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CARLOS ZILIO DJANIRA DAVID HOCKNEY VANDERLEI LOPES CONCURSO GARIMPO


DIRETORA Liege Gonzalez Jung CONSELHO EDITORIAL Agnaldo Farias Artur Lescher Guilherme Bueno Marcelo Campos Vanda Klabin PRODUÇÃO André Fabro PUBLICIDADE publicidade@dasartes.com

Capa: Carlos Zilio, Atensão, 1976. Foto: Leandro Carneiro.

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Contracapa: Vanderlei Lopes, Cena.

AL David Hockney, Domestic Scene, Los Angeles, 1963. (Detalhe).


DJANIRA

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CARLOS ZILIO

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06 De arte a z 42 Livros 44 Resenhas

VANDERLEI LOPES

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do 56 Coluna meio

LTO FALANTE

DAVID HOCKNEY

CONCURSO GARIMPO

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46

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DE ARTE A Z Notas do circuito de arte

ARMORY SHOW RENOVA E ESTREIA NOVO PROGRAMA COM NOMES DE PESO A Armory Show anunciou as galerias e os artistas participantes da edição inaugural de seu novo setor chamado “Plataform”. Com curadoria de Eric Shiner, o programa inclui 12 grandes obras de arte, instalações e site-specifics de nomes internacionalmente conhecidos como Abel Barroso, Patricia Cronin, Douglas Coupland, Olga de Amaral, Dorian Gaudin, Jun Kaneko, Per Kirkeby, Yayoi Kusama (foto), Iván Navarro, Fiete Stolte, Lawrence Weiner e Ai Weiwei.

NOVA DATA, NOVO MUSEU

ESCULTURA ROUBA CENA

MUSEU DE US$ 1 BILHÃO

Na Indonésia

Bienal de Kochi

Em Los Angeles

O Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nusantara (Museu MACAN) anunciou que será oficialmente aberto ao público em Jacarta, em novembro de 2017, após atrasos na construção de seu edifício. A base da coleção do museu é de seu fundador Haryanto Adi Oesoemo, com mais de 800 obras de arte de artistas locais e internacionais.

A escultura incomum do artista escocês Jonathan Owen atrai muita atenção para a Bienal de Kochi. O artista tentou analisar como as mulheres são feitas prisioneiras do mito da beleza. Como Owen fez intervenções artísticas, esculpindo obras existentes e tirando seus nomes e histórias, o trabalho é referido como um ato de "vandalismo elegante".

George Lucas, famoso diretor de cinema, anunciou planos para construir um museu de projeto futurista para abrigar sua coleção de arte e recordações no Parque Exposição na Califórnia, EUA. A extensa coleção pessoal do cineasta inclui dez mil pinturas e ilustrações de Norman Rockwell, NC Wyeth e Robert Crumb, entre outros.

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GRAND PALAIS DE PARIS FECHARÁ PARA REFORMAS

GIRO NA CENA

Feiras de arte ficam sem local O histórico Grand Palais em Paris vai fechar por mais de dois anos a partir de 2020, causando transtornos no calendário de grandes feiras de arte como Fiac, Paris Photo e La Biennale Paris, forçando os eventos a mudarem para locais temporários. O órgão cultural do governo, a Reunião dos Museus Nacionais (RMN), que dirige o Grand Palais, diz que a remodelação da virada do século local está prevista para começar no final de 2020. “A reforma resultará em uma mudança excepcional de alta qualidade, com generosos espaços de exposição para acomodar nossos parceiros e visitantes", diz Sylvie Hubac, presidente da RMN.

Maria Lynch ocupa Oi Futuro Em comemoração aos seus 15 anos de carreira, Maria Lynch ocupará o Oi Futuro Ipanema. A mostra interativa proporcionará ao visitante uma experiência inusitada. Nas nove salas, o público poderá provar doces, escrever sobre as memórias da infância, brincar com objetos divertidos, ver uma rápida apresentação de “pole dance” e ouvir atores fantasiados que farão a leitura de textos filosóficos. Até 19/3.

Para agradecer “Estamos extremamente gratos pelo apoio da Fundação Neilson à visão futura da Bienal e por permitir que a organização construa uma base sólida à medida que planeja suas próximas duas edições."

Kate Mills, presidente da Bienal de Sydney, anunciando a Fundação Neilson como novos patronos para as próximas duas edições.

Pop Art: Última chamada Encerra no fim do mês a mostra “Pop, Nova Figuração e Após”, que reúne 58 obras dos 25 nomes que transitaram de maneira transformadora no Pop Art e a Nova Figuração ou foram além – como Mira Schendel com o desenho “Símbolos”, de 1974, feito em caneta hidrográfica, e Ivald Granato, homenageado em um emblemático óleo de 1977. Até 31/01 na Ricardo Camargo Galeria, em São Paulo.


GIRO NA CENA

Vem aí a India Art Fair 2017 Desde o seu lançamento em 2008, a India Art Fair tem apresentado o melhor da região para o mundo. A edição de 2016 cimentou a importância estratégica da feira no desenvolvimento das artes do Sul da Ásia. Com base nesse sucesso, 2017 terá o retorno da Plataforma – uma seção significativa na feira projetada para proporcionar uma oportunidade única para as galerias, artistas e coletivos de artistas sul-asiáticos emergentes mostrarem suas melhores produções.

TOP 25 DOS LEILÕES DE 2016 Foi divulgada no início do ano a lista das 25 obras de maior valor arrematadas em leilões ao redor do mundo em 2016. Entre nomes como Peter Paul Rubens, Wassily Kandinsky e Jean-Michel Basquiat, no topo da lista está a tela “Meule” (foto) de Claude Monet, de 1891, vendida por 81 milhões de dólares pela Christie’s Nova York. Veja a lista completa em nosso site.

Novas esculturas de Pomeroy Fine Art Society em Londres apresenta novas esculturas de Tim Pomeroy, um dos escultores mais respeitados de sua geração. A exposição demonstra a exploração contínua de Pomeroy na relação entre o sagrado, o mundo natural e as geometrias rítmicas dos objetos do dia a dia nesta mostra com 12 novas obras em pedra e madeira. Baseando suas esculturas em elementos orgânicos, como sementes, pinhas e pétalas, Pomeroy observa a simplicidade e a pureza de suas linhas, destacando sua semelhança com objetos de ritual cerimonial.

8 DE ARTE A Z

VISTO POR AÍ

O esboço sonhador e sensual do mestre do Renascimento de São Sebastião, de Leonardo da Vinci, foi classificado como um tesouro nacional francês em 29 de dezembro. A França agora tem 30 meses para levantar 15 milhões de euros (US$ 15,8 milhões) para comprá-lo em uma casa de leilões.


