjugá-lo os supostos agressores usaram “correntes, cordas, fios de luz ou de nylon”? Resposta: não. Para intimidá-lo, se usaram “baioneta, faca, pistola, revólver, fuzil, escopeta, metralhadora”? Resposta: não. O capitão relata nos autos um exame feito pelo enfermeiro do hospital da guarnição, que levantou as cobertas e deu uma olhada no traseiro do soldado. A conclusão deste perito: “Seu corpo não exibe marcas compatíveis com a resistência que teria oferecido”. Exames independentes feitos pela família não foram aceitos pelo IPM. Juntando os nãos, a ausência de marcas no corpo e a confissão dos acusados por DPK, o IPM fechou redondo na tese da orgia gay.

Foi brincadeira de rapazes, diz general “Houve crime, mas não foi estupro”, disse em entrevista na segunda-feira o general Sérgio Etchegoyen, comandante da 3ª Divisão do Exército, em Santa Maria. “O IPM foi conduzido de forma isenta pelo oficial encarregado”. 26 Pensamento

Uma espécie de luta corporal de brincadeira entre os rapazes Uma versão completa do incidente já tinha sido dada pelo general em sigilo aos deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha, em sete de julho. Lá, ele disse que tudo fora “uma espécie de luta corporal de brincadeira entre os rapazes”. Etchegoyen disse ainda que apenas “constatou-se lesão leve no ânus do soldado DPK, o que por si só não comprova o alegado estupro” – falava 50 dias depois do ocorrido, antecipando em 70 o resultado do IPM. O depoimento foi distribuído aos jornais por um deputado petista. A revelação enfureceu o general. Na segunda, por telefone, ele lamentou que “um tema tão sórdido tenha sido levado a público pelo deputado. Ele diz o que quer porque tem imunidade, mas eu tenho um compromisso com a privacidade com meus subordinados”. Na batalha pela mídia, tudo já indicava que DPK seria transformado em réu no IPM. A boataria na cidade cresceu tanto que em 29 de agosto, duas semanas antes da conclusão do inquérito, o MPM divulgou


uma nota preventiva, isentando o Exército das acusações de tentar “abafar o caso ou descaracterizá-lo”. O promotor Jorge César de Assis, o mesmo que depois aceitou a denúncia, afirmou que “… as Forças Armadas estão entre as instituições que detém a maior credibilidade perante a opinião pública” e que “não há nenhum indício de que estejam fazendo isto” (abafando ou descaracterizando).

A escaramuça do hospital Depois do ataque, DPK não quis mais sair da cama. No dia seguinte, quarta 18 de maio, um sargento estranha sua apatia e logo descobre tudo, alertando superiores. O soldado é internado no hospital da guarnição, onde seria periciado pelo tal enfermeiro. Um aspirante a oficial anota que ele parecia deprimido e suicida, receitando antidepressivos. Um recruta do mesmo pelotão é destacado para vigiá-lo no leito, mas piora as coisas porque o ameaça: “Se falar, você vai se ferrar”. Dia 19 de maio. DPK liga pra mãe, mas não conta nada: “Eu tive vergonha”. No quinto dia, 22 de maio, a mãe ouve boatos de um estupro no quartel. Num palpite, ela manda o marido apurar – a fama do quartel é ruim desde 2006, quando dois soldados foram expulsos por violentar um terceiro na padaria da guarnição. Seu Luiz encontra o filho escondido sob cobertores, com as mãos no rosto. Chorando,

DPK conta tudo pro pai. Dona Ester se materializa no hospital. Em modo de combate ao lado do filho, interroga todos que vê pela frente. O subtenente Jorge Bernardes faz o papel de assistente social. Ele explica candidamente aos pais que “o menino participou da ‘cerimônia do sabonete’ durante o banho. Caiu, quem se abaixa para juntar já era”. E que não tinha dúvidas: “O filho de vocês é gay”. Dona Ester diz uns palavrões para Bernardes, acampa no quarto do filho e expulsa de lá o sentinela. Os militares tentam tirá-la do quartel, mas ela se recusa a sair. O general Etchegoyen oferece transferir DPK para o QG, promete que lá seria tratado como filho por oficiais mais velhos. Dona Ester também não aceita. O general disse que cedeu às exigências dela porque “era compreensível o sentimento de mãe”. No último dia dele no hospital, 25 de maio, um capitão aparece com ordens para transferi-lo em carro oficial e fardado para outra unidade militar. Dona Ester bate pé: “Daqui ele só sai comigo e vai para casa”. Ela ganhou de novo. Licenciado, sempre recebendo o soldo de R$ 473 mensais, o filho está desde então na casa dos pais.

