Revista OH! Edição 07 JAN-DEZ 2020

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ANO IV | N.º 7 | JAN-DEZ 2020

Revista da Família Hospitaleira no Brasil

SAÚDE&HOSPITALIDADE

ESPIRITUALIDADE

Trazendo sentidos, levando angústias DELÍRIOS MÍSTICOS Entenda

Espiritualidade e Profissionalismo

Religiosidade e Espiritualidade na Saúde Mental

SANTA DULCE Espiritualidade que vira Amor

ENTREVISTA ao Ir. Vitor, Provincial



EDITORIAL Ir. Augusto V. Gonçalves, OH

Qual é a sua espiritualidade? Talvez me responda: animista, budista, islâmica, cristã, espírita, panteísta, da Nova Era, beneditina, mariana, joandeína... ou alguma das muitas centenas que existem. Verdadeiramente, cada pessoa desenvolve uma espiritualidade, podendo alinhar-se, muito, pouco ou nada, com alguma já sistematizada, famosa ou desconhecida, histórica ou recente. E também podemos falar da espiritualidade do século x ou y, da espiritualidade dos povos z ou w ou da espiritualidade do jazz ou da pandemia! Só não vale alguém iludir-se afirmando que não tem nenhuma espiritualidade. O próprio satanismo pode entrar na lista e o ateu se alimenta da espiritualidade ateísta! Do projeto da criação, iniciado no Big Bang, há 13,5 bilhões de anos, e ainda em marcha, consta o ser humano, com dimensões diversas: física, mental, social e espiritual. Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1947, “esqueceuse” do espiritual ao apresentar sua (famosa) definição de saúde. E foi preciso passar meio século de evolução do pensamento e da ciência para corrigi-la. Efetivamente, depois de 22/01/1988, para a OMS, “Saúde é um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. Então as universidades do mundo inteiro se apressaram a acrescentar a espiritualidade nos seus currículos de saúde, mas no Brasil ainda poucos cursos de Medicina a incluem como disciplina. A UFMG foi a segunda a criá-la, graças a um movimento reivindicativo de mais de 740 estudantes e 50 professores. Chama-se Saúde e Espiritualidade e é disciplina optativa. Como ensina o Prof. Mauro Ivan Salgado, da UFMG, “para a junção de espiritualidade e saúde, basta unir as terapias modernas e contemporâneas com as terapias milenares e perenes. Essa aproximação favorece o crescimento e

Superior da Ordem Hospitaleira no Brasil

desenvolvimento humanos por trabalhar com o hemisfério cerebral direito, da intuição, conjuntamente com o hemisfério esquerdo, da análise. E, como num milagre, sensação e intuição, sentimento e pensamento, intelecto e espírito aparecem unidos”. Nesta edição sobre Espiritualidade, trabalhamos, sobretudo, sua interação com a saúde e o atendimento social. Nas primeiras páginas, depois duma reflexão sobre a pandemia, se aborda Espiritualidade na Saúde Mental, a nova Diretora da Casa de Saúde SJD nos ensina sobre os delírios místicos e o ex-capelão do Lar SJD trata do Acompanhamento Espiritual na 3ª Idade. Depois a Dra. Márcia Varricchio e sua equipa discorrem sobre Espiritualidade e Profissionalismo e o Pr. Ricardo Cano esclarece sobre Ecumenismo. Com a santidade da Irmã Dulce aterrizamos uma espiritualidade e fechamos a seção com a Pastoral nas obras joandeínas. Das matérias restantes destacamos o papa explicando a santidade, o novo Diretor da Casa de Saúde sonhando futuro e o Lar SJD evocando 50 anos de hospitalidade. Para a entrevista convidamos o último Provincial português a presidir à Ordem Hospitaleira no Brasil. Boa leitura! E pense comigo (e com a modista Gloria Kalil): “Buda não era budista, Jesus não era cristão e Maomé não era muçulmano. Eram Mestres que ensinavam Amor. Amor eram suas religiões”.

DIRETOR Ir. Augusto Vieira Gonçalves

SAÚDE&HOSPITALIDADE

ANO IV | N.º 7 | JAN-JUN 2020

Administração: Estrada Turística do Jaraguá, 2365 Vl. Jaraguá - 05161-000 - São Paulo - SP Fone: 11 3903-7857

CONSELHO EDITORIAL Cesar Paim Ivani Vera Cruz Juliana Vieira da Silva Leila Maiworm Luiz Antonio de Moura SECRETARIA Tânia Maria G. Silva

ARTE E DIAGRAMAÇÃO Ana Paula Francotti

IMPRESSÃO Gráfica Tribuna de Petrópolis Tiragem: 4.000 exemplares

Ordem Hospitaleira de São João de Deus CNPJ: 33.796.681/0001-03 FONE: +55(11) 390737857 www.saojoaodedeus.org.br revista@saojoaodedeus.org.br

HOSPITALIDADE | QUALIDADE | RESPEITO | RESPONSABILIDADE | ESPIRITUALIDADE


SUMÁRIO 05

Espiritualidade o que é?

06

Espiritualidade e Pandemia

07

Religiosidade e Espiritualidade na Saúde Mental

08

DELÍRIOS MÍSTICOS Caracterização e Terapêutica

ESPIRITUALIDADE NA DEPENÊNCIA QUÍMICA

14

10

Acompanhamento Espiritual na Terceira Idade

12

Espiritualidade e Profissionalismo

15

Como se “faz” um Santo?

18

Pastoral segundo o estilo de São João de Deus

SANTA DULCE DOS POBRES

16

21

MAGISTÉRIO Da Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” do papa Francisco, sobre a Santidade

22

ENTREVISTA Ir. Vitor Lameiras

25

CASA DE SAÚDE SJD Para onde vamos?

26

Relato de uma hóspede do Lar SJD

ECUMENISMO COMO VIA DE PAZ

20

28

Hospital da Ordem inventa doença para salvar judeus

29

CASA DA HOSPITALIDADE Acolhendo Dona Josealina

30

MOSAICO DA FAMÍLIA HOSPITALEIRA Notícias

34

Província São João de Deus da América Latina e Caribe

LAR SJD 50 ANOS DE HOSPITALIDADE

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SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA

ESPIRITUALIDADE O QUE É?

Perguntamos a 6 Irmãos e Colaboradores... Espiritualidade, para mim, é o fio condutor da vida de todo aquele que crê, é o combustível que alimenta e matém de pé todo aquele que tem fé, é como o azeite para a lamparina. “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera (esperançar), é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Heb 11,1). Espiritualidade é a busca do agir, do viver, do rezar, do planejar e tudo mais, segundo o Espírito de Deus. Espiritualidade é alimentar nossa vida com a palavra de Deus e tomar nossas decisões guiados e iluminados pelo Espírito Santo, que sopra onde quer com seu sopro vivificador. Pe. Carlão, capelão - Casa de Saúde SJD. A espiritualidade, para mim, não é apenas um conceito religiosos, mas sim a procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio. É a dedicação, sempre ligada ao entendimento e aperfeiçoamento da própria vida, privilegiando o bem, concretizado em trabalhos humanitários, que promovam a vida das pessoas. Podemos assim dizer que a espiritualidade é o sentido que a pessoa encontra para a sua vida. Na minha vida a espiritualidade, na verdade, é a hospitalidade. Ângela, voluntária – Casa da Hospitalidade, em Aparecida do Taboado. Espiritualidade podemos dizer que cada um tem a sua. Algumas se estruturaram em sistemas com certa coerência e formam religiões. O cristianismo foi aquela que me alcançou e me preenche. Dentro dela nos chamamos de “cristãos”. Qual é a pilha para que o cristão ilumine? Simplesmente a Oração. Sejamos Sal e Luz de espiritualidade ao mundo! Nenhuma das duas coisas é finalizada a si mesma. A Luz é para iluminar algo; o Sal é para dar sabor a outro alimento. A Oração ilumina o cristão. Você pode fazer tantas coisas, tantas obras, inclusive de misericórdia, pode fazer tantas grandes coisas para a Igreja e com a Igreja, mas se não rezar, será um tanto obscuro e tenebroso. O que mantém o cristão é Oração. O sal se torna sal quando se doa. E esta é outra atitude do cristão: doar-se, dar sabor à vida dos outros, dar sabor com a mensagem do Evangelho. Pode-se perguntar até quando o Sal e a Luz podem durar, se continuarmos a doar-nos sem parar? Não termina nunca, pela graça de Deus. Portanto, espiritualidade é “doação, comunhão e fraternidade” Rafael, supervisor - Lar SJD, em Itaipava.

Espiritualidade, para mim, é algo muito além do conhecimento, entendimento ou estudos humanos. E, independente da crença ou religião, é algo que traz e faz a paz, a harmonia e a alegria, principalmente quando se procura viver por meio do amor, da solidariedade e respeito ao próximo. E, como o combustível de um carro, é o que move o ser humano não só a desejar mas a “realizar” o bem! Eu, “Tânia Maria”, acredito em um estilo de vida pautado no Evangelho que visa imitar a pessoa de Jesus, em qualquer situação e época, confinados ou não! Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade como Paulo apóstolo: “Não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Tânia Maria, secretária – Matriz, em São Paulo. Espiritualidade é um dos dons mais preciosos do ser humano. Tem a ver com tudo aquilo que nos envolve: as nossas fraquezas e tudo o que nos rodeia, como seres humanos que somos, dependentes e mesmo inconstantes. Nossa caminhada é difícil, mas nossas lutas não são impossíveis de vencer, se contarmos com aquele que nos criou, que nos ama profundamente, que nos dá força e que nos resgatou por meio do seu divino Filho, de nome “Jesus”. Ele nos está observando em todos os momentos. Infelizmente muitas vezes nos esquecemos destas realidades. Fico por aqui, sabendo das minhas fraquezas, mas também das minhas vitórias, com a ajuda do Deus Hospitaleiro, que muito amo nos nossos queridos idosos. Ir. Adriano – Comunidade OH de Itaipava. Espiritualidade é um dom que nos faz buscar as coisas do alto. Não há religião sem espiritualidade. Com espiritualidade eu sinto-me diferente diante do Altíssimo e um olhar desigual às coisas do mundo. Com a espiritualidade você torna real o ser eu no dever para com o próximo, nas dificuldades do dia-a-dia. Quem serve com o dom da espiritualidade, serve com amor e felicidade. Sem espiritualidade eu não tenho emoção, é como se estivesse ali, mas eu não estou; eu perco o contato com aquele que me deu a vida, por amor. Não há vida em Cristo sem espiritualidade! José Augusto, animador do canto - Lar SJD, em Itaipava. OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 05


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Sr. Luis Alexander Estrada Guarnizo

ESPIRITUALIDADE E PANDEMIA Faz uns meses atrás iniciamos uma etapa que mudou nossas vidas, tanto familiar como social e laboral, uma mudança que não esperávamos e que afetou as crianças e nós, os adultos. Se jogássemos o olhar sobre nosso passado, um passado não distante, talvez nos perguntássemos ou percebessemos grandes interrogações afetando, queiramos ou não, nossos sentimentos, interrogações que nascem do desejo de voltar a abraçar aquela pessoa com quem tivemos inconvenientes banais ou insignificantes, familiares que tivemos de despedir sem vê-los, amigos com os quais desejamos falar, pessoas que estão tão próximas de nós que é impossível abraçá-las ou falar-lhes de tudo o que nos está acontecendo: por que necessariamente tivemos de construir um muro invisível de 2 metros ou mais, que nos impede de aproximar-nos, chegar a nossas casas e travar aquela criança que, alegre, parecia sair ao nosso encontro, talvez a abraçar essa mamã e papá que chegam do seu lugar de trabalho, aquelas crianças que ignoram o que está acontecendo e que, em suas frágeis e pequenas mentes, se perguntarão o que se passa com mamã e papá. Já não chegamos abraçando, chegamos a um encontro com um vidro de álcool, com o gel antibacteriano e encerramos nossa rotina no banho. Estamos passando por uma etapa de nossa vida, na qual é proibido falar, já não há leitura dos movimentos faciais que nos demonstravam os sorrisos ou a seriedade do momento, iniciamos uma etapa em que ficamos à defensiva, com medo de poder causar dano a alguém sem querer ou ao contrário. Se em algum momento, no nosso trabalho nos fechávamos na nossa zona de conforto e nos esquecíamos de quem estava do outro lado do nosso escritório, agora estranhamos isso, queremos lhe falar e/ou perguntar por ela ou por ele, que surpresas nos dá a vida, não é verdade? Hoje quero convidá-los a que sigamos lutando, porém não esquecendo esses momentos que desejamos e pelos quais ansiamos. É o agora e não o antes nem o depois, reflexões sobre o que nos está acontecendo, sobre o esforço que realizam os cientistas, médicos para freiar esta pandemia. Tratemos de fortalecer esse laço de humanismo que há e continuemos a tomar consciência de que o outro é tão importante como os que se encontram em casa, esperandonos; não deixemos escapar esses momento de partilhar com aquele que está do outro lado do muro invisível que nos separa. No noticiário via um enfermeiro que dizia: “escreverei ao Papai Noel uma carta, pedindo um único presente de Natal, a vacina contra esta pandemia”, um presente pelo qual todos ansiamos, um pensamento de criança que anseia pela resposta do bom velhinho, um sonho que desejamos se torne realidade, o qual pode ser possível se, todos unidos, nos cuidarmos uns aos outros, isto é, o teu bem estar é o meu bem estar, a tua saúde é a minha saúde e a da minha família. 06 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

Promotor Vocacional da Ordem Hospitaleira, na Colômbia

Não esqueçamos também a grandeza de Deus, que nos convida a estarmos cada dia mais unidos a Ele. Recordemos os tempos em que o povo de Israel se encontrava oprimido pelos egípcios, e em que a fé de um homem, na companhia de seu irmão, encontrou a forma de libertar o seu povo, que sofria de escravidão, do cansaço e do abuso dos egípcios. Mantenhamos a fé fortalecida, como Abraão, que foi posto à prova por Deus, que encontrou em Abraão um homem capaz de dar tudo por amor a um Deus que não abandona, que sempre está nos acompanhando. Fomos nós que nos afastamos d’Ele, que o pusemos em quarentena dentro de nossos corações, e agora nos estamos perguntando: onde está Deus, nestes momentos difíceis? Ele sempre esteve ali, como ensina a reflexão “Pegadas na areia”, de autor desconhecido: “…quando viste na areia apenas um par de pegadas é porque eu te carregava nos meus braços…” Há dias, quando me encontrava na celebração da Eucaristia, na casa dos Irmãos de São João de Deus, no momento de receber a Jesus sacramentado, meu coração experimentou um sentimento tão intenso que eu não saberia explicá-lo, talvez por não o ter recebido tão frequentemente nos últimos tempos. Essa sensação de vazio que estava aí e que eu pude preencher no momento de receber Jesus Eucaristia. Pode ter sido uma sensação parecida ao desejo de voltar a partilhar com nossos seres queridos, de sair a comer, de ir ao parque, de dar um abraço. Tudo isto pode voltar a ser realidade se todos tomarmos consciência de que unidos, respeitando a distancia, podemos enfrentar esta realidade de saúde mundial, pela qual estamos passando. Continuemos cuidando-nos, preocupando-nos uns pelos outros. Valorizemos o que temos, nossas famílias, os amigos, nossos empregos, nosso planeta. E também por aquele que se encontra esquecido e ignorado nas ruas, marquemos a diferença, deixemos marca, mudemos o mundo, reconquistemos o que tínhamos e por que não havemos de melhorar o que temos?! Obrigado a cada um de vocês, que ao sair de sua casas não necessita uma máscara para se converter num herói anônimo, a você que está num escritório, numa sala de urgências, detrás de um volante dirigindo um veículo, atendendo no supermercado, cuidando de um domicílio, entregando cartas e/ou documentos, dando aulas à distância, ou apresentando um programa de TV. E por último, a você que está lendo isto, Obrigado por marcar a diferença e ser mais um herói que ama a sua família, por viver a hospitalidade.


