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u esperava um ônibus no centro de Porto Alegre, depois da primeira etapa da apuração de uma reportagem. Era 1h da manhã. O centro estava quase deserto, pouco iluminado, e um jovem puxou assunto: — Sabes se ainda têm ônibus a esta hora? Começamos a conversar e ele foi me contando sua história. Rafael Barboza Medeiros, 21 anos, trabalha na linha produção de uma empresa de cosméticos, e estava voltando para casa. Ao saber que falava com um jornalista, engatamos um papo sobre a imprensa, até que ele disse: — Eu acho que a vida de qualquer pessoa vale uma matéria, qualquer vida é interessante. Revelei-me surpreso com a declaração e respondi que não achava algo comum de se ouvir. Ele, convicto, respondeu: — Não é mesmo, se fosse o mundo seria diferente. A opinião de Rafael vai de encontro com os textos dos nossos colaboradores que, nesta edição, oferecem reflexões sobre o fazer jornalismo: Rodrigo Lopes, repórter internacional, aborda a profissão como o “templo da subjetividade”. Geneton Moraes Neto oferece dez passos para futuros jornalistas. Carlos Alberto Di Franco faz uma defesa apaixonada da profissão e da “arte de sujar os sapatos”. Arte, essa, que é muito bem representada por Renan Antunes de Oliveira, na reportagem “Um Túmulo para Teodoro Recalde”, uma narrativa vívida, fruto de um ano de apuração para ilustrar a situação da maioria dos índios brasileiros.

Tiago Lobo Pensamento 1


05 Correções 06 Colaboradores 08 Brainstorm 10 Visões

Morador de rua profissional

Histórias 16

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Um perfil de isadora faber


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A escolha de loreni

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Uma sepultura para teodoro recalde ENSAIO

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Jornalismo, o templo da subjetividade ARTIGOS

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dez coisas que aprendi sobre

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O ímã do Jornalismo

ela, a profissão de jornalista

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Editor e

jornalista responsĂĄvel:

Tiago Lobo - MTE 15.997/RS Capa: Leonel Domingos Colaboradores: Carlos Alberto Di Franco, Geneton Moraes Neto, Leonel Domingos, Uilian Gomes, Renan Antunes de Oliveira, Rodrigo Lopes Contato:

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P e n s a m e n to 4 Pensamento

P e n s a m e n to


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COLABORADORES Carlos A lberto Di Franco (PG 51, “O ímã do Jornalismo”). Jornalista especializado em Ética para Imprensa e Qualidade Editorial. É diretor do máster em Jornalismo do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), professor do curso de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado, diretor da consultora Di Franco, articulista de mais de quarenta veículos. Geneton Moraes Neto (PG 48, “Dez coisas que aprendi sobre ela: a profissão de jornalista”). Diz que nasceu numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul : Recife. Tinha tudo para fracassar, e diz que fracassou. Mas Geneton Moraes Neto é um mestre na arte

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da entrevista. Jornalista, e escritor premiado, trabalha na Rede Globo, desde 1985. Começou como repórter do Diário de Pernambuco, em 1972. Foi repórter da sucursal Nordeste do jornal O Estado de S.Paulo. Trabalhou na Rede Globo Nordeste como repórter e editor. Foi editor do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente do canal Globonews e do jornal O Globo na Inglaterra, além de repórter e editor-chefe do programa dominical Fantástico. Uilian Gomes (Ilustração da PG 47). Uilian Gomes tem 34 anos, natural de Santa Maria e atualmente reside em Porto Alegre. É desenhista e escultor autodidata dentro do estilo Pop art underground.


R enan A ntunes de Oliveira (PG 33 “Uma sepultura para Teodoro R ecalde”). Vencedor de um prêmio Esso nacional em 2004, com a reportagem “A Tragédia de Felipe Klein”, Renan passou por veículos como Veja, IstoÉ, Estado e Folha de SP, Grupo RBS, TV Cultura, Rede Globo, grupo Caldas Júnior e outros. Rodrigo Lopes (PG 43, “Jornalismo, o templo da subjetividade”). O porto-alegrense Rodrigo Lopes, 34 anos, é jornalista, autor do livro “Guerras e Tormentas”, editor de Capa de Zero Hora, comentarista de notícias internacionais de ZH e Rádio Gaúcha e repórter multimídia da RBS. Leonel Domingos (A rte de capa). Leonel Domingos nasceu em Portugal e atualmente reside no Rio de Janeiro (RJ). É arquiteto, mas divide seu tempo como ilustrador. Possui ilustrações e em publicações nacionais e internacionais.

Participe! Queremos conhecer o seu Pensamento. Mande sua colaboração ou mensagem com críticas, comentários e sugestões de pauta para o e-mail revistapensamento@gmail.com

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CLÁUDIO ABRAMO

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Jornalista

Jornalista

“O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”.

“Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade”.

GEORGE ORWELL

MATTHEW ARNOLD

Escritor

Poeta

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

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“Jornalismo é literatura com pressa.”

HENRY LUCE

HONORÉ DE BALZAC

Jornalista

Escritor

“Eu me tornei um jornalista ao chegar o mais perto possível do coração do mundo”.

“O jornal é uma tenda na qual se vendem ao público as palavras da cor que se deseja”.


PHILLIP MEYER

THOMAS JEFFERSON

Jornalista

3º Presidente dos EUA

“Watergate lembrou que pessoas que ganham a vida expondo delitos dos outros têm necessidade especial de manterem seu próprio comportamento acima das críticas”.

“Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último”.

MILLÔR FERNANDES

ADLAI STEVENSON

Escritor

jornalista

“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

“Um editor de jornal é alguém que separa o joio do trigo — e publica o joio”.

JOHN GUNTHER

GAY TALESE

Escritor

Jornalista

“A primeira essência do jornalismo é saber o que se quer saber, a segunda é descobrir quem o vai dizer”.

“O jornalismo está se tornando preguiçoso”

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MORADOR DE RUA PROFISSIONAL Loreni Alves da Silva poderia ser apenas mais um índio mendigando pelas ruas de Porto Alegre. Mas é um personagem que chama atenção pela forma como leva a vida. Visitamos a sua casa e mostramos para você como vive um profissional da rua. Leia a historia completa na página 22..

Tiago Lobo Fotos


O PERFIL DE ISADORA FABER Quando não está conectada na internet, aquela Isadora Faber tão agitadora no Facebook é muito tímida. Renan Antunes de Oliveira De Florianópolis (SC)


E

la vive como uma típica manezinha, como se diz de quem nasceu na Ilha de Santa Catarina, mas o pai sempre a lembra dos quase 400 anos de história do lado alemão da família, a mesma dos fabricantes de lápis. A dinamarquesa Julie, tia-avó dela, já anotou o nome de Isadora na árvore genealógica dos Faber, iniciada com Carl Gottfried em 1620. Kasper começou na Alemanha o negócio que deu fama ao nome, em 1761. Como só o filho mais velho de cada geração herdava a fábrica, dois Faber diferentes criaram seus próprios negócios usando também o nome da família, um nos Estados Unidos e outro no Brasil, na virada do século 20. Johann Faber abriu sua fábrica em Campinas (SP) — e quem nunca teve um lápis com o nome dele só pode ser analfabeto. Johann era primo de Ejnar (pronuncie “ainar”), avô paterno de Isadora, dinamarquês de pais alemães. Durante a Segunda Guerra Mundial as fábricas americana e brasileira foram tomadas dos donos germânicos. Na paz, elas acabaram compradas pela moderna Faber-Castell, hoje uma multinacional valendo R$ 2,5 bilhões. O pai, Christian, só é brasileiro e gaúcho por acaso. Isadora tinha tudo para ter nascido

fora — azar da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho, de Florianópolis, muito criticada no “Diário de Classe” da garota. O vô Ejnar era um engenheiro agrônomo da ONU, casado com a paraguaia Rufina Antunez. Viajava pelo mundo ensinando técnicas de pasteurização de leite. Passou alguns anos em Pelotas (RS), onde teve Christian. Ejnar morreu na África durante viagem de serviço. O pai de Isadora foi para o enterro na Dinamarca. Poderia ter ficado, mas a avó paraguaia gostou de Pelotas e voltou, abrasileirando o garoto — dona Rufina foi uma das vítimas do voo da Gol derrubado na Amazônia pelo jatinho Legacy, em 2006. Christian casou com a estudante Mel Leal. O casal se mudou para Floripa em 1996. Além de Isa, eles têm as filhas Ingrid, de 24, formada em Computação, e Eduarda, de 16, aluna do Colégio Energia, uma das mais caras escolas privadas da cidade. A Isadora caçula-celebridade-problema é do signo de Gêmeos. Fez 13 anos em 16 de junho. A caçula “são duas”, corrige a mana Eduarda: “às vezes, ela é a Isa, mas também tem seu lado Dora” — Duda fala pelos cotovelos. Diz que um dos lados da irmã “é de poucas palavras” e o outro “é de dedos afiados”. Duda garante não invejar a fama recente da

