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CECILY BROWN EMMANUEL NASSAR BILL VIOLA BIENAL MERCOSUL JOÃO GG


DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin REDAÇÃO André Fabro

Capa: Cecily Brown, Sem título, 2007.

PUBLICIDADE publicidade@dasartes.com DESIGNER Arruda Arte & Cultura

Cecicly Brown, Sing first that green remote Cockagne, 2016.

REVISÃO Angela Moraes SUGESTÕES E CONTATO dasartes@dasartes.com APOIE A DASARTES Seja um amigo Dasartes em recorrente.benfeito ria.com/dasartesdigital Doe ou patrocine pelas leis de incentivo Rouanet, ISS ou ICMS/RJ redacao@dasartes.com

Contracapa: Domingos Mazzilli Rainha Elisabeth I. (Galeria Lemos de Sá). Foto: Fernandes Guimarães


BIENAL MERCOSUL

14 BILL VIOLA

24

08 De Arte a Z 12 Agenda

EMMANUEL NASSAR

32

CECILY BROWN

44

62 Livros 64

Coluna do meio

66 Alto Falante

JOÃO GG

RESENHA

60

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DE ARTE A Z Notas do circuito de arte 25 MIL INTERNAUTAS, COMPRAM JUNTOS, PICASSO MILIONÁRIO A mais recente venda de “Busto do mosqueteiro” (1968), de Pablo Picasso, mostra que você não precisa ser um milionário para ter uma obra de um dos artistas mais famosos da história. A Qoqa, um site suíco de comércio de barganhas, colocou a pintura à venda em dezembro passado, oferecendo 40 mil ações a um custo de US$ 50 cada uma. Em apenas três dias, 25 mil pessoas compraram uma parte da obra de arte através da plataforma. Antes, especialistas garantiram a autenticidade da pintura e determinaram seu valor de US$ 2 milhões.

Aquecimento Prêmio Turner

Alta expectativa para nu de Modigliani

No Reino Unido

Temporada de leilões NY

Em toda parte

Os indicados ao Turner 2018, que incluem a Forensic Architecture, os artistas Naeem Mohaiemen , Charlotte Prodger e Luke Willis Thompson, foram reconhecidos por trabalhos de justiça social ou sutilmente políticos. Todos os finalistas serão exibidos no Tate Britain de setembro a janeiro e o vencedor, a ser anunciado em dezembro, ganhará o prêmio de £ 25 mil.

Um raro nu deitado de Modigliani, vindo de mãos privadas, chegará à Noite de Arte Moderna e Impressionista da Sotheby's, em Nova York. A estimativa de US$ 150 milhões é garantida por uma oferta irrevogável. A obra poderá superar o atual recorde de Modigliani, estabelecido em 2015, quando Liu Yiqian, um investidor chinês, conquistou “Nu Couché (Reclining Nude), 1917-1918, por US$ 170,4 milhões na Christie's.

Os amantes de David Hockney estarão em festa neste mês de maio, em Nova York. Dois estandes individuais na Frieze Art Fair serão dedicados à obra do artista britânico, enquanto uma exposição individual de 17 novas pinturas está em cartaz na Pace Gallery. Além disso, duas de suas pinturas, esperam para quebrar o recorde de leilão do artista pela Sotheby's, estimado entre US$ 20 a US$ 30 milhões nas vendas de arte contemporânea.

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David Hockney em alta


PRÊMIO FOCO BRADESCO ARTRIO

Giro das artes

Inscrições abertas

As inscrições para o 6º Prêmio FOCO Bradesco ArtRio estão abertas. Destinado a artistas brasileiros, com até 15 anos de carreira, a premiação quer estimular e reconhecer a produção artística contemporânea do país. O portfólio e o projeto a serem apresentados podem contemplar trabalhos desenvolvidos em qualquer tipo de plataforma das artes visuais. A premiação inclui residências em importantes instituições culturais e, também, a participação na ArtRio 2018, que acontece entre 26 a 30/9, na Marina da Glória. Além disso, cada artista premiado tem uma de suas obras doadas ao acervo do Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). Inscrições até 31/5 em www.artrio.art.br.

Arte para crianças “YOYO - Tudo que vai, volta”, é uma mostra de arte contemporânea voltada para o público infantil que o Sesc Belenzinho apresenta em São Paulo. A exposição é uma coletiva de nove artistas contemporâneos em atividade que criaram ou identificaram em sua produção obras que valorizam o diálogo amplo e direto com as crianças. De 5/5 a 22/7.

Para revelar “Estamos com fluxo de caixa e vendas em baixa e trabalhando duro para resolver quaisquer problemas com os artistas”. Declaração da galeria CB1, de Los Angeles, ao anunciar que vai fechar as portas logo após a carta aberta enviada por artistas que declararam não receber por vendas de suas obras.

Brecheret e a Semana de Arte Antecipando as comemorações de centenário da Semana de Arte Moderna, a Pinakotheke Cultural Rio de Janeiro homenageia uma das figuras centrais daquele evento: Victor Brecheret. A exposição reunirá raras obras que participaram da mostra histórica de 1922, não somente de Brecheret, mas também de nomes como Di Cavalcanti, Zina Aita, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Vicente do Rego Monteiro e John Graz. De 17/5 a 14/7.

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Giro das artes

Retrospectiva Toyota Com curadoria de Denise Mattar, a exposição “TOYOTA - O Ritmo do espaço” resgata o percurso do artista japonês Yutaka Toyota, apresentando cerca de 80 obras que reúnem trabalhos dos anos 1960, uma recriação da instalação imersiva “Quarto Escuro”, da X Bienal, além de obras premiadas no Panorama do Museu de Arte Moderna de São Paulo, na década de 1970. Museu de Arte Brasileira da FAAP De 17/6 a 2/9

MUSEU FRANCÊS DESCOBRE QUE METADE DE SUA COLEÇÃO É FALSA Mais da metade das obras da coleção dedicada ao fauvista Étienne Terrus (1857-1922), do século 19, revelou-se falsa depois que um historiador de arte alertou a equipe que as obras pareciam suspeitas. O Étienne Terrus Museum, localizado na pequena cidade de Elne, contratou o historiador de arte Eric Forcada para reformar a coleção após a recente restauração do prédio. Durante sua missão, Forcada descobriu que 82 pinturas – ou cerca de 60% das propriedades do museu – não foram pintadas por Terrus.

