HISTÓRIAS RESTAURADAS DE UM TEMPO PERDIDO
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NGILBER
Copyright © 2015, Norberto Gilber Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/2/1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência do autor. Este livro foi revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Preparação de texto, revisão e diagramação: N. Gilber Capa: Ana Luiza, Ticcolor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)
G463h Gilber, Norberto. Histórias restauradas de um tempo perdido [recurso eletrônico] / Norberto Gilber; ilustrações Raquel Gilber. – 3. ed. – Curitiba: Ed. do Autor, 2017. 84 p. : il. ; 4.467 kbytes Formato: PDF Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web Inclui bibliografia 1. Gilber, Norberto - Biografia. I. Gilber, Raquel. II. Título. CDD-920.71
Índice para catálogo sistemático: História
‘Bel’: apelido de infância e pseudônimo do autor NGilber.
Cursou engenharia mecânica (SP), além de desenho pela Escola de Belas Artes. Bacharelado em Marketing pela ESPM. Pós-graduado pela FAE (PR) e ESPM. Mestrados (M.Sc) em Comunicação Empresarial: Universidade Metodista de São Paulo, e em Comunicação e Linguagens Universidade Tuiuti (PR). Cursou a Université Concordia e Plato College - Montreal, Quebec, Canadá. Atuou por 25 anos em automobilísticas, em diversas empresas de bens de consumo, industrial e de serviço. Professor universitário da UFPR e de IES-PR. Vive atualmente em Curitiba com a esposa Soraia e as filhas Raquel e Débora.
Histórias restauradas de um tempo perdido (Versão digital)
História. Revisitar a própria história de vida alçando um tempo pretérito é o jeito surpreendente de conexão com a nossa existência. Congregadas neste pequeno caderno brasilidades: breves histórias verídicas vivenciadas em um tempo perdido. Se as palavras¹ são vida, aqui foram reunidas em histórias rememoradas pelo distanciamento histórico para fazer jus a personagens precocemente esquecidos. Numa alpina vila, nas décadas de 1950 e 1960, a convivência diária de famílias de imigrantes das mais longínquas terras e até de conterrâneos dos pontos cardeais distantes desse imenso Brasil, atraídas pela cidade grande: São Paulo – SP. Neste processo de aculturação e de miscigenação, a criança exerce influência e intensa participação. Famílias aquelas que ainda preservavam determinados valores muito importantes, tais como hospitalidade, generosidade, solidariedade; o respeito mútuo e o civismo. Tempo. Nesse espaço cabível, o texto histórico sintetiza o conteúdo abordado no qual o tempo é suspenso na reconstrução do passado. Mas, nem todo tempo é perdido, pois “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: Há tempo de nascer, e tempo de morrer… tempo de chorar, e tempo de rir… tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. ” Ec 3, 1-8
Cantar é se manifestar, escrever é reviver Se ler transforma, escrever vivifica
N. GILBER
2015
DEDICATÓRIA Gilber dedica a edição destes humildes textos à sua amada esposa Soraia, constante incentivo, permanente apreço. E às suas queridas filhas Raquel e Débora Gilber (Curitiba-Pr). Igualmente, aos seus queridos filhos da primeira geração Marcel Alani e Daniel Gilber (São Caetano do Sul - SP). E à sua irmã no sangue e na fé Neuza Maria Gilber Marin, herdeira da compaixão (São Paulo, SP).
DEDICATÓRIA (in memoriam) Embora alguns acreditem no contrário, nós não somos apenas o que pensamos ser e nem somos melhores que os nossos pais; e menos ainda que os pais de nossos pais², ou seja, todos aqueles que nos precederam. Devemos, isto sim, aceitar a compreensão de que 'quem somos depende de quem fomos' (Amistad). Bel consagra suas memórias, com elevada veneração, às gerações que foram e as que ainda serão, especialmente àqueles com quem teve o privilégio de vivenciar suas histórias aqui rememoradas; afinal, contar histórias, é assim que fazemos as pessoas nos pertencerem para sempre: ❖ Exemplo de caridade e compaixão: Conceição Alanis Gilber (23.12.1915 - 4.5.2004) ❖ Exemplo de honradez varonil e integridade: Antônio Gilber (24.8.1913 - 13.4.1983) ❖ Coragem e determinação (o primogênito): José Alani Gilber (17.11.1936 - 24.7.2013) ❖ Criatividade (meu tutor e querido professor): Euclydes Gilber (17.5.1939 - 2.4.2003) ❖ Bondade e humildade (meu incentivador): João Antônio Gilber (3.6.1942 - 29.7.1994) ❖ Amizade (meu irmão-amigo arcanjo protetor): Miguel Gilber (11.1.1946 - 14.9.2013) ❖ Exemplo de fé, bondade e esperança: Virtudes Nieto Tortosa (2.9.1895 – 10.8.1988). ❖ Exemplo de serenidade e paciente amor: Juan Alanis Lupiañes (8.12.1891 - 8.12.1959) ❖ E a todos àqueles dos quais somos descendentes, que conhecemos em vida ou não, nossa homenagem e profunda reverência. ¹El hombre es un ser de palabras. Sin ellas, es inasible. Ellas son nuestra única realidade o, al menos, el único testimonio de nuestra realidade. El Lenguaje, p.30 Octavio Paz (31.3.1914 a 19.4.1998) poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, Nobel de Literatura em 1990 ²Todos los seres vivos están hechos de alguna combinación de cuatro químicos: adenina, guanina, citosina y timina (o AGCT). Solo por una simple reorganización de esta combinación de letras tenemos una diversidad espectacular de especies en nuestro planeta. Nuestro ADN se aferra al pasado, aprende de él y avanza de una generación a la siguiente. Si rastreamos el ADN humano hasta hace miles de años, podemos identificar ancestros comunes. https://www.nytimes.com/es/2018/08/22/opinion-adn-humanos
Capa do livro: Fotografia da turma escolar da Profª Terezinha Bergamini - G.E. Senador Flaquer (1960), escola sul-são-caetanense mais antiga em atividade no Grande ABC (SP): decreto de 30 de abril de 1920. Patrono – José Luiz Flaquer (1.5.1854 – 5.12.1924) foi médico, professor e político.
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Histórias restauradas de um tempo perdido
Motivos de ‘Histórias restauradas de um tempo perdido’ "Mesmo sem querer fala em verso quem fala a partir da emoção" João Cabral de Melo Neto
Em época remota foi dito que “a memória é o escriba da alma” (Aristóteles). Alguém, engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra, concluiu: “Um homem sem memória é um homem sem passado. Um homem que não sabe fantasiar é um homem sem futuro” (Albert Camus)¹. Segundo Freud: Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'. Semelhantemente, é como se os grãos de areia da nossa existência pregressa que deixamos escapar pelos dedos desatentos de nossas mãos laboriosas e apressadas ainda sutilmente retivessem o pó residual na realidade presente para nos mostrar do que somos feitos, de onde viemos e para onde iremos. O passado² é um espelho no qual podemos mirar: ali as imagens refletidas não corrigem o objeto presente ou porvir, mas podem nos referenciar. Na caixa postal da nossa memória de tempos remotos há mensagens que ainda não foram acessadas, ou foram esquecidas, ou mesmo desprezadas na ocasião em que algo importante tentava nos comunicar; no presente, deveriam ser consideradas e ponderadas à luz da verdade e do que para outras pessoas ainda possam significar. São coisas passadas na mente preservadas, que não encontram eco nas manifestações da vida atual. Certamente, somos herdeiros do tempo passado que embora perdido clama por se reencontrar, e oferecer ao presente uma perspectiva tão-somente para ser lembrado e considerado. Aqui não se intenta ir “em busca do tempo perdido” (Proust), mas em resgate de um vínculo perdido no tempo. Em tempos de relativismo se faz necessária a rememoração digna de fatos que marcaram a nossa existência cumprindo o ritual de devolver incólume a (nossa) verdade que clama por ser revelada; e de todos aqueles que dela participaram cada um ao seu tempo dado. Dar a cada um deles a dignidade da nossa memória corrigindo distorções não reveladas, fraquezas e preconceitos que impediam a clareza de ser contados em tempos passados. Na angústia³ de viver, se isso ainda não se justificasse, resta-nos ao menos contar pelo prazer e alegria de recordar, o que ficou gravado de fatos inusitados e que a outros ainda possa interessar. O que nos une ao passado é uma tênue linha que pode nos remendar na esperança de reconciliação na memória com aqueles que já não estão entre nós. Assim, os textos a seguir não são uma lamentação, digna de Jeremias. Tratam apenas de rememoração! Não se lamenta o passado, nem se intenta mudá-lo; nem ao menos justiçar pelo que poderia ter sido. O passado aqui não é justificado, apenas citado. O presente, este sim, é o verdadeiro motivo de resgatar o seu fiel e pretérito companheiro. N. Gilber ¹Albert Camus (7.11.1913 a 4.1.1960) escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês laureado com o prêmio Nobel de literatura no ano de 1959. Camus um pensador cuja preocupação central foi o sentido da existência humana. L'Étranger (O estrangeiro) (1942) é o mais famoso romance do escritor. ²A imprudência humana faz com que as pessoas olhem muito mais para o presente e esqueçam o passado. As suas esperanças, sempre necessárias, fazem com que toda a poesia dos tempos seja buscada no futuro. Aldo Fornazieri, in http://rogeriocerqueiraleite.com.br/as-sobras-de-2016-sobre-a-palidez-de-2017/ ³Em Kierkegaard (1813-1855), angústia é um sentimento de ameaça impreciso e indeterminado inerente à condição humana, pelo fato de que o homem, ao projetar incessantemente o futuro, se defronta com possibilidade de fracasso, sofrimento e, no limite, a morte
Sumário
Introdução 1. Brasil de um povo sofrido e aguerrido, porém gentil¹
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2. Ama de leite e condensado amado 7 3. Poupança prematura: cavalo trocado por presente inesperado 9 4. Lá em cima daquele Morrinho ninguém podia morrinhar 11 5. Brincadeiras de rua, coisas de criança feliz (Carpe diem) 6. Morrer na praia e viver no céu
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7. Educação pela pedra: a lousa e o giz, e o caderno de caligrafia 8. Parker 51: o cumprimento de uma profecia 9. O Morrinho dos ventos uivantes 10. Feira livre e espontânea 11. A fila da sardinha
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12. Tamanduateí X Santos-Jundiaí
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13. Campinho: sangue, suor e fantasia 21 14. Sangue aspergido: pedradas, estilingadas e cacos de vidro 22 15. Permuta de amígdalas por sorvete Kibon
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16. O susto no finado 25 17. Porcina Landrace: a porquinha branca alemã
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18. Ovo de quilos, pão dividido: uma Pessach inesquecível
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19. Festas Juninas da V. Alpina: um encontro de pátrias amadas
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20. Cultura da bomba: balonismo, foguetórios e ocultismo 29 21. Cultura das armas: da funda à corrida armamentista 22. Fanfarra: iniciação musical
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23. Primeiro homem no espaço 34 24. Histórias de cobras e passarinhos
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25. O tombo na Lambreta e ‘o raio que o parta! ’
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26. Pelé, Garrincha e Gilmar. E os pernas-de-pau da alpina vila 39 27. Pauliceia desvalida
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28. Estrelas de cinema, a céu aberto 44 1
Histórias restauradas de um tempo perdido
29. Sessão de cinema encerrada com pizza e pedrada 30. História para Boris Karloff dormir: A Múmia
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31. Monstro da Lagoa Negra: a Bela e a Fera, da pauliceia 32. Parque Shangai, o Playcenter dos anos 1950
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33. Enseada de São Sebastião: nunca mais, camarão! 34. Ouviram do Ipiranga numa vil calçada... 35. Índia negra e poderosa
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36. Marcelino, pão e vinho. Miguel, pão e banana 37. Pescador de integridade
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38. O Arcanjo Miguel em sua bólide perua
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39. Histórias cruzadas por um pequeno polegar 55 40. As pessoas já eram o que deveriam ser 56 41. O quintal da Tita, onde todos brincavam 57 42. Herdeira da compaixão 59 43. Ao mestre, com carinho 60 44. Profissões reconhecidas publicamente 62 45. Revolução do cravo, na mocidade
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46. Pra não dizer que não falei das flores
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47. Sete é o número predileto de Deus 67 48. A culpa é da Nestlé /Sentimento latente se tornando explícito (poesia) 49. Brincadeiras de rua, coisas de criança feliz (poesia)
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50. De médico e de louco todo mundo tem um pouco (poesia)
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51. Lá em cima daquele Morrinho ninguém podia morrinhar (poesia)
Referências e Mensagem aos leitores Mensagem Final (2015)
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Imagens de uma época da infância de Bel (cont.) 77 Homenagem ao poeta João Cabral de Melo Neto e Lasar Segall 78 ‘Chega de Saudade’: é a vez da Bossa Nova 79
¹Não confundir ‘gentil’ com ‘homem cordial’ (do jeitinho brasileiro “justamente o contrário da polidez”...) como queria Sérgio Buarque de Holanda, autor do livro Raízes do Brasil (1936)
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Histórias restauradas de um tempo perdido
1 Brasil de um povo sofrido e aguerrido, porém gentil - Retrato de uma época "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História" A frase, uma das mais célebres passagens da história política brasileira, encerra a carta-testamento deixada por Getúlio Vargas.
Outrora, naqueles tempos de exaltado nacionalismo marcados por forte emoção de um povo sofrido e aguerrido, porém gentil que doara “Ouro para o bem do Brasil”. O dinheiro na ocasião para o povo valia pataca ou tostão embora para os coronéis valesse mil réis1. Antes da Nova República e bem depois do famigerado Lampião2 (Virgulino), o bandoleiro mais famoso do Brasil. Período inicialmente marcado pela presença derradeira de Getúlio Vargas3 no comando da nação, quando em São Paulo Ademar de Barros e Jânio Quadros4 disputavam eleição - o político populista com vassoura na mão prometia ao povo varrer para longe a corrupção, de paletó preto casposo amassado, no seu bolso pão com mortadela embrulhado, arrastava a carecente multidão. Momento histórico de euforia desenvolvimentista, época de Juscelino ("Cinquenta anos em cinco"). Bem depois de Santos Dumont5 com o 14-bis6 e de Carmen Miranda com TicoTico no fubá. Já na era dos filmes da Vera Cruz do cinema nacional, tempo do Chaplinbrasileiro da cultura popular: o caipira Mazzaropi como Jeca Tatu em comédia cantada de pura fantasia. Além da risadaria de Oscarito e Grande Otelo em contentamento e pura alegria; quando o mocinho na cena surgia, a criançada exaltada com os pés batia no assoalho do chão de pura emoção. Em O Pagador de Promessas* (1962) do cinema com arte: o Zé do Burro [o povo] carregando nas costas uma imensa cruz, de Anselmo Duarte. Nos tempos de Fuzarca e Torresmo também de Pimentinha e Arrelia: caras pintadas, sapatos espichados em trejeitos exagerados, apoquentavam a plateia entretida carente de alegria. Quando a radionovela em capítulos diários fora substituída pelos reclames da televisão, onde bem apresentada a garota-propaganda anunciava o novo sabão. A TV Tupi exibia o Vigilante Rodoviário com o Inspetor Carlos e Lobo, seu pastor alemão. E na TV Excelsior SP (9.7.1960 a 30.9.1970) os programas de auditório repletos de gente; até o agitado Festival da Música Popular Brasileira (1966), de “Disparada” (G. Vandré) com Jair Rodrigues e “A Banda” com Chico Buarque de Holanda e Nara Leão. Tempos de Bossa-Nova de Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes; dos violões de Baden Powell (Birimbau) e de Dilermando Reis (Romance de Amor), e outros mais. Deslumbradas, admirando a ginga de Pelé e Mané (Garrincha) craques da seleção, nas vilas da periferia sem preocupação, de barrigas vazias e cabeças cheias de imaginação, as crianças olhavam empolgadas na mesa o café com leite, a manteiga e o pão. E no almoço, o que apetecia: a farta salada, o arroz com feijão, ovo frito, mandioca cozida, pão e banana e suco de limão - a mesa do pobre onde nada sobrava alimentava um montão. As brincadeiras de rua: pega ou pique, esconde-esconde, mãe-da-rua... No campinho, a pelada. No chão, o pião girava e no gude a bolinha de vidro estalava... A pipa na força do vento se levantava, e o inocente pardal caia pela força da estilingada. O caminhão de leite na alpina vila bem cedinho na fila era tão esperado! A leiteira vazia levada à padaria onde o leite era vendido no caneco fracionado recebia o litro de leite no vidro tampado. Mas, depois de muito chacoalhar no engradado, logo ficava coalhado. Seu Armando, o lusitano, no balcão retirava a Bic da orelha e marcava a Caderneta onde era tudo anotado, incluindo o filão7. E no décimo dia do mês o débito seria acertado com dinheiro na mão. Na mercearia que vendia a granel, as mercadorias o freguês escolhia no balcão ou no chão em sacos de sisal, sem marcas de identificação; depois embaladas em saquinhos de papel. Na rústica mesa da doçaria os pedaços eram cortados a facão: doce de leite, cocada, rapadura, marmelada ou goiabada cascão. No ar o cheiro forte de café torrado e do inebriante fumo-de-corda pregado. A carne-seca aos pedaços estendida no ensebado varal fazia contraste com a pilha salgada do cobiçado e caríssimo bacalhau… Além da sacola, o próprio vasilhame o freguês trazia. Em casa, a embalagem de lata ou vidro, de madeira, e o saco de farinha tudo era aproveitado por um povo sofrido, porém alegre e gentil, que no dia-a-dia pela vida fora educado. 3
Histórias restauradas de um tempo perdido
Após o primeiro passo na cartilha Caminho Suave - horizonte primário de prática da letra vocal, visto que ‘quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê’, o prazer e o hábito de ler Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Raquel de Queirós8. Para conquistar um lugar ao sol havia quem alcançasse ir do primário ao ginasial. Vencendo na vida era um privilégio atingir o nível clássico ou o científico. A vida escolhia e o destino dizia quem iria ser doutor, ou trabalhador.
A simplicidade da vida na Pauliceia de outrora. Em busca da verdade ou simplicidade das coisas: "Eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido". H. D. Thoreau (Walden) - Satyagraha: "a busca da verdade" na qual Gandhi* inspirou gerações de ativistas democráticos e antirracistas incluindo Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela.
Vivíamos uma vida tranquila, numa vila bucólica, nascidos em casa simples, de uma simples família de trabalhadores. Nossa mamãe era doméstica, aplicada, amorosa e dedicada à criação dos filhos. E o nosso papai íntegro, honrado e honesto, era apenas operário de uma fundição de aço e mantinha a família de seis filhos com o parco salário. Na alpina vila onde fomos criados a maioria do povo (a comunidade) da mesma forma se assemelhava no trato, no traje, e na vida simples de outrora. Bel, por consequência, não fora criado com privilégio ou prerrogativa que distinguem aqueles indivíduos de uma determinada classe ou espécie, ou status… E era assim que deveria ser, com a graça de Deus, na condição humana razoável e através da índole que a natureza a todos provia. Seus avós maternos deixaram um legado espiritual, pessoas simples de bem com a vida, eram imigrantes espanhóis, e viviam em humilde morada - uma pequena chácara onde cultivavam hortaliças para seu sustento, além de uma videira silvestre nativa do Mediterrâneo. Preservavam uma vida digna de ser vivida com toda simplicidade. E, acima de tudo, crendo na previdência de Deus. “O Senhor guarda aos símplices” Sl 116:6 *A Índia proclamou sua independência em 15 de agosto de 1947. Os ingleses, que haviam chegado à região em 1600, assinaram o acordo que determinava sua saída, entregando o país a seu povo. A independência da Índia foi liderada pelo “Mahatma” (“Grande Alma”) Gandhi, que por 30 anos esteve à frente do movimento de não violência, pregando a desobediência às leis inglesas e o boicote aos produtos britânicos.
Retrato de uma época Exemplos de dinheiro:
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Histórias restauradas de um tempo perdido
PRESIDENTES DO BRASIL (na infância de Bel):
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Getúlio Vargas: Período de governo 31 de janeiro de 1951 a 24 de agosto de 1954. Juscelino Kubitschek: Período de governo - 31 de janeiro de 1956 a 31 de janeiro de 1961. Jânio Quadros: Período de governo - 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961. João Goulart: Período de governo- 8 de setembro de 1961 a 1º de abril de 1964.
Imagens de uma época:
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¹Lançado em nov’1937 “O Poço do Visconde”, aventura do Sítio do Picapau Amarelo: Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde descobrem petróleo no próprio sítio, no Caraminguá nº 1, o primeiro poço a jorrar ouro negro no país. ²O presidente Getúlio Vargas sanciona a lei que cria a Petrobrás, em 3 de outubro de 1953
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cruzeiro substituiu os réis como moeda em 1942; e foi a primeira moeda a utilizar os centavos no Brasil. Trazia nas notas impressas imagens de figuras históricas, como d. Pedro 1º e Getúlio Vargas. Mil réis passam a valer um cruzeiro. 30.12.1962: Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, trabalho coordenado pelo ministro extraordinário do Planejamento, Celso Furtado, sob determinação do presidente João Goulart. 2Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião (1898-1938) foi um cangaceiro brasileiro. Em 1930, conheceu Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) que ingressou no bando, tornando-se mulher de Lampião. 3Getúlio Dornelles Vargas (19.4.1882 a 24.8.1954) foi presidente do Brasil em dois períodos. O primeiro de 15 anos ininterruptos, de 1930 até 1945. No segundo período, em que foi eleito por voto direto, de 31.1.1951 até 24.8.1954, quando suicidou. O escritor Lira Neto (Getúlio 1945 – 1954 – Da volta pela consagração popular ao suicídio. Cia. Das Letras, 2014 Vol.3º) afirma que Getúlio é um "fenômeno singular da História brasileira" e que a comparação com qualquer político contemporâneo seria "desleal". "Getúlio é maior do que Lula, Dilma e FHC, para o bem e para o mal". Na área trabalhista, criou a Justiça do Trabalho (1930), o Ministério da Justiça e o salário mínimo (1940), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) (1943), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas. Na área estatal, criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e entidades como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1938). Foi derrubado pelos militares em 1945. 4Jânio da Silva Quadros (25.1.1917 a 16.2.1992) foi prefeito de São Paulo (8.4.1953 a 31.1.1955) e governador de São Paulo (31.1.1955 a 31.1.1959); e o vigésimo terceiro presidente do Brasil, entre 31 de janeiro de 1961 e 25 de agosto de 1961 - data em que renunciou. Vice-presidente: João Goulart. Antecessor: Juscelino Kubitschek. Em 1985, Jânio elegeu-se prefeito de São Paulo. 5Alberto Santos Dumont (20.7.1873 a 23.7.1932) foi um aeronauta, esportista e inventor brasileiro. Santos Dumont também foi o primeiro a decolar a bordo de um avião impulsionado por um motor a gasolina. Em 23 de outubro de 1906 voou cerca de 60 metros a uma altura de dois a três metros com o Oiseau de Proie ("ave de rapina” em francês), no Campo de Bagatelle, em Paris. 614-bis foi um avião híbrido construído pelo inventor brasileiro Alberto Santos Dumont em 1906 e testado (19 e 23 de julho) em Paris, França; sendo o primeiro objeto mais pesado que o ar, a projetar-se do solo por impulsos próprios, superando a gravidade terrestre, o atrito do ar e as leis básicas da física. 7Pão volumoso e comprido. No dia 26 Brumário do ano 2 da Revolução Francesa (15 de novembro de 1793) a Convenção aprovou um decreto que tornava obrigatório o acesso de todo cidadão francês a um mesmo tipo de pão, denominado “pão da igualdade”. Era instituída, então, a famosa baguette. 8Rachel de Queiroz (17.11.1910 a 4.11.2003) foi uma tradutora, romancista, escritora, jornalista, cronista prolífica e importante dramaturga brasileira (O Quinze). Autora de destaque na ficção social nordestina. Foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. *Pelé, o rei do futebol, o Atleta do Século, ‘dono do Maracanã’... autor de 1282 gols. Depois de Pelé, a camisa 10 passou a ser vestida pelo melhor jogador do time, tanto no Brasil quanto no exterior.
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2 Ama de leite e condensado amado “Amar a outra pessoa é como ver a face de Deus.” Victor Hugo (Os Miseráveis)
No princípio era o leite primordial, que em Tempos Modernos se tornou marca registrada. As Santas Escrituras, elas registram em algumas passagens a presença do leite como fonte e manancial de energia prometido a Moisés e ao povo hebreu numa “...terra que mana leite e mel” Êxodo 13:5. Alimento primordial, os primeiros registros de uso do leite como sustento aparecem entre os Sumérios, por volta de 3500 a.C. Os egípcios também se beneficiavam dessa importante fonte nutritiva, assim como faziam os povos da região da Mesopotâmia¹. -“Mamãe, eu quero mamar!” O primeiro alimento que recebemos depois do nosso nascimento é o leite. Ele é essencial e indispensável em nossa alimentação na condição de animais mamíferos. E seu uso como alimento se prolonga por toda a vida². Na Capital e principal cidade desses Tristes Trópicos³, acabara de nascer e sua mãe não poderia com ele ficar e o amamentar. Não que houvera algum problema com o rebento, segundo a doutora o parto fora normal e havia nascido saudável e tranquilo envolto em véu (placenta) em parto empelicado. Lamentavelmente, entretanto, quem o trouxera à luz tinha sua saúde comprometida e ficaria no leito da maternidade (Leonor Mendes de Barros - Tatuapé). Embora Conceição não pudesse acompanhar seu bebê em sua primeira estada no lar, ali retida no hospital, desejava que seu filho no registro de nascimento (Belenzinho)4 fosse chamado Moisés. Mas, não lhe deram atenção! Da sua chegada em casa ele não se lembra de nada, pois na sua tenra idade a memória ainda estava por registrar. A única imagem até hoje guardada é a da hora de incitação da mamada: na ausência do seio materno e para que outro o bebê o aceite a família na alpina vila procurou e arranjou uma abundante ama de leite: uma mulher nordestina atarracada de aspecto rústico e trigueiro, que na sua modéstia alimentou o rebento estrangeiro. Na hora previamente acertada a avó (Virtudes) ou a tia (Carmen) o levava para a prodigiosa mamada. No mais recôndito de um ser, o busto robusto apertando o bebê a cada abraçada no meio do farto seio retinha o ar e o fazia afogar. Como o bebê fazia regurgitar, acharam que ele estranhava o sugar, mal sabiam que o leite quentinho apetecia e o fazia regozijar. Havia que do excesso cuidar, para que o afobado não fosse afogado no lácteo mar. - Ah, se Bel-bebê pudesse falar!? Graças a Deus o leite materno logo lhe foi outorgado quando sua querida mãe ressurgiu e substituiu o leite arranjado. Agora a toda hora ou quando a fome exigia o carinho materno oferecia o leite e o acolhia. Seu nome não foi registrado como a dedicada mãe desejava, mas ela o consagrava como alguém nascido das águas vivas (Jo 7:38). Menino abençoado por aquelas mulheres que com ele têm vivenciado. Olhando o mundo pelo umbigo, o primordial leite deixou a mente do menino marcada por um profundo apego ou sentimento latente se tornando explícito que Freud ou Jung poderiam explicar: de todos os seus derivados Bel tornou-se por um leite aficionado: “o leite da moça” da latinha, o condensado. ‘A culpa é da Nestlé’5, (Cap. 48).
¹Gazeta Mercantil, 5/11/2004 Artigo: Leite em São Paulo. Autor: Arnaldo Lorençato ²Assim nos conta Dalva Valdetaro em Leite nosso primeiro alimento. São Paulo: Ática, 1994 (p. 7) ³Ensaio do etnólogo, antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss. É uma narrativa etnográfica com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras. 4Belenzinho é um bairro da cidade de São Paulo localizado na região adjacente à Paróquia São José do Belém, no distrito do Belém.
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“O mundo começou sem o homem e acabará sem ele.” Claude Lévi-Strauss Curiosidades de tempos ainda mais pretéritos: a) No livro editado pela USP “O leite na Paulicéia” Claude Lévi-Strauss 6 fotografou em 1937 vacas leiteiras e os vaqueiros que as conduziam livremente pelas ruas da cidade para servirem leite nas casas paulistanas na época; em meio a bondes elétricos na central Rua da Liberdade: a venda de leite ordenhado na hora – os vaqueiros percorriam as ruas com suas vacas (e cabras) tocando corneta ou buzina para anunciar o seu produto e serviço (ainda sem nome de marca). A freguesia vinha até ele, o vaqueiro pegava o recipiente medidor com o volume desejado, ordenhava a vaca e lá ia a freguesia satisfeita da vida porque tinha certeza de que o leite que havia adquirido não era ”batizado” com água. Em outra forma de distribuição mais evoluída, o leite era vendido a granel em tanques adaptados em carroças puxadas por muares. b) Café-com-leite & Pão-com-manteiga. “Depois da indispensável água, o café é o líquido mais consumido em todo o planeta: 400 bilhões de xícaras por ano. Originário da Abissínia, o cafeeiro foi cultivado em mosteiros islâmicos (atual Iêmen) disseminouse pelo mundo árabe e seu fruto chegou à Europa no começo do século XVI. Trazido por mercadores (cultura introduzida no Brasil em 1727) começou a se expandir e está na raiz de importantes transformações na vida política, social e econômica do Brasil até o início do século XX.” História Viva Temas Brasileiros nº 1 (set de 2005, p.4).
Notas: Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico neurologista e criador da Psicanálise. Freud nasceu numa família judaica, em Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império Austríaco. Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos, e o inconsciente coletivo (conteúdo imagístico e simbólico compartilhado por toda a humanidade). 5A
descoberta de Gail Borden, em 1856, do método de produzir leite condensado, cria finalmente uma alternativa de um leite estéril e passível de conservação. Em um mundo sem refrigerador, se constituiu um avanço inegável da ciência. A partir disso, Henri Nestlé em 1866 descobre a possibilidade de usar “latas” para o leite. Assim, em 1878 a Nestlé inicia a produção de leite condensado e açucarado (Milkmaid). Os americanos Charles e George Page fundaram a Anglo-Swiss Condensed Milk Company, fabricante de leite condensado e que passou a chamar-se La Laitière. 6Claude Lévi-Strauss (28.11.1908 – 30.10.2009) etnólogo francês, nascido na Bélgica, veio ao Brasil (1935 a 1939) para ser professor de Sociologia da Universidade de São Paulo – USP. Realizou expedições no Brasil e publicou o seu registro no livro Tristes Trópicos (1955).
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3 Poupança prematura: cavalo trocado por presente inesperado O século XIX espanhol ainda na monarquia foi um período conflituoso, e as condições sociais, ou Mal do século, oprimiam o povo ibérico, que desesperançado pela letargia prolongada almejava um novo mundo alcançar. Em sua terra natal o Reino de Espanha banhada pelo Mar Mediterrâneo, antes de imigrar para o Brasil Juan (Alanis Lupiañes), otimista como Dom Quixote (Miguel de Cervantes 1547-1616), de origem humilde nascido em Belicena, se casara com Virtudes (Nieto Tortosa), de Múrcia. A exemplo de As Vinhas da Ira (Steinbeck, 1939) que conta a exploração a que são submetidos os trabalhadores itinerantes e sazonais, famílias de imigrantes iludidas pelas promessas de ‘terra fértil onde o dinheiro era recolhido com rodo’¹ aportavam em Santos (SP) e de lá eram transferidas para fazendas de café no interior de São Paulo², onde passavam a viver em reclusão e privação. Entretanto, Juan e Virtudes movidos pela fé³, criam que na capital as oportunidades surgiriam afinal. Decididos, saíram de Catanduva (SP) e foram morar numa chácara alugada e afastada do Centro de São Paulo, em V. Prudente. Juan empregou-se no Pátio do Colégio4 onde outrora São Paulo de Piratininga fora fundada, a serviço da Igreja Católica numa função de responsabilidade que exigia confiança pessoal, comprovada por seus predicados: caráter e integridade. Na acolhedora sala de estar da chácara à noitinha iluminada por lampião a gás, onde nos fins de semana Bel costumava ficar, havia um único quadro emoldurado com uma frase das Escrituras Sagradas: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Sl 23:1”. Memorizadas pelo menino, essas palavras sempre seriam oportunamente lembradas. Ajoelhado aos pés do avô João no tapete cuidadosamente bordado pela avó Virtudes, olhar meigo no ancião fixado, Bel ouvia histórias fantásticas que seu paciente avô lhe contava. Entre elas, a que mais gostava: mouros que vindos do Saara conquistaram a península Ibérica. Lá aonde Juan nascera e há tempos por necessidade sua querida terra deixara; não por causa dos guerreiros mouros, mas pela desilusão e sofrimento de seu povo. O chá aromático de erva-cidreira feito com carinho e bem quentinho servido na mesa da cozinha em xicaras de porcelana decoradas, dividia espaço com lápis e papel com os quais o avô de Bel lhe ensinava pacientemente matemática e gramática. Mas, o que mais impressionava e fazia os olhos do menino brilhar era ver os cavalos no pasto, garbosos a galopar. - Pode tirar o cavalo da chuva! Alertou seu avô, apontando para o lazão. - Aquele alazão é mesmo seu, vovô João? Desejando ter um potro igual para cuidar recebeu a promessa do avô que no Natal um cavalo iria comprar. Para tanto muito dinheiro haveria que poupar. O ano passaria e nenhum tostão gastaria. E tudo o que ganhasse pouparia na caixa de chá (Mate Leão) para aquele propósito alcançar. Aos domingos, engraxava sapatos. Arrastando um carrinho de mão emprestado de um ferro-velho, saia nas horas de folga pela vila em busca do dinheiro para o potro almejado. Toda lata que via, catava; e ajuntava cobre alumínio ou latão e nada de valor lhe passava. Gritando ‘coveiro’, arrastando a carriola da chácara Bel vendia as verduras por seu avô cultivadas. Sobe Morrinho, desce Morrinho, ia pelas ruas disposto sozinho. E na caixa de chá (Matte) de madeira aromatizada, o avô João com desvelo tudinho guardava; e a bem da verdade, em segredo, outras notas de superior valor adicionava. Já era véspera de Natal e Bel incontido foi visitar o avô lá na chácara no final do Morrinho, de onde a cavalhada se podia avistar. O alazão pastava fogoso lá no campo, primoroso. O menino ansioso e surpreendido, logo falou: - Eh-eh! Vovô, cadê o meu potro que o senhor ficou de comprar!? - Paciência! Para quem o ano todo aguardou com tanta esperança e cada tostão poupou. Amanhã entregarei bem cedinho, na porta de sua casa, o seu belo cavalinho! - Afinal, é o seu presente de Natal! Tudo o que seu avô dizia, Bel considerava e jamais duvidaria. Obediente ao conselho dado, sempre com sabedoria e prudência. 9
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Carinhosamente, beijou a avó e saudou o avô. Saltitando, alegre, voltou esperançoso para casa, qual menino passarinho com vontade de voar (Jessé). Subiu o íngreme Morrinho e desceu pelo Campinho5. Destravou a maçaneta do portão. Feliz, cruzou o jardim no canteiro de flores - o canário na gaiola a cantar, correu atrás do Folia. Infeliz, seu dedo doía bicado pelo papagaio-verdadeiro6: ‘Tá-tá-tá, tá nahora! E assim taramelava e assoviava, o louro ao menino caçoava. E acariciou a Porcina. Quando o pimpolho esbaforido chegou à cozinha, saudou sua mãe Conceição e a Tita: - A paz de Deus! Atarefadas no trabalho de preparo da ceia, mal notaram o pirralho que entrou em seu quarto. O dia já amanhecera e o galo de casa novamente cantou. O menino despertado do sonho em que voava, coçou o olho com remela. Aí se lembrou do dia que era: Natal! Sentindo tremor nas pernas, e o coração a pulsar, pulou excitado da cama. Da janelinha na porta da sala, na rua não avistou nenhum cavalo. Frustrado por ter sido enganado, no sofá agachado tristemente chorou. Mas seus soluços logo foram contidos. Todos da família que estavam escondidos na cozinha, inclusive seu avô tutor, na sala entraram e lhe entregaram novinha em folha o que o seu suado e poupado dinheiro comprou: - Um cavalo-de-ferro substituto do alazão!! Com duas rodas de aros reluzentes, um selim almofadado, com buzina e freio instalados... Era um presentão! No Natal daquele ano os Brinquedos Estrela7 eram mui desejados, mas nem toda criança ganhava um presente bom. Bel fora abençoado com um substituto do alazão: uma robusta bicicleta Monark, na qual aprendeu a andar com ajuda de Miguel seu irmão. Dali por diante, ele pôde trotar e galopar pelas ruas da vila montado sobre duas rodas. Presente que ele mesmo havia conquistado com seu trabalho diário. Exemplos de fé no sonho realizado, seus avós continuariam a incentivá-lo. E aquele rapazinho mais vezes ia visitá-los pedalando aos estalos, descendo o Morrinho.