É de poucas palavras (...) e dedos afiados

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irmã — elas são as melhores amigas. Como se sabe, foi Ingrid, hoje na Dinamarca, quem sugeriu que Isa fizesse o Diário, imitando a escocesa Martha Peyne, de nove anos, reclamona da comida de sua escola no primeiro mundo. O Diário começou a ser publicado no Facebook em 11 de julho. Bombou em agosto, abalando o sistema de ensino da cidade com as denúncias de falta professor e fotos da porta do banheiro da escola sem fechadura. Em setembro, quando Isa já tinha quase 200 mil seguidores, uma professora sentiu-se ofendida com as críticas e queixou-se à polícia. Intimada a depor, Isadora saiu da delegacia com um up instantâneo no Diário — hoje ele está acima de 340 mil acessos. Ficou assustada com a pressão ? “Não”. Pensou em parar de postar críticas no Face 18 Pensamento

? “Nunca”. Respostas curtinhas, bem no modo poucas palavras descrito por Duda. Isadora continua com seus dedos afiados no laptop, agora um potente HP novo em folha, doado pelo jornalista Gilberto Dimenstein para premiar o exemplo dela de cidadania. A rotina escolar de Isa não mudou, apesar da fama. Ela continua despertando sozinha pelo seu smartphone Samsung — o mesmo que usa para fotos do Face e para ouvir Beatles e Nirvana. A Nokia não gostou de saber que ela usava o concorrente e mandou grátis seu último modelo de smarthphone: “É um presente pra ela tirar boas fotos”, disse um meloso relações públicas pelo telefone. O quarto dela é uma bagunça. Está cheio de bugigangas obsoletas. Tem uma mesinha


de laptop quebrada a uma TV CCE de 14 polegadas bem antiga — ela via muita MTV, antes de ser criticada em um programa. Em cima do guarda-roupas estão dezenas de bichos de pelúcia aposentados, caixas com quebra-cabeças pra crianças até 8 anos e um baralho muito amassado. Todos os dias, enquanto Isa se ajeita pra escola, a mãe dorme numa boa: “o horário é responsabilidade dela, tem que ser independente”, ensina Mel. Ela invariavelmente veste jeans skinny, camisetas soltas e calça um de seus quatro pares de tênis All Star: “São cores diferentes”, diz, no dia em que usava o vermelho. Para a sessão de fotos a mãe a produziu com uma camisa vermelha de mangas curtas. O estilo Isadora: pulseira de strass pesadona no fino braço esquerdo e dois anéis. Um bem fininho, outro grande, com uma caveira. Mais caveiras nos brincos dourados. Ela ama caveiras. No pescoço, gargantilha negra e rosário branco com crucifixo — este de pura zoação, porque ela nunca reza, muito menos vai à missa. A menina “às vezes” toma um copo de leite e sempre caminha 700 metros até a escola, mesmo com chuva: “minha mãe nunca me leva”, resmunga, apontando com nariz para o Mercedes Benz de Mel, no pátio. A mãe se defende dizendo que “desde que começou o rolo” vai caminhando com a filha na escola, “só por precaução”. Se ela só toma o tal copo de leite, vai fundo na merenda escolar ? Isa se solta e torce o nariz. Ela critica o rango pelo Face desde os primeiros posts.

A garota é magérrima. São apenas 38 quilos para seus 1m54. Adora os folhados de frango da padaria Princesa, na praia dos Ingleses, mas a fruta predileta explica a magreza: pitangas. A mãe não está preocupada porque “é a genética dos Faber, o pai dela era assim quando jovem”. Surpresa: ela gosta da escola. Isto porque “é a única que conheço desde a primeira série”. Está na sétima. Depois da oitava os pais prometem tirá-la da escola pública. Vai para o Energia de Duda. Isa disse que a repercussão do site entre os colegas foi boa e que se sente bastante apoiada por eles — jura que gosta muito da tchurma. “De quase todos”, ressalva a faladora Eduarda. “Depois do Diário, uma menina fofoqueira da oitava série disse que quer pegar ela. Já avisei que se tocar na Isa venho aqui e mato ela” diz a irmã protetora. A mãe e a amiga e conselheira Joice da Rosa já pensam diferente. Mel acha que outros pais ficaram contra a filha e a favor da escola. Joice é a patrulheira cibernética. Caça e responde com desaforos a qualquer mensagem contra Isadora — o inimigo da hora é um tal Formiga, de Curitiba. “Fico até as duas da manhã navegando e despejo minha fúria nele”, diz Joice Isadora nunca botou fotos da própria casa no Face — se botasse, poderia começar pedindo aos pais para tirarem de lá três cachorros bagunceiros. Ela não reclama porque um deles é o vira-latas Defé: “É o meu herói”, avisa, enquanto o acaricia. Pensamento 19


Trata-se de um bicho de porte médio, pelagem cinzenta e meio aleijado. O nome significa que ele é “de fé”. Pouco pra ser o herói da heroína da internet ? A história dele: há três anos Isadora foi atacada por dois pitbull na volta da escola. Magrinha e frágil, estava paralisada de terror, encurralada num beco. Foi quando Defé pulou no meio deles, lutou com os dois, dando tempo para a garotinha escapar ilesa. Ficou aleijado, mas virou xodó. Isadora é uma garota de praia. A casa da família fica a 300m da água do Santinho (a 40 km do centro de Florianópolis), a mesma do resort badalado e frequentado por celebridades. A casa tem de tudo, até piscina. Também vive lá a avó materna, portadora de uma doença degenerativa que exige cuidados. Isadora e as irmãs ajudam Mel. A tarefa de Isa é alimentar a senhora — o que faz com paciência e carinho. De onde saiu a menina contestadora, polêmica, ousada e preocupada com os outros ? “Eu sou um pouco assim”, diz dona Mel. E conta uma história que acha “definidora” da filha. Quando tinha 3 anos, Isadora viu a mãe servir água para os lixeiros no portão de casa. No outro dia, e por meses, a menina serviu água durante a coleta, correndo para receber o pessoal com uma garrafa geladinha. “No Natal os lixeiros bateram na porta. Não era para pedir dinheiro, mas para dar uma boneca de presente para ela”, lembra dona Mel, emocionada com o gesto da filha e com a retribuição dos lixeiros. Mel e Christian admitem que desde o depoimento na polícia estão corrigindo e censurando o material que ela publica. “Não 20 Pensamento

queremos novos problemas” e “não dá para deixar as coisas soltas agora que tomaram esta dimensão” são os argumentos deles. Nos posts, nota-se até juridiquês. Christian é um engenheiro agrônomo que trocou de ramo. Tem uma bem sucedida produtora de videos. Ele parece ressentido com a falta de retorno financeiro da aventura da filha: “jamais ganhou um tostão”. E avisa que “ainda não está cobrando nada para participar de eventos”. Além do fone e do laptop, tudo o que ela ganhou foi uma bolsa num curso de inglês, na praia dos Ingleses. Quem a convida para alguma coisa fora de SC paga passagem e estadia também para alguém da família. A mãe foi com ela ao momento maior de glória, o show da Band “Agora é Tarde”, de Danilo Gentili, no mês passado. Ela entrou no estúdio carregada no colo pelo apresentador. Com orgulho, Mel exibe aos visitantes o video daqueles 12 minutos de fama. A família parece mais satisfeita com a celebridade do que Isadora. A menina é sem noção. Nem pisca quando alguém menciona os números do Face ou a repercussão na mídia. A imagem dela já foi usada por políticos. O candidato do PSD César Souza Junior a usou no horário eleitoral da campanha à prefeitura de Florianópolis, para criticar o sistema de ensino defendido pelo adversário Gean Loureiro (PMDB). O pai processou César e o PSD. A mãe reclama: “o pior é que nós votamos em Gean”. Ela quer a filha “fora de qualquer coisa com conotação política”. O pai também processou a MTV, depois que uma apresentadora disse que Isadora


era “dedo duro” e sugeriu pra ela “pegar no pinto dos meninos”. Os dois processos correm em segredo de Justiça. A agenda dela a curto prazo inclui viagens para Salvador (BA), Pernambuco e São Paulo, mas os pais, superprotetores, fazem de tudo para não alterar a rotina escolar. Ela disse que não dedica muito tempo para responder sua página: “Fico das sete até a hora da novela” — depois cama, até despertar pelo celular. No sábado à tarde ela foi com a mãe e a irmã na mesma cabeleireira de sempre, a Kaká. Cortou apenas um pouco da franja e das pontas. Subiu o cabelo loiro que antes caía solto abaixo dos ombros. Eles agora estão alinhados, emoldurando o rosto pequeno e delicado. Os olhos que a gente não vê direito nas telinhas da internet são

meio cinzas, meio mel, meio esverdeados. No fim da tarde ela fez um pedido irônico ao pai, postado na rede: disse que queria sair com ele para “procurar seu Francisco”. Conhecendo a filha e a história de Francisco, Christian nem saiu do quarto. Seu Francisco trata-se do mítico pintor que já teria recebido pagamento para pintar a quadra da escola, mas que jamais apareceu. É o tema da hora no Face de Isa porque “a quadra esportiva tá uma porcaria”. Ela acompanha as iniciativas de outros estudantes na internet. Dá um conselho sério para quem quiser fazer denúncias contra outras escolas: “Tem que ter certeza do que está escrevendo e usar fotos para comprovar”. Ela vê seu Diário tipo jornalismo. Diz que quando crescer vai seguir a carreira — e o jornal que contratá-la que se cuide.