Maritza Caneca em Miami A artista brasileira Maritza Caneca apresenta sua segunda exposição em Miami. Com curadoria de Adriana Herrera, a mostra "Water Diaries", na Clima Gallery, exibe fotografias de piscinas, imagens de vestiários e projeções em vídeo, coletadas em mais de 15 cidades. Profundidade, poesia, transparência, quietude e imensidão são algumas das características impressas em seus retratos. Até 26/6.

10 DE ARTE A Z

VISTO POR AÍ

O mais novo Museu Nacional do Qatar, em Abu Dhabi, será inaugurado em março de 2019, disse o líder do país, Sheikha Al Mayassa, em uma conferência de líderes das artes. O aguardado museu é projetado pelo Atelier Jean Nouvel.


ARTEBH A ArteBH / Feira de Arte Moderna e Contemporânea estreia sua primeira edição, em Belo Horizonte com obras de mais de 100 artistas de diferentes manifestações artísticas. As galerias do circuito 10 Contemporâneo participam desta primeira edição. São elas: AM Galeria, Beatriz Abi-Acl, Cícero Mafra, Celma Albuquerque, dotART, Lemos de Sá, Manoel Macedo, Murilo Castro e Orlando Lemos. Além das galerias mineiras, a ArteBH contará com a participação de grandes escritórios e galerias de outros estados, entre elas, Hilda Araujo, AR, Fólio, Galeria TATO

12 AGENDA

e Chroma, com sede em São Paulo, e RV Cultura e Arte, de Salvador. As galerias apresentarão obras de artistas renomados como Di Cavalcanti, Volpi, Tomie Ohtake, Amilcar de Castro, Leda Catunda, Roberto Burle Marx, Abraham Palatnik, Cícero Dias, e de artistas da nova geração.

ARTEBH / Feira de Arte Moderna • Minas Tênis Clube • Belo Horizonte • 3/5 a 6/5


Omar Victor Diop, La Guerre des femmes 1929


BIENAL DO MERCOSUL O TRIÂNGULO ATLÂNTICO


A 11ª EDIÇÃO DA BIENAL DO MERCOSUL CONTA COM OBRAS DE 70 ARTISTAS VINDOS DOS TRÊS CONTINENTES QUE COMPÕEM O TRIÂNGULO ATLÂNTICO, TEMA DO PROJETO CURATORIAL. CONVIDAMOS OS CURADORES PARA APRESENTAR ALGUNS DESTES ARTISTAS

ADAD HANNAH POR ALFONS HUG O canadense Adad Hannah apresenta "A Balsa da Medusa" (Saint-Louis), um vídeo produzido em referência à pintura "Le Radeau de la Méduse"

(1819), de Théodore Géricault (17911824), hoje no Museu do Louvre que se refere ao naufrágio da fragata francesa La Méduse, em 1816, na costa do Senegal. O vídeo, produzido em colaboração com a comunidade de Saint-Louis (Senegal), foi realizado


Adad Hannah, A Balsa da Medusa, (Saint-Louis). Fotos: Tuane Eggers.

como "tableau vivant" (quadro vivo). Ao reconstruir esse momento histórico, o artista chama a atenção para a tragédia dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo em balsas improvisadas."A cada ano, enviamos um barco à África, sem medo de

arriscar vidas e recursos, para buscar respostas às seguintes perguntas: Quem são vocês? O que ditam suas leis? Que língua vocês falam? Mas eles nunca enviam um barco para nós", escreveu Heródoto, 400 anos antes de Cristo. 17


OMAR DIOP POR ALFONS HUG Uma das obras mais impactantes da Bienal é a série de oito fotografias "Liberty" do senegalês Omar Victor Diop que apresenta, sempre em autorretratos, uma cronologia universal dos protestos negros que interpreta momentos de lutas e manifestações, tanto na África como na diáspora americana. Os temas vão desde revoltas na época colonial até movimentos antiapartheid e protestos contra a violência policial. A abordagem estética de Omar é sempre alegórica e o tom da obra nunca é de lamentação, mas de contemplação, solenidade e celebração. 18 BIENAL MERCOSUL


FAIG AHMED POR ALFONS HUG Faig Ahmed, do Azerbaijão, vem de um país com tradição milenar de arte têxtil que se considera uma ponte entre oriente e ocidente. Sua escultura de grande porte na Bienal se situa nos primórdios do triângulo atlântico, quando Portugal navegava pelo Atlântico para buscar novos caminhos para as Índias, cortando assim o monopólio da legendária Rota da Seda. Ahmed apresenta a instalação "10(-35)", que incorpora técnicas antigas de tecelagem. Tapetes, bordados e instalações resultam das pesquisas que o artista faz sobre os processos têxteis das antigas tradições. Os tapetes estão entre os objetos que a humanidade fabrica há mais tempo, até os dias de hoje. Outro interesse do artista são os padrões e os ornamentos dos tapetes, que são similares e ao mesmo tempo diferentes em outras culturas. São para Ahmed como "palavras e frases que podem ser lidas e traduzidas para um idioma que entendemos".

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ADEOLA OLAGUNJU POR ALFONS HUG

A artista da Nigéria faz parte da instalação sonora composta de oito idiomas nigerianos, justapostos a oito idiomas indígenas da América Latina. A ideia é apresentar a grande diversidade linguística e cultural de ambos os continentes. A Nigéria possui 500 idiomas, vários deles ameaçados de extinção. Ao adentrar a igreja Nossa Senhora das Dores, o visitante ouve, em um primeiro momento, o murmúrio indefinido e polifônico de várias vozes, uma tessitura de sons que lembra uma oração coletiva. Mas, assim que ele se aproxima das caixas de som, os diversos idiomas se impõem de forma clara.

20 DESTAQUE

Adeola gravou um texto em iorubá, um dos idiomas mais importantes da Nigéria que tem certa presença até no vocabulário brasileiro. Fala do papel da mulher na sociedade: "Nada pode ser criado sem a energia feminina, e assim ela deveria ser reverenciada e respeitada se eles desejassem ter sucesso em seus esforços".

Alfons Hug foi diretor do Instituto Goethe em Lagos (Nigéria), no Rio de Janeiro, em Caracas, Brasilia e Moscou. Foi curador da Haus der Kulturen der Welt em Berlim, da Bienal de São Paulo (2002 e 2004) e Bienal de Veneza.


