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O H o te l E sp a d a rte João Augusto Aldeia

Edições Aiola


O hotel Espadarte

João Augusto Aldeia

Edições Aiola Julho de 201 7


Estudos locais 1 – Memórias da Indústria Corticeira em Alhos Vedros 2 – O naufrágio da fragata Numancia e outros episódios marítimos com cidadãos espanhóis em Sesimbra 3 – O "rapto" do Senhor das Chagas e a política partidária de Sesimbra

Ficha técnica Título: O Hotel Espadarte e o turismo sesimbrense Autor: João Augusto Aldeia Copyright: João Augusto Aldeia todos os direitos reservados Fotografias: dos autores indicados nas legendas todos os direitos reservados Editor: Edições Aiola aiola@aiola.pt Administração: José Gabriel 1 .ª edição: Julho de 201 7 Imagem da capa: reprodução de uma brochura do Hotel Espadarte, onde são visíveis as bandeiras arvoradas nos terraços que foram, mais tarde, transformados em quartos.


Índice 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14

– Intodução – Antes do Espadarte – O sonho do "Grande Hotel" – Nasce o Espadarte – "Um hotel entre ruínas" – Chegam os Finlandeses – Música e bailes – O factor humano – Publicidade – Pesca desportiva – Chega a concorrência – Ampliação do hotel – Tempos conturbados – Novos proprietários Notas Bibliografia

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Introdução

Este trabalho apresenta dois grandes capítulos: o primeiro, sobre o Hotel Espadarte, inaugurado em 1 957 e demolido em 1 999; o segundo, que será publicado em volume autónomo, sobre a história do turismo em Sesimbra. No dia 1 0 de Junho de 1 957 inaugurou-se, em Sesimbra, a Pensão Espadarte, a primeira unidade hoteleira do concelho especificamente vocacionada para o turismo. Dois anos depois, era a vez da Residencial Náutico e, em 1 963, do Hotel do Mar. Após décadas de lamentações e de iniciativas tendentes a equipar a vila dum hotel que potenciasse o destino turístico que muitos lhe vaticinavam, em pouco tempo a vila ficou dotada com três unidades, num total de cerca de 1 50 quartos. Dos três, era sem dúvida o Hotel do Mar o que apresentava maior qualidade. O Espadarte, que obteria a classificação de hotel apenas em 1 960, ficaria no entanto como o símbolo desta mudança, não só por ter sido o primeiro, mas igualmente pelo


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desenvolvimento, como produto turístico, da pesca desportiva do espadarte, que ficaria a marcar a imagem dessa Sesimbra turística dos anos 60. A revolução de Abril de 1 974, com a subsequente queda do turismo, veio colocar estas empresas em sérios apuros. Tanto o Espadarte como o Hotel do Mar, abriramse ao alojamento de refugiados das antigas colónias portuguesas, embora este último tivesse mantido, paralelamente, parte da unidade reservada ao turismo. Tendo sofrido de dificuldades financeiras desde o início – já que, por milagre, fora uma iniciativa quase sem capitais próprios – estas agravaram-se nos anos posteriores à revolução, tendo o seu promotor admitido, em 1 977, que a empresa se encontrava à beira da falência. Por esta altura também a pesca do espadarte entrara em declínio. Uma última tentativa de salvar o empreendimento foi o projecto imobiliário de construção de uma torre de 1 3 andares, em terrenos adjacentes ao hotel – projecto que obtivera uma aprovação genérica em 1 973, mas que nunca viria a ser viabilizado pelas autoridades urbanísticas. Entretanto o edifício ia envelhecendo. Em 1 980, José Pinto Braz vendeu o hotel, iniciando os novos proprietários uma nova fase, que não logrou gerar receitas para a sua necessária reabilitação. O histórico edifício viria a ser demolido em 1 999, para dar lugar ao Hotel Sana Park, com sete pisos acima do solo: mais dois do que o velho Espadarte. Quero agradecer os depoimentos e cedência de documentos de: António Reis Marques, Eugénia Maria Braz (Geni), João Silva, Margarida Chagas, Porcina Pereira, Valdemar Capítulo e Vitor Raposeiro. Agradeço também ao Arquivo Municipal e à Biblioteca Municipal de Sesimbra pela colaboração da consulta dos arquivos administrativos e de urbanismo (no Arquivo) e do Fundo António Reis Marques (na Biblioteca).


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Antes do Espadarte O jornal O Sesimbrense de 9 de Abril de 1 950 noticiava o “casamento elegante” da sr.ª D. Maria Eugénia Caldeira Alvim Pólvora, com José Pinto Braz, empregado de escritório. A notícia ocupava um lugar central na primeira página, destacando o facto de a noiva ser a “prendada filha do nosso querido amigo Abel Gomes Pólvora”, fundador, proprietário e director do próprio jornal. Foi este casal que, sete anos depois, protagonizou a criação do Hotel Espadarte – embora o machismo dominante tenha ocultado o papel da filha de Abel Gomes Pólvora. Mas foi uma aventura partilhada, e tanto José Pinto Braz como Maria Eugénia trabalharam no dia-a-dia da nova unidade hoteleira. Ambos descendiam de famílias sesimbrenses, e tinham em comum a família Caldeira da Costa – Manuel Caldeira da Costa era trisavô de ambos. Maria Eugénia era ainda descendente da família Gomes Pólvora que, no período do Rotativismo monárquico, disputara com os Caldeira da Costa a hegemonia política em Sesimbra. O pai de José Pinto Braz – Humberto Maria Eugénia Pólvora Chagas Braz – já tinha tido a iniciativa, no e José Pinto Braz verão de 1 933, de instalar em Sesimbra, “junto ao local de banhos, um pavilhão onde vamos encontrar refrigerantes e os apetitosos mariscos próprios desta região” 1 . Tratava-se de uma construção em ma-


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Pavilhão na marginal, junto à praia de banhos.

deira, instalação provisória só para os meses de verão, que não deveria ter grande qualidade de serviço, pois diversos registos desta época salientam não haver em Sesimbra, nem unidades hoteleiras nem restaurantes com o nível que o turismo exigia. Anos mais tarde, também José Pinto Braz se aventurou a explorar, por concessão, o restaurante que o Clube Naval de Sesimbra instalara no 1 º andar da sua sede, na Via Mar e Sol. O Clube Naval equipara o restaurante, com um subsídio da Comissão Municipal de Turismo, e fez a sua inauguração solene no dia 1 6 de Julho de 1 949, abrindo ao público no dia seguinte 2. A imprensa lisboeta fez eco da nova unidade de restauração:


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Sesimbra já dispõe de um restaurante à altura das exigências dos que pro­ curam as excelentes condições naturais daquela vila. Resolveu­se, assim, um problema de importância turística, graças à iniciativa do Clube Naval de Sesimbra que encontrou no presidente da sua direcção, sr. tenente Joaquim Pinto Braz, um devotado entusiasta à propaganda da localidade. A comissão municipal de turismo deu ao empreen­ dimento o máximo apoio (...) restau­ rante de categoria, cujo decorador foi o sr. João Cardoso Baptista, que con­ seguiu dar­lhe um ambiente apropria­ do, utilizando motivos náuticos e admiráveis fotografias com trechos paisagísticos da região, assinadas por Oliveira Nunes e Bento Pastor.

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O panfleto divulgado pelo Clube Naval, também anunciava, com alguma euforia, que: É o início da solução de um grave pro­ blema de Turismo que muito tem afec­ tado o desenvolvimento da nossa praia para o qual o Clube Naval se or­ gulha de ser o primeiro impulsionador.

Convite para a inauguração do Restaurante do Clube Naval.

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A exploração foi entregue por concessão. Desconhecemos quem tenham sido os primeiros concessionários mas, em 1 951 , a exploração foi de José Pinto Braz: é ele próprio que o refere numa entrevista ao jornal O Sesimbrense:


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Na época passada [1951] tive essa infeliz ideia, a avaliar pela má interpreta­ ção dada por uns quantos, que não reconheceram o benefício resultante pa­ ra o Clube da exploração ser feita, não por um estranho, solução de recear e de grandes complicações, mas por alguém conhecido e dedicado ao Clu­ be, que veio afinal durante a época, por expensas suas, a ter algumas inicia­ tivas de benefício futuro para o Restaurante e Sesimbra, iniciativas que um estranho nunca [teria], por não sentir nem lhe interessar a causa, como a um sesimbrense, visto apenas se ligar a Sesimbra por três meses e com fins exclusivamente comerciais.

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Na mesma entrevista, defende a utilidade do Restaurante para o turismo sesimbrense: Conclusão obtida nos elogios feitos pelas pessoas que dele se utilizam, sem falar do crescente movimento que se tem verificado e o torna já pequeno.

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Aparentemente, não ficou com a concessão do restaurante nos anos de 1 952 e 1 953, mas a partir de 1 954, e até à inauguração do Espadarte, voltou a ser ele o concessionário. Numa carta posterior, de 8 de Junho de 1 956, José Pinto Braz refere que: Desde 1954 venho explorando o Bar­restaurante do Clube Naval com uma dedicação e atenção especiais que considero tenham ultrapassado larga­ mente o mero objectivo material. Tenho procurado servir bem e atender me­ lhor, todos aqueles que utilizam o restaurante, e só assim se justifica a recepção de cartas de reconhecimento, destacando­se algumas de estran­ geiros, com agradecimentos que têm a sua origem principal no meu grande empenho em conseguir­lhes permanência cómoda e agradável em Sesim­


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bra, como se num hotel estivessem, quer através de quartos obtidos, quer pelo serviço apresentado (...) porque sobretudo não deseja ganhar tudo nu­ ma só época, como normalmente acontece com a maioria dos concessioná­ rios deste ramos que fazem serviço nas praias.

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Na mesma carta, revela que: Este ano [1956], com o desejo sempre crescente de melhorar o serviço de restaurante, e até com ideias mais largas sobre o futuro, adquiri mais outro frigorífico; mais material para serviço; estou procurando adaptar alguns quartos para receber comensais e vou fazer larga propaganda, principal­ mente por meio de cartazes afixados na província e na capital, com o que despenderei alguns milhares de escudos (...) Este Verão vou experimentar fazer funcionar o restaurante diariamente a partir do próximo dia 9, pensan­ do igualmente conservá­lo aberto em Outubro.

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Nesta carta encontramos já algumas das iniciativas que marcarão a gestão do Espadarte: a realização de acções de propaganda fora de Sesimbra e um esforço para combater a sazonalidade. É também significativa a referência à iniciativa de proporcionar alojamento aos turistas. Refira-se que esta carta, dirigida ao Presidente da Câmara, é justificada por José Pinto Braz “simplesmente para que me seja grato verificar um pouco de estímulo ao meu trabalho no ramo hoteleiro, para o qual me lancei casualmente e gostaria de poder seguir aperfeiçoando-o dentro do meu entusiasmo e das minhas possibilidades”. Outra característica deste Restaurante-bar foi a instalação de um alto-falante virado para o exterior, sintonizado na Emissora Nacional, onde, por meio de um microfone “por vezes se aconselha os turistas a visitarem os vários pontos do nosso distrito”. 9


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Em 1 956 – um ano antes do Espadarte – José Pinto Braz teve outra iniciativa: a de instalar um pavilhão-bar nos terrenos do Porto de Abrigo. Desde 1 952 que existia naquela zona um Parque de Campismo Municipal (embora a prática de acampar na mata do Cavalo fosse anterior) e as obras do novo porto de abrigo de Sesimbra tinham criado uma nova realidade turística, nomeadamente a criação de uma nova praia, devido à deslocação, para poente, das areias da antiga “Praia do Ouro”. Este novo Pavilhão para o Porto de Abrigo. areal, conhecido como “praia nova” ou “praia da doca”, tinha ainda menos ondulação do que a praia grande de Sesimbra, e rapidamente atraiu uma grande quantidade de banhistas, tendo sido ali instalado um serviço de toldos e banheiro, por Justino da Silva. 1 0 A ideia de colocar ali um pavilhão é explicada pelo próprio José Pinto Braz: Por verificar de há muito que era notória a falta de um pavilhão­bar nos terrenos do Porto de Abrigo, ouvindo até a inúmeras pessoas que nos visitam, alvitres sobre a montagem de um estabelecimento desse género que serviria esplendidamente todos os pescadores desportivos, e prestando principalmente aos campistas uma enorme regalia, pensei na sua construção e mais me entusiasmei por me ter constado com certa segurança que seria autorizada tal montagem.

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Para a concepção do pavilhão, José Pinto Braz obteve o desenho modernista de


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uma construção em madeira, da autoria do arquitecto Nereus Fernandes (foto ao lado). No entanto, em Julho de 1 956, com o pavilhão já construído e adquirido diverso equipamento, queixava-se José Pinto Braz de não se vislumbrar a respectiva aprovação pela Direcção-Geral dos Serviços Hidráulicos. 1 2 A iniciativa, no entanto, viria a dar origem ao pavilhão Tic-Tic – que ainda hoje existe, como restaurante – e que serviu como café e restaurante dos pioneiros do mergulho e da pesca desportiva, no porto de abrigo de Sesimbra, nas décadas de 1 960 e 1 970, nomeadamente aos utentes do Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador, que também ali tinha uma “casa abrigo” com camarata.


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O sonho do “Grande Hotel” A ideia de que Sesimbra carecia de um hotel em condições, era antiga: já em 1 899, no Jornal de Cezimbra, se propunha a sua localização no Largo dos Valentes (actual Largo da Marinha): no prédio onde o sr. Santos Corinha é estabelecido instalar­se­ia um bom e asseado hotel – o Central – pois que bastavam os melhoramentos que temos deixado apontados, desde o caminho­de­ferro ao hotel, para que a nossa terra, que conta a melhor praia do país, pudesse rivalizar com as mais afamadas estações balneares das que se estendem em toda a nossa costa. 13

Em 1 937, numa brochura da Comissão Municipal de Turismo de Sesimbra, podia ler-se um curioso apelo: Sesimbra precisa de um hotel. Quem o construir à beira mar obterá bons lucros porque os banhistas afluem cada vez em maior número e muitos não ficam por falta de alojamento. [reproduzido

na página seguinte]

Na citação que fizemos acima, de 1 899, apontava-se como a melhor localização para a praia de banhos, o areal a poente da Fortaleza, onde se realizava a lota. Algumas décadas mais tarde, a localização preferida para a praia de banhos já tinha mudado para a zona a nascente da Fortaleza: na década de 1 930, o presidente da Câmara, major Preto Chagas, promoverá a abertura da “Esplanada do Atlântico”, uma via marginal cujo objectivo – como o próprio nome indicava – era o de ser uma via de acesso e um miradouro sobre a praia. Numa entrevista em Outubro de 1 939, dizia Preto Chagas: No extremo nascente do referido prolongamento e, portanto, já na Califórnia,


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Publicação da Comissão Municipal de Turismo, em 1 937, apelando para a construção de um hotel em Sesimbra.


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estabelecer­se­á uma rotunda para construção de um Hotel à altura de satisfazer as necessidades da terra, na quadra de maior concorrência. (...) Os terrenos da extinta Fábrica Nacional de Conservas estão já destinados para neles se construir o novo edifício da Câmara Municipal (...) E, sobre este edifício, será construído, possivelmente, um andar para instalação de um casino, ou coisa que se lhe assemelhe... com um grande salão de festas e outras dependências para jogos recreativos e outros atractivos.

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Nesta mesma entrevista, o presidente da Câmara admitia que a Fortaleza de Santiago seria ideal para um Hotel, mas devido a “baldadas tentativas já por ele feitas”, considerava que o Ministério da Guerra nunca cederia aquele monumento. Num artigo de Luís Bonifácio, publicado em 1 944, ainda se apontava o dedo à carência de alojamentos: É impossível que em Sesimbra exista apenas um Café, que possui uns quartos que suprime por um ou dois dias o viajante. É impossível também, que o turista tenha de comer numa taberna qualquer, sem condições higiénicas. Esta vila é digna de um hotel ou Pousada; é merecedora que quanto antes se olhe por este problema de fácil resolução. Que dirá amanhã o estrangeiro quando chegar a Sesimbra e não tiver um sítio onde comer ou dormir? Há pontos excelentes para tal construção, como no morro da “Assenta” ou no “Caninho”. Era simpático para todo o sesimbrense e para o turista principalmente que com a costumada compreensão do Secretariado da Propaganda Nacional se edificasse uma pousada. Seria a única maneira de suprir essa falta que há tanto tempo se vem notando. Não é necessário grandes luxos; basta uma Pousada modesta e higiénica, enquanto se não construisse um Hotel.