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A ESCOLHA DE LORENI Para a maioria das pessoas morar na rua é um absurdo. No entanto, para uma pequena parcela da população permanecer nela e dormir debaixo de pontes e marquizes virou opção. Esta é a história de um mendigo que fez a sua escolha, e vive praticamente como nós. Por Tiago Lobo

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E

le é limpo, não pede esmolas e paga pelas suas coisas. Mesmo analfabeto, fatura, por mês, mais do que muitos professores do estado do Rio Grande do Sul e possui até poupança na Caixa Econômica Federal. Sua profissão? Coletor de materiais recicláveis. Com o que ganha coletando lixo, Loreni Alves da Silva, aos 40 anos, poderia alugar um kitnet, erguer um barraco ou até mesmo um apartamento popular, mas nem pensa nisto. Gosta mesmo é da rua. Hoje acumula 35 anos e vive dentro de uma barraca que custou R$ 130,00. Ele leva e traz sua casa pra onde bem entende dentro de um carrinho de papeleiros. Na última vez que o vi, seu endereço ficava em algum número esquecido na Avenida Praia de Belas, em frente ao Corpo de Bombeiros. Era início de dezembro e o homem andava atarefado preparando seu carrinho

para a chegada do Natal. Natural de Tenente Portela (RS), nos seus documentos só consta o nome da mãe, Clair Alves da Silva. Uma índia Guarani que deixou este mundo quando Loreni tinha cinco anos. Ele não admite, e se esquiva falando de uma busca por liberdade, mas foi aí que sua vida de mendigo começou. Ao invés de ir morar com o pai, o índio da tribo Kaigang Armando Almeida, e seus outros 23 irmãos na reserva “Terra Indígena Guarita”, em Tenente Portela (RS), o exótico indiozinho de olhos verdes adotou a rua e teve que aprender a se virar. Com a pele maltratada do sol Loreni faz tudo o que as pessoas “dos edifícios” fazem. Acorda às 6h da manhã e sai pra caminhar. Volta, desmonta o acampamento da selva de pedra e vai pro trabalho. Ou, no caso, o trabalho vem até ele: papel, plástico, alumínio e tudo o mais que caiba no seu carrinho Pensamento 23


é coletado pelas ruas pra ser vendido e revertido na sua principal fonte de renda. Ele fatura, por dia, uma média de R$ 80,00 a R$ 100,00. Com este dinheiro compra comida, roupas, e ainda guarda uns trocados na sua poupança. Aliás, Loreni, que não é bobo, bolou uma estratégia para não ser barrado em estabelecimentos comerciais: “quando preciso comprar alguma coisa já entro com a carteira na mão, pra eles verem que vou pagar”. Bem, talvez tenha sido a falta de educação básica que tenha feito o homem acreditar que Cocaína nasce em árvore. Inclusive ele jura que já viu uma, e explica a teoria: “tem a árvore fêmea e a macho. A fêmea tem quase três metros. A árvore macho é baixinha”. Sobre experiências com drogas Loreni conta que já provou de tudo, e dá uma viajada falando numa tal de heroína preta, branca e roxa. Vá saber quanta droga ele usou pra ver coisas assim. A verdade é que ele não sabe como, mas conseguiu sair desse mundo e hoje está limpo, não usa nada, só a tradicional cachaça que os mendigos carregam pra espantar o frio do rigoroso inverno gaúcho. Ah, e cerveja, mas garante que bebe “com moderação”. Durante a apuração desta reportagem não ouvi um relato de alguém que o tenha visto caindo de bêbado. Seu único vício é o cigarro. E tem que ser Holywood original. A pedagoga da Fundação de Assistência Social e Cidadania de Porto Alegre (FASC), Patrícia Mônaco, conhece Loreni há seis anos. Ela revela a suspeita de que o homem 24 Pensamento

sofra de uma doença psíquica: “Pra mim o Loreni sofre de esquizofrenia.” Conta, também, que o sujeito costuma procurar a FASC, através de Centros Especializados de Assistência Social (CREA) quando precisa de algum auxílio com a sua documentação. De resto, o índio urbano alimenta sua história sem muitos interlocutores.

O perigo mora ao lado (em todos eles) “Essa vida na rua é perigosa”, informa Loreni. E tenta comprovar: 18 tiros, 14 facadas e 24 “quebraduras” passam pelos cálculos do meio Guarani, meio Kaigang. É difícil saber se existe precisão nas contas do homem, mas ele mostra várias marcas pelo corpo, incluindo a mais recente: ferimento que deixou sua perna enfaixada após levar uma bordoada com um pedaço de ferro, durante uma tentativa de assalto. Mas quem assalta um morador de rua? Outro companheiro de situação. E dentre tantos pertences mais vistosos, como uma pequena TV recém adquirida, a intenção era levar as duas rodas gastas de motocicleta que movimentam seu carrinho. Pra maioria das pessoas isso é lixo, mas entre outros mendigos, é artigo de luxo e vale matar pelo tesouro. O homem que hoje tem pouco já perdeu tudo. Mais de uma vez. Em uma delas quase foi queimado vivo por um traficante debaixo do Viaduto da Conceição. “Eu tava dormindo e senti um calor no rosto, e como durmo


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com a cabeça tapada só puxei o cobertor, aí olhei pra cima e a minha barraca estava pegando fogo”, conta Loreni. Ele explica que foi o tempo de sair do seu abrigo e vê-lo sendo consumido pelo fogo. Perdeu roupa, comida, colchão, cobertor e até uma antiga TV em cores alimentada por bateria. Em outro momento ele jura que precisou enfrentar uma cobra. Diz que era Cascavel. Conta que estava na beira de uma estrada, indo pro Mato Grosso “do Norte”, como gosta de frisar, e acordou com o animal dentro da sua barraca, pronto pra dar o bote. Então fez uma oração, pois apesar de não ter religião o homem acredita em Deus, e conseguiu pegar o animal e tirá-lo da sua casa. Ele se defende como pode. Carrega um facão, bem escondido, pra afugentar marginais. Mas é só chegar perto pra ver que ele não representa perigo. Nem esmola pede. Diz que se sente mal: “Acho que cada um tem que fazer a sua lutinha pra sobreviver”. E de fato ele luta. Quando acaba o inverno, Loreni vai até Viamão, com o carrinho a reboque. Do meio do mato ele retira a matéria prima pro seu sustento no verão. Taquaras e pedaços de madeira, além de garrafas PET, que usa em peças de artesanato. Tradição de família e talvez a única herança do pai.

A filosofia da amizade O doutor em serviço social Edgar de Andrade Xavier, 72 anos, é um dos poucos que se preocupa com o estado de Loreni. O senhor que estuda Filosofia na PUCRS, e mora no Bairro Bom Fim, conhece o men26 Pensamento

Amigos sinceros são os dentes e assim mesmo eles mordem a gente digo faz mais de seis anos e afirma que nunca o viu embriagado ou drogado. “O Loreni é muito corajoso. O admiro muito pela forma como ele enfrenta as coisas”, explica o Dr. Xavier que recebe telefonemas frequentes do amigo das ruas, feitos de qualquer orelhão que esteja ao alcance de uns passos. “Viver na rua não é defeito, e o difícil quem faz é a pessoa”, explica Loreni, alegre ao dizer que está “legal” na rua, com a sua barraca. Mas sobre amizade, o homem que acampa nas praças de Porto Alegre, é desconfiado: “Amigos sinceros são os dentes e assim mesmo eles mordem a gente”. Mordiam, Loreni. Mordiam. Pois no dia 09 de julho de 2003, um sábado, devido a um acidente de trabalho, Loreni perdeu todos os amigos que tinha na boca. Demolia um prédio a golpes de marreta, na Oswaldo Aranha, para uma empresa de entulhos,


quando uma parede caiu por cima do coitado e o fez despencar do 6º andar. Segundo Loreni, o engenheiro da obra teria fugido do local, levando sua carteira de trabalho e nunca teria pagado indenização pelo acidente. Depois de meses no hospital, Loreni voltou pras ruas. A dentadura que usa atualmente custou R$ 750,00 e cada centavo foi pago com o dinheiro que ganha como catador do que, comumente, chamamos de lixo.