CAMILA SOATO POR PAULA BORGHI Para a 11ª Bienal do Mercosul, a artista brasiliense Camila Soato apresenta 11 pinturas que dialogam a história da arte e do Brasil até o momento atual. São imagens que fazem referência aos clássicos da pintura, "memes" da internet, notícias de jornal, vida pessoal da artista e dela própria em cena. Entre os trabalhos expostos, vale destacar o quadro "Presente!", que homenageia Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, socióloga, feminista e militante dos direitos humanos que foi brutalmente assassinada no dia 14 de março de 2018. Durante o mês de março, Soato realizou uma residência artística no Quilombo do Areal, reconhecido por

ser construído principalmente pela força feminina passada de geração a geração, estruturado a partir da força de trabalho das mulheres que, além de donas de casa, eram arrimo da família, em sua maioria lavadeiras. Em parceria com a Associação Comunitária e Cultural Quilombo do Areal, a artista ministrou uma oficina de pintura para um grupo de cerca de 20 moradoras do Areal, todas mulheres de uma faixa etária que variava entre 10 e 80 anos, com exceção de um adolescente. O resultado dessa residência se consolidou em uma exposição na própria associação, que integra os espaços expositivos contemplados pelo "O Triângulo Atlântico". 21


ARJAN MARTINS POR PAULA BORGHI O artista carioca Arjan Martins tem como pesquisa a diáspora, desde os navios negreiros até a construção da identidade afro-brasileira e o atual fenômeno dos refugiados sírios, por exemplo. Para a 11ª Bienal do Mercosul, o artista realizou seu maior trabalho (literalmente); uma pintura mural na parede do Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Uma obra grandiosa em dimensão e profundidade estética/conceitual, ao mesmo tempo efêmera por ser um “site-specific” e durar apenas o tempo da exposição. Rosa-dos-ventos, polias de velas, caravelas, símbolos das colônias e do tráfico negreiro são alguns dos elementos que marcam a obra de Arjan. “O Triângulo Atlântico entre tempos distópicos” é uma pintura inspirada em documentos históricos dos séculos 17 e 18, que apresentam imagens de paisagem dos três principais portos

escravagistas no Brasil: Olinda, Rio de Janeiro e Salvador. Com uma construção cartográfica muito presente, meridianos e esquemas de navegações cruzam e unem esses três portos. Tratase de um trabalho que convida os visitantes a adentrarem a história a partir desse denso e profundo azul atlântico.

11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul • O Triângulo Atlântico • Porto Alegre • 6/4 a 3/6

Paula Borghi é curadora adjunta da 11º Bienal do Mercosul, co-idealizadora do Saracvra (2016-2018), idealizadora do Projecto Multiplo (2011-2017) e editora do #livrodeinstagram.


BILL VIOLA 24 ALTO RELEVO

O tempo lento


PARA MOSTRA NO NOVO SESC AVENIDA PAULISTA, EM UMA PRODUÇÃO CHEIA DE REFERÊNCIAS, O TEMPO ESCOA COMO ÁGUA PELOS VÍDEOS DE BILL VIOLA, UM DOS PERCURSORES DA VIDEOARTE

POR GONÇALO IVO

Bill Viola é um artista contemporâneo surpreendente. Ama a pintura. Esta se faz presente como uma coluna vertebral em toda a sua obra. Provoca no espectador uma mirada que subverte a rapidez e a incidência com que imagens nos são oferecidas cotidianamente de forma excessiva, propondo, assim, sua desbanalização. Utiliza a chamada "videoarte" como linguagem. Porém, não é exatamente ou exclusivamente o nosso mundo, o aqui e agora, e todos os cânones contemporâneos que, ao longo das últimas décadas, ancoraram na produção artística - deixando-a, muitas vezes, asséptica, homogênea e sem "pathos" - que nos sussurram seus personagens e toda a sua engenhosa usina visual. Há nessa arte ecos do passado, presenças e referências marcantes como as que nos remetem aos pintores tenebristas do início do século 17 - Caravaggio, Ribera, Zurbarán, Guerchino, Alonso Cano. Ou até mesmo Francisco de Goya, com suas obsessões, sonhos e pesadelos. E, indo um pouco mais, até encontrarmos em peças como "Catherine's room", "The sleep of reason" e "The pool" uma franca conexão ao mundo metafísico que novamente nos conduzirá à pintura e à poesia. À esquerda: The Sound of a Mountain Under a Waterfall, 2005.


O homem é o centro da arte de Bill Viola. Seus mitos e arquétipos são tratados de forma extensa ao longo do corpo de sua obra. Isso nos levará mais uma vez a um diverso e denso mar de significados - o sublime, a angústia, a cólera e a paixão (em todos os seus sentidos). A religiosidade, a transcendência, as obsessões, as certezas e as dúvidas são a seiva desse estado humano. Pois é exatamente esse poliedro facetado que encarna a condição humana que é retratado de forma circular e recorrente. Seus vídeos parecem sequências, continuações, digressões de suas próprias ideias. São como quadros em uma exibição, expostos para que o todo também faça sentido.

26 ALTO RELEVO


À esquerda: Going Forth By Day, 2002 (Detalhe). Acima: Inverted Birth.

Bill Viola afirma estar sempre dialogando consigo mesmo. Conversa com seu mundo, pergunta e responde ao mesmo tempo. Mas, afinal, o artista não deve ser aquele que, ao ter sua visão particular e intransferível das coisas da vida, é instado a tudo metamorfosear em linguagem? Nessa viagem interior a lugares secretos, há poucos vestígios da cantilena da vida cotidiana, do mundo social e seu complexo tecido de relações... A "realidade" na obra de Bill Viola vem de outras fontes, outras "praias". Percebe-se que a origem e os fundamentos de sua arte se dão a partir de "revelações", como se novas janelas indicassem um estado de espírito instaurador, mágico e intenso, apontando para outras veredas...

Seus mitos e arquétipos são tratados de forma extensa ao longo do corpo de sua obra.

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Going Forth By Day, 2002 (Detalhe).

