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HILMA AF KLINT JEAN-MICHEL BASQUIAT CARLOS GARAICOA BIENAL DE ARTE DIGITAL CAIO PACELA


DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin REDAÇÃO André Fabro PUBLICIDADE publicidade@dasartes.com

Capa: Hilma af Klint, Os dez maiores nº 1, 1907. Foto: Albin Dahlström

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Kilma af Klint, Os dez maiores nº 9. Foto: Albin Dahlström. Moderna Museet, Estocolmo, Suécia.

Contracapa: Jean Michel Basquiat, Early Moses, 1983. © The Estate of Jean-Michel Basquiat. Licensed by Artestar.


BIENAL DE ARTE DIGITAL

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JEAN-MICHEL BASQUIAT

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06 De Arte a Z 10 Agenda

HILMA AF KLINT

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CARLOS GARAICOA

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56 Notas de mercado 57

Livros

58 Coluna do meio

60 Alto Falante CAIO PACELA

ABSTRAÇÃO INFORMAL

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DE ARTE A Z Notas do circuito de arte PINTURA DE WATERHOUSE BANIDA DO MUSEU DE ARTE BRITÂNICA? Uma pintura de John William Waterhouse foi removida das paredes da galeria Manchester Art Gallery do museu inglês. O movimento, de acordo com o museu, foi uma tentativa de “desafiar uma fantasia vitoriana” e uma conversa rápida sobre como a galeria pública exibe e interpreta obras de arte. A imagem retrata uma cena mítica de ninfas de peito nu tentando Hylas até sua morte. A ação foi filmada como parte de uma nova obra de arte da artista Sonia Boyce, que está explorando “problemas de gênero” nas pinturas e cultura mais ampla do século 19. O filme completo será mostrado em sua próxima retrospectiva no museu, que abre em 23/3.

O museu mais caro da América?

Arte ou Pornografia?

Um museu só de arte digital…

Na Filadélfia, EUA

O caso “Origem do Mundo”

Tinha que ser em Tóquio

O Museu Barnes tem agora o maior preço de ingresso na América. Com a atual exposição “Kiefer Rodin”, em cartaz no museu da Filadélfia, a entrada agora custa US$ 30, tornando-se o museu mais caro do país. O chamado preço “dinâmico” desta instituição é uma tendência em todo os EUA, com muitos museus optando por esquemas de preços mais caros e frequentemente flutuantes.

Após sete anos, a luta do professor francês Frédéric Durand com o Facebook está finalmente chegando ao tribunal depois de a mídia social desativar sua conta sem aviso ou justificativa, em 2011. A conta foi tirada do ar depois que ele postou uma imagem de uma pintura provocadora do artista Gustave Courbet, “A Origem do mundo”, de 1866, que retrata de perto as genitais de uma mulher. Durand está buscando a reativação da conta e US$ 25 mil em danos. A decisão final será proferida em 15 de março.

A equipe de alta tecnologia “teamLab”, formada por um grupo de artistas e cientistas de 400 pessoas, planeja lançar seu próprio museu dedicado à arte digital em Tóquio neste ano. Designers, engenheiros, programadores e arquitetos estão trabalhando para abrir um espaço de 350 mil metros quadrados para mostrar suas obras de artes digitais interativas. O museu ficará localizado na cidade de Palette em Odaiba, na Baía de Tóquio.

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EDITAL 2018 ALIANÇA FRANCESA

Giro das artes

Galeria Georges Vincent

Em momentos de crise, a arte é sempre um meio de denunciar, resistir, combater e, às vezes, de falar quando não há mais palavras. Ao longo do ano de 2018, por meio dos oito projetos selecionados, a Aliança Francesa de Belo Horizonte, quer reiterar que acredita no poder da arte, da cultura e da educação para promover tolerância, abertura, curiosidade, diálogo, humor, igualdade, diversidade, e também para combater o ódio, o medo do outro, a ignorância, a corrupção, o racismo, a irresponsabilidade e o radicalismo. As inscrições para os projetos podem ser feitas até o dia 21/02 e o resultado será divulgado no dia 1.º/03. Edital e formas de inscrições estão disponíveis no site da instituição em www.aliancafrancesabh.com.br.

Andrea Rehder em dose dupla Com curadoria de Márcio Harum, a nova exposição “Náugrafo em mim”, de Evandro Angerami, reúne cerca de dez trabalhos da produção mais recente do pintor. No mesmo dia, a Galeria Andrea Rehder Arte Contemporânea inaugura seu novo espaço fixo Mezanino com uma segunda exposição da artista Eneida Sanches “Transe - Deslocamento de Dimensões”, com a curadoria de Marília Panitz. AV. BRASIL, 2079 SÃO PAULO

Para refletir “Pablo Picasso foi um dos piores infratores do século 20 em relação à sua história com as mulheres. Vamos tirar suas obras das galerias?” Jock Reynolds, diretor da Yale University Art Gallery a respeito das decisões sobre cancelamento de mostras e recolhimento de obras do artista Chuck Close, acusado de assédio sexual recentemente. As acusações ainda estão sob investigação.