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Em 1 945, Rafael Monteiro (sob o pseudónimo Ignotus) publicou o artigo “Hotel Atlântico... se António Ferro quiser”. Para além de invocar o presidente do SNI, o jovem Rafael propõe a Fortaleza como local indicado: Não faltaria lugar para instalação de numerosos quartos, abertos ao mar, lavados de ar, doirados de sol; salas de leitura, sossegadas e belas; salas de jogo, ruidosas e alegres. Tudo ali se poderia fazer. Uma entrada senorial, armoreada, a lembrar grandezas passadas, a atestar local de estalagem de reis e nobres fidalgos, que, há perto de quatrocentos anos, instalaram ali a primeira pousada portuguesa.

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Rafael Monteiro endereçava o seu apelo ao “homem das ideias claras e realizações arrojadas” e, de facto, no ano seguinte, a convite da Câmara Municipal, António Ferro visitou Sesimbra, no dia 2 de Agosto. Na recepção, disse o Presidente da edilidade: Tem esta visita o fim especial de solicitar a V. Ex.ª a realização duma velha aspiração de Sesimbra – a construção de um hotel. (...) A sua construção é dispendiosa para um particular, a Câmara só por si também não dispõe de verbas que a possam suportar, e por isso aqui estamos junto de V. Ex.ª, rogando o seu valioso auxílio para que possamos, dentro de poucos anos, admirar mais uma obra do Estado Novo. Ao formularmos o nosso pedido declaramos a V. Ex.ª que não pretendemos um hotel luxuoso, desejamos apenas uma casa simples, decente e condigna para a nossa terra.

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Antes da visita à Esplanada do Atlântico, “onde se projecta a construção do hotel”, António Ferro prometeu “evidar os melhores esforços junto do Ministro das Obras Públicas e do Fundo do Desemprego”, mas abandonaria o SNI em 1 949, sem


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que se vislumbrasse qualquer novidade. Em 1 848, o sonho do Hotel recebeu os favores de um poema: Acordo! Recordo o Sonho Mui cônscio do meu papel Lá «Do Alto do Castelo»: Tornar­me­ei enfadonho Mas isso com bom Hotel Oh então é que era belo!

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Ainda em 1 953, a Câmara reconhecia que: Não tem Sesimbra pensões ou hotéis que possam satisfazer as exigências dos turistas. Há, sim, algumas pensões modestas e asseadas que fornecem boa alimentação e arranjam quartos. Há um bom restaurante, o do Clube Naval, mas só abre em Julho, e só fornece alimentação (...) nas casas de pasto de António Mateus e de Mário Manão, as diárias são de 30$00, e ambas as casas poderão arranjar bons quartos de preço de 10$00 para cada pessoa.

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Sesimbra estava então sob a influência dos “planos de urbanização”, instituídos legalmente em 1 934 e que, para Sesimbra, conheceram inicialmente três versões, identificadas pelos nomes dos seus autores: Paulo Cunha (1 941 ), Carlos Negrão (1 950) e Fernando Lorenzini – Joaquim Padrão (1 959). O primeiro desses planos, da autoria do arquitecto Paulo Cunha, já estava bastante avançado em 1 941 , prevendo a abertura duma generosa “avenida-parque” – que viria a ser a actual avenida da Liberdade, embora acabasse por não ter nada de “parque verde” – e a extensão da vila para o lado poente, para lá do ribeiro da


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Plano de Urbanização de Paulo Cunha (1 941 )

Plano de Urbanização de Carlos Negrão (1 950)


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Plano de Urbanização de Lorenzini-Padrão (1 959)

Fonte Nova. Contudo o facto de prever numerosas demolições, levaram a Câmara a rejeitá-lo, encarregando um outro arquitecto – Carlos Negrão – de fazer novo plano, que ficou concluído em 1 950. O plano de Carlos Negrão mantinha, do plano anterior, a avenida-parque (ainda que algo amputada face à ideia inicial, para reduzir o volume de demolições) e a extensão da vila a poente, mas desenvolvia igualmente o prolongamento da marginal para nascente (Esplanada do Atlântico). Detalhando novos equipamentos, localizava um hotel a nascente, na encosta acima da praia da Califórnia (não distante da parte superior do actual Sesimbra Hotel e Spa). Entre outros equipamentos, previa também um clube de ténis (na zona onde acabou por ser construída a cooperativa de habitação, junto à estrada de Argéis), dois centros


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comerciais (na rua da Cruz e no largo almirante Gago Coutinho) e ainda um terminal rodoviário próximo da praia, no largo de Bombaldes. É ainda no plano de Carlos Negrão que aparece a proposta de localização duma linha de edifícios na Esplanada do Atlântico, muito parecida com a que acabou por se construir, para onde se propunha a nova sede do Clube Naval. Este Plano acabou por não ser aprovado pelo Conselho Superior de Obras Públicas, tendo sido objecto de revisão pelos arquitectos Lorenzini e Padrão, cuja proposta, de 1 959, mudava a localização de diversos equipamentos. Assim, para além do Espadarte, já em funcionamento, o plano previa outras unidades hoteleiras a nascente (duas, na mesma localização do Sesimbra Hotel e Spa, outra um pouco a poente, e uma terceira na encosta mais acima) e, a poente, um “Hotel restaurante dancing” no morro do Macorrilho, que correspondia a uma proposta já apresentada à Câmara pelos irmãos Bustorff Silva. No morro do Alcatraz, ficaria o Clube Naval. Para além destas propostas, houve ainda pedidos de viabilidade de particulares, para diversas unidades hoteleiras, que não se chegaram a concretizar: – um hotel e uma pousada no vale da ribeira de Palames: aquele com uma escadaria de acesso à praia, passando sob a estrada.

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– uma pensão­residencial à entrada da vila, próximo do actual monumento ao 25 Abril (rotunda dos Cravos);

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– o Hotel Álamo, junto ao Bairro Infante D. Henrique;

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– o Hotel Farol, na avenida Salazar (actual avenida da Liberdade);

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Depois de décadas a sonhar com um hotel, as intenções apareciam agora em catadupa, e continuariam a crescer até à Revolução de Abril de 1 974 – mas seria ao Espadarte, numa localização não prevista para esse fim, que caberia a honra de se tornar no primeiro hotel de Sesimbra, ainda que tendo nascido com a modesta classificação de Pensão.


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Nasce o Espadarte No início de 1 957, o sonho do Hotel parecia próximo de concretizar-se e o jornal local noticiava para breve, não apenas um, mas dois hotéis em Sesimbra: Sesimbra vai ter um hotel (...) o plano de urbanização prevê a construção duma larga avenida­esplanada sobranceira à praia da Califórnia que, dentro de pouco tempo, será a destinada aos banhos de mar. Ao longo dessa avenida construir­se­ão edifícios de quatro e cinco andares, no estilo de um que já lá se pode admirar e que algumas pessoas nos apontam como destinado a ser o futuro hotel de Sesimbra. É certo que há alguns particulares interessados, mas a verdade é que o grande hotel da vila ficará instalado na Fortaleza de Santiago, onde hoje funcionam os serviços da Guarda Fiscal. A ideia da adaptação da velha fortaleza é felicíssima e o arquitecto António Lino foi encarregado do respectivo estudo. Está em boas mãos. O hotel disporá de mais de trinta quartos e várias empresas hoteleiras estrangeiras já manifestaram o desejo de concorrer à sua exploração.

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De facto, a Câmara tinha conseguido do Governo uma autorização de princípio para que a Guarda Fiscal saísse da Fortaleza, que seria então adaptada para o hotel, de cujo projecto foi encarregue o arquitecto António Lino – e que o desenvolverá ao longo de 1 957 e 1 958. Mas havia uma questão prévia a ultrapassar, que se revelaria fatal: a necessidade de construir instalações alternativas para a Guarda Fiscal. Esta entidade tinha na Fortaleza várias servidões: o posto de despacho, o quartel (alojamento) da própria Guarda, e a colónia balnear infantil, para os filhos dos seus servidores. Para a sua saída, seria necessário arranjar alojamento alternativo e a Câmara irá desenvolver esforços nesse sentido.


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A Pensão Espadarte foi ocupar parte do antigo terreno da fábrica da Companhia Nacional de Conservas, cujas paredes ainda são visíveis nesta imagem.

Apontou-se a sua localização para a zona poente da vila, próxima do bairro municipal Infante D. Henrique, e, eventualmente, junto à estrada para o porto de abrigo – para onde se apontou, também, a construção da Casa dos Pescadores: na realidade, pensou-se que se poderia englobar tudo no mesmo edifício, ou bloco de edifícios. Porém, qualquer solução definitiva, estava pendente da aprovação de um plano de pormenor para esta nova zona de expansão da vila. Os problemas foramse encadeando uns nos outros e arrastando: sabemos hoje que nenhum destes equipamentos foi construído, e a Guarda não saiu da Fortaleza senão já no século 21 . Na mesma edição do jornal O Sesimbrense, adiantava-se um pouco mais sobre o projecto de José Pinto Braz, de construir a unidade hoteleira que viria a ser o Espadarte:


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Sesimbra vai ter uma nova pensão – Chegou ao nosso conhecimento que o sr. José Pinto Braz assinou um contrato de arrendamento do novo prédio construído na Esplanada do Atlântico (...) aquele sesimbrense vem desde há muito explorando o Bar­Restaurante do Clube Naval, o que nos leva a crer ir ele montar no moderno edifício uma boa pensão com cerca de 24 quartos (...) depois das necessárias obras de adaptação espera­se que o edifício fique qualificado de molde a poder funcionar nele uma pensão de 1ª classe. 25

Para o surgimento do Espadarte, foi crucial a existência de apoios públicos, através do Fundo de Turismo. Em Janeiro, O Sesimbrense tinha dado publicidade ao decreto-lei que regulamentara o Fundo de Turismo, salientando a possibilidade de que:

Os três prédios construídos no prolongamento da rua D. Afonso Henriques, destinados a habitação, e que foram depois adaptados para a nova unidade hoteleira.


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Fachada sul dos edifícios na Esplanada do Atlântico. O edifício da metade esquerda, foi construído e adaptado a hotel. Os da direita, nunca chegaram a ser construídos.

os orgãos locais de turismo e as empresas privadas possam solicitar a comparticipação do Fundo para os trabalhos de construção, ampliação ou adaptação de edifícios ou partes deles e seu apetrechamento com destino a estabelecimentos hoteleiros ou similares, declarados de utilidade turística”. Estes apoios teriama forma de empréstimos sem juro, reembolsáveis em 20 anos”.

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A iniciativa de José Pinto Braz foi seguramente influenciada por esta legislação, incluindo a referida possibilidade de financiamentos do Fundo de Turismo: a sua aposta empresarial só faz sentido perante a possibilidade de um apoio público, pois, como veremos mais adiante, não dispunha de meios financeiros próprios, nem de capacidade de crédito, para o empreendimento. 27 Ele prórprio o reconheceu, numa carta em que pediu um auxílio à Comissão Municipal de Turismo:


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A esplanada do hotel ocupou inicialmente toda a largura da via marginal, recuando depois para o passeio, quando a via foi prolongada. Uma das razões que me atrevia a fazê­lo [criar a unidade hoteleira] era a esperança, aliás absolutamente compreensível, de que a minha iniciativa seria amparada pelas entidades oficiais.

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A Pensão Espadarte Um passo decisivo para o nascimento da nova unidade hoteleira de Sesimbra foi dado em 3 de Fevereiro de 1 957, com a constituição da empresa “José Pinto Braz, Ld.ª”, com um capital de 5 mil escudos (ou seja, 25 euros! 29), repartido pelos dois


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sócios: José Pinto Braz (quota de 4.900$00) e o seu pai Humberto das Chagas Braz (quota de 1 00$00). José Pinto Braz explicará, mais tarde, as suas motivações para, em 1 957, se ter lançado no neste empreendimento, referindo, nomeadamente, “a falta de um hotel ou pelo menos duma pensão que reúna as comodidades modernas, a fim de evitar que se retirem, principalmente no verão, muitos turistas”, e acrescentava: E porque tudo tendia a manter­se, sem se ver surgir nas pessoas de Sesimbra com capacidade financeira, qualquer atitude que procurasse resolver ou atenuar esta situação hoteleira, sentiu­se possuído de uma vontade férrea de tentar ou fazê­lo ainda que com fracos recursos financeiros. O prédio recentemente construído na Esplanada do Atlântico, que muitas vantagens possuía, era para mim uma tentação. As facilidades que de muitos lados me eram oferecidas; o conhecimento de grande parte da orgânica de tal empreendimento, e a vantagem de conhecer a língua inglesa, e melhor a francesa e espanhola, mais me tentavam ainda. Por último, sabedor do grande desejo das entidades municipais em solucionar este problema, senti­me encorajado na minha intenção e esperançado no melhor acolhimento e apoio. Assim decidiu­me a tomar de arrendamento o aludido prédio por uma renda mensal de 6.700$00, além de mais cerca de 1.100$00 pela utilização de uma cave e terraço do prédio contíguo, o que perfaz um total de cerca de 94.000$00 anuais. É minha intenção fazer a sua inauguração durante o mês de Maio, depois de feitas as indispensáveis obras de adaptação exigidas pelo Secretariado Nacional de Turismo às pensões de primeira classe, cuja aprovação me permitirá depois a concessão de um empréstimo do referido organismo.

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A terminar esta carta, José Pinto Braz admitia que a iniciativa, embora


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representando “um grande benefício para o turismo local”, era muito arriscada, mas assegurava que não lhe faltavam “vontade e entusiasmo” e, para o confirmar, “bastaria dizer que, tendo a sua vida em Lisboa, deixou o emprego de há dezassete anos para se dedicar inteiramente ao início da resolução de um problema sesimbrense”. De facto, mesmo com a concessão do Restaurante Bar do Clube Naval, mantivera o seu emprego administrativo na empresa Nitratos do Chile. Agora, chegara a vez de arriscar em favor do seu sonho, que era igualmente o sonho de Sesimbra. A terminar esta carta, pedia: À Excelentíssima Câmara e Comissão Municipal de Turismo a maior colaboração possível no futuro e, para já, um substancial auxílio destinado às despesas com as obras de adaptação e propaganda intensa que haverá necessidade de realizar, o que a verificar­se resultaria para ele um enorme estímulo.

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A Câmara deliberou, por unanimidade, louvar a iniciativa, mas entendeu que teria de aguardar que a pensão recebesse do Governo a declaração de utilidade turística, para poder equacionar qualquer apoio mais específico. O jornal local anunciou, em Maio seguinte, que seguiam a “ritmo acelerado as obras da Pensão Espadarte” 32 , e, em Junho, que a pensão Espadarte já tinha os seus apartamentos todos apalavrados para os meses de Agosto e Setembro 33. O SNI 34 aprovou o projecto da nova unidade hoteleira em 6 de Junho, colocando apenas a condição de ser instalado um monta-cargas de ligação entre a cozinha e as copas dos andares 35 . E, em 9 de Julho, concedeu autorização para que o estabelecimento iniciasse a actividade. 36 A inauguração teve lugar no dia 1 0 de Julho e, no final desse mês, a Câmara convidou diversos jornais de Lisboa para uma visita turística ao Concelho, que


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O Hotel Espadarte depois da obras integraram os três prédios numa única unidade, com excepção da zona ao cimo da rua D. Afonso Henriques, que manteve o uso habitacional. incluiu passeio à Lagoa de Albufeira e ao Cabo Espichel, uma volta de barco pela baía de Sesimbra – com a inevitável assistência do levantamento de uma armação de pesca. A Pensão também foi incluída no programa: Após a viagem foi oferecido aos visitantes um almoço na nova Pensão­ Restaurante Espadarte, recentemente inaugurada. Presidiu o sr. Presidente da Câmara, ladeado pelos srs. Presidente da Comissão Municipal de Turismo, e sr. dr. Manuel de Arriaga, em representação do S. N. I. Aos brindes, o sr. Presidente da Câmara dirigiu palavras de saudação e agradecimento aos representantes da imprensa e do S. N. I. Declarou que actualmente Sesimbra fica apetrechada com uma magnífica unidade hoteleira, pelo que se considera apta a receber os turistas que a visitam (…)


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Terminou fazendo votos pelo bom êxito da útil e arrojada empresa que se fica devendo ao espírito de iniciativa do sesimbrense sr. José Pinto Braz.

