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ARTE NAÏF BRASILEIRA FERREIRA GULLAR GONÇALO IVO AGNES MARTIN ARTISSIMA MARINA HACHEM


DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin PRODUÇÃO André Fabro

Capa: Rodolpho Tamanini Netto, Os ciclistas, 2015.

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Contracapa: Ernani Pavaneli, Pavão misterioso, 2016.

Ana Maria Dias, Melancia, 2016. (Detalhe)


ARTISSIMA

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FERREIRA GULLAR

18

08 De arte a z 60 Livros 62 Resenhas 66 Garimpo

ARTE NAÏF BRASILEIRA

do 70 Coluna meio GONÇALO IVO 72 Alto-falante

AGNES MARTIN

MARINA HACHEM

66

50

30 42


DE ARTE A Z Notas do circuito de arte

MUSEU DO PRADO GANHA PROJETO DE EXTENSÃO DE SEU ESPAÇO O arquiteto britânico Norman Foster em conjunto com Carlos Rubio, ganhou o prestigiado concurso internacional para remodelar o Salão de Reinos do século 17 como uma nova ala do Museu do Prado, em Madrid. A proposta de Foster e Rubio é chamado de “Projeto Invisível” (foto) e apresenta um grande átrio de entrada semi-aberto e permeável na fachada sul, que irá proteger a fachada original, cujas janelas e varandas serão restabelecidas.

O RETORNO DE AI WEI WEI

TURNER PRIZE 2016

DE VOLTA AO TATE

Em Nova York

Vai para...

Estimativa de £ 800mil

Em novembro, quatro diferentes galerias abriram novas individuais do artista chinês ao mesmo tempo, marcando seu grande retorno a Nova York depois de cinco anos. Durante esse tempo, ele foi detido por 81 dias pelo governo chinês, teve seu passaporte apreendido e foi forçado a permanecer no país.

A escultora e pintora britânica Helen Marten é a vencedora do Turner Prize, o mais importante prêmio de artes visuais do Reino Unido. Helen vai ganhar o equivalente a R$ 100,5 mil. A artista de apenas 31 anos termina 2016 com grande destaque nas artes visuais há menos de um mês ela ganhou a primeira edição do prêmio Hepworth de escultura.

Uma pintura a óleo de John Constable retirada do acervo do Tate será leiloada pela Christie’s. A obra, datada de 1824, foi doada ao Tate em 1986. Há alguns anos atrás, uma reivindicação da era nazista foi feita pelos herdeiros e o Painel Consultivo de Espoliação do Reino Unido recomendou que a pintura fosse devolvida.

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OS MELHORES DO ANO EM SÃO PAULO PELA APCA

GIRO NA CENA

Premiação acontece em 2017 Em assembleia que reuniu críticos no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo no última dia 30/11, a APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) escolheu os melhores de 2016 nas categorias Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Literatura, Música Popular, Música Erudita, Rádio, Teatro, Teatro Infantil e Televisão. Entre os selecionados, “Volpi Pequenos Formatos” e “O Triunfo da cor” são eleitas as melhores exposições, nacional e internacional. Para fotografia, foi indicada a mostra “Gal Oppido – Sentidos da Pele” e na categoria retrospectiva, venceu “No Lugar Mesmo: uma antologia de Ana Maria Tavares” em cartaz na Pinacoteca.

Milagre de Vanderlei Lopes A mostra “Milagre” na Galeria Marilia Razuk, em São Paulo, reúne um corpo de trabalhos que toma o próprio ato de olhar como questão. Constituída por obras em materiais como vídeo, madeira, fogo, ouro, bronze, pólvora e papel, conjuga diversos procedimentos e temporalidades que se articulam no sentido de refletir sobre a luz e o modo como a obra surge no espaço expositivo. Até 11/2/2017.

Para destacar “Temos um compromisso com o mercado latinoamericano e estamos nos esforçando para dar espaço a novas galerias." Noah Horowitz, diretor da ArtBasel sobre grande repercussão e interesse por obras de artistas brasileiros na última edição da ArtBasel Miami.

Cartografias sonoras em BH A exposição Cartografias Sonoras propõe ao espectador e ouvinte uma ressensibilização da sua escuta na percepção dos fenômenos sonoros que o rodeiam. A mostra reúne obras de Frederico Pessoa, Henrique Iwao, Marco Scarassatti, Pedro Aspahan e Pedro Durães no Espaço do Conhecimento UFMG, no Circuito Liberdade, em Belo Horizonte. Até 17/2/2017.


GIRO NA CENA

Cinthia Marcelle no MoMA O Project 105 do Museu de Arte Moderna de Nova York apresenta “Educação por Pedra” (2016), uma nova instalação site-specific da artista brasileira Cinthia Marcelle e primeira exposição individual da artista em Nova York. Marcelle é conhecida por suas instalações, performances e vídeos, que encenam formas de trabalho para produzir situações poéticas.

PINTURA DE FRIDA KHALO REDESCOBERTA 60 ANOS DEPOIS Por seis décadas, o paradeiro de “Niña Con Collar” de 1929 permaneceu desconhecido. A única evidência era uma fotografia em preto e branco, tirada por Lola Álvarez Bravo para um catálogo da artista em 1988. Agora, o trabalho ressurgiu e foi vendido recentemente em leilão de Arte Moderna da América Latina pela Sotheby’s por US$ 1.8 milhões.

Brasil no Future Generation As artistas brasileiras Carla Chaim e Vivian Caccuri estão entre os finalistas para o 4º prêmio de arte Future Generation. O prêmio internacional, mantido pela fundação ucraniana Victor Pinchuk desde 2009, é um dos mais prestigiosos para jovens artistas e vêm destacando talentos do mundo todo desde sua criação. O ganhador do prêmio no valor de US$100 mil será anunciado em março/2017. Leia matéria de Vivian Caccuri na Dasartes 49.

10 DE ARTE A Z

VISTO POR AÍ

“3 Sections”. Obra do brasileiro Marcius Galan durante coletiva “Toda percepção é uma interpretação - e você faz parte disso” da Cifo Art Space durante a ArtBasel Miami Beach 2016.


ARTISSIMA

12 OUTRAS NOTAS


POR REBECCA MOCCIA Com a presença de 193 galerias de 34 países e 65% dos expositores estrangeiros, Artissima se confirmou como a mais importante feira da arte contemporânea na Itália. Além das habituais três seções dirigidas pelo conselho de curadores e diretores (Back to the Future, Present Future e PER4M), Artissima renovou a fórmula de "In Mostra", a exposição interna especial que comemora as grandes coleções de Turim e seu território, este ano com "corpo.gesto.postura", com curadoria de Simone Menegoi. E adicionou um projeto, paralelo à feira: um "sitespecific" concebido pelo artista alemão Thomas Bayrle, "Flying home", na área de bagagens do aeroporto de Turim. Nessa edição, foi marcante a presença das galerias da América do Sul, como a galeria Marso (Cidade do México), que apresentou na feira os trabalhos geométricos feitos de fios que se tornam impalpáveis do artista Jong Oh; a Waldengallery (Buenos Aires),

Todas as fotos: Perottino/Alfero/Tardito.


que mostra obras da arte conceitual argentina; as galerias Revolver (Lima) e Sketch (Bogotá). Mais surpreendente foi a participação de cinco galerias do Brasil. A Galeria Luciana Caravello, do Rio, apresentou as obras com papel e concreto do artista Lucas Simões, e também a galeria carioca Cavalo, com os "collages" de Felipe Cohen, que ganharam o novo Prêmio Owenscorp. Mas as galerias de São Paulo não ficaram atrás. Começando com a Mendes Wood DM, que apresentou as obras de F.marquespenteado. O artista recriou uma espécie de quarto, onde colocou um núcleo de trabalhos compostos de peças bordados, objetos, figuras, letras que criam 14 ARTISSIMA

Com a presença de 193 galerias de 34 países e com o 65% dos expositores estrangeiros, Artissima se confirma como a mais importante feira da arte contemporânea na Itália.