Uma dessas janelas, segundo o próprio artista, abriu-se quando, ainda criança; caiu de um barco em que navegava com um tio num lago. Suas recordações desse fato estão longe do dramático. Lembra um mundo novo, a vegetação aquática se movendo, peixes mágicos, o brilho do espelho d'água acima de sua cabeça e a epifania escondida nessa outra parcela inferior ao mundo que conhecia. Talvez aí sua outra obsessão. A água. Esse elemento restaurador e purificador de almas e carnes. A queda também pode ser 28 BILL VIOLA

uma experiência mística. Perceber, aprender que abaixo da superfície também há vida, outra vida e novos conhecimentos.

Bill Viola: Visões do tempo • SESC Avenida Paulista • São Paulo • 29/4 a 9/9

Gonçalo Ivo é artista plástico, com ateliês em Paris e Teresópolis e fascinação pelos museus de Madri.


Amargurado, 1986.


EMMANUEL NASSAR


RETROSPECTIVA DO ARTISTA PARANAENSE EMMANUEL NASSAR, NA PINACOTECA DE SÃO PAULO, RESGATA SUA MARCANTE PRODUÇÃO QUE PROVOCA REFLEXÕES SOBRE O ERUDITO E O POPULAR

POR PEDRO NERY

Roda 8118, 2018. Foto: Edouard Fraipont.

A Exposição "Emmanuel Nassar 81-18" reúne 37 anos de trajetória do artista. Sua obra foi fundamental para questionar conceitos que até então pareciam bem estabelecidos, como o de "arte popular brasileira" ou de "pop art" produzida no país. Na década de 1980, o artista, nascido em Capanema, interior do Pará, surpreendeu a crítica de arte do Sudeste, que interpretou seu trabalho a partir de sua origem amazônica e do viés popular. Entretanto, Nassar sempre tensionou o entendimento do "popular", ao articular, em suas obras, a visualidade dos circos e dos parques de diversão itinerantes do país com as logomarcas de corporações mundiais. Essa combinação de elementos aparentemente contraditórios provocou inflexões importantes na crítica sobre seu trabalho, possibilitando uma revisão de posição com relação à arte popular brasileira e sua pretensa pureza e ingenuidade. A partir daí, os trabalhos de 35


À direita: Bandeira: Céu azul e Bandeira: Brasília. Fotos: Romulo Fialdini.

Aglutinante e indagador sobre as ambivalências percebidas em seu cotidiano.

Nassar passam a ser encarados de uma perspectiva conceitual, em que se enfatizam as apropriações à maneira de Marcel Duchamp, ou a crítica à utopia do concretismo brasileiro das décadas de 1950 e 1960. É possível afirmar que uma questão atravessa toda a produção do artista nessas quatro décadas: sua capacidade para combinar a informalidade, oriunda das manifestações populares e da vida nas cidades, com a formalidade rarefeita no país que é, sobretudo, idealizada no campo da arte brasileira. As logomarcas, as pinturas de fachadas, as cores e as formas da bandeira nacional são reprocessadas em obras geométricas, nas quais símbolos conhecidos são desarticulados. Nesse processo, o artista não suprime a manualidade da pintura ou os vestígios da vida

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pregressa do material retirado da rua. No contexto de periferia global onde produz, esse gesto possibilita a descaracterização da mão do artista, a carga irônica e a sensação de pertencimento do espectador. O resultado não é a crítica sobre as formas de organização da sociedade da "pop art" brasileira dos anos 1960, mas a simples vontade de, ao mesmo tempo, ser aglutinante e indagador sobre as ambivalências percebidas em seu cotidiano. Para arriscar ainda mais, é possível afirmar que Nassar inverte a lógica antropofágica oswaldiana? Ou seja, deglute o inimigo Brasil e regurgita para transformá-lo em totem. A mostra reúne trabalhos articulados a partir de alguns recortes temáticos que são recorrentes ao longo de sua trajetória, sem se ater a periodizações. Um primeiro recorte se organiza em


Acima: Leverage, 1985 e John Lurie, 1982. À direita: Loin, 1982.

torno da noção de identidade, sustentada pelas bandeiras que são utilizadas não apenas em sua forma simbólica, mas também como propaladora de sentidos estéticos. A tela "Céu do Brasil" (1988), por exemplo, representa um sujeito observando as estrelas da bandeira do Brasil dentro do círculo, mimetizando o público que olha para a mesma bandeira, como se houvesse alguém observando o céu, em uma espécie de teatro celeste. Metáfora da condição cultural de ser brasileiro, para a qual as estrelas no céu são aquelas da bandeira nacional, compondo um cenário pré-existente. Em outro conjunto, prevalecem trabalhos em que a dinâmica da "pop art" e a ironia são mais potentes. Em "Torcida" (2010), uma bandeira vermelha e preta, cujo centro tem o

38 EMMANUEL NASSAR

Metáfora da condição cultural de ser brasileiro, compondo um cenário préexistente.


rosto-estandarte de Che Guevara, o revolucionário argentino, junto à logomarca da Coca-Cola, reúnem elementos que deveriam estar em oposição ideológica. No entanto, Nassar trata esses símbolos em referência às torcidas de futebol sul-americanas, nas quais ambos convivem e, provavelmente, de forma pacífica nas arquibancadas do estádio. Assim, também devem ser compreendidos os mapas do Brasil ou as colunas do Palácio da Alvorada como ícones que uniformizam a experiência social. O mapa que não serve mais para orientar, mas representar, o Che que não é revolução, mas símbolo reproduzido de maneira industrial, ou as colunas do Alvorada que não é arquitetura, mas ícone de uma nação.

À esquerda: Hollywood, 1989. Foto: Romulo Fialdini. Abaixo: Altar. Foto: Edouard Fraipont.


Acima: Fachada, 1989. Abaixo: Acorrentados, 1989. Foto: Edouard Fraipont.

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Yves Klein e suas esculturas.