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O Diário Popular deu igualmente destaque à iniciativa, dando conta de um número de quartos superior aos 27 inicialmente previstos: Os jornalistas foram obsequiados com um almoço na Pensão­Restaurante “Espadarte”, oferecido pelos seus proprietários. Esta pensão constitui um melhoramento que, sob o aspecto turístico, muito vem beneficiar Sesimbra, pois as suas modernas e confortáveis instalações satisfazem as exigências de turistas nacionais e estrangeiros. Dispõe de 30 quartos, sala de jantar, café, terraço e praia privativa.

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Houve, seguramente, quem duvidasse do êxito da iniciativa: “arrojado empreendimento de que tanto se duvidou por mercê desse nefasto espírito céptico e derrotista que tolhe, entre nós, tantas iniciativas aproveitáveis”, recordava o jornal O Sesimbrense em 1 962. 39

Prédios de rendimento Os edifícios escolhidos por José Pinto Braz para instalar a pensão, não tinha sido originalmente construídos para esse fim, mas sim como “prédios de rendimento”. Tinham sido edificados por Júlio da Silva, um empresário de Almada, que também não dispunha de grande capacidade financeira, já que, em Maio de 1 956, requereu à Câmara autorização para constituir uma hipoteca sobre o terreno, “para acabamento do prédio ali em construção” 40 . Os prédios de rendimento destinavam-se a aluguer, quer para comércio, quer para habitação: ainda não tinha


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chegado a Sesimbra a “febre” da propriedade horizontal e da venda de apartamentos. Em três lotes, que tinham sido adquiridos à Câmara em 24 de Setembro de 1 955, Júlio da Silva construiu 3 prédios contíguos: um na esquina entre a Esplanada do Atlântico e a rua D. Afonso Henriques (que só nessa altura foi prolongada até à marginal), outro com fachada e porta para a rua D. Afonso Henriques, e o terceiro para esta e também para a rua Heliodoro Salgado – veja-se o desenho da página 31 . Este último recebeu os primeiros inquilinos logo no final de 1 956, com direito a referência no jornal local: Prédios Novos / Começaram a ser habitados alguns dos andares dos prédios novos que foram construídos na Esplanada do Atlântico.

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Curiosamente, dos três prédios construídos por Júlio da Silva, o primeiro a ser ocupado, fora o último a ser concluído, com fachada e entrada para a rua Heliodoro Salgado – talvez porque, dos três edifícios, fosse o que tinha as rendas mais baixas. Estas casas mantiveram-se até hoje, sobrevivendo à demolição do Hotel Espadarte, e permitem ver que se tratava de uma construção de baixa qualidade, hoje já muito degradada. No entanto, apenas uma inquilina reside ainda naquele local. Na fase inicial, como já referimos, José Pinto Braz alugou a Júlio da Silva o edifício de esquina para a Esplanada do Atlântico – cujo rés-do-chão fora construído com destino para lojas comerciais – alugando ainda a cave e terraço do prédio contíguo. A modéstia das instalações – e até do mobiliário – só permitiram a classificação como Pensão, ainda que de 1 ª classe. Mas foi necessário realizar diversas obras, adaptando o que eram habitações para quartos de hotel. O objectivo inicial foi o de conseguir 27 quartos, dos quais apenas sete tinham casa de banho privativa, estando os restantes apenas equipados com um lavatório; outras 7 casas de banho destinavam-se ao serviço geral dos restantes quartos. Foi ainda criada


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uma sala de jantar para os hóspedes e um bar. 42 O pedido de obras foi apreciado pela Câmara na sua reunião de 1 7 de Junho, acompanhado do parecer da Comissão Municipal de Turismo de Sesimbra, que era bastante favorável: É a Comissão do parecer que a obra em causa se enquadra num imprevisto conjunto de empreendimentos destinados a valorizar e a incentivar em alto grau o Turismo em Sesimbra. De facto, depois de executada a adaptação da Fortaleza a Hotel – obra que é de prever seja executada em prazo não muito distante – e de construída uma pensão de capacidade apropriada de categoria um pouco mais modesta e um amplo restaurante que pudesse fornecer refeições económicas inclusivamente a famílias instaladas em casas alugadas, ficará talvez, dado o mais largo passo para a melhoria das condições turísticas e do concelho. O resto que é muito, virá depois, em


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ritmo mais acelerado, dado o aumento de disponibilidades que é de prever. O projecto em apreço merece a nossa inteira aprovação e, dentro do que a lei faculta, devem ser concedidas aos interessados as máximas facilidades. 43

Em 21 de Fevereiro de 1 958 obteve do Governo a classificação de “utilidade turística”, condição indispensável para poder obter financiamento do Fundo de Turismo. No mês seguinte, com recurso a um empréstimo bancário, José Pinto Braz adquiriu a propriedade do edifício da pensão. No final desse ano de 1 958, em Setembro, foi finalmente concedido o empréstimo do Fundo de Turismo / Caixa Geral de Depósitos, no valor de mil contos. 44 Animado pelos apoios oficiais e pelo sucesso comercial, José Pinto Braz decidiu dar um novo passo, ampliando as instalações. Ele próprio explicaria, mais tarde, a origem do optimismo que o fazia andar tão depressa: Estimulados com o auxílio recebido das entidades oficiais, animados pelo movimento sempre crescente dos que começavam a conhecer Sesimbra, ou que, já a conhecendo, pela primeira vez encontravam um estabelecimento hoteleiro capaz de corresponder às suas necessidades; a consoladora satisfação de nos ser dado contar com hóspedes que no ano seguinte voltariam, e que aos amigos nos recomendavam, tudo aliado à robusta fé de que o Turismo Nacional seria a realidade por todos desejada, e para a qual todos trabalhávamos.

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E foi assim que em Dezembro de 1 958, escasso ano e meio após a inauguração, adquiriu o prédio contíguo, com entrada pela rua D. Afonso Henriques. E, no início de 1 959, deslocou-se à Suíça, França e Inglaterra, contactando agências de turismo. Foi sobretudo em Londres que encontrou a maior abertura para o


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estabelecimento de contratos para uma longa temporada, já naquele ano, de Maio até Setembro. Mas havia uma exigência: os quartos teriam de ter casas de banho individuais. José Pinto Braz voltou, uma vez mais, a correr um grande risco: convencido de que “o arrojo é o caminho do triunfo”, assinou contratos “nos quais garantia as comodidades pedidas, mas que, então, ainda não existiam”. Regressou então a Sesimbra onde, “trabalhando dia e noite”, realizou as obras nos dois edifícios, ligando-os internamente e eliminando a porta para a rua D. Afonso Henriques. Pôde, assim, apresentar aos hóspedes “uma nova unidade hoteleira, completamente reformada e remoçada: dos 30 quartos com lavatório, passámos para 66, dos quais 60 com casa de banho, telefone, rádio e aquecimento privativos”. 46


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Devemos chamar a atenção para o facto dos dois edifícios em causa serem inicialmente destinados a habitação, e que as adaptações dos quartos, dotando-os de casas de banho, restringiram bastante a sua dimensão. Com esta remodelação, foi também instalada uma “Esplanada-dancing”, virada para a Esplanada do Atlântico, onde, com recurso a grupos musicais, se animavam algumas das noites – à semelhança do que já fazia a Sociedade Musical Sesimbrense que, ali bem perto, instalara uma esplanada-restaurante com espectáculos musicais ao fim-de-semana. Dirigindo-se à Câmara, José Pinto Braz afirmava que: É exactamente no recinto exterior que está a nossa maior defesa, e consequentemente, o bom nome do Espadarte, com satisfação para Sesimbra que pode orgulhar­se de possuir um estabelecimento melhor que em muitas cidades, com capacidade de serviço para 500 refeições, e até


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mais, em almoços, como aconteceu no passado dia 4, e decerto acontecerá futuramente.

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Esta esplanada, encostada à fachada sul, foi sendo gradualmente ampliada: inicialmente ao ar livre, foi depois coberta com uma estrutura transparente. Nas obras de remodelação de 1 960 também estava prevista a construção de novos quartos, ocupando dois terraços que existiam ao nível do 4º andar: esta ampliação, no entanto, só se viria a concretizar em 1 964. Com os melhoramentos feitos em 1 960, tornou-se possível a mudança de classificação, de Pensão para Hotel, que acabaria por ser concedida pelo SNI em 1 3 de Abril de 1 961 . Ainda no ano de 1 960, foi alargado o leque de nacionalidades abrangidas por contratos com diversas agências: uma alemã, uma francesa, uma suíça e seis inglesas. Assim, o investimento, ainda que arriscado, parecia bem encaminhado, embora “nalguns casos, os contratos firmados não são totalmente vantajosos, não só pelas avultadas comissões cedidas em pleno Verão, mas também pela retenção de quartos que, às vezes, não chegam a ser ocupados”. No entanto, José Pinto Braz encarava isto como uma aposta no prestígio futuro da unidade hoteleira que fundara: Fica­nos a certeza de que, trabalhando assim, garantíamos às agências a segurança necessária para que elas, confiando, continuem desenvolvendo a sua propaganda, da qual só resultam benefícios: para o País, para a região e para o Hotel.

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Com o mesmo sentido de afirmação, estava a política de manter o hotel aberto no Inverno, “o que nos acarreta mais de uma centena de contos de prejuízo durante os cinco meses ‘mortos’ desta indústria. Mas ainda não descremos que possamos


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vir a ter ‘Turismo de inverno’". No entanto, em 1 964, o Espadarte viu-se mesmo na contingência de fechar durante o Inverno, informando a Câmara que o hotel estaria fechado a partir de 27 de Outubro, tencionando reabri-lo em Março de 1 965. 49 Este encerramento durante a época baixa também ocorria com o Náutico que, em 1 966, informou a Câmara que encerraria as suas actividades nos meses de Novembro a Fevereiro. 50 Em Maio de 1 961 , os encargos acumulados criaram uma situação insustentável: uma das muitas “aflições” da vida da nova unidade hoteleira. José Pinto Braz – e a esposa, Maria Eugénia – tinham contado com um empréstimo de dois mil contos, que teria lugar “após a venda de um prédio que a mesma possui, com duas irmãs, em Lisboa”. Mas problemas urbanísticos tinham atrasado essa venda. E assim, a empresa hoteleira sesimbrense teve de recorrer mais uma vez ao Fundo de Turismo, que deu abertura para novo financiamento – mil e seiscentos contos – o qual, no entanto, teve de aguardar que a declaração de utilidade turística – que tinha sido dada a uma Pensão – fosse agora estendida ao Hotel, o que só aconteceu em 25 de Setembro de 1 961 . 51

Projecto de ampliação ao nível do r/c, para criação de duas “salas de comer” - (zona assinalada a azul).


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Com o Imposto de Turismo em atraso à Câmara, José Pinto Braz teve de fazer um apelo desesperado, em Outubro de 1 961 , para que não lhe fosse colocada uma acção de penhora. Os problemas financeiros seriam uma constante da unidade hoteleira fundada por José Pinto Braz. Os funcionários relatam situações recorrentes de salários em atraso. Margarida Chagas, que trabalhou no escritório, recorda que ”tinha ido ganhar trezentos escudos, estava toda “inchada” com o meu ordenado] mas estive logo os primeiros três meses sem receber ordenado!” Laura Reis Marques, que começou a trabalhar no Espadarte em Julho de 1 960, recorda: A época alta terminava mais ou menos na 3.ª semana de Agosto. No mês de Setembro e na primeira quinzena de Outubro, ainda se mantinha o Hotel


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com algum movimento, graças aos amantes da pesca grossa, que vinham nessa altura do ano, em busca de espadartes, atuns ou tubarões, importante atractivo turístico que infelizmente desapareceu. O período que se seguia até ao próximo verão, era de grandes dificuldades financeiras, pois as receitas eram drasticamente reduzidas e os encargos mantinham­se elevados. 52

O aumento do número de quartos veio agravar o problema da reduzida dimensão da zona para refeições dos hóspedes, que foi atenuado em 1 961 , com uma ampliação ao nível do rés-do-chão, junto à avenida marginal, criando duas “salas de comer”. 53 O espaço para as refeições, no entanto, continuava a ser insuficiente, o que levou José Pinto Braz a propor uma nova ampliação em 1 964. Esta “ampliação”, no entanto, revelar-se-á muito problemática: pretendia-se colocar uma “cobertura provisória” sobre uma área adjacente ao hotel, para o lado nascente. Ora, para esta zona, o que estava previsto era a construção de edifícios, no mesmo estilo do próprio hotel – veja-se o desenho da página 32. Além disso, a “cobertura provisória”, tal como constava do “projecto” apresentado, era uma simples cobertura metálica, uma espécie de “nave industrial”, inaceitável para aquela zona, em termos urbanísticos: e foi talvez por ter consciência disso, que o pedido de construção foi feito para uma “cobertura provisória”, embora a construção tivesse nada de provisório. O arquitecto consultor – Nereus Fernandes – deu um parecer equívoco: por um lado, afirmou que “o arranjo da Esplanada do Atlântico tem passado por uma série de metamorfoses, divergindo sempre as opiniões quanto ao seu traçado”, e, por outro, que “o hotel Espadarte, bonito ou feio, é considerado de utilidade turística (]) parece-nos pois lógico não se dever prejudicar qualquer iniciativa desse estabelecimento até porque, sendo a obra pedida a título precário, conforme consta


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Imagem utilizada pelo Hotel Espadarte na publicidade de 1 966, que mostra a cobertura do polémico restaurante pintada com faixas, que nunca existiram. Os anúncios na imprensa prometiam uma “sala para banquetes” com capacidade até 300 pessoas.

do requerimento, não causará apreensões à Câmara”. Com esta argumentação capciosa – não dando o seu aval de arquitecto, mas avançando argumentos que podemos considerar como “políticos” – Nereus Fernandes abria caminho à legalização, embora recomendasse que fossem ouvidos a Direcção-Geral dos Serviços Urbanos e o SNI. 54 Ainda durante esse mês, a Câmara enviou o processo ao SNI, indicando ter deliberado “autorizar as referidas obras tendo em vista a sua realização a título precário”, acentuando ainda a “urgência do assunto”. 55 Este organismo, no entanto, reprovaria a ampliação, considerando que a construção pretendida estava “prejudicada pelo alargamento da Avenida Marginal proposto pelo sr. Arquitecto Eugénio Correia”, o qual, ainda que pudesse vir a ser revisto, aconselhava a “aguardar o resultado dos estudos”. 56


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A Câmara ainda voltou a insistir na aprovação, mas o SNI manteve o seu parecer, chamando a atenção da Câmara para o facto que “estas sucessivas ampliações não têm sido acompanhadas com a indispensável ampliação das zonas de serviço indispensáveis à sala de refeições”. 57 Esta “ampliação”, no entanto, acabou mesmo por ser realizada de forma irregular, em 1 865. Por de carta de 20 de Fevereiro, José Pinto Braz informou a Câmara que: Para poder satisfazer compromissos assumidos com as agências de viagens, que muito brevemente lhe virão instalar no seu hotel número apreciável de turistas, se viu forçado a proceder a pequenos arranjos na actual esplanada­dancing com uma cobertura provisória em plástico e alumínio para poder servir os primeiros clientes, enquanto não tem solucionado o problema da casa de jantar.

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Em face desta circunstância, a edilidade deliberou “multar a firma e notificar para apresentar pedido de legalização, dado que obras foram executadas sem qualquer licença da Câmara”. Apresentado o pedido de legalização das “obras no recinto anexo ao Hotel Espadarte que constam de pilares, cobertura em plástico e elevação do pavimento”, foi deferido pela Câmara “a título precário”. 59 O resultado foi uma “nave industrial” inestética, com uma cobertura em arco abatido, mais relacionada com o passado industrial daquela zona, do que com a qualidade urbanística desejada – uma das heranças mais polémicas da nova unidade hoteleira.