Estudo para o cartaz da peça “Orfeu da Conceição”, 1956.Todas as fotos: Jaime Acioli.

DJANIRA

O BRASIL DE


CENTRO CULTURAL CORREIOS SÃO PAULO RECEBE RETROSPECTIVA INÉDITA COM 120 OBRAS ORIGINAIS DA PINTORA DJANIRA MOTTA E SILVA

POR DANIELA MATERA “Eu sou ingênua, mas minha pintura não”, declarou Djanira nos anos 1970 quando alguns críticos a denominavam de primitiva. Djanira sonhou em ser pintora e nem mesmo as intempéries da vida poderiam impedi-la de pintar. Na exposição “Djanira: cronista de ritos, pintora de costumes”, destacam-se dois pontos essenciais da artista: Djanira, mulher ingênua, mas pintora moderna, e Djanira, cronista, pintora andarilha e antropóloga, que retratou o cotidiano de seu país com imenso lirismo poético. Pintora moderna, “não improvisa, não se deixa arrebatar” (PEDROSA, 1985, p. 116) e, apesar da espontaneidade descrita em suas pinturas, sua ingenuidade está no seu modo de ver, de experimentar a vida, tentando, por meio do traço, da marca, das cores e da fatura plástica no espaço bidimensional da tela, concretizar o sonho.

Um verdadeiro vestido de noiva. Ilustração para o livro de Xavier Placer, 1956.

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Todas imagens do artista: Foto: Marcelo Magalhães.

A mítica que envolve o surgimento de Djanira pintora pode ser representada pela obra “Costureira”, de 1951. Dona de uma pensão no bairro de Santa Teresa, hospedava artistas como Emeric Macier, que lhe ensinou “a cozinha da pintura”, e realizava pequenos reparos como costureira para melhorar sua condição financeira. Teria sido uma de suas clientes que, ao se deparar com um ateliê de costura com desenhos e croquis afixados pelas paredes, lhe chamado a atenção de Djanira para seu talento artístico. A narrativa 12 DJANIRA

apresentada na exposição foi imposta pela própria temática da artista enquanto cronista de costumes: lazer, trabalho, paisagem e devoção. Temas presentes em toda a sua trajetória e trabalhados exaustivamente pela artista. O lazer, que muitas vezes é fonte de trabalho para uns e de diversão para outros, como nos “Estudos para Ópera de Pequim” (s/d) e pela pintura “O Circo”, de 1944, construída em uma movimentada e rigorosa espiral, com uma vertente infantil e onírica, recebeu a influência de artistas como Pieter


Estudo definitivo para o painel Indústria Automobilística, 1962.

Como uma antropóloga e cronista visual, foi “in loco” para captar fidedignamente o Brasil e seu povo.

Bruguel. É na década de 1940 que, a convite do artista Milton Dacosta, Djanira seguiu pra Nova York. Mesmo sozinha e sem falar inglês, a artista não esmoreceu, entrando em contato com o diretor da New School que, encantado por suas obras, desvelou o mundo artístico nova-iorquino, conhecendo Segall, Chagall, entre outros. De volta ao Brasil, Djanira peregrinou o País em busca do que desejou tornar arte. Como uma antropóloga e cronista visual, foi “in loco” para captar fidedignamente o 13


Enquanto o mundo secular aparece mais despojado, seus santos aparecem em ricos detalhes, em especial na indumentária…

14 FLASHBACK

Brasil e seu povo. Os trabalhadores aparecem silenciosos, em obras como “Trabalhadores de cal” e “Mineiros de carvão”, concentrados em seu oficio, sem rosto, sem fisionomia, humanizados apenas pelos olhos e de certa forma sem apresentar seu gênero, o individuo retratado representa o coletivo. Enquanto o mundo secular aparece mais despojado, seus santos aparecem em ricos detalhes, em especial na indumentária, remetendo aos detalhes da obra “Costureira”. O projeto desenvolvido pela artista, chamado “Oratório”, composto de dez gravuras inspiradas nas iluminuras da Idade Média e acompanhadas pelos poemas de Odylio Costa Filho, foi realizado artesanalmente e concluído com a mão esquerda, já que a mão direita de Djanira havia passado por duas cirurgias e necessitava ficar imobilizada. Esse belo conjunto de gravuras representando patronos e imagens de devoção é impregnado de detalhes barrocos e complexas tramas de motivos como grafismo indígena e chita. Do religioso ao sincrético, no percurso expositivo, os “Estudos para Oratório” de Djanira foram ladeados por dois outros santos. De um lado, São Sebastião e, do outro, São Cosme e Damião, ambos também cultuados pelas religiões de matriz africana. Os estudos, tanto para os orixás quanto para os azulejos, contribuem para desmitificar Djanira como artista naïf. O rigor e a preocupação da composição e da proporção já demonstram que a artista estava além dessa adjetivação. A união entre o cotidiano e a experiência religiosa e mítica, e a sinergia entre o fazer artístico e poético fizeram de Djanira, para além de artista ingênua e/ou primitiva, uma contadora de história que apresenta a imagem do Brasil e sua nacionalidade sem ser ufanista. Seus “instantâneos” sintetizam, pelo purismo da fatura cromática e do


À esquerda: Trabalhadores de cal, 1974. Acima: O circo, 1944.

despojamento das formas, a preocupação estilística da arte moderna brasileira. O homem, como imagem fundamental para construção de suas obras, é aquele que entre a fé e o trabalho, entre as intempéries e seu descanso, torna-se herói. Um homem que sai da própria terra. Para o crítico de arte Mário Pedrosa, Djanira “era a própria terra”. E essa terra, enquanto terra mater, é aquela que dá e tira vidas, mas, sobretudo, é aquela que alça os homens aos sonhos e aos atos de heroísmo.

Djanira: Cronista de ritos, pintora de costumes – Coleção Museu Nacional de Belas Artes • Centro Cultural Correios • São Paulo • 3/12 a 5/2/2017 Daniela Matera é museóloga com especialização em História da Arte e arquitetura no Brasil pela PUC-RIO. Mestre em Museologia e Patrimônio pela UNI-RIO. Professora do MBA e Coordenadora Técnica no Museu Nacional de Belas Artes/Ibram/MinC.