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Dr. Alexandre Rezende

Médico Psiquiatra especializado em Dependência Química Professor da Faculdade de Medicina da UFJF

RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE NA SAÚDE MENTAL Você sabe o impacto da Religiosidade e Espiritualidade na Saúde Mental? Vivenciamos festas religiosas variadas [agora menos, devido à pandemia] e podemos nos questionar de que maneira a Religiosidade e a Espiritualidade (R/E) podem influenciar nossa Saúde Mental.

RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE Para iniciarmos essa discussão, é necessário trazermos os conceitos de Religiosidade e Espiritualidade. Segundo os principais estudiosos no mundo sobre o tema, a Espiritualidade poderia ser definida como a busca pessoal para entender as questões finais sobre a vida, sobre seu significado e suas relações com o sagrado e o transcendente. Já a Religiosidade seria um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos designados para a aproximação com o sagrado1. Durante muito tempo, a comunidade científica, sobretudo psiquiatras e psicólogos, acreditava que as vivências religiosas eram prejudiciais, muito influenciada pela posição antirreligiosa de alguns autores, que propunham que a Religião exercia uma influência irracional e primitiva, portanto negativa, no psiquismo das pessoas. No entanto, nas últimas quatro décadas, pesquisas científicas mais rigorosas foram realizadas e publicadas nas principais revistas médicas e psicológicas do mundo, encontrando uma associação positiva entre envolvimento religioso e Saúde Mental. Essas pesquisas mostram que indivíduos com taxas mais altas de R/E possuem melhores níveis de bem-estar e qualidade de vida. Em geral, pessoas com maiores vivências religiosas e espirituais têm menos depressão, ansiedade, comportamento suicida e uso e abuso de substâncias. Além disso, os recursos de R/E podem ser úteis tanto como fatores de proteção no desenvolvimento de transtornos mentais, como no processo de enfrentamento desses problemas2. Por outro lado, apesar desses aspectos positivos da R/E, existem também evidências mostrando que a Religião pode ser negativa. As práticas religiosas e espirituais podem ser fonte de conflitos e estresse para muitas pessoas, tais como o coping religioso-espiritual negativo. Por exemplo, indivíduos podem se sentir injustiçados por Deus, considerar sua depressão como fruto de um castigo divino. Podem, ainda, se magoar pelos comportamentos de outros companheiros de fé ou, até mesmo, não concordarem com algumas atitudes de seus líderes religiosos3.

IMPACTOS SOBRE A SAÚDE MENTAL Diversos mecanismos têm sido estudados e propostos para explicar o impacto da Religiosidade e Espiritualidade na Saúde Mental. Então, podemos citar: proposição de comportamentos e estilos de vida saudáveis, fornecimento de uma comunidade de suporte social para contribuir na redução do isolamento e da solidão, construção de um sistema de crenças que influenciam na forma de lidar com o sofrimento e aceitação dos problemas da vida, assim como uma visão mais otimista e esperançosa do mundo4. Ou seja, de maneira geral, a R/E podem ter um impacto positivo sobre a Saúde Mental. No entanto, temos que ter o cuidado para não “prescrevermos” Religião. O Brasil possui uma população muito religiosa: dados do último censo revelaram que 92% da população brasileira possuem alguma religião4. E há outros estudos apontando que 87% dos pacientes gostariam que fossem abordados aspectos da R/E em seus tratamentos de saúde5. Então, os profissionais de saúde em geral devem ficar atentos em coletar informações acerca da vivência religiosa e espiritual dos pacientes, a chamada História Espiritual. Questionar se o paciente acredita em algo, se tem alguma religião, se é membro de alguma comunidade religiosa e se esse grupo lhe dá algum suporte. Avaliar sobre a importância dos valores religiosos e espirituais na sua vida e se a R/E influenciam na forma como aquela pessoa lida com as dificuldades da vida. Ao identificarmos que se trata de alguém que dispõe desse recurso, devemos incentivá-lo a buscar essa dimensão, como forma de complementar os tratamentos de saúde tidos como formais. Referências bibliográficas 1. Koenig HG, McCullough M, Larson DB. Handbook of religion and health: a century of research reviewed. New York: Oxford University Press, 2001. 2. Moreira-Almeida A, Lotufo Neto F, Koenig HG. Religiouness and mental health: a review. Revista Brasileira de Psiquiatria 28 (3): 242-50, 2006;. Bonelli RM, Koenig HG. Mental Disorders, Religion and Spirituality 1990 to 2010: a systematic evidence-based review. Journal of Religion and Health 52(2):657-73, 2013. 3. Weber SR, Pargament KI. The role of religion and spirituality in mental health. Current Opinion in Psychiatry 27:358-363, 2014. 4. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Censo Demográfico, 2010. Rio de Janeiro, 2010. 5. Lucchetti G, Lucchetti AG, Badan-Neto AM, Peres PT, Peres MF, MoreiraAlmeida A et al. Religouness affects mental health, pain and quality of life in older people in an outpatient rehabilitation setting. Journal of Rehabilitation Medicine 43(4):316-22, 2011 OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 07


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Dra. Letícia Macedo

DELÍRIOS MÍSTICOS

Médica Psiquiatra Diretora Técnica da Casa de Saúde SJD

Caracterização e terapêutica Delírio é uma crença ou alteração do conteúdo do pensamento, produto de uma interpretação errônea da realidade, que não se altera mesmo com evidências contrárias à mesma. Existem vários tipos de delírios (de grandeza, perseguição, autorreferência, ciúmes, controle ou influência, erótico, de vingança, de conteúdos depressivos, místicos, dentre outros). Ocorrem tipicamente nos transtornos mentais (comumente

nas esquizofrenias), nos transtornos induzidos por álcool/ substâncias psicoativas e nos quadros neurológicos. O delírio místico tem um conteúdo vinculado à espiritualidade e à religiosidade. A interpretação do mundo, do eu e dos outros é feita apenas com base na fé. Costumam ter aspecto grandioso, enfatizando a própria importância do sujeito que delira (em que o indivíduo acredita ser superior aos outros, relacionando todos os acontecimentos do mundo a si próprio). Em alguns casos, pode haver sintomas alucinatórios associados (o aparecimento de vozes, ou imagens que supostamente “o orientem” sobre como proceder). O delírio místico em si não é perigoso, mas é muito comum que os sujeitos realizem comportamentos de risco por causa de sua impulsividade e isolamento. Também pode ser chamado de delírio messiânico (pessoas que acreditam serem escolhidas para cumprirem determinadas missões ordenadas por divindades ou figuras messiânicas – ou que acreditam serem o próprio Jesus Cristo, por exemplo – algo bastante comum nesse tipo de delírio). Em outras situações, acreditam claramente que têm poderes místicos para resolverem determinado problema mundial, que podem entrar em contato com Nossa Senhora, com o Espírito Santo ou com o demônio. Outros que engravidaram de algum santo ou que possuem o domínio ou exclusividade de mensagens religiosas universais, decisões mundiais importantes ou até mesmo considerarem-se pessoas fundamentais para a humanidade. O fator determinante no delírio místico é o efeito negativo que o mesmo provoca no indivíduo. Existem crenças para algumas pessoas que podem soar como absurdas para outras, porém, as mesmas podem não provocar angústias ou desadaptação a estes indivíduos, e, por isso, não serem classificadas como um delírio. O que transforma um conteúdo mental em algo delirante é a intensidade, a persistência e o dano que tal conteúdo pode provocar neste “indivíduo delirante” (é muito comum a repetição de discursos, por vezes, desconexos e ilógicos, causando-lhes angústias constantes – fator que nos permite identificar com maior clareza tratar-se de um delírio). Outra questão fundamental para se detectar em delírios místicos/ religiosos é a capacidade de percebermos e identificarmos traços culturais individuais. Devemos sempre levar em consideração o ambiente nativo de cada ser humano e suas atribuições locais para não confundirmos como quadro delirante por si só. Crenças religiosas e delírios


religiosos estão em um contínuo e variam entre as culturas. Esse conhecimento e o absoluto respeito à diversidade individual são fundamentais para entendermos a experiência do paciente e o quão longe ele se desvia de uma determinada realidade cultural.

ABORDANDO A QUESTÃO TERAPÊUTICA É de fundamental importância o trabalho multidisciplinar quando falamos de pacientes psiquiátricos, principalmente os casos graves. O trabalho em equipe é de extrema necessidade. A intervenção do médico psiquiatra e a prescrição de medicamentos devem ser feitas de forma individualizadas com a finalidade de amenizar ou eliminar os delírios (ou outros sintomas) considerados prejudiciais ao paciente. A presença da psicologia (a psicoterapia pode ser uma ferramenta para identificar e corrigir atitudes que podem causar grande angústia em quem sofre), da terapia ocupacional e de toda uma equipe multidisciplinar permitem a recuperação do indivíduo identificando os possíveis gatilhos responsáveis pelo aparecimento de tais delírios. É aconselhável a participação da família e aqueles que fazem parte do ambiente de vivência do paciente. Os laços amorosos e o afeto de pessoas próximas são sempre importantes para o avanço do tratamento. Nas histórias de vida de muitos pacientes, a religião desempenha um papel central nos processos de reconstrução de um senso de auto recuperação, porém, pode também se tornar parte do problema. Alguns pacientes são ajudados por suas comunidades religiosas, reerguidos por atividades espirituais, confortados e fortalecidos por suas crenças. Outros, ao contrário, acabam sendo rejeitados por

sua comunidade religiosa, sobrecarregados por atividades espirituais, decepcionados e desmoralizados por suas crenças. Portanto, a religião é muito relevante para o tratamento de pessoas com transtornos psiquiátricos em geral, pois pode ajudar a reduzir sintomas negativos da patologia, melhorar o enfrentamento e promover a recuperação (principalmente através da “fé”). As ideias delirantes, portanto, desempenham um papel na vida do sujeito e no apaziguamento de um sofrimento ou desconforto experimentado. Analisando o delírio místico é possível detectar conteúdo ligado à culpa e agonia, acompanhado de um comportamento altamente devoto e disfuncional. Dentre os tratamentos eficazes para esse perfil de pacientes, torna-se de grande importância trabalharmos com a “tolerância” às diversidades, respeitarmos as diferentes crenças, atentarmos ao proselitismo e fortalecermos o conhecimento de nossa própria identidade espiritual. O cuidado com o paciente, de uma forma geral, é fundamental para que o mesmo leve uma vida menos angustiante, mais equilibrada e mais feliz.


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Pe. Guilherme Silva dos Santos

Ex-capelão do Lar São João de Deus e Vigário Paroquial de Corrêas, Petrópolis - RJ

ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL NA TERCEIRA IDADE “Sereis santos porque eu sou santo”(1 Pd 16). Este mandamento exposto pelo apóstolo São Pedro corresponde ao convite feito aos cristãos, uma vez convertidos ao cristianismo, e que é a meta de todo filho de Deus: ser santo. Esta é a base para o acompanhamento espiritual e o verdadeiro direcionamento para todos os que percebem que a vida não é somente “corpo”, mas há um aspecto muito mais interior, íntimo, vivo e sublime. O acompanhamento espiritual é este delicado e dedicado empenho em tocar “a terra sagrada” do ser de uma pessoa e permitir que ela mesma viva este mundo interior que nem sempre é plenamente conquistado.