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O inestético restaurante, construído em 1 964 sem autorização legal, e posteriormente legalizado"a título precário".

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“Um hotel entre ruínas” Tendo irrompido na vila piscatória como uma novidade, o Espadarte teve de se confrontar com uma envolvente física e social mal preparada para aquela nova realidade: localizado no limite da zona urbana, confinava com velhos armazéns de pesca, teve de assistir ao prolongamento da muralha e da avenida marginal, teve de conviver com uma comunidade piscatória ainda numerosa, que preparava as caçadas num convívio ruidoso, partindo de noite para a pesca, usando a praia como instalação sanitária] Ainda em 1 957, o jornal Distrito de Setúbal publicou um artigo de Cabral Adão, que se referia à Pensão Espadarte como “um hotel entre ruínas” 60 . Aquele setubalense – que já, por diversas vezes, retratara elogiosamente Sesimbra, apelidando-a de “ninho de gaivotas” 61 – referia-se agora ao aspecto de abandono dos três edifícios das armações de pesca, que ficavam imediatamente a poente do Hotel 62, atribuindo as “culpas” à Câmara. O artigo não caiu bem ao jornal O Sesimbrense, mas era de facto um problema: o edifício da armação Burgau, perpendicular à linha de praia, atravessava-se no caminho da Esplanada do Atlântico, e a Câmara tentava, em vão, negociar a sua compra aos proprietários. José Pinto Braz, pelo seu lado, precisava de terrenos para “expansão” da unidade hoteleira, imediatamente a nascente, e que pertenciam à empresa Caldeira & Filhos. A certa altura, foi José Pinto Braz quem conseguiu adquirir o prédio da armação Burgau, causando algum incómodo à Câmara, por não ter sido informada antes dessa iniciativa. Mas José Pinto Braz apressou-se a acalmar a edilidade, assegurando que estava disposto a ceder o terreno necessário ao prolongamento da via marginal, por “simples troca de idêntica área obtida pelo aproveitamento do terreno contíguo ao nosso, pertencente a Caldeira & Filhos”, ao que a Câmara anuiu em princípio. 63


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Nos primeiros anos do Espadarte, a praia era ainda dominad a pela pesca.

A avenida marginal acabaria por ser prolongada, mas com a consequência de terem surgido diversos incómodos para os hóspedes do Espadarte: em Março de 1 962 José Pinto Braz lamentava-se do “desastroso critério seguido pelo empreiteiro da obra dos esgotos”, com abertura de buracos “onde não mais se mexeu durante 1 5 dias e até que chovesse”. Na altura, estava o hotel aguardando a chegada dos primeiros 50 dos 700 finlandeses, podendo os incómodos das obras “ter influência decisiva nos restantes”. 64 Estranhamente, algumas das mais insistentes queixas relacionavam-se com os


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ruídos provocados pelos pescadores, com várias lojas de companha nas proximidades do hotel, e que, partindo para a pesca de noite, perturbavam alguns clientes. Um deles – o Almirante Nuno de Brion! 65 – muito se indignou porque: Ouviu em alta voz e cheio de palavras obscenas, o cavaquear de vários marítimos, que à porta de casa preparavam o material para a pesca; por várias vezes o rolar de bidons e o arrastar de caixotes (julgamos selhas); a passagem vertiginosa duma pesada e ruidosa camioneta embalada para a subida da rua lateral e por fim em horas alteradas, irritantes gritos de chamadas por camaradas. 66

Ruas com pescadores: um ex­libris de Sesimbra.


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Numa outra carta, chega a pedir à Câmara para, “se fosse possível, evitar que alguns pescadores escolhessem a sombra obtida por baixo de algumas janelas, para melhor prepararem os seus aparelhos, exactamente nas horas de repouso a seguir aos almoços”. 67 Além destas queixas mais directamente relacionadas com a actividade piscatória, também se referia que: Os quartos de 1º andar, virados para o mar, não podem estar com as janelas abertas e principalmente as pessoas que utilizam o serviço de mesa na esplanada são frequentemente incomodadas com a poeira levantada tanto pelo vento como pelos carros que já começaram a utilizar o novo troço da Esplanada, por vezes até com alguma velocidade. É rara a noite em que não assiste, a partir das 23 horas, aos mais variados géneros de recreio, dos aludidos energúmenos, que vão desde a exibição de cantares e gritarias (...) até às voltinhas com motos com partida e chegada frente a este Hotel. 68

A Câmara também recebia queixas de particulares, como foi o caso de Fernando Teotónio Pereira – um dos pescadores desportivos do espadarte – que apontava: Durante a noite, frequentíssimas vezes, da rua e do largo onde fica o parque de estacionamento vem tal vozearia – gente cantando e falando em altos gritos – que transforma as noites de quem precisa e quer descansar, em noites de insónia e pesadelo. 69

Outro tipo de queixa, relacionava-se com questões de higiene: Há, porém, um problema que sempre me suscitou reparos – a falta de


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limpeza da zona fronteira à praia principal, frente ao Hotel Espadarte. Ontem, então, era verdadeiramente lamentável o aspecto junto da rampa de acesso à praia. Não haverá verba ou estará pendente de planos a pavimentação daquela zona, mas um varredor sempre se arranjaria para, diariamente, remover os detritos que indivíduos imundos e pouco respeitadores dos interesses da sua própria terra ali vão deixar todas as noites. 70

A utilização de espaços públicos, e da praia, como retrete, aparece constantemente referida nas páginas do jornal O Sesimbrense. A intenção mais antiga para se instalar uma retrete pública, data de 1 922: um projecto para construção “no local do poço da vila, junto à praia”, que teria “três cabines com bacias turcas, por ser este o sistema que mais se adapta à limpeza rápida, e duas cabines com bacias Sanitas, bidés e lavatórios de louça, para serviço remunerado”. 71 No ano seguinte foi elaborado um novo projecto, ainda mais modesto, com um urinol, uma retrete turca para homens, uma de sanita para mulheres, e uma “cabine de luxo”, com sanita e bidé. Um terço do espaço era reservado para “dependência do guarda”. 72 Oas problemas não se limitavam à higiene: em Outubro de 1 964, O Sesimbrense transcreveu, do semanário lisboeta “Actualidades”, o relato de um leitor que estivera acampado em Sesimbra, “numa área situada do lado esquerdo da praia e junto às rochas” – local fácil de identificar como o Caneiro. Aconteceu que, depois das 23 horas, regressando de uma deslocação à vila, tivera uma surpresa: Um grupo de homens e rapazes, com idades que variavam entre os 14 e os 30 anos, gracejavam junto dumas rochas. O som duma voz feminina vinda detrás das rochas, fez compreender facilmente ao nosso leitor o que se passava. 73


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O campista percebeu o que se passava, o leitor da notícia é que talvez não tenha percebido, pois a auto-censura aplicada pelos jornais impedia que se escrevesse claramente do que se tratava: prostituição ao ar livre, naquela zona da praia. Uma queixa ainda mais formal veio das agências de viagens finlandesas, em 1 965. Através do SNI, fizeram chegar a Sesimbra o “espanto” dos turistas escandinavos perante “certos factores altamente negativos”, nomeadamente: 1) Falta de instalações sanitárias – parte da população local, sobretudo, pescadores e crianças, usa as artérias públicas da vila para fins sanitários; 2) Praia de banhos invadida de barcos e redes de pesca; 3) Curiosidade excessiva pelos turistas, principalmente do sexo feminino, por parte da população local; 4) Demasiados ruídos nocturnos; 5) Falta de arranjo na zona entre o Hotel Espadarte e a praia de banhos. 74

A “curiosidade excessiva pelos turistas, principalmente do sexo feminino”, parece ser uma expressão algo atenuada para o assédio sexual que alguns sesimbrenses faziam às turistas estrangeiras. Na década do “amor livre”, alguns desses assédios teriam sido consumados por mútuo consenso, mas não deixariam de constituir um incómodo para muitas famílias. Mesmo assim, em alguns poucos casos, ainda resultaram em casamentos, como aconteceu com Mário Polido Piló, que, desses tempos, recorda o grupo de rapazes que se dedicavam a tal actividade (Joaquim Lameirão, Preto, Pardal, Passarinho), e que iam “para casa do Preto, por trás da Capitania, com um gira-discos, ouvir músicas em francês e inglês, para aprender algumas palavras, que era para, de Verão, andar aí às miúdas estrangeiras – era o hábito!” 75 Em meados da década de 1 960, a geógrafa Maria Alfreda Cruz publicou a sua


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tese de licenciatura, onde retractou o contacto entre a comunidade local e os forasteiros: Terra de pescadores se fez e continua sendo. Acidentalmente tornou­se centro balnear de relativa importância, mas muito pouco tem feito nesse sentido. O banhista é recebido com interesse e até com curiosidade – porém, sem ansiedade alguma. O sesimbrão tem, em relação a ele, uma atitude de certo modo acolhedora, mas independente. Aluga­lhe a casa, queixa­se da carestia que veio ocasionar – porque a «praça» tira partido da situação – critica­lhe o vestuário, ri­se dos seus costumes, mas olha­o com o à­vontade de quem se sente ‘em casa’, com o indispensável para viver. 76

Maria Alfreda Cruz testemunhou desta forma o contacto inicial dos turistas e “banhistas” com a comunidade local, predominantemente piscatória. Era um tempo em que as ruas eram ocupadas pelas actividades piscatórias – trabalhos preparatórios das “caçadas”, varação de barcos – e onde o contacto humano –, no diálogo entre sublocatários e subalugadores de casas, na epopeia da pesca do espadarte, ou mesmo nos “engates” das estrangeiras – ainda não punha em causa a vida tradicional dos habitantes e, se havia desentendimentos, eram os forasteiros a parte fraca, a parte que cedia, como se depreende de algumas queixas já referidas. Porém, com o andar do tempo, esta relação de forças foi-se alterando. O peixe e os pescadores foram diminuindo, a lota e as lojas de companha foram-se transferindo para o porto de abrigo, as novas gerações foram-se mudando para os arredores da povoação (Santana, Cotovia, Zambujal). O espaço urbano da vila passou a ser menos dos pescadores e mais dos terristas, menos dos marítimos e mais dos forasteiros.


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Chegam os Finlandeses Até ao ano de 1 960, os turistas alojados no Espadarte eram sobretudo suíços e franceses. Porém, com a nova década, começaram a chegar os nórdicos, que tiveram um papel muito importante na vida da nova unidade hoteleira, não só pelo seu número, como também pelo facto de escolherem, não apenas o Verão, mas também meses considerados como de época baixa. Já em 1 961 , o jornal local destacava a “invasão” de estrangeiros: A partir do próximo mês de Maio o Hotel Espadarte começa a receber os primeiros grupos de turistas estrangeiros que, em gozo de férias, se deslocam para Sesimbra. Este ano a gerência daquele magnífico estabelecimento hoteleiro estabeleceu contratos com grupos de turistas ingleses e finlandeses. Estes, que pela primeira vez, em grupo, se deslocam para Sesimbra, vão decerto constituir motivo de curiosidade na próxima época balnear que se avizinha. 77

Não se tratava, obviamente, de um exclusivo sesimbrense. A delegação de Portugal em Helsínquia foi a grande promotora destes contratos, mas José Pinto Braz sobre aproveitar a oportunidade. Laura Reis Marques, que foi trabalhadora no Espadarte, recorda: Ainda em 1962, ano em que se registou no Espadarte maior número de turistas finlandeses, o sr. José Braz colaborou activamente na “Semana Portuguesa” que teve lugar no Hotel Marski em Hensínquia, importante certame de promoção turística promovido pelo SNI e pela Direcção­Geral do Turismo. Com ele se deslocaram à capital da Finlândia, trabalhadores do


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Hotel Espadarte para confeccionarem e servirem os apreciados pratos de espadarte, robalinhos, pescada e outras espécies da nossa costa. 78

É ainda Laura Reis Marques que destaca o papel de César Faustino, que durante muitos anos foi directos do Centro de Turismo de Portugal na Escandinávia, e que "muito colaborou na divulgação de Sesimbra no norte da Europa". Em 1 962, O Sesimbrense assinalou a chegada de finlandeses, que nesse ano atingiriam o número de 700: Com a chegada dos primeiros grupos de turistas finlandeses, resultante dum oportuno e excelente contrato obtido graças ao espírito de iniciativa do seu proprietário, o sr. José Pinto Braz, entrou novamente em grande evidência o Hotel Espadarte. 79

O jornal local inicia então uma série de entrevistas aos veraneantes nórdicos, as quais, apesar de apresentarem alguns indícios de não serem transcrições rigorosas das conversas havidas, revelam pontos de vista interessantes. O primeiro entrevistado seria Eeli Erkkila, ministro do Interior governo finlandês da época, que caracterizou Sesimbra como uma “encantadora e sossegada vila, rica em sol e com óptimas condições para todos os desportos náuticos”, destacando ainda o “tipicismo da vida dos Eeli Johannes Erkkila, pescadores.” 80 ministro finlandês do Interior. Erik Alfred Heyno, sugeriu que seria interessante proporcionar em Sesimbra “um lugar onde se pudesse ouvir fados e


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assistir à exibição de ranchos folclóricos portugueses. Para os mais jovens, seria um prazer poderem dedicar-se ao desporto (tenis, golf, etc.) durante o dia e, à noite, terem um dancing com boa música”. 81 Klaus Weikolla, director do sindicato hoteleiro da Finlândia, destacou “os motivos da sua actividade piscatória, a simplicidade dos seus habitantes, as suas belezas naturais e o encanto dos seus magníficos arredores” e aconselhou “a necessidade absoluta de conservar Sesimbra como está – uma típica vila de pescadores – pois é isso que, essencialmente, a distingue de outras praias a que estamos habituados”. 82 Paavo Karlo Robert Brotherus, jornalista e assistente de televisão, salientou também a “beleza natural” da vila e o facto de ter encontrado sempre “entre o povo de Sesimbra, pessoas muito simpáticas e bastante afáveis, que amavelmente nos ajudaram nas nossas dificuldades com a língua portuguesa” – e espantou-se até por ter encontrado algumas pessoas que sabiam dizer algumas coisas na sua língua.

Em 1 962, um grupo de finlandeses que tinha passado férias em Sesimbra, juntou-se a José Pinto Braz na "Semana de Portugal" em Hensínquia.


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Música a bordo do barco Espadarte , em 1 969.

Destacou, como memorável, um pique-nique, organizado e com a participação de José Pinto Braz: “numa praia pequenina sob enormes rochedos – Ribeiro do Cavalo – entretivemo-nos a pescar e tivemos o almoço mais agradável de toda a nossa estadia em Sesimbra”. 83 As senhoras Toini Helga Maria Salovaara e Lahja Kyllikki Virkunen, de Helsínquia, revelaram que “Passámos aqui 28 dias encantadores, durante os quais não nos cansámos de admirar a paisagem admirável deste litoral magnífico e o labutar constante dos seus homens do mar, cuja vida e afazeres quotidianos constituem para nós, estrangeiros, um postal turístico de incalculável valor”. Queixaram-se, no entanto, de à noite não ter algo de diferente onde se pudessem divertir, “os bailes de sábado não chegam para quem, como nós, aqui passa cerca


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de um mês”. 84 Surpreendentes foram estas declarações da senhora Madan Pelkoden, de Hensínquia – “Sesimbra já não é, na Finlândia, uma terra desconhecida. Os últimos jornais que tenho recebido de Helsínquia falam bastante de Sesimbra e de Portugal (]) A televisão tem mostrado também aos meus compatriotas, as belezas desta formosa terra, o pitoresco das suas actividades marítimas que tanto nos encantam.” 85


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Baile de Carnaval de 1 968.


