DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin REDAÇÃO André Fabro andre@dasartes.com SITE Leandro Fazolla dasartes@dasartes.com MÍDIAS SOCIAIS Kauã Muniz DESIGNER Moiré Art moire@moire.com.br REVISÃO Angela Moraes PUBLICIDADE Sylvia Carolinne sylvia@dasartes.com SUGESTÕES E CONTATO info@dasartes.com
Capa: Tamara de Lempicka, Sainte Thérèse d’Avila,1930. Museo Soumaya. Fundación Carlos Slim Collection, Mexico City, Inv. 50558. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Courtesy of Museo Soumaya.
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POP BRASIL 12
FELIPPE MORAES 36
6 AGENDA 10 LIVROS
ROBERT
RAUSCHENBERG
128 COLUNA DO MEIO
ANDRÉ GRIFFO 76
TAMARA DE LEMPICKA 98
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Julia Pereira, Eternidade.
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Agenda
A exposição Nem Tudo Que Reluz investiga os significados simbólicos do adorno na arte contemporânea, reunindo obras de 21 artistas mulheres de diferentes regiões, gerações e origens étnicas do Brasil. A mostra propõe uma reflexão sobre como adornos guardam memórias, constroem identidades e expressam vínculos culturais, espirituais e políticos. Dividida em quatro núcleos temáticos, reúne obras comissionadas e de acervo, em múltiplos formatos e 6
suportes. Ocupa todo o espaço interno e externo do Solar Fábio Prado (antigo Museu da Casa Brasileira), com entrada gratuita. Entre as artistas participantes estão Lidia Lisbôa, Rebeca Carapiá e Nádia Taquary, Julia Pereira, Laura Vinci, Elle de Bernardini, Amélia Toledo, Kimi Nii e A TRANSÄLIEN.
NEM TUDO QUE RELUZ • SOLAR FÁBIO PRADO • SÃO PAULO • 29/7 A 14/9/2025
de arte
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AZ
CURIOSIDADES • Comunidade de Plainfield, em Illinois, EUA, homenageia Wadee Alfayoumi, menino palestino de 6 anos morto em crime de ódio em 2023, com um monumento no playground, agora renomeado. A obra, com silhueta e coração vermelho, foi criada por artistas muçulmanos e financiada por escoteiros locais.
PELO MUNDO • O Observatório Vera Rubin, no Chile, divulgou as primeiras imagens feitas pela maior câmera digital do mundo. Com 2.812 kg e montado nos Andes, o equipamento promete revolucionar a astronomia. O projeto homenageia a cientista que provou a existência da matéria escura e um marco histórico na observação do cosmos.
EDITAIS • CCJF e Caixa lançam prêmio para identificar figura histórica apagada de painel na antiga sede do Superior Tribunal Federal, no Rio de Janeiro. Com inscrições até 30/9 e premiações em dinheiro, o concurso convida pesquisadores e artistas a investigar uma enigmática inscrição e reconstruir a imagem perdida na Sala de Sessões. 8
PELO MUNDO • A artista Nan Goldin lança, em parceria com o Museu Leslie-Lohman, venda online de impressões a US$ 250 para apoiar causas trans e de gênero. A ação incluiu dois retratos icônicos feitos em NY: Jimmy Paulette em Wigstock (1991) e Thora com ursinho de pelúcia (2020).
LUTO • Morreu, aos 83 anos, o escultor Joel Shapiro, conhecido por expandir os limites do minimalismo com obras emotivas feitas de bronze. Representado pela Pace Gallery, criou mais de 30 esculturas monumentais, como Perda e Regeneração (1993). Suas obras integram acervos do MET, Getty e Centre Pompidou.
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• DISSE A GALERIA ALMEIDA & DALE em resposta a uma disputa com a HOA Galeria. Em foco, a posse de um galpão na Barra Funda (SP), reformado pela HOA e agora alvo de reintegração. A HOA acusa o grupo Atropos de rompimento unilateral; a Almeida & Dale alega fim consensual e medidas legais por uso indevido. 9
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Livros
Após abordar o Barro (vol. 1) e a Palavra (vol. 2), o terceiro número propõe uma reflexão ampla e polifônica sobre a ideia de povo. Longe de oferecer uma definição única ou definitiva, o livro aborda o tema como processo, relação e acontecimento. A palavra “povo” é tratada como ponto de partida para cruzamentos entre diferentes áreas do conhecimento, como história, sociologia, educação, biologia, geografia, literatura, arte, religião, cosmologias e política. POVO • Org. Instituto Tomie Ohtake • Coord. Divina Prado, Felipe Carnevalli e Gabriela Moulin • 208 páginas • R$ 85,00
Com curadoria de Daniele Queiroz, Thyago Nogueira e Ana Paula Vitorio, Beleza Valente é a primeira exposição antológica de Zanele Muholi no Brasil, oferecendo uma visão única do ativismo visual da fotógrafa e artista sul-africana. Reconhecida internacionalmente, Muholi utiliza suas obras para destacar a beleza e humanidade de pessoas não binárias e da comunidade LGBTQIAPN+, amplificando suas vozes em um contexto de intensa discriminação e violência. ZANELE MUHOLI - BELEZA VALENTE • Org. Thyago Nogueira, Daniele Queiroz, Ana Paula Vitorio • Editora IMS - Instituto Moreira Salles • 256 páginas • R$ 150,00
O livro Balé literal apresenta a obra da artista Laura Lima, em sua montagem no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA). Na instalação, objetos – ou “entes” –, fotografias e frases poéticas e políticas, suspensas em fios de aço, atravessam o museu, em uma estrutura posta em movimento pelo Sindicato, composto por um maquinário com duas bicicletas e uma equipe de manutenção, visíveis para os visitantes. LAURA LIMA: BALÉ LITERAL • Coedição MACBA • Editora Cobogó • 288 páginas • R$ 168,00 10
BRA
PO
Alto Relevo
OP
ASIL
Regina Vater, Mulher mutante, 1968. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
É NA PROFUSÃO CROMÁTICA E NO VOLUME EXPRESSIVO DAS CERCA DE 250 OBRAS REUNIDAS NA EXPOSIÇÃO POP BRASIL: VANGUARDA E NOVA FIGURAÇÃO, 19601970, APRESENTADA NA PINACOTECA DE SÃO PAULO, CURADORES OS QUE POLLYANA QUINTELLA E YURI QUEVEDO ENSAIAM UMA POSSÍVEL, CARTOGRAFIA AINDA QUE PARCIAL, PARA DAR CONTA DA INTENSIDADE E DA PLURALIDADE QUE MARCAM AS ARTES VISUAIS PRIMEIRAS DUAS NAS DÉCADAS SOB O REGIME CÍVICO-MILITAR NO BRASIL
POR FABRÍCIO REINER
Raymundo Colares, Lateral de ônibus, 1969. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
Teresinha Soares, Caixa de fazer amor, 1967 . Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
Desconsiderando a narrativa linear ou um eixo unívoco, a curadoria aposta na multiplicidade de formas, discursos e contradições, assumindo a complexidade como método e a polissemia como índice da vitalidade daquela produção. Afinal, qualquer tentativa de leitura desse período esbarra em camadas de tensão ainda abertas: entre engajamento político e fetiche pop, entre ironia e denúncia, entre reações institucionais e pulsões subterrâneas que seguem reverberando nos debates contemporâneos, seja no campo das artes, seja no campo ampliado da cultura ou no da política. Longe de ser um obstáculo, essa profusão se transforma nas mãos dos curadores em força narrativa: um gesto que reconhece a impossibilidade da síntese e, ao mesmo tempo, sustenta a urgência de revisitar criticamente um momento-chave da arte brasileira, cujos signos, estratégias e silêncios ainda exigem elaboração. Entre as obras icônicas que pontuam esse período e aparecem na exposição Pop Brasil, algumas se impõem não apenas pela força de sua imagem, mas pela espessura crítica que adquiriram, muitas delas produzidas em tensão direta com os códigos visuais da cultura de massa. 17