Felipe Cohen na Galeria Cavalo e Lucas SimĂľes na Luciana Caravello.


Obra de Túlio Pinto na Baró Galeria.

micro-histórias como em um "Rebus" romântico. Como está escrito em um papel na entrada do espaço, para "dar uma vida narrativa aos objetos para mudar o curso e o uso disso...". Na seção dedicada a talentos emergentes, Present Future, encontramos os trabalhos do artista Beto Shwalfty, apresentado pela galeria Luisa Strina e selecionado por um conselho de jovens curadores internacionais coordenados por Luigi Fassi. Nesta seção, os artistas convidados apresentaram projetos em 16 OUTRAS NOTAS

sua primeira vez na Europa e na Itália e o artista sugeriu uma reflexão sobre a especulação petrolífera brasileira brincando com a ambiguidade moral da beleza e da riqueza. Enfim, a galeria Baró, em sua estreia na feira, apresentou as obras de Tulio Pinto, em direto contato com os trabalhos da "Arte Povera", que vê em Turim seu lugar por excelência, dialogando com as obras históricas na galeria Sprovieri, Tucci Russo, Repetto e, de forma geral, com a história da arte italiana mais recente.


Fechando com uma visão geral, este ano muito interessante e preciosa era a seção "Back to the Future", dedicada à descoberta, por meio de exposições individuais, dos pioneiros da arte contemporânea, como a pesquisa de Michel Parmentier sugerida pela galeria Loevenbruck (Paris) e de Garth Evans na galeria Johannes Vogt (Nova York). As grandes galerias de Turim como Norma Mangione e Franco Noero são sempre mestres da cena e impecáveis que, em paralelo com a exposição, apresentaram o seu novo espaço no centro da cidade. As novas entradas, por sua vez, foram bastante decepcionantes, com exceção da galeria Madragoa (Lisboa), que foi premiada com o Prêmio Reda para sua artista Joanna Piotrowska.

Artissima 2016 - Feira Internacional de Arte Contemporânea • Turim, Itália • 4 a 6/11.

Rebecca Moccia é artista plástica e atua em crítica e eventos de arte. Vive e trabalha em Milão e Roma e se interessa pelo cenário artístico no Brasil.


Todas as obras: Da série “A Revelação do Avesso”. Coleção UQ Editions, Aprazível Edições e Arte. Foto: Nana Moraes.

FERREIRA GULLAR


FERREIRA GULLAR FALECEU NO INÍCIO DE DEZEMBRO, DEIXANDO SAUDADE E UMA LACUNA NO MUNDO DA ARTE. EM SUA HOMENAGEM, A DASARTES REPUBLICA A ENTREVISTA EXCLUSIVA REALIZADA EM 2009, ILUSTRADA COM IMAGENS DE OBRAS DE SUA RECENTE EXPOSIÇÃO NO ESPAÇO CULTURAL BNDES

Ferreira Gullar foi maranhense de nascença, mas adotou o Rio de Janeiro como sua cidade. Foi mão ativa no movimento concreto e autor do Manifesto Neoconcreto, publicado no Jornal do Brasil em 1959, no qual um grupo de artistas como Lygia Clark, Amilcar de Castro e Franz Weissman oficializava sua liberação dos dogmas do concretismo. Polivalente, Gullar já escreveu crônicas, contos, memórias, peças de teatro, auxiliou em roteiros para TV e é autor de uma biografia de Nise da Silveira, pioneira da arte-terapia. Sua obra extensa e valiosa levou-o a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002. O poeta seguiu ativo como crítico de arte e literatura e nunca perdeu a oportunidade de lançar nova polêmica, como mostra a entrevista feita em sua casa em Copacabana.

Poema Enterrado no Espaço Cultural BNDES. Foto: Odir Almeida

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Todas imagens do artista: Foto: Marcelo Magalhães.

POR LIEGE G. JUNG Existe influência de Morandi nas pinturas originais? Nada [risos]... Vamos esclarecer as coisas: Morandi é um pintor que mostra sombra, volume, o ambiente. Eu comecei desenhando estes trabalhos com caneta Bic a partir de Morandi, mas isto foi há vinte, trinta anos atrás. Depois, fui modificando. Por exemplo, eliminei o pé da taça, ficou só um triângulo, só elementos geometrizados, sem profundidade. Sobre os triângulos, já disseram até que eram inspirados em Volpi, mas não tem nada de Volpi, eles são mestres da pintura, coisa que não sou nem aspiro ser. Pinto só por hobby, para me distrair. 20 ENTREVISTA

Sobre a porta de entrada, tem também um Mondrian. Certa época, eu tive vontade de copiar alguns quadros pelos quais eu tinha uma predileção especial. Copiei este Mondrian, tem também um Léger (mostra reprodução de “Mulher com Vaso’ (1927), de Fernand Léger), e já tive de vários outros, embora não sejam do tamanho original. Uma moça certa vez disse: "Você é louco, botar um Mondrian do lado de fora da porta" [risos]. Louco é quem pensa que eu vou colocar um Mondrian na porta. Faço apenas como hobby. Por que um poeta se torna pintor? Quando eu era garoto, a primeira coisa que me interessou não foi a poesia, foi a


pintura. Eu tinha 10 anos e já queria pintar, peguei um saco de pano, botei num chassi e fui pintar em cima. Como o pano não estava preparado, ficou um borrão só [risos]. Depois, comprei uma tela e pintei um quadrinho, que minha mãe guardou. Sua biografia diz que, quando descobriu a vocação para escritor, o Sr. passou dois anos lendo só gramáticas. Obstinação ou perfeccionismo? Não, nada disso, eu era garoto e fiz uma redação para a escola e a professora achou muito bem feita, mas não deu nota máxima porque tinha dois erros de português. Eu tinha 13 anos, achei que poderia ser escritor, mas para isto eu não podia errar gramática, então comecei a

Quando eu era garoto, a primeira coisa que me interessou não foi a poesia, foi a pintura.


ler gramática. Não era mania, talvez eu fosse um pouco exagerado, mas se você vai desenvolver uma atividade em qualquer terreno, seja um metalúrgico ou eletricista, você tem que conhecer o instrumento de trabalho, as regras. Você pode até quebrá-las ou mudá-las depois, mas tem que conhecer. Quem dera que os artistas de hoje resolvessem aprender direito seu ofício em vez de ficar fazendo besteira. Certa vez, o senhor foi demitido por ter se recusado a abrir mão de convicções políticas. Nos dias de hoje, é mais difícil manter a crença na política? Na verdade, fui demitido por me recusar a mentir. Eu tinha 20 anos de idade, em São Luiz, e não me metia em política, mas houve um comício da campanha para eleição para Presidente e a polícia interveio e matou uma manifestante. Eu vi por acaso, estava passando a caminho do trabalho, vi a confusão e quis saber o que estava acontecendo. No dia seguinte, quando cheguei à rádio onde trabalhava como locutor, tinha uma nota do governador dizendo que os comunistas tinham matado um operário. Eu me recusei a ler a nota no ar. Meu chefe disse que, se eu não lesse, seria demitido, e assim foi. Sobre manter a crença, continuo envolvido com a política, claro, sou um cidadão. Não faço mais poesia política porque a época passou, acabou a ditadura, tudo aquilo que me motivava a fazer a poesia política esmaeceu. Mas continuo opinando nos jornais onde escrevo. 22 FERREIRA GULLAR

O Sr. foi um dos precursores do movimento concreto, mas, mais tarde, assinou, junto com Lygia Clark, Amilcar de Castro e outros, o Manifesto Neoconcreto. Como se deu esta ruptura? Eu cheguei ao Rio em 1951 e me tornei amigo do Mário Pedrosa, que era quem difundia as ideias do concretismo.


Others, 2011.