Ao tratar do acompanhamento espiritual na terceira idade, em nada diminuímos este aspecto de permitir que o idoso descubra a grandeza de sua alma. Muitas vezes, pela debilidade do corpo, somadas às experiências de vida, parece que pouco há para descobrir e crescer. Grande engano! Acompanhar um idoso no aspecto espiritual é realizar nesta vida o que diz o salmista: “na velhice ainda darão frutos, continuando cheios de seiva e verdejantes” (Sl 92). Recordo-me de um idoso aos seus cem anos de vida, ainda com a lucidez que tanto lhe caracterizava, uma visão deteriorada e a enfermidade tirando-lhe a força, dia após dia. Certa vez me chamou e disse que gostaria de conversar semanalmente para falar sobre sua alma. Apenas um fato posso partilhar: na nossa última conversa ele disse que sempre procurou ser amigo de Deus, mas agora que está tão próximo de O encontrar, temia que não tivera sido um amigo tão bom. Sua paz e busca em estar com este Bom Amigo faz que eu tenha uma certeza: quando seus olhos se fecharam para este mundo, seu Grande Amigo os abriu tirando de seu coração todo temor. Este é o maior fruto do acompanhamento espiritual. Certamente, o acompanhamento espiritual é muito dinâmico e pode ir além de um encontro particular/confidencial. Também não se limita ao aspecto confessional. Às vezes significa dar um pouco mais de ânimo, acalento, alegria e atenção nesta fase da vida que para muitos parece apenas um momento de inutilidade. Porém, sempre se dá o Espírito de Deus, ainda que nem sempre se fale Seu Nome, pois mesmo não sendo crentes, possuem uma alma. São João

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Paulo II, em um encontro com os jovens, afirmara sobre si mesmo: “sou um jovem de 84 anos”. É esta juventude, nada relacionada com a idade, que o acompanhamento espiritual deve trazer ao idoso. Um redescobrir que em seu coração pode haver marcas e cicatrizes de uma vida, mas ainda é vida e esta precisa ser constantemente renovada. Como o acompanhamento espiritual pode ser aplicado a idosos que não têm uma religião? Em muitas Residências de Longa Permanência, quando existe um responsável pelo aspecto espiritual, não basta atender os crentes, mas é preciso ir além, a cada pessoa, buscando suas individualidade, caráter, personalidade, em suma, seu ser neste mundo. Isso implica levar ao idoso o reconhecimento de seu significado no mundo e, especialmente, para si mesmo: A abordagem espiritual vai além de reconhecer a tradição religiosa do paciente, pois esse aspecto é apenas uma das facetas da espiritualidade. Uma adequada estratégia de comunicação, utilizando empatia, honestidade e compaixão na abordagem prognóstico, é pré-requisito fundamental para uma boa avaliação espiritual. A constatação da finitude da vida e a reflexão acerca do que foi feito e das perspectivas de uma vida que está no fim permitem profunda experiência de significado. (CARVALHO, Ricardo T. et al. Manual da Residência de Cuidados Paliativos - ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR. Barueri, SP: Manole, 2018) Em um de meus atendimentos, encontrei uma senhora de 94 anos muito abatida. Há meses que não saía do quarto e, mesmo não sendo uma religiosa praticante, me perguntava

que não era justo consigo mesma esquecer os maravilhosos eventos de seu passado. Assim, ela lembrou de sua força de vontade que a fez trabalhar em uma empresa, mesmo sofrendo discriminação por ser mulher, e rindo, se enchia de orgulho ao dizer que fazia mais que todos os homens. Lembrou da educação que transmitiu aos seus filhos, das viagens que fez ao redor do mundo, dos idiomas que aprendeu, da grande vida que teve. O passado de 90 anos não poderia ser destruído por quatro anos em uma casa para idosos. Ao final, o seu corpo ainda padecia a tristeza de suas limitações, mas sua alegria, sua alma, superava as quatro paredes de seu quarto. Ela deu significado à sua existência. Acredito que o atendimento espiritual a um idoso pode ser resumida na célebre ideia de Cicely Saunders, grande mulher e ícone no desenvolvimento atual dos Cuidados Paliativos: Ao cuidar de você no momento final da vida, quero que você sinta que me importo pelo fato de você ser você, que me importo até o último momento de sua vida e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance, não somente para ajudá-lo a morrer em paz, mas também para você viver até o dia de sua morte. (História dos Cuidados Paliativos. Disponível em: http://clinicacorp.com.br/blog/historia-doscuidados-paliativos/. Acesso em: 19 de dezembro de 2019). Assim sendo, não restringimos a atenção espiritual em um atendimento estritamente religioso. A própria dimensão religiosa vai além do confessional. Mas a verdade que conduz todo este precioso processo é a certeza do Amor de Deus que chega a todas as almas, e como são inúmeros os caminhos do Senhor, também são inúmeras as formas para alcançar a alma de um idoso. Reconhecer que como cada pessoa, em seus muitos e longos anos de vida, é amada por Deus, também deve ser amada por quem tem a nobre missão de acompanha-la espiritualmente. O amor é o motivo para caminhar até o fim.

por quê Deus não a levava. Sua tristeza era grande por não ser mais capaz de tocar o piano que tanto amava; não podia viajar, pois estava proibida pelo médico. Ela dizia que sua vida estava acabada e, por este duro momento, não via o valor da vida. Eu não menti para ela! Concordei com o que ela constatava e sofria. Porém, a abordagem consistia, dia após dia, em ajudá-la a descobrir o valor de uma vida toda, e OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 11


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Patrícia Musmanno1, Mauro Braga1, Cátia Z. Borsato3,4, Nelson Bretas5,6, Alexandre dos S. Pyrrho6 , Marcia C.B.N. Varricchio1,2,6

1 FMPFase; 2 7ª Enfermaria do HGSCMRJ; 3 OABRJ, 4 UNESA; 5 UFMG; 6 Projeto SAPB - LIPAT/FF/UFRJ.

ESPIRITUALIDADE E PROFISSIONALISMO Trabalhadores sob assédio moral são a todo instante excluídos do trabalho, seja por serem forçados a pedirem demissão ou afastarem-se por licença médica, seja por serem induzidos a cometerem erros que justifiquem uma justa causa, discriminação arbitrária e perversa, problema grave não somente para o empregado, mas para a própria empresa (DE ÁVILA, 2008). Um país democrático há de ser um país laico (GRANADEIRO GUIMARÃES, 2017). Contudo, os temas espiritualidade e dignidade vêm ganhando expressão no contexto das organizações, principalmente, em resposta às inquietações e sinais de infelicidade manifestados pelos seus diversos gestores, em decorrência da visão exacerbadamente voltada para resultados financeiros, em detrimento do equilíbrio e bem estar das pessoas (MENDES, 2012). Perante o compromisso profissional, nota-se o diferencial qualitativo positivo percebido em pessoas equilibradas perante o tripé de suas questões físicas, emocionais e espirituais: “Estes profissionais são desejáveis porque conseguem viver melhor o relacionamento institucional, entendem as adversidades dos colaboradores, compreendem e humanizam os desafios, têm melhor resposta aos fracassos, têm melhor comprometimento com os processos de melhoria, possuem a verdadeira 12 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

capacidade de Amar” (FERNANDES, 2011). Para o desenvolvimento da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (E.A.T), a busca de sentido e virtudes humanos no ambiente de trabalho, “ações chave” colaboram para isso. Devem ser alvo de atenção e sistematização por parte da gestão organizacional. Caberá ao líder a criatividade para adaptação, desenvolvimento e geração de ações que desenvolvam as Dimensões da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (DAMIÃO, 2015): 1) Atuação de líderes/consultores: descobrimento, desenvolvimento e potencialização das habilidades técnicas e comportamentais. A dimensão de sentido de préstimo à comunidade poderá surgir ou se elevar (DAMIÃO, 2015); 2) Apoio psicológico e espiritual no ambiente de trabalho: a atuação de profissionais capazes de lidar com essas necessidades dos colaboradores possibilitará o desenvolvimento das dimensões de sentido de comunidade na equipe, alegria no trabalho e oportunidade para a vida interior, além do diferencial em relações humanas. A organização ganhará em produtividade (DAMIÃO, 2014). 3) Oportunidade para diálogos sobre os objetivos organizacionais: porque, como e para quê algo está sendo feito, não deve ser de conhecimento somente da liderança


da organização, mas de todos. Permitirá que os envolvidos entendam sua missão e possam alinhar seus valores pessoais com os da organização. O nível de engajamento profissional poderá aumentar (REGO, CUNHA & SOUTO, 2007). A individualidade deve ter espaço, as estruturas devem ser mais flexíveis e o controle exercido sobre colaboradores deve ser substituído por responsabilidade compartilhada e pelo diálogo constante, num processo de evolução da própria cultura, dos modelos de gestão e mesmo de nossos padrões comportamentais de percepção do mundo em sua diversidade. O desafio é que estes domínios consigam dialogar com os processos atuais de controle, “compliance” e eficiência, e possamos alcançar níveis de potência ainda maiores, como empresas, como profissionais e como coletivo. Reintegrar a espiritualidade na empresa é dar mais um passo importante em reincorporar o ser em toda a sua possibilidade de realização e liberar profissionais muito mais potentes e engajados. O resultado será um empresa mais corajosa, livre e potente (SVARTMAN, 2019). A palavra Espiritualidade caminha no sentido daquele que está preenchido de enthousiasmus (en Theo), plenificado pelo sutil sopro animador/Espírito que clareia seu intelecto e à sua mente ilumina, dando origem à ação (ABBAGNANO, 2007). Evoca lucidez, conexão e efetividade. Conexão interior, que amplia possibilidades éticas. Conexão humanística, ampliando possibilidades de afeto e de auto-realização através da generosidade, da hospitalidade, da solidariedade, da simplicidade. A gratificação, retroalimenta a motivação, nossa luz interior. As pessoas, ao se auto-responsabilizarem por suas escolhas e atos, desenvolvem sua autonomia e auto-direcionamento. O indivíduo motivado é aquele que encontra sentido e significado para cada etapa de sua vida, satisfeito com o que realizou (ou refazendo), confiante nas vivências do presente. Competência afetiva desenvolvida, capacidade de responsabilização e de compromisso, seriedade nas tarefas, conduzem-nos ao profissionalismo, e dele são prérequisitos (MACHADO, 2019). Conectam às novas instâncias do ser, ou seja, há uma nutrição no sentido espiritual, que necessariamente transbordará e desembocará em gentis, delicadas, boas e desapegadas ações ao próximo. A consciência do dever cumprido com amor. Em essência: basta se importar! Cáritas no ambiente profissional aproxima as pessoas, cria uma verdadeira fonte de otimismo, criatividade e bem estar, uma grande fonte de felicidade. Funcionários e líderes felizes, produzem mais, cooperam mais, lucram mais, vivem mais. Empresas que promovem a solidariedade vivem mais.

A prática comum da espiritualidade pura, livre de dogmas ou preceitos nos aproxima: “a caridade ensinada melhora os ouvidos, e a caridade praticada aprimora os corações”. Bem-estar, generosidade, realização profissional promovem saúde espiritual do indivíduo e da comunidade ao redor. (VARRICCHIO & LAGE, 2019)

Referências bibliográficas DAMIÃO, W. S. Espiritualidade no Ambiente de Trabalho. Disponível em: <http://www.portaleducacao.com.br/administracao/artigos/60809/ espiritualidade-no-ambiente-de-trabalho>. Acesso em: 05 de jun. 2015. DAMIÃO, W. S. Benefícios da Espiritualidade nas Organizações. Disponível em: <http://www.portaleducacao.com.br/administracao/artigos/62691/ beneficios-da-espiritualidade-nas-organizacoes>. Acesso em: 05 de jun. 2015. DAMIÃO, W. S. A Espiritualidade Enquanto Dimensão da Cultura Organizacional: estudo de caso em uma instituição confessional de ensino. 2014. 102p. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas) Faculdade de Administração e Economia da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernado do Campo, 2014. DAMIÃO, W. S. A Prática da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho. 2016. https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/administracao/apratica-da-espiritualidade-no-ambiente-de-trabalho/64023. Acesso em dezembro 2019. DE ÁVILA, R.P. As Consequências do Assédio Moral no Trabalho. Dissertação. Orientador: Prof. Dr. Sergio Augustin. 148f. Caxias do Sul. 2008 FERNANDES, S. A Espiritualidade na Vida Profissional. Administradores. Com. 2011.GRANADEIRO GUIMARÃES. Influências da religião no trabalho: quando profissão e espiritualidade caminham juntas. http://www.granadeiro.adv. br/clipping/jurisprudencia/2017/08/29/influencias-da-religiao-no-trabalhoprofissao-espiritualidade-caminham-juntas. Agosto, 2017. MACHADO, N.J. Competência e Profissionalismo: O lugar da Ética. PROGRAMA ÉTICA E CIDADANIA construindo valores na escola e na sociedade. http:// www.letras.ufmg.br/espanhol/pdf/%C3%89tica%20e%20cidadania/O%20 lugar%20da%20%C3%A9tica.pdf Último acesso em dezembro 2019. MENDES, L.H. de L. A relação entre espiritualidade e dignidade: um estudo com gestores e não gestores de organizações da região do Nordeste do Brasil. Dissertação. Orientadora: Profª Drª Lúcia Maria Barbosa de Oliveira. Faculdade Boa Viagem – DeVry Brasil CPPA – Centro de Pesquisa e PósGraduação em Administração MPGE - Mestrado Profissional em Gestão Empresarial. 162f. Recife, agosto 2012. REGO, A.; CUNHA, M. P.; SOUTO, S. Espiritualidade nas Organizações e Comprometimento Organizacional. Revista de Administração de Empresas, v.6, n.2, Art.12, jul./dez, 2007. SVARTMAN, M. DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE NAS EMPRESAS. REVISTA EXAME. Fevereiro, 2019. VARRICCHIO, M.C.B.N. & LAGE, C.L.S. Análise quanto à efetividade da legislação sobre o acesso ao patrimônio genético brasileiro, a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado, enquanto uso sustentável da biodiversidade. Relatório de EPD pelo INPI Set – Nov, 2019. Supervisor Celso L. S. Lage. BRASIL: RJ. 108 p. Janeiro, 2020. OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 13


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA

Ivani Cruz

Coach Life e Coord. de Pastoral e Humanização

Espiritualidade na Dependência Química Em 2008, SAVIO e BRUSCAGIN enfatizaram a importância da religião e da espiritualidade, na experiência humana, dentro do pensamento pós-moderno, uma vez que para algumas pessoas a religião é parte integrante de suas vidas e experiências diárias. Isso acontece porque a espiritualidade está inserida na cultura e no cotidiano dessas pessoas, pois quando se encontram em situações de grandes vulnerabilidades e/ou de contentamento se voltam para sua crença, fé, independentemente de sua religião. Dentro do campo da saúde mental, os profissionais (médicos psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, pesquisadores, pastoralistas, entre outros) reconhecem cada vez mais a importância da dimensão religiosa e da espiritualidade para recuperação de dependentes químicos como recursos terapêuticos. Lembrando que o ser humano é um ser multidimensional e, como tal, um ser complexo, compreendido em sua dimensão física, emocional, social e espiritual, que se entrelaçam e formam o todo integrado. As crenças religiosas possibilitam apoiar os pacientes através do reforço da aceitação e harmonia consigo mesmo, com o outro e com o universo. Em contrapartida, pode também favorecer a autocrítica, gerando culpa, dúvida, ansiedade e depressão. Desta forma, a crença religiosa gera posição de controle, favorecendo a saúde física. (MOREIRA-ALMEIDA, LOTUFO NETO e KOENIG, 2006). Se pesquisarmos, encontraremos diversos estudos científicos sobre as relações entre saúde e espiritualidade em diversos centros de pesquisas espalhados pelo mundo. Um deles está em relevância, a “The Spirituality and Psychiatry Special Interest Group, do Royal College of Psychiatrists da Europa”. Ele se dedica a pesquisas sobre as interferências espirituais na saúde mental, apontando que crenças e práticas religiosas estão associadas a uma melhor saúde física e mental, incluindo melhor qualidade de vida. Pois estar em oração é abrir o coração para Deus e mostrar as suas fragilidades. Sobre a relação entre saúde mental e espiritualidade, existem milhares de pesquisas divulgadas. A maioria delas concluem que o envolvimento religioso e espiritual traz melhorias na qualidade de vida como: Sensação de bem estar; Senso de propósito; Significado da vida; Esperança; Otimismo; Estabilidade nos casamentos; Menores índices de ansiedade e depressão; Menores índices 14 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