Pietrina Checcacci, Sem Titulo, 1967-1968. Da serie O Povo Brasileiro Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
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Nelson Leirner, Adoração (altar para Roberto Carlos), 1966. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
Na célebre Adoração (altar para Roberto Carlos) (1966), a obra Nelson Leirner é exemplar nesse sentido. Ao transformar o ícone da indústria cultural em ícone religioso, o artista embaralha as fronteiras entre sagrado e mercado, sublinhando com acidez os mecanismos de consagração presentes tanto na religião quanto na indústria cultural. Assim, Leirner desmonta a ideia de sacralidade, religiosidade e identidade nacional, submetendo-as ao filtro do consumo e do kitsch. A obra propõe um comentário contundente sobre a iconofagia brasileira, essa capacidade de consumir e estetizar tudo, inclusive aquilo que deveria nos provocar espanto. Em outra chave, mas com igual potência, A bela Lindoneia (1967), de Rubens Gerchman, retrata uma mulher desaparecida, cujo rosto foi extraído de uma nota policial. A “Gioconda do subúrbio” não sorri: está ausente, diluída entre o sensacionalismo da imprensa popular e a invisibilidade social. Gerchman opera aqui uma crítica à romantização da classe trabalhadora ao mesmo tempo em que transborda empatia plástica e política sobre uma figura invisibilizada.
Wanda Pimentel, Sem título. Da série envolvimento, 1968. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
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Antonio Dias, La mort de Black Hawk, 1967. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Levi Fanan.
Já La mort de Black Hawk (1967), de Antonio Dias, é uma das peças mais emblemáticas da virada crítica que marca sua produção nos anos 1960. Criada em meio ao endurecimento do regime militar brasileiro, a obra condensa, em sua visualidade e título, uma crítica aguda à violência institucional e à mitologia do poder, tanto no Brasil quanto no imaginário “ocidental” mais amplo. O título evoca diretamente a figura de Black Hawk, líder indígena norte-americano do século 19, cuja resistência à expansão colonial dos Estados Unidos se tornou símbolo. Na obra, Dias constrói uma alegoria que ultrapassa o episódio específico: trata-se de alegoria a qualquer figura que resista à lógica imperialista, militarizada e colonizadora. Formalmente, a obra se insere no vocabulário visual que o artista vinha desenvolvendo naquele período: uso de cores restritas (geralmente preto, branco e vermelho), formas gráficas contundentes, e uma linguagem sígnica, ainda que esvaziada de função direta. A imagem não ilustra, mas tensiona; não denuncia de forma literal, mas convoca o espectador a decifrar os códigos de um tempo em que a palavra e a imagem estavam sob vigilância. 25
Astronautas (1969), de Claudio Tozzi, é uma das mais emblemáticas da arte brasileira no período da ditadura militar, não apenas por sua força visual, mas pela densidade crítica que carrega sob uma aparência despretensiosa. Inspirado pela corrida espacial que dominava o imaginário global naquele momento, especialmente com a chegada do homem à Lua, Tozzi se apropria da figura do astronauta como símbolo ambíguo: ao mesmo tempo em que representa o ápice do progresso tecnológico e da conquista científica, ele também encarna o isolamento, 26
Claudio Tozzi, Astronautas, 1969 . Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella
a alienação e a desumanização do sujeito moderno. Em suas telas, o astronauta aparece repetido, flutuante, muitas vezes com o capacete refletindo o vazio, uma presença espectral que parece desconectada do mundo ao redor. A estética da obra é marcada por cores vibrantes, grafismos inspirados na linguagem dos quadrinhos e da propaganda, e uma composição que remete à serialidade da cultura de massa. Mas, ao contrário da celebração do consumo que caracteriza parte da pop art internacional, Tozzi tensiona esses códigos para produzir uma crítica 27
sutil ao autoritarismo e à lógica espetacular da modernização brasileira. O astronauta, figura de conquista no imaginário ocidental, torna-se aqui um corpo suspenso, sem chão, símbolo de um país que assiste ao avanço tecnológico global nas margens do desenvolvimento, sob repressão e intensa desigualdade; curiosamente, aliás, até os dias de hoje. Talvez seja nesse herói espacial que a distância entre as promessas do progresso e a realidade política do Brasil se torne ainda mais discrepante. Dissonância essa que a obra Seja marginal, seja herói (1968), de Hélio Oiticica, eleva como um dos marcos mais contundentes da arte brasileira do período. Originalmente concebida como uma “bandeira-poema”, a obra traz a imagem do corpo morto de Alcir Figueira da Silva, jovem negro que havia cometido um assalto e, ao ser perseguido e alcançado pela polícia, suicidou-se. A força do trabalho reside justamente na inversão simbólica que propõe: ao subverter os valores da ordem dominante, transformando o excluído, o perseguido, o corpo fora da norma, em figura de resistência e potência, o artista impõe o enfrentamento como subversão da condição imposta por uma sociedade excludente. 28
Hélio Oiticica, Seja Marginal Seja Herói. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Renato Parada.
Geraldo Barros, Marlboro1976. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Edouard Frainpont.
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Marlboro (1976), de Geraldo de Barros, é também exemplo contundente da inflexão crítica que a arte do período imprimiu à visualidade da cultura de massa no Brasil dos anos 1970. Realizada em óleo e colagem sobre compensado, com dimensões monumentais, a peça se apropria do logotipo da famosa marca de cigarros estadunidense para construir uma imagem que, à primeira vista, remete à publicidade, ainda que se revele como comentário incisivo sobre os mecanismos de fetichização e poder simbólico operados pelo capitalismo global. Ao incorporar fragmentos publicitários e elementos gráficos da sociedade de consumo, Geraldo de Barros propõe a desestabilização da norma. A “virilidade” de Marlboro, somada à ideia de liberdade e conquista é esvaziada de sua função persuasiva para se transformar em ruído. A operação formal, marcada por sobreposições, cortes e reconfigurações, desmonta a lógica da comunicação direta e instaura uma visualidade de fricção, onde o excesso de sentido se converte em opacidade.
