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A mídia no Brasil LAMPIÃO 2

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ensávamos estar diante de uma revolução na mídia ao ver vários veículos de comunicação ao menos cobrir as manifestações que aconteceram no Brasil afora. Mas só parecia. Nos meses que antecederam a edição dessa revista, os campi da UNESP eferveceram em protestos. Permanência estudantil, paridade nas decisões da universidade e a discussão aberta em relação ao PIMESP foram as pautas gerais dos alunos. As paralisações (mesmo que apenas por um dia) se estenderam por todo o estado. Não bastasse os estudantes reclamarem por um ensino público de qualidade, docentes e servidores também aderiram à greve em muitos locais. Em Bauru, os funcionários e técnicos já estão paralisados há mais de dois meses, e os docentes anunciaram nesse mês que também estão em greve. Recentemente, os universitários ocuparam a reitoria pela segunda vez (a primeira foi no começo do junho). Na primeira oportunidade, os alunos evacuaram o local depois de uma garantia de um aumento nas bolsas, além da elaboração de um plano de obras para a construção de moradias e restaurantes universitários para os campi que

Conselho Editorial Gabriel de Castro Marina Zani Rafael Barizan Thafarel Pitton

Marketing e publicidade Daniel Barizan Matheus Lino

Diagramação Gabriel de Castro

Revisão Geral Gabriel de Castro

Colaboradores João Victor Jacetti de Oliveira Juan de Lima Letícia Naísa Maria Esther Valdiviezo Mayara Abreu Mendes Thomaz Napoleão

não dispunham dessa infraestrutura. Nesse mês, no entanto, os alunos permaneceram no local. Após a emissão de uma ordem judicial, foi anunciado que a Polícia Militar iria esvaziar o prédio. A PM chegou com 184 policiais em 49 viaturas, além de contar com a ajuda da Tropa de Choque, Bombeiros, agentes de trânsito e policiamento dali da área. Tudo isso para retirar apenas 118 estudantes que estavam ali no edifício. E a mídia ainda ousa tratar os alunos como “invasores” e os policiais como “mantenedores da ordem”. Sequer se dão ao trabalho de conversar com os estudantes e escutar a versão deles sobre o que aconteceu, ou quais são as reivindicações, porque estavam ali novamente: preferem fazer matérias unilaterais, que serão lidas por milhões de pessoas. Estas irão aderir ao simples discurso de que são “estudantes vagabundos e baderneiros”. É uma pena que os veículos de comunicação tradicionais se preocupem mais em manipular a mente da população do que em tentar passar o máximo de informação possível para que ela própria possa tomar uma posição.

Vanessa Souza

índice Entrevista com Duílio Galli

Contato e-mail: revistalampiao@gmail.com

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Opinião

site: www.revistalampiao.com www.issuu.com/revistalampiao mídias sociais: www.facebook.com/revistalampiao www.twitter.com/revistalampiao

Não nos acordem, por favor! A Obesidade crônica mundial A Destruição Criativa da TV Cultura

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Questões Sociológicas: o teste de Bechdel

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Um pouco sobre a onda de protestos que “incendiou o Brasil no último mês

Cultura

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Edição nº 2 >> Julho de 2013

O festival já foi há algum tempo, mas a Lampião não poderia não falar do que aconteceu no Jockey Club: da lama até todo o rock ‘n roll

Todos os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista. É proibida a reprodução de textos ou imagens sem a prévia autorização dos editores.

Crônica - Um dia frio Liberdade de criação A Igreja do Livro Transformador

Os Caminhões Psicodélicos do Paquistão Em um país indiferente à empoeirada distinção entre cultura erudita e popular, poucas expressões artísticas são mais autênticas do que os caminhões espalhafatosamente coloridos

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Entrevista com

Duílio Galli

São anos e anos dedicados à arte e ao incentivo à cultura. O “Pintor Caipira” pode dizer que já fez de tudo um pouco: foi contabilista, fez telas e escreveu livros, e ultimamente se arrisca como cinegrafista. Em 30 minutos de entrevista, Duílio contou um pouco de seus 80 anos de vida, sua exposição na Bienal e sua convivência com Tarcila do Amaral. Confira abaixo uma parte da entrevista. Para acessá-la na íntegra, basta entrar em nosso site: www.revistalampiao.com Revista Lampião: Primeiramente, nós gostaríamos que o senhor contasse um pouco da sua história de vida. Duílio Galli: Nossa, minha história tem mais de 80 anos, você pode ficar um dia escutando (risos). Bom, eu praticamente nasci aqui em Ibitinga. Nos anos 30, meu pai veio para cá. Ele era alfaiate aqui, tinha uma alfaiataria ali onde é o Banco Itaú hoje. Só que, quando eu nasci, Ibitinga não tinha recurso nenhum, e então me levaram para São Carlos. Fiquei lá por uns 40 dias e depois voltei pra cá, onde vivi até os 13 anos. Estudei no Angelo Martino e no Ginásio Municipal Miguel Landim de Ibitinga. Você nem sabe que isso existia, né? Depois eu fui para São Carlos e estudei no Arquidiocesano e depois fui para São Paulo. Nisso, eu já tinha 16 anos. Lá eu fiquei por 40 anos. Formeime contabilista. Fazendo uma alusão a um artista, foi parecida com a vida de Gogan. Ele tinha um escritório e um dia largou tudo para seguir a carreira de artista. Comigo aconteceu mais ou menos parecido. Só que, nessa altura dos acontecimentos, o dinheiro não dava. Você sabe como é duro viver de arte nesse país. Então eu dividi meu escri-

tório no meio: na parte de trás eu fazia pintura e na parte da frente eu atendia como contabilista. Fui levando enquanto pude. Como eu me aposentei muito cedo, eu então abandonei tudo e me dediquei só à arte. Aí eu viajei o mundo inteiro, comecei a participar de salões, obtive alguns prêmios. Participava de salões no Brasil inteiro, mandava minhas artes para todos. Eu me dediquei sempre a um tipo de trabalho com uma mensagem. Eu até participei de um grupo e eles queriam uma frase para ser a “frase característica” do grupo. “A arte não foi feita para enfeitar paredes e nem para tornar o artista rico ou famoso. Mas, sim, para levar ao mundo algo que eternamente transmita”, foi o que me veio à cabeça. Fui sempre muito criticado por fazer uma arte sempre engajada (seja no religioso, no social, ou mesmo nessa briga contra a poluição). Nesse último caso, nós organizamos um grupo que se chamava “Arte Pensamento Ecológico”. Eu não fui o líder do grupo, foi um espanhol. Mas sem dúvida eu fui seu braço direito. Organizei exposições no Brasil inteiro: estivemos em Brasília, no Rio de Janeiro, no país inteiro. E sempre mostrando o

perigo da poluição. E pode ter certeza: fomos um dos pioneiros nesse assunto. Depois, o pessoal da televisão pegaram a bandeira para eles e a gente saiu fora, porque não nos interessava a publicidade do fato em si. Para nós, interessava só despertar a consciência da população sobre o assunto. Lampião: O senhor disse que já viajou o mundo inteiro. Qual dessas viagens que o senhor fez foi a mais especial? Duílio: Eu até escrevi um livro sobre isso, “Andanças do Pintor Caipira”. Depois escrevi outro, “Andanças e Lembranças do Pintor Caipira”. Foram quase 30 anos viajando, então não tem muito um fato especial. Vejamos (pausa). Organizei uma vez uma exposição no Consulado brasileiro de Milão e vendi tudo no primeiro dia. Fiz uma no Japão também e também vendi praticamente tudo em uma semana. Mas isso não quer dizer que foi sempre assim. Estive algumas vezes nos Estados Unidos, e até vendia os quadros lá, mas tinha que ralar muito. Lampião: O que levou o senhor a se

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interessar pela área de Artes Plásticas? Duílio: Sempre eu fui um rato de museu. Sempre fui apaixonado pelas Artes Plásticas. E sempre fazia uns rabiscos. Mas não sei; um dia recebi uma mensagem espiritual me dizendo que esse era o meu caminho. E a partir daí fui por esse caminho louco e maluco...

senhos e começo a pintar do jeito que fica criticando. Mas muita gente não eu quero mesmo. entendeu o que eu quis dizer.

Lampião: O senhor fez parte da XIV Bienal de São Paulo, certo? Pode nos contar um pouco sobre essa experiência? Duílio: A escolha para a Bienal talvez seja, fazendo uma comparação um tanto quanto grosseira, como ser Lampião: E quais são suas princi- escolhido para a Seleção Brasileira pais influências? Duílio: É o seguinte: eu fui aluno da Tarcila do Amaral, certo. Então, claro, que tenho muita influência dela. Ela me ensinou técnica e tal. Mas ela me dizia: “Duílio, você que siga de Futebol. Claro que é um pouco o teu caminho. Pinta o teu mundo rude, mas é essa a ideia. interior. E exagera nos gestos”. Havia três mil artistas candidatos à Bienal naquele ano, e eu fui Lampião: Falando na Tarcila do um dos 30 escolhidos. Eram 40 Amaral, como o senhor diria que era peças sobre tudo que você pode a convivência com ela? imaginar que polui. Mas não era Duílio: Ela era uma mulher que veio só poluição. Era também retratar o para o mundo 50 anos antes. Tudo que momento político que a gente vivia. você pode falar de libertação femini- Tanto que, quando os militares fona, a Tarcila do Amaral já praticava. ram visitar a Bienal, mandaram coPara você ter uma ideia, ela teve 11 brir o vaso sanitário. maridos! E ela sempre me dizia que era fiel aos seus esposos. Depois de Lampião: E como foi essa influência separar, era outra conversa (risos). Ela da ditadura na Bienal? era uma mulher extraordinária. Ela Duílio: O presidente até mandou usava uns brincos muito grandes, que fechar 20 dias antes. A Bienal é um para a época era muito diferente. evento internacional, vem gente do mundo inteiro aqui. Muita gente Lampião: E de onde o senhor tira a chegou lá para ver e a Bienal estava inspiração para pintar, esculpir? fechada. Sobre aquele vaso sanitário, Duílio: Às vezes, a ideia vem dos lu- não era um vaso novo. Eu o achei na gares mais improváveis possíveis. Às rua, todo sujo. Porque eu queria que, vezes, você está em um cinema e vem quando eu estivesse pintando, eu uma ideia. Só que se você não regis- sentisse aquele nojo do tipo de vida trar na hora, você perde. De vez em que a gente estava vivendo, da poluiquando, eu acordo no meio da noite ção que a gente estava passando. com uma grande ideia boa na cabeça. Aí eu pego um papel, faço um rabisco Lampião: E qual foi o impacto desse e vou juntando tudo em uma mala. vaso na opinião do senhor? Então, em um dia que eu resolvo tra- Duílio: Até hoje tem gente que bribalhar (o que está duro agora [risos]), ga comigo por causa dele (risos). Na eu vou lá e escolho um daqueles de- internet às vezes tem um pessoal que

Lampião: Falando mais sobre a ditadura, o senhor chegou a receber algum tipo de censura? Duílio: Não, não sofri com isso. Só que um dia um primo meu que era militar me telefonou e disse: “Duílio, vi seu nome em uma lista e acho bom você ficar um tempo fora do país”.

