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Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, eu leio Corto Maltese. Umberto Eco

Figura alta e esguia, de cabelo preto e pele morena, vestida com uma longa jaqueta militar preta, quepe branco com a aba inclinada sobre os olhos e brinco de ouro na orelha esquerda. Assim podemos descrever Corto Maltese, a personagem emblemática criada por Hugo Pratt, que se tornou uma referência cultural no mundo da Banda Desenhada e da literatura do século XX. Nascido em Malta, filho bastardo de um marinheiro inglês e de uma cigana prostituta andaluza, Corto Maltese é um viajante incansável sempre à procura de novos lugares longínquos, um anti-herói fiel aos seus ideais, um aventureiro que traçou o seu próprio destino ao marcar nas suas mãos uma linha da sorte com um canivete. É uma das muitas jornadas deste marinheiro, guiado pelos valores de justiça e liberdade, que a Fundação Eugénio de Almeida dá a conhecer com a exposição Corto Maltese: Viagem à Aventura. São 51 obras que retratam as deambulações de um personagem rico em encontros e expedições, uma figura que dá vida às viagens de Pratt pelo mundo, sendo, no fundo, o seu Alter-ego. Em Corto Maltese, a perspetiva do autor veneziano é a de alguém que cruza períodos e momentos da história como sua testemunha, e que convive com personalidades como Jack London, Butch Cassidy, Ernest Hemingway ou Joseph Stalin. Mas é também a relevância literária que a obra de Pratt representa no panorama da Banda Desenhada mundial, aquela a que o próprio chamou de “literatura desenhada”, que a Fundação Eugénio de Almeida pretende distinguir com esta exposição. Em Corto Maltese: Viagem à Aventura relembra-se o herói forte, denso e credível que o desenhador criou a partir da influência e inspiração de referências literárias, cinematográficas, artísticas, históricas e maçónicas. O capitão maltês que fez do artista um símbolo da eloquência do Cartoon Smart. Hugo Pratt dizia, “As minhas viagens são, para mim, a ocasião de ir a um local que já existe na minha imaginação, no meu mundo interior (…) A minha geografia é sempre relegada a um mundo literário e fantástico”. É este mundo, onde a realidade se cruza com a imaginação, que propomos descobrir em Corto Maltese: Viagem à Aventura.

Eduardo Pereira da Silva Presidente do Conselho de Administração da Fundação Eugénio de Almeida

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Saint-Malo – Se vieres connosco, alugo uma Limusine. Vamos primeiro ao festival des étonnants voyageurs em Saint-Malo e depois a Broceliande, tu, a Patrizia, o Gianluigi e o Latino.Vai ser divertido. – Tenho de preparar a exposição do Wolinski e estou com receio de não ter tempo. – Vais conseguir, já tenho a Limusine. Consegui. Combinámos encontrar-nos no Café de Flore, em Paris, onde eles passariam para me apanhar. Chegaram, não na Limusine, mas no carro do Gianluigi, o marido da Patrizia. O Hugo vinha sentado à frente com uma grande almofada atrás das costas, tipo almofada para dormir. O Gianluigi conduzia e a Patrizia e o Latino, um editor amigo, que vive em Paris, seguiam atrás comigo. Parámos na Hachette para comprar mapas e partimos em direção a Saint-Malo, com um pequeno desvio para ver la roche aux fées, um imponente dólmen. Quando chegámos a Saint-Malo, entrámos no hotel que ficava na Chaussée du Sillon. Era um pequeno hotel sobre a praia gerido por um casal de ex-jornalistas com um grande cão. Todos os quartos tinham o nome de um mago ou de uma fada: Merlim, Viviana, Morgana… Enquanto tomávamos o pequeno-almoço na sacada com vista para a grande praia: baguette, manteiga e compota, croissants, pains chocolat, caffè lungo a ferver, chegaram duas senhoras muito, muito curiosas. Tratava-se de uma editora, acompanhada de uma amiga. Pareciam saídas do filme de Tavernier, Um domingo no campo. Chapéu de palha com fita, um vestido branco e outro rosa pálido de algodão leve um pouco esvoaçante e saia franzida. Tudo enfeitado com rendas. As meias eram brancas, transparentes e, o que mais me surpreendeu, ambas traziam luvas brancas, imagino que de malha. O Hugo já sabia o que a editora queria, publicar um carnet de voyage sobre as ilhas do Pacífico e partir com ele, talvez também com a amiga e um escritor, numa longa viagem. – Não posso, já não vejo quase nada... estou meio cego. – Mais non! Vraiment? – Infelizmente, sim… Naturalmente, o Hugo fingia muito bem, dirigia-se à editora olhando para outro lado, entornava o café… As duas senhoras foram-se embora um pouco embaraçadas, dizendo: – A toute à l’heure, au festival… Depois de nos termos rido um pouco com a situação, fomos para o festival. Nesse ano era dedicado a Robert Louis Stevenson. Quando chegámos ao stand da editora Laffont, o Hugo cumprimentou a Alexandra Lapierre. O seu livro Fanny Osbourne, a história da mulher americana de Stevenson, acabava de ser lançado. O Hugo ofereceu-me uma cópia, com dedicatória da

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autora. Foi um presente encantador, um livro apaixonante onde as aventuras de Fanny, que casou pela primeira vez com Samuel Osbourne, um típico «lonesome cowboy» da lenda americana, e foi ela própria garimpeira de ouro no Nevada entre milhares de homens, vindo mais tarde a casar com Stevenson, onze anos mais novo, me fizeram mergulhar primeiro no mundo dos pioneiros, depois, no de uma mulher corajosa e empreendedora. Fanny não era nada convencional, tinha uma vontade de ferro, era mulher-mãe e musa do escritor, do homem frágil e sofredor que desde criança, doente dos pulmões, ouvia não só as histórias de Alison Cunningham, também conhecida por «Cummy», a enfermeira a quem viria a dedicar um livro de poemas, como também as histórias sobre naufrágios contadas pelo avô, pelo tio e pelo pai. Ouvia-os falar da necessidade de usar faróis para iluminar a costa escocesa, tão escura e insidiosa, e fantasiava. Devorei literalmente aquele livro e, alguns anos mais tarde, voltou-me à memória a história dos naufrágios e nasceu um dos mais belos livros das minhas edições I fari degli Stevenson (Os Faróis dos Stevenson), escrito e ilustrado por Giorgio Maria Griffa. Nos corredores, por entre os stands, encontrámos Lorenzo Mattotti. Na galeria do festival estava a sua exposição «Da Caboto a Stevenson» (De Caboto a Stevenson). Juntamente com Mattotti, tinha publicado recentemente Il padiglione sulle dune [The Pavillion on the Dunes] de Stevenson. Depois, encontrámos as duas floridas senhoras com as suas roupas esvoaçantes e projetos editoriais exóticos e grandiosos. Tão grandiosos que acabaram por ir à falência. – Oh Hugo tu es-là… – Quem és tu? Não vejo… Estendia as mãos para a frente tentando tocar o rosto da editora. – Mais Patrizia, il s’agit d’un chose si grave? Acho que a Patrizia a tranquilizou, dizendo-lhe que havia cura, mas que demorava muito tempo e por isso a viagem para os mares do sul não poderia concretizar-se. À noite fomos jantar a Cancale, queríamos todos comer moules et frites. Na manhã seguinte demos um curto passeio pela costa. O céu estava lindíssimo, com grandes nuvens que contrastavam com algumas áreas de céu azul. Ora estava sol ora encoberto, e o céu refletia-se no mar, sombras e luze também na água. O Hugo, o Latino e o Gianluigi falavam sobre música, ouvindo Maria Bethânia, Alibi, O meu amor, Negue… falavam também do seu irmão, Caetano Veloso. Eu ouvia e aprendia.Voltámos a Saint-Malo porque o Hugo tinha um encontro marcado com o Alvaro Mutis, no café litéraire do festival. À tarde, caminhámos pelo porto, num agradável passeio acompanhado pelo vento, pelo vibrar das enxárcias e pelo intenso aroma do mar. Sauvageries courtoises No verão de 1995, em julho, estava em Paris e queria passar


por Lausanne no regresso para Milão. O Hugo tinha adoecido gravemente há meses e queria muito visitá-lo. Liguei e atendeu-me a Nadège, há anos colaboradora e amiga da Patrizia e portanto de Pratt. A Patrizia estava a passar uns dias em Roma. – Olá Nadège, gostava tanto de ir visitar o Hugo, mas não queria incomodar. – Vou perguntar-lhe... sim, podes vir. Fiquei muito feliz e fui logo comprar o bilhete para o dia seguinte. No comboio, pensava no livro que ia fazer com Moebius, uma escolha de baladas de François Villon. Tinha a certeza de que iria falar dele ao Hugo e que ele iria apreciar esta combinação. Quando o comboio começou a contornar o lago, rebentou um temporal que remexeu a água e escureceu o céu, também os pensamentos que me chegavam se tornavam sombrios, tristes. Assim que cheguei, a Nadège acompanhou-me até à sala de estar. O Hugo estava sentado na sua poltrona às flores, tinha o cabelo muito curto e estava muito magro. Eu tentava disfarçar a emoção. – Olá, é bom ver-te e poder ficar cá a dormir. – Também eu gosto muito de te ver. Chegas de Paris? Andas a trabalhar em alguma coisa? – Sim, num novo livro da minha coleção de clássicos, As baladas de Villon ilustradas por Moebius. – Muito bem, Moebius para Villon, é perfeito. Conheces As Cartas de uma Freira Portuguesa? – Sim, li-as recentemente, gostei... toda aquela paixão, aqueles delírios.. – O Manara ilustrá-las-ia muito bem, queres que lhe ligue? – Sim, claro. – Olá Luisa, passa-me ao teu marido... Milo, vou passar-te a uma editora que te vai propor um livro. Assim nasceu o clássico ilustrado Lettere di una monaca portoghese [Cartas de uma Freira Portuguesa]. Depois, o Hugo perguntou-me pela minha filha, o que estava a estudar e recomendou-me a literatura americana do final do século XVIII e início do século XIX. Deu-me os títulos dos livros para eu lhe sugerir: I racconti di Calza di cuoio [The Leatherstocking Tales] de James Fenimore Cooper, La lettera scarlatta [A Letra Escarlate] de Hawtorne, e, principalmente, Passaggio a Nord Ovest [Northwest Passage] de Kenneth Roberts. – Sabes que queria ilustrar o Passaggio a Nord Ovest, mas não cheguei a acordo com o teu amigo... Queres ilustrá-lo tu? – Oh, gostava… mas temo que os custos sejam demasiado elevados, tem tantas páginas… – Mas os meus livros vendem-se. Continuámos a conversar como se tudo estivesse normal, como se o tempo ainda lhe permitisse criar aguarelas para ilustrar mais de oitocentas páginas. Era maravilhoso falar dos projetos, mas igualmente triste. Em seguida, falámos da doença, da dor física. Jantei com Nadège e Anna, a enfermeira irlandesa de cabelo

encaracolado que parecia saída de um desenho seu. O Hugo sentado na sua poltrona, ali perto. Depois do jantar, conversámos um pouco e depois desculpou-se, dizendo: – Tenho de ir para a cama cedo, mas vamos todos para o meu quarto e vemos um DVD. Há quem me chame «o velho Pratt», mas eu tenho todos os objetos tecnológicos mais recentes. Olhava-o deitado na cama, a emoção provoca efeitos estranhos, parecia-me jovem, um jovem soldado ferido. Na mesinha ao pé da cama tinha um CD, composições para piano de Sylvie Courvoisier, a pianista que tinha tocado intensamente para ele no dia de Ano Novo. O título, Sauvageries courtoises era do Hugo e a capa era uma aguarela sua. A Nadège pôs um filme com Brad Pitt, vi o princípio e, de seguida, arrasada por tudo, fui para a cama. De manhã, o Hugo chegou à sala depois de mim. Vinha ajudado pela Anna e pela Nadège e sentou-se à mesa, à minha frente.Atrás de si ficava a janela envidraçada sobre o lago e sobre os Alpes. Tomámos o pequeno-almoço juntos. Falava-lhe de um projeto que estava a acompanhar para uma empresa que fabricava pratos e os decorava com desenhos de Folon, Glaser e outros artistas. – Não me interessam os pratos, nem as chávenas. Interessa-me a aguarela que me deu e continuará a dar tanta satisfação. Enquanto dizia isto, lançava água manchada de tinta sobre uma folha de papel.A mesma água que, entre as suas mãos, tinha criado fadas, uniformes, rostos, camelos, bandeiras, mares. A água, a síntese da água em poucos traços. A hora de partida do meu comboio aproximava-se. – Posso voltar a visitar-te? – Vem sempre que quiseres, querida. Com aquele «querida» no coração fui para a estação, subi para o comboio, sentei-me do lado do lago. Olhava a água sabendo que não voltaria a vê-lo.