Lembranças Perder a mãe tão cedo dói no pobre homem até hoje. Os pais se separaram quando Loreni era um bebê de um ano e meio. O

pai não o registrou e o morador de rua fala pouco dele. Diferente da mãe que lembra com afeto, e se emociona ao tentar descrever a beleza dos seus longos cabelos negros que “chegavam quase nas canelas”. Loreni conta que ela era “benzedeira, curandeira e parteira”, nessa ordem mesmo. E informa, com orgulho, que a mãe teria feito os próprios partos dos 12 filhos que teve com seu pai. Os outros 12 são do segundo relacionamento de Armando Almeida. Também fala de suas viagens quando criança, acompanhado do pai. Diz que passou pelo Mato Grosso (“do Norte”), Rondônia e que o pai morou um tempo na Argentina. A cada dois anos Loreni volta para a cidade natal de Tenente Portela, na reserva indígePensamento 27


na, para ver Armando Almeida e os irmãos que dão “dois times de futebol”, como brinca. Conta que Armando até pede pra que ele fique por lá, mas Loreni prefere Porto Alegre e sua vida dentro de uma barraca. “Os passarinhos não gostam de estar trancados. As pessoas também não”, diz o homem que revela não ter sonhos, pois “o sonho pra nós (moradores de rua) é um pesadelo”.

O amor veio da África? Reza a lenda que Loreni teve uma companheira durante 15 anos. “Uma africana”, explica. Ou uma descendente, já que a cidade onde se conheceram possui um pequeno foco de colonização africana. Carmem Silva Antônia da Silva teria conhecido Loreni em uma feira, no município de Lajeado, em 1994. Carmem seria uma garota de 19 anos que queria aprender artesanato e teria pedido para Loreni a ensinar. “Não posso te ensinar, eu moro na rua”, foi a resposta. Para sua surpresa, e desatino da família da jovem, ela resolveria viver com Loreni. É difícil comprovar esta parte da história, a suposta esposa de Loreni é um fantasma no município de Lajeado: não possui nenhum registro com o nome que ele informou para o repórter. Se a mulher existe, pode ter vivido nas ruas, ao lado de Loreni, por 14 anos, até 2008 quando se separaram. Segundo ele, a separação foi amigável e eles sempre viveram como irmãos, sem brigas. 28 Pensamento

O saldo da relação seriam quatro filhos: Elizabeth de 18 anos, que mora com o pai de Loreni, na reserva indígena; Eliane de 14 anos e Ezequiel, de 13, que moram com a mãe em Lajeado; e Elias de 17 que Loreni jura que estuda na França, como intercambista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Quando pergunto o sobrenome de Elias, Loreni não faz ideia. Dá a entender que o filho foi adotado e desconversa. As assessorias de comunicação da UFRGS e da Universidade de Grenoble, na França, que possui convênio com a instituição gaúcha, informam que não fornecem dados sobre seus alunos. Até o fechamento desta edição, nossa reportagem não conseguiu localizar a família e o suposto filho prodígio de Loreni. No entanto, a riqueza de detalhes com que o homem descreve a vida que supostamente levou ao lado da esposa, e a faísca

Os passarinhos não gostam de estar trancados. As pessoas também não


no olhar ao lembrar de Carmem não parecem fazer parte de um delírio. Em todas as conversas que tivemos, Loreni se mostrou lúcido, sóbrio e correto nas informações. Podia até não lembrar o nome completo do Dr. Xavier, que tanto o ajuda, ou da irmã de uma ex-companheira, para quem faz ligações com certa frequência, mas os números de telefone, passados de cabeça, sem qualquer anotação, estavam perfeitos.

O Plano do Governo Em 2004 o Governo Federal criou o Sistema único de Assistência Social (SUAS), que regula e organiza serviços e programas da Política Nacional de Assistência Social. Este conjunto de ações foi responsável por colocar os moradores de rua de volta aos mapas de todo o Brasil. A assistente social, Lucimar Rodrigues de Souza, que também trabalha na FASC, define a antiga política como “higienista e de exclusão”. Até 2004 um morador de rua que precisasse de atendimento em um hospital público, por exemplo, não conseguiria nem injeção na testa. Não era visto pelo Governo como cidadão. Apenas como um problema, uma parte viva da rua que devia tomar chá de sumiço. Atualmente, mesmo que a pessoa more na rua e não tenha documentação, ela possui o direito de acessar serviços básicos como saúde e educação. E alguns moradores de rua já ganham até Bolsa Família. Um valor que não chega aos R$80,00. Pergunto para a pedagoga da FASC, Patrícia Mônaco, que tem 12 anos de experiência na lida direta

com pessoas em situação de rua, se o Bolsa Família, para mendigos, não contribui para que eles permaneçam na sarjeta. Ela é direta na resposta: “Não acho possivel sobreviver nas ruas com pouco mais de R$70,00, que é o que eles recebem”. Ela também explica que, para receber o benefício, a pessoa é acompanhada por algum órgão do Governo. A boa notícia para os gaúchos é que Porto Alegre, além de cidade modelo quando se fala em assistência social, desenvolve um trabalho de vanguarda: neste ano lançou um Plano Municipal de Enfrentamento à Situação de Rua, sendo a primeira cidade brasileira a ter uma política própria para combater este problema. O plano busca melhorar a qualidade de vida da população adulta em situação de rua e age em parceria com outros órgãos do Governo, como secretarias municipais e o Departamento Municipal de Habitação (DEHMAB). Mas toda a articulação dos órgãos públicos esbarra em dois grandes problemas. O primeiro deles é o preconceito da sociedade civil que acaba tratando estas pessoas como marginais ou parasitas. Patrícia conta que a FASC recebe, com frequência, ligações de pessoas pedindo (ou exigindo) a remoção de mendigos das portas das suas casas. Acontece que a Fundação não faz o tipo “Departamento Municipal de Limpeza Humana”.Seu trabalho tem o objetivo de incluir pessoas que estão em situação de risco e vulnerabilidade social, através de programas e serviços que atendem a crianças e adolescentes, famílias, moradores de rua, idosos e pessoas com deficiência. Pensamento 29


Mas sabe aquele mendigo boa praça, querido por todos por prestar pequenos serviços para sobreviver? Ele deveria vir com um rótulo de prazo de validade e um documento de garantia em caso de apresentar defeito por insanidade ou tempo de serviço. Cruel? Leia abaixo... Enquanto a pessoa for útil para lavar carros, recolher lixo e outras atividades que interessem a vizinhança, tudo bem. É tratado como se fosse o Chaves, o cômico personagem da série de TV mexicana. Quando começa a beber, apresentar problemas psíquicos ou envelhecer, rapidinho alguém liga pra FASC e reclama do sujeito. “Se o morador de rua vive naquele lugar há anos, na cabeça dele é a sua casa. Como dizer que ele precisa sair?”, questiona Lucimar. O segundo problema é que muitos deles não querem sair da rua. A rede de atendimento da FASC é robusta mas possui dificuldades para atrair e os moradores de rua. A rede é composta por abrigos, albergues e os chamados Centros de Convivência, que, juntos, possuem 900 vagas entre albergues e abrigos. Mas com exceção dos abrigos, raramente a rede está lotada. O fenômeno de um morador de rua se submeter a regras de convivência de um abrigo, por exemplo, é como um adolescente ir morar sozinho e ter que voltar para a casa dos pais. É difícil. Então, dos 1347 moradores de rua, adultos, catalogados no último censo da FASC, desenvolvido em 2011, em parceria com a UFRGS, apenas 330 se encontravam em algum tipo de refúgio oferecido pela Fundação. 30 Pensamento

Se o morador vive naquele lugar há anos (...) como dizer que ele precisa sair? Um padrão se repete Algum tempo depois da ruptura com sua musa africana Loreni engatou um novo romance com uma colega de rua: Noralice da Silva Chaves, de 49 anos. Noralice poderia ser a alma gêmea de Loreni se não fosse o alcoolismo. Foi morar na rua por opção e o romance foi sério, a ponto de a nova namorada apresentar Loreni, ou Cigano, como também é conhecido, à sua família. O casal de moradores de rua acampou no pátio da irmã de Noralice, Sandra Chaves, 48 anos, que trabalha como auxiliar de limpeza em uma clinica de cirurgia plástica. Sandra desabafa e revela que sempre que via um morador de rua, entristecia e se


perguntava: “Será que essa pessoa está ali por não ter um lar?”. A resposta veio de forma amarga, quando Noralice trocou sua casa pelas ruas frias de Porto Alegre. A mulher teve 8 filhos. Nenhum com Loreni. Hoje um está preso por tráfico e outro se suicidou com uma corda amarrada no pescoço. Sandra confirma o parecer do Dr. Xavier e ajuda a sustentar a tese de Patrícia de que o sujeito sofre de esquizofrenia: “Loreni é antidrogas e não bebe álcool. Não posso dizer que ele é maluco, mas não é uma pessoa muito normal. Quando esteve na minha casa colocou um palitinho de fósforo em cima de uma cadeira e começou umas rezas, chamando o

palito de pai”, relembra Sandra. Até hoje Loreni liga, de tempos em tempos, para Sandra. Pergunta pela família, filhos, como estão todos e pede notícias de Noralice, com quem não divide mais sua barraca. As ligações são feitas de telefones públicos, como quando faz contato com o Dr. Xavier. Ambas ligações do tal Cigano partilham de uma peculiaridade: nunca foram “a cobrar”. Loreni compra um cartão telefônico exclusivamente para isso. E dessa forma intrínseca lá vai Loreni, curiosamente feliz, dizendo que em seu caminho está “só ele e deus”. Mas, no fundo, o homem solitário ainda procura a sua tribo. Talvez seja, de fato, um cigano de espírito.