De volta pra casa E como vai indo o soldado DPK?”Tô maus, mas vou levando, vou superar”. Na entrevista ele vestia calça justa, tênis Nike e jaqueta escura – nada colorido. Seu cabelo é o moicano estilizado da hora. Magro, 1m80, pele bem morena, apesar do sobrenome e sangue de imiPensamento 27


grantes alemães. O soldado fala baixo, com voz grave. Tem um tique nervoso que o faz jogar os lábios muito pra frente ao falar, fazendo biquinho. Seus melhores amigos são as irmãs de 9 e 7 anos. A mãe conta que ele ainda brinca com elas de esconde-esconde. E Samuel, com quem vai ao culto da Igreja Quadrangular nas quartas. Na sala lotada, DPK se vê forçado a responder se é gay ou não – mesmo que quisesse sair do armário seria difícil, ainda mais com a curiosa prima adolescente refestelada numa poltrona. Ele demora segundos. Todos na sala com respiração suspensa. Mas a voz grave e firme vem do biquinho: “Sou hétero”. Ao lado dele, o pai relaxa os ombros, parecendo respirar aliviado. “Meu filho não é gay” atesta dona Ester, percebendo que a tese do homossexualismo é central na disputa jurídica. Ela ainda desafia: “E se fosse? Poderia ter sido estuprado?”. 28 Pensamento

Os advogados dele querem provar que o soldado é retardado mental e que o Exército falhou em perceber isto nos exames de ingresso. Se for declarado incapaz, voltará a ser considerado vítima de violação. A mãe concorda. Ele ouve ser chamado de retardado e nem pisca. O pai ajuda: “Meu filho nunca conseguiu ser aprovado na escola depois da 5ª série do primeiro grau”. Pais e advogados desencavaram pareceres de professores, laudos de exames neurológicos e testes psicológicos extras do menino lá na escola primária. Um psiquiatra de Santa Maria atestou retardamento e déficit de atenção por hiperatividade. DPK revela o sonho que tinha de permanecer no Exército depois do serviço obrigatório, mas sabe que agora não será mais possível. A mãe fecha o papo: “Esta farda você não veste mais”.


EXPEDIÇÃO LITERÁRIA NA TERCEIRA IDADE Oito senhoras, com idades variando de 60 a 78 anos, embarcaram em um ônibus e desceram na Feira do Livro no dia 08 de novembro de 2011, como todo mundo faz — a diferença é que elas estão em processo de alfabetização e pisaram pela primeira vez na maior feira literária do sul do Brasil.

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G

uiadas pelas voluntárias Maria de Lourdes Fernandes Dutra Vila, 68 anos, e Ana Maria Azambuja, de 63, o grupo saiu em busca de livros acessíveis, tanto na linguagem como no preço, pois naquele dia, aquelas senhoras ganhariam seu primeiro livro. Essa iniciativa é fruto de um trabalho voluntário desenvolvido pela Casa Espírita Sebastião Leão, localizada no bairro Glória, que oferece cursos de artesanato e tricot para os frequentadores. Mas isso não foi suficiente para Leonida Maria Nunes de Oliveira, de 63 anos, moradora da Vila Cruzeiro, casada com um deficiente visual e que precisa lidar diariamente

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com as idas e vindas do filho, um dependente químico. Portanto, ela e outras senhoras, todas moradoras de comunidades carentes, manifestaram interesse em aprender a ler e há dois anos o grupo tem aulas com as professoras Maria e Ana. A classe se reúne nas terças-feiras, das 14h às 16h e 30min na sede da casa espírita. As aulas só não acontecem em dias de chuva, pois as vovós, como são chamadas pelas professoras “chegavam encharcadas e não tinham roupa para trocar”, explica Maria de Lourdes. A turma começou com 10 alunas. Uma saiu pois já lia bem e foi para um Nucleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos e Cultura Popular (Neejacp), o popular Supletivo, a


outra faleceu recentemente — era a caçula da turma, tinha 55 anos, trabalhava como catadora de materiais recicláveis e uma das mais esforçadas da classe. Chegava nas aulas com quase uma hora de atraso, carregando um sacolão atrolhado do que tirava do lixo. Nos exercícios, confundia “tonelada” com “tomelada”, mas ela não estava de um todo errada. “Depois eu entendi que ela queria dizer que estava melada, suada, pois vinha direto do trabalho, não entendia o que era uma tonelada”, conta a professora Maria de Lourdes. Para Ana Maria, aposentada que trabalhou a vida inteira com alfabetização infantil, o processo de ensino-aprendizagem da