Cristina Taverna Curadora da exposição

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Hugo Pratt A poética da aventura Stefano Cecchetto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. (Fernando Pessoa)

A primeira vez que vi Hugo Pratt foi em Veneza, no outono de 1977, estávamos a jantar em casa de uma amiga comum, a Ninì Rosa von Richter que tinha inspirado uma personagem feminina das aventuras de Corto Maltese, a bela Esmeralda que surge logo nas primeiras histórias do autor. Naquele serão, cheio de amigos, de palavras e de velhas canções venezianas, Pratt era um pouco o fulcro, o centro das atenções, com as suas histórias contadas com graça e com o carisma fascinante que o distinguia. E enquanto passavam as horas, naquela sala entre barcarolas1 e reminiscências de viagens longínquas, a atmosfera ficava cada vez mais rarefeita, flutuante e líquida, quase diluída na água do canal que se vislumbrava das janelas, como se de repente tivéssemos todos entrado numa das suas encantadoras aguarelas. No final dos anos setenta,Veneza vivia num estado de equilíbrio entre a cidade que tinha sido e aquilo em que viria depois a tornar-se. É curioso que, no jogo de números de que Pratt tanto gostava, esse ano 1977 - fosse composto pela repetição do sete da cabala como que a reafirmar um conceito esotérico ou a sublinhar uma tenaz diferenciação. Naquela zona franca da cidade - ou seja, os salões - onde se encontravam músicos, homens de letras, artistas, arquitetos e poetas, era então possível encontrar um espaço para as ideias que proporcionava orientações para uma vida intelectual e moral marcadamente dedicada a viver o dia a dia de uma maneira mais compatível com a existência. Toda a obra de Hugo Pratt é uma longa história em imagens e o seu alter ego, o Corto Maltese que muitos homens invejavam pelo seu fascínio, pelas aventuras e as mulheres, nada mais é do que a transposição de uma identidade que o autor escolheu canalizar para uma personagem fictícia. Todas as ideias, as sensações, os sentimentos, as memórias que atravessam esta identidade transferida, todas as filosofias que pretendem interpretá-la, são substituíveis e mutáveis dentro das próprias histórias. Com a precisão de um estenógrafo, Pratt conta as suas histórias com uma atenção ao detalhe que encanta. As suas personagens - e as sombras que as atravessam - estão decididas a manter os seus segredos e a registar os passos resolutos que abrem uma rede de relações infinitas. Cada aguarela, cada prancha desenhada é uma modulação que leva o pensamento aos mais extremos confins do mundo. As aventuras, as histórias, os mistérios, os desejos e os sacrifícios, as vitórias e os desastres que têm lugar em cada vinheta tornam-se o microcosmos acessível da nossa consciência.

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Não há narrador moderno mais denso do que Hugo Pratt: as suas cores, as sombras, cada frase contida nas suas histórias - com a sua prosa dramaticamente seca - é a concentração de alguma verdade não expressa que, subitamente, toma forma e é gravada no papel. No marcado contraste do branco e preto das pranchas e nas fluidas transparências das cores diluídas na folha de papel das aguarelas, as personagens criadas por Hugo Pratt tomam forma e desempenham o seu papel como atores consumados que entram e saem de cena seguindo um guião bem organizado, mas com a viragem imprevisível de um momento inquieto e com o ímpeto repentino de um fascinante coup de théâtre. A sua visão do homem é desesperadamente romântica: Corto Maltese é a presença incansável da memória, um inadaptado da era contemporânea que vagueia desenraizado em busca de um mundo paralelo, onde as pessoas e as coisas são reconhecíveis, e onde o tempo ainda é capaz de contar o passado de uma existência ligada aos valores essenciais da vida. Mas a sua verdadeira atmosfera é a dúvida, apesar dos sonhos e das vagas visões de uma realidade possível. A interferência que o atinge continua definitivamente a ser a dúvida, à qual Pratt confere uma espécie de alegria infantil, uma subtil transparência ideológica que se torna magia narrativa. E a incerteza da dúvida decreta também a confirmação de uma instabilidade declarada: em muitas pranchas de Pratt, Corto Maltese é referido mais pela sua ausência do que pela sua fugaz presença. A escrita de Pratt habita o infinito: a síntese vertiginosa de cada frase sua é quase um diagnóstico, um concentrado alquímico de filosofia existencial que às vezes confunde, mas que depois traz o leitor de volta para fora da compenetração do sonho e para dentro da transparência e da leveza de uma realidade aparente. No percurso organizado para esta exposição em Évora quis-se refletir sobre o tema dos lugares e das distâncias: de Veneza a África, de Samarcanda às Caraíbas, e destacar a disponibilidade do viajante para com os outros - as muitas personagens das suas histórias - e para com os companheiros de viagem desconhecidos com os quais o artista passa algumas horas de conversação febril e que se tornam presença insubstituível de um itinerário do pensamento, finalmente tornado visível no papel. A viagem é assim símbolo de cada começo e descoberta de novos horizontes, mas também nostalgia do afastamento. O porto das expectativas é o lugar que revolve o jogo subtil das partidas e das chegadas, improváveis ​​e difíceis, e, nestas lacerações, os sobreviventes reclamam atenção, para vencer mais uma vez a monotonia da imobilidade.

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Mas ao escrever sobre este evento português não posso deixar de fazer um paralelo entre a poética do símbolo de Pratt e a poesia de Fernando Pessoa e os seus grossos óculos de miopia com que finalmente conseguiu ver ‘o além’. As diferentes formas de entender a viagem ligam estas duas muito importantes figuras da cultura do século XX de diferentes modos: se Pratt percorre os seus itinerários transferindo de um lado do mundo para o outro a inquietude da sua procura, Pessoa vai além das suas fronteiras nas muitas horas passadas nas bibliotecas da sua Lisboa, a ler policiais, a fumar cigarros e a beber café, com a discrição, a indumentária e o humor de um cavalheiro inglês. O poeta que nunca quis ser compreendido pelos homens, inesperadamente, vê-se reconhecido por quem ama a literatura que se nega a si própria, e pelos que amam o verso livre e o infinito. Pessoa passa a sua existência com a inquietação de uma dupla vertigem: a angústia de ser ele próprio, e o desejo de o ser, juntamente com a ansiedade multiplicada pelo terror e pelo desejo de se tornar outra pessoa: «Passei entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. [...] Ninguém supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaramme sempre idêntico a mim. [...] Saber bem que quem somos não é connosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos. Saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada sentimento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias sensações?». Esta multiplicação de rostos, este desdobramento da identidade repercute-se frequentemente nas personagens das histórias de Pratt, nos sonhos sonhados por outros. A sombra das figuras que Corto Maltese descobre nas suas incontáveis viagens corre hoje o risco de se tornar numa multidão: figurantes indefiníveis na cena viva de um exílio renovado onde os numerosos atores que a percorrem interpretam os múltiplos dramas simultaneamente. Se Corto Maltese é um nómada - fulgurante e indómito - que busca o infinito em cada uma das suas viagens, Pessoa é a alma inquieta que já tem o infinito dentro de si. E com a força de um médium, estas duas figuras cruzam-se e atravessam-se sempre à procura de um lugar capaz de acolher as sensações e as emoções de cada passado e de cada presente que possa levar-nos ao encontro de qualquer futuro possível e impossível.

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A Balada do Mar Salgado segue o ritmo das rotas marítimas, mas Pratt, enquanto desenha e escreve, tem sempre em mente o ponto final da sua história. Deste modo, enquanto tece a psicologia das personagens: que ao mesmo tempo se amam e se odeiam e que depois se matam por amizade, o autor demonstra-nos que a tragédia resultou em reconciliação e uma coincidência superior unificou os sinais dispersos de cada história inverosímil. A grande distância dos mares e dos ventos que combina todo o percurso desta exposição é o lado celeste do homem, mas a sua figura é tão diáfana que parece uma aparição. Os olhos de Corto Maltese são profundos como os de um mestre Zen que repete uma verdade única: a viagem mais longa é dentro de nós mesmos e a alma é o limite intransponível de todo o conhecimento. Apesar dos muitos afastamentos e tantas peregrinações de Hugo Pratt, o lugar central do seu pensamento é sempre Veneza. Não a Veneza de Tintoretto, Tiziano, Veronese, nem a Veneza patética dos passeios noturnos de gôndola, muito menos a Veneza platónica das atmosferas proustianas, posteriormente vilipendiada por Marinetti e pelos Futuristas. Mas a Veneza dos percursos internos, dos itinerários secretos, da arquitetura arcana, dos símbolos indecifráveis esculpidos na pedra de Ístria centenária. Uma cidade portátil, onde tudo o que existe e que importa está lá, nas proximidades. Uma cidade in forma urbis, onde ainda é possível encontrar pessoas na rua e artesãos a trabalhar. Nessa Veneza, Hugo Pratt ou Corto Maltese reflete e reflete-se ainda hoje nos tempos suspensos de um reconhecimento. É a cidade socrática a que Pratt viveu nas suas histórias, sejam elas reais ou imaginárias. A sua Veneza continua a ser o lugar ideal das partidas e dos incontáveis regressos, uma cidade intemporal que escande o tempo: tenaz como uma colmeia, mágica como uma aparição. Hugo Pratt. Anna na Selva. 1963 Óleo sobre tela / Oil on canvas 100 x 100 cm

1 Antigas ‘canções de barco’ venezianas que se cantavam nas embarcações como serenatas. 9


La Ballata del mare salato (A Balada do Mar Salgado), 1967 No limiar da Primeira Guerra Mundial, ao largo das águas melanésias no Pacífico Sul, um catamarã salva das ondas um homem amarrado a uma jangada. O salvador, incrível por sinal, é o louco pirata Rasputin. O náufrago, reduzido a esta condição pelo motim da sua tripulação, é Corto Maltese. O oceano também trouxe para bordo os jovens Cain e Pandora Groovesnore, que os piratas envolverão na mais inesquecível das aventuras marítimas, feita de canhoneiras alemãs, ilhas misteriosas e povos canibais. Mas também, e acima de tudo, de honra e amizade. A Balada do Mar Salgado, a história concebida e desenhada por Hugo Pratt em 1967, é considerada o bastião de toda a sua obra, mas a personagem de Corto Maltese, que é hoje inconfundível, naquela altura ainda procura encontrar-se, a sua biografia não é bem definida, mesmo o traço do símbolo é ainda incerto e nem ele nem Pratt estão ainda completamente seguros quanto ao seu rosto. Mas a história é determinada, a aventura é bem definida. Tudo na Balada segue o ritmo das rotas marítimas que contam também a psicologia das personagens, que se amam depois de se balearem, ou se matam por amizade, perdem o controlo e se reinventam, mesmo viajando no arquipélago da incerteza. Umberto Eco considera A Balada do Mar Salgado, uma obra-prima da literatura, uma história de exploração do Pacífico, que é também a história de gente que descobre uma terra que não procurava, uma louca errância entre ilhotas, barreiras de coral e continentes, errando a longitude, e onde o epicentro invisível e impossível de encontrar destas incursões é sempre as ilhas do Rei Salomão, que se dissolveram no ar. «É exatamente por esta errância que A Balada do Mar Salgado fica no espírito dos leitores como um evento, como o autêntico modelo de se fazer literatura através da banda desenhada, e a Escondida assume o lugar do universo narrativo da criatividade, onde Ismael se confunde com Mandeville, o Pacífico se esfuma na terra do Preste João, as cartas geográficas contradizem as palavras, que não especificam mas corroem os contornos do espaço, intersetam-se os paralelos, o atlas se reduz a um portulano duvidoso, e um Monge quase medieval poderá hastear, enobrecido pelos alísios, um emblema do Conselho dos Dez».