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Animação musical e bailes José Pinto Braz acabaria por dar resposta a algumas das necessidades de divertimentos para os turistas, contratando fadistas, grupos de música pop e ranchos folclóricos. Por exemplo, em 1 961 , o Espadarte iniciou a sua temporada de festas com dois bailes em que actuaram os conjuntos musicais setubalenses “Ritmos e Melodias” e “Blue Star Melody”. 86 E no ano seguinte, no 5º aniversário do hotel, houve baile com o conjunto setubalense "Flórida", fados com Fernando Farinha e ainda o grupo folclórico "Sete Saias”, de Salvaterra de Magos. A procura de divertimento nocturno por parte dos turistas levou à adaptação do restaurante Ribamar, que António Chagas tinha no largo da Fortaleza, passando a

O fadista Júlio Silva no Espadarte Club, em 1 971 , acompanhado por Nobirra (guitarra) e David Sousa (viola).


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Carnaval de 1 970 - grupo setubalense Top Grupo 7, com Franklim Jones Papa (trompete), João Marcelino “Caló” (saxofone), Rogério Pereira Branco (baixo), Vítor Raposeiro (guitarra),Telmo Wergikosky (bateria), Antonio Cipriano (teclado), Rui Canas (vocalista).

incluir programas com fados, ranchos folclóricos e, ainda, o “conjunto típico” os Galés, formado em Sesimbra. O mesmo se passou com o café Ribolé, na rua Joaquim Marques Pólvora. José Pinto Braz acabaria também por abrir a sua própria casa de divertimentos nocturnos: o Espadarte Club, no largo do Município, que funcionava em estreita ligação com o hotel, até que, em 1 974, foi trespassada a José Marques Cardoso (José “Speed”). 87 Como foi reconhecido por António Cagica rapaz, "Sesimbra, na sua projecção turística, também deve muito ao espírito empreendedor de José Brás. Com o Hotel


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Espadarte e o Espadarte Clube, imagens de marca e símbolos de qualidade pioneira na oferta hoteleira e numa animação nocturna que privilegiava a tradição, o fado e o folclore, com o Zé Manel, o Júlio Silva e os Galés." Na década de 1 960, Sesimbra teve ainda algumas discotecas: o Forno (1 964), a do Hotel do Mar (de 1 966, que foi construída sob a piscina) e o Saloon. De todos estes estabelecimentos, foi o restaurante Ribamar aquele que atingiu maior projecção turística. Tendo começado por ser um café, abriu uma secção de restaurante em 1 957, valência que acabaria por dominar o estabelecimento, o qual, em 1 964, obteve a classificação de utilidade turística. 88 Ali actuaram com regularidade, fadistas de renome, tais como Fernando Farinha, Maria Valejo, Beatriz

Carnaval de 1 968: grupo de mascarados na sala de entrada do Espadarte: Carolina, Conceição, Cristina, Margarida Chagas, Carolina, Luis, Líbia e Lucindo. Note-se a pintura da parede, com motivos náuticos.


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da Conceição ou António Rocha. De Maria Valejo, recorda Vitor Duarte Marceneiro que: Começa a cantar o fado em restaurantes e colectividades, e é em Sesimbra no restaurante Ribamar, do meu amigo Chagas, que a conheço, e passámos a ser amigos. 89

A música também podia acompanhar os passeios de barco, como prova uma rara fotografia a bordo da embarcação “Espadarte”, animado por um trio de acordeão, saxofone e reco-reco – reproduzida na página 62. O empresário sesimbrense seria ainda o grande responsável pela carreira do grupo musical pop de Sesimbra de maior longevidade: os Zambras. Depois de uma curta fase inicial, em 1 965, sob a direcção de João Taklin, e ainda com a designação de Zimbros, o quarteto recompôs-se com a entrada de Hélder Chagas, e iniciou uma segunda fase em 1 966, com a ajuda de José Pinto Braz, que lhes financiou a Fernando Tordo no Espadarte, num baile de Carnaval. compra de novos instrumentos e garantiu Fotografia de Valdemar Capítulo trabalho nos bailes do Espadarte, sendo também ele o responsável pela mudança de nome para Zambras. Nesta fase, para além de Hélder Chagas (guitarra ritmo), o grupo compunha-se de Eliseu Pólvora (guitarra solo), Valdemar Capítulo (guitarra baixo) e José “Pité” Costa (bateria).


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Outro “produto turístico” a que o Espadarte deu especial relevo foram os bailes de Carnaval, que já eram uma tradição em Sesimbra, levados a cabo pelas colectividades de cultura e recreio – Clube Sesimbrense, Sociedade Musical e Sociedade Recreio (Refugo) – e pelos Bombeiros Voluntários, no recinto do Mercado Municipal. Os bailes do Espadarte, no entanto, elevaram o nível destas iniciativas, sobretudo pela qualidade dos agrupamentos musicais contratados, de que foram exemplo os "Ritmos e Melodias", "Blue Star Melody" e “Top Grupo 7”. A presença de dos turistas estrangeiros dava também um colorido adicional a estes bailes.

Grupo musical Zambras, com Eliseu Pólvora (guitarra solo), Hélder Chagas (guitarra ritmo), José "Pité" Costa (bateria) e Valdemar Capítulo (guitarra baixo).


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Funcionรกrias do hotel com Geni Braz, filha dos proprietรกrios.


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O Factor Humano O recurso humano mais importante do Espadarte era, sem dúvida, o próprio José Pinto Braz: teve a ideia, concretizou-a, dirigiu a unidade hoteleira, vivia praticamente no hotel – quando não andava por fora, a negociar com os bancos ou a promover Sesimbra – acompanhando de perto o dia-a-dia da unidade, ajudando ou desempenhando qualquer tarefa. Vêmo-lo com frequência, por exemplo, nas fotografias junto ao pórtico dos espadartes, ajudando à pesagem ou ao transporte dos peixes. A sua mulher, Maria Eugénia Pólvora, dirigia as operações dos quartos: limpezas, renovações, etc. Margarida Chagas, referindo-se ao casal, recorda: Eles tinham uma casa por cima d’O Sesimbrense, mas ficavam lá [no hotel] e tudo, tinham lá um quarto ou dois. O sr. Braz era do género: tudo o que era melhor dos clientes, ele era incapaz de usar. Se as almofadas estivessem mais puídas ou assim, era para ele. Ele ia para Lisboa todos os dias, quase todos os dias, tratar de assuntos, bancos, por aqui e por ali… Então, dias que não fosse, vestia um casaco branco, assim um albernó, e então a gente dizia assim: “Olha, hoje está com o casaco do Rajá!” Fazíamos estas paródias. 90

A unidade hoteleira empregava muito pessoal. Poucos dias depois da inauguração, referia-se o investidor aos já elevados encargos que suportava: E continuarão subindo visto se haver já reconhecido que para os períodos de maior movimento o material e pessoal em serviço é insuficiente (…) Devo elucidar que possuímos já 32 empregados ao serviço. 91

Margarida Chagas, recorda também que: Eramos 30 efectivos, todo o ano, e no Verão quase que dobrava. No Verão


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Convívio do pessoal em 1 968. eram mais empregados de mesa, mais empregadas de andares, mais empregados de cozinha. 92

Sobre o relacionamento profissional com o empreendedor hoteleiro: O Braz, como patrão, era boa pessoa. Tínhamos respeito por ele, não é? Era autoritário, mas era bom patrão. Se eu precisasse de sair, que lhe dissesse a ele ou ao Manuel Zé Pereira, eu ia, não me descontavam no ordenado. Mas também era assim: eu estava em casa a um domingo, no Inverno, havia pouco pessoal, telefonavam­me: Margarida, não podes vir para dar um jeitinho à loiça?... Eu ia ajudar a limpar a loiça! Não me custava nada. Eu era empregada de escritório, mas cheguei a ir às compras às 5 da manhã, ao peixe, para Setúbal, com o sr. Álvaro, cheguei a ir para Lisboa, com o sr. Álvaro, dias inteiros, para o Braz & Braz, esfregar o escritório com


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sabão de amêndoa… Não me importava de fazer essas coisas, quando era preciso… 93

Convívio de Natal.


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Publicidade Era inegável a importância, tanto para o Espadarte como para Sesimbra, do esforço promocional feito por José Pinto Braz. Infelizmente, quase nenhum do material desta publicidade sobreviveu. Numa notícia de 1 962, e confrontando o esforço divulgador da nova unidade hoteleira, em contraponto com o desaparecimento da Comissão Municipal de Turismo, O Sesimbrense destacava que o Espadarte “passou a ser o verdadeiro órgão local de turismo”. 94 Também pela imprensa local, sabemos que o Hotel recorreu a: Diversas fórmulas de propaganda, desde interessantes anúncios na rádio, até à pu­ blicidade em inúmeras publicações nacio­ nais e estrangeiras, e também à edição de folhetos turísticos que têm levado o nome de Sesimbra a dar a volta ao mundo. 95

Em 1 963, o Espadarte comunicou à Camara que tinha mandado imprimir 30 mil exemplares de uma nova brochura, em oito 8 idiomas (português, francês, inglês, alemão, finlandês, sueco, norueguês e dinamarquês), que lhe custara 60 contos. Por um requerimento de 1 964, sabemos que a firma solicitou á Câmara a colocação, na via pública – no largo da Fortaleza – de um anúncio com os dizeres: “Hotel Espadarte, sur le mer – facing sea”. 96


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Como já referimos, foi muito importante o apoio dado por César Faustino, que dirigiu o Centro de Turismo de Portugal na Escandinávia, colaborando na divulgação de Sesimbra no norte da Europa. Assim, foi possível estabelecer contratos com as Agências de Viagens Vingresor de Estocolmo e Finlantic em Hensínquia, através das quais o hotel recebe, ao longo de alguns anos, numerosos turistas, em meses considerados de baixa estação”. 97 César Faustino, jornalista de profissão e correspondente do Diário de Lisboa na Finlândia, foi o grande promotor do fluxo de turistas escandinavos para Portugal. Logo em 1 961 , no 1 .º Colóquio Nacional de Turismo, apresentou uma comunicação em que realçava o “enorme potencial da zona nórdica como mercado emissor e enfatizando a importância de o nosso País se lançar urgentemente na concorrência pela sua captação, através de uma acção promocional atractiva e devidamente sustentada”. Passaria depois a colaborar com o SNI e, em 1 965, foi convidado “a fundar e a dirigir, a tempo inteiro, o novo Centro de Turismo de Portugal na Escandinávia, sedeado em Estocolmo”. 98 Este fluxo turístico não se restringiu a Sesimbra, nem ao Hotel Espadarte: também o Náutico e o Hotel do Mar passaram a beneficiar da dinâmica do Centro de Turismo de Portugal na Escandinávia. Um dos mais importantes certames de promoção turística em que José Pinto


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Braz participou foi a “Semana de Portugal”, que teve lugar em Helsínquia, em 1 962, organizada por uma empresa pública finlandesa, em cooperação com o SNI. O Espadarte promoveu a deslocação de um rancho folclórico, levando também diverso material decorativo para representar Sesimbra: redes, remos, boias, cabaças, estrelas do mar, conchas, búzios, bem como “uma dezena de bonecos com trajes de pescadores”, incluindo os tradicionais barretes. Com o apoio da empresa Gelmar , foi transportado de Sesimbra diverso marisco e peixe, nomeadamente 70 quilos de espadarte, reforçado mais tarde com outros 200 quilos. José Pinto Braz levou consigo o chefe de cozinha do hotel, Damásio Alves. Como materiais de propaganda para oferta, existiam centenas de emblemas, “uns com o hotel, outros com o espadarte e um muito curioso com as bandeiras de Portugal e da Finlândia, cinzeiros em forma de peixe e dezenas de dicionários iguais aos que mandei fazer

José Pinto Braz na Finlândia, com um espadarte, à chegada para a "Semana Portuguesa" em Hensínquia.


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para os finlandeses que nos visitaram” – referiu José Pinto Braz, que considerou aquela acção de promoção como um sucesso: Várias notícias, com fotografias, foram feitas pelos principais jornais, mostrando a chegada da representação portuguesa, o grupo de folclore, o corte e amanho do espadarte e os preparativos feitos por mim e pelo cozinheiro nas cozinhas do Casino, no dia da inauguração. Fui entrevistado pela televisão oficial no programa “Actualidades da Semana” e o cozinheiro concedeu igualmente entrevista a dois jornais que publicaram a história da sua vida profissional e a maneira de preparar um prato de peixe e outro de carne à moda portuguesa, mas que pudessem ser feitos com produtos da Finlândia.

A pesca desportiva do espadarte era um dos emblemas do Hotel e, numa das brochuras publicadas por José Pinto Braz, destacam-se os dois recordes atlânticos obtidos por Augusto Villas-Boas em 5 de Outubro de 1 958: o maior espadarte até então (259,5 kg), e dois espadartes num só dia.


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Na “Semana de Portugal”, promoveu-se o reencontro com finlandeses que tinham passado férias em Sesimbra, e José Pinto Braz teve ainda uma reunião com um outro desses turistas, o ministro do Interior, Eeli Erkkila. O emblema desta publicidade era, inevitavelmente, o espadarte, cujo desenho aparece reproduzido em brochuras, bases de copos, cinzeiros, etc. Numa das brochuras do Espadarte (foto ao lado) podemos ver o destaque dado aos dois recordes atlânticos obtidos por Augusto Villas-Boas em 5 de Outubro de 1 958: o maior espadarte até então (259,5 kg), e dois espadartes num só dia.


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Arsénio Cordeiro, ladeado por António Vicente (Guiné) e António.


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Pesca desportiva Um dos aspectos mais inovadores do Hotel Espadarte foi a utilização da pesca desportiva ao espadarte como produto turístico. Na altura em que surgiu a pensão, já este desporto se encontrava implantado em Sesimbra: nos anos de 1 954 a 1 956 tinham sido capturados 1 3 espadartes e 2 tubarões, todos eles por desportistas portugueses – tal como aconteceu com mais dois espadartes e um tubarão capturados em 1 957. A iniciativa de José Pinto Braz já visava, certamente, o aproveitamento turístico desta pesca, nomeadamente pela designação dada à nova unidade hoteleira. Foi em 1 958 que se deu a primeira captura feita por um estrangeiro: o inglês Charles Cooper, com um espadarte de 1 52 quilos, possivelmente a primeira captura organizada por José Pinto Braz . Este tipo de pesca, derivou da “big game fishing”, ou “pesca grossa”, que se praticava no Pacífico desde finais do século 1 9, como pesca recreativa. Feita a partir de barcos motorizados, com canas de pesca e linhas muito resistentes, dirigia-se para espécies de grande porte como os espadartes (marlin, swordfish, sailfish), atuns e tubarões. Os pescadores de Sesimbra também já pescavam esta espécie, que aqui tinha a designação de Peixe Agulha: mas pescavam-na com uma outra técnica: o arpão. Na mesma altura em que os pescadores desportivos iniciavam as capturas do espadarte em Sesimbra, os pescadores da família Ratinhos capturavam numerosos espadartes com arpão, para além de terem contribuído também para o desenvolvimento da pesca desportiva, conforme foi reconhecido por Arsénio Cordeiro. Esta “pesca grossa” realizada ao largo de Sesimbra, foi pioneira na costa atlântica da Europa, e teve início em 30 de Outubro de 1 954, quando Manuel Frade capturou, no mar “Canto d’Água” 99, um espadarte de 1 58 kg. Ele mesmo, numa entrevista, indica que já no ano anterior tinha feito algumas tentativas: Principalmente no verão de 1953. Nesse verão tive o prazer da companhia


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do Dr. Arsénio Cordeiro num fim­de­semana que nos proporcionou duas saídas com tempo excelente mas sem resultados, embora num só dia tivéssemos ensaiado seis peixes. 100

A captura pioneira de 1 954 já foi feita nos moldes originais que caracterizariam esta pesca em águas da costa sesimbrense, a partir duma pequena embarcação típica de Sesimbra, a aiola, onde o pescador desportivo adaptou uma cadeira, sendo a embarcação manobrada por um pescador profissional de Sesimbra: que, neste caso, foi António Vicente, de alcunha o “Guiné”. Em cada pescaria podia participar uma ou mais aiolas, apoiadas por um barco motorizado, encarregue de as rebocar até ao pesqueiro, mas que não participava directamente na fase de captura. Parte da emoção da pescaria derivava da “luta”, ou “batalha”, que o peixe capturado oferecia, e que chegava a demorar várias horas, alternando entre períodos em que o peixe afundava e arrastava o pequeno barco, sendo necessário soltar linha, e períodos em que o peixe se cansa, e o pescador Manuel Frade com o primeiro espadarte capturado em Sesimbra (1 954) desportivo vai recolhendo a linha. Noutros mares, a utilização de embarcações motorizadas, era uma grande ajuda no confronto com a espécie capturada. Porém, em Sesimbra, esta fase adquiria um pouco do “romantismo” do romance de Hemingway, “O Velho e o Mar”, com a pequena aiola a ser arrastada durante horas, manobrada