“Tudo que você pode falar de libertação feminina, a Tarcila do Amaral já praticava”

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Aí eu fui para a Europa e fiquei seis meses por lá. Mas não tive problema nenhum: andava pelos consulados, tomava uísque com eles lá, teve festa de 7 de setembro em Paris e eu ficava lá bebendo caipirinha com a turma. Não me perguntaram nada. Mas eu tive uma pessoa que me falou “Vai embora que o bicho vai pegar”... Lampião: Quanto à Bienal, o senhor acha que ela ainda faz sentido atualmente? Duílio: Naquele tempo, a Bienal era democrática. Todo mundo mandava trabalho e tinha chances de ser escolhido. Hoje é algo mais elitista. Eles escolhem os artistas que eles querem antes mesmo de enviar os trabalhos. E aí entra a influência dos caras que vendem quadro e querem promover o artista... Tem político que tem um filho que começou a pintar ontem e aí ele arranja um jeito do filho entrar na Bienal. Claro que ainda entra muita gente boa. A própria Tarcila foi convidada a ter uma sala em sua homenagem, vem vários artistas da Europa. Vários ainda participam, mas não é democrático. Para nós que, digamos assim, somos do “segundo time”, fecharam as portas. Mas eu também parei um pouco


revista com isso. Já participei de mais de 180 salões, e, quando cheguei na Bienal, eu falei “Agora chega”. E parei, nunca mais mandei para ninguém. Lampião: E quanto à arte brasileira, o senhor acha que ela anda sendo valorizada ou o senhor acha que o mercado ainda é incipiente? Duílio: Se você ler os jornais, parece até que a arte morreu. Quando eu ainda estava na ativa mesmo, há alguns anos, todos os jornais tinham o seu crítico de arte, tinham uma página inteira de arte. Eu tenho reportagens aí guardadas com uma página inteira sobre alguns artistas. Havia uma crítica de arte, havia um interesse popular de arte, que eu não vejo mais hoje. Não há mais interesse, ninguém mais quer saber de pintura. Portinari, Tarcila do Amaral, Di Cavalcanti, Ademir Martins: os jornais só falam dessa gente. Atualmente devem ter alguns contemporâneos muito bons. Eu, na verdade, estou por fora do movimento artístico brasileiro, porque eu me isolei. Quando eu completei 70 anos, eu voltei para Ibitinga. Queria sossegar, não viajar mais, não ficar mais indo para salões, não ter mais preocupação com esse tipo de coisa. Mas eu fui para os Estados Unidos e trouxe de lá uma câmera de filmar. Aí começou a briga de novo. Comecei a fazer curta-metragem para televisão e fui levando minha vida assim. Lampião: O museu daqui de Ibitinga, apesar de ter um dos maiores acervos da região, acaba que ficando esquecido pela população. O que o senhor acha disso? Duílio: Isso é por causa da educação. Não adianta. Por isso que eu falo sempre que educação é mais importante que comida. Se você der educação para um povo, ele luta pela comida. E se você só der a comida para o

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cara, ele não vai lutar nunca. Quando você vai na escola, você aprende tudo: aprende política, aprende a se defender, aprende a levar uma vida melhor.

memórias. Nele, você percebe totalmente a minha nostalgia do interior. E eu acabei voltando para cá. Por causa disso, eu acabei me isolando na arte, me isolei dos grande moviLampião: E o que o senhor acha que mentos e fiquei esquecido. Por culpa tem que ser feito, tanto aqui em Ibi- minha mesmo. Eu que saí da briga. tinga quanto a nível nacional, para o Se bem que agora com a internet, fomento da cultura? ninguém me segura mais (risos). Duílio: É o seguinte: o museu foi feito em 1970. São 43 anos já. Eu consegui Lampião: Já que o senhor falou da essas obras para lá porque naquela internet, como o senhor diria que época eu ainda estava na ativa. Eu era a internet contribui para a difusão amigo da Tarcila, de outros artistas. das obras de arte? Eu pedia obras para eles e eles doa- Duílio: É o seguinte: eu só vejo no vam para o museu. Então, tinha aqui Facebook fofoca, coisas fúteis. Eu es130 obras. Hoje não tem nem 100. tou tentando difundir minhas obras Por que isso: eu doei essas coisas para e também obras de outros artistas lá. a prefeitura, e coisa da prefeitura não Queria que as pessoas parassem com tem dono. Cada vez que entra um essa bobeira, sabe. Esses dias eu postei prefeito, é outra cabeça. Entra um di- um filme de Rudolph Valentino. Ele retor de museu que não gosta de arte foi um artista dos anos 30, era um ícoe ele estraga tudo. Então, não tem ne na época. Quando ele morreu, com

“Não há mais interesse, ninguém mais quer saber de pintura” jeito. Agora, se todos fossem educados, os dirigentes saberiam dar valor a isso, o povo saberia dar valor a isso. E o museu está lá. O lugar realmente não é muito bom, mas pelo menos as obras estão bem preservadas.

30 e poucos anos, foi uma comoção no mundo inteiro, fizeram missa em São Paulo até, eram multidões mobilizadas. Então, eu coloquei um filme dele dançando tango, é lindo, uma coisa maravilhosa. Também coloquei esses dias um filme do Bogart e da Ingrid Lampião: O senhor comentou que Bergman, “Casablanca”. Mas ninguém escreveu um livro, “Andanças do liga para isso. Você vê lá só uns três ou pintor caipira”. Qual é a influência quatro acessos, no máximo uns dez. É que o interior tem na sua obra? uma coisa tão bonita, obras que ficaDuílio: Sou um pintor que tem o pé ram para a história. Mas o pessoal só aqui, certo. Quando eu fui para São pensa em besteira, em churrasco, baPaulo, você vê que a cidade grande lada. Tudo bem que a fofoca faz parte, me perturbou completamente. Nun- mas vamos pensar em algumas coisica me adaptei lá. Morei lá por 40 nhas melhores, né. anos.E sempre tive nostalgia daqui Para acessar a entrevista completa, de Ibitinga. Tanto é que eu escrevi visite nosso site: um outro livro, um romance. Essa obra, de um certa forma, é feita de www.revistalampiao.com www.revistalampiao.com

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#vemprarua Durante o último mês, o Brasil foi palco de uma onda de protestos. De capitais, os atos tomaram o interior do país. No entanto, muitas vezes, o movimento é organizado sem uma reivindicação principal, o que o torna desorganizado e inefetivo

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Tudo começou em São Paulo, quando os paulistanos (finalmente) se cansaram de serem abusados pelo poder público e, com a ajuda do Movimento Passe Livre, organizaram uma manifestação contra o aumento de R$0,20 na tarifa de ônibus.

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No entanto, a indignação não era só voltada aos R$0,20. Pense que foram anos e anos de exploração, qualidade de vida ruim, políticas voltadas a uma minoria. Enfim, os R$0,20 foram apenas o estopim para que a população fosse às ruas.


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De São Paulo, os protestos passaram para outras capitais. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília foram algumas das cidades em que a população mostrou as caras

No início, o foco era o transporte público. E não só quanto ao preço: o povo protestava por um serviço de qualidade, como maior frota de ônibus, melhorias no salário dos motoristas e cobradores. O problema foi quando todos os problemas do passado - e também do presente - começaram a vir à tona

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Cidades de todo o país adotaram a onda de manifestações e organizaram seus próprios atos. Bauru, cidade na qual estudo, foi uma delas. Em um desses protestos pude perceber o quão dispersa a população estava. A simples presença de uma grande quantidade de pessoas nas ruas já era suficiente para que os manifestantes ficassem maravilhados e perdessem o foco. Outro reflexo da falta de objetivo comum nas demais cidades pode ser observado nos cartazes que são vistos nas manifestações. Por mais que muitos ali se voltassem ao transporte público, que era o foco também em Bauru, havia também muitos papeis que direcionavam as críticas a outros problemas. O que eu disse sobre os vários problemas - e não só os R$0,20 - culminarem na revolta é a causa disso. Saúde, educação, Copa do Mundo, segurança, autoritarismo. Tudo isso foi lembrado pelos manifestantes durante os protestos. Todas questões importantes, sim, mas que culminaram para uma falta de organização e de efetividade para o protesto. Há de se ressaltar a utilidade da internet nesse processo (o que explica o título #vemprarua). A propagação do evento e das reivindicações foi de suma importância para a presença massiva do povo nas ruas. As pessoas também puderam se informar mais sobre os tópicos de luta e se inteirar a respeito do protesto. O último fato sobre os protestos pode ser retratado com os versos “Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Somos o futuro da nação/ Geração Coca-Cola”. Quero dizer que era grande a presença da classe média nesses atos. Em Bauru, a quantidade de estudantes era gigantesca, inúmeros presentes filmavam o que ali acontecia em seus smartphones, e ao fim do ato, davam suas opiniões nas redes sociais.

