Liderança no Feminino - Dia da Mulher

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©Pedro Ferreira e Paulo Martins

#34 EDIÇÃO ESPECIAL DIA INTERNACIONAL DA MULHER

“ESTAMOS A HUMANIZAR O PROCESSO”

Liderança no Feminino é uma publicação da responsabilidade editorial e comercial de Sandra Arouca | Periodicidade mensal | Venda por assinatura 8€

Ana Antunes, Head Trainer, MAP

“DEDICAR UM DIA NO ANO À DISCUSSÃO SOBRE OS DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES NÃO SÓ É IMPORTANTE, MAS FUNDAMENTAL” Mónica Ferro, Diretora do UNFPA Genebra

“HABITUEI-ME À MUDANÇA E ÀS SURPRESAS QUE A VIDA NOS TRAZ.” Teresa Roque, Board Member St. Julian’s School, Founding Member, Instituto Mais Liberdade

CONCILIAR A INDIVIDUALIDADE COM A TRADIÇÃO É SEGUIR A VOZ DO CORAÇÃO CUCA ROSETA, FADISTA


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ÍNDICE 4 | Editorial 6 | Mulheres que fazem parte da História de Portugal 8 | “Conciliar a individualidade com a tradição é seguir a voz do coração, seguir o instinto com respeito pela tradição” Cuca Roseta, Fadista 16 | “Estamos a humanizar o processo” Ana Antunes, Head Trainer MAP 20 | “Dedicar um dia no ano à discussão sobre os direitos humanos das mulheres não só é importante, mas fundamental” Mónica Ferro, Diretora do UNFPA Genebra 24 | A difícil tarefa de educar em tempos de pandemia Carla Rocha, Radio Host, Keynote Speaker, Author 30 | Entender o ser humano para alcançar o nosso potencial Sara Colin, Formadora e Mentora SCTM - Training & Mentoring 34 | “Habituei-me à mudança e às surpresas que a vida nos traz.” Teresa Roque, Board Member St. Julian’s School, Founding Member, Instituto Mais Liberdade

FICHA TÉCNICA Direção e Edição: Sandra Arouca Jornalistas: Ana Moutinho, Ana Duarte e Cristiana Rodrigues Copy Desk: Eurico Dias Web Developer: Ana Catarina Gomes Design e Paginação: WLX-design Marketing e Gestão de Redes Sociais: Catarina Fernandes Contactos: geral@liderancanofeminino.org redacao@liderancanofeminino.org

38 | Crescer lado a lado com a cachapuz Graça Coelho, Ceo da Cachapuz 42 | “As mulheres têm de parar de se sentir mal por saberem o que querem, por serem ambiciosas, por serem mais inteligentes ou terem um melhor salário” Rita Matias, Managing Partner da Serenity Portugal 46 | Uma carreira internacional sem medo de desafios Louise Kanefuku, criadora do Woolf Studio

Registada na ERC com o n.º 126978 Propriedade de Sandra Arouca Sede e Redação - R. Nova da Junqueira, 145 4405-768 V.N.Gaia Periodicidade mensal Liderança no Feminino® tem o compromisso de assegurar os princípios deontológicos e ética profissional dos jornalistas, assim como pela boa fé dos leitores. O conteúdo editorial da Revista Liderança no Feminino é totalmente escrito segundo o novo Acordo Ortográfico. Todos os artigos são da responsabilidade dos seus autores e não expressam necessariamente a opinião da editora. Reservados todos os direitos, proibida a reprodução total ou parcial de todos os artigos, sem prévia autorização da editora. Quaisquer erros ou omissões nos artigos, não são da responsabilidade da editora.

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LIDERANÇA NO FEMININO | Especial Dia Internacional da Mulher

| MARÇO 2020

EDITORIAL A nossa edição especial, no âmbito do Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de março, é dedicado este ano ao tema «Mulheres na liderança: alcançando um futuro igual num mundo de COVID-19», tal como convencionado pela Organização das Nações Unidas. Neste sentido, pretende-se reforçar a participação plena e efetiva das mulheres, assim como a sua inexcedível liderança nas organizações, as quais são um motor do progresso do quotidiano. No entanto, as mulheres ainda estão parcamente representadas na vida pública e na tomada de decisões, pois só existirem mulheres como Chefes de Estado e/ou de Governo em escassos 22 países – conforme revelado num recente relatório da ONU – e, no caso português, apenas representarem 24,9% dos assentos parlamentares. As mulheres assumem-se como protagonistas na ‘linha de frente’ na gestão da crise pandémica da COVID-19 enquanto profissionais de saúde, revelando-se igualmente excelentes cuidadoras, não excluindo tantas outras líderes nacionais com provas atestadas no combate à pandemia. Esta crise global evidenciou o caráter fundamental das suas contribuições, mas, contudo, muitas mulheres sofrem uma regressão da sua condição laboral, aumentando as desigualdades entre os géneros no mundo do trabalho. Deste modo, questionamos a pertinência de

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comemorar esta efeméride: ainda faz sentido apelar à luta pela condição feminina? Defendemos que, mais do que nunca, se trata de um dia em que devemos refletir acerca das reivindicações pelas liberdades, direitos e garantias de todos, mas sem esquecer a coragem e a determinação das mulheres que [re]definiram a História. Nesta edição da revista Liderança no Feminino, auscultamos ainda a opinião de algumas figuras públicas, de empresárias, de figuras políticas e outras empreendedoras nos mais diversos campos da vida social. São elas, entre outras mulheres que fazem a diferença: Cuca Roseta, Ana Antunes, Mónica Ferro, Carla Rocha, Sara Colin, Teresa Roque, Graça Coelho, Rita Matias e Louíse Kanefuku. Subscrevemos, então, as seguintes palavras: “Com ou sem COVID é uma bênção ser mulher, conseguirmos superar dia após dia, com as nossas capacidades multidisciplinares e jogo de cintura”, aqui na voz de Paula Nunes da Silva, Presidente da QUERCUS. Todas juntas podemos alcançar a igualdade de género e promover os direitos humanos para as mulheres. Às nossas leitoras e a todas as mulheres: Feliz Dia da Mulher. Estamos juntas na liderança! Sandra Arouca


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LIDERANÇA NO FEMININO | Especial Dia Internacional da Mulher

ESPECIAL DIA INTERNACIONAL DA MULHER

MULHERES QUE FAZEM PARTE DA HISTÓRIA DE PORTUGAL Estas mulheres são portuguesas e serão, para sempre, parte da história do nosso país. A Revista Liderança no Feminino, destaca, neste Dia Internacional da Mulher, mulheres que têm levado o nome de Portugal mais longe nas mais diversas áreas e em todos os quadrantes sociais e profissionais: artistas, músicas, poetisas,políticas, cientistas.

BRITES DE ALMEIDA | 1385 Foi uma figura lendária, mais conhecida por Padeira de Aljubarrota. Considerada uma heroína na Batalha de Aljubarrota, contra as forças castelhanas. Segundo a lenda, Brites ficou conhecida por ter morto sete castelhanos que estavam escondidos num forno de pão, apenas armada com a sua pá de padeira. CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO | 1878 – 1911 Foi a primeira do seu tempo muitas áreas, sendo a primeira médica a operar no Hospital São José em Lisboa, a primeira mulher a ser considerada “chefe de família”, e sobretudo, a primeira mulher a votar em 1911! Sufragista, feminista, e muito à frente da época em que viveu.

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FLORBELA ESPANCA | 1894 – 1930

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Com uma vida conturbada e cheia de desgostos, Florbela Espanca foi uma das maiores poetisas do nosso país. Na sua curta vida, escreveu alguns dos mais belos poemas e contos que nos ficaram na memória, marcantes pelo seu conteúdo lírico, feminino e de certa maneira sensual.


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MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA | 1908 – 1992 Mais conhecida pelo seu apelido, Vieira da Silva foi uma pintora, ilustradora e escultora portuguesa. Tendo influenciado a arte portuguesa com a sua própria corrente artística, manteve-se sempre fiel a si mesma, não seguindo outras correntes com as quais convivia. Casou com o também artista Arpad Szenes, com quem compartilhou vários projetos de arte. BEATRIZ COSTA | 1907 – 1996 Atriz e ícone da cultura popular, ficou famosa com o filme “A Canção de Lisboa”, onde atuou ao lado de Vasco Santana e António Silva. Protagonizou outros filmes de culto, como a “Aldeia da Roupa Branca”, o seu último filme. A partir de 1960 começou a viajar pelo mundo, e a conhecer personalidades como Salvador Dali, Greta Garbo e Edith Piaf. Depois das viagens dedicou-se a escrever sobre a sua vida fabulosa, enquanto viveu no Hotel Tivoli, em Lisboa. AMÁLIA RODRIGUES | 1920 – 1999 Tornou-se a "Rainha do Fado" foi considerada e é tomada como uma das embaixadoras do fado no mundo. O legado de Amália ainda é amplamente considerado e adorado por todos, tal foi o seu talento. Ainda, podemos ouvi-la pelas ruas de Lisboa (principalmente nos Santos Populares) e prestar homenagem no Panteão Nacional, onde está sepultada. MARIA DE LOURDES PINTASILGO | 1930 - 2004 Maria de Lourdes Ruivo da Silva de Matos Pintasilgo foi uma engenheira química, dirigente eclesial e política. Foi a única mulher que desempenhou o cargo de primeira-ministra em Portugal, tendo chefiado o V Governo Constitucional, em funções de julho de 1979 a janeiro de 1980. SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN | 1919 – 2004

o Prémio Camões. Para além da sua lírica, escreveu muitos contos belos e importantes para os mais novos, como “A Menina do Mar”, “O Cavaleiro da Dinamarca” e “A Fada Oriana”. Desde 2014 que está sepultada no Panteão Nacional, sendo que os seus poemas continuam por aí, e a ser lidos por todos. ROSA MOTA | 1958 É uma ex-atleta portuguesa, conhecida principalmente por ser campeã olímpica, europeu e mundial na maratona. Representou o país nos Jogos Olímpicos, e foi considerada a melhor maratonista de sempre. O povo português refere-se-lhe carinhosamente a Rosa como “a nossa Rosinha”, considerando-a entre as atletas mais importantes do século XX. EUNICE MUÑOZ | 1928 Oriunda de uma família de atores, Eunice Muñoz é uma das melhores atrizes portuguesas de sempre. Atuou em teatro, cinema e televisão, cuja carreira é vasta e (quase) infinita, repleta de talento. É uma personalidade muito querida no país, sendo unanimemente respeitada e elogiada. ELVIRA FORTUNATO | 1963 É uma brilhante cientista e especialista a nível mundial na engenharia eletrónica de papel. Desenvolveu o primeiro transístor à base de papel, assim como memórias, ecrãs, baterias, etc. Em 2010, recebeu o título de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. CUCA ROSETA | 1981 É uma das vozes de Portugal, recebeu o Prémio Mulheres Inspiradoras 2020 e é também embaixadora da Fundação Mirpuri. Cuca Roseta levou “Música com Esperança” aos profissionais de saúde. Numa iniciativa que pretendia levar música, e um pouco de alegria, aos profissionais de saúde, na linha da frente desde o primeiro momento desta pandemia.

Escritora e poetisa, foi a primeira mulher a receber

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CUCA ROSETA, A VOZ DO FADO DE ESPERANÇA

“CONCILIAR A INDIVIDUALIDADE COM A TRADIÇÃO É SEGUIR A VOZ DO CORAÇÃO, SEGUIR O INSTINTO COM RESPEITO PELA TRADIÇÃO” Com 39 anos, Cuca Roseta é uma das vozes que regeneraram o fado para as novas gerações, dando-lhe uma nova roupagem fazendo jus à sua identidade e verdade. Começou naquela que é a escola e o primeiro palco de muitos fadistas, o Clube de Fado, onde teve a oportunidade de conhecer Gustavo Santaolalla, músico e compositor argentino vencedor de dois Óscares o qual produziria o seu primeiro álbum. Desde então, Cuca nunca mais parou de cantar, mesmo em ano de pandemia. Em 2020, a fadista editou um álbum de homenagem a Amália Rodrigues e deu concertos num autocarro itinerante e em hospitais, como forma de agradecimento aos profissionais de saúde.

