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Jornal das Lajes www.jornaldaslajes.com.br

FUNDADO EM 2003 - RESENDE COSTA

Perfil O trombonista resende-costense Orlando Belo visitou neste mês sua cidade natal e conversou com o JL sobre sua carreira na Alemanha, onde vive atualmente.

ANO XV

• NOVEMBRO 2018 • Nº187

15 anos

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Conheça o Movimento Pretas Presentes

Foto Larissa Gomes

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Esporte Torcida Sangue Azul comemora o hexacampeonato do Cruzeiro na Copa do Brasil. O Time Celeste é o maior vencedor da competição. PÁG 16

Educação A estudante resende-costense Bárbara Lana de Resende, 15 anos, aluna do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Assis Resende vai participar em Florianópolis do encontro de talentos da matemática. PÁG 11

Grupo se reuniu para fazer fotografias e chamar a atenção para a luta contra o preconceito

Nascido em Resende Costa em agosto deste ano, o movimento reúne vinte e duas jovens mulheres que produzem

e divulgam belos ensaios fotográficos nas redes sociais. As fotografias já são sucesso de curtidas no Facebook.

Mas o que as integrantes do Movimento Pretas Presentes desejam é despertar a sociedade para o infame precon-

ceito que infelizmente ainda existe contra mulheres negras. PÁG 11

Jair Bolsonaro e Romeu Zema conquistaram a maioria dos eleitores de RC Seguindo a tendência do que ocorreu em grande parte do Brasil e de Minas Gerais, Jair Bolsonaro (PSL), eleito presi-

dente da República, foi o preferido dos eleitores resende-costenses alcançando 3.175 votos, contra 2.881 de Fernando Ha-

ddad (PT). Para o governo do Estado, Romeu Zema (Novo) saiu vitorioso das urnas em Resende Costa com 3.299 vo-

tos. Antonio Anastasia (PSDB) teve 2.116 votos. Leia artigo do colunista Fernando Chaves. PÁG 05 e 06


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EDITORIAL É preciso estar vigilante

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A forte polarização entre a direita e a esquerda nas eleições deste ano deixaram profundas fissuras na sociedade brasileira. Desde o início das manifestações de 2013 contra a corrupção e contra o governo da então presidente Dilma Rousseff, a tensão política aumentou no Brasil. Posteriormente, o impeachment de Dilma e o desenrolar da Operação Lava-Jato, culminando na prisão do ex-presidente Lula, fizeram aumentar ainda mais a temperatura nos bastidores da política e na vida cotidiana do cidadão. Há muito não se via tanta discussão sobre política. Entre amigos, parentes, colegas de trabalho, no bar, no futebol, no churrasco de fim de semana nunca se falou tanto em comunismo, nazismo, fascismo, democracia. As rodas de conversa e os aplicativos de bate-papo nas redes sociais se transformaram numa grande sala de aula de filosofia política. Nunca foi tão claro, neste circo chamado sociedade, que necessitamos de quem nos represente, quem nos governe, quem nos mostre caminhos para superarmos as contradições e mazelas. O Brasil chegou dividido às eleições gerais de 2018. No primeiro turno, o número expressivo de candidatos à presidência da República indicava uma possível fragmentação na intenção de votos. As velhas lideranças políticas (Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Marina Silva, Lula...) vislumbraram um céu de brigadeiro diante do governo mais impopular da história recente do Brasil republicano. Seria fácil, na visão deles, emplacar um discurso convincente contra o governo do presidente Michel Temer, propondo fórmulas milagrosas capazes de tirar o país da crise política e econômica e assim conquistar o eleitor desesperado e incrédulo com a política. Só que se esqueceram de combinar com os russos. Enquanto PT, MDB, PDT e PSDB discutiam a relação, o pequeno PSL de Jair Bolsonaro deixava de ser uma marolinha para se transformar numa grande e irrefreável onda. Quando os veteranos da política acordaram, Jair Bolsonaro já tinha sido ungido “Mito” pela grande maioria da população brasileira; o novato Romeu Zema humilhava Antonio Anastasia em Minas Gerais; João Doria confirmava sua força em São Paulo e no PSDB; Wilson Witzel surpreendia no Rio de Janeiro, contrariando os prognósticos das pesquisas eleitorais. O cenário político brasileiro começava a ser redesenhado. A extrema-direita, alicerçada no discurso pró-segurança e anticorrupção, saiu do armário com a faca entre os dentes, determinada a ganhar as eleições e enterrar a esquerda. Por sua vez, a esquerda insistiu na desgastada e ineficaz retórica do “nós contra eles”, “golpe”, “Lula livre”. A ida de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad para o segundo turno agravou ainda mais a radicalização e a polarização do “nós contra eles”, direita e esquerda, democracia e autoritarismo, petismo e antipetismo. O PT tentou convencer a sociedade dos riscos que Bolsonaro poderia representar para a democracia. Mas foi em vão. O brasileiro ignorou e preferiu dar uma chance ao que, na visão de muitos, pode ser a gênese de uma nova política, com viés conservador, sobretudo na moral e nos costumes. Vai dar certo? A sensação é de desconfiança. Porém, passado o momento de euforia, é hora de prestar atenção às primeiras movimentações do governo em formação. A tentativa de intimidação à imprensa, vista nas primeiras entrevistas do presidente eleito, é muito grave. Revela o que muitos temem: traços de autoritarismo. Sem uma imprensa livre, uma oposição responsável, cumprindo seu papel de fiscalizar, e os outros poderes (Legislativo e Judiciário) autônomos, não haverá limites para qualquer intenção autoritária. Contudo, não devemos sofrer com antecedência, partindo da premissa de que o Brasil já vive, novamente, uma ditadura. Isso é exagero. Mas é preciso manter a vigilância para evitar que tal temor se concretize.

Jornal das Lajes Ltda Diretor Presidente e editor-chefe: André Eustáquio Melo de Oliveira Diretor de Redação: Rosalvo Gonçalves Pinto Editor Regional: José Venâncio de Resende Diretoria executiva: Eustáquio Peluzi Chaves (administração) e Antônio da Silva Ribeiro Neto (contabilidade).

Redação: Rua Assis Resende, 95 Centro - Resende Costa, MG CEP 36.340-000 TEL(32)3354-1323

De um ponto de vista JOÃO BOSCO DE CASTRO TEIXEIRA*

Crente. Católico. Cristão. Depois de falar sobre a crença em Deus, sobre ser ou não católico, a indagação agora é sobre ser cristão. Quem é o cristão? Os Atos dos Apóstolos falam dos primeiros cristãos como aqueles reconhecidos como adeptos do Caminho (At 9, 2), que é Jesus. Parece-me admirável: cristãos são os que se dispõem a percorrer o “caminho”, os que estão a caminho. Admirável, por quê? Entre outros motivos, porque quem está a caminho, está sujeito a tantas possibilidades: percursos fáceis e difíceis, planos e montanhosos, vislumbrantes e obscuros, gloriosos e derrotantes, carregados de esperança e desesperança. Quem faz o percurso, sabendo-o mais importante que o fim, já está no caminho da vida e da verdade. Isso é estupendo e determinante porque é manifestação autêntica da confiança naquele que nos pôs a caminho, independentemente da qualidade conseguida até o fim. Por isso, antes de mais nada, cristão é quem aceita percorrer o “caminho”, mesmo que às apalpadelas. O seguidor de Jesus, o

*Professor aposentado da UFSJ, membro da Academia de Letras de São João del-Rei.

Vandalismo contra o patrimônio cultural são-joanense ANDRÉ EUSTÁQUIO

Na madrugada do domingo, 21 de outubro, a cultura de São João del-Rei foi seriamente mutilada. Um rapaz de 21 anos,

Impressão: Sempre Editora Av. Babita Camargos, 1645 Contagem - MG Tiragem: 4000 exemplares Circulação: Resende Costa e São João del-Rei

Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.

com que espírito percorrer o “caminho”. Percorrer o caminho na certeza de que dos pobres em espírito é o Reino de Deus; de que os mansos herdarão a terra; de que os aflitos serão consolados; de que os que têm fome e sede de justiça serão saciados; de que os misericordiosos alcançarão misericórdia; de que os puros de coração verão a Deus; de que os que promovem a paz serão chamados filhos de Deus. Esses são os autênticos seguidores de Jesus. Encontram-se pelo “caminho”, com ou sem pertença a qualquer instituição religiosa. Percorrem o “caminho” iluminados por valores, cuja adesão supera qualquer limitação institucional, qualquer limitação de tempo e de espaço, de consciência e não. Movimentam-se e vivem na certeza de que caminham, na esperança de vida! Por isso, até ateus podem estar no “caminho” de Jesus. Ser caminheiros com Jesus.

Foto e situação do mês

Editoração e Site: Rafael Alves

Conselho Editorial: André Eustáquio Melo de Oliveira, Emanuelle Resende Ribeiro, José Venâncio de Resende, Rosalvo Gonçalves Pinto, João Evangelista Magalhães e José Antônio Oliveira de Resende.

cristão, é aquele que pelo caminho encontrou gente com sede e fome e a saciou; gente sem teto e nua, deu-lhe acolhida e a vestiu; gente doente e presa e a foi visitar (Mt 25, 31-46). O seguidor de Jesus é aquele que a “caminho” sabe que cada um tem o seu caminho, na sua imensa variedade, com circunstâncias peculiares, às vezes indecifráveis. Por conseguinte, não se permite, em hipótese alguma, “julgar” a autenticidade ou não do caminheiro (Mt 7,1). Está sempre a caminho, inclusive à disposição de quem quer que seja, mas “não julga” nem diante de uma total divergência de orientação no caminho, pois sabe que só Deus conhece os corações (Lc 16,15). O seguidor de Jesus conhece, ainda, a regra áurea daquele que percorre o “caminho”: Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. (Mt 7,12). Enfim, o seguidor de Jesus é iluminado pela esperança que nasce da verdade proclamada por Jesus, ao nos dizer

Antes e depois do vandalismo

estudante de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), escalou a portada da histórica Igreja de Nossa Senhora do Carmo – uma joia do barroco brasileiro, construída entre 1732 e 1759 – e danifi-

cou a escultura de um anjo barroco esculpido em pedra sabão. A escultura teve um dos braços quebrado. Frisa-se: O ATO DE VANDALISMO FOI COMETIDO POR UM ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO!


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CÂMARA DE RESENDE COSTA INFORMA

SISTEMA DE SEGURANÇA VAI MONITORAR PROPRIEDADES RURAIS EM RC

TRINTA ANOS DA CONSTITUIÇÃO CIDADÃ Marina Vale Assessora Jurídica da Câmara de Resende Costa

Na tarde de 15 outubro, em sessão ordinária da Câmara Municipal, o projeto de lei do Poder Executivo n° 104 foi aprovado pelos vereadores por unanimidade. Com a aprovação, fica autorizada a abertura de crédito especial no valor de R$ 6 mil (seis mil reais) para obtenção de um software que ajudará a Polícia Militar a executar o patrulhamento e proteção do Munícipio de Resende Costa, especialmente a zona rural.

O aplicativo “EarthBrasil Fazendas Protegidas” é um sistema que pode ser acionado por meio de um sinal de alerta emitido pelas áreas monitoradas que estiverem precisando dos serviços de segurança. Não haverá custos de adesão para os produtores rurais. É necessário somente um aparelho celular que consiga suportar o aplicativo. A ARCOSTA está realizando os cadastros dos interessados em sua sede na prefeitura.

O presidente da Câmara, vereador Abel do Nenego, ressaltou que o aplicativo vai facilitar o trabalho de todos os órgãos de segurança e que pode servir até para outras finalidades: “É um Software inteligente, que pode ajudar não apenas a Polícia militar, mas também o Samu, corpo de bombeiros e outras entidades. Sendo assim, permitirá um atendimento muito mais ágil à população. Parabenizo os envolvidos no projeto”.

