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TONY CAMARGO PAULO PASTA SP-ARTE COLETIVO DOMA RODOLPHO PARIGI


DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin REDAÇÃO André Fabro PUBLICIDADE publicidade@dasartes.com

Capa: Tony Camargo, Série Planopinturas Iconográficas, Telhado, 2004.

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Rodolpho Parigi, The song of Love, 2018.

Contracapa: Tony Camargo, P74, 2016. (Detalhe).


RODOLPHO PARIGI

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PAULO PASTA

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06 De arte a z 12

Agenda

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Livros

70

Notas de mercado

COLETIVO DOMA

SP-ARTE

74 Alto Falante

TONY CAMARGO

RESENHAS

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54

36

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DE ARTE A Z Notas do circuito de arte

BANHEIRO DE MAURIZIO CATTELAN PODE SER A OBRA DE ARTE MAIS VISITADA DE NOVA YORK “America” é a escultura interativa mais popular do mundo. O museu Guggenheim de Nova York estima que cerca de três mil pessoas por dia viram (ou usaram), em 2017, o sanitário de ouro de Maurizio Cattelan, localizada em um de seus banheiros. No entanto, a verdadeira popularidade da escultura é, de certo modo, desafiadora de se medir. O Guggenheim gerou sua estimativa com base em sua média de frequência diária e a participação anual total é de cerca de 929 mil visitantes.

BIENAL DE MONTREAL EM FALÊNCIA

GRAVAÇÃO POLÊMICA DE FRANCIS BACON

São muitos credores

“É uma coisa tão rídicula”

Mais de 200 itens

Depois de uma nova parceria com o Museu de Arte Contemporânea de Montreal (MAC) em 2013, a Bienal de Montreal parecia pronta para incendiar o mundo das artes. Mas, infelizmente, em meio a crescentes dívidas, o ambicioso evento entrou oficialmente em falência. O evento carrega uma dívida total de aproximadamente US$ 179 mil de acordo com documentos judiciais.

Gravações do artista Francis Bacon se queixando do sucesso de Jasper Johns e Andy Warhol são reveladas. Em conversas com um amigo, o artista britânico chama o trabalho de seus rivais de “ridículo” e “muito ruim”. Em uma delas, Bacon falou de seu espanto pela pintura abstrata “rídicula” de 1959 de John, uma tela vermelha, amarela e azul intitulada “False Start”, vendida em 1988, por US$ 17,05 milhões.

Um museu na Malásia chamado Rabbit Town atrai visitantes com a promessa de experiências dignas para o Instagram. O problema é que suas maiores atrações são imitações do “Quarto do infinito”, de Yayoi Kusama, e “Luz Urbana”, de Chris Burden, entre outros. O Rabbit Town não parece ter um site e desativou comentários em sua conta do Instagram, que tem 18 mil seguidores.

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NOVO MUSEU COPIA FAMOSAS INSTALAÇÕES


NOVOS ESPAÇOS

CALAFIA ART STORE Galeria conceito em Porto Alegre

A Calafia Art Store abriu suas portas para o lançamento da segunda edição do projeto “Curadoria Afetiva”. O projeto convida pessoas sem formação em crítica de arte para assinar a curadoria das obras dos artistas da galeria. Criado em 2016, desta vez o projeto contou com a seleção da estilista Vitória Cuervo. Entre os artistas selecionados por Vitória para fazer parte da mostra estão Carla Barth, Carlos Dias, Tridente, Ania Valle, Heloisa Medeiros, Chana de Moura, Mariana Castello, Paula Plim, Rochele Zandavalli, Nina Moraes, Taila Idzi e Uchôa, que apresentam originais em técnicas como gravura, pintura e desenho. Mais informações em www.calafia.com.br.

SIM/Simões de Assis Tradicional na cidade de Curitiba, o duo de galerias de Waldir Simões de Assis e seus filhos, inauguram novas sedes em conjunto na capital paulista. Para celebrar a abertura no dia 7 de abril, as galerias apresentam as individuais dos artistas Carmelo Arden Quin (Simões de Assis Galeria) e Julia Kater (SIM Galeria). RUA SARANDI, 113, JARDIM PAULISTA SÃO PAULO-SP

Deu o que falar... “Essa performance tem uma metáfora muito clara para a arte neoconceitual. É uma metáfora para a sociedade consumidora e que se consome.” Arthur Berzinsh, artista da Letônia, após transmissão de sua performance “Canibal”, durante a qual dois artistas tiveram sua própria carne cortada, frita e repassada para eles comerem.

Emmathomas Galeria Sob a nova gestão do artista, colecionador e empresário Marcos Amaro e direção artística do curador Ricardo Resende, a galeria volta ao mercado de arte com uma proposta mais ousada e inovadora, rompendo amarras e apresentando ao público um corpo de artistas diverso. A inauguração está marcada para 10 de abril com a mostra coletiva “Desver a Arte”. ALAMEDA FRANCA, 1054 JARDIM PAULISTA SÃO PAULO-SP


NOVOS ESPAÇOS

55SP A 55SP inaugura, no dia 3 de abril, seu espaço expositivo em São Paulo, no bairro de Santa Cecília. Para a abertura, a exposição coletiva “Edições Jacaranda” apresenta fotogravuras e duas obras tridimensionais assinadas por 25 artistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Pará e Pernambuco. RUA BARÃO DE TATUÍ, 377 SANTA CECÍLIA SÃO PAULO-SP

É DE WILLEM DE KOONING A OBRA MAIS CARA DA ART BASEL, EM HONG KONG Menos de duas horas depois da pré-estreia VIP da Art Basel em Hong Kong, a galeria Lévy Gorvy anunciou a venda de sua principal obra de arte no estande – uma pintura abstrata de Willem de Kooning, de 1975, com um preço inicial de US$ 35 milhões. A pintura pertencia ao cofundador da Microsoft e colecionador bilionário Paul Allen, que pediu a Lévy Gorvy para vendê-la e decidiu pela feira na Ásia.

Ricardo Von Brusky Reunir em um único local uma galeria de arte, uma casa de leilões e um espaço para a promoção de cursos e palestras dos mais variados temas, onde a cultura é sempre protagonista. Esse é o mote do Espaço de Arte Ricardo Von Brusky, iniciativa do empresário e colecionador que dá nome ao empreendimento. RUA ESTADOS UNIDOS, 336 JARDIM AMÉRICA SÃO PAULO-SP 10 DE ARTE A Z

VISTO POR AÍ

O estúdio de Alberto Giacometti está de volta a Montparnasse, em Paris, mais de meio século depois da morte do artista suíço. A Giacometti Fondation está recriando meticulosamente o espaço que ele deixou em 1966 como a atração principal do novo Instituto Giacometti, que será inaugurado em junho.