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“Corto Maltese - Uma Balada do Mar Salgado”. 1989 Aguarela / Watercolour 17,5 x 25 cm


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La giovinezza (A Juventude), 1981 Estamos em 1905 e o cenário desta história é o da guerra russo-japonesa pelo controlo da Manchúria. Trincheiras fumacentas, arame farpado destruído, barracões que cheiram a chá, fumo e feridos. Pequenas cidades fronteiriças atravessadas por soldados que envergam uniformes diferentes. Este é o universo de imagens que percorre A Juventude, uma história que Hugo Pratt escreve e desenha em 1981. Mas o elemento central, o nó irónico e real dos acontecimentos é dado pela presença de um correspondente de guerra muito importante: o escritor norte-americano Jack London. Será ele mesmo, no centro de um intrincado envolvimento, a apresentar Corto Maltese a Rasputin. Um Corto Maltese jovem, mas já perfeitamente delineado em termos de caráter, determinado, elegante e generoso, um protagonista que se confrontará posteriormente com Rasputin em muitos outros episódios, partilhando com ele as histórias e situações mais queridas ao seu autor: a magia da aventura e o constante respeito pelo sentimento de amizade.

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Corto Maltese “Corto Maltese - A Juventude”. 1985 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 49,5 x 34,5 cm


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“Corto Maltese - A Juventude�. 1985 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 50 x 35 cm


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Corte Sconta detta Arcana, 1974 Corte Sconta detta Arcana conta a grande aventura de Corto Maltese, que parte de Veneza e viaja até às fronteiras entre a Mongólia, Rússia e China no encalço de um misterioso comboio carregado de ouro. O percurso da história ramifica-se através de uma apaixonante perseguição que envolve as sociedades secretas chinesas, os «senhores da guerra», os independentistas mongóis, os exércitos bolcheviques e os exércitos «brancos» leais aos Czares. Corte Sconta detta Arcana, lugar mágico por excelência, é um pátio veneziano oculto atrás de uma porta misteriosa algures, no Gueto judeu, fora da passagem do tempo, numa dimensão de sonho, como o descreve o próprio Pratt na primeira prancha da história: «Em Veneza há três lugares mágicos e secretos. Um na Calle dell’amor degli amici, um segundo junto da Ponte delle Maravegie, o terceiro na Calle dei Marrani, perto de San Geremia no Velho Gueto. Quando os venezianos se cansam das autoridades constituídas, dirigem-se a estes três lugares secretos e, abrindo as portas ao fundo desses pátios, partem para sempre para locais lindíssimos e outras histórias». Corto Maltese vai muitas vezes dar a uma dessas portas e parte rumo ao enredo de aventuras incríveis, onde os protagonistas têm a densidade épica dos grandes romances do século XIX, como em Corte Sconta detta Arcana, onde conhece Shanghai Lil, a heroica combatente revolucionária, Rasputin, o elemento absurdo e imprevisível, Marina Semenova, a mulher aristocrática, fascinante e sensual, e o lendário Roman von Ungern-Sternberg, líder idealista, endemoniado e cruel. Do sonho inicial do Pátio Veneziano, os ecos da amada Veneza regressam frequentemente a esta exótica aventura, até à prancha em que Corto se interroga porque deve escolher «Urga e a Mongólia, em vez de um pátio secreto em Veneza»?

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Shanghai Lil, “Corto Maltese Corte sconta detta Arcana”. 1982 Aguarela / Watercolour 33 x 48 cm


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Marina Semenova, “Corto Maltese Corte sconta detta Arcana�. 1982 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 35 x 50 cm


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Gli scorpioni del deserto (Os Escorpiões do Deserto), 1969 A saga dos Escorpiões do Deserto inspira-se na unidade inglesa homónima irregularmente constituída no Egito em 1940 e utilizada pelo Estado-Maior Britânico juntamente com as tropas tradicionais, para se infiltrarem nas linhas inimigas em missões de reconhecimento, informações secretas e sabotagens. Hugo Pratt concebe a história em 1969, em cinco episódios diferentes que abrangem uma parte da segunda guerra mundial: 1940 a 1942. A coprotagonista das experiências vividas pelos Escorpiões é a África, com o seu mar, o seu deserto, os seus silêncios, a sua luz ofuscante e as sombras. Uma África habitada por personagens de todo o tipo e origem, cujos destinos se cruzam em alianças heroicas, a maior parte das vezes acidentais e inconscientes. África, de resto, é um lugar que pertence às recordações reais do autor, na medida em que, em 1937, com apenas dez anos, Hugo Pratt se mudou para a Abissínia para se juntar ao pai, funcionário colonial, e lá permaneceu até 1942. Recrutado pelo pai para a polícia colonial em 1941, o jovem Pratt toma contacto com o mundo militar de então, conhece os rapazes abissínios da sua idade e a sensualidade das mulheres, aprende a língua local e integrase perfeitamente numa realidade geralmente alheia aos colonizadores. Toda esta experiência, as memórias desta sua juventude africana, serão mais tarde o principal estímulo para escrever as histórias de Os Escorpiões do Deserto e identificar-se na personagem do capitão Koïnsky.

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De la Motte, “Os Escorpiões do Deserto” vol. 2. 1991 Aguarela / Watercolour 31,9 x 24 cm


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Tirailleurs sénégalais, “Os Escorpiões do Deserto” vol. 2. 1991 Aguarela / Watercolour 31,7 x 49,9 cm


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“Os Escorpiões do Deserto - Un fortin en Dancalie”. 1980 Tinta da china / Indian ink 4 Tiras / 4 Strips 16,5 x 48,2 cm


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Avevo un appuntamento (Tinha um Encontro Marcado), 1994 No livro Tinha um Encontro Marcado, produzido por Hugo Pratt em 1994, o autor narra as suas viagens pelo Pacífico, da Ilha de Páscoa a Pago Pago, de Rarotonga à Nova Irlanda. Cinco capítulos em que ressurgem as personagens, as histórias e os lugares tão frequentados também pelo cinema e pela literatura. Como a lendária fragata Bounty, ou a figura de Sadie Thompson, protagonista do filme Rain (Chuva) baseado no conto de Somerset Maugham, interpretada no ecrã primeiro por Gloria Swanson e depois por Rita Hayworth. Hugo Pratt e o seu alter ego, Corto Maltese, movimentam-se imperturbáveis em qualquer lugar e atravessam as histórias com a ajuda de um rico conjunto iconográfico, acompanhado de mapas antigos, cartas náuticas, documentos e ilustrações extraídas de velhas enciclopédias do século XIX. As aguarelas feitas por Pratt para ilustrar este seu importante Carnet de Voyage são fascinantes e poéticas e contam, com a aparente simplicidade do traço, a complexidade de histórias entrelaçadas e informações paralelas que fazem do livro: «um dos mais belos ensaios de antropologia estrutural que me foram dados a ler nos últimos anos», como afirma o sociólogo Omar Calabrese no seu prefácio.

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Corto Maltese “Tinha um Encontro Marcado”. 1994 Aguarela / Watercolour 30 x 40 cm


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Corto Maltese “Tinha um Encontro Marcado�. 1994 Aguarela / Watercolour 30 x 40 cm


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Robert Louis Stevenson em Vailima, Apia “Tinha um Encontro Marcado�. 1994 Aguarela / Watercolour 38,5 x 57,5 cm


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La casa dorata di Samarcanda (A Casa Dourada de Samarcanda), 1980 Nas Galerias da Academia, em Veneza, há uma pintura de Vittore Carpaccio, que se intitula: I diecimila crocifissi del monte Ararat (As Dez Mil Crucificações do Monte Ararat). Em junho de 1511, Francesco Antonio Ottoboni, o pároco de Sant’Antonino, a igreja veneziana mais próxima da entrada do Arsenale, sonhou que todos os dez mil crucificados entravam na sua igreja, coroados de espinhos, carregando a cruz às costas numa longa e silenciosa procissão. A terrível imagem destes mártires perturbou-o, mas ao mesmo tempo mostrou-lhe o presságio de que a paróquia se salvaria da peste. Em memória e agradecimento por esta proteção, as famílias venezianas que tinham visto os seus entes queridos partir para a guerra contra os turcos, reuniram o dinheiro necessário para erigir um grande altar e encomendar a Vittore Carpaccio a pintura que conta a história daquela extraordinária visão. A antiga perseguição ao povo arménio traz-nos hoje de volta aos eventos narrados por Hugo Pratt na sua história intitulada: A Casa Dourada de Samarcanda. Esta extraordinária aventura, concebida por Hugo Pratt em 1980, leva Corto Maltese ao Turcomenistão em busca do fabuloso tesouro de Alexandre Magno, onde se envolverá com os nacionalistas turcos numa guerra religiosa. Os problemas políticos entre turcos e arménios, que ainda hoje ressurgem, têm raízes históricas longínquas. A partir de 1890, criou-se um movimento arménio de rebelião que combateu o sultão turco causando terríveis massacres contra os arménios e as populações independentistas da Anatólia e, neste complexo episódio, entram os protagonistas da história narrada por Pratt. Albaneses, turcos, macedónios, arménios, drusos, maronitas, persas, russos, afegãos e tártaros, são os povos asiáticos que acompanham Corto Maltese, Rasputin e Venexiana Stevenson nesta grande aventura.

