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2 Edição 005 - Maio 2021


A BÚSSOLA SEMPRE APONTA PARA O NORTE

CEO Eulália Ribeiro Direção & Edição Executiva Mariana Moreira

O Mercadizar é um veículo de transformação. Queremos ser, de fato, um portal de e para a comunicação, arte, cultura e conhecimento. Nosso propósito é ser instrumento de incentivo e valorização do nosso território e da nossa essência.

Repórter & Planejamento Isabella Botelho nº MTB 1395/AM

Confira todas as matérias na íntegra acessando o portal:

Repórteres Hilana Rodrigues Giovana Barbosa Ludmila Menezes

Repórter & Relações Públicas Patrícia Patrocínio

Direção de Criação & Diagramação Aline Ribeiro Design & Diagramação Lígia Russo Quer ver sua empresa na próxima edição? atendimento@mercadizar.com 2

Reclamações, elogios, sugestões ou dúvidas? contato@mercadizar.com Esta revista possui distribuição gratuita sendo estritamente proibida a venda da mesma. O Mercadizar não se responsabiliza pelos conceitos e opiniões em artigos ou matérias assinadas. A reprodução deste conteúdo editorial não é permitida sem autorização ou citação da fonte. Todos os direitos estão reservados e protegidos para Mercadizar.com - CNPJ: 33.736.015/0001-71.

Capa Ester da Silva (Medusa) Atendimento Dyne Haacke Revisão Paola Silva Rafaela Viana Administrativo & Financeiro (VR Assessoria) Thays Hoyos Maria Xavier Estephane Saraiva Delcicleia Bento Agradecimentos especiais a todas as mulheres que nos ajudaram a construir esta edição colaborativa através das nossas redes sociais. O futuro será construído por todas nós juntas! Acesse nosso portal www.mercadizar.com Siga nossas redes sociais @mercadizar


ÍNDICE

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Um Fragmento de Natureza

A Presença de Corpos Reais na Internet

É Preciso Normalizar a Presença Feminina no Hip Hop

O Esporte Feminino é uma Realidade No Brasil

A Moda Brasileira como Expressão de Diversidade Cultural

13 Jornalistas para Acompanhar

O Tabu da Menstruação

A Presença Feminina na Política Brasileira

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As Problemáticas Camufladas da Mulher Surda na Sociedade

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Protagonismo na Ciência: As Mulheres na Linha de Frente Contra o Covid-19

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APRESENTAÇÃO

POR MARIANA MOREIRA - DIRETORA E EDITORA EXECUTIVA

Como mulheres, estamos todos os dias lutando para combater falácias de grandes representantes, visibilizar pautas e grupos excluídos, ainda discutindo a participação de mulheres em áreas como esporte, ciência e política. Ainda precisando falar sobre a normalização de processos naturais e biológicos como a menstruação, pior ainda quando precisamos explicar que ela é além do gênero. Tentando descobrir que tá tudo bem ser quem somos, de corpo e alma.

Fotos: Acervo Pessoal

Nossa primeira revista dedicada às mulheres foi feita num ritmo intenso, com força. Atualmente, nossa rotina tem sido buscar uma paz e uma saúde mental que às vezes parece inalcançável. Trabalhar, cuidar da casa, se distrair, redescobrir nossa relação com nossos corpos. Como ficar bem com mais de 3 mil mortos por dia no nosso país? E além desse massacre diário, com um visível retrocesso na luta contra o machismo, o racismo e a lgbtfobia. Estamos exaustas. Todos estão. Mas em muitos depoimentos de mulheres, ouvimos: “Se ao menos alguém tivesse pego a minha mão e me mostrado o caminho”. E é por isso que a gente continua. Seguimos para mostrar que não estamos sozinhas, principalmente em tempos difíceis. Numa revista colaborativa, acabamos colocando ainda mais de nós. Num cenário ainda de isolamento social, nossas emoções estão fluindo de forma explosiva e natural e esta edição não é só sobre nós, mas não poderia deixar de registrar nossos sentimentos pessoais aqui, afinal, é o que nos torna humanas e ainda mais mulheres. Em uma quase unanimidade de entrevistas e depoimentos, nós ouvimos uma palavra predominante: mãe. Este é o nosso primeiro e maior exemplo de mulher por isso aqui deixamos nosso agradecimento e maior amor do mundo às nossas: Eulália, Alice, Kelen, Lilian, Luzanira, Dinaide, Ednara, Simone, Neli, Maria de Nazaré, Maria José, Creuza, Maria do Socorro e em memória, e com eternas saudades, de Leonice e Sandra. Como finalizei a apresentação da nossa primeira revista, me sinto na obrigação de repetir nesta: toda pauta é feminina e continuaremos na luta.

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Sobre a capa POR PATRÍCIA PATROCÍNIO

Nossa revista produzida por mulheres, desta vez, expressa a reconexão que cada uma fez com um espaço de conforto e calmaria particular que todas nós temos na infinitude de nosso ser e acessamos para enfrentar o momento que vivemos. Desse jeito, a ilustração de Medusa, uma artista independente do polo marginal de Manaus, busca reforçar o universo plural, sensível e resistente, presente em cada uma de nós. Abaixo, confira uma entrevista exclusiva com ela:

Medusa Mercadizar: O que a capa representa?

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A diversidade, resistência, pluralidade, sensibilidade e a origem de nossos corpos que são reais e reafirmam o que somos, a representação do Sagrado Feminino. Mercadizar: O que é o Sagrado Feminino para você? O Sagrado Feminino é um resgate da essência feminina e representa um estado de consciência relacionado ao que é ser mulher, independentemente de classe social, cor da pele, tipos de personalidade, crenças ou experiências. Ele representa a conexão da mulher com a natureza, com os seus ciclos e consigo mesma. Entender e vivenciar o “Sagrado Feminino” desperta a mulher para uma nova consciência sobre si mesma. Mercadizar: Como foi o processo de criação e quais foram suas inspirações? O processo de criação foi composto por silhuetas femininas, retratando a vivência e a diversidade de nossos corpos. Nas cabeças, a representação de uma planta ancestral, conhecida como “espada de Ogum” ou “espada de São Jorge”, que é símbolo de cura, amor e resistência.


A criação foi inspirada no poder feminino e na cultura africana Yorùbá, que apresenta a mulher de diferentes maneiras: mãe, esposa, filha, curandeira e até deusa. Nessa expressão cultural, acredita-se que a mulher possui poderes divinos ou espirituais, sendo a representação da vitalidade e do sagrado.

Sobre a artista

A artista chegou a cursar Publicidade e Propaganda, mas migrou para o curso de Artes Visuais. Seu trabalho representa as vivências de mulheres, especialmente a de mulheres pretas dando ênfase à espiritualidade, autoconhecimento e ancestralidade.

@medusa092

“Entender e vivenciar o ‘Sagrado Feminino’ desperta a mulher para uma nova consciência sobre si mesma”.

Ilustrações: Medusa

Conhecida como Medusa, em referência a Deusa da mitologia grega, que era temida e se destacava por ter cobras no lugar dos cabelos, Esther escolheu esse nome artístico em 2017 — após dar início a um longo processo de transição capilar, em que retirou todo o seu cabelo que possuía química de alisamentos. Desse jeito, no lugar dos cabelos alisados, renasceram os cachos volumosos que chamam atenção e junto com eles surgiu Medusa.

Foto: Acervo Pessoal

Ester Silva, tem 22 anos e é natural de Brasília (DF), filha de um pai negro e mãe branca, a artista é fruto de um relacionamento interracial e desde muito nova teve que conviver e aprender a lidar com as desigualdades sociais e raciais. Atualmente, residente em Manaus, ela atua como artista independente na área de artes visuais.

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UM FRAGMENTO DA NATUREZA POR PATRÍCIA PATROCÍNIO

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Entre muitos estudos que relacionam flores e plantas ao bem-estar, um divulgado em 2019 pela Sociedade Americana de Ciências da Horticultura, sobre os efeitos que as plantas podem exercer em um quarto de hospital após uma cirurgia, revelou que pacientes em quartos hospitalares com plantas e flores tiveram melhoras significativas no pós-operatório e respostas mais positivas em relação às funções físicas. “Os resultados da pesquisa sugerem que as plantas em um ambiente hospitalar podem funcionar como um medicamento complementar eficaz para pacientes que se recuperam de uma cirurgia abdominal”, diz o estudo. Em entrevista exclusiva à Mercadizar, a bióloga e empreendedora, Ana Júlia Porto, que está à frente da Minature, uma empresa de plantas e acessórios botânicos em Manaus, afirma: “Sem dúvida, as plantas são capazes de transformar ambientes.

Nós temos uma tendência natural de sentirmos afinidade com o que nos remete à natureza, é quase unânime a sensação de bem-estar que sentimos ao chegar em um ambiente com plantas, cores e formas semelhantes à natureza”. Apesar de ser bióloga, Ana Júlia relata que o interesse pelas plantas não surgiu de maneira óbvia durante a graduação. Ao perceber o quanto elas podiam influenciar o seu estado físico e emocional, a empreendedora conta que “foi durante o mestrado, quando me vi em um período muito estressante e tendo que trabalhar em um laboratório durante horas, que percebi o quanto me fazia falta estar em contato com a natureza e o ambiente exterior. Foi como uma fuga, eu comecei a pegar mudinhas da minha mãe para cuidar, aos poucos passei a comprar algumas plantas e entendi o quanto aquilo me fazia bem. Então decidi empreender, naquele momento fez muito sentido transmitir aquela mesma sensação de bem-estar que eu tinha ao cuidar de plantas para outras pessoas”.

Fotos: Iana Porto

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Escolher um vaso de plantas para a casa traz mais beleza, harmonia e cor para o espaço. Mas, para além de efeitos decorativos, elas também têm a capacidade de oferecer um bem-estar cientificamente comprovado, chegando a ser usadas em alguns casos como tratamentos terapêuticos. Desse jeito, em troca de todos os benefícios que elas podem nos oferecer, nos exigem pouco: apenas água, sol e um pouquinho de atenção.


Isolamento social e a “#plantoterapia” Diante do cenário que estamos vivendo em relação ao coronavírus, cerca de 52,6% dos brasileiros encontramse em isolamento social, segundo dados da plataforma in loco do dia 21/03/2021 — um pouco mais da metade da população do país. Essa parcela de pessoas não fica isenta aos danos psicológicos da pandemia. De acordo com isso, o levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) demonstra que os casos de estresse vêm aumentando 80% durante esse período. Outro fator que favorece o aumento desses casos, é o trabalho remoto ou home office. Com parte dos trabalhadores tendo que se adaptar a esse formato de serviço para continuarem exercendo suas funções profissionais, o espaço entre a casa e o trabalho foi estreitado, exigindo um outro nível de organização e disciplina, e diluindo a relação entre “lugar de trabalho” e “lugar de descanso”. Como reflexo disso, nossa entrevistada chama atenção para o aumento da procura de plantas durante a pandemia. “Foi bem evidente o aumento na procura de plantas durante esse período, principalmente por ‘pais de planta’ de primeira viagem. Com o isolamento social, as pessoas precisam ficar mais tempo dentro de casa e sentiram a necessidade de tornar o lar um local mais aconchegante e viram nas plantas uma forma de criar ambientes acolhedores e agradáveis. Além disso, cuidar das plantas se tornou uma forma de terapia”. Dessa forma, alternativas simples para a manutenção da saúde mental, como jardinagem ou a “plantoterapia”, cresceram muito e se mostram essenciais no enfrentamento da pandemia. No estudo “Os benefícios da jardinagem e cultivo de alimentos na saúde e bemestar”, o professor Tim Lang da Cidade Universitária de Londres, demonstra como esses hábitos aliviam os sintomas de doenças mentais, melhoram a forma física das pessoas e ainda ajudam pacientes com câncer a lidar com os efeitos do tratamento. Com isso, é impossível negar a influência positiva das plantas sobre diversos aspectos de pessoas e espaços. Cultivá-las é encontrar um tempo de calmaria em meio à rotina, uma espécie de fuga da artificialidade do mundo e valorização do natural, é lembrar que a simplicidade ainda pode ser um refúgio para as elaboradas experiências modernas.

Sagrado feminino: Afinal, qual é a relação “mística” da mulher com a natureza? A figura da mulher com a natureza é associada historicamente desde a antiguidade. Esse fato sustenta ínumeras teorias, inclusive, a do “ecofeminismo” que pela visão da ciência representa, nas palavras da teóloga feminista americana Rosemary Ruether, “a junção do movimento ecológico radical, também conhecido como Ecologia Profunda, com uma das tendências do Movimento Feminista”. De acordo com Janet Biehl, a união dessas duas perspectivas apontam para uma conexão entre a dominação da natureza e da mulher, que pode ser notada na própria língua, por palavras como “natureza” e “Terra” que são do gênero feminino, enquanto as forças que tentavam “domar a natureza” e “violentar a Terra” são frutos de projetos masculinos. Por outro lado, essa teoria também se liga a todas as iniciativas em defesa pela preservação do meio ambiente, lideradas por mulheres ao longo da história, e que demonstram a relação íntima de proteção entre ambas. Pela ótica espiritual, mulheres precisaram se masculinizar para alcançar seus espaços e, nesse movimento, acabaram deixando cultuar o “Sagrado feminino”, um conceito milenar, que representa a conexão dos ritmos femininos com os ritmos da natureza, do ciclo menstrual em ligação com o ciclo lunar, bem como da menstruação e sua relação com a cura da Terra.

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Logo, a mulher, uma figura sagrada, cíclica e guiada pela lua, reconhece sua íntima relação com a terra e seu lugar nela. No entanto, pelo fato da mulher moderna precisar se enquadrar às lógicas masculinas para ocupação de determinados espaços, isso acaba enfraquecendo essa relação. Para a nossa entrevistada, a natureza está presente na sua vida desde muito cedo, embora a necessidade de estar conectada com ela tenha se manifestado ainda mais forte somente na fase adulta, quando a bióloga notou a diferença que elas podem fazer na rotina. A relação afetiva que Ana Júlia desenvolveu com suas plantas, representa para ela um momento de reconexão diário com a natureza. Relata:

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“Desde muito nova, a natureza sempre esteve presente na minha rotina, meus pais sempre tiveram muitas plantas em casa e cresci indo para o sítio da família, mas só adulta que comecei a me interessar por cultivar de fato. Durante esses anos de jardinagem desenvolvi uma relação muito afetiva com minhas plantas – sim, assumo que falo com elas – A rotina de cuidar delas é um processo quase terapêutico, é o momento em que dou uma pausa na correria e apenas cuido e observo. E é essa experiência de reconexão com a natureza e de presença no momento presente que eu tenho diariamente”. Por fim, a relação que estabelecemos com a natureza, especificamente com as plantas, reafirma o quanto estamos integradas com ela historicamente há milênios e como somos influenciadas positivamente em diversos aspectos físicos, emocionais e até espirituais pela sua presença. Para o Sagrado Feminino, o cuidado com o meio ambiente está relacionado com a luta pela liberdade de nosso próprio corpo em função da fertilidade da terra para mantê-la viva. Ou seja, para que a terra não sofra com a destruição, mulheres precisam ser donas de seus próprios corpos.

Ficou curiosa e quer saber mais sobre como escolher as plantas certas e quais plantas são interessantes de se ter em casa? Confira as dicas da entrevistada!

@mi.nature Mercadizar: Na hora da compra, como escolher as plantas certas? Ana: O primeiro passo é observar o ambiente onde você quer colocar suas plantas, observando fatores como: Incide sol direto em algum momento do dia? Tem sombra, tem luminosidade suficiente? O local tem ventilação natural? Uso de ar-condicionado? Após entender o ambiente, é possível escolher a planta de acordo com as suas necessidades, podendo ser uma planta de sombra, meia sombra ou sol pleno. Para quem ainda não tem prática, é bom procurar a opinião de um profissional da área para não correr o risco de colocar a planta em local inadequado para a espécie. Mercadizar: Quais plantas não podem faltar em casa? Ana: Algumas opções de plantas de sombra e de baixa manutenção que vão super bem dentro de casa: Jiboias – Estas são as mais tradicionais, super fáceis de manter e dão um efeito lindo de cascata. Ideal para colocar em cima de móveis ou em vasos pendentes. Zamioculca – Aquela planta que parece de plástico de tão brilhante necessita de poucas regas semanais e bem pouca luz do sol. Espada de São Jorge – Vai bem em ambientes internos e externos, pouco exigente com as regras. Palmeira chamaedorea – Confere um clima bem tropical ao ambiente, ama umidade e luz do sol difusa. Samambaias – Uma planta bem volumosa, transforma qualquer ambiente. Precisa de rega e luz indireta.


mercadizar indica Iza Degan

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Conheça o trabalho da artista manauara Iza Degan, que se propõe a aprofundar sua visão do mundo através de colagens e bordados. Confira no instagram: @izdgs

Dica da nossa Designer: Lígia Russo


EU FALO PORQUE (R)EXISTO POR PROFA. DRA. DEYSE KOKAMA

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O tempo reverbera mudança e transformação nas mais diversas organizações sociais, traz à tona questões que outrora eram invisibilizadas por um sistema opressor e discriminatório. Um cenário que, hoje, é um campo de batalha no qual outras vozes ecoam e resistem. Nós, indígenas, por anos, fomos representados a partir de uma visão exótica que se estruturou em uma memória discursiva dominante, direcionando a produção de determinadas “verdades” que superiorizam certos sujeitos em detrimento de outros. Tantos estigmas foram cristalizados diante de uma percepção colonialista, como: “o indígena é atrasado”; “indígenas são preguiçosos”, “índio não quer mais ser índio”. “Verdades” que são reproduzidas até os dias atuais e marcam de forma negativa a vida dos povos indígenas diante de uma sociedade plural, mas excludente.

Em um processo de luta pela tomada de palavra e a legitimação dos lugares de fala pelos indígenas, estabeleceu-se nas organizações a necessidade de assumir diferentes espaços nas mais diversas instituições. Como a palavra é poder, ao assumir um lugar legítimo e por meio dele falar das próprias demandas e garantir nossos direitos, os/as indígenas puderam, de fato, apresentar para a sociedade não-indígena outras representações que fogem ao lugar comum de fala, assumido por um porta-voz que era autorizado a falar do/sobre os indígenas.

Deyse S. Rubim Kokama. Professora da SEDUC/AM. Mestre em Antropologia Social pela UFAM. Doutoranda em Linguística pela UFSCar. Medalhista da Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa e Participante do Geração Futura Educadores.


Diante de um longo processo de luta, assumimos paulatinamente nossos espaços, principalmente, quando falamos das mulheres indígenas. Assim, como comumente vemos na história das mulheres em toda sociedade, nada foge a esse mundo particular feminino quando falamos no processo de silenciamento e apagamento das mulheres indígenas, ora marcado por um patriarcalismo que não permitia o nosso protagonismo em diversas situações, tanto dentro quanto fora das comunidades indígenas. Situações que foram reconfiguradas no cenário social, dando espaço para novas representatividades. Dessa forma, em um contexto de disputa pelo poder, houve a ocupação de diferentes espaços pelas mulheres indígenas no processo de resistência.

Nenhum processo de transformação social é fácil, romper estigmas é travar uma luta contra a própria história que enraizou na sociedade as suas “verdades”, é seguir o fluxo tenebroso dos rios com suas mais diversas intempéries e não esmorecer, é continuar remando por mais fortes que sejam os banzeiros das águas, é lembrar que enfrentar o caminho do preconceito é tão cansativo quanto o caminho da roça que percorremos para conseguir o nosso alimento diário, é compreender que mais forte do que o ato de nos silenciar é o nosso desejo de falar da nossa cultura, daquilo que nos constitui. Assumir o meu espaço, ver familiares, amigos e tantos outros parentes ocupando lugares, apontando problemas, garantindo direitos, assumindo cargos e falando sobre tantas demandas indígenas, é um ganho para cada um de nós que já teve que lidar com a xenofobia, com a estigmatização dos nossos corpos, com a falta de conhecimento sobre a nossa cultura, os estereótipos que determinam quem somos e com o processo de apagamento da nossa existência. Mas, NÓS SOMOS RESISTÊNCIA e EXISTÊNCIA. Enquanto estivermos nas universidades, nas escolas, nos hospitais e em outras instituições, continuaremos existindo e resistindo, por isso, precisamos continuar, precisamos perseverar e motivar outras vozes a se juntarem a nós.