de abuso de substâncias químicas. Nappo (2008) destaca a religiosidade como protetora entre as pessoas que praticam os preceitos religiosos, que crêem na importância da religião ou da espiritualidade. Assim, o cuidado espiritual com usuários em tratamento de desintoxicação, constitui um desafio, pois a religiosidade aparece como um auxílio. De fato, ela traz aos praticantes apoio emocional, desenvolve neles a resiliência, diminuindo o estresse e os níveis de ansiedade, valoriza as potencialidades individuais e lhes disponibiliza apoio dos líderes religiosos, sem julgamentos. Tudo isso vai auxiliar na formação de uma nova estrutura familiar, facilitando a recuperação e diminuindo o índice das recaídas, contribuindo para a desejada ressocialização. Não podemos falar de espiritualidade como tratamento de dependência química sem falar de Alcoólicos Anônimos, bem como de seu posterior desdobramento, a irmandade de Narcóticos Anônimos. São seguramente os primeiros a falarem em espiritualidade para seus membros, gente com uma história de sofrimento absurdo, em função de sua toxicodependência/alcoolismo, desvinculando esse conceito de um modelo tradicional de religião. Isso pode ser verificado no próprio preâmbulo de AA: “ALCOÓLICOS ANÔNIMOS é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças a fim de resolver o seu problema comum e ajudarem outros a se recuperarem do alcoolismo. O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber. (...) AA não está ligado a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, nenhuma organização ou instituição...”. Essas características podem ser responsáveis pela imensa capacidade de agregar em um mesmo espaço pessoas tão diferentes. Mas outra relação menos conhecida do Programa de Doze Passos está, de fato, intimamente ligada ao convívio religioso, visto que algumas das ideias que perduram até hoje, surgiram com os grupos de Oxford. Cita o programa de 12 passos, com uma dimensão espiritual, dada a sua importância para o tratamento. Considera que as comunidades religiosas e espirituais facilitam a reintegração social e oferecem


estabilidade, inspiração e apoio prático para os membros mentalmente doentes. Assim como AA (Alcoólicos Anônimos) e NA (Narcóticos Anônimos), os Profissionais de Saúde devem ver os benefícios que a espiritualidade traz na vida dos indivíduos e devem buscar dialogo, auxilio e conhecimento, para atuar no campo, tomando iniciativas como: 1. Colher, reunir informações sobre as experiências espirituais e religiosas de seus pacientes durante a vida e determinar qual o papel que desempenham nos seus problemas atuais; 2. Lidar com as crenças, dando apoio ao paciente, que deve ser incentivado e apoiado a manter ou refazer os vínculos. Podem ser sugeridas leituras, práticas de oração, meditação, buscas de aconselhamento religioso e participação em atividades assistenciais promovidas pelos grupos religiosos; 3. Interagir com líderes religiosos. Nestes casos pode ser de grande valia contar com o líder religioso, após autorizado pelo paciente, nunca com postura de confrontamento, mas sempre tentando trabalhar em conjunto e respeitando a identidade cultural, espiritual e religiosa dos pacientes ao decidir por um tratamento. A espiritualidade é um diferencial na vida das pessoas que passaram por um tratamento de desintoxicação química, que pode sugestionar de forma positiva ou negativa durante o tratamento e pós-tratamento. No entanto, podemos concluir

que a condição espiritual é, no ser humano, uma força integradora e unitária, na qual as potencialidades podem ser desenvolvidas juntamente com todos os aprendizados obtidos no tratamento. Ela promove no usuário novas formas de encarar e viver a vida. A espiritualidade é um dos pilares da recuperação, pois quando um dependente químico, com apoio da religião, percebe que a vida não é somente a droga e que há outras possibilidades, ele consegue ter força, coragem e fé para se manter em abstinência. Segundo Sanchez e Nappo (2008), a oração tranquiliza as pessoas usuárias de álcool e/ou drogas, através de um estado meditativo e de alteração da consciência. Além disso, a oração também promove a fé, que ameniza o peso da luta contra a dependência, uma vez que o dependente divide a responsabilidade do tratamento com Deus e sente sua intervenção protetora. Por fim, a religião e a espiritualidade são fontes de conforto e esperança, independente das crenças e condições em que o paciente e/ou familiar se encontra. Referências bibliográficas SAVIO, A.; BRUSCAGIN, C. 2008 A Religiosidade na Prática Clínica: Construindo Diálogos com o Cliente Religioso; BRUSCAGIN, C.; SAVIO, A.; FONTES, F.; GOMES, D. M. Religiosidade e Psicoterapia. São Paulo. Boff L. Espiritualidade: um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante; 2001.

COMO SE “FAZ” UM SANTO?

As fases do processo canônico, desde a morte até à canonização dum santo O Processo de Canonização de uma pessoa, que termina quando o papa a inscreve na Lista dos Santos, é um processo burocratizado e pode demorar décadas, ou até séculos, quando falta alguma das condições para ele evoluir. O candidato, sempre alguém já falecido, deve provar virtudes heróicas e poder para conceder graças (milagres). O sucesso da causa depende da dedicação do postulador, “advogado” do candidato. Ele deve documentar o processo, buscar testemunhos e demonstrar milagres testemunhados. O processo tem 4 etapas:

1º passo

2º passo

3º passo

4º passo

Começa na diocese em que o candidato viveu ou realizou sua principal obra. Sob a orientação do postulador da causa, são reunidos escritos do candidato, documentos sobre sua vida e testemunhos de pessoas que receberam graças e que eventualmente conviveram com ele. Organizado tudo isso, o processo segue para o Vaticano, para a Congregação para as Causas dos Santos. O candidato passa a ser chamado de Servo de Deus.

Na Congregação da Causa dos Santos o processo passa por três comissões: Comissão Histórica, Comissão dos Consultores Teólogos e Congregação de Cardeais e Bispos. Se aprovado, segue para o Papa, que edita um Decreto, reconhecendo que o candidato exerceu em grau heróico as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e as virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança. O candidato passa a Venerável.

O passo seguinte é demonstrar um milagre que alguém testemunhe como real, devendo o postulador demonstrar que a intervenção do candidato foi fundamental. O milagre mostra que ele está ao lado de Deus e pode interceder a favor de vivos. A maioria dos milagres relatados são curas. Tal cura deve ser instantânea, perfeita, duradoura e não explicável cientificamente. Depois de médicos do país emitirem pareceres, há o sancionamento por uma junta de 5 médicos, no Vaticano. Se o milagre for aprovado, o candidato vai ser Beato, podendo receber culto público localizado.

A fase seguinte é a demonstração de mais um milagre realizado após a beatificação, passando pelas mesmas avaliações (médicas) da etapa anterior. Se aprovado, o papa edita o decreto de canonização e, vai ser proclamado Santo, podendo ser cultuado em todo o mundo.

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SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA

Santa Dulce dos Pobres

Quando a espiritualidade vira amor A Irmã Dulce (1914-1992), não lia jornais nem via TV, jejuava três vezes por semana, não consumia carne, doces ou refrigerantes e sabia tocar sanfona. “Apesar da sua fragilidade física, acordava às 5h, comia muito pouco, visitava os doentes do hospital, conversava com os médicos, resolvia as questões administrativas e só depois saía para pedir doações. Rezava o terço diariamente.” Assim descreve o seu programa sua sobrinha, Maria Rita, que hoje preside à sua Obra, na Bahia. E o jornalista Renato Riella, que conviveu com ela por 24 anos, a chama de guerreira e diz que o principal ofício dela era “trabalhar, trabalhar e trabalhar, desafiando tudo e todos para poder atender os mais pobres”.

CRONOLOGIA DA VIDA DE SANTA DULCE 1914 - Em 26 de maio, nasceu em Salvador-BA e foi batizada com o nome de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, filha de um estomatologista, professor univerrsitário. 1921 - Perde a mãe, de 26 anos, e no ano seguinte recebe a 1ª Eucaristia. 1927 - Tenta entrar no convento de Santa Clara, mas é recusada devido à idade (13 anos). 1927 - Começa a receber mendigos e doentes na casa dos pais, que virou “Portaria de São Francisco”, no Bairro Nazaré. 1932 - Forma-se em professora do ensino primário 1933 - Entra para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em Sergipe. 1934 - Faz os votos religiosos, tornando-se freira, com o nome de Dulce, igual ao da mãe. 1934 - Volta a Salvador e inicia serviço de professora no colégio da Congregação. 1935 - Começa a trabalhar com os pobres, na comunidade paupérrima de Alagados. 1936 - Funda a União Operária São Francisco, 1ª entidade católica baiana de operários. 1937 - Cria o Círculo Operário da Bahía, com Frei Hildebrando Kruthaup. 1939 - Funda o Colégio Santo Antônio, para operários e seus filhos. E, para abrigar doentes que recolhia nas ruas, invade 5 casas na Ilha do Rato, mas, sendo expulsa, teve de peregrinar por 10 anos, instalando os doentes em vários lugares”. 1949 - Autorizada a ocupar o galinheiro contíguo ao convento, lá instalou 70 doentes. 1959 - É criada a “Associação Obras Sociais Irmã Dulce”. 1960 - Inaugura o Albergue Santo Antônio, onde viria a fundar o Hospital Santo Antônio. 1980 - Encontra-se com o Papa João Paulo II, na sua 1ª visita ao Brasil, que lhe ofereceu um terço e apoiou sua missão.

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1988 - É indicada ao Prêmio Nobel da Paz pelo então Presidente José Sarney, e o apoio da rainha da Suécia. 1990 - Em 11 de novembro, é internada no Hospital Português da Bahia, depois na UTI do Hospital Aliança e finalmente no (seu) Hospital Santo Antônio. 1991 - Em 20 de outubro, quebrando protocolos, o papa João Paulo II a visita, no leito de morte, e lhe dá a benção e a unção dos enfermos. 1992 - Em 13 de maio, falece, em Salvador, sendo sepultada no Alto do Santo Cristo, na Basílica de N. Sra. da Conceição da Praia. Mais tarde seu corpo foi transladado para a capela do Hospital de Santo Antônio, centro das Obras Sociais Irmã Dulce. 2000 - É introduzido seu processo de Beatificação, ficando no nível de “Serva de Deus”. 2009 - Após estudos e investigações da sua vida, o papa reconhece a heroicidade de suas virtudes, passando ao nível de “Venerável”. 2010 - A Santa Sé confirma um milagre pedido por sua intercessão: a recuperação de uma mulher sergipana desenganada, por hemorragias no parto. Seu corpo é exumado e sepultado novamente. 2011 - Em 22 de maio, é Beatificada, com o título canônico de Santa Dulce dos Pobres, em cerimônia realizada em Salvador, presidida por um enviado do papa Bento XVI, que fixa seu dia litúrgico em 13 de agosto. 2019 - Em 14 de maio, o Vaticano reconhece o segundo milagre, necessário para a canonização: recuperação da vista de um músico que ficara cego por 14 anos. 2019 - Em 13 de outubro, é canonizada, em cerimônia solene realizada no Vaticano e presidida pelo papa Francisco. Com ela foram canonizados John Henry Newman, Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan e Margherita Bays.


A MULHER, A FREIRA E A LUTA PELOS POBRES Ela é a primeira santa 100% brasileira, Jorge Amado lhe chamou “O Anjo Bom da Bahia” e o papa a canonizou, em 2019, com o título de Santa Dulce dos Pobres. Seu dia litúrgico é 13 de agosto e já se comemora em Salvador (num Santuário e numa paróquia com seu nome) e em, pelo menos, mais 28 igrejas e capelas de outros estados. Filha de pais ricos, Dulce (batizada como Maria Rita) era alegre, gostava de bonecas e de empinar pipa. Facilmente dava apelidos às pessoas e torcia pelo Sport Clube Ypiranga. Desde cedo sentiu o chamado para a vida religiosa, tentando primeiro aos 13 anos de idade uma congregação e Ir. Dulce aos 13 anos acabando por entrar aos 19 anos, em outra. Simultaneamente, apesar de chegar a ser professora, sentia a urgência de servir os pobres, começando na própria casa dos pais (com ajuda da sua irmã Dulcinha), passando pela ocupação do galinheiro do convento, até chegar a uma grande obra social, que geria com mão forte. Essa obra perdura no tempo. É ainda a sua sobrinha (citada na Ed. 29 da revista Bote Fé, da CNBB), que a descreve como “uma pessoa alegre, espiritual, abnegada, perseverante e de profunda fé em Deus e na humanidade; para ela não existia a palavra impossível quando se tratava das necessidades dos Ir. Dulce jovem pobres que batiam à sua porta. E diz mais: “Era uma pessoa que tinha uma capacidade enorme de ouvir as pessoas, ouvir atentamente, com carinho e atenção; até quando estava muito cansada, cheia de problemas, tinha forças para ouvir o outro”; ela dizia ver o próprio Cristo nas pessoas a quem se doava”. Uma curiosidade quase inacreditável, mas conferida pela jornalista Mariana Godoy, é que a Irmã Dulce, por 30 anos, dormia sentada numa cadeira de madeira, por conta de uma promessa.

ASSOCIAÇÃO OBRAS SOCIAIS IRMÃ DULCE Atualmente as “Obras Sociais Irmã Dulce” são uma entidade filantrópica, abrigando um dos maiores complexos de saúde 100% SUS do país, oferecendo cerca de 3,5 milhões de

procedimentos ambulatoriais por ano, a usuários do SUS, na Bahia: idosos, pessoas com deficiência e com deformidades craniofaciais, pessoas em situação de rua, usuários de substâncias psicoativas e crianças e adolescentes em situação de risco social. A organização conta com 21 núcleos que prestam assistência à população de baixa renda nas áreas de saúde, assistência social, pesquisa científica, ensino em saúde, educação e na preservação e difusão da história da sua fundadora. A sede das Obras em Salvador, também conhecida como Complexo Roma, abriga, em seus 40.000 m2 de área construída, 954 leitos hospitalares para o atendimento de patologias clínicas e cirúrgicas. Também ali se atendem diariamente cerca de 2 mil pessoas e se fazem anualmente 18 mil internações e 12 mil cirurgias.

MAIS TURISMO RELIGIOSO EM SALVADOR Maria Rita conta que a notícia da canonização fez aumentar o fluxo de visitantes, entre devotos, admiradores e curiosos. A Obra Social Irmã Dulce prevê que esse contingente deverá crescer com o incremento do Turismo Religioso na região. “Esse movimento já vem pouco a pouco se convertendo em ajuda para a manutenção da obra; vem também trazendo uma boa visibilidade tanto nacional quanto internacionalmente; e também reforçando a importância da instituição junto aos órgãos federais, estaduais e municipais”. Para não desligarmos do tema desta edição da nossa revista, deixem-nos agora perguntar: qual era a Espiritualidade de Santa Dulce? Da menina Dulce, da jovem Irmã Dulce, da Santa Dulce dos Pobres? Santa Dulce, com o Papa Responda apenas se quiser. E reze João Paulo II, em 1980 conosco, também se quiser.