Claudio Tozzi, Guevara. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
Ao reunir um conjunto tão expressivo e diverso de obras, Pop Brasil evita o risco da reencenação nostálgica ou da cristalização histórica. Em vez disso, propõe um território de fricções onde diferentes registros, formais, políticos e subjetivos, entrecruzamse sem hierarquia ou pacificação. Cada obra não ocupa apenas um lugar no percurso expositivo, pois que se realiza no conjunto, fazendo dele um campo de significação. Nesse gesto curatorial, a recusa da linearidade e o acolhimento do conflito permite que se evidenciem os dilemas que ainda atravessam mazelas brasileiras, reativando as tensões que continuam a operar sob novas linguagens e contextos na cultura brasileira. E é por isso que Pop Brasil não se limita a um exercício historiográfico; trata-se de uma intervenção cultural que toca diretamente os impasses do presente. As questões que essas obras ativam, entre pertencimento e exclusão, espetáculo e crítica, identidade e dissenso, permanecem ainda em suspensão. Em um país que insiste em atualizar assombrações sob outros signos, essas obras ressurgem, transformadas, porque presentes. Leia a matéria completa em dasartes.com.br 34
Claudio Tozzi, Anunciação de foguete na lua,1969. Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus.
Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo, aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto a Biblioteca Mário de Andrade, Biblioteca Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador.
POP BRASIL: VANGUARDA E NOVA FIGURAÇÃO, 1960-1970 • PINACOTECA DE SÃO PAULO • PINA CONTEMPORÂNEA • 31/5 A 5/10/2025
Garimpo
Felippe Moraes
Solaris Discotecum, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
DE UMA PISTA DE DANÇA CÓSMICA AO TRIBUTO AO SAMBA, FELIPPE MORAES NOS FAZ REFLETIR, DANÇAR E ESCUTAR O UNIVERSO EM NOVAS FREQUÊNCIAS. O ARTISTA CONVIDA O PÚBLICO A MERGULHAR EM UMA EXPERIÊNCIA SENSORIAL QUE CRUZA ESPIRITUALIDADE, FÍSICA, MÚSICA E ARTE CONTEMPORÂNEA. INSTALAÇÕES INTERATIVAS, LUZES DE NÉON E FOTOGRAFIAS DE ONDAS SONORAS EXPLORAM O SOM COMO LINGUAGEM UNIVERSAL E POÉTICA
POR MARC POTTIER
CANTA FORTE, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
Quero viver no carnaval, 2021. © Felippe Moraes.
“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a essas canções como dados culturais compartilhados por nós. É uma maneira de evocar sentimentos profundos com frases curtas, uma latência para cantarmos mentalmente e despertarmos as narrativas transformadoras dessas canções.” Felippe Moraes, 2021 Felippe Moraes é um polímata: artista, pesquisador, curador, cenógrafo, autor... Ele também pertence a essa família carioca apaixonada por um Rio de Janeiro de mil sons. Um estandarte em seu ateliê em São Paulo, exposto em sua janela e claramente legível da rua, é um letreiro vermelho de neon que diz “Quero viver no Carnaval”, em uma série que ele chama de Samba exaltação, inventada durante a pandemia. É o espírito de um artista muito focado no público, que ele quer ver participar e gosta de imergir em suas obras. Não é surpresa, portanto, que ele retorne a Solfejo, na Caixa Cultural de Curitiba, a quarta versão de uma exposição que ele criou pela primeira vez em 2019, na FIESP. 41
CANTA FORTE - Samba da Luz, 2021. © Felippe Moraes.
Em termos filosóficos, a teoria musical, que vem da palavra italiana Solfeggio, Solfejo é um derivado do nome de duas notas musicais, Sol e Fá. Foi inventada por um monge beneditino italiano do século 11, Guido d’Arezzo. Pode ser vista como um sistema simbólico que estrutura e organiza a percepção e a compreensão do mundo sonoro. Representa uma linguagem universal para a música, permitindo a leitura, a escrita e a interpretação de partituras. Além de sua função técnica, a teoria musical pode ser vista como um
CANTA ALTO - Samba da Luz, 2021. © Felippe Moraes.
método para desenvolver a “consciência sonora” e uma apreciação mais profunda da música. É essa experiência da consciência sonora que Felippe propõe na sua exposição. Essa nova exposição polifônica parece se pensar e se organizar com uma ordem muito precisa e determinada. Trata-se de uma introdução para fazer entrar o público em um mundo complexo, por vezes interativo, no qual o pensar será muito solicitado, e onde o público estará sujeito a devaneios profundos. 43
NÃO DEIXE O SAMBA MORRER, 2021. Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
Nessa exposição, todas as obras respondem umas às outras em um contexto de arte total, de relação com o corpo, de aleatoriedade, de referências diversas dialogando físicamente e mentalmente. O artista nos convida a cantar junto com as imagens, com seus gestos e pensamentos. Letreiros de neon, fotografias de desenhos sonoros (cada uma com título da sua frequência de 97 até 1228 hertz), instalações... Felippe interpela seu público sem parar com suas exclamações textuais, “Atenção para o refrão” logo na entrada da exposição, “Não deixa o Samba morrer”, “Canta Forte/ Alto” (esse último, tinha, entre 2021 e 2024, uma versão na fachada da biblioteca Mario de Andrade, de São Paulo. cantando a música do Martinho da Vila) ... Esse tipo de textosluz, meio imprescindível da arte contemporânea, criado pelo químico francês Georges Claude (1870-1960), que transformou a imagem de 46
Divino Maravilhoso, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
nossas cidades, imiscuiu-se na arte, para enriquecê-la e questioná-la. Os artistas jogaram com as especificidades desse meio para abrir o campo do visual, para criar emoções e provocar a reflexão dos espectadores. Os artistas escolheram a figuração ou a linguagem, um pouco como na história humana da cultura: das cavernas de Lascaux aos hieróglifos. Felippe, por sua vez, utiliza suas neons-mensagens para dialogar com seu público no 48
Vista da exposição Solfejo, Caixa Cultural Curitiba, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
caminho de cada pedaço da sua exposição, como um eco que o convida a avançar para descobrir mais de suas propostas e entender, com essa série, como o samba – um gênero musical brasileiro que se originou entre as comunidades afro-brasileiras urbanas do Rio de Janeiro no início do século 20 – é um modo de viver. Também, Felippe escolheu neons para criar as constelações de Solaris Discotecum (2023). 49
A obra é um modelo imersivo do universo, com um grandioso globo espelhado ao centro, girando lentamente em meio às 12 constelações do zodíaco. Uma maneira para o artista nos lembrar de como somos pequenos em relação ao universo. Mas, além de tudo, Felippe quer convidar sutilmente, na dança de sua exposição, o pensamento do famoso astrônomo alemão Johannes Kepler (15711630) e sua hipótese heliocêntrica. Ele afirmou que a Terra gira em torno do Sol, sobretudo para mostrar que os planetas não giram em torno do Sol seguindo trajetórias circulares perfeitas, mas trajetórias elípticas. Em sua exposição, Felippe utiliza o pensamento da elipse, ou seja, a complexidade de suas proposições artísticas força o público a responder nas omissões (impossível colocar textos nas paredes para explicar toda a complexidade do pensamento do artista) para chegar ao essencial e ao choque estético da sua obra. Sobretudo, o artista quer então deixar o observador adivinhar as complexidades dos universos que ele descreve em seu Solfejo. 50
Solaris Discotecum, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes.