¹Expressão utilizada como eufemismo, era citada em cartas por colonos espanhóis radicados no Brasil aos seus parentes sedentos por notícias acerca das condições dos imigrantes, que, arrependidos pela pouca renda diarista, referiam-se ao trabalho árduo no rodo (ancinho) utilizado na lavoura do café em São Paulo. John Ernst Steinbeck, Jr. escritor estadunidense recebeu o Prêmio Pulitzer; e o Nobel de Literatura de 1962. ²O Lavrador de Café é uma obra de Cândido Portinari. Atualmente, pertence ao acervo do MASP. É uma pintura a óleo sobre tela, datada de 1939; a obra faz uma leve crítica a burguesia da época. ³“Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” Hb 11:1 4O Pátio do Colégio é o marco inicial no nascimento da cidade de São Paulo. O local, no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, foi o escolhido quando o padre Manuel da Nóbrega e o então noviço José de Anchieta, e outros padres jesuítas a pedido de Portugal e da Companhia de Jesus, estabeleceram um núcleo para fins de catequização de indígenas no Planalto. 5O saldoso Campinho, antes terreno ampliado pelas ruas e calçadas nas peladas da molecada, encontro das ruas Ilha Seca, Porto Sabaúna e Barão de Itapuã, agora é denominado Praça Oswaldo José Divino. 6 papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), espécie emblemática da fauna brasileira criada como bicho de estimação. 7A Manufatura de Brinquedos Estrela é uma tradicional fábrica de brinquedos do Brasil. Foi fundada em 1937 em São Paulo, no distrito de Belém (Mooca). *Fotografias: O Lavrador de Café – Virtudes / Gilber – Bel, em sua Monark com o mimi.
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4 Lá em cima daquele Morrinho ninguém podia morrinhar Morrinho¹, de gente simples com cadeiras na calçada Se a vida é a arte do encontro no ‘ojo a ojo, cara a cara’ (Neruda)², no almoço do meio-dia quem pelo Morrinho transitava, ou a caminho do trabalho bem cedinho de madrugada, enfim em qualquer hora do dia quem por ali passava, cumprimentava seu vizinho que gentilmente lhe saudava. Todo mundo se conhecia, portas e janelas jamais cerradas, no portão sempre um sorriso, gente simples com cadeiras na calçada, onde a gente humilde se encontrava ouvindo Ângela Maria*; lá em cima daquele Morrinho quase tudo se sabia. Morrinho de uma alpina vila, íngreme e custoso para quem debaixo vinha, pero fausto e prazeroso para aquele que lá de cima descia. Não lhe deram um nome público, de um político ou data comemorativa, pois fora batizado pelo costume da gente antiga, que emprega a fala simples naquilo que tem carinho. - Então, ficou Morrinho! (*) O rádio entoa músicas de Ângela Maria e de Altemar Dutra.: Gente humilde.
“As pastorinhas pra consolo da lua, vão cantando na rua...” Na cantilena antiga, contente a criança entoava: “Lá em cima daquele morro, passa boi passa boiada...”. No Morrinho daquela época D. Maria também passava, entoando um canto caprino em procissão diária; nos campos da alpina vila, pastoreava suas cabras. Bel, atrevido, agarrou os chifres de um cabrito, que saltando espantado aplicoulhe uma chifrada; bem doída cabeçada na altura do umbigo. Curvado, o menino rolou soltando doído grito. E a pastora avexada lhe aplicou tremendo pito.
Centopeia desengonçada. Carpe diem³, meninos de rua! A ladeira convidava a uma bela escorregada. E era isso o que fazia aquela inquieta molecada. Carrinhos de rolimã, como centopeia montados, num grande empurrão pelo Morrinho despencavam. Na jubilosa gritaria, os moleques se esbaldavam e se estrepavam. Quando numa pedra batia a centopeia desengonçava, espalhando a gurizada em rebuliçosa agonia: entre joelho e dedo esfolados, bunda ralada que muito ardia.
¹O Morrinho da nossa infância no seu aclive custoso, agora é nominado Praça Três de Setembro. ²Pablo Neruda (12.7.1904 – 23.9.1973): ‘Encontro de dos’. “Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida”. ³Carpe diem: expressão poeta latino Horácio, que significa "aproveite o dia", ou aproveite o tempo presente.
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A verdadeira alegria O melhor amigo do homem tinha nome de Folia, era o agitado Border Collie. Em disparada correria, avistava o menino quando no Morrinho¹ aparecia retornando da escola. - Assim era todo dia! Alegre e companheiro ao lado do Bel sempre estava farejando e latindo provocando alguma farra. Apesar da serventia, seu destino é pesaroso, pois o cunhado do menino num gesto escabroso no caminhão o levou pra longe, na empoeirada carroceria. Chorando inconsolado nunca mais o menino o veria. Até hoje muito dói a saudade do Folia. No coração deixou gravada a verdadeira alegria.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas² Ela tinha um ar sublime em seu rosto angelical, citava os consagrados pela literatura intelectual. Falava fluentemente sobre as artes, cinema e poesia. Tinha idade e conhecimento, mais do que o mancebo gostaria. Nos muitos livros lidos, Neide encontrava sabedoria. Mas, não desabrochava por falta de companhia. Na casa do Morrinho, sozinha, lia linda poesia e da varanda observava atenta o que o moço ali fazia. Assim, despertou afeto por aquele jovem pueril e ficou apaixonada em seu sonho juvenil. Ao encontrar sua cara-metade, quis logo ajuntar, o inexperiente Bel: uma pedra bruta por lapidar. Porém, juntos o tempo todo não evitaria que a moça culta desejosa procurasse outra companhia. Recrutado para servir à Pátria, o mancebo desprezado se alistou, a serviço do Exército, que para bem longe da ex-namorada o arrastou. De prontidão na guarita, a solidão do soldado triste lhe causava muita dor. E revelava que aquele sublime anjo fora apenas seu primeiro amor! Naquele momento, Bel se lembrou dessas palavras interessantes: ‘Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante’.
¹Do topo do Morrinho em dias de céu de brigadeiro, avistavam-se os aviões das bandeiras Vasp e Varig. Fundada em 7 de maio de 1927, a Viação Aérea Rio-Grandense durante décadas foi a principal companhia aérea do Brasil até enfrentar crises nos anos 1990 e ser vendida em 2007 para a Gol e desaparecer do mercado. ²O pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), Agir (1996, p.72).
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5 Brincadeiras de rua, coisas de criança feliz (Carpe diem) Enquanto as meninas da alpina vila brincavam, alegres e comportadas, de amarelinha, de boneca, de passar anel, ou pular corda ou de casinha, de esconde-esconde e de ‘mãe da rua’, em grupo sempre excitadas; nas brincadeiras de rua dos meninos, a diversão sempre extrapolava. Os meninos iam além do contato do bafo (figurinhas), nas peladas, se arrastando com bolinhas de gude, unha na mula, rodar pião... No pega-pega de rasgar a camisa, ou da ferida na esquentada queimada. Das marcas pelo corpo ficava o vergão, das unhas crescidas, o arranhão… Assim, quando o sol raiava era tudo alegria. Felizes, com as feridas curadas, as crianças se levantavam bem cedo. E corriam pra brincar na rua mais um dia. Carpe diem!
Mãe da rua
Bafo
Unha na mula
Disputas com bolinhas de gude A verdadeira brincadeira de menino, não era tapinha na peteca¹. E sim as disputas concorridas com bolinhas de vidro (gude coloridas) que alguns chamavam de birosca, outros, de fubeca. Nada se comparava quando a molecada agachada, gritando a cada estalo dado… no pó da rua se arrastava. E a força era medida no limite do polegar estirado, pelo estrondo e o estilhaço do vidro ali quebrado. Brilhantes e de tamanho variado, do bolim ao bochão, as fubecas guardadas em saco eram o universo sideral colorido de pura emoção, bem ao alcance da mão. Promoviam disputas exaltadas e rivalidade na conquista do espaço tosco pisoteado, ali mesmo no rude chão.
Roda pião²… gira pião! Roda pião3, roda! Vai rodando no chão! Gira fácil por entre os dedos, na palma da minha mão
¹peteca: brinquedo que consiste em uma pequena base arredondada e macia, sobre a qual se encaixa geralmente um punhado de penas, e que é lançado para o ar por meio de golpes desfechados com a mão. ²"Pião entrou na roda, pião, bambeia, pião". Roda Pião - Dori Caymmi ³piões são conhecidos desde a antiguidade (de argila, decorados), originários da Babilônia. Piões foram encontrados nas escavações de Pompéia. Cinco séculos antes de Cristo, um poeta grego de nome Calímaco fazia menção ao pião como jogo infantil popular. Piões são citados por Virgílio, Horácio, Plínio, o velho...
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6 Morrer na praia e viver no céu Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno. E brincava na praia; o mar bramia, e, erguendo o dorso altivo, sacudia, a branca espuma para o céu sereno. E eu disse a minha mãe nesse momento: "Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver de maior do que o oceano ou que seja mais forte do que o vento?" Minha mãe a sorrir, olhou pros céus e respondeu: - Um ser que nós não vemos, é maior do que o mar que nós tememos, mais forte que o tufão, meu filho, é Deus. Casimiro de Abreu
Tudo na vida tem uma primeira vez. A primeira experiência vivenciada pela pessoa quando criança e mesmo adulta parece marcar profundamente sua forma de ser e de reconhecer a vida. O momento do nascimento: o bebê ao chorar, o perceber o mundo ao redor, o calor do corpo materno, o cheiro do leite a sugar etc. Bem depois, o primeiro falar (geralmente “mamãe”), os primeiros passos ou engatinhar. A fome e a sede, o frio e o medo - a angústia do viver. Assim, as limitações físicas humanas percebidas pelos sentidos logo são reveladas para uma criança em suas descobertas vivenciadas e a intuição logo se torna apurada. Na puberdade ou adolescência, os primeiros prazeres ou desilusões no convívio diário com os colegas de escola ou os vizinhos amigos de rua. As sensações que ficam gravadas do primeiro amor, a pureza do primeiro beijo apaixonado, terno e idílico; e depois, a primeira dor do rompimento inesperado. Bel (aos sete anos) estava excitado naquele domingo, logo cedinho, a caminho da praia, irrequieto e muito animado. Não por menos, seria a primeira vez na vida que veria o mar! Em São Caetano, ao embarcar no ônibus da Santa Rosa, que os levaria para Santos naquele inesquecível dia tudo era novidade: a estrada (Via Anchieta 1), a Serra do Mar, a cabine alugada na praia para se trocar e guardar as roupas e a comida que D. Conceição preparara… Calção de banho aprumado, em disparada o ingênuo menino saiu para ver o mar correndo na areia fina e a imensidão por explorar. Jamais esqueceria esse momento, que em pequenos fragmentos na sua mente ficou registrado: o excitamento da hora, o coração a saltar fez o Bel na água mergulhar, sem pensar; com denodo e desenvoltura acostumado a nadar com a molecada nas lagoas e cavas em dias de sol. Como um peixe quebrando as ondas avançou para ‘o infinito e o além’. Afogado pela força das ondas nas profundezas das águas, a mão de um anjo o resgatou no mar: o homem atento, percebendo o intento do pimpolho excitado logo o resgatou; ou seria pelo mar tragado. (Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte… Sl 23:4) Depois de desafogado e encabulado, Bel cambaleante voltou para a cabine onde sua mãe aflita o aguardava. O súbito desaparecimento daquele pirralho que não dera aviso, e na multidão perdido deixara a todos preocupados. Aos seus pais e irmãos maiores, Bel nunca contou o ocorrido. Porém, guardou na memória a figura de um anjo que o havia socorrido, sem saber o seu nome pois nem mesmo lhe havia agradecido. Bel guardava em segredo, até esse momento, e somente aqui foi revelada a experiência de ter nascido outra vez. Outrora, Bel era uma criança que sempre sonhava que podia voar almejando os céus alcançar. Lá, no paraíso por Deus criado onde reina a felicidade, a harmonia, o completo bem-estar – é para onde vão os bem-aventurados. Assim, morrer na praia seria apenas um caminho abreviado.
1A
Rodovia Anchieta ou Via Anchieta (SP-150) faz a ligação entre a capital paulista São Paulo e a Baixada Santista onde fica o Porto de Santos, passando pelo ABC Paulista; homenagem a José de Anchieta.
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7 Educação pela pedra: a lousa e o giz, e o caderno de caligrafia (…) “lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la”¹ “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”2
Os médicos, em geral, deveriam aprender a escrever caligrafia fundamental, aquela dos primórdios do banco escolar, para as prescrições (receitas) que repassam aos pacientes inocentes e condescendentes. Na lousa¹, ou nas indigestas correções de prova, as professoras eram mestras em letras legíveis, didáticas e explicativas. Não era caligrafia artística, mas tão-somente inteligível pela clareza e nitidez da arte de escrever à mão. Podia-se ler no caderno ou na lousa com facilidade os textos manuscritos em letra de professora, que mereciam ser lidos pela dedicação exemplar! Embora às vezes houvesse reprimendas doídas de aceitar, porém explícitas no grafar. Carteira escolar geminada onde dupla de alunos ocupava lugar, ainda continha porta-tinteiro herança da época passada do mata-borrão e das canetas-tinteiro quando carregadas deixavam um rastro indelével para os futuros alunos ocupantes do banco escolar. A Bic² contribuiu muito para a praticidade da escrita cursiva escolar e tal. Quadros, ilustrativos e bem coloridos, espalhados pela sala de aula e corredores figuravam histórias da vida real (animais, plantas e pessoas) e estimulavam ao ditado. Havia também a cartilha³ que auxiliava as primeiras pronúncias e complementava a memorização fundamental dos signos que compõem nosso idioma vernáculo. Desde os tempos dos recadinhos ministeriais de Getúlio ou de Jânio Quadros, entre outros não citados, a caligrafia limpa evitava os mal-entendidos e não deixava dúvida do intento no bilhete registrado. Nas emotivas declarações de forte afeição do amado ou da amada, que em papel especialmente selecionado grafava coloridas figuras e dedicadas frases em prosa ou poesia, entregues envelopadas com o devido cuidado, para não errar, e impressionar o ente almejado.
Lousa3 ou quadro-negro
Parker 51 caneta-tinteiro
Carteira escolar
Modelo cristal, clássico da Bic4
Cartilha escolar5
Caligrafia
1João
Cabral de Melo Neto, em “A educação pela pedra e depois.” (1997, p.7). Ramos (27.10.1892 – 20.3.1953) autor de Vidas Secas. 3quadro de ardósia de tamanhos variados, com moldura de madeira, que se usa nas escolas (ger. fixado na parede ou sobre um cavalete), para nele se escrever a giz; pedra, quadro, quadro-negro, ardósia. 4Bic é uma empresa francesa com sede em Clichy. Fundada por Marcel Bich em 1945, é conhecida por fabricar produtos à base de plásticos, incluindo canetas, isqueiros, aparelhos de barbear. 5Caminho Suave é uma obra didática, uma cartilha de alfabetização, concebida pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que se tornou um fenômeno editorial. Calcula-se que, desde 1948 - sua primeira edição, até meados da década de 1990, foram vendidos 40 milhões de exemplares dessa cartilha. 2Graciliano
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8 Parker 51: o cumprimento de uma profecia "Ler significa ver o mundo pelos olhos do outro. Escrever significa expressar a própria identidade”¹
- “Deus ajuda a quem cedo madruga!”, sussurrou dona Conceição. Com essa expressão incutida na cabeça fazendo-o acordar, interrompendo um sonho que o fizera voar (sempre sonhava que podia voar em rasante arremetida qual pipa pairando o ar), sacudido da cama Bel mal percebia que a profecia iria se realizar, bem cedinho naquele fortuito dia. A chuva ainda caía depois de uma madrugada sombria de fortes tempestades onde os raios na vidraça luziam. O café quentinho da manhã fria que ainda chovia animou o bambino em seu primeiro ano escolar (1958); cabelo penteado, aprumado em seu uniforme impecável, merenda na lancheira seguiu seu destino, acompanhado pelo seu fiel amigo canino Folia até o topo do Morrinho. Ali parado abanando a calda, Folia despediu-se do menino com um breve e alegre latido. Na sua jornada seguia sozinho, pois sua irmã Tita já lhe ensinara o caminho. Pelas ruas enlameadas da alpina vila sua alpargata na sola do pé grudava. Subiu olhando o Campinho, e desceu o Morrinho, pegou a Rua Giacaglini na direção de São Caetano do Sul, passou ao lado do salão do Estrela de Prata. Na ponte alagada a multidão aguardava o prosaico transporte do trabalhador: ônibus e carroças que por lá cruzavam e as águas singravam levando a doméstica, a secretária, o funcionário público... e o professor. Atravessar o caudaloso rio Tamanduateí em dia de enchente na ponte alagada, que ajuntava muita gente, era muito arriscado. Do outro lado ficava a fábrica de móveis Willo, inundada. Na carroceria de caminhões, nos poucos ônibus lotados e nas carroças de aluguel puxadas por cavalos magros, que chicotadas levavam pelo serviço prestado, as senhoras de vestidos floridos arregaçados ficavam ensopadas. Era assim na estação de chuvas que sucedia todo ano, na divisa da querida São Paulo (onde a gente morava) com a pequena e desenvolvida São Caetano (onde se estudava e trabalhava: MatarazzoIRFM, GM, Villares, Brasinca, Cerâmica S. Caetano, Bosch, Weigand, ZF...). As crianças em idade escolar que por lá precisavam passar, sem dinheiro para pagar, adentravam o alagado com coragem, sem vacilar. E o Bel empolgado copiando as maneiras seguiu bem atrás. O movimento das águas quando o ônibus passava ao menino assustava e com a mão no muro ali mesmo esperava. Foi quando ouviu um estampido que da porta aberta do ônibus que alguém ali segurava, havia caído um metal dourado² e aos pés do Bel havia tocado. Sem pestanejar, agachou e a brilhante caneta pegou; fez sinal para quem na porta ficara de fora da chacoalhada condução, mas ninguém prestou atenção. Assim, com a Parker 51 no estojo bem guardada, seguiu seu trajeto com ar satisfeito por um pensamento acompanhado: - O que é achado, não é roubado! Com esse presente inusitado e valendo-se da sua inventividade, praticava a escrita, aficionado. O menino nas letras recém-iniciado se aperfeiçoou na clássica caligrafia, depois de um livro comprado na papelaria (Ao Carioca): “Sempre é tempo” de autoria do professor Antônio de Franco. Pelo irmão artista Euclydes (admirador de Portinari)³ ele foi muito bem ensinado, adquirindo firmeza nas mãos pelos muitos exercícios praticados. A caneta-tinteiro que um dia aos seus pés havia caído agora nas mãos uma transformação havia produzido: a arte manual da escrita como um prolongamento físico da alma. A partir de então, auspicioso e autoconfiante, Bel sempre bem cedo acordava e não mais resmunga, considerava e acolhia o que sua mãe dizia ao despertá-lo. Satisfeito, ele acrescia que a Parker 51 fora o cumprimento adequado de uma feliz profecia. ¹Revista Língua Portuguesa (nº 61, p. 24). Frase aplicada por quem foi forjado pela escrita cursiva: Bel. ²Parker “51” é a caneta-tinteiro mais vendida no mundo em todos os tempos. Desenvolvida em 1939 e introduzida no mercado dos EUA em 1941 foi produzida até 1972. Foram vendidas mais de 20 milhões de canetas durante os mais de 30 anos em que reinou soberana na mente e na mão de seus consumidores. http://www.parker51.com/ ³Portinari é considerado um dos artistas mais prestigiados do Brasil e foi o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional. Guerra e Paz, painel presenteado à sede da ONU em Nova Iorque em 1956.
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9 O Morrinho dos ventos uivantes “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.” Monteiro Lobato1
Além do hábito de ler Monteiro Lobato1, o prazer de escrever se intensificou depois do prodigioso presente caído do céu: a caneta Parker 51. E um novo prodígio se sucedeu no ano seguinte em sua jornada escolar com mais um promissor achado por Bel: seu primeiro livro! O Morro dos Ventos Uivantes2, de Emily Brontë. Ao pôr do sol, numa tarde encalorada, o livro fora encontrado na calçada da papelaria Ao Carioca (na Rua Santa Catarina) -vizinha da Rádio Cacique³, entre muitos papéis descartados, jogado na caixa de papelão. Fora esquecido ou atirado por um leitor ‘revoltado’ e havia sido encontrado por um menino ainda malformado, mas perspicaz e contemplativo no caminho em que voltava sozinho do grupo escolar, em São Caetano do Sul. Intrigante aquele título de um livro obscuro e malconservado: capa gasta por muito manusear e várias páginas dobradas, sinal de releituras por vivenciar…. Não era, portanto, um livro vistoso, mas atrairia Bel pelo título curioso: “O Morro…”; à semelhança de seu habitual Morrinho, palco de peripécias da criançada de então na areia argilosa e nos descaminhos de carrinhos da centopeia desengonçada… Após uma alegre caminhada de retorno para casa, contente pelo precioso tesouro encontrado, e sentado ali no Morrinho escarpado, na mesma pedra onde a mochila jazia ao lado, Bel iniciou seus primeiros passos no texto intrincado de seu mais novo achado, por acaso: - “Acabo de retornar da visita que fiz ao meu senhorio – meu único vizinho que talvez possa me importunar.” (…) – Senhor Headthcliff? Estranho nome! Eram muitas páginas por ser decifradas. Logo se revelaram serem muito complicadas, e incompreendidas em seus sentidos naquele trecho ou fragmento de obra. A leitura truncada do texto intrincado logo afastou do menino o interesse pelo seu mais precioso achado. Esquecido num canto pelo tempo empoeirado e desprezado o livro do Morro foi aos poucos trocado por outros de literatura romântica: José de Alencar4 (Iracema, O Guarani). E somente na vida amadurecida retornou para as mãos que o haviam esquecido; agora, porém, com mais discernimento apreciativo. Ainda na infância, Bel foi mais afortunado do que Liesel: que teve sua vida salva pelas palavras depois que subtraíra O manual do Coveiro em “A menina que roubava livros”5. Seu primeiro livro comprado foi Sempre é Tempo, de Antônio de Franco. Em seguida, adquiriu O Livro da Juventude (Ed. Abril), de leitura instigante e prazerosa narrava a aventura de índios e animais selvagens e muitas curiosidades. Se "um país se faz com homens e livros"¹ e se “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida” (Vinicius6), até hoje Bel tem dúvidas sobre aquele inesperado acidente de percurso estudantil: - Se foi ele que achou ou se foi o livro ‘dos ventos uivantes’ que o encontrou!? 1José
Bento Renato Monteiro Lobato (*18.4.1882 a 4.7.1948) foi um dos mais influentes escritores brasileiros de todos os tempos. Seu primeiro livro “Urupês” aborda o Brasil não oficial do sertão nordestino, dos caboclos interioranos, dos subúrbios… É criador, entre tantos personagens, do “Sítio do pica-pau amarelo” e de “Jeca Tatu”: estereótipo do caboclo abandonado pelas autoridades governamentais. *Desde 2002, é a data 18 de abril em que se comemora o Dia Nacional do Livro Infantil. ²O Morro dos Ventos Uivantes é o único romance escrito por Emily Brontë. Foi publicado em 1847 e é considerado um clássico da literatura inglesa, caracterizado como uma história de amor amaldiçoado e de vingança, e visto como a mais intensa história de amor na língua inglesa. ³A chamada “Rádio do Índio” ficava localizada na Rua Santa Catarina, nº 97, no Bairro Centro, e contava com um auditório com capacidade para 400 pessoas. Foi inaugurada no dia 28 de julho de 1958. 4José de Alencar (1.5.1829 a 12.12.1877) patrono da Academia Brasileira de Letras, escritor e fundador do romance de temática nacional. Sua trilogia indigenista: O Guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874). 5“Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a Própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história.”- Markus Zusak. 6Vinicius de Moraes (19.10.1913 a 9.7.1980) foi um diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta, cantor e compositor brasileiro. Poeta essencialmente lírico, notabilizou-se pelos seus sonetos.
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10 Feira livre e espontânea Bem cedinho, aos domingos, na alpina vila era uma tremenda gritaria: -“Moça bonita não paga, mas também…” O tomateiro rivalizava com o verdureiro para ver quem atraía primeiro a estimada freguesia; também o peixeiro gritava e no saco o batateiro mostrava a batata lavada. Expondo o produto que brilhava, o feirante simpático e interessado sorrindo cumprimentava quem por ali passava: - Bom dia D. Maria! E, respeitosamente, todos respondiam: - Bom dia! Sem saber o nome, o que importava era ser afável e usar de cortesia para bem atender e as melhores mercadorias oferecer a um preço que variava: conforme o dia raiava aumentava e quanto mais o dia declinava, abaixava. Assim, no trato cuidado da estimada vizinhança, os feirantes que acordavam de madrugada suas barracas ali montavam ao longo das ruas empoeiradas de chão batido, ou em cima das calçadas. Invadiam o pedaço e fechavam o espaço. Tudo para o bem da comunidade, onde muitas pessoas desviando dos que aglomeravam pacientemente cruzavam as barracas. O difícil era quando chovia transformando a manhã em pavorosa agonia: as lonas mal esticadas retinham da chuva águas que entornavam na passante freguesia. Mas, quando o sol retornava tudo se conformava e logo voltava a estridente gritaria… Agora o preço abaixou, D. Maria! Seu Antônio, forneiro da Aço Paulista em dia de folga pois trabalhava seguido seis dias, experiente na arte do comércio ambulante na feira1 de domingo regateava e poupava levando mais por menos do que o preço de antes. Assim, saía de casa próximo à hora da xepa² quando ainda havia muita mercadoria e desse modo escolheria as leguminosas e verduras fresquinhas ao preço justo do dia. Portava duas grandes sacolas, acompanhado de Bel, seu caçulo, um auxiliar para ajudar na peleja do bem negociar. Assim sendo, Bel participava e numa das alças segurava e, principalmente, aprendia observando e entendendo como seu pai na feira livre a preço módico tudo proveria. Podia tocar com cuidado para não esmagar ou quebrar a rica mercadoria: o caqui, o figo e o tomate maduros, os ovos fresquinhos, a sardinha cintilante, os morangos vermelhinhos e o mamão amarelinho… Na feira tudo era fresquinho, pois no Ceasa³ bem cedo era escolhido, comprado e carregado pelo feirante. E na alpina vila o produto era oferecido no adequado merchandising aos consumidores passantes. Ao final do dia, o feirante tudo ali recolhia. E a sujeira que ficava a prefeitura varria e limpava. - Que saudade da feira livre onde muito se provia e a mais variada gente ali reunida que comprava, vendia e se expressava com espontânea alegria! D. Conceição satisfeita sorria quando seu Antônio chegava com toda a provisão para a semana que da feira livre do domingo trazia, sabendo de antemão que ele tudo proveria do melhor que pudesse oferecer à família. À mesa, seis filhos seriam servidos em cristã harmonia e ruidosa alegria: José, Euclydes, João, Miguel, Neuza e Bel. Muita salada e legume cozido, o frango assado, a macarronada da mama, cuscuz à paulista. Vinho tinto ao pai era servido, malzbier que a mãe às vezes bebia e Guaraná Champagne Antarctica para os descendentes ali presentes. De sobremesa, a melancia inteira, ou, se sobrasse uns trocados da feira, uma lata de marmelada/goiabada Cica em oito pedaços dividida. Abençoado o almoço do dia que precede a segunda-feira. ¹Martinho de Dume bispo de Braga - Portugal (século 6), substituiu os nomes pagãos dos dias por expressões da liturgia católica: feria secunda ou secunda feria. As referências a feiras na Antiguidade e na Idade Média aparecem correlacionadas a festividades religiosas e aos dias santos. Nelas se reuniam mercadores de terras distantes, trazendo os seus produtos autóctones para troca por outros. A etimologia da palavra "feira" demonstra que a religião andou de mãos dadas com o comércio. A palavra latina feria, que significa "dia santo ou feriado", é a palavra que deu origem à portuguesa "feira", à espanhola feria e à inglesa fair. A segunda-feira é, para a International Organization for Standardization (ISO), o primeiro dia da semana. ²xepa: cada uma das últimas mercadorias expostas em uma feira livre, geralmente mais baratas. ³Atual CEAGESP (1969) - o centro de entreposto se tornou o maior atacadista do mundo e o primeiro da América Latina (arte-folha.uol.com.br/cotidiano)
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11 A fila da sardinha “Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram recolheram ainda doze cestos cheios. E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.” Mt 14:24-21
Os feirantes do Campinho¹, xarás dos pais de Bel, D. Conceição e seu Antônio, e seus filhos com “V”: Valdelice, Valdeci, Vilma, Valter, Valdir e Valmir (Mirola) eram vizinhos dos peixeiros que igualmente logo cedinho saltavam da cama para prover de mercadorias fresquinhas bem escolhidas e compradas no Ceasa, onde do melhor se encontrava. E os peixeiros vizinhos já sabiam, entre robalo e cação, a preferida pelas donas de casa e pelo valor considerado era, evidentemente, a peculiar sardinha. Sardinha era peixe muito apreciado na vila de outrora. Uma vez pescadas em farto cardume, na alpina vila eram compradas com poucos cruzeiros; depois é claro da tilápia e do acará que os pais de família e seus filhos nos rios e açudes da região pescavam sem nada pagar. Ao escabeche² temperadas, as sardinhas eram em largos tachos ferventes preparadas... Servidas com arroz e feijão, logo iam à mesa para alegria da esfomeada criançada. Em largos e vistosos vidros, devidamente condimentadas, as sardinhas enroladinhas com cebolas eram marinadas, e servidas nos bares como atrativo para o frequentador assaz. Embora um aperitivo Caninha 51 (cachaça)³ para acompanhálas nunca faltasse. Os gatos de casa e os da vizinha sentiam grande atração pelas sardinhas. E soavam com manha o seu rom-rom satisfeitos após o roer das espinhas. Há muitas formas de saborear uma sardinha: assada ou na brasa, sardinha frita ou sardinha em lata. Talvez a mais saudável seja a que é preparada aqui mesmo em nossa casa; onde a gente antes aprova e o gato depois prova o que da sardinha sobra. A pesca da sardinha é chamada sardinheira aqui praticada nas muitas espécies brasileiras: sardinha-amazônica, sardinha-cascuda, sardinha-branca ou dourada. Tem até sardinha-de-gato e a mais diversificada sardinha-bandeira. Mas em águas salgadas quem é muito encontrada é a sardinha-verdadeira4. Embora atividade de pouco valor, é o sardinheiro que é pescador de sardinhas ou vendedor. Afora o saboroso e nutritivo peixe preparado na cozinha, esse nome também era empregado nas brincadeiras de infância: ‘sardinha’5, que ardia as mãos de quem batia, um ato pueril para intimidar ‘sardinha’6 na nádega lascar. Durante o recreio, na fila da escolinha (pré-primário) segurando com receio a abundante canequinha (de alumínio), levando cocorotes7 e lascando muita ‘sardinha’. Era assim que reagia aquela turminha aguardando o leite quentinho com chocolate, sorvido com a merendinha. Embora sarda também seja um peixe do tipo de sardinha, esse nome também lembrava as pintinhas que o rosto decorava, nos meninos e nas meninas; dando uma cor avermelhada nas faces tão branquinhas. Mas ninguém gostava de ser chamado de sardento (que tem a pele manchada de sardas), pois era confundido com a pessoa impertinente ou com a doença do cachorro sarnento. Na primeira multiplicação dos pães8, o peixe lá estava presente. Alimento primordial e símbolo cristão, à semelhança do maná espiritual que consola a alma. 1campinho:
triângulo de terreno tosco formado pelas ruas Porto Sabaúna, Barão de Itapuã e Ilha Seca. molho de temperos refogados para peixe frito; inclui cebolas, tomates, azeite, vinagre, louro… 3cachaça: há 500 anos foi criada (em 1516) em um engenho na feitoria de Itamaracá (PE). Cachaça 51, marca brasileira de cachaça produzida pela Companhia Müller de Bebidas desde 1951, razão da origem do nome. 4sardinha-verdadeira: sardinha costeira (Sardinella brasiliensis) encontrada em grandes cardumes no Atlântico tropical, comum no Sul do Brasil, de até 25 cm de comprimento, corpo alongado e roliço, prateado com cabeça e dorso azuis e uma mancha escura próxima ao opérculo e nadadeiras amareladas. 5sardinha: brincadeira de duas crianças com as palmas das mãos em contato, em que uma procura bater nas costas das mãos da outra. Ex.: tirar sardinha. 6sardinha: golpe na nádega de outra pessoa, dedo indicador e o médio unidos, de raspão e bem rápido. 7cocorote: pancada na cabeça com o nó dos dedos; cascudo. 8”Mas eles responderam: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.” (Mt 14:17) 2escabeche:
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12 Tamanduateí X Santos-Jundiaí Afastada das casas ribeirinhas a várzea alagada deixava uma longa área seca e aplanada. No país do futebol era lá que as torcidas mal organizadas em algazarra da carroceira de caminhões desembocavam. Os ambulantes em espaço disputado ali se agregavam para manter essa turma animada e alimentada: beiju, queijadinha, quebraqueixo e laranja em máquina descascada; a raspadinha com groselha e a pipoca com torresmo que nunca faltavam. Landão era o juiz que no campo apitava, sempre corria e gritava, e na cintura trazia uma arma de ferro que todos conheciam: o ‘berro’. Na pelada o que importava afinal era o resultado, nos domingos de sol nos campeonatos do bairro renhidos fanáticos pelo futebol. Ali aparecia o político candidato a alguma função, em sua nobre intenção fornecia o jogo de camisas nas cores preferidas conforme o brasão. Mas segunda-feira era dia de branco, bem cedinho nos bancos dos ônibus ou nos trens da estação, aquela massa silenciosa seguia em dura sina sentida na faina diária a sua ocupação. O maquinista apitava com a porteira abaixada, e em velocidade o trem a massa de gente levava com destino ao Centro da cidade (São Paulo). Ao longo da estrada de ferro, outro apito das fábricas era pontual e marcava os horários do dia que recém começara e todos que ouviam entendiam aquele sinal. Antes daquele trecho quem estava em Utinga no trem da Santos-Jundiaí¹, ou depois de São Caetano2, logo avistava as margens do antigo piscoso rio Tamanduateí 3. Atrás do Matarazzo4 e da Ford no bairro do Ipiranga, as lagoas deletérias Imê e Biaggio banhavam em dia ensolarado a garotada pelada e agitada. Bem localizada, a placa marcava: total de mortes sumidouro por afogamento, atualizado o número aumentado não causava qualquer constrangimento. Entretanto, alguém dentre a molecada não intimidada a água barrenta levava, e mais um no placar outrem registrava: -Agora são 13! E pelo cano largo do sumidouro o remoinho oculto em turbilhão sugava mais algum pobre menino despercebido, que da lagoa nunca mais voltava para casa. Fortes tempestades e calamidades aos ribeirinhos do Tamanduateí anunciavam quando as muitas nuvens escuras no horizonte apontavam. E os homens na represa responsáveis pela barragem, abriam comportas. E no início da chuva as águas do rio se precipitavam em turbilhão, causando alvoroço invadiam as casas e provocavam aflição. Transbordando a ponte, as águas espalhavam nova desolação: invadindo os móveis da casa molhavam o colchão, arrastavam o fogão; crianças em cima da mesa da cozinha aguardavam o precioso socorro, que nunca chegava. O cachorro ensopado boiava. Passada a agonia da assolação, no outro dia o político surgia prometendo a solução.
