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brazuca negão e sebento © Jean-Christophe Goddard, 2017 © n-1 edições, 2017

Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada. coodernação editorial Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes assistente editorial Isabela Sanches projeto gráfico Érico Peretta tradução Takashi Wakamatsu revisão da tradução Fernando Scheibe preparação Humberto Amaral revisão Roberta Vasconcelos Esta tradução foi discutida e aprimorada no quadro da “Fabrique des traducteurs” do Collège International des traducteurs littéraires de Arles. imagem/capa: Guilherme Piso - 1648 imagem/2a capa: Albert Eckhout

Esta edição só foi possível graças ao apoio especial de heloísa etelvina fonseca, maria luisa beer (marilu), maria therezinha bassi nascimento, sheila mann, amnéris maroni, andrea carvalho, brenda gottlieb, bruno cabral, carolina de nadai, clarisse graubart tzirulnik, debora ganc, eda canepa, eva castiel, fabiana benetti, isadora maia pereira de carvalho, ivone garcia, josé victor facciola, lucilia atas medeiros, malu carneiro campos, maria marta burti, maria veloso bastos, pedro selma tavares, sonia sobral de lima, thais costa e vivian steinburg.

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Brazuca negĂŁo e sebento prefĂĄcio eduardo viveiros de castro

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ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos iii me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de ‘barbarus — non intellegor ulli’ — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, contemplo a considerar o cais, o mar, as nuvens, os enigmas e os prodígios de brasília. paulo leminski (Catatau)

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SENÃO DA HILEIA eduardo viveiros de castro SENÃO DA HILEIA 09

por Eduardo19 Viveiros de Castro BENTO DE ESPINOSA FRANNY DELEUZE 25ESPINOSA BENTO DE FRANNY DELEUZE DINA LÉVI-STRAUSS 31 DINA LÉVI-STRAUSS HELIOGÁBALOHELIOGÁBALO 47 CARTÉSIO CHAYA OHLOCLITORISPECTOR CARTÉSIO 55 GALLI MATHIAS CHAYA OHLOCLITORISPECTOR 65 JEAN-BAPTISTE-THÉODORE-MARIE-ROSALIE BOTREL GALLI MATHIAS 75 DAVI KOPENAWA GLAUBER DAS MORTES 87 JEAN-BAPTISTE-THÉODORESÃO BENTO MARIE-ROSALIE BOTREL 95

DAVI KOPENAWA

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GLAUBER DAS MORTES

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SÃO BENTO

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SENÃO DA HILEIA eduardo viveiros de castro

Ces formes bizarres qu’on voit flotter dans la nuit, aux premières heures du matin! 1 sony labou tansi

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rata-se antes de mais nada de saber o que não escrever no átrio prefacial desse texto pantofágico no qual um supostamente austero professor francês de filosofia, autoridade de renome internacional na obra de João Amadeu Pinheirinho (no original, Johann Gottlieb Fichte) entra em estado de esquizo-estupefação criativa diante da impossibilidade de domesticar pelo conceito a “condição brasileira” e se põe a divagar furiosamente a partir de um célebre episódio alucinatório do herege judeu ibérico Bento Espinosa, trans/confundindo-o para/com o estupor do Descartes leminskiano do Catatau. O autor põe-se assim a disparar flechas farpadas a torto e a direito, como um daqueles

1 “Essas formas bizarras vistas flutuando no meio da noite, nas primeiras horas da manhã!” [n.e.]