O ano de 2018 é marcado pelo aniversário de 30 anos da Constituição Federal. Conhecida como “Carta Magna”, a Constituição Cidadã, promulgada em 05/10/1988, tornou-se o principal símbolo do processo de redemocratização nacional, assegurando a liberdade de pensamento e criando mecanismos para evitar abusos de poder do Estado. Nossa Constituição é a lei maior do País. Nela estão escritos os direitos e as obrigações de todos os cidadãos, as garantias individuais, as regras necessárias para se viver em sociedade. Sua elaboração contou com uma intensa participação da sociedade, dividida entre cidadãos e entidades representativas, que encaminharam suas sugestões e foram discutidas pelos parlamentares da época, acatando um grande número. A Constituição de 1988 ampliou a educação, colocando-a como dever do Estado, introduziu a defesa do consumidor como um direito fundamental, garantiu o acesso à cultura, reconheceu a importância da biodiversidade, forneceu aos cidadãos a possibilidade de participarem do processo legislativo apresentando projetos de leis, garantiu a independência dos poderes, instituiu o voto direto e secreto, proibiu a tortura e as demais penas cruéis, instituiu licença maternidade e paternidade, ampliou os direitos sociais,

instituiu o fim da censura, dentre várias outras revoluções de suma importância. Com a sua promulgação, ficou a cargo dos municípios formularem suas Leis Orgânicas, atendendo aos princípios constitucionais, com a finalidade de disciplinar as regras de funcionamento da administração pública e dos poderes municipais. A Lei Orgânica Municipal (LOM) é uma espécie de Constituição do município. Fica a cargo do prefeito fazer com que esta seja cumprida, sempre com a fiscalização da Câmara dos Vereadores. A Lei Orgânica do Município de Resende Costa foi promulgada em 20/03/1990, fundada na participação direta da sociedade, como forma de assegurar ao cidadão o controle do exercício do poder político, o acesso de todos a cidadania plena e à convivência em uma sociedade pluralista. Desde então, passou por diversas alterações ao longo dos anos, sempre em conformidade com a Constituição Federal. Conhecer a nossa Constituição é uma etapa imprescindível para o desenvolvimento e vivência dos cidadãos, para sua participação política na construção de uma sociedade mais democrática. A lei maior do nosso país representa o seu futuro, os caminhos para os brasileiros enfrentarem desafios garantindo o exercício da cidadania.


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GOVERNO MUNICIPAL INFORMA

Prefeitura de Resende Costa investe mais de R$ 360 mil em ampliação do cemitério A Prefeitura Municipal de Resende Costa está construindo um cemitério municipal anexo ao cemitério paroquial existente na cidade e que se situa no bairro Nova Resende. Para a realização da obra, a Administração está investindo R$ 360.380,89 em recursos próprios. A ampliação ocorre no espaço existente entre o cemitério e a quadra do bairro Nova Resende (antigo campinho). Há alguns anos se discute a necessidade de se resolver a situação dos cemitérios de Resende Costa, dado o aumento da população. O principal problema é a falta de espaço. Por isso, a Prefeitura se preparou para essa obra nos últimos anos, vista

como essencial pelo prefeito Aurélio Suenes: “O aumento ou construção de um novo cemitério é uma pauta que conversamos em campanha. Apesar da crise financeira, que afeta muito os pequenos municípios, nós nos organizamos e conseguimos transformar essa proposta em realidade. Acredito que vai solucionar esse problema por um bom tempo. Uma obra que está próxima de ser entregue”. Os dois cemitérios (conhecidos como “de cima” e “de baixo”) pertencem à Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, mas a Prefeitura Municipal colabora na manutenção, especialmente com o pagamento do salário do zelador/coveiro.

Obra ocorre no espaço existente entre o cemitério e a quadra do bairro Nova Resende

Novas ruas do bairro Nova Resende são contempladas com asfalto Novas ruas estão recebendo o asfalto em Resende Costa. A Prefeitura Municipal está realizando melhorias em vias localizadas no bairro Nova Resende. O investimento totaliza R$ 225 mil – R$ 45 mil em recursos próprios e o restante proveniente do Ministério das Cidades. As ruas calçadas agora são: Rua Carmen Geralda Daher, Rua Alcides Gabriel de Resende (parcial), Rua Deputado Sebastião Patrus de Souza (parcial) e Travessa Noemi Resende Maia. O bairro Nova Resende tem sido beneficiado em todas as últimas etapas de calçamentos na cidade e, ao fim, terá 100% de suas ruas asfaltadas. Um bom revestimento asfáltico valoriza a rua, visto que há uma diminuição no fluxo de sujeira devido à sua baixa aderência aos resíduos em geral. O asfalto também aumenta a segurança

Mais obra! Escola Conjurados ganhará novas salas de aula Mais uma vez, a Escola Municipal Conjurados está em obras para melhorar a qualidade da estrutura e atender com mais conforto os alunos matriculados na instituição de ensino. Desta vez, estão sendo construídos, no espaço da antiga quadra, quatro novas salas de aula com lavabo, uma sala de leitura/biblioteca e banheiros acessíveis. A Prefeitura Municipal de Resende Costa

está investindo um total de R$ 333.200,56 em recursos próprios nas melhorias, com o objetivo de preparar espaço para atendimento à meta 6 do PME (Plano Municipal de Educação), que prevê o seguinte: “Oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos alunos da educação básica”.

Rua Carmem Geralda Daher foi asfaltada recentemente

para motoristas e pedestres, e minimiza problemas cau-

sados pelas condições climáticas.

Obras na Escola Conjurados vão melhorar atendimento aos alunos


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Política

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232ª Zona Eleitoral de Resende Costa conclui mais uma eleição, desta vez em quatro munícipios Nós precisamos, por exemplo, trocar uma urna em Córrego Fundo, divisa de São Tiago com Resende Costa. É bem longe. Nós levamos um tempinho. A troca de uma urna leva em torno de 40 minutos até o técnico chegar e levar a urna substituta. Mas no geral foi muito positivo, pois a gente teve o apoio das prefeituras.”

ANDRÉ EUSTÁQUIO

Às 19h e 21min da noite do domingo, 28 de outubro, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proclamou Jair Messias Bolsonaro (PSL) presidente eleito da República Federativa do Brasil. Ele venceu, em segundo turno, o candidato do PT Fernando Haddad com 57,8 milhões de votos (55,13%). Haddad alcançou 47,4 milhões de votos (44,87%). Em Resende Costa (MG), Bolsonaro atingiu 3.175 votos (52,43% votos válidos), contra 2.881 (47,57% votos válidos) de Fernando Haddad. Na disputa pelo governo de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) derrotou com ampla margem de votos o senador e candidato do PSDB Antonio Anastasia, 71,80% x 28,20%. Em Resende Costa, Zema foi o candidato mais votado, alcançando 3.299 votos (60,92% votos válidos). Anastasia obteve 2.116 votos (39,08% votos válidos). O Cartório da 232ª Zona Eleitoral de Resende Costa transmitiu, às 18h e 10min, ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral) as mídias contendo o resultado totalizado de todas as 91 seções eleitorais distribuídas em Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e São Tiago. Paula da Silva Dias, chefe de cartório, falou ao JL sobre o segundo turno das Eleições 2018. “Essa eleição foi um grande desafio para a Justiça Eleitoral enquanto instituição. No primeiro turno, tivemos muitas pessoas com dificuldades para votar. Algumas não chegavam ao cargo de presidente, então achavam que a urna estava com algum tipo de problema. Muitas fake news (notícias falsas) circularam pelo nosso sistema de segurança... Então nós fomos muito questionados, ou seja, uma instituição que sempre teve muita credibilidade, de repente nós estávamos sendo questionados pela sociedade se o nosso trabalho era de fato um trabalho sério, um trabalho seguro e confiável. Já no segundo turno, a gente não teve esse tipo de problema. O TSE reagiu. Os TREs abriram canais específicos de respostas a qualquer fake news que saía. Então a gente tinha muito respaldo para poder combater notícias falsas que circulavam rapidamente.” Paula falou sobre a necessi-

Funcionários e colaboradores do Cartório da 232ª Zona Eleitoral de Resende Costa

dade de substituição de urnas em algumas seções eleitorais. No primeiro turno, foram seis urnas substituídas nos municípios que pertencem à 232ª Zona Eleitoral. Já no segundo turno, o número de urnas substituídas subiu para oito. “Pelo fato de serem menos candidatos, eu te falo que substituí mais urnas no segundo turno do que no primeiro. No primeiro turno, substituí seis, no segundo, oito. Só que o clima foi outro, as pessoas já sabiam que a urna é uma máquina, uma calculadora que não tem acesso à internet e que ela, como já está velhinha (modelo 2009), de vez em quando vai dar um probleminha ou outro. Mas são problemas técnicos, coisas comuns que nós já fazemos há mais tempo”, disse Paula. De acordo com ela, numa seção eleitoral em São Tiago foi necessário trocar a urna faltando poucos minutos para encerrar a votação. “A urna travou faltando três eleitores para votar. Mas a gente distribuiu senhas e os eleitores votaram normalmente, uma vez que chegaram antes das 17h”, explicou a chefe de cartório eleitoral. “Nós não tivemos grandes questionamentos (no segundo turno) sobre a confiabilidade das urnas – nosso principal instrumento de trabalho. Teve uma ocorrência ou outra de alguém que falou que

não apareceu a foto do candidato no qual gostaria de votar. Nesse caso, a gente tem certeza de que foi erro do eleitor na hora de votar, ou seja, trocou a ordem dos candidatos, digitando o número do candidato a presidente no lugar do número do candidato a governador”, destacou Paula Dias. Questionada sobre se isso pode ter anulado alguns votos, ela afirma que “muitos votos nulos podem ter vindo daí.” PARCERIAS Para que o processo eleitoral obtenha êxito, é necessário o trabalho de uma grande equipe. Paula Dias afirma que “se você não tem parceria, você não faz eleição”. “Eu falo que são as parcerias-chave daqui do Cartório, as prefeituras de todos os municípios e a Polícia Militar. A gente não faz eleição sem a PM nos auxiliando na escolta, nas guardas das urnas e sem as prefeituras em tudo o que envolve os municípios, como veículos, disponibilidade de funcionários, motoristas e pessoas que nos auxiliam aqui. E, claro, os mesários. Temos que ser muito gratos aos mesários.” Diversas seções eleitorais da 232ª Zona Eleitoral de Resende Costa estão localizadas na zona rural dos municípios. Isso obrigou o Cartório Eleitoral a criar um eficiente sistema de logística

para recolher as mídias das urnas eletrônica nas comunidades rurais e leva-las até o Fórum de Resende Costa no menor tempo possível, a fim de agilizar a apuração dos votos. E quem vem fazendo esse eficiente transporte são os pilotos da equipe Lajes Off Road. Pegando atalhos, cortando cavas, trilhas e estradões, os pilotos transportam com segurança e agilidade os materiais de votação. “A parceria com a Lajes Off Road veio para ficar. Esse pessoal é sensacional”, elogia Paula. Com o aumento no número de municípios e de seções eleitorais, consequentemente o transporte do material eleitoral exigiu mais agilidade dos pilotos. Mas a equipe Lajes Off Road respondeu ao desafio. “Em uma hora e dez minutos finalizar uma eleição em que você tem um local de votação que fica a 80 km do cartório, em São Pedro das Carapuças, divisa de São Tiago com Nazareno, é um grande desafio. E eles foram lá”, disse Paula. Para ela, a recente incumbência dada ao Cartório da 232ª Zona Eleitoral de realizar eleições também nos municípios vizinhos de Resende Costa, Ritápolis e São Tiago “foi um desafio, porque não se trata somente do aumento no número de eleitores e de seções eleitorais. Temos lugares muito distantes.