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apenas pelos remos do pescador profissional. No relato de Manuel Frade, pode lerse: Sigo rebocado e não sei por onde andei nem quantas vezes teria passado pelo mesmo sítio. Assim mesmo, pouco ganhei em linha, mas ganhei em cansaço no inimigo durante esse largo espaço de tempo. Contra tudo, ele empenha­se em descer mais e mais, e sinto que o não posso impedir. 101

Outro destes desportistas, Arsénio Cordeiro, que escreveu um livro sobre esta pesca, descreve-o assim: Quando o animal realmente puxa (e com que força ele puxa!) é que principia a parte mais importante da luta. O espadarte ideal, aquele que dá prazer combater e que se vence depressa, é o que, batalhando sempre à superfície ou perto dela, faz grandes corridas a direito rebocando a aiola. Basta travar completamente a linha e pôr­ lhe em cima o peso da

Pierre Clostermann e xxxx.

embarcação para depressa o esgotar. 102

Pierre Closterman publicou, em 1 989, o livro “Spartacus, l’Espadon”, onde


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relaciona, desta forma, a pesca em Sesimbra com o autor de “O Velho e o Mar”: Hemingway foi­me apresentado pela primeira por Charles Ritz, numa manhã de 1952, no bar do seu hotel. William Faulkner, que tinha gostado de ‘O Grande Circo’, tinha convencido o “Papa Ernesto”, como então lhe chamávamos, a lê­lo. Charles apresentou­me também como pescador desportivo e nós conversámos sobre a guerra, evidentemente, mas sobretudo sobre pesca. Eu tinha acabado de descobrir os espadartes de Sesimbra, em Portugal, e falei disso com um tal entusiamo, que Hemingway me aconselhou a documentar­me e depois escrever um livro sobre estes peixes. Daí em diante, quando nos encontrávamos, em cada pescaria no Pilar, perguntava­me como estava este projecto. Três meses antes da sua morte, mostrei­lhe, em Nova Iorque, as provas do meu livro "Des poissons si grands", mas não era disso que ele estava à espera, explicava­me ele, enquanto jantávamos no Oyster Bar da gare central de Manhattan. É devido à recordação dessa primeira e dessa última conversa, depois de ter capturado, marcado, libertado, amado os espadartes, que finalmente escrevi esta história dum grande peixe, como já há poucos, e dum pescador apaixonado, como ainda há alguns... 103

Manuel Frade, Arsénio Cordeiro (médico), Jorge Brun do Canto (cineasta), Fernando Teotónio Pereira, Augusto Vilas Boas, Manuel Salema Reis, estabeleceram o padrão desta pesca ainda antes de José Pinto Braz abrir a sua pensão Espadarte. Este último viu a oportunidade de a desenvolver como produto turístico, o que fez com grande sucesso. Aqueles desportistas encontravam-se associados no Clube dos Amadores de Pesca de Portugal, o qual, em 1 960, promoveu a construção duma embarcação destinada à pesca grossa – o “Pioneiro” – tendo estabelecido um acordo com a Câmara Municipal de Sesimbra para que ficasse fundeado em Sesimbra. 1 04 O “Pioneiro” foi construído no Funchal, e estava equipado com dois motores a


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óleos, de 1 00 cavalos cada um, possuindo acomodações para quatro pessoas, com cozinha e sanitários e uma cabina de comando. 1 05 Os registos das capturas revelam o envolvimento deste barco pelo menos até 1 974. Um filme sobre esta pesca, que pode ser visto no Museu Marítimo de Sesimbra, revela a associação do “Pioneiro” com as aiolas de pescadores de Sesimbra. Não ficaram registos de quais as aiolas que participaram nesta epopeia, mas a revista Diana de 1 964 revela-nos a fotografia de uma, equipada com a cadeira criada por Arsénio Cordeiro: “Vamos ao Mar”, com número de matrícula SB993L. O papel dos pescadores profissionais de Sesimbra foi crucial para a criação e desenvolvimento desta pescaria: identificando os períodos e mares em que os espadartes apareciam – normalmente perseguindo os cardumes de xaputa – e apoiando em todos os aspectos o trabalho dos pescadores desportivos. Isto mesmo foi reconhecido por Arsénio Cordeiro que, no seu livro, destacou o nome de alguns dos pioneiros: Captura do espadarte. António Vicente (“Guiné”), família Ratinho, José Capitão, Manuel Graça, António da Olímpia. Mas a maioria ficou esquecida: qualquer das capturas era sempre atribuída ao pescador desportivo. No entanto, a análise das foto-grafias tiradas frente ao Hotel Espadarte, com uma ardósia onde se detalhavam aspectos das capturas, permite identificar vários outros: Adrião Chumbau, Alberto


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Neto, Alfredo Corneta, António Bifa, António Eduardo, Armindo, Augusto Totó, Baltasar, Carreira, Chico, Cristiano Chumbau, Diamantino Carvalho dos Santos, Dionísio, Francisco, Guilherme, Hermano, Humberto Borges, J. Fernando (?), João Capítulo, Joaquim José, Joaquim Manuel, Joaquim Viriato, Jonas Baeta Marques, José Carvalho, José Conceição (“Zé da Calma”), José Francisco, Manuel Mendes, Marcelino Folques, Mário Ribeiro, José Alfredo. Em 1 970, reagindo a uma reportagem da revista Flama, da qual se depreendia que fora José Pinto Braz o criador desta pescaria, Arsénio Cordeiro desmentiu essa alusão, destacando o papel dos pioneiros, e também dos pescadores de Sesimbra: O método de pesca que nos tornou célebres lá fora, e deu a Sesimbra a nomeada de que goza, foi criado por um pequeno grupo de pioneiros portugueses,

José Pinto Braz e dois pescadores desportivos, em 1 976. O pórtico tornou-se um emblema do Hotel.

com a ajuda total, desinteressada e indispensável de todos os profissionais de

Sesimbra. / Sem o popular Guiné, a família Ratinho, o José Capitão, o Manuel Graça, o António da Olímpia, e tantos outros, não poderia o Hotel Espadarte ou outro qualquer hotel anunciar hoje entre as suas atracções de Outono a pesca do grande gladiador. 106


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Sobre os pescadores profissionais de Sesimbra, disse ainda: Nunca houve da parte dos profissionais, nem animosidade, nem incompreensão, nem mercantilismo, antes, muito pelo contrário, apoio dedicado e uma rara compreensão do que é o «sport», como muitos «sportsmen» não têm. 107

Em 1 958, o pescador Augusto Vilas Boas colocou Sesimbra no topo dos recordes ao pescar o maior espadarte da Europa e do Atlântico Ocidental, com 259,5 quilos. No mesmo dia, Vilas Boas conseguiu ainda capturar um outro exemplar, com 1 44,5 quilos, feito nunca antes alcançado e que lhe valeu novo recorde – o de ser o único Os pescadores de Sesimbra faziam parte da pescador que pescou dois equipa, mas nem sempre são identificados. Neste caso: Marcelino Folques. espadartes no mesmo dia. Em 1 959, Arsénio Cordeiro publicou o livro “Espadartes de Sesimbra”, onde podemos encontrar o historial desta pesca, mas que é sobretudo um manual para as capturas. Clostermann dedicou o seu livro Spartacus a Arsénio Cordeiro, referindo que ele:


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se elevou desde a mais humilde das condições até à alta estatura de cardiologista de reputação mundial. Homem bom, preenchendo a sua agenda de reuniões com os grandes deste mundo, ele passava generosamente os dias e noites junto dos pobres pescadores de Sesimbra que lhe chamavam «Tio professor». O seu coração despedaçado não resistiu à revolução dos cravos. Fará em breve 40 anos que ele me ensinou a pescar os espadartes e a amá­los. Era um Senhor e era meu Amigo”. 108

O Hotel Espadarte passou a ser o alojamento habitual de muitos destes pescadores desportivos, tanto mais que José Pinto Braz passou a preparar-lhes a logística das pescarias, contactando os pescadores para saber acerca de indícios da presença de espadartes e outros grandes peixes, agenciando os pescadores e as embarcações. Inicialmente as fotografias de “troféu” eram feitas frente à portaria do hotel, com os espadartes e tubarões pendurados da varanda superior. Depois, José Pinto Braz mandou colocar, encostado à muralha, um pórtico em madeira, onde passaram a ser pendurados os espécimenes capturados, para as fotografias da praxe, com o mar em fundo. Passou também a utilizar-se um ou dois quadros de ardósia, com indicações sobre as capturas: espécies, peso, pescador desportivo, embarcação de apoio, a que se acrescentava (mas nem sempre) o nome ou alcunha do pescador profissional que manobrava a aiola e o “mar” da pescaria. O nome das aiolas envolvidas nas capturas é que nunca foi referido nestes memoriais. Um registo dos exemplares capturados, mantido por José Pinto Braz, revela que o ano de 1 958, com 1 8 espadartes e um atum, foi o mais pródigo. Seguiram-se os anos de 1 959 e 1 964 (1 3 espadartes cada) e 1 963 (1 0 espadartes), sendo evidente que as capturas caíram drasticamente na década de 1 970. Uma das causas pode ter sido a redução, igualmente acentuada, no mesmo período, das xaputas e outros pequenos tunídeos, que constituíam alimento dos espadartes – embora também possam ter contribuído para esta quebra, as perturbações políticas causadas pela revolução de 1 974, a subsequente diminuição de turistas e a deterioração do funcionamento das unidades hoteleiras – que passaram a servir para alojamento


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parcial ou total (caso do Espadarte) de refugiados das ex-colónias. No início de 1 966 José Pinto Braz esteve em paris, onde recebeu um troféu devido à pesca do espadarte: Realmente, só quem assistiu à referida festa, pode avaliar dos efeitos benéficos futuros, pois ali se encontravam os franceses mais entusiastas da pesca grossa, como o Ministro da Juventude e Desportos de França, que ouviram os maiores elogios feitos a Sesimbra pelo Coronel Clostermann. Visivelmente surpreendidos com o belo filme da Televisão Portuguesa, várias vezes bateram palmas, principalmente no fim e nos momentos em que se via o prof. Arsénio Cordeiro, lutando com o seu peixe, ou quando o “Chico Lagueirão”, punha à prova a sua experiência e valentia, manobrando a aiola, várias vezes rebocada pelo espadarte. 109


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Adapatadas a partir de traineiras, as embarcações "Espadarte" e "Flor da Gibalta" foram utilizadas pelo Hotel Espadarte para a pesca desportiva e passeios marítimos. Á proa da "Flor da Gibalta" (foto de baixo) está José Pinto Braz.


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Chega a concorrência Ao mesmo tempo que o Espadarte ia construindo a sua reputação interna e externamente, e ampliando e qualificando as suas instalações, foi chegando a concorrência. A primeira foi a “pensão-residencial”, ou “restaurante-residencial” Náutico, nos terrenos recentemente urbanizados na encosta poente do ribeiro da Fonte Nova, onde a Câmara construíra o Bairro Municipal Infante D. Henrique, e onde se tinham criados lotes de baixa ocupação, para vivendas, de acordo com os planos de urbanização de Paulo Cunha e Carlos Negrão. Foi precisamente numa destas vivendas que Eduardo Varanda viria a instalar o “Náutico”, tendo logrado utilizar o declive do terreno para acrescentar alguns anexos que utilizou também para aluguer de quartos.


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Eduardo Varanda, no entanto, trespassaria em breve o Náutico a outro proprietário: Jaime Castanheira, que também iniciou um programa de bailes semanais, na esplanada que logrou instalar no terraço da vivenda – em 1 961 , por exemplo, estabeleceu um contrato para actuação privativa do grupo musical “Riviera”, durante o verão. 11 0 – no entanto, mais tarde interrompeu estas iniciativas, devido a queixas de alguns dos clientes. O Náutico também apostou na promoção com painéis publicitários e frases apelativas. Com um mobiliário modernista da esplanada, visível do exterior, logrando assim uma certa imagem modernista, que não era exactamente o que a sua classificação garantia. Até mesmo o jornal O Sesimbrense, ao entrevistar Jaime Castanheira, em 1 963, adiantava que aquela unidade hoteleira ocupava um “lugar sobremaneira honroso na infra-estrutura hoteleira local”, e que dera “um apreciável contributo para o desenvolvimento local do turismo”, mas Jaime Castanheira foi mais comedido nessa avaliação: A verdade é que essa honra não me pertence, porquanto cabe ao Hotel Espadarte o direito de ser classificado como o pioneiro das actividades hoteleiras em Sesimbra e, ainda, como o impulsionador do real desenvolvimento turístico desta terra. 111


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Hotel do Mar Uma concorrência mais séria seria a do Hotel do Mar, localizado no extremo poente da vila, no pequeno vale da ribeira de Telheiros, território da empresa de pesca da empresa Loureiro & Filhos, concessionária das armações de pesca Cova e Agulha. Inaugurado em 1 963, o Hotel do Mar dispunha, à partida, das condições de sonho para qualquer investidor. A localização era magnífica: frente ao mar, num plano mais elevado que o do Espadarte, tinha uma melhor vista panorâmica, ao mesmo tempo que se encontrava afastado do bulício da rua e da actividade piscatória: mesmo a proximidade das armações não era problema, pois que se tratava de uma actividade já muito reduzida, e que terminaria mesmo em 1 966. 11 2 Não sofria de limitações financeiras. Os grandes investidores eram os irmãos


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Gonçalves – José e Manuel, donos do Diário de notícias e da Companhia Nacional de Navegação, entre outras – e João Alcobia, empresário de sucesso no ramo dos móveis de qualidade. Para o projecto do Hotel, João Alcobia – que foi o grande organizador e administrador da nova unidade hoteleira – contratou o arqui-tecto Conceição Silva, que viria a conceber o hotel num desenvolvimento orgânico, espalhando-se pelo vale, uma solução considerada de gran-de qualidade arquitectónica, nomeadamente na sua inserção envolvente. A primeira fase deste hotel foi concluída em 1 963, com 62 quartos, sendo objecto de uma ampliação importante em 1 966, passando para 11 9 quartos, e dispondo ainda de uma bela zona ajardinada, equipada com piscina e discoteca. A decoração do hotel era luxuosa, integrando com obras de importantes artistas, tais como João Cutileiro ou Querubim Lapa, entre outros. Logo na noite de passagem de ano de 1 963 – designada, na altura, como noite de São Silvestre – o Hotel do Mar realizou uma festa com lançamento de fogo-deartifício na baía, com uma duração de 20 minutos. 11 3 A concorrência do Hotel do Mar era praticamente imbatível: talvez o seu único ponto fraco fosse a praia, pois a faixa de areia frente ao Hotel era estreita e, com alguma frequência, ficava completamente desassoreada, com rochas à vista. Por causa disso o Hotel adaptou uma embarcação, sobre a qual colocou um grande estrado, a “praia flutuante”, que fundeava frente ao Hotel.


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Foi talvez em reacção a esta predominância da nova unidade hoteleira que José Pinto Braz, num discurso de 1 964, por ocasião das comemorações do “Abril em Portugal”, lembrou que: O Espadarte foi a pedra, a base, o cunhal, sobre o qual se foi erguendo o Turismo Sesimbrense. E todos sabemos que, uma vez acabado o edifício, raros sabem onde fica a pedra inicial sobre a qual ele se ergueu. Humildes como a pedra, como ela somos firmes. 114


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Ampliação do hotel Logo em 1 970, José Pinto Braz apresentou um polémico projecto para ampliação do hotel, através da construção de uma torre, na zona ocupada pela nave-restaurante e confinando com a rua Heliodoro Salgado. O objectivo anunciado seria o de aumentar os quartos da unidade hoteleira, qualificando-a, de modo a que pudesse ser classificada como hotel de 1 ª - B. A memória descritiva destacava o objectivo de:

Composição fotográfica simulando o aspecto final do projecto de ampliação do Espadarte com uma torre de 1 3 pisos. Aprovada pela Câmara em 1 973, nunca chegou a ser edificada.