Pensamento 31


MORADORES DE RUA ADULTOS EM PORTO ALEGRE Em geral são homens de 25 a 34 anos, que estão na rua entre 1 e 5 anos, morando sozinhos ou em companhia de outros adultos. Normalmente estão instalados em lugares públicos, albergues e abrigos. Mais da metade possui documentos como RG e CPF

1347

População

Sexo

81,7%

17,1%

adultos

Alfabetização

Faixa Etária 25 a 34 anos 22,1%

45 a 59 anos 25 a 34 anos 60 anos ou + 3,2%

90% 10%

30%

35 a 44 anos

21,9% 19,7%

Hábitos

49,6% 58,8% 60%

são dependentes de drogas ou álcool fumam cigarro todos os dias

trabalham com reciclagem, guardando carros e na construção civil

Sabem ler e escrever São analfabetos

Bairros mais frequentados Floresta

10%

Centro Menino Deus

27,3%

7,7%


Uma sepultura

para

Teodoro Recalde

Assassinado a golpes de facão por jagunços, o índio guarani kaiowá Teodoro Recalde foi perseguido além da morte: um fazendeiro queria deixá-lo apodrecer nos grotões do Mato Grosso do Sul Por Renan Antunes de Oliveira De Paranhos, Mato Grosso do Sul

Pensamento 33


É

a terra, estúpidos! Por 40 anos testemunhei, nos grotões e nas calçadas das grandes cidades, a tragédia indígena brasileira. Entrevistei muitos de seus personagens: padres manipuladores, antropólogos vaidosos, guerreiros da web, caciques bebuns, índios domesticados, crianças ranhentas, fazendeiros assassinos e jagunços cruéis. Quando achei que já tinha visto tudo soube da morte, a golpes de facão, de Teodoro Recalde, em 27 de setembro do ano passado, em Paranhos, no Mato Grosso do Sul. Ele foi vapt vupt na mídia. Um mártir sem tempo para ser curtido no cargo: ficou espremido entre os assassinatos de seus dois

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primos, os professores guaranis Rolindo e Genivaldo Verá, e o sumiço do cacique Nísio Gomes, célebres na internet. A morte dele é diferente porque acrescentaram ao crime a suprema negação: um fazendeiro cismou que não queria ver “aquele índio vagabundo” nem enterrado em sua fazenda — mandou deixar o corpo na beira da estrada. Foi preciso uma ordem judicial para abrir a cova de Teodoro Recalde.

Esta é sua história: Contaram-me que cinco indiozinhos esperavam pelo pai na aldeia Y’poi, ao cair da


noite em que o mataram, a terça-feira 27 de setembro de 2011. Teodoro Recalde saiu ligeiramente bêbado de um boteco de Paranhos, cidade na fronteira com o Paraguai. Disse a companheiros de trago que queria “voltar pra casa mais cedo” porque levaria pão e refrigerante pros filhos. Talvez o álcool tenha feito este índio de 33 anos ignorar os jagunços que ainda hoje cercam sua aldeia — ela fica num lote invadido pela tribo em 2009, dentro da fazenda São Luiz. O bloqueio já dura três anos. A ordem do cerco é do dono da fazenda, Fermino Aurélio Escobar, de 80 anos. Ele já tentou sem sucesso despejar os kaiowás pela força e pela fome, enquanto tanta obter na Justiça uma ordem de despejo.

Para voltar o índio deveria ter esperado a escuridão da madrugada e usar uma rota por baixadas e riachos, atalhando com cautela pela fazenda vizinha, a Cabeça de Boi. Tanto esforço para se chegar numa aldeia pra lá de miserável. É composta por meia dúzia de barracos de plástico. Não tem luz, nem água. Está fincada numa nesga de mato inservível para pastagens — a fazenda São Luiz que a cerca é do tamanho de dois mil campos de futebol, com mil cabeças de gado gordo.

O crime “O melhor caminho para a Y’poi seria cruzar a fronteira para o lado paraguaio, aumentaria a caminhada em quatro quilô-

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metros, mas evitaria os jagunços”, ensina o cacique Anastácio Peralta. “Nosso irmão deveria ter sido cuidadoso”, lamenta. Ainda no boteco, quando o índio anunciou que tentaria furar o bloqueio, alguém o avisou com um “abre o olho Teodoro”. Sem demonstrar medo ele começou, meio trôpego, sua última caminhada, na companhia de duas mulheres da tribo — é delas o relato do crime. Aconteceu quando eles estavam quase chegando na aldeia. Foram descobertos pelos jagunços, liderados por um apelidado “Negão”. O encontro fatal se deu na rota mais conhecida, a baixada perto do riacho da fazenda Cabeça de Boi. Montado num cavalo escuro da raça quarto de milha Negão atacou sem aviso. Golpeou o índio com porrete e facão, várias vezes, até deixá-lo sangrando e inconsciente. Em pânico, as mulheres correram para a aldeia.

A agonia Teodoro Recalde agonizou sozinho e morreu em algum momento da noite quente daquela terça — na manhã seguinte, quando o corpo foi encontrado, o pão e o refrigerante tinham sumido. As mulheres podem ter sido poupadas para contar o que viram e assim infundir terror na pequena aldeia Y’poi — a idéia é fazer com que a tribo abandone a fazenda São Luiz. Quando elas chegaram com a notícia do crime, lá pelas 10 da noite, o resultado foi oposto — afinal, Teodoro Recalde já era o terceiro assassinado no pedaço. 36 Pensamento

O cacique Rodolfo pegou o celular e disparou telefonemas, alertando outros índios do crime: “Está acontecendo de novo, mataram mais um irmão nosso”.

Kure! Kure!Kure! Antes de continuar é preciso contar uma pequena história paralela: a do assassinato em 31 de outubro de 2009 de dois primos de Teodoro Recalde, os professores Rolindo e Genivaldo Verá. Eles lideraram a invasão Y’poi em 27 de outubro — quatro dias depois morreriam por causa dela, legítimos mártires da causa guarani kaiowá. Os dois primos levaram pra Y’poi 50 indígenas da aldeia Pirajuy, em sua maioria velhos, mulheres e crianças — guiados por seu Mário Verá, de 89 anos. Quando eles acamparam naquele lote no cocoruto de um morro, o capataz da São Luiz ligou para o patrão Escobar por celular. O pai chamou os filhos Rui, Evaldo e Fermino Filho, três cinquentões sarados. Eles acionaram a prefeitura e o Sindicato Rural de Paranhos para pedir ajuda aos vizinhos e organizar o despejo: o lema deles é “um por todos e todos por um”. No dia seguinte, dois cavaleiros da fazenda São Luiz fizeram o reconhecimento do terreno invadido. Constataram que os índios estavam desarmados. O presidente do sindicato e vereador Moacir Macedo circulou pela cidade de megafone contratando peões e jagunços paraguaios para o despejo — por lá, o pessoal primeiro


tenta resolver a coisa com sua milícia particular, só se falhar é que vai à Justiça. O prefeito Dirceu Bettoni participou da logística da batalha que logo aconteceria cedendo um caminhão F4000 branco, da secretaria de Agricultura — transporte para os jagunços. No sábado 31 de outubro Rui, Evaldo e Fermino Filho se reuniram com Moacir e sua tropa de jagunços num galpão da São Luiz. O pessoal foi armado com porretes, espingardas e pistolas — com ao menos uma Luger calibre 9mm, a preferida dos nazistas, capricho que mais tarde permitiu aos peritos da Polícia Federal identificar seu dono: Fermino Aurélio Escobar Filho. A tropa teve churrascada com muita cerveja e cachaça. De barriga cheia, o pessoal descansou um pouco na sombra do galpão. Lá pelas três da tarde os jagunços já estavam recompostos e receberam a ordem de atacar — por todos os relatos, foi Rui Evaldo Nunes Escobar quem liderou o ataque. Os jagunços foram até perto do pé do morro, desembarcaram do caminhão da prefeitura e entraram no mato para “atacar a aldeia de forma covarde e violenta”, como mais tarde descreveu o promotor Thiago Luz, do Ministério Público Federal, na denúncia contra os atacantes à Justiça. A PF ouviu testemunhas: “Eles entraram gritando “kure” (significa porco, em guarani) enquanto davam tiros para o alto e na direção das pessoas”. No ataque, “atingiram o idoso Mário Verá com uma paulada” e “alguém acertou um tiro nas costas de Genivaldo”. Sem nenhuma chance de revidar, os índios debandaram. Depois que os atacantes

Eles entraram gritando “kure” enquanto davam tiros para o alto e na direção das pessoas se foram eles voltaram para a terra invadida. Resgataram e trataram seus feridos. Genivaldo, furado de bala, seria recolhido uma semana depois no fundo de um riacho. O corpo de Rolindo nunca mais foi encontrado. Denunciados pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário, órgão da Igreja Católica), os assassinatos ganharam repercussão internacional. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região ordenou um cessar-fogo, permitindo a permanência da tribo na aldeia Y’poi até a Funai provar que a terra pertenceu aos guaranis — o processo burocrático começou antes da invasão e se arrasta há sete anos. Lula incluiu a aldeia no Plano Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), sob supervisão da Secretaria de DH da Presidência da República, mas nos grotões esta medida tem o efeito de um traque. A Justiça levou dois anos para acolher a denúncia do MPF contra a filharada do velho EsPensamento 37


cobar. O caso está parado na 1ª Vara Federal de Ponta Porã. Os réus estão soltos. Um batalhão de advogados diz que eles são inocentes. Como o fazendeiro não conseguiu despejá-los pela força, então proibiu a entrega de cestas básicas aos índios. Até hoje o dia a dia da aldeia Y’poi por comida é um jogo de gato e rato. Para cumprir sua própria lei, os Escobar fecharam a fazenda São Luiz com um cordão de jagunços, entre eles Negão — o que nos leva de volta ao crime de Teodoro Recalde.