ORAÇÃO À SANTA DULCE Senhor nosso Deus, lembrados de vossa filha, a santa Dulce dos Pobres, cujo coração ardia de amor por vós e pelos irmãos, particularmente os pobres e excluídos, nós vos pedimos: dai-nos idêntico amor pelos necessitados; renovai nossa fé e nossa esperança; concedei-nos, a exemplo desta vossa filha, viver como irmãos, buscando diariamente a santidade, para sermos autênticos discípulos missionários de vosso filho Jesus. Amém. OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 17


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Comissão de Pastoral da Saúde da Ordem Hospitaleira de São João de Deus - Roma

PASTORAL SEGUNDO O ESTILO DE SÃO JOÃO DE DEUS João de Deus, fundador dos Irmãos de S. João de Deus, depois da sua conversão e da sua dramática experiência no hospital Real de Granada, deixounos um modelo novo de assistência aos doentes e necessitados em que o ser humano é acolhido e assistido com amor e na sua totalidade. Desta forma, a assistência pastoral que parte de Cristo como fonte da saúde-salvação e o acompanhamento espiritual dos doentes e dos necessitados, dos seus familiares e colaboradores, fazem parte integrante da nossa missão hospitaleira, além de ser um “direito do doente”. “A assistência religiosa aos doentes inscreve-se no quadro mais amplo da pastoral da saúde, ou seja, a presença e a ação da Igreja, tendo em vista levar a palavra e a graça de Deus àqueles que sofrem e aos que cuidam deles”1. Francisco de Castro, primeiro biógrafo do nosso santo fundador, escreve acerca de João de Deus: “Ocupava-se todo o dia em diversas obras de caridade, e, à noite, quando regressava a casa, por mais cansado que viesse, nunca se recolhia sem primeiro visitar todos os enfermos, um por um, e sem lhes perguntar como tinham passado, como estavam, de que precisavam, e, com palavras muito amorosas, confortavaos, espiritual e corporalmente” (Castro, Biografia, cap. XIV). Numa sociedade em que se afirma cada vez mais o amor para si mesmos, é necessário desenvolver o amor pelos outros, o acolhimento do outro e a capacidade de escuta. O exemplo de João Cidade orienta-nos para o modo de viver a hospitalidade e praticar a pastoral da saúde, a proximidade com 1. Conselho Pontifício para a Pastoral dos Profissionais de Saúde, Carta dos profissionais de saúde, Cidade do Vaticano 1994, p. 79.

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o testemunho do evangelho junto dos doentes e dos necessitados e com o anúncio da Palavra que dá sentido à vida do crente. João de Deus recolhia os pobres abandonados, doentes e aleijados que encontrava e dava-lhes assistência espiritual e corporal: “quero trazer-vos um médico espiritual, que vos cure as almas. Para o corpo, não faltará remédio também” (Castro XII). Os tempos que estamos a viver representam para nós uma oportunidade de oferecer um testemunho profético e prático a favor da vida humana e da dignidade da pessoa que está a perder cada vez mais significado, com o risco de que também as nossas estruturas e os nossos colaboradores, com o passar do tempo, percam a sensibilidade, o entusiasmo para uma missão de promover a dignidade e a sacralidade da vida humana. A pastoral da saúde é um meio mediante o qual a Igreja está presente no mundo da saúde e da assistência para curar e assistir as pessoas, acompanhando-as, evangelizando-as e salvando-as através de Cristo, o bom samaritano da humanidade, e é também tarefa da nossa família hospitaleira que opera em muitas partes do mundo, trabalhar ativamente na assistência espiritual e religiosa, particularmente cuidada, aos doentes, às suas famílias e aos colaboradores. (...) Quando na Ordem hospitaleira de S. João de Deus falamos de Pastoral, fazemo-lo em dois níveis: 1) no primeiro, entendemo-la como a dimensão evangelizadora da missão que a Ordem realiza em cada uma das suas obras apostólicas; 2) no segundo, referimo-nos à missão concreta realizada pelo Serviço de assistência espiritual e religiosa dirigido às necessidades espirituais e religiosas, quer das pessoas assistidas nas nossas Obras, quer dos seus familiares, e ainda dos Irmãos e colaboradores. (...) “Todas as Obras Apostólicas da Ordem devem ter um serviço de assistência espiritual e religiosa, dotado com os recursos humanos e materiais necessários. Podem fazer parte deste serviço: Irmãos, sacerdotes, religiosos/as e Colaboradores que tenham uma formação adequada no âmbito da pastoral. Estes devem trabalhar em equipa, coordenando as suas atividades com os outros serviços da Obra Apostólica” (Estatutos Gerais, 54).


Trata-se de mais um Serviço de cada Centro, muito importante, porque dá assistência a uma parcela que consideramos basilar e que devemos promover, mas que não esgota nem aglutina toda a realidade pastoral e evangelizadora do projeto da Ordem em cada uma das obras apostólicas. Torna-se também necessário formar, motivar e sensibilizar os Irmãos e os Colaboradores sobre a assistência espiritual e religiosa, estando atentos a identificar tais necessidades que, umas vezes, eles mesmos poderão atender e, outras, deverão encaminhar para os profissionais do Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa [SAER]. (...)

simples assistência na higiene pessoal até à orientação existencial) pode ter qualidade pastoral se for realizado com a consciência de assumir e entrar em empatia com a pessoa na sua totalidade. Tocados pelo sofrimento de tantas pessoas que estão espiritualmente em processo busca, que se sentem vazias, desiludidas, desorientadas, etc., nós somos convidados a aproximar-nos delas com sensibilidade e competência para as ajudar a descobrir o mistério da sua vida. A pastoral desenvolve uma ação profética: faz ouvir a sua voz sempre que há uma ameaça à dignidade humana, compromete-se com a justiça social e acolhe o desafio da sua renovação contínua para responder às exigências e circunstâncias dos tempos, sempre diversas. (...)

Uma Pastoral orientada para a figura de S. João de Deus e para o carisma da Ordem significa, por conseguinte: • Manifestar às pessoas, por palavras e obras, o amor misericordioso e libertador de Deus; • Praticar a hospitalidade como forma de evangelizar; • Ver na pessoa necessitada e nos que sofrem o caminho para todas as ações (apessoa necessitada e sofredora é o caminho da Pastoral); • Descobrir e defender a dignidade de cada ser humano, reconstruindo-a quando tiver ficado ferida; • Descobrir e encontrar em cada pessoa o próprio Cristo (Mt 25); • Ser solidários com todos os que sofrem; • Defender com uma atitude profética os necessitados; • Vai e faz tu também o mesmo! Ir ao encontro de todos os necessitados sem medo algum, não desviar o olhar, deixarse tocar e fazer-se próximo do necessitado, como o Bom Samaritano (Lc 10 25-37), segundo o lema de S. João de Deus: “que seja o coração a comandar!” • Conscientizar que o nosso Deus do amor e o amor ao próximo só podem ser anunciados de modo credível através de uma prática coerente de testemunho; • Esforçar-se por descobrir em toda a realidade humana e em cada encontro com a pessoa humana as marcas da presença de Deus, valorizando-a; • Dar com generosidade aquilo que se recebeu; • Ter como objetivo a saúde integral de todas as pessoas; • Assumir que cada crente é chamado a participar no serviço pastoral. (...) O “olhar pastoral” é sempre um olhar sobre o homem integral, sobre a pessoa humana com as suas alegrias e as suas necessidades. Todo o serviço à pessoa (desde a

Há que instituir uma pastoral diferenciada, por setores, e atenta quer às necessidades das pessoas envolvidas quer ao estilo particular da estrutura. Além do doente, a Pastoral terá em consideração os agentes que cuidam dos doentes, os voluntários e os familiares, bem como todas as pessoas que, pelas mais diversas razões, frequentam o centro. Tendo em conta a ligação particular do centro com o território, é também necessário manter vivas as relações com as entidades públicas e com os cidadãos, tendo em vista, igualmente, criar uma opinião pública favorável às nossas instituições; do mesmo modo, haverá a preocupação de cuidar das relações com as instituições eclesiais.


SAÚDE & QUALIDADE DE VIDA Ricardo Cano

Mestre em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

O ECUMENISMO COMO VIA DE PAZ

O sonho de um mundo pacificado e harmonioso parece se distanciar um pouco mais da realidade humana a cada geração. As grandes guerras mundiais da primeira metade do século XX de certa forma enterraram uma visão otimista do futuro de uma humanidade que parecia estar destinada a alcançar o apogeu de seu processo civilizatório por meio de conquistas científicas e filosóficas. Os dias atuais têm sido marcados por grandes polarizações ideológicas. O embate cultural e religioso entre o Oriente e o Ocidente que havia sido preconizado por diversos analistas na segunda metade do século passado parece estar chegando a um ponto sem retorno. É nesse contexto de imenso desânimo existencial que precisamos recuperar e estimular conceitos e ações que valorizem o que temos de comum como seres humanos a fim de encontrarmos novas alternativas para a construção de pontes de boa-vontade entre povos, nações e comunidade religiosas. Um desses conceitos tem sido muito combatido e mal interpretado por muito tempo: trata-se do ecumenismo. O termo “ecumenismo” deriva de termos gregos que significam “o mundo habitado” no sentido de um lugar, ou lar comum a todos os seres humanos, e a sua aplicação mais imediata diz respeito à possibilidade de haver uma relação amistosa, tolerante e colaborativa entre diferentes credos religiosos. Em uma acepção mais ampla, esse movimento abarcaria todas as expressões religiosas do mundo em um sentido sincrônico, isto é, entre as religiões existentes no presente e que possuam adeptos em alguma parte do planeta. Em outra acepção, mais restrita, essa busca de comunhão e tolerância entre diferentes manifestações religiosas se aplicaria somente ao universo das religiões cristãs. As igrejas cristãs têm sido mais ativas na área do ecumenismo. Os protestantes tiveram que começar a lidar com essa questão desde o final do século XIX, no auge do movimento missionário protestante que foi impulsionado principalmente por agências missionárias interdenominacionais. No caso da Igreja Católica, um grande divisor de águas foi a instituição do Concílio Vaticano II na década de 1960, convocado pela bula papal “Humanae Salutis” do Papa João XXIII e encerrado já sob o papado de Paulo VI. Um dos documentos mais relevantes 20 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

desse período foi o decreto papal “Unitatis Redintegratio”, que trata justamente dos princípios que deveriam nortear os católicos nas relações com outras denominações cristãs, os chamados “irmãos separados”. O grande desafio que se tem colocado diante da caminhada ecumênica diz respeito aos limites que se deveriam impor ou não a qualquer diálogo interconfessional. No âmbito das igrejas cristãs, existiriam fundamentos de fé inegociáveis, sem os quais nenhum tipo de compromisso seria possível? Nas relações com igrejas não-cristãs, deveríamos abrir mão de qualquer iniciativa proselitista em troca de uma aceitação tácita de um elemento salvífico em todas as religiões do mundo, conforme exposto por Desmond Tutu, arcebispo da igreja anglicana na África do Sul, em sua obra “Deus não é cristão”? A fim de se evitar uma paralisia total nas iniciativas ecumênicas enquanto se tenta definir limites de diálogo e atuação, um bom ponto de partida seria a consideração da proposta feita na década de 1970 pelo apologeta evangélico Francis Schaeffer, segundo o qual as relações ecumênicas deveriam dividir-se em duas categorias: relações de aliança e relações de cobeligerância. De forma geral, a primeira categoria se restringiria ao diálogo entre denominações cristãs que seguem os elementos básicos da ortodoxia cristã como a crença na inspiração das Escrituras Sagradas. Já as relações de cobeligerância se dariam com toda e qualquer religião em torno de um objetivo comum, normalmente social ou político. Em outras palavras, o ecumenismo se dividiria entre unidade cristã e parceria solidária. Apesar de a proposta original de Francis Schaeffer ser relativamente reducionista em relação ao grupo com o qual seria possível estabelecer-se uma relação de aliança, ela está bastante alinhada com o espírito do Concílio Vaticano II e com a visão de mundo contemporânea no que diz respeito às iniciativas de cobeligerância. O momento presente descortina uma variedade imensa de oportunidades de parcerias interconfessionais em torno de temas sociais e políticos. Se levarmos em conta somente as questões mais prementes da nossa década, tais como a crise dos refugiados e as consequências das mudanças climáticas, já teríamos material suficiente para desenvolver parcerias com diferentes


MAGISTÉRIO

ESCUTAR A IGREJA FAZ BEM! Da Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” do papa Francisco, sobre a Santidade 5. Nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte. Esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis. (...) Os santos da porta ao lado 6. Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente». O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo. 7. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade». (...) O Senhor chama 10. Tudo isto é importante. Mas, o que quero recordar com esta Exortação é sobretudo a chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: «sede santos, porque Eu sou santo» (Lv 11, 45; cf. 1 Ped 1, 16). O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos

de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho». 11. «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. (...) 12. A propósito de tais formas distintas, quero assinalar que também o «génio feminino» se manifesta em estilos femininos de santidade, indispensáveis para refletir a santidade de Deus neste mundo. E precisamente em períodos nos quais as mulheres estiveram mais excluídas, o Espírito Santo suscitou santas, cujo fascínio provocou novos dinamismos espirituais e reformas importantes na Igreja. Podemos citar Santa Hildegarda de Bingen, Santa Brígida, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila ou Santa Teresa de Lisieux; mas interessame sobretudo lembrar tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho. (...) 14. Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. (...) Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais.

religiões por décadas a fio. Os projetos baseados no princípio da cobeligerância oferecem uma oportunidade única de grupos e pessoas de diferentes religiões se darem conta de que partilham muitos sonhos e valores comuns, o que pode facilitar o reconhecimento da dignidade humana essencial presente em todas as culturas. Esse é o primeiro passo para o desenvolvimento de um espírito de paz e tolerância. De certa forma, poderíamos afirmar que mesmo aqueles grupos confessionais que possuem afinidades próprias do princípio da aliança, como seria o caso das denominações cristãs, deveriam passar por

uma etapa de relação cobeligerante antes de caminhar em direção a uma relação mais íntima de aliança. Retornando ao início desta breve reflexão, precisamos ter em mente que o ecumenismo é mais do que uma opção conceitual – é, na verdade, a constatação de que precisamos encontrar um caminho de convivência nesta “casa comum” que é o nosso planeta. Sejamos irmãos, irmãos separados ou simplesmente parceiros, que a nossa motivação seja sempre a de promover a paz, a tolerância e a compreensão mútua enquanto nos unimos em torno de projetos que busquem o bem e a dignidade de todo ser humano. OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 21


ENTREVISTA SUPERIOR PROVINCIAL DE PORTUGAL - BRASIl - TIMOR LESTE

IR. VITOR LAMEIRAS

Conduzida por Ir. Augusto V. Gonçalves

“ Não podemos ver a migração do Brasil para a América Latina como ganho ou perda... Ganha a Ordem.”