Trouxemos elas pra cá (Ala Infantil) pois os livros são mais simples para leitura Pensamento 31


terceira idade é muito parecido ao da criança, com a ressalva de que suas alunas apresentam dificuldade de memorização. O grupo chegou às 15h e foi direto para a Ala Infantil da Feira do Livro, no Cais do Porto. Tinha certo mistério no ar que envolveu estas novas leitoras, que caminhavam com olhares curiosos, mas tímidos. Um segredo que ia sendo descoberto a cada página virada, e a cada frase decifrada de livros que folheavam lentamente. Tudo era novidade, e os livretos com mais cores, menos texto e letras maiores ganharam a atenção do grupo. “Trouxemos elas para cá (Ala Infantil), pois os livros são mais simples pra leitura”, explica Maria de Lourdes.

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Leonida foi a primeira a escolher seu livro, uma história ilustrada, colorida, de 12 páginas que custou R$ 4,20 e tinha como título A Libélula Voadora. As outras alunas ganharam um livro cada, presente da Casa Sebastião Leão. Os títulos escolhidos foram: Cinderela, Peter Pan, Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, Bambi e O Gato de Botas. Depois, foram assistir, em meio a uma centena de crianças, um teatro de bonecos. Agora Iara, que custa a revelar a idade dizendo aparentar 40, pois “ainda quer namorar”, pode voltar para casa sem perguntar para ninguém o que está escrito no letreiro do seu ônibus, ler seu livro na viagem e, de quebra, escrever uma carta para seu futuro namorado.


HÁ 11 ANOS CAÍA UM ASTEROIDE NA FEIRA DO LIVRO A explosão foi tamanha e a cratera tão funda que resultou em um projeto social que aproxima crianças de rua de uma vida mais digna: criado pela jornalista Sônia Zanchetta, em 2000, o Asteroide busca a integração entre a comunidade e os garotos de rua que frequentam a Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro.

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jovem A., 15 anos, foi acolhido no Asteroide em 2004, quando seu irmão mais velho, de 32, apresentou-lhe o projeto. Em 2009, saiu de casa porque brigou com o padrasto que bebia e batia na mãe. Foi morar na rua. O garoto tem dez irmãos e passou um ano na sarjeta, até ser encontrado por assistentes sociais do “Ação Rua”, projeto da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) que resgata menores em situação de risco. Entenda-se risco por jovens abandonados, usuários de drogas, vítimas de abuso, maus tratos e exploração. Ele foi, então, direcionado para a Escola Municipal de Porto Alegre (EPA), criada em 1995 com o apoio do Albergue Municipal onde faz a 4ª e 5ª série do Ensino Fundamental e já tirou até um curso de padeiro. Esta história se repete com LNS, de 18 anos, que hoje cursa a 7ª e 8ª série na EPA, pelo Núcleo de Educação para Jovens e Adultos — o popular Supletivo. O garoto negro de boné branco, camiseta vermelha e olhos atentos foi vítima do tráfico. Defendia uma boca quando, numa troca de tiros, levou uma bala na coluna. Resultado? Está em uma cadeira de rodas. No entanto, isso não o impede de jogar basquete e dizer, com os olhos brilhando: “Sou feliz e nada vai me parar”. Ele garante que abandonou as drogas e agora só quer “estudar e alegria”. Este também era o desejo de Glauber Fernando Meireles Naguatini, 23 anos, morador de rua que foi atingido pela força do Asteroide há 10. Ele fazia o tipo brinca-