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16 CAPA


CARLOS ZILIO ATENSÃO

Três situações de equilíbrio, da série Atensão, 1976. Todas as imagens: Vista da instalação Atensão de 1976 e 2016. Fotos 2016: Leandro Carneiro. Cortesia MAM Rio


A MOSTRA INDIVIDUAL DE CARLOS ZILIO, DE CARÁTER RETROSPECTO, REALIZADA EM 1976 DENTRO DO PROGRAMA ÁREA EXPERIMENTAL DO MUSEU DE ARTE MODERNA DO RIO DE JANEIRO, É EXIBIDA AGORA, APÓS 40 ANOS POR VANDA KLABIN “Atensão” foca uma produção estética investida de alto teor político, uma arte engajada e com intensos posicionamentos críticos. O sistema de arte brasileiro era muito precário e o espaço experimental do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro foi uma significativa conquista institucional. Essa sala experimental, que ocupava o terceiro andar e outras áreas do Museu, representou um 18 CARLOS ZILIO

espaço independente para consolidar a emergência de uma nova política cultural e abrigar a arte contemporânea brasileira, mas teve sua curta existência, estabelecida entre os anos de 1975 a 1978, interrompida pelo famoso incêndio no MAM, conhecido, como mencionou Roberto Pontual, “o ano que podia ter sido”. O importante é que a Área Experimental registrou um amplo panorama da produção artística daquele período. Carlos Zilio estudou


pintura com Iberê Camargo e suas primeiras obras atendem a uma necessidade histórica, uma exponenciação do mundo, e estão vinculadas ao momento politico e social vigente. Participou de algumas das principais exposições brasileiras da década de 1960, como “Opinião 65” e “Nova Objetividade Brasileira”, ambas realizadas no MAM do Rio de Janeiro. A mostra “ATENSÃO” revê a importante produção de Carlos Zilio, inicialmente marcada nos anos 1960 pela investigação conceitual, pela experimentação e pela presença de objetos com dimensões políticas. Nesse contexto experimental, a atividade artística era como uma extensão da vanguarda política. São evidências de sua postura crítica de resistência à tessitura político-social, que é apropriada pelo olhar do artista

suas primeiras obras atendem a uma necessidade histórica, uma exponenciação do mundo, e estão vinculadas ao momento politico e social vigente.

À esquerda: Contenção. Acima: Por um fio. Da série Atensão, 1976. Vista da instalação no MAM Rio 2016. Foto: MAM Rio.


como um ingrediente ativo e transformada em acontecimentos estéticos. Sua produção é indicativa de uma tensão visual, de novos procedimentos estruturais visando a uma maior participação social da arte e de um agenciamento político, por meio de novos procedimentos pelo certo abandono dos valores esteticistas ou da simples fruição puramente estética. Explora a instabilidade, a precariedade, com a utilização de materiais de construção, como tijolos, madeiras, pedras e cabos de aço, agora circunscritos em situações-limite, ou articulados em um equilíbrio muito precário, embora muito bem calculado e aliado com a presença de um permanente som de um metrônomo. Prevalece uma estrutura de elementos geométricos, e todo o 20 CAPA

Observa-se certa corrosão e um deslocamento das ideias da arte para uma proposição mais próxima do espectador como um participador, maior envolvimento do público no experimentalismo da arte e um engajamento politico…


conjunto adquire o caráter de uma instalação austera, minimalista, com ressonâncias no ideário construtivo, levando o espectador a um estado de tensão. O artista reexamina a história e gera uma nova perspectiva ao fundar o objeto como portador de outros valores esteticistas, traz um novo significado para esse espaço ativo, com uma perturbadora estrutura ambiental onde é adicionada uma leitura do processo político da época, e simultaneamente preserva a evidência da importância do texto que acompanha a mostra. Nas obras expostas, inquietas e interrogativas, encontra-se uma pluralidade de materiais, alinhados pelas suas singularidades, que pontuam suas diferenças e uma infinidade de questões, formando um complexo conjunto. São outras escutas, e cada obra adquire um caráter individual e singular. Nosso olhar oscila nesse conturbado território e os trabalhos reafirmam seu campo de força visual. Observa-se certa corrosão e um deslocamento das ideias da arte para uma proposição mais próxima do espectador como um participador, maior envolvimento do público no experimentalismo da arte e um engajamento politico, ou seja, uma vinculação maior entre arte e política. Na afirmação do artista, remontar a exposição “ATENSÃO”, realizada em 1976, na Sala Experimental do MAM Rio, “possibilita recriar uma fase da minha produção e, simultaneamente, situar a inserção e a pertinência deste trabalho hoje”. Essas obras foram reconstruídas e fizeram parte da exposição individual “Carlos Zilio: Arte e Política –1966-1975”, realizada com curadoria de Vanda Klabin, no MAM Rio de Janeiro, tendo sido apresentada também em São Paulo e Salvador (1996/1997). Uma das obras dessa mostra – “Cerco e Morte” (1974) – 21


foi adquirida para o acervo permanente do Museum of Modern Art, em Nova York, em 2014. No período de setembro de 2015 a janeiro de 2016, essa obra fez parte da exposição “Transmissions: Art in Eastern Europe and Latin America, 1960-1980”, no mesmo MOMA de Nova York. Carlos Zilio desenvolveu diversas atividades como pintor, professor, escritor, pesquisador, e fundador de revistas de arte decisivas para a constituição um novo território de ação para se pensar a arte brasileira, como a “Malasartes” e a “Gávea”. Fui sua coeditora e também sua assistente de coordenação, durante 16 anos, no Curso de Mestrado em História da 22 CARLOS ZILIO

Arte e Arquitetura no Brasil, na PUCRJ. O discurso político, já presente em sua estética, tangenciou suas ações e teve uma eficácia muito importante para o pensamento crítico brasileiro.

Carlos Zilio - Atensão • MAM Rio de Janeiro • 3/12 a 5/3

Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.


VANDERLEI LOPES POR ELE MESMO

““Coração” surgiu da intenção de produzir uma epifania, utilizar elementos do cotidiano doméstico para construir uma aparição no ambiente expositivo. Por um lado, pretendia que o trabalho aludisse a ícones sagrados, da tradição ocidental de arte, por outro, à presença de dois corpos, que, devido à proximidade, formassem um único corpo incandescente, de modo que a estrutura do trabalho fosse visível. Ambos os corações são feitos em escala natural, fundidos em bronze, pendurados do teto por cabos de aço na altura do olhar, de modo que orbitem o espaço onde são instalados. Suas superfícies são perfuradas segundo uma malha geométrica, de onde saem as chamas alimentadas pelos botijões acoplados, de modo a enfatizar, em outra camada, uma situação construtiva. Os corações se tornam incandescentes, reciprocamente, pela proximidade, devido ao fogo que sai de um coração e entra em contato com o outro. Essa situação produz um ambiente aquecido, um calor em torno dos corações, de modo que o visitante não se aproxima tanto das peças. A pintura de um diagrama de fases do bronze coloca, dentro do discurso da arte, a reprodução de um elemento da ciência, utilizado para verificar possíveis ocorrências nos materiais sob determinada pressão e temperatura. O diagrama indica, além da constituição material, o ponto de incandescência e o ponto de fusão do bronze, metal constitutivo dos corações.”