Em um terceiro conjunto, reuniram-se obras que condensam operações técnicas distintas e permitem ao artista elaborar raciocínios sobre o próprio trabalho, reforçando a ideia de representação em sua obra. Serras cortantes, ripas de madeiras, arte moderna, trenas, pregos tortos, Mondrian, Eduardo Sued, barbante, tudo representado ou colado por Nassar. Ripas pintadas à mão simulam blocos de cor e são deslocadas de uma posição vertical ou horizontal por uma linha puxada, formando um conjunto ortogonal, ou por um prego torto, que rompe o bloco de cor e o atravessa com um dado de realidade, em outras palavras, a simetria cartesiana é desarticulada de modo pouco rigoroso. Soluções que se assemelham às gambiarras feitas para durar apenas um instante, como a que resolve a armação de uma barraca de feira livre. O artista usa tais soluções como artimanha irônica entre a racionalidade da precariedade e a poética geométrica. Por fim, é apresentado um conjunto em que se destaca o lúdico e o circense, no qual a visualidade se aproxima mais do conceito de arte popular brasileira. São


elaborados pelo artista obras que exploram as ambiguidades das atrações circenses que, ao mesmo tempo em que seduz o público pelo mistério e o exótico, causa medo. A roda do atirador de facas, a roleta, a Monga divertem porque assustam e iludem o espectador com seus velhos truques. A obra de Nassar instiga a curiosidade e rememora com doses de afeto e violência a origem popular desses circos mambembes. A obra e a mostra devem se apresentar de forma circense, deve animar o público com seus malabarismos. Equilibrar através do humor a tensão do mundano com desejos utópicos. É possível, portanto,

que Nassar não inverta a lógica antropofágica oswaldiana, mas segure nas duas pontas dessa corda, e seja ele mesmo um terceiro elemento.

Emmanuel Nassar: 81x18 • Estação Pinacoteca • São Paulo • 14/4 a 2/7

Pedro Nery é mestre em Museologia com graduação em História pela Universidade de São Paulo e atua com curadoria na Pinacoteca desde 2011.

Sonoros Brasil. Foto: Cortesia Galeria Millan.


ParaĂ­so (Para ir) 2015.


CECILY BROWN O JARDIM DO ÉDEN, O JARDIM INGLÊS E A FLORESTA TROPICAL

POR PAULO MIYADA Ainda que constantemente representado como um espaço-tempo sem fim, alegre, prazeroso e harmônico, o paraíso está inerentemente ligado a narrativas de fim da vida ou do mundo, de julgamento ou mortalidade. Com o inferno, o paraíso formou uma importante contra-imagem à racionalidade do Renascimento europeu dos séculos 14 ao 17. Desde então, o sentido do paraíso se tornou mais e mais difícil de capturar, mais ausente do que chamamos de real - até o ponto em que, hoje, precisamos nos perguntar: o que fazer da ideia de paraíso nesta época quase integralmente comprometida com os "prazeres terrenos"? Nos últimos 15 anos, Cecily Brown concatenou diversas cadeias de pensamento que, em algum ponto, passaram pela ideia de paraíso ou por reminiscências visuais de pinturas que o representam. Isso ecoou em muitas de suas obras, algumas das quais foram reunidas na exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. Desde meados dos anos 1990, sua produção se tornou conhecida, primeiro, pelo modo como conseguiu transpor cenas de sexualidade para pinturas em que tanto os corpos quanto a própria massa pictórica pareciam estar em contínua vibração e 45


movimento. Em seguida, reconheceuse a tensão entre a "intenção figural" e a "intensidade gestual" de cada uma de suas telas. Nas obras que compartilham a alusão ao paraíso, a sugestão de movimento contínuo e a ambivalência figural/gestual se juntam a uma terceira qualidade marcante: o modo como corpos humanos, animais e vegetações se justapõem, conglomeram-se e, eventualmente, amalgamam-se em massas cromáticas ritmadas. Silhuetas e feições animais brotam do fluxo de cores, compartilhando pinceladas com áreas

46 CAPA

de solo, plantas e ar. Mais do que um lugar ou um momento, a artista parece pretender pintar uma atmosfera quente, úmida e, é de se presumir, repleta de rugidos, zumbidos, farfalhares, cacarejos, gotejares, grunhidos e sibilos. Há, portanto, turbulência e também dissolução. Por se tratar de um espaço fora do tempo, não há fronteiras claras entre sujeitos e paisagens, figuras e fundos; mas a voracidade com que isso se dá merece especial atenção. No lugar do jardim sem eventos da eternidade pacífica, encontra-se a mata fechada, a pintura saturada de


Por se tratar de um espaço fora do tempo, não há fronteiras claras entre sujeitos e paisagens, figuras e fundos.

massas, corpos, animais, pinceladas, plantas e cores. Não há eventos, porque também não há, propriamente, sujeitos. As pinturas usualmente citadas por Brown como contrapartes, lembradas em sua abordagem do paraíso, incluem "Jardim do Éden, com a queda do homem" (c.1617), de Jan Brueghel, o Velho, e Peter Paul Rubens; "Orfeu encantando os animais" (1613), de Jacob Hoefnagel; "O paraíso com a criação de Eva" (c.1636), de Jan Brueghel, o Jovem; e, evidentemente, "O jardim das delícias terrenas" (1504), de Hieronymus Bosch. Ao observar

Acima: Brilhantes como visões (de Damas Decadentes) 2010; Sem título, 2009-10; Açúcar e Fogo 1 e Açúcar e Fogo 3, 2016-17.


essas imagens, é possível refletir sobre o quanto a colocação dos corpos humanos no contexto do paraíso é controversa e trouxe desafios aos artistas do passado. Mais ainda, é notável o quanto a definição do que quer que seja paradisíaco no Éden depende de recursos narrativos. É fecunda a associação entre a pintura de Brown e o pitoresco paisagismo inglês. O cerne do jardim inglês é se equilibrar no ponto exato onde o que há de mais encantador e comovente não foi realizado pela mão humana, mas aconteceu ao longo dos ciclos naturais, enquanto aquilo que foi cuidadosamente planejado pelo paisagista passa completamente despercebido pelo visitante. Paradoxal, esse ideal foi condensado na Inglaterra do século 18, mas, quando praticado, é difícil de capturar: o visitante tem certeza de que está diante de algo singular e, no entanto, tem dificuldade ao traduzi-lo em palavras. Identificar um detalhe especial, alguma coisa que transforma o sentido e o sentimento do todo e, no entanto, não estava em uma posição obviamente

48 CECILY BROWN 42 VERMEER E OS MESTRES DA PINTURA DE GÊNERO

Não há jeito bom de me fazer mal, 2014.

A colocação dos corpos humanos no contexto do paraíso é controversa.


Sem tĂ­tulo, 2015.