CENTRAL DOS MESÁRIOS Antes, o Cartório da 232ª Zona Eleitoral era responsável somente por organizar as eleições em Resende Costa e Coronel Xavier Chaves, cidades que fazem parte da Comarca de Resende Costa. Com a decisão do TRE de incluir os municípios de Ritápolis e São Tiago na jurisdição da 232ª Zona Eleitoral, houve necessidade de ampliar a mão de obra e contar com um número maior de colaboradores. Atualmente, o Cartório Eleitoral de Resende Costa é responsável por aproximadamente 25.000 eleitores dos quatro municípios. No segundo turno das Eleições 2018, o Cartório Eleitoral contou com a colaboração de 273 mesários, que trabalharam nas 91 seções eleitorais, sendo cinco seções de justificativa de votos. Para facilitar a comunicação dos mesários e colaboradores com o Cartório Eleitoral, foi criada a “Central do Mesário”. “A gente criou dois números de contato, via WhatsApp Web, exclusivos para os mesários se comunicarem conosco. Através desses números, os mesários puderam tirar dúvidas e resolver problemas que surgiram no momento da votação. Foi uma inovação nossa neste ano que facilitou muito o trabalho”, informou Paula Dias. Feita a análise de todo o material de eleição (boletins de urnas, atas das seções, etc.) e a documentação referendada pelo juiz eleitoral da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos, por volta das 21h os funcionários e colaboradores do Cartório Eleitoral de Resende Costa concluíram os trabalhos das Eleições 2018. Mais uma eleição concluída com êxito pela 232ª Zona Eleitoral. Confira no site do JL o resultado das eleições para presidente da República e Governador de Minas Gerais nos municípios de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e São Tiago.


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POLÍTICA

O juiz eleitoral da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos, avaliou as Eleições 2018 nos municípios que pertencem à 232ª Zona Eleitoral ANDRÉ EUSTÁQUIO

As Eleições 2018 foram consideradas por muitos observadores e analistas políticos como uma das mais disputadas desde a redemocratização do Brasil em 1985. Surpresas aconteceram, como a vitória do empresário Romeu Zema (Novo) para o governo de Minas Gerais. Zema, um neófito na política, derrotou, por grande margem de votos, ninguém menos do que o atual senador pelo PSDB, Antonio Anastasia, que já governou o estado e muitos imaginavam que fosse ganhar as eleições no primeiro turno. No âmbito nacional, o fenômeno Jair Bolsonaro (PSL) sacudiu o país e deixou atônitos os adversários e os analistas que procuravam respostas para a “onda verde-amarela” que inundou o Brasil de norte a sul. Uma eleição polarizada e com forte apelo ideológico mexeu com os ânimos dos eleitores, sobretudo nas redes sociais. Chegou-se ao ex-

tremo de suscitar dúvidas em relação à lisura do respeitado e eficiente sistema eleitoral brasileiro. As fake news se propagaram como vírus nas redes sociais; houve até atentado ao então candidato e hoje presidente eleito Jair Bolsonaro. O JL enviou por e-mail três perguntas ao juiz eleitoral da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos, com o objetivo de obter uma avaliação do magistrado das eleições deste ano. Doutor Donizetti é responsável pelo processo eleitoral nos municípios que pertencem à 232ª Zona Eleitoral: Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e São Tiago. Qual a avaliação que o sr. faz das Eleições 2018 nos municípios que fazem parte da 232ª Zona Eleitoral? A avalição que fazemos das eleições deste ano dentro da circunscrição da 232ª Zona Eleitoral é extremamente positiva. O pleito ocorreu dentro da normalidade, não havendo incidentes que pudessem

macular a vontade livre e soberana dos eleitores. Nas eleições deste ano, houve questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas. No final, vimos, mais uma vez, uma apuração rápida e segura. O que o sr. diz sobre esses questionamentos e a segurança do sistema eleitoral no Brasil? O sistema eleitoral brasileiro é totalmente seguro. As urnas eletrônicas proporcionam uma votação eficaz e uma apuração rápida. A urna eletrônica é um equipamento seguro, não havendo nenhuma possibilidade de fraude. Ao contrário do que se fala, a urna eletrônica não é usada somente no Brasil, pois em mais de trinta países temos o voto através da urna eletrônica, podendo citar o Japão, Peru, México, França, etc. Trata-se de um terminal individual, sem nenhuma conexão com a internet, por isso não há como alguém de fora do processo eleitoral invadir seu sistema para alterar seu regular funcionamento. Temos que ter orgulho

Foto André Eustáquio

“O pleito ocorreu dentro da normalidade, não havendo incidentes que pudessem macular a vontade livre e soberana dos eleitores”

Dr. Donizetti Nogueira Ramos, juiz eleitoral da Comarca de Resende Costa

do processo eleitoral brasileiro, que está entre os mais avançados do mundo em termos de tecnologia. Nestas eleições, a 232ª Zona Eleitoral tornou-se responsável também pelo processo eleitoral em Ritápolis e São Tiago, além de Resende Costa e Coronel Xavier Chaves. Como se deu essa primeira experiência de uma abrangência maior? As eleições deste ano deram mais trabalho para a nossa Zona Eleitoral, com a inclusão dos municípios de Ritápolis e São Tiago. Saímos de um universo

de 12.035 eleitores para 25.438, o que demandou toda uma mudança de logística por parte do Cartório Eleitoral. Todavia, graças à competência dos servidores da Justiça Eleitoral e o grande apoio da equipe de colaboradores escalada para auxiliar nos dias das votações do primeiro e segundo turnos, não tivemos nenhum problema grave que comprometesse os trabalhos. Os poucos incidentes que ocorreram foram prontamente resolvidos, sem comprometer a lisura do pleito eleitoral.

Cidade

Prefeitura Municipal doa cinquenta lotes para famílias carentes de Resende Costa CÁSSIO ALMEIDA

A Prefeitura Municipal de Resende Costa está ajudando cinquenta famílias carentes que residem no município a conquistarem o sonho da casa própria. Por meio do programa “Habitação Solidária”, idealizado pelo prefeito Aurélio Suenes, o Poder Público já realizou a entrega dos lotes aos beneficiados nesta primeira etapa do projeto, que não conta com apoio estadual ou federal. A cerimônia de entrega dos terrenos aconteceu no dia 19 de outubro, no CPP (Centro de Pastoral Paroquial). O evento contou com a participação de diversas autoridades, entre vereadores, servidores públicos municipais e membros da

sociedade civil organizada. Mas quem lotou mesmo o salão foram os principais convidados da noite: os beneficiários do projeto e seus padrinhos. Cada família precisou apresentar o nome de um padrinho no ato da inscrição. Será ele o responsável pela construção da moradia. “Foi com muita alegria que fizemos a entrega dos cinquenta lotes do Programa Habitação Solidária. O programa foi idealizado há dois anos e consiste na doação de lotes para famílias de Resende Costa que realmente precisam. Ficamos felizes em dar esse importante passo, que é tirar o projeto do papel. Esperamos que daqui em diante as obras sejam realizadas e, quem sabe, futuramente lançarmos uma segunda etapa do programa. Espero que o projeto seja exemplo para

outros municípios. Agradeço a toda a comunidade e a todos que participaram”, afirmou o prefeito Aurélio. O objetivo do programa “Habitação Solidária” é diminuir a demanda por moradia da população de baixa renda, que foi beneficiada com base em critérios pré-estabelecidos. O projeto vem sendo desenvolvido pela Secretaria de Assistência Social em conjunto com o Conselho Municipal de Habitação, que tem como presidente Marco Faro. “O conselho se reuniu para que pudéssemos, primeiramente, estabelecer requisitos de admissão ao programa de acordo com a lei. Em seguida, abrimos o processo de inscrição para todos que tivessem interesse em participar da seleção. Foram 108 inscrições, das quais 62 foram consideradas aptas a receber

um dos lotes. Realizamos visitas a cada uma dessas famílias para criarmos um processo de escalonamento para que pudéssemos chegar a um número exato de 50 famílias. É importante frisar também que as 12 famílias que não foram selecionadas tiveram ainda a oportunidade de recorrer da decisão junto ao Conselho. Gostaria de destacar também o envolvimento da cidade de Resende Costa para com o projeto, já que as famílias conseguiram o apoio de um padrinho, o que demonstra a solidariedade da população”, declarou Marco Faro. A residência deve ser finalizada em no máximo dois anos, seguindo um padrão mínimo estabelecido pela Prefeitura. Os lotes, onde serão construídos os novos lares, têm 200 m² e estão localizados no bairro Tijuco. As famílias

poderão optar entre dois projetos de moradia: 2 quartos (35,62 m²) e 3 quartos (44,26 m²). A Prefeitura Municipal irá disponibilizar todas as partes do projeto: arquitetônico, estrutural, hidrossanitário e elétrico. Para a assistente social Alessandra Guse, “A moradia é um bem fundamental para a dignidade da família”. E conclui: “O serviço social trabalha com o princípio de que o lar é onde são construídos os valores que formam uma sociedade melhor. Se uma família não tem a segurança de ter um lugar onde dormir e se proteger, terá dificuldade também em outros aspectos da convivência em sociedade. Se a dedicação da Assistência Social nesse projeto foi intensa, foi exatamente por perceber que o nosso investimento é na família.”


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André Eustáquio

ACONTECEU

Mesários e colaboradores da Justiça Eleitoral trabalham para o sucesso da festa da democracia Fotos Bruno Borile

Para que as eleições aconteçam, a Justiça Eleitoral conta com a participação de inúmeros colaboradores – mesários, motoristas, funcionários de prefeituras e instituições – que se disponibilizam para trabalhar durante o pleito eleitoral. No segundo turno das Eleições 2018, ocorrido no dia 28 de outubro, a 232ª Zona Eleitoral contou com a colaboração de 273 mesários, que trabalharam em 91 seções eleitorais distribuídas nos municípios de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e São Tiago.

Mesários e colaboradores que trabalharam em seções eleitorais na Escola Estadual Assis Resende

Pilotos da equipe de Lajes Off Road colaboram nas eleições em Resende Costa no transporte do material eleitoral

Com Política! FERNANDO CHAVES

Por que COM POLÍTICA? O sociólogo francês Pierre Bourdieu ensina que a sociedade é constituída por diversos espaços simbólicos nos quais as atividades humanas são ordenadas e ganham sentido. Como exemplo desses campos sociais, temos a religião, a ciência, a economia (o mercado), a política, a mídia. Cada um desses domínios opera segundo uma lógica própria e impõe a seus membros e interlocutores normas de conduta, valores, visões de mundo. No Brasil recente, o campo político sofre um esvaziamento acentuado de prestígio e credibilidade. Declina-se o capital simbólico atribuído ao campo da política e seus elementos tradicionais: instituições partidárias, políticos, o próprio regime democrático. Com o avanço do discurso “antipolítica”, estamos elegendo um grande número de outsiders para postos estratégicos do Estado, desde as eleições municipais de 2016. Os outsiders são novatos na política, que, às vezes, conseguem obter rápida ascensão político-eleitoral a partir do simbolismo ou da visibilidade que agregaram em outros domínios sociais, como na

mídia (Wilson Lima, João Dória, Carlos Viana), na religião (Marcelo Crivella), no campo jurídico (Wilson Witzel, Reinaldo Azambuja), no esporte (Alexandre Kalil), no mercado empresarial (Romeu Zema, Antônio Denarium), no campo militar (Coronel Marcos Rocha, General Hamilton Mourão). Sobretudo nos momentos de crise de legitimidade no campo político, os outsiders ganham mais espaço. Junto com eles, emergem novos partidos com promessas de renovação: o Novo e o PSL, por exemplo. Bolsonaro é parte desse processo apolítico. Apesar dos 28 anos como deputado, pesquisas mostram que o eleitor vê nele um elemento novo na política, representante de uma demanda por transformação. Em discursos de campanha, o presidente eleito sugeriu soluções militares para questões de natureza política, criticou a democracia e elogiou a ditadura abertamente. Sua candidatura trouxe, na figura do seu vice, a representação direta do campo militar. Além disso, sua campanha acionou também o campo religioso.