…pretendia que o trabalho aludisse a ícones sagrados, da tradição ocidental de arte, por outro lado, à presença de dois corpos, que, devido à proximidade, formassem um único corpo incandescente.

24 REFLEXO


Coração, 2013.


““Catedral” se materializou, de um lado, por uma reflexão acerca das linhas que se bifurcam na constituição de rizomas ou cachoeiras, empregados em trabalhos anteriores; das linhas que produzem um elemento a partir do encontro de três outros, como na Trindade. Por outro, de dar corpo aos reflexos dessas mesmas cachoeiras, ou de outros elementos na superfície da água. Em tais desenhos, lidava poeticamente com uma ideia arquetípica de reconstrução do paraíso, a partir de elementos simbólicos e indiciais de uma cultura atual; ações que conjugavam ideias de queda; do ocidente, do pós-guerra, ou mítica, da expulsão do casal primordial do paraíso. Aquelas linhas nos desenhos me remeteram à experiência que se tem ao adentrar uma catedral gótica, em que o olhar é arremessado para cima, devido ao jogo das colunas que sobem e se desdobram em outras cada vez mais finas. Seu título busca sobrepor palavra e coisa, de modo a ecoar o próprio sentido de reverberação e espelhamento que a peça produz no espaço onde é instalada.”

Em tais desenhos, lidava poeticamente com uma ideia arquetípica de reconstrução do paraíso…

26 REFLEXO


Catedral, 2010.


…havia a intenção de dar visibilidade ao processo de transformação de um elemento da natureza em um elemento de cultura… 28 VANDERLEI LOPES


“No contexto da execução de “Catedral”, fiquei tomado por uma reflexão acerca do que seria fazer escultura ou um monumento hoje; seu sentido em relação à tradição e à história. “Cavalo” surge dessas reflexões e de uma sobreposição à minha história pessoal, sobre o início de minhas pesquisas com escultura durante a infância e a adolescência no campo. Decidi que, de modo diverso da “Catedral”, “Cavalo” não poderia ser modelado, mas estampado de um bicho mesmo. Para além do sentido de impasse desejado na construção de sua posição, como um instantâneo fotográfico, havia a intenção de dar visibilidade ao processo de transformação de um elemento da natureza em um elemento de cultura, ou a transição entre uma natureza e outra..”

Cavalo, 2013.


““Disputa” integra um corpo de trabalhos que desejam produzir fricções a partir das relações com o espaço ou ambiente onde são instalados. Ralos, bueiros, pias, vazamentos discutem a arquitetura do lugar, surgem de uma reflexão acerca dos sentidos de se fazer escultura e seus modos de aparição. São trabalhos que problematizam noções tradicionais dessa linguagem como massa, volume, gravidade ou peso e produzem tridimensionalidade a partir do ambiente ou espaço a que aludem. Nessas obras, a aparência dourada e polida do bronze, material caro a tradição da escultura, refere-se a seu estado transitório, incandescente, líquido. A intenção é que esses trabalhos surjam como instantâneos fotográficos no espaço onde são instalados. Por serem espelhados, refletem no “líquido” o ambiente entorno …a aparência dourada e polida ao trabalho, de modo que tal do bronze, material caro a ambiente se tradição da escultura, refere-se converta no próprio objeto a seu estado transitório, que dá vazão incandescente, líquido.. ao “líquido”.”

Vanderlei Lopes, Milagre Galeria Marília Razuk, São Paulo 17/11 a 2/2/2017 30 REFLEXO


Disputa, 2016.


DAVID HOCKNEY Pintar sobre pintar


Peter Getting Out of Nick's Pool, 1966. Todas as fotos: © David Hockney. Foto: Richard Schmidt.


XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX A PINTURA ALEGRE DE DAVID HOCKNEY GANHA SUA MAIOR XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX RETROSPECTIVA E MOSTRA UMA OBRA DIVERSA E APOIADA POR EXTENSA PESQUISA

POR LIEGE G. JUNG David Hockney é conhecido por sua paleta viva e temas que giram ao redor de uma ideia de boa vida californiana: sol, piscina, beleza, sexo, glamour. Criou um estilo próprio, entre o naturalismo e o primitivo, que cativou o grande público e firmou seu nome na história da arte contemporânea. No 34 DO MUNDO

entanto, o bom humor e a leveza de suas obras escondem uma preocupação profunda com a produção da imagem e sua evolução ao longo dos séculos e são resultado de uma vida de experimentação, revelada pela maior retrospectiva do artista até então, que inaugura em fevereiro, no Tate.


Hockney nasceu em Bradford, Inglaterra, em 1937, e se formou em 1962, no Royal College of Art. Ainda estudante, visitou uma grande exposição de Picasso e tomou consciência de que um artista não precisa se limitar a um único estilo: estilo é um elemento a ser selecionado e vários podem ser combinados em uma única obra. Em seus primeiros trabalhos dos anos 1960, Hockney pôs em prática essa ideia. Partindo do expressionismo abstrato que era a norma, fez uso de dizeres e imagens retiradas de revistas e de sua vivência no circuito homossexual, bem como de uma série de técnicas e estilos, distanciando-se do apego à abstração que dominava a arte ocidental. Essa linha de atuação – testar e questionar os protocolos da arte – guiaria sua produção por toda vida. Esse estado de impermanência posicionou Hockney à margem das principais escolas artísticas da segunda metade do século 20. Ainda que ele seja associado à pop art britânica, o artista sempre negou esse rótulo impreciso. Usava abundantemente a fotografia como ferramenta, mas nunca se interessou pelas técnicas empregadas pelo fotorrealismo que então entrava em voga. Seu objetivo não era a verossimilhança, mas a representação de uma visão. Truques de perspectiva e luz e a criação de vários planos dentro do cenário são usados de forma estudada e minuciosa para conectar o observador à imagem, seja pelo estabelecimento matemático de um ponto de vista ou pela sugestão de uma narrativa, um clima psicológico. Ainda que