Suzana Queiroga no Paço Imperial Com curadoria de Raphael Fonseca, serão apresentados cerca de 15 trabalhos em grandes dimensões, dentre pinturas, esculturas, instalações e vídeos, que mostram a pesquisa da artista sobre o tempo, a paisagem e a cartografia. PRAÇA XV DE NOVEMBRO, 48 RIO DE JANEIRO

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Giro das artes

Exposição Estelar Uma exposição dedicada à coleção espetacular do Rei Charles I está em exibição na Royal Academy de Londres, mas há algumas ausências notáveis. A Royal Academy teria pedido ao Louvre Abu Dhabi que emprestasse o mundialmente famoso quadro “Salvator Mundi” de Leonardo da Vinci, mas o diretor Manuel Rabaté recusou o pedido. Entre as pinturas da mostra “Charles I: King e Collector”, estão nomes como Titian, Van Dyck, Rembrandt, Holbein e Dürer. Até 15/4

MUSEU JUDAICO ACABOU DE PENDURAR UMA PINTURA DE CABEÇA PARA BAIXO Após anos pendurada de forma incorreta, uma obra do artista Morris Louis agora está exposta em 180 graus. Os curadores notaram flechas vermelhas na parte de trás da pintura e, depois de virar a tela, identificaram uma figura que se assemelha à Estrela de Davi. Após uma pesquisa mais aprofundada, eles também descobriram que o título da obra estava errado: em uma brochura de 1953, a pintura foi chamada de “Homem alcançando uma estrela”, e não “Sem título” (Jewish Star), como sempre foi chamada.

Cybèle Varela na Brasilea “Cybèle Varela: Tropicalismo Remixed” apresenta uma seleção das mais emblemáticas pinturas da artista, objetos e vídeos, desde a década de 1960 até os dias de hoje. Além disso, analisa a contribuição da artista no panorama artístico, internacional e latino-americano, desde a Pop Art e a Arte Conceitual até a Figuração Narrativa e a Videoarte. Fundação Brasilea, Basel, Suiça Até 31/5

8 DE ARTE A Z

VISTO POR AÍ

A escultura icônica “Cubo Vermelho”, do artista Isamu Noguchi, de 1968, localizado na Broadway 140, em Nova York, está ameaçada com o novo projeto de renovação de praça pública do local. A Fundação Noguchi ainda não foi consultada sobre a proposta e diz que prejudica a visão da escultura no espaço.


WILLIAN SANTOS Willian Santos traz para sua primeira individual na SIM Galeria, o intrincamento entre encontros e reencontros com formas nativas de seu universo íntimo e de uma cronologia pictórica universal. Em “Recôndito Plasmado”, as pinturas, desenhos, objetos e esculturas do artista têm em comum a aura enigmática promovida por uma figuração inacabada, que se desmancha e se dilata, e que deixa sua catástase a cargo do público. A partir da visitação à sua pesquisa da última década, o artista flagrou-se em uma recorrência imagética que transborda por toda a presente exibição, mas que ali se apresenta com o desafio plástico próprio do processo criativo do artista.

10 AGENDA

Como, por exemplo, em suas grandes esculturas em fibra – material inédito em sua produção – em desenhos e pinturas. É justamente por saber do papel das relações inconscientes e individuais na elaboração e apreensão da linguagem artística que Willian Santos prima pela relação de presença e experiência do observador quando materializa sua obra. Fazendo-se, assim, essencial o encontro presencial do observador com seu trabalho para que as múltiplas relações sugeridas por suas obras, se materializem.

Recôndito Plasmado • SIM Galeria • Curitiba • 24/1 a 3/3


YUBE NAWA AIBU Rita Dani, Yaka, Sebastião Paulino Mana e Menegildo Isaka fazem parte da primeira geração de pintores que floresceu da escola viva Huni Kuin. Essa escola viva deriva do encontro com a formalização do ensino através de cursos e da formação de professores a partir dos anos 80, quando começaram a usar lápis e papel. Deriva de forma viva, pois a escola, na floresta, não acontece somente na sala de aula, apesar de existirem também salas de aulas nas escolas de cada aldeia. A escola viva está nas histórias dos antigos, de onde vêm os cantos e o conhecimento das plantas, nos rituais, na raiz da samaúma, no desenho sagrado e geométrico dos kenes e em toda a sua sabedoria. Algo bem diferente do que 12 AGENDA

chamamos de educação, pois não se fixa em um programa que deverá ser assimilado pelos alunos, e sim na confiança de que em cada criança e jovem nasce a possibilidade de redescobrir o mundo. Agora, na Galeria Estação, mais do que uma exposição, abre-se um rio, afluente direto do rio Jordão, rio invisível mas real, que traz artistas da Amazônia acriana Huni Kuin para o Sudeste, e leva para a floresta a possibilidade de que eles vivam de sua arte.

Yube Nawa Aibu – A mulher jibóia encantada • Galeria Estação • São Paulo • 1/2 a 24/2


BIENAL DE

ARTE DIGITAL POR TADEUS MUCELLI A era de produção de imagens e experiências (reais, virtuais) complexifica as percepções sobre os modos do “ver”. A produção de imagens na sociedade é um fato político. O seu mapeamento traz o visível e o invisível das narrativas sociais. A arte digital se encontra neste lugar de produção de contextos e fenômenos que enunciam as dimensões visuais da sociedade. No sentido dessas dimensões, com lugar especial, as artes digitais agem na 14 ALTO RELEVO

condição cognitiva humana mais profundamente por conta das possibilidades tecnológicas existentes. O computador altera as condições cognitivas, distanciando-as das limitações de uma sociedade não digital. Tamanho, memória, espaço e tempo são relativizados. As experiências se diferenciam substancialmente a partir da condição híbrida do auxílio das interfaces e da alteração das visibilidades. A arte digital reduz a manipulação física e objetual, mas não os processos de experiência e memória.


O paradigma visual (elementos de imagem e elementos narrativos) se amplia no digital. A visibilidade e a representação não são excluídas da imagem, mas se resumem na participação de estruturas como a linguagem código (programação) que é geradora de enunciados e imagem. A arte digital denota uma mudança na perspectiva da leitura contextual de nossa sociedade mediante as tecnologias. São fenômenos do ver e do representar em constante alteração em um tempo presentista da arte digital, que promovem sobretudo mudanças no tempo e no espaço e suas materialidades. Sentido fragmentado e heterogêneo. Altera-se a centralidade do observador por meio das tecnologias na organização das memórias e referenciais. O observador também é observado e experimentado. As máquinas estão em constante performance na observação do público.