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lhão, quando o conheci, em 2010, carregava seu pandeiro e não se intimidou quando lhe pedi uma palinha. Vestia a camiseta do projeto, orgulhoso, e dizia: “Esse projeto é tudo para mim; com essa camiseta podemos andar na Feira que vão saber de onde somos”. Neste ano Glauber não participou do Asteroide, conseguiu emprego na Cootravipa e ficou sem tempo. Mas não foi só ele que se afastou do projeto. Quando cheguei ao espaço, na quarta, 08, às 15h e 45min, não achei ninguém. Estava lá apenas o assistente social Luis Felipe Melo Balhego, 25, que me recebeu e contou que dois jovens de 9 e 12 anos estavam passeando pela Feira, e seriam encaminhados para um abrigo. Balhego explica que a maioria dos garotos atendidos pelo projeto possuem um histórico de violência doméstica, que os faz adotar a rua como casa. Explicou, também, que o Asteroide é mantido por uma rede de organizações que articulam ações de atendimento para jovens em situação de risco, como acompanhamento psicológico e encaminhamento para abrigos e escolas. Saí de lá dizendo que retornaria no dia seguinte, e assim o fiz. Para minha surpresa encontrei, na quinta, 09, às 15h e 06min, 23 jovens, 2 monitores e 3 professoras da EPA, e ainda um voluntário que ensinava artesanato para os meninos, atentos. Tinha até uma escultura de dragão feita pelos garotos e garotas do projeto. A ideia surgiu de uma estatueta feita por Paulo Gilberto, de 19 anos. Os colegas se encan-


taram e as professoras resolveram fazer uma escultura coletiva da figura mitológica, representando a efemeridade da vida, um conceito trabalhado no projeto. O fato é que não estiveram presentes 20 jovens a cada dia do Asteroide em seus primeiros 12 dias de funcionamento. A professora Bernardete Simon, 50, que dá aulas de Educação Física na EPA e já participou de outras edições do Asteroide, atribui essa diminuição do público a uma mudança na rua. Mesmo assim Wilson Fernando da Silva Ribeiro, 24 anos, trabalha como monitor no projeto. Ele veio da EPA e seu objetivo de vida é integrar a equipe do “Ação Rua”. “Quero tirar a gurizada da rua, eles merecem”, declara, determinado. O Asteroide funciona como atividade complementar para os alunos da EPA e jovens do Lar Dom Bosco e oferece diversas atividades, oficinas, palestras, café da manhã, almoço, lanche e um espaço onde eles podem tomar banho. Sua coordenação fica por conta da diretora da EPA, Maria Beatriz Osório Stumpf, 49, que assumiu este ano. A opinião de Maria Beatriz sobre a diminuição de participantes do projeto é que muitos jovens estão inseridos em cursos, outros ficaram mais velhos e trabalham. “Infelizmente ainda existe o aumento da drogadição, mas é um dado empírico”. Quando pergunto sobre quais políticas são desenvolvidas para atrair os meninos de rua a coorderadora do projeto explica que o Asteroide “Não é uma busca da gurizada, é um acesso à gurizada”.

Quero tirar a gurizada da rua, eles merecem

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O TEMPO DE FRUET E OS COZINHEIROS O cantor e compositor a frente da banda Fruet e os Cozinheiros, vive de pensar a música. Seja a dele, ou a dos outros, o Chef Marcelo Fruet , 33 anos, é produtor musical há 11, e já ganhou diversos prêmios. Portanto: grave este nome.

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atural de Porto Alegre, na música só começou por insistência.Queria tocar guitarra, ter banda e etc. Conquistou o instrumento aos nove anos, como presente da família, com a condição de aprender a tocar violão. Condiçao aceita, faltava a banda, então Fruet começou a tocar com amigos da rua. Nesta época compôs a música “A Praia”, que tinha o seguinte refrão: “A praia tem peixe, a praia tem bixo, a praia tem gente, a praia é um lixo”, pois ele não queria saber do litoral. Seu negócio era passar as férias tocando. Com 12 anos Fruet montou sua primeira banda, a Flor de Lis, composta por um teclado, sua guitarra e uma bateria improvisada com caixas. Daí seguiram-se as bandas Nephila, Bichano da Massa, Universo Colorido e Groove James até chegar na cozinha ideal. Mas muito antes ele já pensava na música além de um hobby adolescente. Queria viver disso e a maioria dos seus colegas, não.

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Sua vontade era tão grande que ele chegou a ensinar um amigo a tocar contrabaixo pra poder entrar num grupo. Na Bichano da Massa, eles se endividaram, foram morar quatro meses em Santa Catarina pra poder pagar os equipamentos, mas conseguiram gravar o primeiro disco.

