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Revista Educação Integral - 36ª edição - Dezembro 2025

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Na última edição, do ano de 2025, da “Educação Integral: reflexões sobre educação na perspectiva da integralidade humana”, os respon- sáveis pela organização e publicação da revista, junto ao Conselho Editorial, pretenderam retomar as reflexões sobre os investimentos do Centro Universitário FAEP na pesquisa científica. No final de 2023 e de 2024, com a publicação dos artigos das alunas e alunos participantes do “Programa de Iniciação Científica Tecnológica e Artística da FAEP- ICTAF”, os mantenedores, diretores e coordenadores desejavam impul- sionar a adesão dos estudantes, de diferentes cursos, ao programa e dar visibilidade às pesquisas realizadas pelos participantes. Neste ano, os coordenadores da ICTAF propuseram, em diálogo comos inscritos, integrar Pesquisa Científica e Literatura.

Acreditam que ambas, embora distintas, interligam-se profundamente, influenciando a produção de conhecimento, a compreensão da nature- za humana, a expressão artística e cultural e a transformação social. Embora a literatura possa também se constituir em objeto de estudo, envolvendo a teoria da literatura, a crítica literária e estudos culturais e históricos, o objetivo do diálogo entre a pesquisa científica e determi- nada obra literária, nesta edição da revista, foi mudar a concepção de muitas pessoas de que a primeira trata do pensamento objetivo e da verdade e a segunda de texto ficcional que não contribui para o saber científico.

Os organizadores da revista defendem que a literatura pode ser fonte de inspiração para a antecipação de inovações e reflexão sobre dile- mas éticos das descobertas científicas (eugenia, inteligência artificial etc.), explorando e humanizando conceitos complexos que alimentam o pensamento filosófico e científico. Ela fornece dados sobre relações sociais, emoções e comportamentos para a Psicologia, Sociologia, Ser- viço Social, Teologia, Pedagogia e outras ciências.

Dessa forma, diferentes gêneros, como “A ficção científica”, podem funcionar como um campo de testes imaginários na construção de hi- póteses para a pesquisa e de teorias. A escrita de textos científicos com clareza, coesão e argumentação pode ser aprimorada pela leitura e análise literária, sendo que a narrativa pode inspirar a apresentação dos resultados da pesquisa. A influência mútua entre a pesquisa científica e a literatura revela que o conhecimento pode ser mais completo se interconectar as estratégias rigorosas da investigação científica e a perspicácia e amplitude da ex- pressão literária, promovendo explorações e estudos interdisciplinares. Ao defender a tese da interlocução entre literatura e pesquisa científica, os educadores do Centro Universitário FAEP indicaram para os partici- pantes da ICTAF-2025 obras literárias que se relacionavam com seus temas, propondo um desafio para a construção do projeto de pesquisa, o processo de investigação e a elaboração do artigo. As reflexões rea- lizadas com o grupo partiram de discussões das afirmações: “A litera- tura é uma arte que procura compreender as singularidades humanas, suas potencialidades e fragilidades”; “Aobra literária é construída na re- lação entre leitor e escritor, portanto ela é sempre inacabada: ao ler, par- ticipo do jogo do texto”; “A literatura desperta a sensibilidade do olhar, pois a narrativa trata de questões humanas, que sensibiliza a pesquisa científica: traz observação apurada, memória e imaginação” Portanto, esta carta ao leitor visa provocar os leitores a organizarem as suas pesquisas, a partir da leitura da literatura ou a buscarem obras literárias que se relacionam com as suas investigações. Esse diálogo pode possibilitar um outro olhar para: o mundo, a realidade, a socieda- de, o ser humano, as injustiças, as desigualdades, a diversidade, a ética, o saber científico. Convida os interlocutores da revista a escreverem textos que exponham essa conexão e os enviem para a publicação.

Educação Integral:

Reflexões sobre educação na perspectiva da integralidade humana

INEQ / FAEP

VOLUME1-NÚMERO36 (DEZEMBRO DE 2025)

Periodicidade: Trimestral

Osconceitoscontidosnestarevistasão de inteira reponsabilidade dos autores. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem prévia autorização dos autores.

CONSELHO

EDITORIAL

Profo Dr.Claudinei Aparecido daCosta

Profo Dr. Clemente Ramos dos Santos

Profa. Ms. Ana Maria Gentil

EDITOR CHEFE

Profo Dr. Claudinei Aparecido da Costa REVISÃO ENORMATIZAÇÃO DETEXTOS

CAPA E PROJETO GRÁFICO Vanice

Aparecida da Costa

INSTITUTO NACIONALDE EDUCAÇÃO e QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL – INEQ

RuaSanta Ângela,252,VilaPalmeiras, Freguesia do Ó, São Paulo – SP - Cep: 02727-000

Tel.: (11) 3564 1256

e-mail:educacaointegral@ineq.com.br ISSN

2525-4294

Revistaeducaçãointegral:reflexõessobreeducaçãonaperspectivada integralidadehumana / Centro UniversidadeFAEP – Vol. 1 nº 34(jun./dez2025)

– São Paulo: INEQ/FAEP, 2025.

Vol.1nº34(mar./dez2025)-Trimestral

ISSN:2525-4294

1.Educação2.IntegralidadeHumana3.EmancipaçãoI.Centro Universidade FAEP CDD370

ElaboradoporPaoladeCarvalhoGomes – Bibliotecária-CRB8756

APRESENTAÇÃO

REVISTAEDUCAÇÃOINTEGRAL– Dezembrode2025

Nesta edição da revista “Educação Integral: reflexões sobre educação na perspectiva da integralidade humana”, osresponsáveispeloseu planejamentoeorganizaçãodestacamoprocesso de construção das concepções que subjazem à pesquisa científica com es- tudantes e professores do Centro Universi- tário FAEP. Embora o foco da “Carta ao Lei- tor” seja o Programa de Iniciação Científica, cujos participantes publicam seus artigos na última ediçãodoano,arealizaçãodapesqui-sacientífica e sua relação com as obras lite- rárias não seria possível,semacontribuiçãodosprofessoresque, periodicamente,divul-gamseustextosnarevista e possibilitam a ampliação dos saberes e a compreensão da estrutura dos artigos de divulgaçãocientífi-ca.

Dessa forma, os dois primeiros textos foram escritos por mestres e doutores do Centro Universitário FAEP, comprometidos com a Educação Superior de qualidade. O primeiro analisa a visão contemporânea a respeito do corpo, que não foi considerado apenas como uma entidade estática e meramente biológica, mas como um objeto de múltiplas interpretações aolongodahistóriadascivi-lizações.Osegundo destaca a imersão e a reflexão dos estudantes no mundo digital. Os dois objetos de estudo – o corpo histó- rico-cultural e a tecnologia digitaloferecemricasreflexõessobreosdesafiosatuais.

Assim, no artigo “A construção histórica e cultural do corpo humano”, os autores revisitamasconcepçõesdecorpo,comoinstru-mento de sobrevivência, dimensão espiritual e política, expressãodobelo,objetodeestu- dodaarteeda ciência. Na Modernidade, sur- ge o dualismo entre mente e corpo, reduzin- do-o à matéria e a certa máquina produtiva para o mercado de trabalho. Na Contempora- neidade, estudiosos e pesquisadores, como Foucault e Merleau-Ponty, ressignificaram as concepções anteriores: o primeirodenun-ciouadisciplina,avigilânciaeo poder, como forma de controle do corpo e o segundo con- siderou-o como sujeito perceptivo, indisso- ciável da consciência. O artigo traz outras abordagens, que possibilitam ao leitor uma reflexão importante sobre a identidade, a aprendizagem e a expressão das emoções. Portanto, o corpo deve ser visto como uma potência expressiva e simbólica na arte e na educação. Enfatizam a necessidade de a educaçãorever a visão fragmentada, ao ana- lisar o ser humano, e o imobilismo presente nas práticas escolares, considerando que o corpo em movimentopodeserummeiodeaprendizageme dimensão constitutiva da formação humana. O texto apresenta, com aprofundamento filosófico, a necessidade de superar a lógica dualista e reducionista na compreensão do corpo, sugerindo o re- conhecimento da integralidade dosseusas-

pectos.Paraosescritoresdoartigo,ocorpo deve ser reconhecido como um território de sensibilidade, criatividade, subjetividade e transformaçãosocial.

No artigo “ Pensamento Computacional e fluxogramas na educação básica: integra- ção curricular e estratégias metodológicas”, os autores ressaltam que o Pensamento Computacional (PC) é um processo mental estruturadoparaformularproblemasesolu- ções, de tal forma que possa ser executado por seres humanos ou máquinas, transcen- dendo a programação e sendo uma compe- tência cognitivaampla.Elesexplicamcomoautilização defluxogramas,comoferramen-ta pedagógica,e de algoritmos, como fer- ramenta cognitiva e estruturante do pensa- mento, contribuem para a desenvolvimento do PC e para a aprendizagem significativa de conceitos matemáticos, na EducaçãoBá-sica.ExpõemqueaBaseNacional Comum Curricular (BNCC) inclui os fluxogramas, que são as representações gráficas e visuais de um algoritmo, como percurso metodológico, no ensino da Matemática dos anos iniciais do Ensino Fundamental. A implementação dessas práticas exige a utilização de meto- dologias ativas e de uma avaliação que en- volvam a aplicação prática dos conceitos do PC. Acreditam que a integração do PC e dos fluxogramas, de forma significativa, na Educação Básica, torna imprescindível a forma- ção docentecontinuada.Dessamaneira,de-monstram para os leitores que a integração do Pensamento Computacional, por meio dos fluxogramas, desenvolve habilidades cognitivas complexas nos estudantes, exi- gindo a adoção de um novo paradigmadidá-ticonasescolas.

O artigo “Cracolândia Digital: o algoritmo como catalisador da dependência em apos- tas online”, escrito por estudante da Inicia-

ção Científica Artística e Tecnológica - 2025, podeajudaradiscutir,soboutropontodevis-ta,a natureza e função dos algoritmos, que evoluíram de um instrumento matemático para um mediador central das escolhas co- tidianas, nos espaçosonline.Definidocomoumconjuntofinito deregraseinstruçõesqueorientamaexecuçãode tarefas,otextodes-tacaosalgoritmospreditivos, que traçam o perfil comportamentaldosusuários para in- duzir o consumo. O autor do artigo aponta os cassinos virtuais e bets, como uma “Nova Epidemia no Brasil”, considerando que a pro- liferação incessante de anúncios, principalmente em smartphones, deixou os usuários vulneráveis aos algoritmos agressivos, que trouxeram o jogo digital. Argumenta que a ausência de fiscalização eficiente e a situa- ção econômica levam muitos apostadores, frequentemente integrantes da população de menor poder aquisitivo, a encararem as apostas como um investimento, criando uma fórmula perfeita para o vício. Esse vício é comparado à dependência de substâncias psicoativas, sendo chamado pelo autor de “Cracolândia Digital”, revelando a falta de po- líticas públicas para o tratamentoda “epide- mia”. Otextoécrucialpara pensarmos sobre os comportamentos coletivos, que indicam a dependência em apostas digitais, que não se constitui apenas em escolhas individuais, pois estão moldados por interesses econô- micos e induzem à marginalização tecnoló- gica. Serão necessárias a regulamentação das apostas e a abordagem ética no uso de algoritmos. A denúncia presente neste artigoprecisasercompartilhadanosmeioseducacionaisenasociedadecomoumtodo.

Os três próximos artigos enfatizam o papel do ServiçoSocial nasfrentes: atendimentona saúde mental, abandono do idoso, inclu- são da pessoa comSíndromedeDown.

O artigo “O Cemitério dos Vivos: estudo comparativo entre a crítica presente na obra de Barreto e os fundamentos do movimen- to antimanicomial, com foco na atuação do Serviço Social”, escrito por estudante da Iniciação Científica Artística e Tecnológica - 2025, denuncia a história brutal dos manicômios no Brasil, que organizavam mecanismos, cada vez mais cruéis, para realizar o controle social e a exclusão de pessoas marginalizadas (pobres, negros, dissidentes, homossexuais, prostitutas), e não eram considerados somente espaços de tratamento psiquiátrico. Para estabelecer o diálogo com a literatura,aautorautilizaaobradeLimaBarreto – “Cemitério dos Vivos”, para ilus- trar a criminalização da existência e a atua- ção da polícia na internação, e o livro “Ho- locausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, para expor o genocídio institucionalizado de mais de 60 mil pessoas, no Hospital Colônia de Barbacena. Destaca a luta antimanicomial, iniciada nosanos 70, que defendia “Uma So- ciedade sem Manicômios”, substituindoomodeloasilarpelos cuidados em liberdade, com foco na humanização e na cidadania. Nesse processo de desinstitucionalização, o Assistente Social é um elemento crucial na busca da autonomia dos usuários da saúde mental, atuando na identificação de vulne- rabilidades, articulando as redes de apoio e garantindo o acesso às políticas públicas. O conteúdo do texto traz subsídios importan- tes para romper com a lógica manicomial, que ainda permanece no imaginário social e nos encaminhamentos familiares e de pro- fissionais da saúde e da educação.

Outro artigo da revista, que trata do papel do Assistente Social, relacionando pesquisa científica e literatura, intitula-se: “Abando- no: impacto na condição de vida da pessoa idosa e o papel do Assistente Social”, e foi escrito por estudante da Iniciação Científi-

ca Artística e Tecnológica – 2025. Aborda o crescimento alarmante do abandono da pes- soa idosa no Brasil, a violação dos seus di- reitos, a sua desvalorização e a invisibilidade social. O esquecimentoeabandonodoidosoécausadopela fragilidade dos vínculos fa- miliares e pela desproteção da comunidade e do Estado. No contexto literário, a autora expõe a solidão, a desconfiança e a tristeza na velhicedeBentinho, em “DomCasmurro”, obra de Machadode Assis, ilustrando a ne- gligência familiar e social que tambémseobservanaatualidade.Emboraexistam mar-coslegais,comoaPolíticaNacionaleoEstatuto do Idoso, que consideram o abandono um crime, as estatísticas mostram um au- mento de 855% de denúncias de abandono de idosos no Brasil. O texto denuncia a luta da sociedade contra o envelhecimento, pois considera o idoso improdutivo e um peso para os ativos. Nesse sentido, o Assistente Social tem um papel fundamental na garan- tia dos direitos da pessoa idosa,facilitandooacessoaosrecursoseserviços; promovendo a autonomia e o fortalecimento de vínculos familiares; intervindo em casos de negligên- cia, abuso e violência; sensibilizando a socie- dade sobre o envelhecimento e defendendo aas políticas públicas. Em suma, o artigo é uma denúncia do abandono da pessoa idosae umaindicaçãodaresponsabilidade da família, da sociedade e do Estado na proteção, retomada da dignidade e participação social do idosonacomunidade.

O autor do texto “ A Importância do Assistente Social no apoio às famílias com pes- soas com Síndrome de Down” aborda o pa- pel essencial do Serviço Social na garantia de direitos e respeito à diversidade, especial- mente na inclusão da pessoa com deficiên- cia.Destaca a definição e as características da Síndrome de Down, apontando a singula- ridade e a variabilidadeindividual.Acentuaa

importânciadaeducação,desdeaprimeirís-sima infância, para o desenvolvimento das potencialidades, pois as limitações resultam da interação entre as condições individuais e as barreiras ambientais. Nesse sentido, o pa- pel do Serviço Social é fundamental, porque a escuta ativa, o acolhimento e o apoio de diferentes profissionais às famílias de pes- soas com essa condição podem ser um pilar estratégico, para garantirodesenvolvimentoplenoeacidadaniade pessoas com Síndro- me de Down. O Assistente Social pode atuar junto às famílias, no diagnóstico e acompa- nhamento contínuo, como mediador e garan- tidor de direitos, fortalecendoas com grupos de apoio, combatendo estigmas e barreiras sociais. O artigo anuncia múltiplas possibili- dade, para romper com o isolamento e con- cretizar a transformação social, no que se refere à inclusão de crianças, adolescentes, jovens e adultos com Trissomia do Cromossomo21.

Os próximos artigos de estudantes da Inicia- ção CientíficaArtísticaeTecnológica – 2025debatem sobre temas polêmicos nos espa- ços religiosos. A violência doméstica contra a mulher e a inclusão do homossexual nas igrejas cristãs indicam a presença de rein- terpretações dos textos bíblicos e de outros documentos que orientam os pensamentos e comportamentos de fiéiscristãos.

Aautoradoartigo ”Entre a Fé e a Dor: A Violência Doméstica em Lares Cristãos e seus Impactos Históricos, Sociais e Espirituais”, estudante da Iniciação Científica Artística e Tecnológica – 2025, analisou a violência contra a mulher nas igrejas cristãs, inician- do pelo estudo desse fenômeno complexo, pela predominância histórica do patriarcado, o qual se construiu, ao longo dos séculos, definindo a mulher como propriedade e pro- curando controlarocorpofeminino.Aponta

que no Brasil, a força do patriarcado entrelaçou-se com o racismo estrutural, fazendo com que a mulher negra sofresse uma tripla opressão (gênero, classe e raça). No meio religioso, o sistema patriarcal também se manifesta e observam-se dados alarman- tes- 43% das mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil são cristãs. O texto des- taca o silenciamento das mulheres cristãs e a vivência da exclusão, no que se refere ao exercício do ministériopatriarcal,desconsi-derandoexemplos de liderança feminina nas Escrituras e realizando interpretações bíbli- cas descontextualizadas. O artigoindicaopapelfundamentaldaIgreja,queé ser agen- te de justiça e libertação, incluindo: denúncia de todas as formas de violência, acolhimen- to pastoral e psicológico seguro, promoção de uma hermenêutica crítica e libertadora e colaboração com a autoridade civil ao en- caminhar as vítimas às autoridades competentes. A força do texto está em apontar os avanços legais, denunciar o sistema pa- triarcal existente e confirmar o compromisso da igreja cristã em tornar-se um espaço de dignidade, igualdade, respeito humano e vida plena para todasaspessoas.