Ao rememorar os papéis assumidos por minhas antepassadas, percebo o quanto de força, coragem e sabedoria existiam em cada uma delas. O quanto suas ações cotidianas contribuíram para a construção do que conhecemos hoje, como processo de pertencimento e o protagonismo feminino indígena. Ao contrário de minha avó, que no alto de sua sabedoria se alfabetizou aos quase 60 anos, eu pude percorrer outros caminhos e com base neles fortalecer ainda mais o processo de legitimidade das nossas vozes, as vozes indígenas femininas.

Fotos: Acervo Pesoal

Como diria Michel Foucault, “o problema não é mudar a consciência das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional, de produção da verdade”. Vamos continuar ocupando nossos espaços, pois NÓS SOMOS RESPONSÁVEIS PELA MUDANÇA, precisamos romper com a mera reprodução de estereótipos sobre os/as indígenas e garantir que as futuras gerações vivam, de fato, em uma sociedade plural.

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A PRESENÇA DE CORPOS REAIS NA INTERNET

POR ISABELLA BOTELHO

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POR PATRÍCIA PATROCÍNIO, LUDMILA MENEZES E GIOVANA BARBOSA


Quem nunca acessou uma rede social e depois de visualizar alguns conteúdos começou a se sentir insatisfeita com a própria vida (pessoal ou profissional), com o corpo, com a pele ou com os cabelos? Quem nunca parou por alguns instantes na frente do espelho procurando por “defeitos’’ e em seguida imaginando como seria ter o corpo de uma determinada influencer, após ver a foto dessa mesma figura exibindo o “corpo ideal” na Internet? Historicamente, o corpo feminino vive sob o olhar e pressão de alcançar uma perfeição humanamente impossível. Acontece que, nos dias atuais, tais ideias foram intensificadas por meio do uso das plataformas e mídias sociais. É comum, hoje em dia, seguirmos as digitais influencers ou formadoras de opinião capazes de influenciar multidões de seguidores, e cujas publicações mais parecem anúncios publicitários do que o dia a dia das pessoas em geral. Nossas telas são inundadas por imagens de rotinas, corpos e vidas perfeitas. Desse jeito, somos apresentados constantemente a um estereótipo de beleza e estilo de vida que não é facilmente alcançável, o que pode gerar um sentimento de insatisfação — que ocorre por observarmos a realidade, e percebermos que ela não corresponde com aquilo que vimos todos os dias em nossas telas.

Ranking mais tempo nas redes sociais

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Filipinas: média de 3h53 por dia

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Colômbia: média de 3h45 por dia

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Brasil: média de 3h31 por dia

Pesquisa Visão Global de Internet de 2020

Presença dos brasileiros no Instagram 2015 - 55% dos usuários da internet 2016 - 75% dos usuários da internet Fonte: M. Osman da Sprout Socia

Tecnologia x Autoestima Os efeitos dessa exposição frequente podem ser vistos em todas as idades, mais especificamente, nas novas gerações de meninas e mulheres, que estão cada vez mais conectadas. Em 2019, o Jornal da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos, apontou que os filtros de aplicativos podem estar provocando dismorfia corporal em jovens, levando a quadros de transtornos alimentares, ansiedade, depressão e busca por procedimentos estéticos radicais e desnecessários. Em um outro estudo realizado pela Academia Americana de Cirurgiões Plásticos, no Brasil, a bichectomia, procedimento que afina as bochechas, teve um aumento de quase 20% em sua procura, principalmente entre jovens de 15 a 25 anos. O mesmo levantamento também identificou que 55% das pessoas que fizeram rinoplastias, em 2017, foram motivadas a realizar esse procedimento pelo desejo de “melhorar” suas selfies. Um dos maiores problemas que as redes sociais podem provocar na nossa autoestima tem a ver com a autoimagem, aquela que criamos sobre nós mesmas. À medida que aumentamos nossa presença nesses espaços virtuais, o impacto é ainda maior. Aceitar-se é um dos maiores desafios na vida de uma mulher, pois, para isso, temos que romper com a obrigação de seguir as tendências que nos são impostas desde o momento em que nascemos. No entanto, o que mais vemos na Internet são os discursos rasos de autoaceitação, incentivados muitas vezes por pessoas que fazem o uso de intervenções estéticas invasivas e que custam uma fortuna. Que fique claro que o problema não é sobre poder ou não realizar tais procedimentos, mas sim a esvaziação de sentido do discurso da autoaceitação.

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Fotos: Iana Porto

O que não te falam sobre as cirurgias plásticas Em julho de 2020, nos primeiros meses de isolamento social, a cantora Ludmilla apareceu nas redes sociais apresentando um abdômen definido, e levantando a curiosidade sobre o método mirabolante para alcançar o tão estimado “tanquinho”. A artista se submeteu a uma cirurgia recente de lipoaspiração, conhecida como “lipo lad”, que acentua o aspecto atlético do corpo. Com isso, houve uma explosão de buscas para realização desse procedimento, inclusive entre as influenciadoras.

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Já em janeiro de 2021, a digital influencer Liliane Amorim, de 26 anos, faleceu 15 dias depois de fazer a mesma cirurgia, devido complicações no pósoperatório. Logo após o triste episódio, a produtora de conteúdo digital, Thaynara OG, compartilhou em um programa de televisão nacional que passou por uma situação parecida, em março de 2020. A advogada teve que ficar uma semana internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), também devido a problemas no pós-operatório do mesmo procedimento. Em seu depoimento, Thaynara fala que se arrependeu de colocar a si e sua família nesta situação por uma questão estética. Recentemente, figuras públicas, como a Chef Renata Vanzetto, a ex-bbb Amanda Djehdian e a empreendedora Nathalia Destri, apareceram nas redes sociais aderindo ao procedimento de retirada das próteses mamárias de silicone. O fato chamou atenção, principalmente, pelos relatos que acompanharam tal ação, sobre sintomas e reações problemáticas advindas do procedimento. Na internet, foi uma mistura de espanto e alerta por parte da maioria das mulheres. Em nota, no dia 11 janeiro de 2021, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica trouxe à tona uma situação até então pouco conhecida, chamada de “doença do silicone”. A instituição destacou: “nos últimos anos, muitas pacientes têm buscado a cirurgia para retirada do implante mamário, seja por mudança de estilo de vida (envelhecimento, ganho de peso, mudança de hábitos), seja por apresentarem sintomas sistêmicos, relacionados ao implante – doença do silicone”. Sobre a doença, o órgão ainda não contabiliza as taxas de explante, mas reitera que ainda faltam dados científicos que possam esclarecer melhor a ligação dos sintomas reportados pelas pacientes com a doença.


Normalmente, situações negativas associadas a esses tipos de cirurgias estéticas têm menos espaço e impacto. A indústria da beleza vende tanto os “benefícios” que essas intervenções podem oferecer, que uma grande parte das mulheres, o principal público, naturalizam tais procedimentos e muitas vezes desconhecem os riscos que envolvem. Para se ter noção, de acordo com o pesquisador Érico Pampado Di Santis da UNIFESP, não há dados oficiais sobre mortes por cirurgias estéticas no Brasil, mesmo o país liderando o ranking dos países que mais fazem procedimentos dessa espécie. Ainda segundo o pesquisador, cerca de 93% das certidões de óbito de pessoas que morreram após se submeterem a cirurgia de lipoaspiração, há falhas no preenchimento. De acordo com a pesquisa divulgada em dezembro de 2019 pela ISAPS – Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, no ano de 2018, foram realizadas mais de 1 milhão de cirurgias plásticas.

Racismo na estética Dentre os casos que mais ganharam repercussão na internet sobre cirurgias estéticas que tiveram complicações, precisamos falar do caso da blogueira baiana Sthefane Matos. Em dezembro de 2020, ela publicou um relato em suas redes sociais sobre sua experiência negativa com os procedimentos.

No vídeo “Como foi viver o pior momento da minha vida”, publicado no seu canal do Youtube, a influenciadora compartilha com seus seguidores os problemas que enfrentou após duas cirurgias no nariz malsucedidas. Em alguns momentos do seu relato, Sthefane fala: “Há dez meses, eu tinha um nariz saudável, perfeito. E eu fiz uma cirurgia de rinoplastia pra poder me encaixar em um padrão de beleza que não existe”; “eu sempre fui muito vaidosa, sempre queria fazer de tudo para estar mais bonita, estar melhor”. Sthefane é uma mulher negra, e assim como todos as pessoas não brancas no Brasil, sua experiência de vida é atravessada desde muito jovem pelo racismo que impõe que seus traços são inferiores, feios ou que precisam ser melhorados. Muitas vezes, essas mensagens racistas manifestam-se em forma de piadas sobre a textura e a cor do cabelo, o formato de nariz, lábios e olhos, entre outras maneiras que deixam marcas até a vida adulta. O padrão estético considerado bonito tem como referência os traços brancocêntricos e europeus, portanto, tudo que se distancia desse referencial é considerado feio. Como consequência, é comum observar em pessoas não brancas — cujos os traços se aproximam mais dos padrões africanos ou dos povos tradicionais — o desejo por um nariz mais fino e menos largo, socialmente valorizado como o “nariz perfeito”. Infelizmente, o caso de Sthefane não é isolado, mas reforça a discussão racial no cenário da estética.

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Ilustrações: Iza Degan

A busca pela retirada ainda é menor em comparação com a busca pela implantação, mas o número de experiências negativas e consequências, até então desconhecidas, já é notável.


Mas não podemos deixar de considerar que o fato desse discurso começar a ser mais presente na mídia é muito importante para que as pessoas, especialmente mulheres, possam entender que nossos corpos são diferentes e que os corpos perfeitos não fazem parte da realidade da maioria das mulheres do mundo.

A quarentena vai mudar a nossa relação com o corpo? Diante de um contexto muito particular do novo coronavírus, muitas mulheres em isolamento social começaram a mostrar diversas situações do seu cotidiano, inclusive, seus corpos nas redes sociais. Com isso, o debate sobre um possível “corpo de quarentena”, gordofobia, autoaceitação e outras mobilizações sociais relacionadas à estética padrão na sociedade foram, aos poucos, constituindo o seu espaço nas redes sociais durante esse período. Ficar em casa tem mudado os hábitos de algumas mulheres em relação às suas rotinas de beleza. Enquanto algumas redobram os cuidados, outras aproveitam este momento para repensar necessidades. “Se você não se depila na quarentena porque não está sendo vista por ninguém, tem certeza que se depila porque quer?”— reflexões como essa estão cada vez mais presentes nas redes sociais desde que o distanciamento começou. Esse período tem favorecido a reconexão de pessoas com seus corpos e, nesse contexto, a oportunidade de se apresentar ao mundo da forma como se sentem confortáveis tem permitido que muitas mulheres na pandemia ressignifiquem seus corpos e a maneira que enxergam a beleza.

Nós sofremos com a ausência da representatividade de corpos diversos. Sem a presença deles tanto nas redes sociais, como nas mídias em geral, não há como tornar possíveis transformações na sociedade, visto que para além da representação, a presença desses corpos plurais abre espaço para o debate. Nesse contexto, o lugar de fala se torna essencial, pois só pessoas que vivem o que falam são capazes de chamar a atenção de outras para diferentes assuntos sobre a realidade da qual estão sujeitas. Foto: Iana Porto

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É interessante lembrar que o espaço virtual não dá conta de expressar com exatidão a realidade, portanto, o mundo das redes sociais é falso, e com isso precisamos compreender que há uma predisposição em muitos usuários na internet de postar apenas aspectos positivos de suas vidas, seja por fotos posadas ou nunca demonstrando problemas reais, em muitos casos as mulheres que consideramos ter o corpo perfeito só escondem suas dobrinhas, celulites, estrias ou pelos através de edições.

Representatividade: a presença de corpos reais na internet Até pouco tempo atrás, a representatividade e pluralidade nunca foram objetivos em diversos espaços, e não que isso tenha mudado, esse tipo de tema hoje em dia ainda não recebe a devida atenção.

Um exemplo disso, é o caso de Andressa Osako, a influenciadora de autoaceitação e na luta antigordofobia, que em entrevista à Mercadizar explicou como foi começar a dividir suas experiências na internet e de que forma isso impactou a vida de outras pessoas, fazendo com que elas passassem a compartilhar suas próprias experiências com ela também. “Quando eu comecei, na verdade, não queria nada. Eu só comecei a dividir um pouco das minhas vivências com as pouquíssimas pessoas que me seguiam na época, e do nada, outras pessoas começaram a chegar e pouco tempo depois, eu já recebia mensagens falando que de alguma forma pessoas se viam na minha história e com ela, eu conseguia ajudá-las. “Se eu visse alguém falando sobre isso quando eu odiava meu corpo, se eu tivesse tido esse contato, talvez tivesse sido muito diferente, sabe? Talvez eu não tivesse passado por coisas que eu passei, talvez eu não tivesse me deixado levar tanto por um padrão que eu sei que é cruel, não teria deixado que ele me machucasse tanto, eu teria tido um espaço de representatividade, conversa, apoio e é isso que eu quero oferecer”.


Foto: Acervo Pessoal

A influenciadora também aponta o quanto falar sobre essas questões na internet foi importante para o seu próprio processo de autoaceitação “falando sobre isso, eu percebi que era algo que eu gostava muito de fazer, que não tava fazendo só bem para as pessoas que me seguiam, tava fazendo bem para mim. Eu comecei a me amar mais, me entender e me aceitar mais, quando eu comecei a falar sobre autoamor, autoaceitação, empoderamento e gordofobia na Internet”. Sobre a troca e presença no ambiente virtual, Andressa reforça que isso não ajuda só na construção de novos esquemas mentais associados aos corpos, mas também possibilita a divisão de um fardo muito pesado “falar abertamente do que me ajudou e o que não me ajudou, faz com que as pessoas consigam dividir essa história comigo. Apesar da gente saber que todo mundo sofre com pressão estética, com gordofobia ou que já ouviu ou falou uma frase gordofóbica, a gente ainda acha que tá sozinha, que ninguém vai entender. Só vai ficar tudo bem se a gente seguir juntas”. A quarta onda feminista é caracterizada justamente pela presença dos ideais do movimento por meio das plataformas e midias sociais que espalham ideias importantíssimas relacionadas à discussão de corpo, gênero e performance de feminilidade. O caso de Andressa serve de exemplo não só para corpos gordos, ele reforça o tamanho da importância que a presença diversa de corpos negros, gordos, com deficiência, trans, vitiligo ou com uma infinitude de diferenças, se faz necessário nas mídias em geral. Como uma grande rede de terapia em grupo, a presença de pessoas com corpos reais na internet é capaz de mobilizar e ajudar indivíduos a lidar com seus conflitos em comum.

O único filtro realmente importante é saber ‘o que seguir’ O que realmente precisamos reforçar neste momento, é sobre o empoderamento que é um processo de dentro para fora, uma construção emocional, intelectual, social e principalmente, coletiva. Para Joice Berth, o poder só existe de maneira justa quando é coletivo, ou seja, o empoderamento deve buscar mudanças nas estruturas das relações de poder. Para que mulheres realmente tenham seus corpos livres, precisamos ir de encontro a tudo aquilo que reforça a relação de poder sobre eles. E uma das várias maneiras de fazer isso, é dando visibilidade às mulheres que possuem corpos fora do padrão e produzem conteúdo sobre isso.

@andressaosako 17 Por outro lado, também precisamos destacar a importância de filtrar o que se consome nas redes sociais. Como já foi dito, quanto mais exposição, maiores são os danos, por isso, opte por evitar os conteúdos e pessoas que não lhe fazem sentir-se satisfeito com a sua vida e o seu corpo. Vale lembrar também que autoaceitação e o autoamor são muito importantes, e que ninguém é perfeitamente simétrico, todo mundo tem pequenas assimetrias e imperfeições. Por fim, lembre-se: O único filtro realmente importante para a sua beleza e saúde é saber “o que seguir”.

Confira a matéria completa no portal com indicações de alguns perfis para acompanhar:

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É PRECISO NORMALIZAR A PRESENÇA FEMININA NO HIP HOP POR PATRÍCIA PATROCÍNIO

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Em 1973, no Bronx, Nova York, Cindy Campbell convidou jovens do bairro para uma festa que marcava o início do ano letivo. A grande atração da noite era Clive, irmão mais velho de Cindy, que por sua grande coleção de discos era conhecido como DJ Kool Herc. Considerado uma lenda no bairro, por dar origem ao formato “breakbeat” — quando na mesa de mixagem o DJ rompe com um trecho e introduz outro — com essa técnica, ele formou novos ritmos, misturando a música disco da época, ao rock, pop, jazz e blues. Ninguém tinha ideia do que estava prestes a acontecer naquela festa, mas foi assim que surgiu o Hip Hop.

Transformando ruas em palcos Mais que um gênero musical, é também uma cultura popular. Suas primeiras aparições aconteceram na década de 70, nos guetos nova-iorquinos, em especial, no Bronx. Da mesma maneira, no Harlem e no Brooklyn, os moradores desses bairros são, em sua maioria, afro-americanos e imigrantes. De frente com a exclusão social no qual eram submetidos por parte da administração pública, e em um contexto de excessiva violência e alta criminalidade, a juventude nesses lugares tinha somente as ruas como opção de lazer. Assim, o Hip Hop surge como alternativa cultural diante à violência e a vulnerabilidade econômica e sociopolítica.


Fotos: Reprodução Internet

Apesar do caráter recreativo, ele também carrega um propósito social, em resgatar e orientar os jovens imersos nesses contextos, com o objetivo de redirecioná-los ao campo artístico. O DJ Afrika Bambaataa, fundador da ONG Zulu Nation, organização responsável por difundir os princípios e valores do Hip Hop, é quem institui o aspecto político-social ao movimento, e o conduz ao resgate e formação social da juventude nos guetos, oferecendo-lhes uma alternativa de experiência diferente daquelas encontradas no interior das “gangues” — No Brasil, o equivalente às facções criminosas. Percebendo o impacto positivo que essas práticas causavam nesses jovens, Bambaataa decidiu unir o DJ, o MC, o Break, o Grafite e o Conhecimento, estabelecendo assim, os cinco elementos do movimento Hip Hop. Em solo nacional, o Hip Hop e o Rap deram seus primeiros passos no início da década de 80 e não se constituíram como mera cópia do estrangeiro, houve um processo de adoção de traços locais. Como por exemplo, enquanto música, o rap pretende evidenciar o cotidiano suburbano de pessoas consideradas não brancas no Brasil, e a realidade vivida nos “guetos brasileiros” (popularmente conhecidos como favelas e subúrbios). Nos samples, os pequenos trechos musicais que fornecem as bases de um beat de rap, exploram sonoridades tipicamente brasileiras. Desse jeito, pelas dimensões do território brasileiro e sua pluralidade de culturas, em um processo de mistura e atribuição, o Hip Hop ainda é sujeito aos diversos regionalismos. No Rio de Janeiro, absorve-se o samba à batida; em Fortaleza, o baião e o forró; no Amazonas, as toadas.

Hip Hop em Manaus Pelo o que se conhece da história do Hip Hop na capital amazonense, especialmente nas zonas leste e oeste da cidade, o movimento surgiu em 1994. M.H.M, como foi chamado, atuou na promoção de projetos sociais voltados para a juventude das periferias de Manaus. De acordo com Santos, os cinco principais protagonistas desse cenário são: Mano FK, DJ e produtor de eventos; Rogério Árabe, renomado grafiteiro; S. Preto, MC no grupo Cabanos; Marcos Tubarão, DJ e produtor cultural; e Fino, MC, DJ e produtor cultural.