A arte digital denota uma mudança na perspectiva da leitura contextual de nossa sociedade mediante as tecnologias.

À esquerda: Marco Donnarumma, performance Corpus Nil. Acima: Ruy Cesar Campos, videoinstalação Pontos Terminais Emaranhados.


Há uma passagem da informação (modernidade/contemporaneidade) que se cerca das questões da digitalização e computação. Objetualidade e fisicalidade ganham um novo modo material no digital, em direção à produção de um mentalismo cognitivo. Nesse mentalismo, a informação é como substância no contexto das mídias, que carregam efeitos fenomenológicos a partir das experiências provocadas pelos trabalhos de arte digital. Partimos para novas estruturas de memória por meio das dialéticas do “ver”, que se constituem a partir de uma sociedade digital e cognitiva. No digital, são percebidos novos conjuntos de ações e pesos frente às tradições construídas no campo da arte enquanto estrutura do que é vivo e real (arte), e humanístico, por meio dos códigos e lugares reificados, através dos fenômenos da imagem, por meio das tecnologias, representações e da artedocumento, que constrói e desconstrói a sociedade biopolítica.

16 ALTO RELEVO

As artes digitais expandem o mundo transformado pela documentação e informaçãoo das mídias e tecnologias.


À esquerda: Carla Chan, Black moves. Acima: Jack Holmer, Manifesto contra Gravidade.

As artes digitais expandem o mundo transformado pela documentação e informação das mídias e tecnologias. Desmaterializa os sentidos cristalizados e constrói outras narrativas vivas da sociedade, a partir de novas noções auráticas, como a aura da informação e aura digital enquanto processos reprodutivos de autenticidade em tempos hipermodernos, onde o original não existe mais, mas o autêntico e sua integralidade de experiência são construídos dinamicamente o tempo todo. São novos significados sociais em meio às tradições. Na hiper-realidade, o homem tecnológico se distancia das matrizes tradicionais, vivendo aquém do real. A arte digital, formada por uma cultura

híbrida e hiper-real, opera as simulações, a produção de imagens e vestígios (memória). Seu papel é a produção de narrativas de resistência do "vivo" (arte e memória) frente à hipermodernidade biopolítica do controle de imagens e memória.

Bienal de Arte Digital • Oi Futuro Flamengo • Rio de Janeiro • 5/2 a 18/3

Tadeus Mucelli é artista audiovisual autodidata desde 1998 com trabalhos publicados e participações em eventos no Brasil e no exterior. É Mestre em Artes Visuais/Arte Digital pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

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Amargurado, 1986.


Jean-Michel Basquiat


APÓS ANOS DE EXPECTATIVAS, A GRANDE RETROSPECTIVA DE BASQUIAT FINALMENTE CHEGA AO CCBB E MOSTRA TODA A FORÇA E INOVAÇÃO DO ARTISTA

POR PIETER TJABBES

Flash em Napoles, 1983.

O norte-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988) foi um artista-plástico exaltado no mundo todo, mas ele foi, fundamentalmente, um artista de Nova York. Sua obra personifica o caráter da cidade nos anos 1970 e 1980, quando sua mistura de empolgação e decadência criou um paraíso de criatividade. Aos 6 anos, Basquiat foi atropelado por um carro. Enquanto se recuperava no hospital, sua mãe lhe comprou uma cópia de "Gray's Anatomy", um livro de estudo de anatomia do século 19. Isso viria a ter uma influência perene em seu trabalho. A partir do fim nos anos 1970, a tag SAMO pichada por Basquiat começou a aparecer em Lower Manhattan - e ocasionalmente nos vagões do Trem D que ele pegava de volta para casa no Brooklyn. SAMO era um pseudônimo compartilhado com seu amigo, Al Diaz, que quer dizer "same old shit", ou "a mesma merda de sempre", em português. O cativante e conceitual haiku representado por SAMO atiçou a comunidade criativa da região, incitando grandes debates sobre o conteúdo da obra e a identidade do autor. Basquiat e Diaz eventualmente se desentenderam e SAMO chegou ao seu fim após pouco mais de um ano. Apesar de sua associação ao grafite no começo de carreira, Basquiat nunca se considerou um grafiteiro. 21


22 DESTAQUE

Sem título (Braço de ferro), 1983. Todas as imagens: © The Estate of Jean-Michel Basquiat. Licensed by Artestar, New York.

Sua primeira aparição pública como JeanMichel Basquiat se deu na seminal mostra Times Square, em junho de 1980. Ele pintou as paredes do "Fashion Room", uma das instalações mais dinâmicas da mostra. Tinha apenas 19 anos e já era um dos principais artistas daquela geração que surgia. Por meio da coleção de discos do seu pai, Gerard, o artista tinha um íntimo conhecimento dos grandes mestres do jazz. Os anos formativos de Basquiat também coincidiram com uma das novidades mais notáveis nos terrenos da música, dança, poesia e da arte visual dos últimos cinquenta anos: a invenção do hip-hop. É possível traçar paralelos fascinantes entre a estrutura do trabalho de Basquiat e os sons e letras do rap em seu início. As imagens fluem em comunhão como segmentos de uma melodia em uma composição complexa de jazz. O próprio Basquiat passou alguns anos de sua formação tocando clarinete e um sintetizador mambembe na banda experimental de "noise" chamada Gray, conhecida por suas apresentações no Mudd Club. Ele conseguiu visualizar a música que o influenciava. Sua obra é uma abstração de como soava, de como era e de qual era a sensação da Nova York daquele período. O espírito multicultural da cidade também moldou sua visão e experiência artísticas. A comunidade afro-caribenha do Brooklyn, onde cresceu como filho de uma portoriquenha com um haitiano, estava se tornando uma das regiões mais vibrantes da cidade. Um dos elementos essenciais em sua obra é a composição multi-idiomas.