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arqueiros mitológicos das narrativas indígenas, que só acertam no alvo quando estão olhando para um outro lado, em qualquer direção menos aquela onde está a presa. Às vezes elas erram, resultado duplamente necessário de todo texto errante.2 Muitas vezes acertam, quando o arqueiro mira o lado errado certo. Erram para acertar, acertam quando erram. Mas ninguém sai ileso dessa antropojaguaromaquia fantástica. Menos que tudo, sai ilesa a Nação Brasileira, essa ideia europeia materializada em uma monstruosidade inabarcável pelo Cogito, e que termina aqui carnavalescamente destotalizada em um Brasil-1. O Brasil que o olhar europeu, seja ele o dos europeus que vieram aqui dar uma olhada — prediletos mas não exclusivos alvos das flechadas anticristofóricas —, seja o daqueles tantos brasileiros que “têm olhos, mas não veem”. Nós. Outros. E muitos outros nós que não atam nem desatam. Duas coisas a evitar fazer, eu me dizia, diante desse texto sobre o impossível-impensável de “nossa condição”. Fosse aparelhá-lo ao modo crítico, revelando jornalisticamente as fontes e as farpas à clef, ou academizando-o com uma abundância de elucidações da matéria caoticamente alusiva do texto — afinal, entendidos entenderão. Fosse, ao contrário, deixar-se contagiar completamente pelo extilo de Pyagachu, o que sairia (saiu) redundante, já que o autor mergulha de cabeça em uma multiplicidade paródica de vozes alheias, mistura línguas e culturas, países e continentes, eventos e registros retórico-miméticos, convoca 2 “Errar”, em grego, tinha o sentido original de “não acertar o alvo [com a flecha]”; esqueçamos, por impertinentes, as conotações teológico-morais que hamartia, hamartánein assumiram com o cristianismo.

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meio mundo e mais um pouco como interlocutor, inspirador, musa, exemplo, simulacro, amigo, anti-duplo, inimigo; impreca e louva, escarnece e se apaixona, passa da digressão à agressão, da elegia ao elogio, do sarcasmo ao maravilhamento, da paranoia à metanoia; equivoca multivocamente em sua conversão perversiva a um Brasil delirantemente real. (Imagine-se um Pilgrim’s Progress panteísta originalmente escrito em occitano de baixo calão e adaptado por um Boca do Inferno baiano-barroco teleportado ao século xxi. Radicalidade da tradução, aliás, levando o excesso do original a excesso e meio — contracanibalização.) Enfim — enfim, “não tente fazer isso em casa”: nem glosar o gozo alheio, nem desentranhar dele uma disputatio escolástica, caindo na esparrela do debate, nem desvitalizar essa proliferação ululante de filosofia nua, como se fala em “vida nua”. Vamos fazer o possível para não fazê-lo aqui. É claro que sempre se pode dizer diante desse ensaio, dando de ombros e revirando ironicamente os olhos: “porra, lá vem mais um francês tentando nos explicar para nós mesmos; quem ele pensa que é?” Com efeito. Mas esse ensaio sai da linha. Não é mais uma interpretação do Brasil, é uma interpenetração com o Brasil, uma tentativa de pensar com o Brasil, não sobre ele. Um país tanto mais imaginário quanto mais real. O que o autor vê é o outro de/em “nós”, o outro que não queremos ser, ou que imaginamos não ser enquanto insistimos em sê-lo à nossa “própria” revelia. Rebeldia à revelia. E esse francês gulosamente intragável — mas já não estará ele aqui sendo sardinhamente comido pelos alter-brasílicos, deblaterando de dentro de nossas entranhas? — samba na cara de praticamente todo mundo. O que ele busca é desexplicar o Brasil e o vasto mundo afim, inventado

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pelos europeus, pelos filósofos e antropólogos (franceses, majoritariamente). Explicar pela barafunda, pela babelização — pela “multiplicação do múltiplo”, para evocarmos o aqui vilipendiado Pierre Clastres, que nosso autor acusa de edipianizar os Aché, esquecendo (é seu direito…) da magnífica invenção clastreana da máquina de guerra contra-o-Estado, tão crucial para os autores d’O anti-Édipo.3 Explicar, enfim, aos trambolhões gaguejantes, en bafouillant, dir-se-ia na língua nativa do autor. Bafouiller — béaba-fouiller. Gaguejar-escarafunchar no analfomegabetismo de todas as línguas. Um outro tipo de francês então, em situação de devir-índio-negro (“toda vez que tocam os atabaques chamando o santo, cai um francês”, diz um compadre meu especialista em heterogêneses étnicas), contra os brancos daqui e de lá. Contra, primeiro, si mesmo, é claro. Bolou no santo. Botou cocar. Entrou pela caatinga adentro. Não consegui não me contagiar um tanto, como se vê, nem deixar de atirar uma flechinha de través. Alego em minha defesa que sou cúmplice de j.y. Pyaguachu; afinal fui eu quem sonhou a diferOnça, um dos anti-conceitos que desguiam seu texto errante, assim como quem lhe apresentou Oswald e Clarice e lhe emprestou o Catatau, certa noite em Botafogo. “Estou aqui porque me chamaram.” Terei a cara de pau, então, de arrogar o 3 Deleuze & Guattari estão entre os pouquíssimos colegas de Pyaguachu para quem não sobra alguma lapada séria no Brazuca. Eles são translidos aqui como se se chamassem Oswald & Guaraci, e/ou F[r]anny (Deleuze) & Dina (Lévi-Strauss). Diga-se de passagem que Gilles Deleuze — ou Egídio da Azinheira, em português — recebeu a etnografia aché-guayaki de Clastres de todo um outro modo que Pyaguachu. Ver “Des Indiens contés avec amour” [1972] in Deleuze, Lettres et autres textes, pp. 194-97. Paris: Minuit 2015 [Ed. bras.: Cartas e outros textos, trad. de Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: n-1 edições, 2017].