Um sopro visual temporário, que não estará lá no instante seguinte.

sublinhada, que parece ter sido encontrada por acaso e, quem sabe, até ser resultado de um acidente - essa sensação é, por certo, familiar para quem imerge nas pinturas de Brown. É sempre difícil determinar se o que você está enxergando é algo realmente consolidado no plano da pintura de Brown, ou se é uma sugestão imagética apenas aludida, uma projeção de entendimento desejada pela cognição, ou, ainda, um sopro visual temporário, que não estará lá no instante seguinte quanto menor a pintura, mais isso se embaralha. Há na exposição um conjunto de desenhos sobre papel, que oferecem indícios dos processos utilizados nas pinturas. Enquanto realiza esses desenhos, Brown cria o que chama de memória muscular dos traços que aludem a cada figura, enquanto também urde a espacialidade côncava, sem horizonte e densa, que caracteriza seus paraísos. Na América Latina, de onde vêm Flávio de Carvalho e Wifredo Lam, por exemplo, é tentador associar essas imagens a um aspecto selvagem e tropical. Associada ao calor, a floresta tropical resulta em abundância, plenitude e preenchimento. Território cheio, que não se deixa simplesmente atravessar. É preciso penetrá-lo. A questão é apontar que, de fato, a pintura de Cecily Brown traça um percurso singular: ela parte dos jardins verdejantes, mas secos, da pintura do século 17, absorve a dinâmica temporal do pitoresco britânico do século 18, e chega ao século 21 carregada de uma densidade atmosférica comparável à de alguma espécie de selva saturada e plena. Não há, propriamente, a constituição de cenas

52 CAPA


Sem tĂ­tulo, 2012.

A ĂĄrvore da sabedoria, 1915.


Sem título, 2012.

narrativas consolidadas como parte de uma história linear identificável. Ainda assim, há evocações de acontecimentos e ações que podem fazer parte de certo fluxo narrativo. É difícil precisar se os paraísos de Cecily Brown seriam, afinal, mais ou menos toleráveis do que as versões idílicas que os precederam. Seus aspectos associáveis ao inferno (dinamismo, choque e confusão) seriam, talvez, bem-vindos para os cidadãos do presente, tão apaixonados pelo espetáculo de gratuidade e destruição que desfila nas velhas e nas novas mídias dia após dia, minuto a minuto. Como obras contemporâneas, no entanto, seu principal destino não será salvar nossas almas, nem

tampouco edificar lições morais. O que elas oferecem são janelas de percepção junto a uma pintura que pretende estar em constante movimento.

Cecily Brown: Se o paraíso fosse assim tão bom • Instituto Tomie Ohtake • São Paulo • 22/3 a 27/5

Paulo Miyada é curador e pesquisador de arte contemporânea e atua no Instituto Tomie Ohtake como coordenador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria.


JOÃO GG POR ELISA MAIA Em "Paramount" (2017), uma escultura de isopor em forma de montanha gira lenta e constantemente em cima de uma base elétrica como se fosse um produto exposto em uma vitrine. As faces maiores do bloco de isopor foram esculpidas tomando como referência logotipos de alpes nevados característicos de empresas como Paramount Pictures, Evian e Milka. No chão, embaixo da escultura, cinco lâmpadas brancas tubulares iluminam o objeto. A obra compõe a individual "O Aparato", de João GG, inaugurada em março deste ano no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Nela 56 GARIMPO

o artista explora uma ideia singular de cenografia, que, em vez de representar o espaço camuflando a materialidade dos recursos que o compõem, enfatiza toda a aparelhagem, ou "o aparato", em torno deles. Nas esculturas de João, a tinta escorre e a fiação fica aparente, assim como as luzes frias, a tubulação, o piso, o fundo, o motor e a fita isolante que prende as estruturas de ferro. "Em algum momento das montagens, eu realmente comecei a me sentir um cenógrafo ou iluminador, carregando todas essas lâmpadas de um lugar para o outro. Esse ajuste fino de


Em sentido horário: Celebração Móvel, 2013, Recall, 2013 e Loading, 2014 .

À esquerda: Bitter Lake (Detalhe). Acima: Paramount. À direita: Modular 3.


montagem passou a ser tão importante quanto a criação dos objetos." O uso do isopor carrega uma ambiguidade interessante, porque, ao mesmo tempo em que é percebido como frágil e quase descartável, "é um dos materiais mais perenes já inventados". Por meio do uso de materiais sintéticos, da pintura chapada, das cores estridentes e dos movimentos mecânicos, as paisagens objetificadas de João - "Paramount", "Canyon", "Cascata", "Avalanche" parecem conseguir escapar à ideia de representação característica da cenografia. Sua potência não deriva da ilusão, mas justamente da opacidade e do excesso que inviabilizam a noção de mimese. Pela forma como são construídos e articulados no espaço, esses objetos se impõem como fragmentos de paisagens onde não há transparência nem transcendência, - "eu tenho preferido fazer objetos que se põem no mundo quase 'factualmente', sem tentar convencer o observador de um sentido, propósito ou moral. Não é que da arte não resultem efeitos e desdobramentos morais, mas eu acho que eles geralmente são uma resposta imprevisível".

Elisa Maia é doutorando do programa de Comunicação e Cultura da ECO-UFRJ.

O Aparato • Paço das Artes no MISSão Paulo • 27/3 a 6/5 Nem um nem Outro (eu continuarei sendo) • SOMA Galeria • Curitiba • 20/2 a 15/4

Acima: A Rainha e Modular 1.


RESENHAS exposições

Marcelo Silveira: Com Texto Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS) • 7/4 a 12/5 POR ALLAN YZUMIZAWA

Não podemos negar a força da cor vermelha. Não podemos negar, também, os seus paradoxos: entre amor e raiva, entre dor e prazer, entre violência e vibração - disjunções. O Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS) recebe, até junho, a exposição "Com Texto", individual do artista pernambucano Marcelo Silveira com curadoria de Cristina Huggins. Nessa mostra, o artista apresenta dois trabalhos: "Censor" e "Tudo certo". Em "Censor", Marcelo Silveira se apropria de cartazes de filmes exibidos em cinemas na época da ditadura. O artista intervém com camadas de placas de acrílico magenta onde seus recortes geram lacunas que acabam evidenciando algumas palavras selecionadas pelo artista no cartaz, e "censurando" outras - a parte de maior destaque 60

