Café Borromeano

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Zine Clínicas de Borda

Coletivo psicanalítico Café Borromeano

Coletivo psicanalítico Café Borromeano, 2025

Editora n-1, 2025

Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada.

Editores Chefes

Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes

Coordenação editorial

Gabriel de Godoy

Projeto gráfico

Isabel Lee

Organização da coleção

Andréa Guerra e Linnikar Lima

Coordenação da coleção

Andréa Guerra

Comissão editorial das Zines

Andréa Guerra

Gustavo da Silva Machado

Jairo Carioca de Oliveira

Linnikar Lima

Luis Henrique Mello

Luísa Ribeiro Lamardo

Marcela de Andrade Gomes

Maria Elisa da Silva Pimentel

Maria Izabel dos Santos Freitas

Miguel Pinheiro Gomes

Renata Santos Cravo

Vanessa Solis Pereira

Edição e revisão

Luis Henrique Mello

A reprodução parcial deste livro sem fins lucrativos, para uso privado ou coletivo, em qualquer meio impresso ou eletrônico, está autorizada, desde que citada a fonte. Se for necessária a reprodução na íntegra, solicita-se entrar em contato com os editores.

1ª edição | Novembro, 2025 n-1edicoes.org

Zines Clínicas de Borda

Coleção:

1. Coletivo de Psicanálise de Santa Maria (Santa Maria/RS)

2. Pontes da Psicanálise (Recife/PE)

3. Dispositivo de Escuta Periphérica Xica Manicongo (Campo Grande/RJ)

4. QUIMERA: Circulando afetos (Niterói/RJ)

5. Psicanálise na Praça da Alfândega (Porto Alegre/RS)

6. Coletivo de Psicanálise Itinerâncias (Porto Alegre/RS)

7. Ateliê das Migrações (Florianópolis/SC)

8. Rede DIVAM (São Paulo/SP)

9. Coletivo psicanalítico Café Borromeano (São Paulo/SP)

10. Coletivo escuta do Monte Verde (Florianópolis, SC)

COLEÇÃO DE ZINES DAS CLÍNICAS

DE BORDA BRASILEIRAS

Freud modifica seu olhar sobre o inconsciente ao longo de sua obra: se, no início, o pensou como profundidade, ao fim nos indica que o inconsciente pulsa nas margens. É desse lugar que nasce a Coleção de Zines das Clínicas de Borda Brasileiras, aberta a novos fascículos, fruto da experiência compartilhada de psicanalistas inconformadxs com as respostas de sua clínica e de sua formação diante da realidade nacional marcada pela brutalidade e pela violência estrutural. Reúne experiências múltiplas e plurais, sem reduzi-las a um “mínimo comum”; ao contrário, afirma o vigor da práxis psicanalítica na transformação de sujeitos, processos, espaços públicos, modos de pertencimento e participação, e nos próprios caminhos de formação.

Nasceram da resistência dos movimentos plurais e das vidas teimadas nas periferias, favelas, praças, margens, estações, ocupações e quilombos. Erguem-se como resposta aos genocídios, suicídios, chacinas, feminicídios e homicídios, às violências do racismo e do desamparo, aos deslocamentos migratórios forçados. Seu fazer é da rua e com a rua: uma psicanálise que transgride as normas burguesas, sustenta o laço transferencial onde a vida pulsa e dá nome, com tempo e presença, a corpos apagados no cotidiano.

Reinstituem o necessário na teoria e na prática ao revisitar as clínicas públicas e populares desde os gestos inaugurais do campo freudiano, agora reviradas pela experiência da Améfrica Ladina. Em elipse, viram o espelho ao avesso, atravessam fronteiras disciplinares e urbanas, e marcam, em ato, o cinismo e a indiferença contemporâneos com novos arranjos de partilha e presença. Saem do consultório individual burguês para ocupar praças, escolas, centros comunitários e plataformas digitais, recebendo analisantes online e em cadeiras ao sol, escutando o sofrimento onde ele se enuncia.