Depois, em São Paulo, surgiu um outro grupo neoconcreto liderado pelo Valdemar Cordeiro. O movimento de poesia concreta começou em 1955, 56, adotando o pessoal de São Paulo, e eu participei deste início. Mas as ideias começaram a divergir; eles propunham que se fizesse poesia de acordo com regras e equações matemáticas, muitas bobagens. E, quando eles decidiram

publicar o documento que oficializava isto, eu não pude assinar embaixo, e deu-se o rompimento. Na verdade, as diferenças eram mais profundas do que esse simples incidente. O grupo dos artistas e poetas do Rio desenvolveu um caminho que é o oposto deste do pessoal de São Paulo, e daí nasceu o movimento neoconcreto; não como uma teoria nova, mas do trabalho que vinha sendo feito. 23


O movimento neoconcreto tornou-se um movimento autônomo, um movimento brasileiro, enquanto a arte concreta foi importada da Europa, uma repetição de coisas do passado.

O grupo dos artistas e poetas do Rio desenvolveu um caminho que é o oposto deste do pessoal de São Paulo, e daí nasceu o movimento neoconcreto

O neoconcretismo propunha obras orgânicas, que ganhavam vida com a participação do público, como os parangolés de Hélio Oiticica ou os bichos de Lygia Clark. Hoje, em virtude de seu valor histórico e financeiro, as obras em exposição não podem ser manipuladas. O Sr. acha que elas perderam sua organicidade? Não, tradicionalmente nunca se permitiu tocar nas obras de arte. A ideia é inviável, o manuseio destrói as peças, por isso os museus fazem imitações para que as pessoas toquem. Eu mesmo tive um bicho da Lygia que quebrou porque meus filhos, quando garotos, usavam como brinquedo. A ideia de participar das obras nasceu do livro-poema que eu fiz. Para resolver alguns problemas da minha poesia, criei um livro que era o poema, uma coisa só, um poema que precisava ser tocado, manuseado (publicado pela primeira vez em Experiência Neoconcreta: Momento Limite da Arte, Cosac Naify, 2008). Depois, isso passou para as atividades da Lygia, do Hélio e eu também passei a fazer mais poemas para se participar. Como o poema enterrado? Sim, eu criei este poema em que a pessoa entrava dentro. Era enterrado porque era subterrâneo, em uma sala três metros abaixo do solo. A pessoa descia uma escada e entrava nesta sala, onde estava o poema. O Hélio Oiticica gostou da ideia e convenceu o pai dele a fazer o poema no quintal da casa que ele estava

24 ENTREVISTA


construindo. Quando ficou pronto, fomos todos lá inaugurar: Mário Pedrosa, Lygia Clark, Theon Spanudis, Amilcar de Castro, todo mundo. E quando abrimos a porta do poema, estava tudo inundado, os cubos do poema estavam boiando. Tinha chovido três dias sem parar e, como o poema ficava em um pé de montanha, virou caixa d'água. Há pouco tempo, ouvi dizer que a família do Hélio reconstruiu o poema e dizem que é uma obra dele. Não me comunicaram, isto foi o que ouvi dizer. Alguns herdeiros, como os de Lygia Clark, adotam uma política de direitos autorais que dificulta ou impossibilita a reprodução de imagens das obras. O Sr. não acha que esta posição é

contraditória à ideia de participação do público? Essa lei de direito autoral está equivocada. Imagine que o Instituto Moreira Salles está sendo processado porque a família de Volpi queria cobrar R$ 150 mil para permitir expor as obras que não são deles, são dos colecionadores. E cobrou também pelas imagens, então o catálogo não tem imagem nenhuma. É uma confusão. E o pior é que você é dono do trabalho do Volpi, mas não é dono da imagem do trabalho. Como eu posso comprar o quadro sem comprar a imagem dele? Isto não existe. Entendo que não se possa reproduzir uma obra fielmente, como a fotografia, por exemplo, que é a própria obra: se for publicar, o autor


deve receber, tudo bem. O mesmo para uma gravura, se for imprimir uma cópia. Mas se o óleo sobre tela do Volpi tem 80 x 50 cm e eu vou reproduzir uma foto de 4 x 3 cm no jornal, eu tenho que pagar? Eu mesmo tenho o caso do meu livro Relâmpagos (Cosac Naify, 2008), que são textos ligados a obras de arte. A única obra que não foi reproduzida é exatamente a do bicho da Lygia, que era minha amiga! Acaba acontecendo o que aconteceu com Drummond, cujo neto cobrava fortunas para deixar citar qualquer verso. Aos poucos, todo mundo passou a evitar usar Drummond na TV e no cinema. O neto percebeu isso e mudou, senão o artista acaba ficando esquecido.

O Sr. disse que a crítica literária acabou (em entrevista ao suplemento literário do Diário Oficial de Pernambuco, em 1996). E a crítica de arte? Também acabou. Nos anos 1950 até 1970, todo jornal tinha uma coluna de arte, era quase diária. Depois, passou a ser semanal. Hoje, existem alguns críticos que escrevem raramente, porque não há muito espaço. A imprensa acabou com ele por uma visão medíocre, de subestimar as coisas culturais. Basta ver o Lula, o 26 FERREIRA GULLAR

Presidente da República, que não sabe nem ler, aí você vê o nível a que chegamos. O Sr. não faz mais crítica de arte por falta de espaço? Eu faço crítica, sou crítico de arte, mas algumas coisas eu ignoro. O cara vai lá fazer larva de mosca, e eu com isso? Não entendo deste assunto, não posso escrever "esta larva está muito boa, está ótima". Isto não é assunto de arte, é assunto para biólogo. Vinte ovos fritos cada um num prato expostos numa galeria. Eu não tenho nada a ver com isso, isso é uma bobagem, algo que foi inventado gratuitamente. O cara não precisa saber pintar, desenhar, esculpir, nem pensar nada, só precisa ter uma boa ideia. Chamo isto de Caninha 51 [risos]. Encontrei uma moça que estava indignada porque o museu estava mostrando uma obra que era cópia da dela. Eu perguntei qual era a obra e ela respondeu: "são séries de cordas com nós, fui eu que inventei". Ah, você que inventou o nó na corda? [Risos]. Lá no Maranhão, os barqueiros usam muito sua técnica, não sabia que você tinha inventado. Realmente é piada não é?


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Os críticos defendem o ovo frito e outras coisas porque eles têm medo que digam que são retrógrados e ultrapassados. Por isso, cria-se esta patotinha de artistas que são tão agradados…

Talvez faça parte da liberdade de formalismo que guia a arte contemporânea. Não, isto é uma besteirada, um falso populismo, falsa democracia. É proibido proibir? Não é. Tem que proibir, a civilização existe porque há proibições, senão vou lá cagar na tua sala. É tudo hipocrisia. Lembro de um cara liberal pra caramba que, quando soube que a filha dele estava transando com o namorado, queria matar a mulher [risos]. Lá em Buenos Aires, ele falava "porque o sexo é livre" etc. Livre para comer a filha dos outros! É uma grande hipocrisia. Os críticos defendem o ovo frito e outras coisas porque eles têm medo que digam que são retrógrados e ultrapassados. Por isso, cria-se esta patotinha de artistas que são tão agradados, enquanto tem pintores maravilhosos que ninguém conhece. Eu conheço um ótimo gravurista que, 28 ENTREVISTA

depois de tentar, tentar e não conseguir expor, começou a juntar pedra no sítio do pai e expor pedra, e aí começou a ganhar dinheiro. Por isso, a última Bienal de São Paulo (2008) não tinha nenhuma pintura? A melhor Bienal que já houve foi essa, que reconheceu que não há nada a expor na boa arte. Se a Bienal de Arte Contemporânea está vazia, é isso mesmo. Só que a história não dura apenas cinco décadas. Muitas das coisas tidas como sendo de qualidade há um século atrás hoje desapareceram. Quem carrega as coisas é o povo, e o que não fala às pessoas pode estar na moda hoje, mas, daqui a cinquenta anos, desaparece. Veja a biografia de Ferreira Gullar em uma linha do tempo exclusiva buscando pelo nome do artista em dasartes.com.br.


TRADUZIR-SE Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo.

Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente.

Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem.

Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira.

Traduzir-se uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?

Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta.

Ferreira Gullar (1930-2016)


ARTE NAÏF BRASILEIRA


Mara D. Toledo, As alegres jandaias, 2016. Todas as imagens: Cortesia Galeria Jacques Ardies.