Acima: Leverage, 1985 e John Lurie, 1982. À direita: Loin, 1982.

Ele conseguiu incorporar todos os diversos elementos de sua formação cultural e do seu sofisticado autoaprendizado para dentro de suas pinturas explosivas. As imagens e a energia das ruas do Brooklyn e do Lower East Side se fundem às suas obras iniciais. Os sinais da cultura dos bairros operários são elementos essenciais em sua iconografia. Muitos dos seus trabalhos foram pintados em portas, em esquadrias de janelas e em peças de madeira jogadas fora que ele achava pelas ruas. Há uma relação direta entre os sons e ritmos das ruas e a repetição de letras e de palavras aliterativas. Sua aplicação abstrata de palavras e letras também reflete uma sofisticada compreensão da abstração da linguagem do modernismo. Basquiat era um dos poucos afroamericanos em mundo artístico predominantemente branco. Ao longo 22 JEAN-MICHEL BASQUIAT

Sua aplicação abstrata de palavras e letras também reflete uma sofisticada compreensão da abstração da linguagem do modernismo.


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Acima: A linguiça do irmão, 1983 e Procissão, 1986.

26 DESTAQUE


Yves Klein e suas esculturas.

de sua carreira, sua arte profundamente política trouxe à tona a negritude e as vicissitudes e os traumas experimentados pelos negros nos EUA. Seu foco na cultura negra era comum aos artistas da época e seu trabalho ajudou a chamar atenção à falta de diversidade no mundo artístico. Sua obra rapidamente evoluiu de uma evocação das ruas a uma profunda narrativa sobre a experiência de ser negro e as conquistas culturais dos negros. Muitas de suas pinturas retratam músicos negros de jazz, pugilistas negros e heróis revolucionários. Seu trabalho também dialoga com grandes figuras históricas na arte, com a ciência e com a disseminação da cultura. Sua obra se tornou uma plataforma para um comentário social marcante e para a compreensão histórica. As figuras poderosas e desnudadas que dominam muito da obra de Basquiat levaram os críticos primeiramente a classificá-lo como um neoexpressionista. Esta é uma interpretação correta, mas que deixa de fora o elemento mais importante de sua inovação artística. Seu trabalho é o paralelo visual para o que estava acontecendo ao mesmo tempo nas cabines dos DJs e nos livros de escritores como Kathy Archer, que, como Basquiat, foram influenciados pelas técnicas de cut-up de William Burroughs e Brion Gysin. A obra de Basquiat é um grande apanhado do Século da Colagem e um prelúdio à intensificação do uso da colagem no século 21.


A colagem dinâmica de palavras, imagens e objetos achados que caracterizam a obra de Basquiat fazem dele um dos principais expoentes da cultura da remixagem. Há uma relação direta entre o uso de "samplers" de símbolos comerciais, imagens de livros de anatomia e trechos de textos, e as novas estruturas musicais trazidas pelo hip hop. Suas pinturas misturam imagens da cultura alta e baixa, subvertendo hierarquias artísticas convencionais. A colagem de imagens, palavras e sons caracteriza a consciência contemporânea mais do que qualquer outra estrutura estética. O trabalho de Basquiat articulou e antecipou essa nova maneira de entender nosso mundo. Warhol se impressionou com o jovem artista; os dois logo começaram a trabalhar juntos e se tornaram amigos próximos. Entre 1983 e 1985, colaboraram em vários quadros. A parceria artística eventual entre Basquiat e Warhol influenciou o trabalho de ambos, mas foi a

O campo próximo a outra estrada, 1981.

habilidade de Warhol em encarnar sua estética em sua própria persona que talvez tenha sido a maior influência. Jean-Michel Basquiat morreu tragicamente aos 27 anos de uma overdose, mas a habilidade de projetar sua poderosa personalidade e inteligência aguda para dentro das obras mantém suas realizações muito mais vivas.

Jean-Michel Basquiat • Centro Cultral Banco do Brasil • São Paulo • 25/1 a 7/4 Brasília • 21/4 a 1/7 Belo Horizonte • 16/7 a 26/9 Rio de Janeiro • 12/10 a 8/1/2019

Pieter Tjabbes é um curador e produtor cultural holândes que atua no Brasil desde 1996.


HILMA AF KLINT mundos possíveis INCOMPREENDIDA EM SUA ÉPOCA, A ARTISTA SUECA OPTOU POR OCULTAR DO PÚBLICO SUA OBRA MESMO APÓS A MORTE. UMA MOSTRA NA PINACOTECA RESGATA A PRODUÇÃO DESTA PIONEIRA DA ABSTRAÇÃO, INÉDITA NO BRASIL

POR JOCHEN VOLZ

Os dez maiores, nº 3, 1907.

Ciente de que sua arte estava muito à frente de seu tempo, Hilma af Klint registrou em diários, como o de 1906, que sua intensa pesquisa espiritual, científica e filosófica - a qual resultou em mais de 26 mil páginas de manuscritos escritos à mão e digitados e em 1.200 pinturas, desenhos e aquarelas - não seria adequada para a apreciação de qualquer um ao menos pelos cinquenta anos seguintes. E, em 1942, com 80 anos, definiu em seu testamento que todas as obras não figurativas não deveriam ser vistas pelos vinte anos que se seguissem à sua morte. Na verdade, essas obras não receberam atenção do público até 1984, quando o historiador da arte Åke Fant apresentou a produção de af Klint em uma conferência em Helsinque, na Finlândia, e quando várias de suas pinturas foram enfim exibidas na exposição "O espiritual na arte: pintura abstrata 1890-1985", organizada por Maurice Tuchman em Los Angeles, em 1986. A primeira exposição dedicada exclusivamente a Hilma af Klint foi montada em 1988 pelo Nordiskt Konstcentrum, em Helsinque. Desde então, organizaram-se exposições principalmente no norte da Europa e nos Estados Unidos. A pesquisa mais abrangente sobre seu trabalho até o momento teve a curadoria de Iris Müller-Westerman e foi produzida e exibida pela primeira vez no Moderna Museet de Estocolmo, em 2013, antes de passar por Berlim, Málaga, Humlebaek, Oslo e Tallinn em uma itinerância que durou até 2015. 31


32 CAPA

Os dez maiores, nº 7, 1907. Todas as imagens: Cortesia da Fundação Hilma af Klint Foto: Albin Dahlström / Moderna Museet, Estocolmo, Suécia.