JULIA KATER Para a abertura de sua filial, em São Paulo, a SIM Galeria apresenta a individual de Julia Kater, com curadoria de Raphael Fonseca, que diz: “As fotografias de Julia nascem da contemplação de algo maior que a escala humana: da natureza e de sua imensidão e, ao mesmo tempo, do vazio proporcionado pela passagem do tempo. A maneira como a artista apresenta essas obras, porém, não a coloca na esteira da fotografia clássica; seu interesse está na sobreposição de camadas de imagem. A fotografia, mesmo que emoldurada, traz um volume e uma tridimensionalidade que 12 AGENDA

transformam a imagem habitualmente vista como um espelho do real em uma massa de informações. O resultado não se trata de algo visceral; os recortes distribuídos, mesmo que irregulares, parecem pensados de maneira cirúrgica. Desenha-se com a fotografia sobre a fotografia, e são sugeridas novas narrativas distribuídas nas imagens de uma mesma série.”

Julia Kater - Zonas de Gatilho • SIM Galeria • São Paulo • 7/4 a 19/5


CRISTINA ATAÍDE A individual de Cristina Ataíde apresenta a continuação do trabalho artístico que tem realizado desde 2011, durante as suas viagens regulares a diversas regiões do Brasil. Essas viagens são feitas no intuito de descobrir, perceber e se relacionar com a paisagem brasileira, tanto natural como humana. Assim, para além de outros lugares, caminhou pela Serra do Mar, correu nas praias de Santos e interagiu com as suas Comunidades, interligou-se com as gentes de Caruaru, Curitiba ou Rio e percorreu metodicamente São Paulo

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desde os centros mais cosmopolitas aos bairros mais periféricos. Os desenhos de grandes dimensões ou as esculturas de escala reduzida, mostram esses trilhos corporais e afetivos, resultantes das experiências intensas e marcantes, dessas realidades que quer compreender.

Cristina Ataíde - Através da Paisagem • Galeria Andrea Rehder Arte Contemporânea • São Paulo • 7/4 a 18/5


Rodolpho Parigi, La Dense, 2018.


Kusama-wig, 2018.


RODOLPHO PARIGI

POR PHILIPE F. AUGUSTO

“Sem título’ é o nome da primeira individual de Rodolpho Parigi na Casa Triângulo, onde 15 trabalhos inéditos são apresentados na galeria que possui um espaço digno de pintores muralistas, potencialidade que o artista não deixa de explorar ao apresentar pinturas, desenhos e gravuras mais radicais, em escalas agigantadas e com referências em torno do surrealismo, do corpo, do design, da fauna, flora e até mesmo da energia das boates. Essas referências múltiplas que Parigi integra ao compor os trabalhos se espelham na variedade de materiais usados nas obras: grafite, nanquim, caneta, acrílica, tinta a óleo e aquarela. Às vezes, tudo na mesma superfície, ainda que alguns deles só permaneçam como vestígios de um processo que ele percebe como particularidade da sintonia da pintura, transpondo camadas e camadas de investigação, em uma espécie de "tira e põe" sem preocupação com erros ou acertos, onde o próprio artista é parte do processo de transmutação, entre a realidade e a ficção que as formas sugerem e desdobram na superfície das telas. Suas obras monumentais compartilham nas telas menores, uma realidade interligada através da característica das formas que se vê aqui ou ali. Tudo faz parte de um mesmo universo composto ao longo


Gal, 2018.


Y.M.V, 2018.

dos anos na sua própria mente, em uma espécie de coerência sem obviedade, sem preocupação de produzir narrativas claras, a não serem aquelas que as próprias formas engendram, quase como uma vontade particular, para além de alguma intenção pré-elaborada pelo artista, algo que estende a pesquisa da própria pintura, sem procurar representar puramente corpos ou objetos, caminho contrário dos naturalistas.

…sem procurar representar puramente corpos ou objetos, caminho contrário dos naturalistas.


Blue Violet Volumen e Sorbet de Chignon, 2018.

Talvez a característica mais notável da virtualidade que Parigi produz sobre suas telas seja a luz que incide nos objetos, a prova mais clara que essas formas não são mera mimésis do real, mas pura invenção, que fez o trabalho do artista nos últimos anos consistir de uma espécie de bestiário imaginário, que abrangeria mais que criaturas exóticas: espécies variadas de influências imagéticas que guarda dos interesses cotidianos, e que provocam um limiar de criação que só é possível ali, entre o seu próprio corpo e a tela. No ato da pintura por ela mesma, Parigi encontra a potência necessária provocada pela intensidade própria dos acontecimentos engendrados pelo gesto. Em seu tempo interior, elabora 24 RODOLPHO PARIGI

sua singularidade, percebendo o que essas formas sugerem, como algo que quer surgir junto ao artista, presente em uma condição de retroalimentação.

Rodolpho Parigi: Sem título • Casa Triângulo • São Paulo • 10/4 a 10/5

Philipe F. Augusto é curador independente, pesquisador e produtor. Formado em Artes Visuais - Escultura pela UFRJ, é diretor da Assemblage produtora e coordena o programa anual de exposição Novas Poéticas.


Paulo Pasta, Quase nunca, 2010.


Paulo Pasta Condensar o horizonte que escapa ou Horizontes retrocedentes de silĂŞncio?

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POR PAULO MIYADA

“… o artista que cria o silêncio ou o vazio deve produzir algo dialético: um vácuo pleno, um vazio enriquecedor, um silêncio ressoante ou eloquente.” Susan Sontag, 1966.

A pintura de Paulo Pasta é um aparato que faz aparecer e deixa desaparecer algo que não tem nome. Alguma coisa que, assim como o silêncio, o presente e o horizonte, retrocede quando caminhamos em sua direção. Trata-se de um fenômeno familiar, que simultaneamente se intensifica e se dilui conforme nos detemos para observá-lo. O artista sabe que, para estar junto com o que nos escapa, é preciso exercitar outras modalidades de atenção e presença. Não é o relógio que contém o presente, tampouco é a fita métrica que localiza o horizonte – e, para ouvir o silêncio, é

À esquerda: O dia, 2012.