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Maria Isabel Rebelo Couto Cruz Roseta é um nome que, à partida, pode passar despercebido à maioria dos portugueses mas que se refere a uma das vozes mais proeminentes da música portuguesa, sobretudo no fado diz respeito. Aos 39 anos, Cuca Roseta faz parte de uma geração de artistas que deu novos novos rumos à mais tradicional canção portuguesa. Ainda assim, a viagem até ao reconhecimento, do público e dos seus pares não foi sempre linear e desprovida de dúvidas ou percalços. Nascida numa família em que a música era “uma constante” – o avô era um “excelente pianista” e a avó tinha uma escola de dança – e onde todos cantavam, Cuca nunca se destacou particularmente em termos de voz, o que a levou a encarar a música como um hobby. Paralelamente e porque “o saber não ocupa lugar” (como diz o seu pai), dedicou-se à formação académica, tendo passado pelos cursos de Direito, de Psicologia e de Marketing, sendo que cada um deles reflete, de alguma forma, aspetos da sua personalidade: “Adorei o curso de Direito, o de Psicologia é dom e paixão. A grande característica da minha personalidade é a paixão pelo comportamento humano, sempre fui muito observadora e sempre passei muitas horas a refletir sobre experiências, atitudes e sentimentos. O marketing, por sua vez, foi mera curiosidade.” Durante os estudos continuou a alimentar a paixão pelo fado, cantando-o e investindo na formação em música. Um dos momentos mais importantes do seu trajeto foi a entrada no Clube de Fado, “os primeiros degraus da escada. “Tudo se passa ali. Tudo cresce e tudo se aprende ali. É a minha casa, a minha universidade do fado, como costumo dizer, um lugar onde preciso sempre de voltar, a fonte”, descreve. Foi precisamente naquele espaço que Cuca conheceu Gustavo Santaolalla, músico e compositor argentino vencedor de dois Óscares, que manifestou a sua vontade de gravar o disco de estreia da fadista, a qual ficou perante uma “decisão que terá de ser para a vida. Teria de abdicar do meu primeiro estágio em psicologia para poder viajar pelo mundo.” Demorou uma semana a pensar na resposta, mas a decisão foi a paixão de sempre, a música. Desde então, nunca mais parou de cantar. Para além de dar voz aos temas, Cuca participa ativamente em todo o processo criativo, escrevendo letras e compondo melodias, as quais surgem naturalmente, garantindo que “nunca” lhe faltou inspiração: “Faço-o desde muito nova. Este meu lado de paixão pelo comportamento humano e de mais observadora deixava-me muitas horas a escrever sobre o

mundo, sobre a vida e sobre as vivências. Escrevi muitos livros em nova e muitos pensamentos.” No entanto, adaptar os seus pensamentos ao do fado revelou-se difícil, até porque “não era nada habitual as fadistas escreverem e comporem.” Chegou a ser criticada pela ousadia, mas não parou – por lhe ser tão natural não conseguia parar. Teve, no entanto, de se adaptar à pressão das datas marcadas para concluir os discos – algo particularmente difícil para quem não gosta de “escrever pressionada”. A postura de mulher resiliente e tenaz acabariam por se tornar a sua imagem de marca, em contraste com o romantismo, a fantasia e o sonho que carrega na voz. A forma como venceu a timidez – característica da sua personalidade que confessa gostar menos –, prova isso mesmo. Apesar de enfrentar recorren-

"A grande característica da minha personalidade é a paixão pelo comportamento humano, sempre fui muito observadora e sempre passei muitas horas a refletir sobre experiências, atitudes e sentimentos."

temente plateias com centenas e até milhares de espectadores, Cuca Roseta sofreu durante muitos anos com o medo do palco, sobretudo quando tinha de falar: “Cantar nunca me custou porque entro numa espécie de segunda dimensão”, reflete. Essencial para ultrapassar este obstáculo foi o taekwondo, modalidade que ajudou Cuca graças aos “valores que tem, como a coragem e a atitude de enfrentar os problemas”. Com o tempo, os palcos acabariam por se tornar a sua casa e, depois de muitos concertos, começou a sentir-se naturalmente mais segura: “Hoje acho tudo bonito, porque tudo tem um sentido maior. Somos exatamente como temos de ser, com os desafios que temos de ter.” Esta última frase aplica-se, igualmente, ao processo que Cuca atravessou até encontrar a sua identida-

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“Não era fácil, nunca foi, mas esse sempre foi o meu lema e contínua a ser: temos de ser genuínos. E eu era. Mas não é fácil continuar a acreditar em algo que estava sempre a ser visto, guiado e criticado. Queriam que eu cantasse o fado tradicional, mas eu não o sentia, embora o amasse."

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de e individualidade, numa área em que a tradição impera – uma questão que, num primeiro momento, preocupava a fadista: “Tinha muita pressão de pessoas a dizerem-me ‘Tens de fazer assim, tens de fazer assado’ e eu ficava confusa, até porque muitos dos conselhos eram contraditórios e existiam muitas regras para algo que eu achava que deveria ser instintivo”, recorda. O tempo viria a provar que estava certa, acabando por conquistar um lugar que era seu por direito, afinal de contas ninguém conseguia ter aquilo que a tornava singular: a voz. “Fui percebendo que quanto menos medo tivesse de ser eu própria mais verdadeira eu era e quanto mais verdadeira era mais me tornava única.” “Não era fácil, nunca foi, mas esse sempre foi o meu lema e contínua a ser: temos de ser genuínos. E eu era. Mas não é fácil continuar a acreditar em algo que estava sempre a ser visto, guiado e criticado. Queriam que eu cantasse o fado tradicional, mas eu não o sentia, embora o amasse. O que me ficava melhor na voz eram os temas de Amália Rodrigues, o fado mais canção, os grandes poetas, as melodias mais complexas.” Conciliar a individualidade com a tradição é, para a artista, “seguir a voz

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do coração, seguir o instinto com respeito pela tradição. Se há algo que é fulcral no fado é a verdade com que se canta. Se eu só me emociono com certo tipo de músicas, matutinamente fui criando a minha individualidade, sem ciência nenhuma.” Ao deixar de ter medo de assumir o seu eu, a sua unicidade, Cuca também se distinguiu das demais vozes da sua geração. Fá-lo através de “um fado mais dinâmico, profundo, intenso, nostálgico, sentido, mas doce e que vê sempre a luz ao fundo no túnel, isto é, um fado de esperança”. Apesar de a dor e sofrimento que caracteriza a canção portuguesa, e de a artista reconhecer que estes sentimentos fazem parte da vida, Cuca não gosta de se debruçar sobre eles. Como tal, considera que o seu fado pode também ser descrito como “um fado mais positivo, talvez”. Sobre a já referida nova geração de fadistas (na qual naturalmente se inclui), Cuca considera que “o fado vai de vento em popa”, sendo “mais ouvido e aceite pelas gerações que o vão continuar a levar vivo durante muitos anos”. Em 2020, Cuca Roseta cumpriu com aquela que

“A música deixa de ser algo comum para passar a ser cura, amor, carinho, abraço, sonho, inspiração e fé! É a minha base, o meu centro, o que dá sentido a tudo o que faço, o que me levanta, o que me dá força para continuar e o que me mantém centrada perante tanta gente e tanto stress”.

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é já uma tradição no mundo do fado: a edição de um álbum de homenagem a Amália Rodrigues, a sua grande inspiração: “Faltava este disco na minha carreira e, acima de tudo, faltava esta homenagem e este agradecimento.” A produção do álbum “foi como voltar à raiz, onde tudo começou” e as músicas nele incluídas “são de sempre e para sempre”. Ao contrário do que seria de esperar, a crise sanitária provocada pela pandemia não prejudicou o processo de divulgação do sexto trabalho da artista. Na realidade, a conjuntura “acelerou o processo de criação” pelo imenso tempo que passou sentada ao piano a compor e a escrever. Mesmo com a ausência do calor humano do público, Cuca revela que era percetível “uma maior sede do fado ir até as casas daqueles que precisam tanto da música para sonhar, para ter fé para continuar a ter força e inspiração em momentos tão difíceis”. Para dar resposta a este desejo, a fadista por em prática dois projetos que acabariam por se tornar “as duas experiências mais incríveis” da sua vida. Primeiramente, deu um concerto num autocarro itinerante, levando música a todos os que se encontravam confinados nas suas casas e, posteriormente, numa série de atuações para os profissionais de saúde em hospitais de todo o país, em jeito de agradecimento: “Só uma pandemia me faria viver estas emoções todas e entender o quanto a música é essencial para a alegria e o bem-estar do outro. A música nestes dois casos foi recebida com muito mais vontade e muito mais amor. Os hospitais, as palavras e os rostos daqueles profissionais desgastados física e emocionalmente a lutar contra a morte e a dor, é algo que jamais esquecerei.” As experiências, garante Cuca, deram ainda mais “sentido a tudo o que fazemos. A música deixa de ser algo comum para passar a ser cura, amor, carinho, abraço, sonho, inspiração e fé!” Esta última palavra é especialmente importante para Cuca, cuja forte espiritualidade e componente religiosa é conhecida publicamente: “É a minha base, o meu centro, o que dá sentido a tudo o que faço, o que me levanta, o que me dá força para continuar e o que me mantém centrada perante tanta gente e tanto stress”. Paralelamente, também se esforça por manter o seu bem-estar físico e saúde, o que acaba por influenciar “a nossa mente, a nossa cabeça, as nossas palavras e o que somos aos olhos dos outros”. Passados todos estes anos, seria de esperar que pouco sobrasse da Cuca Roseta que se estreou no Clube de Fado ainda menina, mas a “nostalgia” desses tempos permanece, assim como a vontade de cantar e de aprender, já que, segundo a própria, “quando achámos que sabemos tudo, morremos." Como tal, o seu sonho para o futuro é aquele que já cumpre “há alguns anos”: continuar a cantar. “É a minha paixão, ver chegar aos outros a emoção, ver que através da minha voz levo brilho ao olhar de quem a sente. Não há maior presente que este.” ©Pedro Ferreira e Paulo Martins

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ANA ANTUNES, COACH DO MÉTODO M(ÉTODO) A(CÇÃO) E P(ODER):

“ESTAMOS A HUMANIZAR O PROCESSO” Iniciou o seu percurso no mundo empresarial, tendo ocupado um cargo de liderança, mas foi no mundo do coach que descobriu a sua missão: ajudar as pessoas através de um método mais sistémico valorizando as suas emoções mas sem nunca desconsiderar o passado.