Como se vê, Bolsonaro busca legitimidade a partir de outros campos sociais distintos da política. Assim, consegue que o eleitor o interprete como um agente anti-establishment. Ou como ficou comum ouvir: alguém que é “contra tudo isso que está aí”. Assumindo essa narrativa em que o candidato se opõe ao sistema político vigente, Bolsonaro recusou-se, por exemplo, a executar um dos ritos mais simbólicos da democracia brasileira: a participação nos debates de TV. Pela primeira vez, não houve debate televisivo entre os candidatos à presidência no segundo turno. Todos os campos sociais têm suas particularidades e sua participação no equilíbrio sistêmico da sociedade: o campo religioso, o militar, o mercadológico, o artístico/cultural, o científico, o político. Por outro lado, a colonização do campo político por outros campos sociais remete ao passado. A política submissa às perspectivas do campo religioso, econômico ou militar remonta à política pré-moderna, pré-democracia. Aliás, uma das características da modernidade é justamente a autonomia dos di-

versos campos sociais. Para entender a lógica interna de funcionamento do campo político, podemos simplificar à visão clássica de Aristóteles, para o qual política significa tudo aquilo que está ligado à cidade, ao urbano, ao civil, ao público. A política é um campo de disputas e de conflitos entre ideias e sistemas de pensamento, sendo marcada por uma lógica racional de debate argumentativo. Relacionando o conceito aristotélico à democracia moderna de massa, o professor Venício de Lima argumenta que a política contemporânea é o regime do poder visível sobre a coisa pública. A política atual está relacionada a algo público, em oposição ao que é privado, e a algo visível, em contraponto ao que é secreto. Sendo assim, a democracia moderna é um regime de visibilidade, sobretudo midiática, no qual a racionalidade argumentativa e a transparência do poder são atributos essenciais para que o campo político preserve autonomia, legitimidade e eficácia. Esvaziar a disputa eleitoral de todo o debate racional-argumentativo e desprezar as habilidades

próprias da política e da gestão pública, ocupando o campo político a partir de perspectivas religiosas e de sentimentos antipolítica, nos braços de magnatas do mercado privado neófitos da vida pública, pelas vias da judicialização ou sugerindo soluções militares para problemas políticos, não nos parece, nenhum desses, um projeto moderno de gestão do Estado. A construção do bem-estar social precisa acontecer pelos mecanismos próprios do fazer político: o debate racional, o confronto de sistemas de ideias, a preservação e o fortalecimento das instituições democráticas, a separação dos poderes, a reforma do sistema político-partidário, com o resgate e a reconstrução dos partidos, o acesso à informação pública, a transparência e a fiscalização popular no exercício da gestão do Estado e da representação parlamentar, a alfabetização política, a maior emancipação e participação popular dos cidadãos e entidades civis, o associativismo, o ativismo democrático. Precisamos de mais política, mais democracia. Não de menos. Com política, sempre!


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ANO XV Nº 187 - NOVEMBRO 2018 André Eustáquio

ACONTECEU

Reinaugurada a sede da Academia de Letras de SJdR No dia 30 de outubro, a sede da Academia de Letras de São João del-Rei, localizada no Largo de São Francisco, centro histórico de São João, foi reinaugurada. As obras aconteceram com recursos da Prefeitura Municipal de São João del-Rei, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. A solenidade de reinauguração

contou com a presença dos acadêmicos, de autoridades municipais, como o prefeito Nivaldo Andrade, autoridades militares, entre outros convidados. O Grupo de Choro do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier apresentou-se durante a solenidade, brindando os convidados com clássicos do re-

pertório do choro. Além da sede da Academia de Letras, a Prefeitura Municipal reinaugurou, no mesmo dia, o Coreto Maestro João Cavalcanti, o Teatro Municipal e a “Casa Mais Antiga” de São João del-Rei, que abriga o Instituto Histórico e Geográfico (IHG).

Trombonista Orlando Belo realizará masterclasse na Escola de Música da UFMG

Fotos Divulgação

No dia 14, quarta-feira, o trombonista resende-costense Orlando Belo (leia Perfil nesta edição) realizará masterclasse na Escola de Música da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte. O evento é gratuito e acontecerá das 15h e 30min às 18h e 10min

na sala 3003 da Escola de Música. Orlando Belo é formado em música pela UFMG e mestre em performance pela Universidade Folkwang, na Alemanha. Atualmente, ele é praktkant (acadêmico) pela Dortmunder Philharmoniker Orchester.

Acadêmicos e autoridades municipais durante solenidade de reinauguração da sede da Academia de Letras de São João del-Rei

Pilotos da equipe de enduro Lajes Off Road participam da 11ª edição da Trilha da Fé Vinte e cinco pilotos da Equipe Lajes Off Road participaram da 11ª Trilha da Fé, com destino ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP). Jonas Pinto, Murton Júnior, Cláudio Augusto, Elvis, Renan, Bruno Ferrugem, Marco Flávio (Bom Sucesso), Leandro (Bom Sucesso), Fabrício (São João del-Rei), Rafael (São João del-Rei), Gean (São João del-Rei), Zé Gato (Campo Belo), Gustavo Daher, Edney, Carlinhos, Daniel, Júlio, Fabrício (Coronel Xavier Chaves), Rafael, Carlos Flávio, Anderson Alemão, Cleberson,

Alexandre, Leandro Linhas e Sidney, partiram de Resende Costa (MG) no dia 31 de outubro, quarta-feira, e chegaram a Aparecida (SP) no sábado, 3 de novembro. De acordo com Jonas Pinto, da Lajes Off Road, os pilotos percorreram 605 Km de trilhas e estradões até chegar ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Os pilotos contaram com a imprescindível participação da equipe de apoio composta por: Adilson da Van, Eli, Sidney, Rodrigo, Nelinho, Tonho da Borracharia e Nô da Lora.

Pilotos da equipe Lajes Off Road em frente à Basílica Velha, em Aparecida, SP


ANO XV Nº 187 - NOVEMBRO 2018

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A teia do mundo

Contemplando as palavras

JOSÉ ANTÔNIO*

REGINA COELHO

Cinismos sociais Se o mundo é um imenso teatro onde homens e mulheres desempenham variados papéis, bem que Shakespeare podia ter completado que tais papéis são desempenhados com máscaras. Os papéis são variados para cada ser humano, assim como as inúmeras máscaras que ele tem que assumir para que a sociedade não morra por causa da implosão das conveniências. Nossas mais primitivas intenções e necessidades viram negações cretinas proferidas pela ditadura do disfarce. Talvez tenha que ser assim mesmo, pois se tirarmos as máscaras, o rosto que vai aparecer é terrível demais para ser visto. Na vida social, a verdade é igual à Medusa: atrai, mas não é bom que seja encarada. Já pensou se aparecessem estabelecimentos com cara de Medusa? Já pensou se surgissem anúncios que tirassem a máscara? Uma casa de velório: NOME: O ponto do velório SLOGAN: Guardamos a sua visita. Um dentista: NOME: Dr. Jacinto Nascimento das Dores SLOGAN: O martírio que alivia. Um açougue: NOME: Açougue Vaca

Morta SLOGAN: Matando a sua fome. Um motel: NOME: Paga & Geme SLOGAN: O gasto do gosto. Uma farmácia: NOME: O refúgio do doente SLOGAN: Douramos a pílula. Uma funerária: NOME: Funerária Alças do Adeus SLOGAN: Mais de três décadas sepultando possibilidades. Seguro de vida: NOME: A alegria do alheio SLOGAN: Toque o pandeiro para os outros dançarem. No fundo, esses títulos e slogans estão certos. Mas as conveniências os transformam em metáforas suaves, maquiando a cara da Medusa. Talvez a literatura seja um pouco disso também: cruel e cínica. Cruel ao cutucar na inexorável e dolorida peregrinação do homem rumo ao seu próprio fim. Cínica ao se fantasiar de estética verbal. Que me desculpe o Shakespeare, mas o “Ser ou não ser, eis a questão” não passa de um simples “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. E-mail: jresende@mgconecta.com.br

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Nós, os mortais Como de costume diário, ia descendo a Rua Moreira da Rocha em direção à Escola Conjurados, onde trabalhava, quando ouvi alguém me chamar justamente no momento em que eu passava no ponto que dá início à Rua Pedro Chaves. Era o Vicente do Zé Brás, que, em frente à sua casa, misturando afirmação e indagação, de lá mesmo me falou: “E aí, Regina, o Magalhães Pinto (1909-1996) bateu mesmo as botas?” Respondi a ele que sim. O tradicional político mineiro, ex-governador do estado e ex-banqueiro, havia morrido naquele dia. A cena descrita acima não tem nada de excepcional. Guardo-a na memória, não sei exatamente por que razão. Talvez seja pela informalidade da linguagem usada pelo Vicente para uma situação séria, mesmo quando não se conhece ou não se conhece pessoalmente, seria esse o caso dele, a pessoa que bateu as botas. Nosso saudoso conterrâneo não devia saber, mas, falando daquele jeito, usava um eufemismo, recurso linguístico de que se lança mão para suavizar uma ideia considerada cruel, chocante ou desagradável. Na linguagem popular há muitas expressões eufemísticas que substituem o verbo morrer. Da já citada há variações com o verbo bater: a caçoleta, a canastra, a pacuera, o pacau, com a cola na cerca, o prego, o trinta-e-um, o trinta-e-um de roda, o bloco na rua. Há outras mais: ir para a terra dos pés juntos, vestir o

terno (ou o pijama) de madeira, fechar (ou abotoar) o paletó, espichar a canela, ir para a Cucuia, ir pro beleléu, comer capim pela raiz, virar presunto. Há quem prefira simplesmente dizer que fulano empacotou. Pode-se falar sério também, eufemisticamente, só que sem o viés cômico tão ao gosto de muitos. Algumas construções extrapolam o simples sentido de morrer: adormecer no Senhor, dar (ou entregar) a alma a Deus (ou ao Criador), desaparecer, descansar, dar o último alento, despedir-se da vida, partir desta para uma melhor... Depreende-se dessas palavras um certo sentido de compreensão e aceitação da morte. E sem morrer de verdade, a gente pode morrer de amor (es), de fome, de sede, de calor, de frio, de raiva, de medo, de cansaço, de rir, de trabalhar... E nem precisa saber que essa forma de expressão feita de exagero é uma hipérbole. Assim como a entidade morte, certos ditos populares com esse termo são inevitáveis na comunicação do dia a dia. A saber: chorar a morte da bezerra = lastimar-se de um fato irremediável. Pensar na morte da bezerra = estar distraído (a), alheio (a) ao que se passa em torno. Ser de morte = ser impossível de suportar; ser levado do Diabo; ser desconcertante, excêntrico. Partes indissociáveis de um processo natural, vida e morte justificam a existência da arte como recriação livre da realidade. Lembro os poe-

tas do Romantismo brasileiro da segunda fase e sua poesia de obsessão pela morte, muitos deles mortos tão jovens. No Pré-Modernismo, Augusto dos Anjos é considerado “o poeta da morte” dada sua forte inclinação pelo tema. Sem o traço mórbido de seus colegas de ofício, Manuel Bandeira admite talvez sentir medo “quando a Indesejada das gentes chegar”. Lembro ainda Saramago e seu romance As intermitências da Morte, ela própria personagem do enredo. Deixando ela de cumprir seu papel, uma tragédia se anuncia tomando a história rumos imprevisíveis. A mortalidade nos acompanha desde sempre. O que muda é a maneira como é encarada. Choramos pelos que se foram, rendendo-lhes homenagens, principalmente no Dia de Finados. Nem todos procedem assim. Os mexicanos, por exemplo, festejam o Dia dos Mortos e se fantasiam de Catrina, que é a representação do esqueleto de uma dama da alta sociedade, para lembrar que diante da morte não existem diferenças sociais. Desde 2008, essa festa é considerada pela Unesco Patrimônio Imaterial da Humanidade. Diante da finitude, quando as pessoas ficam encantadas (vide Guimarães Rosa), marcas são deixadas por aqui. Nas inscrições de certos epitáfios, a expressão de uma existência: Foi poeta, sonhou e amou na vida (Álvares de Azevedo, escritor brasileiro).