O bom humor e a leveza de suas obras escondem uma preocupação profunda com a produção da imagem e sua evolução ao longo dos séculos…

À esquerda: A Lawn Being Sprinkled 1967. Acima: Model with Unfinished Self Portrait 1977.


usasse muito a fotografia, confiava mais no desenho para capturar essas impressões: “Não se pode produzir um desenho de algo sem escrutinar, de perto, amplamente, ao longo do tempo, em contraste com tirar uma fotografia (...). Fotografia é legal se você não se importa em observar o mundo do ponto de vista de um Ciclope – por um segundo. Mas isso não é viver no mundo ou passar a experiência de viver no mundo.” Ainda nos anos 1960, visitou a Califórnia pela primeira vez. Os ângulos retos da arquitetura moderna e a paisagem com amplos planos são temas pertinentes para uma obra que ainda não se desvencilhara completamente da abstração. São dessa época a série de pinturas de piscinas, entre elas “A Bigger Splash” (1967), uma de suas obras mais conhecidas. A partir do fim dessa década, passou a pintar cenas da vida cotidiana e vários retratos, muitos deles duplos. “Para mim, ir em direção ao 38 DAVID HOCKNEY

naturalismo é uma liberdade”, explica o estilo adotado. No entanto, no final dos anos 1970, passou a questionar essa liberdade com o que apelidou de “a armadilha do naturalismo”: a dificuldade de reproduzir em suas pinturas a visão e as sensações que se tem observando algo ao vivo. Nessa época, Hockney já era famoso e havia grande demanda por suas pinturas, mas não estava satisfeito e deixou muitas obras não terminadas. Sua proximidade com o teatro foi um escape e, nos anos 1980, ele intensificouseu trabalho desenvolvendo cenários. Passou a focar também em fotografia e, para driblar as limitações dadas por seu ponto de vista único e estático, criou colagens de fotos unindo várias vistas de um mesmo tema, processo que ele chamava de “desenhar com uma câmera”. O resultado foi algo cubista, que ele chamou de “joiners” (juntadores), outra conexão com seu ídolo Picasso. Essas duas experiências têm algo em comum: a intenção de criar uma perspectiva que permita mais


Para mim, ir em direção ao naturalismo é uma liberdade.

À esquerda: Woldgate Woods, 6 & 9 November, 2006 . Abaixo: Peter Getting Out of Nick's Pool, 1966.

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Christopher Isherwood and Don Bachardy, 1968.


The Grand Canyon, 1998.

de um ponto de vista, envolvendo cada pessoa que está na plateia do teatro ou visitando sua exposição, seja qual for sua posição física em relação à obra. Suas pinturas em acrílica dessa época também mostram certo abandono das noções de perspectiva, uma tentativa de se livrar da armadilha do naturalismo quebrando a regra da proporção. A liberdade adquirida com essas experiências foi mantida até as pinturas mais recentes. Retratos, cenas do cotidiano, ambientes e paisagens são temas recorrentes ao longo de toda sua obra, reinventados a cada década pelo uso de uma nova técnica ou suporte. Em trabalhos mais recentes, são os desenhos com aplicativos para iPad, montagens com vídeo e fotos e, na sua fiel pintura, o uso de telas gigantes formadas por telas menores. Nas palavras de Hockney, “A história da 40 DO MUNDO

pintura começa com desenhos nas cavernas e, no momento, com desenhos no iPad. Quem sabe para onde vai? Uma coisa é certa: o problema pictórico sempre estará lá – a dificuldade de ilustrar o mundo em duas dimensões é permanente, nunca se resolverá.” O que não o impede de continuar tentando.

David Hockney • Tate Britain • Londres • 9/2 a 29/5/2017.

Liege Gonzalez Jung é fundadora e diretora da Revista Dasartes desde 2008.


LIVROS lançamentos Artistas na Metrópole, Galeria Domus 1947-1951 José Armando Pereira da Silva Via Impressa Edições de Arte - 252 p. - R$ 120,00 Com a abertura da Galeria Domus, o modernismo conquistava finalmente o “direito de cidadania” em São Paulo, segundo o crítico Sérgio Milliet. O livro narra a trajetória da galeria dentro do contexto social e artístico da São Paulo no final dos anos 1940 e início dos anos 1950 a partir da fortuna crítica da época, de registros fotográficos de mostras e exposições e histórias que fizeram dela o principal espaço de exposição da arte moderna até o surgimento do MAM. A Galeria Domus foi inaugurada com uma coletiva que reuniu 19 artistas modernos, como Tarsila do Amaral, que homenageou o artista italiano Ernesto Di Fiori, que emigrou para o Brasil fugindo da ascensão do nazismo e morreu antes do final da Segunda Guerra.

Fotolivro Visões de um poema sujo Fotografias de Márcio Vasconcelos Textos de Diógenes Moura e Celso Borges

Vento Leste Editora - 100 p. - R$ 70,00 Atual, mesmo quarenta anos depois, o Poema Sujo escrito por Ferreira Gullar durante exílio na Argentina, foi recentemente reeditado e agora é também revisitado em forma inédita: a fotografia. De São Luis, como o escritor, o fotógrafo Márcio Vasconcellos se debruçou durante anos sobre os locais, pessoas e sensações descritas num momento tão importante da história do país, para o projeto já premiado em 2014 com o Marc Ferréz de Fotografia. O livro tem 95 imagens, todas coloridas, e será lançado dia 24 de janeiro, com exposição (100 fotografias de tamanhos variados) no Museu AfroBrasil, em São Paulo, com a presença do autor e performances. 42


Ver Antonio Bokel Editora Réptil - 168 p. - R$ 80, 00 VER é um convite instigante e potente à obra do artista através de pinturas, instalações, esculturas, performances, fotografias e intervenções. Estão lá expressas todas as fases que constituíram esta história: a forte influência da pop art e a intensidade da pintura gestual; a referência construtivista e geométrica de Amílcar de Castro e Mira Schendel; a poesia concreta; e o olhar antropológico e provocativo lançado sobre o que acontece na rua. “Os muros são a pele da cidade”, diz. A obra de Antonio busca escavar essas concretudes que sangram os sintomas sociais contemporâneos. “Em meio a esses escombros, o artista vai construindo, pouco a pouco, extratos poéticos do que poderia ser apenas degradado, malfeito, precário”, analisa o curador Mario Gioia, que assina um dos textos.