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Opinião Não nos acordem, por favor! por Thafarel Pitton

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unca fui de cultivar raiva ou rancor por ninguém, exceto pelos apolíticos. E notem que apolítico é diferente, e bem diferente, de apartidário, de anarquista e de todas essas filosofias complexas. O que me deixa desolado, com fome de vingança, é o simples desdém daqueles que julgam necessário não se importarem com os problemas políticos do pais em que vivem. Sabe aquele tio velho que com ar de ancião tenta desviar de assunto sempre que política e religião aparecem no discurso? Então, é dele que eu tenho raiva! E é ai que entra um problema maior, que vem o ápice da hipocrisia, para não dizer uma besteira das grandes. Esse tipo de gente, confiante de sua “apolitizacao”, tem um gosto especial em criticar as ideologias políticas dos outros. Parece que se sentem bem em traçar narrativas desanimadoras, com frases de efeitos que ouviram em grandes emissoras de TV, do tipo: “O Brasil não tem mais jeito”, “Não da pra mudar, só tem corrupto”. E pior que isso, como se não bastasse, criticam a geração seguinte a deles com a velha conversa: “Sua geração só pensa em futebol”, “Bando de maconheiros”, “E é essa geração que vai mudar o pais? Ouvindo essa musica?”. Bom, confesso que antes meu discurso contra essas pessoas ficava meio vazio, sem exemplos para dar. Porém, hoje, depois de toda essa

Acorda Brasil

onda de manifestações que assolou o pais, tenho um grande motivo para crer que eles estavam certos. Sim, caro leitor, não se assuste. Não errei nas ideias, escrevi exatamente o que quis. E falo mais: essa geração da qual fazemos parte não só não vai mudar o pais como vai abrir espaço para que a corrupção, a desordem e a manipulação aumente na sociedade brasileira. De fato, é errado pensar que tais ações populares não surtiram efeitos positivos na sociedade. Entretanto, o que vemos não são pessoas politizadas levantando cartazes. O que vemos são pessoas que se acham politizadas, mas que não param para discutir política! São iguaizinhos aos tios chatos apolíticos, só que ao contrário! Criamos uma ferramenta excelente de divulgação de ideias, o Facebook, mas que tem um sério problema: a opção “curtir”! Pois muita gente, senão a grande maioria, levantou cartazes com frases feitas que foram curtidas sem uma análise prévia e aprofundada das mesmas. Eis aqui um exemplo: muitos movimentos pregaram o apartidarismo de forma antidemocrática, excluindo a participação de grupos e partidos políticos, rechaçando a presença dos mesmos. Nunca pensaram que levantar uma bandeira nacional e fazer uma perseguição aos partidos de esquerda, tais como o PCO, PCB e PSTU, são atitudes de um governo ditador! E ainda percebo o crescimento

de um tal movimento pacifico, que é transmitido pela TV. E foi assim que a mídia se aproveitou do medo do cidadão que sai nas ruas para justificar a ação medíocre e podre da polícia. Funciona mais ou menos assim, enquanto a polícia não joga bombas de efeito moral, são todos manifestantes pacíficos. No entanto, quando a policia intervem, aí eles se tornam, em questão de segundos, vândalos, bandidos, arruaceiros. E é engraçado como todos realmente acreditam que existem, na mesma manifestação, pessoas que estão ali para vandalizarem e pessoas que estão ali para apenas manifestar pacificamente. Pois bem, imagino eu que a tecnologia hoje está tão avançada que as bombas de efeito moral apenas afetam os vândalos. Elas, biologicamente, selecionam o caráter do individuo! Estou sendo irônico – é bom avisar. Enfim, é por isso e por mais um milhão de questões que eu penso que realmente meu tio estava certo: não vamos mudar o mundo. Mas com um porém, nossa geração não ira mudar o mundo como um todo, não com essas manifestações, pois uma grande maioria dela é apenas massa de manobra. Se mudarmos algo, vai ser por uma pequena parcela que diariamente estuda, analisa e discute política. Cabe a você leitor, escolher de que lado fica. Enquanto isso, rezo para que não nos acordem. Antes estar dormindo do que sendo motivo de piadas!

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A obesidade crônica mundial

por Juan de Lima*

Tobyotter / Flickr

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Hoje, cerca de meio bilhão de pessoas no mundo está acima do peso

ouve um tempo em que uma das maiores preocupações da humanidade era a de erradicar a fome. Hoje em dia, o quadro está um pouco diferente. Não que a fome esteja erradicada: atualmente, ela costuma se encontrar mais presente em alguns determinados países e regiões, ou mesmo em algum bairro ou classe social específico, mas o que mais se apresenta hoje em dia é uma inversão pelas preocupações que houve anteriormente. A maior oferta de alimentos, que muitas das vezes não são saudáveis, mostra que esse quadro se inverteu. Se antes a preocupação era a de acabar com a fome, hoje se teme que os problemas causados pela obesidade atinjam um grande contingente de pessoas, que passaram a ter um maior acesso a alimentos e, sobretudo, alimentos calóricos e com grande teor de gordura. Esse tipo de alimento colabora para que problemas de saúde específicos passem a estar mais presentes na vida da população. Esse é um problema sociológico que tem sido discutido amplamente pelos governos mundiais, pela indústria farmacêutica e pelas produtoras de alimentos. Em um estudo recente, em que

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187 países foram analisados, o Global Burden of Disease (com tradução literal de “Peso Global das Doenças”), maior estudo sobre a saúde realizado, nos mostra que a obesidade, antes a décima colocada no ranking de problemas de saúde, agora aparece em sexto lugar. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida aumentou em praticamente todos os países do mundo; as mortes relacionadas com a falta de alimento caíram de 3,4 milhões de pessoas em 1990 para 1,4 milhão de pessoas em 2010; e, por fim, a subnutrição, doença que mais matava em 1990, agora se encontra na sétima posição da lista. Em dezembro de 2012, a revista Carta Capital trouxe em sua edição, como matéria de capa, uma reportagem sobre a obesidade no mundo com o nome de “Um mundo cada vez mais gordo”, com conteúdo da revista americana The Economist. A reportagem trata do mesmo tema do estudo realizado em 2010 e mostra um panorama geral sobre o problema da obesidade, que assola a humanidade. A principal causa atribuída ao alto número de obesos no mundo é a mudança drástica na alimentação das pessoas. Os indivíduos, desde

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que possuam dinheiro, podem se alimentar do que quiser e quanto quiser, o que acarreta em uma mudança biológica e estética do corpo, que acaba sendo influenciado pelo espírito de consumo. A maioria dessas pessoas que se alimenta preferencialmente pelos alimentos calóricos não tem em mente os malefícios que essa “dieta” pode causar, e pouco se preocupam com a realização de exercícios físicos. Nos Estados Unidos, onde o consumo de alimentos calóricos virou um hábito nacional, dois terços de toda a população já se encontra acima do peso, o que fez que essa rotina alimentar se tornasse característica do país e de seus habitantes. Mas se engana quem acha que isso só acontece nos EUA. Os países europeus, na grande maioria já desenvolvidos, já sofrem com esse mal. No entanto, a obesidade não se restringe às terras desenvolvidas: o Global Burden of Disease mostra também, por exemplo, que 53% dos brasileiros estariam acima do peso já em 2008. Em números totais, cerca de 1,5 bilhão de adultos, equivalente a um terço da população adulta mundial, já cruzaram a “linha da obesidade” em 2008. Ao mesmo tempo em que os obesos apresentam uma preocupação para os governos mundiais, que gasta para tratar os problemas de saúde que se originam pelo excesso de peso, a obesidade é uma oportunidade para muitos conglomerados industriais. As cirurgias barátricas passaram a ser procuradas por grande parcela da população. No Brasil, o número de cirurgias que são realizadas é bem menor que a demanda da população. Nesse caso, o indivíduo, desde que tenha condições financeiras, irá movimentar o mercado de cirurgias estéticas, que


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aumenta a cada ano que passa. A indústria farmacêutica também se beneficia na medida em que apresenta soluções para esses problemas causados pelo excesso de peso. O jornal O Estado de S. Paulo, no dia 10 de fevereiro desse ano, publicou uma matéria, em sua página online, que mostra um estudo realizado por nutricionistas do Instituto do Coração (InCor) e do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP em um mutirão da saúde realizado em São Paulo. O mutirão coletou dados de cerca de 15 mil pessoas e trouxe um alerta: 66,3% de todos os participantes estavam acima do seu peso ideal. Isso mostra a tendência mundial de aumento do peso da população. Nesse empasse ficam os indivíduos, as empresas e os governos. Dentro da vida das pessoas, há uma maior oferta de alimentos e o hábito cada vez maior do sedentarismo. As empresas, por sua vez, sendentas em vender em escalas maiores, divulgam seus produtos, dizendo o quão saborosos eles são, mas ocultam o “lado sombrio” da história. Por fim, os governos se ocupam em buscar tratamentos dos problemas de saúde que envolvem a obesidade. Esse assunto deveria ser motivo constante de discussão e refle-

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xão por parte de nós, que sofremos direta e indivudualmente os males causados por uma má alimentação e que lidamos com problemas como a obesidade. Vale lembrar também que a obesidade enquanto aparência é o menor dos problemas da população. Uma dieta a base de junk food pode causar diversos problemas, como diabetes, enfarte, entre outros. Se passássemos a nos importar mais com o que de fato importa, deixando a “sede de comer mais e mais” de lado, deixaríamos também de alimentar tanto a indústria farmacêutica quanto a estética, que se beneficiam dos problemas causados pela obesidade.

Juan de Lima, colaborador Cursando o segundo ano de Ciências Sociais pela UNESP, campus de Araraquara. Atualmente desenvolve uma pesquisa sobre as mudanças de sociabilidade causada pelas redes sociais com base na antropologia. Também possui interesse pela sociologia econômica. Na diversão, filmes clássicos e música. Muita música.

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A Destruição Criativa da Tv Cultura por Rafael Barizan

Divulgação / www.cmais.com.br

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Será que a Cultura ainda é uma TV diferente?