¹Santos-Jundiaí: Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (1946-1975) São Paulo Railway (1867-1946) RFFSA (19751996) Ligava o município de Santos ao de Jundiaí, tendo como principal ponto de passagem a cidade de São Paulo. Construída por iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, (28.12.1813–21.10.1889): barão e visconde com grandeza de Mauá foi o primeiro grande industrial brasileiro. 2São Caetano do Sul: Cidade brasileira com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado pelas Nações Unidas. No Brasil, em 2014, São Caetano (SP) é 1ª colocada - habitantes para cada carro: 1,56. Total de automóveis: 100,1 mil. Moradores: 156,3 mil. http://exame.abril.com.br/brasil 3Rio Tamanduateí: De 35 quilômetros de extensão, o Rio Tamanduateí (significa "tamanduá grande" em tupi; os antigos sertanistas o chamavam de Rio Piratininga) nasce cristalino no município de Mauá, passa pelas cidades de Santo André e São Caetano, atravessa o centro de São Paulo, no Parque D. Pedro II, até desaguar no Rio Tietê, no bairro do Bom Retiro, em frente ao Palácio das Convenções do Anhembi. 4Matarazzo: Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM). Francisco Matarazzo (9.3.1854 a 10.12.1937) em 1881 emigrou para o Império do Brasil (1822-1889) e morreu na condição de homem mais rico do país, com uma fortuna de 10 bilhões de dólares, sendo o criador do maior complexo industrial da América Latina do início do século XX.
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13 Campinho: sangue, suor e fantasia Aqui na terra tão jogando futebol. Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
- Meu Caro Amigo Chico Buarque
O terreno tosco era formado por um triângulo mal inclinado: na ponta baixa havia a farmácia (do seu João - pai do Cuquinha) e no fim da calçada para quem à direita subia logo chegava à padaria (do seu Armando - pai das mocinhas pianistas), quando atravessada frente fazia com a mercearia (do Seu Antônio e D. Alice). Na última ponta da área bem no finzinho, a última dimensão: o topo do Morrinho. Nesse torrão de aclive desprezado, um espaço rústico jamais cuidado e ignorado pela prefeitura, a molecada em esconderijos se camuflava, e a seu modo ali mesmo brincava. As mudanças a fundo sem serventia, a própria natureza no terreno fazia: em meio ao mato o rato procriava, se procurasse minhocuçu (cobra-cega) ali se encontrava, e a erva daninha facilmente proliferava. E as chuvas caudalosas buracos faziam aonde à noite os incautos caiam. Foi então que os meninos na sua engenhosidade se encarregaram de transformar o rústico cantinho: ferramentas emprestadas e precoce habilidade ceifaram o mato, tamparam os buracos e recolheram tudinho. As ruínas de outrora no aclive oposto do Morrinho se tornara doravante no aclamado Campinho. A paisagem onde a gente brinca na infância a gente nunca esquece. O Campinho serviu de concentração da molecada e de muito marmanjo ao redor para torcer pela Seleção Canarinho¹. Com rádios de mesa no último volume no balcão da padaria ou da barbearia, ou carregando na mão seus radinhos de pilha, ali todo mundo ouvia. Quem em casa estava, saia. Quem pelo Campinho passava, ficava. O Brasil na Copa do Mundo (FIFA de 1958)² iria se consagrar e receber a maior torcida que o Campinho podia ajuntar: brancos, negros, amarelos e de todas as raças que habitavam por lá. Eram tantas as línguas ali faladas que quando a bola não pegava os xingados não eram censurados, mas apreendidos e acatados, repetidos e guardados pelos atentos ouvidos. No apito final, uníssono, o grito eclodiu das bocas arreganhadas pela vitória do Brasil. O Brasil chegava pela segunda vez em uma final e a seleção brasileira obteria seu primeiro título mundial. Calcada no trio Pelé-Garrincha-Vavá, a seleção do capitão Bellini³ nem podia imaginar que em meio a tanta torcedura o povo no Campinho não parava de chorar, de alegria pela fantasia de poder sonhar. Nunca mais seria a mesma aquela alpina vila, pois quando as ruas falam, a história ouve: depois de aplanado o Campinho a vizinhança sorriria, ao ver os meninos tão aplicados em conservar o espaço por eles conquistado. E cada estação do ano motivo trazia em atividades que ali se produziria. Na primavera a relva aplainada floria ao redor do Campinho e as pequenas minhocas alimentavam passarinhos que por ali ciscavam. No verão a bola rolava pelo gramado nos pés descalços, e só de calção o sorriso marcava rostos suados; acima as pipas empinavam em furiosa ascensão. No inverno das Festas Juninas comendo pipoca e mastigando pinhão enquanto a fogueira estalava, aquecida a molecada soltava balão. Mas era no outono época da colheita que a turma toda se reunia com as ferramentas para ceifar o excesso de mato que ali crescia. E o ano inteiro era nesse querido cantinho que todos brincavam, suavam e ‘sangue’ doavam para conservar a fantasia que brotava em quem vivenciava o Campinho. ¹Na Copa do Mundo de 1954, o Brasil, pela primeira vez, usou o uniforme com a camisa amarela e o calção azul. Depois da derrota no Mundial de 1950, o uniforme antigo (camisa branca e calção azul usado desde 1919) foi considerado azarado. ²A edição de 1958 da Copa do Mundo FIFA, na Suécia, marcou a sexta participação da Seleção Brasileira de Futebol nessa competição. Era o único país a participar de todas as edições do torneio da FIFA, fato que persiste até a última edição realizada da Copa, em 2014. ³Hilderaldo Luís Bellini (7.6.1930 a 20.3.2014), capitão da Seleção Brasileira de Futebol na conquista do primeiro título mundial, em 1958. Sua foto levantando a Taça Jules Rimet com as duas mãos sobre a cabeça é uma das marcas do futebol brasileiro, e passou a ser repetida por todo capitão ao levantar a taça.
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14 Sangue aspergido: pedradas, estilingadas e cacos de vidro Quem tiver estômago fraco virar a página é recomendado. Porém, não desista, continue a leitura se na rua você também foi criado, pois como diziam as crianças de outrora: ‘- Quem não arrisca, não petisca!’ Decifrando pessoas todo o corpo fala e parece querer comunicar o que ficou registrado nas marcas de cicatrizes do passado. Intenta contar vantagem quem na pele traz essas marcas aparentes e deformadas, e por outras vezes dissimuladas. As marcas originais que ficam de uma vida quando na infância e adolescência vivenciadas em pleno ar livre, no corpo são sinais deixados para que nos lembremos do que passamos ou de quem fomos. Outras marcas na mente ficaram, mas essas se quebrantam quando em paz concordarmos que para tudo há um tempo e um significado. Das marcas aqui contadas, Bel recorda-se de acontecimentos doídos e às vezes também engraçados. Tijolada nas costas, estilingada no mesmo olho machucado por sandália, nariz quebrado etc. Tijolada nas costas: o algoz da pancada era amigo de bolinha de gude e não desgrudava, quando no Campinho uma briga de turmas dividiu os parceiros. Bel que a ninguém agredia levou a pior, pois estava de costas para quem praguejava, e na escápula protuberante levou a tijolada qual bigorna. Depois do ato insano, o colega arrependido pediu ao Bel que não revidasse embora pelas costas mostrasse o seu lado desumano. Estilingada no olho: rixa de turmas sempre havia, mas desta vez era apenas para provar quem melhor poderia suportar ataques em represália. Em escaramuça, as bombas arremetidas eram bolinhas de barro (argila), catadas no Morrinho depois amassadas e no estilingue armadas, viravam um projétil eficaz. Bel abaixado estilingue preparado, levantou a cabeça para mirar, mas não houve tempo e no seu olho o estalo espargiu o barro e ele caiu com o rosto afogueado de chorar pela dor do que poderia cegar. Em casa, curativo aplicado e banho tomado, reconfortado, logo queria voltar a brincar. Sandália no olho direito: os menores empregados trabalhavam na fábrica do Zé do Chinelo (administrada pelo Clidão). Sendo o serviço puxado, quando amainava a faina do árduo trabalho, juntavam-se em bando para compensar a fadiga. Bel estava no mezanino organizando o estoque quando todos lá embaixo resolveram sandálias (embaladas, aos pares) atirar para no estoque guardar e, principalmente, na cabeça do Bel acertar. Encarando o desafio ele procurava dos petardos se desviar. Mas Nelsinho, que com Bel tinha rixa, um par de novas sandálias atirou como petardo o olho de Bel acertou. Já em casa, com olho cuidado, tremendo susto tomou quando o espelho mirou: o petardo havia feito muito estrago deixou o rosto inchado e olho roxo esbugalhado. Rasgo (corte profundo) na sola do pé esquerdo: palco de peladas animadas e desenfreadas, o gramado do Campinho quando não aparado escondia desde sapocururu até cacos de vidro ali camuflados. No afã da driblada, e da defesa a freada, um pé rasgava! Bel sentiu o frio no lado esquerdo do pé idem, depois o frio do desmaio: não resistiu ver todo aquele sangue vermelhinho e quentinho a manchar o verde Campinho. Primeiramente socorrido na farmácia e depois os sete pontos recebido no hospital, Bel lembrou-se dos pontos que marcaram de lambuja o placar do jogo afinal: 7x1. Tampo do dedão (polegar dos pés). Hoje pode impressionar, mas outrora na alpina vila no bate-bola a esfoliação era comum e por vezes profunda, além daquelas raladas em chão de terra: o chute forte num bico na bola, impensado, batia na pedra com pés descalços… Aí, várias vezes, raspado no chão cruento e pedregoso o tampo do dedão (polegar) do pé levantava. O primeiro socorro era feito pelo próprio chutador: - juntava as partes expostas, enrolava um paninho com a mão até o sangue coagular e secar. Em seguida, à pelada voltava a jogar, sem parar, até o dia findar e a mãe reclamar de tanto chamar. É claro, à noite, na cama, o dedão inflamado latejava. Mas, logo curava! O causo do nariz quebrado. Entre os traumas aqui registrados o mais pesaroso e vexaminoso marcou Bel por toda a vida e o impediria de ser um grande nadador. Seu 22
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vizinho da frente, Zé-Gaiola, era um moço aparvalhado, que assoviava o tempo todo atrás de pardais, imitando passarinhos. Quando escutava o canário belga na gaiola da barbearia ficava admirado pelo trinado do canto entoado; ao mesmo tempo Zé-Gaiola (de 18 anos) estalava os dedos da mão e alegre pulava imitando o assovio replicado. Num ingênuo entrevero com o Bel, que até hoje desconhece o motivo, o estabanado ZéGaiola deu o pulo-do-gato, e apesar do proceder abobado ficou esperto e saiu de lado, deixando o menino (de 7 anos) no chão da calçada estalado com o rosto marcado por um nariz quebrado. Bel conta que molestado pelo Zé-Gaiola ficou irritado e descontrolado, e na direção do provocador saltou no ar para desforrar da ofensa. Nova visita ao hospital: socorrido com nariz fragmentado, rosto todo inflamado… O tratamento de Bel nos anos seguintes incluía as muitas injeções doloridas, intensivos ‘banhos de luz’, inalações diárias, dor e pus; e terríveis enxaquecas. Passaria quase toda a sua vida a conviver com uma insana enfermidade que não lhe saía da cabeça: a incômoda sinusite crônica. Tudo isso poderia ter sido evitado. Mas, o pretérito é passado! Polegar esmagado. O mais controvertido acontecimento inesperado, embora bastante doído, foi o da autoagressão sofrida pelo Bel em acrobacia radical com sua Monark de pneus balão maciços. Ao empinar o seu cavalinho de ferro com o guidão virado, o peso e a força fizeram o polegar do pé ser esmagado pelo pneu da bicicleta em seu brusco movimento. Ainda nela sentado Bel vendo o sangue entre a unha espumado, sem poder pedalar, lá ficou a gritar. Seu pequeno-polegar até hoje é marcado. Licor de cacau. O costume hospitaleiro de outrora, na casa de pomposas senhoras, de oferecer um cálice de licor (bebida alcoolizada, espessa, açucarada com adição de essências) para a visita era educado e prazeroso. Em casa de quem bem recebia sempre licores havia geralmente frutado (cereja, laranja… e mentolado). Na casa de Bel, de simples trabalhadores, afora Biotônico Fontoura¹ o único licor que se oferecia era somente para os da família: Licor de Cacau Xavier² - um remédio (vermífugo) habitual, a cada seis meses um ritual, que o caçulo saboreava. O desejo inesperado de um menino ainda pouco formado (3 a 4 anos) ao ver no armário o vidro do licor pelo rótulo conhecido não vacilou e o vidro inteiro entornou, e o líquido ali contido escoou… O vidro era mesmo o do conhecido licor, porém, sem avisar, alguém o conteúdo trocou: agora era de mercúrio-cromo. Ingerido de um só gole o líquido queimou o estômago do menino. Regurgitado, muito vômito provocou. Uma vez socorrido, o menino dali por diante nunca mais teria esquecido: licor de cacau Xavier não é chocolate derretido! Havia um poste no meio do caminho. Não era amor à primeira vista, apenas um olhar apaixonado de quem vira aquela menina bonita tão cheia de graça: parecia a ‘Garota de Ipanema’ (Antonio Carlos Jobim/Vinícius de Moraes). Bel sozinho retornando do colégio Bonifácio de Carvalho, distraído como sempre com coisas na caixola a matutar. Na calçada da Giacagline (rua) bem antes de chegar ao Morrinho, avistou o anjo que antes já vira por ali passar. Dela não sabia o nome, mas guardava o sorriso correspondido embora em silêncio nunca sua voz ouvisse soar. A batida acelerada do coração incontido e sem parar de andar fez o arrebatado menino repentinamente se virar para olhar… Ao revés do anjo avistado, uma trombada de cara com o poste na calçada, ao se revirar. Ao chão descambado, em momento hilário Bel se esqueceu do anjo e se levantou com cara de otário. Meneando a cabeça reprovava seu gesto ingênuo no impulso de um coração acertado em cheio por um cupido provido de arco e flechas, porém, de olhos vendados. Afora as marquinhas indefectíveis que a vacina BCG (Bacilo Calmette-Guérin utilizada para a prevenção da tuberculose) deixava nos braços, além da dor da ferida que quando infeccionava indicava que tudo estava ‘normal’. ¹O Biotônico Fontoura é um medicamento fortificante e antianêmico criado em 1910 pelo farmacêutico brasileiro Cândido Fontoura. Mário de Andrade achava que um dos traços do caráter do brasileiro era a preguiça, e Macunaíma teria sido criado para representar uma síntese de nosso povo. Monteiro Lobato nessa linha de virtudes da simplicidade cria a figura do Jeca Tatu, complementado, mais tarde, pelo Zé Brasil. ²O Licor de Cacau Xavier atua sobre os principais vermes que parasitam adultos e crianças.
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15 Permuta de amígdalas por sorvete Kibon Tita já havia perdido suas amígdalas¹ sem muito custo na sua recuperação póscirurgia, pois se comportara de acordo com que o médico mandara a fim de ter alta. Em anos anteriores, outro bom exemplo: o de Miguel que aos cinco anos foi submetido a cirurgia delicada (hérnia) na qual uma tripa de carneiro lhe fora implantada, e cuja recuperação fora rápida e eficaz. Embora ambos se beneficiassem da mesma promessa: a de receber presentes dos pais além da atenção dedicada, logo depois da operação. Em crise de mais uma dolorosa amigdalite², foi com essa promessa materna em mente que Bel também fora levado ao Dr. Homero, otorrinolaringologista, médico do SESI de São Caetano do Sul. Era espantoso (doloroso) e Bel não entendia por que tantas crianças assim como sua irmã maior tiveram que passar pela remoção dessas ínguas (gânglios linfáticos) sabendo que logo tratadas elas voltariam à sua função natural! Ainda uma criança (sete anos) e prevendo a fatalidade, antes mesmo de entrar no consultório Bel presumia que a decisão já estava tomada. Ludibriado pelo médico honesto e pela própria mãe amorosa concorde com a promessa que depois da cirurgia ele se esbaldaria com sorvete Kibon, na quantidade e no sabor que quisesse. Ao menino, a contragosto, restou apenas aceitar o fatídico diagnóstico. Apenas deveria esperar a amigdalite sarar. Bem cedinho, seu pai o levou de bonde³ ao Hospital Santa Edwiges, na capital. Lá chegando, Antônio com poucas palavras despediu-se com afeto do menino aflito, que levado à enfermaria logo outros meninos encontraria. Alguns deles choravam, outros não paravam de falar e outros, de sangrar. Naquele ambiente inóspito Bel foi preparado para o ato final: trocar suas amígdalas pela promessa de abundante sorvete Kibon, picolé ou de caixinha Eskibon. Mas, a realidade mostrou-se cruel: na cadeira de operação o médico indiferente logo mandou que Bel cheirasse o perfume. Acreditando no doutor o menino inspirou o gás4 e quando voltou a si já se encontrava na enfermaria com as amigdalas extirpadas, sangrando bastante a garganta doía. Em estado letárgico mal compreendia o que aqueles meninos falavam nas camas ao lado. Atônito, caiu inconsciente. No dia seguinte sem nada falar, trocou o pijama hospitalar por suas calças curtas e camisa de colegial. Despediu-se dos colegas com um aceno final. Quando em casa chegou, trazido por sua mãe querida, instalado na poltrona da sala de estar logo se lembrou da promessa que ela fizera: - o abundante sorvete Kibon! Proibido de pronunciar qualquer palavra, nenhum som poderia sair de sua boca, já que a sutura da cirurgia poderia se romper a ele restou apenas a mímica das mãos, e a comunicação de sinais ou escrita em papel. Foi quando soube que por ordem médica jamais poderia ingerir qualquer coisa gelada, então seus pensamentos derreteram qual sorvete exposto ao sol do meio-dia. Ludibriado e decepcionado, humildemente aceitou a resolução médica. E por quinze dias, além do purê de batatas e do arroz-papa, deliciava-se com seu Guaraná Champagne Antarctica, evidentemente, degelado. ¹As amígdalas nos ajudam a criar anticorpos para combater bactérias agindo, assim, como grandes aliadas do sistema imunológico. Devido à sua localização estratégica - na encruzilhada entre a boca, o nariz e a garganta -, as amígdalas acabam percebendo e processando todas as bactérias que invadem o organismo, pelo ar ou pelos alimentos. http://mundoestranho.abril.com.br/materia/para-que-servem-as-amigdalas ²Até o final da década de 1970, quando ainda se desconhecia a utilidade das amígdalas, era comum a cirurgia para retirá-las. O objetivo era livrar-se das amigdalites: inflamações corriqueiras, causadas pelas próprias bactérias com que as amígdalas entravam em contato para defender o organismo. Hoje em dia, os antibióticos dão conta das amigdalites. Por isso, a remoção só ocorre quando há realmente necessidade. ³O extermínio dos bondes: a última viagem de bondes elétricos na capital paulista ocorreu pouco antes da fundação da Cia. do Metropolitano, em abril de 1968. Tudo é Passageiro (Ayrton Camargo e Silva, 2015). 4Um anestésico eficiente, o clorofórmio ou triclorometano, composto químico de fórmula (CHCl3) é um líquido incolor e volátil. Sendo muito tóxico se ingerido ou seus vapores aspirados.
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16 O susto no finado Quem tiver medo¹ da morte e estômago fraco virar a página é recomendado, pois as cenas verídicas aqui relatadas são de um autêntico conto macabro. O silencio marcava e a postura indicava quem o falecido havia sido: um homem de bem. As pessoas presentes apinhadas na cerimônia fúnebre acompanhavam o movimento daqueles que circulavam e ofereciam respeitosos pêsames, que a família recebia entristecida, mas se conformava pela idade avançada que o finado alcançara. Era o avô de um querido amigo, e Bel comovido ficara num canto da sala comprimido com outras crianças que aguardavam o desfecho do guardamento. Naquela época o velório em casa era concorrido, restando ao falecido passar mais tempo no lar querido e aos familiares receber os vizinhos e conhecidos. Geralmente algo para se comer era oferecido, além do cafezinho quentinho. A noite era alongada. As sombras das velas acesas tremulavam nas paredes, formavam tenebrosas figuras como parcas² anunciando que o ciclo de vida findara. Os trajes de luto presente em preto absoluto. No rosto pesaroso o choro prolongado se arrastava através das longas horas de luto ali passadas. Porém, num cantinho sempre havia um sorrisinho das inconvenientes anedotas contadas. As velas derretidas no candelabro produziam lágrimas que no assoalho se derramavam, como se uma vida escorrida ao longo do tempo ao chão frio chegara decrescida. As flores nos vasos ainda preservavam um viço aparente. As coroas que homenageavam o falecido continham mensagens de amigos e parentes. O caixão de luxo do defunto, em madeira nobre envernizada, era grande e pesado e todo decorado. Sozinha num canto, a tampa aguardava a hora de ser fechada. Surpreendentemente, antes do ato final daquele guardamento, um terrível estrondo abalou os fundamentos do local onde ocorria o funeral. O morto não era gordo e não se mexia. Entretanto, naquele aglomerado de gente ali amontoada, tudo somado, o cataclismo provocado na sala de estar ninguém poderia imaginar! O assoalho encerado que sobre o porão havia sido construído não resistiu ao peso do povo apinhado. Inesperado, o assoalho ruiu e afundou com o finado. As flores caíram ao seu lado, misturadas a toda àquela gente que havia escorregado. Os familiares ficaram atônitos vendo o corpo rolar, e afônicos de tanto gritar. O povo aturdido de olhos esbugalhados se evadiu aos gritos do recinto danificado pelo estrondo do assoalho rompido. Em seguida, o falecido tombado teve que ser resgatado do buraco que o havia sugado. Foi então que as crianças com medo pelo tremendo susto juravam ter visto o morto revivido ou ressuscitado. E assim ouvido também foi divulgado naquela alpina vila, e todos acreditaram. Não é desrespeito dizer que o morto é morrido, fantasioso é crer que ele tenha revivido. Apesar desse acidente infeliz essa história inaudita é verídica. Ela não assusta ninguém, exceto aqueles que só vivem pensando no além.
³ ¹Tanatofobia é o medo de morrer, de coisas mortas, ou de qualquer coisa associada com a morte. ²Parca: na mitologia clássica, cada uma das três deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que determinam o curso da vida humana. A morte. ³O Grito é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, a mais célebre das quais de 1893.
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17 Porcina Landrace: a porquinha branca alemã Na cultura brasileira o porco é sempre considerado um animal sem higiene, sujo, e remete a uma imagem negativa do dito-cujo. Na alpina vila onde tantas culturas havia o porco (schwein) para os alemães tinha um lado positivo forte: além de apetitoso, ele é um símbolo de sorte! E para aquele que da carne é fã: ‘joelho de porco’ é uma comida tipicamente alemã. Receitas e nomes diferentes existem em montão para esse apreciado prato típico alemão. Na véspera natalina - embora na religião de D. Conceição essa data não fosse comemorada, seu Antônio já abrira a cesta de Natal Amaral e havia que providenciar o prato principal: um cordeiro. Uma busca tardia na vizinhança, mal havia frango. - Um cordeiro? Pode perder a esperança! Com o cordeiro fora de questão, restou a seu Antônio preocupado, pelo tempo escasso e o dinheiro parco, a procurar um conhecido alemão, um porqueiro criador de leitão sevado. Tudo arranjado, para casa voltou com uma leitoazinha alemã, toda branquinha e pelagem sedosa da raça suína: Landrace. Era tão bonitinha! Assim, incólume permaneceu em casa o Natal e Ano Novo. E entre a família sorte alcançou. - Mas, e na ceia o principal prato? ‘O frango pagou o pato’¹! Poupada do sacrifício e da aflição agora era tratada com um privilegiado bichinho de estimação. Com carinho era cuidada, com a melhor ração era sevada, e sua morada era melhor que a do cão (Folia). Mudada sua sina, até foi batizada com o prenome de Porcina: a porquinha Landrace que o destino livrou de ser abatida na chacina. Os meses se passaram e a porca com cuidado foi domesticada, bem tratada, lavada e escovada; agora já era uma senhora porca engordada, que de tanto alimentada mal em pé ficava. Como os vizinhos interessados contribuíam com a sobra de comida além da ração por seu Antônio preparada, as dimensões da Porcina foram além da medida. Enquanto se alimentava, já não se levantava, e quando a pele coçava era seu Antônio quem suavemente a escovava. Pelo destino suíno traçado o tempo já fora determinado: em chegando um novo Natal depois daquele ano passado, Porcina já não era mais vista como uma promissora leitoazinha ou membro da família; até Bel e as crianças já sabiam que destino ela teria. Mas para lidar com a forte emoção, e o sentimento humano daqueles que com ela vivenciaram e com afeto a trataram, houve conflito com a razão: ela não era um cochino qualquer, e não se tratava de um porco-do-mato, um reles caititu…, mas sim uma digna representante suína da criação divina. Havia que ser respeitada! Contratado como carrasco para o serviço esperado, o porqueiro criador agora se revestia de um indiferente fatídico abatedor. Embora por Antônio recomendado que a criatura fosse com carinho tratada, no cadafalso o golpe da lâmina cortante, como navalha afiada, o seu coração parou; e seu peito aberto já não pulsava. Em cima da mesa do abatedor já não lhe chamavam Porcina, ao dividir suas partes agora era apenas carne suína. Toda a vizinhança acorreu por seu direito porcionário¹ da porca abatida, que por uma semana alimentou as famílias até quando o Ano Novo principiou. Bel daquela carne não provou porque sabia a quem pertenceu: a de uma criatura tão meiga que por um ano em família conviveu. E ainda muito mais pelo que ela simbolizava: o direito à vida! 1‘o
frango pagou o pato’: Quem paga o pato, coitado, é feito de bobo: leva a culpa pelo que não fez, arca com as consequências dos atos de outros. Segundo o filólogo João Ribeiro, a origem da expressão está num conto do humanista florentino Poggio Bracciolini (1380-1459). http://guiadoestudante.abril.com.br/aventurashistoria/quem-paga-pato-434212.shtml 2porcionário:
aquele que recebe uma porção ('parte').
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18 Ovo de quilos, pão dividido: uma Pessach1 inesquecível Nunca em toda a sua tenra existência Bel havia visto, e muito menos provado, algo tão fabuloso: um ovo de Páscoa enorme, de quilos, que prenunciava as delícias de uma ávida mordida em mais de uma polegada de espessura em puro chocolate. Ali exposto na vitrine da mercearia decorada com outros elementos que antecipavam a semana pascoal, o admirável ovo de Páscoa. Montado naquele pedestal iluminado e na altura em que fora colocado, sua esplendorosa aparência causava as mais divertidas manifestações em todos que por ali passavam. Salvo engano, a marca era Lacta², e não Dizzioli (a mesma do dadinho de chocolate com amendoim: o doce mais compulsivo consumido pela garotada da época). Comendo com os olhos, as crianças se aglomeravam para exaltar o exuberante ovo pascal e lamber com a testa seu imaginável conteúdo achocolatado. Apenas um espesso vidro brilhante separava um sonho de ser realizado, quase ao alcance das mãos e bocas cobiçosas pelo objeto de desejo pascalino. Mesmo os adultos, admirados por nunca terem visto algo tão grandioso e farto, em tempos de escasso prato, expressavam na face surpresa ou balbuciavam elogios ao abundante ovo exemplar de arte de chocolateiro. Outrora, naquela alpina vila de trabalhadores e imigrantes religiosos fervorosos a Semana Santa era cuidadosamente preparada e festejada. Era um evento de proporções tais que envolvia todas as famílias desde o Domingo de Ramos, sem exceção, mesmo as de Judeus e não cristãos. Na Sexta-Feira Santa, as procissões marcavam a passagem dos devotos, mas era no Sábado de Aleluia que a molecada eufórica malhava o Judas no poste afixado, até o verem no chão esmigalhado. Já no domingo de Páscoa, com a família reunida, o bacalhau assado era o principal prato apenas na mesa dos mais afortunados. Nas demais casas de trabalhadores e imigrantes pobres, um bom peixe era esperado ou mesmo sardinha ao escabeche; ou frango assado para os remediados. - Mas, e o ovo de Páscoa de quilos!?? Pelo seu valor extremamente elevado, e compradores raros para o ovo, seu Antônio da mercearia fizera no período da Quaresma uma rifa enorme com números da sorte mediante a venda de talões assinados. Com pouca chance de ser contemplado seu Antônio, o argentino, modesto e precavido assinara a lista da rifa, mas a ninguém havia dito. E no domingo de Páscoa pela manhã com a multidão presente em horário aprazado o ganhador seria revelado: o afortunado pela sorte foi seu Antônio, o argentino, pai de Bel. - Quem diria! O ovo não era um cordeiro, mas pesava como tal. Assim, seu Antônio com braços arrojados levou satisfeito o prêmio alcançado. Acompanhado por todas as crianças, chegou rodeado à sua casa causando alvoroço na vizinhança. Dona Conceição apesar de surpresa, não titubeou! Com facão na mão ali no tampo da mesa, o prêmio destrinchou. Cada criança receberia um pedaço, na fila que se estendia até a esquina; o menino e a menina para casa voltaram com os dedos e a boca lambuzados. E aquele dia ficou na memória da vizinhança pela confraternização que o ovo farto proporcionou. A Páscoa era festa e alegria. Na ceia, o paladar ao provar os pratos da mama sorrisos abriria. Entretanto, o que ficou na memória gravado foi o ovo de quilos que seu Antônio ganhou e dona Conceição caridosamente multiplicou. O gesto espontâneo de dividir o pão também se realizaria sob outras formas na semana da Paixão. 1Páscoa
ou Domingo da Ressurreição é um festival e um feriado que celebra a ressurreição de Jesus ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento. É a principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã. A Páscoa determina todas as demais datas das festas móveis cristãs. O domingo de Páscoa marca o ápice da Paixão de Cristo e é precedido pela Quaresma, um período de quarenta dias de jejuns, orações e penitências. O termo "Páscoa" deriva através latim Pascha e do grego bíblico Πάσχα Paskha, do hebraico פֶּסַ חPesaḥ ou Pessach, a Páscoa judaica: festa que comemora a fuga dos hebreus do Egito (aniversário do Êxodo). ²Ou seria da Chocolates Dulcora (S. Bernardo)? – Lacta (1912, em S. Paulo Société Anonyme des Chocolats Suisses. Em 1940, Lacta foi uma das pioneiras na criação de ovos de Páscoa, embalando-os enumerando-os de acordo com o tamanho. Responsável pela ‘parreira’ de ovos (estrutura de madeira acima das gôndolas).