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“Corto Maltese - A Casa Dourada de Samarcanda”. 1980 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 2 Peças / 2 Pieces 36 x 50 cm


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Rodi 1923, “Corto Maltese - A Casa Dourada de Samarcanda”. 1987 Guache / Goauche 34,4 x 24,5 cm


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“Corto Maltese - A Casa Dourada de Samarcanda”. 1980 Tinta da china / Indian ink 2 Tiras / 2 Strips 16 x 48 cm


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Rasputin, “Corto Maltese - A Casa Dourada de Samarcanda�. 1992 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 24 x 32 cm


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Tango, 1985 Corto Maltese não julga a vida dissoluta de Buenos Aires: «Não sou ninguém para julgar. Só sei que sinto uma antipatia inata pelos censores, os árbitros... Mas, acima de tudo, são os redentores quem mais me incomoda.» Corto Maltese regressa a Buenos Aires depois de quinze anos de ausência e, apesar das partidas de bilhar e dos serões dançantes, a sua viagem não é de todo de lazer. Vai à procura de informações sobre «Warsavia», uma perigosa coligação de rufiões que não gostam de ser importunados. Mas Corto vai no encalço de uma menina, filha de uma querida amiga, que parece ter sido engolida pela cidade argentina, e a procura vai rapidamente envolvê-lo num caso sórdido. Amor, devassidão, jogo, morte. Eis o país do tango, onde em algumas noites o céu é iluminado por duas luas. Nesta história, dramatizada e desenhada em 1985, Pratt reencontra as atmosferas do tango e da Argentina, onde o artista se instala em 1949, para depois aí continuar a viver durante quase treze anos, ainda que de forma não continuada. Em Buenos Aires, Pratt começa a dançar o Tango em casa da família Farias Gomez: «De repente, esta música, que antes conhecia apenas superficialmente, conquistou-me». O Tango é um pensamento triste dançado: é um sentimento que se deve ouvir, ver, respirar e sentir dentro do coração. «Frequentava os bares de tango, uma espécie de grandes observatórios sexuais, onde o erotismo se expressa de uma forma natural através da dança». Poderia Corto Maltese não mergulhar neste ambiente, com o cabelo com brilhantina, para participar do rito sagrado, caminhar entre as vielas empedradas de San Telmo, observando o sorriso omnipresente de Gardel?

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“Corto Maltese - Tango”. 1985 Tinta da china / Indian ink 3 Tiras / 3 Strips 16,5 x 48 cm


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“Corto Maltese - As Célticas”. 1980 Aguarela / Watercolour 2 Peças / 2 Pieces 36 x 50 cm

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Pandora, “Les femmes de Corto Maltese�. 1994 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 24 x 32 cm

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Louise Brooks. 1984 Aguarela / Watercolour 35,8 x 24,7 cm

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Hipatia (Hipazia), “Les femmes de Corto Maltese”. 1994 Aguarela / Watercolour 21 x 30 cm

Tamara de Lempicka, “Les femmes de Corto Maltese”. 1994 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 30,9 x 46 cm

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“Saint-Exupéry - O Último Voo”. 1994 Aguarela / Watercolour 34,6 x 49,6 cm

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Corto Maltese, capa francesa de As Eti贸picas. 1978 Aguarela e tinta da china / Watercolour and indian ink 70 x 50 cm

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No Rasto de Corto. 1982 Aguarela / Watercolour 34,8 x 25 cm


No Rasto de Corto. 1982 Aguarela / Watercolour 34,8 x 25 cm

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“Corto Maltese - Sob a Bandeira do Ouro”. 1991 Aguarela / Watercolour 29,5 x 24 cm

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“Corto Maltese - Sob a Bandeira do Ouro”. 1991 Aguarela / Watercolour 29,7 x 21 cm

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Dutch Guyana (Suriname) “Corto Maltese - Suite caraibéenne”. 1990 Aguarela / Watercolour 35,8 x 27 cm

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Svend, “Svend - O Homem das Caraíbas”. 1977 Aguarela / Watercolour 48 x 60,5 cm

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Ilustração para o romance “À Sombra do Sol” (The Dark of the Sun) de Wilbur Smith. 1989 Tinta da china / Indian ink 29,7 x 21,1 cm

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“Corto Maltese - A Lagoa dos Belos Sonhos”. 1970 Tinta da china / Indian ink 23,2 x 36 cm

“Corto Maltese - Último Golpe. 1972 Tinta da china / Indian ink 23 x 36 cm

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“Corto Maltese - A Casa Dourada de Samarcanda”. 1980 Tinta da china / Indian ink 4 Tiras / 4 Strip 16 x 48 cm

“Corto Maltese - Concerto em O menor para harpa e nitroglicerina”. 1971 Tinta da china / Indian ink 23,3 x 36 cm

“Corto Maltese - Samba com Tiro Certeiro”. 1970 Tinta da china / Indian ink 23,2 x 36 cm

“A Macumba do Gringo - O Homem do Sertão”. 1977 Tinta da china / Indian ink 43,8 x 33 cm


Corto Maltese O Anjo Ă Janela do Sol Nascente. 1971 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

Corto Maltese O Ăšltimo Golpe. 1972 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

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Corto Maltese Uma Ă guia na Selva. 1970 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

Corto Maltese Leopardos. 1973 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

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Corto Maltese Burlesca Ou N達o Entre Zuydcoote e Bray-Dunes. 1971 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

Corto Maltese A Logoa dos Belos Sonhos. 1970 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

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“Corto Maltese - Fábula de Veneza”. 1977 Tinta da china / Indian ink 3 Tiras / 3 Strips 16,8 x 48 cm


Corto Maltese Sonho de uma Manh達 de Meados de Inverno. 1970 Tinta da china / Indian ink 2 Pranchas / 2 Sheets 47,5 x 36 cm

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SOBRE HUGO PRATT Hugo Pratt (1927-1995) é considerado um dos maiores romancistas gráficos do mundo. As suas bandas desenhadas, obras gráficas e aguarelas foram expostas em importantes museus como o Grand Palais e o Pinacothèque em Paris, o Vittoriano em Roma, o Ca ‘Pesaro em Veneza e o Santa Maria della Scala em Siena. A expressão «literatura desenhada» (romance gráfico) foi criado para definir o seu género artístico. Pratt foi citado por vários autores e artistas, entre os quais Tim Burton, Frank Miller, Woody Allen, Umberto Eco e Paolo Conte. Viveu na Itália, Argentina, Inglaterra, França, Suíça e viajou por todo o mundo. Hugo Pratt nasceu no dia 15 de junho de 1927 em Rimini, mas viveu toda a infância em Veneza, rodeado por um ambiente familiar muito cosmopolita. O seu avô paterno Joseph era de origem inglesa, enquanto o avô materno era judeu marrano e a avó tinha ascendência turca. Neste permanente cruzamento de raças, crenças e culturas, a sua mãe, Evelina Genero, era apreciadora das ciências esotéricas, da cabala à cartomancia, ao passo que o pai, Roland, era um típico homem da época, militar de carreira que, em 1936, foi transferido para a colónia italiana na Abissínia (atual Etiópia), o que marcou o início da juventude de Hugo Pratt em África. Quando tinha 14 anos, foi obrigado pelo pai a juntar-se à polícia colonial, entrando assim em contacto com o mundo militar da altura na Abissínia que, para além do exército italiano, incluía também os exércitos britânico, abissínio, senegalês e francês. O charme de todos estes diferentes uniformes, insígnias, cores e rostos ficará para sempre presente na sua vida e obra. Simultaneamente, travou amizade com outros jovens abissínios, o que lhe permitiu aprender a língua local e integrar-se num mundo geralmente vedado aos colonizadores. Foi nesse período que começou a interessar-se por romances de aventura e a ler avidamente os livros de James Oliver Curwood, Zane Gray e Kenneth Roberts. Descobriu também as primeiras obras de banda desenhada de aventura norte-americanas, especialmente «Terry and the Pirates», de Milton Caniff. Ficou tão impressionado que decidiu tornar-se cartoonista. Após a morte do pai, em 1943, regressou a Itália e frequentou o colégio militar em Città di Castello. Um ano depois, graças aos seus excelentes conhecimentos de inglês, tornou-se intérprete do exército aliado, para quem trabalhou até ao fim da guerra. Em 1945, já em Veneza, participou com alguns amigos na edição da revista de banda desenhada Asso di Picche (Ás de Espadas), que assinalou o início oficial da sua carreira como cartoonista. Graças a esta revista, o «Grupo de Veneza» foi contactado por uma importante editora argentina. Assim, em 1949, Hugo Pratt parte para Buenos Aires, onde viveu cerca de treze anos. Na Argentina, conheceu vários cartoonistas, como Salinas e os irmãos Del Castillo. Além disso, era frequentador assíduo de salões de tango, travou amizade com o músico de jazz Dizzy Gillespie, aprendeu espanhol e descobriu outros escritores latino-americanos, entre os quais Octavio Paz, Leopoldo Lugones, Jorge Luis Borges e Roberto Arlt. No que toca à vida amorosa, houve três mulheres especialmente importantes durante esta fase da sua vida. A primeira foi Gucky Wogerer, uma jugoslava com quem casara em Veneza em 1953 e com quem teve dois filhos, Lucas e Marina. A segunda foi Gisela Dester, de origem alemã, que começou por trabalhar como sua assistente e mais tarde se tornou sua companheira. A última foi Anna Frogner, uma belga que, na sua juventude, inspirou Pratt a criar a personagem principal de «Anna na Selva». Tiveram dois filhos, Silvina e Jonas. Na Argentina, Hugo Pratt criou várias obras de banda desenhada e trabalhou para a Editorial Abril. Começou por publicar a série «Junglemen» e, em 1953, criou para a revista semanal Misterix a personagem «Sgt. Kirk» com base no guião de Héctor Oesterheld que, em 1957, abriu a sua própria editora, Frontera, responsável pelo lançamento das revistas Hora Cero e Frontera, nas quais Hugo Pratt publicou «Ernie Pike» e «Ticonderoga», respetivamente. Ao mesmo tempo, Hugo Pratt e Alberto Breccia ensinavam desenho na Escuela Panamericana de Arte, entre cujos alunos se encontravam Walter Fahrer e José Muñoz. Alguns anos depois, quando esta escola de arte abriu portas no Brasil, Pratt passou seis meses em São Paulo. Inspirado pelo evidente contraste entre preto e branco na obra de Milton Caniff, começou a manifestar uma forte tendência para o realce dos elementos gráficos, começando a escrever as suas histórias em nome individual. A primeira foi «Ann y Dan» (título atual: «Anna na Selva»), publicada na revista argentina Supertotem.