Colocam o pagamento em xeque e não mais no cheque. Trazem a marca do território, da língua, dos sotaques e das gírias que fazem o Brasil múltiplo, redistribuem-se em cada canto do país e tensionam a circulação do capital e as respostas do inconsciente diante das violações diárias. Interrogam os fundamentos da própria noção de clínica e a lógica excludente

da formação do psicanalista, recolocando a psicanálise na polis: atravessada pelas margens, comprometida com o comum e responsável perante as vidas que insiste em escutar. Elas não estão todas reunidas aqui; esta coleção permanece aberta, chamando novas presenças para seguir escrevendo esta história.

1. FAZER UM COLETIVO

O que fazemos quando nos reunimos em um coletivo de psicanalistas?

No processo de escrita dessa zine nos deparamos inúmeras vezes com essa pergunta e tivemos muitas oportunidades de discutir não só o que é fazer um coletivo mas o que era o fazer diário do nosso coletivo, em especial, o que era essa prática clínica psicanalítica pensada e feita em coletivo, sua motivação, seu lugar, sua diferença, seus impasses. Um traço nos chamou a atenção quando começamos a pensar em nossa atuação. Ao longo dos últimos anos, muitos coletivos de psicanalistas surgiram no Brasil, dispostos a escutar determinadas camadas da população, marginalizadas, excluídas ou periféricas, grupos que não encontram muitas vezes nos dispositivos públicos um lugar onde possam falar de seus sofrimentos.

A ideia e a vontade de formar o nosso coletivo aparecem em meio a cafés nos intervalos de uma atividade universitária onde se discutia o Seminário 23 de Lacan. Ali, tanto o encon tro quanto a discussão teórica e clínica efetivaram um laço, um café borromeano. Contudo, fomos todos atravessados pelo advento da pandemia de Covid-19.

Curioso querer formar um coletivo no momento em que a própria noção de bem coletivo atingiu um dos seus pontos mais baixos, escancarando fraturas históricas do tecido social brasileiro que sempre existiram, mas que se intensificavam há quase uma década. A pandemia foi da ordem da catástrofe, rápido demais nos confrontou com a degradação do discurso e com a impotência diante da morte possível e premente. Por outro lado, desacelerou o tempo comum, nos distanciando e isolando uns dos outros, e nos lançando num tempo dilatado, como o do sintoma, quando não há palavras que possam simbolizar o ocorrido.

Não é a primeira vez que a humanidade se vê diante de eventos-limítrofes. O filósofo alemão Walter Benjamin

alertou para o fim do relato em consequência do esgotamento da experiência que lhe originava. O horror vivenciado nas trincheiras da Primeira Guerra havia emudecido aqueles que retornaram; o choque teria liquidado a experiência transmissível e, por conseguinte, a experiência em si mesma.

As formulações freudianas sobre o conceito de trauma, elaboradas, entre outros textos, em Para além do princípio do prazer (1920), buscam responder de que maneira acontecimentos violentos estariam associados à etiologia da neurose, explicitando seu caráter excepcional e acidental. A experiência traumática é a que não pode ser assimilada. A linguagem circunscreve aquilo que não foi submetido a uma forma no ato da recepção, isto é, o Real – que não pode ser simbolizado, porém, sem nunca acessar seu conteúdo.

Por que narrar o trauma?

Nas sociedades marcadas por períodos de redemocratização, como a nossa, digladiam-se duas linhas de força: por um lado, a que impõe o silêncio; de outro, a necessidade de lembrar (para poder esquecer). Em uma dimensão mais subjetiva, a falta está inscrita no corpo-texto do sujeito do testemunho. No limite, não se pode representar os ausentes. Aquele que sobrevive assume em primeira pessoa a voz daqueles que foram as vítimas totais da catástrofe: os mortos.

Na esteira da ruptura traumática promovida pela guerra, Freud pode captar esse espírito a partir de 1919,

quando propôs em Viena uma clínica pública e aberta, que pudesse estender o atendimento psicanalítico às pessoas em situação de pobreza e miséria, em uma tentativa solidária de reconstituição do laço social.