Tv Cultura registra, em seus últimos anos de existência, um lento e contínuo processo de decadência. Não falamos da pouca audiência que apresenta, mas sim da perda de qualidade de seu quadro editorial. A situação se deve ao modelo adotado pela emissora paulista para atender aos interesses políticos de uma sucessão de governos neoliberais. Seu processo de reestruturação foi conduzido de forma impensada. Cortaram-se custos, porém não se atentou ao déficit de profissionais qualificados que se criou na emissora com a demissão de mais de quinhentos de seus funcionários. Programas de qualidade ímpar como o Entrelinhas – do qual eu pessoalmente era um fã – e o Vitrine foram extintos e suas pautas incorporadas ao Metrópolis, não sem perda substancial para o telespectador atento. O Jornal da Cultura há muito deixou de ser uma referência. Antes caracterizado pela análise ponderada dos fatos e a apresentação

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de notícias efetivamente relevantes, cedeu às matérias de maior apelo comercial. Adotou, tentando manter sua qualidade, um modelo de debate. Dois convidados, geralmente professores, jornalistas ou economistas de renome debatem as notícias. Contudo, isso não é o suficiente. Por mais qualificado que sejam os convidados não se pode extrair opiniões do vazio. Além disso, sua âncora em nada contribui para o debate. Em geral, coloca opiniões derivadas do mais raso senso comum e envergonha seus convidados. Suas interrupções são constates e causam irritação ao telespectador, que ao ver um bruxulear de inteligência o tem destruído. O Roda Viva, antes uma intrigante plataforma para o debate de ideias, hoje mais parece um recorte das velhas ideias mastigadas a exaustão pelos jornais e revistas tradicionais que tanto agradam as classes dominantes. Não há ao menos o esforço de esconder o pastiche, visto que os convidados repetem-se: editor X de Veja, colunista Y da Folha de São Paulo, jornalista W do Estadão,

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intelectual Z caricatamente de direita. Nem ao menos quando, tenta-se transformar a farsa em comédia, o resultado é satisfatório. Basta ver o resultado do Roda Viva com Slavoj Zizek, no qual o programa tentou aproveitar a passagem do filósofo pelo Brasil para o entrevistar pela segunda vez. Em comparação a sua primeira participação, temos um declínio vertiginoso de qualidade, não de Zizek, obviamente, mas da capacidade de extrair o melhor de seu pensamento. Basta analisar os convidados que o entrevistaram. Em 2009, tínhamos um time de entrevistadores de excelente qualidade, representando o que há de melhor no pensamento brasileiro. Já em 2013, fez-se uma reunião apressada de nomes, a maioria mais preocupada em propagandear seu anti-esquerdismo do que em efetivamente elaborar perguntas ou refletir para não confundir conceitos básicos da teoria hegeliana. Há ainda excertos de bom jornalismo e qualidade em sua programação. Pode-se assistir sempre a bons filmes tanto nacionais quanto estrangeiros, em especial o cinema francês (um alívio ao frenesi hollywoodiano que infesta a grade das demais emissoras). Contudo, a exceção não faz a regra. Soma-se a perda de qualidade da programação à redução da abrangência de sua cobertura. Antes se estendendo por quase todo o território nacional por meio de alianças regionais, hoje se restringe ao Estado de São Paulo e algumas poucas cidades de Minas Gerais e Paraná. Uma perda irreparável para os que antes tinham na TV Cultura uma alternativa à programação repetitiva e, por muitas vezes, nociva das demais redes.


Ciência

Questões Sociológicas: o Teste de Bechdel por Rafael Barizan

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irginia Woolf, já no começo do século XX questionava o papel reservado as personagens femininas na literatura em seu artigo “Um Teto Todo Seu” (A Room of One’s Own):

“Todas essas relações entre mulheres, eu pensei, recordando rapidamente a esplêndida galeria de personagens fictícias, são muito simples. Tanto foi deixado para trás. E, eu tentei lembrar de algum caso, no qual duas mulheres são representadas como amigas. Há uma tentativa em Diana of the Crossways [de George Meredith]. Elas são confidentes, de fato, em Racine e nas tragédias gregas. Aqui e ali são mães e filhas. Mas, quase sem exceção, são retratadas em seus relacionamentos com homens. É estranho pensar que até Jane Austen, toda grande personagem feminina de ficção não somente fosse vista pelo outro sexo, mas em relação a ele. Quão pequena é essa parte da vida de uma mulher [...]”¹ Da publicação do célebre artigo aos dias de hoje muitas conquistas obtiveram as mulheres graças ao movimento feminista, contudo longe se está de ter por finalizada a luta pelo tratamento equitativo na sociedade. Para evidenciar as distorções ainda existentes em nossa cultu-

Rafael Barizan

ra, especificamente no cinema, em 1985 a cartunista Alison Bechdel propôs em sua série Dykes to Watch Out For um teste muito simples para analisar a presença feminina em um filme. Para passar o teste de Bechdel qualquer

catastróficos. Pelo menos 45% dos filmes não passam pelo teste², especialmente os blockbusters e ganhadores do Oscar. Dentre os 55% que passam no teste, o fazem, em geral, porque duas mulheres conversam ou sobre ca-

Teste de Bechdel Aplicado às Principais Premiações do Cinema

Ao se aplicar o teste de Bechdel aos principais prêmios da indústria cinematográfica percebe-se a tendência a seus filmes falharem na representação de personagens femininas, em especial no mercado estadunidense. (fonte: www.bechdeltest.com)

filme deve responder a três per- samento ou sobre bebês. guntas simples: Qual o problema disso? Simples, reproduz-se massivamente 1. Há duas ou mais persona- a submissão da mulher, tal como gens femininas? preconizado em uma sociedade 2. Elas conversam entre si? patriarcal e conservadora. Após 3. Elas conversam sobre outro décadas de lutas, ideias brilhantes assunto que não uma personagem e intelectuais como Woolf, Stein e masculina? Beauvoir lutando pela causa feminista é desolador perceber como Apesar de extremo, ou até risí- ainda podemos assistir impassíveis vel a primeira vista, o teste quan- a tal conjuntura. do aplicado apresenta resultados www.revistalampiao.com

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Os Caminhões Psicodélicos do Paquistão Em um país indiferente à empoeirada distinção vitoriana entre cultura “erudita” e “popular”, poucas expressões artísticas são mais autênticas do que os caminhões espalhafatosamente coloridos que alegram estradas, avenidas e ruelas paquistanesas.

texto e fotos por Thomaz Napoleão*, diplomata brasileiro no Paquistão

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São geralmente Bedford ingleses dos anos 1960 ou 1970, mas de tão adornados ficam irreconhecíveis. Renascem. É um color-blocking permanente. Para um nativo do país do carnaval, não deixa de ser algo familiar.

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Há vários apelidos para essas imensas máquinas metálicas de cor e fumaça. Soldados os chamam jingle trucks, estrangeiros sorriem dos LSD trucks e os próprios caminhoneiros se referem, com ternura, a seus veículos como brides. Se são noivas, certamente são vaidosas. Como era de se esperar de um país que são vários, há grandes variações regionais na arte dos jingle trucks. Peshawar é a terra da caligrafia islâmica sobre rodas. Já nos LSD trucks de Islamabad, predomina a geometria abstrata. Se quiser ver máquinas delicadamente adereçadas com ossos de camelo, vá ao Sindh rural; se preferir madeira, vá a Quetta. Na capital nacional dos caminhões coloridos, Karachi, é possível encontrar todos os estilos. Preocupada em dar sentido a tudo, a Academia vê nesses caminhõescamaleão “an outward projection of Pakistan’s tensions with its individual and collective identities”. Interprete-se isso como se queira.

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A metamorfose de um caminhão comum em LSD truck é lenta e cara; consome dezenas de semanas e milhares de dólares. Não é coisa para amadores. É ofício de artistas especializados, que o Paquistão festeja e reverencia como mestres renascentistas. Thomaz Napoleão, colaborador É diplomata, professor, fotógrafo e editor do blog “Jovens Diplomatas”. Escreve de Islamabade, Paquistão.

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O leitor de urdu e árabe (ou pashto, ou punjabi, ou sindhi, ou baluque, ou…) reconhecerá, em certos caminhões, suras do Corão e poemas de luminares locais, como Allama Iqbal. Há também retratos de atrizes, políticos, músicos, santos sufi, jogadores de críquete e até projetistas de bombas atômicas. No universo criativo dos jingle trucks, tudo é permitido.


Patexuli

Novidades

Endereテァo: Av. D. Pedro II, 509, Centro

Telefone: (16) 3342 - 3822

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Cultura

Lollapalooza Brasil 2013

O festival já foi há algum tempo, mas a lampião não poderia não falar do que aconteceu no jockey club: da lama até todo o rock ‘n roll

Dia 1

Além da lama e da Um dia cheio de chuva surpresas

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por Mayara Abreu Mendes

ia 29 de março de 2013. Sexta-feira Santa. Cerca de 50 mil pessoas trocaram o bacalhau com batatas do almoço de família por um dia chuvoso e nublado no Jockey Club. Lamapalooza. Foi assim que eu e muitos outros chamamos carinhosamente o primeiro dia da segunda edição do Lollapalooza no Brasil. A princípio, eu não iria para o Lolla. Comprei um LollaPass na noite anterior de um amigo por um preço muito camarada. Era 13h20 quando a mensagem do meu amigo chegou. Hora da caminhada rumo ao Jockey (junto de mais um zilhão de pessoas, pelo que parecia). Em meio a tantas filas gigantescas para meia entrada, comemorei porque meu ingresso era de entrada inteira eu não tive que ficar na espera. Perdi umas três músicas da banda islandesa mais fofa do mundo, mas logo estava num lugar bom para ver o resto

E

Dia 2

por Maria Esther Valdiviezo

lá vinha mais um Lollapalooza. Era o segundo dia do festival, mas, para mim, era só o primeiro. Entre escolher pelos três dias, preferi somente dois, já que não tinha muita afinidade pelas bandas do dia 29. Em comparação ao ano passado, a fila não estava cheia e o evento estava mais organizado, o que não quer dizer que estava livre de pecados. A chuva foi a vilã do dia anterior e havia rumores de que estaria presente também no dia 30, o que me fez rezar e prometer aos céus por um dia ensolarado. Minhas preces foram ouvidas, mas como tudo tem um preço, a lama estava em boa parte do Jockey Club e na minha bota. Ok, vamos ao que realmente importa. Pegamos um copo de cerveja e fomos para o Palco Perry onde tocava William Noraime. A música eletrônica se combinava às luzes coloridas que se atravessavam e re-