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Entre os verões de 1959 e 1960, Hugo Pratt viveu em Londres. Apoiado por alguns guionistas ingleses, produziu algumas bandas desenhadas de guerra para a editora Fleetway Publication (publicadas na coleção War Picture Library), ao mesmo tempo que frequentava a Royal Academy of Watercolour. Em 1962, escreveu e desenhou «Capitan Cormorant» e «Wheeling». Dada a difícil situação económica que a Argentina vivia na época e a dificuldade em trabalhar como cartoonista no país, Hugo Pratt decidiu regressar a Itália. Entre 1962 e 1967, trabalhou para Il Corriere dei Piccoli (revista infantil italiana), desenhando «Le avventure di Simbad» (As Aventuras de Simbad) e «Le avventure di Ulisse» (As Aventuras de Ulisses). Além disso, criou «Billy James» em 1962 e «Le avventure di Fanfulla» (As Aventuras de Fanfulla) em 1967, com base nos guiões de Mino Milani, editor-chefe da revista, e «L’isola del tesoro» (A Ilha do Tesouro) e «Il ragazzo rapito» (Raptado), duas adaptações para banda desenhada dos romances homónimos de Stevenson. No mesmo período, colaborou com Alberto Ongaro na criação da série «L’ombra» (A Sombra). Em 1967, Hugo Pratt conheceu Florenzo Ivaldi, um genovês apreciador de banda desenhada. Juntos, decidiram publicar uma revista mensal para apresentar ao público italiano não só a obra produzida por Pratt na Argentina, mas também a nova e a clássica banda desenhada norte-americana. Na primeira edição da revista, a que chamaram «Sgt. Kirk», publicaram nove pranchas de um novo livro de banda desenhada intitulado «A Balada do Mar Salgado», onde surge pela primeira vez a personagem de Corto Maltese. Em 1969, por ocasião da 5.ª Feira Internacional em Lucca, Hugo Pratt conheceu Georges Rieu, editor-chefe da revista semanal francesa Pif, que decidiu publicar o seu trabalho em França. Durante a viagem de comboio entre Génova e Paris, Pratt decidiu ressuscitar Corto. Este seria o grande ponto de viragem na sua carreira. Corto Maltese reapareceu em abril de 1970, na série de banda desenhada «O Segredo de Tristan Bantam» que, graças à sua publicação numa revista de grande circulação, constituiu o verdadeiro ponto de partida da carreira de Pratt. De facto, a partir de 1971, passou a ser considerado pelos especialistas em banda desenhada como um dos mais importantes cartoonistas do mundo. As séries com a personagem Corto Maltese acabariam por incluir, no total, 29 histórias. O êxito que Corto Maltese obteve na França, rapidamente se alargou a Itália e, posteriormente, a muitos outros países. Hugo Pratt encontrou na França dos anos setenta uma atmosfera muito estimulante. Por conseguinte, deixou Génova e instalou-se em Paris, sem nunca deixar de viajar pelo mundo, acabando por tornar-se, ele próprio, uma «personagem» real, na medida em que Alberto Ongaro o retratou como herói de um dos seus romances e Milo Manara o transformou no protagonista da série «H.P. e Giuseppe Bergman». As redes de televisão de vários países, incluindo a estação pública italiana, RAI, produziram vários programas e reportagens sobre o autor e os locais descritos nas suas histórias. Para além de Corto Maltese, Pratt criou em 1969 a série de banda desenhada «Os Escorpiões do Deserto», publicada na revista Sgt. Kirk. A sua criação prolongou-se até 1994, totalizando cinco episódios, o último dos quais intitulado «Brise de Mer». Criou também quatro histórias para a série «Un uomo un’avventura» (Um Homem, Uma Aventura), publicada pela editora Bonelli: «L’uomo del Sertão» (O Homem do Sertão), «L’uomo della Somalia» (O Homem da Somália), «L’uomo dei Caraibi» (O Homem das Caraíbas) e «L’uomo del Grande Nord» (O Homem do Grande Norte), que em 1991 foi transposto para o filme «Jesuit Joe». Em 1983, escreveu «Tutto ricominciò con un’estate indiana» (Verão Índio) para Manara e, em 1991 «El Gaucho». Em 1984, criou «Cato Zulù». «Mu», a última aventura de

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Corto Maltese, foi publicada em 1988 na revista homónima editada pela Rizzoli. O livro de banda desenhada correspondente foi publicado em 1992. Também a força aérea italiana escolheu celebrar o seu 70.º aniversário através da imaginação de Hugo Pratt. «In un cielo lontano» (Num Céu Longínquo), publicado em 1993, é uma história sobre aviação cuja ação decorre no mundo colonial testemunhado por Pratt durante a sua infância. Em 1994, criou em conjunto com Patrizia Zanotti, sua assistente e colorista de longa data, a editora Lizard, que edita atualmente toda a sua obra. Hugo Pratt não só desenhou banda desenhada, como também a adaptou para romances como «Le pulci penetranti» (As Pulgas Penetrantes), «Jesuit Joe», «Il romanzo di Kriss Kenton» (O Romance de Criss Kenton), «Vento di terre lontane» (Vento de Terras Longínquas) e «Avevo un appuntamento» (Tive um Encontro). Contou a história da sua vida, incrivelmente preenchida de relatos e aventuras interessantes, em vários livros de entrevistas, como «Il desiderio di essere inutile» (O Desejo de Ser Inútil), «All’ombra di Corto» (À Sombra de Corto) e «Le memorie di Corto» (As Memórias de Corto). Além disso, produziu para a Einaudi a versão em romance de «A Balada do Mar Salgado» e «Corto Maltese na Sibéria», com publicação póstuma. A imaginação de Hugo Pratt deixou a sua marca indelével mesmo nas mais variadas vertentes publicitárias, desde um carro de fórmula 1 com as cores dos cigarros Gitanes e das mochilas Invicta, passando pelo anúncio do borbulhante Carpené Malvolti e por cartões telefónicos franceses. As personagens de Pratt surgem nos cartazes de vários filmes e nas capas de discos de artistas como Paolo Conte, Sergio Endrigo, Kadja Nin, Lio e Sylvie Courvoiseur. Enquanto Hugo Pratt exibia o seu trabalho em importantes museus de toda a Europa, incluindo o Grand Palais em Paris, Corto Maltese tornou-se o patrono de várias cidades, como Concarneau, bem como o tema de várias teses académicas. Além disso, o ministro da cultura francês, Jack Lang, atribuiu a Pratt o título de Cavaleiro das Artes e das Letras, Mitterrand ofereceu as histórias de Corto Maltese ao piloto de fórmula 1 Jacques Lafitte e Corto Maltese foi referido em vários filmes norte-americanos, como «Batman», de Tim Burton, e «Ana e as Suas Irmãs», de Woody Allen. No início de 1995, Pratt criou «Morgan», a sua última história, uma aventura romântica cuja ação decorre em Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Também começou a história «Uomini a sei zampe» (Homens de Seis Pernas) para a Agip, mas não chegou a terminá-la. Em 1995, concluiu a terceira parte de «Wheeling», com as suas últimas aguarelas sobre os índios da América do Norte para o prefácio do livro, que incluiu toda a coleção iniciada em 1962. Hugo Pratt vivia na Suíça desde 1983, na sua casa em Grandvaux, junto ao Lago de Lausanne, onde faleceu em 20 de agosto de 1995. Graças a si, o mundo oficial da cultura começou a mudar a sua atitude de frieza em relação à banda desenhada, pois muitos compreenderam que esta também pode ser considerada uma forma de arte. Umberto Eco afirmou: «Quando quero relaxar, leio um ensaio de Engels. Quando quero algo mais sério, eu leio Corto Maltese».

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When I want to relax, I read an essay by Engels. When I want something more serious, I read Corto Maltese. Umberto Eco

A tall, slim figure, with black hair and dark skin, wearing a long black military jacket, a white kepi with its visor half-covering his eyes, and a gold earring in his left ear. This is how we can describe Corto Maltese, the emblematic character created by Hugo Pratt that became a cultural icon in the world of 20th-century comic books and literature. Born in Malta, the illegitimate son of an English sailor and a gypsy Andalusian prostitute, Corto Maltese is a tireless traveller always looking for new distant places, an anti-hero faithful to his ideals, an adventurer who carved out his destiny by using a pocket knife to mark his fate line on his own palm. It is one of the many voyages of this sailor, guided by values of justice and freedom, that the Eugénio de Almeida Foundation presents with the exhibition Corto Maltese: a Voyage to Adventure. 51 works portray the wanderings of a character whose life was rich in encounters and expeditions, a figure that brought to life Pratt’s travels around the world, being essentially his alter-ego. In Corto Maltese, the Venetian author’s perspective is that of somebody who crosses through periods and moments of history as a witness and who associates with figures such as Jack London, Butch Cassidy, Ernest Hemingway and Joseph Stalin. But it is also the literary importance that Pratt’s work represents in the world of comic books, which he himself called “drawn literature”, that the Eugénio de Almeida Foundation seeks to honour with this exhibition. Corto Maltese: a Voyage to Adventure recalls the strong, deep and credible hero that Pratt created, influenced and inspired by literary, cinematographic, artistic, historic and Masonic references. The Maltese captain who made the artist a symbol of the eloquence of comics. Hugo Pratt said, “For me, my travels have been the chance to go to a place that already exists in my imagination, in my inner world (…) My geography has always been relegated to a world of literature and fantasy”. It is this world, in which reality is combined with imagination, that we propose to discover in Corto Maltese: a Voyage to Adventure.

Eduardo Pereira da Silva Chairman of the Board of Directors of the Eugénio de Almeida Foundation

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Saint Malo “If you come with us, I’ll hire a Limousine. First we’ll go to the EtonnantsVoyageurs festival at Saint Malo, and then to Broceliande, you, Patrizia, Gianluigi and Latino with me; we’ll have a great time.” “I have to organize Wolinski’s show, I don’t think I can make it.” “You must, I’ve already booked the Limousine.” In the end, I was able to go. We arranged to meet at Café de Flore in Paris, I waited for them there, and they would pick me up.They didn’t arrive in a limousine, but in a car that belonged to Gianluigi, Patrizia’s husband. Hugo was sitting in the front with a large cushion, a bit like a pillow, behind his back. Gianluigi drove. Patrizia and Latino, a publisher friend who lived in Paris, were in the back with me. We stopped to get some maps at Hachette, and we set off towards Saint Malo, with a quick detour to see the Roche aux fées, a massive dolmen. When we reached Saint Malo, we went to the hotel on Chausée du Sillon, a small hotel on the beach run by a couple, ex-journalists who had a large dog. All the rooms were named after a wizard or a witch, Merlin,Viviane, Morgan… While we were having breakfast in the bow window looking onto the wide beach, eating baguettes, butter and jam, croissants, pains chocolate, and lots of hot coffee, we saw two very strange women arrive.A publisher and her friend.They seemed like something out of Tavernier’s film, A Sunday in the Country. Straw hat with a ribbon; one of them was wearing a white dress, the other a pale pink garment in light cotton, billowing out here and there, pleated skirt, with lace decoration.White, transparent stockings.The most surprising thing for me was that both had white gloves, crocheted I guess. Hugo already knew what the publisher wanted: to publish a carnet de voyage on the Pacific islands, and to set off with him, perhaps with her lady friend and a writer as well, for this long journey. “I can’t, I can hardly see at all… I’m almost blind.” “Mais non! Vraiment?” “Unfortunately, yes, it’s true…” Of course, Hugo feigned his affliction very well. He spoke to the publisher looking in the wrong direction, and poured the coffee spilling it outside the cup… The two women left a little awkwardly, saying, “A toute à l’heure, au festival…” After having laughed a bit about all this, we went to the festival, which that year was dedicated to Robert Louis Stevenson. When we arrived at the publisher Laffont’s stand, Hugo greeted Alexandra Lapierre. Her book Fanny Osbourne, the story of Stevenson’s American wife, had just been published. Hugo gave a copy to me, with the writer’s autograph. It was a lovely gift, an exciting story of the adventures of Fanny, whose first marriage was to Samuel Osbourne, the typical ‘lonesome cowboy’ of American legend. She herself was

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searching for gold in Nevada amongst thousands of men. Her second marriage was to Stevenson, eleven years younger. I felt as if I was really there in the world of those pioneers, and then in the world of a brave and enterprising woman. Fanny was a world apart from conventions. She had an iron will, the writer’s mother-wife and muse, for that delicate and afflicted man who, as a child, with lung sickness, listened not only to the stories of Alison Cunningham, the nurse that he called “Cummy” to whom he would later dedicate a book of poetry, but also to his grandfather, uncle and father, who talked about shipwrecks. He heard them talk about the need for lighthouses on the Scottish coasts, so dark and dangerous, and his imagination ran riot. I literally devoured the book, and years later, I started thinking about stories of shipwrecks again, and the result was one of my finest editions, Stevenson’s lighthouses, written and illustrated by Giorgio Maria Griffa. In the corridors between the stands, we met Lorenzo Mattotti. His exhibition ‘From Caboto to Stevenson’ was on show in the festival’s gallery space. I had recently published Stevenson’s The Pavilion on the Links with him.Then we met the two flowery women with their billowing dresses and their exotic and ambitious publishing projects.Too ambitious, and they had in fact gone bankrupt. “Oh, Hugo, tu es-là…” “Who are you, I can’t see you…” He put his hands forwards, trying to touch the publisher’s face. “Mais Patrizia, il s’agit d’un chose si grave?” I think Patrizia reassured her, saying that it was curable, but it would have taken a long time, and so a voyage to the Southern Seas with Hugo was impossible. In the evening, we went to Cancale for dinner. We all wanted to eat moules et frites. Next morning, we went on a short trip along the coast.The sky was beautiful, large clouds contrasting against areas of clear blue sky. We constantly moved from sun to shade and back, and the sky was reflected on the sea, shadow and light on the water as well. Hugo, Latino and Gianluigi talked about music. We listened to Maria Bethânia, Alibi, O meu amor, Negue… and they talked about her brother Caetano Veloso. I listened and learned. Then we returned to Saint Malo because Hugo had an appointment with Alvaro Mutis at the festival’s literary café. In the afternoon, we strolled along the harbour, a lovely walk accompanied by the wind, the slapping of the halyards, and the pungent smell of the sea. Sauvageries courtoises In summer 1995, in July, I was in Paris, and I thought that I could return to Milan, stopping in Lausanne on the way. A few months earlier, Hugo had fallen seriously ill, and I wanted to go to see him. I phoned. Nadège answered. For some years she had been Patrizia’s colleague and friend, and therefore Pratt’s as well. Patrizia was in Rome for a few days. “Ciao Nadège, I would really like to pay Hugo a visit, but I don’t want to disturb him.” “I’ll go and ask him… yes, you can come.”