EM MOMENTO DE ASCENÇÃO, ARTE NAÏF GANHA EXPOSIÇÃO NO MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA EM SÃO PAULO

POR JACQUES ARDIES A arte Naïf é uma expressão artística fundamentada na criatividade e na originalidade dos seus artistas. Cada qual apresenta uma obra diferenciada, expressiva e inconfundível que emana de seu particular viver e invade o nosso inconsciente. Há muita poesia. Há a observação encantada, a desajeitada habilidade charmosa e, na maioria das vezes, uma mensagem positiva. Acredita-se que esses artistas 32 CAPA

constroem suas carreiras de maneira lenta, séria e consistente, oferecendonos uma brisa fresca, uma obra honesta. Sente-se a generosidade nos artistas naïfs que não se preocupam com as intermináveis horas dedicadas ao seu ofício. Transbordam emoção, não se furtam ao meticuloso preenchimento do vazio, pintam obstinadamente com singular observação. Tudo isso conduz a essa obra pura e, no meu entender, à essência do seu valor.


A ORIGEM DA PALAVRA NAÏF No final do século 19, quando da efervescência da arte moderna, o francês Henri Rousseau, um funcionário aposentado, mostrou sua arte irreverente e charmosa. Rousseau era uma pessoa sensível que vivia aquém do seu tempo. Ele tinha o seu lado realmente ingênuo e sua pintura espontânea encantava pelo talento criativo e inédito. Foi classificado como artista naïf com o intuito de expressar o lado espontâneo que vem do latino "nativus", que existe ao nascer, algo como inato, natural. Os ingleses usam

Acredita-se que esses artistas constroem suas carreiras de maneira lenta, séria e consistente, oferecendo-nos uma brisa fresca, uma obra honesta.

À esquerda: José Antonio da Silva, Algodão, 1984. Acima: Ivonaldo Veloso de Melo, Passeando com o cachorro, 1994.


a expressão "primitive painter", querendo sublinhar a natureza primária, associada ao autodidatismo. Os alemães faziam referência aos "sontagsmalers", pintores que só podiam pintar aos domingos. Eram considerados amadores por não terem seguido uma escola de belas artes e pintavam na hora do descanso. Prevaleceu, entretanto, a palavra francesa naïf. Influenciada não só pela nacionalidade de Rousseau, mas também pela facilidade da sua tradução em várias línguas como "Arti Naifi", "Naive Painting", "Naive Malerei" ou, ainda em nossa língua, Arte Naïf. Se essa arte existe desde sempre, foi com Rousseau que ela recebeu sua legitimidade como movimento artístico que se ampliou ancorada em vários artistas que se expressavam dessa forma em todos os países do 34 ARTE NAÏF BRASILEIRA

Hoje, no contexto internacional, a arte naïf brasileira está conquistando um lugar de destaque graças ao surgimento de artistas inéditos que apresentam uma obra original, diferente de tudo que já foi produzido.


mundo. Por esse motivo, pode-se encontrar ainda hoje pintores naïfs na França, Itália, Suíça, Inglaterra até na Alemanha. Nos Estados Unidos, há uma tendência nítida para uma criação diferente chamada arte bruta ou, em inglês, "outsider-art", que, na maioria das vezes, é produzida por pessoas que sofrem de desequilíbrio mental. Essa tendência representa um desvio à definição da arte naïf que se poderia chamar de clássica. O que se observou nesse contexto internacional foi, por exemplo, o esgotamento da criatividade dos artistas iugoslavos (hoje croatas), que foram repetindo à exaustão as cenas típicas de Generalic, Kovacic e Lacovic, entre outros, que criaram a escola de Hlebin com a particularidade de utilizar a técnica do óleo atrás do vidro. Um pouco mais tarde, um novo grupo de artistas surgiu do Haiti. Grandes talentos como Hector Hyppolite, Préfète Duffaut, Robert Saint-Brice foram divulgados nos Estados Unidos e tiveram um sucesso imediato obtendo inclusive forte valorização. Há ainda hoje certo encanto para os pintores haitianos, porém, a inevitável necessidade comercial dos artistas provocou uma enorme produção de quadros inspirados dos mestres na procura de uma venda garantida ao detrimento de novas criações. Hoje, no contexto internacional, a arte naïf brasileira está conquistando um lugar de destaque graças ao surgimento de artistas inéditos que apresentam uma obra original, diferente de tudo que já foi produzido, pois a temática é baseada em cenários típicos de acordo com a convivência e origem de cada um. A arte naïf no Brasil se desenvolveu mais tarde, no final dos anos 1940, mas apresenta até hoje uma diversidade fora do comum com quadros valiosos de Chico da Silva, José Antonio da Silva, Rosina Becker do Vale, Iaponi Araújo, À esquerda: Isabel de Jesus, A fuga, 2016. Acima: Ivonaldo Veloso de Melo, Melancias, 1988 e C. Sidoti, A grande cidade, 2011.


Agostinho Batista de Freitas, Colheita de trigo, 1991.


Antonio Poteiro e Isabel de Jesus, para citar apenas alguns exemplos. Um índio, nascido na Amazônia, mudouse para o Ceará e experimentou várias profissões tais como sapateiro, funileiro, consertador de guarda-chuva, soldador e pedreiro. Mas o que ele gostava mesmo era de pintar as paredes com carvão, tijolo branco e vermelho. Foi assim que Chico da Silva foi descoberto por acaso pelo pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, que lhe ofereceu tinta guache e o apoiou expondo suas pinturas na Suíça. Isso foi nos idos de 1943. Seus traços, inicialmente feitos a carvão, impressionavam pela riqueza de detalhes. Eram dragões, peixes voadores, sereias, figuras ameaçadoras e de grande densidade.

Em 1946, os críticos Lourival Gomes e Paulo Mendes de Almeida descobriram, na Casa da Cultura de São José do Rio Preto, José Antonio da Silva. No ano seguinte, ele foi convidado a realizar sua primeira exposição individual em São Paulo. Silva, como é chamado com carinho pelos colecionadores, é um fenômeno, um gênio, ou, como escreveu o crítico Theon Spanudis, "um artista de uma excepcional sensibilidade que se expressa como verdadeira alma artística, com intensidade e dramaticidade fora do comum". A grande dama da arte naïf carioca tem nome: Rosina Becker do Valle. Gostava de interpretar as danças e as festas folclóricas com cores vivas e luminosas.

Iaponí Araújo, Eleonora e o cabritinho, 1978.

38 CAPA


O final da década de 1960 marcou o começo da carreira de Ivonaldo Veloso de Melo. De Caruaru, terra de importante produção de cerâmicas populares, Ivonaldo sempre se sentiu à vontade para promover seu Pernambuco. No começo, usava cores "ensolaradas" para testemunhar a seca do Nordeste e o trabalho penoso do seu povo. Quando foi morar na Europa, tanto a temática quanto as cores mudaram por completo e seus quadros pareciam mais tristes. Em 1980, sua volta definitiva para o Brasil foi celebrada com uma temática da paisagem nordestina que refletia sua felicidade de estar de volta à terra natal. Alguns anos mais tarde, instalouse em Olinda, reencontrando a luz, o sol e a convivência com os seus conterrâneos. Pintava o que foi

qualificado de explosão de cores, tornando-se o artista naïf vivo mais procurado do país. Adoentado há vários anos, Ivonaldo faleceu no final de junho deste ano e está sendo homenageado com a apresentação de quatro obras que ilustram as várias fases da sua pintura ao longo da sua carreira dinámica e muito bem sucedida. Iaponí Araújo era do Rio Grande do Norte e veio se instalar no Rio de Janeiro. Sua pintura foi sempre dedicada a ilustrar histórias do cordel com um refinamento no desenho que lembrava a estampa japonesa. Isabel de Jesus, uma artista criativa e de enorme talento acaba de receber uma homenagem merecida na forma da publicação de um belo livro celebrando 50 anos de uma trajetória artística bem


sucedida. Depois de criar um fundo de nuvens coloridas aleatório, a artista vai ao desenho deixando que o inconsciente guie suas composições. Antonio Poteiro é outro nome de grande prestígio; descrevia as cavalhadas de Goiânia, a Santa Ceia, cirandas, presépios, tudo temperado com um pouco de fantástico saindo da sua imaginação. Longe de mim a pretensão de nomear todos os artistas naïfs importantes do Brasil. Esse país é tão gigante quanto seu potencial de criatividade. O que não se pode negar é que há em todos os cantos gente observadora, festiva, acolhedora e de muita sensibilidade. Tudo que uma boa arte precisa.