Não foi apenas uma pessoa que morreu, foi o tempo. Renato Tapajós, Em Câmara Lenta, 1977

Como nos aponta o psicanalista Gilson Iannini em seu artigo “Psicanálise e Necropolítica” (2022), publicado na revista Cult, “embora ela pareça se distribuir igualmente entre os humanos, o modo como a economia psíquica da morte incide nos corpos é claramente segmentada conforme marcadores de raça, classe, gênero, idade, religião e outros”. A necropolítica, conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe, pode ser descrita como “a gestão política da morte, isto é, como o conjunto de dispositivos e de técnicas que decidem quais corpos são matáveis e quais não são”, cita Iannini.

Segundo J. Broide, “a psicanálise se inova na crise social. É a escuta das demandas do nosso tempo que mantém o nosso saber vivo e criativo, obrigando-nos a dar conta do sofrimento e da miséria que se apresentam diante de nós enquanto algo desconhecido e que nos questionam eticamente”. A ideia do agrupamento de psicanalistas em um coletivo não é, portanto, nova, mas toma contornos inéditos diante desse estado de crise permanente que mostra a falência do Estado em suas tentativas de atendimento mais básico e digno à população.

O coletivo Café Borromeano se constitui a partir do desejo de sustentar uma prática clínica, chamada de Papo (Plantão de acolhimento psicanalítico, a princípio, online), com o objetivo de acolher o sofrimento psíquico, em especial naquele momento em que a escuta e os laços eram tão necessários. A oferta dessa clínica é de até cinco sessões gratuitas, online ou presenciais. A aposta do coletivo é de uma escuta a partir de uma ética, em que o desejo e o inconsciente possam aparecer, fazendo

oposição ao que é protocolar que, normalmente, se encontra em instituições de saúde mental. Poder sair da lógica do diagnóstico ou do que poderia ser tomado como um “direito” e dar consequência ao que o próprio paciente decide para sua própria experiência, abrindo para uma possível análise.

Oferecer uma escuta psicanalítica a toda e qualquer pessoa, independente de raça, classe, gênero, orientação sexual e/ou posição política, que deseja falar sobre seu sofrimento psíquico. Rompendo assim com um modelo de clínica sedimentado nos consultórios e introduzindo novas formas de acolhimento e escuta do sofrimento humano.

A experiência do Papo nos ensina cotidianamente que há um para-além dos consultórios, nos confrontando com as incidências do discurso capitalista sobre nossa época, na qual se afunila o espaço de fala e a possibilidade de elaboração do sofrimento.

O coletivo assume então uma posição democrática em seu ato de abertura e acolhimento do sofrimento, sem distinção e delimitação de quem está ou não autorizado a falar sobre seu sofrimento, opondo-se à uma lógica neoliberal e segregativa de controle dos corpos. Fazendo da reinvenção da clínica um ato e instrumento político contra a sombra da segregação. Ofertar o dispositivo psicanalítico de escuta a quem muitas vezes nunca pode ser ouvido em sua singularidade é nosso desejo e aposta ética de trabalho.

Onde fica o Café Borromeano?

Não é irrelevante que nosso coletivo tenha nascido na pandemia de Covid-19, onde na distância dos corpos, inventava-se modos de laço em um espaço virtual. Os coletivos parecem marcados pelo desejo de levar adiante o projeto de uma psicanálise na cidade, uma psicanálise avisada de que é política, queira ou não. Se o psicanalista pretende introduzir com seu desejo, certa atopia, ele o faz em algum lugar e o virtual se firmou como um lugar possível de ser ocupado. Tampouco é um lugar sem consequências, como poderíamos entender por uma das acepções da palavra que o define como “existente apenas em potência ou como faculdade, sem efeito real”.

A questão da proximidade dos corpos é uma questão presente para nós, para esse coletivo que se funda em uma certa virtualidade, mas que não cessa de fazer presença, tanto para os que recebemos em nossa clínica quanto para os próprios participantes do coletivo, e que, talvez, encontre sua especificidade na escuta e na produção dos efeitos reais de se ocupar um lugar virtual.