I was very happy about that, and I went to buy the ticket for the next day straight away. On the train, I was thinking about the book that I was about to publish, a selection of ballads by FrançoisVillon, with Moebius. I would tell Hugo about it. I was sure that he would like this combination.When the train reached the lake shores, a storm began that threw up waves on the water and darkened the sky. And as I got closer, my thoughts became darker and sadder. When I went into the house, Nadège immediately took me into the lounge. Hugo was sitting in his flowery armchair. His hair was cut very short, and he was very thin. I tried to hide my emotions. “Hi, it’s good to see you, it’s nice to be able to stop here and spend the night.” “I am happy about that as well. Have you come from Paris? Are you working on something?” “Yes, a new book in my series of classics, Villon’s ballads with illustrations by Moebius.” “Excellent, Moebius is perfect for Villon. Do you know The letters of a Portuguese nun?” “Yes, I read it recently, and I liked it… all that passion, that delirium.” “I think that Manara would be a good illustrator for the book, would you like me to call him?” “Yes, of course.” “Hello Luisa, could I speak to your husband…? Milo, I’d like you to talk to a publisher, she’d like to tell you about a book.” This was how the classic illustrated book The letters of a Portuguese nun saw the light. Then Hugo asked me about my daughter, what she was studying, and for her he suggested late 18th-early 19th century American literature. He gave me some book titles for her, The LeatherstockingTales by James Fenimore Cooper, The Scarlet Letter by Hawthorne, and above all, Northwest Passage by Kenneth Roberts. “You know, I wanted to illustrate Northwest Passage, but I was unable to reach an agreement with your friend… would you like to publish it?” “Oh, I’d like to… but I’m a bit afraid of the costs, there are so many pages…” “But my books sell well.” We went on talking like this as if everything were perfectly normal, as if he had enough time to create the watercolours to illustrate more than 800 pages. It was lovely to talk about projects, but desperately sad at the same time. Then we talked about illness and physical pain. I had dinner with Nadège and Anna, the Irish nurse with curly hair who looked like she had materialized from one of his drawings. Hugo stayed in the armchair close by. After dinner we talked a bit, and then he apologized to me, saying, “I have to go to bed early, but let’s all go to my room and watch a DVD. Some people say ‘old-fashioned Pratt,’ but in actual fact, I have all the latest technology.” I looked at him lying on the bed. Emotion has strange effects. He seemed young, a young wounded soldier. On his bedside table, he had a CD, piano music by Sylvie Courvoisier, the pianist

who had played so intensely for him on New Year’s Eve. The title, Sauvageries courtoises, was by Hugo, and the cover was one of his watercolours. Then Nadège put on a DVD with a film starring Brad Pitt. I watched for a bit and then, overcome by everything, I went to bed. The next morning, Hugo reached the lounge later than me, helped by Anna and Nadège. He sat at the table, his back to the windows looking out to the lake and the Alps. I was opposite him.We had breakfast together. I told him about a project that I was working on for a company that manufactured plates.They were decorating them with drawings by Folon, Glaser and other artists. “I’m not interested in plates and coffee-cups. I like watercolour, which has given me so much, and will continue to give me so much satisfaction.” While he said this, he dribbled some water with a little colour onto a sheet of paper.The same water that, in his magical hands, had created witches, uniforms, faces, camels, flags, oceans, and water. It all came down to water, worked with just a few touches. Soon I would have to leave to catch my train. “Can I come to see you again?” “You can come whenever you like, my treasure.” And with that treasure in my heart, I went to the station, I boarded the train, and sat next to the windows looking out to the lake. I looked at the water, knowing that I would never see him again.

Cristina Taverna Curator of the exhibition

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Hugo Pratt The poetry of adventure Stefano Cecchetto They say that I pretend or lie when I write. No such thing. It is simply that I feel by imagining. I don’t use the heart-string. (Fernando Pessoa) The first time I met Hugo Pratt was in autumn 1977 in Venice. We had been invited to dinner at the home of a woman who was a friend of both of us, Ninì Rosa von Richter, who had inspired a female character in the stories of Corto Maltese, the lovely Esmeralda who appeared in the author’s earliest tales. During that evening, with lots of friends, conversation and old Venetian songs, Pratt was the focal point, the centre of attention, with his dead-pan stories and his characteristically fascinating charisma. As the hours passed in that room, with all the barcarole1 and the recollections of distant voyages, the atmosphere became rarefied, fluctuating and liquid, as if borne on the water of the canal that could be glimpsed from the windows, as if in a moment we had all slipped into one of his lovely watercolours. Towards the late 1970s, Venice was on a watershed, in a balance between the city that it had been and what it would later become. It’s interesting that the numbers, which always fascinated Pratt, of that year, 1977, include the double seven of the Cabala, as if to prove an esoteric concept or underline a subtle difference. In that part of the city hallmarked by absolute freedom – I am referring to those society circles – where musicians, writers, artists, architects and poets met, you could sense a space for ideas that provided guidelines for an intellectual and moral life in which the objective was to live in such a way that everyday experience could be reconciled with existence. All of Hugo Pratt’s work comprises a long tale told with images. His alter-ego, Corto Maltese, envied by all men for his fascination, his adventures and his women, is simply the transposition of an identity that the author preferred to transfer to an imaginary character. All the ideas, feelings and memories that are carried by this transferred identity, all the philosophical approaches dedicated to its interpretation, may be replaced or changed within the stories. Pratt told his stories with the precision of a stenographer, with an enchanting attention to detail. His characters – and their shadows – are determined to keep their secrets and record the resolute steps that lead towards a web of infinite connections. Each watercolour, each drawing, is a modulation that leads thought towards the most distant ends of the earth. The adventures, tales, mysteries, desires, sacrifices, victories and disasters that take place in each panel become an accessible microcosm of our conscience. There is no modern storyteller who works at a density greater than Pratt’s. His colours and shadows, every sentence in his stories – with their dramatically condensed prose – is a concentrated distillation of unexpressed truths that abruptly take form and are recorded on paper. Hugo Pratt’s characters take form and play their role like experienced actors who come on stage and leave it according to a well-organized plot, but with the unexpected outcome of a restless energy and the sudden impetus of a spell-binding coup de théâtre, all within the stark contrast of the black and white of his drawings and the fluid transparency of the tints in his watercolours. His vision of man is desperately romantic. Corto Maltese is the indefatigable figure of time immemorial, someone who is not suited to contemporary living, a man who wanders without roots in the search of a parallel world, where persons and things are recognizable, and where time is still able to describe the course of an existence linked to the elemental values of life. But the real atmosphere is provided by doubt, notwithstanding the dreams and blurred visions of a possible reality. The interference affecting this reality is certainly doubt, to which Pratt gives a sort of childish joy, a subtle ideological transparency that becomes magical narrative. The uncertainty of doubt also provides confirmation of an explicit instability: in many of Pratt’s drawings, Corto Maltese is named more for his absence than for his fleeting presence. Pratt’s writing inhabits infinity. The succinctness of each of his sentences is like a diagnosis, an alchemical distillation of existential philosophy that may be somewhat disorientating, but that eventually leads the reader out from the dimension of a shared dream and into the transparency and lightness of an apparent reality. In the itinerary designed for this exhibition in Evora, the themes chosen for reflection are those of places and distances: Venice, Africa, Samarkand, the Caribbean, highlighting the traveller’s willingness to interact with other people – the innumerable characters of his stories – and with the unknown travelling companions with whom the artist spends a few hours in feverish conversation, and who become irreplaceable personalities in a train of thought that at last becomes visible on paper. The idea is therefore that of a journey, which symbolizes an open nature and the discovery of new horizons, as well as the nostalgia of separation. The longawaited port is the place that subtly shuffles the cards of improbable and problematic departures and arrivals. In these lacerations, the survivors call for attention, to defeat the monotony of immobility once again. But, writing for this event in Portugal, I am inevitably drawn to compare the poetry of Pratt’s motifs with the poetry by Fernando Pessoa and his thick shortsighted glasses with which he finally succeeded in seeing ‘beyond.’ The different interpretations of travel establish a link between these two figures, both important in 20th century culture, in different ways. In Pratt’s voyages, he moves the restlessness of his quest from one side of the world to the other. Pessoa on the other hand escapes from his frontiers within the hours spent

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in the libraries of his Lisbon, reading crime stories, smoking cigarettes and drinking coffee, with the discretion, garments and humour of an English gentleman. The poet who did not want to be understood by other men unexpectedly discovers that he is recognized by all who love the literature of self-contradiction, and by all those who love the freedom and infinity of verse. Pessoa lived his existence with the anxiety of a double vertigo: the desperation of being himself, and the desire to be so, along with the apprehension exacerbated by the fear and desire of becoming someone else: “I was like a foreigner in their midst, but no-one understood who I was. I lived like a spy amongst them, and no-one, not even myself, had an idea of who I was. Everyone thought I was a relative: no-one knew that I had been exchanged at birth. […] No-one imagined that beside me there was always someone else who, in the end, was me, they all believed that I was identical to myself. […] Knowing exactly what we are is not for us; that what we think or feel is always a translation, that what we want is that which we would prefer not to have. But surely all this knowledge, all these feelings, means that you are a foreigner in your soul, exiled in your thoughts?” This multiplication of figures and duality of identity often appears in Pratt’s stories, within those dreams dreamt by someone else. The shadows of the characters that Corto Maltese meets during his innumerable travels now risk becoming a crowd: indefinable actors on the stage, caught up in a renewed exile in which the many players taking part interpret the many faces of drama contemporaneously. While Corto Maltese is a wanderer – inspired and restless – searching for infinity wherever he goes, Pessoa is that restless soul who already possesses infinity inside himself. With the power of a medium, these two figures meet and cross, ever searching for a place that could express the sensations and emotions of every past and every present that could lead us to possible and impossible futures. The ballad of the salty sea follows the rhythm of ocean voyages, but while Pratt draws and writes, he always remembers the final destination of his story. He does this while he intertwines the psychology of his characters, who love and hate at the same time, and kill each other through friendship. The author shows us that tragedy is resolved by reconciliation, and a superior coincidence has unified the scattered motifs of every improbable story. The huge distances of the oceans and winds that are a constant presence in this exhibition correspond to man’s celestial nature, but its presence is so ephemeral that it seems to be an apparition. Corto Maltese’s eyes are as deep and dark as a Zen master who pronounces a single truth: the longest voyage is that within ourselves, and the soul is the impassable frontier of all knowledge. Notwithstanding Hugo Pratt’s distances and travels, the city central in his thought is always Venice. Not the Venice of Tintoretto, Titian and Veronese, neither that pathetic city of nocturnes in a gondola, nor the platonic atmospheres of Proust, so vehemently criticized by Marinetti and the Futurists. Pratt’s Venice is the city of hidden pathways, secret passages, arcane architecture, indecipherable symbols carved in centuries-old Istrian stone. A portable city, where everything that exists and that is necessary is there, close by. A city in forma urbis, where you can still meet people on the street, and craftsmen at work. In that Venice, Hugo Pratt, or Corto Maltese, mirrors, and is still mirrored by, the suspended times of recognition. The city that Pratt has inhabited in his stories, whether real or imaginary, is the Socratic city. His Venice remains the quintessential place for departures and innumerable returns. A timeless city that cadences its existence: as meticulous as a hive, as magical as an apparition.