Um break na revisão histórica: Quem foram as mulheres que estiveram à frente do movimento junto com os homens? Em nosso levantamento, é evidente que existe um protagonismo masculino que deixa duvidas sobre a participação feminina na história do Hip Hop. Porém, adiantamos que é um equívoco acreditar que elas não estavam envolvidas nesse processo ou que seus papéis não foram tão fundamentais, quando podemos citar nomes como: DJ Afrika Bambaataa, ou no caso regional, DJ Mc Fino. Precisamos reiterar que na sociedade ocorre de contribuições femininas serem invisibilizadas, e não seria diferente no Hip Hop. Dessa maneira, voltamos o pensamento em Cindy Campbell e sua contribuição para a organização da primeira “black party”, aquela que reuniu jovens do bairro numa área comum entre os edifícios do Bronx e que marcou o surgimento do Hip Hop. Na história narrada no início desse texto, e em muitos livros e artigos sobre a cultura, salvos casos, ela é mencionada, e quando isso acontece, lhe concedem o papel de coadjuvante e não da protagonista que foi. Cindy, além de primeira promotora do Hip Hop, também era b-girl (dançarina de breakdance), e isso não é mencionado. Desse jeito, a falta de registros da participação e contribuição feminina na fundação e difusão do Hip Hop, criou a ideia de um movimento determinadamente masculino e que mulheres são apenas uma exceção, intervenção, edição especial, ou pior, que o seu espaço na cultura não é legítimo.

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Fotos: Acervo Pessoal

A presença feminina no Hip Hop: uma questão sobre gênero e também racialidade Se pararmos para analisar que inicialmente mulheres negras integravam os primeiros grupos de jovens dessa cultura, abre-se o espaço de pensar também essa situação pela questão racial, e de como socialmente essas mulheres são lidas, tanto por homens negros, quanto pela sociedade em geral. Somada à narrativa patriarcal, que não fere apenas a existência de mulheres de cor, é possível que o racismo tenha contribuído ainda mais para a fundamentação das ideias sobre gênero no Hip Hop, que, ao longo dos anos e do crescimento do movimento, atravessam a realidade das mulheres que participam, como retratou Cida Aripória, integrante do Mulheres in Rima, em entrevista à Mercadizar.

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“Naquela época, os homens sempre tinham os lugares de destaques, e para as mulheres sobravam apenas os bastidores, o backing vocal ou ser a mina que acompanha, então tudo isso já me incomodava, mas ao mesmo tempo era o combustível para que eu escrevesse as minhas primeiras composições”.

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Mulher indígena do povo Kokama, Cida, está ativa no movimento Hip Hop de Manaus há 18 anos. Para ela, a cultura contribuiu para sua formação: “Ele me escolheu e agradeço ao universo não ter sido ‘salva’, e sim escolhida. Cheguei pelo rap ao Hip Hop e não precisei ser salva por ele por não estar envolvida com algo como o crime, embora tenha o convívio com essa realidade na minha comunidade. Porém, me agrada o termo ‘salvar’ assim como ‘marginal’. O Hip Hop me transformou na mulher que sou hoje, não alienada e em constante aprendizado”. Participando de eventos da cultura desde 2003, a rapper relembra como eram os encontros do movimento: “Aconteciam todas as sextas-feiras à noite, ouvindo o som em micro system que sempre alguém levava, só tocava os clássicos como Rzo, Racionais MC’s, Visão de Rua, Clã Nordestino, Actitud Maria Marta, Dina Di, e os sons dos artistas do rap de Manaus. Na época, de artista local, tinha o União Periférica, Cabanos e Mensagem Positiva. Poucos grupos daqui tinham sons gravados, ouvíamos mais músicas ao vivo nos bailes que eram promovidos pelo MHM”.

Cida Aripória @la_bruta_flor_ Muitas “minas” do Hip Hop se afirmam através da moda. Apesar dela não ser efetivamente um dos pilares do movimento, ao longo do desenvolvimento da cultura se tornou uma forte forma de expressão. Assim, precisamos destacar o caráter estratégico que a moda pode assumir em relação às mulheres no Hip Hop, que não usam roupas largas só por estética, mas também como defesa e resistência em relação ao machismo. É o caso da paulistana Dina Di: no início de sua carreira, a rapper usava roupas largas e assumia um tom “masculino” em um movimento de “esquece meu gênero e respeita o que eu falo”. “Eu já fui questionada pelo meu grupo sobre as roupas que eu usava, sempre usei shorts curtos e não a calça larga, mini-blusas e não os blusões, em uma das nossas reuniões fui chamada pra explicar o porquê de eu não me vestir de forma masculinizada, como se a maneira que eu me visto me colocasse em uma situação de menor respeito ou não representatividade”, afirma Cida. O que precisa ser considerado é que não existe problema nas roupas largas ou no tom masculino, no entanto, deve-se prestar atenção nos movimentos que levaram mulheres a adotar tais posturas. Às vezes precisamos refletir sobre coisas “óbvias”, tidas como naturais, ou pertencentes. Não está sendo proposto a reformulação de nada, mas sim, a reflexão de tudo, inclusive dos elementos que sempre foram tidos como representativos da cultura Hip Hop.


Fotos: Reprodução Internet

Mas o que é Hip Hop? Em síntese, é um movimento cultural que engloba quatro práticas artísticas. A grafiteira, por exemplo, é aquela que se dedica ao segmento do Hip Hop voltado à arte visual, enquanto que a b-girl é aquela que se dedica à dança break. A DJ (disc jockey) é aquela que cria e reproduz as bases musicais, ao passo que, a MC (master of ceremony) é quem compõe e improvisa poesias. A DJ e a MC formam o RAP (rhythm and poetry), um gênero musical e poético.

O que é ser mulher nortista no Hip Hop? Desde que a cultura se apresentou no Brasil, lá pelos anos de 1980, mulheres sempre lutaram para conquistar seu espaço na cena. Esse fato foi levado em 2010 para o primeiro Fórum Nacional de Mulheres no Hip Hop, após ele, foi fundada a Frente Nacional das Mulheres da cultura, um projeto que tem como objetivo destacar a importância da participação feminina na sociedade, por meio de atividades temáticas voltadas à cultura, política e cidadania. A principal luta por parte dessa iniciativa é sobre a valorização da identidade feminina, dando destaque não só à questão racial e social, mas fazendo com que isso seja trabalhado junto com as ideias de normalização da presença feminina na cultura. Embora a liberdade de se apresentar como mulher do Hip Hop esteja em crescimento por conta da pauta feminina e de mulheres que lutam pela conquista de espaços antes não ocupados, uma das maiores questões que ainda parecem não ser superadas é: “O Hip Hop é coisa para mulher?”.

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Atualmente, Halaíse coordena o projeto Slam Poesia, cuja missão é possibilitar que poetas marginais tenham espaços para expor suas composições, valorizando e buscando trazer visibilidade a eles. Além disso, através dessa iniciativa, a artista consegue trazer discussões importantes para o público do evento, inclusive, na sua opinião é o que falta para a cena do Hip Hop nortista, afirma ela. “A cena do rap no geral, em especial, a nortista tem muito a melhorar. É claro, tem muitos temas que devem ser abordados sobre o papel importante da figura feminina e coisas que devem ser desconstruídas nas batalhas, mas é necessário enxergar não só a diversão de batalhar, como também os conteúdos que são importantes de debater nesses ambientes e de quebra, trazer o rap como ferramenta de educação. Às vezes as pessoas esquecem o real sentido do Hip Hop”.

Fotos: Acervo Pessoal

“As maiores dificuldades são a não aceitação de algumas pessoas em relação ao nosso trabalho dentro da cultura, além de sermos sempre indagadas sobre o porquê de estarmos fazendo rap e há pessoas que ainda afirmam que isso talvez não seja a “nossa praia”. Assim também como em toda profissão, mulheres são sempre confrontadas em relação a qualidade e execução daquilo que produzem. Geralmente as pessoas sempre esperam e criticam mais a produção de uma mina no rap. Sempre é mais comum a não aceitação do nosso trabalho, como se pelo fato de ser mulher, nossos projetos representassem algum tipo de falha”, relata Halaíse Asaf, MC e ativista do movimento.

Halaíse Asaf @halaise_asaf


Ao fazer o recorte regional, identificamos também que ser mulher nortista no Hip Hop é um ato de enfrentamento em muitas instâncias, não só pelo viés do gênero, cor ou classe, mas também pela questão geográfica. Sabemos que viver de arte e cultura implica em uma série de dificuldades no nosso país, especificamente no norte, que sofre com um processo de invisibilização histórica de muitos séculos. Nossa arte, nosso povo e nossa cultura, são reduzidos ou até mesmo ignorados.

O Hip Hop nunca foi masculino, elas foram invisibilizadas

“Além de lutar contra as adversidades em relação às questões geográficas, no sentido de que é difícil o acesso às oportunidades para o norte, elas são escassas no mundo do ‘music business’. Ainda tem a questão da xenofobia, do machismo, preconceito e discriminação. Eu sou mulher indígena, e percebo o sexismo de algumas pessoas, que acham que as mulheres do norte são apenas para promiscuidade, mas é por isso que nós estamos metendo o pé na porta, arrombando as pregas da invisibilidade, se impondo, lutando por nosso espaço”, destaca Cida.

Uma cultura se caracteriza por ter uma expressão própria, em que pessoas se sentem identificadas. Desse jeito, ela se torna a oportunidade de representação e afirmação desses sujeitos, atravessando qualquer um, independente de gênero ou outras questões.

Outra questão que precisa ser apontada são os dilemas enfrentados por essas mulheres dentro de casa em relação a aceitação da família. Quando essas jovens escolhem entrar para o Hip Hop, estigmas de supostamente perigos e ameaças que a comunidade negra, periférica e marginal oferecem são associados, como relata Dj Pãmmy: “eu sou a caçula da família, então a minha mãe me via com outros propósitos, tipo, cursar uma faculdade e exercer uma profissão dessas. Ela tinha medo que algo acontecesse comigo quando eu fosse participar ou organizar algum evento, a ideia da marginalidade das ruas fazia ela julgar o livro pela capa, então ela não aceitava, demorou para ela aceitar que o Hip Hop não é um espaço perigoso. Hoje em dia ela me apoia, mas lembra que é para ter ‘cuidado’”.

Dj Pãmmy @pammy.deejay

Fotos: Acervo Pessoal

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Atuando na cena como Dj há 5 anos, a amazonense Pâmela Ferreira é envolvida com diversos projetos sociais locais e explica que cada pessoa envolvida na cultura é tocada e salva pelo Hip Hop de um jeito único. “Cada pessoa que tá no Hip Hop, tem uma história. O Hip Hop, de alguma forma, a salvou, ajudou a acrescentar e evitou que ela não estivesse nas ruas, no crime, sofrendo ou até mesmo em depressão”.

O escritor indiano, George Orwell, certa vez escreveu: “a história é contada pelos vencedores”, ou seja, quem consegue impor a sua narrativa. Sendo assim, a versão de quem tem o poder de decidir quais figuras terão destaque, ou não. Posto isso, quem são as mulheres que não estão presentes na narrativa do Hip Hop? Precisamos trazer à luz essas inquietações, para que seja superada a ideia de que o espaço legítimo nessa cultura só pertence aos homens. Por isso, é necessário recuperar essa história e redistribuir o protagonismo.


mercadizar indica Afronta!

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Foto: Reprodução Internet

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Uma série documental que traz histórias reais sobre a discussão da ancestralidade histórica, passando pelo presente, até chegar ao afrofuturismo. Disponível na Netflix.

Dica da nossa Repórter e RP: Patrícia Patrocínio


O ESPORTE FEMININO É UMA REALIDADE NO BRASIL POR ISABELLA BOTELHO

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Todos os dias, mulheres enfrentam obstáculos pelo simples fato de serem mulheres. No esporte, essa realidade não é diferente. Atletas e profissionais da área são alvo de preconceito, machismo, sexismo e assédio diariamente no exercício de suas profissões.

Isso acontecia pela visão machista de que a mulher, considerada um ser inferior, não teria a capacidade de desenvolver habilidades para participar dos jogos ou que adquiriria características masculinas caso se submetesse a elas.

De acordo com o relatório “Movimento é Vida”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a prática de exercícios físicos por mulheres no Brasil é 40% inferior à dos homens - um indicativo de que o cenário esportivo ainda tem muita desigualdade de gênero. A cultura de não incentivar as mulheres aos esportes, principalmente os coletivos, pode ser explicada pelo pouco acesso ao lazer, devido às tarefas domésticas, que ocupam em média 20,5 horas semanais das mulheres, enquanto os homens gastam 10 horas por semana nas atividades de casa.

Realizada na Grécia, em 1896, a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna foi uma iniciativa do francês Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, criador do Comitê Olímpico Internacional. Ele era abertamente contra a participação de mulheres, afirmando que elas seriam sempre “imitações imperfeitas” dos homens. Por isso, a primeira Olimpíada oficial teve a participação de 241 atletas, todos homens, representantes de 14 países.

Ainda crianças, meninas ganham bonecas. Meninos ganham bola. Eles são incentivados a praticar esportes. Elas aprendem os afazeres domésticos. Os pais levam apenas os filhos para a escolinha de futebol e estádios. Este pensamento de que as mulheres são frágeis está enraizado em nossa sociedade e vem desde muitos séculos. Historicamente, o esporte nunca foi considerado “coisa de mulher”. Desde a Antiguidade, as mulheres foram proibidas de participar dos Jogos Olímpicos, tanto enquanto atletas, como espectadoras.

“Talvez as mulheres compreenderão logo que esta tentativa não é proveitosa, nem para seu encanto, nem mesmo para sua saúde. De outro lado, entretanto, não deixa de ser interessante que a mulher possa tomar parte, em proporção bem grande, nos prazeres esportivos do seu marido e que a mãe possa dirigir inteligentemente a educação física de seus filhos”, afirmou Coubertin. Apesar dos esforços de Coubertin para manter as mulheres fora dos jogos olímpicos, houve uma competidora extra-oficial na maratona de 1896. A grega Stamata Revithi não teve permissão para competir, mas fez o mesmo trajeto de 42 km no dia seguinte à prova e a última volta aconteceu fora do estádio, porque a entrada lhe havia sido proibida.


Como os organizadores do evento não lembravam o nome dela, apelidaram-na de “Melpomene”, a musa grega da tragédia. Ela havia terminado sua corrida em menos de duas horas atrás do vencedor e foi mais rápida do que alguns de seus adversários masculinos. Ela foi a primeira a enfrentar as barreiras da tradição do esporte, buscando a inclusão no esporte olímpico.

A HISTÓRIA DO ESPORTE FEMININO NO BRASIL

A criação foi inspirada no poder feminino e na cultura africana Yorùbá, que apresenta a mulher de diferentes maneiras: mãe, esposa, filha, curandeira e até deusa. Nessa expressão 1900 cultural, acredita-se que a mulher possui poderes divinos ou espirituais, sendo Mulheres puderam oficialmente participar das Olimpíadas em dois a representação da vitalidade e do sagrado.

Sobre a artista

esportes: tênis e golfe. A tenista britânica, Charlotte Cooper foi a primeira mulher a ganhar uma medalha no evento.

Ester Silva, tem 22 anos e é natural de Brasília-DF, filha de um pai negro e mãe branca, a artista é fruto 1920 1932 dePrimeira um relacionamento e desde muitoa participação do interracial Nos Estados Unidos, Brasil nos que Jogos Olímpicos nadadora Mariacom Lenk, nova teve conviver e aprender a lidar asaos 17 da Bélgica. anos, foi a primeira brasileira desigualdades sociais e raciais. Atualmente, residente que esteve na competição. em Manaus, ela atua como artista independente na área de artes visuais. 1996 Jacqueline Silva e Sandra

Conhecida como Medusa, em referência a Deusa da Pires, do vôlei de praia, conquistaram a primeira mitologia grega, que era temida e se destacava por medalha de ouro em ter cobras nofemininas. lugar dos cabelos, Esther escolheu esse modalidade nome artístico em 2017 — após dar início a um longo processo de transição capilar, onde retirou todo o seu cabelo que possuía química de alisamentos. Desse 2008 jeito, no lugar dos cabelos alisados, renasceram os Nos Jogos de Pequim, cachos que chamam atenção e junto com China, avolumosos judoca Ketleyn Quadros seMedusa. tornou a eles surgiu

Fotos: Reprodução Internet

primeira brasileira a ganhar uma medalha num individual.a cursar Publicidade e Propaganda, A esporte artista chegou

mas migrou para o curso de Artes Visuais. Seu trabalho representa as vivências de mulheres, 2012 especialmente a de mulheres pretas dando ênfase à As mulheres bateram espiritualidade, autoconhecimento e ancestralidade. recorde de medalhas nas Olimpíadas de Londres: foram seis no total e, pela primeira vez, conquistaram duas medalhas de ouro.

Joanna Maranhão Um dos grandes nomes do esporte brasileiro é a ex-nadadora, Joanna Maranhão. A atleta, que esteve presente em quatro Jogos Olímpicos, é considerada uma das maiores recordistas da natação brasileira. Natural de Recife, Pernambuco, Joanna iniciou na natação aos 3 anos de idade, demonstrando desde cedo seu talento e domínio das 4 modalidades do esporte (nado de peito, nado de costas, nado crawl e nado borboleta). Aos 14 anos, ela ingressou na seleção brasileira e em seu primeiro campeonato internacional absoluto, garantiu índice para os Jogos Pan Americanos de 2003, realizados em Santo Domingo. Especialista em provas de Medley e Meio Fundo, Joanna é detentora do melhor resultado de uma mulher brasileira em Jogos Olímpicos (5º lugar nos 400 Medley em Atenas). Invicta nas provas de Medley desde 2002, possui 8 medalhas em Jogos Pan Americanos e 8 recordes sul-americanos. Muitas pessoas nunca imaginaram, mas ao mesmo tempo em que conquistava as piscinas, Joanna lidava com um grande trauma. A nadadora teve sua carreira e sua vida pessoal marcadas por um caso de abuso sexual quando era criança, aos 9 anos de idade. O crime foi cometido por um treinador. Por anos, ela manteve esse segredo e não conseguia contar sobre o episódio. Somente em 2008, aos 21 anos, ela quebrou o silêncio e tornou o crime público através de uma entrevista. “Eu trouxe à tona aos 21 anos de idade, e a legislação, até o momento, dizia que a vítima só poderia denunciar até os 18 anos. Então, apesar de eu estar falando, quebrando o silêncio, eu não poderia denunciá-lo formalmente. O que aconteceu foi que ele processou a mim e a minha mãe por calúnia e difamação. Abuso sexual é o único crime que a gente precisa provar que realmete aconteceu. A primeira reação de pessoas muito próximas a mim foi de descrença, eu me decepcionei com muitas pessoas e me surpreendi positivamente com muitas outras que me deram muito colo e tiveram muito entendimento. A vida é isso. Hoje, eu consigo lidar melhor com isso, eu entendo que são incapacidades e imperfeições dessas pessoas e eu apontei isso pra muitas delas, até porque eu não sou a primeira e nem vou ser a última atleta abusada”.

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Foto: Site Joanna Maranhão

Após o processo, que durou cerca de 3 anos, o caso resultou na aprovação de uma lei para alteração no Código Penal Brasileiro. Batizada pelos parlamentares de Lei Joanna Maranhão, ela estabelece que o prazo de prescrição de abuso sexual de crianças e adolescentes seja contado a partir da data em que a vítima completa 18 anos. Com isso, desde 2012, as vítimas do país ganham mais tempo para denunciar e punir seus abusadores.

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O processo de enfrentamento do trauma foi extremamente doloroso, ainda mais por Joanna precisar conviver com o ambiente que marcou sua vida de maneiras tão diferentes. “No mesmo ambiente em que fui finalista olímpica, fui abusada sexualmente. Eu não podia simplesmente me retirar daquele ambiente por muito tempo, porque eu tinha contrato, já era uma atleta profissional. Eu trouxe à tona em 2008, mas acho importante dizer que comecei o enfrentamento dois anos antes, em 2006, metade de 2005. Então, foram dois anos e meio de muita terapia e um processo muito doloroso até que o público em geral tomasse conhecimento. Foi esse processo que norteou a minha permanência no esporte. Foi essa vontade de fazer com que o ambiente da natação fosse prazeroso pra mim, porque eu sabia que, no fundo, eu tinha o direito de ter experiências positivas com a natação e eu fui em busca delas, eu fui construindo essas experiências positivas para balancear com essa experiência traumática e fazer as pazes com a natação”.