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Agoniza mas não morre, MAC Nitéroi. © Felippe Moraes.
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“ Anunciar o dia, amenizar a noite, 2021. © Felippe Moraes.
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Essa obra dialoga com o filme Harmonices mundi (2017), outra referência a Kepler e seu livro epônimo. Nessa obra, publicada em 1619, o astrônomo expressa, em termos musicais, suas convicções a respeito das conexões entre o físico e o espiritual. Para ele, o universo é uma imagem de Deus; a harmonia da música reflete a do universo e de seu criador. Toda a exposição Solfejo, de Felippe Moraes, é platônica. A música permeia toda a obra de Platão. Ela está em toda parte e contribui para a construção do projeto de uma nova cidade. A República desempenha esse papel em particular: a história de Atenas perpassa constantemente os diálogos, nos quais o projeto de uma cidade perfeita é apresentado em resposta à turbulência política. A cidade ideal é a personificação da harmonia, como aquela encontrada na natureza. Platão acredita que a música tem influência sobre a alma. Mas essa influência é estritamente dicotômica: boa ou má. Seu grande poder sobre a alma humana advém da conexão que os estudiosos gregos estabeleceram entre música e astronomia. Com base na teoria dos números de Pitágoras, a música era 55
governada pela matemática, assim como as esferas celestes. É disso que Felippe fala em sua exposição. Assim, as mesmas proporções aritméticas são encontradas na música e na natureza, conferindo à música certo poder sobre a alma, a ponto de os movimentos das estrelas serem considerados perfeitos. Para Felippe, assim como para Platão, a música deve, necessariamente, estar associada à fala (lógos), e, nesse caso, à fala poética. Quando a música serve à fala poética, ela desperta interesse. Ela então se aproxima do lógos, que é a arma da filosofia. Os filósofos iniciam os homens nas Ideias. Canto e encanto: para Felippe, a vida e a morte são muitas próximas. A música pode reencantar o mundo, é um convite a transformar a vida. O artista se interessa no canto que acontece mentalmente e ativa nossas memórias de músicas que nos ligam ao melhor das nossas vidas. Ele oferece o seu Solfejo para nos encorajarmos a reinventar as nossas próprias harmonias. Um convite à sobrevivência!
Marc Pottier é francês, radicado entre o Brasil e a França, é curador internacional de arte contemporânea, especializado em arte em espaços públicos. Hoje é curador da Usina de Arte, um parque de esculturas perto de Recife, pertence ao Núcleo Curatorial do MON (Museu Oscar Niemeyer), em Curitiba, e coordenador internacional do futuro Museu de Arte Contemporânea de Foz do Iguaçu, com o coaching
FELIPPE MORAES: SOLFEJO • CAIXA CULTURAL • CURITIBA • 15/7 A 21/9/2025 56
Uma pausa de mil compassos, 2025. Foto: Rodolfo Viana. © Felippe Moraes. 53
Do mundo
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ROBERT
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RAUSCHENBERG
EXPOSIÇÃO CELEBRA 100 ANOS DA OBRA INOVADORA DE ROBERT RAUSCHENBERG, SEU ESPÍRITO FILANTRÓPICO E SUA CONEXÃO COM A FLÓRIDA EM UMA HOMENAGEM VIBRANTE AO ARTISTA, QUE DESAFIOU OS LIMITES DA ARTE CONTEMPORÂNEA
POR REDAÇÃO
Pág. anteriores: Oracle, 1962–65. Sor Aqua (Venetian), 1973. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
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UM ARTISTA QUE TRANSFORMOU A ARTE DO SÉCULO 20 Considerado um dos artistas mais influentes de seu tempo, o americano Robert Rauschenberg (1925-2008) teve uma trajetória que atravessou seis décadas e foi precursora do movimento da Pop Art. Sua obra desafiou o gestualismo e a expressividade da pintura abstrata, estabelecendo um diálogo visionário entre temas do cotidiano, novas técnicas e uma infinidade de mídias, incluindo fotografia, gravura, colagem e assemblage. Esse corpo de trabalho reformulou e redefiniu o curso da arte na segunda metade do século 20. Rauschenberg foi um dos principais nomes a reagir contra o expressionismo abstrato, movimento dominante no pós-guerra. Seu objetivo não era representar o mundo, mas incorporá-lo diretamente em sua obra.
Balcone Glut (Neapolitan), 1987. The Ancient Incident (Kabal American Zephyr), 1981–2006. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation. 57 63
Bottles, from Studies for Chinese Summerhall, 1983. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
FORMAÇÃO E INFLUÊNCIAS O artista estudou com Josef Albers, no Black Mountain College, uma instituição experimental na Carolina do Norte, entre 1948 e 1952, e frequentou a Art Students League de Nova York, entre 1949 e 1951. Ainda jovem, colaborou com figuras fundamentais da vanguarda americana do pósguerra, como o compositor John Cage, os artistas Cy Twombly e Jasper Johns, e os coreógrafos Merce Cunningham e Trisha Brown. Essa intensa troca de ideias resultou em uma obra profundamente colaborativa, que borrava as fronteiras entre as linguagens artísticas e refletia o desejo de Rauschenberg de integrar o mundo real à arte. 64
OBRAS EM DESTAQUE NA EXPOSIÇÃO A exposição no The Ringling apresenta uma seleção de obras significativas da coleção do museu. Entre os destaques estão duas peças monumentais da série escultórica Glut (1986-1989 / 1991-1994), criadas a partir de sucatas de carros e metais reaproveitados, e obras da série têxtil Hoarfrosts (1974-1976), nas quais o artista explorou impressões sobre tecidos e transparências. Também estão incluídas gravuras como uma litografia da série Glacial Decoy (1979-1980) e fotografias do portfólio Studies for Chinese Summerhall (1983). Essas obras ilustram a abordagem radical de Rauschenberg quanto à mistura de materiais e técnicas, e sua busca por uma arte que estivesse em constante diálogo com a vida cotidiana e o entorno sociopolítico. 66
À esquerda: Stop Side Early Winter Glut, 1987. Abaixo: Sue, ca. 1950. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
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“ UMA VIDA DEDICADA À ARTE NA FLÓRIDA
Robert Rauschenberg foi uma figura central na cena artística do pós-guerra em Nova York, nas décadas de 1950 e 1960, antes de se mudar para a ilha de Captiva, na Flórida, no final dos anos 1970, onde viveu e trabalhou por quase quatro décadas. Ele descrevia a ilha como “a base da minha vida e do meu trabalho; é a fonte e a reserva das minhas energias.” Foi ali que Rauschenberg produziu algumas de suas obras mais importantes, 68
Eco-Echo III, 1992-93. © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
combinando objetos encontrados no cotidiano com imagens da cultura pop. O artista deixou um legado duradouro na Flórida – manteve uma conexão contínua com a Bob Rauschenberg Gallery no Florida Southwestern State College, em Fort Myers, que, desde os anos 1980, organizou diversas exposições de sua obra. Em 2004, a galeria foi rebatizada com seu nome em homenagem ao artista.