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Destacar a parte nova da antiga, o suficiente para aproveitar as actuais traseiras do Hotel Espadarte como exploração de quartos com vista sobre o mar, embora deficiente, e conseguindo­se um jogo de frentes recuando gradualmente, dar suficiente independência e desafogo aos novos grupos de quartos a criar [fazendo] a união dos dois grandes elementos (...) por meio dos pisos baixos e a integração do antigo no moderno consegue­se atenuar modificando a actual fachada na medida do possível.116

Projecto de 1 970 para ampliação do Espadarte com uma torre de 1 3 andares.

O novo edifício teria “um amplo foyer, salas de convívio, leitura, jogos, reuniões, etc., bar, sala de refeições e pequenos-almoços, piscina, clube de pescadores, garagem, acesso à praia sem atravessamento da estrada marginal, barbearia e cabeleireiro. Houve em vista a resolução de deficiências verificadas até agora e fazer progredir o esforço desenvolvido neste campo de indústria, hoje defrontando novas exigências”. O conjunto hoteleiro ficaria assim com um total de 205 quartos (27 quartos simples, 1 58 quartos de casal e 1 0 suites (cada uma com um

quarto simples e um quarto casal). O arquitecto-consultor, Raul Branco, não rejeitou a proposta, antes propôs que se aguardasse a conclusão do estudo urbanístico, em curso, para aquela zona. 11 7


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No início de 1 973, José Pinto Braz, tendo conhecimento de que esse estudo fora “recentemente aprovado”, solicitou a reapreciação do projecto da torre e, em Março, a Câmara deliberou “aceitar o ante-projecto no aspecto volumétrico, visto enquadrar-se no estudo da zona agora aprovado; no entanto na concepção do projecto definitivo deve a “torre” de treze pisos proposta, ser implantada no centro da área de construção sem exceder áreas por piso indicadas no ante-projecto”. 11 8 Extraordinária deliberação que, a ser concretizada, deixaria na marginal uma torre de 1 3 andares! Mas o assunto não teve outro desenvolvimento, até à Revolução de Abril de 1 974. Foi só em Outubro deste último ano que José Pinto Braz voltou a contactar a Câmara, manifestando a intenção de levar por diante a construção da torre, mas com algumas alterações, que tinham por objectivo: Assegurar uma aprovação para que numa segunda fase possa ser demolido o actual hotel e ser construído um novo edifício que, na fachada virada para o mar, viria a ficar à mesma altura da parte já projectada e aprovada com 13 pisos e consequentemente venha a constituir um só bloco de fachada igual com 231 quartos ou apartamentos. 119

Atente-se na expressão “quartos ou apartamentos”: nem todos os novos alojamentos teriam como destino a unidade hoteleira, mas sim a venda. A Câmara Municipal – na altura, dirigida por uma Comissão Administrativa – dificilmente aprovaria a “torre” na marginal. A filosofia municipal face ao urbanismo, neste período, traduziu-se na “paragem que impusemos na concessão de alvarás de loteamentos e de licenças de construção de grandes complexos urbanos” 1 20 e a estratégia quanto ao turismo, era marcada pela deriva "popular": [O concelho] pode muito justamente vir a tornar­se um polo fundamental na criação de ambientes para descanso e passagem de tempos livres do povo


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português e uma excelente fonte de receitas para o país. 121

A partir de 1 977 a Câmara passou a ser dirigida por uma vereação saída das eleições do final do ano anterior. E só em 1 978 é que José Pinto Braz volta a insistir com a Câmara para a construção da torre, mas, desta vez, reforçando a intenção com a informação de que: A nossa Empresa está praticamente à beira da falência, e se dentro de muito pouco tempo não houver uma solução que permita a obtenção imediata de algum capital, será um facto consumado. 122

A torre, agora, seria integralmente destinada apartamentos: Todos os apartamentos serão destinados a venda, embora se a situação financeira o permitir, possam alguns ficar agregados ao actual Hotel, mas sendo a sua maioria destinados a obter um lucro que permita eliminar parte dos nossos débitos que sempre têm acarretado encargos mais elevados, e também nos possibilite transformar o actual hotel. 123

Esta futura “transformação” do edifício hoteleiro existente, seria uma nova torre, “também com 1 3 pisos”. Esta última proposta ainda apresentava à Câmara a possibilidade de que alguns dos apartamentos fossem “de tipo social”. O arquitecto que na altura estava a estudar um plano urbanístico para a vila – Jorge Miguel Nunes da Fonseca – considerou a proposta como “inaceitável”, deixando apenas em aberto a hipótese de, na “segunda fase de estudo do Plano Geral da Vila de Sesimbra, em curso”, se poder dar “uma indicação mais precisa sobre os possíveis índices de ocupação para esta zona”. Depois do Espadarte ter sido vendido, ainda surgiu um projecto de ampliação,


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igualmente com uma torre de 1 3 pisos (1 980), e um projecto de demolição de reconstrução, com 7 pisos (1 986), tendo qualquer deles sido reprovado pela Câmara, como veremos mais à frente, na página 11 3.


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Tempos conturbados Com a Revolução de 1 974 chegaram novos problemas para o turismo: a situação política criada com a instalação do regime democrático e, sobretudo o “verão quente” de 1 975, fizeram diminuir o número de turistas. Mas surgiram também os conflitos laborais. Margarida Chagas já não se recorda qual o motivo da primeira greve – “Eu nem sei porque é que foi] creio que era o contrato de trabalho, que era para sair e não saía] Fizemos greve!” – mas lembra-se da reacção de José Pinto Braz: No primeiro dia que fizemos greve, ele veio para baixo. Eu, vinha do escritório e ia para a copa, mais a Cremilde. E ele assim: “– O que é que vocês estão aqui a fazer?” – “A gente está de greve!” – “De greve?!” Nisto vem o piquete da greve, ele esteve a falar com os rapazes e disse assim para a gente: “– Olha, vão todos para o refeitório, está tudo de greve”. Era deste género assim. 125

Em 1 975 ocorreu também um conflito com a Câmara, que intimou o hotel a demolir “a vedação onde funcionam as máquinas de jogos”. 1 26 Os trabalhadores do hotel, a pedido de José Pinto Braz, também enviaram à Câmara uma posição colectiva, onde chamam a atenção para o facto de o hotel estar “a funcionar com grandes prejuízos”, e também que “a gerência tem suportado abnegadamente esses mesmos prejuízos para não despedir os seus trabalhadores e poder manter o Hotel ao serviço de Sesimbra, com vantagem para parte da sua população”, concluindo que “a gerência não pode manter o Hotel aberto se não contar com algumas facilidades e compreensões, como o caso levantado com os jogos referidos, cuja receita ajuda a cobrir o deficit da exploração, deliberam por


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unanimidade apoiar o pedido da mesma para que essa demolição ou desmontagem não se concretize.” 1 27 A Comissão Administrativa da Câmara – nesta altura, presidida por Augusto Covas, pois Aurélio de Sousa deixara a Câmara para ocupar um cargo na “banca nacionalizada” – que não atendera às cartas anteriormente enviadas por José Pinto Braz, deliberou tomar em consideração a exposição dos trabalhadores e submetê-la “à consideração da próxima Assembleia Popular Concelhia” – nessa altura a política sesimbrense era influenciada por uma simpatia pelo “poder popular”, através da realização de “assembleias populares”, para as quais era convocada toda a população – mas desconhecemos se este assunto terá sido apreciado em qualquer destas assembleias. Em Setembro de 1 977, ocorreu novo conflito com a Câmara, desta vez por causa do hotel “estar ocupando a via pública com um pavilhão”. Em Agosto, depois de ter sido multado, José Pinto Braz escreveu à Câmara sugerindo “que lhe seja permitido deixar passar a presente época balnear para quem Novembro retire a construção provisória ali existente”. Mas a Câmara não cederia e ainda durante o mês de Setembro, os serviços municipais executaram a demolição. 1 28 Os problemas não se limitavam ao Espadarte: em Julho desse mesmo ano de 1 977, o Hotel do Mar despediu 65 trabalhadores. A Câmara tomaria uma posição solidarizando-se com os trabalhadores, escrevendo ao Presidente da República e ao Governo, “solicitando a sua intervenção de modo a se evitarem aqueles despedimentos”. 1 29 Em 1 975 o hotel Espadarte passou a alojar refugiados das ex-colónias 1 30. A Câmara viria a tomar uma posição sobre o assunto, na sua reunião de 25 de Julho de 1 977: A Câmara tomou conhecimento da resolução de o Hotel Espadarte se destinar a ser ocupado por desalojados, medida que certamente foi tomada


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em vista da sua rentabilidade, isto em face da falta de infraestruturas turísticas que permitam o funcionamento do Hotel dentro das suas funções específicas. Tratando­se de uma unidade hoteleira com bastante incidência no turismo local, aceita esta Câmara que a medida tomada fosse o recurso encontrado para solucionar a situação, certamente gravosa, em que a empresa se encontra, mas não pode deixar de recomendar o estabelecimento das necessárias condições turísticas, já antes referidas, de forma a que se assegurem condições de racional exploração às unidades inseridas no turismo. 131

De facto, a ocupação do Espadarte por refugiados, interrompendo o fluxo de acolhimento de turistas, era um rude golpe na oferta turística local e na vida do Espadarte. Esta decisão, bem como a instalação de uma zona de máquinas de jogos, é bem reveladora das dificuldades por que passava a outrora orgulhosa unidade turística. Um destes refugiados comentaria, em 1 975, a importância desta realidade para os hotéis: Já sabem também que, com a nossa desgraça, houve a salvação de falência para muita indústria hoteleira, pois este ramo da economia nacional tinha sofrido, no tempo de Verão, um abaixamento grande de turistas (cerca de 60%). 132

As condições de acolhimento dos refugiados eram muito precárias, conforme recorda Margarida Chagas: Aquilo havia beliches, puseram beliches, para as pessoas. Por exemplo: uma família, com os filhos, era tudo no mesmo quarto. Andavam para cima e


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para baixo, iam à praia, vinham, para cima e para baixo... Alguns depois ainda arranjaram alguns trabalhitos, andavam ao mar, havia uns que eram padeiros, mas eles não faziam nada... Estiveram [no Hotel] cerca de dois anos. Conforme iam saindo, os quartos era uma podridão, ai que horror! Aquilo cheirava tão mal! Quando foram embora, teve que haver obras. Porque aquilo havia “paraquedistas” a torto e a direito... Sabes o que é? Percevejos! A torto e a direito! Cada uns que saíam, os colchões... entrava­se nos quartos, não se podia... 133

A despesa com estes alojamentos estava a cargo dum organismo criado especialmente pelo Governo, o IARN, Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais: Ia­se para as bichas do IARN, para receber. Quem ia era sr. Álvaro, o “Mau Mau”.

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Após a saída dos refugiados, o hotel voltou a retomar o fluxo de turistas, mas já não conseguiu recuperar a glória de outros tempos. Embora tenham sido realizadas obras, o edifício encontrava-se envelhecido, tanto mais que a sua construção original fora de fraca qualidade. Os problemas financeiros agravavam-se e, sem viabilidade de construção de torre de apartamentos, a única solução que restou a José Pinto Braz foi a venda da unidade hoteleira, tendo passado a dedicar-se exclusivamente à empresa Turipesca, que operava na Madeira, reproduzindo a pesca do espadarte de Sesimbra, tendo mesmo levado para aquele arquipélago alguns pescadores sesimbrenses, como Jonas Baeta Marques.


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Novos proprietários Em 1 980, José Pinto Braz acabaria por vender o Espadarte a outros proprietários: uma sociedade constituída por Luís Gama, Júlio Graça e Porcina Pereira Lourenço 1 35. Formalmente, foi mantida a empresa José Pinto Braz Ldª, em cujo capital entrou a empresa Organizações Comerciais São José, Ldª. Luís Gama era o representante da empresa e assegurava a direcção do hotel. Porcina Lourenço trabalhava no escritório. O Espadarte manteve a sua actividade hoteleira, mas já sem o fulgor da sua fase inicial. Não foram realizadas obras de vulto, e o arquivo dos processos de obras municipais registam apenas um pedido de

Em 1 980, os novos proprietários apresentaram um pedido de ampliação do Espadarte, numa solução com 9 pisos acima do solo, o qual, contudo, não passou da fase de anteprojecto.


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Projecto de Apartamento-Hotel em 1 986: fachada para a rua D. Afonso Henriques.

Fachada para a avenida 25 de Abril.


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ampliação do hotel, em 1 988, que era na realidade o regresso do projecto da torre, agora com apenas 9 pisos (r/c e mais 8 andares), sendo os dois últimos recuados, numa configuração da autoria dos arquitectos Luiz Douens Prats, Eduardo M. Malhado e António S. Machado. 1 36 O projecto previa que na cave ficasse instalada uma “sala de espectáculos e conferências”. A Direcção-Geral de Espectáculos viria a recusar a aprovação do projecto, dado que o cinema a instalar na cave “se encontrava mais de 3,5 metros abaixo do nível do arruamento da entrada principal”. A Direcção-Geral do Turismo, pelo seu lado, condicionou a eventual apresentação de uma nova solução “a um não aumento das cérceas”. 1 37

Início dos trabalhos de demolição, em 1 999.


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Inviabilizado este edifício com 9 pisos, em 1 986 surgiu um novo projecto, desta vez para um “Hotel-Apartamento”, ocupando toda a zona do antigo Espadarte e do restaurante – que teriam de ser demolidos – tendo apenas 7 pisos de altura na frente virada para a marginal. O projecto, da autoria da arquitecta Maria Amélia F. Saraiva Fraga, incluía uma discoteca, um restaurante no 6º andar, uma placa para aterragem de helicópteros na cobertura, e um total de 1 33 apartamentos (266 camas). 1 38 No seu parecer, a Câmara considerou que o número máximo de pisos aparentes, aceite na fachada sul dos edifícios da marginal, era de quatro, “procurando-se deste modo garantir que não se crie uma barreira entre o mar e o núcleo histórico da vila, evitando grandes descontinuidades entre a altura dos novos e dos antigos edifícios” – o projecto apresentava sete pisos no alçado sul e quatro

Demolição do Hotel Espadarte (jornal O Sesimbrense, 27-4-1 999)


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no alçado norte. No entanto, como o velho edifício já tinha cinco pisos, a Câmara dispunha-se a "aceitar" este número. O parecer também discordava da “linguagem arquitectónica utilizada, que se caracteriza pela repetição de elementos verticais pontiagudos e grandes faixas verticais de vidro”. Com base neste parecer, a Câmara indeferiu o Ante-Projecto na sua reunião de 8 de Maio de 1 986. O Espadarte acabaria por ser vendido a uma empresa hoteleira, que iniciou a demolição do edifício em Abril de 1 999, e que, 1 5 meses depois, tinha concluiu a construção do Hotel Sana Park – designação da cadeia internacional de hotéis em que se encontra inserido – edifício com sete pisos acima do solo, um pouco mais alto que o Espadarte, bastante mais baixo do que os 1 3 andares aprovados em 1 973, mas exactamente o mesmo número que a Câmara não admitira em 1 986. A memória da histórica unidade hoteleira inaugurada em 1 957, ficou apenas perpetuada no café do novo hotel, a que foi dado o nome de Espadarte. A memória de José Pinto Braz, dos seus esforços e das suas realizações, continuam, contudo, no espírito dos sesimbrenses, que o recordam como o pioneiro do turismo em Sesimbra.