Há uma série de explicações de por que af Klint decidiu resguardar as obras de seus contemporâneos. Ela deixou registrado que entidades espirituais, com quem ela se correspondia e que lhe incumbiam de suas missões, instruíram-na a manter seu trabalho preservado para apreciação futura. Nos diários, há uma entrada em que afirma ter recebido conselhos similares do filósofo, artista, arquiteto e teosofista Rudolf Steiner, o único permitido pelos espíritos a visitar seu ateliê em 1908. Mas ainda não está claro até que ponto af Klint teria aceitado conselhos tão radicais de alguém se não estivesse completamente convencida dessas atitudes. À época, ela estava na casa dos quarenta e tinha passado anos em treinamento espiritual na companhia de quatro amigas, com as quais formou o grupo De Fem [As cinco], praticando a escrita e o desenho automáticos, aprendendo a produzir textos e imagens de acordo com as instruções dadas por quem elas chamavam de Mestres Superiores. Além disso, é bem provável que, nos primeiros anos do século 20, uma mulher artista, que produzia um trabalho como o de af Klint e afirmava canalizar visões de Mestres Superiores, teria sido considerada um caso clínico, condenada a tratamentos e terapias. Talvez essa seja uma das razões pelas quais af Klint optou por se afastar cada vez mais da cena artística de Estocolmo da época. A partir


Não há dúvida de que ela tinha absoluta ciência de seu próprio tempo, do vigor de suas imagens e do potencial destas para o futuro.

42 HILMA VERMEER E OS MESTRES DA PINTURA DE GÊNERO 34 AF KLINT

Retábulo, nº. 3, 1915.

de 1912, ela passou todos os verões em Furuheim, na ilha de Munsö, e, com ajuda da artista e colega Ana Cassel e outros amigos, construiu lá um estúdio em 1916-17. Em 1918, ela e a mãe cega já não conseguiam pagar um apartamento em Estocolmo. Portanto, mudaram-se para Furuheim e passaram a viver lá o ano todo. Diferentemente de colegas artistas como Kandinsky, Mondrian, Malevich e Kupka, que também investiram no abstracionismo e estavam igualmente interessados no espiritismo, na teosofia e, posteriormente, na antroposofia, af Klint nunca teve discípulos ou alunos. Se, por um lado, ela continuava a expor pinturas naturalistas, por outro, sua prática abstrata era completamente desconhecida e, portanto, até recentemente, não havia estabelecido precedentes para outros artistas. Mas por que damos atenção ao trabalho de Hilma af Klint hoje? Por que artistas contemporâneos acham inspiração em sua obra? Por que agora ela possui seguidores? Se af Klint realmente pintou para o futuro, o que em sua obra enxergamos de tão contemporâneo? Embora tenhamos provas de que af Klint passou grande parte de sua maioridade investigando o significado e o propósito das mensagens e ordens de seus Mestres Superiores, não há dúvida de que ela tinha absoluta ciência de seu próprio tempo, do vigor de suas imagens e do potencial destas para o futuro.


Os dez maiores, nยบ 6 e nยบ 4, 1907.


O léxico de af Klint nos permite aprofundar mais e mais na leitura dos vários níveis de significado de cada um de seus trabalhos.

Os dez maiores, nº 2, 1907.

A obra de af Klint é repleta de códigos, fórmulas e sinais tomados de diversos sistemas de conhecimento, principalmente religião, filosofia e ciência. Seus escritos extensos dão pistas de como decifrar as pinturas. Suas cores e iconografia têm significados específicos, que são indexados e explicados, bem como as letras e mesmo as palavras completas presentes em muitas das pinturas. Por exemplo, em "Os dez maiores, n.º 1, Infância, Grupo IV", 1907 (imagem da capa), há no centro da pintura duas formas ovais com as letras "AV" em azul e amarelo. De acordo com as explicações da artista, o azul representa o feminino, o amarelo o masculino, enquanto o código "AV" significa tranquilidade, desenvolvimento e plenitude, o que também pode ser simbolizado por uma rosa e um lírio. De fato, a parte superior da pintura traz uma coroa de rosas e outra de lírios, símbolos de aspiração e pluralidade, entre outros sentidos. O léxico de af Klint nos permite aprofundar mais e mais na leitura dos vários níveis de significado de cada um de seus trabalhos. Porém, para a maioria dos espectadores, que não tem necessariamente acesso às ferramentas teóricas de af Klint, as pinturas se comunicam em um nível direto, visual e físico. Isso é particularmente verdadeiro para "Os 39


A รกrvore da sabedoria, 1915.