(onde há uma ausência de camada de acrílico) que podemos observar é um carimbo do órgão de censura, autorizando a sua exibição ao público. Temos, então, uma sala repleta de cartazes que deixaria instigado qualquer historiador do cinema brasileiro. Esses cartazes, com seus


carimbos de permissão da censura, acabam potencializando evidências ao relacionar seus próprios elementos (palavras, imagens e contexto histórico) com as camadas de acrílico magenta - dando uma sensação de um véu vermelho, de uma mancha que nos instiga e nos lança para diversos questionamentos. Diante dessa sala tomada pela cor vermelha, no seu canto, encontramos uma vitrola - da mesma cor - tocando um disco de dez polegadas com gravações produzidas durante uma residência feita por Marcelo Silveira na cidade de Belo Jardim, em Pernambuco. Os sons emitidos pela vitrola são vozes de pessoas recitando as palavras "Tudo certo" de diversas formas: vagarosos, demorados, ritmados, pausados, criando novos contextos e explorando possíveis sonoridades da palavra. "Tudo certo" pode ser uma expressão para indicar que está "tudo bem", ou talvez para indicar indiferença, consequência do nosso condicionamento cotidiano quando pronunciamos essas palavras, será que realmente está tudo bem? Percorrer por esses cartazes vermelhos de filmes aos repetitivos

sons de "Tudo certo" pode ser uma experiência estranha, contraditória ou/e até irônica. Mesmo sendo censuras ocorridas décadas atrás, qual é esse novo contexto que o artista nos propõe? Será que nesse momento em que vivemos, ainda está tudo certo?

Allan Yzumizawa é bacharel em Artes Visuais pela Unicamp, atua como curador independente e pesquisador em arte contemporânea.

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LIVROS lançamentos

Carla Chaim Textos: Jacopo Crivelli Visconti Editora Cobogó - 160 p. - R$ 98,00

O livro Carla Chaim percorre a trajetória dessa jovem artista, apresentando obras em diferentes formatos: desenhos, esculturas, vídeo instalações e vídeo performances que exploram o corpo em sua imperfeição e incapacidade de tornar-se um mecanismo exato. No trabalho da artista, o corpo responderia ao desejo de libertação de um sistema de controle de uma sociedade que impõe, cada vez mais, regras.

Rodrigo Matheus Textos:Matthieu Lelièvre, Kiki Mazzucchelli e Phillip Monk Editora Cobogó - 188 p. - R$ 98,00

O livro Rodrigo Matheus, Editora Cobogó, apresenta um panorama da trajetória deste artista que parte de um olhar atento aos materiais do cotidiano para desdobra-los em esculturas e instalações, deflagrando novos sentidos para os objetos além de sua função original.

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André Cunha Santuário Editora Independente - 52 p. - R$ 110,00

"Sempre senti uma imensa necessidade de buscar a luz em quem ou ao que, aparentemente, está na sombra. Nesta obra, trago a intenção de encontrar o sagrado no cotidiano miúdo de uma família brasileira que vive no sul do país, e aproximar aquele que observa minha arte de possibilidades que todos temos... desse envolvimento com doses de "felicidades pequenas" e que, roboticamente, muitas vezes, somos induzidos a fugir delas.

Contaditório: arte, globalização e pertencimento Moacir dos Anjos Editora Cobogó - 176 p. - R$ 39,90 O complexo de mudanças econômicas, tecnológicas e políticas chamado globalização traz impactos sobre as formas de expressar ideias de pertencimento ao lugar onde se vive. Nesse contexto, como se dá a relação entre o “local” e o “global”? O “local” será sempre subjugado enquanto o “global” reinará triunfante? O curador de arte Moacir dos Anjos apresenta uma diversidade de ideias e trabalhos artísticos que questionam um mundo que não para de se transformar. E põe em cheque noções do que seria característico do espaço onde se nasce ou se habita. 63


COLUNA DO MEIO Fotos: Fernando Souza.

Quem e onde no meio da arte

Vanda Klabin, Rafo Castro, Antonio Bokel e Bruno Klabin

Rita Capell, João Sobral, Vanda Klabin e Andrea Gonçalves

Dá licença Galeria Tramas Rio de Janeiro Nelson Leirner e Vanda Klabin

Maritza Caneca e Vanda Klabin

Fotos: Jorge Gonçalves.

Vanda Klabin, Paulo Bertazzi e Celso Rayol

Carolina Kasting e Daúde

Vanda Klabin, Patricia Costa, Marli Garcia e Sueli Strambowsky

Carolina Kasting e Juliana Schalch

Carolina Kasting EIXO Arte Rio de Janeiro Sara Figueiredo e Jan Davids

Cadu Lacerda, Carolna Kasting, Ruy Barreto e Sara Figueiredo

Carolina Kasting e Susi Sielski Cantarino

Cadu Lacerda, Carolina Kasting e Sara Figueiredo


Fotos: Paulo Jabur.

Artur e Cynthia Fidalgo e Ronald Duarte

Antonio Manuel e Marisa Abate

Ronald Duarte Galeria Artur Fidalgo Rio de Janeiro Suzana Queiroga e Rubem Grilo

Clara Veiga e BrĂ­gida Baltar

Fotos: Carolina Krieger.