O artigo “Interfaces entre fé cristã e homoafetividade: conflitos, diálogos e perspecti- vas teológicas contemporâneas” foi escrito por estudante da Iniciação Científica Artísti- ca e Tecnológica – 2025 e trata do paralelo com a fé cristã e a inclusão LGBTQIA+ nas igrejas, analisando a história da homossexu- alidade e a origem do preconceito. A autora retoma o surgimento do preconceito institu- cionalizado, que surgiu na Europa Medieval, com a combinação das primeiras religiões e a sacralizaçãodarelaçãoheterossexualpeloEstado. As perseguições aos homossexuais tinham suas origens nos fatores religiosos e econômicos, que estavam entrelaçados, por- que a relação homoafetiva não gerava des-

cendênciabiológica.Assim,ahomossexuali-dade foicondenadacomopecadopelaIgrejaCatólicae, na Inquisição, os praticantes de sodomia foram torturados e executados. No século XVIII, a visão evoluiu de pecado para “doença mental ou moral”, sendo que a OMS só retirou a homossexualidadedaCID,em 1990.OConselho FederaldePsicologiaproi-biua “cura”, em1999. Entretanto,aevoluçãocientíficaeosestudosnão transformaram as concepções sobre a homoafetividade na sociedade. Nas igrejas cristãs, existe uma divergência na interpretação bíblica sobre a homossexualidade com alguns mantendo a visão tradicional e outros buscando reformu- lações teológicas. O texto aponta três atitu- des históricas, que se observam até os dias atuais. São elas: aversão, omissão e compai- xão. Algumas igrejas cristãs têm mudado a sua postura para o acolhimento e inclusão, aceitando membros e até celebrando uniões homoafetivas. O desafio é possibilitar que o homossexual expresse a sua fé e pertença a uma comunidade religiosa, sem abandonar a sua orientação. A importância do diálogo de- sencadeado pela pesquisa é a constatação de que o dilema continua presente na Igreja Cristã, necessitando de aprofundamento, no que se refere à revisão hermenêutica das es- crituras e à transformação daspráticaspas-torais.

Finalmente, o artigo, que amplia as reflexões sobre o trabalho educacional, para possibili- tar uma educação de qualidade social, escri- to por estudantedePedagogia,participantedaIniciação Científica Artística e Tecnológi- ca – 2025, intitula-se “O acolhimento na Edu- cação Infantil, na perspectiva da participa- ção das crianças, em Janusz Korczak”. Ele explora a Pedagogia de Janusz Korczak, que dedicou a sua vidaàscriançasdeorfanatosemorreucomelasno campo de extermínio de Treblinka, defendendoas como sujeitos de

direito, completos e capazes. Explicou que o médicopolonêsconsideravaqueacrian-çapode assumir responsabilidades, pensar seus atos e gerir a comunidade, como prota- gonista. Korczak buscava a vivência da ges- tão democrática, promovendo a autogestão e a participação infantil nas decisões, ensi- nando o exercício da cidadania. A autora afir- ma que o mártir realizava o verdadeiro aco- lhimento, como método pedagógico, criando um ambiente de pertencimento e confiança. O texto informa que duas unidades de Edu- cação Infantil, na cidade de São Paulo, con- cretizam os princípios de Korczak, por meio da gestão democrática, do protagonismo in- fantil e de mecanismos como Assembleias Infantis e Conselhos Mirins, possibilitando que as crianças vivam suas infâncias plena- mente e participem dasdecisões sobre a es- cola e a proposta pedagógica. A importância da leitura desse artigo, para a sociedade em geral e educadores está em reconhecer que o verdadeiro processo educacional encon- tra-se nas práticas de acolhimento e de escu- ta dos educandos, respeitando-os e criando condições para a construção de uma perso- nalidade solidária e participativa.

Portanto, os organizadores desta edição da revista pretenderam proporcionar um espaço de inúmeros diálogos com temas essenciais para a vida e para a educação contemporâ- nea. Os diferentes autores destes artigos al- mejaram compartilhar suas pesquisas e es- tudos, esperando que possam dialogar com osleitorese receber retorno de suas concep- ções e vivências marcadas nas linhas e en- trelinhas desta apresentação.

SUMÁRIO

A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E CULTURAL DO CORPO HUMANOATRAVÉSDOSTEMPOS

- Viviane Ferreira Fonseca (autora)

- Edson Fernandes (co-autor)

- Verianne Santos (co-autora)

PENSAMENTO COMPUTACIONAL E FLUXOGRAMAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA: INTEGRAÇÃO CURRICULAR E ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

- Evandro de Almeida

- Danieli Cristina Ramos Hernandes

CRACOLÂNDIA DIGITAL: O ALGORITMO COMO CATALISADOR DADEPENDÊNCIAEM APOSTASONLINE

- Victor Raphael De Paula Oliveira

- Fabiana de Souza Lacerda Viana 11 21 29 37 45 53 61 68 76

O CEMITÉRIO DOS VIVOS: ESTUDO COMPARATIVO ENTRE A CRÍTICA PRESENTE NA OBRA DE BARRETO E OS FUNDAMENTOSDOMOVIMENTOANTIMANICOMIAL,COMFOCONA ATUAÇÃODOSERVIÇOSOCIAL

- Jéssica de Souza

ABANDONO: IMPACTO NA CONDIÇÃO DE VIDA DA PESSOA IDOSAEOPAPELDOASSISTENTESOCIAL

- Izilda deOliveiraCaetano

A IMPORTÂNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL NO APOIO ÀS FAMÍLIASCOMPESSOASCOMSÍNDROMEDEDOWN

- Danieli Cristina Ramos Hernandes

- Evandro de Almeida

ENTRE A FÉ E A DOR: A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM LARES CRISTÃOS E SEUS IMPACTOS HISTÓRICOS, SOCIAIS E ESPIRITUAIS

- Talita Lemos da Silveira

INTERFACES ENTRE FÉ CRISTÃ E HOMOAFETIVIDADE: CONFLITOS, DIÁLOGOS E PERSPECTIVAS TEOLÓGICAS CONTEMPORÂNEAS

- Samara Santos Oliveira

O ACOLHIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL NA PERSPECTIVA DA PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS, EM JANUSZ KORCZAK

Viviane Ferreira Fonseca(autora)1

Edson Fernandes (co-autor)2

Verianne Santos (co-autora)3

ACONSTRUÇÃOHISTÓRICA E CULTURAL DO CORPO HUMANO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Resumo

O corpo humano, ao longo da história, passa por várias interpretações, dentro do aspecto biológico e, posteriormente, na construção simbólica, cultural e histórica (Le Breton, 2003; Mauss, 2003). Diante disso, o problema de pesquisa que orientaeste estudo é que ocorpo foi historicamente construído e ressig- nificado em diferentes períodos culturais e filosóficos? O objetivo geral é analisar a cons- trução histórica e cultural do corpo humano, identificando as principais concepções atri- buídas ao corpo em diferentes períodos históricos e discutindo suas repercussões para a contemporaneidade. Esse estudo configu- ra-se como uma pesquisa de natureza qua- litativa, de caráter bibliográfico e analítico. O estudo foi construído a partir da revisão de literatura clássica e contemporânea, contem- plando filósofos como Platão, Aristóteles, Descartes, Merleau-Ponty, Sartre, além de an- tropólogos e sociólogos tais como Mauss, Le

Breton, Goffman, e de autores que discutem a corporeidade sob diferentes dimensões, histórica, fenomenológica, psicanalítica, edu- cacional e artística como Foucault, Lowen, Vygotsky, Morin, Colker, Bertazzo, Bausch. A relevância desta investigação está em reco- nhecer o corpo como categoria fundamen- tal para pensar a condição humana em sua totalidade. A análise evidencia que há uma mudança no decorrer do tempo a respeito do corpo, e que atualmente, a redução do corpo ao aspecto biológico vem sendo atravessada pelas esferas sociais,filosóficaseeducacio-nais.

Palavras-chave: Corpo; História; Cultura; Fenomenologia; Educação.

Introdução

O corpo humano, no decurso da história, pas- sa por várias interpretações, dentro do aspec- to biológico e, posteriormente, a construção

1 - Doutoranda em Educação pela Christian Business School, Mestre em Educação, pesquisadora, produtora cultural e educadora, com atuação voltada à inclusão sociocultural, educação estética e uso do cinema como ferramenta pedagógica e de transformação social. 2 - Escritor. Doutor em Comunicação,MestreemEducaçãoeEspecialista emPsicanálise,EducaçãoEspecialeInclusiva, ePsicopeda- gogia, Professor da FAEP. 3- Graduada em Psicologia pela Universidade Ceuma. Especialista em Neuropsicopedagogia pela Faculdade Gaúcha e Psicologia Jurídi- ca pela Faculdade Metropolitana de São Paulo.

simbólica, cultural e histórica (Le Breton, 2003;Mauss, 2003).

Desde a Pré-história até a contemporanei- dade, o corpo foi interpretado em diferentes contextos, assumindo múltiplos papéis: ins- trumento de sobrevivência, mediador das relações sociais, símbolo político e estético, além de espaço de disciplinamento e poder(Foucault, 2014).

Nesse percurso, compreende-se que a histó- ria da civilização pode ser narrada pela forma como distintas sociedades elaboraram códi- gos corporais, produzindo padrões de beleza, modos de expressão e práticas sociais (Dao- lio, 1995, Eco, 2010).

Essa visão evidencia que o corpo não é es- tático, mas atravessado por transformações filosóficas, científicas e artísticas (Merleau-Ponty,1999).

Diante disso, o problema de pesquisa que orienta este estudo é: investigar como o cor- po foi historicamente construído e ressignifi- cado em diferentes períodos culturais e filo-sóficos?

Essa problemática parte da constatação de que, apesar dos avanços científicos, filosó- ficos e pedagógicos, ainda prevalece, em muitas práticas sociais e escolares, uma vi- são parcial do corpo, reduzido ora a objeto disciplinado, ora a máquina produtiva, ora a suporte secundário da mente. Isso evidencia a necessidade de compreender o percurso histórico da corporeidade para repensar sua funçãona educaçãoe na cultura atual.

Oobjetivogeraléanalisaraconstruçãohistó-ricae cultural do corpo humano, identificando as principais concepções atribuídas ao corpo em diferentes períodos históricos e discutin- do suas repercussões para a contemporanei-

dade.

Como objetivos específicos, destacam-se:

1. Examinar como o corpo foi compreendido na Pré-história, Antiguidade, Ida- de Média, Renascimento, Modernidade e Contemporaneidade;

2. Relacionar as diferentes concepções de corpocomos contextosfilosóficos,artísticos e educacionais de cada épo-ca;

3. Refletir sobre a importância da corporeidade como dimensão essencial para os processos educativos atuais;

4. Apontar caminhos para ressignificar o corpo na educação, superando visões fragmentadas e reconhecendo-o como espaço de sensibilidade, identidade e transformação social.

Desta forma, compreender a construção his- tórica e cultural do corpo significa revisitar as concepções passadas, e também refletir criticamente sobre os modos como ainda hoje o corpoé visto. A relevância desta investigação está em reconhecer o corpo como categoria fundamental para pensar a condição humana em sua totalidade biológica,social, cultural e educacional.

Nesse sentido, o presente estudo busca ana-lisar as diferentes concepções de corpo ao longodahistória e discutir como tais interpre- tações podem contribuir para a ressignifica- ção da corporeidade no cenário contemporâ- neo, especialmente no campo da educação.

1. O CORPO NA PRÉ-HISTÓRIA E ANTIGUI- DADE

Ahistóriadacivilizaçãoécontadapormeiode

nossa percepção sobre o corpo, pois este não pode ser entendido apenas em sua dimensão biológica, mas como uma construção históri-ca e cultural (Le Breton, 2003; Mauss, 2003). A maneira como diferentes sociedades ela- boram novos códigos para a compreensão deste corpo, gera padrões de beleza e produz uma história corporal com seus mecanismos e codificadores (Daolio,1995).

Como exemplo, o ato de colocar a mão no jo- elho de outra pessoa – considerado um gesto comum no Brasil – pode, em outras culturas, ser interpretado como umsinal de desres-peito. Isso se dá pelo fato de que os gestos tendem a carregar diferentes significados em vários contextos socioculturais (Hall, 1986; Goffman, 2002).

Portanto, pensar sobre o corpo em uma perspectiva ampla implica em reconhecer o corpo como um meio de transmissão de múltiplos códigos históricos e culturais (Merleau-Ponty, 1999).

Ao traçar as várias dimensões do corpo, encontramos: a física, ligada à sua materiali- dade; a fisiológica, associada ao seu funcio- namento; a social, vinculada às interações interpessoais; a histórica, que relaciona corpo e tempo; a energética, que remete à essência e à matriz vital; e a cultural, que se manifesta nas práticas e significados vividos em socie- dade (Morin, 2000; Merleau-Ponty, 1999).

Pensando no corpo em seu contexto históri- co, a cronologia nos revela como foiconce-bido durante cada século e os reflexos que recebeu nesse processo(Le Breton, 2003).

NaPré-história,temosohomemprimitivoque vivia em sintonia com seu ambiente, sua reali- dade e suas possibilidades. Sua relação com o mundo, com a natureza, e seus mecanis-

mos de sobrevivência evidenciam a centrali- dade do corpo nesse contexto (Eibl-Eibesfel- dt, 1977; Leroi-Gourhan, 1981). Os desenhos rupestres, ao trazer as expressões corporais, revelam a simplicidade, e suas táticas de so- brevivência (Geertz, 2008).

Outra característica deste grupo era proteção da prole, além da tomada de decisões indivi- dualistas ou coletivas. Essa dinâmica relacio- nal direta com a natureza fez do corpo primi- tivo um mediador entre o homeme o mundo (Leroi-Gourhan,1981).

Na Antiguidade, destacamos a cultura asiáti- ca, uma das mais antigas do mundo, que en- tendia o corpoemduas dimensões:espiritual epolítica.

No hinduísmo, essa concepção provém de uma tradição milenar, que aceita a pluralida- de do corpo, capaz de manifestar-se como corpo físico, mental, emocional e espiritual (Zimmer, 2008; Eliade, 1979). Nesse contex- to, o corpo é entendido tanto como parte de um todo quanto como meio de evolução es-piritual.

O budismo e a tradição brahmânica têm uma visão de mundo voltado ao entendimento do espírito libertar-se das dependências mate- riais impostas ao corpo, responsáveis por ge- rar sofrimentos constantes(Eliade, 1979).

O homem e a mulher hindus, por exemplo, por meio de suas vestes, tatuagens e joias, expressam uma corporeidade que comunica posição social e identidade coletiva, tal como se observa também na cultura egípcia, em que a mumificação estabelecia distinções de classe mesmo após a morte (Assmann, 2011).

Nesse sentido, tanto indianos quanto egíp-

cios demonstram o domínio simbólico e so- cial do corpo, essencial para organização de crenças, rituais ea dinâmica entre corpo ea eternidade.

2. O CORPO NO PERÍODO CLÁSSICO

Entrando no Período Clássico, chegamos à Grécia. Este pensamento,emespecial o so-crático, representaa importância doespíritoinquieto,que acreditaqueoconhecimentoha-bita dentro de cada indivíduo. (Reale, 1994). EmPlatão, encontramos uma ideia de queo corpo está dividido em três dimensões: ra-cional, irracional e apetitiva. (Platão, 2006), sendoa dimensão racional localizadano cé-rebro, a irracional no peito e a apetitiva nas entranhas. Além disso, Platão falava sobre a necessidade de manter exercícios físicos constantes,poisparaele: “a mentesã precisahabitar um corpo são” (Platão, 2006).

O corpo, para Aristóteles, estava inserido no pensamento metafísico como ente dotado de movimento, capaz de produzir causas e efei- tos, e com o potencial de transformação con- tínuo (Aristóteles,2016; Reale, 1994).

Hipócrates acreditava que a natureza condicionava a saúde humana. Ele atribuía ao cor- po qualidades de úmido, frio, seco e quente. Ao formular sua teoria dos humores, relacio- nava o temperamento e o estado físico das pessoas ao equilíbrio desses elementos e até mesmo aos alimentos consumidos, defen- dendo a sintonia do corpo com o entorno na- tural (Hipócrates, 2005; Lloyd, 2003).

De modo geral, a cultura grega valorizava o corpo pautado no ideal do belo. (Eco, 2010). Em Esparta, o corpo era moldado para a guer- ra, o que estava relacionado à força, coragem e virilidade. Em Atenas, o perfil diferia das outras culturas, pois era marcado pela parti-

cipação em atividades artísticas, filosóficas e oratórias. Em ambos os casos, o ideal de beleza era exaltado e aproximava-se da per- feição. (Jaeger, 1994;Vernant, 1990).

Na segunda metade do século XVII, surge a ideia de superar o dualismo psicofísico, que por séculos opôs corpo e alma. O pensa- mento cartesiano, que vigora na época, afir- mava que o homem era constituído por duas substâncias mente e corpo, e o encontro delas se dava por meio da glândula pineal, o que fortaleceu esse debate (Descartes, 1991; Schultze Schultz, 2019).