Além do caso de abuso sexual, Joanna passou por diversas outras situações de assédio vindo de profissionais, atletas e professores. “A gente cresce dentro dessa lógica e vai normalizando. Com o tempo, a gente vai se emancipando, vai deixando de tolerar coisas que são intoleráveis. Acho que uma das situações que mais me chocou foi no ano de 2015, eu estava morando em São Paulo e decidi que ficaria o semestre praticamente sem carro. Eu tinha um pouco de medo da grandiosidade de São Paulo e fiquei só de bicicleta. Muitas vezes eu saía do treino e colocava só um short e pedalava para casa. Uma vez, um técnico da seleção, conversando comigo, falou assim: ‘Teve uma vez que eu tava na Faria Lima, parado no sinal, e eu vi uma gostosa numa bike. Eu ia gritar, mas vi que era você e eu não gritei’. Isso foi motivo de risos de todos que estavam no entorno, como se ele estivesse me elogiando. Eu não preciso nem enumerar o quanto isso está errado, mas aquilo me chocou e eu não consegui reagir. Eu paralisei, tive o ímpeto de falar alguma coisa, mas, por ser uma pessoa que estava no poder, me paralisou, principalmente porque eu sabia que se me posicionasse, viraria motivo de chacota”, contou em entrevista à Mercadizar. Apesar de todos os acontecimentos e obstáculos, Joanna continuou na natação, foi medalhista em dois Jogos Pan-Americanos (2011 e 2015) e lutou pela causa feminina nos esportes, tornando-se símbolo desta reivindicação. Em 2014, fundou a ONG Infância Livre, para auxiliar crianças e adolescentes através de aulas de educação sexual. Três anos depois, lançou a iniciativa Emancipa Esporte, em parceria com Luciano Corrêa, campeão mundial de judô. Em 2018, aos 31 anos, a nadadora anunciou sua aposentadoria das piscinas e passou a se dedicar a projetos sociais. Hoje, Joanna mora na Bélgica, onde cursa mestrado em Ética e Integridade no Esporte.


Ao mesmo tempo em que ocuparam competições, quadras, campos, ringues, piscinas e pódios, elas também adentraram, a passos lentos, ao jornalismo esportivo, uma área dominada por homens. No Brasil, Semiramis Teixeira, Germana Garilli e Regiani Ritter foram as responsáveis por abrir as portas às mulheres no jornalismo esportivo. Nos últimos anos, elas ganharam ainda mais visibilidade. A jornalista Ana Thaís Matos foi a primeira mulher a comentar um jogo de futebol na TV Globo, na Copa Feminina de Futebol de 2019. No mesmo ano, ela foi a primeira mulher da emissora a comentar um jogo masculino do Campeonato Brasileiro. Pouco tempo depois, a emissora contratou a jornalista Renata Mendonça para integrar seu time de comentaristas. Co-fundadora do blog Dibradoras, do UOL Esporte, ela também passou por ESPN e BBC. Antes de ser oficializada como contratada, ela esteve diversas vezes no “Redação SporTV”, do SporTV, sempre como convidada. Em entrevista à Mercadizar, Renata contou que sua paixão pelo esporte começou cedo e quando escolheu cursar Jornalismo, já tinha sabia que uniria suas paixões e seguiria para o jornalismo esportivo para pôr em prática o propósito de lutar pelos direitos das mulheres.

“Acho que o esporte traz autoestima, determinação, liderança, empoderamento. São características que a sociedade por muito tempo não quis ver nas mulheres. Por isso, a nossa luta é para que todas elas sejam incentivadas ao esporte, assim como os homens são, desde cedo. E acredito que, para isso acontecer, elas precisam ter referências desde cedo - e isso, a visibilidade na mídia, é o Jornalismo Esportivo que pode trazer. Por isso, me sinto realizada hoje trabalhando nessa área”. As mulheres já chegaram a cargos que antes pareciam inalcançáveis, mas não é o suficiente e o jornalismo esportivo ainda parece ter uma barreira intransponível por elas. A todo instante, elas têm sua capacidade, sua competência e suas habilidades colocadas em xeque por chefes, colegas, atletas e torcedores. Numa editoria de esporte, são destinadas a elas pautas envolvendo apenas outras mulheres e esportes considerados “mais leves”. As pautas principais, geralmente, são dos homens. As promoções de cargo são também, em sua maioria, destinadas aos profissionais homens da equipe. Foto: Reprodução Internet

Elas no jornalismo esportivo

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“Uma das coisas mais comuns é ver chefes duvidando da sua capacidade. Eu ouvi de um, no início da carreira no Jornalismo Esportivo, algo como ‘não confio em você para te mandar cobrir treino ou jogos, porque não sei se você vai saber quem são os jogadores, se vai ter as informações sobre eles’. Na hora, não consegui reagir. E por um momento eu até fiquei pensando comigo se eu seria capaz de estar naquela função. Hoje, eu responderia para esse chefe: por que me contratou então? Porque se ele não confiava em mim para realizar as tarefas mais básicas daquela função, não deveria ter me contratado. E eu ouvi aquilo sem ter cometido nenhum erro, sem ter dado nenhum motivo que justificasse um comentário como aquele. Só depois de algum tempo entendi que ele me disse aquilo porque sou mulher e, por isso, ele entendia que meu conhecimento seria menor, que eu não daria conta. A pior coisa que acontece pra nós nessa rotina da profissão é essa, porque faz com que a gente mesmo coloque em dúvida se somos capazes”.

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Em maio de 2015, com o objetivo de driblar o preconceito e incluir as mulheres na cobertura esportiva, Renata, Angélica Souza e Roberta Nina fundaram o projeto Dibradoras. “A ausência de notícias sobre mulheres no esporte era um vácuo e, impulsionadas pela onda do feminino de 2015, muitas pessoas começaram a perceber que o tratamento dado para as mulheres na imprensa era bem desigual, quase invisível. Nascemos em um ano de Copa do Mundo Feminina em que ninguém fazia uma cobertura completa e decente sobre a competição. E com o apoio das atletas, que sempre toparam nos atender, o projeto foi crescendo, fomos conquistando seguidores e espaços, falando com universitários e promovendo palestras em lugares importantes - como o Museu do Futebol. Mas o nosso maior crescimento foi em 2019, durante os meses de junho e julho, quando estávamos cobrindo a Copa do Mundo na França”.

Ao longo desses anos, foram diversas as conquistas alcançadas por este grupo e os desafios também fizeram parte desta trajetória. Segundo Renata, o mais gratificante foi assistir a expansão do projeto e, aos poucos, o que era uma ideia despretensiosa, tornando-se profissional e, acima de tudo, referência para tantas outras mulheres da área. “Outras vozes se somaram às nossas e hoje a mensagem ecoa forte: precisamos dar o protagonismo que as mulheres merecem no esporte. A gente quer mais é que mais gente chegue junto e abrace a causa. Acho que é um movimento que não tem mais volta, mas ainda tem muita luta, porque os preconceitos que enfrentamos ainda existem, as violências que sofremos ainda são frequentes. Mas se estivermos juntas, fica mais fácil enfrentar e vencer tudo isso”, completa. Mesmo com os avanços dos últimos anos, é notório que a participação feminina no jornalismo esportivo ainda é algo tímido. As profissionais femininas precisam de força para provar a todo instante que têm competência para falar de futebol, conforme afirma Renata. “O maior desafio para as mulheres que querem atuar nessa área é que sempre vão duvidar da sua capacidade. Costumo dizer que, quando você chega numa entrevista de emprego para uma vaga no Jornalismo Esportivo, você parte do ‘-5’, enquanto qualquer homem parte do 0. Isso porque, somente por você ser mulher, o entrevistador já pressupõe que você tem menos conhecimento e menos capacidade do que o seu concorrente (homem). E um erro de uma mulher pesa mil vezes mais do que um erro de um homem. É o combustível para os preconceituosos dizerem: tá vendo, mulher não entende mesmo de futebol. E muitas vezes, pelo fato de todos estarem sempre duvidando de você, você mesma passa a se questionar se é ou não capaz de estar ali. Esse é o primeiro passo para você desistir. Por isso sempre digo às mulheres que querem atuar na área: nunca deixem que te façam duvidar da sua capacidade. Acredite sempre em você e busque seus sonhos sem deixar que a opinião dos outros interfira nisso”.


Na Região Norte… Quando pensamos em esporte no Brasil, temos como referência de grandes potências do país as regiões Sudeste e Sul. Historicamente, devido a toda falta de mobilização e incentivo que cerca a região Norte, o esporte por aqui não é valorizado e nem algo comum. Apenas de 5 anos para cá, alguns times de futebol masculino passaram a se destacar regional e nacionalmente. O futebol feminino, no entanto, é forte. O Amazonas é berço de um dos melhores e mais fortes times femininos de futebol do país, o Esporte Clube Iranduba da Amazônia. Mesmo assim, são poucas as mulheres no jornalismo esportivo amazonense. Larissa Balieiro, jornalista da Rádio Difusora, é uma delas. O esporte sempre fez parte de sua vida, mas não era exatamente uma opção de trabalho. “Quando entrei no mercado, nem podia imaginar que o jornalismo esportivo seria a minha casa. O meu interesse foi muito mais acentuado quando entrei na Difusora, em 2011. Aqui, eu tive a chance de desenvolver esse lado, e hoje tenho um quadro criado por mim, que é o Sala 10 e um projeto que todos os anos realizo chamado de Simpósio de Jornalismo Esportivo na Amazônia, cujo padrinho é o jornalista Mauro Naves”.

Foto: Acervo Pesoal

Para Larissa, o primeiro desafio da profissão já começa por ser da região Norte. Em entrevista à Mercadizar, ela explicou que o desdém vindo de pessoas de outros estados é comum. Agora, ser uma mulher e trabalhar com jornalismo esportivo no Amazonas é ainda mais difícil, é um desafio diário.

“O principal desafio é ser vista com respeito. Perceber na conversa que você está sendo ouvida pela profissional que você é. E para ocuparmos mais espaço, é lutando por esse respeito. Se você quer aquele espaço, brigue por ele como se estivesse brigando pelo seu primeiro emprego. Se empenhe. Se dedique. Abstraia cada momento desse espaço, inclusive os erros. Acima de tudo, aprenda. Não vale abrirmos esse espaço e eles não serem devidamente usados ou explorados com maestria. Nós, mulheres, somos capazes do que quisermos, mas precisamos impor o respeito e mostrar que, não só merecemos estar ali, como viemos para ficar”. Em 8 de março de 2020, no Dia Internacional da Mulher, a jornalista cobria São Raimundo X Manaus FC, partida válida pela primeira rodada do returno do Campeonato Amazonense. Repórter de campo, ela sofreu xingamentos vindos da torcida do São Raimundo, mais especificamente do líder da Furacão Azul, torcida organizada do time. Larissa filmou as ofensas, publicou nas redes sociais e denunciou o caso ao Tribunal de Justiça Desportiva do Amazonas. Após o julgamento, o torcedor foi sentenciado a passar 2 anos sem pisar nas arquibancadas. Caso descumpra a medida, terá que pagar R$10 mil. “Este foi o pior de todos, pois eu e colegas fomos xingadas no estádio em pleno dia 8 de março. As ofensas de um torcedor começou com a esposa de um atleta, e ele, vendo que fiquei incomodada com as minhas colegas, começou a se dirigir pra gente e inclusive mostrou o dedo do meio pra mim. Eu filmei tudo. Joguei na internet. Fui para a Justiça Desportiva e ele pegou gancho de dois anos. Foi o pior caso até hoje da minha carreira, acho que porque acabei indo mais adiante na punição”.

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Cozinha e empoderamento APRESENTA:

POR ISABELLA BOTELHO

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Nossas primeiras lembranças afetivas relacionadas à comida vem de nossas mães ou avós. São cores e sabores que marcam nossas vidas para sempre, basta sentir um cheiro e, em milésimos de segundos, estamos em outro tempo, em outro lugar, com outras pessoas. Aquele café com bolo no fim da tarde, o almoço de domingo, a família reunida na cozinha dando pitaco ou aprendendo uma nova receita. A maioria dessas lembranças remete você a presença feminina, certo? Gerações cresceram ouvindo que lugar de mulher é na cozinha. Comumente, esta frase é dita na tentativa de inferiorizar a importância da mulher na sociedade. Até meados do século XX, o papel da mulher na sociedade era cuidar de sua família e, nesta época, cozinhar era uma tradição familiar restrita apenas à nutrição. Estar à frente do fogão era considerado um serviço menor que, tecnicamente, não exigia “requisitos intelectuais”. Com o tempo, esta realidade mudou. As mulheres saíram de casa para estudar, trabalhar e ocuparam outros espaços na sociedade. Por outro lado, muitas delas optaram, por conta própria, continuar em casa e se dedicar integralmente às famílias. Para todas estas mulheres, cozinhar pode ter significados muito diferentes. Além de ser um dos principais e mais sinceros atos de amor, pode ser também a principal fonte de renda.

Atualmente, no Brasil, muitas delas tiram seu sustento da venda de comidas e doces. Conversamos com três mulheres de diferentes idades e regiões do país que compartilham a mesma paixão e jornada na culinária: Nice Porto e Rosangela Ferreira, ambas de São Paulo, e Maria de Lourdes, de Manaus.

Rosangela Ferreira (São Paulo, SP) Rosangela Ferreira é uma confeiteira de mão cheia. Hoje casada e mãe de uma menina de 7 anos, desde criança ela sonhava em trabalhar com arte e ajudava a mãe, que fazia bolos, doces e salgados para complementar a renda da família. “Eu amava enrolar docinhos e moldar as coxinhas na mão, mas nunca imaginei que iria trabalhar com doces e bolos”. “Eu ficava observando minha mãe cozinhar e achava incrível como a mistura de ingredientes se transformava em coisas tão deliciosas! Eu ficava sentada observando e a ajudava quando ela permitia, me sentia a ‘chef de cozinha’”, conta. Seguindo o conselho dado por um professor na adolescência, Rô, como é conhecida, guardou seus sonhos numa caixinha e optou por um caminho “pé no chão”. Casou-se ainda nova, aos 22 anos, e, junto ao marido, cursou Administração. Posteriormente, fez faculdade de Design de Moda e, quando achou que finalmente seguiria seu coração e trabalharia com moda, a carreira não vingou.


Os salários já não eram o suficiente e, diante da necessidade de ter uma renda extra para terminar sua casa, ela ouviu de uma amiga: “Rô, por que você não vende doces e bolos? Eu amo seus docinhos, você tem talento! Por que você não tenta? Para provar que confio em você, vou encomendar o bolo de aniversário do meu esposo, quero um para 30 pessoas”.

Quando viu a oportunidade da confeitaria se tornar um trabalho fixo e que podia viver dela, Rosangela começou a estudar e, consequentemente, se apaixonar ainda mais pela área. No entanto, ela ainda trabalhava num escritório de advocacia, onde ficou por 8 anos, e não conseguia mais conciliar as duas jornadas. “Me lembro que trabalhei até às 4h da manhã e logo depois saí para trabalhar, fui virada de um dia para o outro e não conseguia me concentrar no trabalho. Comecei a perceber que não ia conseguir e eles também, foi aí que eles me dispensaram e ainda me pagaram um curso incrível de confeitaria com a renomada professora Janaína Suconic, um curso incrível! Daí fui me aperfeiçoando dia após dia”. Em entrevista à Mercadizar, ela contou que o apoio de seu marido foi essencial para seguir esse sonho, mesmo diante das incertezas colocadas pela pandemia do coronavírus. “Meu esposo sempre foi meu degustador profissional. Ele me ajudou muito, sempre me motivando a crescer e a estudar mais e mais, mesmo ele ‘perdendo a atenção’ todos os finais de semana, pois são os dias de maior trabalho por aqui. Mesmo com todos os percalços, mesmo com as dificuldades de ser MEI e em meio a essa pandemia devastadora, estou conseguindo trabalhar todos os dias e isso tem sido uma vitória! A confeitaria mudou e está mudando minha vida”.

Segundo ela, um de seus maiores diferenciais é a qualidade dos produtos que utiliza em seus doces - além do amor, é claro. Esta característica e autoexigência, herdada de sua mãe, que sempre prezou pelos mesmos princípios, lhe renderam uma parceria de sucesso com a Sococo, empresa brasileira de produtos feitos de coco. “Minha mãe sempre usou Sococo e, quando comecei a trabalhar, os marcava em todos os meus trabalhos e nunca imaginei que eles iriam ver as publicações ou que por acaso entrariam em contato. Mas, para minha surpresa, o departamento de marketing da Sococo entrou em contato. Eu fui convidada a participar de um concurso de confeiteiros e fiz um convite, disse que seria muito bom se a Sococo participasse e de pronto eles aceitaram! Quando eles apareceram no dia do concurso, tive a certeza que estava criando uma parceria para a vida. A Sococo tem grande parte de culpa neste sonho, pois quando se é visto por uma empresa de grande porte, quando seu trabalho é reconhecido e incentivado pelos mesmos, você começa a ter certeza que sim, você está no caminho certo”.

“Através dela, adquiri mais amor e empatia, pois é impossível produzir doces sem amor”. Rosangela Ferreira @bolodaro.sp

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Foto: Acervo Pessoal

“Eu falei pra ela: ‘Você é louca, não sei fazer um bolo tão grande!’, mas ela confiou em mim. Até hoje me lembro do sabor: bolo de baunilha recheado com doce de leite, abacaxi e coco Sococo. Dali em diante não parei mais. Daquela festa de aniversário surgiram 2, 3 e muitos outros pedidos”, explica, entre risadas.


Rô explica que assim como a culinária, a confeitaria, mais especificamente, é muito dominada por homens e que esta realidade muda a passos ainda muito lentos. “Sou muito grata pela luta de várias mulheres que nos antecederam nesta área. Sou mulher, preta e moro na periferia. Sei que se não correr atrás dos meus sonhos, se não pedir ajuda a Deus e correr mesmo atrás dos meus objetivos, eles jamais me alcançarão, então o que me resta é estudar muito, sempre dar o meu melhor e fazer parcerias de peso para seguir em frente e um dia realizar meu sonho que é ter uma confeitaria com tons pastéis de rosa e lilás, com flores, cadeiras e mesas brancas, com muitos, muitos doces deliciosos!”. “Meu conselho às mulheres é que sim, se empoderem, sejam fortes e corajosas e mesmo que venham lhes dizer que vocês não podem, vocês podem! Eu consigo e vocês também podem conseguir!”, completa.

Nice Porto (São Paulo, SP)

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Nascida em Itaobim, Minas Gerais, e criada em São Paulo capital, para onde se mudou aos 7 meses, a confeiteira Nice Porto é uma das pessoas que teve sua vida transformada pela culinária. Aos 51 anos, mãe de 5 e avó de 3, como se apresenta, o trabalho com a cozinha é um de seus maiores orgulhos e principal fonte de renda. Sua história com a cozinha começou cedo, aos 11 anos de idade. À época, sua tia faleceu no dia em que as próprias filhas completaram 9 anos e Nice resolveu, alguns dias depois, preparar um bolo para as primas porque, como explicou, ninguém fica triste quando come bolo. “Pena que naquela época não tínhamos fácil acesso às câmeras fotográficas para registrar aquele momento”, completa. Desde muito cedo, Nice assumiu grandes responsabilidades. Em entrevista à Mercadizar, ela contou que, na infância, seu pai abandonou sua mãe, que precisou trabalhar fora para sustentar a família. Mesmo com dois irmãos mais velhos e ainda muito nova, a confeiteira precisou cuidar da casa.