O complicado resgate do cadáver Quando as mulheres deram a notícia do ataque, a tribo não tinha como resgatá-lo.

38 Pensamento

O cacique fez o que um branco faria: chamou a polícia. Neca. Ele então pediu socorro a padres católicos e pastores evangélicos. Os padres chamaram “seu João”, o chefe da Funai em Paranhos. Só na manhã seguinte aquele diligente funcionário conseguiu uma equipe para resgate. Com as dicas das mulheres, a polícia chegou ao cadáver. Morto, Teodoro Recalde era o improvável mártir da hora da causa indígena. Em vida, ele não era militante-alvo. As lideranças são as mais visadas nos ataques de jagunços. Ele fazia o tipo desligadão. Fumava muita maconha paraguaia, quase de graça por lá. Tinha levado a família para a Ypo’i por insistência da irmã, uma guerreira quando se tratava de cuidar dos cinco filhos dele. Passava o tempo todo fora da aldeia, fazendo bicos nos canaviais ou bebendo nos


botecos — não era nem um invasor tipo aqueles de exibir arco e flecha para fotógrafos ou cantar gritos de guerra ante câmeras de TV. O pessoal do Cimi acha que Teodoro Recalde foi morto não só pela ousadia de tentar furar o cerco, mas sim por ter sido confundido com um cacique. O delegado da Polícia Federal Guilherme Santana, que investiga o caso de terno e gravata naqueles grotões, disse que já viu “muito assassinato de índios que parecem coisa de jagunços, mas não são, e outros que parecem coisa dos próprios índios, mas que são de jagunços”. As duas índias moram na aldeia e sabem a diferença. Elas testemunharam contra o jagunço Negão na delegacia da Polícia Civil de Paranhos. Deram detalhes até da cor do cavalo — por lá, as pessoas identificam os animais dos vizinhos assim como na cidade se reconhecem carros nas garagens dos condomínios. O delegado local não saiu à cata do acusado porque isto seria função da PF, mas ela só apareceu três dias depois do enterro. A PF começou no caso devagar quase parando, entrevistando os policiais da delegacia de Paranhos no maior sigilo, para não melindrar os colegas. Enquanto isto, o jagunço Negão, visto nos botecos da cidade no mesmo cavalo algumas horas depois do crime, sumiu de vez. O cavalo também. A PF patinou na primeira versão dada pelas índias. Os agentes não gostaram porque elas só falavam guarani e eram traduzidas por um cacique que eles consi-

deraram “hostil”: sabe-se lá qual é a guerra dos federais. Um índio de fora da aldeia foi contratado para interrogá-las. Assustadas pelo desconhecido, as índias ficaram de bico calado. Um agente da PF disse que “as índias mentem para ajudar na causa deles de retomada da terra”. Pedindo confidencialidade, ele diz ao repórter que “os índios são matreiros, jogam no solo da fazenda São Luiz ossos de antepassados desenterrados de outro local, para que antropólogos da Funai atestem que são terras de ancestrais”. Com esta linha de investigação, fica fácil fazer um update em 4 de novembro de 2012: o crime de Teodoro Recalde continua sem solução. Negão nunca foi encontrado.

Caixão de 800 reais O corpo dele foi para a funerária Pax Vita, de Paranhos, e dali para uma autópsia na cidade vizinha de Ponta Porã. Confirmado, morte por pauladas e facadas. A Fundação Nacional da Saúde pagou a conta de 800 reais pelo caixão. No fim do mesmo dia as autoridades liberaram o corpo para o enterro — foi quando começou um drama dentro do drama. Os índios foram barrados na tentativa de sepultar Teodoro Recalde na Y’poi, a “teko-há”, terra sagrada deles. Jagunços impediram a passagem do cortejo fúnebre pela São Luiz — fecharam a porteira mesmo com a presença da Funai, da polícia e, última ofensa, ante o caixão. Pensamento 39


“Dei a ordem porque eu não queria aquele índio vagabundo enterrado na minha fazenda”, admite sem rodeios o fazendeiro Escobar, pai. O impasse espantou até os advogados do Cimi, acostumados com tudo. A Funai recorreu à Justiça. Um pedido foi levado com urgência à 1ª Vara Federal de Ponta Porã, a mesma onde corre a ação de despejo da aldeia. Enquanto se dava a batalha legal, o corpo rolou pelas estradas dentro de uma camionete, sem destino, por 48 horas — até sair a ordem judicial obrigando o fazendeiro a permitir o enterro na Y’poi. O precedente de sepultamento em terra disputada foi considerado afronta pelos fazendeiros da região, solidários com a decisão do patriarca dos Escobar. Dom Fermino curvou-se à Justiça, mas não sem resmungar: “Por mim poderiam jogar o corpo na beira da estrada”.

“Esta terra é minha”, diz o fazendeiro A história não pode continuar sem um breve perfil deste homem. Ele é muito respeitado no pedaço. Invoca direito ancestral branco: “Herdei tudo do meu pai, Romão, que herdou do meu avô, Miguel”, este um espanhol que chegou a Paranhos em 1886, depois que a Guerra do Paraguai quase dizimou os guaranis. Escobar quer deixar tudo para os filhos: “Esta terra é minha”, afirma, com orgulho. O patriarca conta que “no tempo do meu 40 Pensamento

avô os índios não eram problema”. Ele também gosta de apontar para um ponto atrás de um galpão e dizer “minha mãe está enterrada ali” —dois argumentos usados no processo de despejo dos índios. O homem chega para entrevista montando um cavalo quarto de milha de pelo claro. É forte, atarracado, muito branco, fica vermelho quando pega sol. Ele jura que na terra dos guaranis não tinha nenhum guarani: “Nasci em 1932 e não havia índio naquele tempo, estes da Y’poi vieram do Paraguai para me tomar a terra”. Neste ponto da fala ele gesticula como se estivesse suplicando, franze o rosto, pede compaixão aos interlocutores: “Estes índios estão infernizando minha vida, outro dia me roubaram uma vaca”! Escobar se recompõe e avisa: “Assim não posso continuar trabalhando aqui”. Aí ele informa que comprou uma fazenda maior ainda, na Amazônia, supostamente para escapar dos guaranis que lhe roubaram a tal vaca. Escobar fala o que lhe dá na telha. Para o delegado Santana ele disse “me ajude a me livrar deste problema que então eu posso ajudar vocês”, parando segundos antes de oferecer propina ao delegado pra despejar os índios. Sem que ninguém lhe pergunte ele diz que a morte de Teodoro Recalde “foi coisa de briga entre cachaceiros” — já tentando salvar a pele dos filhos. É que poucos dias desta entrevista os três filhos dele seriam acusados pelo MPF do crime contra os professores. Fácil constatar que por ali só os Escobar têm interesse no despejo da Y’poi, além da provada ousadia de fazê-lo pela força.


Me ajude a me livrar deste problema que entĂŁo eu posso ajudar vocĂŞs

Pensamento 41


Na casinha da FUNAI O último ato antes do sepultamento de Teodoro Recalde aconteceu na sede da Funai, em Paranhos — nesta cidade com megaconflitos, ela é apenas uma meia-água. Com certeza os banheiros do Ministério da Justiça, que dirige o órgão, são mais amplos, mais limpos, mais seguros e mais bem equipados. O encarregado naqueles dias do enterro era o tal seu João que resgatou o corpo. Ele não disse o sobrenome para não se comprometer. Temia pela vida e pela reputação: implorou para não sair em reportagens porque queria ser transferido. Ele se queixa que em Paranhos precisa estar em sintonia com a prefeitura e com as autoridades estaduais,

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estas francamente contra a causa indígena. “O conflito de interesses paralisa minha repartição”, desabafa — quais as qualificações exigidas e como alguém é escolhido para o cargo dele são mistérios. Depois que a Funai obteve a ordem judicial para o enterro, um aliviado seu João despachou o caixão do índio guarani para a aldeia Y’poi. Choveu um pouco ao amanhecer daquele sábado primeiro de outubro de 2011. A cerimônia foi rápida. Não teve seu João, nem padre, nem pastor — mas teve pajé.Os filhos choraram a morte do pai. Alguém tirou as fotos que ilustram esta reportagem.Elas mostram que o guarani kaiowá Teodoro Recalde foi para sempre sepultado na sua tekohá, coberto pela terra que nunca lhe pertenceu.