Grande Exposição de Arte Naïf • Galeria Jacques Ardies • São Paulo • 22/11 a 23/12 Brasil Naïf - Uma viagem na alma brasileira • Memorial da América Latina • São Paulo • 12/11 a 6/1/2017

Jacques Ardies é galerista e autor de dois livros. Organizou exposições de naïfs brasileiros no Museu A. Jakovski de Nice e no Memorial da América Latina em São Paulo.

À esquerda: Antonio Poteiro, Vida na cidade, 1990. Acima: Chico da Silva, O grande pássaro, 1966.


GONÇALO IVO POR ELE MESMO

“Em uma viagem à Grécia, em 2013, visitei a ilha de Hydra. De lá, trouxe várias dezenas de estudos que acabaram se transformando em pinturas e aquarelas. Impossível

para o viajante, e

Impossível para o mesmo para o morador desta viajante, e mesmo ilha, não se arrebatar pela para o morador desta ilha, não se multiplicidade de todos os azuis arrebatar pela que o misterioso mar grego multiplicidade de guarda. todos os azuis que o misterioso mar grego guarda. Esse óleo sobre tela de 200 x 150 cm que pintei em 2013 é uma elegia ou contemplação a essa atmosfera ora densa, ora transparente que a natureza é capaz de informar aos nossos sentidos.”

42 REFLEXO


Contemplações - Hydra, 2013.


“Esta é a pintura mais recente produzida nos últimos três meses. É um óleo sobre tela de 150 x 300 cm. Faz parte de uma série nova de trabalhos que explora de maneira ainda mais visceral a questão dos fundamentos da música em meu trabalho. Imaginei essa peça como uma partitura musical ou a leitura dela em suas oscilações, cortes, inflexões, velocidade, silêncios e ruídos, etc. Ao mesmo tempo, o que nós artistas imaginamos o que é novo, na verdade habita o que fizemos antes. Portanto, essa nova pintura me recorda os rios São Francisco do final dos anos 1980, início dos 1990, bem como os Tissu d'Afrique de 2006, 2007. Apesar do colorido em uma clave muito, alta, rosas, violetas, vermelhos, e alguns contrastes com os brancos, penso nessa pintura como uma espécie de mandala ou os coloridos papéis de oração nepaleses.”

44 REFLEXO


Preludie, Fugue e Contrepoint, 2016.

Ao mesmo tempo, o que nĂłs artistas imaginamos o que ĂŠ novo, na verdade habita o que fizemos antes.


durante o inverno europeu, veio-me Ă mente esse momento em que o que chamamos linha do horizonte surge a primeira luz dividindo o mundo em dois.

46


“Em uma das várias viagens entre Paris e Madri, durante o inverno europeu, veiome à mente esse momento em que o que chamamos linha do horizonte surge a primeira luz dividindo o mundo em dois. Mais uma vez, um acontecimento da natureza me faz mover em direção à pintura. Essa tela em tons profundos, escuros, é como se fosse aquele momento da transformação bíblica. A pintura é também um comentário a esse estado de contemplação lento que a natureza nos obriga a operar.” Aurora, 2014.


“Em 2008, em uma praia deserta na costa do Ceará, depareime com um cemitério abandonado. Porém, a cena não era de desolação, mas de parentesco com a pintura primitiva italiana encarnada em sua forma mais sublime, na obra de Giotto. Percorri as estreitas aleas deste cemitério invadido pelas areias de uma duna próxima e pelo vento do mar. Do chão, recolhi uma dezena de madeiras velhas e apodrecidas, e também parte de uma cruz de concreto que em outro tempo adornava uma sepultura. Da praia contígua, resgatei essas …em uma praia deserta na costa duas pedras, e do Ceará, deparei-me com um com elas e esse bloco de cemitério abandonado. Porém, a mármore, fiz cena não era de desolação… esse objeto que batizei de "Campo Santo".”

Gonçalo Ivo, A pela da pintura Museu Oscar Niemeyer, Curitiba 27/10 a 26/2/2017 48 GONÇALO IVO


Campo Santo, 2008.


AGNES MARTIN Pintura sรณlida


Mid Winter, ca. 1954. Todas as imagens: Š 2015 Agnes Martin/Artists Rights Society (ARS), New York.


GUGGENHEIM DE NOVA YORK HOMENAGEIA A ARTISTA AMERICANA COM SUA MAIOR RETROSPECTIVA

POR REDAÇÃO Agnes Martin faleceu em 2004, aos 92 anos, como artista plástica ainda ativa e um nome forte na história da arte norteamericana. Agora, Tate e Guggenheim se unem para criar sua maior retrospectiva, a primeira desde sua morte, em cartaz em Nova York até janeiro, com 115 obras em diversos suportes. Com frequência associada ao minimalismo, mas talvez mais próxima 52 DO MUNDO

do expressionismo abstrato, Agnes Martin foi uma das poucas artistas femininas a emergir desses movimentos predominantemente masculinos dos anos 1950 e 1960. Criou pinturas sutis e evocativas, compostas de grades e listras e com frequência contendo inscrições a lápis, que influenciaram muitos artistas de seu tempo e das gerações seguintes. Agnes nasceu em 1912, em Saskatchewan, no Canadá. Mudou-se para os Estados Unidos aos 20 anos e se


Agnes criou pinturas sutis e evocativas, composta de grades e listras e com frequência contendo inscrições a lápis, que influenciaram muitos artistas de seu tempo e das gerações seguintes.

À esquerda: Agnes Martin com nível e escada, 1960. Photo: © J. Paul Getty Trust. Acima: Gratitude, 2001.


Sem tĂ­tulo, 1957.


Agnes manteve uma profunda convicção no poder emotivo e expressivo da arte e de superfícies artesanais e delicadas.

tornou cidadã dos Estados Unidos, em 1950. Em 1957, passou a morar na região de Coenties Slip, em Manhattan, lar de um círculo efervescente de artistas que incluía Robert Indiana, Ellsworth Kelly e James Rosenquist. Tornou-se conhecida rapidamente e, um ano mais tarde, teve sua primeira individual na Galeria Betty Parsons. Nessa época, Agnes já tinha abandonado a pintura de paisagem e as aquarelas figurativas de seus anos de formação, bem como as pinturas a óleo de formas orgânicas que seguiram, em favor de experimentos em vários suportes. Usava materiais que encontrava e produzia grandes abstrações simplificadas. Suas pinturas dos anos 1960 se distinguem por formatos quadrados, grades, linhas e inscrições a lápis, composições com sutis variações de tonalidade e matiz em campos de cor apagados por lavagens. Marcaram um ponto importante na história da abstração e com elas Agnes estabeleceu uma linguagem geométrica e espacial que refinaria e reinterpretaria ao longo das décadas seguintes. Apesar de seu estilo comedido - e, ao contrário do

56 AGNES MARTIN


À esquerda: The Egg, 1963. Acima: Sem Título, 2004.

trabalho rigidamente formulado dos minimalistas - manteve uma profunda convicção no poder emotivo e expressivo da arte e de superfícies artesanais e delicadas. Agnes deixou a cena artística de Nova York e abandonou a pintura em 1967, em meio a um interesse crescente por seu trabalho. Em busca da solidão e do silêncio, viajou pelos Estados Unidos e

pelo Canadá por quase dois anos antes de finalmente se instalar no Novo México, onde viveu o resto da vida. Depois de um longo hiato, publicou "On a Clear Day" (1973), um portfólio de 30 serigrafias de grades e linhas paralelas de proporções diferentes. Começou a pintar novamente em 1974, fazendo das listras seu principal elemento de composição, e continuou a explorar e 57


refinar seu estilo parco até os últimos anos de sua vida, quando voltou a introduzir formas geométricas mais ousadas em suas pinturas. Os títulos de suas obras sugerem uma preocupação com o mundo natural, como "Pedra Branca" e "Flor Branca", e era sabido que se interessava pela arte como forma de evocar a experiência da natureza. No entanto, sempre negou firmemente a presença de quaisquer elementos representativos em seu trabalho: "É realmente sobre o sentimento de beleza e liberdade que você experimenta na paisagem. Minha resposta à natureza é uma resposta à beleza. A água é linda, as árvores são lindas, até o pó é lindo. É a beleza que realmente chama."