2. FAZER LAÇO

Entrevista com as fundadoras do coletivo por Roberta Maria

O que motivou cinco mulheres a fundar um coletivo de psicanálise? Quais desejos estão por trás de um projeto como o Papo, que desafia os moldes do atendimento tradicional? Motivada por esta edição, percebi que muitas das minhas perguntas não estavam respondidas em textos institucionais ou estatutos, nenhuma apresentação de slides conseguia transmitir a essência do coletivo além do Papo. Para saciar minha curiosidade, em plena segunda-feira enviei áudios às seis fundadoras do coletivo:

Qual foi a motivação em participar da fundação do coletivo?

Fiquei pensando como alguns espaços de estudo da psicanálise são fechados, com intimidadoras sabatinas quando um caso clínico é apresentado. E como um coletivo pode ser uma resposta fecunda e horizontal para nos dar voz, deixando o grande Outro um pouquinho menor…

Ela relembra momentos descontraídos que acabaram gerando a ideia de um grupo que pudesse “fazer com que as pessoas conhecessem a psicanálise e se encantassem por ela”. Inicialmente, o projeto passou por várias ideias, palestras, containers itinerantes, até que, com a chegada da pandemia, a necessidade de acolhimento imediato levou ao formato atual do Coletivo.

Me emociono ao ouvi-la falar sobre pertencimento e o desejo de continuar. “Está indo para o quinto (ano), e isso é muito, é muito gratificante para mim.” No final da entrevista, Re se entrega, com a clareza de quem encarou a possibilidade da morte, à satisfação de participar de um projeto de significativo impacto social. Regiane teve o corpo marcado pelo câncer, reservada, pouco expunha sua condição que se mostrava em um real que não se cala, e no imaginário que se refaz em cada novo reflexo. A câmera que se abre e a câmera que se fecha, a imagem na tela que muda com o tempo… onde o corpo se torna palco daquilo que não se diz, mas se sente em cada célula, em cada palavra que tenta, e falha, em dizer. Essa é a importância do coletivo, agora com ‘c’ minúsculo; a gente não se faz sozinho, nosso ser é estruturado na relação com Outro. Os analistas membros foram sendo marcados pelas contingências da vida. E o Coletivo, agora com ‘C’ maiúsculo, se constrói também nos efeitos desses atravessamentos.

Mal sabíamos, e o mal aqui faz sentido, que aqueles cinco anos, que a Re tão entusiasmada anunciou, seriam celebrados sem sua presença. Mas o tempo, esse Real que insiste, nos trouxe, adivinhem só, o depoimento da Lylian, em plena terça à noite e sua lembrança: não por acaso, mas a tempo, como só o desejo sabe chegar.

O que fica claro é que o Café Borromeano não se reduz ao Papo, tão pouco é apenas um projeto clínico. É uma resposta coletiva às demandas de um tempo em que as questões sociais, raciais e de gênero não podem mais ser ignoradas. As fundadoras compartilham uma visão comum de transformar a psicanálise em uma ferramenta de resistência e inclusão, sempre em constante reinvenção. a história da psicanálise foi marcada pela predominância masculina, se consolidando como pilares do pensamento psicanalítico, enquanto as contribuições das mulheres foram invisibilizadas. Esse apagamento reflete não apenas uma questão de gênero, mas uma estrutura de poder que moldou as narrativas de produção intelectual na psicanálise, deixando em segundo plano as contribuições e as vozes femininas que desafiaram e enriqueceram a compreensão do inconsciente humano. Hoje, o resgate dessas trajetórias esquecidas evidencia o quanto a psicanálise ainda precisa evoluir para integrar, de fato, as contribuições de todas as suas participantes. o coletivo cresceu, de 6 somos 30 analistas de todes os tipos, grupos de leitura, de supervisão e de trabalho. São quatro anos e meio construindo um espaço colaborativo de escuta ética. Assim como a psicanálise, o Coletivo segue vivo, pulsante e em constante construção. Hoje sustentado não apenas pelas fundadoras, mas pelo desejo de todos os seus membros. O que virá a seguir? Talvez, mais cafés, mais conversas, mais acolhimento. Seguimos desejantes, no laço das transferências de trabalho e de amizades.

3. FAZER O CAFÉ

Trabalhar em um coletivo de psicanálise que se propõe a realizar atendimentos gratuitos é sustentar a posição de que todos podem ter acesso à psicanálise a despeito das condições materiais.