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ANO XV Nº 187 - NOVEMBRO 2018

Perfil

Músico erudito resende-costense na pátria de Beethoven ANDRÉ EUSTÁQUIO

Aos 15 anos de idade, Orlando Francisco Belo Júnior, o Juninho da Fátima, começou a assistir a alguns concertos de música clássica pela TV. Sua mãe, Fátima do Rosário Silvério Belo, havia comprado uma antena parabólica para a sua casa, o que possibilitou ao filho músico ter contato com canais que transmitem concertos. “Eu chegava em casa tarde, ligava a televisão e assistia aos concertos pela TV Senado, no programa ‘Quem Tem Medo do Música Clássica?’, apresentado pelo Artur da Távola. Certa vez, estava passando um concerto da Filarmônica de Berlim. Eu disse para mim mesmo: Um dia quero tocar na Filarmônica de Berlim”, conta o trombonista Orlando Belo, praktkant pela Dortmunder Philharmoniker Orchester, da Alemanha. Em visita neste mês à sua cidade natal, Juninho conversou com o JL sobre a sua carreira. Atualmente, ele mora em Essen, cidade alemã localizada na Renânia do Norte-Vestfália, oitava maior cidade da Alemanha, com população de 582.659 habitantes. Juninho iniciou-se na música ainda criança, com apenas 9 anos. “Minha mãe sempre cantou no Coral Mater Dei, daqui de Resende Costa. Ela sempre gostou muito de música, então para ela era muito importante a gente aprender também”, diz Juninho. Ele se lembra como foi o seu primeiro contato com uma partitura, através da saudosa maestrina do Mater Dei, Maria Aleluia Chaves Mendonça. “Todo mundo que entrava no Coral aprendia um pouco de música com a Aleluia. Ela ensinava a pronunciar o latim e também a seguir a partitura. Comigo foi assim também. Ela começou a me ensinar, aos 9 anos, a ler em clave de Fá, para tocar os motetos da Semana Santa.” Mas aos 9 anos de idade, o menino Orlando Belo não estava dando muita bola para a música. O que ele queria mesmo era se encontrar com os amigos e jogar futebol. “Eu parei porque achava aquilo muito chato. Minha mãe tentava me incentivar, mas eu só pensava em dormir nas casas dos meus amigos e jogar bola, como toda criança. Eu não estava muito interessado.” Mas Fátima não desistiu

da sua intuição. Sim, parece que foi mesmo a infalível intuição de mãe. Quando o Mauro André assumiu a regência da Banda de Música Santa Cecília, Fátima Belo não titubeou e matriculou o filho na turma de música do maestro Mauro. Detalhe: o Juninho não sabia. “Minha mãe me matriculou escondido, pois ela sabia que se me perguntasse eu não iria querer. Ela me disse: ‘Olha, vamos tentar, se você realmente não quiser, a gente vê outra coisa’ (risos)”, lembra Juninho. Mais uma vez a intuição da Fátima estava certa. Surgia ali um grande e promissor talento da música. Era chegada a hora de escolher qual instrumento tocar. “Eu já havia estudado partitura com a Aleluia, então sabia algumas coisas. O Jorge (Santos, então membro da diretoria da banda) me disse: ‘Seu tio João (Tomás Silvério, ex-maestro da banda) tocava bombardino muito bem. Você vai tocar também’”. Foi então que Juninho escolheu o bombardino para ser seu instrumento na Banda Santa Cecília. Devido às aulas com a Aleluia, ele rapidamente se tornou um dos melhores alunos da turma do professor Mauro André. DO CONSERVATÓRIO DE SÃO JOÃO PARA A ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG Não tardou para que o maestro Mauro percebesse o talento do jovem do bombardino. O convite para estudar música no Conservatório Estadual Padre José Maria Xavier, em São João del-Rei, deixou Juninho, com apenas 14 anos, entusiasmado. “O Mauro percebeu que eu tinha interesse e me convidou, juntamente com outros que também se interessavam em se desenvolver, para estudar no Conservatório de São João.” Mas havia um problema: era necessário ir a São João del-Rei três vezes na semana. “Eu não tinha pensado nisso. Minha mãe, que sempre foi muito coruja, ia deixar que eu, com 14 anos, fosse à noite estudar em São João (risos)?”, lembra Juninho. Fátima não pôs dificuldades na decisão do filho. Além de apoiá-lo, pagou as passagens. Juninho matriculou-se na turma de bombardino do Conservatório Padre José Maria Xavier e o gosto pelo instrumento só foi aumentando. “Eu gostava de

tocar bombardino, especialmente pelos solos das marchas fúnebres executadas na Semana Santa de Resende Costa. Sempre gostei de ser solista”, revela o músico. Juninho não admirava somente o repertório sacro de sua cidade natal. O profano também lhe interessava. “Eu sempre gostei de carnaval e queria tocar nos blocos, mas para tocar as marchinhas tinha que ser trombone. Foi então que comecei.” Quando Juninho estava prestes a terminar o ensino médio em Resende Costa, ele não tinha dúvidas sobre qual carreira gostaria de seguir. “Eu queria estudar trombone na UFMG.” Mas o único contato que ele tinha com o instrumento era tocando marchinhas carnavalescas nos blocos do pré-carnaval de Resende Costa. Isso não era problema para quem tinha aprendido teoria musical e bombardino praticamente sozinho. “Eu peguei um trombone emprestado da banda e em casa fui aprendendo sozinho as escalas.” O ouvido absoluto o ajudou a aprender rápido. No vestibular de música da UFMG, Juninho tocou de cor todas as peças exigidas e alcançou nota máxima. Durante o curso de música em Belo Horizonte, Juninho estabeleceu diversos contatos com o meio musical da capital mineira e estava convicto de que desejava ser músico de orquestra. Entre outras atividades, já atuando como músico instrumentista, ele integrou por diversas vezes o naipe de metais da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, trabalhando com os maestros Marcelo Ramos e Roberto Tibiriçá. CRUZANDO O ATLÂNTICO RUMO À PÁTRIA DE BEETHOVEN Chegando ao final do curso, Juninho percebeu as dificuldades de trabalhar com música erudita no Brasil e decidiu que o melhor, naquele momento, seria estudar fora do país. “No final do quarto ano, eu fiz a prova da academia da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e passei para a segunda fase, mas não fui escolhido. Aí decidi ir para fora do Brasil porque aqui estava difícil”, conta ele. Juninho participou de diversos festivais de música erudita no Brasil e, em um deles, conheceu o primeiro trombone solista da Orquestra Real do Concertgebouw, de Amsterdã,

Foto André Eustáquio

O trombonista Orlando Belo vive há três anos na Alemanha, onde concluiu mestrado na Universidade Folkwang

O trombonista Orlando Belo e sua namorada, a pianista alemã Carolin Schulte-Ebbert

Holanda, considerada uma das melhores orquestras do mundo. “Falei pra ele: quero estudar com você, como faço? Ele me disse: ‘Você toca bem, mas tem que ir pra Holanda. Lá o nível pra passar na prova é bastante alto, tem muita gente talentosa como você, então depende de como você vai estar no dia.’” Juninho desistiu da Holanda e optou por tentar fazer seu sonhado intercâmbio na Alemanha. “Na Alemanha existem mais conservatórios”, disse ele. Após enviar diversos vídeos mostrando sua performance, Juninho foi aceito na Universidade de Artes Folkwang, uma das principais universidades de música, teatro, dança, design e estudos acadêmicos da Alemanha. Em janeiro de 2015, ele desembarcou em Essen sem saber uma palavra em alemão. “Mas eu já falava inglês, então consegui fazer tudo na Alemanha falando inglês.” As aulas em Essen começaram em abril; portanto, de janeiro a abril Juninho fez um curso intensivo de alemão. “A Universidade Folkwang oferece curso gratuito de alemão para todos os estrangeiros, por isso eu fui pra lá. Estudei alemão de segunda a sexta-feira, seis horas por dia.” Em três meses ele já conseguia entender o idioma alemão e, em seis meses, já se expressava fluentemente. No fim do intercâmbio, Juninho voltou para a UFMG a fim de concluir a graduação, mas com uma vaga garantida no mestrado na Alemanha. “Eu tinha interesse em fazer a prova de mestrado e consegui passar antes mesmo de concluir o curso na UFMG. Fiz as disciplinas em alemão”, diz. Juninho concluiu o mestrado em Folkwang e continua morando

em Essen, onde conheceu sua namorada, a pianista alemã Carolin Schulte-Ebbert. Atualmente, ele é praktikant (acadêmico) pela Dortmunder Philharmoniker, uma das melhores orquestras da Alemanha. “Eu tenho um contrato até março do ano que vem, podendo ser prorrogado. Nesse programa, eu recebo instruções, pagamento, toco na orquestra e tenho um cargo de trombonista”, explica o músico que, aos 27 anos, planeja o futuro morando definitivamente na Alemanha. “Fiz mestrado em performance e agora quero fazer outro mestrado em orquestra. Vou ter oportunidade de estudar master class com trombonistas do mundo inteiro, fazer audições e tentar encontrar um emprego fixo na Alemanha. Pretendo procurar vaga em algum lugar onde eu me sinta bem. O Brasil seria um sonho, mas viver como músico erudito aqui é muito complicado. Porém, se eu tiver um emprego na Alemanha, ficará mais fácil viajar entre os dois países.” A persistência da mãe, as aulas de música da Aleluia, o olhar clínico do maestro Mauro fizeram desabrochar um talento da música erudita. O resende-costense Orlando Francisco Belo Júnior, que um dia sonhou tocar na Filarmônica de Berlim, vive hoje na pátria de Beethoven e tem talento e conhecimento de sobra para ingressar nas melhores orquestras do mundo. Porém, o menino que tocou bombardino na Banda de Música Santa Cecília e no Coro e Orquestra Mater Dei não se esquece das suas raízes. “Sempre deixo claro que sou brasileiro, sou latino e que aqui tem muita coisa boa. Toquei música brasileira a minha vida inteira e eu amo isso”, conclui Juninho.


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CULTURA

Movimento Pretas Presentes Grupo reúne 22 mulheres para combater a discriminação e o racismo

Foi navegando pela internet que surgiu a ideia: reunir mulheres negras, de diferentes idades, para serem fotografadas. Esse objetivo simples e ao mesmo tempo nobre traz consigo inúmeras razões para fazer surgir o “Movimento Pretas Presentes”, formado por 22 mulheres negras de Resende Costa (MG). Isadora de Fátima Pinto, 20 anos, artesã e uma das idealizadoras do movimento, fala do surgimento do grupo em agosto deste ano: “A gente pensou em reunir nossas conhecidas negras para chamar a atenção. Seja para mostrar o nosso cabelo, o nosso ‘cabelo duro’ que eles falam, né? Mas solto, ou do jeito que a gente quer. Aproveitamos para discutir assuntos sobre preconceitos contra mulheres e contra mulheres negras”, diz. Lilian Sousa, 29 anos, diz que nessa fase inicial do grupo o objetivo é a ajuda mútua. “Nós falamos sobre a autoestima. Sofremos preconceito não só pela cor da pele, mas pelo nosso cabelo. Eu sei que existem vários tipos de preconceitos, mas os negros acabam sendo mais prejudicados porque a socie-

dade traçou um padrão de beleza. E quem não segue esse padrão, não é aceito. Agora que estão começando a aceitar o nosso cabelo sem química, por exemplo”, afirma. Além dos encontros presenciais, as conversas diárias do grupo acontecem pelo WhatsApp. As discussões abrangem diferentes assuntos, desde os cuidados com os cabelos até a depressão. “Nossa proposta é reunir, trocar experiências e falar sobre cuidados com a pele e com o cabelo. Falamos sobre a depressão, sobre outros preconceitos, como a homofobia, por exemplo. Discutimos sobre agressão contra mulheres; a nossa proposta é falar um pouquinho de cada coisa. Mas nesse início, queremos incentivar mesmo a aceitação das mulheres negras com as suas características”, explica Lílian. PELO FIM DAS “BRINCADEIRINHAS” Nas conversas, elas lembram que muitas vezes o preconceito sofrido nas escolas é encarado como “vitimismo”. Veja algumas conversas do grupo que revelam o preconceito que as mulheres negras enfrentam cotidianamente: “Estudar em uma sala que só tinha eu

em prática. Temos leis criadas, mas o Estado não cumpre com a obrigação de fiscalizá-las. Temos casos de racismo, considerados apenas ‘brincadeiras’. É muita omissão e muita falta de empatia”, relata a estudante, que destaca ainda a mudança de conhecimento. “Acredito que mudou no quesito conhecimento de nós mesmas. Mulheres negras sabermos que não somos diferentes, muito menos inferiores. O conhecimento implica muito o poder”, afirma a estudante.