JORNALISMO, O TEMPLO DA SUBJETIVIDADE Costumo dizer que uma grande reportagem pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. Quase nunca é fácil. Em um tempo em que cada vez mais o público escolhe o que deseja ler, nosso desafio é tocar o seu coração. Por Rodrigo Lopes Haiti, janeiro de 2010

“A

o cruzarmos o portão, havia haitianos pelo chão, enfaixados, com os rostos cobertos, membros amputados, gritos de desespero. Até aquele momento, julgava que o visor da câmera me mantinha um tanto afastado do sofrimento. Em situações anteriores, servira quase como um filtro para o horror. Mas, naquele dia, não consegui dar mais do que 20 passos dentro do hospital. Nem mesmo ao olhar a dor pela lente da câmera. Além das cenas fortes, havia o risco de epidemias. Voltei ao carro. Martineau, que até então nos guiava pelas ruas tomadas por prédios desabados, com rapidez, segurança e um aparente distanciamento, entrou no carro também. — Meu Jesus! — disse. — Tá difícil — suspirei em direção a Mi-

guel, que havia ficado no veículo, com o ar-condicionado ligado. — Jornalista aguenta tudo — ele respondeu. — Se até vocês não estão aguentando, é porque a coisa tá muito feia, meu Deus — prosseguiu. Não aguentamos tudo, pensei, mas não falei. Respirei fundo. Alvorada, março de 2011 De cima de um caminhão de lixo, compartilho alguns minutos da rotina dos lixeiros que conquistam o pão de cada dia com dignidade, correndo mais de 30 quilômetros entre calçadas esburacadas, esquecidas pelo poder público, e cidadãos mal-educados, que jogam dejetos nas ruas ou despejam cacos de vidro em um saco de lixo, sem nenhuma preocupação com quem irá recolhê-los. Tento acompanhar o ritmo dos coletores de Pensamento 43


Alvorada, cidade de 195 mil habitantes, na Região Metropolitana de Porto Alegre: pulo com o caminhão em movimento, corro, enfio o braço direito no fundo de uma lixeira. Da sacola plástica branca, que um dia embalou compras de supermercado, escorre um líquido fétido que sai pingando em meu trajeto até de volta ao caminhão. Corro, pulo, quase bato com a canela no para-choque de ferro do veículo. Estou ofegante. Minha vida sedentária cobra seu preço diante daqueles verdadeiros maratonistas, que hoje tenho a honra de dividir a caçamba. De volta ao caminhão, quando meus pulmões puxam o ar para aliviar o cansaço, o que vem é o fedor. Seguro o vômito para não passar vexame. Costumo dizer que uma grande reportagem pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. Quase nunca é fácil. Na guerra, para onde você olha, os fatos acontecem, brotam do chão. Mais difícil é extrair do dia-a-dia do buraco de rua aquele texto que vai mudar as vidas não apenas daquelas pessoas retratadas nas páginas do jornal, nas imagens da TV, nas ondas do rádio ou nos algoritmos da internet. Vai

mudar também quem as assiste, as lê, as ouve, as clica. Mais: vai mudar a nós próprios. Como profissionais e, principalmente, como seres humanos. Em um tempo em que cada vez mais o público escolhe o que deseja ler, nosso desafio é tocar o seu coração. Com a reportagem sobre o terremoto no Haiti toquei a vida de milhares de leitores de Zero Hora, acordados para a tragédia que parecia distante. Com a reportagem sobre os lixeiros de Alvorada, sacodi telespectadores da RBS TV que os ignoravam. Há anos não acredito em jornalismo objetivo, cujos textos, assépticos, não são mais do que meros relatórios de nomes ou amontoados de números. Prefiro vida real. É difícil acreditar em repórter que volta à Redação após uma cobertura longa e difícil com os sapatos limpos e a camisa branca impecável. Jornalismo é, já dizia Gay Talese, a arte de sujar os sapatos. Com todo o respeito ao mestre, eu diria mais: Jornalismo é a arte de amarrotar roupas, de cheirar o cheiro, de ver as cores, de conversar, de viver. É também arte de ter medo.

Há anos não acredito em jornalismo objetivo, cujos textos, assépticos, não são mais do que meros relatórios de nomes ou amontoados de números

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New Orleans,

agosto de 2005.

“Em toda a cobertura internacional, quando algo dá errado, em algum momento você se pergunta: “Afinal, o que, diabos, eu estou fazendo aqui?” É a hora da impotência, da insegurança, que você lembra que poderia ter escolhido outra profissão e naquela madrugada estar em uma cama quentinha, abraçado à sua mulher, com os filhos no quarto ao lado. O pior é que, àquela hora, na margem da US-51, a dúvida vinha acompanhada de um cheiro de umidade misturado ao de corpos em decomposição. Não havia mais vento, o que tornava a noite mais abafada. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido dos mosquitos. Dormir? Nem pensar. Naquela noite escura, insone, isolado do mundo, às portas de New Orleans, fiquei com meus pensamentos — e meus fantasmas.” Senti medo. Desde aquela experiência, passei a não acreditar em jornalista que propaga aos quatro ventos que não tem medo. Ora, o medo é o freio da adrenalina, é o ingrediente, nessa profusão de sensações durante uma reportagem, que te impede de dar um passo além, de pisar em uma mina terrestre, de explodir. O medo é quem te garante voltar de um dia no front, tomar um banho quente, sentar na frente do computador e contar, para milhares de leitores, distantes dali, a História. Porque jornalista é enviado para contar uma história. Jornalista não foi feito para morrer ou ser preso, embora, não obstante, cada vez mais profissionais da imprensa sejam alvo dos desmandos

de ditadores e ditaduras que insistem em punir o emissário. Se a situação já está tão difícil para o exercício do jornalismo independente, o profissional em campo precisa se precaver ao máximo — e ter medo. Norte de Israel, agosto de 2006 “Basta o Merkava avançar montanha acima para que a terra trema. Um foguete explode a cerca de um quilômetro da estrada onde estou. O chão treme. Os joelhos tremem. Sinto vontade de deitar no chão, como se isso diminuísse a chance de eu ser atingido.” Eu poderia ter contado esta história sem dizer o que senti? Poderia — e seria, talvez, o mais aceitável. Mas, ora, o jornalismo é o templo da subjetividade. Narrar os fatos apenas, de forma objetiva, seria privar o leitor de metade da história. Diante do que vi e vivi, por que furtar do leitor do sentimento? Algumas vezes, chorei. Como no episódio do resgate dos 33 mineiros que renasceram das profundezas do Atacama. Copiapó, outubro de 2010. “Parei ao lado do sino e encerrei o boletim. Então, virei a câmera para mim, já fora do ar. — A gente, que acompanhou tudo de perto, se emociona a ver que terminou. Os 33 mineiros saem com vida, saem felizes para junto de seus queridos. O final da frase é quase inaudível. Eu Pensamento 45


também chorava.” Costumo dizer que, na guerra, o ser humano se revela por inteiro. Naquilo que tem de pior — em um conflito, há violações de direitos humanos, ataques indiscriminados contra a população civil, o homem lobo do próprio homem. Mas é também diante da guerra que o ser humano se revela no que tem de melhor. Infinitas vezes, testemunhei cenas de solidariedade em meio ao horror. Entre vítimas e entre os próprios colegas, como ocorreu em Pisco, a cidade devastada pelo terremoto que atingiu o Peru em 2007. Corríamos, o fotógrafo David e eu, atrás de uma multidão implorando por comida despejada por um caminhão. “David entra no carro. Tenta dar a ignição, mas desaba em choro. A visão de um menino abraçado a um pacote de arroz o fez lembrar de seus filhos. David é abraçado pelos colegas. Sem saber o que fazer, como consolar o colega, aperto seu ombro.” Todos choramos. É preciso deixar as portas da percepção abertas ou, melhor, escancaradas para a realidade. E, quando a linguagem falta para descrever o horror ou o sublime sentimento, deixe rolar as sensações: as cores, os sons. Se algo nos tocou, certamente tocará o nosso leitor. Todo Jornalista, ao menos os com “J” maiúsculo, acredita que escolheu esta profissão para mudar o mundo. Talvez não o mudaremos, mas, em alguns momentos, conseguiremos alfinetá-lo, chacoalhá-lo. E isso só faremos transportando, por meio de nossas narrativas, o leitor para dentro do cenário em que estamos. Aprendi com um experiente editor que, em situações distantes, devemos 46 Pensamento