Precoce, como ela mesma se intitula, aos 13 anos de idade, já se sentia como se tivesse 25, conta. Nessa época, começou a namorar e, três anos depois, engravidou do primeiro filho, tornando-se mãe a poucos dias de completar 17 anos. “Eu me sentia tão segura e dona de mim, que decidi parir em casa e não fui para o hospital, enfrentando um parto natural de 8 horas, auxiliado pela avó do meu marido. Ali, nasceu também a Nice guerreira”. Três anos e meio depois, nasceu sua segunda filha. Até aquele momento dona de casa, Nice decidiu trabalhar informalmente para não ser dependente financeiramente do marido. “Segui minha vida sendo mãe e dona de casa. Nessa ocasião, comecei a vender roupas e logo a culinária entrou na minha vida. Comecei a vender churros na porta de um supermercado para ter uma ocupação e também algum dinheiro, já que meu marido era assalariado e, apesar de termos uma vida confortável, eu não queria depender de homem para tudo”. Mais três anos se passaram e, apesar de feliz com a maternidade, ela percebeu que não tinha a mesma felicidade no casamento. Seu marido, apesar de bom pai e provedor, não deixou de fazer o que gostava, como ela explica. “Ele não abandonou seu jogo de futebol, as cervejadas com os amigos. A bebida era algo que me incomodava demais, pois ele se tornava agressivo, até que, após minhas reclamações, começaram as agressões físicas... então decidi dar um basta, separei e voltei a estudar, arrumei um emprego, primeiro de vendedora em loja de roupas femininas e depois em uma indústria de tecidos”. Neste último trabalho, Nice conheceu seu segundo marido e pai de seus outros 3 filhos. Após uma relação de mais de 20 anos já desgastada, também se separou. Foi neste momento que a culinária voltou para a sua vida e, desta vez, para ficar. “A culinária me ajudou muito enquanto meus filhos eram pequenos. Da máquina de churros, passei a vender tortinhas de porta em porta no condomínio em que eu morava. Nunca paguei para fazer os bolos de aniversário para meus 5 filhos e sempre procurei fazer coisinhas diferentes que encantavam a família e os convidados. Até que passaram a surgir encomendas, a oportunidade de fazer uma pauta para uma revista, programas de TV, e consegui me tornar instrutora de uma grande empresa no segmento de confeitaria... Comecei a dar aulas no Brasil inteiro”.


Um ano após a segunda separação, ela conheceu o grande amor de sua vida, Paulo. “Nós estávamos tão apaixonados que 6 meses depois já estávamos morando juntos. Ele, 12 anos mais velho que eu, um pesquisador científico, com pós-doutorado na Europa, e eu com pós-graduação na vida”, conta, emocionada.

Foto: Reprodução Internet

Com o tempo, as viagens a trabalho foram reduzidas e Nice abriu mão de trabalhar comercialmente e, incentivada por Paulo, criou a Associação Doce Viver, uma instituição sem fins lucrativos, e desenvolveu um projeto social com renda revertida para o Hospital do GRAAC, com participação de várias personalidades famosas. Numa viagem ao Rio de Janeiro para divulgar o trabalho, seu companheiro teve um infarto fulminante e não resistiu. “Viajei com meu amor e retornei com um caixão. Meu mundo ruiu, não apenas pela morte, mas por conta da situação que veio depois… Quando fui morar com o Paulo, ele me disse que era separado há mais de 7 anos, situação confirmada pela mãe e pela filha mais velha, porém não era bem assim, ele continuava casado no papel com a outra mulher. Por uma questão totalmente patrimonial, toda família dele me virou as costas no momento que eu mais precisei, e passei viver um verdadeiro pesadelo”.

Hoje, Nice luta na justiça pelo reconhecimento de sua união estável com o ex-companheiro. Um de seus objetivos para este ano é lançar um livro e também cursos de empoderamento social para mulheres que se encontram em situação de vulnerabilidade, incentivando, principalmente, mulheres a conhecerem seus direitos. Ao longo de sua carreira, Nice fez importantes parcerias com empresas do ramo culinário, incluindo a Sococo, atualmente uma de suas principais apoiadoras. “As parcerias são sempre importantes, especialmente para os projetos sociais. A maioria das empresas enviam produtos para as nossas ações, isso fortalece os projetos. Juntos sempre somos mais fortes. Inclusive, recentemente desenvolvi uma receita de jóias comestíveis para a Sococo que foi um sucesso, criei vídeos para o Reels e Tik Tok, foi incrível”, ressalta.

Nice Porto @nice.porto

Foto: Acervo Pessoal

“Hoje eu só quero retomar a minha vida, seguindo em frente com os meus propósitos e decisões tomadas antes do Paulo falecer. Tenho muito para realizar, quero inspirar outras mulheres, e desenvolver muitos projetos, envolvendo, educação, conhecimento, arte, cultura, meio ambiente. Na verdade, quero tornar o mundo um pouquinho mais doce, através da minha Associação e do Canal a Casa da Nice”.

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Assim ela criou 3 filhos e, posteriormente, ajudou na criação de seus 8 netos. Somente em 2015, aos 75 anos, quando descobriu um câncer de tireóide, se afastou definitivamente dos fogões. Mesmo assim, ela conta que, teimosa, nunca deixou de fazer docinhos para sua família, principalmente com o nascimento de sua primeira bisneta. “Eu quis fazer todos os doces do aniversário de um ano da minha bisneta, não deixaram. Então, eu ajudei a fazer, mesmo que contra a vontade de todos. Fiz para todos os meus filhos e todos os meus netos, precisava fazer pra ela, que trouxe alegria pra minha vida”.

Maria de Lourdes (Manaus, AM) Aos 83 anos de idade, Maria de Lourdes já se aposentou, mas ainda faz doces para ocasiões especiais da família. Foram mais de 40 anos vivendo os deleites e desafios da confeitaria. Em entrevista à Mercadizar, ela contou que começou a fazer doces para complementar sua renda. À época, ela morava em Manaus com os três filhos ainda crianças e seu marido, tenente da Marinha, que passava a maior parte do tempo viajando a trabalho. “Eu comecei a fazer doces para os meus filhos levarem para contribuir com as festas de escola. Eu estudava muito, era muito curiosa, lia receitas, testava, experimentava e oferecia pra família inteira provar. Com o tempo, isso se tornou meu trabalho. Era algo que eu gostava de fazer e fazia com muita dedicação”.

Dona Lourdes @marialourdeslucas9

Foto: Site Sococo

As encomendas iniciaram pela própria família e, com o tempo, a procura aumentou, ultrapassando a barreira familiar. A cada novo trabalho, os docinhos da Dona Lourdes, como é conhecida, conquistavam mais pessoas e a procura aumentava. “Naquela época, era tudo muito luxuoso, as festas eram regadas a muitos doces e eu chegava a fazer de mil a 1.500 doces por evento, tudo com a ajuda apenas da minha irmã Marilene. Nós passávamos noites a fio acordadas, só nós duas, enrolando docinhos, colocando nas forminhas e confeitando bolos. Nesses dias, ficávamos conversando e parecia que o tempo nem passava, era muito rápido. Era tudo feito com muito cuidado e muito amor e dentro de casa”.

Foto: Acervo Pessoal

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Quando perguntada qual o seu ingrediente favorito para trabalhar, respondeu sem pensar duas vezes: “O coco!”. Ela explicou que a fruta serve como ingrediente para os mais diversos doces, podendo ser utilizado como principal e também na finalização. “Você consegue fazer tudo com coco, mas os meus doces favoritos são beijinho e quindim, são minha especialidade. Tenho receitas próprias para esses doces, mas o meu segredo para manter o sabor único era a qualidade do coco. Durante todos esses anos, sempre usei Sococo, seja coco ralado ou leite de coco, nunca saíram da minha geladeira”.

Com muito orgulho, Dona Lourdes passou a paixão pelos doces de geração em geração. Hoje, mesmo aos 84 anos, ela lembra todas as receitas de cabeça, está sempre buscando novidades e é muito exigente com suas duas filhas e neta que seguiram seus passos: ela faz questão de provar cada um dos doces e bolos feitos e dar seu selo de aprovação e qualidade final. Muitas de nós conhecemos Rosangelas, Nices e Marias. Por suas mãos e talento únicos, elas ressignificam a culinária e, por meio de seus trabalhos, mostram que a cozinha, durante muito tempo o cômodo inferiorizado da casa, pode sim empoderar.


mercadizar indica Dona de Mim - Iza

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Foto: Reprodução Internet

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Clipe Dona de Mim, estrelado pela cantora Iza, sua narratividade relata o empoderamento feminino relacionado às desigualdades de raça e gênero. Disponível em Youtube.

Dica da nossa Revisora: Paola Silva


A MODA BRASILEIRA COMO EXPRESSÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL POR PATRÍCIA PATROCÍNIO E ISABELLA BOTELHO

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Certa vez, Luís XIV afirmou que a moda é o espelho da história. E de fato, assim como a arte, a moda tem a capacidade de refletir o período em que vivemos. Embora por muito tempo pesquisadores e estudiosos tenham a tratado como um objeto de estudo raso, sem muitas razões para investigação, ao longo do desenvolvimento humano, a moda se mostrou relevante. Especialmente na solução das dúvidas sobre o que fomos e pensamos enquanto indivíduos e sociedade. Na França, ela era tão estimada que pediram ao rei Carlos VII a criação de um “ministério da moda”. Atualmente, claro, essa instituição não faria sentido algum, mas isso não significa que a importância dela diminuiu. Devemos considerar que a moda não se limita a vestimentas, tendo a capacidade de invadir todas as áreas de consumo e instâncias da sociedade. Ao lado disso, seu objetivo segue o mesmo princípio dos inúmeros movimentos modernistas do final da idade média, a incansável busca pelo novo e o rompimento com o conservador.

Um elemento de identidade e uma das várias faces da moda Estudiosos da área explicam que a utilização de roupas pelo ser humano está atrelada à necessidade manifestada de nossos ancestrais de autopreservação. Dessa forma, as peles de animais utilizadas para cobrir o corpo há 600 mil anos a.C, foram os primeiros rascunhos das atuais vestimentas. Na Mesopotâmia, o aparecimento da tecelagem foi essencial para o desenvolvimento da produção têxtil. E o Egito, o responsável pela atribuição de significados às roupas, revelando o papel fundamental que ela cumpria na identificação e distinção dos representantes de poder máximo. Milhares de séculos se passaram e a indústria desse setor avançou, tornando a moda um produto de massa, com capacidade de alcançar públicos de diferentes classes sociais. O seu crescimento ao decorrer dos séculos permitiu que muitas pessoas fizessem o seu uso, ainda que nem todas deem conta de acompanhar o fluxo de mudanças e tendências por razões financeiras. Fato é que a moda tornou-se um instrumento de transformação e uma estratégia de mobilidade social.


Fotos: Banco de Imagens

Sobre a relação com a identidade, ao longo de nossas vidas ficamos expostos a diversas situações que nos ajudam a construir o que somos, e como parte dessa construção, as roupas tornam-se manifestações de nossas individualidades, o resultado da mistura das experiências que absorvemos. Desse jeito, como objeto que cobre o corpo, ela expressa essa mistura, como a figura do que somos, determina as relações que estabelecemos com o mundo.

“A roupa é uma casca, não define quem você é, mas te mostra. Apresenta teus gostos, a que grupo você pertence ou projeta pertencer” - Sarah Marinheiro, estilista amazonense.

Grandes acontecimentos na história da moda Após o fim das Guerras Mundiais, a moda evoluiu significativamente. A cada década seguinte a esses acontecimentos, um estilo e expressão diferentes carregados de valor e simbolismo ganharam a cena. Desde o início utilizada para romper padrões, ela favorece a retomada da liberdade de expressão que tanto foi reprimida pelos regimes ditatoriais da época. Uma das marcas registradas desse período, foram os tons sóbrios que as roupas femininas assumiram, devido ao luto vivenciado. No entanto, a transformação no vestuário feminino não ficou restrita apenas aos tons. Com a situação de muitas mulheres saindo de casa para trabalhar durante as guerras, os cortes e modelagens de suas roupas também ganharam formas diferentes, o que desencadeou reflexões em relação ao lugar que a mulher ocupa na sociedade. A partir desse momento, as saias diminuíram, mulheres passaram a usar calças, o que era permitido somente aos homens. Desse jeito, a moda demonstra expressamente o seu poder de intervir e até mesmo regular comportamentos da sociedade.

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Responsável por introduzir elementos considerados de “uso masculino” na alta moda feminina, a estilista empoderou mulheres através de suas criações e do seu jeito único de se expressar.

CARMEM MIRANDA Com figurinos extravagantes e chapéus de frutas, Carmen Miranda foi a primeira mulher brasileira a mostrar a importância da valorização da moda e cultura latina para o mundo.

WINNIE HARLOW Primeira modelo negra com vitiligo a ganhar repercussão mundial.

NAOMI CAMPBELL 38

A primeira mulher negra a estampar a capa da Vogue.

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CRISTIANA ARCANGELI Responsável por organizar os primeiros eventos de moda do Brasil.

WE’E’ENA TIKUNA A primeira indígena tikuna do Alto Solimões a assinar profissionalmente uma coleção e a expor suas peças autorais em um dos maiores eventos da moda sustentável do País.

GISELE BUNDCHEN A top model brasileira é a terceira personalidade feminina que mais estampou capas de revistas pelo mundo.

SUYANE YNAYA Com projetos autênticos, a Stylist e editora fashion da Elle Brasil popularizou o conceito da sevirologia. De forma simples, é você utilizar aquilo que está ao seu alcance para criar suas composições na moda.

Fotos: Reprodução Internet

GABRIELLE CHANEL

ALGUMAS MULHERES QUE TRANSFORMARAM A NARRATIVA DA MODA ATÉ HOJE


Referências da moda brasileira O Brasil é um país multicultural e sua moda deriva da união desses diferentes elementos. Nossas dimensões continentais e variações climáticas geram expressões típicas de cada região e que juntas demonstram a pluralidade de estilos e sentidos que representam a identidade do brasileiro. Buscando exaltar essa particularidade, a empresária Cristiana Arcangeli organizou, em 1993, a primeira semana de moda do País, intitulada de Phytoervas Fashion. O evento impulsionou a criação de uma nova identidade brasileira de moda que não só valorizava a manifestação de nossa mistura cultural, como também inaugurava as produções de designers conterrâneos. O objetivo do evento era lançar estilistas brasileiros no mercado e divulgar a moda do Brasil. Desse jeito, em oito edições da cerimônia, mais de 60 carreiras de estilistas brasileiros foram projetadas no cenário internacional do setor. Com isso, o caminho para o surgimento do maior evento de moda nacional estava aberto, nascia assim a São Paulo Fashion Week. Após esses acontecimentos, o conceito de “moda nacional” ganhou força e iniciativas brasileiras dessa área ficaram cada vez mais conhecidas. Vale destacar que o Phytoervas Fashion tinha o propósito de desmistificar algumas ideias internacionais a respeito da moda brasileira, abrindo espaço para novas formas de expressão da nossa diversidade cultural, sem estigmatizar.

Expressões da moda nortista A Região Norte é uma das mais miscigenadas do país. Nossa população é formada pela mistura de indígenas, negros e imigrantes, em grande parte europeus. Essa junção cultural entre povos tão diferentes é o ponto de partida das muitas manifestações tradicionais presentes nos estados da região. Especificamente quando falamos de moda, nossa história se expressa através do uso de estampas, grafismos, cores vivas e tecidos leves, principalmente por conta do clima. O toque artesanal também se destaca por aqui, como parte da memória afetiva que herdamos dos povos tradicionais da Amazônia. Desse jeito, bijuterias, bolsas, sandálias e chapéus feitos à mão e com materiais derivados da natureza, são comuns na composição da moda nortista.

“As pessoas esperam muito que moda seja algo fora da caixinha, mas sempre fazem referência às passarelas. Ao meu ver, a moda vai além, tem a ver com a cultura e com as manias e jeitos de cada local. Por exemplo, Manaus e o calor, a gente tem um jeito único de se vestir, mais confortável, leve e colorido. Além disso, temos muitos talentos, tanto na parte de produção de moda, quanto de estilistas, mas que frente às regiões Sul e Sudeste não recebem o devido reconhecimento”, afirma Maria Cecília Silva, visual merchandising, em entrevista à Mercadizar. Atualmente, Cecília trabalha diretamente com o interior de lojas, sendo responsável pela montagem de looks que irão para as vitrines. Para isso, ela estuda a coleção que vai entrar, alinhando com as tendências e público da loja. “Produzo moodboards e saio em busca de tudo que envolve o styling da vitrine: calçados, acessórios e perucas. Então, minha inspiração vem da coleção que o cliente me apresenta e sempre estou vendo desfiles, acompanhando tendências”. Morando em São Paulo, para onde se mudou com o objetivo de cursar Produção de Moda no Senac e buscar oportunidades de estágio, ela explica que um dos seus principais desejos é estudar e voltar à Manaus para contribuir e fortalecer o mercado da moda local. “Ainda pretendo fazer mais alguns cursos e voltar pra terrinha com conhecimento para dividir. A moda tem infinitas possibilidades e precisamos reconhecer isso no Norte”, afirma.

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Assim como ocorre em outros setores da região, os desafios de fazer moda no Norte vão desde a falta de incentivos e recursos financeiros, ao alto custo de matérias-primas. Carolina Otília é formada em Moda na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e tem sua própria marca. Morando também em São Paulo, ela conta que um dos principais desafios para quem quer empreender na área na região Norte é justamente o alto preço das matérias-primas e os poucos fornecedores.

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“Trabalhar com Moda no Brasil é complicado, porque necessita de um investimento inicial grande. É caro abrir uma marca e fazer tudo direitinho, muitas vezes isso reflete no preço e as pessoas nem sempre estão dispostas a pagar um valor mais alto por uma moda autoral e artesanal, porque não nos foi ensinado a dar valor pra isso. É um problema estrutural. Além disso, a procura por fornecedores é sempre cansativa. Na região Norte, por exemplo, é quase impossível... Produzo tudo aqui em SP, os fornecedores que me atendem são todos daqui e sei que não acharia tudo o que eu preciso na região Norte. Essa falta de mão de obra e de fornecedores encarece e dificulta ainda mais a produção dos designers do Norte”, explica.

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Além disso, há a escassez de cursos profissionalizantes. A maioria das graduações desta especialidade nos estados da nossa região são particulares, o que cria barreiras de acesso e até mesmo prejudica o desenvolvimento da área, como explica Sarah. “Fiz o vestibular para uma faculdade particular e quando saiu o resultado, veio o impasse: não tinha dinheiro para custear, na época estava desempregada. Por sorte, abriu um programa de bolsa de estudo do estado no mesmo período e eu me inscrevi. Fui no primeiro mês de aulas sem ter pago nada e sem saber se realmente conseguiria a bolsa. Um mês depois foi liberado o resultado e eu conquistei um percentual no abatimento da mensalidade e, com a ajuda da minha família, paguei o restante. Então as maiores dificuldades e desafios enfrentados por mulheres nortistas na moda se resumem a escassez de incentivos para a nossa produção”. Como cidadãos nortistas, nossa existência é atravessada pelo contato com a natureza e a urbanidade, embora alguns ainda não saibam que no Norte o espaço urbano é tão presente quanto o natural. Crescemos em meio aos tons verde e cinza, e desenvolvemos uma relação complexa com eles.

E seja por isso ou pela memória afetiva herdada de nossos ancestrais, que reproduzimos em nossas formas de ser/estar no mundo essa relação. Por outro lado, em relação ao mercado da moda nortista, o desenvolvimento é especialmente definido pelo estilo sustentável, pensado para o futuro e altamente representativo. Nossas riquezas não se encontram só nas florestas e recursos naturais, nossa cultura e povo são expressões únicas de uma história que tem a diversidade como premissa principal, como afirma Carolina. “Dos artistas do Norte que conheço, um ponto principal que existe em comum entre eles, é a carga cultural que carregam. Não conheço um designer do Norte que produza algo sem colocar um pouco da sua cultura e da sua história. Isso é um diferencial imenso e deveria ser mais valorizado”. Sobre a mensagem que a moda nortista está encarregada de passar através de suas representações, para Melissa Maia, ela está relacionada com a observação, tanto de pessoas, quanto do momento político que vivemos. É dessa forma que a estilista e figurinista consegue trazer uma narrativa em suas produções que possibilite transformação. “Como uma mulher transexual, sempre penso ‘Como eu posso me expressar?!’, ‘Como a minha arte pode mudar o olhar das pessoas ao terem contato com algum trabalho meu?!’. Seja de moda ou figurino, eu sempre busco o máximo de representatividade, até quando faço meus croquis”. Já para Designer Sarah Marinheiro, suas roupas carregam uma história de respeito e resgate ancestral. “Minhas inspirações são meus antepassados, a cultura africana e indígena, nossa fauna e flora. O que quero falar através das roupas é como quero contar a história. Daí tiro um tema e esmiúço até ficar tangível, alguns milhares de croquis depois. Sempre pensando na melhor forma de ficar o mais sustentável possível, respeitando os corpos”. Sem dúvidas, como tudo no Norte, a vontade de existir supera as adversidades, a resistência contra a dominação desde os tempos coloniais por partes dos povos originários e das comunidades quilombolas reverberam na essência de todas as coisas que são criadas na região. A moda nortista é uma das inúmeras expressões que ostentam o que temos de melhor: nossa pluralidade; seja nos elementos culturais ou nas potências criativas de nossas manifestações.