Invasão Criativa Feito por Brasileiros 150 p. - R$ 100,00 Mais de 120 mil pessoas visitaram a exposição Made by ... , a Invasão Criativa que ocupou por 45 dias antigo hospital Matarazzo em setembro e outubro de 2014, reunindo 100 artistas brasileiros e internacionais, incluindo Arthur Lescher, Beatriz Milhazes, Gary Simmons, Janaina Tschape, Tunga, Nick Cave, Vik Muniz e Xavier Veilhan e que foi escolhida pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como a melhor iniciativa cultural daquele ano.Para comemorar o seu sucesso e legado, a Cidade Matarazzo apresenta o livro Invasão Criativa, uma celebração da arte, artistas e arquitetura de São Paulo e também do projeto em andamento Feito por Brasileiros que será anunciado pelo Grupo Allard em abril próximo. 43


RESENHAS exposições

Desmedidas Espaço Cultural do BNDES • Rio de Janeiro • 13/12 a 2/2 POR LEANDRO FAZOLLA

O “cubo branco” se convencionou, décadas atrás, como o modelo ideal para espaços expositivos, anulando a paisagem externa e fundando seu próprio espaço atemporal. Inserida no prédio do BNDES, a Galeria BNDES segue esse padrão de isonomia (apesar da arquitetura do prédio onde está inserida se deixar perceber em vários pontos de seu interior). Porém, a intensa paisagem externa e urbana que circunda a galeria parece de alguma forma ter influenciado diretamente na criação da mostra “Desmedidas”, com curadoria de Felipe Scovino e participação dos artistas Eduardo Coimbra, Artur Lescher e Amalia Giacomini. A exposição se mostra precisa em seu diálogo com o entorno ao lidar exatamente com a ideia de arquitetura, paisagem e a relação entre o homem e o espaço. Logo na descida da escada que dá acesso ao espaço expositivo, Eduardo Coimbra traz uma série de plataformas quadradas dispostas em uma grande área no chão, com fotografias de nuvens em “backlights”. Ao mesmo tempo em que as formas remetem aos prédios, o conjunto traz um respiro, um reencontro poético com a imensidão azul, tão esquecida na correria cotidiana. Dentro de um espaço fechado, no seio da cidade – e ainda invadido por resquícios dos sons de carros e máquinas do lado de fora – o espectador se vê convidado a parar e contemplar o céu, agora disposto a seus pés. Amalia utiliza toda a extensão de uma parede para a criação de uma trama elástica que subverte o olhar e confunde o espectador, que se vê inserido em um espaço que lembra muito as grades usadas para a criação virtual de planos tridimensionais. Usando com maestria elementos simples como elásticos e pregos (e inserindo o

jogo de luz e sombras em sua obra), Amalia cria uma malha capaz de concentrar um jogo visual em que as próprias paredes da galeria parecem ora tensionadas aqui, ora expandidas. Ao ser utilizada em grande escala na maior parede da galeria, o recurso ilude o espectador, inserindo-o em um espaço onde o real e o virtual estão, mais do que nunca, intrinsecamente relacionados. Se Coimbra trata de prédios já construídos e Giacomini de possíveis projetos tridimensionais, mais ao fundo da galeria, Artur Lescher parece voltar ao princípio de tudo em uma plataforma pela qual o espectador deve subir. O artista recria uma mesa de projetos, com formas geométricas, réguas e diversos elementos de trabalho. Esses objetos, apesar de, à primeira vista, lembrarem instrumentos comuns do cotidiano de um engenheiro, em um olhar mais cuidadoso deixam perceber funções desajustadas, o que acaba por trazer certa aura mística, remetendo a algo de fantástico, como um laboratório alquímico que une as duas pontas entre o conhecimento contemporâneo e a sabedoria antiga. Se os místicos acreditavam ser possível transformar chumbo em ouro, da mesma forma, a seleção de Felipe Scovino redescobre a paisagem urbana e cotidiana, desassociando-a do lugar de frieza e indiferença onde é comumente – e injustamente – colocada e a subverte em pura poesia.

Leandro Fazolla é mestre em arte e cultura contemporanea, na linha de pesquisa de história, teoria e crítica de arte, e ator.


CONCURSO GARIMPO Conheça aqui, os 15 finalistas do Concurso Garimpo 2016 e vote em seu preferido em nosso site e perfil do Facebook. O mais votado pelo público e o escolhido pelo conselho editoral da Dasartes, ganharão matéria nas edições de fevereiro e março.

46 GARIMPO


ALBERTO OLIVEIRA Acima: Sem Título, 2013. Fotografia. Pigmento sobre papel algodão - 100x130cm. À esquerda: Sem Título, 2016. Fotografia. Pigmento sobre papel algodão - 80x80cm.

ANGELA OD Abaixo: O cara da espada em ação promissora., 2016. Linha, lã e assemblage com objetos de plástico, metal, madeira e borracha sobre linhao, 130cm x 67cm. À direita: O cara da espada em ação 2, 2016. Linha e caneta posca sobre algodao, 87cm X 48cm.

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DÉBORA MAZLOUM Acima: Jardim de Aclimatação XXI, 2015. Instalação. Mesa, lentes de aumento com focos. À esquerda: Laissez Passer, 2014. Fotogravura sobre chapa de offset e Piauí, 2013. Fotografia de gravura apagada sobre colagem digital, nanquim, grafite e carvão.

DIOGO COSTTA Abaixo: The Last Dance, 2015. Fotografia feita com técnica de Brenizer e manipulada em Photoshop CS5. À direita: Life Is Fragile, 2016. Fotografia feita com técnica de Brenizer e manipulada em Photoshop CS5.

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DORA SMEK Acima: Transbordação, 2015, 2016. Performance envolvendo mulheres por meio de convocatória pública. À esquerda: Diferença, 2016. (Detalhe). Objeto tridimensional em ferro fundido, modelo da ossatura de um quadril feminino e masculino suspensos pelo teto a 1,5 m a partir do chão. 35 x 20 x 20 cm.

FABIANO RODRIGUES Abaixo: Vídeo arte da série Ratsrepus. À direita: Obra que faz parte da individual DUVIDABIOPSIA, no espaço Casa Nova Arte, fotografias produzidasdentro do espaço expositivo especialmente para a mostra.

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JOÃO RICARDO L. GRANDO Acima: Bairro, 2010. Grafite, carvão, nanquim, caneta hidrocor, caneta esferográfica e tinta acrílica s/ papel Canson. 92 x 132 cm. À esquerda: Santinho quisera ser sim, mas foi não, 2015. Grafite, carvão, nanquim, canetas hidrográfica e esferográfica, fita crepe e papel vegetal sobre papel. 61 x 61 cm.