Foto Larissa Gomes

VANUZA RESENDE

As fotos já são sucesso de curtidas nas redes sociais

de negra não era legal.” “Eles me chamavam de careca, riam do meu nariz, isso me deixou com uma série de complicações que carrego até hoje, mesmo tendo aprendido a lidar com isso. Hoje eu me aceito.” “Não deixem que eles digam que é vitimismo, não deixem que coloque a culpa em você, para encobrirem o racismo deles.” “Falta empatia, muita empatia.” Questionadas se percebem se os preconceitos diminuíram a partir dos debates sobre o assunto, a resposta é unânime: Não! “As si-

tuações que aconteciam antes se repetem. Porque, por mais que tenha aumentado o número de debates sobre o assunto, são poucos que entendem que não há diferença de raça. E que essa nossa questão não é vitimismo”, pontua a integrante do movimento, Natane Batista, 19 anos. Ianka Emanuelle Ferreira dos Reis, 17 anos, cita (o filósofo alemão) Karl Marx para falar sobre a baixa efetividade das leis. “Marx diz que de nada valem as ideias se os homens não podem colocá-las

NA LUTA POR VÁRIOS MOVIMENTOS Além de promover a visibilidade e reivindicar seus direitos, o grupo busca chamar atenção para outras diferentes causas. As primeiras fotos que as mulheres “Pretas Presentes” divulgaram foram também para destacar a prevenção ao suicídio, discutida durante o mês de setembro, o “Setembro Amarelo”. Atualmente, o grupo está organizando um novo ensaio para o mês de novembro, dedicado ao “Dia da Consciência Negra”, celebrado no próximo dia 20. Para conhecer mais sobre o movimento, o Instagram do grupo é @presentespretas.

Educação

Estudante resende-costense é selecionada para encontro nacional de matemática Bárbara Lana, 15 anos, vai participar em Florianópolis do encontro de talentos da matemática Os jovens que se destacaram no Programa de Iniciação Cientifica (PIC) da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Particulares (OBMEP) reúnem-se, entre os dias 20 e 25 de novembro, em Florianópolis (SC), para uma maratona de palestras, oficinas, minicursos, jogos e desafios matemáticos no Encontro do Hotel de Hilbert, promovido pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Em 2018, entre os estudantes selecionados, está a resende-costense Bárbara Lana de Resende,15 anos, aluna do primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual Assis Resende. Bárbara explica como conseguiu se destacar entres os vários brasileiros participantes do projeto. “No ano de 2017, eu fui medalhista de bronze da OBMEP e ganhei a participação na 13° edição do Programa de Iniciação Científica em

2018. Participei de 14 aulas divididas em sete ciclos (cada um composto por duas aulas). Essas aulas aconteciam aos sábados pela manhã através de uma sala de conferência online. Ao final de cada ciclo, eram liberadas no site do programa uma tarefa e uma avaliação – ambas com o valor de 10 pontos – que tratavam do tema estudado no ciclo recém-concluído. Meu desempenho ficou entre os melhores do país e, portanto, fui selecionada para a edição do EHH deste ano.” No fechamento desta edição, Bárbara nos informou que acabara de receber a informação de que havia conseguido a Medalha de Bronze na OMQ (Olimpíada Mineira de Química). Na visão da professora que leciona matemática para Bárbara, Goretti Resende, ter alunos com conquistas tão importantes é motivo de orgulho. “Em tempos em que muitos não valorizam a escola e os

professores, ter alunos que estão se destacando pelo estudo nos dá muito orgulho e não nos faz desistir da educação e de um mundo melhor construído através dela”, diz a professora Goretti. A professora cita a dedicação dentro e fora do ambiente escolar e o apoio da família como pontos fundamentais para o desenvolvimento do aluno. “A Bárbara é uma aluna muito inteligente, educada e estuda muito além da sala de aula. Percebo nela uma maturidade em matemática bastante desenvolvida. Outro ponto a ser destacado é o incentivo que a gente percebe que ela recebe da família”, elogia Goretti. UMA TRAJETÓRIA DE MEDALHISTA Bárbara também foi medalhista de prata na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA 2018). A jovem obteve destaque e está participando de uma sele-

ção para a Olimpíada Internacional de Astronomia. Neste ano, ela também foi selecionada para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas (OBFEP). “Fui a única do município, dessa forma tive a oportunidade de representar a cidade de Resende Costa nessa competição, que ocorreu no dia 20 de Outubro de 2018”, conta a estudante. Bárbara explica que, além das aulas de matemática, ela estuda em casa e conta com o apoio do Instituto Científico de Resende Costa (IC-RC). “Semanalmente há encontros presenciais para a realização de aulas disponibilizadas pelo IC-RC. Também há o acompanhamento online em grupos de whatsApp. Além disso, também tenho uma rotina própria, costumo estudar alguns dias da semana (três a quatro horas por dia) determinadas matérias. Sempre vario essas matérias pensando na necessidade atual.”

A jovem estudante destaca alguns dos benefícios da participação no evento que reúne estudantes de matemática de todo o Brasil. “Essas premiações enriquecem fortemente meu currículo, abrindo portas para que eu faça parte de sérios grupos de pesquisa no futuro. Também me favorecem em processos seletivos e concursos na área acadêmica, como mestrado, doutorado e programas de intercâmbio”, planeja Bárbara. Goretti diz que todas essas conquistas são muito importantes para a escola e são vistas como inspirações. “Acho muito importante para a escola ter uma aluna participando de um evento nacional. Serve de exemplo para muitos outros. Esses alunos que se destacam em matemática ficam com o caminho trilhado para outras conquistas, não só na matemática, mas em outras áreas também”, conclui a professora. V.R.


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Olhar

Retalhos literários

ANDRÉ EUSTÁQUIO

EVALDO BALBINO

Festa de Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa Na manhã do sábado (3), véspera da Festa de Nossa Senhora do Rosário, em Resende Costa, enquanto eu passava em frente à igreja, uma pessoa me indagou, olhando perplexa para a confusão que se criou no local a partir da enorme quantidade de barracas montadas nos arredores da Praça Coronel Souza Maia: “A nossa festa é aqui (na igreja) ou ali (nas barracas)?” Eu respondi prontamente que achava que a festa deveria ser aqui (na igreja do Rosário). Fico preocupado com os rumos que a tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário está tomando em Resende Costa. De alguns anos para cá, temos visto proliferar o comércio popular (pequenas e inúmeras barracas de roupas, objetos eletrônicos, gêneros alimentícios, utensílios domésticos, etc.) nos arredores da Praça Coronel Souza Maia durante os dias da festa. Neste ano, as barracas chegaram até o terminal rodoviário, bloqueando totalmente o trânsito nas duas vias que ligam o bairro Várzea ao centro da cidade. Quem defende o comércio popular nos dias da festa do Rosário pode perguntar-me: qual o problema? Antecipo que não sou contra as barraquinhas. A população da cidade gosta, muitas pessoas vão às compras, as ruas ficam movimentadas, as crianças se divertem nos brinquedos e os comerciantes aproveitam para ganhar um suado dinheiro. No entanto, diante do que temos visto, torna-se urgentemente necessária uma melhor organização. Na segunda-feira (5), um dia após a festa, caminhando entre as barracas, pude ver fios de energia elétrica soltos no chão e atravessando as ruas, colocando em risco os comerciantes e os moradores do entorno. Além disso, uma enorme quantidade de lixo amontoava-se em frente às lojas e casas da rua do Rosário. Se a organização da festa e

Foto Vívian Daher

O religioso, as tradições e a riqueza cultural do folclore aos poucos vêm perdendo espaço para o comércio

Integrantes dos congados - tradição e religiosidade na Festa de Nossa Senhora do Rosário

quem a apoia desejam optar por incentivar o comércio popular, medidas de organização devem ser implantadas. Pode-se pensar, por exemplo, em estabelecer um número máximo de barracas, organizar a infraestrutura para garantir conforto e segurança à população e aos comerciantes. No entanto, o que mais me preocupa é o risco de uma possível mudança de referência. Ao invés de se valorizar a Festa de Nossa Senhora do Rosário, com tudo o que ela representa, tanto no aspecto religioso quanto cultural, a prioridade vir a ser o comércio. Como é bom assistir ao levantamento do mastro no adro da igreja, ver os congados chegarem na manhã de domingo, cada um com o seu reinado, ostentando ritmos, cores e batuques! A cultura brasileira (laica e religiosa) está ali representada. Como é bom também ouvir o repique dos sinos da igreja do Rosário (embora atualmente o toque dos sinos em Resende Costa tenha sido descaracterizado, perdendo a originalidade, o simbolismo e a genuína linguagem), sinalizando que a comunidade está em júbilo! A nossa fé se agiganta ao ver a bela e antiga imagem de Nossa Senhora do Rosário saindo em seu andor pela porta do templo, ladeada e reverenciada pelos congadeiros. Sinto, porém, saudades dos

tempos em que um número maior de bandas de congada vinha nos visitar. A procissão, realizada naqueles tempos no fim da tarde de domingo, às 17h, era mais bonita e participativa. Que bonito era ver as bandas de congada entrarem na igreja após a procissão para se despedirem de Nossa Senhora do Rosário... Depois das homenagens, celebrava-se a santa missa encerrando as festividades. A Festa de Nossa Senhora do Rosário não pode se transformar num grande comércio. Valorizo as quermesses ao redor da igreja, tal como ocorre durante as festas de Nossa Senhora da Penha (padroeira da nossa cidade), Santo Antônio e São José, Nossa Senhora de Fátima, São Judas, entre outras. Essa antiga tradição presente nas festividades católicas estimula o convívio social de forma simples, singela e bonita. Voltando, enfim, ao pequeno diálogo que tive na manhã do sábado, véspera da festa, espero que no ano que vem possamos afirmar que a Festa de Nossa Senhora do Rosário acontece na igreja, não nas barracas. Que Nossa Senhora do Rosário, os congados, reis, rainhas, devotos e irmandades sejam os verdadeiros protagonistas desta que é uma das mais belas e piedosas manifestações da religiosidade popular brasileira.