A filosofia de René Descartes (1991), com o seu dualismo entre corpo e mente, entenden- do o ser humano como constituído de duas substâncias distintas: a res cogitans (pensar) e a res extensa (matéria), marcou profunda- mente a Modernidade, ao instalar para a hu- manidade a divisão entre corpoe alma.

Com o avanço da ciência, autores, como Lavoisier, demonstraram que a natureza está em constante processo de transformação, in- dicando que o corpo, enquanto matéria,tam-bémé passível de transformação (Lavoisier, 1996; Canguilhem, 2002).

3. O CORPO NA MODERNIDADE

Na contemporaneidade, encontramos Michel Focault, que aponta a preocupação inicial com o corpo – antes centrada apenas em sua alimentação e manutenção física – des- locando-se, a partir do final da Idade Média para os séculos XVIII e XIX, parao tema da sexualidade.

Em História da Sexualidade, Foucault (2014) apresenta como surgiu a necessidade de controlar o corpo por meio de códigos de conduta, disciplina e vigilância, pois o corpo tornou-seobjetodepodernasesferasurbana,

O corpo pós-moderno passou do mundo dos objetos para a esfera do sujeito, assumido e cultivado como um ‘eu-carne’, credor de reconhecimento e de glorificação, e mesmo obje- tosujeito de culto (Ribeiro, 2003, p. 7).

Em Merleau-Ponty (1941), vemos a sua pro- posta de pensar o corpo por meio de uma fenomenologia que rompe com o dualismo mente/corpo, em que o corpo não é apenas objeto visível ou instrumento físico, mas su-jeito perceptivo, inserido no mundo, tendo os seus aspectos visuais, táteis e motores inter-ligados.

Esse autor destaca como partes do nosso corpo integram uma experiência perceptiva integrada, mesmo que certas partes estejam fora de nosso campo de visão direto (como as pernas quando estamos de pé, parte de- las escondida por uma mesa) ou que usemos sapatos, ainda assim sentimos seu peso, sua presença, sua textura, como parte de nossa corporeidade vivida (MerleauPonty, 1941).

Cada um de nós se vê por um olho in- terior, [...] Assim, a conexão dos segui- mentos do nosso corpoe a de nossa experiência visual e nossa experiência tátil, não se realiza pouco a pouco e por acumulação. Não reúno as partes do meu corpo, uma a uma: esta tradução e esta reunião são feitas de uma ver por todas em mim, são meu próprio corpo (Ponty, 1941,p. 160e 161).

Assim, Merleau-Ponty (1999) propõe a compreensão da experiência corporal como fusão entre corpo e objeto, em que a materialidade externa se integra à consciência. Para o au- tor, instrumentos como o bastão, o garfo ou a caneta tornam-se extensões do corpo no ato de agir, deixando de ser percebidos como ob-

jetos à parte e passam a integrar a corporei- dade vivida. Essa síntese do “corpo próprio” evidencia a elo entre consciência e corpo, sujeito e objeto, percebendo-se mutuamentecomo indissociáveis.

Na psicanálise, Lacan (1998) apresenta a te- oria do “estágio do espelho”, em que o indiví- duo, no caso a criança, se reconhece por meio de sua imagem refletida no espelho, como um ser uno, inteiro, um processo fundamen- tal para a constituição da identidade corporal. Essa identificação marca o processo de for- mação do “eu” e do “eu ideal”, representando a primeira forma constituída da subjetividade humana e que tambémintermedia asuarela-ção como mundo.

Para Vygotsky (1991), a visão sociocultural do corpo é entendida como mediador das interações e aprendizagens. O corpo, em contato com o contexto social, possibilita o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, sendo também um instrumento de mediação simbólica.

Assim, Vygotsky (1991) traz o diálogo do cor- po como esse instrumento de mediação para desenvolver esse aprender a aprender, sobre aprender sobre os outros, aprender sobre o mundo, que em sintonia com este corpo nos leva muito mais além das nossas possibilida- des. O autor afirma que esse corpo, em con- tato com o contexto social, pode se adaptar a outras experiências. É que, nesse processo de aprender a aprender, acontece o que seria predizer a fronteira do potencialdo corpo.

Em Alexander Lowen (1982), encontramos o conceito de bioenergética. Essa abordagem aponta para o corpo e como ele expressa e revela emoções e conflitos psíquicos. Para o autor, a integração entre corpo e mente só é possível quando se reconhece que as experi-

ências emocionais se manifestam por meio das tensões e expressividades corporais.

Assim, o autor (1982) destaca a expressão do corpo, que percebe e reage a realidade, que seria então nomeada de percepção da rea- ção. Essa realidade pode estar em sintonia ou não com este real, sendo que esta conexão pode afetar as emoções e os sentimentos, levando assim, aos mecanismos de defesa para enfrentar as dificuldades que lhe são apresentadas.

No Renascimento, houve uma busca pelo mé- todo científico - o que reverberou no compor- tamento humano e como ele era observado, descrito. Isso representou avanços técnicos, e também uma nova concepção do mundo para o homem, ou seja, uma nova cosmovi-são (Burke, 1999).

Na arte, temos a representação do corpo hu- mano sendo metrificada, e desse modo repre- sentada de forma mais realista e anatômica, como evidenciam as obras de Leonardo da Vinci e Michelangelo (Gombrich, 1999).

Com o Iluminismo, a dicotomia de René Descartes começou a ser contestada, dando lu- gar a uma visão mais racionalista, que nega- va a centralidade da experiência sensorial e corporal, emnomedaprimaziadarazão(Cas-sirer,1997).

Já no século XIX, por conta da Revolução Industrial, o corpo passou a ser entendido por meio de uma ótica mecanicista, ou seja, como elementofundamental paraumsiste-ma produtivo. O processo de industrialização promoveu a padronização e mecanização das atividades humanas, trazendo o corpo para um cenário que o colocava como instru- mento de trabalho, por vezes repetitivo e dis-ciplinado (Foucault, 2019).

A reflexão proposta por Adroldado Gaya (2005) evidencia a discussão teórica na qual se encontra o corponoXXI.

Será que a partir do século XXI filoso- far sobre o corpo humano significará radicalizar os dualismos de Platão, Des- cartes e dos neo-idealistas pós-huma- nistas como Newel, Simon ou Moravec? Ou ainda há esperanças de filosofar na trilha de Espinosa, Merleau-Ponty, Hei- degger ou, contemporâneos como Mo- rin, Maturana e Varela, José Gil, Damá- sio, Deryfuss, Dennet, Le Doux, Gardner? Deveremos anunciar a morte do corpo humano? Ou haverá espaço para recu- perar a sua dignidade? (Gaya, 2005, p.335).

Se de um lado ainda persiste o conceito du- alista herdado da tradição filosófica de Des- cartes e Platão, por exemplo, de outro lado abre-se a possibilidade de novos caminhos inspirados em pensadores como M. Ponty, dentre outros, que abrem espaço para a com- preensão do corpo em sua totalidade.

Dessa maneira, para não tomar o corpo hu- mano como um mero objeto de análise bio- lógica, a continuidade desse debate exige, portanto, revisitar os paradigmas clássicos, e construir referenciais teóricos capazes de compreender o corpo emsua pluralidade e emsua articulaçãocom os desafioscontem-porâneos.

4. CORPO, EDUCAÇÃO E CULTURA

Construir uma cronologia do corpo, no pro- cesso histórico, não significa defini-lo, pois se trata de uma temática complexa com inú- meras abordagens. Porém, essa construção permite compreender como diferentes visões de mundo, descritas por meio de vários au- tores, ajudam-nos a compreender o contexto

cultural e as interpretações dadas ao corpo ao longo do tempo (Le Breton,2003).

Sob a perspectiva da saúde, há umconsenso de que a construção e manutenção de hábi- tos como alimentação equilibrada, sono ade- quado, prática regular de exercícios físicos contribuem significativamente paraa quali-dade de vida.

Contudo, quando voltamos o olhar para o campo artístico, o corpo se revela em sua po- tência expressiva e simbólica, indo além da dimensão biológica (Merleau-Ponty, 1999). Nessa perspectiva, múltiplas formas de ex- pressão emergem, como o corpo de dança em Deborah Colker (Bosco, 2012), as core- ografias pedagógicas de Ivaldo Bertazzo (Bertazzo, 2015) e a poesia do movimento por meio de Pina Bausch (Servos, 2008), que exploram diferentes possibilidadesdalingua-gemcorporal.

A linguagem corporal tende a se manifestar em diversas técnicas, desde a pantomima até a dança contemporânea, evidenciando que o corpo além de biológico, ésociale cultural (Mauss, 2003).

Dentro da esfera e ducacional, há o debate, desenvolvido por alguns educadores, sobre a participação do corpo dentro do processo de aprendizagem, ou seja, aprender por meio do corpo em mo- vimento, quer seja por meio de jogos, dança e teatro, dentro outras ferramentas, que tragam o corpo para dentro do cenárioescolar.

A maioria dos sistemas educacionais inibe a criatividade e é organizada com base no falso princípio de que a vida é linear e inorgânica. Odiscurso conven-cional afirma que, se você estudar um determinado assunto, seguir o crono- grama prescrito e passar em todos os

exames, sua vida se encaixará perfeitamente no lugar. Caso contrário, isso não acontecerá.(Robinson,2013, p. 34).

A linearidade da estrutura organizacional e pedagógica escolar também é abordada por Graciliano Ramos (2003, p. 214) que denun- cia, de forma poética,a rigidezdo ambiente escolar:

O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco ho- ras de suplício, uma crucificação. Certo dia vi as moscas na cara de um, roen- do o canto do olho, entrando no olho. E olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto. Não há prisão pior que uma escola primária do interior. A imobi- lidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos e as auréolas, não deixei que as moscas me comes- sem. Assim, aos nove anos ainda nãosabialer.

Para Merleau-Ponty (1999), o conhecimento sobre o corpo implica em um retorno à com- preensão de que ele não se limita apenas à esfera biológica. Portanto, no campo educa- cional, muitos autores destacam a presença do corpo do educador e do aluno em sala de aula, reconhecendo-os como dimensãocons-titutiva daformação humana.

Essa nova proposta educacional sobre o cor- po pressupõe pequenas modificações não apenas na estrutura da escola quanto na for- mação do professor, como intuitode trazer o corpo como um meio de aprendizagem.

Para Morin (2000), é importante compreender o ser humano em sua totalidade. Esse pen- samento dentro da educação aproxima a nar- rativa sobre uma técnica que integra teoria e prática, tradição e inovação. Dessa forma, o

desafio atual é integrá-la a educação criticamen- te, preservandoadimensãototaldoserhumano.

5. Metodologia

Esse estudo é uma pesquisa de natureza quali- tativa, de caráter bibliográfico e analítico. O estu- do foi construído a partir da revisão de literatura clássica e contemporânea, contemplando filóso- fos como Platão, Aristóteles, Descartes, Merle- au-Ponty, Sartre, além de antropólogos e soció- logos tais como Mauss, Le Breton, Goffman, e de autores, que discutem a corporeidade sob di- ferentes dimensões, histórica, fenomenológica, psicanalítica, educacional e artística como Fou- cault, Lowen, Vygotsky, Morin, Colker, Bertazzo, Bausch.

O procedimento metodológico envolveu três eta- pas principais:

1. Levantamento teórico em obras de referência e artigos acadêmicos que abordam o corpo em sua dimensão histórica, filosó- fica e cultural.

2. Análise cronológica, buscando identi- ficar as concepções predominantes em cada período histórico.

3. Discussãocrítica ao relacionar as dife-rentes concepções de corpo com desafios contemporâneos, especialmente no cam- po da educação eda cultura.

5.1 Resultados e Discussão

De acordo com os dados apresentados neste estudo, o corpo foi entendido de formas distin- tas ao longo do tempo.

Na Pré-história o corpo, usado como instrumen- to de sobrevivência, estava inscrito sob a ótica ritualística e por meio de representações rupes- tres (EiblEibesfeldt, 1977; Leroi-Gourhan, 1981).

Já na Antiguidade, surgem interpretações es-

pirituais e políticas, a citar:no hinduísmo e Egito, onde o corpo simbolizava tantas hie- rarquias sociais quanto transcendência es- piritual (Zimmer, 2008; Assmann,2011).

Na Grécia Clássica, o corpo foi associado ao ideal do belo, e também pensado filosoficamente como sede darazão e da emoção (Platão, 2006; Aristóteles, 2016). Nos perío- dos da Idade Média e Renascimento,o cor-po foi redescoberto pelas artes e pela ciên- cia, como vistos nas obras de Leonardo da Vinci. (Burke, 1999; Gombrich, 1999).

Na Modernidade, Descartes inaugura o que é amplamente conhecido como dualismo mentecorpo, que foi contestado mais tarde por perspectivas fenomenológicas como a de Merleau-Ponty (1999), que compreende o corpo como sujeito perceptivo.

Na Contemporaneidade temos Michel Fou- cault (2014), que discute sobre como o cor- po é disciplinado e controlado socialmente, enquanto pensadores como Morin (2000) e Lowen (1982) apontam para sua integração na educação, na saúdee nacultura.

No meio educacional, evidenciou-se um tensionamento: de um lado, práticas que ain- da reduzem o corpo ao imobilismo escolar (Ramos, 2003; Robinson, 2013), e de outro, propostas que buscam ressignificar o corpo como meio de aprendizagem e expressão (Bertazzo, 2015; Colker,2002;Servos,2008).

Dessa forma, os resultados demonstram que a compreensão do corpo, apesar das várias interpretações sobre ele, no processo histórico, atualmente expressa um campo de convergência entre a biologia, culturae subjetividade.

A análise evidencia que houve mudanças em relação ao que se escreveu sobre o cor-

po, transformando a visão reducionista de ape- nas um aspecto biológico para o destaque de ou- tras dimensões, trazidas pelos estudos sociais, filosóficos e educacionais.

Essa leitura abre caminhos para pensar o corpo na contemporaneidade para além da biologia e meios de produção. Isto significa ver o corpo como um território de experiências, expressivida- de e criação, o quetornaesseaspectoumdebate para aeducação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da construção histórica e cultural do corpo humano evidencia que este não pode ser compreendido apenas em sua dimensão bioló- gica, mas como resultado de múltiplas interpre- tações filosóficas, sociais, artísticas eeducacio-nais.

Ao longo da história, o corpo foi concebido como instrumento de sobrevivência, espaço de poder, objeto de disciplinamento, suporte da alma, má- quina produtiva, e também como território de subjetividade, expressão estética eidentidade social.

Na Contemporaneidade, observa-se que a fragmentação herdada de visões dualistas ainda permanece empráticas sociais e escolares. Todavia, novos paradigmas influenciados pela fenome- nologia, pela psicanálise, pela bioenergética e pelas pedagogias do corpo defendem a neces- sidade de reconhecer a corporeidade como parte essencial da condição humana.

Compreender o corpo nessa perspectiva integral significa superar a lógica reducionista que o en- xerga como objeto ou instrumento, e abrir cami- nho para concebê-lo como categoria fundamen- tal de pensamentoe de ação.

No campo da educação, em especial, torna-se urgente ressignificar o corpo como lugar de sen-

sibilidade, criatividade e transformação, em sintonia com o mundo social e cultu- ral em que estáinserido.

Portanto, revisitar a história do corpo é também repensar o presente e projetar novas possibilidades defuturo.

Essa reflexão não encerra o debate. Ela convida a ampliar os olhares sobre a corporeidade, reconhecendo sua potência como espaço de diálogo entre ciência, filosofia, arte e educação.

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Evandro de Almeida1

Danieli Cristina Ramos Hernandes2

COMPUTACIONAL E FLUXOGRAMAS NA

EDUCAÇÃO BÁSICA: INTEGRAÇÃOCURRICULAR E ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

RESUMO

Este artigo investiga a integração do pensa- mento computacional e da utilização de fluxo- gramas no currículodaEducaçãoBásica,con-forme orientado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O estudo possui como ob- jetivo geral analisar como essas ferramentas contribuem para o desenvolvimento de habili- dades cognitivas e para a resolução estrutu- rada de problemas em estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental. A metodologia empregada foi de natureza qualitativa, base- ada em pesquisa bibliográfica e documental, utilizando como fontes principais a BNCC, ar- tigos científicos e dissertações que discutem a aplicação pedagógica de algoritmos e fluxo-

gramas. Os resultados indicam que a incorporação do pensamento computacional, por meio de fluxogramas, promove a decomposi- ção de problemas, o reconhecimento de pa- drões e a abstração, habilidades essenciais, nãoapenasparaa matemática, mas transver- sais a diversas áreas do conhecimento. Con- clui-se que a abordagem fortalece a capacida- de dos alunos de traduzir situações-problema em linguagens estruturadas, contribuindo sig- nificativamente para sua formação crítica e para o mundo do trabalho. A formação docen- te é apontada como um elemento crucial para a efetiva implementação dessas estratégias.

Palavras-chave: Pensamento Computacional. Fluxogramas. BNCC. Educação Matemática.

1 - Graduação emRelações Internacionais - Centro Universitário Belas Artes de São Paulo - FEBASP. Especialista em Negóciose ComércioInternacional–FaculdadesMetropolitanasUnidas–FMU;EspecialistaemMagistérioparaoEnsi- no Superior - Centro Universitário Belas Artes de SãoPaulo - FEBASP - Mestre e Doutor emCiências Sociais –Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP – Tutor emcursos de Gestão na FAEP. e-mail: evandrovsky@hotmail.com 2 - Graduada emCiênciasContábeisFaculdadedeCiênciasEconômicas deSãoPaulo–FACESP.Graduação emPeda- gogia - Universidade Norte do Paraná, UNOPAR. Especialista em Psicopedagogia - UNOPAR. Mestrado em Controladoria. Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo - FACESP e-mail: danieli.hernandes@cogna.com.br

Metodologias

Introdução

A contemporaneidade, marcada pelo uso das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), exige da educação a formação de indivíduos capazes de compreender e in- teragir criticamente com um mundo cada vez mais complexo e baseado em dados. Nesse contexto, o Pensamento Computacional (PC) emerge, não como um fim em si mesmo, mas como uma competência fundamental para a decomposição e resolução sistemática de problemas, aplicável às maisdiversasesferas da vida.