As primeiras memórias de Ana Antunes no âmbi­to da gestão de empresas remontam à sua infância, quando brincava com os dossiers de trabalho do pai e “estragava alguns trabalhos com os vistos de lançamento a vermelho da contabilidade”. Anos mais tarde, os famosos “testes de aptidão profissional” pareciam confirmar tal suspeita: “apontaram para a área a da contabilidade e da gestão”. Ana seguiu-as, ainda que hoje desconfie que o fez, sobretudo, por inspiração do trabalho realizado pelo pai. As primeiras experiências deram-se, por isso, em funções administrativas e de liderança. Foram os anos passados enquanto diretora geral de uma empresa que conferiu a Ana os conhecimentos essenciais para traçar uma visão estratégica para aquele que seria o seu próximo projeto, o seu próprio negócio. “Foi uma decisão ponderada, pois fez com que eu deixasse a minha situação financeira estável, ainda assim, sei que foi a melhor decisão que poderia ter tomado. Quando iniciei o projeto, fui fazendo apenas contabilidade e seguros, o que me levou a trabalhar com empresas e, com isso, percebi que havia necessidade de dar um suporte diferente.” Como resultado dessa observação, Ana começou a fazer consultoria e formação, embora rapidamente se tenha apercebido de algumas falhas no processo, que estava muito dependente do consultor. No caso das formações, estas nem sempre tinha o efeito pretendido, ou seja, perdurar no tempo. Foi, portanto, no seu desenvolvimento e necessidade de aprofundar a real necessidade dos seus clientes que Ana foi procurar outras soluções. Acabou por dar de caras com o coaching, tendo sido “convidada para fazer parte de um projeto de coachs apenas empresariais”. Anuiu de forma reticente devido a uma experiência menos positiva na qual participou e que envolvia a programação neurolin­ guística (PNL): “Verifiquei que a utilização tinha sido menos correta, pelo que eu estava de pé atrás para embarcar nesse processo de coaching, pois ele usava a PNL. Na realidade, eu tinha criado um trauma e uma crença que a PNL era má”, relembra. Ana não consegue precisar quando ou como, mas entendeu que o coaching facilmente se podia assemelhar a outros aspectos da sua vida, como crenças ou valores profissionais existentes: “Tudo tem a utilização que nós lhe quisermos dar, negativa ou positiva. Eu é que decidia a forma como utilizo as ferra-

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mentas que tinha em meu poder.” Como tal, acedeu a entrar na viagem, a qual lhe permitiu descobrir a sua missão, ou, pelo menos, parte dela. No início do seu trajeto no coaching, Ana apercebeu-se de algumas lacunas nos processos: “algo que não batia certo. Faltava uma abordagem mais sistémica de coaching, que me dava uma maior flexibilidade, e possibilidade de trabalhar em simultâneo empresas e pessoas.” Foi através dos treinos com Alex Paxeco que Ana Antunes começou a “entender a verdadeira diferença no coaching”, já que passaram a praticar uma “visão sistémica” e Ana compreendeu o que coaching “teria de ser mais do que um trabalho do hoje para o futuro. Era preciso mais.” O “mais” que estava em falta surgiu, para Ana, atra­vés de um treino com Alex Paxeco, que hoje se chama Método Ação e Poder, ou MAP, o “divisor de águas” da sua vida: “Eu já tinha percebido que a minha missão estava incompleta, pois trabalhava as empresas, e as empresas são fei­tas de pessoas. Faltava-me como ajudar as pessoas”, reflete Ana. O método encontrado, defende Ana, “é um treino em que a pessoa vai ativar os melhores recursos que já possui e que, por algum motivo, andam esquecidas no inconsciente.” Sobre as particularidades do MAP, a coach garante que o grande efeito diferenciador é o “treino ativacional” em detrimento de um “treino motivacional ou técnico”, podendo funcionar como um “botão on e off da motivação” – isto ao mesmo tempo que o indivíduo é confrontado com emoções, tais como medo, raiva, alegria, tristeza ou amor.

O método encontrado, defende Ana, “é um treino em que a pessoa vai ativar os melhores recursos que já possui e que, por algum motivo, andam esquecidas no inconsciente.”


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Ferramentas como “a inteligência emocional, a físi­ ca quântica, programação neurolinguística, a repro­ gramação, o coaching, a psicologia positiva, entre outras,” são utilizadas no método aplicado por Ana, o que permite aos clientes levarem para a sua vida ferramentas instaladas no seu inconsciente que acabam por ser utilizadas de forma espontânea. Trata-se de “humanizar o processo” do coaching, através do foco no passado do cliente – o que anteriormente era visto como um entrave que dificultava o processo –, em oposição ao que acontecia com a abordagem mais “clássica” e até considerada “obsoleta”. Apesar da atual crise sanitária, Ana Antunes prefere encarar a conjuntura como um conjunto de oportunidades, como é o caso do novo projeto que se prepara para iniciar no Porto: “Permitiu-me acalmar o ritmo, criar estratégia, estudar mais e começar a preparar outros trabalhos. Então eu diria que a pandemia, apesar do impacto financeiro menos positivo, trouxe outras vantagens muito grandes, que me permitirão arrancar com mais força ainda no MAP do Porto.” Na mesma linha, os últimos tempos foram aproveitados por Ana para “reinventar novos processos e formas de atendimento”, tais como o atendimento online – que tem permitido chegar a pessoas que, de outra forma, não conseguiriam. As redes sociais são, aliás, plataformas que a coa­ ch explora ao máximo, dando resposta a objetivos que vão desde dar visibilidade ao projeto, expandi-lo internacionalmente, partilhar o conhecimento adquirido, dar a conhecer a sua história, o seu percurso, de forma a inspirar e, finalmente, proporcionar uma visão diferente da realidade a quem a segue. Questionada sobre o impacto que a pandemia teve nas empresas e nas suas dinâmicas internas, Ana Antunes acredita que os empresários, cada vez mais, precisam de se focar nas pessoas, já que são elas que fazem as empresas: “Quando dou início a um projeto de coaching com uma empresa, sempre recomendo que as pessoas sejam inseridas no treino MAP, pois isso vai fazer diferença total na produtividade da empresa, no equilíbrio das pessoas, na gestão de conflitos, no absentismo, no trabalho em equipa, e poderia enumerar uma série de outros benefícios.” No que respeita ao seu próprio futuro, Ana Antunes não o imagina sem o treino emocional que fez com Alex Paxeco, um projeto que casou em pleno com a sua missão, levando-a a estabelecer a meta de se tornar treinadora do Método Ação e Poder numa frente local. O sonho, que surgiu em 2014, está prestes a cumprir-se. “Nunca desisti e tenho uma máxima que usamos no MAP: persistirei até alcançar o êxito. E assim é!”

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MÓNICA FERRO, DIRETORA DO UNFPA EM GENEBRA

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“DEDICAR UM DIA NO ANO À DISCUSSÃO SOBRE OS DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES NÃO SÓ É IMPORTANTE, MAS FUNDAMENTAL” Há quatro anos a trabalhar no Fundo das Nações Unidas para a População, Mónica Ferro possui um conhecimento vasto sobre as condições em que vivem milhões de mulheres e os obstáculos que diariamente estas têm de enfrentar. Num momento em que o mundo luta para pôr fim à pandemia, a dirigente não duvida de que a crise sanitária trará para a “luz do dia uma série de desigualdades de género que muitos acreditavam ultrapassadas ou, pelo menos, atenuadas”.

Tem sido uma discussão recorrente ao longo dos últimos anos, especialmente ao longo da última década: face à presença mais significativa de mulheres em cargos de topo, à diminuição das desigualdades salariais ou à quantidade crescente de legislação em vigor que visa proteger os seus direitos reprodutivos, fará sentido continuar a celebrar o Dia Internacional da Mulher, implementado pela Organização das Nações Unidas em 1975? A resposta pode divergir consoante os intervenientes, mas, sobretudo, consoante o seu nível de conhecimento sobre a realidade não só nos países desenvolvidos, mas em todo o mundo. Enquanto chefe do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), sedeada nas instalações de Genebra, Mónica Ferro é, provavelmente, das pessoas mais capacitadas para responder e fá-lo de forma clara: “Faz cada vez mais sentido.” A agência em que trabalha é responsável pelas questões relacionadas com a saúde sexual e reprodutiva, pelo que o seu trabalho destina-se a garantir que “todas as gravidezes sejam desejadas, todos os partos sejam seguros e o potencial de cada jovem seja realizado”. A ação é possível através da identificação dos “grupos populacionais que mais têm sido deixados para trás”, ou seja, mulheres, raparigas e jovens que diariamente enfrentam formas de violência com base no género, incluindo a luta contra a mutilação genital feminina e o dos casamentos infantis – o UNFPA co-lidera, com a UNICEF, os programas contra estes flagelos. Como tal, três objetivos “transformadores” foram estabelecidos: “zero necessidades de planeamento familiar por realizar, zero mortes maternas preveníeis e zero casos de violência com base no género.” Trata-se de uma “agenda ampla de direitos humanos e de saúde global” que se alinha com os resultados da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo, em 1995. Mónica Ferro considera-a “uma agenda inacabada, perpétua, se quiserem, porque implica um reconhecimento progressivo de direitos e de remoção de obstáculos a uma vida com mais liberdade.”

Alguns dos números apresentados dizem-nos que esta é uma realidade ainda muito longínqua: “Todos os dias morrem 800 mulheres por causas evitáveis ligadas à gravidez, parto e pós-parto – 99% delas em países em desenvolvimento; todos os dias se casam cerca de 30.000 crianças com menos de 18 anos – 12 milhões por ano; há no mundo, atualmente, cerca de 200 milhões de mulheres e raparigas que vivem com as consequências de uma qualquer forma de mutilação genital; e existem mais de 240 milhões de mulheres que querem planear a sua fertilidade e não têm acesso a métodos modernos de planeamento familiar.” Foi com o objetivo de ajudar na resposta complexas a estes desafios que Mónica Ferro se decidiu candidatar ao lugar no UNFPA: “Sempre me revi nestas causas; trabalhei em muitas delas enquanto docente universitária e enquanto parlamentar [Mónica foi deputada à Assembleia da República pelo PSD entre 2011 e 2015], onde coordenou o grupo parlamentar sobre População e Desenvolvimento e foi membro do comité executivo e vice-presidente do fórum europeu de parlamentares para a População

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e Desenvolvimento, pelo que acompanhou de perto os frutos do trabalho realizado pelo UNFPA. O cargo de deputada é descrito por Mónica como “a responsabilidade mais desafiante” da sua vida até agora, não só pela “confiança que os eleitores depositaram” em si, mas também pelo trabalho que desenvolveu “em matéria de cooperação para o desenvolvimento, igualdade de género e direitos humanos.” Anteriormente, a dirigente já tinha trabalhado “em e com organizações da sociedade civil”: é sócia-fundadora da P&D Factor e ajudou a criar a Objetivo 2015; participou, como comentadora, em programas de política internacional, como o "Olhar o Mundo", da RTP. Após a experiência como deputada, Mónica Ferro foi, ainda, secretária de Estado adjunta para a Defesa Nacional, cargo que lhe permitiu trabalhar com “muita gente que acreditava na política como serviço público e que queria mudar o mundo.” “Um privilégio e uma responsabilidade em que tudo fiz para estar à altura”, relembra. Apesar do percurso profissional “feliz e cheio de momentos de grande satisfação”, Mónica não

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"As mulheres trazem para a política, por exemplo, uma perspetiva mais multidisciplinar e mais transformadora. Trazem para a discussão temas mais próximos da vida quotidiana das pessoas. E desafiam algumas das práticas políticas que se formaram ao longo de séculos de exercício exclusivamente masculino dos cargos.”


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esconde que encontrou “vários desafios pelo caminho”, por por ser mulher, por ser muito vocal e muito apaixonada pelas causas de direitos humanos e por tentar conciliar a vida profissional com a vida familiar e pessoal” – algo que só foi possível “com muita ajuda e com um marido que viveu essas experiências num registo de total igualdade. Ainda há muita pressão desigual sobre as mulheres em Portugal e no mundo e em todos os quadrantes profissionais. Há pressão para que tenham uma carreira rica e diversificada, para que sejam mães e para que assumam esses papéis de forma acrítica”, reflete. “Senti várias vezes que ser mulher fazia de facto a diferença. Há uma forma diferente de exercer determinados cargos que resulta de um processo de socialização a que somos sujeitas, o género é isso mesmo. Uma série de papéis aprendidos e consciencializados como expectativas, mas que podemos questionar e desafiar. As mulheres trazem para a política, por exemplo, uma perspetiva mais multidisciplinar e mais transformadora. Trazem para a discussão temas mais próximos da vida quotidiana das pessoas. E desafiam algumas das práticas políticas que se formaram ao longo de séculos de exercício exclusivamente masculino dos cargos.” Com a atual crise pandémica, Mónica considera que “uma série de desigualdades que muitos acreditavam ultrapassadas ou pelo menos atenuadas” serão trazidas para a “luz do dia”. É o caso da dupla jornada de trabalho, das desigualdades (o facto de 70% da força de trabalho nos sector da saúde ou dos serviços sociais serem mulheres) ou do aumento da violência com base no género (mutilação genital feminina e casamentos infantis) – um fenómeno que já foi batizado como a “pandemia na sombra”. “Se a isto acrescentar uma série de discriminações estruturais que se sobrepõem, a baixa representação política das mulheres nos parlamentos e nos governos, os "tetos de vidro" e a desproporcional presença das mulheres na força de trabalho, e a ausência das mesmas nos órgãos de gestão e de decisão política, a desigualdade salarial e tantas outras iniquidades percebe-se, rapidamente, que dedicar um dia no ano à discussão sobre os direitos humanos das mulheres não só é importante mas é fundamental”, reitera. A grande mensagem que Mónica Ferro deixa às mulheres é “que acreditem em si mesmas e nos seus direitos, que os reivindiquem. Que ousem ter um sonho e uma missão e que trabalhem para que isso aconteça.” No seu caso, o que a motiva é pensar nas disparidades existentes que resultam de “séculos de assimetrias no acesso ao poder e da luta pela sua manutenção”. Por fim a esta realidade “é um caminho longo a fazer e até lá é preciso trabalhar para corrigir essas desigualdades e garantir mais dignidade para todos. Daqui a dez anos continuarei a lutar pelas minhas causas, neste ou noutro contexto. Há tantos sítios em que podemos fazer a diferença.”