Marcus Wagner, Faust Fawcett e Ana Luiza Rego

Gabriela Machado e Gais Ama

Houssein Jarouche, Claudio Tozzi e Sofia Gotti

Marcia Lagos e Alex Atala

Claudio Tozzi Galeria Houssein Jarouche SĂŁo Paulo Houssein Jarouche

Marco Mazza e Cecilia Gross

Claudio Tozzi

Adriano Pedrosa


ALTO FALANTE

Por Guy Amado

Da arte da desaparição marítima

Donald Crowhurst Desta vez, trago apontamentos sobre arte e desaparições oceânicas. Comecemos por Donald Crowhurst, um competidor britânico na volta ao mundo oceânica realizada em 1968, organizada pelo periódico , a . O evento ditava que a circunavegação deveria ser realizada de modo solitário e sem paradas ou escalas, oferecendo uma premiação em dinheiro que atraiu Crowhurst, juntamente com a chance de ganhar notoriedade. Após poucas semanas no mar, o impulsivo e inexperiente marinheiro amador percebe que seu barco, o (nome que homenageia sua cidade), afinal não estava apto para velejar ao redor do mundo. Os preparativos apressados e o tempo que teve que dispender para conseguir quem financiasse a empreitada fizeram com que esta parte fosse negligenciada. Em vez de retornar para casa, no entanto, ele começa a emitir falsos relatos de seu progresso e sua posição, alimentando a expectativa geral sobre uma possível conquista, acuado pela ideia da humilhação e das dívidas que o aguardavam caso desistisse. Mantém a postura farsesca até que não consegue mais sustentá-la, refugiando-se em um mundo internalizado, desenvolvendo uma condição gradualmente psicótica (verificável a partir dos relatos que deixou nos diários de bordo). Duas semanas antes da data em que Crowhurst retornaria à sua terra natal como herói local, o foi encontrado no meio do Atlântico, à deriva e desocupado. Os diários de bordo descreviam a real trajetória física de Donald; sobre sua jornada psicológica, porém, só se pode especular. Para muitos, Donald Crowhurst foi somente um embusteiro falastrão que abusou das normas e convenções - informais, mas sagradas - do espírito esportivo. Mas, para outros, a questão é mais complexa, com ele podendo ser visto também como uma vítima da competição Golden Globe. Sua estória é sobre o fracasso, sobre a falha humana, sobre os limites da sanidade a sós no oceano, onde não há presença humana ou qualquer apoio a que recorrer. "Seu mundo era o da solidão extrema, tomado por divagações de uma mente perturbada", escreve a grande artista britânica Tacita Dean, que desenvolveu toda uma série de trabalhos em torno da melancólica saga de Donald. 66


Bas Jan Ader A epopeia desventurosa de Crowhurst permite um paralelo inevitável com outra narrativa de jornada marinha, agora envolvendo diretamente a arte. foi o último, mais pungente e talvez mais conhecido (apesar de incompleto) trabalho do artista holandês Bas Jan Ader, concebido para ser uma espécie de performance em três partes. Na tarde de 9 de julho de 1975, ele se despediu de sua recente esposa Sue e partiu de Cape Cod em uma travessia solitária através do Atlântico. Seu barco, o , tinha meros quatro metros de comprimentos, a menor embarcação desde sempre a tentar tal empreitada. Mas, após três semanas, o contato por rádio foi perdido. Ainda que tivesse sido avistado em duas ocasiões, Ader nunca mais foi encontrado. Até hoje, ninguém sabe se o artista teria sucumbido em um acidente em alto-mar, ou se teria ficado desorientado e saltado para fora do barco, ou ainda, se seu intuito era encenar seu último trabalho como um grandioso ato suicida. Há também quem acredite que ele ainda esteja por aí, tendo se esquivado deliberadamente da completude do projeto para terminá-lo de outra forma, por assim dizer, agregando o residual épico que imprime mais uma camada de mitologia pessoal ao artista e à obra. No belo documentário de Rene Daalder sobre a vida e a produção de Ader ( , 2008), sugere-se que o ato de cruzar o Atlântico em um barco tão pequeno era outra maneira de perder o controle, de se pôr ao sabor de uma força maior. Faz sentido. Ele pode ter se rendido ao oceano como se submetia sistematicamente à força da gravidade que coprotagoniza os seus famosos vídeos da série de quedas ( ). Terá esse "mestre da verticalidade" entrado em colapso frente ao interminável eixo horizontal da imensidão marinha? Nunca saberemos. Cravan Voltemos agora um pouco no tempo, para a saga de um personagem icônico e "alternativo" da modernidade europeia, cujo ato final justifica o fato de estar nesse texto. Falamos de Fabian Avenarius Lloyd, mais conhecido como Arthur Cravan (1887-1918), um homem de muitas faces, ou ao menos identidades, tendo adotado 67


pseudônimos diversos até se estabilizar no nome que o consagrou. Poeta, editor e ainda sobrinho de Oscar Wilde (fato que usava sem cerimônia a seu favor), teve tantas atividades quanto alcunhas: chofer, açougueiro, marinheiro, lenhador, desertor, professor e boxeador de ocasião. E que ocasião: protagonizou, bêbado, um combate histórico com o então campeão mundial Jack Johnson, evento já comentado nesta coluna (em um processo genialmente peculiar, havia se sagrado campeão francês de boxe sem ter disputado uma única luta. Não à toa era venerado por Duchamp, Picabia e dadaístas em geral, bem como por surrealistas). Cravan pôs todo o seu gênio em sua breve mas intensa existência. Depois de ter sido expulso de uma academia militar inglesa por espancar um instrutor, o então Lloyd se mudou para a boêmia Paris, onde adotou sua alcunha definitiva. Com um pendor único para a autopromoção, Cravan explorou a fundo sua reputação como um "poeta pugilista". Suas atitudes e performances ultrajantes o levaram a ser odiado por parte da vanguarda francesa. E adorado por outra. Para escapar do serviço militar na Primeira Guerra, fugiu para os EUA, em 1916 (passando por Barcelona, onde participou do citado combate de boxe), e, dali, a pé, para o Canadá, usando documentos de um amigo morto. Um pouco mais tarde, surgiu em Salina Cruz, no México, em 1918, onde encontrou e se casou com sua nova companheira, a também poeta modernista (e que renderia outra coluna) Mina Loy. Apaixonados, mas em sérias dificuldades financeiras, o casal planejava ir para Buenos Aires, onde a vida seria mais barata. Mina, grávida de sete meses de uma menina, foi na frente, em um navio hospitalar, enquanto Cravan, sem passaporte e documentos em geral, preparou um pequeno barco para a longa jornada marítima. Tanto ele como a embarcação, contudo, desaparecem sem deixar vestígios; seu corpo - como o de Bas Jan Ader - nunca foi encontrado. Desde então, fervilham especulações sobre sua morte ter de fato ocorrido. Cravan, o colosso iconoclasta, foi sempre maior que a vida; e fiéis a seu estilo, relatos de admiradores dariam conta de flagrantes de sua suposta pessoa em diferentes partes do mundo por mais algumas décadas. Talvez esteja com Bas Jan Ader e Donald Crowhurst tomando uns copos, algures. Homens que têm mais em comum do que a tragédia ou a incompletude de uma empreitada: a pulsão experimental e a paixão pelo que faziam, características dos que navegaram pela vida com rara intensidade.

Guy Amado é crítico de arte e curador independente. Vive atualmente em Portugal, onde realiza doutorado em Arte Contemporânea.

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Lançada em 2008, a Dasartes é a primeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente em seu aplicativo para tablets e celulares e no site dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.

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Revista Dasartes Edição 72  

Cecily Brown Emmanuel Nassar Bill Viola Bienal Mercosul João GG

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