A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018. p. 267), documento normativo orienta- dor da Educação Básica brasileira, explicita a importância de desenvolver nos alunos a capacidade de “enfrentar situações-problema em múltiplos contextos”, utilizando diferentes linguagens,incluindo algoritmos e fluxogra-mas.

A justificativa para esse trabalho residiu na necessidade de se compreender as estraté- gias eficazes para integrar o PC ao currículo, indo além da simples programação de com- putadores. Conforme defendem Barcelos e Silveira (2012), a compreensãodos procedi- mentos do PCultrapassa o escopo da Ciência da Computação, configurando-se como uma ferramenta mental valiosa. A BNCC (BRASIL, 2018) corrobora essa visão, ao estabelecer correlações entre a atividade matemática e a modelagem de processos computacionais, in- dicando algoritmos e fluxogramas como obje- tos de estudo concretos paraessa finalidade.

O problema de pesquisa que norteou este ar- tigo consistiu em investigar: de que maneira

a utilização de fluxogramas, enquanto lingua- gem e ferramenta pedagógica, pode contri- buir para o desenvolvimento do Pensamento Computacional e para a aprendizagem signifi- cativa de conceitos matemáticos nos anos fi- nais do Ensino Fundamental,conforme orien-tações da BNCC?

Oobjetivoprincipaldestetrabalhofoidemons-trara integração do Pensamento Computacio- nal por meio de fluxogramas e algoritmos no contexto da Educação Básica e, especifica- mente: a) revisar as bases conceituais do Pen- samento Computacional e sua relação com a educação; b) demonstrar conceitos de fluxo- gramas e algoritmos e sua utilização como ferramenta de aprendizado na matemática; e c) apresentar e discutir estratégias metodoló- gicas baseadas em fluxogramas para a sala de aula. Cada objetivo específico deu origem a um capítulo subsequente deste trabalho.

Metodologicamente, tratou-se de uma pesqui- sa de natureza básica, com abordagem qua- litativa e objetivos exploratório-descritivos. O procedimento técnico utilizado foi a pesquisa bibliográfica e documental, baseada na aná- lise de fontes como a BNCC, livros, artigos científicos e trabalhos acadêmicos (teses e dissertações), que versam sobre Pensamen- to Computacional, fluxogramas, algoritmos e seu ensino na educação básica. Autores como Wing (2006), Valente (2016), Silva (2020) e Santos (2021) constituíram o princi- pal referencialteórico.

1 - Pensamento computacional e sua rele- vância educacional

O Pensamento Computacional (PC) é definido como um processo mental estruturado, volta- do para a formulação de problemas e de suas respectivassoluções,demodoqueestaspos-

sam ser implementadas de maneira eficaz por um agente de processamento de informação, seja ele humano ou máquina.

Essa abordagem enfatiza a importância de se organizar o raciocínio de forma lógica e sistemática, o que permite transpor desafios complexos emetapas manipuláveis e sequen- ciais. A aplicação do PC transcende, portanto, o ambiente digital, constituindo-se como uma competência cognitiva ampla, aplicável em diversoscontextosdavidacotidianaeacadê-mica.

Wing (2006), pesquisadora pioneira na popularização do termo, estabeleceu quatro pila- res fundamentais para o PC: decomposição, reconhecimento de padrões, abstração e algoritmização.

Nessa estrutura, a decomposição refere-se à fragmentação de umproblema empartes me- nores e mais gerenciáveis; reconhecimento de padrões permite identificar similaridades ou regularidades entre diferentes situações; a abstração envolve o foco nos elementos essenciais, excluindo detalhes irrelevantes; e a algoritmização consiste na criação de se- quências ordenadas de passos para solucionar problemas.

Trata-se,portanto,deumahabilidadederacio-cínio lógico que ultrapassa o uso instrumental de computadores, preparando os indivíduos para enfrentardesafiosdeformacriativaeefi-ciente.

Na educação, o PC não se restringe a uma única disciplina, podendo ser integrado de maneira transversal ao currículo escolar. No entanto, a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) destaca uma correlação sig- nificativa entre a atividade matemática e a

modelagem de processos computacionais, enfatizando o potencial dessa interface para o desenvolvimento de habilidades cognitivas complexas.

A Matemática, enquanto ciência de natureza humana, emerge historicamente das neces- sidades e inquietações de distintas culturas, evoluindo continuamente em resposta aos desafios contextuais. Esse caráter dinâmico permite que ela transcenda a mera aplicação técnica, constituindose como ferramenta fundamental para a resolução de problemas científicos etecnológicos.

Além disso, a matemática fornece bases sóli- das para descobertas e construções teóricas e práticas, gerando impactos profundos no mundo do trabalho e na sociedade contem- porânea. A BNCC (2018, p. 267) reconhece essa dimensão, afirmando que esta área do conhecimento, não apenas apoia avanços tecnológicos, mas também estrutura formas de pensamento essenciais para a cidadania e a criticidade.

Dessa forma, a incorporação do PC por meio da matemática, não só potencializa a apren- dizagem de conceitos específicos, mas tam- bém prepara os estudantes para atuar em um mundo cada vez mais orientado por dados e algoritmos, onde a capacidade de abstrair, de- compor e modelar problemas torna-se indis-pensável.

As estratégias baseadas na resolução de problemas, na investigação e na modelagem, já consolidadas no ensino de matemática, apresentam um terreno fértil para o desenvolvi- mento de competências associadasao PC.

O documento explicita a importância de os alunos serem capazes de “traduzir uma situ-

ação dada em outras linguagens, como transformar situações-problema, apresentadas em língua materna, em fórmulas, tabelas e gráfi- cos e viceversa” (Brasil, 2018, p. 271).

Nesse sentido, o desenvolvimento do PC está intrinsecamente ligado à capacidade de representação e organização do pensamento. Gro- ver e Pea (apud Silva, 2020) ampliam a visão sobre as habilidadesa seremdesenvolvidas,listandodesdea abstração e o reconhecimen- to de padrões até a depuração e a detecção de erros de forma sistemática.

O foco, portanto, conforme defende Valente (2016), não deve estar em avaliar se o aluno aprendeu a programar, mas no nível de consciência que ele desenvolve sobre conceitos computacionais e em como aplica esse entendimento em diversas atividades, entre elas a elaboração e leitura de fluxogramas e algo- ritmos voltadosaostemas da matemática.

Desse modo, a convergência entre Pensamen- to Computacional e a Educação Matemática consolida-se como uma estratégia pedagógi- ca essencial para a formação integral do estu- dante contemporâneo. Ao articular os pilares do PC –decomposição, reconhecimento de padrões, abstração e algoritmização – com os conceitos matemáticos, promove a aqui- sição de conhecimentos específicos e o de- senvolvimento de competências cognitivastransversais.

Essa articulação prepara os educandos para atuar em um contexto social e profissional, cada vez mais permeado por tecnologias e demandas complexas, capacitando-os para interpretar, criticar e intervir narealidadede forma fundamentada.

Portanto, a integração proposital dessas di-

mensões no currículo escolar constitui um imperativo educativo para o pleno exercício da cidadania ea inserçãocrítica no mundo digital.

2 - Fluxogramas e algoritmos como ferramenta pedagógica na BNCC

Os fluxogramas surgem como uma lingua- gem visual e acessível para operacionalizar os princípios do PC em sala de aula. Eles são definidos como uma representação gráfica de um algoritmo, ou seja, a decomposição de um procedimento complexo em suas partes mais simples, relacionando-as e ordenando-as (BRASIL, 2018). Silva (2020) complementa que o fluxograma é uma linguagem regulamentada por normas – como a ISO 5807:1985 –, o que confere visibilidade à descrição de um processo,sistema ou algoritmo.

O algoritmo, por sua vez, configura-se como uma estratégiafundamentalparaodesenvol-vimentodo PC, uma vez que se associa direta- mente à resolução sistemática de problemas complexos. Consiste em uma sequência finita e ordenada de passos executáveis, elabora- dos para atingir um objetivo específico ou so- lucionar uma determinada questão.

Conforme estabelecido pela BNCC, o algo- ritmo corresponde à “decomposição de um procedimento complexo em suas partes mais simples, relacionando-as e ordenando-as, e pode ser representado graficamente por um fluxograma” (Brasil, 2018,p. 271).

Dessa forma, ele transcende a noção restrita de programação, tornando-se uma ferramenta cognitiva,queestruturaopensamentoeorga-niza a ação de modo lógico eeficiente.

A BNCC inova, ao incluir explicitamente al-

goritmos e fluxogramas, como habilidades a serem desenvolvidas nos componentes de matemática, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental.

Habilidades como a EF06MA04 (Brasil, 2018. p. 303) “Construir algoritmo para resolver situ- ações passo a passo” e a EF07MA03 (BRASIL, 2018. p. 307) “Comparar e ordenar números inteiros em diferentes contextos, incluindo o histórico, associálos a pontos da reta numé- rica e utilizá-los em situações que envolvam adição e subtração” podem ser trabalhadas eficazmente por meio da construção einter-pretaçãode fluxogramas.

A aplicação pedagógica dos fluxogramas é vasta. Eles não servem apenas para repre- sentar a lógica de programação, mas tam- bém para mapear processos de solução de problemas matemáticos –como verificar a paridade de um número, calcular o valor de uma expressão numérica ou entender as ope- rações com números inteiros (Santos, 2021). Segundo Silva (2020), suas funções principais incluem documentar e analisar um processo, padronizá-loparamaioreficiência,comunicá-lo com clareza e identificar falhas ou repeti- ções desnecessárias.

Para exemplificar, pensamos em um fluxo- grama relacionado à paridade de um número natural. O processo inicia-se com a entrada de um número natural, seguindo para a veri- ficação de sua divisibilidade por dois. Caso o resto da divisão seja igual a zero, o número é classificado como par; casocontrário,éiden-tificado como ímpar.

A utilização dessa ferramenta não apenas facilita a compreensão do conteúdo, mas também estimula o desenvolvimento do ra- ciocínio lógico e da capacidade de abstração,

alinhando-se, portanto, aos pressupostos do Pensamento Computacional.

É crucial que o uso do fluxograma não seja um apêndice ao conteúdo, mas sim o percur- so metodológicoparaaconstruçãodoconhe-cimento. Santos (2021) adverte que não jus- tifica desenvolver o conteúdo, para só depois trabalhar com fluxogramas. Pelo contrário, essa linguagem deve ser o caminho, que guia o estudante na conceituação e na resolução do problema, estimulando as etapas mentais características do PC.

Dessa forma, os fluxogramas consolidam-se como instrumentos pedagógicos essenciais para materializar o Pensamento Computacio- nal no contexto educacional, transformando abstrações emprocessos visíveis e manipu-láveis.

Sua aplicação sistemática permite aos estu- dantes desenvolverem competências ma- temáticas específicas e ainda habilidades cognitivas transversais, como organização do pensamento, resolução estruturada de proble- mas e capacidade de representação lógica.

A integração dessas ferramentas ao currícu- lo, conforme orienta a BNCC, representa, um avanço significativo na modernização do en- sino e na preparação dos educandos para os desafios do séculoXXI.

Assim, a efetiva implementação dessa abor- dagem depende fundamentalmente de uma mudança de paradigma didático, em que al- goritmos e fluxogramas deixem de ser con- teúdos periféricos, para se tornaremeixos estruturantes do processo de aprendizagem.

Cabe aos sistemas educacionais investir na formação docente e na elaboração de recur-

sos, que possibilitem essa transição, garantin- do que os educadores estejam aptos a utilizar essas linguagens como ferramentas de me- diação cognitiva.

Desse modo, estaremos formando não so- mente usuários passivos de tecnologia, como também pensadores capacitados a criar, ana- lisar e transformar realidades por meio de fer- ramentas computacionais.

3 - Estratégias metodológicas e o desafio da formação docente

A implementação bem-sucedida do PC e de fluxogramas em sala de aula demanda a ado- ção de metodologias ativas, nas quais o alu- no é protagonista de seu aprendizado. Nes- se tipo de abordagem, os alunos são ativos, no sentido de fazerem uso de suas funções mentais como pensar, raciocinar, observar e refletir, sendo mobilizados por estratégias pe- dagógicas que os engajem na construção do conhecimento (Alves et al., 2018; Pecotche, 2011).

Para Valente (2016), as implicações das atividades desenvolvidas no âmbito do PC deman- dam uma análise, que ultrapasse a mera veri- ficação de resultados. O autor defende que a avaliação deve concentrar-se prioritariamente no nível de consciência demonstrado pelo alu- no acerca dos conceitos computacionais, ob- servando como esses conceitos se manifes- tam concretamente em suas diversas ações eproduções.

Essa abordagem requer a utilização de instrumentosmetodológicos,quecapturemproduto final, mas o processo de raciocínio e a aplica- ção dos pilares do PC, como decomposição, reconhecimento de padrõese abstração.

Sugere-se, por exemplo, que os alunos cons- truam fisicamente uma reta numérica no pá- tio da escola para visualizar e operar com nú- meros inteiros –uma atividade que confere materialidade a conceitos abstratos(Santos, 2009).

Após a representação do algoritmo por meio do fluxograma, é fundamental que o aluno for- malize o procedimento por escrito, pois “es- crever em matemática ajuda a aprendizagem dos alunos de muitas maneiras, encorajando a reflexão e clareando as ideias” (Smole; Di-niz, 2001, p. 24).

Conforme abordado no contexto educacional contemporâneo, a aprendizagem significativa em matemática transcende a memorização de fórmulas e procedimentos. É imperativo que o processo educativo favoreça a reflexão metacognitiva, permitindo ao estudante arti- cular o propósito, o método e a aplicabilidade do conhecimento.

Essa perspectiva alinha-se com as diretrizes da BNCC, que enfatizam a formação cidadã, por meio de competências cognitivas e socio- emocionais. ComosalientaSilva(2020,p.28):

Faz-se necessário que o estudante ex- panda sua compreensão sobre o que está aprendendo, por que está apren- dendo e a melhor forma de aprender. As- sim, ele entenderá que os conhecimen- tos matemáticos são essenciais para a compreensão e vivência no mundo, e que o desenvolvimento do raciocínio ló- gico e crítico o tornará um cidadão res- ponsável e capazdelidarcomos proble- mas que a vida lhetrará,comoevitá-los, ousuperá-los.

Nesse sentido, a citação reforça a importân- cia de uma educação matemática, que pro-

mova autonomia intelectual e responsabilida- de social. Ao relacionar conceitos abstratos a contextos reais, o estudante desenvolve habilidadestécnicas, capacidades decisóriase éticas. Tal formação contribui para o enfrentamento de desafios complexos da sociedade, trans- formando o conhecimento matemático em instrumento de emancipação eintervençãocrítica na realidade.

O maior desafio, no entanto, reside na forma- ção docente. A inclusão desses conceitos na BNCC é uma inovação, que muitos professo- res não vivenciaramemsua formação inicial.

É fundamental que os docentes sejamcapaci- tados tecnicamente para entender e criar flu- xogramas, principalmente do ponto de vista pedagógico, para integrá-los de forma signifi- cativa ao currículo, alinhando-os aos objetivos de aprendizagem e às competências gerais daeducaçãobásica.

A formação continuada é, portanto, um ele- mento indispensável para viabilizar essa inte- gração. Nessa perspectiva, o foco avaliativo desloca-se da capacidade de programar ou da correção técnica de um código, direcionan- do-se para a compreensão dos mecanismos mentais mobilizados pelo estudante.Trata-se deidentificarcomoosconceitos computacio- nais são transferidos e aplicados em contex- tos variados, bem como de internalizar uma lógica sistêmica de resolver problemas.

Com isso, a avaliação torna-se um instrumen- to para diagnosticar o desenvolvimento cogni- tivo e a maturidade no uso de ferramentas do PC pelos alunos, e não apenas uma medida de proficiência técnica em linguagens de pro- gramação (Valente, 2016).

Em síntese, a efetiva implementação do PC na educação básica requer uma transformação paradigmática, que integre metodologias ati- vas, avaliação processual e formação docente continuada. A articulação entre fluxogramas, algoritmos e conceitos matemáticos trans- cende a técnica, promovendo o desenvolvi- mento de capacidades metacognitivas e de resolução de problemas contextualizados.

A consolidação dessa abordagem educativa exige, então, um compromisso institucional com práticas pedagógicas inovadoras, que priorizem o processo de pensamento emde-trimento da mera reprodução de conteúdos. É essencial fomentar ambientes de aprendiza- gem, que estimulem a criticidade, a criativida- de e a aplicação contextualizada do conheci- mento, permitindo aos estudantes transferir e adaptar saberes para situações complexasda vida real.

Dessa forma, possibilita-se a formação de indivíduos não apenas tecnicamente capacita- dos, mas, sobretudo, criticamente preparados para intervir e transformar a realidade de uma sociedade cada vez mais mediada por tecno- logias e desafios multidimensionais.

Considerações finais

Esse trabalho buscou analisar a integração do PC e dos fluxogramas no currículo da Educa- ção Básica, com foco nos anos finais do ensi- no fundamental.