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A MAGIA DAS HISTÓRIAS CARLA ROCHA

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Este exercício que me preparo para fazer é o tipo de exercício que todos deveríamos fazer, a certa altura da vida: refletir sobre o caminho que fizemos e tomar consciência do que nos trouxe até aqui e das pessoas que nos ajudaram a percorrê-lo.

A nossa história é um somatório de eventos, acontecimentos, pequenos desastres, que vão moldando a nossa existência e desbravando novas oportunidades. Acredito que todos temos dentro de nós tudo o que precisamos para enfrentar os momentos menos bons e aproveitar as oportunidades quando a maré está favorável. Não precisamos de sorte, mas sim de saber o que queremos, traçar um plano e seguir. E foi isso que fiz com a minha paixão pela rádio e, mais tarde, foi isso que me levou a fundar uma empresa de formação na área da comunicação onde procuro ajudar quem sente que através de uma comunicação mais eficiente (objetiva, empática, memorável) pode fazer a diferença, na sua área de atuação profissional, ou na sua vida pessoal. As pessoas que se cruzam connosco e que nos influenciam têm um contributo importante. Podem ajudar ou dificultar, mas têm um papel significativo para o resultado final: o ponto onde nos encontramos hoje, a pessoa em que nos tornámos. Tudo isto depende da família em que nascemos, de quem escolhemos rodear-nos e de quem, ocasionalmente, entra na nossa vida sem que tivéssemos controlo sobre isso. A minha avó materna foi a pessoa que mais influência teve em mim. Olho para trás e percebo, em mim, traços do caráter desta mulher de origens humildes (foi costureira toda a vida) e tão determinada que roçava a rebeldia. Vivi com ela num período conturbado da minha infância, em que não estava feliz na escola, tinha uma baixa autoestima e não conseguia encontrar no futuro (quando pensava sobre ele) uma réstia de esperança de que este sentimento podia mudar. Os meus pais, apesar de terem níveis baixos de escolaridade, sempre me incentivaram a continuar os estudos e a acreditar que é na educação está a chave para conseguir ter uma vida melhor do que aquela que tínhamos. Era com a minha avó que desabafava nos dias maus, era a ela que me queixava quando as notas eram más ou quando as brigas nos recreios se intensificavam. Não tinha muitos amigos, era ela o meu porto de abrigo, a amiga e a confidente que me dizia sempre que “alcançar um sonho só depende do tamanho da vontade.” É curioso como, na minha a avó Maria José, esta frase assentava tão bem.

Casou pela segunda vez, aos 70 anos, com o primeiro namorado, a grande paixão da sua vida. Nicolau era um homem de Viseu que, depois de enviuvar, correu para Albufeira, para pedir a sua mão em casamento. A família opôs-se, acharam que estavam os dois senis. “Casar? Ele com 75 e ela com 70 anos?! Onde é que já se viu?” E casaram. Contra tudo e todos e viveram 12 anos muito felizes. “Os mais felizes da minha vida” - disse-me a minha avó algumas vezes. Guardo a memória de uma mulher alta, de cabelos longos, que viveu uma vida pobre e sofrida, mas que foi recompensada, na fase final da sua existência, com o amor do homem que nunca esqueceu. Talvez tenha herdado dela esta teimosia de achar sempre que tudo é possível e que, se não acontecer, é porque não quis assim tanto. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 11 anos, a ajudar a minha mãe nas limpezas que fazia e a receber uma compensação financeira que me dava para comprar roupa, aquele bem que em toda a minha vida sempre tinha conhecido em segunda mão, herdada das primas que até tinham bom gosto, mas que chegava até mim já com os elásticos gastos e com borbotos. Até aos onze anos não me importei de vestir roupa usada, mas, a partir daí, desenhei um plano para alterar essa situação: Trabalhar. A minha mãe ficou aflita a achar que ia desistir da escola e encontrou a solução: ia com ela, quando não tivesse aulas, ajudar a limpar a Repartição de Finanças de Albufeira e por essas horas de trabalho seria recompensada financeiramente. Foi aqui que comecei a ganhar o gosto pelo trabalho e a perceber que, em qualquer função que desempenhamos, podemos fazer a diferença. O chefe da Repartição de Finanças, na altura, era um homem de poucas palavras, mas sensível ao facto de ver uma criança de esfregona na mão, quase maior do que ela, e muitas vezes chamava-me para me elogiar. “A parte do chão que lavaste está muito mais brilhante do que a parte da tua mãe?! Já reparaste? As pessoas que vierem cá amanhã tratar de assuntos, se pisarem este chão que tu lavaste, vão estar mais sorridentes porque vão apreciar o teu trabalho, mesmo que tenham de esperar na fila”.

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E eu acreditava. Cheguei a passar lá durante o dia para observar as pessoas que pisavam o chão que eu tinha lavado na noite anterior. E sim, pareciam-me felizes. Acreditar nisto fez toda a diferença. A partir desta fase nunca mais deixei de trabalhar: cuidei de crianças, fui secretária numa agência imobiliária, vendi gelados, colaborei com um jornal, sempre a par com os estudos. Aos 15 anos, por mero acaso, fui a uma rádio, em Albufeira, pedir informações para um artigo que estava a escrever para o jornal e a partir daí tudo mudou e descobri o que queria fazer. A rádio, esse meio de comunicação misterioso, que nos faz imaginar quem está do outro lado pelo tom de voz; que nos acalma e inspira nos dias menos bons, que está sempre lá. Basta pressionar um botão. Fiz um teste de voz e uma semana depois foi-me “oferecido” um programa, nas tardes desta rádio local. A primeira experiência foi caótica. Deveria estar três horas no ar e não consegui falar uma única vez. A voz sumiu-se. Só me lembro da música a terminar e… silêncio... as mãos nervosas a mexer no disco, a agulha a saltar (sim, na altura ainda havia gira-discos) e tudo a ouvir-se no ar. Que trapalhada. Que desilusão dei às pessoas que confiaram em mim. Olhando para trás, penso que tive um ataque de pânico, assim que abri o microfone e deixei de conseguir raciocinar. Tinha-me preparado tanto para aquele momen-

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to. Tinha escrito tudo o que ia dizer (até boa tarde). Tinha ensaiado vezes sem conta, mas o medo de falhar foi mais forte do que a vontade de superar e muito mais evidente do que a paixão pela rádio que começava a crescer. Depois deste programa fatídico, o diretor da rádio chamou-me ao gabinete e disse-me o que precisava de ouvir: “Não te escondas. Mostra-te às pessoas. Se estás nervosa, porque é o teu primeiro dia, partilha com elas. A rádio é isto.” E deu-me mais uma oportunidade. Podia ter-me mandado para casa, aconselhado a tomar um Xanax e esquecer a rádio, mas não o fez. Deu-me a oportunidade de que precisava para me recompor, perceber o que estava em falta e ir à procura disso. O que estava em falta? Maturidade para lidar com a pressão, excesso de preparação (sim, pode acontecer) e medo do desconhecido. Quem não sente medo de algo que o tira da zona de conforto? Que põe à prova as suas capacidades? Quando a exposição é grande e os holofotes estão todos em nós, ainda se torna mais difícil. Com o tempo, aprendemos a serenar, deixamos que a adrenalina dos momentos de tensão nos invada na medida certa. Com o tempo, aprendi a fazer dos nervos que sentia (e ainda sinto hoje, passados mais de trinta anos) um aliado. Sei que vou ficar desconfortável, nos primeiros segundos ao microfone, sei que vou ficar com as mãos a suar, no início de uma palestra ou de uma formação. Sei. Mas não tento combater. Aceito e avanço.


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Aprendi, também com o tempo, que tudo o que precisamos, quando nos expomos publicamente, é de alguma preparação e de cinco minutos de coragem. São cinco minutos, em que a adrenalina dispara e nos manda sinais de perigo eminente, que nos fazem querer sair dali o mais depressa possível. São cinco minutos que, ou controlamos, ou deixamo-nos controlar. O caminho é escolher a primeira hipótese e controlar porque, se não o fizermos, se fugirmos, se evitarmos a exposição, vamos estar a adiar ou mesmo a perder oportunidades. Só anos mais tarde, percebi o quanto este medo da exposição, este medo de falhar publicamente, afeta tantas pessoas e limita tantos líderes. Homens e mulheres, com um vasto conhecimento nas suas áreas, com visão e determinação, mas que, na altura de comunicarem o que sabem e quem são, se boicotam, passando a perceção de insegurança ou, ainda mais grave, de desconhecimento. Não é justo que assim seja. Haveria de traçar um plano para ajudar a combater o medo de falar em público, criando programas de formação e treino, partilhando o que aprendi na rádio com as empresas. Só que, neste momento, ainda estava longe de imaginar que tal iria acontecer, ainda lutava para combater os meus próprios medos. E teria longos combates pela frente. Depois do primeiro programa de rádio que correu mal, muitos outros se seguiram. Passei a ouvir rádio como nunca tinha ouvido até ali. Deixei-me inspirar por profissionais que estavam muito mais à frente do que eu, passei a ter a RFM – e os profissionais que a integravam – como uma referência e um objetivo a alcançar. Dos 15 aos 22 anos, sinto que tudo o que fui fazendo teve como objetivo último conseguir um emprego na RFM, fosse qual fosse. Nestes tempos – final dos anos 80, inícios dos anos 90 do século passado – ainda se usavam cassetes áudio. Devo ter enviado, por correio, dezenas de cassetes com gravações de programas meus ao cuidado do diretor na altura, Pedro Tojal. Queria que reparassem em mim, mas nunca obtive uma resposta para além de uma carta pró-forma dos Recursos Humanos a dizer “neste momento o seu perfil não se enquadra com as vagas disponíveis, se a situação se alterar voltamos ao contacto”. Agarrei-me a esta frase “se a situação se alterar, voltamos ao contacto” e continuei à procura de formas para chamar a atenção. Nesta altura já estava a estudar em Lisboa, no curso de Ciências da Comunicação, já tinha passado por duas rádios, na capital, e sentia que tinha condições para entrar numa rádio nacional, nem que fosse a apresentar programas de madrugada, quase sem audiência. Vim a perceber mais tarde que, na RFM, mesmo nas horas de menor audiência são milhares as pes-

"O que estava em falta? Maturidade para lidar com a pressão, excesso de preparação (sim, pode acontecer) e medo do desconhecido. Quem não sente medo de algo que o tira da zona de conforto? Que põe à prova as suas capacidades?"

soas que estão do outro lado. Essa descoberta haveria de me tirar o sono durante muitas noites, mas, mais uma vez, neste momento essa realidade ainda estava longe. Aquilo que possibilitou a realização deste sonho foi um concurso que a RFM lançou, durante um Verão de 93, a todos os ouvintes. Quem quisesse ganhar uma viagem a Haia, na Holanda, para ver um concerto da Celine Dion, com tudo pago, deveria enviar uma gravação a simular uma reportagem no concerto. A mais criativa ganhava. Não estava propriamente interessada em ver a Celine Dion, mas queria muito que ouvissem algo gravado por mim, que tomassem noção da minha existência e, por isso, pus mãos à obra. Com a ajuda do técnico da rádio onde estava na altura – uma nova versão do Rádio Clube Português – criámos dois minutos de reportagem onde – no interior do recinto em Haia – ia relatando o que estava a acontecer no concerto, com música de fundo e efeitos sonoros que simulavam o ruído das pessoas em êxtase e o eco de um grande espaço. Tinha tanta certeza de que iria ganhar que passei a tarde sentada em casa ao lado do telefone (na altura ainda não tinha telemóvel) à espera que ele tocasse.