Acima: Coin (Jammer), 1976. À direita: Untitled, 2001. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation. 70
Em 2012, a Fundação Robert Rauschenberg lançou um programa internacional de residências artísticas na antiga propriedade de Rauschenberg na ilha de Captiva, no condado de Lee. A propriedade de 20 acres incluía um amplo estúdio e uma gráfica construídos em 1992, além da icônica Fish House, que se tornou um refúgio para o artista – e hoje está aberta a artistas renomados de todo o mundo. A artista interdisciplinar radicada em Los Angeles, Cauleen Smith, gravou sua obra Egungun: ancestor can’t find me (2017), durante uma residência nesse espaço. O vídeo está atualmente em exibição na mostra coletiva EMBODIED, com obras da coleção do The Ringling, em galerias adjacentes. O trabalho de Smith oferece um vislumbre da paisagem natural e das construções modernas onde Rauschenberg criou até sua morte, em 2008. 71
Preview, from the Hoarfrost Editions, 1974. Fotos: © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
A convicção de Rauschenberg de que a arte pode nutrir a sensibilidade das pessoas como indivíduos, membros da comunidade e cidadãos continua a ecoar. Suas experimentações e atitudes abriram caminho para uma geração de artistas que compreendem a prática artística como um campo atravessado por questões sociais, políticas e humanas. Mais do que celebrar o passado, o centenário de Rauschenberg reafirma a vitalidade de seu pensamento e a urgência de uma arte em constante movimento, aberta à experiência do mundo e ao outro.
Ola Wlusek é curador de Arte Moderna e Contemporânea no museu The Ringling desde 2018 e mestre em Teoria da Arte Contemporânea pela Goldsmiths, Universidade de Londres.
ROBERT RAUSCHENBERG: UMA CELEBRAÇÃO DO CENTENÁRIO • MUSEU DE ARTE JOHN E MABLE RINGLING (THE RINGLING) • SARASOTA, FLÓRIDA • EUA • DE 1/3 A 3/8/2025 74
Black Market, 1961. © 2025 Robert Rauschenberg Foundation.
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Reflexo Reflexo
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Drusa Druídica II. Foto: Leandro Andrade. © Denise Milan.
COM OBRAS QUE MISTURAM RIGOR ARQUITETÔNICO, CRÍTICA HISTÓRICA E IMAGENS DE FORTE IMPACTO SIMBÓLICO, ANDRÉ GRIFFO CONSTRUIU UMA TRAJETÓRIA SINGULAR NAS ARTES VISUAIS. FORMADO EM ARQUITETURA, ELE TRANSITA ENTRE PINTURA, INSTALAÇÃO E COLAGENS, ABORDANDO TEMAS COMO PODER, RELIGIÃO E VIOLÊNCIA. AGORA, CELEBRA SUA PRIMEIRA INDIVIDUAL EM UMA INSTITUIÇÃO NO RIO DE JANEIRO, NO PAÇO IMPERIAL, REUNINDO MAIS DE 50 TRABALHOS QUE ATRAVESSAM DIFERENTES FASES DE SUA CARREIRA. CONVIDAMOS O ARTISTA PARA COMENTAR O PROCESSO CRIATIVO DE CINCO OBRAS MARCANTES DE SUA TRAJETÓRIA
POR ANDRÉ GRIFFO
Instruções para administração das fazendas II. Foto: Rafael Adorjan. © André Griffo.
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, instituição filantrópica católica voltada ao atendimento hospitalar, fundada em meados do século 16. Desde sua origem, a Santa Casa teve como propósito central oferecer amparo aos mais necessitados. Desde o século 17, a administração é feita por uma irmandade que presta serviço voluntário e sem remuneração; esta elege um líder, denominado Provedor. O ingresso à irmandade significa o reconhecimento social e de posses e o cargo de Provedor é historicamente ocupado por políticos influentes ou membros da alta sociedade. A referência desse trabalho é a Galeria dos Provedores da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, local onde estão os retratos pictóricos dos Provedores da instituição do início do século 19 até os dias atuais. O espaço foi integralmente reproduzido na pintura e as informações adicionadas são relacionadas ao histórico dos Provedores retratados. Entre alguns benfeitores, figuram acusados de enriquecimento ilícito, escravagistas, latifundiários, favorecidos políticos e afastados por desvios de verbas da instituição.
Sala dos provedores, 2018. Foto: Leonardo Martins. © André Griffo.
Em síntese, trata-se de um grupo pequeno que constitui um sistema filantrópico com regras e políticas próprias e, em decorrência de sua longevidade, é capaz de fornecer parâmetros dos valores éticos e interesses de parte da alta sociedade brasileira. Considero este um dos trabalhos mais importantes da exposição Alto Barroco, no Paço Imperial, pois foi o primeiro trabalho da minha trajetória em que desenvolvi uma pesquisa completa sobre um espaço, fazendo uma narrativa sobre as questões daquele local.”
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Jesus e seu projeto teocrático para os Anos 2000, 3. © André Griffo.
Instrução para administração de fazendas 2, 2020. Foto: Rafael Adorjàn. © André Griffo.
“Depois de ter feito a pesquisa na Santa Casa de Misericórdia para a obra Sala dos Provedores, aprofundei mais o tema com novas pesquisas em instituições. No Museu Afro-Brasileiro de São Paulo, encontrei uma carta com o título Instrução para administração de fazendas, que também dá nome à essa extensa série de trabalhos. O conteúdo da carta abordava formas de tratamento de pessoas escravizadas para gerar maiores lucros. 84
Nos interiores de edificações opulentas do período colonial, represento o funcionamento de uma fazenda de acordo com as normas descritas naquela carta. Ao expor tal conteúdo, questiono o quanto do nosso presente há naquela carta, que, a meu ver, se mostra como um Post scriptum de relações entre classes que encontramos hoje, em uma sociedade cuja escravidão foi determinante à formação de uma base viciosa de desigualdades. Destaco um trecho escrito pela antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz que, na minha primeira publicação monográfica, escreveu sobre este trabalho: ‘O arquivo da escravidão descansa por sobre uma base violenta que estrutura a própria sociedade brasileira. Já a obra de André Griffo, sem ser um manifesto, revela por indícios a agência dos objetos, reapresentados de forma a contar uma história divergente. Uma recombinação narrativa, um arranjo visual que remete ao tempo da escravidão, transformando-o no nosso próprio tempo. Ninguém sai ileso.’ Essa é uma arte, portanto, que se produz junto com o arquivo, mas também contra ele. Uma contra história que se opõe de maneira sensível e até delicada às opacidades e silêncios das fontes visuais eurocêntricas. Eu reconto, assim, uma história do que ‘poderia ter sido’, rompendo com os limites da representação colonial. Afinal, nomear o passado de maneira crítica significa uma forma dileta de rever o presente e visionar o futuro.” 85
Percorrer tempos e ver as mesmas coisas. Foto: Leonardo Martins. © André Griffo.