Foto: Acervo Pessoal

@melissamaiaa Figurinista e Estilista. Formada em Design de Moda pelo Ciesa e pós-graduada em Cenografia e Figurino pela Belas Artes. Para ela, a moda está relacionada com a observação tanto de pessoas, quanto do momento político que vivemos. É dessa forma que a estilista e figurinista consegue trazer uma narrativa em suas produções que possibilite transformação.

CAROLINA OTÍLIA @otiliamafre @shop.otilia Aos 24 anos, a designer manauara é formada em Moda na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), e tem sua própria marca. Morando também em São Paulo, ela conta que um dos principais desafios para quem quer empreender na área na região Norte é justamente o alto preço das matérias-primas e os poucos fornecedores.

Foto: Acervo Pessoal

ALGUMAS MULHERES QUE TRANSFORMAM A NARRATIVA DA MODA NO NORTE MELISSA MAIA

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MARIA CECÍLIA SILVA @ceciliasilvs Visual merchandising amazonense. Atualmente, Cecília trabalha diretamente com o interior de lojas, sendo responsável pela montagem de looks que irão para as vitrines.

SARAH MARINHEIRO @sarahmarinheiro Sarah já participou de algumas iniciativas importantes para o setor local, como o grupo “Cabedal de Criadores” de onde surgiu a ideia da primeira semana de moda do Estado. Trabalhando no ramo desde os 15 anos, em 2013, formou-se em Design de Moda pelo Ciesa. Atualmente, atua como designer de moda, produtora, figurinista, ilustradora e docente.

Foto: Yamada

Foto: Acervo Pessoal

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mercadizar indica Mary Shelley

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Foto: Reprodução Internet

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O filme conta um pouco da história de Mary Shelley, a jovem autora de Frankenstein, o primeiro grande romance de ficção científica. Disponível na Netflix.

Dica da nossa Diretora de Criação: Aline Ribeiro


13 jornalistas para acompanhar POR ISABELLA BOTELHO

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Foto: Acervo pesso al

Durante muito tempo, as redações jornalísticas foram dominadas por homens, quadro que vem sendo modificado de forma lenta ao longo dos anos. Hoje, elas são destaque na produção de jornalismo de qualidade. Selecionamos 13 profissionais de diferentes origens, idades, experiências e histórias de vida para você conhecer e acompanhar.

Aline Ferreira Jornalista amapaense, é apresentadora do JAP1, da Rede Amazônica. Tem quase 15 anos de carreira, sendo 7 deles na Rede Amazônica Amapá, onde começou como repórter e assumiu há 5 anos o telejornal. Foto: Reprodução Internet

@alineferreiraap

Aline Midlej Natural de São Luís, no Maranhão, atualmente é apresentadora na GloboNews, no Rio de Janeiro, e colunista do G1. @alinemidlej @AlineMidlej


Foto: Reproduç ão Internet

Ana Lídia Daibes

Foto: Cíce ro Rod rigu

@analidiadaibes

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Formada em Letras e em Jornalismo, apresenta o Jornal de Rondônia 2ª Edição, da Rede Amazônica, desde 2018.

Andréia Sadi

Foto: Reprodução Internet

Trabalha na GloboNews desde setembro de 2015, cobrindo os bastidores da política em Brasília. Também apresenta o “Em Foco com Andréia Sadi”, na Globo News, e tem um blog de política no G1.

@sadiandreia @AndreiaSadi

Flávia Oliveira

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Foto: Repro dução Intern et

@flaviaol @flaviaol

Colunista no jornal “O Globo” e na rádio CBN, comentarista da GloboNews e podcaster no “Angu de Grilo”, é formada em Jornalismo pelo Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS) da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro.

Jocyelma Santana

Karina Quadros

@jocyelmasanta

Rondoniense, formada em Jornalismo pela União das Escolas Superiores de Rondônia (UNIRON), é Editora-Chefe e apresentadora da Rede Amazônica e da CBN Amazônia.

@karina_quadro

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Foto: Alberto César Araújo

Foto: Rep rodução Inte

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Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é Editora-Chefe e apresentadora na TV Anhanguera Tocantins e afiliada à Rede Globo.

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Kátia Brasil Formada pela Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, no Rio de Janeiro. Trabalhou nos jornais O Estado de Roraima e A Gazeta de Roraima, O Globo, Amazonas Em Tempo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, TV Cultura e TV Educativa. É cofundadora e editora-executiva da agência Amazônia Real.

@katiamabrasil


Foto: Reprodução Internet

AzMina

rnet

Criada em 2015 por um financiamento coletivo, AzMina é uma revista jornalística independente e digital que atua na defesa dos direitos da mulher. É dirigida pelas jornalistas Carolina Oms, Helena Bertho e Thais Folego. Foto: Rep rodução Inte

@revistaazmina @revistaazmina

Luana Borba

Foto: Reprodução Internet

Jornalista e apresentadora da Rede Amazônica, afiliada da Globo no Amazonas, na qual atua como Editora-chefe e Apresentadora do Jornal do Amazonas 2ª Edição. Tem passagens pela Amazon Sat (Manaus), Rede Globo Nordeste (Recife) e TV Verdes Mares (Fortaleza). @borbalua

Maria Júlia Coutinho

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Foto: Acervo pesso al

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, é apresentadora, comentarista, radialista e repórter. Atualmente, é âncora do “Jornal Hoje”, da TV Globo.

@majucoutinhoreal @majucoutinho

Naiandra Amorim Editora-chefe e apresentadora do “A Crítica na TV”, jornal da TV Acrítica, é especialista em Jornalismo Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Tem passagens pela antiga TV Em Tempo, afiliada SBT, Band Amazonas e pelo Grupo Record.

Foto: Rep rodução

Inte rnet

@naiandraamorim

Nayara Felizardo Formada pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), atua no jornalismo impresso e webjornalismo desde 2008. Escreveu para a Revista Revestrés durante seis anos. É repórter no The Intercept Brasil.

@nayarafelizar

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mercadizar indica Falas Femininas

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Foto: Reprodução Internet

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Histórias de cinco mulheres de idades, crenças e lugares diferentes do Brasil integram o programa mediado por Fabiana Karla. Disponível no GloboPlay.

Dica da nossa Repórter e Planejamento: Isabella Botelho


O TABU DA MENSTRUAÇÃO POR ISABELLA BOTELHO

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Processo natural, inevitável e necessário do corpo humano, a menstruação acontece todo mês com mais da metade da população mundial. Qualquer pessoa que menstrua sabe que esse acontecimento vem com uma pesada carga social envolta de vergonha e medo. A primeira menstruação acontece por volta dos 12 anos de idade e, desde então, somos condicionadas a nos sentirmos constrangidas e envergonhadas em relação a ela. É difícil encontrar alguém que não tenha sentido na pele esse tabu. Basta parar um pouco e relembrar: você nunca perguntou bem baixinho para uma amiga se ela tinha um absorvente e depois escondeu embaixo da blusa ou guardou no bolso da calça no caminho para o banheiro? Essa vergonha com algo tão natural não é saudável. Quando menstruamos, fomos ensinadas a esconder e não falar sobre o assunto. No entanto, se não falamos, como vamos entender o que acontece com o nosso corpo? Não somos ensinadas de forma apropriada sobre nossos corpos, métodos contraceptivos, quais sintomas a menstruação pode causar, qual o impacto no nosso corpo e, mais importante, na nossa mente. Por que sentimos tantas dores? O que é a tensão prémenstrual, a tal TPM? Esses assuntos são reprimidos e tratados de forma constrangedora por todos à nossa volta, o que pode trazer marcantes consequências, conforme explica a psicóloga Simone Russo, em entrevista à Mercadizar.

“A menstruação ainda é muito ligada ao constrangimento e ao sofrimento, tem impactos negativos e por vezes nunca superados na vida de adolescentes. Estes podem ser diminuídos com informações que preparem para a menarca, primeira menstruação, e para viver a menstruação como algo natural e que acompanhará por muitos anos na vida. Neste sentido, não apenas a família e a escola, mas a sociedade pode contribuir para criarmos um discurso que permita acolhimento com naturalidade e consciência sobre a vida menstrual”. Simone trabalha com atendimento psicoterapêutico para adolescentes e, segundo ela, é comum que convivam com o período menstrual com muita dificuldade. “Já recebi para tratamento psicoterápico adolescentes com sintomas depressivos e fóbicossociais como consequência do início dos ciclos menstruais e muita dificuldade em aceitá-los e vivenciá-los de forma acolhedora e natural. Da mesma forma, não é raro escutar adolescentes afirmarem que gostariam de suspender seus ciclos menstruais por sentirem dor, vergonha, se acharem sujas ou menos capazes neste período”, afirma.


Em 2017, a ONG Plan International UK, do Reino Unido, publicou um estudo apontando que 49% das garotas com idade entre 14 e 21 anos já perderam um dia de aula por causa da menstruação. Segundo a pesquisa, 59% optaram por não contar o motivo da ausência em sala de aula e 82% revelaram que escondem seus absorventes dos colegas. No Brasil, a situação não é tão diferente. Numa pesquisa realizada pela Sempre Livre em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria, foi possível observar que 39% das mulheres pedem um absorvente emprestado como se fosse um segredo para tentar esconder que estão no período menstrual. Além disso, 40% das brasileiras afirmaram que se sentem sujas quando estão menstruadas. Tudo isso está ligado ao fato de aprendermos que é vergonhoso falar sobre menstruação. Afinal, socialmente, a imagem do sangue está diretamente relacionada a ferimentos e machucados. Mas então por que o sangue vindo da violência é normalizado e não nos causa repulsa como o sangue da menstruação? Até alguns anos atrás, as próprias propagandas de absorvente mostravam o sangue azul, enquanto comerciais de curativos mostravam o sangue vermelho. Pensamentos como este estão ligados a equívocos e preconceitos transmitidos de geração em geração, desde os primórdios da humanidade. O sangue da menstruação é visto como perigoso e impuro desde a Antiguidade e isso afetou a forma como lidamos com ele até hoje. . .

Na Grécia Antiga, de acordo com a historiadora Helen King em entrevista ao site especializado Clue, acreditava-se que as mulheres tinham uma carne mais esponjosa do que a dos homens e, por isso, elas absorviam mais sangue. Em 200 a.C, a mulher menstruada era considerada possuída por um espírito maligno e o homem que tivesse uma troca de olhares com ela poderia ser enfeitiçado. Na Idade Média, um pensamento que cercava a menstruação era o de que o sangue proveniente dela era venenoso, podendo até mesmo apodrecer colheitas e vinhos, além de sua capacidade de supostamente deixar animais em estado de loucura. Neste período da história, o catolicismo influenciou diretamente a forma como a sociedade medieval via a menstruação. Segundo a Bíblia, a mulher é biologicamente impura por ter consumido o fruto proibido no Jardim do Éden. Em entrevista à Mercadizar, a historiadora Isabel Varão explica que a Igreja era responsável por colocar a mulher em uma posição de herege, causadora do pecado e do desvirtuamento do homem, caso não fossem submissas a eles. Em situações de “desobediência” daquelas já férteis, as mesmas eram jogadas na fogueira santa, já que a menstruação e o corpo feminino representavam o “apêndice do pecado”. Crenças como as citadas acima perduraram durante séculos e, aliadas à construção da figura da mulher diante de uma perspectiva patriarcal, contribuíram para os estigmas associados à menstruação e, sobretudo, ao sangue proveniente dela. Demorou muito para que os primeiros olhares voltassem às questões femininas de forma a compreender o processo evolutivo por trás da menstruação, fertilidade e gravidez. Somente no final do século XIX e no início do século XX, com o avanço da tecnologia e uma percepção mais científica, o desenvolvimento de estudos aprofundados possibilitaram a descoberta de hormônios e o entendimento do que de fato é a menstruação.

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Na década de 60, a Contracultura surgiu nos Estados Unidos e no Reino Unido para quebrar tabus e contrariar normas e padrões culturais que dominavam a sociedade. Dentre os diversos temas associados ao movimento, podemos destacar o feminismo, já em sua segunda fase, que visava questionar padrões de comportamento feminino e lutar pela liberdade sexual da mulher. Neste sentido, o movimento incentivou mulheres a se conectarem com seus corpos e sua intimidade. Consequentemente, questionamentos como a utilização do absorvente, do controle dos corpos, métodos contraceptivos e abortivos ganharam cada vez mais espaço, mas ainda não o suficiente.

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Hoje, um dos principais mitos que assombra a menstruação é o de que, quem menstrua, fica incapaz de conviver em sociedade durante o período menstrual. Além disso, nós, que menstruamos, ainda precisamos lidar com as piadas machistas e misóginas sobre como alguém está “fora de si” porque está de TPM (tensão pré-menstrual). Raramente há uma referência direta à menstruação. Há uma ideia preconceituosa e errônea que afirma que as mudanças hormonais “reduzem” as habilidades cognitivas. De acordo com um estudo de pesquisadores do Hospital Universitário de Zurique publicado na revista “Frontiers in Behavioral Neuroscience”, as alterações hormonais durante o ciclo menstrual não afetam a capacidade cognitiva.

Durante uma prova de resistência no programa Big Brother Brasil 20, a participante Gabi Martins contou aos colegas que estava utilizando um absorvente interno para controlar a urina. Os mesmos alertaram a cantora que isso não iria ocorrer, já que o canal da uretra, por onde sai o xixi, e o canal vaginal, local de saída da menstruação, são diferentes. O episódio em questão chamou a atenção do público e gerou um debate sobre como até mulheres de classes sociais mais altas podem não ter conhecimento daquela informação. Pensando nisso, entrevistamos as ginecologistas Ilka Espírito Santo e Édily Tourinho: ambas relatam ser comum em suas consultas a presença de mulheres que não conhecem o funcionamento do próprio corpo. “Muitas não sabem reconhecer quando vão menstruar, ovular, fase seca e úmida, não tem noção de volume normal e alterado e também não se tocam”, diz Ilka. Édily acredita que isso ainda acontece como consequência de uma deficiência no ensino familiar, que já gera tabu, e se concretiza na escola por não oferecer noções básicas de anatomia. O fato é que ainda existe uma vergonha, como se não fosse um acontecimento fisiológico, assim como fazer xixi e cocô. “Ainda há um peso nas mulheres como se elas estivessem sujas no período menstrual ou como se fosse algo anormal, do qual devem se envergonhar”.

O funcionamento do corpo humano, especificamente o feminino, gera muita expectativa e curiosidade, mas ao mesmo tempo também gera muito medo e tabus. Conhecer, de fato, o ciclo menstrual é um aprendizado infinito e constante. Muda de pessoa para pessoa e é isso que torna a menstruação única. Apesar disso, existe algo que nunca muda: o qual natural ela é.

É preciso normalizar este processo e finalmente assumir que pessoas menstruam. Somente através de um diálogo amplo e aberto começaremos a trabalhar para diminuir a pressão social e ansiedade pela qual passam durante a menstruação. Quando este assunto for tratado por todos com naturalidade, vamos passar a criar pessoas mais seguras de si e conhecedoras de seus corpos.


A história dos absorventes até aqui

As mulheres medievais utilizavam tecidos como “absorvente”. O material mais popular era o linho, por conseguir absorver uma grande quantidade de sangue. Após o uso, estes panos eram lavados e reutilizados. No entanto, não existiam calcinhas naquela época e, muito provavelmente, o tecido era usado com ajuda de um tipo de cinto que o mantinha próximo da vagina. Como é de se imaginar, algumas vezes esses “absorventes” caíam no chão e assustavam todos os que estavam ao redor, já que a Igreja não via a menstruação como algo bom. Esse método era conhecido como “tampão monstruoso”.

Durante a primeira Guerra Mundial, enfermeiras perceberam o potencial de absorção dos materiais utilizados nos curativos de soldados feridos, permitindo os primeiros esboços dos absorventes como conhecemos hoje. O primeiro absorvente descartável só foi lançado em 1930 pela marca Kotex, mas inicialmente não foi um grande sucesso. Para mudar este cenário, a empresa fez uma parceria com a Disney e juntas, em 1946, elas lançaram a animação “A História da Menstruação”. O vídeo, que tinha o objetivo de popularizar os absorventes descartáveis, foi o primeiro a usar a palavra “vagina” e, além disso, foi exibido nas aulas de Ensino Médio nos Estados Unidos até meados da década de 60.

Até o século XIX a evolução não foi muita. Apenas em 1894 surgiram, nos Estados Unidos, registros dos primeiros absorventes desenhados para consumo. Feitos de um tecido um pouco mais absorvente, eles eram reutilizáveis e vinham com uma cinta que deveria ser acoplada à cintura, evitando o deslocamento. Durante esse mesmo período, por volta de 1890, os primeiros absorventes descartáveis já eram comercializados na Alemanha, feitos de bandagens. 51

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No Brasil, a Modess foi a primeira linha de absorventes descartáveis a ser produzida no país, por volta de 1930. Em 1933, surgiram os absorventes internos com aplicador, o Tampax nos Estados Unidos e o OB na Alemanha, que significa “ohne binde”, em português, “sem toalha”. Em 1937, junto com os absorventes internos, existem registros da invenção de coletores menstruais, mas que logo foi esquecida, porque causavam desconforto e, além disso, o fato de ter que entrar em contato com seu próprio corpo e sangue também não foram bem aceitos.


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Hoje, algumas pessoas já encaram a menstruação como ela realmente é, um processo natural de ser vivido pelo corpo, e assim, novos jeitos de absorver o sangue foram desenvolvidos. Um deles é o absorvente de pano, agora com uma nova cara, cheios de estampa e normalmente feitos de algodão.

Sendo assim, as calcinhas absorventes e coletores tendem a ser o xodó dessa e das próximas gerações por gerarem um contato e conhecimento mais íntimos com o próprio corpo, enxergando esse sangue como algo natural, e não como algo descartável que poluirá o mundo em que vivemos.

Outras alternativas mais sustentáveis, assim como os paninhos, são as calcinhas absorventes e coletores ecológicos. Os tradicionais absorventes descartáveis demoram 500 anos para se decompor no meio ambiente, e isso significa que o primeiro absorvente criado no mundo ainda está entre nós. Segundo a Pantys, marca brasileira de calcinhas absorventes, 500 absorventes descartáveis equivalem a 4000g de lixo. O site da empresa também afirma que uma pessoa que menstrua possui em média 450 ciclos menstruais e, dessa forma, descarta cerca de 12 mil absorventes ao longo da vida, o equivalente a 180 kg de lixo.

No entanto, devido a sua alta tecnologia, uma calcinha absorvente custa em média R$50 reais, já o kit de coletor menstrual, custa de R$80 para cima. Com o passar do tempo, ela de fato pode representar um custo-benefício, mas tal realidade ainda não abrange todas as pessoas e não é preciso ir muito longe para perceber isso. “As minhas tias no interior do Amazonas não tinham dinheiro para comprar absorventes descartáveis e utilizam um pano durante o período menstrual”, conta a historiadora Isabel Varão. Com isso, é possível observar que, enquanto algumas pessoas buscam alternativas sustentáveis, outras não possuem condições financeiras nem para comprar um pacote de absorvente descartável, que custa em média R$4.