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Ao fim da tarde tocou e, do outro lado da linha, uma voz dava-me a notícia de que era eu a vencedora e de que ia viajar até Haia para ver a Celine Dion em concerto. Mais uma vez, não era isso que me deixava a flutuar no ar de alegria. Era o facto de saber que iria acompanhada por pessoas da RFM, com quem poderia conversar e contar o sonho que tinha de um dia vir a trabalhar com eles.

"Tive a sorte de encontrar uma segunda família que me orientou durante os anos que se seguiram, com quem criei laços fortes e que ainda hoje recordo como os companheiros dos anos mais fascinantes que vivi. Onde tudo era novidade, onde cada conquista era celebrada rodeada dos maiores profissionais da rádio em Portugal que me ensinaram tanto." 28

Quando falo aos meus filhos sobre isto, sublinho a importância de agarrarmos as oportunidades que a vida nos dá. O que a vida me deu de concreto foi uma viagem e um bilhete para um concerto, mas aquilo que retirei da experiência foi muito mais: promovi-me, mal ou bem (de certeza com muitas falhas) mas devo ter feito um pitch (na altura não se chamava assim) que fez com que António Jorge – a pessoa da RFM que me acompanhou e hoje meu colega na Renascença – chegasse a Portugal e fosse falar sobre mim ao diretor. Uma semana depois do concerto da Celine Dion em Haia, estava sentada num gabinete na Rua Ivens, em pleno Chiado, a ser entrevistada por Pedro Tojal para aquele que veio a ser o meu emprego de sonho. Estava finalmente a viver uma meta alcançada quando entrei na RFM pela primeira vez em agosto de 94 como locutora. Tive a sorte de encontrar uma segunda família que me orientou durante os anos que se seguiram, com quem criei laços fortes e que ainda hoje recordo como os companheiros dos anos mais fascinantes que vivi. Onde tudo era novidade, onde cada conquista era celebrada rodeada dos maiores profissionais da rádio em Portugal que me ensinaram tanto: o diretor Pedro Tojal, António Jorge, Teresa Lage, João Chaves, Paulo Fragoso, Júlio Heitor, José Coimbra, Paulino Coelho, Marcos André, Joaquim Cannas. Mas também todos os que faziam parte dos bastidores e que foram cruciais neste crescimento: Ana Margarida Oliveira, Helena Galamba, Maria José Pardal, João Campelo, António Antunes. Nunca saberão o quanto foram determinantes para me ajudar nesta fase com muitas orientações e alguns ralhetes.


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Os anos que se seguiram foram de evolução, de aprendizagens com os melhores nesta arte de estar perante um microfone e ter sempre algo interessante para dizer. Admirava-lhes a capacidade de improviso, o controlo nos momentos de tensão, a graciosidade com que comunicavam, as suas vozes aveludadas que parecia conhecer de outras vidas, a intimidade que criavam com a audiência – milhares de pessoas que nunca os conheceram nem chegariam algum dia a conhecer, mas que viam neles amigos de longa data. A rádio é um meio de comunicação maravilhoso, quase mágico. Anos mais tarde, teria pessoas a abordarem-me porque se recordavam das histórias que contava aos microfones. Histórias banais: mudanças de casa, peripécias nos primeiros tempos da maternidade, as inquietações habituais de uma jovem adulta. Histórias pessoais, mas que são tão comuns que criam este sentimento de identificação que as torna universais, na medida em que nos aproximam enquanto seres humanos. Esta foi uma descoberta fundamental para dar início a uma nova fase da minha vida, quase vinte anos mais tarde quando descobri que, para além da paixão da rádio, tinha paixão por ensinar comunicação e que as histórias de cada pessoa são informação preciosa para se comunicarem ao mundo. Os anos na RFM foram magníficos. Os dez anos em que apresentei o "Café da Manhã", com o José Coimbra tiveram tanto de desafiantes como de hilariantes. Lembro-me de andar pelo país semanas inteiras a fazer o programa ao vivo e de chegar a casa ainda com dores musculares de tanto rir. Aprendi a trabalhar em equipa, a gerir a pressão e a resolver conflitos, competências que são funda-

mentais em qualquer profissão que escolhermos. Ao fim de uma década, quando eu e o José Coimbra saímos do programa, fiquei sem chão. Chorei durante três dias e três noites e a seguir agi. Senti que estava na altura de pensar num plano B. Honestamente tinha a certeza de que os meus dias na rádio estavam contados e agarrei-me à boia de salvação que mais sentido me fazia: ensinar comunicação, partilhar tudo o que tinha aprendido durante a minha já longa carreira. Mas como? Se só de pensar em falar em público ficava com tremores. O que se passou, a seguir, foi consequência do pânico inicial: investi todas as poupanças em formação. Fui para os Estados Unidos aprender public speaking, fiz uma pós-graduação e uma certificação em coaching, inscrevi-me num grupo de networking para aprender a ser empresária e atirei-me para fora de pé. Pouco tempo mais tarde, escrevi o meu primeiro livro sobre comunicação “Fale menos comunique mais” e as coisas foram acontecendo, os clientes foram aparecendo e – a maior revelação de todas – aquilo que ensinava tinha impacto nas pessoas que saíam diferentes, depois de umas horas a refletir e a ajustar a forma como comunicavam. Saíam diferentes, dispostas a experimentar novas abordagens e técnicas muito práticas, muito simples. Nem sempre o mais simples é o mais fácil e, por isso, ainda hoje continuo com esta missão: desenvolver a competência da comunicação a quem dela necessita para ter uma vida mais gratificante e feliz. Hoje já não estou sozinha, tenho uma equipa de seis pessoas que está sempre comigo e dezenas de formadores que me ajudam nas duas academias que fundei: a academia “Fale menos, comunique mais” (para quem quer desenvolver os fundamentos da comunicação) e a academia “Fale menos, influencie mais” direcionada para quem ocupa cargos de liderança. Acredito no poder da comunicação e na magia das histórias como forma de tornar mais simples e claro o que queremos transmitir, mas, acima de tudo, como a forma mais simples de nos ligarmos aos outros. Should Communicate to connect – the stories you shloud tell é o nome da TED talk que fiz organizada pela Universidade de Lisboa e onde sublinho esta ideia, através de estudos científicos e, acima de tudo, através de histórias que vou partilhando, tal como acabei de fazer aqui nestas páginas. Por isso deixo-lhe cinco estratégias que me ajudaram a crescer, enquanto líder e empreendedora, estou certa de que terá as suas. O importante é sermos fiéis ao que acreditamos e ao que nos torna melhores: 1) deixe-se inspirar pelas pessoas que são/foram importantes na sua vida; 2) tenha cinco minutos de coragem e arrisque; 3) não pare de aprender; 4) tenha o seu plano B; 5) conte as suas histórias.

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ENTENDER O SER HUMANO PARA ALCANÇAR O NOSSO POTENCIAL COM SARA COLIN A mentora e analista corporal é fascinada pelo ser humano desde que se lembra — as suas individualidades, interações e motivações. Após uma busca formativa intensiva, dedica-se a ajudar as pessoas a encontrar o seu caminho e a preencher o seu potencial.

Todos nós já nos questionamos, pelo menos uma vez na vida, sobre o nosso lugar no mundo, a nossa missão e onde nos encaixamos, seja a nível pessoal como a nível profissional. Sara Colin pretende ajudar a responder a essas perguntas. Fundadora do SCTM - Training and Mentoring, a mentora e analista corporal ajuda as pessoas a alcançarem todo o seu potencial. Desde cedo que Sara olha para o mundo como "um grande sistema de interações sociais", onde as pessoas com quem nos cruzamos nos deixam sempre com alguma aprendizagem, memória ou transformação. Essa curiosidade pelas interações humanas, a mente e os estímulos que direcionam as nossas escolhas, levou-a ao curso de Relações Públicas, no INP — Instituto Superior das Novas Profissões. Foi nessa área que iniciou a carreira profissional, passando pelo departamento de Relações Públicas do Casino de Lisboa e pelo departamento comercial do Holmes Place. Estas experiências permitiram que se aproximasse de pessoas de diversos contextos diferentes. Percebeu, cada vez mais, que o ser humano "é extremamente complexo, interessante e desafiador." Mais tarde, decidiu especializar-se em gestão de equipas, pois percebeu que "estar à frente de uma equipa é muito mais que chefiá-la ou fazê-la chegar aos números propostos, é conseguir criar uma sinergia em que todos sabem e sentem que estão a caminhar numa direção comum." A partir daí, a procura por mais formação e conhecimento na área do desenvolvimento humano foi contínua - workshops, cursos, seminários, tudo o que encontrava sobre o tema. Apesar de saber que seria trabalho árduo, criou a SCTM, que começou por ser mais direcionada para a formação em competências comportamentais, em áreas como a liderança e a produtividade. No entanto, a formação parecia insuficiente para Sara. Nesse sentido, criou o Life Balance, um serviço de mentoria que analisa a vida como um todo, com foco nas principais 8 áreas que a compõem: "Em cada uma delas são trabalhados os pontos fortes, os bloqueios, os medos, os conflitos e as aspirações de cada cliente. O objetivo é que consigam crescer de forma equili-

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brada em todas as áreas da sua vida", explica. Ambiciosa e com vontade de melhorar constantemente, os resultados positivos não foram suficientes: "O caminho da transformação e do autoconhecimento profundo pode ser longo e confuso, pois é um caminho que necessita de muita vontade e compromisso. Nem sempre é um caminho claro, óbvio, simples ou facilmente acessível", por isso queria um processo "mais imediato, mais simples, mais prático" e que permitisse uma maior autonomia aos clientes. Encontrou a solução na formação em Análise Corporal com O Corpo Explica, uma escola brasileira, "criadora da única ferramenta no mundo capaz de medir a percentagem de cada traço de carácter e explicar como uma pessoa funciona, analisando apenas o formato do seu corpo e com isso resolver qualquer problema que esteja a enfrentar." Tornou-se assim uma das poucas pessoas certificadas em Portugal pelo O Corpo Explica e revolucionou todo o seu projeto inicial. Passou a poder considerar "os recursos, os bloqueios e os conflitos internos e individuais" que condicionam o comportamento humano, os relacionamentos e os resultados que alcança. "Porque tudo em nós está interligado, mente, corpo e emoções, e esse todo faz de nós um ser único", Sara criou o seu Método SER, "uma nova forma de

Criou o Life Balance, um serviço de mentoria que analisa a vida como um todo, com foco nas principais 8 áreas que a compõem. "O objetivo é que consigam crescer de forma equilibrada em todas as áreas da sua vida"