Dia 3

Guitarras, dança e lágrimas nos olhos

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por João Victor Jacetti de Oliveira

uma tarde de domingo que já esperava pela noite, o Lollapalooza 2013 nos trouxe bons shows secundários, mostrou um repertório nacional interessante e ganhou o fim de semana em um espetáculo impressionante dos donos do festival. A variada tarde de shows teve alguns destaques. O indie rock dos britânicos Kaiser Chiefs era um dos sons mais esperados pelos que chegaram cedo ao Jockey Clube e o vocalista Ricky Wilson bem que tentou corresponder às expectativas. Ricky correu, pulou, escalou as torres do palco, se jogou na galera, enfim, fez tudo o que podia e o que não podia para animar a galera. Sua loucura foi um show à parte. Se focarmos no som, no entanto, a apresentação deixou a desejar. O repertório se baseou nos hits que todo mundo queria ouvir, aqueles bem no estilo “Ruby”, mas a impressão

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do show do Of Monsters, no palco Butantã (perto de onde entrei). Só fiz a besteira de entrar na fila enorme de Pillas (fichas para comprar bebidas e comidas do Lolla com o valor de quatro reais cada) durante o show e estava longe do palco quando “Little Talks” tocou – me imaginem cantando a plenos pulmões na fila. Peguei um chopp (caríssimo, por sinal!) e voltei a assistir a apresentação.

sultavam em outras cores. Um misto de estilo circense e psicodélico contaminava o público, a maioria acredito que assim como eu nem conhecia o cantor. Naquele horário não havia bandas tão interessantes. Andamos meio nômades pelo festival, até que Gary Clark Jr. chamou minha atenção. Ao som de blues e acompanhado de sua guitarra, Gary trazia um som diferente do tradicional rock que era ouvido em volta. Repleto de riffs, suas músicas atraíram a multidão ao Palco Alternativo. Apesar de muitos o compararem a Jimi Hendrix, Gary tem um estilo próprio perceptível. Junto ao pôr do sol, começava Franz Ferdinand. Com uma considerável quantidade de fãs brasileiros, ficar perto do palco foi impossível. De longe acompanhei os clássicos “No you Girls”, “Take me Out” e “Ulysses”, e de bônus a banda escocesa tocou entre as inéditas a “Fresh Strawberries”, do novo ál-

que tínhamos é que isso era tudo o que os Chiefs poderiam oferecer. Além disso, a bateria estava estourada e abafava a voz do cantor em vários momentos. Apesar de não podermos culpar a banda por isso,

Of Monsters and Men superou minhas expectativas musicais e cumpriu perfeitamente as de carisma, simpatia e fofura. Um instrumental sem falhas perceptíveis, mesclado com vozes e arranjos maravilhosos fizeram o show da banda de um disco só ficar mais do que completo. Nem a chuvinha fina e chata conseguiu estragar a participação e animação do público. Nanna, a vocalista, ressaltou ainda que “chuva é melhor que sol” e durante o show desceu um pouquinho para ficar mais perto do público. Surpresa boa para quem não os conhecia; felicidade e amor de quem, assim como eu, já os amava. Ao fim de Of Monsters and Men veio a caminhada para o palco Cidade Jardim para ver The Temper Trap. Depois da garoa da tarde e das chuvas dos dias anteriores, o Jockey era muita lama e pouca grama. Tênis, sapatilhas, botas e todos os outros sapatos mudaram de sua cor natural para um tom de marrom. Difícil era não pisar em uma poça. E o cheirinho de esterco não agradava nada também. Acontece, são coisas de um festival a céu aberto. Mas a sujeira foi logo esquecida quando The Temper Trap começou a mostrar para que tinham sido chamados para o

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bum. Apesar de tentar trazer algo novo para os brasileiros, o show não foi muito diferente do último em 2012. Aqui estávamos no Palco Butantã, e logo o Queens of The Stone Age tocariam do outro lado do Jockey, na Cidade Jardim. Então, pernas pra que te quero! Entre os desvios de lama e pessoas, por relance vi e principalmente ouvi a imponente voz de Britanny Howard. A vocalista do Alabama Shakes fazia um belo show, tocando faixas do seu CD de estreia “Boys & Girls”. Mas não

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o show ficou bastante prejudicado. Outra banda que sofreu com a bateria foi o The Hives. Mas os suecos fizeram um show bem mais interessante que os britânicos. O punk rock meio grunge da banda agitou o público e mostrou que nem só de sons alternativos é feito o Lolla. Com o já tradicional visual cheio de estilo e um comportamento bastante animado, a banda fez o que me pareceu o segundo melhor show do domingo. Em hits como “Hate To Say I Told You So”, vinha a certeza de que eles estavam agradando. Não bastasse tudo isso, o vocalista Pelle Almqvist ainda mostrou estar com os estudos em dia e falou várias vezes em português com a plateia. A única parte ruim do show foi que ele acabou rápido demais: menos de uma hora. Diversificando ainda mais o repertório, dois DJ’s fizeram os fãs de rock dançarem ao som do mais puro eletrônico. Kaskade comandou a festa dos que não estavam lá pelo show de encerramento e os brasileiros do FelGuk mostraram porque estão entre os melhores Dj’s do mundo. Completando a brasilidade do festival podemos destacar a banda Vivendo do Ócio e a volta do Planet Hemp ao grande cenário. A primeira banda com um estilo majoritariamente indie, mas com uma pegada parecida surf rock não é nada de


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Dia 1 Lollapalooza. Apesar de eu não conhecer a banda, fiquei encantada com o som e com as vozes dos australianos, além da presença de palco do vocalista. Eles conseguiram mesclar tristeza melódica com animação de forma bem equilibrada e cativaram muito o público (boa parte formada por fãs de The Killers que já esperavam o show dos americanos). Saí no final do Temper Trap para atravessar o vale da lama de volta ao palco Butantã a fim de ver Cake, apesar de metade do meu grupo de amigos foi ver Crystal Castle. Mesmo com o palco Perry atrapalhando e muito o som com as músicas eletrônicas e de o telão de fundo do palco ter uma imagem de montanhas com neve, a banda levantou a plateia e fez todo mundo cantar e dançar com covers e as músicas próprias. O som deles estava bem baixo, mas um vocalista bom faz toda a diferença: a banda, muito talentosa e animada, interagiu muito com o público (o que ganhou meu coração) e superou minhas expectativas. Daí para frente eu tinha quatro vontades: ver Passion Pit, ver The Killers, comer e fazer xixi. Passion Pit demoraria cerca de uma hora para começar e The Killers umas duas horas e meia. Logo, fui comer. Enquanto deliciava minha pizza sabor oito reais (!), assistia à coisa bizarra que foi o show do The Flaming Lips (o vocalista chegou a dizer que seria muito legal se um avião caísse ali no Jockey). Foi a decepção do meu dia, porque, pelo que eu conhecia da banda, julgava que o show seria bom. Terminei minha pizza e corri dali para fazer xixi. Além da fila de mais de meia hora, o banheiro estava nojento. Não tinha condições de se apoiar em canto algum, que dirá utilizar o que sobrou de papel higiênico nos banheiros químicos. Quando saí do banheiro, os primeiros acordes de Passion Pit estavam ecoando pelo palco alternativo. Apesar da minha enorme vontade de assistir à banda, decidi que queria ficar num bom lugar no show do The Killers, afinal es-

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havia tempo, tínhamos que correr pelo Queens. Com esse mesmo pensamento, várias pessoas foram mais rápidas e não podemos ficar tão perto. Entre os sucessos estiveram “The Lost Art of Keeping a Secret”, “No One Knows” e “Burn the Witch”, estas duas últimas tiveram seus solos de guitarra “cantados” pela plateia. Acho que é meio comum para nós brasileiros fazer isso. Carismático, o frontman Josh Homme brindou com a plateia antes do animado “Little Sister” e fazia questão de avisar quando

a música era de amor, como em “Make it Wit Chu”. Impecável nos tons graves e instigante, o QOTSA fez um show digno de atração principal, como muitos disseram. Foi uma experiência envolvente e ainda com um presente, a inédita “My God is The Sun”, do novo CD “...Like a Clockwork”. Após um ano e meio sem tocarem juntos, a banda honrou o nome, foram “reis” e reafirmaram seus rock chapado que conquistou tantos jovens. Fim do show, estava feliz. E agora, vamos esperar pelo Black Keys. Era a primeira vez do duo

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impressionante, mas também não é ruim de se ouvir. Em meio ao nosso cambaleante rock nacional, podemos dizer que é algo com potencial. O Planet Hemp subiu ao palco e fez o que se esperava. Comandada por Marcelo D2, a banda apresentou todos os seus maiores hits, sempre dentro daquela temática já tradicional e com um som exatamente como o que a banda fazia nos anos 90, como fez questão de falar D2 ao introduzir “100% hardcore”. Além do som, o Planet sempre foi marcado por opiniões de bastante impacto e, dessa vez, não foi diferente. O show teve um começo impactante, com “Legalize Já”, e, em determinado momento, BNegão gritou “Fora Feliciano”. Tudo isso criava um bom dia de festival em São Paulo, mas faltava alguma coisa para que as 60 mil pessoa presentes fossem embora rindo à toa. Essa “coisa” se chamava Pearl Jam. O repertório foi composto por todos os hits mais grunge dos norte-americanos, uma pequena homenagem à banda Ramones (que veio por meio da música “I Believe In Miracles”) e algumas daquelas belas músicas que agradam a todos. Mas não foi só o repertório que surpreendeu. “Evenflow”, “Jeremy”, “Alive”, “Daughter” e tantas outras obras-primas já seriam suficientes para deixar o público extasiado simplesmente por serem tocadas. No entanto, Eddie Vedder e companhia fizeram questão de o fazer maravilhosamente bem. O vocalista está com a voz em dia e impressionou a todos com sua performance, mostrando que ainda tem a energia de um garoto, e o resto da banda continua tão preciso e emocionante quanto sempre foi. Na música “Yellow Ledbetter”, Eddie costuma dizer “Me faça chorar” antes do solo de guitarra. Se ao fim do solo ele não estava chorando, com certeza não foi culpa do guitarrista Mike McCready, porque grande