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Brazuca, negão e sebento como uma involução ou re-implicação apropriativa da diferOnça (e do paideuma de que ela se reclama mais ou menos explicitamente), entre as muitas outras inspirações, de muitos outros, desse texto. Caminhamos. O brasileiro negro e imundo da visão fugaz de Espinosa é o estopim que detona a bomba leminskiana de Pyaguachu: a Olinda-Holanda, o Pernambuco batavo mas sobretudo índio, negro e sefardita, cuja escaldante natureza perpetuamente naturans enlouquece toda geometria analítica e assedia a imaginação de um Descartes imaginário com multidões de gênios malandros materializados em quimeras fitozoomórficas. O filósofo racionalista de Catatau revive aqui sob a forma de um de seus mais ilustres discípulos traidores, Espinosa, travestido deleuzianamente de Artaud-Heliogábalo. Espinosa é ao mesmo tempo interlocutor e máscara do autor, um pouco como aqueles fantasmas dialogais ou autorais de Clarice n’A paixão segundo g.h. ou n’ A hora da estrela — e que são o correlato invertido do Branco inaudível, pois todo ouvidos, de Rosa, à escuta, caderno na mão, dos devaneios e desvarios de jagunços gays e de curibocas canibais possuídos por um devir-onça, um déjàguar instantâneo, infinitivo, guerreiros trágicos da matrianarquia oncesca de Pindorama. E por cima do Rosa mineiramente neoplatonizante e da judia-pernambucana Lispector, a mais radical pensadora espinosista brasileira (Rosa é fera, mas Clarice é foda), paira o vulto bigodudo do carateca afropolaco dipsômano que pariu, na mui improvável Curitiba, o monstruoso Catatau, livro ilegível, anti-romance, um Finnegans Wake tropical. Azar (?) o nosso que tenha sido escrito em (im)português, como aliás azar de Joyce, aquele irlandês sebento (Virginia Woolf o desprezava: “um operário autodidata”;

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“um adolescente nauseabundo espremendo suas espinhas”), azar o seu ter de escrever em inglês? Mas Joyce se vingou e espatifou antropofagicamente a língua do colonizador, partindo (d)ela para gerar um meta-mito glossolálico e poliamorfo que sublevava (sublação e subversão) o outro mito anterior, o Ulisses, fechando duplamente o ciclo “do mito ao romance” (Dumézil, Lévi-Strauss) com um mito circular e intensivamente infinito, riverrun amazônico. Um herói celta bêbado, Finícius, revindo depois do herói homérico, emblema da finória grecidade eurometafísica. Glauber foi um que se banhou nesse riverão, e comparece com honras aqui nessa navilouca de pensadores do mundo em clave pindorâmico-sertaneja. Sertão. Pyaguachu encontra o Brasil-sertão na França fanny-deleuziana do platô de Millevaches e das Cevenas: “um Brasil interior à França”, contra a França fim-de-século que LéviStrauss vê no Rio de Janeiro dos anos 1930, contra o “minueto sociológico” de opereta que ele vê na São Paulo burguesa. LéviStrauss não entendeu nada do país em que arribava: a “sociedade” brasileira foi demasiado rapidamente racionalizada por ele, a natureza tropical ultrapassou o limiar de sua sensibilidade. A baía de Guanabara “pareceu-lhe uma boca banguela”. Os cariocas, mesmo aqueles antropólogos e estruturalistas, jamais o perdoaremos por essa falta de educação com a pedra e pela pedra… Já sua caracterização sarcástica da cena paulistana e da usp mesquitiana não chega a nos parecer completamente imprecisa. Enfim, para Goddard, o professor francês não fez mais que passar. Rasurou memorialmente sua cara-metade nos Tristes trópicos, bloqueou qualquer possibilidade de devir-mulher de sua escritura. Os trópicos lhe pareceram tristes, quando estavam, e estão, para além