Acima: Anunciação amarela, 2015. À direita: Noturno da Consolação, 2011.

necessário praticar a espera e a escuta. Hoje, estão pela primeira vez reunidas como conjunto no Instituto Tomie Ohtake, pinturas de grande formato feitas por Paulo Pasta nos últimos 13 anos, este grupo de trabalho constitui justamente tal esforço de condensação e ampliação da atenção. Existem certos parâmetros comuns a essas obras. As dimensões quase arquitetônicas adentraram na obra do artista, gradualmente, conforme sua

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pintura alcançou a escala proporcional ao corpo humano e, em seguida, por volta de 1989, superou até dimensões próximas à escala arquitetônica. Nessas pinturas, de grande potencial imersivo, seus campos são seccionados em segmentos amplos e de contorno regular; as linhas definidas entre os blocos de cor ortogonais se assemelham a esquemas de cruzes, pórticos, pilares, telhados e vigas; a


As pinturas podem produzir intrincadas experiências visuais.

variação cromática combina entre três a seis matizes por tela, todos com valores tonais similares. Em tempo, cores de tonalidade próximas são aquelas que coincidiriam se fossem convertidas para uma escala de cinzas; quando dispostas em áreas de grandes dimensões, com a concisão cromática peculiar à pintura de Paulo Pasta, elas podem produzir intrincadas experiências visuais. Os contrastes entre as cores, por exemplo, aparecem


Sem título, 2014.

de forma concentrada, por vezes muito sutil, apenas na iminência de se pronunciar. Noutras vezes, são mais explícitos, mas carregam uma inquietante parcela de contraste ótico. Há diversos casos em que esses fugazes contrastes se combinam em composições polarizadas entre dois matizes dominantes (certo vermelho e certo azul, um amarelo e um lilás, etc.) e esses polos se colocam em aparente tensão dinâmica e, nessa ocasião, tornam-se mais visíveis pelo modo como as obras aparecem dispostas, em diálogos frontais e de comparação entre elas. Essas e outras percepções aparecem conforme se estende primeiro a atenção do pintor ao elaborar cada tela, e, em seguida, a presença do espectador ao fazer o olhar percorrê-la. Nessas durações,

32 DESTAQUE


Hå diversos casos em que esses fugazes contrastes se combinam em composiçþes polarizadas entre dois matizes dominantes.


34 PAULO PASTA


Duas cruzes, 2006.

há oportunidade para que murmúrios luminosos apareçam e, logo, retrocedam. O artista condensa sua experiência, mas não pode garanti-la. É preciso que cada espectador dê tempo ao olhar. Busque o horizonte retrocedente, apalpe atmosferas de cor, encontre concavidades no plano da pintura.

Paulo Miyada é curador e pesquisador de arte contemporânea e atua no Instituto Tomie Ohtake como coordenador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria.

Veja o texto completo com todas as suas referências em nosso site, www.dasartes.com.br.

Paulo Pasta - Projeto e Destino • Instituto Tomie Ohtake • São Paulo • 22/3 à 27/5 Paulo Pasta - Lembranças do Futuro • Galeria Millan Anexo • São Paulo • 24/3 à 28/4


Bandeira, 2018.

coletivo


doma


Burger, 2014.


EM EXPOSIÇÃO NA ADELINA GALERIA, O COLETIVO ARGENTINO DOMA SATIRIZA A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, CUJA INDECISÃO EXISTENCIAL JÁ NÃO É MAIS “SER OU NÃO SER”, MAS SIM “CRÉDITO OU DÉBITO”.

POR REDAÇÃO

Foi em uma Buenos Aires em crise, no final da década de 1990, que o coletivo DOMA surgiu. O grupo de argentinos - hoje formado por Julian Pablo Manzelli e Orilo Blandini - se conheceu na faculdade enquanto estudavam Ilustração, Cinema e Design Gráfico. Sempre fazendo uso de diversos suportes como instalações, estêncis, projeções na rua e campanhas absurdas, a dupla (que recebe constantemente a colaboração de outros artistas) explora novas áreas e técnicas. Em duas décadas de trajetória, eles desenvolveram um estilo reconhecido, caracterizado por uma ácida e absurda visão da realidade e partiram para o mundo. Em seu site, os artistas do DOMA dizem, em uma declaração do ano de sua fundação que "entendem a sociedade como um grande


Standard.

laboratório que nos permite detectar sua reação a diferentes estímulos. Estamos vivendo um momento histórico e muito particular. Um ciclo de mudança. Um clima que exige ação. DOMA tenta intervir nos diferentes canais de informação usando ironicamente os mesmos códigos do sistema. Procuramos uma mudança no processo perceptivo oferecendo novos pontos de vista. O processo: cruzamento de ideias e símbolos. Ação-Reação". Apesar de começarem sua carreira expondo na própria Buenos Aires, em 40 DO MUNDO

locais como o Malba, o coletivo fez sua carreira nos EUA e na Europa, sempre sem representação. O acordo com a recém-inaugurada Adelina Galeria, espaço no bairro de Perdizes que pertence ao executivo Fabio Luchetti, é algo novo para o coletivo, que sempre comercializou suas obras por meio de "art dealers". Nada escapa ao coletivo que critica, de maneira divertida e atrativa, costumes, religião, igreja, política, sistemas econômicos e, de certa forma, até o sistema de arte e seus integrantes.

Todas imagens do artista: Foto: Marcelo Magalhães.


De abril até a primeira semana de junho, o público pode conferir o discurso ácido do grupo na mostra "Plato del día", que é resultado de um período de residência e observação de Orilo Blandini. Após quatro meses na capital paulista, visitando bares na periferia ou jantares chiques em Higienópolis, o artista produziu 11 peças que retratam sua visão da sociedade brasileira. A guerra de egos baseada em capitalismo, os problemas políticos, o machismo, o culto ao corpo perfeito e às aparências estão lá. Seja em um par de pernas que não param de pedalar uma bicicleta ergométrica; em

Os problemas políticos, o machismo, o culto ao corpo perfeito e às aparências estão lá.

Políticos, 2018.