adotar o olhar do “ET”. Imagine se um ET pousasse hoje na Terra. Praticamente tudo, para ele, seria surpreendente, novo, inacreditável... O olhar cansado muitas vezes nos trai. E, não se engane, até na guerra há rotina. Todos os dias, em meio aos bombardeios, as pessoas acordam, escovam os dentes, vão trabalhar, estudar, almoçam, jantam. O que nos diferencia é o olhar do ET. É esse olhar que nos ajuda a transportar o leitor para a cena do fato. É o que torna o leitor nosso companheiro de jornada. “Depositado sobre o painel do carro, o celular de Miguel não para de tocar. Há apenas 30 minutos, a porteira enferrujada que divide a Isla Hispañiola entre a República Dominicana e o Haiti ficara para trás. Silêncio no carro. Mentes em turbilhão. A última cena do país devastado pelo terremoto ainda martela: mulheres esfarrapadas, magérrimas, tentando driblar os policiais, agarrando-se ao nosso carro, em uma tentativa vã, desesperada, de fugir do horror. O portão se fechara. As mulheres, empurradas para trás a golpes de cassetetes, eram jogadas de volta ao seu país. Ou ao que sobrou dele. Elas ficaram. Nós, os eleitos, passamos.” Uma grande história, repito, pode estar do outro lado do mundo. Ou da rua. É o repórter que a transforma em uma grande reportagem. Antes de encerrar, uma palavra a mais: em um mundo de incertezas sobre o futuro do jornalismo, me agarro com todas as forças ao texto. Bom texto é bom em qualquer mídia. Da folha de guardanapo ao iPad. Texto ruim, é texto ruim. Em qualquer plataforma. O importante é a


história. O ser humano por trás da notícia. E este, não se engane, dificilmente você vai encontrar na tela do computador. Requer olho no olho, horas de conversa, química... Não há grandes histórias no quarto de um

hotel. Em Porto Alegre, Benghazi ou Bagdá. Os melhores relatos também não estão no ambiente rarefeito das Redações. Ainda é necessário sujar os sapatos. A vida, caro leitor, está lá fora.

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DEZ COISAS QUE APRENDI SOBRE ELA, A PROFISSÃO DE JORNLISTA Por Geneton Moraes Neto

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Descubro, em algum escaninho virtual, uma espécie de carta que escrevi, faz alguns anos, para um estudante de jornalismo imaginário. A carta seria parte de um manual de jornalismo que nunca foi publicado. A primeira obrigação do jornalista é ser claro e objetivo. Aos fatos, pois:

O OLHAR FAZ TODA A DIFERENÇA Se, depois de tantos anos de convivência em redações, eu fosse convocado a dar um “conselho” a uma turma de recrutas do jornalismo, diria simplesmente: em nome de todos os santos, por favor, please, s`il vous plâit, não percam nunca a capacidade de se espantar diante dos fatos. Vejam tudo com os olhos curiosos de um menino descobrindo a maravilha do mundo. O olhar faz toda a diferença. É o que distingue um jornalista burocrata de um jornalista interessante. Não existe assunto chato: o que existe é jeito chato de tratar de um assunto. CUIDADO COM A SÍNDROME DA FRIGIDEZ EDITORIAL Conselho número dois: não existe nada tão triste quanto a figura do velho jornalista, pretensamente “sábio”, que passa o tempo todo jogando no lixo as matérias (e o entusiasmo) dos repórteres. Cuidado com eles. Fazem mal à saúde da profissão, porque sofrem de uma doença que cataloguei como Síndrome da Frigidez Editorial (SFE). É um mal que acomete os “derrubadores de matérias”. NÃO VIRE INIMIGO DA NOTÍCIA O jornalista pertence a uma categoria especialíssima: de tanto conviver com fatos extraordinários, ele corre o risco de um achar tudo “normal” e “ordinário”. Neste momento, ele se transforma naquele sujeito entediado que, para o bem do Jornalismo, deveria estar exercendo outra profissão. Cuidado para não se transformar num desses inimigos da notícia. Parece incrível, mas existem, às pencas, nas redações.

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“ACORDA, GUTEMBERG!” Quando cruzar com um desses Monumentos ao Tédio Profissional, faça uma oração silenciosa em louvor a Gutemberg, o Pai da Imprensa. Pode servir de exorcismo. Ou então deixe escrita uma frase, no muro de seus protestos imaginários: “Acorda, Gutemberg! Eles enlouqueceram!”. ( É uma homenagem indireta ao estudante que, ao ver os tanques soviéticos invadirem a Tchecoslováquia para esmagar a Primavera de Praga, em 1968, pichou num muro: “Acorda, Lênin: eles enlouqueceram!”). O espírito ingênuo daquele estudante bem que poderia inspirar os guerrilheiros do jornalismo. Acorda, Gutemberg: eles enlouqueceram. Não deixai que os dinossauros pisem na alegria e na inocência dos que acreditam que o Jornalismo pode ser interessante, vivo, criativo e original. O importante é tentar. PREPARE-SE PARA A INSENSIBILIDADE ALHEIA Se eu fosse descrever os casos de matérias que foram derrubadas pelo tédio, pela cegueira, pela insensibilidade ou pela mera incompetência de editores, preencheria uma enciclopédia inteira. Pouparei vossa paciência. Mas, calouros, em verdade vos digo: preparem-se para sofrer com a insensibilidade alheia. Faz parte da profissão. JAMAIS DEIXE O AZEDUME DA VIDA CONTAMINAR O TEXTO O grande escritor Italo Calvino disse — com outras palavras — que enfrentava um desafio: jamais deixar que o eventual azedume da vida contaminasse o texto. As palavras, as frases, os sujeitos, os verbos, os predicados — tudo precisa de vivacidade, clareza, sutileza, vida própria. A regra não vale apenas para os escritores: vale também para os jornalistas — inclusive os novatos. Nunca é cedo para aprender. NÃO JOGUE FORA A NOTÍCIA ANTES DE TENTAR Seja saudavelmente pretensioso. Faça a si mesmo uma pergunta antes de resmungar porque foi escalado para entrevistar uma celebridade que já deu mil entrevistas: quem sabe se, na milésima primeira entrevista, eu não consigo arrancar uma história nova, uma declaração inédita, um detalhe que ninguém conhece?

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TENTE SER O PORTA-VOZ DA NOVIDADE. Fazer bom jornalismo é dar, ao leitor, ouvinte ou telespectador, uma informação que ele não conhecia. SÓ ESCREVE BEM QUEM LÊ MUITO Ainda não inventaram uma fórmula mágica. A velha regra vale para todos os filhos de Deus: só escreve bem quem lê muito. Ponto final. Revogam-se as disposições em contrário. Cansei de ver nas redações: nem todo mundo que lê consegue ter um texto claro, límpido e atraente. Mas, invariavelmente, quem não lê não sabe escrever. Os maiores absurdos que já li foram escritos por gente que sofre de bibliofobia — horror a livro. Preferem ler revista de celebridade na sala de espera do dentista. AGORA E SEMPRE, ESPANTEM-SE ! Conselho final aos recrutas: o jornalismo ficará cem por cento melhor se todo jornalista olhar o planeta com os olhos de um descobridor chegando ao Novo Mundo. Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, acordai: eu, humildemente, vos nomeio nossos patronos.

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O ÍMÃ DO JORNALISMO Por Carlos Alberto Di Franco

G

ay Talese, um dos fundadores do New Journalism (Novo Jornalismo) -— uma maneira de descrever a realidade com o cuidado, o talento e a beleza literária de quem escreve um romance —, é um crítico do jornalismo sem alma e sem graça. Seu desapontamento com a qualidade de certa mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma de veiculação, reclama competência, rigor e paixão. Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. “Acho que o jornalismo, e não o Times, está sendo ameaçado pela internet”, pondera. “E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop na sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida.”

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A crítica de Gay Talese é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões apontados. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é somente a juventude que foge dos jornais. A chamada elite — as classes A e B — também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o mágico mundo do jornalismo? Creio que não. O que falta, estou certo, é ousadia e qualidade. Os jornais, equivocadamente, pensam que são meios de comunicação de massa. E não são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade de dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram-se de que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços — estratégias úteis e ne-

O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões.

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cessárias —, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Quer também mais rigor e menos alinhamento com unanimidades ideológicas. A fórmula de Talese demanda forte qualificação profissional. “A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas.” Eis um magnífico roteiro e um formidável desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância. O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas de capacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa. Em minhas experiências de consultoria, aqui e lá fora, tenho visto uma florada de novos leitores em terreno aparentemente árido e pedregoso. O problema não está na concorrência dos outros meios, embora ela exista e não deva ser subestimada, mas na nossa incapacidade de surpreender e emocionar o leitor. Os jornais, prisioneiros das regras ditadas pelo marketing, estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, chatos. A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é e deve ser fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas. Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

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Revista Pensamento #01  

Destaques da edição: - "Uma sepultura para Teodoro Recalde", a história do índio que foi perseguido além da morte, por Renan Antunes de Oli...

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