Ocupar espaços públicos de escuta tem se mostrado essencial, não só por uma carência da população e dos instrumentos de saúde, mas também para a sobrevivência da teoria analítica.

Se nós analistas temos como horizonte alcançar a subjetividade de nossa época, estar em espaços onde a democratização da prática é discutida e viabilizada é tão importante quanto estudar conceitos metapsicológicos.

Estar em coletivo é ainda algo que possibilita o encontro de pares. Não é à toa que nos denominamos Café Borromeano: o café como símbolo de receptividade da palavra do outro e de uma outra relação com o tempo que não a da produtividade liberal da rotina.

Papo – Plantão de Acolhimento Psicanalítico

É o dispositivo clínico do nosso coletivo, aberto e gratuito, com duração limitada, de até 5 sessões.

Atendimento Psicanalítico

Dispositivo clínico pago, sem valor e tempo de tratamento pré-determinados.

Plantão de acolhimento psicanalítico institucional

Devido à carência de espaços de acompanhamento psicológico individual gratuito dentro de instituições de acolhimento, o coletivo estabelece parcerias com esses locais a fim de atender as demandas que surgem por

esse serviço, bem como oferece a interlocução com os responsáveis pelos encaminhamentos através da discussão dos casos. Atualmente o coletivo é parceiro da Vara de Violência Doméstica da Vila Prudente e com o a pesquisa do PrEP 15-19 da faculdade de Medicina da USP.

Coado – Conversação de Acolhimento de Demanda

Projeto que recolhe e atende demandas institucionais e grupais, visando por meio do dispositivo da conversação construir um saber sobre o impasse em questão. Primeiro, são feitas reuniões iniciais com representantes da instituição para escuta e avaliação inicial das demandas, e aí então, estabelece-se o público que participará das conversações e suas datas, que podem ter até 5 encontros por rodada.

Reunião Geral

Reuniões que envolvem todos os membros e têm como objetivo discutir aspectos institucionais e clínicos, sendo um espaço que permite a reflexão e redefinição dos fundamentos e práticas do coletivo.

Ocorre de uma a duas vez ao mês.

Grupos de Trabalho GT

Pequenos grupos com frequência bimensal. Inspirados no modo de funcionamento de carteis, os GTs foram pensados como espaços de construção do coletivo, por meio de estudo teórico e discussão clínica, para que os integrantes exponham suas ideias de maneira mais livre e aprofundada.

GT Adolescência

É o grupo de trabalho responsável pelo projeto Coado e pela parceria do coletivo com o PrEP 15-19, e seu trabalho nas questões da clínica com adolescentes.

GT Vara

É o grupo de trabalho responsável pela parceria com as Varas de Violência Doméstica, recebimentos dos casos dessa parceria e articulações.

Grupos de Estudo

Espaço de estudo compartilhado entre os membros, contribuindo com a formação teórica e a discussão da prática analítica. Os dois grupos em atividade são: Casos Clínicos de Freud (leitura dos casos clínicos clássicos atendidos por Freud) e Comentadores de Lacan (estudo de importantes comentadores de Lacan, permitindo a construção de chaves de leitura que facilitam o acesso à teoria lacaniana).

Supervisão Clínica do Papo

Visa dar suporte aos membros do coletivo nos seus atendimentos pelo Plantão de Acolhimento Psicanalítico. A supervisão em grupo acontece quinzenalmente online. É oferecida a todos os analistas do coletivo e para os ingressantes é requisitada como momento de integração e inserção do analista no coletivo. Nesse espaço, fazemos a apresentação de casos atendidos na clínica do Papo e discutimos manejos clínicos, transferência, especificidade do atendimento gratuito etc. Essas discussões são coordenadas por dois membros, porém em um formato horizontal, em que todos os analistas participantes se colocam e comentam os casos.

Conferências

Atividade de formação continuada com a presença de conferencistas convidados com temas que emergem a partir das questões teóricas, clínicas, impasses e práticas do coletivo.