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“Este é um trabalho de grandes proporções, mede 2.90 x 2.90, e é baseado na arquitetura ornamentada da obra L’incontro di Salomone con la regina di Saba (O Encontro de Salomão com a Rainha de Sabá, ca. 1470– 1473), de Francesco del Cossa, no qual pintei o mesmo Jesus que Giotto pintou na capela Scrovegni. Neste trabalho, discuto, mais uma vez, a questão da religião retratando Jesus sendo influenciado por anjos em ações inesperadas e até violentas. Como muito bem descreveu a curadora Juliana Gontijo: “Segundo a tradição judaico-cristã, os anjos são seres celestiais perfeitos, criados bons por Deus para servi-lo segundo a sua vontade; aqui, porém, aparecem demasiadamente humanos, pondo em questão a perfeição da criação ou a onisciência divina”. 88
O poder e a glória do pecado, 2019. Foto: Flavio Freire. © André Griffo.
Pág. anteriores: Onde anjos bêbados presos por voarem com seus demônios, 2023. Foto: Rafael Salim. © André Griffo.
A supressão do santo pelo ornamento 6, 2025. Foto: Leonardo Martins. © André Griffo.
“Objetos e imagens são fundamentais à concretização e à materialização das ideias que formam um sistema religioso; a eles são agregados significados e direcionados os sentimentos daquilo que representam. No caso do cristianismo, tais símbolos – santos, anjos, a Bíblia, a cruz, entre outros – são comumente apresentados com um amplo repertório de ornamentos. O propósito dessa junção é que o conjunto seja capaz de provocar sentimentos de celebração, adoração, sublime. Embora a principal característica do ornamento seja estética, sua importância no contexto religioso vai além da função decorativa; ele é capaz de apresentar e definir o valor do símbolo que ornamenta e conduzir por si só a narrativa do contexto religioso. A série A Supressão do Santo pelo Ornamento é composta por pinturas e desenhos onde as imagens dos santos de retábulos e oratórios são substituídas por outros ornamentos, de maneira que a composição seja tomada por um conjunto semântico cuja dimensão estética se relaciona diretamente com a memória e os valores da cultura cristã.” 93
Natividade. Foto: Rafael Salim. © André Griffo.
O vendedor de miniaturas 9, 2025. Foto: Leonardo Martins. © André Griffo.
“Neste trabalho, faço referência a estações de metrô presentes em grandes cidades do mundo, cenário onde um vendedor fictício informal expõe e vende seus produtos. Dispostas em lonas no chão, ou em ganchos pendurados nas estruturas dos espaços, estão figuras em miniatura que evocam tanto imagens religiosas como figuras de ação. Ao lado de imagens sagradas, como são Sebastião ou Nossa Senhora Aparecida, estão também figuras como políticos, policiais e pastores evangélicos, elementos que compõem muitos grupos paramilitares denominados "milícias" no Rio de Janeiro. Por meio da representação de um espaço arquitetônico cotidiano em uma cena aparentemente banal, exponho, sob a forma de miniaturas, os agentes contemporâneos, que se estruturam por meio da política e da religião, para exercer o controle e promover a violência.” 96
ANDRÉ GRIFFO: ALTO BARROCO • PAÇO IMPERIAL • RIO DE JANEIRO • 14/6 A 10/8/2025
Capa Reflexo
Tamara de Lempicka La Belle Rafaëla, 1927. Collection of Tim Rice. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Banque d'Images, ADAGP/ Art Resource, NY Image provided courtesy of the Fine Arts Museums of San Francisco.
ENTRE O LUXO DA PARIS DOS ANOS 1920 E O BRILHO DE HOLLYWOOD, TAMARA DE LEMPICKA CONSTRUIU UMA CARREIRA MARCADA POR ELEGÂNCIA, EROTISMO E INDEPENDÊNCIA. MUSA DO ART DÉCO, FOI UMA DAS POUCAS MULHERES A CONQUISTAR FAMA INTERNACIONAL NA PINTURA MODERNA, RETRATANDO A LIBERDADE FEMININA E OS EXCESSOS DA ELITE COM TRAÇOS GEOMÉTRICOS E SENSUAIS. SUA VIDA FOI TÃO INTENSA QUANTO SUA ARTE — ENTRE FESTAS, EXÍLIOS E AMORES, ROMPEU PADRÕES E DEIXOU UM LEGADO À FRENTE DE SEU TEMPO
POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA
Woman with Dove,1929-1930. Private collection, courtesy of Artis— Naples, The Baker Museum. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Photography: RoseBudz Productions. 100
Portrait of Mrs. Rufus Bush, 1929. Private collection, courtesy of Artis— Naples, The Baker Museum © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Photography: RoseBudz Productions.
Reconhecido por suas sucessivas rupturas e pela constante busca pelo novo, o Modernismo não foi capaz de quebrar estruturas patriarcais e ainda falhou em integrar a criatividade feminina em suas narrativas de inovação e transgressão, atribuindo às mulheres as condições de musas ou “artistas amadoras”. Apesar de muitas mulheres terem participado ativamente das vanguardas – como Virginia Woolf, Djuna Barnes, Sonia Delaunay, Hannah Höch e Tamara de Lempicka –, suas contribuições foram, com frequência, vistas como “exceções” e invisibilizadas nas narrativas oficiais da história da arte e da literatura. 102
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Russian Dancer, 1924-1925 Collection of Marek Roefler / Villa la Fleur © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Courtesy of the Collection of Marek Roefler / Villa la Fleur Image provided courtesy of the Fine Arts Museums of San Francisco.
Por muito tempo, esse apagamento tornou o Modernismo um campo de disputa simbólico sobre os papéis de gênero. Pesquisadoras, como Griselda Pollock, propõem uma releitura desse movimento artístico como uma constelação de momentos em que o “feminino” aparece de forma oscilante: as mulheres surgem, ora como musas, ora como criadoras, ora como dissidentes. Assim, as novas abordagens que estão em voga resgatam vozes femininas na tentativa de compreender como o gênero moldou (e foi moldado por) as estéticas modernistas. Nesse embate, muitas artistas mulheres usaram a própria linguagem modernista para questionar os ideais de feminilidade impostos pelas vanguardas e pela sociedade burguesa. Os trabalhos de Tamara de Lempicka (1898-1980), por exemplo, subverteram o olhar masculino ao retratar mulheres com poder, desejo sexual e autonomia – algo radical demais para a época. 105
Portrait of Baron Raoul Kuffner, 1928–1932. Centre Pompidou, Musée national d’art moderne / Centre de création industrielle, Paris, Gift of the artist, 1976. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Digital Image © CNAC/MNAM, Dist. RMNGrand Palais / Art Resource, NY.