Skull, 2018.

uma versão da bandeira brasileira que zomba do lema ordem e progresso; ou ainda na representação do bar, um dos espaços mais democráticos da sociedade brasileira na leitura do Orilo e do DOMA. O DOMA já havia destilado sua acidez em outra mostra, na Galeria Logo, em 2014, em que apresentavam situações cotidianas do mundo contemporâneo globalizado, chamando a atenção para os contrastes, conflitos e desigualdades com que nos deparamos diariamente. 42 COLETIVO DOMA

Em maio, será a vez do coletivo voltar à sua cidade natal e, depois de cerca de uma década sem apresentar obras inéditas na Argentina. Os artistas retornam à capital portenha com "Naturaleza Muerta", que irá acontecer no Centro Cultural Recoleta.

Coletivo DOMA • Plato del día • Adelina Galeria • São Paulo • 11/4 a 26/5


SP-ARTE … que atire a primeira pedra


Giovani Carmello, Sem tĂ­tulo, 2018 OMA Galeria.


A 14ª EDIÇÃO DA SP-ARTE - FESTIVAL INTERNACIONAL DE ARTE DE SÃO PAULO - EXPANDE O CIRCUITO DE ARTE PELA CIDADE E A PROGRAMAÇÃO NO PAVILHÃO DA BIENAL

POR REDAÇÃO O ano de 2018 iniciou mostrando um cenário bastante animador para o mercado de arte brasileiro. Além de várias e importantes mostras de artistas latino-americanos pelo mundo, o mercado mundial registra seu maior crescimento desde 2014, com as temporadas de leilões internacionais alcançando cifras para lá de estratosféricas e, de carona, obras de nossos artistas chegando a valores cada vez maiores. 46 ALTO RELEVO

Este também será mais um ano importante para a arte no Brasil, a arte política e cidadã, que dá voz e ao mesmo tempo reflete, por meio da inspiração e beleza, os momentos ruins vividos no país. Também se espera da feira um momento de se redimir com as mídias e revistas de arte que, no último ano, foram desvinculadas do festival e voltam este ano em seu "line-up".


Afinal, quem nunca pecou, que atire a primeira pedra. Selecionamos, nas próximas páginas, alguns dos destaques dos setores curados e também algumas obras de arte contemporâneas para se prestar atenção.

Performance Neste ano, as performances ganham ainda mais importância ao longo do Festival e abraçam a moda do multidisciplinar, misturando culinária, moda e até medicina.

À esquerda: Fotografia de Rodrigo Braga na Anita Schwartz Galeria de Arte. Abaixo: Xilogravura de Santídio Pereira na Galeria Estação.


O setor passa a ser curado por Paula Garcia, artista, curadora independente e colaboradora artística do Marina Abramovic Institute. Cinco trabalhos de longa duração se estenderão por todo o período do Festival, em um ambiente especialmente concebido para isso. Entre eles, o destaque fica para o artista Paul Setúbal (Andrea Rehder Arte Contemporânea) que irá içar uma obra de arte tridimensional de valor histórico e comercial, por meio de roldanas no teto do Pavilhão da Bienal, em contraponto com seu peso. O artista se propõe a sustentar a peça durante toda a duração do festival. A busca de obras de arte foi realizada pela galeria em três colecionadores que cederam, cada um, uma obra importante. No fim, apenas uma obra

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foi selecionada em acordo com a curadora Paula, mantida em segredo, até o dia da abertura da feira. Repertório O novo setor, criado em 2017, que resgata obras produzidas até a década de 1980 por artistas brasileiros e estrangeiros, permanece sob a curadoria de Jacopo Crivelli Visconti. Entre os nomes estão o francês Christian Boltanski (Marian Goodman Gallery) e o chinês Chen Zhen (Galeria Continua), artista conceitual famoso por suas esculturas de grandes proporções. Do Brasil, participam os artistas Ione Saldanha (Galeria Almeida e Dale) e Victor Gerhard (Galeria Jaqueline Martins). Em sentido horário: Escultura de Chen Zhen na Galeria Continua, acrílica de Alex Flemming na Galeria Ybakatu e óleo de James Kudo na Galeria Murilo Castro.


Acima: Obra de Jaildo Marinho na Pinakotheke Cultural. À esquerda acrílica sobre madeira de Gilberto Salvador na Emmathomas. 50 ALTO RELEVO


À direita: Olafur Eliasson na Galeria neugerriemschneider. Abaixo: Obras de Mariana Palma na Casa Triângulo e Ramonn Vieitez na Amparo 60. Galeria.


Instalação de Jorge Mayet na Galeria Inox e fotografia e desenho de Rodrigo Linhares na Adelina Galeria.

Solo Com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas, o setor Solo apresenta individuais de artistas contemporâneos, entre eles a chilena Lotty Rosenfeld (Galeria Isabel Aninat), conhecida por seu estilo politizado e feminista, e os brasileiros Marina Weffort (Galeria Cavalo) e Martinho Patrício (Galeria Superfície), que trabalham com desenhos sobre tecido. A África do Sul marca presença celebrando a trajetória de Pedro Wirz (Galeria Blank Projects), suíçobrasileiro cuja obra se volta a um imaginário coletivo, em referência às lendas populares locais.

SP-Arte 2018 • Pavilhão da Bienal • São Paulo • 12/4 a 15/4


TONY CAMARGO POR ELE MESMO

MOSTRA PANORÂMICA, NO MUSEU OSCAR NIEMEYER, PERCORRE 20 ANOS DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA DO PARANAENSE TONY CAMARGO E REVELA PROFUNDA INVESTIGAÇÃO SOBRE A ESPACIALIDADE DO MUNDO REAL

“Eu já havia cortado uma faca, invertido tacos de bilhar, baralho, alvos, etc... o peso dos objetos mundanos era minha poesia. Embora paquerasse, vendo alguns Bakuns, Volpis e Guignares, foi comprando um computador que me apaixonei por ela. Logo soltei meus objetos em um canto, e passei a amá-la. Foi um começo difícil, ela era fugidia, não me deixava tocá-la e eu não queria que ela chegasse até mim nas mesmas roupas em que já lhe conhecia. Foi assim que nasceram as “Planopinturas”, batizadas a partir do apelido “Planos de Pintura”, em outros termos, aparelhos pictóricos, espécie de desenhos de pintura. Para mim, a pintura precisava surgir de alguma forma, porém sem ser necessariamente feita. Então tive que tentar inverter sua gênese, assim como fazia com os objetos, e a presença pictórica passou a ser o assunto principal. A manifestação da pintura, enfim, só seria possível através da projeção de si mesma no espaço, para fora e liberta de suas janelas... Ah, que doce lembrança do seu nascimento...: ao lado dos tacos de latão e alumínio que já haviam pousado no mundo cantando coros à Brancusi, lá estava ela, ou lá não estava ela, confesso que ainda não sei... Mas que belo, que magnífico, que deslumbrante era aquele lugar!” 54 REFLEXO


P69, SĂŠrie Planopinturas, 2015.