Castelos de barro A nossa arte tinha muitas artimanhas. Gestos, palavras, peraltices. Mas havia uma arte também inigualável, sui generis nas nossas bandas infantis do povoado do Ribeirão de Santo Antônio. Era com as mãos que a fazíamos. Com a mente indo por veredas, com as mãos ávidas de criar. Era de tabatinga que buscávamos fazer mundos possíveis num mundo cheio de impossibilidades. As panelas eram talhadas com cuidado, pois dar-lhes forma era coisa difícil. Já as colheres eram barrinhas mal desenhadas. E os bonecos, ai dos bonecos, esses se faziam desconjuntados: uma barra meio achatada era tronco inerte, cilindros disformes eram membros mais ou menos perfeitos, uma bolotinha mais encima tinha grãos de feijão para compor a fisionomia do rosto – pretos para olhos e nariz, roxinhos para boca que não se abria. Aviões fazíamos vários: não voavam, mas volitávamos por eles. Bois ali não eram mais de sabugo, mas barro secando pelos cantos para compor juntas de primeira linha nas cangas. Os bois de tabatinga eram até mais fortes que os de espiga nua; eram pesados e aguentavam o tranco. Carrinhos de boi, ovelhas tresmalhadas ou não, cenários nascidos da terra branca e úmida – tudo nos dava ares de deuses criando a vida. O que fazíamos com mais e mais esmero eram os nossos castelos. De barro e não de areia. Não tínhamos praias, dessas com ondas revolvendo-se, com areia margeando águas desinquietas, com gaivotas fazendo voos rasantes sobre as nossas cabeças líquidas e sobre a água pensativa. Não, não as tínhamos. As praias vistas em livros, e que seriam namoradas mais depois nas telas de tevê, não eram vistas de fato por nós. Tínhamos, então, que imaginar outras possibilidades, outro chão para apoiar nossos pés pequenos e peregrinos. Assim, nossos castelos eram de barro erguido à beira de córregos lentos ou perto de correnteza forte. Barro branco e grudento ganhando forma em nossas mãos que o viam com gosto de criador amando criatura. E os nossos paços eram imponentes. Dávamos passos largos entre seus umbrais, abóbadas

imensas de nos perder. Andávamos nos seus interiores como num mundo vasto. As pontes de acesso a eles não eram levadiças, ficavam eternamente paradas sobre pocinhas d’água fazendo pose de lagos. Circundados de água e monstros aquáticos, seus muros se faziam altos na espera de guerras. Seus alicerces e torres altíssimas, as janelas opacas mas abertas para o mundo, a sala de armas, a casa pública de banho, o pátio para os infantes brincarem, os jardins não suspensos (mas suspendendo olhares por tanta beleza), os corredores e as escadas sem fim, a cozinha e as guloseimas vindas das terras no entorno, os quartos e os sonhos dos moradores, a sala real com seu trono onde todos podíamos ser agora e para sempre reis e rainhas em sua pompa. De barro e não de areia construíamos os nossos castelos. E a lembrança da parábola de Cristo. As casas edificadas sobre a areia aérea. O vento, a tempestade, as fúrias da vida derrubando tais casas. E também os sábios que sobre a rocha ergueram suas moradas, sólidas como as bases em que se assentaram. E sobre tamanha solidez, uma existência inabalável, a memória do hino ouvido e nunca esquecido: “Sábio e prudente será o varão / Que a casa na rocha erguer; / Sempre terá eficaz proteção, / Pois nada a pode abater. / [...] / Quem sobre a areia quiser construir, / Em vão trabalhado terá, / Pois sua casa virá a cair; / Em falso alicerce estará”. E em mim até hoje a bíblica e hínica lição, lida e cantada e ouvida desde sempre, de que a rocha é Cristo, o filho de Deus: o fundamento eterno de quem busca a glória das coisas que não morrem. E não morrem os castelos de tabatinga. Argila ardendo na memória. Argamassa de uma brancura a ponto de doerem os olhos. Dizem que o branco é mistura de todas as cores-luz. E multicolorido era tudo. Castelos brancos, mas morando neles todas as cores-luz do mundo, todas as vontades de pequenas e eternas crianças. Candeias acesas a noite inteira. Claridade que nunca se apaga e que fica eterna nestas palavras. Escrever é manter acesa a lâmpada da vida que carregamos.


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INTERNACIONAL

Portugal: Imprensa repercute vitória de Bolsonaro, preocupada com democracia JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE, DE LISBOA

Preocupação com ameaça ao Estado laico, dúvida sobre a capacidade das instituições em resistir a eventual populismo nacionalista-autoritário e percepção de contradições no plano econômico foram algumas das reações na imprensa portuguesa à eleição de Jair Bolsonaro. Há dificuldade em entender como as redes sociais, principalmente o whatsapp, subverteram a ordem política. A promessa de democracia e liberdade, citada no discurso da vitória, repercutiu nos noticiários de TV e nas páginas dos jornais. Da mesma forma, ganharam destaque o exemplar da Bíblia e a oração do senador/ pastor Magno Malta pouco antes do pronunciamento de Bolsonaro pelo facebook. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, disse o novo presidente.

Bolsonaro prometeu um governo “defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”. “Contrastando com as suas afirmações de há uma semana (antes da eleição), Bolsonaro falou agora em liberdade (palavra que, nas suas diferentes variantes, utilizou 11 vezes), em democracia (6 vezes) e em Constituição (que utilizou, em diferentes declinações da palavra, 3 vezes)”, resumiu o Observador. Na mesma linha, garantiu a Contituição como o “Norte da democracia”, em discurso oficial no Congresso durante a comemoração do 30º aniversário do texto constitucional, diz o jornal Público. O editorial do jornal “I” foi além: “O Brasil só resolverá um dos grandes problemas, a violência, quando legalizar a droga, voltar a apostar na educação e conseguir ter uma polícia bem paga que fique mais imune à corrupção.” A imprensa daqui repercutiu o pragmatismo do governo português. O presidente Marcelo Rebelo de

Sousa e o primeiro-ministro Antônio Costa manifestaram-se abertos a trabalhar com Bolsonaro. Enfatizaram os laços antigos, a forte presença da comunidade lusitana no Brasil e a crescente emigração de brasileiros para Portugal. Já o eurodeputado e presidente da delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Mercosul, Francisco Assis, disse ao jornal Expresso que “parte substancial da Europa está muito preocupada com o que pode suceder no Brasil”. Outra discussão na imprensa portuguesa é sobre as prioridades de Bolsonaro. Aprovar logo medidas de impacto como acesso a armas de fogo e redução da maioridade penal? Ou votar logo reformas impopulares como a da Previdência? Outra questão levantada é como conciliar a visão nacionalista de Bolsonaro com a visão neoliberal e privatizante do futuro superministro da área econômica, Paulo Guedes.

“Tsunami político”. A nova composição do Congresso é outra discussão na mídia portuguesa. Paulo Portas, analista global da TVI, chamou de “tsunami político” a onda bolsonarista que varreu o Brasil: 60% dos senadores eleitos pela primeira vez; renovação de 52% dos deputados; aumento de 6% (para 21) no número de partidos no Senado; e aumento de 5% (para 30) no número de partidos na Câmara. O presidente eleito “terá de encarar a selva partidária”, com o seu partido (PSL) representando apenas 10,1% dos 513 deputados, diz o Diário de Notícias. Com essa “minifatia do bolo parlamentar”, “terá de garantir a governabilidade do país à custa do “velho clientelismo”. Enquanto não houver reforma política, a corrupção vai continuar, conclui o jornalista Miguel Sousa Tavares, do Expresso e da TVI. Outra preocupação é se as instituições democráticas estão preparadas para resistir a eventuais “arrou-

bos autocráticos”, disse ao Expresso o diretor da Faculdade de Direito da FGV, Oscar Vilhena. A esperança dele para limitar o “exercício arbitrário do poder” são os “contrapesos”, como Justiça, Ministério Público, sociedade civil e imprensa. Passada a eleição, repercute na mídia portuguesa a formação do governo. Para além do protagonismo de militares na nova gestão, também virou polêmica a indicação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, onde pretende implantar o modelo da Lava-Jato. Da mesma forma, especula-se sobre guinada na política externa, com a aproximação aos Estados Unidos e a Israel, uma versão de “Brazil First”, como diz o Expresso. Segundo o jornal Público, o guru da economia Paulo Guedes pretende privilegiar acordos bilaterais, inspirado na política de Trump. Como ficaria o acordo comercial em estágio avançado de negociação entre o bloco Mercosul e a União Europeia?

Gastronomia CLÁUDIO RUAS

Ovo é chique Dentro da minha ignorância científica, sempre duvidei de que o ovo fosse um alimento que pudesse fazer mal à saúde, como pregavam antigamente. Mas esse discurso mudou. Hoje, finalmente, consideram que o ovo pode – e deve – ser consumido sem restrições, na maioria dos casos. Além de fazer um bem danado, o trem é gostoso demais da conta. Versátil na cozinha, acessível e barato. E, de uns tempos para cá, vem deixando de lado aquele infeliz estigma de “comida de pobre”. Até porque pobre mesmo é aquele que ignora a riqueza da simplicidade à sua volta. Na roça, o ovo sempre foi farto. Na cidade, sempre foi barato e prático, ideal para a vida corrida, em que um pão com ovo pode ser a salvação da lavoura, a baixo custo e tempo. Daí talvez surgiu esse rótulo negativo de produto desqualificado, “coisa de pobre”. Uma tremenda in-

justiça. Uma ignorância absurda não enxergar as tantas qualidades desse alimento, não só do ponto de vista nutricional, mas também gastronômico. E tem outra: tem muito pobre (de dinheiro!) por aí que se alimenta muito melhor do que muitos ricos. Principalmente aqueles que estão mais próximos dos ingredientes, que preparam as próprias refeições, têm hortinha e galinha no quintal e sabem dar valor a isso. Pobres de dinheiro, mas ricos de saúde, cultura e valores. Ainda bem que o ovo vai voltando a ocupar outros espaços para além do jantar barato improvisado! Cada vez mais ele passa a ser uma estrela gastronômica, inclusive em restaurantes sofisticados, mostrando-se como tendência em receitas de livro, revista, televisão e internet. Ovo é um ingrediente curioso: ao mesmo tempo em que é de fácil preparo, também pode ser bem complexo tecnicamente. Por

isso aquele velho ditado do “não sabe nem fritar ovo” é um pouco inapropriado. Fritar todo mundo frita. Mas existem muitos detalhes no processo. Tanto é que na escola de cozinha o ovo ocupa um lugar considerável. E, muitas vezes no processo de seleção de um cozinheiro numa cozinha profissional, pede-se a ele para fazer uma omelete. Até nos simples ovos mexidos tem técnica, principalmente no cuidado com a temperatura e na forma de mexê-los. O fogo tem que ser bem baixo e a frigideira deve até ser levantada da chama do fogão de vez em quando. E a mexedura deve ser constante, com a colher raspando o fundo do centro para fora, para que o resultado final sejam ovos cremosos, delicados, no ponto certo. Sem passar nem ressacar demais. Vale dar uma espiada nos livros e na internet para aprender mais técnicas. Vale também ter

sempre em casa ovos de qualidade, de preferência caipiras, de galinha criada solta, feliz. Ainda mais aqui em Resende Costa, onde o acesso a esse tipo de ovo é muito maior. Tem até estabelecimentos que usam o caipira no preparo de lanches e pratos, o que é um grande atrativo (vale prestar atenção a isso, consumidor). Só devemos tomar cuidado para evitar contaminação por bactéria salmonela. Embora seja preciso limpar os ovos, aí mora um perigo. Não se pode esfregar muito a casca – com a parte grossa da bucha, como muitos fazem ¬–, pois, nesse caso, o atrito retira a proteção natural que cobre o ovo, abrindo as portas para a entrada das bactérias. Também convém testar a validade: coloque o ovo numa caneca d’água. Se boiar, está estragado. Se ficar deitado no fundo, está ótimo. E se ficar de pé, mas ainda tocando o fundo, não está no auge do frescor, mas ainda

pode ser consumido. O bom mesmo é nem precisar guardar ovo na geladeira. É pegar ali no galinheiro e consumir no dia seguinte. Fazer pão dormido com ovo no café da manhã. Omelete com ora-pro-nobis na hora do almoço. Mandar cozido na casca para o lanche da filhota na escola. Fazer pão de queijo amarelinho no café da tarde. Fritar dois zoiúdos na gordura d’pôico, para cobrir de amor o arroz velho que sobrou do almoço (com gema mole, claro!). E chegar ao fim de semana e fazer ovos mexidos com cebola, tomatinho e salsinha no café da manhã. Massa fresca de macarrão caseiro à carbonara no almoço. E, na janta, uma bela polenta cremosa com queijo, taioba na manteiga e ovo pochê por cima, esperando só um cutuco do garfo para explodir de alegria. Ovo é vida. Ovo é chique demais da conta, sô!