Ficou evidente que o PC, com seus pilares –decomposição, reconhecimento de padrões, abstração e algoritmização –, representa muito mais do que uma competência técni- ca. Constitui-se, de fato, como uma forma de pensar e de estruturar o raciocínio, aplicável a

contextos diversos.

Os fluxogramas se mostraram como uma ferramenta pedagógica extremamente potente para materializar esse pensamento em sala de aula, atuando como uma linguagem ponte entre a situação-problema e sua solução for- malizada. A BNCC fornece o arcabouço cur- ricular necessário para essa integração, indi- cando habilidades específicas, que podemser desenvolvidas por meio dessaferramenta.

Conclui-se que a abordagem é viável e alta- mente benéfica, pois desenvolve nos alunos habilidades cognitivas complexas, preparan- do-os melhor para os desafiosacadêmicos e do mundo do trabalho.

No entanto, a efetividade desta implemen- tação está condicionada a um investimento maciço e contínuo na formação de professo- res, equipandoos com o conhecimento e as estratégias necessárias paratransformar asdiretrizesdaBNCCempráticas deensinoino-vadoras e significativas.

Pesquisas futuras poderiam focar na avalia- ção da eficácia de sequências didáticas espe- cíficas, que utilizam fluxogramas na aprendi- zagem de conceitos matemáticos.

çãobásica.In:XXWORKSHOPSOBREEDUCAÇÃO EM COMPUTAÇÃO, 2012, Curitiba. Anais XXXII Congresso da Sociedade Brasileira de computação, 2012.

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SILVA, A. F. U. da. Fluxogramas: Uma nova linguagem para trabalhar divisibilidade no Ensino Básico. Dissertação (Mestrado Pro- fissional em Matemática em Rede Nacional)

- Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Câmpus de Rio Claro. Rio Cla- ro - SP, 2020.

Referências

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BARCELOS, T. S.; SILVEIRA, I. F. Pensamento computacional e educação matemática: rela- ções para o ensino de computação na educa-

SMOLE,K. C.S.;DINIZ, M. I. (Orgs.) Ler,escrever e resolver problemas: habilidades básicas para aprender matemática. Porto Alegre: Art- med, 2001.

VALENTE, J. A. Integração do Pensamento Computacional no Currículo da Educação Bá-sica: Diferentes Estratégias Usadas e Ques- tões de Formação de Professores e Avaliação do Aluno. Revista e-Curriculum, São Paulo, v.14, n.03, p. 864–897,jul./set.2016.

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CRACOLÂNDIADIGITAL: O ALGORITMO COMO

CATALISADOR DA

DEPENDÊNCIA EM APOSTAS ONLINE1

Resumo

Este artigo investiga a relação entre algorit- mos, dependência tecnológica e a crescente epidemia de vício em plataformas de apostas on-line, a partir de uma perspectiva crítica que se distancia da abordagem moralizante ou biomédica do vício. A análise parte da obra Nada Será Como Antes, de Miguel Nicolelis, para refletir sobre a lógica algorítmica como mecanismo de aprisionamento subjetivo, cru- zando elementos da ficção com experiências reais de exclusão e vulnerabilidade social. O objetivo principal foi compreender como o ví- cio digital, especialmente em cassinos on-line e bets, configura uma nova forma de dependência, marcada pela ausência de políticas públicas eficazes e pela invisibilidade desses sujeitos no debate sobre saúde mental. Para isso, a metodologia utilizada foi bibliográfi- ca, qualitativa e autoetnográfica, com cará- ter exploratório, articulando autores como Nicolelis (2024), Ayres et al. (2009), Khatib (2024), Mello (2024) e Souza (2024 apud Dip at.al.,2024), além de incluir relatos de expe-

riências pessoais do autor, como estratégia autoetnográfica. A pesquisa evidenciou que o vício em apostas digitais deve ser compreen- dido como um fenômeno coletivo, vinculado à precarização da vida e à manipulação al- gorítmica, exigindo uma resposta urgente do campo das políticas públicas. Ao se inspirar em estudos sobre a Cracolândia de São Pau- lo e a noção de vulnerabilidade ampliada, o trabalho defende a ampliação do conceito de dependência e a urgência de estratégias deacolhimento eregulamentação.

Palavras-chave: Algoritmo. Apostas Digitais. Dependência Química.

1. Introdução

O presente trabalhopropôs discutir a depen-dência em plataformas de apostas on-line à luz do conceito de personalização algorítmi- ca e sua correlação com contextos de vulne- rabilidade. O tema é relevante, pois mostra uma discussão necessária, envolvendo, não

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística daFAEP, soborientaçãodaProfa. Dra. Rosângela AparecidadosReisMachado eProfa. Me. AnaMariaGentil.Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025.

2 - Estudante do 4º semestre do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, do Centro Universitário FAEP- 2025.

Victor RaphaelDePaulaOliveira2

apenas a saúde mental individual, mas tam- bém lacunas nas políticas públicas e no en- frentamento de novas formas de exclusão digital, apontando a responsabilidade social frente a uma nova configuração de risco: o vício digital. A inspiração vem tanto de rela- tos pessoais quanto de análises acadêmi- cas sobre experiências reais de exclusão, algoritmos e marginalização digital. O artigo foi composto por: conceito de algoritmo, as casas de apostas e a analogia entre o vício de jogos e a dependência química. Para de- senvolver a pesquisa, elaborou-se a pergunta: Como o algoritmo pode potencializar o vício em apostas on-line e como essa realidade está interligada com a dependência quími- ca? A hipótese foi: a atuação dos algoritmos favorece a repetição compulsiva dos jogos, aprofundando a vulnerabilidade de indivíduos e grupos marginalizados socialmente, de for-ma semelhante àdependênciaquímica.

2. Objetivos Objetivo Geral

Analisar como a personalização algorítmica ea ausênciaderegulamentaçãonasplatafor-mas de apostas on-line têmcontribuído parao agravamento de problemas sociaisObjetivos Específicos: a) investigar o que é algoritmo e como ele funciona, atuando na manutenção dos jogos digitais, usando como referência aobrade Miguel Nicolelis; b) iden-tificar as Bets e os Cassinos Digitais como uma tendência brasileira, destacando osim-pactos na vida das pessoas; c) comparar arealidadeobservadaevividanovício dejogos coma situação deexclusãoe marginalização presentes na dependênciadas drogas.

3. Metodologia

Este trabalho adota uma abordagem qualitativa, autoetnográfica, de caráter explorató-

rio e bibliográfico. A pesquisa se estrutura a partir da leitura crítica da obra Nada Será Como Antes, de Miguel Nicolelis (2024), utili- zada como eixo central para refletir sobre os impactos sociais e subjetivos da personaliza- ção algorítmica. Complementarmente, foram analisadas entrevistas, artigos acadêmicos e reportagens recentes sobre o crescimento do vício em plataformas de apostas on-line, com foco nas experiências brasileiras.

A escolha metodológica por uma aborda- gem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender os sentidos e as dinâmicas subjetivas, que envolvem a dependência digi- tal em contextos de vulnerabilidade. Além de Nicolelis, o estudo se fundamenta em autores como Souza (2024 apud Dip at.al,2024), que aponta o vício em jogos como uma epidemia silenciosa; Dip et.al.(2024), que discutem o papel do algoritmo na intensificação de com- portamentos compulsivos; e relatos etnográficos que ilustram como o vício se instala em redes familiarese afetivas.

Também foram incorporados relatos pesso- ais e familiares, que ampliam a análise a par- tir de uma perspectiva vivencial e empírica, reforçando o vínculo entre teoria e experiên- cia. Assim, o trabalho articula fundamentos teóricos com testemunhos diretos, favore- cendo uma compreensão mais densa e críti- ca do fenômeno estudado.

4. Desenvolvimento

4.1. O que é Algoritmo e como ele funciona?

Para falar de algoritmo, é preciso entender minimamente como ele funciona. A ordem em que as postagens das redes sociais sãoapresentadas para nós, a repetição de alguns assuntos, a sensação de que estamos sendo

observados ou até mesmo ouvidos o tempo todo, tudo tem ligação direta com a forma de trabalhar do algoritmo. Para alguns, a palavra não é tão estranha, para outros, é algo que pode ser considerado como “bruxaria moder- na”.

Embora tenha surgido como um instrumento matemático essencial para o desenvolvimen- to da ciência, o algoritmo ultrapassou seu uso original e, hoje, ocupa um papel central na mediação das nossas escolhas cotidianas. De acordo com a Enciclopédia Britannica, o termo tem origem na palavra “algorithmi”, versão latinizada de Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī, matemático persa do século IX, considerado o “pai da álgebra” e responsável por introduzir os numerais hindu-arábicos na Europa (Algoritmo [...], 2024).

Pode-se complementar o conceito de Al- goritmo em Azure Microsoft (. ), como um conjunto de regras e instruções, simples ou complexas, escritas por uma pessoa progra- madora, para orientar a execução de tarefas, a solução de problemas ou o funcionamento de um programa. Basicamente, é uma lista de códigos, que define o passo a passo de uma determinada ferramenta, considerando diversas variáveis. Essas regras não são infinitas, tendo um começo e um fim determinado, mas conseguindo indicar combinações e linhas de programação imensas, capazes de ser en- contradas em aplicações de inteligência arti- ficial, linhas de programação, mecanismos de busca na internet, e redes sociais.

A explicação de Santos (2023, s.p.) reitera os conceitos acima citados, porque para ele “Em matemática e ciência da computação, um algoritmo é uma sequência finita de ações executáveis que visam obter uma solução para um determinado tipo de problema”.

De acordo com Microsoft Azure (2025), entre as diversas formas de algoritmos, destacam-se aqueles utilizados para aprender os hábi- tos dos usuários os chamados algoritmos de aprendizado de máquina (Machine Lear- ning) ou algoritmos preditivos. Esse tipo de aprendizado ocorre com base nos sites aces- sados com frequência, nas palavras-chave di- gitadas, nos anúncios clicados e em qualquer outro comportamento que ajude a traçar um perfil comportamental.

Assim, quando o usuário estiver rolando o feed da sua rede social favorita e encontrar uma sugestão de anúncio, muito relevante para aquele momento, é o algoritmo preditivo fazendo sua função: entendendo o seu com- portamento, suas necessidades daquele ins- tante e o induzindo a comprar umprodutoou serviço. (Tchilian,2022)

Para Parchen, Freitas e Baggio (2021), o algoritmo preditivo também vale para plataformas de apostas, que podem entender o momento em que você estáapostando e o forçam, de alguma maneira a apostar mais, seja em logo após algumas vitórias, fazendo com que você aumente o valor de suas apostas ou até mes- mo após derrotas, passando a falsa impres- são de que você conseguirá recuperar o valor perdido deforma rápida.

“É no processo técnico de tratamento destes dados que os algoritmos infor- máticos incidem, não só para corro- borar o modelo de negócios que sus- tenta as redes sociais, mas também para influenciar bons e maus compor-tamentos, poisservirão de incentivo e manterão o usuário ativo, dependente e fidelizado à referida tecnologia. Cabe agora, portanto, adentrar à questão dos

algoritmos. ” (Parchen Freitas e Baggio, 2021, p.320).

Em Nada Mais Será Como Antes, de Miguel Nicolelis (2024) obra utilizada como fundamento conceitual neste artigo o autor aler- ta para um futuro em que algoritmos passam a controlar decisões humanas, refletindo preocupaçõesreaissobreainfluênciadastecno- logias digitais nas escolhasindividuais

5.2. Bets e Cassinos Virtuais: A Nova Epidemia no Brasil

Um dos grandes malefícios da era atual, sem dúvidas, são as bets com destaque para os cassinos on-line. Embora os jogos de azar como bingos e cassinossejamproibidos ofi-cialmenteno Brasil, a proliferação de anún- cios incessantes nas redes sociais, o uso de influenciadores e a força de algoritmosagres-sivos mudaramradicalmente esse cenário.

Dessa forma, o que pareciaumcapítulo en-cerrado da história brasileira ressurgiu com força total nos últimos anos, agora em for- mato digital, com fácil acesso por smartpho- nes e redes sociais. Segundo Khatib (2024), o avanço tecnológico, aliado à ausência de po- líticas públicas eficazes, fez das plataformas de apostas on-line um novo território de ris- cos. Os jogos de azar, proibidos desde 1946 pelo Presidente,o

general Eurico Gaspar Dutra, ganham força em 2018, quando apostas esportivas de quo-ta fixa são aprovadas.

Khatib (2024) destaca ainda a popularização da nova modalidade de apostas, as chama- das bets, que começam quando empresas nacionais e internacionais passam a ofere- cer diversas opções para os apostadores. É

possível apostar em resultados de jogos de futebol, basquete, vôlei e até emeSports, o que facilita uma comunicação mais atualiza- da, criando uma base de apostadores mais jovem. Tudo isso, atrelado a novas formas de conexão e troca de informações, faz com que cada vez mais pessoas tenham problemas comjogos

Diferente de como surgiu,a regulamentação dessas bets vai na contramão do que se es- pera. No Brasil, foi apenas em 2023 que a Lei de 2018 foi revista, quando o Ministério da Fazenda recebeu a competência de regular o setor de apostas de quota, criando, em 2024, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF). De acordo com o Governo Federal, a publica- ção de portarias e a criação da SPA-MF têm a política de combate à lavagem de dinheiro, porexemplo,determinandoquejogadores se- jam identificados por documentos e sistema de reconhecimento facial com prova de vida, mas, na prática, isso não acontece.(Brasil, 2024).

É muito comum esbarrarmos em sites internacionais, mesmo que traduzidos para o português, que não seguem as regras bra- sileiras de apostas esportivas. Esses sites, que geralmente estão hospedados em países como Malta ou Curaçao, onde a legislação é favorável, continuam oferecendo opções prejudiciais e não aprovadas em território brasileiro. Os cassinos online, hoje popular- mente conhecidos como “jogos do Tigrinho”, prometem ganhos muito rápidos, porémsemnenhuma garantia. (Larsens,2019)

O tipo de jogo conhecido como bet, acessível por aparelhos celulares, tem seu nicho de exploração entre os mais pobres, pela facilidade de acesso e ausência de empecilhos legais e buro- cráticos de controle. Esse apostador contumaz, geralmente das classes

mais desfavorecidas, tende a encarar a aposta como investimento e acredi- ta que ‘investindo’ pouco dinheiro pode multiplicálo. Quando essa perspectiva (‘investimento’) associa -se a um com- portamento compulsivo, torna-se a fórmula perfeita para o vício e o com- prometimento da renda familiar (Mello, 2014,s.p.).

É importante citar a falta de fiscalização das redes sociais e de seus algoritmos com rela- ção a anúncios. De acordo com as regras da plataforma Meta, por exemplo:

Os anunciantes podem veicular anún- cios para jogos de cassino sociais e grátis sem autorização prévia da Meta desde que não ofereçam a oportunida- de de ganhar dinheiro, moeda, presen-tes ou algo de valor monetário(Meta, s.d.)

Todavia não é isso que se constata. Basta visitar uma plataforma de apostas on-line, para sermos bombardeados por anúncios incessantes, estimulando cada vez o vício e as apostas, com propagandasilusóriasepro-messas fantasiosas.

Essa relação entre vulnerabilidade econômi- ca e a promessa de lucro fácil reforça o ca- ráter predatório das plataformas de apostas, que, disfarçadas de entretenimento, constro- em um novociclodeexclusãoedependência.

5.3. Cracolândia Digital: Vício Virtual, Realidade Invisível

Os algoritmos não apenas moldam nosso consumo, mas moldam também nossos ví- cios. O que antes parecia distopia de ficção científica tornou-se um cotidiano silencioso

paramilhares de brasileiros.

O cenário descrito por Miguel Nicolelis, em Nada Mais Será Como Antes, pode soar como ficção para alguns, entretanto já é uma triste realidade para muitas famílias brasileiras.

O Projeto Nirvana foi criado por um cientista computacional suíço que pro- fessa a tese de que todos nós, seres humanos, devemos nos render às má- quinas inteligentes (...) Baseada nesta filosofia lunática, uma empresa asso- ciada a esse cientista suíço, decidiu desenvolver um metaverso, altamente sofisticado, que permitia que pessoas marginalizadas pela sociedade pudes- sem ser obrigadas a viver em contínua e total imersão num mundo paradisíaco virtual (...) como contrapartida, todas essas pessoas e suas famílias, teriam que voluntariamente concordar empas- sar a maioria do seu tempo consciente, vagando por este universo virtual (...) como cocaína, heroína ou crack, depois de um tempo imerso, você se torna to- talmente dependente dessa vida virtual ( Nicolelis, 2024, p. 187-189)

A dependência crescente das pessoas em plataformas de apostas evidencia que, no Brasil, trata-se de uma questão de saúde pú- blica. Conforme o psicólogo e pesquisador Souza (2024 apud Dip at. al., 2024), em entre- vista para o site Pública, o vício nas platafor- mas de apostas é uma epidemia silenciosa, disfarçada no brilho das telas. como se pode presenciar em situações familiares próximas, em que a nova forma de vício se infiltra sorra- teiramente na vida das pessoas, com efeitos tão devastadores quanto os das substâncias psicoativas.

Para além de dados e estatísticas, a depen-

dência em plataformas de apostas e cassi- nos virtuais mostra-se próxima demais da re- alidade cotidiana, vivenciam-se experiências dolorosas, com esse tipo de compulsão digi- tal, uma trajetória marcada

por prejuízos financeiros, abalos emocionais e o comprometimento de vínculos afetivos. A sequência de fatos a seguir, vivenciada por um familiar próximo, ilustraesse processo:

“Tudo começou como uma diversão aparentemente inocente. Era uma espécie de cassino online, que os influenciadores diziam ‘pagar bem’.