Ampliando horizontes “Aí foi um mundo que se abriu na minha frente”. Fruet conta que sonhava em gravar músicas com muitas vozes, em várias pistas. Então usava um gravador simples e passava o áudio de uma fita pra outra, mas lembra que isso “era um sofrimento”. Quando chegou no estúdio pôde colocar em prática tudo o que bolava. Infelizmente o disco não teve duração. O trabalho foi lançado em dezembro e logo em março Fruet foi parar em Los Angeles, como


bolsista para estudar música na Los Angeles Music Academy (LAMA). O que era pra ser uma experiência de um mês, durou um ano. Tempo extra que permitiu que o músico juntasse dinheiro para abrir seu estúdio, logo que voltou para Porto Alegre. Foi a estadia em Los Angeles que lhe aproximou do universo da gravação profissional. Seu colega de quarto estava se formando no curso de gravação da LAMA. Aí lhe deu a lista de livros do curso: Fruet os comprou e leu tudo. Então o músico, que desanimava quando pensava nos altos custos para montar um estúdio, e que pedia amplificadores emprestados aos amigos para poder tocar, voltou pra sua cidade com um clássico Fender Twin Reverb, e outros equipamentos que usa até hoje e deram início ao seu Estúdio 12 - Experiência Sonora. Depois de tantas experiências com bandas desmanchadas, Fruet decidiu fazer uma carreira solo, mas com banda fixa, dando liberdade pros músicos opinarem e experimentarem. Sem qualquer pretensão que não fosse fazer música. O mote do som era “Que continue pop no sentido da digestão, mas que seja diferente...

Que se sinta uma personalidade e que tem alguma coisa pensante ali”. Aí formou-se, em 2005, “Fruet e os Cozinheiros”, com Marcelo Fruet (Violão e voz), Leonardo Brawl (Contrabaixo elétrico), Nicola Spolidoro (Guitarra) e André Lucciano (Bateria).Além de dois “Cozinheiros honorários”, Mateus Mapa (Flauta transversa) e João Marcelo Selhane (Percussão). Em 2006 a banda foi apontada pelo programa de rádio Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil (Cultura Am, 1200 kHz) como uma das diferentes vozes do samba nacional, pela música Samba da Conexão. No ano seguinte, duas canções de Fruet foram trilha do programa Big Brother Brasil e os Cozinheiros não pararam mais. No ano de 2008 veio o primeiro disco, intitulado “O Som do Fim ou Tanto Faz”. Em março com o apoio do Ministério da Cultura, Fruet e os Cozinheiros foram aos E.U.A, para sua primeira turnê internacional. Na terra do Tio Sam os brasileiros passaram por cinco estados e participaram do festival South by South West (SXSW), em Austin, Texas. A viagem rendeu um documentário que pode ser as-

Que continue pop no sentido da digestão, mas que seja diferente... Que se sinta uma personalidade e que tem alguma coisa pensante ali

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sistido no canal da banda no Youtube. No mês seguinte, em Abril, o Chef e os Cozinheiros faturaram quatro estatuetas na 17ª edição do Prêmio Açorianos de Música: Melhor Compositor, Melhor Projeto Gráfico, Revelação do Ano e Prêmio Destaque Cultura RBS/ Menção Especial. Como produtor produziu e participou de discos de artistas como Flu, Chimarruts, Da Guedes, Os The Darma Lóvers, Zumbira & os palmares, Renascentes, Pública, Apanha-

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dor Só e outros. Os dois últimos lhe renderam prêmios de melhor produtor.

O novo caminho “Pensando alto, brincando de brincar”. A frase que abre a canção El Mariacchi, que Fruet compôs aos 15 anos, parece atual se confrontada com o conceito do seu novo disco, que se chamará Aión: uma das três


palavras gregas para designar tempo, sob uma outra lógica. Aión representa o tempo enquanto ciclo e a Intensidade do tempo da vida humana, um destino. O trabalho é financiado pelo Fumproarte, possui participações de diversos convidados, e representa, para Fruet, o que ele foi, o que ele é e o que ele será. Para chegar na origem do seu novo trabalho, Fruet estudou os conceitos de tempo de diversos pensadores e chegou em Heráclito, que diz que o tempo “é uma criança que brinca, Seu reino é o de uma criança. O reino da criança brincando é a criança se fazendo de criança”.