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19 Festas Juninas¹ da V. Alpina: um encontro de pátrias amadas “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” Rm 13:9 Havia sotaques variados de diferentes regiões. Assim, os agitados e expansivos italianos reuniam-se com os desconfiados e educados portugueses, que ao mesmo tempo se encontravam com os contrariados porém festivos espanhóis… Do outro lado da rua, os calados poloneses agora falavam até com os extrovertidos nordestinos vizinhos dos reverentes japoneses… Formavam o povo da vila, na bonomia unidos na mesma emoção nas Festas Juninas, ou de São João. As outras inúmeras línguas ali faladas misturavamse com as dos paulistas caboclos e os paulistanos da cidade, aglomerados nas festas dos santos sem distinção de fé e religião. O que importava para aquelas famílias no trato e convivência com seu vizinho de bairro era o cuidado e a hospitalidade: valores muito importantes, tais como o civismo ali preservado pelo respeito recebido e retribuído. Celebravam, enfim, uma festa de trabalhadores entre seus vizinhos assemelhados. Em nossa terra brasilis, a convivência diária de famílias de imigrantes das mais longínquas terras e até de conterrâneos dos pontos cardeais distantes desse imenso Brasil, atraídas pela cidade grande: São Paulo – SP, em processo de aculturação e de miscigenação. No arraial de bambus em arco, numa atitude amável e cortês ofereciam aos seus vizinhos próximos ou distantes e ao desconhecido circunstante, o que de melhor poderiam exibir: um banquete a céu aberto. Não de uma culinária refinada, mas a singela amostra de saborosa comida, pratos triviais de suas pátrias amadas. Comidas são memórias, comidas típicas de cada canto do mundo, servidas ali mesmo no arraial na beira da calçada de chão de terra batida, em mesas de cozinha trazidas para fora de casa. E cada pessoa que passava sem cerimônia se servia, com os donos da casa oferecendo em largos sorrisos os quitutes característicos da sua pátria distante; ali presentes no degustar do sabor típico e corriqueiro de sua terra natal… Mas no torrão brasileiro, em festa junina caipira não podia faltar canjica e a saborosa e farta pipoca quentinha com torresmo, além do quentão e o típico pinhão cozido; com a bata-doce mais o tremoço complementavam as comidas típicas ali servidas. As multicoloridas bandeirinhas, e o crepitar das fogueiras enfeitavam as ruas, além dos rojões e balões² que singravam os céus, de dia e de noite, da alpina vila e a casa de seus habitantes. Estes, alegres, felizes por ver as crianças pulando a fogueira de São João, depois dos pedidos das donzelas em busca de seu donzel amado feitos a Santo António de Lisboa em particular petição. São Pedro auscultava, lá de cima, aquele vivo contentamento, e as chuvas não mandava para manter a alegria daqueles que contemplavam o estrelado firmamento. Assim o céu, repentinamente, fora riscado pela efusiva estrela cadente³ - a qual não se pode apontar‼ Apenas admirar. ¹Festas juninas ou festas dos santos populares são celebrações católicas que acontecem em vários países e que são historicamente relacionadas com a festa pagã do solstício de verão (no hemisfério norte) e de inverno (no hemisfério sul), que é celebrado no dia 24 de junho, segundo o calendário juliano (pré-gregoriano). A festa que teve origem na Idade Média na celebração dos chamados Santos Populares é comemorada no dia 13, a de Santo António. São João, no dia 24. E a de São Pedro, no dia 29. ²Balões. O uso de balões e fogos de artifício durante o São João no Brasil está relacionado com o tradicional uso da fogueira junina e seus efeitos visuais. Este costume foi trazido pelos portugueses para o Brasil. Os balões, no entanto, constituem atualmente uma prática proibida por lei no Brasil, devido ao risco de incêndio e mortes. Durante todo o mês de junho, é comum, principalmente entre as crianças, soltar bombas, conhecidas por nomes como "traque", "treme-terra", "rojão", "buscapé", "biribinha" e "bombão". ³Estrela cadente. Seja por acreditar tratar-se de um sinal de boa sorte, ou pelo simples espetáculo que proporciona, uma coisa é fato: todo mundo adora ver uma estrela cadente. A rapidez com que estes objetos cruzam os céus e logo desaparecem sugere que o lampejo de luz apareceu apenas para a gente. Apesar do nome popular “estrela”, trata-se de meteoros, pequenos fragmentos sólidos que, devido à ação do Sol, se desprenderam de cometas ou asteroides e continuam vagando na mesma órbita.
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20 Cultura da bomba: balonismo, foguetórios e ocultismo Zeppelin¹. Um salto para o céu! Estrela, charuto, careca de padre, cruz, quadrado, losângulo e de formas mais variadas eram os balões que atravessavam os céus singrando por entre as aves nas Festas Juninas da alpina vila. Zeppelin-de-três-bocas: um balão arrojado era um mutante da versão do ‘charuto’ só que na horizontal montado. Nas bocas feitas de grosso arame eram instaladas tochas, ou buchas (armação de arame dos balões juninos), em saco de sizal enrolado com breu (inflamável) em muito querosene molhado... E quando acesas, as três tochas muita fumaça exalavam e logo o balão se inflava com toda força para o céu incontido ele impusionava. A praça cheia de gente! E como todo mundo se aglomerava e segurava nas pontas do balão, Bel – habituado a ver subirem balões chinesinho, ali estava também ajudando excitado pelo poder do zepelim apegado. E quando o balão incontido foi liberado ao menino Bel não avisaram. E ele aguarrado nas cordas das lanterninhas amarradas na boca do balão por um metro foi arrastado. Um salto para o céu! Mas, em seguida pelas mãos dos maiores foi recuperado. Um susto tremendo para quem mal tinha nascido (quatro ou cinco anos de vida) e já fora elevado e para o céu quase arrebatado. Arrastada pelo Zeppelin sem embaraço foi, sim, uma fogueteira ou cangalha (fogos de artifício) programada para se manifestar ao público atento, enquanto ascendia espocando aos céus na noite daquele festivo dia. E Bel, encantado! ¹O Zeppelin foi um dirigível rígido inventado pelo conde Ferdinand von Zeppelin. De formato alongado característico, foi muito utilizado para travessias transatlânticas com passageiros na década de 1930. Devido ao seu enorme sucesso, o termo "Zeppelin", em uso casual, firmou-se para se referir a todos os dirigíveis rígidos. http://pt.wikipedia.org/wiki/Zeppelin
Pastilhas Valda¹ esplosiva Toninho (irmão caçulo de Zoraide, amiga de família vizinha, da casa de cima) era um menino destemido e muito amigo dos irmãos maiores de Bel. Atrevido, pintando o sete, carregava consigo ‘pó negro’ uma mistura explosiva de enxofre, salitre e carvão, ou melhor, a pólvora, numa latinha de Pastilhas Valda. Respeitado por suas demonstrações, Toninho quis exibir para os espectadores presentes como se produzia um caminho-derato ao melhor estilo: demorado e com estrondo ardido. A pólvora² quando armazenada em latinhas, ao torcer para abrir a tampa metálica, a fricção poderia provocar explosão instantânea e possível destruição da própria mão de quem a manuseava. Foi quase isso que aconteceu ao Toninho, que no inesperado estardalhaço da arrebentação, a tampa foi parar no vizinho, ou seja, no jardim da casa do Clidão (irmão do Bel) e o fundo da latinha incrustrado na sua mão. Tamanho alarido pelo dano sofrido causou aos meninos tremenda comoção. Dali por diante, nunca mais se ouviu dizer de pólvora em latinha, e do Toninho qualquer outra demonstração, além da lembrança das marcas deixadas em sua mão juvenil. ¹Em 1902 na França o farmacêutico Henri-Edmond Cannone criou as PASTILLES VALDA, que foram um dos primeiros produtos farmacêuticos industrializados do mundo. ²A pólvora (enxofre+carvão vegetal+salitre) foi descoberta no Século I, na China, durante a Dinastia Han. Por volta do século X a pólvora começou a ser usada com propósitos militares na China na forma de foguetes e bombas explosivas lançadas de catapultas. Por volta de meados do século XIV, os primeiros canhões são mencionados extensivamente tanto na Europa quanto na China. O salitre necessário na obtenção da pólvora negra era conseguido a partir do "cozimento" de fezes de animais.
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Cultura da bomba: infância mal instruída – “Caramuru, caramuru!”¹ A cultura da bomba é nesse imenso Brasil cultuada, e desde a mais tenra idade ensinada. Em algumas regiões ela é igualmente idolatrada. Sempre presente nas festas juninas, na passagem do Ano-Novo ou em qualquer outra comemoração, a bomba sempre está relacionada a alguma deidade: no estrondo que é manifestada em relação com a trovoada, e na luz da explosão com o raio, que causa desgraça ou que constitui uma calamidade. E o povo pelos estampilhos atordoado, sempre fica encantado, paralisado por aquilo que não sabe explicar. Imitando o trovão, o projétil-foguete parece um canhão. Estremece na mão da criança inocente. O busca-pé, como um demônio serpejante, sobe queimando as pernas da mulher passante. E mesmo as bombinhas de aparente inocência quando estouradas no ouvido da surpreendida criança, é um caso de demência! A cultura da bomba em outras demonstrações de virilidade, nas comemorações das torcidas organizadas que demandam confusão nas rusgas futebolísticas, tem o mesmo impulso fantástico e bombástico. E outras consequências além das aqui já descritas.
Cultura da bomba: ocultismo como profissão de fé Segundo Jung, que desenvolveu os conceitos de arquétipos: há um conteúdo imagístico e simbólico do inconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade. Talvez ele consiga explicar o fantástico da magia da cultura da bomba em cultos ocultos onde se emprega o uso da pólvora e outros artifícios. Nas trevas encobertas a luz é fugaz, e o fogo provoca o excitamento ao sobrenatural. Neste mundo real e material, em casos variados, o usuário obtém como resultado outras aparições bem testificadas, não vindas do oculto. Mas, presentes na pele gravada em perene forma de múltiplas tatuagens: são cicatriz, lesões ou queimaduras pelo efeito explosivo da pólvora, ou que tais.
A
B
A)“Morte de cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, 49, ferido em uma explosão durante uma manifestação no Rio de Janeiro, teve morte encefálica diagnosticada na manhã desta segunda-feira (10/02/2014).” Uol Notícias – Cotidiano. B) Fogo de artifício Rojão ou foguete é perigoso e fonte de poluição sonora. Eventualmente, utilizado como arma nas notórias guerras de rojões entre torcidas rivais ou disparada do alto de edifícios…
¹“Caramuru, caramuru!”: Diogo Alvarez Correia recebeu a alcunha de Caramuru “Homem de fogo”pelos Tupinambás, náufrago português que passou a vida entre os indígenas da costa do Brasil ao afugentar indígenas que o queriam devorar, matando uma ave com um tiro de arma de fogo.
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21 Cultura das armas: da funda à corrida armamentista “Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado.” 1 Sm 17:45
Arma, vantagem no ataque e na defesa: da pedrada da funda¹ de caráter individual nos primórdios da caçada de subsistência ao petardo fatal contemporâneo Se pesquisarmos os meios (materiais e circunstanciais) essenciais à manutenção da vida, para o sustento da pessoa humana nos primórdios da existência em um meio ambiente hostil, iremos encontrar uma infinidade de ferramentas e petrechos. Estes figuram como extensão do corpo do homem objetivando suprir a natural fragilidade física na luta pela sobrevivência. Extensões estas que ampliavam ou equivaliam aos substitutos dos membros que se tornam poderosos e destrutivos armados para a luta. Da pedra lascada, o arco e flecha, as lanças e os dardos… até ao atual propulsor no uso da pólvora, o projétil das armas de fogo. Davi² ou David (1040 a 970 a.C.), em tempos remotos onde a pedra abundava fizera o uso digno da funda para derrotar o filisteu Golias³. Já Antônio, no Século 20, habituado ao manuseio do manganês no cadinho na fundição de metais, possuía uma pequena espingarda para a caça, além de um revólver de baixo calibre para proteção pessoal e familiar. Fora caçador na sua juventude. E por toda a sua existência, aficionado exercia por hobby pescar em lugar ermo nos rios e na Represa Rio Grande (atual Billings) em dias de folga do trabalho, solitário ou acompanhado. Em época de reprodução propícia quando as rãs à noite se manifestavam em profusão pelos brejos e córregos na vizinhança da alpina vila, ou às margens inundadas da Santos-Jundiaí (Estrada de Ferro), Antônio saia equipado com sua mochila, o farol de carbureto e a fisga empunhada. Retornava para casa trazendo dúzias de rãs pimenta, ainda vivas em saco de sisal, para horror dos vizinhos nordestinos que abominavam aquele bicho. Enquanto a vida aguerrida lá fora esmorecia (Guerra do Vietnã, 1955-1975) e outro Antônio (Calado, 1917-1997) descrevia em romance (Quarup, 1967) sobrevivência dos povos indígenas do Parque Nacional do Xingu (irmãos Cláudio e Orlando Villas Boas responsáveis pela implantação em 1961) e Darcy Ribeiro4 em relação aos índios e à educação, as armas de seu Antônio aqui já mencionadas contavam histórias inusitadas: 1. Ladrões na madrugada quando forçavam a porta da cozinha travada com tranca, tendo ouvido o estridente apito de Antônio, partiram em retirada apressada. Pela reação inusitada, foram no banheiro de fora (único da casa) se esconder do vigilante e arrojado chefe de família em corajosa investida. Os meliantes ao verem o cano da espingarda de seu Antônio na janela apontada, assustados em disparada pularam o muro e sumiram na madrugada. Em paz assegurada pelo enfrentamento do forneiro sem uma bala se quer detonada, a família voltou ao sono tranquilo. Curiosamente, seu Antônio ao sair cedinho para o trabalho encontrou dois pares novos de sapatos na entrada do portão de casa. Ali foram abandonados pelos apavorados ladrões naquele momento onde a expressão ‘pernas, pra que te quero!?’, fala mais alto. 2. A outra arma, que seu Antônio em casa guardava, já conta uma história meio encabulada. Com asseio ela era mantida no fundo da gaveta onde apenas seu Antônio tinha acesso. O esmero na limpeza do revólver demonstrava o cuidadoso trato dado por seu dono, que jamais permitia quem quer que fosse tocar no coldre da arma. Num pequeno descuido, entretanto, em uma noite ao manusear depois de limpá-lo, o revólver carregado disparou acidentalmente atingindo o dedo mínimo da mão esquerda de seu Antônio. Resultado: a ponta do dedo decepada e também parte da unha. Socorrido ali por ele mesmo com 31
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um punhado de café em pó como curativo para o sangue estancar. Ataduras e esparadrapos imobilizaram o dedo com a ponta decepada. Uma marca de lembrança por toda a sua vida, para contar o que uma arma carregada mal manuseada pode acarretar! Seus filhos maiores também eram tais como a maioria dos jovens de outrora acostumados à prática de tiro ao alvo, comum nos Parques de Diversão da época. Entretidos pelos prêmios oferecidos ao acertador da ‘mosca’, além da pose de imitadores dos caubóis do faroeste cinematográfico em cenas de lutas e tiroteios nos banguebangues norte-americanos. Foi com uma carabina de pressão que Euclides no quintal da fábrica de calçados à qual administrava, mirando certeiro no alvo afixado na parede cimentada, quase teve seu olho atingido: o chumbinho ricocheteou e feriu sua fronte entre as sobrancelhas. A dupla inseparável de irmãos José e Euclydes, atraídos pela caça com armas de fogo - cujo prêmio parecia estimular o instinto animal e fatal por um tiro certeiro, embora a ave ou o animal caçado não valessem o perigo e os valores pagos pelo ‘esporte’ arriscado. Compulsivos e excitados num impulso juvenil, adquiriram um rifle Winchester5, de ação repetida. Dessa forma principiaram as aventurosas investidas na Mata Atlântica em busca de mamíferos como o tatu-bola6 e o preá (na língua tupi7: apere'á), além de aves apreciadas na culinária mateira. Admirador do positivista Marechal Rondon - o desbravador pacifista e sertanista brasileiro, distante dessas atividades do armamentismo e da caça de animais e aves, o caçulo Bel sempre se esquivava do uso e do porte de armas, que pareciam simbolizar uma firmação machista e destrutiva por natureza. Adestrado nas Forças Armadas (Exército Brasileiro), o jovem soldado empunhou várias armas e praticou tiro de vários calibres, tais como fuzis (FAL) e metralhadoras, assim como morteiros… Entretanto, nunca se apegou, portou ou adquiriu qualquer tipo de armamento como instrumento capaz de constranger os seus semelhantes, ou impingir dano ao simples animal.
Tatu-bola
Rã pimenta
¹Funda: arma de arremesso constituída por uma correia, ou corda dobrada, em cujo centro é colocado o objeto que se deseja lançar; atiradeira, catapulta, estilingue, fundíbulo. ²Davi ou David (1040 a 970 a.C.) (em hebraico: דוד, literalmente "querido", "amado") é reconhecido como o maior rei de Israel, descrito na Bíblia como tendo muitos "dons, como o da música, da poesia e dos salmos”. ³Golias (em hebraico, ג ְָּליָּת: “exílio”). Golias era um gigante da cidade de Gate e um campeão dos filisteus. Local: Planície de Elah (carvalho): “Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa; a pedra encravou-se-lhe na testa, e ele caiu com o rosto em terra.” 1 Sm 17:49 4Darcy Ribeiro criou o Museu do Índio e o projeto do Parque Indígena do Xingu; se formou em antropologia. 5Existem algumas armas que, principalmente por influência de velhos filmes, habitam o imaginário popular, como ocorre com as pistolas alemãs Luger, os revólveres de ação simples da Colt e as carabinas e rifles da Winchester, no sistema de ação por alavanca, essas últimas vistas e admiradas por todos os que frequentavam as antigas matinês, a fim de assistir um bom e agitado filme de “faroeste”. http://armasonline.org/armas-on-line/os-rifles-e-carabinaswinchester-de-acao-por-alavanca/ 6Tatu-bola é a denominação comum para as espécies de tatu do gênero Tolypeutes tricinctus, endêmica do Brasil. 7Tupi ou tupi antigo era a língua falada pelos povos tupis que habitavam o litoral do Brasil no século XVI (tupinambás, tupiniquins, caetés, tamoios, potiguaras, temiminós, tabajaras etc.).
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22 Fanfarra: iniciação musical Havia acordado em profundo estado de letargia, e mal sabia a hora e o dia em que havia despertado. Preocupado em não chegar atrasado ao ensaio musical da fanfarra do grupo escolar, Bel, aos nove anos de idade, tinha grande responsabilidade frente à maestrina da banda musical. A ele era dado o ordenar do primeiro toque aguardado em silêncio por todos da banda. A partir de então, se iniciava o desfile. Ao seu lado os irmãos gozadores, bem acordados, além dos pais Antônio e Conceição que não contestaram, deixaram que ele o café tomasse e para a escola se preparasse. Feito um zumbi passou pelo Campinho e já atingia o Morrinho quando foi impedido de continuar. Seus irmãos prevendo o embaraço o trouxeram pelo braço. Bel de tão cansado, ficou calado. Quando em casa chegaram é que o motivo foi finalmente revelado: não eram seis horas da manhã e a segunda-feira ainda não havia chegado. Era apenas domingo! E a noitinha de inverno, friazinha, o fizera despertar depois de uma tarde toda dormida, preocupado em acordar. A gozação dos irmãos foi exagerada e a vexação poderia ter sido evitada. Bel iniciou seu longo trajeto musical nos instrumentos de metal, mas logo se identificou com os de percussão/cordas, talvez pela assimilação ou osmose em família: seus irmãos José e Euclydes tocavam em uma orquestra: maracás e bongô. E seu Antônio, argentino, musical saudosista, em seu violão dedilhava tangos de sua Buenos Aires querida e gostava de ouvir Vicente Celestino. Acima de tudo, Bel admirava o sublime som orquestral na igreja5 que frequentava desde antes de ter nascido, pois sua mãe na gestação jamais deixou de congregar. Permanecia encantado ao lado dos violinos, deixando-se envolver pela melodia e a harmonia dos hinos entoados. O garoto que tinha talento natural para a dança, semelhantemente a Billy Elliot (um filme de drama e comédia de 2000), estreou sua iniciação musical na fanfarra levada a sério: praticou no tambor, experimentou a zabumba e depois se aperfeiçoou na caixade-guerra. Na banda em que tocava a ordem imperava e a disciplina quem dava era o seu Nóbrega, o zelador, que um molho de chaves na cintura chacoalhava enquanto andava. De mesma firmeza havia seu Antônio, o guarda fardado, que providenciava a ordem do dia e comandava a segurança das crianças na travessia das ruas quando a fanfarra saia. No entorno da escola, em dia de ensaio as sete da matina, a vizinhança já sabia: o galo cantava e a fanfarra empolgada alegre entoava a marcha triunfal. Estava próximo o dia do desfile oficial de Sete de Setembro, onde as principais fanfarras concorreriam em São Caetano ao prêmio de melhor apresentação. Havia muitas bandas na região, mas a nossa era a melhor. Ao menos era o que achávamos! Quem impressionava era a banda do Cel. Bonifácio de Carvalho - colégio do Estado (onde Bel mais tarde estudou) pois figurava como a escola preferida pela indumentária criativa. No desfile do Senador Flaquer, o nosso uniforme era o mesmo do período escolar: apenas lavado, passado e engomado para melhor brilhar. Lá não havia espaço para fanfarrão nem para a bazófia ou presunção. O que nós tínhamos era muita garra com vibração musical: uma bela fanfarra. Não havia outra igual! ¹ Letargia: estado de profunda e prolongada inconsciência, semelhante ao sono profundo, do qual a pessoa pode ser despertada, mas ao qual retorna logo a seguir. ² Fanfarra: conjunto de instrumentos de metal e percussão. ³ Bongô: instrumento de percussão de origem cubana, constituído por dois pequenos tambores unidos por uma barra de metal, e que são tocados com baquetas ou com os dedos. 4 Maracá: chocalho que funciona como instrumento rítmico no acompanhamento de determinadas músicas e danças (p.ex., a rumba, o samba, o baião). 5 Igreja. A Congregação Cristã no Brasil (CCB) figura como a primeira igreja cristã a instalar-se em território brasileiro (em 1910) sob a designação pentecostal. Louis Francescon (29.3.1866 a 7.9.1964) foi um religioso italiano e norte-americano, fundador da CCB.
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23 Primeiro homem no espaço - “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível! ”— Yuri Gagarin¹ No outono de 1961 (abril) à noite no Campinho, na alpina vila, a turma reunida se aquecia na quentura da fogueira, acesa com gravetos e mantida com lenha de primeira subtraída da padaria do seu Armando. A brasa ardente era atiçada com espetos que provocavam estalos na madeira verde, e ali mesmo eram assadas batatas-inglesas² que na mercearia haviam sido surrupiadas. Lá em casa, se as mães soubessem essa festa jamais seria realizada. A dura casca tostada da batata que fora da brasa tirada mais parecia um menino ali presente, por nome de Pedrinho. Pelando as mãos, a batata arreganhada com as unhas soltava um agradável aroma. E seu tenro miolo saboroso, salpicado a gosto da molecada, aguçava o paladar. Naquela fogueira, numa lata de óleo descartada, a pipoca estourava e as conversas lunáticas dos pirralhos animavam a farra enquanto na brasa eles se aquentavam. O banquete improvisado fora completado com amendoim e tremoço que alguém do avô havia logrado, e ali mesmo manuseados por mãos sujas de carvão e degustados à luz das estrelas no esplendor do céu noturno. No negrume do Campinho, apenas os vaga-lumes e a luz distante lá na padaria. O céu estrelado do Cruzeiro do Sul³ era às vezes riscado por uma estrela cadente. Assim, suscitava um pedido por um dos presentes que sonhava voar e chegar ao céu: era o Bel! Um mundo a explorar pela imaginação daqueles garotos atrevidos, pois deitados na grama ainda meninos no corpo eram como ave noturna explorando o plano astral, vagando entre o mundo físico e o espiritual. Cercados pela crendice daquela época miravam aquele inefável céu mais parecendo uma negra cartolina onde pontinhos reluzentes descreviam figuras no plano mental, aguçando a imaginação e permitindo sonhar e se projetar na imensidão do espaço sideral. Sim, inefável! Era aquele infinito céu para os meninos como um negro véu onde cada estrela até poderia ser tocada. De repente, uma luz fulgurante rasgou o véu num instante e riscou uma linha no horizonte, lentamente! Seu brilho era intenso e apesar de concorrer com as estrelas, deslizava e não piscava, iluminando as mentes dos meninos ali presentes. E logo eles imaginaram e das suas bocas pronunciaram concomitantes: - Era um disco-voador!? Um ser extraterrestre invasor!? Interessante! Bel soube muito tempo depois, já amadurecido pela vida em leituras afins, que naquele instante no céu cruzara rasante o primeiro homem no espaço: Gagarin. No mês e ano em que aqueles meninos paulistanos por seu deslumbramento participaram do mais importante evento, sem entender, imaginando alucinação, testemunharam algo mais além do que os voos de balão. Dali em diante, na conquista do espaço alcançar a Lua seria apenas mais um passo4. Do outro lado, outrora um menino soviético, Yuri numa cosmonave5 cibernética em sua odisseia planetária admirava a cor da luz vinda da Terra, onde a fogueira aquentava alguns meninos que para ele olhavam. E na alpina vila eles nem imaginavam que outro menino muito antes deles no passado havia no espaço, de fato, se projetado. ¹O homem da cosmonave: Yuri Gagarin ou Iuri Alekseievitch Gagarin (9.3.1934 a 27.3.1968) um cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. ²batata-inglesa: Na verdade, a espécie teve origem na Cordilheira dos Andes, próximo ao Lago Titicaca, e foi levada a outras regiões do mundo por colonizadores europeus. Atualmente são cultivadas milhares de variedades da espécie em todos os continentes sendo um alimento fundamental na cultura mundial. ³A constelação de Crux, o Cruzeiro do Sul, aponta no rumo do Pólo Sul celestial. 4“É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.” — Neil Armstrong na Apollo 11 (Módulo Lunar) a primeira a realizar uma alunagem, no dia 20 de julho de 1969. 5Vostok I foi a primeira missão do programa espacial soviético. O voo marcou a primeira vez que um ser humano foi ao espaço exterior e o primeiro voo orbital de uma nave tripulada, portanto, a primeira missão espacial tripulada da História.
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24 Histórias de cobras e passarinhos Pescador de cobra-d'água Nas ruas da alpina vila as meninas gostavam de brincar de cobra-cega: entre elas, a vítima escolhida e constrangida era vedada nos olhos, e as demais se afastavam correndo como se houvera visto um animal horrendo. Quem participava da animada brincadeira nem imaginava como era a cobra verdadeira. Em histórias de pescador-gaiato sempre o peixe é maior do que é de fato. Não é o caso do que aqui relato! Num raro dia de folga, seu Antônio e dois de seus seis filhos se aprofundavam na mata numa trilha escarpada e escorregadia carregando nas costas mochilas e nas mãos varas de pescaria. Antônio com o facão ceifava, e a vereda mais fácil ficava. Ruflar de colibris e som da narceja; o esplendor da paisagem clarificava, a neblina espargia e a represa surgia. A água cristalina e pura da fonte jorrava, e cintilava na alegre alvorada ao canto da passarada, na pacífica paisagem da Represa de Ribeirão Pires¹. Havia chovido e o gramado do entorno inundado. Os apetrechos nos galhos ajeitados de modo improvisado. O silêncio da mata na pesca ajudava. Assim, os três avançaram penetrando o alagado até chegar à cintura, concentrados nas linhas sempre mantidas esticadas. Aguardavam a primeira puxada da boia. Bel entretido, brincava. Miguel pescava. Antônio em silêncio ficava atento ao que tudo ali se passava. Havia ali muito lambari, que na flor d’água reluzia qual polida prataria. Os peixes fisgados eram levados até o samburá. Seu Antônio - pescador experimentado, percebeu algo extraordinário: quanto mais peixes ele trazia e o samburá enchia logo diminuía, como se o cesto estivesse furado e os pescados evacuados: - Será que os peixes haviam escapado? Aos meninos o pai perguntou. Os meninos surpreendidos sem saber o que teria acontecido, observavam seu Antônio no mato em silêncio escondido. E logo entenderam o motivo do dano sofrido: as cobras em desatino boiavam sem alarido, em farto banquete serpentino, enquanto engoliam os infelizes pescados enclausurados. Mas, seu Antônio destemido com braços fortes arrojados arremessou as cobras na árvore com seu fiel cajado. E lá elas ficaram penduradas como aviso permanente, para testemunhar o sumiço dos lambaris furtados.
O buldogue calado na canela: menino passarinho com vontade de voar (Jessé) Em turnos puxados Antônio trabalhava na boca do forno na Aço Paulista (Mooca). E quando ele à noite estava em casa, sentado na sala contava suas estórias: "Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos...". Mas, a que impressionava era aquela da cobra que quando caçava hipnotizava os passarinhos no galho da árvore. E logo se imaginava que fossem eles os coitados mafagafinhos. O caçulo gostava de ouvir aquelas estórias e da boca dos outros quase tudo aprendia. Era um garoto mal saído do Jardim da Infância e no primeiro ano do Grupo Escolar (Senador Flaquer) fora iniciado. Das letras pouco sabia e sua querida irmã Tita sempre lhe socorria a dar os primeiros passos na cartilha escolar. Em casa pouco tempo passava, pois era na rua que muito aprendia no meio da turma dos maiores meninos que tudo faziam com estilingues nos bolsos, e cabeças vazias. Antes do almoço do fatídico dia, depois de trocado com o uniforme escolar – camisa branquinha e calça azulzinha, estilingue no bolso e barriga vazia, Bel saiu em direção ao Campinho atrás de passarinhos. Isso ele nunca fazia: atirar nos coitadinhos! Nem pontaria ele tinha e mal acertava uma lata parada, mas queria ser igual ao que fazia a impertinente molecada. Correndo no Campinho, esbaforido espantou o passaredo que por ali ciscava, e na árvore da casa sombria ali eles se refugiaram. 35
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O muro alto e caiado com tijolos furados não impediu o salto apressado, e o menino caiu no gramado doutro lado. Agitado e com estilingue apontado, atirou a pequena pedra no passarinho, que caiu assustado. Na mão do menino, o pardal vivo palpitava aflito. A breve alegria do prêmio alcançado durou pouco, pois num descuido para o telhado o passarinho voou. Maravilhado com a revoada, a cena foi interrompida por uma ardida mordida do inesperado buldogue instalado na perna esquerda do gajo. - Moral da história: o caçador se tornou caçado! Surpreendido, com o buldogue colado na canela rosnando e com os dentes cravados, o menino aos gritos provocou tremendo alarido. E logo pela dona da casa foi ali socorrido. Dona Elvira com rigidez repreendeu o cão e aplicou tremendo pito ao menino, liberando-o no portão. Bel, antes de ir para a escola, aprendeu uma dura lição. Com o uniforme rasgado e o peito ralado no muro, sangrando na perna pelos dentes do cão, humilhado pelo susto passado e aos soluços, Bel correu para casa sem explicação. A mãe amorosa que a tudo atendia apesar de surpresa o pimpolho acalmou com um santo lenitivo remédio: água com açúcar. Curativo aplicado, uniforme trocado, tomado o almoço, o menino para a escola pôs-se a caminho. Ele aprendera uma sofrida lição que contrariaria o conhecido refrão, criando ele mesmo uma nova expressão: “Mais valem dois passarinhos voando do que um menino ferido na perna ou na mão”.