Grandes quantidades de lixo como estas impactam diretamente no meio ambiente, pois as matérias-primas deste produto são o plástico e a celulose, que vêm do petróleo e de árvores. Por não serem recicláveis, os absorventes acabam indo direto para os aterros sanitários, fazendo com que seus resíduos demorem centenas de anos para se decompor. Além disso, o produto contém substâncias químicas que podem contaminar o meio ambiente e também fazer mal à saúde humana ao causar irritabilidades e alergias. A alergia ao absorvente descartável é considerada um tipo de dermatite de contato irritativa, podendo ocorrer devido ao aumento da temperatura e umidade no local, associado ao atrito de substâncias com potencial irritante, como o sangue e a própria superfície do absorvente, que é composto por materiais como algodão, perfumes e outros componentes próprios para absorção. Dentre os principais sintomas da alergia causada pelos absorventes descartáveis, estão vermelhidão na virilha e na vulva, coceira na região íntima, ardência, descamação e alteração na coloração da pele. É preciso ter atenção, pois, muitas vezes, a pessoa pode apresentar esses sintomas, mas demora a perceber que o absorvente é o problema. Estas erupções cutâneas, quando não tratadas corretamente, podem levar a uma infecção ainda mais grave.

O termo “pobreza menstrual” foi criado na França e trata dos efeitos que a falta de dinheiro causa no ciclo menstrual. Este problema atinge pessoas de diferentes países e, no Brasil, podemos identificá-lo tanto em comunidades mais pobres, quanto na população feminina carcerária. Em outubro de 2019, o site The Intercept Brasil publicou uma reportagem em que as mulheres do Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua, em Ananindeua, no Pará, relataram não ter acesso a produtos de higiene pessoal, inclusive absorventes descartáveis, sendo necessário controlar o sangramento através do uso de jornal e até mesmo miolo de pão. De fato, modelos sustentáveis estão em desenvolvimento e são cada vez mais falados, mas é uma situação ainda complexa demais para chegar na realidade de quem não tem recursos suficientes para usufruir de tais produtos.


Menstruação além do gênero Como citamos anteriormente, falar sobre a menstruação é uma das principais formas de ajudar a desconstruir hábitos e tabus sobre ela. Trocar ideias e experiências sobre o ciclo menstrual é empoderador. Por outro lado, ficar de fora da discussão pode ser frustrante. Algumas mulheres não menstruam por causa de fatores como menopausa, estresse, doenças ou histerectomia, conforme o site especializado Clue. Elas podem nunca mais menstruar de novo por causa de uma série de condições médicas, ou podem ser transgênero ou intersexual. Ao mesmo tempo, há pessoas que menstruam que não são mulheres. Podem ser homens trans, intersexuais ou podem se identificar com o uso de termos como não-binário. Durante a transição, homens trans tomam hormônios ou passam pela cirurgia de redesignação sexual, o que interrompe a menstruação, como é o caso do publicitário Bernardo Araújo, de 23 anos. “Minha menstruação parou no primeiro mês de hormonização, porém os sintomas da TPM permanecem. O ciclo menstrual em si sempre foi uma coisa desagradável pra mim, mesmo antes da transição. Hoje em dia eu falo tranquilamente sobre, mas para muitos homens trans e não-bináries o tema causa grande disforia. O modo que se fala a respeito disso com cada pessoa que menstrua é e pode ser diferente”. Já outras pessoas não passam pelo mesmo processo e, por isso, precisamos normalizar o fato de homens trans lidarem com ela. Em entrevista à Mercadizar, o artista Adriel Pietro, de 22, contou que, para ele, a menstruação sempre foi algo natural, mas que a publicidade de produtos destinandos à menstruação direcionada à mulheres cis causa desconforto, como o uso da expressão “produtos de higiene feminina”. “A menstruacão sempre foi algo muito natural, geralmente o desconforto que sinto é causado por comerciais de absorventes, que sempre representam mulheres cis, garotas cis na puberdade em geral, excluindo totalmente nós pessoas trans, homens trans, pessoas trans não-binárias, enfim todas as pessoas que possuem um útero”, afirma.

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Se em pleno século XXI, apesar de quebras de paradigmas e avanços sociais, a menstruação segue sendo um tabu quando falamos em mulheres cisgêneros, que ainda se sentem oprimidas em relação ao assunto, imaginem para pessoas LGBTQIA+? Pelo tema ainda ser fortemente ligado às mulheres cis, eles quase nunca são vistos como pessoas que também precisam lidar com essa questão.

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“Esse número pequeno de debates se dá, principalmente, ao fato de termos poucas pessoas trans na mídia. A discussão é necessária para que a sociedade entenda que genital não dita o gênero de uma pessoa, portanto, também existem homens trans e pessoas não-bináries que menstruam, e por sua vez também precisam da devida atenção social e médica tanto quanto as mulheres. O acesso de muitas dessas pessoas ao médico é dificultado pela falta de informação a respeito e pelo preconceito. Esperamos que esses debates cresçam com o passar do tempo e que esse cenário evolua”, explica Bernardo. A menstruação é uma experiência plural, que envolve mulheres cisgênero, mas não somente elas. É importante não invisibilizar pessoas LGBTQIA + que menstruam, inclusive as pessoas trans. Para isso, precisamos ampliar os diálogos sobre menstruação para muito além dos gêneros. A informação precisa ser sobre todos para todos. “No Brasil, sempre são dados passinhos pequenos até que as pessoas acreditem que esse assunto seja relevante. As marcas de fora já tomam essa iniciativa numa publicidade que diz ‘pessoas menstruam’, e é sobre isso, sobre o desconforto, e a exclusão de pessoas trans. A publicidade tem um poder enorme sobre as nossas vidas, seria muito bacana se marcas de absorventes se juntassem e falassem: ‘Agora não vamos só focar em mulheres cis, vamos ser inclusivos’. Está mais do que na hora das empresas pararem de fingir que nós, pessoas trans, não existimos”.

Um pouco sobre a menopausa A partir dos 40 até os 65 anos, as pessoas que menstruam têm uma redução fisiológica da produção de hormônios pelos ovários. Esse período é definido como climatério. A menopausa, ou seja, a data em que ocorre a última menstruação, é um evento que pode acontecer em qualquer momento nessa fase do climatério. No entanto, é mais frequente entre os 48 e os 52 anos. “A menopausa é um marco na vida, representa a última menstruação e a vivência do climatério, que é um período longo resultante de mudanças hormonais que marcam o fim do período reprodutivo. É um momento de muitas alterações e sintomas físicos e psíquicos, dentre os quais alterações de humor, sono, da libido e da disposição geral”, afirma Simone. A menopausa é uma experiência única - os seres humanos são uma das quatro espécies no planeta que passam por ela - e é tão natural quanto a menstruação. Apesar disso, é um período doloroso para muitas pessoas, principalmente por ser marcado por grandes alterações físicas e mentais causadas pela drástica redução de hormônios, conforme a psicóloga explica. “É comum a labilidade emocional, o choro fácil, os fogachos, a impaciência e a irritação. Para muitas mulheres é uma experiência dolorosa e solitária que gera culpa e depressão, especialmente, pelo estigma social associado ao envelhecimento e ao medo de não corresponderem sexualmente aos seus parceiros”. Todas as pessoas que menstruam passam por esse processo único e natural. Apesar disso, essas fases seguem sendo pouco abordadas socialmente. Em 2020, lançamos uma matéria no portal com o mesmo tema, escrita por Ariel Bentes e Luana Pacífico, e sentimos a necessidade de aprofundar ainda mais este debate aqui. Confira no portal acessando o QR code: Ilustrações: Banco de Imagens

Muitas pessoas acreditam que menstruação é coisa de mulher, mas vai muito além disso: a menstruação é uma função biológica do nosso corpo que não está relacionada ao gênero da pessoa. Então, não necessariamente todas as mulheres menstruam e nem toda pessoa que menstrua é uma mulher.


mercadizar indica Grupo Musical Mulamba

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Foto: Reprodução Internet

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O sexteto formado por mulheres, traz em suas canções a inspiração para o empoderamento, representatividade feminina e combate à violência doméstica. Disponível em Youtube, Spotify e Deezer.

Dica da nossa Repórter: Hilana Rodrigues


A TRAJETÓRIA FEMININA NA POLÍTICA BRASILEIRA POR PATRÍCIA PATROCÍNIO

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Quando falamos sobre a trajetória de mulheres na política, precisamos mergulhar na história e retornar ao tempo das revoluções industriais. Esse é um ponto de partida importante para entender o percurso até a tomada de nossa cidadania. Dessa forma, o surgimento das indústrias inaugurou um período de transformações no mundo, a transição de pessoas do campo para as cidades em busca de oportunidades nas empresas, que incentivou a formação de uma nova organização de vida. É nesse cenário que a figura da mulher é atribuída às funções domésticas, como cuidar da casa e dos filhos, enquanto os maridos saem para trabalhar e tratar dos assuntos “públicos”, o que incluía questões de ordem política e econômica. Foi a partir desse momento que os estigmas sobre a fragilidade feminina e a necessidade de proteção masculina foram reforçados ao ponto de ainda serem presentes nos dias atuais. No contexto inicial da luta pela cidadania feminina brasileira, é importante destacar que, naquela época, o país ainda era colônia de Portugal e vivia economicamente de um modo de produção escravista, começando pela saída majoritariamente de mulheres brancas de casa, enquanto mulheres negras escravizadas realizavam as funções domésticas. Inclusive, é o movimento abolicionista a primeira luta social ao qual mulheres brasileiras encontram a chance de participar de questões públicas. Embora ocupassem um papel secundário, que não as permitia opinar nos debates e decisões, apenas da arrecadação de fundos por meio da venda de flores nas portas de igrejas e cemitérios.

Muitas mulheres enfrentavam sol e chuva para desempenhar essas ações e, em parte, isso demonstrava um autosacrifício, visto como uma atitude elogiável pelos homens. Coelho e Batista explicam no artigo “A História da Inserção Política da Mulher no Brasil: uma Trajetória do Espaço Privado ao Público”, que esse tipo de atitude ainda é possível de ser identificada nos dias atuais, por exemplo, quando a maioria dos cargos de decisões pertencem a homens e as mulheres permanecem na militância. A partir de 1870, começaram a aparecer no Brasil iniciativas jornalísticas que promoviam debates na sociedade brasileira acerca da educação, divórcio, atuação profissional e direito ao voto para mulheres. Fora do país, as pautas femininas estavam em efervescência. Alguns jovens brasileiros que foram estudar nos Estados Unidos voltaram ao Brasil defendendo o acesso de mulheres à Ciência, um período agitado que, somado às iniciativas jornalísticas já existentes, possibilitaram avanços tímidos. Como resultado dessas movimentações, em 1891, durante as discussões de elaboração da primeira constituição republicana, foi levantada a questão do sufrágio feminino, e simultaneamente vetada pelos parlamentares. Os argumentos apontados foram vários e destacam-se o abalo dos alicerces da família e a glorificação do lar como um lugar que “infelizmente” os homens não poderiam aproveitar. No entanto, nestas assembleias estavam presentes Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa e Hermes da Fonseca, futuros presidentes do Brasil, que defendiam o voto feminino.


Apesar de vetada, a ideia de mulheres na política não foi abandonada, repercutindo na sociedade brasileira e abrindo espaço para o surgimento de um movimento sufragista tão forte quanto aquele que já existia na Europa desde o final do século XIX. A essa altura, se faz necessário ressaltar a questão da interseccionalidade, uma categoria teórica desenvolvida no Brasil pela pesquisadora Carla Akotirene, que articula múltiplos sistemas de opressão, neste caso, os de raça, gênero e classe. Para ela, é preciso considerar nas discussões feministas as particularidades das mulheres de cor, como por exemplo, o fato do machismo, o racismo e o preconceito de classe serem opressões indissociáveis para essas mulheres. Portanto, falar sobre a trajetória feminina na política nacional é um desafio, especialmente, quando brasileiras partem de pontos tão distintos, apesar de compartilharem o mesmo gênero. O feminismo negro surge entre os anos de 1960 a 1980, com a criação da National Black Feminist Organization (Organização Nacional Feminista Negra) nos Estados Unidos. No Brasil, ele chega no final dos anos 70, após uma manifestação de mulheres negras, que não se viam representadas nos movimentos femininos da época. A falta de um olhar interseccional desses grupos não os permitiu enxergar o que estava bem à sua frente: enquanto mulheres brancas buscavam igualdade de direitos, mulheres negras lutavam para sair da posição de subordinadas e sofriam opressão tanto de homens como de outras mulheres. Não chega a um século, mais precisamente 89 anos, que mulheres passaram a exercer seu direito à cidadania. Para nossa sociedade, a ideia de desempenharmos plenamente funções públicas ainda é uma ameaça e precisa ser combatida, por razões sexistas e racistas que estruturam o pensamento social. Para muitos especialistas, o grau de amadurecimento de democracias pode ser confiavelmente avaliado pelo nível de participação de mulheres no legislativo. Quanto mais cargos forem ocupados por mulheres na cúpula do governo, mais igualitário tende a ser aquele país – ou, pelo menos, mais preocupado em reduzir as diferenças.

acompanhe as trajetórias femininas na política brasileira Leolinda Daltro e Gilka Machado fundaram o Partido Republicano Feminino, no entanto, nenhuma delas era elegível, ou sequer eleitora.

1910

1917 Leolinda Daltro e Gilka Machado, Bertha Luz 1922 organizam uma organizou a passeata com quase Federação Brasileira 100 mulheres pelo para o Progresso direito ao voto. Feminino, filiada à International Woman Suffrage Alliance. 1929 Alzira Soriano de Souza, a primeira prefeita eleita no Brasil, Rio Grande do Norte, cidade de Lages.

1932 Decreto n. 21.076 do Presidente Getúlio Vargas, mulheres conquistam o direito do voto.

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1933 Carlota Pereira 1971 Eunice Michiles, primeira mulher amazonense a ocupar uma cadeira no Senado Federal.

Queiroz é a única mulher eleita entre 214 homens para a Assembleia Constituinte da nova Constituição.

1981 Médica, Laélia

Alcântara foi a primeira senadora negra no Brasil.

1985 Ocorre a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

1989Ocorre a primeira candidatura de uma mulher para a presidência da República. A candidata era Maria Pio de Abreu, do PN (Partido Nacional).

1994 Roseana Sarney

foi a primeira mulher 1995 Lei nº 9.100/95, escolhida pelo voto popular que previa que cada para chefiar um estado, partido ou coligação o Maranhão. deveria reservar uma cota mínima de 20% das vagas para a candidatura de mulheres.

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1997 Lei nº 9.504/97, que passou a obrigar que cada partido ou coligação reservasse o mínimo de 30%, e o máximo de 70%, para candidaturas de cada sexo a cargos legislativos, a fim de aumentar a presença feminina no cenário político brasileiro.

2010 Dilma Rousseff foi a primeira mulher presidente do Brasil.

2012 Cármen Lúcia, foi a primeira mulher a presidir o Tribunal Superior Eleitoral.

2015 A Lei nº 13.165 determinou que as legendas utilizassem 20% do seu tempo de propaganda gratuita no rádio e na TV para incentivar a participação feminina na política. A mesma norma tornou obrigatória, em ano eleitoral, a campanha do TSE para estimular a candidatura de mulheres.

2016 Marielle Franco

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é eleita vereadora.

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Fotos: Reprodução Internet

2018

Marielle Franco é assassinada e o Brasil vê o despertar do “Efeito Marielle”, um dos mais importantes símbolos do combate à violência política no Brasil e inspiração para outras candidatas negras.

2018 Joênia Wapichana, a primeira mulher indígena eleita Deputada Federal, e Erica Malunguinho, a primeira mulher trans eleita para a Assembleia Legislativa.

Dados sobre a participação feminina na política do Brasil No Mapa “Mulheres na Política de 2020”, produzido pela Organização das Nações Unidas e a União Interparlamentar que mede a proporção de mulheres em cargos políticos. De 193 países, o Brasil ocupa a posição 140 no ranking mundial de representatividade feminina. Nos últimos 4 anos, as eleições realizadas em 2018 foram determinantes para que o país subisse 14 posições nessa lista, batendo o seu recorde de representação feminina na Câmara dos Deputados, com o número de cadeiras ocupadas por mulheres alcançando 15%. Além disso, representantes de grupos que nunca estiveram presentes em parlamento, ou que sempre foram sub-representados, passaram a compor o cenário político brasileiro, como no caso de Joênia Wapichana, a primeira mulher indígena eleita como deputada federal e Erica Malunguinho, a primeira mulher trans eleita para a Assembleia Legislativa. Apesar dos avanços, vale lembrar que a eleição de 2018 manteve o Brasil no ranking dos países com as piores taxas de representação de mulheres no parlamento e também confirmou a presença de Jair Bolsonaro na Presidência da República. Cruzando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a participação da mulher nas eleições de 2020, com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, PNAD; Mulheres formam 51,8% da população brasileira e representam 52,5% do eleitorado e apenas 33,3% do total de candidaturas. Já no caso das mulheres negras e indígenas ou trans, apenas 2% do Congresso Nacional e menos de 1% na Câmara dos Deputados é composta por essas pessoas. Em uma pesquisa realizada pela Procuradoria da Mulher no Senado sobre a Equidade de gênero na política brasileira em 2016, 37% das mulheres afirmaram que já foram discriminadas por causa de seu gênero no ambiente político. Os dados apresentados demonstram a subrepresentação e o abismo em relação à participação feminina diversa no eleitorado brasileiro, mesmo em um tempo com transformações sociais correntes no mundo todo, e com mulheres assumindo diferentes funções e papéis. As resistências atuais expressam parte das dificuldades construídas historicamente. É por isso que, ainda hoje, a inserção das mulheres na atividade política, em cargos eletivos ou não, continua sendo bastante restrita.


Desafios para a permanência Embora as discussões sobre pautas feministas estejam cada vez mais presentes, ao compararmos com o tamanho da repercussão das estratégias usadas para desqualificação da mulher ao longo da história, podemos considerar que o processo de adoção de ideias que emancipam e valorizam figuras femininas por parte da sociedade em geral, ainda é lento, frente às transformações que precisam ser conquistadas. Entendemos que a política é um lugar que remonta a herança das ideias dos grupos hegemônicos que utilizam a opressão como meio de sua manutenção no poder e que cuja reparação de desigualdades representa uma forte ameaça a esse poder. Desse jeito, a luta pela emancipação feminina no Brasil é longa e contínua. O preconceito e a relutância por um futuro equitativo andam juntos, na tentativa de frear a ocupação das esferas de poder por mulheres. Por isso, a permanência feminina na política é um desafio de superação de obstáculos constantes, que vão desde lidar com as múltiplas jornadas, o consentimento social que homens sejam liberados das tarefas domésticas e da responsabilidade de serem pais, à luta por visibilidade dentro dos próprios partidos que não lhes tratam como prioridades.

O problema de todos os cargos em masculino Os dados revelam que no Amazonas, nos últimos 10 anos, a participação feminina na política obteve poucos avanços. Mulheres continuam em situações de subrepresentação, necessitando de políticas e campanhas que incentivem cada vez sua presença. Grada Kilomba diz que a língua, por mais poética que possa ser, tem uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade. Talvez, um dos importantes passos e também um dos maiores desafios para que não só mulheres possam adentrar ainda mais o campo da política, como algumas discriminações possam ganhar a reflexão da população, transformando o pensamento, seja em relação ao nosso vocabulário e as terminações que reforçam lugares e papéis sociais. Para Kilomba “uma sociedade que vive da negação, ou até mesmo da glorificação da história colonial, não permite que novas linguagens sejam criadas”.