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consultoria de recursos humanos, completamente revolucionária, baseada na Análise Corporal dos Traços de Carácter". Este método, de base científica, permite com a análise específica do formato do corpo "indicar com muita precisão como funciona a mente da pessoa analisada, o que possibilita identificar quais os seus maiores recursos e bloqueios. " Esta informação permite a cada colaborador ser mais autónomo, pois consegue mais facilmente "identificar situações que possam estar a condicionar os seus resultados e agir com muita maior agilidade". É também relevante para as empresas, que podem fazer um recrutamento muito mais eficaz, "uma distribuição de tarefas muito mais assertiva", bem como aumentar a produtividade e reduzir o absentismo e o turnover. Sara acredita que esta é uma nova forma de olhar para os recursos humanos e conseguir "uma organização baseada na individualidade". Segundo a mentora, cada vez mais pessoas procuram “o sentido da vida e querem viver de acordo com ele”, e as mulheres não são exceção. 20 mil alunos da escola O Corpo Explica são mulheres, o que representa 77,5 %. O papel da mulher na socie-

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dade foi mudando bastante ao longo dos tempos. Passou de “apoio familiar, gestora do lar, cuidadora e educadora” para abraçar outros desafios em áreas diversificadas do mundo do trabalho. Essa transformação levou à dupla exigência: “mulher que é a gestora do lar e mulher que é a profissional de excelência.” E essas expectativas não partem só do exterior mas da própria mulher, gerando um “peso tremendo.” É necessário encontrar soluções para este desequilíbrio, é preciso alternativas, afirma Sara. “Há que estabelecer acordos que possam dar resposta às necessidades apresentadas, tanto de um lado, como do outro.” Por isso mesmo é que o dia 8 de março é tão relevante, porque comemora a luta do que tinha e tem de ser mudado. “É uma luta de evolução”. Mas mais importante ainda do que festejar o dia é perceber os desajustes e procurar a solução. Em Portugal, as áreas de desenvolvimento humano estão em "profundo crescimento". Contudo, não é fácil fazer mudanças repentinas, "não é fácil mudar a perspetiva e o funcionamento de tudo aquilo que conhecemos." A abertura para este tema em


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Cada vez mais pessoas procuram “o sentido da vida e querem viver de acordo com ele” e as mulheres não são exceção.

Portugal ainda não é comparável à de outros países, como o Brasil, exemplifica Sara, mas tem ganho cada vez mais visibilidade, o que permitirá o surgimento de novas propostas dentro desta área. Para a mentora, a crise sanitária veio intensificar a necessidade de incluir técnicas de desenvolvimento humano na dinâmica das empresas, "na medida em que trabalham a resiliência dos colaboradores, preparam-nos para dar respostas mais assertivas e eficientes às necessidades e aos desafios e tornam-nos mais autónomos." Para além disso, introduzem uma componente emocional ao processo do trabalho que, para Sara, tem sido muito descurada. É essencial que as empresas comecem a ver os seus colaboradores para além das suas competências técnicas e das habilidades que têm no currículo, porque "cada um dos colaboradores é também um ser social, inserido numa sociedade que se relaciona entre si e que não é indivisível." Para o futuro, Sara Colin quer ter ao seu lado cada vez mais analistas corporais e assim revolucionar o mercado da consultoria de recursos humanos e a forma de se estar na vida.

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Teresa Roque


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“HABITUEI-ME À MUDANÇA E ÀS SURPRESAS QUE A VIDA NOS TRAZ.” Com um currículo escolar internacional, nunca planeou viver em Portugal. Mas a vida não segue planos. Responsável pelas empresas da holding familiar, contactou com diversas áreas e aprendeu com todas. Apaixonada pela escrita e o ensino, fez parte da fundação do 1º think thank liberal português e da EPIS, uma associação de combate ao abandono escolar.

Teresa Roque, devido ao percurso de vida dos pais, teve um percurso académico muito internacional. Tirou a licenciatura em Política, Filosofia e Economia na Universidade de Oxford, no Reino Unido e fez o mestrado em Economia e Política Europeia na Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Por isso mesmo, nunca sonhou viver em Portugal, mas a vida não obedece a nenhum plano. O seu trajeto profissional foi tudo menos linear, explorando diversas áreas. Foi consultora, deu aulas, exerceu vários cargos executivos e não executivos nas empresas da Holding Familiar, desde o setor financeiro ao imobiliário. Foi membro fundador do Instituto Mais Liberdade, o primeiro think thank liberal em Portugal, mas atribui todo o mérito aos restantes fundadores - Carlos Guimarães Pinto, Carlos Moreira da Silva e Adolfo Mesquita Nunes, “os grandes impulsionadores da ideia.” Para além disso, foi ainda uma das fundadoras da Empresários Para a Inclusão Social (EPIS), em 2002, que se dedica ao combate ao abandono escolar. Em 1990, o abandono escolar precoce em Portugal rondava os 50%. Atualmente está nos 10,6%. O contacto com vários setores permitiu alargar os seus conhecimentos e aprender a trabalhar com pessoas de várias áreas e a vários ritmos. “Habituei-me à mudança e às surpresas que a vida nos traz.” De momento, acompanha as empresas da holding familiar. Faz também parte do Conselho de Administração St Julian’s, que frequentou no liceu. Integra os comités de Estratégia, Alumni, Fund-Raising e Estruturas. É ainda colunista dos jornais Observador e ECO. Adora escrever sobre política, assuntos sociais e económicos , já que tem “opiniões muito vincadas”. Adorar o que faz é o segredo para conseguir conciliar tudo, admite Teresa. “Não sou uma super-mulher. Não sou de todo. Faço o que gosto.” Teresa sempre adorou estudar, escrever e aprender mais - “quando via uma lacuna na minha formação, tentava colmatá-la.” Conta até que passou um ano a estudar matemática e estatística porque planeava fazer um doutoramento em Economia. “Foi o ano mais miserável da minha vida… mas aprendi”, confessa.

“Na minha geração já não havia empregos para a vida – só no setor público. Na geração dos nossos filhos essa tendência irá acentuar-se cada vez mais. Com as mudanças tecnológicas cada vez mais acentuadas, num mundo cada vez mais globalizado e competitivo, futuras gerações vão ter que se habituar a viver com mudanças. 'Life-long learning', 'reskilling' e 'upskilling' vão estar na ordem do dia”, explica Teresa. No entanto, a escola não ensina tudo. “A vida é a grande escola, como o meu Pai costumava dizer.” É necessário aprender constantemente, ter espírito crítico, saber trabalhar em equipa e “saber tirar partido das oportunidades que vão surgindo.” Nunca fez planos muito detalhados para o futuro, mas sempre pensou que iria dar aulas ou acabar na política. Estava inscrita no doutoramento em Ciências Políticas no Instituto de Ciências Políticas, na Universidade Católica, quase a iniciar a tese de Doutoramento, quando o seu pai faleceu e teve de assumir responsabilidades nas empresas.

Adora escrever sobre política, assuntos sociais e económicos , já que tem “opiniões muito vincadas”. Adorar o que faz é o segredo para conseguir conciliar tudo, admite Teresa. “Não sou uma super-mulher. Não sou de todo. Faço o que gosto.”

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Cumprimentando o Principe Charles na Embaixada britânica.

Nessa altura, admite que sabia pouco sobre a Banca “ e ainda menos de Seguros. O que me ajudou foi a minha formação, a minha autoconfiança e a facilidade que tenho em adquirir novos conhecimentos.” Teve ainda “uma excelente equipa” a acompanhá-la, que a ajudou no percurso. Assumir os novos cargos foi um desafio: “Encontrei uma gestão já no seu terceiro mandato, muito enraizada na forma de fazer as coisas e que achava as minhas perguntas incómodas. Tinha a sensação de que me 'atura­vam' porque tinha que ser”, conta. Não sabia se era apenas por ser mulher ou por ser bastante jovem. O setor financeiro é particularmente conservador e principalmente dominado por homens. Em Portugal, ainda existe culturalmente muito machismo, para o qual Teresa diz não ter paciência nenhuma. Na sua turma de MBA para executivos em Oxford, que tirou em 2017, apenas 12% eram mulheres - “fiquei chocada quando lá cheguei.” Acrescenta ainda mais alguns números: apenas 41 mulheres lideram empresas que integram o índice Fortune 500 nos EUA, o que representa 8%; só 29 mulheres são chefes de Estado ou de Governo, num universo de 195 países; globalmente só existem 25% de mulheres

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no parlamento, quando metade da população mundial são mulheres. “ Não são números muito animadores.” Apesar disso, Teresa questiona se o Dia Internacional da Mulher vale a pena. Prefere ações práticas e resultados concretos. “Continua a existir muito machismo, como existe racismo, homofobia etc. Provavelmente, nunca iremos erradicar por completo estes sentimentos de mentes pequenas e menos elucidadas, mas temos que as combater diariamente. “ Assim, mais do que o dia em si, Teresa apela à melhoria das condições que existem para a mulher, de forma a conciliar o papel familiar com o trabalho, que ainda é “ um grande entrave para as mulheres aceitarem lugares de maior responsabilidade” ou até mesmo serem promovidas. “ Geralmente a maternidade é um momento muito disruptivo na carreira das mulheres. Conciliar os dois papéis não é fácil”. Teresa admite que nunca ocupou um lugar executivo nas maiores empresas do Holding Familiar por esse mesmo motivo - “um bom gestor ou empreendedor tem que estar disponível 24/7. Gosto de chegar a casa cedo e jantar com os meus filhos. Gosto de ter os meus fins de semana livres.” Acrescenta ainda que odiaria estar à frente de


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No Dubai.

Universidade de Oxford, 2017.

Teresa questiona se o Dia Internacional da Mulher vale a pena. Prefere ações práticas e resultados concretos. “Continua a existir muito machismo, como existe racismo, homofobia etc. Provavelmente, nunca iremos erradicar por completo estes sentimentos de mentes pequenas e menos elucidadas, mas temos que as combater diariamente."

Festa de Natal, Grupo Banif 2010.

uma empresa no Índice Fortune 500, ressalta que os 8% mencionados anteriormente não são, de todo, um número representativo. Um lugar de topo depende da perspetiva de cada um e dos seus objetivos pessoais: “não devemos alimentar estereótipos'', afirma. É necessário não só valorizar as administradoras de grandes empresas, chefes de estado ou governo, mas também as mulheres que todos os dias se sacrificam para melhorar a vida dos outros”, como professoras primárias que mudam a vida dos alunos ou médicas que salvam vidas diariamente, sem nos esquecermos ainda das mães dedicadas. É essa ideia que tenta transmitir à sua própria filha, quando lhe diz: “não penses no lugar que queres atingir, mas no que gostavas de fazer.” A chave é sonhar, ambicionar e investir no conhecimento e no autoconhecimento de si própria. Saber o que queremos implica tentar e errar, a perfeição não é o objetivo, o resto virá por acréscimo: “Não tenhas receio de pedir ajuda. Procura ser confiante e resiliente. Ajuda quem puderes. Cuida de ti. Procura ter uma vida equilibrada. Mas, acima de tudo, procura ser feliz.” É esse o conselho que deixa também para todas as mulheres.

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GRAÇA COELHO, CRESCER LADO A LADO COM A CACHAPUZ Graça está na Cachapuz há 27 anos. Foi na empresa que começou como estagiária que cresceu profissionalmente, até chegar à posição de CEO. Casada e com dois filhos, balança a vida profissional e pessoal com rigor e disciplina.