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perei por quatro anos por aquele momento. Eu e meu amigo migramos para o palco Cidade Jardim e esperamos por uma hora. E valeu cada segundo. Ficar na grade em frente ao telão e com visão do palco inteiro foi uma excelente escolha (desculpa, Passion Pit). Fecho os olhos e consigo lembrar a sensação incrível que foi viver o momento de cantar “Mr. Brightside” ao vivo e com umas 50 mil pessoas me acompanhando (e não só o Brandon no meu fone de ouvido). O momento de puro êxtase de felicidade que vivi ali, naquela primeira música, perdurou pelo show inteiro. A chuva marcou, novamente, presença em um show que eu esperava muito. Dessa vez, no entanto, passou despercebida. A voz de Brandon Flowers e sua presença de palco são invejáveis. Como não amar um vocalista que diz que sentiu falta do público enquanto estava na pausa para o bis? Além de Flowers, a qualidade do som dos instrumentos estava magnífica. Complementando a perfeição musical, chuvas de papéis e fogos de artifício foram utilizados, configurando ainda mais o espetáculo como tal. O setlist foi ótimo tanto para quem curte o CD novo quanto para quem ama as clássicas. Eu, fã das duas eras de The Killers, não poderia ter ficado mais contente. Esperaria mais alguns anos se fosse necessário para ter um show tão maravilhoso quanto esse.

aqui no país tropical! Conseguimos ficar mais na frente, o que foi praticamente um milagre. Para não perder o lugar, renunciamos a Criolo e A Perfect Circle. Após tanta espera, surgiram os excêntricos headliners desse segundo dia. Confesso que fiquei decepcionada, esperava mais. O som estava baixo, o vocalista Dan cantava de olhos fechados a maior parte do tempo e não havia tanta energia para quem é principal atração. Somente “Lonely Boy” tirou o pessoal do chão, mas tiveram boa combinação “Gold On The Ceiling” e “Dead and Gone”. A respon-

parte do público estava. A única ausência sentida por grande parte dos fãs foi uma das mais famosas

Mayara Abreu Mendes, colaboradora

Maria Esther Valdiviezo, colaboradora

João Victor Jacetti de Oliveira, colaborador

É aluna do terceiro ano de Jornalismo na Unesp - Bauru. Apaixonadíssima por música, procrastinadora de primeira linha, fascinada por idiomas e adoradora de sorrisos, Mayara escreve e fala bastante, apesar de preferir escrever. É paulistana nata, mas vem perdendo suas paulistanidades por morar em Bauru desde 2011, onde estuda, dá aulas de inglês, faz parte de projetos de cultura e música e é feliz.

Escolheu pelo momento o Jornalismo e cursa o segundo ano na Unesp - Bauru. Nômade desde o nascimento, vive agora na cidade sanduíche, mas sempre a procura de um novo canto pra se aventurar e através da escrita vomitar toda a beleza que encontra. Não gosta de clichês, mas tem que concordar, como a maioria dos jornalistas, se divide entre as palavras e a vida boêmia. Quer a simplicidade como uma constante.

É aluno do terceiro ano de Jornalismo na Unesp - Bauru. Fanático pelo Corinthians e por rock (principalmente grunge e metal), João tem música e esportes como seus principais interesses. Natural de Jundiaí - SP, mas vivendo em Bauru desde 2011, João dá aulas de história no cursinho Princípia e é voluntário na ONG de conscientização política BatraBauru Transparente

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canções da banda, “Last Kiss”, mas nada que pudesse estragar a noite. Em termos de interação com a plateia, o que mais chamou atenção foi o desejo de Feliz Páscoa de Eddie para seus fãs e um discurso no qual o vocalista parabenizava São Paulo pela aprovação da união homoafetiva. A participação do público no show, no entanto, não se deu em conversas com o cantor, mas sim durante as músicas. Toda a plateia cantou durante o show inteiro sem descansar sequer por um segundo (exceto na pausa que a própria banda fez). E, como era de se esperar, o clímax da noite foi durante a música “Black”, quando era visível nos olhos de cada fã que aquele show já era um sabilidade de fechar com chave de sucesso mesmo estando longe de acabar. ouro não foi cumprida, talvez por A noite de todos os fãs de Penão serem tão conhecidos e logo arl Jam presentes no último dia do após do energético show do Que- Lollapalooza 2013 foi mágica e o ens of the Stone Age. Entretanto, amante de música que passou sua eles serão bem-vindos na próxima Páscoa curtindo todos esses shows vinda ao Brasil. também não tem do que reclamar.

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Crônica

Um dia frio

E

por Gabriel de Castro

u podia sentir o vento londrino gelado bater nas minhas orelhas, a fumacinha sair na minha respiração. Minha pele estava quase que totalmente coberta por um milhão de casacos e luvas e meias e afins. Você deve imaginar: “Que sensação ruim, não?”. Não. Cada inspiração daquele ar trazia consigo uma nova sensação. A pureza ilusória da atmosfera mantinha um sorriso estampado em meu quase congelado rosto. Tinha todos os motivos para reclamar, xingar todas as gerações passadas. Mas tinha um motivo para agradecer por estar ali. Um único motivo. E bastava. Nada fazia sentido. O teletransporte de cenas era irracional. Como não estava nem com sono e nem sob efeito de drogas, aquela mudança súbita de cenários era confusa. Eu me vi de repente de frente para a St. Paul’s Cathedral. Por alguns segundos, me faltaram palavras para descrever as imagens que meus olhos captavam. Adentrei na catedral e fiquei boquiaberto com a grandeza daquilo. Era tudo tão lindo e gigante que não me atentei para os detalhes. Queria muito tirar uma foto do lugar, mas estava sem meu celular. Em um simples piscar de olhos, já estava nas ruas da cidade. Carros pela esquerda, toda aquela coisa que não preciso dizer. Foi aí que passou por mim um ônibus. Daqueles vermelhos e de dois andares. Não estava nem no ponto, mas corri para entrar no veículo. Quando me aproximei, o cenário já tinha mudado. E adivinhe só, es-

tava dentro de uma cabine telefônica. Para quem ligava? Nem sei, talvez estivesse passando um trote. O que importa é: eu estava em uma cabine telefônica em Londres. E não tinha uma máquina para registrar aquele momento. Qualquer um estaria enfurecido a essa altura, tenho certeza. Imagine minha vontade de registrar cada frame que passava pela minha retina. Deixar guardado em um daqueles álbuns de 30 mil fotos que talvez eu nunca folheasse mais. Seriam coisas concretas que me lembrassem desse momento tão especial. Dessa vez adotei um meio de transporte “normal” e andei pelas ruas. Andei até que cheguei no Emirates Stadium, que, naquele momento, era palco do dérbi Arsenal e Tottenham. Meu Deus, o que mais me faltava para coroar esse dia? Tudo. A única coisa que mantinha meu bom humor naquele gelado dia. Eis que, ao pisar nos

arredores do Emirates, minhas pálbebras se unem e, ao se separarem novamente, estou ali. Na fila do Wembley Stadium. Dei todo o rolê por Londres para que, naquele momento, estivesse na fila para o show. Lembro que em 2008 eu estipulei que, antes de morrer, gostaria assistir a esse show, se possível na capital inglesa. Era um sonho se tornando realidade. Os minutos à espera da apresentação voaram - o que não é nenhuma surpresa depois de todos os teletransportes. Fecho meus olhos novamente e, ao abrí-los, deparo-me com a triste realidade: estou na minha cama, no escuro e no meio de uma bagunça imensa. O vento, o frio, as coisas: tudo isso não passava de um devaneio. De um sorriso escancarado, passei para cara de ressaca. Daquelas que você acorda no dia seguinte pedindo para morrer. E, para quem não sabe, o show a que me referia era do Oasis. Não podia ser verdade mesmo, não sei porque acreditei que tudo aquilo poderia estar de fato acontecendo. Mas, como eu acredito até no Coelhinho da Páscoa, sei que a banda britânica vai se reunir em 2014 para uma turnê de comemoração de 20 anos do álbum “What’s the Story Morning Glory?”. E eu vou estar lá em Londres para vê-los tocar, nem que seja pela última vez. Ou aqui no Brasil também. Não importa o palco, não importa o clima, não importa o dia. Se todos os outros sonhos que tenho não saem do imaginário, eu sei que esse em específico vai ser como uma previsão do futuro.

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fotografia

Liberdade de criação A possibilidade de reproduzir e desenvolver arte através de um aparato tecnológico abriu caminho para os novos movimentos criativos da arte contemporânea

A

por Letícia Naísa

principal forma de comunicação visual antes da fotografia era a pintura. Até meados de 1830, os movimentos de pintura clássica eram os responsáveis pelo registro da realidade. Não se sabe exatamente a quem atribuir a invenção de uma câmera fotográfica, já que foi um processo de inúmeros estudos em diferentes épocas, mas a primeira fotografia de fato data de 1826, de autoria do francês Joseph Nicéphore Niépce. O objetivo dos estudos para o desenvolvimento da fotografia era criar uma forma mais objetiva de registrar a realidade. “Quando a fotografia foi inventada, ela trazia o registro do real de uma maneira que o traço humano, a habilidade do pintor dificilmente conseguiria reproduzir. Então as pessoas passam a atribuir um papel para a fotografia que é o registro do real”, explica o fotógrafo e professor da PUC-SP, Cristiano Burmester.