O Ir. Vitor nasceu em Alcobaça - Portugal, há 47 anos, conheceu a Ordem aos 17 e dela se foi aproximando, chegando a servi-la como animador de jovens e cuidador profissional. Aos 24 anos a Juventude Hospitaleira enviou-o, como Voluntário, para Moçambique e aos 25 pediu para ser Irmão. Fez o Postulantado em Moçambique, o Noviciado em Palência (Espanha) e emitiu os votos religiosos em 12 de Setembro de 1999. Graduou-se em Serviço Social, na Univesidade Católica Portuguesa, em 2004. Em 2004, ainda professo simples, foi convidado para dar inicio à fundação da Ordem no Timor-Leste, com o Ir. José Antonio de Lima, brasileiro. Graças a Deus e ao seu inquebrantável compromisso com a missão, deu tudo bastante certo e, em 2014, foi eleito Provincial, sendo um dos mais jovens Irmãos portugueses. Frequentemente, nas férias, faz o Caminho de Santiago, a pé. Fomos entrevistá-lo em Lisboa, Portugal, onde se dedica ao governo da Província 24 horas por dia, com muitas viagens pelo meio, ao Brasil, a Timor-Leste, a Roma e à América Latina, agora freadas pela pandemia. OH! - Portugal, Brasil e Timor, numa extenção geográfica “onde nunca o sol se põe”? Ir. Vitor - Tem as suas dificuldades e desafios, as maiores são em termos fisicos, sobretudo pelo desgate das viagens. Mas também é muito gratificante poder partilhar e experienciar a vivência do Carisma Hospitaleiro em realidade geográficas e culturais tão distintas. Verificar que a Hospitalidade, como valor, está presente em todas as culturas e que a presença missionária e religiosa dos Irmãos de S. João de Deus se implanta com facilidade ao comunicar e fazer sobressair esse valor já presente na cultura de cada povo. OH! - Quantos Irmãos, Colaboradores e Centros Assistenciais ou presenças da Ordem tem a Província? Ir. V - Respondo com uma tabela, para ser mais sintético:

OH! – A parte portuguesa da Província é formada, sobretudo, por Irmãos idosos. Ser formado em serviço social ajuda na sua coordenação e acompanhamento? Ir. V - A formação em serviço social ajuda-me a organizar a minha sensibilidade e sentimentos para com os outros (Irmãos, Utentes ou Colaboradores) de forma mais técnica, 22 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

poderia dizer racional. Por vezes não é facil esse equibrio necessário no acompanhamento dos Irmãos; equilibrio entre a empatia e compreensão da realidade pessoal de cada Irmão e da necessária racionalidade na organização dos mesmos (Irmãos), como recursos imprescindíveis ao funcionamento das Comunidades religiosas e na manutenção, partilha e preservação do carisma hospitaleiro entre Irmãos e Colaboradores. OH! – A Província Portuguesa tem crescido? Para onde? Ir. V - Se o olhar for para os Irmãos, diria que tem crescido na Ásia, isto é, em Timor-Leste, onde existe uma grande vitalidade da Igreja local, com implicaçõs directas ao nivel das vocações religiosas. Se olharmos pela prespecitiva da missão, o crescimento mais significativo tem sido em Portugal, com o assumir de responsabilidades por parte dos colaboradores, tanto na gestão das obras antigas como na abertura de novos projectos e respostas a necessidades emergentes da sociedade portuguesa, desafiando os religiosos a olhar mais longe e a ter confiança na vivência do carisma por parte dos Leigos. OH! – Sabemos que a parte brasileira da Província vai migrar para a nascente única Província Latino-americana, já no início de 2021. A Província Portuguesa vai ganhar ou perder? Ir. V - Não se trata de ganhar ou perder e não podemos ver a unificação da América Latina nessa perpectiva. Trata-se de


prepar o furturo e melhorar a eficiência da gestão dos recursos (humanos e económicos) da Ordem Hospitaleira na América Latina, e isso implicará ganhos e perdas, naturais neste tipo de situações. Com a integração do Brasil na nova Província da América Latina, a nossa Província ficará mais pequena em extensão territorial e em número de Irmãos e colaboradores, mas certamente poderão os Irmãos portugueses focar-se mais na dimensão portuguesa e timorense da Provincia e os Irmãos brasileiros na missão da Ordem no Brasil e partilha da mesma com as realidades da América Latina. No seu todo é a Ordem que ganha com esta reorganização. OH! – Qual o ideal de Ordem no Brasil que gostaria de entregar à nova Província latino-americana? Ir. V - O Ideal a transmitir é o de S. João de Deus: que cada Irmão e cada Colaborador da Ordem, no Brasil onde noutro qualquer lugar, vivam e pratiquem a Hospitalidade como valor maior de toda a sua vida. Uma hospitalidade inclusiva, reabilitadora e que previlegia os mais frágeis e necessitados da sociedade, sabendo que todo o bem que fazemos ao outro estamos a fazê-lo em primeiro lugar a nós mesmos. Esse é o legado de S. João de Deus e deve ser o ideal da Ordem Hospitaleira, onde quer que esteja um Irmão ou um Colaborador. OH! – Se lhe caíssem hoje do céu três novos Irmãos, bem motivados para a evangelização pela hospitalidade e formados, respectivamente, em Enfermagem, Administração Sanitária e Psicologia, que missões lhes proporia? Ir. V - Poderiam integrar qualquer das Comunidades de Portugal, do Brasil ou de Timor-Leste, ou ainda dar início a uma nova presença Hospitaleira. Lugares não faltam, seja nos paises onde já estamos, numa nova cidade (em Portugal estou a pensar por exemplo no Porto), ou em Paises que já pediram a nossa presença mas que, por falta de religiosos, ainda não foi possível dar seguimento à mesma: Angola e S. Tomé e Principe, para falar de paises de lingua portuguesa, onde seria mais fácil a integração desses Irmãos “caidos do cèu”… OH! – Se fossem itens à venda no mercado compraria, para a Província Portuguesa, mais espiritualidade, mais Irmãos ou mais apoios dos governos? Ir. V - Sem dúvida mais Irmãos! Sendo Irmãos, certamente viriam com a espiritualidade incluida. A missão da Ordem Hospitaleira, embora possa ser facilitada, não depende nem deve depender somente dos apoios dos governos. OH! – Se a sua vida fosse um livro, quais as páginas que mais gostaria de reler? Sem dúvida gostaria de ler toda a obra, gosto muito da minha Vida e até hoje tenho tentado vivê-la com a intensidade da entrega do melhor de mim. No entanto os anos passados em missão ad gentes, de 95 a 97 em Nampula (Moçambique) e de 2004 a 2014 em Timor-Leste, foram de grande entrega e intensa vivência da Hospitalidade, primeiro como jovem Leigo, em Nampula, e depois, em Timor-Leste, como jovem

Irmão de S. João de Deus. Sou grato à Vida e à Ordem Hospitaleira por ter “escrito” o meu nome nestes belos lugares de missão. OH! – Qual o papel da espiritualidade na sua vida? Dá para imaginar sua história sem Deus, apenas animada pela solidariedade, a filantropia, o reconhecimento humano? Ir. V - Não dá para imaginar. Em momentos chave, de decisão ou de dificuldade por que passei, foi para mim evidente a presença Divina e o amparo de Deus Trindade, na decisão em alguns dos casos e de fortaleza noutros. A espiritualidade é uma dimensão que procuro cultivar em paralelo com as demais e que em mim me leva a sentir a presença constante do Espirito Divino no meu dia a dia. OH! – Como conheceu São João de Deus? Quando escolheu a vida religiosa, sua família chorou, calou ou reclamou? Ir. V - Conheci S. João de Deus aos 17 anos, participando num Campo de Férias organizado pelos Irmãos, na Casa de Saúde S. João de Deus de Barcelos. Quando me decidi a seguir a vida religiosa meus familaires tiveram reacções diversas. Minha mãe ficou feliz, assim como meus Irmãos, meu pai calou e alguns de meus tios e tias reclamaram, outros incentivaram, mas todos eles me apoiaram mesmo não compreendendo bem a opção tomada. Com o passar do tempo, vendo que a decisão era consolidada e eu vivia feliz, passei a sentir uma maior compreensão e apoio de toda a família. OH! – Faltam vocações para a vida religiosa de hoje ou falta vida religiosa para as vocações de hoje? Ir. V - Penso que faltam ambas. Já dizia o meu mestre de noviços, e estávamos em 1998, que a vida religiosa do futuro seria diferente da tradicional e apontava o despontar de novas formas de Vida Religiosa: Sociedades de Vida Apostólica ou novos grupos de Vida Contemplativa… Passaram 20 anos e muitos desses novos grupos estão a passar também eles crises diversas e falta de vocações. Creio que estamos numa crise / mutação global da organização social e cultural tradicionais, que envolve a Igreja e a Vida Religiosa. As mudanças tecnológicas dos ultimos 20 anos são impressionantes… No entanto eu desconfio muito da virtualidade (com duplo sentido: de virtual e de virtude)


destas mudanças vertiginosas e pouco respeitadores dos ritmos e espaços naturais e humanos. Confio que o Espírito iluminará o caminho do futuro da Vida Religiosa e sei que o guia da Ordem Hospitaleira terá que ser sempre S. João de Deus e a vivência do seu legado de valores, no meio dessa sociedade em mutação. OH! – Terminemos com um bate-boca: reaja, por favor, a cada palavra ou frase: 1. Espiritualidade? Deus presente! 2. Serviço Social? Profissional. 3. Doente psiquiátrico? O outro Eu. 4. Timor Leste? Missão de Vida. 5. Colaboradores da Ordem? Família Hospitaleira. 6. Mãe? Presença fundante! 7. São João de Deus? Guia espiritual. 8. Eutanásia. Pela Vida, sempre! 9. Papa Francisco? Exemplo de Líder. 10. Caminho de Santiago? Caminnho de vida.

11. Pandemia COVID-19? O medo do desconhecido: vírus invisível que desafia tudo o visível. 12. Cristiano Ronaldo? Jogador carismático e trabalhador. 13. Amor? A Vida! Jesus nos outros! 14. Deus? Onipresente!

CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO OH

Construção de Centro para deteção e intervenção precoce em crianças excepcionais Em 2020 a Campanha de Arrecadação, promovida pelo Superior Geral, em toda a Ordem Hospitaleira, está orientada para o Centro “S. João de Deus” de Velloor, na Índia, criado há 22 anos. Trata-se de uma importante estrutura desse país, para o tratamento e assistência de crianças portadoras de deficiência inteletual. Tem como principal objetivo o desenvolvimento holístico dessas crianças, promovendo o seu bem-estar, proporcionando-lhes formação e reabilitação e ajudando-as a alcançar a possível independência na vida quotidiana para se apropriarem do seu lugar na família e na sociedade. Atualmente, o Centro está dotado com uma escola especial para a formação de crianças com atraso cognitivo, algumas em regime de internato. E propõese agora criar um programa com o 24 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

objetivo de garantir a intervenção precoce, detetando as necessidades e oferecendo apoio especializado a crianças com deficiência, perturbações ou Transtornos do Espectro do Autismo (TEA), atrasos no desenvolvimento e outras necessidades, podendo incluir terapias, educação e outras formas de apoio.

O PROJETO PRECISA ARRECADAR 380 MIL EUROS Toda a Ordem Hospitaleira, Colaboradores, Amigos e Benfeitores estão convidados a apoiar. Você também! Entregue sua oferta em qualquer Casa da Ordem Hospitaleira.


INSTITUCIONAL

CASA DE SAÚDE SÃO JOÃO DE DEUS Para onde vamos? “A única constante é a mudança”. Heráclito de Éfeso A partir do início deste ano, a Ordem Hospitaleira São João de Deus iniciou uma série de mudanças na Casa de Saúde São João de Deus. Com uma história de 30 anos de bons serviços prestados à comunidade paulista, o hospital vem implementando mudanças na estrutura física, no modelo de assistência e no modelo de gestão. Para onde caminhamos? Vamos atualizar a Casa de Saúde São João de Deus em todos os aspectos, porém sem perder a essência. Seguimos inspirados e orientados por São João de Deus, que há mais de 500 anos nos ensinou a acolher os doentes com hospitalidade cristã, dignidade e utilizando técnicas modernas de tratamento. O paciente como o centro de tudo! Neste primeiro semestre realizamos o diagnóstico completo do hospital. Apuramos o endividamento, as principais fraquezas e pontos fortes e também as ameaças e oportunidades. A partir deste diagnóstico e do trabalho desenvolvido para o entendimento do mercado atual da saúde mental, através de pesquisa de mercado, avaliação das demandas reprimidas e dados epidemiológicos, estruturamos o planejamento para os próximos cinco anos. Faremos importantes intervenções na área física buscando a máxima adequação dos ambientes aos novos Planos Terapêuticos, às necessidades dos pacientes, das famílias, do ensino, dos colaboradores e das exigências do mercado.