Desde criança que Graça Coelho sempre apresentou um espírito empreendedor e virado para o mundo dos negócios - aos seis anos já fazia peças em crochet e bordado para vender à família. Por isso, foi apenas natural licenciar-se em Gestão de Empresas na Universidade do Minho, em Braga, a sua terra natal. Em 1994, recém-licenciada, entrou como uma simples estagiária na Cachapuz, empresa de conceção de equipamentos e soluções de pesagem. Atualmente, é a CEO, algo que nunca sequer sonhou, já que sempre valorizou o lado pessoal - "o meu desejo era casar, ser uma boa dona de casa, uma boa esposa e uma boa mãe. A minha realização pessoal passava mais pela família do que pelo trabalho", confessa Graça Coelho. Contudo, a vida provou que é possível, " e desejável", conciliar o sucesso profissional com uma vida pessoal plena e realizada. O segredo do sucesso? Ser sempre fiel aos seus princípios e valores." Saber ser e saber fazer, com competência, com responsabilidade, com verdade, com paixão, tudo isto com muito bom senso à mistura. Foi este o meu compromisso, que se mantém até aos dias de hoje", explica Graça. Ao longo de 27 anos, Graça cresceu, enquanto profissional e enquanto pessoa, juntamente com a empresa, que se foi transformando, mudando e inovando ao longo dos anos. "Fazer parte de uma empresa com 100 anos de história é um desafio constante. Não só pela enorme responsabilidade do legado de peso que recebemos e que muito me orgulha, como pela marca que me sinto incumbida de deixar para as futuras gerações." Passou por várias funções que a obrigaram a adaptar-se constantemente à mudança e a novas realidades. Em 1997, a Cachapuz integrou um sócio italiano, Bilanciai, que é atualmente detentor total da empresa. Esta transição permitiu a Graça contactar com uma gestão e visão de negócio mais global, que alimentou o seu gosto por conviver com "pessoas de diferentes backgrounds pessoais e profissionais." Desde 2014 que é CEO da Cachapuz, e o seu trabalho tem sido reconhecido não só internamente mas também por terceiros. Em 2016 recebeu o prémio de CEO do ano pela Business Excellence Forum and Awards. Sendo sempre bem-vindos, a diretora diz

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que nunca trabalhou para prémios, mas sim para as pessoas. São as pessoas que a "motivam a procurar ser sempre uma profissional atenta, sensível às suas necessidades e expectativas”, e que a fazem procurar melhorar sempre a empresa. "Gosto de planear, estruturar, transformar em prol de uma mudança positiva”, refere. O LADO PESSOAL E FEMININO Essa preocupação permanente com os outros e a atenção ao pormenor atribui ao seu lado mais feminino. O gosto de "proteger e cuidar" das pessoas à sua volta. Graça acredita que são as pequenas coisas que nos permitem conhecer verdadeiramente as pessoas e por isso é bastante disciplinada e exigente. "Percebo que nem sempre seja fácil conviver comigo, que digam os meus filhos", brinca." Mas a minha intenção é sempre demonstrar que as pessoas são capazes de fazer melhor. O céu é o limite." Sempre com trabalho, empenho e dedicação. É essa dedicação que valoriza nos profissionais com quem trabalha e lidera: "O saber fazer é importante mas não chega. O que nos diferencia é o saber ser. É a nossa atitude" esclarece Graça." Valorizo

"O segredo do sucesso? Ser sempre fiel aos seus princípios e valores." Saber ser e saber fazer, com competência, com responsabilidade, com verdade, com paixão, tudo isto com muito bom senso à mistura."


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pessoas criativas, dinâmicas e proativas que não se conformam nem aceitam um 'porque sim', 'porque sempre fiz assim' ou 'porque sempre foi assim'." Casada, mãe de dois filhos, CEO de uma grande empresa, Graça ainda arranja tempo para hobbies. Adora cozinhar bem como comer, "principalmente a sobremesa." Há 6 anos descobriu o gosto pela jardinagem e agora cultiva variados legumes na sua própria horta. Para Graça, acompanhar o processo de crescimento de cada planta e “colher os seus frutos é uma sensação fantástica." Numa empresa com uma forte componente de metalomecânica, um mundo estereotipicamente de homens, nunca se sentiu discriminada. Sempre sentiu que o seu esforço foi respeitado e reconhecido ao longo dos anos: "Talvez pelo facto da liderança feminina apostar mais na relação e na partilha, no cuidado e preocupação com a equipa, uma maior atenção e aceitação da diferença, uma maior facilidade de adaptação à diversidade, sempre senti que o meu trabalho foi valorizado." No entanto, tem a noção que nem sempre é assim e por isso considera importante continuarmos a comemorar o Dia Internacional da Mulher, "para chamar a atenção e refletirmos sobre a forma como ainda tratamos as mulheres, nomeadamente, do ponto de vista da igualdade de oportunidades e do ponto de vista salarial." Nos países mais desenvolvidos estas diferenças têm vindo a ser encurtadas ao longo dos anos, "alcançando várias conquistas rumo à igualdade de género e de oportunidades", contudo "em outros países as mulheres ainda são desvalorizadas" ou até "maltratadas, sendo apreciadas como simples objetos". "Urge recentrar a importância do papel da mulher na sociedade que se quer mais justa e mais inclusiva. Os novos tempos são muito exigentes e precisarão de Homens e Mulheres que lutem por um mundo novo, onde a visão pragmática e holística da mulher será sempre uma mais-valia. Unidos seremos sempre mais fortes", apela Graça. O IMPACTO DA PANDEMIA O ano de 2020, atípico para todas as empresas, exigiu o máximo de empenho e criatividade de todos, para responder à pandemia e reagir aos problemas que surgiram consequentemente. Sem generalizar os danos que o COVID-19 causou na economia e nas empresas portuguesas, uma coisa é certa para Graça - "tudo mudou e nada mais vai ser como antes." Logo no início de março de 2020 começaram a preparar o plano de contingência, iniciaram o teletrabalho e organizaram as equipas da melhor forma possível, pois é importante lutar contra um inimigo comum "invisível e sem escrúpulos, que escolhe os mais fracos, os mais indefesos e os mais desprotegidos". Apesar de tudo, 2020 foi um ano de inovação e conquistas para a Cachapuz Bilanciai Group. Criaram a Cachapuz Academy, de forma a apostar na forma-

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"O ano de 2020, atípico para todas as empresas, exigiu o máximo de empenho e criatividade de todos, para responder à pandemia e reagir aos problemas que surgiram consequentemente. Sem generalizar os danos que o COVID-19 causou na economia e nas empresas portuguesas, uma coisa é certa para Graça - "tudo mudou e nada mais vai ser como antes."


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ção contínua dos seus colaboradores, realizando 71 cursos e mais de 2000 horas de formação. Criaram um "think thank" - " Ecossistema de Inovação Cachapuz", que gerou mais de 300 ideias inovadoras e conseguiram a acreditação do laboratório LabWeight, único certificado em Portugal certificado para calibrações na área da massa até ás 80 toneladas. Por fim, terminaram o ano a serem galardoados com a medalha de ouro pelo Município de Braga, cidade onde está sedeada a empresa. A pandemia irá marcar profundamente Portugal, não só economicamente mas também socialmente: "Como alguém disse, há décadas em que nada acontece e há semanas em que acontecem décadas", refere Graça Coelho. Por isso é necessário estar atento às novas dinâmicas que surgem durante este período. "As máscaras passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia bem como o Smart work. O teletrabalho permitiu dotar a equipa de novas competências técnicas e promover a autonomia, motivação, produtividade e autodisciplina e veio para ficar." As pessoas mudaram não só comportamentos específicos mas também o seu estilo de vida. A sociedade e a economia sofreram uma reorganização e devemos usar isso para "evoluir para modelos mais justos, mais eficientes e mais prósperos respeitando, cada vez mais, o meio envolvente", conclui Graça.

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“AS MULHERES TÊM DE PARAR DE SE SENTIR MAL POR SABEREM O QUE QUEREM, POR SEREM AMBICIOSAS, POR SEREM MAIS INTELIGENTES OU TEREM UM MELHOR SALÁRIO” Iniciou o seu trajeto profissional na Portugal Telecom pouco depois de completar a formação académica na área do Marketing e Publicidade (2003), mas não foi até à partida para Angola, em 2010, que se apaixonou verdadeiramente pela sua profissão. Aquela que seria uma experiência originalmente prevista para dois anos acabou por se prolongar por dez, sendo apenas interrompida pelo desejo de Rita Matias iniciar um novo projeto, um projeto seu. Atualmente, é managing partner da Serenity – empresa que reuniu psicólogos e neuropsicólogos, tendo em vista o desenvolvemos programas de apoio emocional e psicológico destinados, por exemplo, aos mais afetados pela pandemia.

A descrição que Rita Matias faz do momento em que aterrou em Luanda, numa manhã de Outubro de 2010, poderia facilmente ser usada como guião de um filme: “Lembro-me perfeitamente de, ao sair do avião, sentir uma brisa quente e o cheiro a calor.” Nesse dia, garante, apaixonou-se por Angola. Chegou com o objetivo de vivenciar uma experiência profissional na NetOne, mas aquilo que encontrou foram “oportunidades”, como a possibilidade de interagir diariamente com pessoas de “16 nacionalidades e culturas”, contribuindo para o seu desenvolvimento enquanto pessoa e profissional. De facto, foi em Angola que Rita também se apaixonou pela primeira vez pelo seu trabalho. Ao aperceber-se do impacto que as suas funções podiam surtir na vida das pessoas em seu redor, como era o caso dos colegas de trabalho, a empressária apercebeu-se de que podia atingir “algo maior” e causar “impacto”. “Só conseguimos atingir esse propósito através da forma como tocamos a vida de outras pessoas”, reflete. Ao não se sentir “apenas mais um número ou mais uma colaboradora” encontrou uma “motivação para fazer mais e melhor.” A experiência no continente africano, confessa, transformou-a: “O fato de estarmos fora da nossa zona de conforto (país, cultura, família) faz-nos crescer e procurar por novas formas de adaptação a uma realidade que não é a nossa. Somos nós que temos que nos adaptar e encontrar o nosso 'meio' e não o contrário.” A disponibilidade com que encarou a experiência permitiu-lhe aproveitar ao máximo, dando o máximo de si e da sua energia à mudança que estava a atravessar. Da realidade que encontrou, Rita descreve Luanda como a cidade onde “nada é garantido e onde os sonhos são tantas vezes adiados. Foi um privilégio conhecer e conviver com tais pessoas. Foi especialmente gratificante ver pessoas a crescer pessoal e profissionalmente, com a humildade e ambição necessárias.” O plano original seria ficar dois anos, mas Rita não foi capaz de partir durante dez – regressando apenas quando sentiu uma “imensa vontade” de criar o seu Rita Matias

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próprio projeto. Na bagagem trouxe “milhares de memórias, momentos, rostos, vozes e sorrisos, dos quais jamais se irá esquecer. Se eu tive algum impacto na vida destas pessoas, eles tiveram muito mais na minha vida. E por isso sou eternamente grata!” Antes da aventura internacional, Rita Matias trabalhou na Portugal Telecom desde Junho de 2003, logo após a conclusão dos estudos universitários em Marketing e Publicidade. Na altura, ainda não tinha nenhumas certezas acerca do “percurso que gostaria de seguir”. Na gigante das telecomunicações, Rita começou como estagiária no departamento de Marketing Editorial do SuperEmprego - uma plataforma digital para pesquisa de emprego. Ao fim de 3 meses transitou, desta feita a tempo inteiro, para o departamento de Design/Comunicação Digital do SAPO. Uma experiência que avalia como uma “excelente oportunidade para aprender e crescer profissionalmente”. Apesar da experiência feliz, Rita mostra-se satisfeita com as mudanças de perceção quanto ao caminho profissional que cada um deve percorrer, quase de forma imediata: “A vida não pode ser dividida em blocos de tempo. A vida é fluída bem como as experiências e cada pessoa tem o seu tempo. Precisamos de tempo, espaço e oportunidade para encontrar a nossa vocação.” Aquando da experiência na Portugal Telecom, a área em que Rita desempenhava funções, a comunicação digital, encontrava-se ainda em desenvolvimento. No entanto, a empresa estavam na “vanguarda da inovação tecnológica” e o SAPO (área digital da PT) “era uma área de negócio em franca expansão, com muitos clientes a investirem em publicidade e conteúdos digitais”. Uma área que mereceu a atenção e o investimento profissional de Rita, tendo realizado formações cíclicas, cursos e muita leitura - o que lhe permitiu manter-se atualizada em relação às tendências ditadas pelos consumidores: “É fundamental estar constantemente a estudar comportamentos, fazer experiências e analisar resultados.“ Enquanto profissional, Rita acredita que a sua “imensa vontade de fazer acontecer, contornar obstáculos e

nunca desistir – ou, como se chamar-lhe, teimosia –, são algumas das caraterísticas que a distinguem. Simultaneamente, existe a atenção que dedica ao “detalhe”, o esforço “por preencher os espaços em que ninguém reparou, por unir pontas e criar harmonia.” Uma capacidade particularmente útil no contexto atual, fortemente marcado pela pandemia. Questionada sobre as consequências da crise sanitária na dinâmica das empresas e na forma como estas se organizam, a managing-partner da Serenity Portugal considera que “ainda é cedo” para avaliar os efeitos. No entanto, não tem dúvidas de que “o impacto da pandemia no bem-estar emocional e psicológico é devastador e a recuperação, para muitas pessoas, será longa. Enquanto as pessoas não se recuperarem a 100% também não poderão contribuir a 100% para a recuperação da economia, através do seu trabalho, seja qual for. Precisamos estar bem, física e psicologicamente, para podermos ser os profissionais que o país precisa para crescer”, reitera. Já no que concerne à comunicação, Rita Matias refere que a forma como as marcas o fazem “mudou devido à conjuntura e terá que mudar muito mais” devido às alterações que aconteceram no proces-