Cobra de mamadeira, e veneno de serpente no calçado Contava-se em tempos passados, época de Lampião de Gás, na voz de Inezita Barroso² (1958): em uma humilde palhoça que ficava na roça de famílias imigradas para o interior de São Paulo, havia uma criancinha no leito recém-chegada, à noite inocentemente se alimentava na calda da serpente, que da mãe dormente o leite sugava. Estranha e asquerosa, essa história era contada por gente que naquilo tudo acreditava e jurava de joelhos que era assim mesmo que tudo se passara. Ainda sobre serpente, havia também outra testemunhada história dos irmãos gêmeos que trabalhavam juntos no roçado e tudo dividiam. O pão, a água e o almoço pela mãe preparado, nas marmitas com trochas de pano eram guardados até que o sol à pique chegasse para o repasto esperado. Assim, felizes, José e João viviam com saúde, graça e bênção. Até que um dia o destino impiedoso suas vidas marcariam por um incidente curioso: José à tardinha trabalhava no roçado e não ouvira o sibilo da serpente e fora por ela picado, que no calcanhar deixara seus caninos cravados, penetrando o duro couro da bota nova, rompidos ali ficaram escondidos. A repentina morte de José surpreendeu a família e deixou sozinho João que agora o dobro de trabalho teria, e aproveitando a partilha com a bota nova do irmão ficara e já no outro dia para o trabalho calçara. Durante todo o dia sentira uma coceira estranha no calcanhar. Tirava a bota e a bota voltava a calçar, sem atinar para a picada. O veneno residual se instalara em seu corpo no mesmo lugar que ao pé de José penetrara. E assim, noutro dia cedinho João não acordou para o trabalho. À semelhança de José, foi encontrado no leito com sua bota assassina ao lado.
¹O sistema Rio Grande/Billings banha os municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo. É o maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo. ²Inezita Barroso (4.3.1925 a 8.3.2015) cantora, atriz, instrumentista, bibliotecária, folclorista, professora…
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25 O tombo na Lambreta e ‘o raio que o parta!’ O tombo na Lambreta Bel não lembrava bem se era uma lambreta¹, ou vespa… mas com certeza não tinha as características curvilíneas e ousadas da inovadora Romiseta² (a Romi-Isetta)¹. Era, com certeza, uma linda motoneta, que seu pai havia recentemente comprado em substituição da bicicleta Philips que o acompanhava há muitos anos ao trabalho diário na Aço Paulista³, Av. Presidente Wilson (vizinha da Antarctica, Arno e Lorenzetti); fizesse chuva ou sol, bem de madrugada na direção da Mooca embalada às pedaladas. Na rua onde Bel morava assim como toda a alpina vila não havia calçamento, era apenas de chão batido de terra empedrada, ladeada por valetas irregulares. Mais adiante, no cruzamento da Rua Oito com a Ilha Seca bem na esquina da Farmácia (do seu João), havia paralelepípedos enfileirados e aplanados a fim de dar vazão às águas da chuva. Ali o viçoso musgo se desenvolvia e cobria a superfície lisa e quem por ali passasse e não atentasse, por vezes caia… Pai e filho em um domingo ensolarado, depois de um jubiloso passeio de estreia na linda motoneta, quando voltavam para casa bem naquele fatídico cruzamento, na conversão acelerada e pela inexperiência do piloto, rolaram aterrados: o tombo na Lambreta do seu Antônio ao passar. Sem querer, ao virar pela valeta gosmenta e escorregadia - pois asfalto não havia, fez ralar pai e filho no chão empedrado. Cotovelos e joelhos machucados. Porém, o que mais doía era ver os estragos na Lambreta amassada, pintura arranhada, farol trincado… Uma pena, um sonho acabado! Arrependido do ocorrido, talvez se sentindo inseguro por um veículo motorizado, Antônio logo se desfez da motoneta e optou por voltar a dirigir sua velha amiga e segura companheira. A bicicleta, que num canto, empoeirada, o aguardava! O raio que o parta! Há certos dias em que não deveríamos ter saído de casa. O pressentimento do experiente homem assertivo e maduro depois de uma noite tenebrosa foi encoberto pelo sentimento interior do fanático pescador, que falou mais alto e dessa vez agiu mais pela emoção do que pela razão. Afinal já estava tudo preparado com esmero, na noite anterior: os petrechos na mochila organizados, no estojo com divisórias vários anzóis e linhas para cada tipo de peixe, chumbinhos variados, boias novas etc. As iscas sadias corretamente embaladas em latas perfuradas para respirar: seu Antônio fabricara uma caixa de madeira especialmente para a criação do Tenébrio Molitor, uma larva conhecida como bicho-do-pão muito bom para pescar tilápia. Sem contar que era dia de folga, tãosomente aquela pescaria Antônio não poderia adiar. Saindo da alpina vila carregando petrechos, varas e mantimentos, Antônio e Bel atravessaram São Caetano de ônibus e logo chegaram à frente da Brastemp (fábrica de fogão e geladeira) no Ponto de Encontro dos pesqueiros em São Bernardo do Campo. Dali eles partiram em outro ônibus a caminho do Alto da Serra, na Represa Billings4… O dia não seria como das vezes passadas, pois no vento tempestuoso nem se podia caminhar quanto mais se instalar em barraca à margem d’água barrenta que mais parecia agitada pelo mar… A lona mal fora esticada, rompida se precipitava arremessada ao Deus dará! Algumas horas depois desistiram, ensopados, trêmulos e esfomeados, pois tudo havia sido molhado. Feito sapateiros, sem qualquer peixe fisgado, o samburá vazio jazia solitário pedindo arreglo para casa voltar. E o dia não poderia terminar pior. A terrível descarga elétrica na atmosfera, acompanhada de trovão e relâmpago, provocou tremendo choque do corisco-raio na 37
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cerca de arame farpado, onde seu Antônio segurava enquanto urinava. O abalo da descarga o arremessara ao chão. Ali estirado zonzo, estupefato, mal Antônio pôde se levantar. E percebendo a palidez no rosto do menino espantado, logo procurou acalmálo ainda trêmulo pelo efeito que o choque lhe causou. Recompostos, retomaram o caminho para casa numa manhã tenebrosa e fria no Alto da Serra, antecipada por causa da farta água que caía e de nenhum peixe fisgado. No caminho de volta, o tremor de frio e a ânsia de vômito5… Bel fora aconselhado por um pescador desconhecido a mastigar palitos de fósforo para acalmar, naquele ônibus apinhado de gente desiludida e ensopada. As janelas fechadas o sufocavam, e a chuva torrencialmente chicoteava a carroceria do ônibus… E o destino para o menino, nunca chegava! Bel, ainda amedrontado, recordava o susto há pouco passado em que Antônio quase havia sido partido pelo raio.
Vespa
Lambreta
Romiseta ¹Motoneta, lambreta, scooter ou vespa é um veículo motorizado de duas rodas no qual o condutor condiciona suas pernas para a frente de seu tronco, sobre uma plataforma, em vez de para os lados, como ocorre nas motocicletas. ²Em 1953, a empresa ISO Automoveicoli-Spa, fabricante de pequenas motocicletas e triciclos comerciais apresentou no salão de Turin um veículo denominado Isetta, (pequena ISO). Apesar da boa aceitação no mercado italiano, devido às suas características peculiares como porta frontal para facilitar o acesso, dimensões diminutas, boa dirigibilidade, a sua "vida" na Itália teve um curto período. Sua fabricação encerrou-se em 1956, quando esta fábrica transferiu todo seu maquinário para a empresa Romi, no Brasil, em Santa Bárbara do Oeste – SP: em 5.9.1956 iniciou fabricação do primeiro carro feito no Brasil (2,28 m de comprimento e espaço para duas pessoas). https://carros.uol.com.br/noticias/redacao/2017/12/28/romiisetta-conheca-historia-e-legado-do-primeiro-carro-feito-no-brasil.htm? ³Fábrica de Aço Paulista S.A. FAÇO – uma das mais importantes metalomecânicas nacionais. Fundada em janeiro de 1919, foi a primeira fundição de aço a utilizar fornos elétricos no Brasil e na América do Sul. 4Represa Billings. Construída em 1937 (inicialmente, Represa Rio Grande) para receber as águas dos rios Tietê e Pinheiros, bombeadas pelas estações elevatórias de Traição e de Pedreira. 5Cinetose – ou enjoo de movimento, mal-estar (náusea) causado quando se anda em meio de transporte.
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26 Pelé, Garrincha e Gilmar. E os pernas-de-pau da alpina vila Futebol “é o ópio do povo” (Nelson Rodrigues) e permeia a vida dos brasileiros. Esporte nascido bretão, depois da era do café, tornou o Brasil mundialmente conhecido e singular pentacampeão: Seleção Canarinho¹. Essa agremiação esportiva que mais acumulou vitórias em competição, qual um cavaleiro em tempos passados que lutava em campo fechado. E o povo na mente delimitado por ‘circo e pão’. O estádio Pacaembu - glória do futebol paulista, foi inaugurado em 1940. Todos os eventos esportivos de então se resumiam ao futebol (de rua ou campo), defendido pelos fundamentalistas da única religião em que a fé se firma no pé e a crença é no resultado final da partida, não para o céu a saída, mas fincada aqui mesmo no chão. Mesmo nos tempos de Maria Esther Bueno, maior tenista da história do Brasil, outros esportes não tinham vez; na escola quando se conseguia uma bola sempre era de futebol. Não que o Bel não gostasse, embora outra prática de esporte almejasse, respondendo à convocação, descalço ou de quedes, até acertava um chutão! E se arriscava no time infantil que o olheiro selecionava dos pernas-de-pau quem chegaria incólume ao juvenil. Horário de jogo da Seleção Canarinho era mais religioso que as missas e até as beatas empolgadas assistiam e torciam. A TV Tupi inaugurada em 1950 por Chatô (Assis Chateaubriand), do infantil ‘Pim-Pam-Pum, Estrela’, por duas décadas era em preto e branco. A telinha TV, vidro cinza abaulada embutida em móvel envernizado, refletia a janela da sala, perturbava o que passava. No chão, a meninada espalhada se acotovelava para ficar perto da tela mágica, que mostrava minúsculos jogadores animados. Porém, como não havia cores o contraste da pele trigueira às vezes indicava a seleção brasileira em belíssimas dribladas. É Garrincha!? Aquele craque das pernas tortas, que um rastro no chão deixava de gringos desnorteados pelas suas mirabolantes jogadas. Gilmar 2 e Didi e muitos outros talentos da seleção despertaram a torcida em vibração e alegria. Ali na sua terra natal, entre as vilas Bela, Zelina, Califórnia e Industrial, Bel não torcia por um time em especial, mas acompanhava o time oficial da casa: Corinthians. Quem torcia pelo Corinthians odiava o Pelé³, do Santos: a velocidade, a impulsão, a potência e precisão do chute desnorteante simplicidade e furor; furava a defesa e sempre fazia gols monumentais, deixando a torcida contraria em polvorosa agonia. Entre as figurinhas carimbadas no bate-bafo, sempre estava entre os que jogavam um bolaço. Se o mundo é uma bola, a que rola nesta recordação era quase redonda e feita de capotão (cobertura de couro em gomos e com umbigo) ou emborrachada. Mas quando faltava, alguém uma bola improvisava juntando velhas tralhas envolto com meia-calça de seda surripiada da mãe para a causa do futebol. O que importava era que a pelota quase redonda rolava, e pelo chute forte quase sempre esfolava. Nada doía mais que uma inesperada bolada no olho, na boca do estômago ou nas partes mais abaixadas para quem na barreira ficava, e se protegia com as mãos cruzadas na genitália. Exceto menino mimado dono da bola, nem a chuvarada nem o sol inclemente impediam a pelada, e quando a bola rolava era só correria, gritaria e emoção. Quando as ruas falam, a história ouve. Nas ruas da alpina vila nunca se viu tanta dedicação. Rosto respingado/soado, camisa puxada/rasgada e calção enlameado/furado. E muitos joelhos ralados, pés descalços com bolhas inchadas, dedão polegar sangrando com a tampa levantada… Mas nada se comparava ao espírito de corpo que unia em plena alegria aquela meninada. 1A
nova camisa inspirou o radialista Geraldo José de Almeida a criar, na Copa de 1954, o termo “seleção canarinho”. Taça Jules Rimet foi o nome que recebeu o troféu da Copa do Mundo da FIFA até 1970, ano em que o Brasil conquistou o campeonato pela terceira vez: Copa do Mundo de 1958, 1962 e 1970 2Gylmar dos Santos Neves Em 17.7.1962, há exatos 56 anos o Brasil conquistava o bi; foi o goleiro pela seleção brasileira, mas que também brilhou defendendo a meta do Corinthians nas décadas de 1950 e 1960. ³Pelé: o Camisa 10 o rei do futebol, considerado o maior futebolista da história, somente contra o Corinthians marcou 50 gols, e 1033 gols com o Santos. ‘Ele fazia com os pés o que os poetas escreviam’ (in Pelé Eterno).
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27 Pauliceia desvalida Alpina de nome, aquela vila não ficava na França, na Suíça ou na Áustria. Era apenas um subdistrito de Vila Prudente (SP), sem status ou prestígio, morada de trabalhadores paulistas das mais variadas origens: espanhóis, italianos, libaneses, turcos, judeus, japoneses, russos, poloneses... E de outras procedências ainda: migrantes nordestinos, sulistas e muito mais que se possa elencar; além dos nativos, que assim como Bel aprendiam a se aculturar. Eram brasileiros, acima de qualquer suspeita, por amor de adoção a uma terra abençoada buscando naquele quinhão a liberdade tão almejada. O cadinho que forjava essa gente no processo de aglomerado urbano produzia também certas desigualdades. Mas, nem tanto! O folclore é quem ganhava uma variedade infinda de costumes recém-chegados, trazidos de terras longínquas. O vernáculo incrementava-se no convívio e na informalidade do trato, agregando falas sui generis e dialetos que se aculturavam na comunicação da vida. Na Pauliceia das décadas de 1950/60, fulgurante e promissora, os filhos de trabalhadores suburbanos criavam seu próprio espaço de entretenimento. As ruas eram na época escolas a céu aberto onde tudo se aprendia - o bem e o mau ali residiam. Convivência de curiosas figuras que representam o quinhão de toda natureza humana. –Ah, se as ruas pudessem falar!? A turma do Morrinho e do Campinho A turma do Morrinho: Ari, Virsola, Cláudio, Serginho, Reginaldo e Carlinhos, juntava-se com a do Campinho: Bel, Mirola, Riquinho, Natal, Son e Faustinho, e mais: Plínio e Cláudio Messias, Cuquinha, Cosmo e Henrique além de Seu-Lima, Calunga e Pedrinho. E tantos outros que aqui não há como todos nomear, pois falta espaço e memória para classificar. E de tempos em tempos em grupinhos se agregavam, mas logo voltavam e coesos de novo se reagrupavam. Todas as turmas se agregavam no Campinho na época da Seleção Canarinho, na Copa de 1962¹. Ali as figurinhas carimbadas tinham grande valor e propósito: o de fixar na mente dos jovens os ídolos disputados no bafo das viradas frenéticas: brincadeira infantil de virar figurinhas com a palma das mãos, em disputa ferrenha. O futebol no Campinho, nas ruas o no Morrinho, já fazia no grupo uma pré-seleção dos meninos, a dos que mais prestígios gozavam e preferências arrebatavam. A mais vigorosa pancada na bola, com efeito, era a do Serginho, mas o soco mais forte no estômago era o do Carlinhos. A melhor piada era o Son (Edson) quem contava, mas a pior canelada era o Natal quem dava, e cocorotes levava. O peixinho no chão era o Messias quem mergulhava. E o Faustinho era quem melhor driblava. Os piores palavrões eram o indolente Seu-Lima quem desbocava, e Pedrinho que sempre reclamava. Assim cada um construía a fama de rua que lhe cabia.
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da Copa de 1962. A Copa do Mundo FIFA de Futebol de 1962 foi a sétima edição (30 de maio a 17 de junho). O evento foi sediado no Chile, quando a Seleção Brasileira de Futebol conquistou o seu 2º título.
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Pedrinho e “seu-Lima”, Calunga e Virsola (Wilson) Filhos da mesma mãe, de pais diferentes, baianos (nordestinos): Pedrinho, magrinho, negro apoucado, de sorriso fácil e voz ofegante, porém irritava-se constante com a injustiça alheia... Apesar de esquálido partia para o enfrentamento e aí se rompia seu doce temperamento. Mas nas horas de perigo revelava-se um bom amigo e não se afugentava quando o pau comia e o sangue esquentava. Seu-Lima o irmão maior, um Maguila dos anos 1980, era espalhafatoso, de vozeirão desbocado arredio a conselhos e de enfrentamento açodado. Não media as estridentes palavras que praguejava. Mas, parecia portar um senso de dignidade quando acuado e sem saída. Nesse momento de coragem perdida, era um camaleão na adaptação ao temeroso contexto do entorno. Calunga, menino aloprado, era um caso de edeia à parte. Vizinho de cortiço do danado Lima - o bufão e Pedrinho; seu comportamento fluía conforme o procedimento e veleidade a estímulos da idade e aos sentimentos íntimos e necessidades de grupo: a turma a que pertencia. O sentido de entrega era o que mais caracterizava o afamado Calunga. Coisas de menino, que fazem parte do troca-troca nada ingênuo. Virsola (Wilson), coraggioso, rebento de segunda geração de imigrantes italianos tutti oriundi, tinha como consigliere o Nonno (que intentava endireitar a Torre pendente di Pisa). Porém, não se firmou no exemplo do avô. Virsola era um destemido e fora uma pessoa extraordinária e amigável, que fazia justiça nas pequenas coisas que dividia sem egoísmo e com tal companheirismo. Era l’amico de Bel, verdadeiro no trato, companheiro fiel. Porém, como tutto il giorno aulas cabulava e muitos mais aquilo que tragava e as lagoas que frequentava em hora de aula, Virsola perdeu a amizade do Bel por gazetear demais. E a conselho dos pais! Recém-chegados do Japão¹: Anata = wá burajiru-jin des ká? (Você é brasileiro?) Uma família tradicional de O Império do Japão (Kyujitai:大日本帝國) havia chegado e desembarcado ali mesmo na casa em frente à do Bel. Em meio às trochas de roupa e tralhas coloridas, um grupo taciturno de gente amarela se enfiou logo para dentro da pequena casa do cortiço, sem nada falar. As portas foram trancadas, sem cumprimentar. Mas com o tempo passado, os meninos japoneses Isau e Kioei algumas coisas falavam em nossa língua. Eram péssimos no jogo de futebol, mas sorriam bastante e juntos sempre ficavam. Amizade ali brotou e eles ao Bel convidaram para o almoço, que prontamente aceitou. Bel experimentou o shoyu e o macarrão caseiro. - Bel gostou! - Arigatôo gozai-más! (Muito agradecido!). Daí por diante: - Ohayô, Bel-san! (Bom dia, Bel!) - Oguénki des ká? (Como vai?) - Sayoonará! (Até logo!) E a verdadeira amizade entre eles perdurou. Muito tempo depois, os irmãos já aculturados montaram lojas de autopeças aonde Bel o seu fusquinha equipou. ¹O dia 18 de junho de 1908 marca a chegada no porto de Santos do navio Kasato Maru. A embarcação, vinda do porto de Kobe, em uma viagem de mais de 50 dias, trouxe os primeiros 781 imigrantes vinculados ao acordo imigratório estabelecido entre Brasil e Japão. A data marca o Dia da Imigração Japonesa no País e nos faz refletir sobre as influências presentes na identidade cultural brasileira. As influências da cultura nipônica no Brasil EDITORA UNESP
Segregação ou apartheid por opção Havia também aqueles que não se enturmavam, embora não fosse difícil conciliar, devido à sua criação os pais resolviam apartar dos demais. Em geral, essas crianças segregadas viviam isoladas e de nada participavam. Essa opção de separação de algumas famílias os vizinhos até respeitavam, embora vendo nos olhos dos pequenos calados e desolados que eles disso não gostavam. 41
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Os espanhóis muçulmanos: as-Salamu Aleikum!¹ Parece que ele vivia sem os pais, que haviam voltado para a Espanha. Criado sozinho pela avó ‘Agullia’, Pablo era um garoto muçulmano instruído e pouco afoito às coisas de rua. Bel dele se aproximou numa amizade restrita mais ligada aos seus avós também espanhóis. Porém, Pablo levava uma vida nas sombras de um passado que não se pode voltar, de uma língua nativa de Granada em plena alpina vila mantida com costumes que já não se usavam mais, em uma casa sombria com móveis clássicos trazidos da Espanha; ambiente que Bel jamais esqueceria. - ¡Hola! ¿Qué tal? Pablo logo dali se mudou, tão repentino como se da Inquisição fora perseguido. Se para a Espanha retornou não se sabe dizer nem afirmar. Apenas seu rosto triste deixou a lembrar, de um menino educado que na rua esperado nunca foi visto brincar. Os meninos judeus: Shalom aleikhem!¹ O pai, judeu ortodoxo, em traje preto portando solidéu, tinha uma lojinha de armarinhos aonde de tudo se comprava: linha de pipa, cordão de pião, bolinha de gude, breu para balão... E até figurinhas lá se encontrava. Coisas úteis para a garotada; e também aquelas inúteis das quais as mães precisavam. Apegadas à mãe, atrás do balcão as crianças judias aguardavam e apesar da turba de meninos que frequentavam a lojinha, elas quase sempre ficavam caladas. Com elas não se conseguia falar, porque não respondiam enquanto o pai lhes dirigia um pávido olhar. Pelo que diziam, a família viera fugida da Polônia nazista, onde a segregação racial provocara o extremo que o ser humano pode suportar: um isolamento fatal. Mas, uma vez vivendo na alpina vila, já motivos não havia para que deixassem de participar do dia-a-dia da comunidade. O pai taciturno, que não reverenciava a distinta freguesia, ameaçava chamar a radiopatrulha pois ao que constava era dedo-duro da polícia civil. Católicos e evangélicos: divididos pela Reforma Protestante (há +500 anos, em 1517) Havia um grupo distinto de protestantes². Os meninos e as meninas sempre andavam aprumados: vestidos floridos, camisas engomadas, cabelos bem penteados. Quando saiam da igreja e juntinhos passavam no Campinho, sempre eram arreliados pelos meninos que ali brincavam; talvez por inveja, já que todo menino de rua andava descalço e aquele grupo arrumadinho contrastava com os pivetes. Naquela época o catolicismo romano era preferido pela maioria das pessoas, embora sincretismo houvesse, e na rua a religião pouco importasse, havia certo código de honra de que quem a mãe do outro não falasse mal e não discutisse sobre religião, da turma já fazia parte. Bel ainda não entendia muito bem o porquê daquela segregação. Na família de Bel, que também era crente pentecostal protestante de outra denominação (no Brasil ainda não se usava o termo evangélico), não havia intolerância pelas diferenças de fé. Assim, conviviam socialmente guardando fielmente os preceitos da sua religião. ¹ Shalom (em hebraico )שָׁ לֹוםsignifica paz entre duas entidades (geralmente duas nações) ou a paz interior de um indivíduo. Também é utilizada como cumprimento dentro da comunidade judaica à semelhança do salaam árabe. Shalom aleikhem ( ; ֲעלֵי כֶּם שָׁ לֹוםliteralmente "a paz sobre vós"), é a expressão completa do uso de Shalom quando cumprimento, e é cognato ao árabe as-Salamu Aleikum. A resposta a esta expressão é Aleikhem Shalom. http://pt.wikipedia.org/wiki/Shalom ²Em 31 de outubro de 1517, o teólogo Martinho Lutero (1483-1586) pregou na porta principal da igreja e da Universidade de Wittenberg, no nordeste da Alemanha, suas célebres "95 Teses", texto deflagrador do cisma cujas consequências se estendem até o presente. Católicos e evangélicos lembram o quinto centenário do começo da Reforma Protestante, movimento que dividiu o cristianismo ocidental. "Luther" biografia escrita por Matthieu Arnold, Universidade de Estrasburgo.
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Segregação / apartheid* em moradias da vila: maloca querida
Em ‘O Cortiço’, Aluísio de Azevedo explica o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico.
Na Alpina Vila não havia senzalas, mas outras formas de segregar se fazia pelos cortiços (casas de cômodos que serviam de habitação coletiva para a população pobre). As pessoas que ali habitavam se distinguiam daquelas outras pessoas que ali no cortiço nem pensavam em morar. Havia aglomeração de várias famílias pobres de trabalhadores, por raça ou origem ou por necessidade econômica naqueles ajuntamentos distintos: nordestinos ou nortistas, imigrantes italianos, russos, e até de ciganos. E tantos outros grupos que em comunidade sobreviviam. Isso tudo não impedia que as crianças que ali moravam se enturmassem nos grupinhos da turma do Campinho. Lá, as diferenças pessoais eram resolvidas além das crenças e das questões econômico-sociais. Após Castro Alves (14.3.1847 a 6.7.1871) e seu O Navio Negreiro, e Lima Barreto (13.5.1881 a 1.11.1922) em sua luta contra o preconceito e a discriminação, num Brasil de ‘Saudosa Maloca’ (Adoniran Barbosa)¹, o Joca falou: "Deus dá o frio conforme o cobertor…” (Demônios da Garoa). Mandela2 se aqui houvesse nascido ou mesmo Luther King³ ou ainda Gandhi, seriam como Bel - mais um menino nativo da alpina vila livre a perambular no Morrinho ou a brincar no Campinho, segregado ou não.
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O Futebol explica o Brasil: Copa do Mundo FIFA de 1950: Uruguai vence o Brasil e conquista mundial. Conhecido como “Maracanazzo”, o dia 16 de julho de 1950 ficou marcado como um dos maiores vexames do futebol brasileiro. Apontado como favorito, o Brasil precisava apenas de um empate contra o Uruguai para conquistar o título. Chegou a abrir o placar com Friaça, mas levou a virada. A partida terminou em 2 a 1. O futebol é pura construção histórica do país; se lido corretamente, consegue explicar o Brasil (…)4. Noutra comparação, o futebol é um “fármacon” 5, poção que pode curar ou matar. O que é veneno para um torna-se remédio para outro. *o geógrafo Milton Santos um dos intelectuais mais importantes do Brasil o único fora do mundo anglosaxão a receber, em 1994, o prêmio Vautrin Lud, o "Nobel" da geografia, explicou a forma de apartheid à brasileira: não era possível esconder a existência de diferenças sociais, econômicas estruturais e seculares. ¹João Rubinato, nome artístico como Adoniran Barbosa (6.8.1910 a 23.11.1982), filho de imigrantes italianos foi um compositor, cantor, humorista e ator brasileiro; ficou conhecido nacionalmente como o pai do samba paulista: Samba do Arnesto, Trem das onze, Despejo na favela, Tiro ao Álvaro (Elis Regina), As mariposas. 2Nelson Rolihlahla Mandela (18.7.1918 a 5.12.2013), advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e Pai da Pátria da moderna nação sul-africana. ³Martin Luther King Jr. (15.1.1929 a 4.4.1968) foi um pastor protestante e ativista político estadunidense. Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e no mundo, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo. Seus esforços levaram à Marcha sobre Washington de 1963, onde ele fez seu discurso "I Have a Dream". Em 14 de outubro de 1964 King recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo combate à desigualdade racial através da não violência. 4O Futebol explica o Brasil. Marcos Guterman, Edit. Contexto. 5Veneno remédio – o futebol e o Brasil. J.M. Wisnik . Edit. Companhia das Letras.
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28 Estrelas de cinema, a céu aberto Promovidas pela Igreja Católica central da Flor do Morro, as procissões de fiéis e demais curiosos circundava a alpina vila ao som de seu coro litúrgico em longas filas trazendo consigo velas envoltas em papel de seda, acesas iluminavam o caminho de chão batido. As trevas eram assim vencidas e dissipadas por um cordão angelical e iluminado. O cortejo, descendo a Avenida Central, culminava no espaço nobre da molecada, o famigerado Campinho: clareira a céu aberto, a extensão de laboriosa conquista das turmas afiliadas ao Morrinho. O espaço restrito da turma havia sido transformado em uma espécie de drive-in onde eram projetadas e improvisadas na parede da ‘Farmácia do seu João’ cenas da Paixão de Cristo, no formato seriado (muito comum naquela época). Assim, durante as noites da semana da Páscoa todos ali reunidos poderiam assistir ao cinema, com as estrelas presentes a céu aberto. O espaço de lazer da garotada agora servia ao entretenimento educativo-religioso da catequização. Ali, respeitosamente, todos se comportavam em comunhão. Além de aprenderem os rudimentos da vida de Nosso Senhor, as crianças acabavam por tornarse inveterado cinemeiro em formação. A bem da verdade, foi nesse cinema ecumênico a céu aberto que muitos pimpolhos viram bem de perto pela primeira vez uma ampliada percepção de Cristo: sua paixão e crucificação. Seu sofrimento e sua compaixão. No cinema iniciada, logo a meninada frequentava as matinês de domingo. Em tremenda algazarra até o filme começar, as sessões de cinema faziam a criançada delirar. Os cinemas da época, no bairro da alpina vila: Cine Caiçara e Cine Dom Bosco eram o que de melhor havia. Próximos, em São Caetano, outros mais favorecidos: os cinemas Max, Vitória e o Cine Lido. Projetavam filmes de índios e caubóis, chanchadas brasileiras e mexicanas com Cantinflas1… e o incrível Carlitos (Chaplin). Entretanto, para quem não era privilegiado, pois dinheiro ou televisão não tinha, ia para a casa do vizinho e agachado no assoalho assistia Tarzan2 ou o Circo do Arrelia3.
Um falso peru a gorgolejar Numa noite, lá o Bel estava no Cine Caiçara aonde seus irmãos Euclydes e Miguel trabalhavam, visto que o povo fora convidado para assistir de graça “O Peru que fala”. Aguardando na bonbonnière a projeção do filme anunciado, de repente Bel viu tamanha movimentação e incontido burburinho no palco e na plateia ao lado: a tela do cinema nada projetava, pois havia um homem que muito gracejava; e quanto mais falava mais a plateia dava risadas… Era o tal de Silvio Santos4, o dito famoso “Perú que fala”. Com tamanha decepção por não assistir a projeção de filme tão esperada, Bel, desiludido, foi direto para casa e se recusou participar daquela fala empolada. Já em casa, foi à sua mãe perguntar: - Qual a graça que havia em escutar um falso ‘peru’ gorgolejar!?
1Cantinflas:
Mario Moreno, o célebre comediante mexicano dos anos 1940 e 50, astro premiado de “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1956). 2Jim das Selvas: Johnny Weissmuller (2.6.1904 a 20.1.1984), cinco vezes campeão olímpico de natação. 3Waldemar Seyssel, mais conhecido como Arrelia (31.12.1905 a 23.5.2005) foi um ator, humorista e palhaço brasileiro. As matinês do "Cirquinho do Arrelia" da TV Record (de 1955 a 1966) fizeram parte do cotidiano da família paulistana. 4Em início de carreira conhecido como “O Peru que fala”, Silvio Santos fazia shows em circos e cinemas e animava a plateia ao apresentar os artistas. Foi assim que nasceu o Silvio Santos animador.
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Permuta de Mr. Atlas por cinema mudo Não era um cineclube, nem ao menos Bel imaginava-se cineasta, mas no cine rústico e caseiro ali montado com o projetor do Cuquinha, filme de curtíssima duração projetava. Uma fita cinematográfica de bitola 8 mm, na parede projetada, esse era nosso cinema em sessão improvisada. A fita circular em uma pistola (revólver-projetor) era montada, e acionada pelo gatilho, a imagem na tela-de-lençol-improvisado projetava. Lá nos fundos em um cômodo da casa do Cosmo para animar a meninada. Sem cobrar entrada ou cachê para os meninos e meninas, exibia-se o filme “A invasão das formigas”. Em arranjo de amigos, embora depois ele tenha desistido, o projetor aqui citado foi pelo Bel adquirido em troca da coleção de livros de fisiculturismo do Charles Atlas 5, então muito requisitado! Assim nascia uma carreira que no futuro se evidenciaria, no campo do cinema Super-8 e também da fotografia. Que juntamente com desenho em movimento e criação brotaria a técnica de produzir ilusão: ou melhor, animação.
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Atlas: Ângelo Siciliano, (30.10.1892 a 23.12.1972), foi um fisiculturista e o desenvolvedor de um método de exercícios isométricos para modelar o corpo. Comercializava apostilas seu método de exercícios. 6Sir Charles Spencer Chaplin, mais conhecido como Charlie Chaplin, foi o talentoso ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico (16.04.1889 a 25.12.1977). Chaplin foi um dos atores mais famosos da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da comédia pastelão. É bastante conhecido pelos seus filmes O Imigrante, O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, Um Rei em Nova Iorque e A Condessa de Hong Kong.