Sem pensar muito, esse familiar depo- sitou cerca de R$20 natal plataforma. As pri-meirastentativas frustradas não geraram pre- ocupação. No entanto, dias depois, ouvíamos novamente os sons da roleta girando e mais valores sendo depositados. Eventualmen- te, pequenas premiações surgiam, mas logo eram perdidas em novas apostas. Os depósi- tos aumentavam progressivamente. Passou a ser comum a solicitação de dinheiro emprestado, dizendo ser para uma emergência, contudo o valor acabava emmais apostas”.

É preciso ir além da superfície do jogo e considerar os mecanismos que o sustentam. A forma como o algoritmo prende a pessoa, a falta de regulamentação, tudo intensifica ain- da mais a situação em que a pessoa se en- contra. A falsa impressão de lucro imediato, a euforia de ganhar uma aposta ou uma boa premiação naquela rodada do “tigrinho”, as- semelham-se à euforia momentânea provo- cada por uma substância psicoativa, como a cocaína ou o crack. A euforia é momentânea, não é eterna. Destaca-se a experiência pes- soal, cuja analogia contribui para a compre- ensão mais ampla do fenômeno investigado, pois pode-se comparar o vício dos jogoscomo das drogas:

Durante alguns meses, entre os anos de 2018 e 2019, eu vivi uma prisão mental, atrelada ao uso desenfreado de cocaína. Assim como nos jogos online, onde o algoritmo faz com que a pessoa sempre tenha contato com a plataforma, na vida real, a rotina, frequentar os mesmos lugares, falar com as mesmas pessoas que dividiam aqueles momentos co- migo, faziam com que eu ficasse preso nessa bolha do vício. O “algoritmo da vida real” não permitia que eu saísse daquele ciclo de bus- car o entorpecente, usar, esperar o efeito passar, ter uma ressaca moral e no dia seguinte, repetir o feito. Foram semanas em que per- maneci preso na minha própria Cracolândia.”

Assim como as drogas, o vício algorítmico não se limita a uma questão individual ou moral. É um fenômeno coletivo, estruturado e incentivado por sistemas que lucram com a dependência. Da mesma forma que a Cra- colândia escancara a ausência do Estado diante de usuários de substânciasquímicas, a Cracolândia Digital

revela a omissão diante de um novo tipo de dependência: silenciosa, tecnológica, lucrati- va e profundamente desigual.

Ver que tais plataformas não possuem total regulamentação reforça que as políticas pú- blicas não conseguem pensar em indivíduos viciados em jogos. Considerar essa vulnera- bilidade exige analisar não apenas aspectos individuais, mas também o coletivo e os con- textos sociais exatamente como propõe Ayres et.al. (2009 apud Camargo, Oliveira e Raupp, 2022), ao discutir os usuários da Cra- colândia, perspectiva facilmente aplicávelàs pessoas viciadas emjogos.

5. Resultados

Legalizarascasasdeapostason-linenoBrasil traria ótimos frutos não só para os usuários, que hoje estão dependentes desses jogos, como poderia aumentar significativamente a arrecadação tributária brasileira. De acordo com o Portal BNL em parceria com o Instituto Brasileiro Jogo Legal, cerca de R$ 20 bilhões são movimentados anualmente. Além disso, com medidas legislativas rígidas, é possível minimizar os impactos negativos, pensando, por exemplo, em como tratar a pessoa vicia-da emjogos.

Recentemente, o governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sancionou a lei 18.186/25, que prevê a oferta de atendimento especializado nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) do Estado para pessoas com vício em jogos de azar, sejam elas em cassi- nos físicos ou virtuais (Menezes, 2025). Essa atitude precisa ser adotada pelo governo fe- deral, proporcionando acolhimento correto e adequado para aqueles que estão neste mo-mento de extrema vulnerabilidade.

É também urgente pressionar as plataformas digitais, como a Meta, para que suas ferra- mentas de análise de anúncios, por exemplo, façam um trabalho minucioso na hora de aprovar uma propaganda. Basta que as em- presas usem palavras genéricas, sem ligar diretamente a lucro ou apostas, para que os anúncios sejam aprovados. É indispensável criar métodos mais rígidos e eficazes para que esse tipo de propagando não seja disse- minado, principalmente quando ferem os códigos de conduta daprópriaplataforma.

6. Considerações Finais

Este artigo buscou compreender como a personalização algorítmica, aliada à ausência de políticas públicas eficazes, contribui para

o agravamento da dependência emplatafor- mas de apostas digitais no Brasil. Com base em dados, referências

teóricas e relatos de vivenciais, foi possível identificar padrões de vulnerabilidade que atingem especialmente grupossocialmente marginalizados.

Os achados indicam que o vício em jogos di- gitais não deve ser tratado como escolha in- dividual, mas como resultado de uma engre- nagem mais ampla moldada por interesses econômicos, ausência de regulação e atua- ção intensificada de algoritmos. A pesquisa demonstrou que o fenômeno é multifatorial e atravessado por dinâmicasde exclusãoso-cial.

É reconhecido, no entanto, que este estudo tem limitações, como a restrição do número de casos analisados e a ausência de aprofun- damento em recortes de faixa etária, gênero ou raça. Ainda assim, evidencia-se a neces- sidade urgente de regulamentação das apos- tas digitais e de uma abordagemética no uso dealgoritmos, paraevitar a consolidação de novas formas de marginalização tecnológica.

7. Fontes Consultadas

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Jéssica De Souza2

O CEMITÉRIO DOS VIVOS: ESTUDO COMPARATIVO ENTRE A CRÍTICA

PRESENTE NA OBRA DE BARRETO E OS FUNDAMENTOS DOMOVIMENTO

ANTIMANICOMIAL,

COM FOCO NA

ATUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL1

1. RESUMO

Este artigo investiga o papel do Assistente So- cial na luta Antimanicomial, por meio de uma análise histórica do atendimento às pessoas com transtornos mentais, conectada com a obra literária de Lima Barreto Cemitério dos Vivos, buscando os movimentos de resistên- cia à institucionalização e ao confinamento “de pessoas consideradas indesejáveis pela sociedade”.Assim, o principal objetivo foi compreender a práxis do Assistente Social, na perspectiva da transformação dos encaminhamentos e ações para os atendimentos psiquiátricos às pessoas com transtornos mentais. Para isso, a metodologia utilizada foi a bibliográfica e qualitativa, fundamentan- do-se em autores como Barreto (2017), Arbex (2013), Pereira (2011). A pesquisa revelou a importância da ação do Serviço Social na área da saúde mental, resgatando as raízes históricas da luta por uma sociedade sem manicômios, no sentido da desinstitucionali-

zação, na sociedade contemporânea. Defen- deu o compromisso deste profissional com a compreensão das vulnerabilidades dos usu- ários, com a articulação das redes de apoio e acesso às políticas públicas, reforçando o papel ético-político do Assistente Social na construção de uma sociedade maisjustae inclusiva.

Palavras-chave: Serviço Social. Luta Antimanicomial. Desinstitucionalização.

2. INTRODUÇÃO

Otema do presente artigo foi o compromis-so com uma práxis do Serviço Social, que considerasse o tratamento da pessoa com transtornos mentais em liberdade, aliando-se ao movimento Antimanicomial, desencadea- do por denúncias presentes na literatura fic- cional e na investigação de diferentes atores sociais. Desta forma, o problema elaborado

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística da FAEP, sob orientação da Profa. Dra. Rosângela Aparecida dos Reis Machado e Profa. Me. Ana Maria Gentil. Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025.

2 - Estudantedo 8º semestredo curso deBacharelado emServiço Social, do Centro Universitário FAEP- 2025.

para conduzir a pesquisa foi: Qual o papel do Assistente Social na luta Antimanicomial, considerando as críticas realizadas aos atendimentos psiquiátricos, nas pesquisas exis- tentes sobre o tema e na obra de Lima Barre- to, CemitériodosVivos?

Para responder a esta pergunta, organizou-se um texto em três partes, contendo: a tra- jetória histórica do atendimento psiquiátrico, comparandoa com a narrativa autobiográfica de Lima Barreto, em Cemitério dos Vivos; o movimento da luta antimanicomial; o papel do Assistente Social, no âmbito da saúde mental.

A relevância acadêmica desta pesquisa resi-diu em sua abordagem interdisciplinar, que transcende a análise puramente literária para utilizar a obra como fonte de crítica socioló- gica e histórica do modelo manicomial. Ao estabelecer um diálogo entre a crítica de Bar- reto e os fundamentos do Movimento da Luta Antimanicomial, o trabalho contribuiu para o campo das Ciências Sociais e da Saúde, evi- denciando que as denúncias históricas e os princípios da Reforma Psiquiátrica, como a defesa da cidadania e da autonomia, não são meras coincidências, mas, sim respostas di- retas às violações do passado.

Portanto, a pesquisa foi fundamental para a consolidação de uma prática profissional crí- tica e comprometida com a superação das lógicas manicomiais que ainda persistem no imaginário social e em algumas instituições. A denúncia de Barreto e as lições do movi- mento antimanicomial serviram como um alerta e um guia para a atuação do Serviço Social.

Nesse sentido, a hipótese para responder ao problema foi: o papel do profissional Assis-

tente Social é romper com o paradigma higie- nista e moralista do passado, tornando-se um agente fundamental na defesa dos direitos humanos e na articulação de políticas públi- cas que visem à reinserçãosocialeàautono-mia dos usuários.

3. OBJETIVOS:

Objetivo Geral: Analisar a trajetória histórica dos serviços de atendimento à saúde men- tal no Brasil, comfoco na crítica institucional presente na obra Cemitério dos Vivos de Lima Barreto, para fundamentar a proposição do papel do Assistente Social natransformação dos serviços psiquiátricos.

Objetivos Específicos: a) comparar a histó- ria do atendimento à pessoa com transtor- nos mentais, considerando a inter-relação entre loucura, racismo e classe social com o quadro apontado em Cemitério dos Vivos; b) verificar os movimentos de resistência ao confinamento das pessoas com transtornos mentais, destacando a luta antimanicomial e a reforma psiquiátrica no Brasil; b) identificar o papel do Assistente Social e do CAPS para a inclusão das pessoas em tratamento psiquiá- trico, destacando a desinstitucionalização e a defesa da cidadania.

4. METODOLOGIA

A metodologia utilizada foi a bibliográfica e qualitativa, por meio de um estudo comparati- vo entre a literatura ficcional – Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto (2017) e o histórico da realidade do atendimento em manicômios, bem como a luta Antimanicomial e o papel do Assistente Social. Fundamentou-se em autores que tratam o tema, como: Amarante (1995), Arbex (2013), Pereira (2011) e Faria (1995), bem como documentos do Ministério

da Saúde e do Conselho Federal de Serviço Social. O processo de aprofundamento em um assunto, que apresenta lacunas nas infor- mações, pode caracterizar a presente pesqui- sa como exploratória.

5. DESENVOLVIMENTO:

5.1. Loucura, Racismo e Classe social: Análi- se Contemporânea da Atuação Manicomial e a Segregação de seus internos.

A história dos manicômios no Brasil é mar- cada por uma brutal intersecção entre loucu- ra, exclusão social e opressões estruturais, como o racismo e a desigualdade de classe. A instituição manicomial não foi apenas um espaço de tratamento psiquiátrico. Foi uma engrenagem poderosa no controle social dos corpos considerados desviantes não so- mente os que sofriam com transtornos men- tais, mas também os pobres, negros, homos- sexuais, alcoólatras, usuáriosdedrogas,eatédissidentes políticos.

Com a consolidação do modelo asilar a partir do século XIX, o que se viu foi a criação de verdadeiros depósitos humanos, como denuncia Lima Barreto em O Cemitério dos Vivos, obra autobiográfica escrita durante sua internação no Hospício Nacional de Alienados. Ele escre- ve: “não me incomodo muito com o Hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida” (Barreto,2017,p.8).

Este incômodo reflete uma crítica direta ao papel da polícia como agente de triagem mo- ral e social, pois o louco, o desajustado e o indesejado eram indistintamente confinados. O autor acusa que, antes mesmo de um diag- nóstico médico, havia a criminalizaçãoda existência:

EstounoHospícioou,melhor,emvárias dependências dele, desde o dia 25 do

mês passado. Estive no Pavilhão de Observação, que é a pior etapa de quem, como eu, entra aqui pelas mãos da po- lícia […] Não me incomodo muito com o Hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida(Barreto, 2017, p. 34).

Afirma também:

A Polícia, não sei como e porquê, adqui- riu a mania de generalizações e as mais infantis. Suspeita de todo o sujeito es- trangeiro com nome arrevesado; assim os russos, polacos, romaicos são para ela forçosamente caftens; todo cidadão de cor há de ser por força um malandro; e todos os loucos hão de ser por força furiosos e só transportáveis em carros blindados (Barreto,2017, p. 143-¬144).

As instituições psiquiátricas no Brasil foram, dessa maneira, centros de poder, onde se ma- terializou uma medicina punitiva, atravessada por critérios morais e políticos.

Como analisa Foucault (1978), o nascimento do hospital psiquiátrico está atrelado a uma lógica de segregação e não de cuidado, pois a loucura é retirada do convívio social para ser domesticada e silenciada.

A acusação das condições desumanas que permeavamesses espaços ganhou força comobras como Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex (2013), que desvela o cenário de horror vivido por milhares de internos no Hospital Colônia de Barbacena (MG), onde mais de 60 mil pessoas morreram,ao longo dedécadas defuncionamento.

Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre

o pátio e inundava o chão do pavilhão feminino. [...] Moscas pousavam em cima dos mortos-vivos. O mau cheiro provocava náuseas” (Arbex, 2013, p. 170).

Nesses espaços, apresentava-se um verda- deiro genocídio institucionalizado, muitas vezes respaldado pelo Estado e por institui- ções acadêmicas. Os mortos viravamobjeto de lucro:

A partir de 1960, a disponibilidade de cadáveres acabou alimentando uma macabra indústria de venda de corpos. [...] Em meia década, a venda de cadá- veres atingiu quase R$600 mil” (Arbex, 2013, p. 76).

A loucura, assim, tornou-se mercadoria, e a vida daqueles enclausurados,descartável.Isso evidencia como o manicômio operava não apenas como instituição médica, mas como mecanismo de exclusão e extermínio de populações consideradas inúteis ao proje- to de nação. Não é coincidência que os mais pobres, os negros e os desviantes de gênero e sexualidade figuravam como maioria abso-luta nos leitose pátios desses hospitais.

Lima Barreto, negro, alcoólatra e crítico do sistema, viveu por experiência própria os efeitos dessa política de silenciamento. Suas internações forçadas, descritas com lucidez amarga em O Cemitério dos Vivos, ilustram o quanto o manicômio era um reflexo do racis- mo estruturale da hipocrisia social da Primei- ra República. Ele escreve:

“Devido a pigmentação negra de uma grande parte dos doentes aí recolhidos, a imagem que se fica dele é que tudo é negro. O negro é a cor mais cortante,

mais impressionante; e contemplando uma porção de corpos negros nus, faz ela que as outras se ofusquem no nosso pensamento. É uma luz negra sobre as coisas, na suposição de que, sob essa luz, o nosso olhar pudesse ver alguma coisa […]” (Barreto,2017, p. 168).

É urgente revisitar essas narrativas, não só como denúncia histórica, mas também como alerta à permanência de lógicas manicomiais na contemporaneidade.

Movimentos como o da Luta Antimanicomial, o Sanitarismo Crítico e os coletivos de sobreviventes psiquiátricos vêm desempenhando um papel essencial na denúncia dessas viola- ções e na construção de um novo paradigma: o cuidado em liberdade, a autonomia dos su- jeitos e o direito à diferença.

Conforme aponta Amarante (1995), a refor- ma não pode ser simplesmente uma mudan- ça de instituições, é necessário que seja uma transformação profunda de saberes, práticas e valores. A loucura deve ser escutada não contida. A sociedade precisa deixar de temê-la como ameaça e reconhecê-la como parte da diversidade humana.

5.2. Críticas, Denúncias e o surgimento da Luta Antimanicomial: Reforma Psiquiátrica com foco em Liberdade e Cidadania

A partir da década de 60, movimentos de psiquiatras e profissionais de saúde mental começarama criticar o modelo manicomial. Franco Basaglia, psiquiatra italiano, influen- ciou o pensamento crítico com o movimen- to da Psicoterapia Institucional e a ideia de desinstitucionalização; seu pensamento ins- pirou a luta antimanicomial e a busca por um modelo de atenção em saúde mental mais

humano, inclusivo e baseado nos direitos humanos.

No Brasil, Basaglia esteve presente e interfe- riu diretamente o processo da Reforma Psi- quiátrica, que resultou em avanços. Ele visitou vários manicômiosparasabercomoeraotra- tamento dos pacientes nos hospitais psiquiá- tricos públicos. Segundo a Sociedade Mineira de Psicologia, ao conhecer o Centro Hospi- talar Psiquiátrico de Barbacena, o psiquiatra italiano foi impactado pelas condições precá- rias e desumanas em que se encontravam os indivíduos no manicômio. Basaglia ficou hor- rorizado com a realidade do local, comparan- do-o a um “campo de concentração nazista” e fomentando a Reforma Psiquiátrica Brasilei- ra. (Oliveira, 2011 apud Valente, s/d).