"Enquanto profissional, Rita acredita que a sua imensa vontade de fazer acontecer, contornar obstáculos e nunca desistir são algumas das caraterísticas que a distinguem." 43


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samento da informação por parte dos indivíduos: “Estamos mais racionais, mais atentos e com menos paciência. A comunicação que antes funcionava de forma unilateral, vai ter de passar a ser trabalhada de forma bilateral, ao nível da experiência do cliente.” Como tal, as marcas que se destacarão serão aquelas que conseguirem estar mais próximas dos clientes, nomeadamente através de ações de marketing personalizadas e contactos frequentes com os clientes – de forma a responder às suas necessidades de forma rápida e com soluções criativas. A 8 de Março, o mundo prepara-se para celebrar o Dia Internacional da Mulher, 46 anos depois ter sido instituída pela Organização das Nações Unidas. Quase meio século depois, muitas são as discussões sobre a sua pertinência dada a evolução dos direitos e a diminuição da clivagem nas folhas salariais, no entanto, Rita Matias considera que ainda hoje “uma enorme desigualdade entre géneros”. Di-lo porque já passou “por essa experiência inúmeras vezes”. A empresária considera que “a questão da desigualdade pode levar décadas a ser ultrapassada porque está enraizada na forma de pensar e de agir há muitas gerações.” A mudança passará, portanto, “pela educação em casa, nas escolas, nas empresas. As mulheres têm de parar de se sentir mal por saberem o que querem, por serem ambiciosas, por terem ideias inovadoras, por serem mais inteligentes, mais cultas ou terem um melhor salário.” Uma mudança de perceção e de discurso será também crucial, por exemplo, acabar com a ideia de que os homens serão ameaçados com a ascensão social e profissional das mulheres: “Mais do que uma luta por igualdade de direitos en-

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tre géneros, esta é uma luta por direitos humanos. A ideia de igualdade de direitos deve estar no mesmo lado espectro e não em lados opostos como se fossemos inimigos”, esclarece Rita. A vontade de deixar um legado está presente de forma notória no discurso de Rita Matias, sendo o desejo igualmente visível na forma como encara a luta pela igualdade de género. Por isso, perceciona o assunto como “algo muito maior que nós. É sobre as gerações futuras, sobre aquilo que queremos para os nossos descendentes e para o mundo em que eles vão coabitar.”

"Foi em Angola que Rita também se apaixonou pela primeira vez pelo seu trabalho. Ao aperceber-se do impacto que as suas funções podiam surtir na vida das pessoas em seu redor, como era o caso dos colegas de trabalho, a empresário apercebeu-se de que podia atingir 'algo maior' e causar 'impacto'."


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Rita Matias

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LOUISE KANEFUKU, UMA CARREIRA INTERNACIONAL SEM MEDO DE DESAFIOS Designer gráfica e ilustradora há mais de 15 anos, o seu percurso começou no Brasil, teve uma paragem pelo Japão e aterrou em Portugal. Criou a Woolf Studio, estúdio de design com foco no empreendedorismo feminino, sem medo de enfrentar desafios e intuito de parar por aqui.

Louise Kanefuku, fundadora da Woolf Studio, é designer gráfica e ilustradora há mais de 15 anos. Nasceu no Brasil, onde se licenciou em Artes Visuais na Universidade do Rio Grande do Sul. Conseguiu desenvolver-se profissionalmente com condições favoráveis, abrindo a sua própria empresa aos 23 anos. O Brasil não é um país fácil de viver, conta Louise, mas oferece muitas oportunidades para quem tem uma boa rede profissional. Aprendeu a ser empreendedora, resiliente e disciplinada, algo muito importante “ num contexto onde a economia é mais instável.” UMA CARREIRA VIAJADA Graças a um programa do governo japonês, morou no Japão durante seis meses, beneficiando de uma bolsa. Para a designer, em cada lugar se aprende coisas diferentes, tendo em conta “o momento de vida e as condições que temos em determinado local.” Apesar da estadia curta estadia, sentiu a diferença de viver num país seguro e com uma economia estável, onde existe mais para ir e vir e os preços são mais constantes. Trabalhou numa gráfica, onde aprendeu a respeitar processos, cumprir horários e dar atenção aos mais pequenos detalhes: “No Japão, o visual das embalagens, publicações e anúncios é fortemente influenciado pelas estações do ano. Na primavera, por exemplo, todas as embalagens estão cobertas de flores de cerejeira e isso tem uma finalidade comercial, mas, ao mesmo tempo, é poético que as pessoas se deixem sensibilizar por isso”, esclarece Louise. O Japão é distinto pela sua cultura de idolatria ao cliente, que Louise acha ligeiramente exagerada, mas que acabou, inevitavelmente, por absorver um pouco. Chega até ser um pouco engraçado para si, partilhando uma das histórias que considera mais

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©Martina Alves

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caricatas: “Por um sinal de respeito, não se deve virar as costas ao cliente. Então, quem faz o atendimento, quando precisa deixar a sala, por exemplo, vai andando de costas até a porta, para não ficar de costas para o cliente. “ Mais tarde, com vontade de voltar a apostar na formação, mudou-se para Portugal para tirar o mestrado em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. No mundo artístico, é importante“ ter conhecimento do panorama geral da História, para saber em que ponto dessa grande narrativa estamos atuando e podermos ‘entrar na conversa’; receber a crítica e as sugestões dos professores e dos colegas.” É como um grande laboratório, resume. Para além da formação ser importante para a inserção no mercado de trabalho, a academia é um local de criação de contactos. Louise revela que conheceu muitos dos seus melhores amigos na faculdade e que ainda hoje trabalha com profissionais que conheceu nessa altura: “É uma ótima maneira de conhecer pessoas que partilham dos mesmos interesses e aspirações.” Em Portugal, viveu uma realidade muito diferente - a do imigrante. Paralelamente ao mestrado, tentou entrar no mercado de trabalho português. Começou por procurar em cafés e restaurantes, sem sucesso. Em empresas teve o mesmo desfecho. Louise relembra que pela primeira vez sentiu o preconceito contra brasileiros: “Foi bastante difícil de lidar, porque nunca tinha vivido na pele pertencer a uma população desprivilegiada.” Apesar desse primeiro impacto, foi no Porto que conheceu o“ valor da solidariedade”, principalmente entre mulheres. Também aprendeu a diminuir o ritmo e a ter mais paciência. “Acho que o brasileiro está acostumado a viver num ritmo muito acelerado que, num primeiro momento, entra em conflito com a cultura local. É bom aprender a viver esse outro tempo, com mais respiro e menos ansiedade. Respeitar o tempo de maturação das ideias e o tempo dos outros.“ Destaca o ar romântico da Cidade Invicta, onde “as ruas têm nomes como Saudade e Alegria, os muros têm frases poéticas e intervenções artísticas, e um respeito pelo que é antigo, pela história das coisas, que é muito bonito.” É nessa beleza do mundo que a rodeia que Louise encontra inspiração, “tudo influencia e pode inspirar o nosso trabalho - a leveza de uma folha, o movimento do tecido.” A beleza das coisas transmite-lhe calma e estabilidade, algo que acredita estar em falta nos tempos em que vivemos. VALORIZAÇÃO DA MULHER EMPREENDEDORA No mundo dos negócios, a sua inspiração surge de outras mulheres empreendedoras que segue, nas redes sociais principalmente: “Não são profissionais consagradas ou ricas, mas estão trabalhando diariamente,

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para ter autonomia financeira e por uma causa.” "O 'normal' no mercado do trabalho é procurar estabilidade num emprego,” cumprir as tarefas receber um salário, ter férias”, algo que não critica; empreender é fora do comum. Quando a empreendedora é uma mulher, “muito provavelmente é porque ela tem uma história por trás dessa decisão que lhe dá forças para romper com esse primeiro normal e ainda com o segundo, que é o do cargo de chefia ser predominantemente masculino.” No caso de Louise, ainda existe um terceiro fator - mulher empreendedora imigrante, que requer ainda mais força, na sua opinião. Por isso mesmo, Louise acredita que o Dia Internacional da Mulher continua a ser extremamente importante, sendo uma data “com uma relevância

histórica, que valoriza a luta pela igualdade entre os géneros e a torna ainda mais conhecida." Desde os grande movimentos de rua que mobilizam milhares de mulheres nesse dia, e onde “podemos sentir a força delas, nos gritos, nos rostos, na união”, que serão sem dúvida diferentes este ano tendo em conta a pandemia, até a elementos mais simbólicos, que “pouco a pouco moldam uma cultura, possivelmente para melhor.” No dia 8 de Março, Louise irá fazer a abertura da sua exposição na Abreu Advogados com uma conversa com Isabel Sabina, outra mulher artista. A ideia surgiu em função da data e a designer acredita que estes pequenos gestos valorizam o trabalho da mulher e podem inspirar outras “é como uma pedra que cai na água mas vai reverberando.”

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LIDERANÇA NO FEMININO | Setembro de 2020

SER ARTISTA NO MEIO DE UMA PANDEMIA

©Alexandre Bisognin

Louise trabalhou como freelancer durante vários anos. No início da pandemia, os seus rendimentos provinham maioritariamente de oficinas de aquarela, feiras de rua e trabalhos artísticos, estando menos focada em serviços de design. Assim que terminou o mestrado, e com a impossibilidade de trabalhar na rua ou realizar oficinas, finalmente se dedicou à criação do estúdio - Woolf Studio - uma ideia até então estava em amadurecimento. Afetado profissionalmente pela pandemia, o seu companheiro juntou-se ao projeto, auxiliando nas áreas de programação, animação e vídeo. Ao trabalharem juntos conseguiram equilibrar o lado financeiro e, consequentemente, criar um ambiente mais harmonioso em casa. Ter estabilidade financeira é algo importante no processo de criar. Para Louise, essa é uma das dificuldades dos artistas em geral: “não é possível criar tendo preocupações referentes às necessidades básicas.” De momento, está a desenvolver um trabalho para a BMW Foundation do qual se orgulha bastante: “Toda essa energia, a perspetiva de ter bons trabalhos, em que somos criativamente desafiados e ao mesmo tempo valorizados, é bem estimulante para a criatividade. Parece que uma coisa boa vai puxando a outra. “ Para o futuro, tem planos de conseguir novas clientes para que mais mulheres possam encontrar realização profissional, além de se tornar nómada. Claramente, Louise não é mulher de recusar desafios ou viver pelo seguro.

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Louise acredita que o Dia Internacional da Mulher continua a ser extremamente importante, sendo uma data “com uma relevância histórica, que valoriza a luta pela igualdade entre os géneros e a torna ainda mais conhecida''. Desde os grande movimentos de rua que mobilizam milhares de mulheres nesse dia, e onde “podemos sentir a força delas, nos gritos, nos rostos, na união”


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fotografia M23studio

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