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Notas 1 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 3-8-1 933 2 – Arquivo Municipal de Sesimbra, pasta CMS/T/A/04/Cx1 . 3 – Jornal O Século de 1 8-7-1 949. Bento Pastor é o fotógrafo Artur Pastor. 4 – Arquivo Municipal de Sesimbra, pasta CMS/T/A/04/Cx2. 5 – Jornal “O Sesimbrense” de 27-4-1 952 6 – idem 7 – Arquivo Municipal de Sesimbra, pasta CMS/T/A/04/Cx2. 8 – idem 9 – Carta de 1 2-7-1 955, do Clube Naval à Câmara Municipal. Arquivo Municipal de Sesimbra, pasta CMS/T/A/04/Cx2 1 0 – Esta “praia nova” acabou por desaparecer, devido às obras de ampliação do porto, na década de 1 980, mas a presença da família de Justino da Silva mantém-se através do restaurante “Lobo do Mar”, localizado no mesmo sítio do pavilhão do banheiro. 11 – Arquivo Municipal de Sesimbra, pasta CMS/T/A/04/Cx1 , carta de 6-7-1 956. 1 2 – idem. Nereus Fernandes era o arquitecto-consultor da Câmara – veja-se Aldeia (201 7 – pp. 1 64-1 65) 1 3 – Jornal de Cezimbra n.º 4 de 3-1 2-1 899, p. 2 1 4 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 690 – 8-09-1 939 1 5 – Jornal “O Sesimbrense” de 6-8-1 944 1 6 – Jornal “O Sesimbrense” de 28-1 -1 945 1 7 – Jornal “O Sesimbrense” de 11 -8-1 946 1 8 – “O Sesimbrense” de 1 5-2-1 848, poema de Epifânio Macedo Saraiva, “Do alto do castelo] Um Sonho” 1 9 – Carta de 2-5-1 953, dirigida a Conceição & Cruz Ld.ª - Arquivo Municipal de Sesimbra, – CMS/T/A/01 /Cx02 20 – Urbanização de Ernâni Roque e António Veiga – CMS/L/B/11 /Cx.03. A ribeira de Palames também foi designada como ribeira do Juncal. Um estudo prévio para este hotel tinha sido realizado pelo arquitecto Jacobetty Rosa (1 901 -1 970), que fora o autor do Estádio Nacional do Jamor, e da primeira pousada nacional, em Elvas, bem como das Pousadas de São Brás de Alportel e de Santiago do Cacém, para além dos planos de urbanização de Portalegre, Vila Franca de Xira, Alhandra, Caldas de Monchique, Lagos e Torres Vedras. 21 – Arquivo Municipal de Sesimbra, , Processo de Obras n.º 5/1 959 22 – Arquivo Municipal de Sesimbra, , Processo de Obras n.º 81 /1 965 23 – Arquivo Municipal de Sesimbra, , Processo de Obras n.º 1 20/1 969 24 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 0-2-1 957. 25 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 268, de 1 0-2-1 957, p. 4. No jornal foi impresso “uma pensão de 3ª classe”, mas tratou-se de um lapso, pretendia-se, sim, escrever “uma pensão de 1 ª classe”. 26 – Jornal “O Sesimbrense” de 8-1 -1 957


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27 – Em 4 de Junho de 1 956 fora publicada a Lei n.º 2082, que reformulou a política turística. Ali se definia que “Incumbe o Estado, por intermédio dos órgãos centrais competentes e em colaboração com os órgãos locais, de promover a expansão do turismo nacional”. Esta lei abriu também a possibilidade da criação das “regiões de turismo”, que terá uma expressão concreta, em Fevereiro de 1 958, na instituição da Região de Turismo da Serra da Arrábida, com a concomitante extinção da Comissão Municipal de Turismo de Sesimbra. 28 – Carta de José Pinto Braz à Comissão Municipal de Turismo, 24-7-1 957 – CMS/T/C01 /Cx02 29 – O valor exacto é: 24,94 euros. O factor de conversão é: 1 € = 200,482 escudos. 30 – Carta de 1 6-2-1 957 [CMS/T/C/01 /Cx.01 ], reproduzida na acta da Câmara Municipal de Sesimbra de 25-2-1 957, pp. 1 6v-1 7v 31 – Acta da Câmara Municipal de Sesimbra de 25-2-1 957, pp. 1 6v-1 7v 32 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 2-5-1 957 33 – Jornal “O Sesimbrense” 30 de 30-6-1 957 34 – SNI = Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo. 35 – Carta do SNI de 6-6-1 957 - CMS/T/C/01 /Cx.01 36 – Carta do SNI de 9-7-1 957 - CMS/T/C/01 /Cx.01 37 – Jornal Diário de Notícias de 1 9-7-1 957, p. 6, reproduzida no anexo xxx 38 – Jornal Diário Popular de 1 8-7-1 957, p.1 6, reproduzida no anexo xxx 39 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 345, de 8-4-1 962. 40 – Requerimento de 1 8-5-1 956, CMS/C/A/03/Cx.40 41 – Jornal “O Sesimbrense” de 8-1 -1 957 42 – Acta da Câmara Municipal de Sesimbra de 25-2-1 957, pp. 1 6v-1 7v 43 – Acta da reunião de Câmara de 1 7-6-1 957 44 – Mil contos = um milhão de escudos. Corresponderia a € 4.987,98, a preços correntes daquele ano. 45 – Carta de José Pinto Braz Ldª ao Fundo Nacional de Turismo, 3-5-1 961 – Arquivo Municipal de Sesimbra, CMS/T/A/05/Cx.01 46 – idem 47 – Arquivo Municipal de Sesimbra - Processo de Obras n.º 53/60 48 – Carta de José Pinto Braz Ldª ao Fundo Nacional de Turismo, 3-5-1 961 – CMS/T/A/05/Cx.01 49 – Carta de José Pinto Braz Ldª à Câmara Municipal de Sesimbra, 27-1 0-1 964 50 – Carta do Náutico para a Câmara, 2-11 -1 966, CMS/T/A/01 /Cx-01 51 – Carta de José Pinto Braz Ldª à Câmara Municipal de Sesimbra, 1 8-1 0-1 961 – CMS/T/A/05/Cx.01 52 – Jornal O Sesimbrense de Março de 1 998 53 – Parecer de 1 -4-1 964 - Arquivo Municipal de Sesimbra, – CMS/ M/A/06/Cx01 54 – Processo de Obras n.º 49/64 – Arquivo Municipal de Sesimbra, CMS/ M/A/06/Cx01 55 – Ofício 704, de 9-4-1 964, Processo de Obras n.º 49/64 – CMS/ M/A/06/Cx01 56 – Oficio do SNI n.º 932 de 1 7-4-1 964, Processo de Obras n.º 49/64 – Arquivo Municipal de Sesimbra, CMS/ M/A/06/Cx01 57 – Ofício do SNI n.º 4905, de 1 3-1 0-1 964, Processo de Obras n.º 49/64 – Arquivo Municipal de Sesimbra, CMS/ M/A/06/Cx01 58 – Reunião de Câmara de 8-3-1 965. 59 – Reunião de Câmara de 1 2-5-1 965.


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60 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 5-09-1 957 61 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 6-11 -1 952 62 – O mais visível era da armação Burgau, mas também os edifícios das outras armações das empresas Caldeira & Filhos e Frade & Rumina. 63 – Ofício de 1 8-11 -1 957 do gerente da Pensão-Restaurante Espadarte informando ter comprado ao sr. João de Oliveira Graça, os terrenos e armazéns situados entre o Espadarte e a Sociedade Caldeira & Filhos. A reacção da Câmara encontra-se na acta da reunião de Câmara e num ofício para José Pinto Braz, da mesma data. Este responde por carta de tom apaziguador de 2 de Dezembro, e no mesmo dia a Câmara dá a sua anuência de princípio. – CMS/T/A/05/Cx01 64 – Ofício de 1 4-3-1 962, do Espadarte para a Câmara – CMS/T/A/05/Cx01 65 – O Almirante Nuno de Brion, da Armada Portuguesa, foi Chefe da Casa Militar do Presidente da República, Óscar Carmona, e também presidiu à Obra Social da Fragata D. Fernando. 66 – Ofício de 11 -3-1 959, do Espadarte para a Câmara – CMS/T/A/05/Cx01 67 – Ofício de 6-9-1 962, do Espadarte para a Câmara – CMS/T/A/05/Cx01 68 – Ofício de 6-9-1 962, do Espadarte para a Câmara – CMS/T/A/05/Cx.01 69 – Carta de 30-9-1 961 , de Fernando Teotónio Pereira para a Câmara Municipal – CMS/C/A/03/Cx.42 70 – Carta de 4-5-1 964, de António Ferreira Bernardo para a Câmara Municipal – CMS/C/A/03/Cx.42 71 – CMS/L/B/01 /Cx-05. O “sítio do poço” (actual largo do Poço) situava-se próximo do banheiro Abel Zegre Neto. 72 – CMS/L/B/01 /Cx-05. 73 – jornal O Sesimbrense de 4-1 0-1 964 74 – Ofício do SNI à Câmara Municipal de Sesimbra, de 27-1 -1 965 75 – Entrevista ao jornal “O Sesimbrense” nº 11 79, de 1 -11 -201 3, p. 1 3. Mário Polido Piló acabaria por casar com uma jovem francesa, resultado de um destes “engates” de verão: com a aproximação da mobilização para a Guerra Colonial, rumou a Paris, e depois a Grenoble, onde passou a viver com a namorada, com quem casou e teve um filho. 76 – Maria Alfreda Cruz, 1 966, pp. 92-93 77 – Jornal “O Sesimbrense” de 1 6-5-1 961 78 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 932, de Março de 1 998 79 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 345, de 8-4-1 962, artigo assinado por Observador. 80 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 351 , de 1 -7-1 962 81 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 353 - 29-7-1 962 82 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 354, 1 2-8-1 962 83 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 355, 26-8-1 962 84 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 356, de 9-9-1 962 85 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 357 – 23-9-1 962 86 – Jornal O Sesimbrense de 1 -7-1 961 87 – Jornal O Sesimbrense de 1 -7-201 6, artigo “Discotecas que fizeram história em Sesimbra”. No entanto, deve ter mantido a designação pois, em 1 7-1 -1 977, a Câmara considerava que “as actuais Boites nesta vila são bastante prejudiciais à boa vivência moral e cívica da população, tendo-se verificado já alguns casos de distúrbios públicos", e afirmava a necessidade de "moralizar as três Boites existentes: Bar-Boite Saloon, Espadarte-Clube e Hotel do Mar Boite Dancing". Para


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além destas ainda havia o Pub Clube 2002, mas a Câmara considerava que o projecto não tinha sido aprovado. 88 – Despacho do Presidente Concelho de Ministros, Diário do Governo de 26-31 964, II série. 89 – Blog “Lisboa no Guiness”: http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/9531 8.html 90 – Entrevista no dia 23-5-201 7. “Rajá” era uma marca de gelados; os vendedores ambulantes de gelados costumavam usar um casaco branco de tecido leve. 91 – Carta para a Comissão Municipal de Turismo, 24-7-1 957. 92 – Entrevista no dia 23-5-201 7. 93 – idem 94 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 345, de 8-4-1 962, artigo assinado por Observador. 95 – Jornal “O Sesimbrense” n.º 345, de 8-4-1 962, artigo assinado por Observador. 96 – Requerimento de 4-11 -1 964 97 – Jornal O Sesimbrense de Março de 1 998 98 – Blog ESHToris, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril: http://eshtoris.hypotheses.org/1 01 0 99 – O “Canto d’Água” é um dos muitos pesqueiros que os pescadores de Sesimbra identificam com uma “toponímia marítima” que lhes permite dominar a vastidão oceânica – veja-se (Aldeia, 201 7a) 1 00 – Revista Diana, 1 955 1 01 – idem 1 02 – Arsénio Cordeiro, Espadartes de Sesimbra, p. 80. 1 03 – “Spartacus, l’Espadon” (prólogo). O ano indicado por Clostermann, 1 952, não pode estar certo, uma vez que esta pesca, em Sesimbra, apenas teve início em 1 957, ou ano antes, se considerarmos o período de tentativas prévias à primeira captura. Ernest Hemingway faleceu em 2-7-1 961 , pelo que o referido encontro só se poderia ter dado entre estes dois anos. 1 04 – Reuniões de Câmara de 1 5-6-1 960, 1 3-7-1 960. 1 05 – Revista Diana, 1 964, p. 6 1 06 – Jornal O Sesimbrense de 6-1 2-1 970. A palavra “gladiador” reporta-se ao nome científico do Espadarte: Xiphias Gladius. 1 07 – Jornal O Sesimbrense de 6-1 2-1 970. 1 08 – “Spartacus, o Espadarte” 11 9 – Jornal O Sesimbrense de 3-4-1 966 11 0 – Jornal O Sesimbrense de 1 -7-1 961 . 111 – Jornal O Sesimbrense de 1 4-7-1 963 11 2 – A armação Agulha foi lançada ao mar, pela última vez, em 1 951 , e a armação Cova, em 1 966. 11 3 – Jornal O Sesimbrense de 26-1 -1 964 11 4 – Jornal O Sesimbrense, 5-4-1 964. 11 5 – Projecto 358/1 970-U, classificado como “projecto de urbanização. 11 6 – Processo de Obras 358/70 11 7 – Ofício da Câmara Municipal n.º 3222 de 22-1 2-1 970 11 8 – Reunião de Câmara de 26-3-1 973. 11 9 – Ofício de ofício de 1 6-1 0-1 974 1 20 – “29 Meses de Trabalho”, p. 20. 1 21 – “29 Meses de Trabalho”, p. 1 71 1 22 – ofício José Pinto Braz para a Câmara, 27-1 0-1 978 Projecto 358/1 970-U


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1 23 – idem 1 24 – Parecer de 1 2-1 -1 979 - Projecto 358/1 970-U 1 25 – Entrevista no dia 23-5-201 7. 1 26 – Reunião de Câmara de 21 -3-1 975. 1 27 – idem 1 28 – Numa entrevista com Óscar Silva, do Hotel do Mar, este referiu que o alojamento de refugiados naquela unidade decorreu desde Outubro de 1 975 até Maio de 1 977 (Jornal O Sesimbrense de 1 -7-201 2). 1 29 – Reunião de Câmara de 11 -7-1 977 1 30 – O maior afluxo de refugiados veio de Angola, a partir do Verão de 1 975, altura em que se agravaram os conflitos em Luanda. Devido talvez à conotação negativa da palavra “refugiados”, designaram-se então como “retornados”, nomeadamente porque alguns eram colonos, que tinham ido de Portugal continental, e que agora “retornavam” – mas a designação adequada à sua situação era, e é, a de “refugiados”, tanto mais que muitos eram naturais dessas mesmas colónias. 1 31 – Reunião de Câmara de 25-7-1 977 1 32 – Jornal O Sesimbrense de 21 -1 2-1 975, texto de Edgar Mendes, “Um esclarecimento, um agradecimento”. 1 33 – Entrevista no dia 23-5-201 7. 1 34 – idem 1 35 – Entrevista com Porcina Pereira Lourenço, Cotovia, 22-5-201 7. 1 36 – AMS, Processo de Obras 1 /1 980 1 37 – Ofícios respectivamente de 1 2-3-1 980 e de 2-5-1 980, arquivados no Processo de Obras 1 /1 980. 1 38 – Processo de Obras 61 /1 986


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Bibliografia Aldeia,

João Augusto e Martins, Luís (201 7a) "Patrimónios Marítimos e Costeiros Navegação e orientação entre os pescadores da Costa da Arrábida", in revista Akra Barbarion n.º 2, pp. 1 35-1 53. Aldeia, João Augusto (201 7b) “A Avenida Parque”, in revista Akra Barbarion, n.º 2, pp. 1 55-1 73 Bernardo, (1 941 ) “Monografia de Sesimbra” Clostermann, (1 969) “Des Poisson si Grands”, ed. Flamarion Clostermann, (1 989 XX) “Spartaculs, l’Espadon”, ed. Flamarion Cordeiro, Arsénio (1 959) “Espadartes de Sesimbra”, edições Diana (republicado pela Câmara Municipal de Sesimbra em 1 992) Cruz, Maria Alfreda (1 966) “Pesca e Pescadores em Sesimbra”, ed. Instituto de Alta Cultura Lichnowsky, Felix (1 845) “Portugal: recordações do ano de 1 842”, Imprensa Nacional, 1 845 - 220 páginas Link, Heinrich Friedrich (1 801 ) “Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha”, edição portuguesa de 2005 Pimentel, Alberto (1 881 ) “O que anda no ar”, Oficina Tipográfica, Lisboa Proença, Raúl, “Guia de Portugal”

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