Portrait of a Man (Thadeusz Lempicki) or Unfinished Portrait of a Man,1928. Centre Pompidou, Paris. Musée national d'art moderne / Centre de création industrielle. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Digital Image © CNAC/MNAM, Dist. RMN-Grand Palais / Art Resource, NY.
À direita: Die Dame (Berlin), December 1929, 1929. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Archivio Gioia Mori, Rome. Photograph: Mauro Coen. Image provided courtesy of the Fine Arts Museums of San Francisco. 108
E, ainda hoje, sua produção artística fascina. Há um seleto grupo de celebridades seduzidas pelo estilo glamouroso de Lempicka, entre eles, Jack Nicholson, ao lado de nomes como Madonna, Barbra Streisand e a designer de moda Donna Karan. A admiração de Nicholson pela artista é tão marcante que ele chegou a presentear a atriz Anjelica Huston com joias inspiradas em Lempicka, na noite em que ela ganhou o Oscar por A honra do poderoso Prizzi (1985) – um gesto que uniu cinema, artes visuais e paixão. Madonna, a “Rainha do pop”, já declarou em entrevistas que considera a artista uma referência estética. Ela também tem uma importante coleção de suas obras. Somese a isso a permanente presença de Lempicka nos videoclipes e turnês da cantora – ou seja, há, no vocábulo de Madonna, uma clara homenagem visual à artista. O diálogo entre Lempicka e Donna Karan faz todo sentido: ambas são mulheres que romperam padrões em suas áreas. Lempicka, com suas figuras femininas poderosas, e Karan, com sua moda pensada para a mulher urbana e independente. Pelo viés da estética, ocorre uma conversa entre Lempicka e Karan – um verdadeiro encontro entre arte e moda.
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À esquerda: Young Girl in Pink (Kizette in Pink II), ca. 1928-1930. Private collection, courtesy of Artis—Naples, The Baker Museum © 2024. Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Photography: RoseBudz Productions.
Com tudo isso, o interesse pela arte de Lempicka está mais atual do que nunca. E há dois novos motivos: o primeiro é a repercussão de sua retrospectiva nos Estados Unidos. A mostra, com curadoria de Gioia Mori e Furio Rinaldi, teve como ponto inicial o Young Museum, em São Francisco, com itinerância para o Museum of Fine Arts, em Houston – uma exposição que agitou a cena cultural norte-americana apresentando mais de 150 obras, incluindo pinturas e trabalhos em papel, além de explorar detalhes recémdescobertos da vida e do estilo da artista. O prefácio do catálogo da mostra é assinado por ninguém menos do que Barbra Streisand – isso é ou não é opulência? Já o segundo motivo é o leilão da Sotheby's, em Londres, da tela La Belle Rafaëla (1927), um dos nus mais ousados de Tamara de Lempicka. Essa pintura retrata Rafaëla, uma modelo que se tornou amante e musa da artista. Lempicka a conheceu nos anos 1920 e ficou tão encantada por sua beleza que a abordou na rua e a convidou para posar. O resultado foi uma série de retratos sensuais e intensos – e La Belle Rafaëla é considerada a obra-ícone dessa fase, isso porque mostra um nu feminino sedutor sob o olhar de uma mulher, em uma época dominada por narrativas masculinas.
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Studio Lorelle, Tamara de Lempicka sitting, in profile, 1928. Courtesy of the Tamara de Lempicka Estate.
Thérèse Bonney (American, 1894 - 1978). Tamara de Lempicka working on "Portrait of Tadeusz de Lempicki, ca. 1929. © The Regents of the University of California, The Bancroft Library, University of California, Berkeley. Source : Ville de Paris / Bibliothèque historique, NN-006-09335.
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Mas, afinal, quem é essa mulher-artista? Nascida Tamara Rozalia Gurwik-Górska (hoje, descobriram-se documentos que indicam que seu nome verdadeiro era Tamara Rosa Hurwitz – o que lhe daria uma origem judaica), em 1898, na então turbulenta Varsóvia, ela cresceu cercada por riqueza, arte e uma inquietação que jamais a abandonaria. Aos 12 anos, já insatisfeita com o retrato que um artista fez de sua irmã, pintou ela mesma – e nunca mais parou. Seu primeiro marido foi Tadeusz Łempicki, um advogado polonês, elegante e influente. Eles se casaram em 1916, em São Petersburgo, durante os últimos anos do Império Russo. Durante a Revolução Russa, Tadeusz foi preso pelos bolcheviques. Tamara, com apenas 19 anos, usou toda a sua astúcia e influência para conseguir sua libertação. Embora os detalhes exatos não sejam amplamente documentados, sabe-se que ela recorreu a contatos diplomáticos e usou sua determinação para tirá-lo da prisão. Juntos fugiram para Paris, onde ela renasceu como Tamara de Lempicka, a mulher que transformou o art déco e a beleza em armas de sedução e poder. 113
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Wisdom (La Sagesse),1940-1941. Colección Pérez Simón, Mexico. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. © 2019 Christie’s Images Limited.
Na capital francesa, ela estudou com mestres como Maurice Denis e André Lhote, mas logo superou seus professores. Criou um estilo próprio: sensual, geométrico, moderno – um “cubismo suave” que encantou a elite europeia. Pintou aristocratas, socialites e amantes, sempre com a mesma intensidade com que vivia. Sua obra, marcada por linhas precisas, cores vibrantes e uma sensualidade audaciosa, refletindo a sofisticação e a liberdade da era art déco. Aliás, como o estilo art déco, marcado pelas décadas de 1920 e 1930, a produção de Lempicka foi um desfile de elegância geométrica e luxo. Tudo muito calculado, com equilíbrio visual e ornamentos refinados. Seus temas giram em torno das mulheres vigorosas e sua estética é sempre limpa, mas nunca simples – com um toque de exuberância. Sua arte espelha certa dualidade – ao mesmo tempo, luxuosa e transgressora. Enquanto muitos artistas retratavam mulheres como musas passivas, Lempicka as pintava como figuras dominantes, cheias de agência e desejo.
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Sainte Thérèse d’Avila,1930. Museo Soumaya. Fundación Carlos Slim Collection, Mexico City, Inv. 50558. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Courtesy of Museo Soumaya.
Bissexual assumida, frequentava os salões mais ousados de Paris, onde escandalizava e fascinava em igual medida. Ela participava de festas com figuras como o poeta Gabriele D’Annunzio, com quem teve um breve envolvimento, e era próxima de artistas como André Gide e Colette. Também teve contato com o círculo de Gertrude Stein, que reunia nomes como Picasso, Matisse e Hemingway. Além dos dois casamentos, seus amantes mais conhecidos foram Rafaëla, uma jovem prostituta de Paris já mencionada; Suzy Solidor, cantora e figura da boemia francesa, e Marquis Sommi Picenardi, um aristocrata italiano com quem teve um breve e intenso caso amoroso. Seus romances com homens e mulheres, sua beleza estonteante e sua ambição feroz a tornaram uma lenda viva. 118
The Girls, 1930. Private collection, courtesy of Artis—Naples, The Baker Museum. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Photography: RoseBudz Productions.