Durante a visita ao Centro Hospitalar Psiquiátrico, Basaglia constatou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia com esta” (Arbex,2013,p. 207)

As origens dessa luta foram em 1978, com um movimento social para os direitos dos pa- cientes psiquiátricos – Movimento dos Traba- lhadores em Saúde Mental (MTSM), compos- to de trabalhadores, sindicalistas, familiares e pessoas com longo histórico de internações psiquiátricas. O movimento apresentou de- núncias de violência nos manicômios, com crítica à internação hospitalar como forma de tratar os transtornos mentais. Inspirado pela desinstitucionalização, na experiência italia- na, o movimento ganhou força e, no II Con- gresso Nacional do MTSM, em 1987 (Bauru, SP), adotou o lema “ Por uma Sociedade sem Manicômios”. Neste período, surge o Primeiro CAPS, no Brasil,emSão Paulo(Brasil, 2005)

Desta forma, a Luta Antimanicomial obteve

visibilidade e apoio da população. Com o pas- sar dos anos, criaram-se equipamentos públi- cos para o tratamento gratuito das pessoas encaminhadas para a psiquiatria, originando múltiplos CAPS (Centros de Atenção Psicos- social), que visavam à terapia em liberdade e com foco na reabilitação psicossocial. As Residências Terapêuticas, inicialmente para ex-internos, sem vínculos familiares, também se constituíram em espaços de reabilitação, coma pretensão de atendimentos mais hu-manizados.

Para articular os serviços de saúde, assis- tência social e direitos humanos, foi criada a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial).

De acordo com o Ministério da Saúde, é função dos CAPS prestar atendimen- to clínico em regime de atenção diária, evitando assim as longas internações em hospitais psiquiátricos; promover a reinserção social das pessoas com transtornos mentais através de ações intersetoriais; regular a porta de entrada da rede de assistência emSaúde Men-talnasua área de atuação e dar suporte à atenção à Saúde Mental na rede bási- ca Os CAPS, portanto, organizam a rede de atenção às pessoas com transtornos mentais nos municípios procurando via- bilizar os direitos e atenção social aos usuários do serviço (Brasil, 2004, apud Pereira, 2011, p.57).

Assim, os CAPS apresentam um programa terapêutico para cada indivíduo, oferecendo um conjunto de oficinas, projetos, atividades e atendimentos, voltados para as singularida- des de cada um, possibilitando que possam responder, de forma satisfatória, aos cuida- dos destinados aos sujeitos que necessitamdos seusserviços.

5.3. Saúde Mental e Direitos Humanos: o papel do Serviço Social na defesa da autonomia e inclusão

Historicamente, o Assistente Social estava vinculado à Igreja, que pretendia direcionar o comportamento da sociedade, impondo uma ética conservadora, voltada para a caridade e a moral. A Igreja agia com base em concep- ções higienistas, que desejavam excluir pes- soas, tais como: etilistas, prostitutas, mães solos, negros, homossexuais, pessoas com deficiência e transtornos mentais, que pode- riam influenciar negativamente os indivíduos da sociedade. Vê-se que havia embasamento profissional em estudos pautados no conser- vadorismo e não havia outras maneiras am- plas de estudo para a prática profissional. No livro Serviço Social e Filosofia das Origens a Araxá, Faria (1995, p.55) destaca: “Sem uma formação moral socialmente edificada sobre uma base de princípios cristãos, a atividade será falha, porque lhe faltarão elementos que garantem uma ação educativa que é visada pelo Serviço Social”.

Com a revolução sobre os direitos e o apoio ao trabalhador, o Serviço Social rompeu com o pensamento retrógrado, no que se refere à saúde mental. Assim, foi consolidada, ao lon- go dos anos, a identidade do Assistente So- cial, que passou a adotar uma práxis pautada no compromisso ético-político com os Direi- tos Humanos e aJustiça Social, na intenção de garantir direitos epromover a cidadania.

De acordo com Iamamoto e Carvalho (1998 apud Pereira, 2011), o Serviço Social tinha, inicialmente, o objetivo de fornecer assistência aos trabalhadores, para diminuir a contradi- ção existente na relaçãoentre capitale tra-balho.

Dessa maneira, durante um espaço de tem- po, o Assistente Social não constituiu a sua identidade no campo psiquiátrico “como um espaço sócio ocupacional, devido principal- mente ao pequeno número de assistentes sociais trabalhando com a problemática da loucura” (Iamamoto e Carvalho, 1998 apud Pereira, 2011, p.63).

Conforme aponta o Conselho Federal de Ser- viço Social (CFESS), o reconhecimento da questão social como objeto de intervenção profissional exige que se compreenda os de- terminantes sociais, econômicos e culturais, que afetam o processo saúde-doença. Então “O assistente social deve contribuir para que a Reforma Psiquiátrica alcance seu projeto ético-político” (CFESS, 2010, p. 41).

Pereira (2011) argumenta que, com o avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil, o Assis- tente Social é uma peça-chave na garantia de direitos e na promoção da autonomiados usuários

O estudo da autora (2011) possibilitou a organização de uma argumentação sobre a práti- ca do Assistente Social noRAPSe, especifi-camente, no CAPS, cuja função é ir além do tratamento clínico, para atuar na defesa dos direitos humanos e sociais, realizando ações como:

a) Identificação de vulnerabilidades: quais as condições familiares e sociais que interferemna saúde mentaldos in-divíduos;

b) Articulação de todas as redes de apoio: reintegrar o indivíduo na socie- dade, buscando diferentes formas de conexão com a família, a comunidade emque está inserido e instituições que podemoferecersuporte.

c) Investigação das possibilidades de acesso às políticas públicas: identificar benefícios, programas sociais e direitos sociais, como moradia, educação etra-balho.

Dessaforma,considera-seque:

A base da direção social da formação profissional, norteiam o perfil do bacha- rel em Serviço Social, profissional este que atua nas expressões da questão social, formulando e implementando propostas para o seu enfrentamento, por meio de políticas sociais públicas, empresariais de organização da socie- dade civil e movimentos sociais. Profis- sional dotado de formação intelectual e cultural generalista crítica, competente em sua área de desempenho, com ca- pacidade de inserção criativa e proposi- tiva, no conjunto das relações sociais e no mercado de trabalho, comprometido com os valores e princípios norteadores do Código de Ética do Assistente Social (Brasil, 1999, p. 01, apud Pereira, p.88).

6. RESULTADOS

Reitera-se o posicionamento de Pereira (2011), que indica as principais dificuldades enfrentadas pelos assistentes sociais, como a precariedade das políticas públicas e a falta de recursos para desconstruir o modelo ma-nicomial, que ainda está presente no imagi- nário social. Para superar esses obstáculos, a autora propõe: o olhar crítico, para além da visão biomédica e reconhecimento da influ- ência de fatores sociais; a mediação, atuando como uma ponte entre pessoas diagnostica- das com transtornos mentais, suas famílias e os serviços de saúde, promovendo a partici- pação ativa dos usuários em seus processos

de cuidados; o fortalecimento da autonomia dos indivíduos, para que construam uma jor- nada de recuperaçãoe reinserçãosocial.

Acredita-se na transformação do pensamen- to conservador, no que se refere à saúde men- tal, impactando as práticas excludentes, que ainda são observadas no encaminhamento de tratamentos de pessoas com transtornos mentais, como apontado por Lima Barreto em Cemitério dos Vivos. Nesse sentido, o As- sistente Social é visto como uma peça-chave na defesa da autonomia dos usuários da saú- de mental, atuando na identificação de vulnerabilidades, na articulação de redes de apoio e na garantia do acesso a políticas públicas, como benefícios, moradia, educação e traba- lho. Esse profissional pode ser um agente de mudança para promoção de um tratamento em liberdade, garantindo acidadania plena dessesindivíduos.

Após a trajetória da pesquisa, acredita-se que seja necessário que o profissional do Servi- ço Social tenha um olhar atento às expres- sões da “questão social” e um forte compro-misso coma construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, utilizando ferramentas de trabalho, como a promoção da emanci- pação, a escuta qualificada e as opções de apoio para cada caso apresentado. Para uma abordagem integral, indica-se a existência da equipe multidisciplinar, que envolve outros profissionais como psicólogos, médicos, educadores,advogados, etc.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao realizar a pesquisa, considera-se que será necessária uma maior investigação sobre a realidade atual do serviço à população aten- dida pela psiquiatria, diagnosticada como tendo transtornos mentais, pois constata-se

que ainda existem heranças relacionadas ao olhar preconceituoso e às ações discrimina- tórias, que precisamserreconhecidase con-testadas.

Abordou-se a história dos manicômios no Brasil, destacando-se como eles serviram para controlar e excluir pessoas “marginaliza- das da sociedade”, como os pobres, negros, homossexuais e dissidentes políticos, sob o pretexto de tratamento psiquiátrico. A obra de Lima Barreto “O Cemitério dos Vivos” ilustra a repressão exercida por essas instituições.

Discutiu-se as denúncias sobre as condições desumanasnosmanicômios,comoasrevela-dasno livro “Holocausto Brasileiro” de Danie- la Arbex, que expôs o massacre de mais de 60 mil pessoas no Hospital Colônia de Bar- bacena (MG), onde os corpos dosinternos se tornavammercadoria.

Destacou-se a Luta Antimanicomial, que sur- giu na década de 1970, influenciada por mobi- lizações internacionais, como as do psiquia- tra italiano Franco Basaglia. Esse caminho, iniciado no Brasil pelo Movimento dos Traba- lhadores em Saúde Mental (MTSM), defen- dia a substituição do modelo asilar por uma abordagem mais humana e inclusiva. Como resultado, surgiram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Residências Tera- pêuticas, focados no cuidado em liberdade e na reabilitação socialdos pacientes.

Por fim, examinou-se o papel do Serviço So- cial nesse contexto. Inicialmente, a profissão tinha uma abordagem conservadora, ligada à caridade e a práticas higienistas. No entanto, coma evolução da área, o Assistente Social passou a adotar uma práxis comprometida com a justiça social e os direitos humanos. Assim, este profissional pode ser um impor- tante agente de mudança para superar a ló-

gica manicomial e garantira cidadania plena dos indivíduos comtranstornosmentais.

8. FONTES CONSULTADAS

AMARANTE, Paulo. Loucos pela Vida: A trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.

ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro: A história do maior hospital psiquiátrico do Brasil e da morte de mais de 60 mil pessoas. 4ª ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

BARRETO, Lima. Diário do Hospício & O Cemitério dos Vivos. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Reforma Psiquiátrica e política de Saúde Mental no Brasil. Conferência Regional de Reformas dos Servi- ços de Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL (CFESS).Parâmetrosparaaatuaçãodeassis-tentes sociaisna saúde.Brasília,DF: CFESS, 2010. p. 41

FARIA, Ayda. Serviço Social e Filosofia: Das Origens a Araxá.[S.l.]: [s.n.], 1995. FOUCAULT, Michel. História da Loucura na IdadeClássica. SãoPaulo:Perspectiva,1978.

PEREIRA, Jaira Alana Claro.O Serviço Social na Saúde Mental: Um estudo acerca das de- mandas, competências e dificuldades profis- sionais nos CAPS à luz da reforma psiquiátri- ca. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Serviço So- cial da Universidade Federal da Paraíba.João Pessoa. PB: UFPB, 2011. VALENTE, Pablo. Franco Basaglia, a figura-símbolo da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Blog CENAT, Sem Data. Disponível em: https://blog.cenatcursos.com.br/franco-basa- glia/ Acessoem22 de agosto de2925.

ABANDONO: IMPACTO NA CONDIÇÃO DE VIDA DA PESSOAIDOSAEOPAPELDO ASSISTENTE SOCIAL1

1 - RESUMO

Opresente trabalho temcomo objetivo ana-lisar as representações de abandono da ve- lhice em Dom Casmurro e na realidade das famílias contemporâneas, bemcomo as im-plicações para a prática profissional do As- sistente Social. Com destaque para a questão do abandono, procurou-se também refletir, de forma sucinta, acerca da legislação vigente, com foco na proteção do idoso. Evidenciou-se que estudos direcionados a esta temáti- ca envolvem outras áreas do conhecimento que, em articulação conjunta, visam ao de- senvolvimento de políticas adequadas para o atendimento a essa parcela da população. A metodologiautilizadafoia pesquisa bibliográ- fica e qualitativa, com algumas informações quantitativas, para ajudar na argumentação. Foi lida e considerada a obra de literatura fic- cional Dom Casmurro de Machado de Assis (2015). Consultou-se autores que tratam do tema, como Beauvoir (2020), Mariano (2019), Silva(2016), Passos(2016). Avelhicede Ben-

tinho, em Dom Casmurro, narrada com tom de amargura, ressentimento e isolamento, pode ser interpretada como uma metáfora do abandono social e afetivo de pessoas idosas. Tais elementos literários dialogam direta- mente com os desafios que o Serviço Social enfrenta,hoje,noatendimento a idosos em si- tuação de vulnerabilidade, especialmente os que vivem em abandono, negligência familiar ou institucional. A obra, portanto, serve como provocação ética e crítica para pensar políti- cas públicas e práticas profissionais voltadas à dignidade na velhice. O Serviço Social, na prática com a terceira idade, deve ter como compromisso a autovalorização do idoso, embasado numa concepção homem-mundo, tendo uma atuação social, com propensão a transformar a realidade do idoso, vendo-o como sujeito de direitos e valorizando-o na sociedade, procurando, por intermédio de ações interventivas, superarasformasdeiso-lamento e exclusão social.

Palavras-chave:ServiçoSocial.PessoaIdosa.

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística da FAEP, sob orientação da Profa. Dra. Rosângela Aparecida dos Reis Machado e Profa. Me. Ana Maria Gentil. Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025.

2 - Estudantedo 8º semestredo curso deBacharelado emServiço Social, do Centro Universitário FAEP- 2025.

Izilda de Oliveira Caetano2

2 - INTRODUÇÃO

OServiço Social, aolongo de sua trajetória, passou por diversas transformações que acompanharam as mudanças na sociedade e na maneira da tratativa com as questões so- ciais e políticas públicas, relacionadas à velhi- ce. Este trabalho teve como objetivo explorar essas mudanças no papel do Assistente So- cial, no que se refere ao abandono da pessoa idosa, retratado na literatura e constatado na observação da realidade vivida. A necessi- dade de abordar a temática surge a partir da constatação de que o processo de envelhe- cimento é um fenômeno mundial e que tem sérias consequências, mas, não só no âmbito da saúde, como, também, no aspectosocioe-conômico.

O problema que delimitou o tema escolhido foi: quais as implicações para a prática do Assistente Social, diante da identificação do abandono vivenciado pela população idosa em diferentes espaços da sociedade? Para essa questão, elaborouse uma hipótese: o papel do Assistente Social é articular os aces- sos para uma melhor convivência da pessoaidosa nasociedade.

Organizou-se um artigo com a seguinte estru- tura: relação das linhas e entrelinhas da obra literária –Dom Casmurro, com o abandono na velhice; situação do idoso na família e os impactos sociais; a legislação e as políticas públicas de proteção e apoio ao idoso; papel do Serviço Social, no que se refereaoabando-no da pessoa idosa.

3 - OBJETIVOS

Objetivo Geral: Analisar a representação do abandono na velhice em Dom Casmurro e na sociedade contemporânea, destacando as suas implicações para a prática profissional do Assistente Social.

Objetivos Específicos: a) identificar elemen-tos do abandono e da solidão na narrativa de Bentinho como idoso, em Dom Casmurro; b) refletir sobre os impactos sociais, emocio- nais e políticos do abandono na velhice; c) discutir as garantias previstas no Estatuto da Pessoa Idosa e em outras legislações, quanto ao combate ao abandono do idoso; d) com- preender o papel do Assistente Social, no que se refere ao trabalho com a pessoa idosa.

4 - METODOLOGIA:

Esta pesquisa se constituiu como de natu- reza qualitativa. O objeto e o objetivo deste estudo não se pautaram, prioritariamente, em referências quantitativas, embora foram uti- lizadas, em alguns momentos, para apoiar a argumentação sobre a situação do idoso, na atualidade. Para que os objetivos fossem al- cançados, utilizou-se o método de pesquisa bibliográfica. Neste sentido, a pesquisa biblio- gráfica será utilizada a partir do levantamento ou revisão de obras publicadas, tomando por base a teoria que irá direcionar ao trabalho científico, embasado emlegislações, como o Estatuto do Idoso (2003), bem como a obra literária de Machado de Assis Dom Casmurro (2015). Os autores investigados foram: Beau- voir (2020), Mariano (2019), Silva (2016), Passos (2016)

5 - DESENVOLVIMENTO

A partir dos estudos realizados, destacam-se o crescimento do abandono e as violações contra a pessoa idosa, que sempre estará presente sem ser valorizada. E essa desvalo-

rização pode ser causada ou porque as pes- soas não analisaram a questão, ou porque é mais cômodo não assumir o que essa fase da vida exige da comunidade e da sociedade. As- sim, ao considerar a velhice como período de inatividade, os idosos são abandonados em hospitais, instituições ou nas ruas, sem se- rem consultados sobre seus projetos de vida. Eles acabam sendo esquecidos, sofrendo vio- lação dos direitos e tornando-se invisíveis. O abandono como “renúncia” e “esquecimento” da pessoa idosa, ocorre não só pela falta de vínculos familiares, mas peladesproteção dacomunidade edo Estado.

5.1. Solidão e Invisibilidade na Velhice: uma

Análise da Figura de Bentinho, em Dom Casmurro

Em Dom Casmurro (Assis, 2015), a relação com a velhice é central. Bentinho, o narrador, já velho e solitário, relata sua história de amor e desconfiança por Capitu, sua esposa, em um esforço para compreender melhor sua vida e a própria história.