E a pintura? A fotografia liberta o pintor da função de transmissor da realidade. A arte clássica tinha como objetivo a verossimilhança. A arte moderna e principalmente a contemporânea mostram-se artes mais soltas, mais abstratas, devido não somente ao contexto histórico de mudanças rápidas na sociedade e

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dou como uma linguagem. Nesse momento, a fotografia passa a servir de inspiração – e até mesmo de material – para grandes artistas, como no caso de Andy Warhol, que se utilizou de retratos de personalidades, como Marilyn Monroe e Elvis Presley, e os pintou em telas, “a base daqueles quadros é fotográfica”, diz Cristiano. Assim, a pintura começou a buscar referência na fotografia, que começou a ganhar um espaço maior dentro do movimento de arte contemporânea e dentro de museus e galerias. Ela é uma arte acessível, principalmente nesses tempos de Internet, em que qualquer um pode tirar uma foto. Para ser considerada arte, uma obra tem que ser relevante e pressupor um diálogo, além de requerer um olhar diferenciado, um novo ponto de vista, algo diferente sobre um tema da vida. Nem toda fotografia é uma obra de arte, mas toda fotografia é resultado de um processo criativo e seu papel no desenvolvimento da arte Fotografia sempre foi arte contemporânea é inquestionável. A grande inovação da fotogra- A fotografia foi o que permitiu a fia foi esse registro instantâneo do reprodutibilidade da imagem e o tempo e seu aparato tecnológico que inspirou grandes artistas do que permitia criar novas formas de movimento da Pop Art e hoje gacomunicação visual. A questão da nhou um espaço importante dencriação da imagem é um proces- tro do próprio mercado artístico. so artístico, “no início, as pessoas acreditavam que pelo fato da câmera ser igual para todo mundo, todo mundo faria as mesmas fotos, mas a gente sabe que não é isso”, Letícia Naísa, por isso, a fotografia não deixa de colaboradora ser uma forma de expressão artísUm projeto de jornalista. Escreve no tica do autor. Sua popularidade cresceu em Jornal Contraponto, da PUC-SP, gosta meio ao movimento de arte mo- de fotografia, Beatles e cinema. É dernista, mas foi na era da Arte visitadora de museus, ávida leitora e Contemporânea que a ela ganhou “usuária” de transporte público. um destaque maior e se consoli-

no mundo, mas também à tecnologia da fotografia, que permitiu ao artista criar uma arte mais inovadora, através de movimentos de vanguarda, como o cubismo e o expressionismo. De acordo com o professor Cristiano, “a fotografia libertou o pintor de registrar o mundo exatamente como a gente o vê”. Contudo, a pintura continuou a ser referência estética para a fotografia. As primeiras câmeras exigiam tempo de exposição mais longo, então as pessoas tinham que “posar” para tirar uma foto, da mesma forma que acontecia com um quadro: “até quase o século XX, a fotografia registrou o mundo como a pintura fazia, no sentido de enquadramento, do olhar, da pose”, explica o professor. Com o avanço da tecnologia, a fotografia se permitiu certas inovações. A fotografia instantânea permitiu um trabalho mais livre e mais espontâneo, ganhando uma independência de linguagem e podendo registrar um fragmento do tempo.

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A Igreja do Livro Transformador Divulgação

por Letícia Naísa

N

por Rafael Barizan

ão leitor exasperado, esta não é mais uma dissidência protestante que se instalará no seu bairro e deixará os fiscais da Lei do Silêncio de ca-

Junte-se ao movimento e diga: qual o livro que transformou a sua vida? belos em pé. A palavra igreja do nome desse movimento em prol da leitura refere-se tão somente ao seu significado de reunião. Idealizado por Luiz Ruffato, escritor brasileiro autor do premiado Eles eram muito cavalos, o movimento pretende reunir depoimentos de anônimos e famosos sobre o livro que transformou suas vidas e fomentar a leitura no Brasil. Em seu depoimento o autor lembra: “O livro que mudou minha vida foi Bábi Iar do escritor ucraniano Anatoly Kuznetsov”. O projeto surgiu como uma brincadeira em uma roda de discussões da Bienal do Livro do Pa-

raná de 2010. Ruffato, a partir de então, passou a divulgar a ideia e perguntar em suas palestras qual o livro que havia transformado a vida de seus leitores. Em pouco tempo, percebeu que essa era uma ótima desculpa, apesar de cômica, para as pessoas falarem sobre seu amor pelos livros. Entre as iniciativas do projeto estão o projeto quase anarquista da Biblioteca Livre instalada em um shopping de Curitiba. A ideia é simples, uma estante cravada no coração de um centro comercial, na qual se podem alugar e depositar livre a qualquer momento sem nenhuma burocracia.

Mais vivos do que você imagina Passando despercebidos em muitas ocasiões, os muros podem ter muito a se comunicar

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por Gabriel de Castro ma ida à faculdade, ao mercado, ao shopping. Muitas vezes, em um caminho de algumas quadras, nos perdemos ouvindo música ou nos irritando com o trânsito. Tantas distrações que acabamos não reparando em detalhes simples, daqueles que estão debaixo de nossos narizes mas não conseguimos ver. Uma mensagem de amor, um grito contra a desigualdade social: os muros podem, sim, dizer muito. Quem nunca se divertiu ao ler um recado romântico pintado naquele muro branco ou uma assinatura na parede recém pintada. O site “Olhe os Muros” traz fotos curiosas desses amontoados de tijolos que trazem consigo mensagens que valem a pena olhar. Tanto em sua

fotos: olheosmuros.tumblr.com

página no Facebook como em seu Tumblr, o “Olhe os Muros” destaca desde a pintura mais simples até as mais rebuscadas; de críticas sociais e recadinhos amorosos até caricaturas e pinturas. Cada foto vem, na maioria das vezes, acompanhada da cidade em que o muro está localizada (São Paulo, Curitiba, Madrid,etc.) e/ou algum agradecimento pela sugestão da foto. O projeto começou no Twitter de modo colaborativo e se mantem assim até hoje. Viu um muro interessante? Basta enviar a foto para o e-mail olheosmuros@gmail.com ou envie um tweet para @olheosmuros. As fotos podem ser enviadas pelo Tumblr também. Nesse caso, basta clicar em “Viu um muro?”, na parte superior da página e enviar a imagem. www.revistalampiao.com

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Cinema

Faroeste Caboclo

Direção: René Sampaio Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde e Felipe Abib Duração: 105 minutos

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por Gabriel de Castro história de um pobre que vai para uma cidade grande tentar uma vida melhor e que acaba se metendo em altas confusões e aventuras. Poderia muito bem ser um roteiro de um filme da Sessão da Tarde. Mas ainda bem que não é. É bem mais complexo que isso. Todos – ou quase todos – que foram aos cinemas assistir ao filme que marcou a estreia de René Sampaio nas telonas já sabiam o que aconteceria no final. Um duelo final entre João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e Jeremias (Felipe Abib), a morte de todo mundo que importava na história. Enfim, não é necessário falar sobre isso. “Faroeste Caboclo” surpreende não por um final inesperado, mas por um certo desapego da música que serviu de inspiração para o longa. Pelo mesmo motivo os fãs mais fiéis da Legião Urbana e de Renato Russo se desesperaram durante os 105 minutos de filme. Não há Santo Cristo garanhão da cidade, velho oferecendo propina, ou outro velho oferecendo uma passagem para Brasília. Quem esperava uma mera reprodução dos mais de nove minutos de música composta por Renato quase arrancou seus cabelos durante a sessão. O próprio músico, quando escreveu “Faroeste Caboclo”, já pretendia transportá-lo para o cinema. Chegou até a elaborar um roteiro para o que seria o longa. Não conseguiu, é verdade, mas era inevitável que a obra fosse reproduzida nas telas. E foi logo René Sampaio

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que o fez – essa foi a estreia do diretor no cinema. A construção dos personagem Jeremias e Pablo (César Troncoso) é um dos principais pontos positivos do filme. O primeiro já é introduzido logo no início do filme. E é algo bem explicável: o que seria da saga de Santo Cristo se não houvesse um vilão em carne e osso? Mas se engana quem acha que Jeremias é o único ruim da história. A verdadeira crítica é em relação a uma sociedade fundamentada no preconceito e na hipocrisia, algo próximo do que a música propõe. Além dessa elaboração do bad boy, Felipe Abib também conseguiu tirar a visão que alguns podiam ter de Jeremias antes do filme: um valentão grande, forte (até um pouco gordo), com cara de mal encarado. O personagem do longa vai além disso: “é uma pessoa extremamente egocêntrica, um playboy violento, que caminha para um lado meio obscuro e passa por cima de todo mundo”, como o próprio Abib o descreve. Já Pablo vai muito além daquele primo que mal aparece no enredo. Ele é extremamente importante: especialmente em uma cena que não consta nos nove minutos de música. Não é um bonzinho que ajuda Santo Cristo quando este precisa, da mesma forma que Santo Cristo também não é aquele que só veio para Brasília para ajudar o resto do povo. E como não falar de Maria Lúcia (Isis Valverde). Confesso que não esperava muita coisa da atriz e que ela me surpreendeu – e muito – nesse filme. A sua personagem é imensamente mais desenvolvida e complicada que a elaborada por Renato Russo. Ela não é só

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uma boa moça que acaba até por parecer submissa de Santo Cristo em alguns momentos. É certo que, assim como em boa parte da literatura romântica brasileira, a personagem perde força conforme o fim se aproxima, o que não tira o mérito dos roteiristas. No mais, a atuação de todo o elenco é impecável e não se assemelha em nada com uma tonelada de filmes que se vê saindo por aí todo ano. As cenas dramáticas interpretadas por Santo Cristo e Maria Lúcia são perfeitas, da mesma maneira que a loucura de Jeremias é a mais parecida possível com o verídico. “Faroeste Caboclo” já não surpreenderia por um final inesperado e até por isso inovou ao chocar o espectador durante o filme. Afinal, um bom filme é aquele que prende os olhos de quem assiste e cativa pelo que acontece no meio, e não só por aquilo que acontece no fim. Não vou ser hipócrita, no entanto, de dizer que não fiquei decepcionado de não ouvir Santo Cristo chamando Jeremias de filho da p...