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Portrait de S.A.I. le Grand Duc Gabriel," ca 1926. Private Collection. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Photograph by Gerard Vuilleumier, courtesy of the Fine Arts Museums of San Francisco.
Lempicka conheceu o barão Raoul Kuffner, um aristocrata austro-húngaro conhecido como “o barão de pincel”, quando este encomendou retratos dele e de sua amante. Após a morte de sua primeira esposa por leucemia e o divórcio de Lempicka e Tadeusz em 1928, eles se casaram em 1933. Com a ascensão do nazismo, fugiram para os Estados Unidos. Lá, Tamara se reinventou mais uma vez – como a “Baronesa com pincel”, consolidando sua imagem como uma artista sofisticada e cosmopolita. Mas a II Guerra Mundial alterou condições econômicas, políticas e socioculturais... o mundo mudou. Lempicka se interessou por pinturas abstratas, naturezas-mortas e o emprego de espátulas em vez de pincéis. Ela também repintou algumas de suas obras mais antigas a partir desses novos interesses, porém, sem sucesso. Seu estilo caiu em esquecimento... ela foi redescoberta nos anos 1970, quando virou ícone cult. Sua 121
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Arums,1935. Centre Pompidou, Paris. Musée national d'art moderne / Centre de création industrielle. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Digital Image © CNAC/MNAM, Dist. RMN-Grand Palais / Art Resource, NY.
morte se deu em 1980, no México. Como último desejo, pediu que suas cinzas fossem espalhadas no vulcão Popocatépetl – um fim tão dramático quanto sua vida. Ela não apenas pintou mulheres poderosas – ela foi uma delas. Hoje, sua obra é sinônimo de empoderamento feminino na arte. O que é confirmado na atual grande retrospectiva, em particular, quando uma análise profunda de sua técnica mostra trabalhos figurativos inspirados nas vanguardas russas, a estética cubista, a apreciação por pintores neoclássicos do século 18, como Ingres. Porém, chama a atenção seu olhar único sobre a figura feminina que se projeta em suas obras – Lempicka retrata a mulher a partir do poder, do erotismo e da independência. As “mulheres de Lempicka” são donas de seus corpos e destinos, um ato revolucionário para aqueles tempos. Sua identidade bissexual influenciou seus trabalhos. A prova está em seus retratos de amantes e aristocratas, como o já citado La Belle Rafaëla (1927) e o
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Young Girl in Green (Young Girl with Gloves), ca. 1931. Kizette at the Balcony, 1927. Saint-Moritz, 1929. Portrait of Ira P., 1930. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY. Digital Image © CNAC/MNAM, Dist. RMN-Grand Palais / Art Resource, NY.
Retrato de Suzy Solidor (1933), trabalhos que revelam uma intimidade que desafiou padrões morais e artísticos. Merecem destaque, ainda, obras tais como: Young Girl in Green (Young Girl with Gloves, c. 1931), um dos retratos mais icônicos de Lempicka, que sintetiza sua estética art déco com elegância e sensualidade; Kizette on the Balcony (1927), um retrato delicado de sua filha, que aparece em várias de suas obras – pintura que mistura ternura com a estilização geométrica típica da artista; Saint-Moritz (1929), uma paisagem rara em sua produção, que mostra sua versatilidade e domínio técnico e, Portrait of Ira P. (1930), um exemplo da sofisticação com que Lempicka retratava a elite europeia e americana. A mostra também apresenta esboços e estudos preparatórios inéditos que revelam o processo criativo por trás de suas composições mais famosas. Outra subversão de gênero está na divisão da exposição em seções que acompanham as transformações de sua identidade: de Tamara Rosa Hurwitz a Baronesa Kuffner, passando por Monsieur Lempitzky – um apelido, que, nos primeiros anos de sua trajetória, usou para subverter expectativas de
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The Communicant,” 1929. Centre Pompidou, Paris. Musée national d'art moderne / Centre de création industrielle. © 2024 Tamara de Lempicka Estate, LLC / ADAGP, Paris / ARS, NY Digital Image © CNAC/MNAM, Dist. RMN-Grand Palais / Art Resource, NY.
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gênero. Foi somente em 1925 que ela assinou uma obra com o nome feminino “Lempitzka” pela primeira vez. Alguns pesquisadores pensam que essa atitude não era propriamente um esforço de Lempicka para ocultar seu gênero ou identidade, mas, mais ainda, revela como ela se sentia confortável na fluidez dos gêneros. Em síntese, Tamara de Lempicka não foi apenas uma mestra do art déco; foi uma mulher que pintou seu próprio caminho com elegância e rebeldia. O interesse por sua obra confirma que, décadas depois, sua arte traz temas atuais – não apenas por sua coragem em desafiar o mundo que a cercava. Mas porque, de fato, ela usou a beleza como “arma” para esse desafio.
Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e pós-doutora na mesma área pela Unesp. Mestre pela ECA-USP e bacharel e licenciada em História pela FFLCH-USP, atua como crítica de arte e curadora independente. Atualmente, é professora na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e no CELACC (ECA-USP) e pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes. É membro da Associação Internacional de Crítica de Arte (AICA) e colabora com diversas publicações, como o Jornal da USP e a Revista Dasartes. Além disso, é editora de Arte/História na Revista Arte & Crítica e autora dos livros Schenberg: crítica e criação (Edusp, 2011) e Memória da resistência (MCSP, 2022).
TAMARA DE LEMPICKA • THE MUSEUM OF FINE ARTS • HOUSTON • EUA • 9/3 A 6/7/2025
Fotos: Denise Andrade.
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Coluna do meio
Leonardo Peliz, Marisa Quagliato Guimarães e Natália Forti
Renata Egreja Fonte São Paulo
Marcelo Amorim, Renata Egreja e Marina Bortoluzzi
Fotos: Leda Abuhab
Carla Chaim
Marcio Gobbi, Milena Merces, Adriana Balbino, William Leite
Larissa Gallep
Viva São João Marcio Gobbi Escritório de Arte São Paulo
Marcio Gobbi e James Lisboa
Marcos Osaki e Marcio Gobbi
Fotos: Mari Morgado
Ricardo Von Brusky e Dina Steagall
Amanda Coimbra e Natália Quinderé
Adriana Leirner, Carol Olinto, Amanda Coimbra, Nanado Simões
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Amanda Coimbra Paço Imperial Rio de Janeiro
Fernanda Lopes e Patrizia D'Angello
César Oiticica Filho
Lançada em 2008, a Dasartes é a primeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente para tablets e celulares no site www.dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.
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