César Paim

Diretor da Casa de Saúde

O planejamento contempla a melhoria da hotelaria hospitalar, a implantação de um Pronto Atendimento de Saúde Mental, com funcionamento 24 horas, e um Ambulatório de Saúde Mental, com funcionamento em horário comercial. Hoje o hospital é campo de estágio para várias universidades e instituições de ensino e, nesta área, estão previstas melhorias. Para o atendimento às famílias, será criado o “Espaço da Família”, área exclusiva para o atendimento aos familiares. Mas é claro que não adianta só melhorar as paredes. Vamos qualificar muito a assistência. Desde 15 de junho contamos com a Dra. Letícia Macedo, na Diretoria Técnica, que vem trabalhando na atualização dos Planos Terapêuticos, seguindo as diretrizes da Ordem Hospitaleira no mundo e, particularmente na América Latina, onde o Brasil estará cada vez mais integrado. Cada unidade de internação precisa se especializar num tipo de patologia. Também os processos administrativos e de apoio estão sendo redesenhados seguindo as diretrizes corporativas e a máxima informatização. No mês de junho criamos um novo espaço com 64m2, destinado exclusivamente ao Arquivo de Prontuários dos pacientes e aos demais documentos do hospital, resgatandoos de cinco depósitos diferente, onde estavam em condições não adequadas. O Planejamento será concluído até o final de julho deste ano, quando passará para a avaliação e aprovação da Província Portuguesa. Após aprovação, os recursos necessários para as mudanças serão captados no mercado financeiro. Não temos dúvida: a solução está aqui dentro. Não tem mágica. Buscaremos capital de terceiros para investimentos e para capital de giro, mas o que vai garantir a perenidade da instituição e a condição de arcar com todos os seus compromissos financeiros é a qualidade e a segurança dos serviços que entregamos, aliadas a uma gestão profissional e moderna dos recursos. Portanto, temos muito trabalho pela frente!!! OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 25


RELATOS

“Aqui tudo é nas horas certas... a melhor coisa é as missas que a gente assiste... Não devemos reter o Evangelho, mas passá-lo a todos” Depoimento de uma hóspede do Lar São João de Deus, em Itaipava Tenho 90 anos e já levo 6 anos hospedada no Lar, mas já é a segunda vez que eu interno aqui. Da primeira vez vim com depressão, porque eu tinha perdido dois filhos. Fiquei alguns meses e, quando não precisava mais, fui embora. Voltei a internar quando morreu uma senhora velhinha que dormia comigo e isso me fez chorar muito, com pena dela. Aqui é tudo nas horas certas, tudo certinho. As pessoas que entendem, como eu, acham isto ótimo. Outros querem comer fora de horas e mais isto e aquilo, mas a gente vai os ajudando e todos ficamos felizes e achamos isto uma maravilha. Estavam atrasando minha insulina, mas agora tem uma enfermeira coordenadora muito boa e me aplicam a injeção logo cedo, sempre certinho. Tenho a amizade de todos os Colaboradores e Irmãos. O Ir. Jair me visita mais, vai lá frequentemente passar uma hora conversando comigo, porque ele sabe que eu gosto de conversar. Sempre fui católica, participando inicialmente na paróquia de Pedro do Rio, onde cantava. Depois de casada, mudei para a paróquia de São João Batista, na Posse, também no município de Petrópolis. Se me perguntarem qual a melhor coisa do Lar, eu digo que é as missas que a gente assiste. Se a gente não tivesse missa, ficaria perdida. É importante mantermos as atividades religiosas. As pessoas precisam buscar mais a Deus. É nosso papel passar o Evangelho, levar Deus às pessoas, pois Ele ama a todos, não somente um. Não devemos reter o Evangelho, mas passá-lo a todos. Viemos de Deus, precisamos reconhecer que tudo vem dele. Ele deve sempre estar em primeiro lugar. Os carismas que Deus nos dá devem ser divididos com os irmãos. Sempre que posso, falo da Palavra de Deus, embora hoje mais limitada devido a minha idade. Seria importante a participação de todos nas atividades religiosas (hóspedes e colaboradores), para que, vivendo o momento, pudessem se sentir melhor espiritualmente, possibilitando maior harmonia entre todos. T.R. Depoimento intermediado por Cidnea Moutinho, Assistente Social e Luana Sanábio, Psicóloga


INSTITUCIONAL

LAR SÃO JOÃO DE DEUS

50 ANOS DE HOSPITALIDADE! No dia 08 de março de 2020 passaram 50 anos sobre a inauguração do Lar São João de Deus, em Itaipava, Petrópolis – Rio de Janeiro, no Brasil. Bendito seja Deus! As festas começaram, resfriaram com a pandemia da COVID-19, mas hão-de continuar!! Hoje o Lar se insere na categoria das ILPIs – Instituições de Longa Permanência para Idosos e se auto-define como “Residência Assistida”. Ele é referência assistencial na região serrana do Rio de Janeiro e oferece atendimento a 65 homens e mulheres, em regime de internação. Outros tantos, da vizinhança, se juntam, algumas vezes por semana, para usufruir dos programas do Centro de Atividades Irmão Fernandes (ginástica, computação, roda de conversa, tai chi chuan, academia ao ar livre, etc ). Três Irmãos constituem a Comunidade local e os Colaboradores profissionais são cerca

GALERIA DOS DIRETORES DO LAR 1969 – Pe. David Ramos Fernandes 1971 – Ir. Manuel Vargas Canez 1974 – Ir. José Joaquim Fernandes 1977 – Ir. Joaquim Vaz Correia 1980 – Pe.Casimiro da Silva F.da Costa (Resp.) 1983 – Ir. Joaquim Vaz Correia 1986 – Joaquim Pereira das Neves 1986 – Ir. José Joaquim Fernandes (Resp.) 1989 – Ir. Luís Pereira do Couto 1990 – Ir. José Joaquim Fernandes (Resp.) 1992 – Ir. José Joaquim Fernandes 2001 – Ir. Júlio Faria dos Reis 2004 – Ir. João Pereira dos Santos 2007 – Ir. Roni Ribeiro 2014 – Sr. Felipe Pimenta da Cunha 2018 – Sra. Leila Teresinha M. Maiworm

de 60, apoiados por uma dezena de acompanhantes familiares e alguns Voluntários. Recordemos como tudo começou e evoluiu. Em 03/06/1966, a Ordem Hospitaleira recebeu da diocese, por escritura pública, a DOAÇÃO do Lar, com a construção do edifício em fase de acabamentos (e os restantes materiais já comprados) comprometendose a acabar sua construção e a fazê-lo funcionar, “para velhos desamparados de ambos os sexos”, assistindo alguns gratuitamente “de harmonia com as disponibilidades financeiras da Casa”, além de até 3 sacerdotes diocesanos, se houver interessados. Em 1985 a Ordem comprou à diocese uma parcela de terreno contígua ao doado, onde contruiu, em 2003, a capela e a residência dos Irmãos. Em 05 de março de 1969 (ou foi em 26 de fevereiro?) foi ereta a Comunidade dos Irmãos. Durante esse ano foram chegando o Pe. David Ramos Fernandes, depois o Ir. Joaquim Vaz Correia e, seguidamente, o Ir. João Alves. Chegaram também as “Irmãs” Ana e Cecília, duma congregação nascente que não vingou. Em 06/03/1970, provindo de DivinópolisMG, acompanhado de 4 noviços, chegou o Ir. José Joaquim Fernandes (que ali viveu até maio de 2015, quando faleceu, aos 101 anos). Ao longo dos anos, outros Irmãos, brasileiros e portugueses, foram chegando e partindo, assegurando sempre a continuidade carismática do Lar. Em 2003/2004 foi construída a capela e a residência dos Irmãos; em 2007/2009 o Lar passou por uma reforma geral e, em 2016, se construiu o Centro de Atividades Irmão Fernandes, financiado pelo generoso Dr. Roberto Roberto Siqueira Castro e esposa. O lema do Lar é Respeito por toda vida. Venham mais 50 anos!!

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INSTITUCIONAL

Hospital da Ordem inventa doença para salvar judeus Isso mesmo: durante a ocupação nazista da Itália, em 1944, o Hospital Fatebenefratelli, da Ordem Hospitaleira, em Roma (na Ilha Tiberina), salvou muitos judeus e antifascistas, que ali se refugiavam. A estratégia foi do Dr. Giovanni Borromeo (1898-1961), principal médico do Hospital. Com autorização dos Irmãos, diagnosticava-os com “Sindrome K”, uma doença inventada, supostamente desfigurante e altamente contagiosa (K era a inicial dos sobrenomes de duas ferozes autoridades nazistas). Durante as buscas no hospital, informados que eram sobre os pacientes de “Sindrome K”, os nazistas não queriam nem aproximar-se!... Outra colaboração importante foi a do Irmão polaco Mauritius Bialek, membro da Comunidade OH daquele Hospital. Instalou no sótão do hospital uma emissora de rádio clandestina, para noticiar a favor dos Aliados. Quando foi rastreado, os pesquisadores foram atrás, mas ele ainda

Hospital Fatebeneratelli, na Ilha Tiberina, em Roma

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teve tempo de jogar o equipamento no rio Tibre, antes de os receber e acompanhar nas buscas. Durante a ocupação nazista eram várias as estratégias de salvamento. Muitos perseguidos vestiam hábitos de religiosos e refugiavam-se nos conventos...


ACOLHER

ACOLHENDO DONA JOSEALINA Hoje, na Casa da Hospitalidade acolhemos uma acolhedora! Chamemos-lhe Josealina, para manter algum anonimato e respeitar sua circunspeção. Seu pai era mudo e, com mais dois irmãos, também mudos, foram judiados, por desconfiança de estarem fingindo mudez para não serem alistados no exército. D. Josealina, com os filhos já casados e o marido distanciado, queria fazer voluntariado social. Movida por razões espirituais e solidárias, estava pensando colaborar no Hospital de Câncer de Barretos, a 300 km de distância. Para tal pediria carona no ônibus da Prefeitura que fazia a viagem três vezes à semana, com pacientes da cidade. Estando ela com esses pensamentos, eis que ouviu falar da Casa da Hospitalidade, que já operava em Aparecida do Taboado há 3 anos, sob o lema “pela vida a vida toda”. E veio conhecer. Entrou acompanhada da filha, vereadora municipal. Mostramos-lhes a Casa e explicamos-lhe a forma direta e descomplicada como trabalhávamos com a população carente, falando-lhe dos vários projetos do nosso ideário, aqui onde “solidariedade” e “caridade” se chamam “hospitalidade”. Depois sentamo-nos para ouvir. Ficamos a saber que fez os estudos básicos num internato da cidade vizinha de Três Lagoas, mas que logo voltou; que após o casamento foi viver para uma fazenda da família, onde ganhou os 3 primeiros filhos; que regressou à cidade passados 7 anos, para os filhos iniciarem os estudos, quando, também ela, retomou os estudos. Fez o Magistério, em Paranaíba, e cumpriu 28 anos de professora, chegando a ser Secretária Municipal de Educação. Pelo meio se graduou em Pedagogia e fez pós em Didática Geral e também em Orientação Educacional. Aos 60 anos aposentou e um ano depois “casou o último filho”. Entretanto, por opção, cuidou de um irmão enfermo, por dois anos, até ele falecer. Escutamos empaticamente sua história e, não havia dúvida: estávamos diante de um coração reservado, mas sensível e magnânimo, capaz de reconhecer irmãos e irmãs em pessoas com desvantagem social e de as servir. Enfim, um chamado, uma vocação. E, acreditando que a vocacionada estaria

Por Ir. Augusto Gonçalves

vivendo a síndrome do ninho vazio, disparamos a pergunta certeira: e agora D. Josealina? Foi aí que nos contou seus pensamentos direcionados para Barretos. E expressou uma conclusão coerente e inspirada: “acho que vou deixar pra lá os doentes de Barretos e dedicar-me aos ‘doentes’ da minha cidade”! Dias depois tivemos a alegria de receber novamente D. Josealina, já para assinar o termo de adesão aos Voluntários de São João de Deus e tirar a medida para o uniforme. No termo pactuamos apenas os seguintes serviços mínimos: “quinzenalmente, em horários a indicar – visita, escuta ou cuidados a pessoas doentes ou carentes, ou higienização em suas habitações”. Mas depressa ela extrapolou, para cozinhar refeições para andarilhos, acompanhar idosos aos serviços de saúde, providenciar e preparar cestas de alimentos, avaliar situações de pobreza, acompanhar doentes sem família, internados no hospital, etc, etc. Falta-lhe tempo para mais e sobra-lhe sensibilidade à necessidade do outro, seja material, social, familiar, conjugal, humana ou espiritual. Dela nunca se ouviu queixa e nela todos encontram uma ajuda ou um conselho amigo, “de experiência feito”. Hoje a cidade a venera e é, cada vez mais, a referência da Casa da Hospitalidade, seja coordenando os/as Voluntários/as e as atividades da Casa, seja visitando usuários, convidando benfeitores ou representando a entidade nos coletivos da Assistência Social. Em fevereiro de 2016 a Câmara Municipal atribuiu-lhe o galardão de “Mulher Cidadã de Aparecida do Taboado”. Já teve discordâncias com os filhos por causa da sua “excessiva dedicação”, mas se reanima porque eles, ao mesmo tempo, ajudam a Obra, como benfeitores. E os netos também! Quanto ao futuro, ela declara, com nobreza: “minhas pernas começam a queixar-se de tantas caminhadas, mas a bicicleta elétrica veio ajudar muito; quero dar o coração enquanto ele bater e só parar quando a Casa fechar, ou eu – Deus dirá quem fecha primeiro!” Aparecida do Taboado, 08/03/2020 ir.augusto@saojoaodedeus.org.br OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE | 29


AINDA NÃO FOI DESTA: PANDEMIA ADIOU UNIFICAÇÃO DA ORDEM NA AMÉRICA

satisfatoriamente. Desde o início, mais de 1.000 dos nossos profissionais foram contagiados, tendo falecido três. Quanto aos doentes atendidos, é difícil calcular com precisão... mas estimamos que, até hoje, cerca de 5.000 doentes portadores do vírus receberam atendimento nas nossas Casas, tendo falecido cerca de 500”.

COVID-19 NAS CASAS DA ORDEM NO BRASIL EM 31/08/2020 PESSOAS Assistidos - São Paulo

O que era para ser em julho de 2020 só virá a ser em inícios de 2021 ou finalzinho do presente ano, se não houver mais surpresas na evolução da pandemia. De fato, a COVID-19, que visitou a humanidade e que teima em permanecer, impediu a realização da Assembleia de Unificação das Províncias Latinoamericanas da Ordem Hospitaleira, prevista para 2024 de julho, em Lima, futura sede da nova Província unificada. Proibição de ajuntamentos de pessoas e restrições ao tráfego aéreo internacional foram as causas diretas do adiamento. Enquanto o evento não acontece, a Comissão organizadora aprimora os preparativos, com a colaboração das sub-comissões setoriais, e vai monitorando os números de cada um dos 30 hospitais e centros assistenciais desta região continental. E precisa mesmo monitorar, já que a pandemia está produzindo estragos na sustentabilidade de vários centros, quer pela redução da demanda, quer pela desvalorização das moedas nacionais, quer pelas consequências trabalhistas ou outras. Quanto às contaminações pelo coronavírus, propriamente ditas, citamos o informativo do Superior Geral, em 29/07/2020: na América Latina, os dados de que dispomos são os seguintes: já foram infetados 330 Colaboradores, um dos quais faleceu; os doentes que testaram positivo foram 779, tendo falecido 21; Quanto aos Irmãs 3 testaram positivo, estando um deles hospitalizado. Considerando a Ordem inteira... foram contagiados até agora 51 religiosos: cinco faleceram... e 43 recuperaram

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TESTARAM POSITIVO 13

RECUPERARAM FALECERAM 13

0

Assistidos - Itaipava

4

4

0

Colaboradores - S. Paulo

12

12

0

Colaboradores - Itaipava

2

2

0

Colaborad. – Apª. Taboado

0

0

0

Irmãos de SJD - Brasil

0

0

0

NOVA CLÍNICA DA ORDEM EM LISBOA

A Ordem Hospitaleira de São João de Deus está construindo uma nova Clínica na região de Lisboa – Portugal, mais concretamente em Carnaxide, município de Oeiras. A construção se iniciou em outubro de 2019 e deverá terminar após 24 meses. A nova unidade hospitalar, terá o total de 128 leitos, quase todos conveniados ao Serviço Nacional de Saúde. Serão 96 para Cuidados Continuados e Reabilitação (distribuídos em 3 unidades de 32 leitos cada uma), 16 para Cuidados Paliativos e 16 para Demências. A nova Clínica, que tem a construção financiada com empréstimo bancário, vai triplicar, nesse ramo assistencial, a oferta de leitos da Ordem, na região metropolitana de Lisboa.