Agnes Martin • Solomon R. Guggenheim Museum • Nova York • 7/10/2016 a 11/1/2017.

58 DO MUNDO


Sem Título #2, 1992.


LIVROS lançamentos Arte Dinamite Francisco Bittencourt Editora Tamanduá Arte - 550 p. - R$ 60,00 O livro revela um rico panorama do autor, além de parte importante da história da arte e da crítica de arte no Brasil. Os organizadores realizaram uma ampla pesquisa de textos nos veículos de comunicação onde Francisco atuou e selecionaram cerca de 130 publicações que mostram os diferentes aspectos de sua produção crítica. Dono de um texto forte e envolvente, Francisco Bittencourt escrevia sobre os artistas contemporâneos da época e também sobre as Bienais, os Salões de Artes Plásticas e as instituições, principalmente o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Museu Nacional de Belas Artes.

Fragmentos Geraldo Melo Editora Kairos Assessoria de Arte - 134 p. - R$ 120,00 Foram quase 50 anos entre a primeira foto tirada em Salvador, em 1968, e as últimas séries feitas ano passado, nas viagens a Havana e Nova York. Nesse período, o fotógrafo Geraldo Melo passou por mais de 30 cidades ao redor do mundo, entre elas Amsterdã, Jerusalém, Faixa de Gaza, Macapá, Tanger, Kanpur e Varsóvia. A união de tantas histórias, cores e culturas está na edição bilíngue Fragmentos, que ganhou prefácio de Rogério Reis. O artista, que já teve textos críticos escritos por nomes como Ferreira Gullar e Waly Salomão em trabalhos anteriores, também é o autor dos poemas que acompanham as mais de 100 fotos do livro.


Somos Iguais Nazareno Rodrigues Texto: Tainá Azeredo. Editora Oi Futuro - 234 p. - R$ 70, 00 A obra traz um panorama da produção recente do artista, com textos, que explicitam a beleza singela e particular de sua produção. Entre os destaques do compilado está a documentação de uma exposição homônima realizada pelo artista em 2014, no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. A mostra “Somos iguais”, que teve curadoria de Tainá Azeredo, trouxe uma série de brinquedos infantis, antigos instrumentos musicais, além de intervenções fotográficas, sonoras e visuais, que juntos propiciaram a seus visitantes uma experiência lúdica por meio de uma imersão num espaço que poderia ser uma casa ou um quarto de brincar.

Movimento Estático Lucas Lenci Valongo Editora - 36 p. - R$ 100,00 Durante três anos, 2014, 2015 e 2016, Lenci fotografou, parado, observando, de frente para cada cenário, por pelo menos três horas em cada uma das 17 locações escolhidas. Paris, Nova York, Amsterdã, Vaticano, Lisboa, e São Paulo foram algumas das cidades escolhidas por ele para ocupar as 36 páginas do livro, que contem as 17 obras, cada uma delas resultado de uma combinação de mais 24 fotografias do mesmo local. “As repetições dão essa sensação de ininterrupção e celebram o infinito. Assim como o formato do livro que é montado em torno de uma espiral, dando a possibilidade de diversas leituras"


RESENHAS exposições

Rolf Behm: Naturezas mortasbagagens AM Galeria de Arte • Belo Horizonte • out a nov/2016 POR MICHELLE BETE PETRY

Diz Walter Benjamin, sobre o olhar para uma fotografia, que "o observador sente a necessidade irresistível de procurar nessa imagem, a centelha do acaso, do aqui e agora". Da mesma forma, poder-se-ia sentir o observador diante de uma obra do artista alemão, Rolf Behm (1952), que integra a sua mais recente série, intitulada "Naturezas mortas-bagagens". Exposta na capital mineira, entre outubro e novembro de 2016, sob a curadoria de Emmanuelle Grossi, trata-se de dez pinturas selecionadas de uma mostra realizada anteriormente na Alemanha. Dispostas em três espaços distintos da galeria, elas estão, porém, ligadas elegivelmente umas às outras por meio de uma triangulação visual. Tal disposição permite ver de perto, e também a distância, os motivos centrais do conjunto: as malas, bagagens de mão, repositórios de objetos, lembranças e histórias. Fazendo uso de uma paleta de cores em que predominam os tons de azul, verde e laranja, o artista sinaliza para uma correspondência entre elas e os objetos representados. As colagens de papel sobre as telas parecem reforçar, ainda, a tentativa de alcançar a densidade e, pelo contraste, a transparência dos objetos, que inibem ou permitem a radiação, tal como em uma máquina de raios X. No entanto, diferentemente das imagens capturadas pelo escâner, a obra avança para além dos contornos, com manchas, pingos e

escorrimentos de tinta até os limites do quadro, uma característica de outros trabalhos do artista. Se, por um lado, a construção de camadas indica a existência de objetos, por outro, a sua indefinição leva à abstração do figurativo, à presença do ausente, ao sujeito do objeto. Para o crítico Christian Bertram, as "malas em trânsito" seriam a própria bagagem do pintor; peças de arte. Os aeroportos, lugares de passagem para Behm, são o ateliê provisório do artista, onde da imagem congelada pelo olhar mecânico se passa ao desenho como um esboço para a pintura que será, por que não, a representação de uma fotografia, capturada pelo olhar humano. O reaparecimento do pintor diante desta diz, ao mesmo tempo, sobre a sua identidade e a dos transeuntes anônimos, sobre a visibilidade do oculto, sobre a interrupção do fluxo entre passado, presente e futuro. As bagagens de Behm aparecem, portanto, como instantes únicos apreendidos na obra de arte; como registros do tempo, da memória e da existência; como naturezas-vivas.

Michele Bete Petry é historiadora, doutora em Educação pela UFSC e faz pesquisas na área de artes visuais.


O útero do mundo MAM • São Paulo • 5/9 a 18/12 POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA

Nós podemos ser um corpo, mas um corpo dificilmente é tudo o que somos. "O útero do mundo", exposição com curadoria da escritora e crítica de arte Verônica Stigger, coloca de modo visceral a assertiva: "somos mais do que um corpo". Na seleção de cerca de 280 obras, Verônica revela, acima de tudo, por meio da imagem de corpos convulsionados, histéricos e indomáveis, a ideia de construção de um "corpo contemporâneo", a partir de vivências libertárias pessoais e coletivas. Sob a perspectiva contemporânea, a noção moderna de corpo, visto como o lugar do ser, da razão e da consciência, tornase uma concepção deficitária. Isso porque somado às influências ambientais, históricas e sociais, o corpo se transforma também na última morada

do ancestral, do primário, do irascível e do impulso. A verve literária da curadora surge na divisão dos núcleos da mostra. Inspirada por Clarice Lispector, ela tece as relações que envolvem os trabalhos em três seções: "Grito ancestral", "Montagem humana" e "Vida primária". Esses núcleos marcam a seleção de 120 artistas que traz nomes reconhecidos no cenário atual da arte, entre eles: Sandra Cinto, Vick Muniz, Claudia Andujar, Dora Longo Bahia, Cildo Meireles, Adriana Varejão, Tunga, Nazareth Pacheco, Hudinilson Jr. e, muitos outros. O projeto museográfico, assinado por Felipe Tassara, traz cores incomuns para dividir os três núcleos e opta por uma ocupação dos painéis perturbadora, uma vez que a acumulação exige do espectador extrema atenção. Mais importante do que as opções museográficas (que, diga-se, também lançam questionamentos sobre a visão moderna de exibição de obras), tornamse relevantes todos os aspectos que movem o debate contemporâneo que coloca o corpo e, sobretudo, o corpo feminino em evidência. Em "O útero do mundo", a forma inovadora de apresentação do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo ganha ainda uma leitura instigadora, que mostra a quebra dos recalques, da repressão e dos padrões de comportamento impostos pela cultura ocidental. Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais - ECA USP e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte ABCA.