Série Fotoplanopinturas

PF400, 2015.

Não se pinta quando se é simétrico, a simetria já é um fenômeno dado pela natureza.

“Dizia-me o crítico: Não se pinta quando se é simétrico, a simetria já é um fenômeno dado pela natureza, não há escolha. É verdade, eu pensava feliz... pois queria não pintar. Eu já guiava um caminhão sem freio de pinturas com base na simetria... porém, passava pelas terras de Albers, sempre acenando para Peter Halley. Lambendo o asfalto e comendo a paisagem, meus olhos cansados pediram colírio. Desejei então capturar a paisagem da vista, mas não pintei o que via, apenas guardei seu reflexo no brilho de meus olhos cegos. Armei pares de espelhos esféricos, e deixei o mundo descansar em sua superfície. Vestidos na regularidade geométrica do quadro, esses espelhos refletem toda a superfície do mundo que veem sem negar o corpo que os sustenta. Senti que as esferas flutuavam imitando o mundo, mas pediam assento, então as amarrei em pesos matéricos, como quem ancora um balão. As paisagens embutidas nesses aparelhos pictóricos têm a incumbência de combinar, de maneira compacta, narrativas fotográficas, em um sustentáculo geométrico isolado e oniricamente disfarçado de pintura.” 56 REFLEXO


PF260, 2014.


“Não tendo, em infância e juventude, acesso à tecnologia, estive novamente deslumbrado com a máquina (2003), assim como, quando em visita a São Paulo (1985), conheci um Pimball. Quando comecei a desenhá-las no “Paint” (2003), mexia em sua matéria impalpável, e entendia seus desejos de superfície, mas não me importava se aquilo era pintura e nem me interessava que fosse. Eram apenas poesias pictóricas, filhotes de pintura, já existentes em sua própria inexistência. Não fazia sentido nenhum “pintá-las”. Na abstração sintética de limítrofes geométricas, surgiram, como do ponto na folha branca, narrativas. Desenhei um livro para morarem, e criei estojos, uma espécie de gaiola de imagem. Sua alma é abstrata, sua pele é figura. Na dependência dos seus próprios títulos, segurei-as pela ponta das asas, pedi licença ao design e aprisionei essas imagens no mundo, tentando arte com isso... Elas não se tornaram pintura ainda (2018), mas ao menos permiti que se manifestem no mundo real, como se fossem sua mãe, a pintura, e meu trabalho como pai acaba nesse estágio. Elas que cresçam e apareçam sozinhas. Eu e a mamãe queremos namorar.”

Eram apenas poesias pictóricas, filhotes de pintura, já existentes em sua própria inexistência.

Série Planopinturas Iconográficas, 2004-2011. 58 TONY CAMARGO


BOLHA

SALSICHA COM DOIS PALITOS

OVOS EQUILIBRADOS

PIANOS

TRAMPOLIM PARA O SOL

TELHADO


FP56, 2010, Série Fotomódulos.

“Há gente dizendo que sou eu nas foto-tintas desses quadros, mas é meu Mano Serhu... ele é tão parecido comigo que, quando me vejo, me encontro nele. Como poderia ser eu nesse aparelho? A imagem embutida em um Fotomódulo existe na referência e não no registro. A presença formal do quadro é necessária para imprimir uma realidade etérea no mundo, para se opor à referência em um duelo de reflexos. Bom duelista é o Mano, o cara é fera, não levo uma com ele. Ele sabe equilibrar a contraparte indiscernível dos objetos mundanos, bebe vento das garrafas de Coca-Cola do Cildo, faz malabarismo com as maçãs do Cézanne... e essa gente vem dizer que sou eu? “Peraí”, gente... dá um “look” no visual dele, o cara “tá” na moda, eu nunca estive. É certo que a moda não existe, mas ele existe na moda. O Mano Serhu não se encaixa no mundo, o mundo é que se encaixa nele... “préstenção, pô”! Vocês e eu, nós, aliás, somos o peixe vendido por ele. Outro dia sonhei com o Tunga, em outro planeta, gritando: - Mano Serhu! Mano Serhu! Mano... e eu gritava: - Salve, Tunga!” 60 REFLEXO


A presença formal do quadro é necessária para imprimir uma realidade etérea no mundo, para se opor à referência num duelo de reflexos.


Pejorativas e Similares, 2017, Série Marcas.

“Imagino um lugar distante, em um futuro próximo, em que a poesia é tão mundana quanto o produto, onde expurgos publicitários choram mágicos elogios da vida consumista. Seduzidos pela sua natureza, todos nós ainda mais hipnotizados que na atualidade, comemos, viajamos, jogamos e nos vestimos dessas máculas. A arte que sempre imprimiu alertas com a mentira e a falsidade humana, agora é vocabulário comum e presente na vida cotidiana das pessoas. Entre os mais nobres valores, ela ainda se distingue como ato transcendente e ainda cumpre o papel político de sobreavisar a sociedade da demanda e dos riscos de seus venenos. Nesse futuro canhestro, sou um clone perverso de mim mesmo, ambulando a cidade, e não sou um artista como foi meu original, sou apenas um mero vendedor de falsidades que bate de casa em casa. Paro de imaginar o futuro, lembro que sou sóbrio e sensato como um sujeito normal e vivo a vida presente. A partir de agora, em vez de não pintar, farei propaganda de produtos indesejáveis, não me interessa vendê-los, mas apenas despi-los, até brilhar seu encanto mais diabólico e sedutor. A arte sempre fere para nos curar.”

62 TONY CAMARGO


A arte que sempre imprimiu alertas com a mentira e a falsidade humana agora ĂŠ vocabulĂĄrio comum e presente na vida cotidiana das pessoas.