Divisão do trabalho de sustentação do coletivo

Administrativo

Comunicação

Diretoria

Administração clínica

Formação

Acolhimento

Biblioteca

Financeiro

Três nós e o Coletivo

Quem inicia o percurso em psicanálise sabe que o famoso tripé freudiano é essencial como formação. Análise pessoal, supervisão e estudo da teoria deveriam fazer parte da rotina dos analistas. Ao receber pessoas interessadas em participar do coletivo, espera-se que estejam implicados não só em uma formação individual mas também que expressem seu desejo em um fazer conjunto. Para isso, procuramos saber qual sua relação com a psicanálise e o que a motiva a formar um coletivo.

O coletivo é também um espaço de formação?

O que forma um analista?

Língua

Em alguns espaços do coletivo nos propusemos a pensar a formação do analista e o desejo de se fazer (em?) coletivo.

As discussões levantaram pontos interessantes como: por que surgiram os coletivos de psicanálise? Qual seu efeito formativo?

Por meio de um coletivo de psicanálise pode-se ter acesso a um novo modo de formação psicanalítica, até mesmo anterior à entrada em formações tradicionais, já que para adentrá-las é necessário já estar versado em uma determinada língua, muito própria da psicanálise. Por vezes no encontro com a psicanálise percebemos uma construção de sentido em palavras de formas diferentes do dicionário, portanto, como saber antes de estar neste ambiente singular, o que significam? Mas, espera-se que quem deseja estudar psicanálise já a saiba e a domine.

Sendo assim, o coletivo permite a expressão de uma língua singular por meio do laço transferencial de trabalho. Essa língua é confrontada, questionada, traduzida e produzida num espaço de troca possível. É o espaço de construção que permite o acesso e construção do discurso psicanalítico e sua permanência, e refuta o discurso agregador.

A formação em coletivo permite a reflexão de uma clínica ética e a posição e lugar político que os analistas ocupam na sociedade. A elaboração de uma psicanálise crítica que se ocupa para além de si e olha para o sofrimento gerado pelo discurso capitalista, relações de classe, gênero e raça. Questionar é o que permite que a psicanálise permaneça viva e avance.

O que é necessário questionar?

Por que é importante, nesses espaços, que se tenha uma língua própria?

4. FAZER UMA CLÍNICA

O Papo, Plantão de Acolhimento Psicanalítico, surgiu como uma aposta e um ato, a fundação do coletivo. E a partir daí, leituras, discussões, invenções – e assim permanece. Foi uma resposta tanto à crescente demanda por cuidados psíquicos quanto à tentativa de subverter uma lógica elitista e cronificadora em relação a dispositivos de orientação psicanalítica. Estabeleceu-se como formato um atendimento breve, gratuito, respeitando as limitações e possibilidades diante de urgências subjetivas, não sem o rigor e a ética psicanalíticos. A opção por esse tipo de atendimento não se resume apenas à questão econômica, é também colocar em ato o desejo –também freudiano – de tornar a psicanálise acessível a um público mais amplo. Uma aposta que as pessoas possam encontrar neste dispositivo uma maneira de lidar, especialmente de forma inconsciente, com seus medos e ansiedades. Ou seja, é dar consequências também sociais e políticas sustentadas num coletivo de psicanalistas.

Para oferecer de forma ética um dispositivo como o Papo é fundamental que o analista esteja à altura de sua época, ou seja, que entenda que a sociedade é marcada por questões sociais, discursivas, políticas e econômicas, tendo um impacto direto e devastador nas pessoas. Não se sofre da mesma maneira em qualquer tempo histórico, por isso é necessário que a psicanálise esteja em sintonia com uma crítica à racionalidade econômica como única forma de descrição de si, sair de uma totalidade imóvel que ignora a dinâmica histórica.

Quem procura a clínica de um coletivo?

A inscrição no Papo é feita por meio de um formulário disponível em nosso site, que abre e fecha de acordo com o fluxo de pessoas que procuram o coletivo. Os analistas indicam quantas vagas possuem e as demandas de atendimento são então distribuídas entre o grupo.