A arte de Hilma af Klint aborda a incapacidade dos meios existentes em descrever o sistema do qual fazemos parte. Suas obras nos oferecem várias e poderosas visualizações do que poderia ser uma noção holística do mundo.

dez maiores", um grupo de pinturas de escala monumental que representa a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice. A mutação da cor, do azul para o laranja, para o cor-de-rosa, para o vermelho, e a transformação de ornamentos, de formas orgânicas em formas geométricas, são estimulantes e atraentes, e cada pintura parece propor uma abertura poderosa para a reflexão e a identificação. A arte de Hilma af Klint aborda a incapacidade dos meios existentes em descrever o sistema do qual fazemos parte. Suas obras nos oferecem várias e poderosas visualizações do que poderia ser uma noção holística do mundo. A série "A árvore da sabedoria" (1915), por exemplo, usa a analogia de uma árvore para desenvolver uma imagem de vários planos horizontais e fluxos de energia altamente complexos e interligados, diferenciando o plano físico, mental e astral. A "Série das religiões, série II" (1920), é provavelmente uma das mais lindas

figurações das grandes religiões do mundo, representadas como variações sutis da mesma forma básica, o círculo. E a "Série VII" (1920) é composta de 17 extraordinárias pinturas abstratas que exploram as qualidades energéticas e espirituais da geometria. Até 1920, a maior parte das obras de af Klint é composta em torno de opostos. Há o feminino e o masculino, a forma aberta e a forma encapsulada, o orgânico e o geométrico, o ornamento e o abstrato, a iconografia cristã e os símbolos emprestados do misticismo. Suas obras nunca ilustram a polaridade, mas a unidade. Sua visualização contínua da ideia de se complementar os opostos é altamente inspiradora em um momento no qual as diversas sociedades ao redor do mundo estão nova e radicalmente divididas entre uma série de opiniões, credos e crenças. Muitos artistas, no final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, investiram fortemente em pesquisas 41


transdisciplinares, dando atenção ao mesmo tempo a ciência, religião, filosofia e misticismo, e vários produziram, em paralelo à sua criação artística visual, escritos teóricos, notas e manifestos. Por exemplo, os notáveis cadernos de Paul Klee. Mas o que faz a prática de Hilma af Klint se destacar é a coerência entre suas investigações teóricas e visuais. E talvez essa seja uma das razões pelas quais o público hoje, com um atraso de mais de um século, esteja tão interessado nela. A arte de af Klint investiga profundamente o desconhecido. Insiste em um novo vocabulário que descreve o mistério e quantifica a incerteza. Sua obra parece oferecer visualização de ordens mundiais alternativas ou de outros mundos possíveis. Desde a década de 1960, em filosofia e lógica, o conceito de "mundos possíveis" considera o mundo real como um dos vários mundos possíveis. É aquele em que de fato

42 CAPA

vivemos, mas, para cada forma distinta que o mundo poderia ter assumido, diz-se que há um mundo possível diferente. A arte de Hilma af Klint abre muitas portas a outros mundos possíveis e diversos com os quais se pode aprender.

Leia o texto na íntegra em nosso site.

Hilma af Klint: Mundos possíveis • Pinacoteca do Estado de São Paulo • 3/3 a 16/7

Jochen Volz é Diretor Geral da Pinacoteca de São Paulo. Foi curador da 32ª Bienal de São Paulo em 2016; Diretor Artístico do Instituto Inhotim (2005 a 2012) e co-curador da 53ª Bienal de Veneza (2009).


CARLOS GARAICOA POR ELE MESMO

Com uma enorme responsabilidade na tensão social gerada pelas crises econômicas recentes, a figura da instituição bancária vê questionada sua estabilidade.

44 REFLEXO


“A escultura em ouro do Banco Central do Brasil faz parte de uma série que representa outras importantes instituições financeiras: o Bundesbank, o Banco de Espanha, o HSBC de Hong Kong, o Banco Central Europeu, o Lehman Brothers. No título, “Saving the Safe”, crio um jogo de palavras a partir do inglês "saving" (salvar, economizar, proteger) e "safe" (cofre, salvo, protegido). As miniaturas dos prédios, expostas em cofres, conformam uma instalação que alerta sobre a disfuncionalidade da sociedade contemporânea, regida pelo Sistema financeiro, poderoso e frágil ao mesmo tempo. Com uma enorme responsabilidade na tensão social gerada pelas crises econômicas recentes, a figura da instituição bancária vê questionada sua estabilidade, em uma obra que ressalta a necessidade de um sistema de vigilância em torno dela.”

Saving the Safe, 2014-2017.


“A obra "Fim do Silêncio" transforma as calçadas comerciais de Havana em uma experiência sensorial e de linguagem. As frases dos tapetes derivam de nomes de lojas, originalmente gravados no chão de granito das calçadas. As assinaturas de tradicionais estabelecimentos comerciais são alteradas por mim para conferir novos significados, criando uma poesia urbana inusitada. Desse modo, locais como La Lucha, Reina, Pensamiento ou Sin Rival começam a ter uma nova recepção quando a mensagem irrompe - La lucha es de todos (A luta é de todos), Reina destruye o redime (Reina destrói ou redime) - e é colocada em tapetes que convidam o andar do público.” 46 46 REFLEXO CARLOS GARAICOA


Foto: Cortesia do Artista e Galeria Luisa Strina.

‌novos significados, criando uma poesia urbana inusitada.

Fim do SilĂŞncio, 2010.


“ “Partitura” é uma obra participativa, projetada e desenvolvida ao longo de dez anos. Foi concebida como um trabalho plural, com a participação de setenta pessoas no projeto, incluindo músicos e técnicos e numerosas viagens entre Madri e Bilbao, cidades que serviram de palco para esta peça. É fruto da relação pessoal e estreita entre os músicos de rua e eu. Este trabalho é composto pelo som de instrumentos de corda e sopro, percussão, cantores e o compositor, que participa da orquestração final da obra. Paisagem sonora das cidades e encontro dos sons imprevisíveis da urbe, “Partitura” é um espaço em constante transformação.”

48 REFLEXO


Partitura, 2017.

Partitura é um espaço em constante transformação.

Foto: Cortesia do artista, Azkuna Zentroa, Bilbao e Galeria Luisa Strina.

YES we are alone in the Universe, 2015-17


O ditador considerava a “verdadeira” arte alemã, em oposição à vanguarda da época.