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29 Sessão de cinema encerrada com pizza e pedrada Dona Conceição já sabia que ao terminar a sessão de cinema Miguel reclamaria de barriga vazia. Como não havia banana, em pleno domingo algo melhor proveria: uma deliciosa pizza de mozzarella ou marguerita1. Com muita farinha de trigo espargida na mesa da cozinha, a massa esticada, queijo e tomate em fatias bem finas cortadas. Agora Conceição aguardava o forno esquentar. Bel ao seu lado apenas acompanhava, inexperiente, em nada podia ajudar, exceto o serviço de entrega em mão. O aroma invadira toda a cozinha, deleitante prazer antecipado pelo esmero culinário. Mesmo sem poder beliscar, às 16h² da tarde o primeiro pedaço de pizza Bel foi entregar embrulhado em papel manteiga com materno cuidado. Carregando na mão um bonito pedaço, quentinho, escorrendo o azeite por entre os dedos, olhando para frente Bel seguiu o caminho: na primeira quadra à direita ficava o Cine Caiçara, e a porta de emergência já fora liberada por onde se precipitava o tropel da molecada. Prestativo, com a pizza na mão Bel dirigiu-se sorrindo ao irmão. Miguel que nada falava com cara emburrada, desviou-se de inesperada pedrada, surgida do nada! Mas, havia um motivo para o trágico fato: lá no cinema Miguel havia com alguém brigado, mas na saída foi o Bel quem pagou o pato. Atingido na fronte esquerda a cabeça tonta a girar, o sangue jorrou sem esperar. Caído no chão em momento fatal, inconsciente, foi levado às pressas para o pronto socorro do hospital. Quando Bel acordou a noite avançava, a família ao redor e já em casa, de nada lembrava. Exceto o choque e o som da pancada e da luz de um redemoinho que o fizera apagar. Quem poderia imaginar que naquela sessão vespertina do Cine Caiçara uma pizza seria trocada por uma rude pedrada, em momento vespertino, quase sela o destino no crepúsculo fatal de um inocente menino. A partir de então Miguel tornar-se-ia seu anjo-amigo, amparando-o e defendendo-o de todo perigo; estava sempre ao seu lado cuidando do caçulo que por engano fora machucado. Superada a dor, retirados os pontos e cicatrizada a ferida, Bel aquela cena trágica guardaria por toda a sua vida e jamais esqueceria como num filme na mente rodado a cena congelaria. Talvez devesse apelar para a psicologia³ e tentar explicar o porquê mesmo agora ao saborear um pedaço de pizza lhe fazem ressuscitar as imagens de um rosto fraterno e de uma luz sublime em remoinho em perfeita harmonia. E do salmo 23 gravado em sua mente, que prometia: “do vale da sobra da morte ele não temeria”. Certamente, o Nosso Senhor não queria o Bel de volta, não naquele momento! E concedeu-lhe do sopro de vida certo prolongamento a fim de que Bel soubesse quão precioso é o cordeiro perdido para o pastor que não quer vê-lo ferido. Piedoso e misericordioso, Ele também por ter atendido a premente oração, de joelhos implorada por sua fiel serva: D. Conceição. Amém! Curiosidades: ¹A pizza margherita em 2015 completou 126 anos, documentado em uma carta do chefe de serviço de mesa da Real Casa Camillo Galli, que em junho de 1889, convocava o chef Raffaele Esposito da Pizzaria Brandi al Palazzo a preparar a sua famosa pizza para homenagear a rainha Margherita di Savoia durante sua visita à cidade de Nápoles - rainha consorte do Reino de Itália, esposa do rei Humberto I da Itália, o segundo soberano da Itália unificada. ²A invenção das horas como medida de duração do dia é obra dos antigos egípcios - que transmitiram o sistema aos gregos e romanos. O astrônomo Hiparco (190-120 a.C.) foi o primeiro a propor a divisão do dia em 24 horas idênticas, independentemente da estação do ano. ³Psicologia: ciência que trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e de suas interações com um ambiente físico e social.
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30 História para Boris Karloff dormir: A Múmia¹ “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.” Charlie Chaplin
Quem descia da Flor do Morro rumo ao Dom Bosco pela Rua Costa Barros, passava na frente do bar “Risca-faca“. Botequim de valentes incontestes, inflamados nas rusgas alcoólicas e armados nas mãos com peixeiras afiadas que provocavam corisco quando na calçada riscadas. Por vezes gente sanguinolenta no chão ali ficava. Desviando-se e esgueirando-se cautelosamente pela pracinha², no início da noite o menino ao Cine Dom Bosco chegava. O pouco dinheiro que trazia quase não dava para o ingresso de entrada, e menos ainda para um chocolate Laka³. Embora desejasse um Sonho de Valsa, de troco, um ‘Bis’ saboroso ali mesmo degustado. Precipitando-se em meio às trevas da sessão, quase cego e já meio afobado, o pimpolho sentou-se na fileira vazia da frente pois chegara atrasado. - Curioso título! Estranhamento e comoção. Pois o menino não viu o que no cartaz já estava anunciado: ‘A Múmia’ era filme de terror, além da sua faixa etária. Na escuridão da sala de cinema, pela força das trevas o menino fora dominado. A imagem da múmia paralisou por instantes aquele menino assustado. Impressionado, rompeu a trilha sonora com seu grito desesperado, rasgando o silencio daqueles espectadores atemorizados. Em desesperada carreira, atabalhoado saltou para fora do cinema, descendo alucinado a ladeira da Porto Sabaúna, aonde sua casa ficava. Além da imaginação o terror ainda não terminara, pois quanto mais corria suas calças curtas raspavam, e o som que produziam era o mesmo daquela múmia desengonçada. De sorte que no portão de casa finalmente chegou esbaforido e aterrado. Em casa, Bel, ou Abel -como era chamado, já tendo controlado a paúra prometera a si mesmo em confesso testemunho que da próxima vez só iria ver desenho animado.
¹A Múmia é um filme de terror de 1932, o primeiro a tratar desse tema e depois retomado pelo cinema em diversas produções, dirigido por Karl Freund, estrelando Boris Karloff como o príncipe do Egipto. (Google) ²Antiga pracinha, atualmente, a área pública é designada Praça Belchior de Borba. ³Laka, da Lacta, lançado em 1962 foi o primeiro chocolate branco do Brasil. Bis, lançado em 1942. Lacta: Criada em 1912, em São Paulo, pelo então cônsul suíço Achilles Isella, lançou chocolates como Diamante Negro, Sonho de Valsa, Bis, Confeti, Laka e Ouro Branco. Em 1996, foi vendida à americana Kraft Foods.
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31 Monstro da Lagoa Negra¹: a Bela e a Fera², da pauliceia O desconhecido sempre estimulou a imaginação do homem, e Bel, o pirralho solitário, já se esquecera do tremendo susto pregado pela múmia em perseguição ladeira abaixo extraída da sua fértil imaginação. Agora, atraído pela ficção cinematográfica que excitava sua coragem e intrepidez frente ao desconhecido, saboreando pipocas³ aventurou-se em uma nova investida: foi assistir ao filme Monstro da Lagoa Negra no Cine Caiçara. Confiado na presença dos seus irmãos que ali trabalhavam: o Gerente Euclydes, apelido Clidão, que antes fora empregado nas Lojas Assunção 4; e Miguel - o maquinista responsável por passar filmes (após seu desempenho na bólide perua). Atraída pelo curioso cartaz do filme na porta do cinema, em meio às pipocas e guloseimas, a criançada irrequieta e alvissareira assoviava para a sessão logo começar. O monstro se tornou uma figura popular e já não causava o susto medonho da múmia inusitada, além do que era matinê. Mas ao iniciar o filme, na sala escura o fascínio e a expectativa pela imagem que rodava agora silêncio exigia: olhos atentos, músculos tensos ouvia-se apenas o respirar. Como pode um monstro se apaixonar? Em meio ao tremor, o temor reverente, em face da fragilidade e a candura da bela (a mocinha) que desperta na fera sentimentos de êxtase, admiração e arrebatamento através dos sentidos. Curioso agora poder analisar o fascínio que a imagem pode provocar. Esse deslumbramento é despertado por forte sedução, sobretudo na mente das crianças. Elas que ainda não aprenderam a julgar, mas que acolhem a sensação de encanto frente à novidade da imagem na mente impressionável através dos fenômenos mentais ou emocionais. Assim, a realidade se desvanece cedendo lugar à criativa imaginação.
1Monstro
da Lagoa Negra, em filme preto e branco de 1954: expedição geológica ao Amazonas descobre evidências fossilizadas de ligações entre animais da terra e animais aquáticos, na forma de um esqueleto com dedos com membranas. O prof. Carl Maia e seu amigo David Reed, um ictiologista que trabalha em um Instituto de Biologia Marinha, empreendem uma expedição em busca de mais evidências do estranho animal; a expedição é composta ainda de Kay Lawrence, namorada de Reed. Quando chegam ao sítio arqueológico resolvem buscar rastros da criatura em um lugar chamado Lagoa Negra. quando Kay nada na lagoa, ela é atacada por uma misteriosa criatura anfíbia; exatamente o animal que procuram. ²A Bela e a Fera ou A Bela e o Monstro é um tradicional conto de fadas francês. Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, em 1740. Em francês La Belle et la Bête. ³Yoki: Foi fundada em 1960 pelo imigrante japonês Yoshizo Kitano e fabrica produtos como pipocas, temperos, chás, misturas para bolo, sobremesas, sopas e cereais. Em 2012, foi comprada pela americana General Mills, dona da marca de sorvetes Häagen-Dazs 4Vizinha da Casas Bahia fundada Samuel Klein (falecido em 20.11.2014), imigrante nascido na Polônia numa família judaica se estabeleceu em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde inaugurou sua primeira loja, em 1957. O nome Casas Bahia foi dado em homenagem aos nordestinos, seus principais fregueses.
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32 Parque Shangai¹, o Playcenter dos anos 1950 "A porta do Shangai era inebriante na opinião de qualquer menino, independentemente da sua origem. A música, os palhaços convidando todos a entrar, os balões, o algodão-doce, tudo fazia a cabeça girar como a tartaruga, um brinquedo que corria loucamente sobre um trilho em forma de montanha-russa", escreveu o jornalista Heródoto Barbeiro em seu livro "Meu Velho Centro" (ed. Boitempo), sobre memórias do local.
Na primeira vez que andou de trem-fantasma, Bel ficou aterrorizado. O medo pela Múmia no Cine Dom Bosco parecia pouco quando à noite em um carrinho barulhento chacoalhando pelo trilho avançava caverna adentro em curvas malucas; a completa escuridão tomava conta da alma daquele menino penado. Como se não bastasse o negrume inusitado, esqueletos humanos saltimbancos raspavam no corpo arrepiado da criança desesperada e terrivelmente assustada. Quando no passeio lúgubre a viagem fúnebre acabava, o alívio de retornar à atmosfera saudável bastava. Depois que o calafrio havia passado intrigante era olhar a montanha-russa à distância na sua majestosa figura de uma centopeia esquisita, construída em madeira. Levado pela euforia e entusiasmo da hora, lá Bel ia a mais uma aventura escabrosa. Arrastado até o píncaro do monumental engenho, o carrinho na íngreme descida solto descambava. E nas curvas horripilantes, quem lá embaixo chegasse tentava se conter fluindo na montanha tremulante. E no final da linha, a promessa que ali não mais iria. O assombro só era mais surpreendente no ‘brinquedo-Rotor’. Ligado quando fortemente girava, e na parede em círculo de tábuas o corpo colado arrepiado ficava suspenso grudado no ar. O chão descia, deixando os arrependidos brincantes como no espaço loucamente a girar. Depois da súbita parada, desnorteado o menino se precipitava na fila de outro brinquedo a fim de provar outra excitante aventura. O Parque Ibirapuera² Ao contrário do Shangai onde os aparelhos esdrúxulos eram terríveis brincar, Bel se sentia realmente feliz quando no Parque Ibirapuera ia passear em dia ensolarado nas tardes de domingo, no gramado aparado e no cintilante lago espiando a marrecacaneleira e o quiriquiri; petiscando algodão-doce ou saborosa pipoca doce ou salgada o ar aspirado era leve e puro. De lá se avistava o imponente Monumento às Bandeiras. Ali, Bel se sentia seguro! Surpreendente é perceber como os sentidos se apuram quando estamos ao ar livre onde os pássaros se põem a cantar, as pessoas caminhando sorriem à toa. O caminhante gentil cumprimenta, as crianças correm sem receio e sem limites. E os idosos contemplativos, auscultando os sons da natureza em um banco recostados, pareciam levitar. O tempo nesse mágico momento aparentava não findar!
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¹No cruzamento da rua da Mooca com a av. do Estado, na adjacência do parque D. Pedro 2º, funcionou, do início da década de 1940 a 1968, o Parque Shangai. Semelhante ao Playcenter para quem foi criança e adolescente de 1973 a 2012, o local era um celebrado ponto de encontro cujo auge se deu nos anos de 1950. Em 1968, o parque foi desativado. "Três arrojados viadutos em formato de cruz vão surgir na região do Glicério", noticiava a Folha no dia 13 de novembro daquele ano. A legenda da foto definia: "O velho parque Shangai está sendo removido: é o progresso". Folha, em 12.10.2014. ²No quadricentenário da cidade de São Paulo, em 21 de agosto de 1954 foi inaugurado o Parque Ibirapuera, com atrações emprestadas pelo Shangai, que era um parque paulistano que fazia a sensação das crianças da época. Em 1965 foi inaugurado o Planetário, a Bienal de Artes.
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33 Enseada de São Sebastião: nunca mais, camarão! Esta não é uma história de pescadores. Aliás, é sim! Embora não valorize peixes pescados, conta sobre as rudes condições a que se sujeitou um jovem recém-entrado na adolescência, arrastado por fanáticos pescadores amadores para Ilha Bela e São Sebastião (litoral Norte de São Paulo), quando ainda em estado virgem: ele e a bela dita região. O resultado nunca é o esperado quando se faz tudo de modo improvisado, levado pela emoção. Nada foi programado, tudo aconteceu ao acaso, arranjado ao final do dia, improvisando tudo o que se podia. Objetivo final traçado, parco dinheiro ajuntado, petrechos amontoados no chão. José ao volante da sua nobre condução (velha Kombi VW). Euclydes, levado pelo entusiasmo de poder pescar um peixe inusitado, caçoava de Miguel nato pescador de profissão. Espanhol, único convidado, trabalhava na VW com o João, que também acompanhava a excursão. O raro responsável ali, Antônio o pai de todos, por sua maioridade intentava orientar a arrebatada mocidade. O representante da menoridade, mal saído da puberdade, era o caçulo Bel, um moço complacente tomado pelo arrebatamento, mal sabia o que viria pela frente. Decididos, pegaram a estrada e para o Rio (RJ) a Kombi foi direcionada. Na Via Dutra, já em São José dos Campos, os aventureiros entraram na Rodovia dos Tamoios. Seguiram rumo ao litoral. Embora entusiasmados, quase ao final da viagem precisando tirar água do joelho, pararam em Paraibuna. O cemitério era a porta de entrada do vilarejo, onde uma placa se avistava com uma frase recepcionando os visitantes: -“Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Curiosa e talvez maldosa essa frase do letreiro de um cemitério brasileiro. -Vocês não acham!? Ao menos para os vivos peregrinos que por ali passavam esfomeados, naquela região serrana onde apenas se encontrava doces variados das bananas que por ali abundavam, aquela frase soava como um convite inesperado e inapropriado. Reanimados e ávidos para alcançar o destino, retomaram na serra o caminho. A estrada de terra com a chuva impiedosa se tornou derrapante e custosa, e para quem almejava chegar, difícil de avançar. O farol da Kombi nas curvas da serra mal permitia enxergar, e derrapando na estrada, nas valas atolada a Kombi finalmente estancou. Em meio à neblina, no negrume ermo da Serra do Mar1, parados na estrada eles puderam avistar um DKW empinado, no morro jogado, sem ninguém pra contar. - “E agora, José?… a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?” 2. Noite já avançada, nevoeiro, a Kombi depois de empurrada seguiu até chegar a Enseada (de São Sebastião). Rodando aquelas paragens, por não haver hospedagem dormiram na única instalação, oferecida por irmãos da Congregação (Cristã no Brasil). Os bancos da igreja foram virados e ajuntados, feltros estendidos como colchão. E os pernilongos (borrachudos) por cobertura, sem lençol, aplicavam doídas mordeduras. Na noite anterior em que havia chegado, Bel com estômago vazio nada havia comido ou bebido. Pela manhã na Enseada como o desjejum inexistia, nem ao menos um pãozinho ou cafezinho, Bel cirandou por ali e encontrou na caiçara um pescador que viera de coleta na areia de berbigões (moluscos) e pesca de camarões com arrastão para serem vendidos aos restaurantes de Ilha Bela. O pescador compadecido deu-lhe punhado de camarão cozido. E Bel esfomeado e desidratado no assoalho da Kombi comeu a porção; impulsivo e sem cerimônia mal a casca fora retirada. Como não aplacava a fome nas muitas horas em jejum, voltou à nova porção (de camarão), até ser saciado. Ao final do dia, quando a noite precipitava, um princípio de congestão no fígado provocou no corpo uma vermelhidão; depois, ânsia e vômitos em profusão... Na manhã do terceiro dia, quando todos já haviam se adaptado aos ataques da mosquitada embora desesperançados pela pesca escassa além da sofreguidão da ração improvisada, o Clidão (Euclydes) fora ferroado por um baiacu3 por ele mesmo fisgado; 50
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ao tentar sacar do anzol dentro da água, na praia dos rochedos em São Sebastião. Tendo as horas passadas, ele ficara febril pela insolação exagerada, e em consequência da aferroada. Vendo os dois enfermos (Bel e Clidão), e uma decisão a tomar, na falta de recursos médicos e sem remédio, a trupe resolveu para casa voltar. O retorno seria custoso e também penoso. Deixando a Enseada, a Kombi na serra íngreme se arrastava e dentro dela o cansaço e o desânimo de pescadores frustrados. Ao ver os dois combalidos por todo o dano sofrido, e como não havia remédio Antônio procurava animá-los com palavras para confortá-los. Finalmente, à alpina vila chegaram. Subiram o Morrinho e desceram o Campinho, em casa entraram. Como quase nada tivessem pescado, na pia da cozinha D. Conceição encontrou quilos de camarão ali espalhados, que os amadores pescadores em São Sebastião haviam comprado. Bel que contraíra uma infecção alimentar, ao passar pela cozinha sentindo o cheiro do crustáceo a ânsia de vômito sentia voltar. E por mais de dez anos não pôde qualquer camarão experimentar. A partir de então na casa do Clidão, aos domingos Bel passou a almoçar. Lá não servia camarão porque na cozinha da ‘mamma’ a amável cunhada Antônia Neusa sempre o aguardava com uma suculenta macarronada. Neusa fora educada por sua mãe na típica culinária italiana e, a bem da verdade, o inigualável ‘gnocco’ (nhoque) era a sua especialidade. Todos comiam e se regozijavam: - Ah, que saudade! Da Neusa e do Clidão. Atraído pela beleza da paisagem paradisíaca da Enseada e de São Sebastião e desconcertado na lembrança pela excentricidade dos momentos ali passados, depois Bel fez várias viagens a Ilha Bela e região, sem jamais voltar a degustar camarão.
2
3
1A
Serra do Mar é uma cadeia montanhosa do relevo brasileiro que se estende por aproximadamente 1.500 quilômetros ao longo do litoral leste/sul, indo desde o estado do Rio de Janeiro até o norte do estado de Santa Catarina. Devido seu valor geológico, a riqueza de sua fauna e flora a Serra do Mar foi tombada pelo Condephaat e foi incluído no Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo em 6 de junho de 1985. 2“José”. Carlos Drummond de Andrade (31.10.1902 a 17.8.1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. 3baiacu. Todos os anos, cerca de cinco pessoas morrem – e muitas outras são internadas – por causa do veneno de um dos peixes mais controversos da culinária mundial: o baiacu (ou Fugu, aquele mesmo que pode se inflar para espantar os inimigos). As mortes acontecem porque o peixe (considerado o segundo vertebrado mais venenoso do mundo) pode liberar Tetrodotoxina (uma neurotoxina 1.200 vezes mais mortal que o cianeto). http://www.tecmundo.com.br/biologia
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34 Ouviram do Ipiranga numa vil calçada... No entorno do Monumento¹, as tecelagens abundavam no Ipiranga de fábricas vivas na São Paulo no seu Quadricentenário. Na celebração dessa data, saltavam dos aviões planando no céu saquinhos de café em pequenos paraquedas agitados, com miríades de triângulos metálicos com as cores da bandeira paulista cintilando pelo ar. As crianças felizes do bairro, afoitas com braços estirados disputavam frenéticas o presente celeste inusitado. Naquela época os abastados compravam no Mappin (19131999) e no Shopping Iguatemi (1966), frequentavam restaurantes tais como o Terraço Itália² (1965-); e voavam pelo Brasil nas asas da Pan Air (1930-1965) de Mário W. Simonsen*, e nas companhias aéreas Vasp (1933-2005) e Varig (1927–2006). No Grito da Independência, D. Pedro nem imaginava que um dia às margens do Ipiranga bem próximo do Museu Paulista³ - que no futuro distante naquele lugar seria instalado, uma donzela humilde e bela ali mesmo seria humilhada. Consequentemente, esta história, fidedigna por seus personagens testemunhada, é a da filha de imigrantes italianos que na tecelagem trabalhava, e voltando do seu almoço pelos fundos das fábricas passava; na mesma calçada que em sesta de dia ensolarado os operários se espraiavam. Entre eles um energúmeno que diariamente lhe dirigia palavras impróprias para uma donzela, acompanhadas de gestos obscenos. Humilhada e constrangida, a ingênua mocinha nada falava, cabisbaixa em contido soluço sua sina acatava. Cotidianamente Antônia Neusa (foto na página 59: nos jardins do Museu Ipiranga) por ali passava, e a vil cena se repetia visto que não havia desvio para a sua caminhada. Euclydes - seu namorado, desses fatos nada sabia até que notando uma lágrima no rosto daquela mocinha debutante (aos 15 anos) insistiu que ela contasse sua oculta ladainha. Agora, sabendo do fato não tardou em tomar uma rígida atitude ao ver revelada a infame sina que passara sua sensível amada. Na academia de boxe onde frequentemente treinava, Euclydes encontrou enérgica acolhida ao revelar o imbróglio aos seus pares – uma turma da pesada, do Brás, Bexiga e Barra Funda4. No dia seguinte, a trupe agitada no Ipiranga foi reunida no bar da esquina próximo por onde a donzela passava na hora do almoço – aonde a cena diária que ali se repetiria. Sem saber de nada e inocente da tocaia armada, Antônia Neusa naquele momento por ali retornava. Ao ver passar a mocinha, o desbocado energúmeno ignorando a patota na esquina saltou confiado na direção da menina. Mas antes que sua verborreia soltasse, seus dentes pularam igual pipoca estourada pelo murro do pugilista que na emboscada aguardava. Semelhante a um cão no sio, vendo seus colegas de trabalho acuados pela turma do soco-inglês, correu com eles para dentro e o portão foi rapidamente fechado. Depois disso, quando a donzela passava naquela famigerada calçada, os cabras medonhos se recolhiam dentro da fábrica e as portas logo eram cerradas. Desse modo, às margens do Ipiranga, onde foi ouvido um grito de liberdade, justiça foi aplicada. ¹O Monumento à Independência, para celebrar o Centenário da Independência do Brasil, foi construído às margens do riacho Ipiranga, local onde Dom Pedro I teria proclamado a Independência em 1822. ²Na primeira metade do século XX, São Paulo passou por intenso desenvolvimento industrial e urbano, e, ao tornar-se a maior cidade do país, presenciou um grande processo de urbanização e modernização, o que foi fundamental para a consolidação de grandes projetos arquitetônicos nas décadas seguintes, como o Edifício Itália(1965) e seu vizinho Copan (1951), o Parque do Ibirapuera (1954) e o MASP (1968). ³O Museu Paulista da Universidade de São Paulo, conhecido também como Museu do Ipiranga, foi inaugurado em 7 de setembro de 1895 como museu de História Natural e marco representativo da Independência, da História do Brasil e Paulista. Está localizado no Bairro do Ipiranga na cidade de São Paulo, sendo parte do conjunto arquitetônico do Parque da Independência. http://www.mp.usp.br/omuseu/historia-do-museu-paulista 4Brás, Bexiga e Barra Funda: livro de Antônio de Alcântara Machado cronista de costumes que retrata os imigrantes que vinham para os bairros que dão nome ao livro, seus dissabores, tristezas, esperanças... *Mário Wallace Simonsen (21.2.1909 a 24.3.1965) empresário brasileiro e um dos homens mais influentes e poderosos do Brasil em sua época. Criador da Panair do Brasil e grande defensor da indústria nacional.
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35 Índia negra e poderosa Índia poderosa, negra, metálica e voluptuosa nas curvas, que nas suas mil cilindradas por onde passava inveja e desejo suscitava. Mas, naquela época (1957) na sua idade avançada Índia mais parecia o que hoje no cinema é mostrado por Walter Salles (2004) no filme Diário de Motocicleta, dublado: ‘Em 1952, o futuro líder da Revolução Cubana Che Guevara era um jovem estudante de medicina. Ele e seu amigo Alberto Granado viajam pela América do Sul em uma velha moto, arranjando caronas e fazendo longas caminhadas’ (Sinopse do filme)*. “Índia seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar”. Assim a rapaziada eloquente entoava nas serestas paulistanas, de Cascatinha e Inhana no Jardim da Luz ou no Parque Trianon da Paulista. São Paulo quatrocentona, ‘terra da garoa’, nos tempos de Saudosa Maloca, do Samba¹ do Arnesto que morava no Braz de Adoniran Barbosa, de Altemar Dutra e de Nelson Gonçalves. José Alani, ou Inspetor, também era um primitivo revolucionário. Sua ousadia e originalidade destacavam sua personalidade. Queria vencer na vida, custasse o que custasse, porém sua dignidade manteria e a exemplar integridade. Já Euclydes, o irmão artista (aquele da donzela do Ipiranga, Cap. 34), elegante e afeiçoado, ex-pugilista se espelhava em Eder Jofre e Cassius Clay (campeão em 1964), não ousava revolucionar. Euclydes companheiro fiel, abençoado pela voz e talento artístico, nasceu para cantar. A vida juntou os dois paladinos em momento ordinário viajando com a Índia aventuras inesperadas, aproveitando a liberdade, pois não dependiam de salário. Em seguida numa Kombi2 VW ‘Pão Pullman’, que lhes servia de morada. Pela Argentina se aventuraram onde seu pai Antônio na época de Libertad Lamarque morara, pois nascera em Buenos Aires na terra de Che Guevara³. Mas por lá não encontraram o revolucionário famigerado. Nas milongas arruaceiras ao violão dedilhado entoaram Caminito, Madreselva, Mano a Mano... aonde o tango fora criado. Na cidade de ‘Mi Buenos Aires Querido’, imitando a Gardel com todo sotaque paterno ali adequado. Todavia, a melancólica cadência do tango portenho pela muchachada embalado logo suscitou 'recuerdos' de entes queridos deixados. Assim, ao som de Adiós Muchachos empreenderam a retirada, saudosos ansiando por sua terra querida, logo retornaram. Abandonando a vida boêmia, empreendedores se transformaram: um bemsucedido industrial do calçado, e o outro seu manager devotado. Constituíram família e venceram na vida ao seu modo e ao que Deus permitia. 'De los recuerdos' dos muchachos que bem pouco aqui ficou gravado muito mais e ricamente poder-se-ia ter contado. Dizem que recordar é viver, pois é! A vida continua para aqueles que por aqui ficaram. < Eder Jofre: Ex-pugilista brasileiro, é considerado por especialistas internacionais como o maior pesogalo do boxe na era moderna, tendo ficado conhecido pelo apelido "Galinho de Ouro”. Eder conseguiu manter o seu título mundial até 1965, ganhando todas as lutas por nocaute. Rose Volante: Primeira campeã mundial do boxe brasileiro, título da categoria leve (até 61 kg) da OMB (Organização Mundial de Boxe) em dezembro de 2017.
> ¹Samba paulistano agora é patrimônio da cidade: a origem do samba paulistano se deu em Pirapora do Bom Jesus, na Grande São Paulo, no final do século 19. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/11/13 ²A VW Kombi foi o primeiro veículo fabricado pela Volkswagen no Brasil, e também o primeiro feito pela empresa fora da Alemanha. A produção nacional começou em 1957. A Kombi deixou de ser produzida no fim do mês de dezembro de 2013; modelo mantém recorde de carro mais longevo já feito no Brasil. *Alberto Granado: livro “El Che” 1958: Sierra Maestra... Revolucionários... Fidel Castro... Cuba.
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36 Marcelino, pão e vinho¹. Miguel, pão e banana ‘Se tentardes atingir minha alta prosopopeia, dar-vos-ei tremenda cajadada no píncaro da vossa sinagoga, que reduzirei vossa massa encefálica em minúsculas partículas inorgânicas’ Fala de enfrentamento…
Meninice famigerada Era um menino travesso, adorava futebol e pão com banana. Fraquejando na tentação, não resistiu e furtou um cacho de bananas verdes na quitanda. Incauto, pela ingenuidade do impulso, correu arrastando o fruto apropriado à vista do português, que em seguida lhe tomou o cacho. Seu pai ao chegar do trabalho informado do ato infame, depois de severa repreensão, comprou uma dúzia de vistosas bananas maduras e presenteou-as ao menino de dez anos para que matasse sua compulsão pelo fruto. Seus olhos brilhavam em poder realizar, sozinho, tal façanha. Uma, duas, três bananas, engolidas prazerosamente. Porém, no mesmo instante a compulsão por bananas tornouse aversão. Se não fosse a amorosa intervenção de D. Conceição, ele sucumbiria enfermo. Miguel aprendeu uma dura lição; mas, jamais deixou de apreciar o fruto cobiçado. Puberdade destemida A ripa da cerca havia sido arrancada com furor pelo vizinho Antó (de família italiana recém-aportada em São Paulo), que cismou e sem dó cravou o prego com violência no píncaro da sinagoga do Miguel (irmão do Bel). Este logo acorreu à farmácia do Sr. João segurando a ripa com o prego enferrujado que penetrara o rígido gólgota. Removido o prego e levado ao Pronto Socorro, feitos os curativos... Lá estava ele de volta às ruas todo prosa nos seus doze anos incompletos. De boa índole, Miguel não jurou vingança. Ele e Antó logo se tornaram amigos, rindo de tudo aquilo! Coisas de criança. Adolescência deslumbrada Miguel perdia noção do tempo como goleiro arrojado nas partidas de futebol: domingo pela manhã defendia uma equipe, o Estrela Vermelha; à tarde, também goleiro do Estrela de Prata. Não almoçava nem comia entre uma partida e outra. E lá ia Bel, a mando de D. Conceição, com um bico de filão (de pão) embebido com farto café preto, quentinho, consumido ali mesmo sob a trave do gol do sedento arqueiro juvenil.
37 Pescador de integridade Nas águas da Represa Billings², próximo ao Canal Schmidt em São Bernardo do Campo, Antônio, forneiro da Aço Paulista, em raro dia de folga pescava com três de seus seis filhos. Em cerimonial silencioso, atentos aos sons e movimentos da água límpida, respeitando o código do pescador consciente: reverência à natureza. O caçulo, pouco atento ao frenesi da pesca e atraído pelo canto das aves perambulava em busca de ninho de pássaros silvestres e de flores exóticas. Euclydes, o irmão maior, naquele momento especializava-se junto ao pai na maneira correta de fisgar lambaris (dos graúdos que por lá abundavam): deveriam ser fisgados à flor-d'água em movimento contínuo da linha cuja isca flutuava... O irmão do meio, Miguel, profundamente concentrado em sua profissão avançava dentro d’água ‘em direção ao infinito e ao além’; desatento ao perigo da profundeza das águas a meio peito jogava-se de corpo e alma em busca do prêmio tão veemente desejado... ¹Marcelino, pan y vino é um filme espanhol de 1955 baseado no famoso livro de mesmo nome escrito por José María Sánchez Silva. ²Localizada na região metropolitana de São Paulo, a antiga Represa Rio Grande foi renomeada em 12.05.1949 em homenagem ao engenheiro americano Asa K. White Billings (8.2.1876 a 3.11.1949).
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Portanto, o dia não poderia terminar diferente: Euclydes, o artista, orgulhoso da fieira repleta de bons lambaris; Antônio, o argentino, modesto erguia seu surrado samburá repleto de bagres e carpas; Bel, o caçulo, com desprendimento e estômago vazio, exalava os aromas da relva silvestre. - E o Miguel? Este sim! Ostentava com um sorriso maroto o maior peixe acará fisgado por eles em todos os tempos naquelas paragens. E por toda a sua vida destacarse-ia como exímio pescador de peixes que era de fato, e, principalmente, pela confiança e amizade de pessoas privilegiadas que com ele conviveram.
38 O arcanjo Miguel em sua bólide perua Na extensa e larga Avenida Central, a mais importante do bairro (V. Alpina), em seu declive empoeirado, descendo da Flor do Morro com destino a São Caetano (do Sul), outrora circulava a inusitada ‘perua’ (ônibus de uma só porta com ‘frenteira’ de caminhão torpedo e carroceria acabada com chapas de madeira. Enfumaçada, barulhenta e pouco confortável), que depois do ponto de parada no cinema da vila atraía a frenética molecada, que grudava entretida na rabeira daquela charanga com mãos esquecidas no escapamento fervente e mesmo queimadas assim suportadas. Postado na calçada do Cine Caiçara, já em tempos modernos onde novos ônibus circulavam, Bel assistia à passagem de um ente tão esperado na janelinha do cobrador no ônibus em que trabalhava: Miguel em seu uniforme de gala, gravata impecável e quepe aprumado orgulhoso do seu digno trabalho e com um sorriso largo, estendeu-lhe a mão com uns trocados para a sessão de cinema "soirée": “Totó no Inferno”. Miguel assim despedia-se com igual sorriso angelical estampado; aquele irmãoamigo de Bel, que à semelhança do anjo bíblico, sempre pronto a lhe socorrer...
39 Histórias cruzadas por um pequeno polegar Franco era o irmão menor do intrépido Antó - aquele do prego cravado com a ripa arrancada, de que o Miguel já não lembrava quando no açougue fora empregado... E irmão da pequena e caçula Gemma, os quais da Itália haviam imigrado. Alguns anos se passaram e o Franco foi trabalhar naquela Avenida Central (Rua Barão de Tramandaí) empregado no mesmo açougue do Vermelho, o ruivo vigoroso que deixara o incauto menino a limpar o moedor elétrico de carne que emperrara pelos nervos e músculos que por ali passara. Com a mão estendida, premida pelo fosso profundo do triturador Franco procurava arrancar os restos incrustrados lá dentro do moedor. Num gesto inocente da caçula, a pequena bambina biondina de cachos dourados: Gemma acionou o botão reluzente da máquina fantástica que produzia curiosamente carne moída do outro lado! O som estridente causou pavoroso alvoroço. E aos gritos, Franco a sua mão direita instintivamente retirava daquela máquina sanguinária; mas seu dedo indicador, arrancado, ali ficara. Pelo pai apoiado, braço dobrado, com a mão enfaixada repleta de sangue e vazia de um dedo, Franco para o Pronto Socorro imediatamente foi levado. Passada a sofrida quarentena de compulsório isolamento pelo despontado dedo estimado, Franco logo na rua aportou num misto de vergonha e tenacidade como aquele que agora poderia contar sua história de verdade. Para o italiano Franco de coragem a patota deu um inusitado apelido: ‘Toquinho’, que em nada lembra o músico da Aquarela; mas tão-somente para velar o toco do dedo que de consolo lhe restou.