MARINA HACHEM POR ELISA MAIA Para os trabalhos que figuraram na coletiva "Um Desassossego", na Galeria Estação, e em sua primeira individual, na Arte Hall, Marina Hachem parte de registros coletados sobre o Líbano, especialmente sobre Beirute, cidade onde o pai dela nasceu. A artista conta que sempre se interessou pela história de sua família e que sentia do seu pai certa recusa em falar sobre o assunto, como "se ele escondesse algo", fazendo com que ela fosse em busca de relatos de outros parentes. "Cada um contava uma história completamente diferente,

ou a mesma história de formas muito diferentes e achei interessante não poder saber realmente o que aconteceu", conta Marina. Essa multiplicidade de vozes que vão (re)construir a memória lacunar de um tempo passado se reflete na multiplicidade de registros que povoam seus trabalhos. Em suas telas, a artista intercala fotografias de parentes, encontradas em álbuns antigos de família, com imagens e informações retiradas de um livro sobre a reconstrução da cidade no pós-guerra "é como se eu estivesse tentando levar meus familiares de volta às suas raízes".


Lançando mão de uma mistura de materiais - concreto, grafite, tinta acrílica, arame, gesso, barbante Marina consegue explorar as lacunas entre delicadeza e brutalidade, leveza e densidade. No suporte da tela, o tecido tem sua materialidade evidenciada, ora ficando aparente, ora sofrendo rasgos e cortes, e as imagens desenhadas em grafite parecem encrustadas ou escavadas na massa de concreto. Essa forte carga de materialidade cria espaços onde imagem e matéria se fundem e se confundem, como nos trabalhos onde o desenho é resultado da costura do barbante ou do gradeado do arame. Suas figuras parecem sobreviver nos intervalos de uma cobertura ainda por vir ou aprisionadas em grades de arames. Funcionam, assim, como índices de um passado perdido ou como fragmentos de uma memória enterrada em meio aos escombros desses materiais de construção. Para saber mais, acesse www.marinahachem.com. Elisa Maia é formada em direito e letras e mestre em literatura, cultura e contemporaneidade. Interessa-se especialmente pelas relações entre literatura e artes visuais.

Em suas telas, a artista intercala fotografias de parentes, encontradas em álbuns antigos de família, com imagens e informações retiradas de um livro sobre a reconstrução da cidade no pós-guerra.


NOTAS DO MERCADO Fatos, valores, curiosidades e tendências BANCO SANTOS teve as obras de arte que integravam sua massa falida vendidas em leilão em novembro, pelas mãos de Aloisio Cravo, arrecadando o total de R$ 11,8 milhões. Entre as obras mais disputadas estavam um grande aço corten de Amílcar de Castro, avaliado em R$ 220 mil e vendido por R$ 1,55 milhão, e uma escultura de Brecheret (foto) avaliada em R$ 1,1 milhão e vendida por R$2,7 milhões. Surpreendeu também o valor pago por uma tela de Antonio Manuel, avaliada em R$ 9 mil e vendida por R$ 220 mil, entre outros. Especula-se que os preços surpreendentes alcançados pelas obras sejam resultado do burburinho gerado pela venda entre profissionais do mercado financeiro. Um segundo leilão no fim do mês ofereceu fotografias, mobiliário e outras obras de arte que pertenciam ao banco.

MAZO A 1a casa de leilões de arte de Curitiba teve sua venda inaugural no início de novembro. Apesar dos bons valores alcançados por obras de artistas queridos na cidade, como Juarez Machado e Alfredo Andersen, a maior parte dos 88 lotes não encontrou comprador. Nesta era digital, ainda que o mercado curitibano não comporte uma venda dessa proporção e qualidade, o trabalho bem feito da Mazo pode almejar compradores de fora em uma próxima venda ou redimensionar a seleção de lotes para atender apenas a cidade.

LEILÕES DE NOVA YORK A temporada de leilões de novembro em Nova York foi agitada, com muitos recordes de preço e um total em vendas de US$ 2,3 bilhões, afugentando temores de paralisia pós-Trump. O resultado, ainda que impressionante, foi alcançado com leilões menores, com média de número lotes oferecidos inferiores ao de 2015, talvez este sim um indício de que há maior insegurança entre quem vende do que entre quem compra. Entre os recordes, destaque para Claude Monet (foto), com tela vendida a US$ 81,4 milhões, e de Kandinsky, com obra vendida a US$ 23,3 milhões. Gerhard Richter também surpreendeu, com tela vendida a US$ 27,7 milhões, enquanto outra obra do artista, um retrato duplo, não encontrou compradores a US$ 3 milhões. 68


LEILÕES LATINOAMERICANOS de Nova York tiveram resultados dentro do esperado. Uma boa notícia são os leilões exclusivos online: uma seleção de lotes passou a ser oferecida apenas via web pela Christie's. O dos latino-americanos recebeu lances de 16/11 a 1/12. Alguns resultados dignos de nota:

PHILIPS

Osgemeos Técnica mista sobre portão em madeira 213 x 170 cm Est. US$ 120 - 180mil Venda: US$ 310 mil

Marina Rheingantz Óleo sobre tela, 2011 220 x 230 cm Est. US$ 20 - 30mil Venda: US$ 31mil

Lygia Pape Madeira pintada, 1965 50 x 50 cm Est. US$ 400 - 600 mil Não vendida

Mariana Palma Óleo sobre tela, 2012 200 x 120 cm Est. US$ 50 - 70mil Venda: US$ 50 mil

CHRISTIE'S

Pablo Atchugarry Mármore, 2015 190 x 30 x 29 cm Est. US$ 150 - 200 mil Venda: US$ 439,5 mil

Cildo Meirelles Óleo sobre régua, 19771999 22 x 37 cm Est. US$ 80 - 120 mil Venda: US$ 162,5 mil

Sergio Camargo Madeira pintada, 1970 121 x 156 cm Est. US$ 1 - 1,5 milhão Venda: US$ 1,5 milhão

Antonio Dias Óleo sobre tela, 1970 94 x 94 cm Est. US$ 200 - 300 mil Venda: US$ 271,5 mil

SOTHEBY’S

Lygia Pape Madeira pintada, 1959 50 x 50 x 8 cm Est. US$ 200 - 250 mil Venda: US$ 324,5 mil

Leon Ferrari Metal, 1981 100 x 50 x 50 cm Est. US$ 125 - 175 mil Não vendida

Osgemeos Acrílica e spray sobre tela, 2008 163 x 130 cm Est. US$ 100 - 150 mil Não vendida

Vik Muniz Fotografia (2/6), 2005 102 x 112 cm Est. US$ 20 - 30 mil Venda: US$ 31,5 mil


COLUNA DO MEIO Fotos: Denise Andrade

Quem e onde no meio da arte

Cesar Giobbi e Vilma Eid

Claudia Jaguaribe e Adriano Casanova

Feira PARTE São Paulo Eduardo Oliveira, Cesar Fraga Lomas e Jackie Shor eMurilo Gina Elimelek