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Vestido de Laerte

Direção: Claudia Priscilla, Pedro Marques Elenco: Laerte Coutinho Duração: 13 minutos

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curta metragem representa o universo cotidiano de Larte Coutinho após a aceitação e divulgação de ser travesti, como prefere ser chamado, ou crosssdresser, como a mídia o chama (não sem segundas intenções) . Busca-se demonstrar por meio da experiência do cartunista a exclusão social a qual ainda está submetida uma parcela de brasileiros, que convivem diariamente com o conflito de sua identidade de gênero, não se adequar ao seu corpo biológico (transexuais) ou ao modo como se apresen-

São Paulo S/A Direção: Luís Sérgio Person Elenco: Walmor Chagas, Ewa Wilma e Ana Esmeralda Duração: 111 minutos

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ma cidade moderna, industrial, cujo progresso está em cada esquina representado por seus arranha céus, seus automóveis, seus habitantes frenéticos e agitados. Todos estão coordenados pelo ritmo dessa nova organização, são partes de um sistema, peças de uma máquina, cuja função é produzir, desenvolver, gerar lucros. Nesse cenário suas vida se repetem, suas ações são racionais e pragmáticas, não há tempo para emoções, sentimentos, escapes da rotina.

tam a sociedade (transgêneros). O curta ressalta a posição singular na qual Larte se encontra por ser alguém reconhecido e protegido ou ao menos estar incluso em uma classe social superior. O cartunista tem uma experiência ao se travestir de forma muito distinta da geralmente experimentada pela grande maioria de seus pares. Sim, ainda enfrenta preconceitos, como no

episódio que serviu de inspiração ao filme: a polêmica envolvendo o uso do banheiro feminino de uma pizzaria por Laerte. Porém tem seus direitos e opiniões respeitados e levados em conta. A personagem é, pois, de grande relevância em um país majoritariamente conservador por trazer abertamente e de forma inteligente o debate sobre uma questão sempre marginalizada para o seio da imprensa e da sociedade, que prefere rechaçar, criminalizar e/ou marginalizar tudo aquilo que lhe é parte, mas incomoda por não se adequar a sua moral retrógada.

Em agosto...

Esse é o clima de São Paulo S/A, um retrato amargo das patologias sociais da sociedade moderna feito por > Jobs Luiz Sérgio Person que sintetiza o ab- Direção: Joshua Michael Stern surdo dessa existência na fala de seu Elenco: Ashton Kutcher, J. K. Simmons protagonista Carlos: “O que se pode esperar do mundo?... O filme conta a história da ascenção de Steve Jobs desde o colégio até se tornar uma das Recomeçar, trabalhar, mil vezes tentar mentes mais criativas do século 20 ser um homem... mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, recomeçar, aceitar...” > Círculo de Fogo Esse retrato desolador é a resposta (Pacific Rim) do Cinema Novo a crítica de que se Direção: Guillermo del Toro preocuparia somente com o sertão ou Elenco: Charlie Hunnam, Idris a favela. Pelo contrário, sabe retratar Elba com perfeição temas urbanos, a classe Uma guerra entre os humanos e criaturas média, a era do desenvolvimentismo à vindas do mar começa. Como resistência aos ataques vindos do oceano, os humanos utiliJK, não lhe poupa críticas ou abranda zam robôs gigantescos como uma tentativa a realidade, mostra-a visceral e mesdesesperada de evitar sua destruição quinha em todos seus tons de mesquinhez e conservadorismo. www.revistalampiao.com

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Música

The 20/20 Experience Justin Timberlake

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por Vanessa Souza*

epois de sete anos desde o último álbum de estúdio, o cantor norte-americano Justin Timberlake sentiu que era a hora de voltar. Em março de 2013, “The 20/20 Experience” chegou aos ouvidos do mundo como um dos lançamentos mais aguardados do ano. Várias características do disco são antecipadas logo pela primeira faixa, “Pusher Love Girl”. A canção começa com os falsetes tão característicos de Timberlake e se prolonga por oito minutos, quando a média de duração das músicas do álbum gira em torno de sete. As viradas durante a faixa, para driblar a monotonia, é algo que o cantor já tinha ensaiado em seu álbum anterior, “FutureSex/LoveSounds”, em canções como “LoveStoned/I Think That She Knows” e a famosa “What Goes Around... Comes Around”. Além de, é claro, um flerte fortíssimo com o soul e R&B, fazendo o pop esperado pelos ouvintes praticamente cair para segundo plano. Isso fica claro no primeiro single do álbum, “Suit & Tie”. A música tem a participação do rapper Jay-Z, mas o que chama mais a atenção é o sentimento que ela passa de ir além da barreira do som e chegar a um salão cheio de gente bem arrumada, com o cantor alisando seu terno para conquistar a mulher amada. Aliás, uma curiosidade é o fato de o nome do álbum remeter justamente à visão: a expressão 20/20 é usada no ramo da oftalmologia para descrever uma pessoa que enxerga bem. E o que Timberlake nos oferece em seu terceiro álbum é

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realmente música que pode ser vista. É o que acontece em praticamente todas as faixas, mas “Don’t Hold the Wall” é outro bom exemplo de como você pode ser transportado do lugar onde está até uma espécie de balada em slow motion coberta de fumaça de gelo seco e luzes em tons de azul. O tema abordado nas letras, é claro, é o amor, bem daquele tipo “SexyBack” que o cantor nos trouxe em 2006. Ainda assim, canções como Strawberry Bubblegum e Spaceship Coupe são verdadeiras love songs do século XXI. Esta última, além disso, também mostra a boa forma vocal (e até uma melhora significativa na técnica) do cantor, que já não gravava nem entrava em turnê fazia um bom tempo. Já “That Girl” não inova muito, sendo a canção que segue uma linha mais tradicional no álbum, sem muita ousadia. “Let the Groove Get In” é aquela música que não vai sair da sua cabeça (nem da sua boca) por algum tempo. O refrão é absurdamente “cantarolante” e os metais usados complementam muito bem a parte instrumental da canção. Um dos destaques do álbum é “Tunnel Vision”, que começa parecendo ser um tantinho irritante, mas se

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desenrola em uma das melhores faixas do disco. Em termos de melodia, é a música mais familiar para quem estava acostumado com o Justin Timberlake de “FutureSex/LoveSounds”. “Mirror”, por sua vez, é a canção mais próxima do pop que o cantor apresenta desde seu primeiro álbum solo, “Justified”, de 2004. A batida é a maior prova disso, indo contra a maré da percussão usada no resto do álbum. No entanto, ao contrário do que se pode pensar, ela não destoa do todo que é a “experiência” proposta por Timberlake e flui muito bem até desaguar em “Blue Ocean Floor”, a faixa que encerra a versão regular do álbum. Para quem só conhecia os agudos e falsetes do cantor, aqui está um bom exemplar do grave que ele tem em uma das melhores canções do disco. Depois de uma hora e dez minutos de Justin Timberlake, se você ainda quiser mais, a versão deluxe traz outras duas faixas, “Dress On” e “Body Count”, que funcionam muito bem como uma extensão do álbum. Afinal, ninguém merece faixas bônus que não se encaixam no resto, não é mesmo?

Vanessa Souza, colaboradora 8 e 80: realista e sonhadora, pessimista e otimista, pop e rock – e um pouquinho de soul. Resenhista amadora e um tanto orgulhosa. Ama música, filmes, poesia e arte em geral, principalmente a arte que é a vida e o absurdo do dia a dia.


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Literatura

Filosofia de um par de botas Machado de Assis

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por Rafael Barizan simplicidade do diálogo combina-se com o imaginário para representar por meio do diálogo questões relevantes da temática social da época. Tal como em “Um Apólogo”, Machado de Assis dá vida a personagens inanimados para ironizar seus pares e mais uma vez nos demonstrar sua maestria na utilização da ironia e do humor para a crítica. O conto, não um de seus mais conhecidos, contudo, merece destaque por algumas razões. Não é possível chegar a sua última página sem gargalhar algumas vezes, considerando especialmente que alguns problemas

satirizados pelas botas continuam tão atuais quanto o eram no século XIX. Encontramos uma detalhada análise de nossa estrutura social ao acompanharmos a trajetória do par de botas e percebemos como ainda podemos relacioná-la ao Brasil de hoje, apesar de todas as mudanças ocorridas na última década. Logo, percebemos como ainda é imperiosa a necessidade de mudanças estruturais em nossa sociedade e falhos os discursos pela manutenção do status quo, alardeados na mesa de jantar das famílias quatrocentonas ou em praça pública pelo recém-descoberto

exército de Joãos que repicam e dobram seus sinos conforme lhes diz a capa da semana de Veja ou a desbrasileirizada voz de William Bonner. Por fim, temos a cena final do conto a qual convido o leitor a ler cuidadosamente. Um desfecho que não poderia ser mais apropriado aos tempos atuais, com suas organizações corporativistas (o desejo individualista de nosso cômodo narrador) tentando se impor em detrimento das classes menos favorecidas (o mendigo do conto). Incômodo, sim; sempre, como toda boa literatura a frente de seu tempo.

O Queijo e os Vermes (Il formaggio e i vermi) Carlo Ginzburg

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por Rafael Barizan

arlo Ginzburg produz uma excepcional narrativa de microhistória ao relatar a vida do moleiro Menocchio. A reconstituição da vida de Menocchio e de seu julgamento pelos tribunais da Santa Inquisição foram possíveis devido a vasta documentação encontrada pelo historiador quase ao acaso quando pesquisava sobre uma seita italiana de curandeiros e bruxos. As peculiaridades das teorias de Menocchio, como a crença de que os anjos surgiram da massa primordial (o caos), tal como os

vermes surgem do queijo, levaram seus inquisidores a terem especial cuidado com seu processo tornando-o riquíssimo em detalhes que permitiram uma descrição apurada da formação intelectual de Menocchio, bem como da construção de suas crenças, leituras das quais poderiam derivar e lendas que teriam o influenciado. Essa vastidão de fontes minuciosamente coletado pelo historiador e o cuidado estilístico resultam em um texto atraente e objetivo que constrói uma hipótese geral de interpretação sobre

a cultura popular da Europa medieval, sem ser monótono. A leitura flui com facilidade e não se nota, por vezes, se estar diante de um apurado trabalho de pesquisa acadêmica. O livro é ainda um interessante estudo sobre a justiça em tempos nos quais religião e Estado estavam visceralmente ligados e é fundamental para a discussão e compreensão de quão fundamentais são conceitos que hoje nos parecem banais como o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

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Revista Lampião - Nº 2