Mulheres amazonenses na política A primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado Federal foi Eunice Michiles, uma amazonense eleita suplente na chapa do senador João Bosco, que faleceu dois meses após assumir o cargo. Depois de sua atuação como senadora, Eunice foi eleita deputada federal (PFL) pelo Amazonas. Atualmente, Halaíse coordena o projeto Slam Poesia, cuja missãocom é possibilitar que poetas marginaislançado tenhampela Procuradoria Especial da Mulher do Senado, em parceria De acordo o livro “+ Mulheres na Política”, espaços para expor composições, valorizando e e na Assembleia Legislativa de 2014, apenas duas mulheres com a Secretaria da suas Mulher, na Câmara dos Deputados buscando trazero visibilidade a eles. Além através representavam estado do Amazonas de disso, 32 cargos eletivos. As candidaturas naquele ano foram de 189 mulheres a dessa iniciativa, artista consegue trazer no discussões 473 homens queaconcorreram a 33 vagas parlamento, e apenas duas mulheres foram eleitas. importantes para o público do evento, inclusive, na sua Já em relação eleitorado do Estado doHop Amazonas opinião é o queaofalta para a cena do Hip nortista,em 2014, superando a casa dos 2,2 milhões, sendo que desses 50,81% são “A mulheres, chance de um ser eleito no Amazonas é 7x maior em relação a uma candidata. Ao afirma ela. cena do arap no geral, emcandidato especial, a todo, dostem 62 muito municípios do Estados, apenas cinco tinham mulheres como prefeitas, o equivalente a 8% do total. nortista a melhorar. É claro, tem muitos temas que devem ser abordados sobre o papel Já em 2020,da dados dofeminina TSE apontam que apenas 32,2% das candidaturas às eleições municipais são de mulheres. Das importante figura e coisas que devem 10.333 pessoas que nas registraram candidatura, 7.002 são homens e 3.331 mulheres. Neste ano, para o cargo ser desconstruídas batalhas.pedido Mas éde necessário Halaíse Asaf de prefeito, em o Amazonas, 261 homens e apenas 22 mulheres estiveram na disputa. Para o cargo de viceenxergar não sótodo a diversão de batalhar, como também prefeito, foramque 224são homens e 60 mulheres. Paranesses o cargo de vereador, 6.518 e 3.249 mulheres. De acordo com dados da os conteúdos importantes de debater plataforma egênero e número, 3.331 mulheres que registraram candidaturas, apenas 133 foram eleitas. ambientes de quebra, trazerdas o rap como ferramenta de educação. Às vezes as pessoas esquecem o real sentido do hip hop.”

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Foto: Reprodução Internet

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AS PROBLEMÁTICAS CAMUFLADAS DA MULHER SURDA NA SOCIEDADE 62

POR HILANA RODRIGUES A questão de gênero está presente em todas as esferas do convívio social e não é novidade que a mulher é desvalorizada desde o início dos tempos, sendo julgada e tida como competente apenas para os afazeres domésticos e familiares. Para que essa visão fosse minimamente alterada e os estereótipos de mulher frágil e sem voz fossem desvencilhados, foi necessária muita luta dos movimentos sociais feministas. Ao comparar com décadas passadas, podemos notar algumas mudanças na jornada da mulher em sociedade como, por exemplo, os direitos diversos: direito ao voto, ao divórcio e mais liberdade nas relações e escolhas trabalhistas. Porém, ainda há muito que ser alterado para garantir efetiva igualdade e leis que amparem a mulher, não só na teoria, mas na prática.

Sabemos que o movimento feminista possui suas vertentes, como o feminismo negro e feminismo branco, mas há, dentro deles, outros grupos que são, muitas vezes, negligenciados, como as mulheres surdas. O pensamento de que a mulher, por si só, já não é capaz de muita coisa apenas por ser mulher, é multiplicado quando se trata de meninas e mulheres surdas, que ainda são fortemente silenciadas pela sociedade e familiares por serem consideradas incapazes de afazeres comuns somente pelo fato de não poderem se comunicar verbalmente.


Para exemplificar essa negligência, podemos citar a ausência de intérpretes de Libras em diversas repartições de atendimento público, como hospitais ou Unidade Básica de Saúde (UBS) para exames rotineiros ou cirurgias mais emergentes, onde muitas garotas acabam necessitando da presença da mãe ou outros familiares para explicar o ocorrido. Tal situação tira delas uma independência necessária ou ainda pior, camufla possíveis abusos. Outro exemplo são as delegacias e a dificuldade de atender vítimas de violência sexual e doméstica, visto que raramente há interpretes. “Mães surdas com filhos ouvintes em escolas regulares também possuem o desafio de frequentar reuniões escolares sem professores habilitados em Libras ou intérpretes, gerando, para alguns, o pensamento de que não conseguem captar as observações propostas aos filhos ou acompanhar o ritmo de estudo deles”. Tais pontos acabam por tornar a mulher surda excluída de seus direitos sobre o corpo da saúde da família.

Políticas públicas para mulheres surdas Para que essa situação seja resolvida, é necessária uma série de medidas nos âmbitos educacionais, econômicos e políticos. Foi pensando nessas questões que, durante a Consulta Nacional das Mulheres com Deficiência, realizada em 2016 em Brasília, educadoras surdas se manifestaram com a realização de um documento para o enriquecimento da vivência surda. Mesmo produzido e exibido quase cinco anos atrás, o documento representado pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) é intitulado de “Mulher Surda: política linguística nas políticas sociais” e traz propostas citando os pontos principais que necessitavam e ainda necessitam de melhorias para efetivação da qualidade de vida dessa parte importante da população.

No documento é possível observar não só a problemática, mas também as soluções por parte das representantes. Entre algumas propostas, há a criação de creches e escolas de educação bilíngue, assim como formação acadêmica que inclua a disciplina de língua de sinais, principalmente para cursos que envolvam a área da educação, além da obrigatoriedade da tradução para língua de sinais dos livros e documentos legais, tais como a lei Maria da Penha e o Código Civil. Para as escolas de ensino fundamental e médio, é proposta a apresentação, durante aulas, de vídeos com intérpretes para o reconhecimento e orientação dos cuidados com a sexualidade, saúde e planejamento familiar, sempre demonstrando a independência de pessoas surdas e ouvintes. Outro ponto importante já citado é a obrigatoriedade do uso da língua de sinais por parte dos atendentes em serviços públicos e particulares, médicos e policiais que falam diretamente com a população, assim como os modernos atendimentos via internet que devem possuir a opção para o uso de atendimento com Libras. 63


Contribuindo para o fortalecimento da independência de pessoas surdas Nos pontos do documento apresentado, é possível notar o foco para a melhoria na educação, visto que é por ela que mudanças positivas podem ser proporcionadas. Mas esse foco também se dá porque as autoras e representantes são educadoras e surdas.

Gladis Perlin Foi a primeira surda a obter título de doutora no Brasil, tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação de Surdos.

Karin Strobel Doutora na área de educação. Trabalha como professora das disciplinas ‘Fundamentos de Educação dos Surdos’, ‘História de Educação dos Surdos’ e afins da Universidade Federal de Santa Catarina.

Shirley Vilhalva Mestre em Linguística e Doutoranda em Linguística Aplicada. Dedicou-se por 25 anos como voluntária na FENEIS e atualmente é professora na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Fotos: Reprodução Internet

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Os livros e dissertações mais populares voltados para o público surdo são de pesquisadoras e professoras que, por serem surdas, dedicam seus trabalhos para citar melhorias aos seus iguais, como as elaboradoras do projeto ‘Mulher Surda: política linguística nas políticas sociais’:

Solange Rocha A doutora em Educação ingressou como aluna no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), onde mais tarde foi diretora geral e escreveu o projeto para a criação do dicionário de Libras feito em parceria com o Ministério da Educação. Solange não faz parte da produção do documento, mas é uma pesquisadora importante na educação dos surdos.

Todas figuras femininas que, graças à formação acadêmica, puderam levar maiores questionamentos e soluções para a educação surda e bilíngue, que inspiram crianças e mulheres a acreditarem em acessibilidade efetiva, educação e independência, independente de limitação auditiva. Educadoras mostrando que as mulheres, quando participativas da sociedade, acrescentam uma infinidade de melhorias, tanto no geral, quanto para o público ao qual se dedicam.


mercadizar indica Dickinson

Foto: Reprodução Internet

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Conheça a história envolvente e mórbida da poetisa americana Emily Dickinson. Disponível na Apple TV+.

Dica da nossa Atendimento: Dyne Haacke


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Em novembro de 2020, ao fechar a última revista, o número atualizado de vítimas do Covid-19 no Brasil era 160.271 mil.


Foto: Michael Dantas

Hoje, 26 de abril de 2021, são 417.176 mil vidas perdidas, mais que o dobro em apenas 5 meses. Quantas pessoas ainda vamos perder? Até quando?

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Protagonismo na ciência: as mulheres na linha de frente contra o covid-19 POR ISABELLA BOTELHO

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É fato que a ciência e suas descobertas são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. No entanto, ao longo dos anos, os trabalhos mais notórios e conhecidos são aqueles realizados por homens. Muito por este motivo, caiu no imaginário popular que as mulheres nem mesmo chegaram a participar da área científica. Porém, com um olhar atento à história, é possível perceber que, mesmo não sendo incentivadas, as mulheres participaram ativamente da ciência e foram responsáveis por grandes descobertas e feitos à humanidade. Historicamente marginalizadas pela comunidade científica, as mulheres são apenas 54 das 919 pessoas já homenageadas com um Prêmio Nobel. Desde 1903, com Marie Curie, apenas 17 mulheres receberam o Prêmio Nobel em Física, Química ou Medicina, enquanto 572 homens foram premiados. A pauta educacional sempre foi uma reivindicação do movimento feminista. Hoje, a presença feminina é marcante em todos os níveis de formação educacional, mas nem sempre foi assim. As mulheres ingressaram na escola tardiamente e com formação voltada para os cuidados com o lar e a família. Segundo o Escritório das Nações Unidas para o Espaço Exterior (Unoosa), quando o assunto é pesquisas sobre ciência, tecnologia, engenharias e matemática, as mulheres representam 28,8% da força de trabalho

no mundo, enquanto os homens representam 72,2%. Estes dados são um reflexo do tardio acesso delas à educação. Uma pesquisa realizada pela UNESCO sobre a participação das mulheres na ciência aponta que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que a igualdade de gênero nesse campo se torne realidade. Segundo o relatório “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)”, menos de 30% dos pesquisadores no mundo são mulheres. Ainda segundo o relatório, o número de mulheres reconhecidas como líderes em sociedades de alto prestígio ou por meio de premiações, permanece baixo. Apesar disso, as mulheres estão no centro da descoberta daquilo que conhecemos como coronavírus. Não do SARS-CoV-2, causador da Covid-19 e descoberto em dezembro de 2019, mas o primeiro vírus da família identificado cientificamente pelo ser humano. O primeiro coronavírus foi descoberto em 1964, em Londres, pela virologista escocesa June Almeida. Seu talento foi reconhecido no Reino Unido e ela foi convidada para trabalhar na Escola de Medicina do Hospital St. Thomas, em Londres. Mais tarde, June trabalhou na Escola Médica Real de Pós-graduação, onde obteve o título de doutora. Ela foi pioneira em um método que melhora a visualização de vírus usando anticorpos para agregá-los.


Em 1965, June estava analisando amostras de fluidos nasais humanos quando identificou um vírus com algumas características semelhantes ao Influenza. Esses vírus, quando observados por microscópio, apresentavam estruturas proeminentes na sua superfície, formando um tipo de coroa. Por isso, foram chamados de coronavírus - “corona” vem do latim e significa “coroa”. Além de ser a primeira virologista a ver o coronavírus, a doutora June ainda foi a primeira a visualizar o vírus da rubéola, estudou o vírus da Hepatite B e também ajudou a registrar imagens do vírus HIV. Em 2007, mesmo ano do seu falecimento, ela participou da publicação do “Manual para diagnóstico viral rápido de laboratório”, documento produzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2019, com o surgimento do novo coronavírus, iniciou-se uma corrida para descobrir detalhes sobre o vírus e, posteriormente, iniciar o processo de produção das vacinas. Apenas 48 horas após o registro do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, a brasileira Ester Sabino, juntamente a sua equipe, conseguiu sequenciar o genoma do novo coronavírus. Médica e professora, Ester também é cientista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, ela já foi diretora do Instituto de Medicina Tropical da mesma faculdade. Há cerca de 30 anos, a professora Ester vem realizando pesquisas relacionadas a várias doenças como o HIV, doença de Chagas e anemia falciforme. Há alguns anos, quando a epidemia de zika, doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, se instalou no Brasil, ela e sua equipe conseguiram recursos financeiros de várias partes do mundo. As biomédicas Jaqueline Goes de Jesus, Ingra Morales, Flávia Salles e a farmacêutica Erika Manuli são as pesquisadoras da Faculdade de Medicina da USP, dentro do Instituto Adolfo Lutz (IAL), que decifraram a amostra do primeiro caso de infecção da Covid-19 na América Latina. O resultado saiu em apenas 48 horas, mostrando a estrutura do vírus. Elas fazem parte da equipe do Centro Conjunto BrasilReino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), liderado por Ester.

Atuando na linha de frente no combate à doença desde o início da pandemia no tratamento aos pacientes, Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e uma das principais e mais experientes pneumologistas do Brasil, tornou-se participante ativa dos principais telejornais e programas brasileiros com o intuito de alertar a população aos riscos da doença e difundir a ciência para os telespectadores. Dalcolmo se formou em Medicina em 1978 pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAM). Posteriormente, realizou sua residência médica em pneumologia na Fiocruz. Após uma ampla formação de especializações em 1999, recebeu seu doutoramento na Escola Paulista de Medicina, vinculada à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com a tese “Regime de curta duração, intermitente e parcialmente supervisionado, como estratégia de redução do abandono no tratamento da tuberculose no Brasil”. Desde 2002, é professora adjunta da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Em janeiro deste ano, o processo de aprovação das primeiras vacinas a serem utilizadas no Brasil marcou o início de uma nova fase no combate à pandemia. Servidora da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2007, a farmacêutica Meiruze Sousa Freitas, ganhou destaque nos últimos meses ao ser a relatora responsável por deliberar as vacinas do Instituto Butantan e de Oxford para uso emergencial no país. Atualmente diretora substituta da Anvisa, dedica ao menos 14 horas do seu dia à facilitação da distribuição das vacinas contra a Covid-19 pelo território brasileiro. As mulheres que estão na linha de frente no combate ao coronavírus e também todas as cientistas, pesquisadoras, professoras e profissionais da área servirão de inspiração e referência para tantas outras gerações que virão. Mas não podemos esquecer que, para uma completa evolução, é necessário o investimento e o incentivo de políticas públicas que priorizem o acesso e a permanência das mulheres nas ciências, bem como a ascensão a cargos de poder. Apenas assim abriremos espaço para o diálogo sobre a importância da presença feminina nesses espaços e para o debate sobre a desigualdade de gênero.

Ilustrações: Iza Degan

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Para as filhas Mônica e Camila, inteligência era a palavra que a definia. “Ela sempre dizia que a única herança que poderia deixar para seus três filhos era a educação. E assim foi. Ela era extremamente inteligente. Era também dedicada. Nunca confiou apenas na inteligência, mas investia tempo e esforço para se aperfeiçoar. Era uma perfeccionista. Ao mesmo tempo era uma pessoa extremamente sensível e solidária. Nos ensinou que cada número numa planilha epidemiológica era uma vida. Era o amor de alguém. Que não se pode pensar saúde pública como indicadores frios”, afirma Camila.

Rosemary Pinto: a bússola do Amazonas No Amazonas, a epidemiologista Rosemary Pinto esteve na linha de frente no combate à doença desde o início da pandemia. Ela foi uma voz sábia e sensata que guiou os amazonenses com maestria através de suas ações na liderança da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), prestando as melhores informações e esclarecimentos sobre o coronavírus. Farmacêutica bioquímica formada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e uma das idealizadoras da FVS-AM, Rosemary Costa Pinto faleceu aos 61 anos de idade em janeiro deste ano. Ela foi uma das vítimas da Covid-19 no estado.

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Uma mulher amorosa e companheira, mas de pulso firme, Camila a descreve como uma pessoa enérgica e radiante. “Ela só ficava parada quando estava lendo (o que muitas vezes fazia ao invés de dormir, pois sempre teve insônia). Incapaz de ver uma injustiça sem se posicionar, ela era uma ‘força da natureza’, como minha irmã descreve: não se intimidava, colocava toda a paixão para fazer o que é certo e se dedicava com muita energia. Era uma baixinha gigante”.

Durante sua vida profissional, atuou como gerente de epidemiologia e como diretora de vigilância em saúde da SUSAM, assessora técnica de vigilância em saúde e diretora técnica da FVS-AM, cargo em que esteve nos últimos cinco anos. Há 22 anos também atuava como representante do Amazonas na Câmara Técnica de Vigilância em Saúde do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS).

Rosemary teve uma carreira pouco usual. Ela se formou na graduação, mas interrompeu a carreira e escolheu ficar em casa para se dedicar a criação dos filhos por 6 ou 7 anos, trabalhando com os afazeres domésticos e auxiliando o marido numa pequena loja da família. Após esse período, voltou ao mercado. Mônica, que à época tinha 9 anos, conta que esta retomada foi difícil. “Ela se sentia insegura por ter ficado afastada, e culpada por não dedicar mais tanto tempo aos filhos. É um dilema que se impõe às mulheres pela própria estrutura social, né... o modelo de trabalho que ignora a família, que vê o profissional como um ente autômato e descontextualizado.

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Para o Amazonas, ela representou a luta no combate ao coronavírus e sempre passou segurança à população que, em contrapartida, nutriu um carinho especial pela epidemiologista. Todos os fins de tarde no último ano, tornou-se rotina assistir aos seus pronunciamentos. Ao anunciar seu falecimento, o Governo citou que “perdemos a bússola do Amazonas”. Não havia melhor descrição. No dia 22 de janeiro, todos os amazonenses sentiram como se estivessem perdendo alguém muito próximo.

Rosemary Pinto No Amazonas, a epidemiologista esteve na linha de frente no combate à doença desde o início da pandemia.

Foto: Acervo Pe

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Mas, com a dedicação e o foco que ela sempre teve, conseguiu organizar as coisas e manter essa dupla jornada, organizar os papéis de mãe e profissional muito bem. Ela começou a trabalhar com epidemiologia nos anos 90, quando mal se falava nisso aqui no Amazonas. Vale lembrar que o SUS é de 1990, antes disso não havia uma unificação das políticas públicas de saúde. Ela trabalhou na implementação de ações de saúde coletiva que hoje parecem básicas, como a vigilância epidemiológica”, explica.. Casada durante 43 anos, ela realizou o sonho de ser avó e dedicou todo amor à sua primeira netinha, Letícia. Para a família, ela deixa um exemplo de admiração, coragem, força e o legado mais importante: o conhecimento e a empatia, duas qualidades que exercia de maneira magistral em sua profissão. “Sabemos que a nossa perda é apenas mais uma dentre as muitas famílias que estão perdendo seus amores. A perda é irreparável. Ela é insubstituível, assim como cada vida perdida: cada um que se foi é o amor de alguém. Também aqui recordo de uma frase dela, sempre que lidava com um óbito em seu trabalho: ‘Não são só números, cada dígito deste é uma pessoa, é o amor de alguém que se foi’”, continua. Numa emocionante entrevista à Mercadizar, Camila e Mônica concluíram: “O astrofísico e divulgador científico Carl Sagan diz, no prefácio de um livro seu em que traz a ‘Ciência como uma vela no escuro’, que os seus pais são os professores mais marcantes que ele teve pois, apesar de todas as suas limitações intrínsecas, eles foram os que mais o incentivaram a estudar e se maravilhar com as ciências e a natureza humana, e seguir uma carreira científica e acadêmica. Assim, o maior legado que nossos pais nos deixam, sem dúvidas, é o da nossa educação e nosso apreço pela Ciência e o conhecimento”.

Ao compartilhar um pouco de sua história e fazer esta homenagem à Rosemary, queremos finalizar a 5ª edição da Revista Mercadizar com nossos mais sinceros sentimentos a todas as pessoas que perderam alguém especial e, apesar do momento, esperança por dias melhores - e elas farão parte disso. Para nós, uma equipe composta apenas por mulheres, Rosemary Pinto foi com certeza um grande exemplo de mulher e profissional. Assim como todos os amazonenses, somos gratas por seu trabalho, dedicação e contribuição à saúde do estado, mas, acima de tudo, agradecemos por poder contar um pouco de sua história a tantas outras mulheres que, com certeza, se sentirão inspiradas e serão tão tocadas quanto nós.

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Foto: Reprodução Internet

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Letra e voz da cantora Liniker, desta vez com um single solo e sem os Caramelows. Essa é uma daquelas músicas que você escuta e na hora sente um pouquinho de paz. Disponível no Youtube, Spotify e Deezer.

Dica da nossa Diretora e Editora: Mariana Moreira


FORÇA. ESTAMOS TODAS JUNTAS! RESPIRA. ISSO TAMBÉM VAI PASSAR.

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Revista Mercadizar | 5ª Edição  

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