LEONORA WEISSMANN Abaixo: E foram felizes para sempre (díptico), 2012. Acrílica e vinílica sobre tela. 190x420m. À direita: Provocando o Infinito, 2004...2014. Tigelas utilizadas para limpar pincéis ao pintar, com a marca da água com tinta durante o processo de decantação, secadas ao tempo e quebradas ao meio. 2,5m aproximadamente.

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MARCELO BARROS Acima: Em Vista Daquilo Que Se Pode Perder, 2015. Série Furta-cor. Tinta a óleo sobre páginas de livros impressas. 30cm X 30cm cada. Políptico. À esquerda: Poemas herméticos, 2016. Série Haicais. Letras recortadas e acondicionadas em vidros de conservas pintados, dispostos sobre placas de madeiras. 12 cm X 15 cm cada. 20 x 20 cm.

NILA NONATO NEVES Abaixo: As extrativistas de sempre-vivas, 2014. Nanquim e Bico de Pena s/ Papel 300g. À direita: Rabo mole da serra com pausanto, 2015. Acrílica s/ Tela. 30X20 cm,

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PAUL SETÚBAL Acima: Zeitgeist, 2015. Frame de vídeo, Backlight, 83 x 150 cm. À esquerda: Concussão, 2016. Sangue da mãe do artista sobre tela. 150 x 100 cm.

PEDRO GANDRA Abaixo: A 10cm da queda, 2016. Acrílica sobre tela. 170 x 150cm. À direita: ; ou pregadora (ponto e vírgula ou pregadora), 2015. Acrílica sobre tela. 60 x 50cm.

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RAQUEL RODRIGUES Acima: Deserto Verde, 2016. Vídeo Arte. 4,42. Filmado com câmera HDSLR 80D.

À esquerda: A’uwa, 2013. Tronco de árvore e transferência de imagem por componentes químicos.

RENAN MARCONDES Abaixo: Como um jabuti matou uma onça e fez uma gaita de um de seus ossos, 2015. Performance acompanhada de livro. À direita: Formulações ao insuporte, 2014. Performance.

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TATIANA CIPOLI Acima: Identidade nº 02 - A representação de um único ser em diversas etapas da vida e de forma repetida e multiplicada – a formação dos vários “eu(s)”. À esquerda: Enigma nº 08 - A série “Enigmáticos” busca representar a leitura de um rosto visto através dos olhos de quem caminha para o “analfabetismo social”.

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COLUNA DO MEIO Fotos: Paulo Jabur

Quem e onde no meio da arte

Lucca Malta, Gilberto Buffara Jr e Gabriela Malta

Letícia Laborie, Vincent Rosenblatt, Jean-François Laborie e Bárbara Gonçalves

Abertura da Galeria Teste Rio de Janeiro Cecília Mendes de Almeida e Andréa Rudge

Vincent Rosenblatt e Flávia Tamoyo

Eudes de Orleans e Bragança, Cláudia Kligerman e Isabel Buffara

Fotos: Paulo Jabur

Mika Chermont, Ana Cândida de Souza e José Ronaldo Müller

Constança Basto, Eurico Humano e Túlio Mariante

Túlio Mariante, Heliana Marinho e Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand

OITIS 55 MAM Rio de Janeiro Mônica Barki e Olga de Lena

Alexandre Montenegro e Henrique Gomma

Gustavo Martins de Almeida, Luiz Pizarro e Carlos Leal

Regina Zappa e Luiz Philippe Carneiro de Mendonça


Fotos: Denise Andrade

Helena Rabethge, Eugenia Gorini Esmeraldo e Maria Renata Ramos

Deni Mayrink e Thiago Honorio

Agostinho Batista de Freitas MASP São Paulo Adriano Pedrosa

Marcela Vieira e Ciça Winter

Amanda Dafoe e Fernando Oliva

Vilma Eid, Rafael Moraes e Gustavo Nobrega

Fotos: Denise Andrade

Paulo Proushan, Flavia Velloso, Jorge Landmann e Cauê Alves

Claudia Sarpi e Fulvio Salmaso

Paisagens Invisíveis MUBE São Paulo Rochelle Costie e Mario Ramiro

Sonia Grossi e José Henrique Fabre

Mario Ramiro e João Bandeira

Neidinha Moraes e Flavia Velloso


ALTO FALANTE

Por Guy Amado

Literartimos A literatura e as artes visuais têm mantido uma relação direta e constante ao longo de sua história. Notadamente, a partir do século 19, com a emergência do que viria a ser conhecido como o modernismo, ambas se referem e se alimentam mutuamente com maior intensidade: a arte surge como mote em diversas narrativas literárias e o mesmo ocorre na prática artística, buscando inspiração em escritos e autores literários: T. Gautier, Balzac, Wilde, Zola, H. James, Gertrude Stein, Virginia Woolf – são inúmeros os casos de autores (da literatura) desse período em que a arte permeia ou dá mesmo corpoà escrita. E na atualidade, como tem se manifestado a relação entre literatura e artes visuais (e fazendo um esforço para deixar o cinema de fora)? A influência da literatura sobre a arte segue talvez mais sensível, com incontáveis obras evidenciando tal tendência. Há inúmeros artistas que se valem do imenso repertório oferecido pelo universo literário, utilizando-o como material de modos variados: Anselm Kiefer, Roni Horn, James Casebere, Jorge Macchi, Ed Ruscha, Duchamp, Mark Manders, Tacita Dean, Joseph Kosuth, Julião Sarmento, Rosangela Ricalde, Nuno Ramos (este em dupla via)... a lista seria por demais extensa. Tal influência pode se manifestar de modo literal ou indireto, mais conceitualmente, e em diversos suportes e formas, seja permeada pelo uso estrutural da metáfora, alusão e alegoria, seja por uma apropriação mais direta, literal, de textos e narrativas ficcionais. Mas e na literatura de hoje? Como emerge essa pulsão no sentido inverso – como escritores da atualidade absorvem ou trabalham a referência da arte contemporânea? Interessa aqui a perspectiva específica dos modos como a arte da atualidade surge na literatura atual. E não apenas na forma de referências casuais ou da caracterização de um eventual personagem como artista, mas de efetivamente marcar presença nesse território. Sob esse enfoque, e entre diversos exemplos possíveis, há dois autores que, sem dúvida, se destacam: Paul Auster e Enrique Vila-Matas. Em 1992, Paul Auster publicou“Leviatã”, romance marcante em sua trajetória, de inventiva trama detetivesca em que trabalhou elementos como o dualismo ficção-realidade, a identidade, o acaso, a casualidade e a causalidade, todos característicos do autor. Sua trama se (de)compõe de narrativas que se sobrepõem em “flashback”, repleta de situacões banais (por vezes violentas) pontuando as vidas de personagens complexos, desenvolvida com uma lógica e engenhosidade que envolvem o leitor de maneira sutil. Há, no entanto, uma passagem a se destacar neste romance, no qual o autor explicita seu interesse pelo mundo da arte contemporânea. A certa altura, surge meio casualmente uma personagem que ganhará força e presença permanente no resto da obra. Tal aparição, aparentemente fortuita, ganha importância e relevância no decorrer da trama, com sua personagem vindo a desempenhar papel determinante na história, dando coesão aos eventos e situações envolvendo os protagonistas. Trata-se de Maria Turner, uma artista que trabalha com fotografia mas também usa a escrita e outros meios, levando o narrador (Peter Aaron, cujas iniciais sinalizam a habitual autoprojeção típica de Auster) a tentar defini-la como “conceitualista”, termo que não resolve muito mas que é aceitável. No “plot” de Auster, a personagem oscila constantemente da ficção à realidade e vice-versa; e essa é das partes mais interessantes do romance, quando se estabelece um jogo que sugere que nem tudo acontece somente no livro, mas se estende também à vida real, fora de suas páginas. A inpiração da personagem de Maria Turner (e assumida por Auster) é toda calcada em Sophie Calle, artista francesa de renome internacional. O escritor a conheceu ainda em finais dos anos 1970, quando vivia em Paris, e, desde então, iniciaram uma relação que propiciou uma série de colaborações mútuas e interdisciplinares. Instigada por sua aparição como personagem ficcionado no livro de Auster, Sophie Calle, por sua vez, iniciou, dois anos depois, uma série ou projeto chamado “Doubles-Jeux” (“JogoDuplo”, 1994) em resposta àquela iniciativa. Nessa empreitada, que abarca sete livros, além de compilar grande parte de sua produção, Calle se “convertia” em Maria Turner e dava instruções a Auster para desenvolver certas atividades; Auster aceitou o jogo com algumas condições, que, por sua vez, consistiam em novas instruções à artista (que, apesar de ásperas,