Carlos Garaicoa - Ser Urbano • Espaço Cultural Porto Seguro • São Paulo • 7/2 a 6/5

50 REFLEXO


Foto: Cortesia do artista, Barbara Gross Galerie e Galeria Luisa Strina.

“Esta obra reproduz a Haus der Kunst, um edifício icônico, feito na época de Hitler, para abrigar o que o ditador considerava a “verdadeira” arte alemã, em oposição à vanguarda da época, que para os nazistas, era “arte degenerada”. Com o uso do vidro e do metal na construção da peça, subverte-se a lógica nazista de construir em pedra e em estilo neoclássico. Desse modo, o projeto se torna a antítese do prédio original e representa o mesmo vanguardismo ao qual a construção original se opunha.”

Quem tem telhado de vidro…, 2013.


CAIO PACELA POR ELISA MAIA Torsos sem cabeça, pernas e braços avulsos dispostos lado a lado, vestígios de bonecas de plástico que foram desmembradas e descartadas. Esses elementos povoam a série “Celebração Móvel”, conjunto de óleos sobre tela do artista paulista radicado no Rio de Janeiro, Caio Pacela. Depois de encontrar uma boneca sem cabeça em uma creche, Caio passou a colecionar os objetos e usá-los como “modelos mortos” para a construção de cenas que seriam retratadas em suas pinturas a óleo.

52 GARIMPO

“A boneca imita, é a imagem em miniatura do corpo humano, o antropomorfismo por excelência”, como afirmou Georges DidiHuberman. Embora sua forma afirme a unidade do corpo, nas mãos da criança, a boneca também costuma ser manipulada, rearticulada, despedaçada, quebrada, rasgada, aberta ou desfigurada, em um processo em que a forma humana dá lugar ao informe. Sabe-se que as crianças costumam em algum momento procurar o que há dentro da


boneca, embaixo de suas roupas, atrás de seus olhos, o que Baudelaire chamou de uma primeira tendência metafísica. Em “A Filosofia dos Brinquedos” (1853), o poeta se refere ao desejo que invade mais cedo ou mais tarde as crianças de ver a alma dos brinquedos, desejo esse que determinará a sua longevidade e cujo fracasso coincidirá com o início da melancolia. As imagens de Caio exploram com sutileza essa ambiguidade entre sedução e repulsa que as bonecas são capazes de provocar de forma tão potente. Nos seus trabalhos mais recentes, embora a figura da boneca não esteja mais presente, o estranhamento, que em “Celebração Móvel” é causado pela fragmentação do corpo inorgânico, comparece de maneira inconteste. “Poderia dizer que as questões provenientes da estranheza que o corpo me causa e sua aparente insuficiência e fragilidade me faz meditar sobre as várias formas de habitá-lo e tratá-lo”, conta Caio. Para saber mais, acesse www.caiopacela.com.

Caio Pacela participa do 9ª Salão de Artistas sem Galeria na Zipper Galeria e Galeria Sancovsky, em São Paulo, até 24/2.

Elisa Maia é doutorando do programa de Comunicação e Cultura da ECO-UFRJ.

Em sentido horário: Celebração Móvel, 2013, Recall, 2013 e Loading, 2014 .


RESENHAS exposições

Oito décadas de abstração informal MAM São Paulo • 17/1 a 22/4 POR CAHONI CHUFALO A arte abstrata, juntamente com a arte contemporânea, suscita perguntas e afirmações do tipo "o que isso significa?", ou "até minha sobrinha de cinco anos faz isso". São justas observações. O incômodo que esse tipo de arte causa em um primeiro momento só pode ser diminuído se o incomodado buscar um contato contínuo com ela. Mesmo se o incômodo perdurar, ao menos se terá visto um recorte amplo de trabalhos que permita a comparação de obras, estilos e características. 54

A exposição "Oito décadas de abstração informal", no MAM/SP, dános uma boa amostragem de trabalhos dessa vertente do abstracionismo. Vertente que se convencionou chamar de "informal" para se opor a outro abstracionismo, o "geométrico". Digo que se convencionou porque tanto os termos "abstração" como "informal", tais como usados no âmbito das artes plásticas, são problemáticos. O segundo, por meramente se opor a "geométrico", sugere que formas fluidas, abertas ou não geométricas não são formas. Mas se de fato há elementos indistintos nessas obras, não há outros que identificamos facilmente? Não identificamos, por exemplo, o rastro de uma pincelada na


tela justamente porque percebemos a "forma" de uma pincelada? Em relação ao primeiro termo, "abstração", ele é usado nas artes plásticas simplesmente como oposto a "figurativo". Kandinsky, um dos principais artistas e teóricos do abstracionismo, já sugeria, em 1935, que o melhor nome para esse tipo de arte seria "arte real", já que "essa arte justapõe ao mundo exterior um novo mundo da arte, de natureza espiritual. Um mundo que só pode ser engendrado pela arte. Um mundo real". Mas deixemos a discussão conceitual de lado. Um mundo engendrado pela arte, um mundo real. Como tal, é preciso que o espectador se habitue a tal mundo, perceba suas regras, sua lógica, sua dinâmica. Mais do que definições conceituais, o espectador, com o perdão da tautologia, precisa ver. A exposição do MAM/SP é muito útil nesse sentido. A curadoria é muito simples, optando por expor as obras cronologicamente, o que dá um caráter didático à exposição. Possibilita, como dito anteriormente, que o espectador compare as obras, perceba entre as várias "abstrações" semelhanças e diferenças. Dá para perceber, por exemplo, como a "abstração" de um Antônio Bandeira pode ser delicada e cheia de movimento, e como uma de Iberê Camargo pode ser dramática, tensa,

com formas que parecem emergir e submergir no meio de camadas espessas de tinta. Esse tipo de dinâmica, de lógica interna, é o que o espectador precisa perceber. As cores, as linhas, as formas, os materiais e os gestos, livres da exigência de representação de objetos exteriores, ganham uma vida própria. É essa vida, que habita esse "mundo real" da arte, um dos segredos do abstracionismo. A exposição "Oito décadas de abstracionismo informal", por seu didatismo e simplicidade, é uma boa introdução ao assunto.