“Grande parte daquilo que me alimenta pictoricamente vem de fontes indiretas: o livro, o computador, a reprodução. Em 2009, vindo de longa pesquisa na linguagem dos desígnios, comecei a desenhá-los. À base de lembretes de uma arte demasiadamente ocidentalizada no mundo caótico, porém sem qualquer pretensão, fui figurando sem traços, modelando as formas a partir de manchas, até encontrar o limite das figuras. Em exposição conjunta, a malha desses falsos Naifes se camufla no caos fotocenográfico dos “Fotomódulos”, dançando como um tecido ao vento. Estampado com anomalias animais politicamente incorretas, esse tecido é soprado pelo vulto futuro de uma pós-natureza que chora tesa, sem vestígio de queixas, as gotas viperinas da arrogância humana, em um planeta onde animálias divinas são cruelmente devoradas, dilaceradas e transfiguradas. Fundamentados por artifícios modernos, esses desenhos mantêm, por outra via, o sabor barroco da suntuosidade pictórica. Sua escala precisa ser mantida no mesmo lugar da própria reprodução, de modo que sua originalidade se torne refém da imagem. Eles mesmos sempre me dizem que não são pintura ainda... Por enquanto, apenas, são tintos poemas, escritos à pena. Ainda bem!”

Tony Camargo • Seleta crômica e objetos • Museu Oscar Niemeyer • 28/3 a 01/7


Não são pintura ainda... Por enquanto, apenas, são tintos poemas, escritos à pena.

Sem título, Série Desenhos, 2010.


RESENHAS exposições

Cabelo, Luz com trevas Espaço Cultural BNDES • Rio de Janeiro • 21/3 a 13/5 POR GUILHERME GUTMAN

Parecerá uma revelação insólita o fato de que a primeira vez que vi Cabelo performar algo foi na piscina de um clube de primatas, lá no Horto de nossa cidade, de onde desce um braço de rio. Na borda da piscina (que também era borda da borda), aquela figura esguia, rápida em seus movimentos, cobra coral, meio gente meio entidade salta na água e começa a nadar tão velozmente e de modo tão flagrantemente inquieto, que a experiência toda se dava no espaço exíguo entre o riso e o espanto. Senti toda a cena como se estivesse em uma de suas "instaurações": a terra, a borda e a água como meio para o "corpo como projétil de energia", seguindo Lisette Lagnado no "Glossário" presente em seu texto curatorial (1). Na passagem para a água, Cabelo era também um peixe-serra; um tubarão, bicho antigo; tubarão com dentinho de ouro, no qual reluz um Buda. 66 RESENHAS

No trânsito por espaços neoconstruídos, buracos negros, outras dimensões de espaço e de tempo, por canais e subterrâneos a pouco abertos na terra que de água se fez húmus. Na piscina de água azul neon, ele seguia em movimentos contorcidos de Erictônio Peripatético. Em busca do Oco, era "Pastor das Sombras" que fluía com melodiosa "elegância paterna", pela luz de um vaso sanguíneo. Outras instaurações vieram, como a da atual "Luz com Trevas", dada em uma noite quente, de abertura à uma cidade em chamas. Na exposição, o seu "bazar" faz pensar no Saara longeperto, mas também em uma feira em Marrakesh ou na Glória, tal como Caio Fernando Abreu pensou naquela Pedra de Calcutá. Longe-perto. A cada trote do cavalo Cabelo; a cada troça de si mesmo; a cada trote dado haverá necessariamente algo que se


deixa ir (partir) e algo que se acrescenta (que chega). As suas técnicas de si são abertura ao outro e ao mundo, dispondo as oferendas e as bugigangas, abrindo os caminhos a alguma experiência. Na vertigem dos tambores e das cores, Cabelo masca-te. Já é de outro mundo a sua história com os anelídeos: "Abandonei a faculdade de engenharia para criar minhocas" (2). Mas é também o ponto de entrada de Cabelo na arte; a sua arte impura, "art brut", arte incomum, "outsider", virgem e parideira de um sem-fim de cantos, de objetos, de jeitos de corpo, de desenhos e de pinturas. Vem-de-onde-Vai-pra-onde? Cabelo Salto no Escuro.

1. Denominação lançada por Tunga para driblar a redução semântica dos termos 'instalação' e 'performance', a 'instauração' incorpora os efeitos de um acontecimento no espaço. Sua efemeridade é assumida aqui como estrutura. (…) Trabalha-se a frustação a partir da ausência para convocar a imaginação". Cabelo procura "deixar o máximo possível de uma presença". (Lagnado). 2. A citação do artista está presente no texto de Luiz Camillo Osorio para "Humúsica", exposição de 2013, mo MAM-RIo.

Guilherme Gutman é curador independente e crítico de arte, médico, pscicanalista, professor adjunto de Pscicologia (PUC-Rio) e da EAV - Parque Lage.


LIVROS lançamentos Carmela Gross Org: Douglas de Freitas. Textos: Luisa Duarte, Paulo Miyada e Clarissa Diniz Editora Cobogó - 280 p. - R$ 150,00 A obra da artista que teve a cidade e suas idiossincrasias transmutadas em diferentes trabalhos ao longo dos últimos 50 anos é apresentada nesta edição bilíngue. Carmela produziu desenhos, pinturas, vídeos, carimbos, heliografias e litografias para aproximar a vida real da arte. “Na dinâmica do livro, muitos trabalhos são acompanhados por desenhos, projetos e reflexões acerca do processo de construção artística, quase como um arquivo de trabalho”, afirma Douglas de Freitas. O livro conta ainda com ensaios inéditos dos curadores Luisa Duarte, Paulo Miyada e Clarissa Diniz, que constituem um panorama da recepção da obra da artista.

Cildo, estudos, espaços, tempo Textos: Diego Matos, Frederico Morais, Guy Brett, João Moura Jr., Lisette Lagnado, Lynn Zelevansky, Maaretta Jaukkur, Moacir Dos Anjos, Ronaldo Brito, Sônia Salzstein e Suely Rolnik. Ubu Editora - 304 p. - R$ 120,00 Este livro apresenta a obra de Cildo Meireles tendo como baliza o conceito de “estudo”. Boa parte de sua produção mais relevante é mostrada não só com as fotos das obras em exposições, como também com desenhos e esboços que revelam o processo de realização dessas obras. Estão incluídas instalações notáveis como Eureka/ Blindhotland, Malhas da liberdade, La bruja e Desvio para o vermelho, Através, bem como obras mais desconhecidas, inéditas em livro.