A diversidade é a característica marcante daqueles que procuram pelo Papo. Sofrimentos que perpassam questões familiares e amorosas, mas também a exaustão e a exploração do trabalho, as restrições financeiras, de mobilidade

e uso do espaço urbano, dificuldades no acesso ao serviço público no próprio território, experiências traumáticas ligadas ao racismo, ao abuso sexual, à violência contra as mulheres, à LGBTfobia, ao capacitismo e à aporofobia e até preconceitos no acesso aos serviços destinados à saúde mental – ainda mais diante de um triste movimento tão presente na atuali dade de estigmatização dos Caps.

O modelo de atendimento é uma porta de entrada, demo cratização não apenas de ordem econômica mas no acesso e ingresso daqueles que possuem alguma resistência em iniciar um processo terapêutico. É interessante observar um fenômeno particular que tem emergido nesta modalidade. Muitos dos analisandos que procuram o Papo teriam condi ções de pagar por um tratamento psicanalítico convencional. Contudo, optam por esse serviço gratuito. A opção pelo Papo não é apenas uma questão econômica, é um ato carregado de significado psíquico. Os analisandos encontram no dispositivo uma maneira de enfrentar, ainda que inconscientemente, seus medos e ansiedades relacionados à falta e à escassez.

PAGAMENTO

Embora pareça uma resposta lógica de que o Papo teria uma função social de resposta à ineficácia do Estado em relação às políticas públicas de saúde, não se trata de fazer essa suplência (impossível). Não se opera por essa lógica da oferta de amor, ou da caridade, advertidos inclusive de que nenhuma forma de poder está afastada de uma forma de amor, pois estão atreladas pela identificação. A clínica não se coloca no lugar das lutas sociais, mas do desencantamento da ordem. Permitir que os sujeitos façam circular seus encantamentos, abre espaço para outras formas de agência.

Primeiramente, é necessário fazer valer a posição do analista fora da lógica assistencialista. Dizer que o dispositivo é gratuito não significa que ele seja sem pagamento, mas apenas que ele se dá em outra ordem. Não é um trabalho voluntário – o que já marcaria uma hierarquia, um lugar de mestria, sem possibilidade de giros discursivos, impossibilitando o aparecimento do discurso analítico.

Estar à altura de sua época para que se possa bem-dizer

a psicanálise é convocar o sujeito inconsciente naqueles que procuram o Papo. Um inconsciente marcado por uma desigualdade social cada vez mais avassaladora, por estratégias genocidas e lógicas de produtividade incessante, em que o valor é apenas monetário.

TRANSFERÊNCIA

A regra de ouro na experiência analítica é a livre associação, porém diante de uma modalidade de atendimento breve, o que aparece nas discussões entre os membros do coletivo com frequência é a transferência que se efetiva no Papo.

Os relatos são singulares, assim como são os analistas que atendem e os pacientes que se inscrevem. Há quem pergunta se o analista tem horário, mas nunca responde quando o analista pergunta qual o horário gostaria de marcar; os que marcam e não aparecem; aqueles que ficam por mais de 5 sessões – às vezes, meses; os que indicam que as sessões foram suficientes para apaziguar a angústia daquele momento; bem como os diversos encaminhamentos possíveis diante de sujeitos que se veem tocados por algo que nunca tinham percebido que existia: o inconsciente!

TEMPO

O tme p o de umaanálisetem de estar

Entendemos que é impossível não articular sofrimento psíquico e sofrimento social. Só é possível falar na medida em que haja uma existência para além da pura sobrevivência. Pensar como as categorias hegemônicas, neoliberais, produzem esse sofrimento é um norteador imperativo na clínica contemporânea.

O capitalismo é um modelo de gestão social, cujo conceito econômico central é o de liberdade individual. Tal discurso leva à obliteração da singularidade, uma vez que as formas de sofrimento se individualizam e se normatizam a partir de um discurso massificador que busca o bem-estar, a adaptação (ao tempo da produção, do sucesso de si, do outro...). A transferência não é identificação, o outro elevado ao lugar de ideal, da norma ao qual eu vou me adaptar. Por isso a força da psicanálise em enfrentar uma pretensa busca de si como forma ideal, algo tão marcado nas nomeações diagnósticas e na medicamentalização da vida. O governo de si não é domínio de si, mas um Saber sobre a essência do seu próprio desejo.