Cahoni Chufalo é formado em Letras, com pós-graduação em crítica e curadoria de arte.

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NOTAS DO MERCADO Fatos, valores, curiosidades e tendências

A Feira Parte, com apoio da Galeria Andrea Rehder, apresentou, em um encontro realizado em São Paulo, no último dia 5/02, os resultados da pesquisa "O NOVO COLECIONADOR DE ARTE", que buscou traçar o perfil e o processo de tomada de decisão de compra dos colecionadores de arte atuais. A pesquisa online contou com 677 participantes anônimos, a mais ampla realizada sobre o tema até hoje no Brasil. Um dos fatores mais surpreendentes foi o foco dos entrevistados em artes visuais: enquanto 64,6% declaram ter visitado cinco ou mais exposições no último ano, muitos declararam não ter frequentado qualquer espetáculo em outras áreas como música clássica, dança, teatro, arquitetura e design. Outros fatos curiosos: apenas 27% dos entrevistados que compraram cinco ou mais obras nos últimos anos se consideram colecionadores e apenas 13% consideram que as obras de arte que gostariam de ter são caras demais. Alguns números revelados:

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Obras de arte adquiridas nos últimos cinco anos: 30,2%: mais de 5 33,9%: entre 2 e 4 10,8%: 1 obra 22,5%: nenhuma

Relação com arte: 58%: trabalham com arte 47%: apreciadores 12%: colecionadores 9%: investidores

Gênero: 54,4%: masculino 45,5%: feminino

Compras online: 22,2%: compram obras online 77,8%: não compram

Faixa Etária: 3%: até 30 29%: 31 a 40 21%: 41 a 50 28%: 51 a 60 18%: 61 a 70 2%: + de 70

Valor de obras adquiridas online: 11%: acima de R$ 10 mil 13%: entre R$ 5 mil e R$ 10 mil 34%: entre R$ 1 mil e R$ 5 mil 41,9%: até R$ 1 mil


ART TACTIC também divulgou no início do ano seu relatório sobre o mercado mundial. De acordo com ele, em 2017 houve uma reversão da tendência de queda iniciada em 2015, com crescimento das vendas em leilão superior a 25% em relação a 2016. As três grandes casas de leilão - Phillips, Sotheby's e Christie's - somaram US$ 11,2 bilhões em vendas, auxiliadas por garantias cada vez mais altas.

TEFAF, enquanto isso, anunciou que deixará de produzir seu conceituado relatório sobre o mercado de arte mundial. Especulase que a decisão tenha sido tomada após críticas à confiabilidade das estatísticas. Em 2016, a economista responsável, Clare McAndrew, deixou a Tefaf e foi substituída por Rachel Pownall, da Universidade de Maastricht, que reformulou o modelo de cálculo. Desde então, as duas equipes vêm apresentando números muito diferentes: de acordo com Pownall, o mercado de arte movimentou US$ 44 bilhões em 2015 e US$ 45 bilhões em 2016, enquanto McAndrew calculou os mesmos valores em US$ 63,8 e US$56,6 bilhões respectivamente.

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COLUNA DO MEIO Fotos: Eva Flury. © Brasilea Foundation.

Quem e onde no meio da arte

Cybèle Varela

Cybèle Varela Fundação Brasilea Basel, Suiça

Fotos: Paulo Jabur

Eduardo Oliveira, Cesar Fraga e Gina Elimelek

Cildo Meireles, Cassia Bomeny e Antonio Manuel

Cassia Bomeny e Suzana Queiroga

Daniel Feingold Cassia Bomeny Galeria Rio de Janeiro Vandinha Klabin e Frederico Morais

Cathérine Bompuis, Stefania Paiva e Bia Caillaux

Beth Jobim e Daniel Feingold

Ana Holck e Paulo Venâncio Filho


LIVROS lançamentos

Via E- mail / Encontro com Artistas Brasileiros Claudius Portugal P55 Editora - 288 p. - R$ 100,00 Uma publicação inédita reunindo entrevistas com mais de 40 artistas visuais que expressam a arte contemporânea brasileira. As entrevistas, todas exclusivas, foram realizadas por correio eletrônico pelo escritor Claudius Portugal, e revelam aspectos da arte produzida no país, englobando linguagens diversas nos campos da pintura, escultura, desenho e fotografia, entre outros gêneros artísticos. Nomes como Mario Cravo Junior, Mestre Didi, Siron Franco, Tunga, Leda Catunda, Florival Oliveira, Bel Borba estão na lista dos entrevistados pelo autor ao longo de dez anos de trabalho.

X-Range Regina Vater Editora Ikrek - 8 lâminas - R$ 100,00 "X-Range" foi concebido por Regina Vater e publicado originalmente em 1977, pela Galería Artemúltiple, em Buenos Aires, Argentina. Esta reedição do projeto visa colocar novamente em circulação essa obra, que marca as práticas do período e que se tornou também um documento. Em um único objeto, agrega práticas experimentais de Vater e o ambiente doméstico de artistas como Hélio Oiticica, John Cage, Lygia Clark e Vito Acconci. "Ao longo de 'X-Range', procuro registrar, de maneira poética, como um indivíduo ou grupos de indivíduos lidam com o espaço doméstico", diz a autora. 59


Lançada em 2008, a Dasartes é a primeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente em seu aplicativo para tablets e celulares e no site dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.

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Revista Dasartes Edicao 69  

Hilma af Klint Jean-Michel Basquiat Carlos Garaicoa Bienal de Arte Digital Caio Pacela

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