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Bárbara Wagner e Benjamin de Burca - Edifício Recife Organização: Gustavo Nóbrega Ikrek Edições - 160 p. - R$ 70, 00 Bárbara Wagner e Benjamin de Burca usam videoensaios, fotopesquisas e entrevistas para abordar temas como a mercantilização das práticas coletivas tradicionais e a folclorização da cultura pop nas economias emergentes. No livro Edifício Recife, trazem fotos de esculturas presentes em edifícios da capital pernambucana acompanhadas de depoimentos dos porteiros dos prédios sobre essas obras. Em Recife, a ideia de cidade como síntese das artes toma a forma de uma lei municipal no início dos anos 1960, fazendo obrigatória a instalação de obras de arte tridimensionais na entrada de grandes edificações.

Bruno Dunley Organização: Carlos Eduardo Riccioppo Editora APC - Associação para o Patronato Contemporâneo, 160 p. - R$ 80,00 Bruno Dunley conta com um projeto gráfico ousado que propõe novas relações entre as obras e os temas essenciais de sua pesquisa por meio de conversas registradas em textos. A publicação é composta por páginas duplas, formando abas que se abrem e se fecham ao gosto do leitor. A publicação possibilita inúmeros arranjos entre as obras, funcionando assim, como uma espécie de exposição gráfica, linear, porém não cronológica.

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NOTAS DO MERCADO Fatos, valores, curiosidades e tendências

DASARTES MERCADO é o novo canal de comunicação da Dasartes, apenas sobre o mercado de arte. Nosso perfil no Instagram @dasartesmercado entrou no ar no início de abril. Siga e fique por dentro dos leilões nacionais e internacionais, captação de obras, recordes de preço, artistas em ascensão, feiras e muito mais. Nós nos vemos lá!

RÚSSIA UM PASSO A FRENTE Uma lei aprovada recentemente na Rússia reconhece a arte contemporânea como bem cultural, com direito à isenção de impostos de importação. Até então, obras de arte com menos de 50 anos eram consideradas bens de luxo, sujeitas a tarifas de importação de mais de 30%, além de uma extensa burocracia e falta de garantia de posterior exportação, o que tornava quase impossível a circulação de obras estrangeiras em exposições temporárias. Lar de dezenas de museus privados e colecionadores multibilionários, a Rússia dá um passo à frente do Brasil, que há anos luta por condições mais favoráveis à importação de arte. Atualmente, quem compra uma obra de arte no exterior paga mais de 50% de impostos para trazê-la ao Brasil. As tarifas incidem até mesmo sobre peças de artistas brasileiros e sobre obras a serem doadas a museus nacionais. A entrada temporária de uma obra de arte para exposição só é permitida por 90 dias, após os quais ela deve ser nacionalizada, com o recolhimento dos devidos impostos, e posteriormente exportada para voltar ao país de origem. Desde 2017, a Dasartes vem intermediando uma ação de pressão sobre o Ministério da Cultura por uma lei similar à da Rússia, levada à frente pelo advogado Roberto Jucá.

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MERCADO DE ARTE EM ALTA De acordo com relatório publicado pela rede de feiras Art Basel, o mercado de arte mundial movimentou US$ 63,7 bilhões em 2017, 12% a mais que o ano anterior, crescendo pela primeira vez desde 2014. Outros achados deste relatório mostram mais peculiaridades deste mercado tão particular: ● O número de novas galerias sendo abertas a cada ano vem caindo e, em 2017, ele se equiparou ao número de galerias que encerraram atividades, ou seja, pela primeira vez, em muitos anos, não houve crescimento no número total de galerias em operação. ● Obras de mais de US$ 1 milhão são apenas 1% dos lotes vendidos em leilão, mas representam 64% da receita. ● Vendas online e em feiras de arte respondem por uma fatia cada vez maior do mercado. ● A maioria dos colecionadores entrevistados nunca vendeu uma obra de arte. Essa atitude ajuda a entender porque as casas de leilão vêm usando garantias cada vez mais generosas para captar bons lotes. O relatório deixa no ar uma pergunta: o que acontecerá com o mercado quando os dinossauros se aposentarem? Figuras como Larry Gagosian, Paula Cooper e Barbara Gladstone não têm herdeiros e respondem por uma fatia importante do mercado primário. Sua aposentadoria pode ser a chance que galerias menores esperam para abocanhar um pedaço do bolo.

RECORDES NOS LEILÕES DE LONDRES Confirmando a tendência de alta, a temporada de leilões de arte contemporânea de Londres, no início de março, movimentou US$ 280 milhões em vendas. George Condo, Gerhard Richter e Peter Doig confirmaram sua posição de ascensão, com lotes disputados por vários compradores e vendidos acima das expectativas.


COLUNA DO MEIO Fotos: Paulo Jabur.

Quem e onde no meio da arte

Mário Grisolli, Marcelo Velloso, Rodrigo Castro e José Carlos Garcia

Carlos Zílio, Cassia Bomeny e Arnaldo de Melora

Arnaldo de Melo Cassia Bomeny Galeria Rio de Janeiro Arnaldo de Melo e Suzana Queiroga

Vandinha Klabin e Paulo Bertazzi

José Carlos Garcia, Cassia Bomeny e Franz Manata

Fotos: Paulo Jabur.

Marcelo Velloso e José Carlos Garcia

Tiago Carneiro da Cunha, Márcio Doctors e Efrain Almeida

Artur e Cynthia Fidalgo e Marcos Bonisson

Victor Arruda MAM Rio de Janeiro Beatriz Milhazes e Victor Arruda

Pedro Tebyriçá e Roma Drummond

Alexandre Murucci e Vanda Klabin

Walter Goldfarb, Katie van Scherpenberg e Marco Rodrigues


Fotos: Paulo Jabur

Lucas Lins, Vicente de Mello e Rodrigo Andrade

Adriana Varejão e Vicente de Mello

Vicente de Mello MAM Rio de Janeiro Adolfo Montejo Navas e Ângelo Venosa

Dedina Bernardelli e José Bechara

Mônica Barki, Cláudia Saldanha e Elisa de Magalhães

Márcio e Mara Fainziliber, Rosa Marques Moreira e Beto Silva

Renan Marcondes, Marcelo Armani e Tathiane Oberleitner

Francisco Valdés Adelina Galeria São Paulo Danilo Luna

Francisco Valdés

Rodrigo Linhares

Fotos: Edson Lopes Junior

Jayme Garfinkel, Mônica Silva, Tanyze Marconato e Fabio Luchetti


ALTO FALANTE

Por Alexandre Sá e Vitor Ramalho

É nós!