Do começo ao fim, uma ética

O fazer coletivo se pauta na oposição à lógica neoliberal e segregativa de controle dos corpos, como acontece na biopolítica, e também ao que é protocolar, tão comum em instituições de saúde mental, com seus diagnósticos e a medicamentalização (isso quando há acesso a essas instituições... o que também é outra questão). A clínica, tal qual um coletivo, é uma força contrária a um eu sobrecarregado de possibilidades e desprovido de laços de apoio e solidariedade. Não é uma prática adaptativa do desejo às estruturas sociais, formas de sujeição. Operar, dessa forma, a partir de uma ética da escuta sustenta uma forma de revolta, fazer do sintoma um outro uso.

Qual o interesse em levar a público a experiência de coletivos de psicanálise hoje? Apenas relatar nossas práticas clínicas cotidianas? Acredito que o formato independente, criativo e colaborativo de um zine reflete também seu cará ter subversivo. Algo que possa fazer furo não apenas no discurso neoliberal massificado, nas noções precárias de sucesso pessoal, mas também de uma psicanálise enrije cida em seus conceitos herméticos e inacessíveis, surda às questões patentes que provém das disputas sociais e políticas. Os zines das Clínicas de Borda trazem experiên cias plurais não só da forma em que os laços de trabalho desses coletivos se constituíram, mas também da abordagem dos atravessamentos políticos contemporâneos e do sofrimento dos sujeitos que recebemos, especialmente daquilo que emerge a partir de um mal-estar generalizado no século XXI: as desigualdades econômicas marcantes nas grandes cidades, as diversas formas de violência às minorias e às mulheres, o racismo estrutural, os deslocamentos migratórios em massa e a xenofobia, o genocídio em curso e a ascensão global do discurso de extrema direita, que promete, em uma nova roupagem, reeditar o nazifascismo. Por último, a emergência climática iminente que desponta possivelmente como a maior catástrofe a ser enfrentada. Uma oferta ética de escuta, para que os sujeitos possam se localizar diante dos desafios inéditos que se anunciam, é essa a aposta de um coletivo de psicanálise hoje?

CRÉDITOS

Comissão Editorial

Luis Henrique Mello

Tamyres Funcia Colletti

Fernanda Gelesko

Priscila Tavares Viviani

Beatriz Araújo de Macedo

Vagner Takahashi Arakawa

Maria Paula C Borges

Érica Kodaira Ishikawa

Edição e revisão

Luis Henrique Mello

Integrantes do Café Borromeano

Aparecida Santa Clara Berlitz

Beatriz Araújo de Macedo

Caroline de Souza e Silva

Cristiane Penteado

Carmen Veiga

Cecília Magalhães

Érica Kodaira Ishikawa

Fernanda Gelesko

Helena Andrade

Juliana Mauro valenzi

Juliana Tofaneli

Luis Henrique Mello

Lylian Mitie Kawabata

Maria Julia Swenson

Maria Paula C Borges

Natália Martinelli Cassim

Priscila Tavares

Regina de Oliveira

Rejane Tito

Renan Chamorro

Roberta Maria Sagretti

Tamyres Funcia Colletti

Tainã Pinheiro

Vagner Takahashi Arakawa

Yuri Carvalho Costa Silva

No ano em que celebramos 5 anos de coletivo, celebramos também a vida de Regiane Gubeissi, que nos deixou em 2024. Como marco dessa ocasião lançamos em maio a Biblioteca do Café Borromeano - Regiane Gubeissi. Essa iniciativa homenageia não apenas uma das analistas fundadoras do coletivo, muito implicada no trabalho da clínica e estudo da psicanálise, mas uma amiga e colega querida. No decorrer do ano e da produção desse zine, foi unânime a lembrança da sua alegria contagiante, que ela trazia com a força do seu desejo, o desejo de viver. Regiane contribuiu com muita intensidade na fundação e manutenção dos laços do coletivo. Sua presença está marcada e será eternamente lembrada pelo amor e dedicação pela clínica psicanalítica.

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