CASA DE SAÚDE AVANÇA NA INFORMATIZAÇÃO

A Casa de Saúde São João de Deus vive um processo de reestruturação de gestão, onde a informatização do hospital é uma prioridade. Segundo o responsável pela informática, Gilson Brito de Araújo, “a instituição já possuía um software para utilização de todas as áreas, desde 2017, porém não estava sendo utilizado a pleno. A partir da chegada do novo Diretor, foi estabelecido como prioridade a implantação dos módulos disponíveis, com apoio de uma consultoria externa, efetivando o funcionamento nos seguintes processos: • Centralização do processamento de folha de pagamento no setor de Talento Humano; • Inventário do estoque da Farmácia e seus subestoques; • Fracionamento de todos os itens com rastreabilidade de lote e validade: • Dispensação dos materiais e medicamentos aos pacientes, totalmente informatizada e por código de barras; • Entradas de Notas fiscais da farmácia, integralmente pelo sistema; • Requisições de compra a partir de relatório de consumo, pelo sistema; • Adequação do processo de compras alinhado ao sistema e com pedidos ou requisições de compras, todas via sistema; • Envio de cotação aos fornecedores, via sistema; • Avaliação de mapa de compras, via sistema; • Geração de ordens de compra, via sistema; • Implantação do almoxarifado central dos itens estocáveis; • Revisão de cadastros de itens e fornecedores e atualização, no sistema; • Inventários de todos os itens estocáveis no almoxarifado; • Revisão do módulo prescrição médica e definição do prazo de implantação; • Revisão do módulo faturamento, com implantação imediata de do processo via sistema.”

A farmacêutica Carolina Gomes relata:” Facilitou muito nosso trabalho, o sistema é facil e agiliza nosso trabalho e nos garante a rastreabilidade de todos os processos, mais acerto na reposição de estoque e segurança para o atendimento das necessidades de nossos pacientes”. A evolução da informatização é imprescindível para a modernização da Casa de Saúde, contribuindo para a qualificação da gestão e controles necessários para o melhor desempenho econômico e financeiro da Instituição, oportunizando uma melhor tomada de decisão e melhores resultados em todas as áreas. Num mundo globalizado, onde informação é insumo para dados de inteligência artificial e cada vez mais disponível para todos, a informatização é questão de sobrevivência no mercado de saúde. A disponibilidade de dados irá favorecer a melhoria contínua da gestão administrativa e assistencial da Casa de Saúde.

O “PALMEIRAS” ESTEVE NA CASA DE SAÚDE SJD Você é Palmeirense? Não?! Mas saiba que a Sociedade Esportiva Palmeiras, visitou a Casa de Saúde SJD, durante a pandemia. É verdade. O Verdão chegou mascarado de porco e periquito e veio por uma boa causa, no âmbito do projeto “Por Um Futuro Mais Verde”, que está desenvolvendo. Seus representantes vieram oferecer para a Casa de Saúde e seus assistidos, na pessoa do seu Diretor César Paim, 100 cobertores, produzidos por reciclagem de camisetas usadas de seus atletas. Na ocasião entregaram também dois álbuns históricos do clube e receberam os agradecimentos do Ir. Augusto, coordenador da Ordem Hospitaleira no Brasil, por esta parceria que pode estar apenas começando...

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PASSEIO DE COLABORADORES DO LAR EM APARECIDA DO NORTE Em comemoração aos 50 anos do Lar São João de Deus, em Itaipava (Petrópolis-RJ), entre os dias 28 e 30 de fevereiro de 2020 promovemos um passeio ao Santuário Nacional de Aparecida, foram 17 de nossos colaboradores, incluindo Irmã Ana e Irmão Adriano. Dentre as atividades do passeio, destacamos palestras ministradas pelo Irmão Augusto, participação diária na basílica, passeio no bondinho e compras na feira local. Vivemos momentos de muita alegria e descontração.

CORPUS CHRISTI NO LAR SJD Tradicionalmente a celebração de Corpus Christi é realizada com tapetes confeccionados em serragem e sal coloridos e com uma grande procissão de fieis. Em tempos de pandemia e isolamento social tivemos que nos adequar ao momento atual. Os hóspedes confeccionaram os tapetes com cartazes pintados com temas relacionados à celebração. No dia 10 de junho de 2020 excepcionalmente foi celebrada a Santa Missa de Corpus Christi pelo Padre Luiz Claudio. Foi um momento muito especial onde tivemos oportunidade de, neste momento delicado, oferecer espiritualidade a todos (colaboradores e idosos).

LIVE ROBERTO CARLOS No dia 19 de abril de 2020, tendo em vista que aconteceria uma Live do cantor Roberto Carlos, convidamos alguns de nossos hóspedes para assistir em tempo real no salão de tv do Lar. Todos os 11 hóspedes que estavam presentes ficaram muito felizes e emocionados por poderem assistir um de seus cantores favoritos. Apesar de alguns deles apresentarem limitações, todos ficaram empolgados e por algumas horas puderam desfrutar deste momento cantando junto com seu ídolo. Após a apresentação da Live, os hóspedes se mostraram muito emocionados e realizamos uma roda de conversa entre eles e todos tiveram oportunidade de relembrar momentos vividos ao som de seu ídolo.

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VISITA TÉCNICA-ADMINISTRATIVA AO LAR SÃO JOÃO DE DEUS Nos dias 25 e 26 de agosto/2020 o Lar SJD recebeu uma visita técnica da sede corporativa da Ordem, em São Paulo, para avaliação dos processos administrativos e de gestão do Lar, visando o seu aperfeiçoamento futuro e a sua melhor integração com as demais Casas da Ordem no Brasil. Com o Irmão Delegado Provincial viajaram a Itaipava o Sr. César Paim (Diretor da Casa de Saúde), o Sr. Matheus Laurindo (contador) e a Sra. Fernanda Rocha (Técnica de Talento Humano). Acolhidos pela Comunidade dos Irmãos, eles tiveram oportunidade de visitar as instalações e de realizar várias reuniões com os Irmãos, com a Diretora do Lar e administrativos e também realizar duas assembléias de Colaboradores.


CASA DA HOSPITALIDADE GANHANDO COM A PANDEMIA... A Casa da Hospitalidade, em Aparecida do Taboado, foi beneficiada, em sua ação social, pela onda de solidariedade social que envolve a sociedade brasileira desde que a pandemia da COVID-19 se instalou entre nós. Falamos, sobretudo das doações de cestas básicas de alimentos que nos vieram oferecer. Primeiro chegaram 25 dos Frigoríficos Boi Bom, por ocasião da Live da dupla Rio Negro&Solimões; depois vieram 10 cestas da equipe do cançonetista Leal, fruto de de uma Live sua; depois a equipe da cooperativa de crédito SICREDI entregou outras 15; a paróquia Santuário de N. Sra. Aparecida encaminhou 10; e, de novo o Boi Bom, trouxe mais 20 cestas, por ocasião doutra Live do cantor Leal. Fiel ao mandato evangélico “dai de graça o que de graça recebestes” (Mt 10,8), tratou a Casa da Hospitalidade de proceder ao encaminhamento das doações, convocando as famílias carentes cadastradas e procurando outras em igual situação, saldando-se a operação “Pão da Pandemia” em 50 famílias atendidas e aliviadas nas suas fragilidades sociais, presumivelmente um pouco mais empoderadas nas batalhas diárias do seu viver. A equipe de vontários que atendem a cada expressaram sua gratidão. É caso para dizermos com São João Paulo II: “o sofrimento está no mundo para desencadear o amor”.

IRMÃO HOSPITALEIRO GANHA RUA NA CIDADE DE DIVINÓPOLIS “Rua Padre Davi”, assim se chama a rua “oito” do novo bairro Halin Souky, que está nascendo na cidade de Divinópolis – MG, no CEP 35500-274. Padre David Ramos Fernandes, falecido em 19/06/2005, em Lisboa, com 86 anos, era um Irmão da Ordem Hospitaleira, que realizou missão notável e duradoura no Hospital São João de Deus, em Divinópolis, que a Ordem ajudou a nascer, nos anos sessenta, e administrou por quase 50 anos. Ele era sobretudo capelão do hospital, mas sua ação pastoral, evangelizadora, reconciliadora e artística ultrapassou grandemente as paredes do grande hospital. A prova disso é que a escolha do seu nome para a toponímia da cidade foi proposta pelo atual Vereador Sargento Elton, lider do PEN, que cantou no seu Coral. Da justificativa do Projeto de Lei aprovado pela Câmara Municipal destacamos: “Em 1964 veio para Divinópolis, onde acompanhou as obras de construção do Hospital SJD e seus primeiros anos de funcionamento [até 1971]. Em 1974 regressou a Divinópolis, onde ficou até 1983; durante este período ajudou na construção da igreja de São José Operário, no bairro Catalão, participando de festas para captação de recursos; serviu também no bairro Danilo Passos... Como escultor, construiu a estátua que se encontra no largo fronteiriço do Hospital SJD [e várias outras]... fundou o Coral Menino Jesus, levando os jovens a cantar em várias igrejas da cidade e região, inclusive na extinta TV Tupi no Rio de Janeiro. Ministrou aulas de violão para vários jovens. Ainda Padre David era incentivador da arte cênica e dança, compondo músicas e escrevendo peças de teatro... Foi professor na escola de Enfermagem do Hospital SJD e escreveu o livro ‘Maria, Mãe Espiritual dos Homens’”.

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INSTITUCIONAL

Província São João de Deus da América Latina e Caribe O que era para acontecer em Lima, em julho de 2020, foi adiado por cerca de meio ano (para data a anunciar). Por motivo da pandemia, só em inícios de 2021 se realizará a Assembléia que unificará em uma só Província as atuais cinco circunscrições canônicas da Ordem Hospitaleira, na América Latina e Caribe. Sobrou, assim, mais tempo para 12 Comissões preparatórias darem os últimos retoques nos estudos das diferentes áreas. Estudos que colocarão nas mãos do futuro Superior Provincial, carregadinhos de propostas gerenciais, para ele as conferir, se inspirar e implementar, com sua equipe de 6 Conselheiros. Tais Comissões são: Vida dos Irmãos, Formação e Pastoral Vocacional, Modelo Assistencial, Pastoral da Salud e Social, Bioética, Finanças, Talento Humano, Escola de Hospitalidade, Cooperação e Solidariedade, Bens culturais, Comunicações, Planejamento e Tecnologias da Informação. Note-se que, na mesma época, também as três Províncias de Espanha se unificarão em uma só. Na América Latina os Irmãos são cerca de 120, em 25 comunidades; as Obras são pouco mais de 30 e os Colaboradores Profissionais cerca de 4.500. Para melhor administração da nova (mega) Província, os 11 países se agruparão em 4 zonas geográficas, cada uma especialmente animada por um Conselheiro Provincial. São elas: Zona 1: México, Cuba e Honduras; Zona 2: Colômbia, Venezuela e Equador; Zona 3: Peru e Chile; Zona 4: Argentina, Bolívia e Brasil. A sede da Província da América Latina e Caribe será em Lima (Peru) e, para administrar os seus mais de 30 Hospitais e Centros Assistenciais, o Provincial contará com um executivo de altíssimo padrão, na função de Diretor Regional. Este coordenará 7 Direções Regionais, estabelecidas no Peru ou em outros países (já que a internet assim o permite). São elas: Qualidade Assistencial & Modelos Assistenciais, Economia & Finanças, Talento Humano, Humanização & Pastoral da Saúde, Planejamento & Tecnologias da Informação, Cooperação & Solidariedade, Comunicação & Marketing. Pelo Brasil, deverão participar na assembleia Unificadora de Lima os Irmãos Vitor Lameiras, Augusto, Jair, João Paulo e Cosme. Enquanto esperamos e preparamos esse evento histórico, já podemos ir rezando a oração oficial da Assembleia Unificadora. E treinando a língua espanhola: 34 | OH! SAÚDE&HOSPITALIDADE

ORACIÓN PARA LA ASAMBLEA DE UNIFICACIÓN Dios Padre, todo Poderoso y Misericordioso, creaste el cielo y la tierra y estás creando y recreando la familia humana, obra maestra de tus manos. Por los profetas comenzaste a revelarnos el Dios que eres y la humanidad con la que sueñas; en Jesucristo, tu Hijo, nos has ofrecido la salvación y nos has mostrado las dimensiones del amor, incluso la cruz; y con San Juan de Dios aprendemos el desapego y el amor en un grado heroico. Consagrados y convocados por tu Espíritu Divino, hicimos un camino de reconfiguración y llegamos hasta aquí, deseosos por renovar la Orden Hospitalaria en Latinoamérica y el Caribe. Que, en esta Asamblea de Unificación, Hermanos y Colaboradores, abiertos al mismo Espíritu, podamos vivir relaciones felices, fraternales y fructíferas, para salir con pasión a promover la hospitalidad, con los enfermos y los necesitados donde sea que nos envíen o la urgencia de la misión hospitalaria nos desafíe. ¡Con María, Reina de la hospitalidad! ¡Amén!


LUZEIROS

“As pessoas que espalham amor, não têm tempo nem disposição para jogar pedras... A minha política é a do amor ao próximo.”

SANTA DULCE DOS POBRES (1914-1992)


CONHEÇA E AJUDE A ORDEM HOSPITALEIRA NO BRASIL E NO MUNDO

Lar São João de Deus Petrópolis, RJ

Estrada União Indústria, 12.192 Itaipava 25750-226 Petrópolis - RJ

Casa de Saúde São João de Deus

São Paulo, SP

Estr. Turística do Jaraguá, 2365 Vila Jaraguá 05161-000 São Paulo - SP

Casa da Hospitalidade

Aparecida do Taboado, MS

Rua Duque de Caxias, 3001 Jd. Pioneiros 79570-000 Aparecida do Taboado - MS

Comunidade dos Irmãos

Divinópolis, MG

Rua do Cobre, 800 Bairro São João de Deus 35500-227 Divinópolis - MG

Tel: (24) 2222-2657

Tel: (11) 3901-9100

Tel: (67) 3565-6504

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Ordine Ospedaliero di San Giovanni di Dio

Tel: 39-06-6604981

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