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da alegria e da tristeza — o que não impede que continue a valer a prova dos nove. Tout un peuple entassé dans un pressoir saignait en chantant…4 (Houvesse Espinosa labutado em um sobrado do Recife seiscentista, teríamos hoje toda uma outra Terceira Parte da Ética). É óbvio que Lévi-Strauss fez muito mais e muito melhor que falar mal dos trópicos; mas não cabe buscar querela (é preciso ler Lévi-Strauss à luz de Oswald de Andrade, pulando por cima do lado careta do primeiro — afinal, um apenas dentre seus muitos outros lados), já que o problema de Pyaguachu é muito diferente — e de qualquer modo, a parcialidade é seu forte. Ele persegue outro filão, se alista em outra fila: a dos estrangeiros que se compenetraram com o outro Brasil, indígena, negro, caboclo, meridional de cabo a rabo; os Pierre Fatumbi Verger (“Pierre Verger”, literalmente “Pedro Pomar”, curiosa coincidência onomástica), os Curt Nimuendaju Unkel, as Gisèle Omindarewa Cossard-Binon… Os exilados, os desertores, os que não voltaram, os que sintonizaram o infinito intensivo da vida sempre supra-orgânica e infra-orgânica de Pindorama, o cipoal e a pedra; a floresta rizomática e o espaço liso do sertão; o terreiro e a terra. Não esqueçamos, bem entendido, de Céline, outro farol luminoso na tempestade do “textão” de Pyaguachu, seu fiel admirador. Céline, contra-rima de Racine: o escritor do rizoma (…, …, …) contra o escritor da raiz. O francês do Grand Siècle vestido de grego declamando em alexandrinos vale exatamente o mesmo (do rizoma à risota) que o índio vestido de senador do Império do Manifesto Antropófago — ou o antropófago 4 Apollinaire, roubado de uma das epígrafes da Invenção de Orfeu. [“Um povo inteiro entalado numa prensa sangrava cantando” n.rt.]

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manifesto, como readjetivou Beatriz Azevedo —, o texto infundador “da única filosofia original brasileira” (Augusto de Campos). Já Céline …, …, … gênio perverso da língua anti-raciniana, o maior reinventor do francês desde Rabelais, e suas tiradas furibundas tiradas do fundo das trincheiras: “Personne comme les généraux pour aimer les rosiers. C’est connu.”5 Goddard, o desertor sur place, o vidente não-viajante que tem medo de avião (quem não tem?), aquele que se embriaga com um copo d’água, como dizia, citando Henry Miller, o ex-bebum g.d. (“j’ai beaucoup bu…”), por coincidência o maior filósofo francês do século xx, que também jamais viajava e que, como me disse uma vez Pyaguachu, nunca inventou nada, roubou tudo dos outros — inclusive e sobretudo o que ninguém sabia que eles tinham, eles inclusive — e a partir desse saque extraiu uma enfiada de sacadas geniais. Antropologofagia filosófica. Como nosso autor. Presença de A queda do céu, que mandou Tristes trópicos de volta ao remetente. O xamã contra o filósofo, o onirismo da figura contra o onanismo do conceito. Faltou talvez — um só pequeno fragmento de mosaico faltante nesse painel etnoesquizo em que não falta nada — fazer descer pra ver a Sousândrade, o discreto visionário que virou o discurso romântico pelo avesso, que ocupou Wall Street muito antes de. Que comeu as pedras de sua fazenda — a manducação pela pedra… O Swedenborg inca que deskantianizou a metafísica hiperbórea com seu Tatuturema, o hino canibal da hileia invencível. Nosso Senão. E fico por aqui. Espantem-se. 5 “Ninguém como os generais para gostarem de roseiras. É sabido.” [n.e.]

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Jean-Christophe Goddard

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