…poucas vezes se vê a convergência da literatura e da arte de forma tão fluida, espontânea e envolvente. Calle, no geral, acabaria seguindo com empenho), reunidas no último volume de “Jogo Duplo”, este concebido por Auster, denominado “Gotham Handbook”. O produto final é a materialização de um rico e original exercício de intertextualidade que extrapola os limites convencionados pelas disciplinas de cada um. Exemplo ainda mais entusiasmante desse entrecruzamento é talvez o do catalão Enrique Vila-Matas, um dos grandes escritores europeus em atividade. Homem das letras apaixonado pela arte contemporânea, esse romancista e eterno cronista da “literatura do Não”– em cuja prosa, como em Auster, a ficção se permite associar a fatos de modo desestabilizador –, Vila-Matas tem esta verve mais claramente exposta em dois livros recentes; “Kassel no invita a la logica”, de 2014 (“Não há lugar para a lógica em Kassel”, na edição brasileira), e “Marienbad Électrique”, de 2015 (“Marienbad Eléctrico”, em Portugal). Este último é um apanhado sobre a parceria entre o escritor e a conhecida artista Dominique Gonzalez-Foerster, um livro nascido das várias conversas e colaborações mantidas pelo autor ao longo de quase dez anos com a francesa (que já aparecia citada em pelo menos um livro anterior do catalão, “Dublinesca”, de 2010). Um romance insólito, segundo o próprio autor, situando-se na fronteira entre a arte contemporânea e a literatura, cuja descrição é complementada pelo próprio como podendo ser também “uma instalação e um texto de catálogo (para uma exposição de Gonzalez-Foerster, “Splendide Hotel”)...”. É, em suma, a crônica de uma amizade e do intercâmbio de ideias e da admiração e inquietações estéticas mútuas, em um percurso iniciado há uma década em conversas em cafés de Paris (assim como Auster e Calle, aliás), até à retrospectiva da artista no Centro Georges Pompidou, em 2015. Já em“Não há lugar para a lógica em Kassel”,o que se vê é um relato saboroso e inusual, por vezes desconcertante, da experiência de Vila-Matas na Documenta 13, em Kassel. Inesperadamente convidado a participar do mais prestigioso evento de arte contemporânea no mundo, o protagonista, um escritor (que, apesar de levemente aficionado é sim um alterego do catalão –outra característica partilhada com Paul Auster –que, de fato, integrou aquele evento), primeiro hesita até que aceita, um tanto reticente – mas no íntimo, animado pela perspectiva de poder estar por uma semana no epicentro daquele mundo exclusivo, pelo qual nutre certo fascínio secreto. Uma vez definida a natureza peculiar dos termos de sua participação (passar as manhãs escrevendo, ou fingindo escrever, em público num restaurante chinês), o livro se converte em uma espécie de inventário das experiências vivenciadas com a arte pelo autor, nos intervalos de sua curta labuta oficial, com ênfase para suas análises e reflexões sobre diversas obras da Documenta, que se empenhou em observar. Destaque para suas belas (e atentas) leituras das peças de Ryan Gander, Tino Sehgal, Pierre Huyghe e Lara Favaretto, certamente mais delicadas e instigantes que as de boa parte da crítica especializada. À medida que acompanha e se envolve com parte da produção exposta no evento, sua saga em Kassel ganha contornos de uma jornada rumo à iluminação – sem ironia –, culminando e terminando em uma espécie de epifania sobre o estado geral da arte contemporânea, que Vila-Matas enuncia como uma espécie de via redentora das mazelas da vida e do mundo, no banco de trás do táxi que o levará ao aeroporto, encerrando sua aventura – e o livro. Se tamanho entusiasmo pode parecer um tanto excessivo, denotando talvez um encantamento arrivista, por outro lado, poucas vezes se vê a convergência da literatura e da arte de forma tão fluida, espontânea e envolvente.

Guy Amado é curador e crítico de arte independente. Atualmente, mora em Portugal e colabora com o Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura.


Lançada em 2008, a Dasartes é a primeira revista de artes visuais do Brasil desde os anos 1990. Em 2015, passou a ser digital, disponível mensalmente em seu aplicativo para tablets e celulares e no site dasartes.com.br, o portal de artes visuais mais visitado do Brasil. Para ficar por dentro do mundo da arte, siga a Dasartes.

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Revista Dasartes Edição 56  

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