1 Old Venetian ‘rowing songs’ sung in a boat as a form of serenade

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La Ballata del mare salato (The ballad of the salt sea), 1967 At the dawn of the First World War, in the Melanesian seas of the South Pacific, a catamaran finds a man tied to a raft and saves him. The rescuer is surprisingly none other than the mad pirate Rasputin; the shipwrecked sailor, abandoned in the sea by his crew, is Corto Maltese. The ocean also brought the youths Cain and Pandora Groovesnore on board, and they will all be involved with the pirates in an unforgettable series of adventures featuring the sea, German artillery men, mysterious islands and cannibal populations. It is above all a story of honour and friendship. La Ballata del mare salato (The ballad of the salt sea) is a story that was created and illustrated by Hugo Pratt in 1967. It is considered a pivotal masterpiece in his oeuvre, but the character of Corto Maltese, which is now familiar to all and unmistakable in his visual identity, is in that story still in the stage of development, with an as yet incomplete biography. The lines of the drawing are still tentative, as if Pratt were still searching for the exact appearance of his character. But the story itself is confident and clear. In the Ballad, everything is cadenced by the rhythm of routes on the sea, which affect the characters’ psychology. Sometimes they love after having shot at each other, or kill through friendship, or lose control and then start again. All this against the backdrop of the archipelago of uncertainty. Umberto Eco considered La Ballata del mare salato a masterpiece of literature, a story of Pacific exploration, and the story of people who discovered a land that they were not looking for, an endless search amongst islets, coral reefs and continents, making errors in longitude. The invisible, unfathomable focus of their wanderings are the Solomon islands, which have dissolved into thin air. “Their apparently aimless travels make La Ballata del mare salato a real event for its readers, an authentic prototype of the ability to create literature by means of the comic strip format. Escondida becomes a stage for the creative narrative, where Ismaele interacts with Mandeville, the Pacific blurs into the land of Gianni the Priest, the charts contradict the meaning of words which in turn do not precisely describe the dimension of space but corrodes it. Parallels intersect, the atlas is reduced to a dubious pilot book, and an apparently Mediaeval monk, benefitting from the trade winds, can hoist the banner of the Council of Ten.” La giovinezza (Youth), 1981 This story begins in 1905, and the setting is the Russo-Japanese War for the control of Manchuria. Smoking trenches, smashed barbed wire, huts that smell of tea, tobacco and wounded men; border cities inhabited by soldiers wearing different uniforms. This is the imagery running through La giovinezza, a story that Hugo Pratt wrote and illustrated in 1981. The central element, the ironic and real core of the affair, consists of the presence of a very important war correspondent: the North American writer Jack London. He will become intricately involved and will arrange the meeting between Corto Maltese and Rasputin. Corto Maltese is young in this story, but already perfectly formed in his character, determined, elegant and generous. He will come across Rasputin in many other tales, and will share with him the stories and situations that were most dearly loved by their author: the magic of adventure, and an incessant respect for the value of friendship. Corte Sconta detta Arcana, 1974 Corte Sconta detta Arcana tells the story of one of Corto Maltese’s great adventures, starting in Venice, and then moving to far-off lands, Mongolia, Russia and China, in search of a mysterious train and its cargo of gold. The story develops into an exciting chase, involving Chinese secret societies, “the lords of war,” Mongolian freedom fighters, the Bolshevik armies, and the “white” armies of troops loyal to the Czars. Corte Sconta detta Arcana is a courtyard in Venice, a magical location hidden behind a mysterious door somewhere in the Jewish Ghetto. It is a place that is isolated from the passage of time and exists in a dimension of dream, as Pratt himself says in the first page of the story: “In Venice there are three magical, hidden places. There is one in Calle dell’amor degli amici; a second is near the bridge Ponte delle Maravegie; the third is in Calle dei Marrani, near San Geremia in the Ghetto Vecchio. When the people of Venice have grown tired of the authorities, they go to these three secret locations, and, opening the doors at the back of those courtyards, they leave for ever to reach lovely places and new stories.” Corto Maltese often goes through one of those doors, and sets off on a series of incredible adventures, in which the characters have the epic depth of great 19th century novels. In Corte Sconta detta Arcana, he meets Shanghai Lil, the heroic revolutionary fighter; Rasputin, who represents the absurd and the unexpected; Marina Semenova, the intriguing and sensual aristocrat, and the legendary Roman von Ungern-Sternberg, idealistic, crazed and cruel warrior. From the initial dream of the Court of Venice, the echoes of his beloved city often return in this exotic adventure, right up until the scene in which Corto wonders why he should have to choose “Urgan and Mongolia, rather than a hidden courtyard (corte sconta) in Venice?” Gli scorpioni del deserto (Desert scorpions), 1969 The saga of the Desert Scorpions is based on a unit in the British Army, formed in Egypt in 1940 and used by the British High Command alongside traditional forces in order to infiltrate enemy lines on missions of reconnaissance, intelligence and sabotage. Hugo Pratt’s idea for the story took form in 1969, in five episodes covering part of the Second World War, from 1940 to 1942. The co-star of the Scorpion’s adventures is Africa, with its oceans, its sea of sand, its silence, blinding light and shadows. An Africa inhabited by people of all types and origins, whose destinies cross and interact in heroic alliances, nearly always unwitting and random. Africa was in fact a location of particular significance for the author, because in 1937, when he was just ten years old, he moved to Abyssinia to reach his father who was a colonial official. He remained there up until 1942. His father enlisted him into the colonial police in 1941, and the young Pratt came into contact with the military circles of the time. He met Abyssinian youths of about his age, and experienced the sensuality of the women. He learnt the local language, and seamlessly became a part of local society, a world that generally remained excluded from colonizers. All this experience and these memories of his youth in Africa would provide the major ingredients for writing the stories of the Desert Scorpions, recreating his own identity in the character Captain Koïnsky.

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Avevo un appuntamento (I had an appointment), 1994 In the book Avevo un appuntamento (I had an appointment), created by Hugo Pratt in 1994, the author describes his voyages in the Pacific, from Easter Island to Pago Pago, from Rarotonga to New Ireland; five chapters that bring to life the characters, stories and locations, that are frequently depicted in cinema and literature. For example, in the story of the legendary ship, the Bounty, or the figure of Sadie Thompson, heroine of the film Rain based on a short story by Somerset Maugham, acted on the screen first by Gloria Swanson and then by Rita Hayworth. Hugo Pratt and his alter ego Corto Maltese are unhindered as they move from one place to another, one story to another, accompanied by a vast series of images including ancient maps, nautical charts, documents, and prints from 19th century encyclopaedias. The watercolours painted by Pratt to illustrate this important travel diary are poetic and fascinating. With an apparently simple touch, they narrate complex, interwoven stories, with accompanying information that makes the book “one of the finest essays on structural anthropology that I have had the opportunity of reading in recent years,” as sociologist Omar Calabrese writes in the introduction. La casa dorata di Samarcanda (The golden house of Samarkand), 1980 In the Accademia Gallery in Venice, there is a painting by Vittore Carpaccio titled The ten thousand martyrs of Mount Ararat. In June 1511, Francesco Antonio Ottoboni, priest in the parish of Sant’Antonino, which is the church in Venice closest to the entrance to the Arsenal, dreamed all ten thousand of them, entering his church, crowned with thorns, each shouldering a cross, in a long and silent procession. The terrible vision of those martyrs profoundly perturbed him, and he realized that it was a sign indicating that the parish would be saved from the plague. To commemorate this protection and as a vote of thanks, the Venetian families who had seen their sons depart for the war against the Turks collected enough money to build a great altar, and they commissioned a painting from Vittore Carpaccio that would tell the story of that strange vision. The historic persecution of the Armenian people brings us back to the events narrated by Hugo Pratt in the story titled La casa dorata di Samarcanda (The golden house of Samarkand). In this remarkable adventure, written by Pratt in 1980, Corto Maltese travels to Turkmenistan in search of the fabulous treasure of Alexander the Great, but becomes caught up in a war of religion with the Turkish nationalists. The political problems between Turks and Armenians, which continue still today, have distant origins. As early as 1890, an Armenian revolutionary movement developed, fighting the Turkish Sultan, in turn provoking terrible massacres of Armenians and the populations of Anatolia struggling for their independence. It is against this complex backdrop that Pratt’s characters are developed in his story. Albanians, Turks, Macedonians, Armenians, Druze, Maronites, Persians, Russians, Afghans and Tartars are the Asiatic peoples who accompany Corto Maltese, Rasputin and Venexiana Stevenson in this great adventure. Tango, 1985 Corto Maltese does not pass judgement on the dissolute life of Buenos Aires. “I don’t have the authority to pronounce judgement. I only know that I have a deep-set distrust of censors and all those who police the world of ethics… Above all, I find saviours the most disturbing of all.” Corto Maltese returns to Buenos Aires after fifteen years of absence, and, notwithstanding billiards and dancing, he is not there for leisure. He is searching for information on the “Warsaw,” a dangerous conglomerate of rogues who do not want to be disturbed. Corto is hunting for a child, the daughter of one of his great friends, who seems to have been swallowed up by the Argentinian city, The quest to find her soon throws him into the midst of a sinister affair. Love, dissolution, games and death: this is the country of tango, where on certain evenings, the sky is lit by two moons. In this story, written and illustrated in 1985, Pratt rediscovers the atmospheres of Tango and Argentina, the country which the artist visited in 1949, remaining there for almost 13 years even though with some breaks. In Buenos Aires, Pratt began dancing the tango in the home of the Farias Gomez family: “Suddenly this music, of which I only had a vague knowledge at first, conquered me.” Tango is a sad thought that is danced: it is a feeling that has to be heard, seen, breathed and felt in the heart. “I was a habitué of the tango bars, which are like large sexual observatories, where eroticism is naturally expressed through dance.” There is no way that Corto Maltese could avoid being caught up in this atmosphere, with his lacquered hair, ready to attend the sacred ritual, strolling in the cobbled streets of San Telmo, and observing the ever-present smile of Gardel.