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ESPORTE

Athletic Club disputará o Módulo II do Campeonato Mineiro 19 VANUZA RESENDE

O Athletic Club esperou quase meio século para voltar ao futebol profissional, mas foi uma volta triunfal. Treze clubes disputaram duas vagas para o Módulo II do Campeonato Mineiro, entre eles o Esquadrão de Aço de São João del-Rei, que conquistou o acesso. Se houve comemoração no anúncio da participação de um clube são-joanense na Segunda Divisão do Mineiro, a festa foi garantida quando o clube voltou de São Gonçalo do Rio Abaixo com a vaga garantida no Módulo II do Campeonato. Teve choro de emoção, comemoração em campo que se estendeu pelas redes sociais e desfile de um clube vitorioso no caminhão do Corpo de Bombeiros pelas ruas de São Joao del-Rei. UMA CAMPANHA SÓLIDA Em 2018, a Segunda Divisão teve novo formato de disputa. Os 13 times participantes jogaram em turno único, com semifinais e finais em jogos de ida e volta. Assim como nas últimas edições, a competição foi disputada na categoria Sub-23, podendo cada clube inscrever até

Athletic disputará o Módulo II do Campeonato Mineiro 2019

cinco atletas com idade acima de 23 anos. O campeonato começou no dia 5 de agosto e terminou no dia 28 de outubro. Participaram do campeonato: Araxá, Athletic, Bétis, Boston, Coimbra, Minas, Montes Claros, Passos, Ponte Nova, Pouso Alegre, Sociedade Esportiva Patrocinense, União Luziense e Valeriodoce. O Athletic terminou a primeira fase com 26 pontos, em terceiro lugar. Foram oito vitórias, dois empates e apenas duas derrotas, a última delas no início de setembro. Na semifinal, o encontro foi com o clube Valeriodoce. A primeira partida terminou em 0x0; a segunda, fora de casa, o Athletic venceu por 2x1. Na final, o adversário foi o Coim-

bra, que terminou o campeonato em primeiro lugar, com 29 pontos. No primeiro jogo em casa, tudo igual, 0x0. Já no Independência, em Belo Horizonte, palco do confronto final, o Coimbra levou a melhor nos pênaltis. O Athletic empatou já nos acréscimos e o 1x1 levou a disputa para as penalidades máximas: 4 para o time de Betim e 2 para o time são-joanense, vice-campeão do Campeonato Mineiro Segunda Divisão. PREPARAÇÃO O técnico do Athletic, Cícero Júnior, falou sobre a preparação da equipe para a disputa do campeonato. “Foram quatro meses com uma preparação muito boa. Principal-

mente pela execução do projeto, tudo que foi combinado com os atletas foi feito. Mesmo com uma estrutura simples, tentamos sempre dar o melhor, como alimentação e moradia de boa qualidade. E os atletas abraçaram o projeto, eu acho que isso foi o maior segredo do sucesso para a nossa ascensão.” PRÓXIMO PASSO O calendário do Módulo II do Campeonato Mineiro foi divulgado no dia 30 de outubro pela Federação Mineira de Futebol (FMF). A bola rola pela primeira vez no dia 9 de fevereiro e a grande final está prevista para o dia 11 de maio. Para facilitar o deslocamento, as rodadas acontecerão nos fins de semana. Serão 11

equipes na disputa por duas vagas de acesso ao principal campeonato do Estado: Athletic, América TO, CAP Uberlândia, Coimbra, Tricordiano, Democrata SL, Democrata GV, Betinense, Ipatinga, Nacional de Muriaé, Uberlândia e Uberaba. O campeonato será disputado em turno único, no sistema de todos contra todos. Os quatro melhores colocados na primeira fase avançam para as semifinais e os dois piores caem para a Segundona de 2020. As semifinais serão disputadas em jogos de ida e volta. Em caso de dois empates ou vitória e derrota pela mesma margem de gols, a equipe mais bem colocada na fase preliminar avança para a decisão e, consequentemente, conquista o acesso. Na final, também jogada em duas partidas, o mesmo critério se aplica para definir o campeão em caso de igualdade. De acordo com Cícero Júnior, a preparação do Athletic para a competição já começou. “Para o módulo II, já estamos começando a pensar nas contratações de atletas. Provavelmente nós os apresentaremos no início de janeiro, quarenta dias antes do início do campeonato, para a gente já chegar forte e tentar fazer uma boa campanha também no Módulo II”, planeja o técnico.


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ESPORTE

Cruzeiro é hexacampeão da Copa do Brasil e confirma supremacia no futebol brasileiro Torcida Sangue Azul de Resende Costa comemora o hexa com carreata e concentração no Parque do Campo ANDRÉ EUSTÁQUIO

O Cruzeiro confirmou sua inquestionável força no futebol brasileiro nas últimas décadas. No dia 17 de outubro, ao vencer o Corinthians por 2x1 em pleno território do adversário em São Paulo, o Cruzeiro levantou o troféu da Copa do Brasil 2018, sagrando-se hexacampeão e maior vencedor da competição. Além dos seis títulos da Copa do Brasil, sendo bicampeão dois anos consecutivos (2017 e 2018), o Time Celeste é o segundo maior vencedor do Campeonato Brasileiro na era dos pontos corridos (2003, 2013 e 2014), ficando atrás do Corinthians, clube que mais vezes le-

vantou a taça do Brasileirão (2005, 2011, 2015 e 2017) desde que o campeonato passou a ser disputado nessa modalidade, em 2003. A festa dos jogadores e da comissão técnica começou nos gramados da Arena Corinthians e terminou nos braços da China Azul nas ruas de Belo Horizonte. Em Resende Costa, a comemoração se deu em grande estilo. A Torcida Organizada Sangue Azul reuniu os torcedores no Campo do Expedicionários para assistirem à partida final. Os torcedores levaram faixas e muita energia para suportar a tensão de um jogo que envolveu dois dos maiores clubes de futebol do Brasil. No final, a sensação de alívio e a alegria tomaram conta dos torcedores cruzeirenses, que saíram

em carreata pelas ruas de Resende Costas já no início da madrugada de quinta-feira. “Foi muito animado e gratificante. Não é fácil um time de fora do eixo Rio-São Paulo conseguir dois títulos seguidos de uma mesma competição. Foi marcante demais para o Cruzeiro e para todos os torcedores”, comemora Paulo César Passos, o PC, diretor-presidente da Sangue Azul. Para o torcedor Bacarini, o título teve um sabor ainda mais especial. “Enquanto o país inteiro sonha com o hexa da Seleção Brasileira, o Cruzeiro, em apenas dois anos, passou do tetra para o hexa da Copa do Brasil. Foi simplesmente fenomenal”, comemora.

CARREATA As comemorações dos torcedores celestes resende-costenses não terminaram na noite do dia 17 de outubro. No domingo (21) a Sangue Azul organizou uma grande carreata que percorreu várias ruas da cidade. A concentração dos torcedores aconteceu no Parque do Campo. De acordo com Paulo César, o objetivo da torcida organizada era oferecer um show aos torcedores durante a concentração. “Infelizmente não deu tempo de organizarmos um show, mas teve muita música e, claro, o hino do Cruzeiro”, diz PC. O presidente da Sangue Azul destacou também outro evento organizado em outubro pela torcida cruzeirense de Resende Costa.

“Nós fizemos no dia 14 um evento comemorativo ao Dia das Crianças. Servimos 800 lanches, dois bolos de 10kg e 200 litros de refrigerante. As crianças se divertiram nas camas elásticas, no touro mecânico e nas gincanas premiadas.” O evento aconteceu no Parque do Campo. “Foi muito legal, a gente faz a convocação e o pessoal corresponde e prestigia. Quero agradecer a todos a participação nos três grandes eventos que organizamos neste mês de outubro. Agradeço à Prefeitura Municipal por ter cedido o Parque do Campo, ao Expedicionários a cessão do bar e também ao apoio da Polícia Militar, que garantiu a segurança e nos auxiliou durante a carreata”, conclui PC.

De olho na cidade EDÉSIO DE LARA MELO

Memórias de infância Sempre que retorno à Escola Estadual Assis Resende, me vem certa nostalgia. A ela retornei no último mês durante as eleições para deputado, senador, governador e presidente da República. Ali concluí meus estudos, os quatro anos de grupo, o que hoje corresponde aos quatro primeiros anos do ensino fundamental. Naquela época, completar os quatro anos de estudo era uma glória. Seguir estudos e conseguir concluir o ginásio – segunda etapa de mais quatro anos – era motivo de grande festa. Muitos hão de recordar da vinda a Resende Costa do craque Tostão, jogador do Cruzeiro e campeão do mundo em 1970. Terminada a Copa, que pudemos assistir pela TV pela primeira vez com imagens coloridas, ele veio dire-

to para nossa cidade, convidado para ser paraninfo da turma que se formou naquele ano. O prédio da escola, erigido há exatos 99 anos, já não atende de forma adequada aos seus servidores e alunos. Duas obras destinadas a ampliações foram necessárias para abrigar número cada vez crescente de alunos. A primeira, de 1989, ocupou o espaço antigamente destinado ao refeitório dos alunos, quando tínhamos merenda farta e de qualidade. A segunda, realizada em 2006, tomou lugar da área de lazer dos alunos. Ela era arborizada e possuía plataforma que chamávamos de auditório. Diante dessa plataforma nos reuníamos todos os dias para ouvir avisos, assistir a apresentações artísticas e, perfilados, cantar os cânticos

de época do calendário acadêmico, civil e religioso. Há pessoas as quais sempre guardei na memória com carinho, tais como a minha tia Donana, cantineira, e o senhor Geraldo de Paula Magela. Ele nos ajudava a apanhar frutos da enorme ameixeira e a apontar, com seu canivete afiado, nossos lápis – não tínhamos lapiseiras ou canetas –; além, é claro, de atuar como porteiro da escola. O ofício lhe rendeu a forma como o chamávamos e com a qual ficou conhecido: Geraldo Porteiro. Não havia pais que ousassem contrariar decisões e atitudes das professoras. Tínhamos por elas um misto de respeito e certo medo. Donas de autoridade absoluta sobre nós sem que tivessem para isso de usar da força

ou do desrespeito, tinham o respaldo dos pais em suas decisões. Mas, mediante falta considerada grave, a punição vinha na forma de castigos e das famosas cópias de frases enormes recheadas de advertências, que geralmente começavam com o Não devo fazer ... À gravidade da “arte” correspondiam o tamanho da frase e a quantidade de cópias a fazer: 100, 200, ou até 1.200 que, uma vez, tive de fazer. Cometi, junto com um colega, certo deslize – que atualmente poderia ser perfeitamente entendido – na aula de ciências. A punição me veio da direção da escola: 15 dias sem recreio e as 1.200 cópias da frase que ainda tenho de cor. Da escola de décadas atrás, restam o prédio principal, suas salas e corredores do bloco cen-

tral. Alguns objetos antigos já não estão no imóvel, tais como mobiliário, as carteiras para dois alunos e o relógio, que foi roubado. Duas coisas ainda resistem ao tempo: as escadarias de pedra, que por sorte ainda não foram arrancadas ou cobertas por outro piso, e os bebedouros. Bebíamos água, que não era tratada, abrindo uma torneira para que o precioso líquido saísse por um orifício feito no cano. Cabe-nos agora, penso eu, quando faltam dois meses para a portentosa edificação completar um século de vida, recuperar o que temos na memória: fotografias, biografias de professores e alunos para que possamos celebrar, com grande festa, os 100 anos de vida dessa que foi a escola de quase todos os resende-costenses.

Edição 187  

Edição 187 do Jornal das Lajes - Resende Costa, MG

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