Já se passaram mais de duas semanas desde o assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Talvez, no momento em que este texto seja publicado, tenham se passado três ou quatro semanas. Ou mais. A partir do momento em que tal episódio foi anunciado e divulgado, foram inúmeras as manifestações de solidariedade à família deles, bem como de indignação diante de um processo explícito de violência e cerceamento dos direitos humanos. E pela mesma razão, de desejo de supressão e extinção violenta de toda pessoa que tenha algum interesse e fé na possibilidade de mudança do cenário político, econômico e social do Brasil. Tais considerações são já sabidas. Vividas. Experimentadas. Seja na teoria ou na prática cotidiana. Inclusive não foram poucos os textos publicados nessa coluna que tentaram provocar um debate sobre as imbricadas relações entre as Artes Visuais e a política, envolvendo algumas esferas (produção, mediação, circulação e crítica). Em virtude de toda a urgência e exceção que nos envolve, não é possível qualquer outra prática de escrita exceto a de estarmos aqui, adotando um posicionamento crítico, mesmo que de maneira repetida, atravessado por alguma esperança inconteste que consiga vir a nos mobilizar para além da indignação virtual e do confronto urbano eventualmente suspenso por cacetadas e balas de gás. Sendo assim, não é necessário aqui tentar justificar a produção de um texto, infelizmente óbvio, em uma revista de Artes Visuais; pois já é sabido que, para além de toda a relação possível, trata-se de uma questão pública e fundamental para o debate contemporâneo. Se ainda insistirmos em uma aproximação temática, não podemos nos esquecer de um legado fundamental e imprescindível de postura crítica e produção poético-política brasileira que atravessou a segunda metade do século 20, chegou aos anos 2000 e sobrevive até hoje. Se, em texto anteriores, problematizamos de maneira enfática a distância endêmica do sistema de arte das desgraças do cenário político atual, hoje seria injusto fazê-lo em virtude de um notório desejo de questionamento e indignação que nos erige e nos agrupa em certo aspecto. 74


Cildo Meireles, Inserções em circuitos ideológicos. Projeto Cédula, 1970-2018.

Obviamente, seria possível pensar a qual "nós" estamos nos referindo. Mas a resposta, nesse caso, é bem mais simplista: estamos nos referindo aos artistas, produtores, mediadores, professores, curadores, críticos e todo o espectro de profissionais que estão envolvidos, em sua maioria, na produção de um pensamento crítico, consciente e lúcido diante do panorama que estamos vivendo. Por outro lado, esse texto de agora não tem por objetivo ampliar essa questão, mas levantar outra como em um contragolpe. Em uma reunião recente que tivemos, um professor extremamente querido fez um comentário preciso. Que talvez estivéssemos vivendo um momento onde esse processo de retrocesso e supressão da dignidade individual, da liberdade de expressão e dos direitos humanos foi em certo sentido, desejado e ainda o é, por um grupo expressivo de cidadãos. Por certo, para além das já conhecidas "fake News" e todo o universo que envolve a potencialização da histeria coletiva, o aumento da partição da sociedade e a diluição do fluxo de pensamento, é impossível desconsiderar um conjunto de opiniões torpes que somos obrigados a experimentar nas filas de mercado, nas reuniões em família, nos grupos de Whatsapp, nas redes sociais e nas relações pessoais e afetivas. E caso você, leitor, tenha a felicidade de não precisar esbarrar com tais métodos invertidos de percepção do mundo e das coisas, saiba que, para além do espaço confortável da nossa intimidade reflexiva e silenciosa, o mundo parece ruir. Sendo assim, uma questão ingênua ainda retumba deitada eternamente em berço esplêndido: "Onde erramos? Onde nós erramos?" E o nós, aqui, não é


Então, a frase, carimbada em cédulas, ganha cada vez mais um devir-tragédia-trauma.

restrito. É nós no sentido lato sensu. É nós no sentido histórico, geográfico, político, social, artístico, religioso, cultural, ético e moral. É nós também sem culpa porque trata-se de uma pergunta sem resposta específica e sem câmera de vigilância. Trata-se de uma pergunta em suspenso a ser refletida todos os dias e todas as noites. Cildo Meireles, um dos mais potentes artistas da cena contemporânea, resolve reativar, em 2018, seu trabalho, iniciado em 1970, "Inserções em circuitos ideológicos - projeto cédula". Agora a pergunta não é mais sobre Herzog ou Amarildo. Trata-se de mais um nome que traduz tantos outros nomes assassinados cotidianamente nas vielas e nas avenidas do país: Marielle. Então, a frase, carimbada em cédulas, ganha cada vez mais um devir-tragédia-trauma. Quantos outros carimbos surgirão? O suporte escolhido, sem muita escolha, a nota, a cédula, para além da circulação pseudodemocrática e sua potência simbólica de guardar referências impressas sobre o que vem a ser uma ideia perversa de nação e pátria, traz em si a própria resposta. Ou, pelo menos, parte dela. É ali na nota em circulação banal, nesses tais dois reais que sonham, através dos homens (em suas mãos lavadas), transformarem-se em malas de dinheiro, apartamentos vazios, helicópteros de cocaína ou simplesmente propina, que a resposta também dorme. A outra parte está aqui, conosco. Nós. Nós também matamos Marielle, Amarildo, Herzog, Anderson, Chico Mendes, Marcondes Namblá, Dandara, Gisberta e tantos outros.

Alexandre Sá é pós-doutor em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF; doutor e mestre em Artes Visuais pela UFRJ; Diretor do Instituto de Artes da UERJ; Coordenador do curso de Artes Visuais da Unigranrio; Professor do Programa de Pós-graduação em Artes da UERJ; Editor-chefe da revista "Concinnitas"; artista; curador; crítico de arte.

Vitor Ramalho é licenciado em Artes Visuais e Habilitado em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É produtor e professor de Artes Visuais. Trabalhou durante 20 anos como Coordenador Técnico do Sesc Rio de Janeiro, concebendo e realizando exposições de diversos artistas relevantes para a cena brasileira.

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Lançada em 2008, a Dasartes é aprimeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente em seu aplicativo para tablets e celulares e no site dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.

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Revista Dasartes Edicao 71  

Tony Camargo Paulo Pasta SP-Arte Coletivo Doma Rodolpho Parigi

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