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ABOUT HUGO PRATT Hugo Pratt (1927-1995) is considered one of the greatest graphic novelists in the world. His strips, graphic works, and watercolors, have been exhibited in major museums, such as the Grand Palais and Pinacothèque in Paris, the Vittoriano in Rome, Ca ‘Pesaro in Venice, Santa Maria della Scala in Siena.The term “drawn literature” (graphic novel) was coined to define his genre. He has been cited by authors and artists including Tim Burton, Frank Miller, Woody Allen, Umberto Eco, and Paolo Conte. He lived in Italy, Argentina, England, France, Switzerland, and he traveled the world over. Hugo Pratt was born on 15th June 1927 in Rimini but he spent all his childhood in Venice in a very cosmopolitan family environment. His paternal grandfather Joseph was of English origin, while his maternal grandfather was a Marrano Jew and his grandmother was of Turkish origin.
In this melting-pot of races, beliefs and cultures steady mixing one with the other, his mother Evelina Genero was a lover of esoteric sciences, from cabala to cartomancy, while his father Roland was a typical man of that time, a regular that in 1936 was transferred to the Italian colony in Abyssinia, which marked the beginning of Hugo Pratt’s youth in Africa. When he was just 14, he was forced by his father to join the colonial police, thus coming into contact with the military world of that time in Abyssinia, which included not only the Italian army but also the British, the Abyssinian, the Senegalese and the French army. The charm of all those different uniforms, crests, colours and faces would be steady present in all his life and works. However, at the same time he also made friends with his Abyssinian peers, which allowed him to learn the local language and integrate in a world that usually colonisers never knew. During that period he got interested in adventure novels, eagerly reading novels by James Oliver Curwood, Zane Gray and Kenneth Roberts. He also discovered the first American adventure comic strips and particularly “Terry and the Pirates” by Milton Caniff, which impressed him so much that he decided to become a cartoonist. In 1943, after the death of his father, he returned to Italy and attended the military college in Città di Castello. Thanks to his excellent knowledge of English, in 1944 he became an interpreter for the allied army for which he worked until the end of the war. In 1945, Hugo Pratt took part in Venice together with some friends to the editing of the comics magazine Asso di Picche (Ace of Spades), which marked the official beginning of his career as cartoonist. Thanks to that magazine, the “Venice group” was contacted by an important Argentinian publishing house. In 1949 Hugo Pratt thus left for Buenos Aires where he then lived for about thirteen years. In Argentina he met several cartoonists like Salinas and the Del Castillo brothers. Moreover, he often went to tango dance halls, made friends with the jazz player Dizzy Gillespie, learnt Spanish and discovered other Latin-American writers like Octavio Paz, Leopoldo Lugones, Jorge Luis Borges and Roberto Arlt. As to his love life, three women where particularly important during this period of his life. The first one was Gucky Wogerer, a Yugoslavian woman that he married in Venice in 1953 and that gave him two children, Lucas and Marina. The second one was Gisela Dester, a woman of German origin that became first his assistant and then his partner. The last one was Anna Frogner, a woman of Belgian origin that, when she was a young girl, had inspired him the main character of “Anne of the Jungle”. They had two children, Silvina and Jonas. In Argentina, Hugo Pratt drew a great number of comic strips and worked for the publisher Editorial Abril. He first published the series “Junglemen” and then, in 1953, he created for the weekly magazine Misterix the character of “Sgt. Kirk” based on the script by Héctor Oesterheld, who in 1957 set up Frontera, a publishing house of his own that launched the magazines Hora Cero and Frontera, on which Hugo Pratt published, respectively, “Ernie Pike” and “Ticonderoga”. At the same time, Hugo Pratt and Alberto Breccia taught drawing at the Esquela Panamericana de Arte and among their students there were also Walter Fahrer and José Muñoz. When some years later that art school opened a branch in Brazil, Pratt spent six months in Sao Paulo. Inspired by the clear contrast between black and white in Milton Caniff’s works, his marked tendency to give predominance to graphic elements asserted itself and Pratt started to write his stories alone. The first one was “Ann y Dan” (current title “Anne of the Jungle”), which was published in Argentina on Supertotem. From the summer of 1959 to the summer of 1960, Hugo Pratt lived in London. Supported by some English scriptwriters, he produced there some war comic strips for Fleetway Publication (published in War Picture Library), while attending at the same time the Royal Academy of Watercolour. In 1962 he drew and scripted “Capitan Cormorant” and “Wheeling”. Since Argentina was going through a very difficult economic period that made it quite hard for cartoonists to work, Hugo Pratt decided to return to Italy. From 1962 to 1967 Pratt worked for Il Corriere dei Piccoli (an Italian children magazine), drawing “Le avventure di Simbad” (Simbad’s adventures) and “Le avventure di Ulisse” (Ulysses’ adventures). He also created “Billy James” in 1962 and “Le avventure di Fanfulla” (Fanfulla’s adventures) in 1967 on the basis of the scripts by Mino Milani, chief editor of the magazine, and “L’isola del tesoro” (Treasure Island) and “Il ragazzo rapito” (Kidnapped), two comic adaptations of the homonymous novels by Stevenson. In the same period he also worked with Alberto Ongaro creating with him the comic series “L’ombra” (The shadow). In 1967 Hugo Pratt met Florenzo Ivaldi, a Genoese lover of comics. They decided to publish together a monthly magazine to present to the Italian public not only their Argentinian production, but also the classic and new American comics. In the first issue of that magazine entitled Sgt. Kirk, they published nine plates of a new comic book entitled “Ballad of the Salt Sea” featuring for the first time the character of Corto Maltese. In 1969 Hugo Pratt met at the 5th International Fair in Lucca Georges Rieu, chief editor of the French weekly magazine Pif, who decided to publish Pratt’s comics in France. While on the train from Genoa to Paris, Pratt decided to resurrect Corto. That would be the turning point of his career.

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Corto Maltese reappeared in April 1970 in the comic series “The Secret of Tristan Bantam”, which, being published in a magazine with a great circulation, would be the real starting point of Pratt’s career. As a matter of fact, from 1971 on, Pratt was considered by comic experts as one of the most important cartoonists in the world. The series featuring Corto Maltese would include, in total, 29 stories. The success of Corto Maltese in France spread first to Italy and then to many other countries. Hugo Pratt found in the France of the Seventies a very stimulating atmosphere. Therefore, he left Genoa and settled in Paris while going on travelling throughout the world and becoming himself a real “character” to the extent that Alberto Ongaro made him the hero of one of his novels and Milo Manara turned him into the main character of the series “H.P. e Giuseppe Bergman”. The national TV networks of many countries, including the Italian public broadcasting company RAI, produced several programmes and reportage on him and the places described in his stories. In addition to Corto Maltese, in 1969 Pratt created the comic series “The Scorpions of the Desert” published on the magazine Sgt. Kirk. He developed it until 1994 creating, in total, 5 episodes, the last one of which was “Brise de mer”. He also created for the publisher Bonelli 4 stories for the series “Un uomo un’avventura” (One man, one adventure), “L’uomo del Sertão” (The man from Sertão), “L’uomo della Somalia” (The man from Somalia), “L’uomo dei Caraibi” (The man from the Carribean), and “L’uomo del Grande Nord” (The man from the Great North), which in 1991 was made into a film entitled “Jesuite Joe”. In 1983 he wrote for Manara “Tutto ricominciò con un’estate indiana” (Indian summer) and in 1991 “El Gaucho”. In 1984 he created “Cato Zulù”. “Mu”, the last adventure of Corto Maltese, was published in 1988 in the homonymous magazine edited by Rizzoli. The relative comic book was published in 1992. Moreover, the Italian air force chose to celebrate its 70th anniversary through Hugo Pratt’s imagination. “In un cielo lontano”, which was published in 1993, is a story about aviation set in the colonial world witnessed by Pratt during his childhood. In 1994 he set up in Rome together with Patrizia Zanotti, his assistant and colourist for many years now, the publishing house Lizard, which currently edits all Pratt’s works. Hugo Pratt not only drew comic strips, but also described them in his novels like “Le pulci penetranti” (Penetrating fleas), “Jesuit Joe”, “Il romanzo di Kriss Kenton” (Kriss Kenton’s novel), “Vento di terre lontane” (Wind from faraway lands) and “Avevo un appuntamento” (I had a date). He told the story of his life, which was amazingly full of interesting stories and adventures, in several interview-books like “Il desiderio di essere inutile” (The desire to be useless), “All’ombra di Corto” (In the shadow of Corto) and “Le memorie di Corto” (Corto’s memoirs). He also produced for Einaudi the novel version of “Ballad of the Salt Sea” and “Corto Maltese in Siberia”, which was published after his death. Hugo Pratt’s imagination left its unmistakable mark even in the most varied advertising fields, from a Formula 1 car featuring the colours of Gitanes cigarettes and Invicta knapsacks, to the commercial of the bubbly Carpené Malvolti and French phone cards. Pratt’s characters feature on many film posters, covers of records by singers like Paolo Conte, Sergio Endrigo, Kadja Nin, Lio and Sylvie Courvoiseur. While Hugo Pratt was exhibiting his works in several important museums throughout Europe like the Grand Palais in Paris, Corto Maltese became the patron of several towns like Concarneau as well as the subject of many degree theses. Moreover, the French Minister of Culture Jack Lang appointed Pratt “Knight of Arts and Letters”, Mitterand gave the Formula 1 driver Jacques Lafitte the Corto Maltese stories as present, and Corto Maltese was mentioned in several American movies like “Batman” by Tim Burton and “Hannah and Her Sisters” by Woody Allen. At the beginning of 1995, Pratt created “Morgan”, his last story, which is a romantic adventure set in Italy during the Second World War. He also started the story “Uomini a sei zampe” (Six-leg men) on behalf of Agip but he never finished it. In 1995 he also completed the third part of “Wheeling”, doing his last watercolours on the Indians of North America for the preface of the book, which included the whole series started in 1962. From 1983 on, Hugo Pratt lived in Switzerland in his home in Grandvaux on the Lake of Lausanne, where he died on 20th August 1995. Thanks to him, the world of the official culture has started to change its cold attitude towards comics, as a lot of people have understood that even comic strips can be considered as a form of art. Umberto Eco stated: “When I want to relax, I read an essay by Engels. When I want to read something hard, I read Corto Maltese.”.

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EXPOSIÇÃO | EXHIBITION Coordenação Geral | General Coordination Maria do Céu Ramos Direção de Projeto | Project Management Ana Cristina Baptista Coordenação de Projeto e Museografia | Project Coordination and Museography Comediarting - Evolucionarte Coordenação | Coordination Gong SA - Nadége Vainas Curadoria | Curatorship Stefano Cecchetto Cristina Taverna Colaboração Técnica | Technical Collaboration Fátima Murteira Hugo Monteiro Nazaré de Jesus Design de Comunicação | Communication Design Albuquerque Design de Iluminação | Lighting Design Vítor Vajão (Atelier de Iluminação e Eletrotecnia, Lda.) Montagem e Instalação | Installation Carlos Silva José Vieira Transporte | Transport Evolucionarte Seguros | Insurance Hiscox Portugal

CATÁLOGO | CATALOGUE Textos | Texts Eduardo Pereira da Silva Stefano Cecchetto Cristina Taverna Tradução | Translation Sintraweb Revisão de Texto | Proof Reading Elisabete Murta Design de Comunicação | Graphic Design laura.chavero diseño Seleção de Cor e Impressão | Color Separation and Priting Calidad Grafica Araconsa © All rights reserved © Cong SA, Grandvaux per tutti i disegni di Hugo Pratt. www.cortomaltese.com © Marco Steiner for the text Il corvo di pietra A special thanks to all the Hugo Pratt artworks lander © Dos textos: os autores | Texts: the authors Julho 2012 | July 2012

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Tiragem | Print Run 250 exemplares


Corto Maltese. Viagem à aventura  

Catálog pertenecianete a la exposición que va a tener lugar en Évora (Portugal) a partir del 25 de julio.