Fabio Porchat e Caciporé Torres

Camila e Ana Maria Vieira Santos e Andrea Rehder

Lina Wurzmann, Tamara Brandt Perlman e Carmen Schvartche

Ana Luiza Rego, Boni e Alexandre Murucci

Zuma Mercadante, Yara Figueiredo e Jorge Pontual

Artigo Rio Art Fair Rio de Janeiro Andrea Thompson e Horacio Ernani

Patricia-Midosi, Laura-Burnier, Alicia Gayoso e Cris Pimentel

Osvaldo Gaia, Cecília Ribas e Fred Arede

Jeferson Svoboda, Ana Luiza Rego, Davi Cory e Chica Granchi


Fotos: Paulo Jabur

Vandinha Klabin, Nani Rubin e Cláudia Melli

Iole de Freitas e Carlos Zílio

Eloá Carvalho MAM Rio Rio de Janeiro Eduardo Oliveira, Cesar Fraga Ana Holck e Fernanda Lopes e Gina Elimelek

Ângelo Venosa

Ana Linnemann, Daisy Xavier e Beth Jobim

Fernando Cochiarale e Carlos Alberto G. Chateaubriand Fotos: Paulo Jabur

Betty e João Carlos Galvão e Anna Paola Protasio

Roma Drummond e Pedro Tebyriçá

Carlos Zílio MAM Rio Rio de Janeiro Hugo Bianco, Carlos Zílio, Carlos Alberto G. Chateaubriand e Vandinha Klabin

Bruno Miguel e Mauro Saraiva

Cildo Meirelles

Antonio Manuel, Carlos Zílio e Daniel Feingold


ALTO FALANTE

Por Alexandre Sá

A era da in-certeza Somos bombardeados incessantemente por infinitas incertezas. Inclusive pela imagem da remota saída de uma crise que é e sempre foi parte de um sistema capitalista de operacionalização, que, em sua presteza, invade outros microssistemas de funcionamento, pensamento e ideologia. A Arte não escapa disso. Nunca escapou. Talvez, ao longo do tempo, o que se pôde ver foram grandes exemplos de artistas, grupos, coletivos e comunidades que não aceitaram de maneira cândida o panorama e insuflaram seus trabalhos de inquietações, angústias, inconformismos e obviamente, luta. Se há um legado inquestionável do século 20 é a própria incerteza do que vem a ser arte. Não exclusivamente pela onipresença duchampiana, pela afirmação de Beuys, ou mesmo por alguns trabalhos que eventualmente se descortinam como resposta a uma histeria que pressupostamente ainda se indigna com o esvaziamento matérico passível de ser encontrado em algumas propostas que, por necessidade clara de continuidade do funcionamento da roda, são suportados pelo sistema e por toda a sua equipe. Tal lógica entrópica dá a tônica de um processo de reinvenção operacional que muitas vezes pouco se preocupa com o público (exceto enquanto outro-cultural) ou com a possibilidade de desenvolver um diálogo mais horizontal entre os eixos. O que não é o caso desta Bienal. E isso é um mérito que merece atenção. Apesar do fetiche conceitual que envolve o trabalho de arte contemporânea e norteou a penúltima edição (Como falar sobre coisas que não existem - 2014) e que também já era passível de ser percebido na anterior (A iminência das poéticas - 2012), esta edição aposta na força de uma visualidade que ressurge transmutada, transvestida, processada, ligeiramente melancólica e, inevitavelmente, pop-politicamente-correta, quase naïf. O risco corrido é, antes de qualquer coisa, uma aposta justa e uma tentativa potente de apontar para um outro caminho. E talvez, nesse sentido, resida aí, também, seu grande deslize: o mundo não é dicotômico. Por outro lado, em virtude de toda a beligerância que se vê e se vive e da cisão absoluta entre dois polos, tal dicotomia parece justa, se conseguisse endossar certa divisão política, econômica, racial, religiosa e fantasmagórica que parece ressurgir no mundo hoje. E isso, esta Bienal não faz. Inclusive, parece suspeita, a quantidade rasa de trabalhos expostos que discutam as relações perversas e escandalosamente agressivas que patrocinam a esfera pública no Brasil. Alguma saudade dos pichadores? Mesmo quando encarnados como convidados? O título desta edição traz uma aporia plural, que termina por desaguar em uma afirmação categórica que se descortina atmosfericamente em alguns momentos e se coloca de maneira contundente logo na entrada da exposição: uma cidade exaurida e um desejo árcade de fuga para uma proposta ecológica e global. Nesse sentido, o trabalho de Laís Myrrha, as duas torres que ocupam o vão do prédio, parece incorporar uma carga simbólica bastante útil ao pensamento que atravessa a exposição. Mesma situação do trabalho de Bené Fontelles e, obviamente, Frans Krajcberg. Por certo, não defendo que toda a questão ecológica e a preocupação com o ambiente, não seja imprescindível para que se possa continuar nos arrastando enquanto vivos; por outro lado, é impossível desconsiderar a necessidade de apontamento de outras alternativas e escolhas,


Se há um legado inquestionável do século 20 é a própria incerteza do que vem a ser arte. como por exemplo no impecável trabalho de Jorge Menna Barreto que alia fé, muito trabalho e militância sem pasteurização; embora também seja a única opção de alimentação no espaço. Talvez seja importante perceber (ou lembrar, já que isso é extremamente velho) que o espaço museológico por si estetiza de maneira natural, por mais paradoxal que pareça, situações que estão e são para serem vividas em alguma outra barbárie cheia de vento, erigindo elementos insuflados por uma lógica mercantil e, eventualmente, espetacular. Como por exemplo, o desconcertante, grotesco e potentíssimo vídeo de Jonathas de Andrade. Dessa forma, a expografia de Álvaro Razuk é extremamente sagaz, pois evidencia com uma elegância ímpar a impotência imponente e claustrofóbica do prédio da Bienal (bem como de toda a mitologia da arquitetura modernista), apontando o óbvio: a vida é o que está lá fora. E aproveitando para explicitar que talvez a velha comunhão com a arte já esteja em absoluto desuso. Em um belo texto recente, Fabio Cypriano expõe a fraqueza inquestionável das instituições de arte em São Paulo e defende que esta edição da Bienal é uma fuga à monotonia e uma possibilidade de artistas produzirem obras experimentais. Embora aqui, no Rio de Janeiro, grande parte das instituições tenham conseguido abrir suas portas para uma produção experimental "no budget", compreendi a colocação e a relação feita, mas terminei achando alegórica a consideração de que a Bienal proporcionaria, ou poderia vir a proporcionar, algum tipo de experimentação, já que, obviamente, todo o mundo sabe que todo o mundo sabe, as escolhas dos nomes dos artistas é um processo imbricadíssimo que implica uma série de negociações para além do próprio trabalho. Embora não seja relevante nesse caso, não custa lembrar que o curador Jochen Volz esteve durante muito tempo ligado a Inhotim, foi cocurador da Bienal de 2006 e curador de Terra Comunal, exposição importantíssima e não menos muito bem orçada de Marina Abramovic. E ainda, por mais óbvio que pareça ser, a Bienal é um panorama. Apenas um. A arte hoje talvez, tenha percebido em sua própria pele um parodoxo quase intransponível: ela é uma dobra, uma fita de Moebius e é nessa inconstância selvagem entre o dentro e o fora que vagarosamente se percebe inapta, incapaz de se confortar com o mero espaço delimitado de uma exposição, de uma instituição ou de um código semântico. Sejam eles quais forem e venham de onde vier. O que nos resta é uma nova partida dentro de um jogo infinito e não menos delicioso, um outro cósmico balé triádico entre obra, artista e espectador; já que, por mais romântico que pareça, ainda são eles os grandes jogadores. Deixo então outra pergunta para os próximos curadores e patrocinadores impressos em série nos bancos da Bienal de 2018: Qual o papel que ainda lhes cabe? E um pedido: Leiam ou releiam "O artista como etnógrafo", de Hal Foster. De preferência, no original. Alexandre Sá é crítico e curador, professor do Instituto de Artes da UERJ, da EAV Parque Lage e coordenador do curso de Artes Visuais da Unigranrio.


Lançada em 2008, a Dasartes é aprimeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente em seu aplicativo para tablets e celulares e no site dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.

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Revista Dasartes Edicao 55  

ARTE NAÏF BRASILEIRA FERREIRA GULLAR GONÇALO IVO AGNES MARTIN ARTISSIMA MARINA HACHEM

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