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40 As pessoas já eram o que deveriam ser Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. Artigo I - Declaração Universal Dos Direitos Humanos¹
João Antônio, o bonachão! No Verão de 1948, o alarido tomou conta da Rua Oito e Dona Conceição já presumindo o ocorrido e enxugando as mãos no avental surrado e clamando ajuda do Nosso Senhor, precipitou-se na direção do portão de casa. E constatou o acinte: - Outra vez! Apesar de sua incontestável natureza compassiva e de seu real amor ao próximo, ela não podia mais permitir ver seu pimpolho apanhar do vizinho da frente. Era inaceitável! Como alguém corpulento tão provido pela mãe natureza sendo muito mais forte do que qualquer outro na vizinhança poderia aceitar cabisbaixo, sem reação, a infâmia sofrida (bullying²)? O coração premente exigiu daquela mãe uma mudança de atitude: - Pare meu filho! Volte lá e desconte o que você recebeu! No instantâneo impulso de subordinação filial, João, cândido ainda em seus sete anos, não pensou, apenas obedeceu. Voltou-se para o Neno - o menino maior que o perseguia depois da agressão e zombaria, e fulminou o seu opressor, que tombou de maduro e atônito pela reação inesperada... Provido por Deus de um puro e bom coração, João, o bonachão (foto na página 59), dali em diante, respeitado por todos e principalmente pelo seu mais novo amigo - o Neno seu algoz, autoestima restabelecida tornar-se-ia nos anos seguintes o que antes meigo a natureza já lhe provia: um homem de índole e caráter inato, mas de um temperamento condolente, que vive acima das circunstâncias mutáveis da vida exterior. Superior à sua avantajada compleição ele passaria a ser o que de fato já era antes mesmo de sua submissão filial: feliz e bonachão, em seu comportamento de bom-tom. Na mocidade tornou-se excelente dançarino: na fineza do trato, com gesto terno e esmerado, bailava no Club Athletico Paulistano sempre bem acompanhado. Embora recatado e comedido no proceder ao estilo de Gandhi³ (2.10.1869 a 30.1.1948), tinha prazer em viver, e transferia sua alegria a todos que desfrutavam sua modesta companhia. Já na sua vida adulta, João formou-se e foi trabalhar como inspetor de qualidade da Volkswagen e na Mercedes-Benz, mais tarde. E por onde passou muita amizade amealhou sempre com humildade e espírito de confraternidade, enriquecendo em valor suas relações humanas com qualidade. Casado com a mineira Isabel, João, o bonachão, sempre mereceu respeito e admiração. Do seu corpo avantajado nunca tirou vantagens. Ao contrário, esteve sempre ao lado do mais fraco, dos desfavorecidos, das minorias relegadas, do colega cego e do surdo-mudo com quem bem se comunicava. Enfim, junto aos humildes que mereciam como ele um lugar ao sol, com dignidade! Bel recebeu de João Antônio grande incentivo para os estudos e exemplo de determinação, sem esquecer o lado humanitário. No qual a consciência das próprias limitações não é uma fraqueza, mas um reconhecimento de humildade fraternal. ¹A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. As ideias e valores dos direitos humanos são traçadas através da história antiga e das crenças religiosas e culturais ao redor do mundo. O primeiro registro de uma declaração dos direitos humanos foi o cilindro de Ciro, escrito por Ciro, o grande, rei da Pérsia, por volta de 539 a.C. Filósofos europeus da época do Iluminismo desenvolveram teorias da lei natural que influenciaram a adoção de documentos como a Declaração de Direitos de 1689 da Inglaterra, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 da França e a Carta de Direitos de 1791 dos Estados Unidos. ²Bullying: um anglicismo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. ³Mahatma Gandhi "A Grande Alma" foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e o maior defensor do Satyagraha (princípio da não agressão, forma não violenta de protesto) um meio de revolução.
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41 O quintal da Tita, onde todos brincavam Sábado sagrado: dia de limpeza, à noite a igreja Nossa querida Tita aos 14 anos e meio passou por uma prova de inusitado infortúnio, além do que se poderia esperar. Em verdade, um milagre! O princípio da história vai além da memória, mas vamos tentar retomar: Como sempre fazia, ajudava sua mãe em tudo o que podia. Lavava, passava, e a louça da pia enxugava e guardava. E tudinho em ordem deixava. Aos sábados, o quintal onde todos brincavam, depois da varrição esmerada, exigia que fosse lavado. Tita e Antônia Neusa, sua cunhada (foto da página 59, juntamente com Bel e Miguel), se empenhavam dedicadas ao seu compromisso sagrado: na mão um balde na outra a vassoura e o rodo com pano enrolado. Com muita água fria jorrada aspergindo muita creolina e produtos Cruz Azul, esfrega de cá, esfrega de lá, mais água e sabão e volta a esfregar. Bem antes do meio-dia, D. Conceição vendo o esforço das duas na lavagem do chão ofereceu café com leite morninho que Neuza aceitou rapidinho enquanto penteava os longos cabelos. De repente, tendo os pés molhados na água fria do chão com sabão, em seu corpo se manifestou uma abrupta comoção. Alguém gritou: - A Tita caiu! Outrem registrou: - Seu rosto está pálido - Ela desmaiou! Como tudo na vida tem hora e dia marcado, aconteceu com a Tita o inesperado: seus olhos viraram, sua língua e boca entortaram. Ela foi levada ao sofá da sala e aguardara socorro, que em seguida chegou. Atendida pelo Dr. Zambon que seu pai urgente havia buscado em São Caetano do Sul, logo veio a constatação: a querida Tita havia tido uma convulsão cerebral. Aplicada injeção de Gardenal, depois ungida pelos irmãos Catapani e Olívio, aos poucos a mocinha já se reanimava. E muitas orações precisou a fim de reverter seu estado de saúde. Mas, com a graça de Deus ela sarou. E no mês seguinte, 11 de março de 1962, Tita juntamente com Antônia Neusa sua cunhada, foram imersas nas Santas Águas. E assim foram batizadas em nome do Senhor Jesus.
A união faz a força (e açúcar, também) O chão da sala de estar de um piso liso assoalhado, a Tita encerava com cera Parquetina. Mas, na hora do brilho não era ela quem dava: era o Miguel (seu irmão maior), com a ajuda do Bel (o caçulo). Como a enceradeira de casa ainda não existia, a força dos músculos a substituía. O esfregão de ferro fundido já era pesado e com o Bel encimado, pelo Miguel arrastado, o piso logo se transformava em um lago de espelho encerado. Assim, pela força da união o resultado refletia no chão. No quintal ensolarado, Bel passava muito bem, obrigado! Isso acontecia quando as meninas ali brincavam de casinha. Em companhia da Nininha filha do seu Niquim, irmã do Suco (João) e do Quinho (Luiz); e a Irene irmã de Son, Milton, Giba e Sérgio. Tita ao servir o prato do dia, sempre convidava o Bel para provar a comidinha; e a sobremesa: banana nanica cortada em rodelinhas arrumadas e açúcar União em cima espalhado com pó de canela, que o pratinho de plástico ali decorava. Às vezes um leite condensado Moça pintava quando da lata sobrava, e quiçá D. Conceição deixava. A União faz o açúcar, mas era a Nestlé quem adoçava as brincadeiras.
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Esfregão
O trapezista desvalido Outrora se dizia que a “alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo”. Talvez porque os circos muitas alegrias traziam, e o palhaço só ria quando alguma desgraça produzia. Mas, o que mais prendia atenção de Bel sob a lona do circo itinerante de então, era ver o ciclista-equilibrista na corda bamba em manobras radicais. Ou mesmo o corajoso trapezista: em salto acrobático em pêndulo arriscado, agarrando a mão da mocinha em cambalhota. E ele de cabeça para baixo. Com essa ideia do trapezista, Bel principia seu curto aprendizado ensaísta. Agarrando com sua raquítica força o poderoso arame do varal (de roupa), solta o corpo em pêndulo como vira no circo. Energizado pelo entusiasmo em impulsos magníficos de vertiginosa ascensão, bate com os pés descalços na parede de cima da casa até atingir cada vez mais o beiral. Era tanta a impulsão até tocar o beiral, que o arame, que não era de circo nem fora instalado para isso afinal, rompeu de repente e o trapezista em perigosa descensão foi estatelar lá no chão, do quintal. Estático em grande aflição, paralisado e sem qualquer reação, exceto a dor do impacto na coluna dorsal e o desagradável formigamento pelo inesperado tombo no chão. Bel tenta por socorro gritar, mas sua voz não pôde soar e ficou ali por um tempo. Como ninguém acorreu, mesmo com seus nervos recolhidos em comoção, ele arrastouse chegando até a porta do seu quarto, deixado no chão um rastro de indignação. Recuperado da dor, escondendo o incidente ocorrido, a vergonha do inábil trapezista ninguém jamais teria sabido. Exceto as roupas no chão do quintal e o arame rompido na viga do varal, indícios de um inexplicável vendaval.
1 1Trapezistas
- Cirque du Soleil https://www.google.com.br/search?q=trapezista+de+circo
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42 Herdeira da compaixão “Bem-aventurados os humildes de [em] espírito, porque deles é o reino dos céus”. Mt 5:3
Tita, a menina de tranças e fitas Na tenra idade, Bel aprendeu a ler e a escrever não por si próprio. Nem tampouco involuntariamente, é claro! Para isso teve exemplos de Branca Alves de Lima (19112001), nos primeiros passos da cartilha Caminho Suave. E ainda, sendo o caçulo da casa e privilegiado pela irmã que frequentava a mesma escola e que era muito aplicada nos estudos, aprendeu com a Tita o básico. No ambiente familiar, entremeio de tanta virilidade (ela era a única filha entre cinco irmãos homens) não deveria ser fácil Tita manter sua delicadeza e feminilidade. Suas amigas vizinhas companheiras de despertamento e de segredos juvenis, entre elas Nininha (filha de seu Niquim) e Irene (filha de seu José), compensavam a liberdade e a expressão essenciais a alguém por florescer. Cabelos que nunca conheceram uma tesoura se estendiam pela sua cintura delgada. Negros e cuidadosamente penteados, com tranças repartidos, quase sempre adornados com fitas de cetim. A compostura pessoal e o arranjo de seu vestido e adereços eram impecáveis. - A menina de tranças e fitas com sorriso contido e pintinhas no rosto era finesse, e bonita! (à direita da foto abaixo) Antes mesmo de formada, já no corte e costura empregava seu talento promissor: desenhava, modelava e formas criativas na costura davam ao tecido que suas mãos talentosas cortaram. Já na idade adulta, na atenção especial com a mãe, apoiando o pai, respeitando os irmãos, amando os filhos e o marido, com todos sempre manteve espontânea afeição. Excedia os cuidados com todos aqueles com quem se relacionava. Sempre hospitaleira, bem recebia quem em casa chegava: podia ser um desconhecido ou um parente distante, ao vizinho idoso ou à amiga constante. Cumprimentava com um sincero e cativante sorriso, acolhedor abraço e palavras de incentivo. E todos reconheciam e retribuíam o que dela recebiam. Pois ela cumpria, em espontâneo, valoroso mandamento: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Lv 19:18 Hoje, não mais a chamariam por seu apelido: Tita. Aliás, ao longo da vida as pessoas trocam de nome ou apelido, em função dos papéis que desempenham e do contexto em que se encontram. Entretanto, esse era o seu chamamento em família: Tita! Há pessoas notadas pela aparência exterior e há aquelas outras notáveis pela compleição interior, da alma, cujo temperamento é acurado graças à prática da compaixão. Esta é a índole da Tita: ‘um sentimento piedoso e participação espiritual na infelicidade alheia, um impulso altruísta de ternura para com o outro sofredor’. Herdara de D. Conceição, exemplo de caridade e compaixão, esses sentimentos que levaria por toda a sua vida na busca por amenizar as mazelas do próximo (ou distante), seu semelhante: “Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão…” Jó 6:14 A Tita de outrora é hoje uma vovó senhora na expressão serena da menina que fora. Pela vida bem-aventurada, na paz da sua morada na alpina vila, ainda desfruta o bem das suas muitas sementes plantadas e granjeadas em santidade e graça. João Antônio, o bonachão
Antônia Neusa, Miguel, Bel e Tita (Neuza Maria)
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43 Ao mestre, com carinho “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele.” Pv 22:6
Homenagem ao ‘professor desconhecido’¹ Fazer o bem sem olhar a quem. Para além das palavras, ajudar ou favorece algo ou alguém já fez parte dos ensinamentos de boa formação da juventude, afora o tempo de escotismo onde a conduta central Sempre Alerta é a de ajudar e proteger ao menor ou ao mais fraco. Entretanto, e independentemente da educação formal recebida e da idade ou o tempo de experiência de vida decorrida, às vezes determinadas pessoas cruzam nosso caminho e marcam nossa vida, em certos momentos únicos e em nosso benefício, sem que as percebamos como nossos benfeitores. Como assim? Na tenra idade, principalmente, há aqueles que nos influenciam, nos corrigem, nos apoiam… E nos ajudam em momento de vital importância da nossa formação de caráter e de cidadania. São pessoas idôneas, que praticam o bem mesmo não tendo nada a ganhar com isso¹. Pois como ‘Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos’², ou seja, não esperam reconhecimento daquele por aquilo que benfaz. E nas suas ações de boas causas e de modo muitas vezes altruísta, almejam tão-somente dar uma contribuição, um ensinamento, um bom exemplo endereçado aos jovens. E, às vezes, até mesmo a muito indivíduo já marmanjo. É curioso perceber que na maior parte das vezes nem ao menos nos lembramos do nome do nosso favorecedor. Quer seja porque o acontecimento ocorreu em um instante fugaz em que mal percebemos o benefício recebido, ou mesmo porque a gratidão não seja um dom natural do ser humano. Talvez porque às vezes nos sentimos constrangidos ao ser corrigidos em alguma atitude impensada etc. O fato é, na vivência passada de Bel sem que precisar citar seus nomes, Bel se recorda de muitas pessoas das quais guarda uma imagem positiva e exemplar e que influenciaram sua vida às vezes apenas com um gesto trivial ou palavra de alerta, porém eficaz. Como gratidão tardia, mas genuinamente reconhecida, Bel presta aqui sua humilde homenagem ao professor ‘desconhecido’, independentemente de idade e gênero. E por que tratá-lo por ‘professor ou professora’ se é de fato um desconhecido? Justificando: por ele/ela professar uma crença de amor ao próximo. E por ensinar através de gestos de boa conduta e de preservação da vida, mesmo às vezes em silêncio com atenção e apreço. Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não Nas escolas nas ruas, campos, construções Caminhando e cantando e seguindo a canção Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer Nas escolas, nas ruas, campos, construções Somos todos soldados, armados ou não Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não… Trechos da letra Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores Geraldo Vandré ¹Homenageando àqueles com quem Bel na mocidade conviveu na Brasinca dignos de consideração: Simão, Aristides, Romeu, Félix, Dorival, Saul, Nelson, Cláudio, Andrietta, Lúcia, Marly.. E outros mais! ²Saint-Exupéry, em O pequeno príncipe (p. 72), nos lembra da importância das pequenas coisas, aquelas que passam despercebidas.
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Reconhecimento ao mestre de fato "O professor não ensina; ajuda ao aluno a aprender" Jean Piaget
Há, entretanto, aqueles que por formação exerceram o professorado na acepção mais nobre da palavra e que também deixaram gravadas em nossas vidas um exemplo maior de dignidade e integridade. A esses também muitas vezes não prestamos o reconhecimento devido em momento oportuno, embora nos gestos de gratidão do relacionamento cotidiano ficou marcada nossa recordação do benefício recebido por seus ensinamentos, paciência e atenção dedicada. Como mostra de admiração e respeito àqueles que por competência, talento individual e dedicação ao ensino, Bel cita aqui alguns professores congruentes com a sua visão da política e da cultura que merecem reconhecimento. No ensino fundamental, Profª. Terezinha Bergamini e Profª. Mazzini. No colégio, o Prof. Falcão e o Prof. Oliveira. Na escola técnica, o Prof. Cecil³, o Prof Pacheco e o Prof. Teobaldo. Este último ajudou na adaptação de um poema pronunciado pelo jovem Bel em seu discurso representando os alunos da escola técnica em homenagem aos queridos mestres, no Dia do Professor:
Ao Professor (na acepção mais nobre da palavra) Esbater trevas irradiando luz, irradiando a verdade que seduz; livrar a mente da noite da ignorância a golpes de paciência e de constância… Revelar o mistério da existência à tenra arvorecente inteligência; distender em cada alma de criança serenos horizontes de confiança, para não sucumbir na luta insana… Ensinar-lhe a bondade, a benquerença… apontar-lhe o caminho do dever para além dos encantos do prazer… É missão digna de geral louvor: - Tal é a tua missão, Digno Professor! Adaptação de Bel da poesia de A. de Franco*. ¹Em tempo, às contribuições do professor Antonio Candido (24.7.1918 a 12.5. 2017) alguém que acreditava no conhecimento e no compartilhamento do conhecimento como forma de construir um mundo mais justo. Estudioso da literatura brasileira e estrangeira, possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. À atividade de crítico literário soma-se a atividade acadêmica, como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. ²Darcy Ribeiro (26.10.1922 a 17.2.1997) antropólogo, escritor e político brasileiro, conhecido por seu foco em relação aos índios e à educação no país. Darcy Ribeiro foi ministro da Educação durante o Regime Parlamentarista do Governo do presidente João Goulart (18 de setembro de 1962 a 24 de janeiro de 1963). Redigiu o projeto do Parque Indígena do Xingu, criado em 1961. ³Cecil. Prof. de português e dentista em São Caetano do Sul, que reparou os dentes de Bel na mocidade. *O curso de caligrafia Antonio De Franco, cujo livro foi adquirido por Bel, começou em 1915 em São Paulo.
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44 Profissões reconhecidas publicamente Das atividades humanas de ocupação e ofício do trabalhador, no comércio, na indústria, nas empresas públicas ou privadas, de forma autônoma ou liberal, o homem e a mulher deixam marcas de sua personalidade e caráter à medida que beneficia algo (um produto ou serviço) para alguém, que o reconhece e o prestigia; ou ainda simplesmente usufrui sem perceber a importância do fruto de seu trabalho. Embora o trabalhador enriqueça e ensoberbeça muito patrão usurário. Infelizmente, justiça do trabalho alguns proprietários não praticam. Muito pelo contrário! Barbeiro, costureira, enfermeira (o), sapateiro, doméstica, repórter, jornaleiro. Feirante, vigilante, lixeiro, relojoeiro, fotógrafo, carteiro. Professor, policial, motorista, taxista, frentista… tantas outras pessoas em profissões dignas de seu trabalho. E nas atividades inseparáveis, tais como, o mecânico o eletricista e o funileiro; manicure e cabeleireira; zelador e porteiro; o dentista e o protético; o escriturário e a secretária; o encanador o pintor e o pedreiro; o padeiro e o confeiteiro; o garçom e o cozinheiro etc. Sem contar com os prestigiados médicos, engenheiros, advogados, oculistas e dentistas. E os afortunados e hábeis comerciantes e industriais de sucesso. Seu Nelson (Lupércio), o sapateiro Antes da soleira da porta, um viveiro com três araras-canindés multicoloridas: bico recurvado de cauda longa, em frenética gritaria. Assim se adentrava na sapataria. Nelson era humilde e manso, não era limpo de mãos pelo exercício da profissão, mas bom de coração. Aprumado em seu avental de couro, sorriso perene, sempre bem barbeado, perfumado com água-de-colônia; rosto iluminado, óculos de aros metálicos finos e expressão duma mente aberta ao entendimento ou à conversa trivial. Digno de sua profissão, seus consertos e reparos faziam restaurar a função e o brilho do calçado a ele confiado. Sempre saudava e cumprimentava a quem recebia ou despedia. Irmão na fé exercia a profissão de cuidar dos pés de seus semelhantes, protegidos pelo humilde sapateiro cristão. Seu João e o José, os farmacêuticos Quando o sangue escorria por acidente ou hemorragia, o ouvido doía, o verme atacava e a barriga contraía, a cólica apurava ou a cabeça girava e alguém desmaiava ou vomitava, era à Farmácia do seu João que acorria. Ali, prontamente a qualquer hora da noite ou do dia, seu João e José, a todos atendiam. Sempre havia remédio, solução temporária para a dor e a aflição. Ao Pronto Socorro ou ao Hospital, nem sempre era necessário ser levado. Pois, o farmacêutico aplicava injeções, fazia os curativos, orientava ou ele mesmo receitava e vendia o remédio mais apropriado, além dos conselhos dados. Introspectivo e responsável, seu João com seriedade a todos tratava. Num contraponto do também competente José, que, descontraído e alegre, circulava pelo balcão da farmácia assoviando uma melodiosa canção. Curada ou remediada, a clientela da alpina vila confiava sua saúde nas mãos de José ou de João. Seu Armando (lusitano filantropo), o padeiro Armando, saudoso de sua Lisboa distante, na alpina vila ia além das suas funções profissionais de panificação. Proprietário ao que se sabia de duas ou três padarias, português de sotaque carregado, fidalgo e de costumes cultivados era também devotado às causas sociais e jamais olvidado por sua caridade. Apurado nos cálculos das finanças do próprio negócio, Armando também era cuidadoso no trato com a freguesia 62
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postergando algum débito que na Caderneta havia anotado. Afeiçoado e amável com as crianças. Respeitoso com a mulher do alheio. Em ocasiões especiais e datas religiosas e festivas dedicava parte de seu tempo compartilhando com o próximo sua beneficência. Sempre distribuía para as crianças guloseimas na Páscoa ou no Natal. E algum dinheiro trocado dava para quem lhe desejasse - “Bom princípio de Ano-Novo, seu Armando!”. Tinha seus méritos reconhecidos e a todos era agradecido. Seu Orestes, o barbeiro indiferente Quem por suas mãos passava, sem cabelo quase ficava. Calcando a maquininha número ‘zero’, depois de cortar só restavam os pelos. O corte-americano naquela época era muito usado para evitar piolhos na cabeça-dura dos pimpolhos. Afundado na poltrona rota, sufocado no pescoço pelo avental gasto, a orelha coçava e incomodava o pirralho. O salão por varrer se via cabelo por todo o lado. Seu Orestes não se importava com aquela molecada e sua mão pesada segurava firme a cabeça por pelar. Não era de conversar como é costume na profissão de barbeiro, e na fila de espera nenhum menino queria ser o primeiro. Então, como não havia jeito restava fechar os olhos e depois correr para o chuveiro, num banho apressado bem distante do barbeiro. No Campino, nas peladas, a cuca raspada só tinha vantagem na dividida da bola ao cabecear. Seu Chino, o tintureiro Nos dias de casamento, batizados ou formatura de gente importante, havia muito trabalho na lavanderia do seu Chino. Cotidianamente, era agitada e enfumaçada a oficina que lavava e com ferro pesado a vapor passava roupas às toneladas. Em casa de Bel o tintureiro uma vez por semana passava, batia palmas e logo perguntava: - ‘Orá, de casa!’ - Tem ‘ropa’ pra ‘ravar’? – Tem, sim senhor! - Camisa pra engomar? - Tem, sim senhor! Bem dobradinhas, as camisas branquinhas, as calças bem passadas com vinco afilado, o vestido elegante e o terno aprumado… E outras vestes que mereciam maior cuidado eram entregues pelo tintureiro em plástico embalado. Dava gosto vestir-se de novo e olhar no espelho a figura renovada. Chino era reconhecido por seu trabalho esmerado e seu olhinho apertado, e o trejeito faceiro. O calado e sorridente tintureiro. Seu Antônio, ‘o guardinha’ continente Carinhosamente por todos assim chamado: ‘o guardinha!’- pronunciado depois do respeitoso nome, seu Antônio. Um policial civil, reverenciado pela sua competente qualificação técnica e humanística, impecavelmente trajado em farda azul, bigode fino aparado, ostentando um quepe emblemado pelo símbolo da Guarda Civil de São Paulo. Ele era presença reconhecida na segurança dos infantes de todas as idades, estudantes que adentravam o Grupo Escolar Senador Flaquer. A travessia na faixa de pedestre era rigorosa, o apito ativo parava o carro que intencionava invadir o espaço sagrado que os pés apressados dos alunos cruzavam. E na classe, em dia marcado, o policial com amor ensinava a criançada empolgada como proceder com civismo e honrado patriotismo: respeito estima e consideração pelo seu semelhante. E reverência pela sua pátria.
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45 Revolução do cravo, na mocidade Era abril de 1964. O mesmo mês que enaltecemos a morte do herói Tiradentes¹ na Inconfidência Mineira (1789). Diferentemente de A Revolução dos Cravos², no Brasil a ‘Revolução’³ já fora deflagrada. Brasília a nova Capital Federal, construída e habitada pelos candangos, e inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, agora no período do Regime Militar instaurado ostentava um general; depois de outro presidente constitucional: João Goulart (Jango), deposto pelos militares. Bel, na puberdade, indiferente ao momento histórico de mudanças profundas nas instituições de seu país, estudava no colégio Cel. Bonifácio de Carvalho, em São Caetano. E esforçava-se por passar nos exames de seleção da escola técnica4 e nas provas de habilidade e de saúde física na indústria automobilística, que o empregaria e manteria seus estudos por longos três anos com salário garantido na carteira profissional quando fosse aprovado. Alguns colegas de infância não haviam passado nos exames e outros, privilegiados por pais zelosos e abastados dispensavam a formação técnica preferindo a formação clássica. Bel, entretanto, de família humilde de pais e irmãos trabalhadores, necessitava garantir seu futuro, próximo e distante. Assim, empenhado nos estudos e responsável por si mesmo, agora tinha seu salário, registro em carteira profissional e desfrutava da proteção da lei enquanto menor de idade… Como tivera sucesso nas provas e exames finais, se preparara para a fase importante em sua formação: nasceria profissionalmente em uma organização nacional exemplar: a empresa Brasinca5, fornecedora da indústria automobilística - eixo propulsor da economia de então. Brasilidade na alma, dedicação esmerada nos estudos e na prática no chão de fábrica, Bel se dedicava e se aplicava. Assim, conciliava conhecimento apreendido com a competência a ser conquistada nas máquinas da Ferramentaria. Começou como torneiro e concluiu como ferramenteiro. Isso quase lhe custou um dedo (médio) estourado no polimento de um eixo em um torno mecânico… Seu colega vizinho de máquina operatriz perdera o dedo indicador nas engrenagens da caixa de mudanças. Infelizmente, como ainda não havia CIPA6, naquela época membros eram decepados no exercício profissional. Nos semestres da escola técnica, aplicado aos estudos, interessado nas aulas de Ciência e de Laboratório, recebeu a melhor nota por seu empenho. VicePresidente do grêmio, orador da turma, segunda melhor nota na conclusão do curso. Nas horas de folga dos turnos puxados da fábrica, tomava seu lanche na Cabine de pilotagem (Cockpit) do cupê esportivo Uirapuru, ou Brasinca 4200 GT7, admirando o painel de jacarandá e o surpreendente design. Bel em breve almejava chegar à Engenharia de Produto, por seu esforço próprio e a graça de Deus. Adquiriu gosto pelo exercício da profissão se espelhando no modelo (integridade): seu Antônio, o forneiro. Nessa época, Bel, o cravo, fora convocado para o Serviço Militar, passou pelos exames da Aeronáutica que o enviaria ao Rio Grande do Norte, mas optou pelo Exército Brasileiro a fim de continuar os estudos e não se afastar da família amada. Além do que não pretendia seguir carreira militar, mas intencionava retomar na automobilística seu aperfeiçoamento na engenharia. No Batalhão de Guardas, serviu na Sala de Meio como desenhista ilustrador na elaboração de manuais de armas (FAL) para a escola regimental. Deu baixa com louvor, pois serviu com fervor para o bem de sua amada pátria, Brasil. Financeiramente independe desde os quatorze, profissional oficial do seu ofício e comportamento continente, ao completar dezoito anos, mesmo sem a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), comprara seu primeiro carro: um Fusca novinho, 1969, vermelho, 1300 cv. O VW ficava polido tinindo, abastecido e guardado escondido na garagem de casa, esperando o tempo passar até que o jovem Bel pudesse se habilitar. - Bem, daí por diante fica para outra vez a história restante! ¹Tiradentes - Joaquim José da Silva Xavier (12.11.1746) morreu como mártir no dia 21 de Abril de 1792.
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Uirapuru: Brasinca 4200 GT
Formatura: Diretor Caetano e Bel, aos 17
À direita, soldado Gilber: Cabo da guarda ²A Revolução dos Cravos, denominada historicamente Revolução de 25 de Abril, refere-se a um período da história de Portugal resultante de um movimento social, ocorrido a 25 de abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933, e iniciou um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático e com a entrada em vigor da nova Constituição a 25 de abril de 1976, com uma forte orientação socialista na sua origem; terminando de fato com o "império português". ³Golpe de Estado no Brasil em 1964 designa o conjunto de eventos ocorridos em 31 de março de 1964 no Brasil, que culminaram, no dia 1º de abril de 1964, com um golpe de Estado que encerrou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart, também conhecido como Jango. O golpe estabeleceu um regime autoritário e nacionalista, politicamente alinhado aos Estados Unidos, e marcou o início de um período de profundas modificações na organização política do país, bem como na vida econômica e social. O regime militar durou até 1985, quando Tancredo Neves foi eleito, indiretamente, o primeiro presidente civil desde 1964. 4Getúlio Vargas criou, em 22 de janeiro de 1942, o Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários (Senai). Os programas de capacitação profissional são viabilizados por meio das modalidades de aprendizagem, habilitação, qualificação, aperfeiçoamento, técnico e superior. 5Brasinca Ferramentas, Carrocerias e Veículos S.A. é uma empresa brasileira que fabrica carrocerias para caminhões e veículos especiais. Lançou no Salão do Automóvel de 1964, o Uirapuru. 6A Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) é, segundo a legislação brasileira, uma comissão constituída por representantes indicados pelo empregador e membros eleitos pelos trabalhadores da empresa. Tem a finalidade de prevenir acidentes e doenças decorrentes do trabalho, de modo a tornar compatível o trabalho com a preservação da vida e a promoção da saúde do trabalhador. 7Uirapuru ou Brasinca 4200 GT foi projetado pelo espanhol radicado no Brasil Rigoberto Soler Gisbert.
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46 Pra não dizer que não falei das flores De tudo, ao meu amor serei atento antes E com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento...
Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes
Todos nós temos uma história para contar na qual a mulher sempre está presente. Seja na geração da vida ou na construção de toda a evolução humana, desde a origem remota (mãe terra e a lua), a gestação e nascimento através do sangue de quem ama. Nas histórias aqui contadas, algumas mulheres já foram citadas. Mas se todas elas fossem nomeadas daquele tempo passado, cada uma no seu papel de amiga, irmã, mãe, esposa, tia e avó dos personagens caracterizados, precisariam de outro livro. Assim, se faria jus aos nomes estimados e aqui reabilitados, a fim de que a história de um tempo perdido adquirisse mais sentido. Faltaria espaço e argumentos, no entanto, para ilustrar esse jardim de flores e seus sentimentos, cada uma com seu encanto. As garotas da alpina vila, na época do rock-and-roll¹ e Demétrius ídolo da Jovem Guarda, imitando Rita Pavone atualizadas e participativas com o momento presente de sua geração, eram jovens mais intelectuais e compassivas que os meninos. Inteligentes e ativas estavam sempre bem informadas e ligadas com a moda. As mais jovens bebendo 7Up ou Grapette² divertiam-se com bambolês, dançavam twist, mascando chicletes… Vencendo o custoso aclive na subida do Morrinho, depois do rebanho da dona Maria pastora dos caprinos e da casa da avó da Neide, vizinha da Ivani (que trazia seus recados para o Bel), chega-se à casa da irmã do Claudio, a singela Verinha. Ela morava na frente da casa da Marli, irmã do Carlinhos. E era vizinha da atrativa Marisa, irmã do Serginho. Mais para cá acima do Campinho, na alpina vila de então, havia a humorada Lurdinha, irmã do Virsola. E também a Lurdes, irmã do Zé-do-macacão. Na direção de quem vinha à Padaria do seu Armando - cuja esposa era a enérgica D. Rosa, podia deparar com as Marlis ouvindo Renato e Seus Blue Caps. E próximo da Mercearia de D. Alice e seu Antônio onde tudo se podia encontrar para a despensa, a inocente Maria (irmã do Riquinho) e a italiana Anezia (irmã do Cosmo) assistindo a Jovem Guarda. Depois da Farmácia do seu João, já na Rua 8 no nº 1, a Tita (irmã do Bel) brincava com sua amiga e vizinha, a simpática Nininha. Na casa da frente, a saudável Roseli, filha da D. Judite, ouvia o Trio Esperança. Na direção do Cine Caiçara, avistavase no portão a Irene (irmã do Son - Edson). E tantas outras que mereciam ser aqui citadas. Da antiga geração, em sua faina no labor doméstico, vamos mencionar as mães vizinhas de dona Conceição. Pequena porção das valorosas mulheres que geraram a juventude privilegiada daquele tempo passado. Começando pela gentil Dona Vera, mãe do Claudinho (Vera alugava o salão para o barbeiro Orestes). E a esperta Dona Pia, mãe do Mário e do Faustinho; Gina, mãe do Serginho. Na farmácia, mãe da Peteka e Zé Carlos (Cuquinha), a vivaz dona Éclair. A sorridente e humilde Dona Cida (Aparecida), mãe da Nininha e da Liluca. Introspectiva, D. Lourdes, mãe da Irene e Sueli. E a mãe do Zé-dagaiola e do Alcides, a simples D. Maria. Quantas outras de mesmo brilho olvidadas! Ainda merecem a reverência de Bel as suas cunhadas³ até agora não citadas: a alegre Nicinha (Elenice), esposa do Zé do Chinelo (José). A saudosa Maria Augusta, esposa do Miguel. E a esposa do João Antônio, a mineira Isabel. E para não dizer que não falei da Rosa (6.4.1951 a 27.1.2018), a mãe do Marcel Alani e do Daniel, companheira da primeira jornada, registro aqui meu reverente respeito e digno apreço. ¹Além de Elvis Presley (8.1.1935 a 16.8.1977) o Rei do Rock, um dos pioneiros que inventaram o rock’n’roll no início dos anos 1950, o maior compositor foi Chuck Berry (18.10.26 18.3.17). Com seus elegantes riffs de guitarra e letras geniais, Berry criou o imaginário do rock e influenciou artistas de rock, inclusive os Beatles. ²Grapette: refrigerante lançado no Brasil em 1948, o primeiro com sabor uva do país. Origem: USA (1930). ³Antônia Neusa Prezutto (esposa do Euclydes). Com reverência e elevada estima, fica aqui a saudade dessa amada pessoa, que nos deixou em 30 de outubro de 2002†
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47 Sete é o número predileto de Deus “Procurai o que faz o Sete-estrelo… o que chama as águas do mar… o Senhor é o seu nome.” Amós 5:8
Refletindo acerca das várias lembranças que remontam a convivência com seu irmão maior: José Alani, Bel destaca a importância que José dava ao evento que contivesse o número sete (7): a assinatura da totalidade. José sentia aversão pelo nº 13. Pesquisando nas Escrituras acerca de Sete7, Bel reparou que na Bíblia, em Apocalipse, são sete as bem-aventuranças. Entre elas: - “Feliz aquele que lê as palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito” (1.3) etc. O Apocalipse - O livro da revelação é elaborado em torno do número sete (7): sete cartas, sete igrejas, sete selos e sete trombetas; sete candelabros e sete estrelas; sete anjos e sete espíritos... E sete reis. A Bíblia começa com sete dias de criação (o sábado era o sétimo dia). Sete é o número predileto de Deus*. Existem sete dias na semana, sete notas musicais sete cores no arco-íris. E assim por diante! Por ser usado tão frequentemente e de modo tão específico, forçosamente deve ter alguma relevância além de seu valor meramente numérico. Simbolicamente representa a plenitude, a totalidade, a globalidade – tanto no sentido positivo quanto no negativo.7 Se contarmos os filhos gerados pela irmã Conceição Alanis¹ (exemplo de caridade e compaixão) incluindo a menina que perdeu em sua avançada gestação, são sete os filhos da família Gilber - primeira geração dos nascidos no Brasil (seu esposo, Antônio², era argentino). E o primogênito não poderia deixar de ser o abençoado José³, privilegiado por sete instrumentos, nascido no dia 17, pai de sete filhos e que aos 77 anos incompletos, deixou-nos no mês sete. José era místico, porém, não um supersticioso. A graça o alcançou e a seus irmãos, através de seus antepassados. Sete era apenas sua preferência e não uma fixação, e não ditava sua integridade religiosa. Recorrente é na memória lembrar-se do Euclydes4 quando do José se quer falar. Dupla quase inseparável, eles viveram a mesma geração; suas fantasias e frustrações. Empreendedores natos, juntos construíram um negócio promissor: uma fábrica de calçados. Euclydes, também nascido no dia 17, engenheiro criativo, bolava os modelos e os meios de produção, e a fábrica tocava. José, nato para negociação, comerciava tudo aquilo que ali se fabricava: sandálias femininas (as famosas ‘Chinesinhas’). Sucessos lograram! Porém, com o tempo se separaram. Deram a volta por cima, sacudiram a poeira. Seguiram o seu próprio caminho, movidos pelo instinto de autopreservação. Na aventura de “Índia negra e poderosa” (Cap. 35), saiba mais sobre esses irmãos. Bel (ou Moisés para D. Conceição) foi o caçulo do total de seis filhos do casal, nasceu na semana 36 no dia seis (6), recebeu um sobrenome de seis letras: o número da imperfeição. Esse número marcou os eventos importantes da sua vida. E assim, ele reconhece e aceita: a conta incompleta (um a menos que sete). Bel é o menor do maior José e do mui criativo artista Euclydes, do humilde João5 e do irmão-amigo Miguel6: exemplos de humanidade. Recentemente (meados de 2013), esteve impedido de se despedir pessoalmente do José e do Miguel no seu momento final de vida, embora com Euclydes e João tenha estado no último adeus. Entretanto, os reverencia agora com elevada admiração, e a todos “aqueles que descansam à sombra do Onipotente Deus”. ¹Exemplo de caridade e compaixão: Conceição Alanis Gilber - 23.12.1915 a 4.5.2004. ²Exemplo de honradez varonil e integridade: Antônio Gilber - 24.8.1913 a 13.4.1983. ³Coragem e determinação (o primogênito): José Alani Gilber – 17.11.1936 a 24.7.2013. 4Criatividade (meu tutor e querido professor): Euclydes Gilber 17.5.1939 a 2.4.2003. 5Bondade e humildade (meu incentivador): João Antônio Gilber - 3.6.1942 a 29.7.1994. 6Amizade (meu irmão-amigo arcanjo protetor): Miguel Gilber – 11.1.1946 a 14.9.2013. 7Sete significa “o escolhido, o indicado” (o substituto de Abel, que havia sido assassinado por Caim). *o Senhor, YHWH (pronunciado ‘Yahweh’ (escrito ‘Javé’), o ser ativo e auto existente. Bíblia Anotada (p.9) *Adap. Halley, p.721/2.
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48 A culpa é da Nestlé¹, ou Sentimento latente se tornando explícito Brasileiras criativas inventaram o doce brigadeiro. E o Catupiry (1911)2, inventado por um ítalo-mineiro. No princípio, o leite primordial foi por Deus criado, mas o homem transformou (1856)3 em leite condensado. O menino deslumbrado na despensa da cozinha encontrara um tesouro: o Moça³ da latinha. Era leite condensado uma apreciada iguaria, reserva preciosa que sua mãe sempre escondia. O vampiro sempre ataca bem de noite ou à tardinha. E seus sisos secos cravam o pescoço da mocinha. Escondido no guarda-roupa, o menino à noitinha com boca seca sugava precioso néctar da latinha. Deu um branco no garoto, e não lembrava o que fazia. Esqueceu aquela incursão noturna de saborosa fantasia. Transcorrida uma semana, logo teve um pesadelo que o mel que ele sugava virava um vespeiro. Transpirando acordado, de seu tesouro ele lembrou. Na escuridão da madrugada, o seu quarto atravessou. Agarrando a mocinha da lata, forte gole ele sugou. Ingerido lácteo fórmico qual vampiro se transformou. A contração do epigástrio, ânsia forte lhe provocou. Como se dentro dele houvesse alguma briga de rinha. E no chão todo encerado precioso néctar regurgitou. Junto ao líquido espalhado, dezenas de formiguinhas. A culpa é da Nestlé (1921)! Isto eu atesto, e não minto. Pois aprimorou lácteo néctar dos deuses do Olimpo. E não das formiguinhas, que invadiram a latinha… Pois não foram avisadas que o leite era da mocinha.
1Nestlé
– a marca registrada leva o nome do seu fundador, Henri Nestlé, que inventou a primeira fórmula de alimento infantil utilizando o leite condensado, chamada Farinha Láctea. A Nestlé, multinacional suíça, é o maior fabricante mundial de alimentos e nutrição (Fonte: site Nestlé). 2Catupiry - palavra tupi-guarani, que significa “excelente” – lançado em 1911. 3Leite Moça – chegou ao Brasil em 1890 com o nome Milkmaid, mas logo começou a ser chamado “o leite da moça” por causa do desenho em sua embalagem; a Nestlé, seu fabricante, manteve esse nome quando começou a fabricar o produto no país, em 1921.
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49 Brincadeiras de rua, coisas de criança feliz. Carpe diem!¹ “Criança feliz, feliz a cantar… Enquanto as meninas da alpina vila brincavam, alegres e comportadas, de amarelinha, de boneca, de passar anel, ou pular corda ou de casinha, de esconde-esconde e de ‘mãe da rua’, em grupo sempre excitadas; nas brincadeiras de rua dos meninos, a diversão sempre extrapolava. Os meninos iam além do contato do bafo (figurinhas), nas peladas, se arrastando com bolinhas de gude, unha na mula, rodar pião… No pega-pega de rasgar a camisa, ou da ferida na esquentada queimada. Das marcas pelo corpo ficava o vergão, das unhas crescidas, o arranhão… Assim, quando o sol raiava era tudo alegria. Felizes, com as feridas curadas, as crianças bem cedo levantavam. E corriam pra brincar na rua mais um dia. (…) Crianças com alegria qual um bando de andorinhas”²
Disputas com bolinhas de gude A verdadeira brincadeira de menino, não era tapinha na peteca. E sim as disputas concorridas com bolinhas de vidro (gude coloridas) que alguns chamavam de birosca, outros, de fubeca. Nada se comparava quando a molecada agachada, gritando a cada estalo dado… no pó da rua se arrastava. E a força era medida no limite do polegar estirado, pelo estrondo e o estilhaço do vidro ali quebrado. Brilhantes e de tamanho variado, do bolim ao bochão, as fubecas guardadas em saco eram o universo sideral colorido de pura emoção, bem ao alcance da mão. Promoviam disputas exaltadas e rivalidade na conquista do espaço tosco pisoteado, ali mesmo no rude chão.
Roda pião³… gira pião! Roda pião, roda! Vai rodando no chão! Gira fácil por entre os dedos, na palma da minha mão.
¹O termo foi escrito pelo poeta latino Horácio (65 a.C.-8 a.C.), no Livro I de “Odes”, em que aconselha a sua amiga Leucone na frase: “carpe diem, quam minimum credula póstero”. Uma tradução possível para a frase seria “...colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. www.significados.com.br/ ²Composição: Francisco Alves e Rene Bittencourt ³"Pião entrou na roda, pião, bambeia, pião" : Roda Pião - Dori Caymmi
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50 De médico e de louco todo mundo tem um pouco A patomimia que marca a existência humana parece se manifestar mais intensamente nos aglomerados urbanos – as grandes cidades.
Maria, a pobre louca Na infância daquela época, ninguém precisava eventos programar. Ao seu tempo e ao acaso as crianças se ajuntavam para brincar. Na rua ninguém era dono de nada, nem se agia de antemão. Livres, as pipas empinavam, bolas jogavam e ali rodavam pião. Nas ruas escuras da alpina vila certo marasmo logo surgia, depois da agitação diária quando então a noitinha caía. Após o jantar apressado, no campinho os meninos se ajuntavam para quebrar a apatia. Ali, as coisas mais loucas maquinavam. A única luz acesa era a da farmácia - bem para lá afastada! Na calada da noite, escondida na mata, a perversa molecada arrastava por um fio de pipa a réstia de cebola encharcada, qual serpente molhada. O rastro medonho a rua cruzava. Pavoroso grito aflito fez-se ouvir! E a vizinhança logo acudir. A moça que vira a cobra apenas gaguejava, já quase rouca. Mas, ninguém se importava e para casa voltava, dizendo: - Era apenas a Maria Louca! "- Um sentir é o do sentente, mas o outro é do sentidor." Dito por Riobaldo (protagonista) de Grande Sertão: Veredas, livro de Guimarães Rosa escrito em 1956.
O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão, na terra de Carcará¹ Migrante de Sobradinho* (BA) onde perdeu tudo o que podia amar, enquanto lá vivia acreditava na profecia, que o sertão iria virar mar. De baixa estatura e de alta indignação, pela vida seca de então sofrera a desventura de ver o seu amor virar sertão. Pela vida desvairado, e desprezado por viver em completa solidão, andava pelas ruas daquela alpina vila como alguém sem compaixão. Subindo o Morrinho com seu cavalo carregado com um porco que jazia, sôfrego de dura sina aos pedaços ali vendia para a piedosa freguesia. Espíritos de porco se apoderavam da gurizada logo que o homem vinha. Ele então se descontrolava ao ouvir seu apelido nas bocas depravadas. Com a peixeira na cintura com destreza empunhada, logo se avexava pelo tremendo acinte dito por aquela molecada: - Botininha!! Aquele rixoso apelido tinha origem em seu indefectível botim, que já gasto o acompanhava desde a época de Sobradinho. Porém, nada justificava o preconceituoso e tremendo desatino. Não dele, desesperançado nordestino, mas dos endiabrados meninos! ¹Carcará, do tupi karaka'rá (Caracara plancus) é uma espécie de ave de rapina da família dos falconídeos.
(*) Sobradinho – nas vozes de Sá, Rodrix & Guarabyra.
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Gasparin, vulgo Cervejinha! Chapéu havana, sapatos gastos, e com paletó xadrez encurtado, dinheiro no bolso roto ganhado por guarda-chuvas consertados. Gasparin em sua existência vestia sempre aquela roupa simplista. Subia a ladeira, descia o Morrinho, na custosa faina diarista. De idade avançada, as mãos trêmulas enrugadas pelo labor diário. Pele do rosto* crispada e pernas castigadas, por um repouso exigiam. Barriga vazia, querendo repasto para casa voltava ao sol do meio-dia. E na padaria a secura satisfazia: nas brahmas gastava seu salário. Nas ruas daquela alpina vila em rodas as meninas entoavam: “- Chuva e sol: casamento de espanhol!” E replicavam: “- Sol e chuva: casamento de viúva!” Guarda-chuva ele tinha e também um apelido pelo hábito repetido: Cervejinha!!! Embaixo do braço a Brahma¹ gelada, sentado no degrau da escada. Ali mesmo entornada! E já esvaziada ao balcão retornava. A gente da vila onde todos se conheciam, de antemão já sabia: na hora do almoço, Gasparin na padaria, a cena se repetiria… Na sua Itália distante talvez ele gostasse de uma cerveja alemã. Mas, no torrão brasileiro, o guarda-chuveiro da Brahma era fã. No cotidiano, direto no gargalo, matara quem queria lhe matar: a sede e a fome, que ao meio-dia já não podia controlar.
(*)"Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, (...) Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; (...) Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?". Retrato, Cecília Meireles².
“[…] Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.”¹ Cecília Meireles
¹Brahma é uma marca de cerveja brasileira criada em 1888, no Rio de Janeiro, pela Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia, que depois mudaria de nome para Companhia Cervejaria Brahma, e depois seria sucedida pela AmBev. ²Cecília Meireles (1901-1964). Poetisa, professora, pedagoga e jornalista, cuja poesia lírica e altamente personalista, freqüentemente simples na forma mas contendo imagens e simbolismos complexos, deu a ela importante posição na literatura brasileira do século XX. http://apoesiadobrasil.blogspot.com.br/2012/03/cecilia-meireles-1901-1964.html
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51 Lá em cima daquele Morrinho ninguém podia morrinhar Morrinho, de gente simples com cadeiras na calçada Se ‘a vida é a arte do encontro’ no ‘ojo a ojo, cara a cara’, no almoço do meio-dia quem pelo Morrinho transitava, ou a caminho do trabalho bem cedinho de madrugada, enfim em qualquer hora do dia quem por ali passava, cumprimentava seu vizinho que gentilmente lhe saudava. Todo mundo se conhecia, portas e janelas jamais cerradas, no portão sempre um sorriso, gente simples com cadeiras na calçada. Ali, gente humilde se encontrava ouvindo Ângela Maria*. Lá em cima daquele Morrinho quase tudo se sabia. Morrinho da alpina vila, íngreme e custoso para quem debaixo subia, pero fausto e prazeroso para aquele que lá de cima descia. Não lhe deram um nome público, de um político ou data comemorativa, pois fora batizado pelo costume da gente humilde antiga, que emprega a fala simples em tudo aquilo que tem carinho. - Então, ficou Morrinho! (*) No rádio, com Altemar Dutra: Gente humilde.
“As pastorinhas pra consolo da lua, vão cantando na rua...” Na cantilena antiga, contente a criança entoava: - “Lá em cima daquele morro, passa boi passa boiada...”. No Morrinho daquela época, D. Maria também passava, entoando um canto caprino em procissão diária; nos campos da alpina vila, pastoreava suas cabras. Bel, atrevido, agarrou os chifres de um cabrito, que saltando espantado aplicou-lhe uma chifrada; bem doída cabeçada na altura do umbigo. Curvado, o menino rolou soltando doído grito. E a pastora avexada lhe aplicou tremendo pito.
Centopeia desengonçada. Carpe diem! Meninos de rua A ladeira convidava a uma bela escorregada. E era isso o que fazia aquela inquieta molecada. Carrinhos de rolimã, como centopeia montados, num grande empurrão pelo Morrinho despencavam. Na jubilosa gritaria, os moleques se esbaldavam, e se estrepavam. Quando numa pedra batia a centopeia desengonçava, espalhando a gurizada em rebuliçosa agonia: entre joelho e dedo esfolados, bunda ralada que muito ardia. 72
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A verdadeira alegria O melhor amigo do homem tinha nome de Folia, era o agitado Border Collie. Em disparada correria, avistava o menino que no Morrinho aparecia retornando da escola. - Assim era todo dia! Alegre e companheiro ao lado de Bel sempre estava, farejando e latindo provocando alguma farra. Apesar da serventia, seu destino é pesaroso, pois o cunhado do menino num gesto escabroso no caminhão o levou pra longe, na empoeirada carroceria. Chorando inconsolado nunca mais Bel o veria. Até hoje muito dói a saudade do Folia. No coração deixou gravada a verdadeira alegria.
‘Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas’¹ Ela tinha um ar sublime em seu rosto angelical, citava os consagrados pela literatura intelectual. Falava fluentemente sobre as artes, cinema e poesia. Tinha idade e conhecimento, mais do que o mancebo gostaria. Nos muitos livros lidos, Neide encontrava sabedoria. Mas, não desabrochava por falta de companhia. Na casa do Morrinho, sozinha, lia linda poesia, e da varanda observava atenta o que o moço ali fazia. Assim, despertou afeto por aquele jovem pueril e ficou apaixonada em seu sonho juvenil. Ao encontrar sua cara-metade, quis logo ajuntar, o inexperiente Bel: uma pedra bruta por lapidar. Porém, juntos o tempo todo não evitaria, que a moça culta desejosa procurasse outra companhia. Recrutado para servir à Pátria, o mancebo desprezado se alistou, a serviço do Exército, que para bem longe da ex-namorada o arrastou. De prontidão na guarita, a solidão do soldado triste lhe causava muita dor. E revelava que aquele sublime anjo fora apenas seu primeiro amor! Naquele momento, Bel se lembrou dessas palavras interessantes: ‘Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante’¹. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. ¹O pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1900 a 1944), Agir (1996, p.72).
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Brasilidade na alma, dever cumprido
2º Batalhão de Guardas – Soldado Gilber 1205 Cia. de Petrechos Pesados
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REFERÊNCIAS
Originalmente, as histórias aqui citadas foram escritas (recuperadas) durante a Primavera de 2013, na cidade de Curitiba (PR), e impressas em junho de 2014. Restauradas, e acrescidas de novos causos na Primavera desse ano, foram reimpressas em março de 2015. Em 2017, publicadas na Internet livre. Ao longo da escrituração desses causos, foram utilizadas as seguintes fontes fidedignas de referência: 1. Todas as pessoas - lugares e animais aqui citados, são reais. Seus nomes, verdadeiros (prenomes ou apelidos à época a que se faz referência). 2. Por razões de grafia, “alpina vila” - palco dos vários eventos mencionados, é o pseudônimo adotado do bairro Vila Alpina. Localizada no distrito de Vila Prudente, na região Sudeste da Capital de São Paulo (SP), faz limite com o distrito de São Lucas, e está situada próxima à cidade de São Caetano do Sul. Seu principal ponto de comércio é a Rua Costa Barros, nos arredores do Largo da Vila Alpina (“Flor do Morro”). 3. São Caetano do Sul Cidade com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, São Caetano do Sul faz parte do Grande ABC, na região metropolitana da Grande São Paulo. Com 15 km², a cidade é referência nacional no trato com a população de todas as idades. São 149.263 habitantes, segundo o Censo de 2010 do IBGE. O município foi fundado em 28 de julho de 1877, por imigrantes italianos que formaram o Núcleo Colonial criado pelo Império brasileiro. 4. A Bíblia Sagrada. The Ryrie Study Bible, de Charles C. Ryrie (1994) 5. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0 6. Wikipédia - A enciclopédia livre. (http://pt.wikipedia.org)
Mensagem aos leitores desta pequena recordação: Em seu livro A Condição Humana Hannah Arendt se propõe a examinar o que é específico e o que é genérico na condição humana, através do estudo de três atividades fundamentais que integram a vita activa¹: labor, trabalho e ação. O trabalho aqui apresentado é o espaço de compartilhamento com meus leitores. Considerando que ‘ler significa ver o mundo pelos olhos do outro, e escrever significa expressar a própria identidade’. E ainda, que este é tão-somente um livro de histórias espontâneas e breves de um ponto de vista unicamente pessoal sem pretender ferir os direitos inalienáveis da pessoa humana, portanto serão bem recebidas quaisquer contribuições, comentários ou críticas feitas por pessoas idôneas aos causos aqui rememorados. ¹Como observa Bikhu Paresh, no labor o homem revela as suas necessidades corporais; no trabalho a sua capacidade e criatividade artesanal; na ação, a ele mesmo. A ação é fonte do significado da vida humana. É a capacidade de começar algo novo que permite ao indivíduo revelar a sua identidade. (Celso Lafer, p. 345 op. cit.)
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MENSAGEM FINAL (2015)
O presente século da Pós-Modernidade, está em sua plenitude. É um(a) adolescente que hoje completa seus 15, semelhantemente à debutante… no esplendor de sua juventude. Nós que trouxemos a desenvoltura e a experiência do século passado, dele devemos considerar a volatilidade do mundo contemporâneo, e creditar a Deus a esperança de um Ano-Novo remoçado. NGilber A pior herança do “Breve Século XX” [enquanto o mundo contemporâneo está passando pelas mudanças mais profundas e sem precedentes em um século - NG]
Foi o historiador Eric Hobsbawn quem deu ao século XX o epíteto de “breve” no subtítulo de sua obra “Era dos Extremos”. Não obstante a sensação de sua brevidade trazida pelo inédito volume de mudanças ocorridas nessa centena de anos, os extremos a que se referiu Hobsbawn parecem retornar nessas primeiras duas décadas do século XXI – ou talvez tenham permanecido latentes esse tempo todo. Os “extremos” de Hobsbawn dizem respeito à formação de ideologias extremadas características desse período, cuja implementação por meio de ditaduras de diversas matizes políticas – dos comunismo soviético e chinês aos militarismos repressores de extrema-direita na América Latina, passando pelos totalitarismos nacionalistas do fascismo europeu – mobilizaram todo tipo de valores e pretextos para atingir variadas finalidades, mais ou menos escusas, mas sempre gerando consequências políticas de alto custo humano. ¹Maíra Zapater é Doutora em Direito pela USP
Terra Brasilis O Brasil é quase tão grande como a China, mas é uma democracia. O Brasil é quase três vezes maior que a Índia, tem quase o mesmo número de etnias e de religiões, mas vive em paz interna e em paz com os países limítrofes. É quatro vezes maior do que a zona do euro, mas tem um único governo e fala uma única língua. O Brasil é o país onde há mais católicos, mas onde a população vive de forma pagã. O Brasil é o único país onde a cultura ainda mantém características de solidariedade, sensualidade, alegria e receptividade. Domenico de Masi, sociólogo italiano A Teoria da relatividade geral de Einstein (espaço e tempo são flexíveis) “O problema que a minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil”, declarou Albert Einstein (14.3.1879 – 18.4.1955) em 1925 quando esteve no Rio de Janeiro; referindo-se ao eclipse solar total, em 29 de maio de 1919 observado por cientistas em Sobral, no Ceará. NG/2017
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IMAGENS DE UMA ÉPOCA da infância de Bel < A fotografia (1951) mais conhecida por popularizar Albert Einstein no mundo, que aparece mostrando a língua, dia do aniversário de 72 anos do físico. Yuri Gagarin > Astronauta soviético e o primeiro homem a viajar no espaço a bordo da * Vostok 1, em 12 de abril de 1961. *
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*Spútnik o primeiro programa espacial soviético. Levado ao espaço por um foguete também chamado Spútnik, o Spútnik 1 se tornou, em 1957, o primeiro satélite artificial da Terra. No mesmo ano, o Spútnik 2 carregou o primeiro ser vivo a fazer uma viagem espacial, a cadela Laika. ¹Marcelino Pão e Vinho é um filme espanhol de 1955 baseado no famoso livro Marcelino, pan y vino escrito por José María Sánchez Silva. Marcelino, um bebê que foi deixado na porta do mosteiro e criado pelos doze frades franciscanos. Marcelino se torna o protagonista de um milagre pelo divino poder da inocência que marcará para sempre o vilarejo espanhol onde ocorre a história. ²O primeiro Tarzan do cinema sonoro foi também o mais famoso: o nadador estadunidense Johnny Weissmuller. Tarzan ou Tarzã é um personagem de ficção criado pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs 1912. Weissmuller emitiu, pela primeira vez, o famoso grito de vitória de Tarzan. ³Carlos Gardel, nome completo: Charles Romuald Gardès (11.12.1890 a 24.6.1935) Cantor e ator celebrado em toda a América Latina pela divulgação do tango; pela sensualidade de sua voz, que se presta muito bem à interpretação da milonga. 4No quadro Os Retirantes, produzido em 1944, Portinari expõe o sofrimento dos migrantes. Candido Torquato Portinari (Brodowski, 29.12.1903 — Rio de Janeiro, 6.2.1962) foi um artista plástico brasileiro. Portinari é considerado um dos artistas mais prestigiados do Brasil e foi o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional, pintou quase cinco mil obras. Portinari conseguiu retratar em suas obras o dia a dia do brasileiro comum, procurando denunciar os problemas sociais do nosso país. 5Caipira Picando Fumo 1893 - José Ferraz de Almeida Júnior (Itu, 8.5.1850 — Piracicaba, 13.11.1899) é considerado um importante "pintor do nacional", por retratar em muitas de suas obras o caipira paulista. O Dia do Artista Plástico brasileiro é comemorado a 8 de maio, data de nascimento do pintor. 6Operários é um quadro pintado em 1933 por Tarsila do Amaral (Capivari, 1.9.1886 — São Paulo, 17.1.1973) que representa o imenso número e a variedade racial das pessoas vindas de todas as partes do Brasil para trabalhar nas fábricas, que começavam a surgir no país, principalmente nas metrópoles, como em São Paulo na década de 1930, impulsionando o capitalismo e a imigração.
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Histórias restauradas de um tempo perdido
Homenagem ao poeta João Cabral de Melo Neto¹+² ¹João Cabral de Melo Neto (Recife, 9.1.1920 - Rio de Janeiro, 9.10.1999) foi um poeta e diplomata brasileiro. Autor, entre outras obras, de Morte e Vida Severina publicado em 1955: um poema dramático, que relata a dura trajetória de um migrante sertanejo (retirante) em busca de uma vida mais fácil e favorável na capital pernambucana. João Cabral era irmão do historiador Evaldo Cabral de Mello e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre. ²Em tempo, às contribuições do intelectual nos estudos literários Antonio Candido (24.7.1918 a 12.5. 2017) alguém que acreditava no conhecimento e no compartilhamento do conhecimento como forma de construir um mundo mais justo. Estudioso da literatura brasileira e estrangeira, possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. À atividade de crítico literário soma-se a atividade acadêmica, como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Lasar Segall pintor, escultor e gravurista judeu brasileiro (*21.7.1891 Vilna, Lituânia +2.8.1957 São Paulo, Brasil
Rios sem discurso Quando um rio corta, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia; cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água paralítica. Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; e mais: porque assim estancada, muda, e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria. O curso de um rio, seu discurso-rio, chega raramente a se reatar de vez; um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. Salvo a grandiloquência de uma cheia lhe impondo interina outra linguagem, um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate. “A educação pela pedra” João Cabral de Melo Neto (1997, p.21)
Navio de emigrantes (Museu Lasar Segall)
O trabalho de Segall teve influências do impressionismo, expressionismo e modernismo. Seus temas mais significativos foram representações pictóricas do sofrimento humano: a guerra e a perseguição. No ano de 1923, Lasar Segall mudou-se definitivamente para o Brasil. Já era um artista conhecido. Contudo, foi aqui que, segundo suas próprias palavras, sua arte ficou como o "milagre da luz e da cor". Foi um dos primeiros artistas modernistas a expor no Brasil. 78
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'CHEGA DE SAUDADE': É A VEZ DA BOSSA NOVA
Álbum de João Gilberto marca o início do movimento que ganharia o mundo João Gilberto reinventa a forma de tocar violão. Na composição “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ele vem com uma batida sincopada, explorando a riqueza dos acordes dissonantes de Jobim e incorporando elementos do jazz norte-americano: é o nascimento da bossa nova, uma revolução na música brasileira. No final dos anos 1950, o Brasil passava por grandes transformações políticas, econômicas, culturais e sociais. O presidente Juscelino Kubitschek enfatizava a modernização e o desenvolvimento, acelerando a industrialização e a urbanização e permitindo a formação de uma nova classe média. Essas mudanças se refletiam também na produção cultural, que buscava novos padrões estéticos em diferentes áreas, sintonizados com um ideal de cosmopolitismo, mas ambicionando a criação de referências nacionais. É nesse contexto que a bossa nova surgiu como gênero musical, rompendo os padrões tradicionais da canção brasileira, que tinha o samba e o samba-canção como parâmetros essenciais. A nova forma de cantar dialogava com o samba, mas incorporava a cadência e os temas mais intimistas do jazz. O novo gênero remetia a um Brasil solar, praiano, luminoso e surpreendentemente jovem. Era uma novidade extraordinária, que nem todos assimilaram na primeira audição. Os mais resistentes apontavam a “alienação” dos principais compositores do movimento, enquanto outros criticavam a influência norteamericana. A bossa nova, no entanto, influenciaria gerações de músicos no Brasil e no mundo. Antes, porém, da gravação de “Chega de Saudade” por João Gilberto, alguns precursores já vinham apontando tendências na forma de cantar, influenciados pelo cool jazz dos Estados Unidos — Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf e o conjunto Os Cariocas, entre outros. Num segundo momento a ruptura foi mais intensa, com origem nas experimentações de um grupo de compositores, quase todos muito jovens, interessados numa sonoridade que fugisse ao rebuscamento dos sambas-canção e ao convencionalismo do repertório então vigente. Faziam parte nomes como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, Sylvinha Teles, Oscar Castro Neves, Chico Feitosa, Luiz Carlos Vinhas, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Dom Um Romão, Wanda Sá e os irmãos Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle, além, é claro, de Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes e a musa Nara Leão — que fora anfitriã e adversária da bossa nova até se tornar, finalmente, sua intérprete definitiva. Como movimento musical, a bossa nova teve vida curta e intensa: surgiu em 1958 e durou até por volta de 1963. O movimento inventou um gênero musical, criou uma novidade rítmica capaz de virar o samba ao avesso, desfiou harmonias inusitadas e inaugurou um estilo contido de interpretação. No plano da linguagem, a temporalidade da bossa nova era outra: durante todo o século 20 ela serviu, ao mesmo tempo, de âncora e de horizonte para a canção popular brasileira. Nesse plano, a bossa nova era Tom Jobim e João Gilberto. Tom foi decisivo na definição dos rumos da harmonia, isto é, no jeito de agregar um acompanhamento instrumental à melodia cantada. João Gilberto inventou a batida da bossa, com um jogo de equilíbrio entre o ritmo do canto e o do violão, em que cada sílaba cantada ocupava um lugar milimetricamente sintonizado com os ataques de acorde e os baixos do violão. Em 1958, quando eles se encontraram para gravar o primeiro álbum de João Gilberto, surgiu um modo diferente de fazer música, que não estava inscrito na tradição, e isso era bossa nova: o samba ritmicamente simplificado numa batida, capaz de acomodar as harmonias mais complexas e sofisticadas. A bossa nova estaria na raiz dos principais acontecimentos musicais da década seguinte: os afrossambas de Baden Powell, a canção de protesto contra a ditadura, o tropicalismo, o Clube da Esquina. Como tudo o que é novo e faz sucesso, a bossa nova também virou marca e logo seria associada a todo tipo de produtos, no Brasil e nos Estados Unidos: calçados, eletrodomésticos, óculos, leite em pó e até um jeito esquisito de se pentear. A marca desencadearia uma febre comercial e serviria para associar aos produtos a ideia de ousadia, juventude e modernidade. A bossa nova seria assimilada por todas as músicas populares do planeta, a começar pela Europa e Estados Unidos, e passaria a ser sistematicamente gravada por grandes astros internacionais — em 1967, isso significaria, por exemplo, sustentar o repertório de um álbum inteiro de Frank Sinatra, “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”. O novo gênero forneceria aos brasileiros a senha para acelerar o tempo e criar, em cinco anos, algo capaz de vencer o subdesenvolvimento — ao menos no campo da cultura. Seria um modo de mostrar o que o país tinha de melhor e confirmar sua viabilidade: um Brasil moderno, cosmopolita, sofisticado, belo e livre.
http://memorialdademocracia.com.br/card/a-bossa-nova-revoluciona-a-cancao-brasileira
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