Outro conceito muito presente neste novo disco é o da teoria do espelho, de Lacan. O nome do disco remete a tempo, mas a estética se rende a ilusão do espelho. Este trabalho contém canções do passado, do presente e de toda a vida de Fruet. “Tem o que eu fui, tem o que eu acho que fui, tem o que sou e nem sei que sou, e talvez tenha um pouco do que serei”, reflete o músico. No repertório do grupo esses temas são recorrentes. No primeiro albúm existe a faixa Todo Tempo, e no novo trabalho entra uma música chamada Tempo, que emprestou o nome a uma temporada de shows da banda em 2010.

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O novo CD já está em fase de gravação, mas não tem uma data fixa para lançamento. Para quem quiser acompanhar de perto os trabalhos de estúdio, e conhecer um pouco dos músicos envolvidos no processo, Fruet e os Cozinheiros tem lançado diversos episódios de um “Documentário em fragmentos”, dirigido por Daniel Bacchieri, com apoio da Zeppelin Filmes, em seu canal do Youtube. Enquanto isso, Fruet continua no tempo, ou Aión, que para Platão é “o eterno mundo das ideias”.

Todo Tempo Marcelo Fruet

Todos teus segredos estão lá no meio de onde eu não posso se quer chegar Todos meus anceios refletem o medo de não saber deixar rolar Todo meu todo teu sagrado todo meu, todo meu desejo Todo teu, todo teu sorriso todo nosso amor Vai crescer até acabar Todos os nossos momentos me esqueço no tempo pra não tentar lembrar Pois todo tempo é lento e fere por dentro quando não se tem alguem pra amar Todo tempo todo tempo é lento todo tempo em todos os momentos Sem te ver, te tendo em pensamentos quero te tocar Todo tempo não quero parar Todos meus anceios estão lá no meio, ondes não podes se quer chegar Todos teus segredos refletem o medo

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A COPA DO MUNDO É NOSSA E COM A POLÍTICA NÃO HÁ QUEM POSSA!

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uito se fala sobre os supostos benefícios que a copa do mundo de 2014 trará ao Brasil, mas pouco se alardeia sobre suas despesas. O ingênuo receberá o que lhe é empurrado como verdade providencial, afinal, “foi dito na TV”. O torcedor mais humilde e empolgado com a possibilidade de acompanhar sua seleção também cairá no engodo simplório de lançar-se a esperança oportunista de seu sonho. Estes, por sua vez, teimam em não imaginar, devido ao lençol político que corrói o âmago da imprensa, que este evento não tem por objetivo entreter, sustentar, gerar empregos e beneficiar os necessitados e miseráveis que transbordam como um copo cheio, chacoalhado por um governo deficiente de políticas públicas eficazes e distribuição de renda tão injusta quanto a moderna selvageria social que tem por objetivo execrar o “nós” e enaltecer primeira pessoa do presente e pronomes possessivos. O que está sendo executado, na cara do povo brasileiro, pintando seu nariz redondo de vermelho, é a venda das indulgências modernas e a política romana do pão e circo revisitada, que prometem soluções a título de qualidade de vida através de um dos eventos mais custosos à população — varrida como pó para debaixo dos tapetes persas do Senado. Quem ganha com a Copa do Mundo de 2014, fugindo da inegável beleza da festa e incontestável benefício ao orgulho nacional, a fim de instaurar o patriotismo à custa dos atletas que mal percebem quando o rei os faz avançar contra os peões alheios, são os partidos políticos em campanha e empresários estabelecidos. O trabalhador subordinado aos ramos do turismo, transporte público, comércio e alimentação só beneficiar-se-á através de horas extras e subempregos devido ao fluxo de público-consumidor e capital estrangeiro. Pensamento 43


Mas até aí, qualquer show e evento cultural centralizado, reduzindo proporções, é culpado pelo aumento da procura que gera demanda. E se alguns membros das nossas torcidas já se unificam em clãs guerreiros para trocar tabefes ao final das partidas, o que esperar de uma nação que luta entre si pelo fanatismo puro e condenável que obscurece a razão e transtorna a consciência? Torçamos, então, para que esta nação que agora recebe atenção mundial seja no

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O que está sendo executado, (...) é a venda das indulgências modernas e a política romana do pão e circo revisitada


Revista Pensamento #00  

Agosto de 2012 ​ Destaques da edição: - "O pichador das alturas", jovem escalou 16 andares de prédio, de mãos nuas, para praticar atos de v...

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