A obra é uma refle- xão sobre o passado, a memória e a busca por sentido em um casamento que se desfaz sobre o peso da desconfiança e do ciúme, que aflige Bentinho na velhice. A narrativa de Bentinho é marcada pela tristeza e pela solidão, características comunsà velhice.

A obra reflexiona sobre a natureza humana, as relações sociais, as ilusões e as decep- ções da vida, todas vistas sob o prisma da velhice e do olhar de Bentinho. A memória dessa personagem como a de qualquer pes- soa, não é um registro perfeito, mas sim uma construção que pode ser influenciada pelas emoções e pela própria visão do passado.

Embora seja uma obra de ficção, fica exposta a negligência familiar e social em relação a

idosos, que se observa na contemporaneida- de. Esta realidade é um problema grave, com consequências que vão desde a deterioração da saúde física e mental até o isolamento social e a perda da dignidade. É importante compreender que a negligência pode mani-festar-se de várias formas como a omissão de cuidados básicos, violência física ou psi- cológica, abandono e a exploração financeira.

5.2. Família, Cuidado e Omissão: os Vínculos Fragilizados na Velhice Literária e Real

Na velhice, os vínculos, tanto em contexto literário quanto na realidade, tendem a se fragi- lizar devido a uma série de fatores, incluindo mudanças físicas e mentais, perda de auto- nomia, maior dependência, sendo assim, os idosos apresentam dificuldades nas relações familiares e sociais.

Embora a literatura possa explorar esses te- mas de forma aprofundada, é crucial reco- nhecer a realidade complexa e multifacetada da fragilidade dos vínculos na velhice. A ve- lhice é definida como um período de solidão, isolamento, dificuldade de comunicação, de- pendência e perda de conexão com o passa- do, presente ou futuro. Em Dom Casmurro, Machado de Assis (2015) retrata a solidão, as angústias e tristezas de Bentinho.

Ao pensar na realidade, observa-se que o número da população com mais de 65 anos cresce continuamente, gerando questões econômicas e crise social, provocando exclu- são de pessoas idosas e um aumento da pre- ocupação de muitos indivíduos em parecer mais jovens. Nesse sentido, Mariano (2019) afirma que falar sobre o passado é um ato de coragem, pois as pessoas do mundo de hoje vivemlutandocontrao envelhecimento.

Pode–se observar nas estatísticas que o abandono do idoso é uma prática que cresce no Brasil. Em junho de 2023, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (2023) di- vulgou um dado alarmante: as denúncias de abandono de idosos: registraram um aumen- to de 855% entre janeiro e maio,emcompara-çãoaomesmoperíodode2022.

Foram quase 20 mil registros ao longo de cinco meses em 2023, contra 2.092 casos registrados no ano anterior.

Os números tornaram-se ainda mais preocupantes, quando se nota a tendência de envelhecimento da população em todo o planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2015), até 2050, os idosos serão um quinto da população global. O Conselho Re- gional de Serviço Social do Maranhão, infor- ma: “A OMS estima que em 2025, pela pri- meira vez, a população de idosos no planeta ultrapassará a de crianças. Segundo estudos da OMS, em 20 anos o Brasil será o sexto pais do mundo com maior número de pessoas idosas” (CRESS-MA, 2022).

No Brasil, apopulação segue a tendência de acordo com a Pesquisa Nacional por Amos- tra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada peloIBGE(2016)-10,5%dapopula-ção brasileira tem 65 anos ou mais. Até 2030, o número de idosos deve ultrapassar o de jovens na faixa de zero a 14 anos, conforme previsãodo Ministérioda Saúde(2018).

Se por um lado, a longevidade pode ser observada como uma conquista decorrente de melhores condições de saúde dos idosos e de avanços da medicina, por outro, ela traz grandes desafios, principalmente no que diz respeito à proteção dessa população, que muitas vezes se torna total ou parcialmente dependente com o passar dos anos.

A convivência

social, no Brasil, não tem explicitado princípios de civilidade e igualdade de direitos, pois a sociedade brasileira está estruturada sob o jugo da escravidão e do mando patrimonial. Uma parte da população sempre gozou de privilégios, sendo que uma grande faixa populacional foi destituída de bens essenciais à existência humana, contra- riando a ideia de uma sociedade democrática (Silva, 2016)

Aí está o crime de nossa sociedade. Sua “política de velhice” é escandalo- sa. Mais escandaloso ainda, porém, é o tratamento que inflige à maioria dos homens na época de sua juventude e de sua maturidade. A sociedade pré-fa- brica a condição mutilada e miserável que é o quinhão deles na última idade. É por culpa da sociedade que a decadên- cia senil começa prematuramente, que é rápida, fisicamente dolorosa, moralmente horrível e a razão por que esses indivíduos chegam à última idade com as mãos vazias. Explorados, alienados, quando a força a deixa, tornam-se fatal- mente “refugos”, “destroços”. (Beauvoir, 2020, p.560)

A sociedade baseada em valores democráti- cos, éticos, de justiça e de cidadania faz par- te de uma história recente do Brasil, desen- cadeada por movimentos da sociedade civil e pelo marco legal da Constituição vigente. A agenda desses movimentos da sociedade civil organizada permanece voltada para uma cultura política de civilidade., que tem busca- do os canais democráticos conquistados, em marcos constitucionais de grupos mais fra-gilizados, como a pessoa idosa. Esses movi- mentos procuramatuar nas políticas públicas e em uma ação fiscalizadora e propositiva das ações governamentais. (Silva, 2016)

Para os idosos, a construção de uma cultura de civilidade precisa considerar a dimensão da convivência entre as gerações, o que sig- nifica o compartilhamento de responsabilida- des e a identificação de papeis sociais a se- rem desempenhados. A

questão intergeracional instiga o debate nas universidades abertas para a terceira idade e nos programas de extensãouniversitária vol-tados para essa população, que vêm se proli- ferando no Brasil a partir da década de 1990. Através das atividades desenvolvidas nesses espaços de educação permanente, os diálo- gos com os próprios idosos têm posto como tema de reflexão e mobilização a identifica- ção do lugar social dos idosos como sujeitos políticos de direitos. Nesse aspecto, sobres- sai o direito ao envelhecimento com dignida- de, conforme disposto na legislação social que objetiva assegurar proteção básica e especiala esse segmento social.

Em política, o indivíduo conserva duran- te toda sua vida os mesmos direitos e os mesmos deveres. O Código Civil não faz qualquer distinção entre um cente- nário e um quadragenário. Os juristas consideram que, fora dos casos pato- lógicos, a responsabilidade penal dos idosos é tão integral quanto a dos jo- vens. Os idosos não são considerados uma categoria à parte e, por outro lado, isso não lhes agradaria; existem livros, publicações, espetáculos, programas de televisão e de rádio destinados às crianças e aos adolescentes; aos ido- sos, não. Em todos os planos eles são incorporados aos adultos mais jovens (Beauvoir, 2020,p. 9)

No que se refere ao estatuto econômico, considerase que a pessoa idosa pertence a

uma espécie estranha: “os idosos não têm as mesmas necessidades nem os sentimentos dos outros homens, já que nos basta con- ceder-lhes uma miserável esmola para nos sentirmos desobrigados com relação a eles” (Beauvoir, 2020, p. 561).

Os legisladores e economistas julgam que os não ativos representam um peso para os ativos, esquecendo que também serão não ativos no futuro e que poderiam assegurar o próprio amparo, quando estivessem nessa fase de suas vidas (Beauvoir, 2020).

Paraaautora(Beauvoir,2020):

Os idosos que não constituemqualquer força econômica não tem meios de fa- zer valer seus direitos: o interesse dos exploradores é o de quebrar a solidarie- dade entre os trabalhadores e os impro- dutivos, de maneira que estes últimos não sejam defendidos por ninguém. Os mitos e os clichês postos em circulação pelo pensamento burguês se aplicam em mostrar o idoso como um outro. Es- quecem que é com adolescentes que duram um número bastante grande de anos que a vida faz os idosos; observa Proust; eles conservam as qualidades e os defeitos do homem que continuam a ser. Isto é, a opinião que ignora (p. 9).

Para a sociedade, o idoso deve dar exemplo de virtude. Se manifesta sentimentos e dese- jos semelhantes aos mais jovens, as pessoas se escandalizam, uma vez que o ciúme pare- ce ridículo, a violência irrisória e a sexualidade repugnante. A exigência da serenidade per- mite a desconsideração por sua infelicidade. Atribuem uma imagem de sábios experientes de cabelos brancos equando nãoé daforma que as pessoas

imaginam, o idoso é consideradolouco, ca-duco e delirante. Dessa forma, seja pela vir- tude ou pela atribuição de loucura, a pessoa idosa sente-se fora da humanidade (Beauvoir, 2020). Dessa maneira, recusam, sem escrú- pulos, o mínimo necessário paraumavidahu-mana digna.

5.3. A legislação e as políticas públicas voltadas para a pessoa idosa.

A população brasileira e mundial envelhece e é crescente a necessidade de cuidadores e programas de proteção ao idoso. A Políti- ca Nacional do Idoso, Lei 8.842/1994 (Brasil, 1994), promulgada em 1994 e regulamentada em 1996, assegura que a pessoa idosa, aque- la que tem 60 (sessenta) anos ou mais, tem direito à autonomia, integração e participa- ção social, reafirmando também o acesso à saúde integral no SUS. O Estatuto do Idoso - Lei n. º 10.741/ 2003 é destinado a regular os direitos assegurados às pessoas, com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, pre- vendo que o abandono de idosos é crime e as implicações podem levar à responsabilizaçãocívele criminal. No Artigo 4°, essa lei in- dica que “Nenhum idoso será objeto de dis- criminação, violência, crueldade, negligência ou opressão, e todo atentado aos direitos por ação ou omissão será punido na forma da lei. É dever de todos prevenir a ameaça ou viola- ção aos direitos do idoso.” (Brasil, 2003)

Existem ainda políticas públicas voltadas à população idosa, algumas delas referem-se à Saúde:programas de saúdeespecíficos paraidosos, acesso facilitado a cuidados médicos, prevenção de doenças crônicas e promoção de estilos de vida saudáveis sãoessenciais.

5.4. O papel do Serviço Social no atendimen- to à população idosa.

O trabalho do profissional de Serviço Social sempre procura responder às necessidades sociais e garantir o atendimento, pautado no projeto éticopolítico em relação à pessoa idosa e proporcionar a promoção ao acesso à proteção e aos direitos sociais e necessários aos idosos, fortalecendo os vínculos com a família, a comunidade e o protagonismo so- cial dos idosos (Passos, 2016). No que se refere à saúde do idoso, o Assistente Social deve encaminhar aos serviços especializados, acompanhando em cuidados domici- liares, emcaso de negligência,abandonoe maus tratos. Dessa forma, o Assistente Social desempe- nha um papel fundamental no trabalho com idosos, pois é responsável por garantir que suas necessidades sociaissejam

atendidas de forma adequada e que tenham acesso a serviços e recursos que promovam seu bem-estar e qualidade de vida.

A seguir, são destacadas importantes ações do Assistente Social diante deidosos:

I. Avaliação e planejamento: realizam avalia- ções abrangentes das necessidades dos ido- sos, levando em consideração fatores como saúde física e mental, apoio familiar, habita- ção, finanças e acesso a serviços médicos. Com base nessas avaliações, eles desenvol- vem planos de cuidados personalizados para garantir o suporte necessário, envolvendo di- ferentes setores (articulação interdisciplinar);

II. Acesso a recursos: orientam os idosos a acessar uma variedade de recursos comu- nitários, como programas de assistência financeira, serviços de saúde, transporte, habitação acessível, programas delazereati-vidades sociais;

III.Apoio emocional: oferecem apoio emocio- nal aos idosos e suas famílias, por meio da escuta ativa, ajudando-os a lidar com ques- tões como solidão, depressão, perda de entes queridos e adaptação a novas circunstâncias de vida, sabem que envelhecer pode ser um período desafiador da vida, com mudanças fí- sicas, emocionais e sociais significativas; IV. Advocacia e defesa de direitos: defendem os direitos dos idosos, trabalhando para garantir que sejamtratadoscomdignidade e respeito em todas as áreas da vida. Apoiam-se nas políticas e práticas que promovam a inclusão, a igualdade de acesso aos serviços e a prote- ção contra abusose negligência;

V. Intervenção em crises: em situações de abuso, negligência, violência doméstica ou emergências médicas, os Assistentes Sociais intervêm para garantir a segurança e o bem-estar dos idosos, colaborando com outros profissionais para oferecer o suporte.

Assim, os Assistentes Sociais desempenham um papel essencial no trabalho comidosos, fornecendo suporte holístico e personalizado para ajudá-los a viver com dignidade, autono- mia e qualidade de vida na velhice.

6. RESULTADOS

A partir da pesquisa realizada, a obra literária e os textos de base científica demonstraram que a pessoa idosa, na sociedade contempo- rânea, é negligenciada por uma intersecção de motivos., entre eles : a busca da imagem jovem pela população ; a ideia de que o idoso se torna improdutivo com o avançar da idade; a crença de que todo idoso tem uma saúde vulnerável , tanto física,comopsíquicaeemo-cional; apercepção

de que a pessoa idosa não apresenta as características esperadas para a sua condição:

sabedoria, conhecimento, experiência e comportamento adequado.

Nesse sentido, o Assistente Social tem o pa- pel de contribuir com a garantia do direito dos idosos, facilitando acesso aos serviços, en- caminhando-os às práticas de atividades que favorecem o seu bemestar, possibilitando o estreitamento dos vínculos familiares, preve- nindo e intervindo em casos de violência e ne- gligência. Portanto, trabalhando paraaeman-cipação da pessoa humana.

Destaca-se o desempenho do Assistente So- cial na conscientização e sensibilização da sociedade sobre o envelhecimento e ocui-dado coma pessoa idosa, evitando, dessa maneira, o abandono. Pode também atuar na criação e a promoção de políticas públicas para essa população, mobilizando diferentes setores, incluindo a educação, para a mudan-ça das mentalidades.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O artigo discute o abandono e a violação de direitos contra a pessoa idosa noBrasil. Avelhice é frequentemente vista como um pe- ríodo de inatividade, levando ao abandono e à invisibilidade dos idosos, que são deixados em hospitais ou nas ruas por negligência ou falta de condições de cuidado. O abandono, que pode ser familiar ou social, tem crescido de forma alarmante no país.

Os dados estatísticos e o texto literário” Dom Casmurro” explicitam a solidão, a invisibilida- de e a fragilização dos vínculos que marcam a velhice.

A sociedade atual desvaloriza os ido- sos, produzindo condições de vida que levam ao seu abandono, vendo- os como “refugos” e “improdutivos”.

Para combater essa realidade, o Brasil conta com leis como a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso, que definem a pessoa idosa (a partir dos 60 anos) e consideram o abandono um crime. Nesse contexto, desta- ca-se o papel fundamental do Serviço Social, cujo profissional atua como mediador entre os idosos e a sociedade, garantindo o acesso a direitos, recursos e apoio emocional. O as- sistente social promove a autonomia, a digni- dade, a participação social e a proteção dos idosos contra qualquer tipo de violência.

8. FONTES CONSULTADAS

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Campi- nas. SP: Vialeitura,2015.

BEAUVOIR, S. de. A Velhice: ensaio sobre a condição humana. (Tradução aria Helena Franco Martins) – Rio deJaneiro:Nova fron-teira, 2020.

BRASIL. Lei nº 8.842, de4dejaneiro de 1994. Dispõesobre a Política Nacional do Idoso e dá outras providências. Disponível em https://www.mds.gov.br/webarquivos/ publicacao/assistencia_social/normativas/ politica_i doso.pdf. Acesso em08 deagosto de 2025. BRASIL. Estatuto da Pessoa Idosa. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe so- breoEstatuto do Idoso. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2003.Disponível em: https://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741. htm. Acessoem08 de agosto de2025.

CRESS- MA. Conselho Regional de Serviço Social do Maranhão. Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa – 01/10. São Luís. MA, 2022.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira 2016. In: IBGE. Estudo e Pesquisas:

Informação Demográfica e Socioeconômica, nº 36. Rio de Janeiro, 2016.

MARIANO, Vinícius Neves. Velhos demais para morrer. Rio deJaneiro. RJ: Malê, 2019.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Brasil: um país de idosos. 2018. Disponível em: https://www. gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/ noticias/2018/brasil-um-pais-de- idosos. Acessoem: 3 set.2025.

MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. Brasil. Brasil registra mais de 202 mil violações de direitos contra pessoas idosas no 1º trimestre de 2023. Bra- sília. DF, 2023. Disponível em: https://www. gov.br/mdh/pt- br/assuntos/noticias/2023/ maio/brasil-registra-mais-de-202-mil-violaco- es-dedireitos- contra-pessoas-idosas-no-1o-trimestre-de-2023. Acesso em 22 de agosto de 2025.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE - OMS. Relatório Mundial de Envelhecimento e Saú- de2015. Disponível em: https://sbgg.org.br/ wpcontent/uploads/2015/10/OMS- ENVELHECIMENTO-2015-port.pdf. Acesso em 20 de agosto de 2025.

PASSOS, Rachel Gouveia.Trabalho,cuidado e sociabilidade: contribuições marxianas para o debate contemporâneo. In.: Vários autores. Envelhecimento e Capitalismo. Coleção So-cial e Sociedade. São Paulo: Cortez, 2016SILVA, MariadoRosáriodeFátimae.Envelhe-cimento e proteçãosocial:aproximações en-tre Brasil, AméricaLatinae Portugal.Serviço. Social. Sociedade.,n. 126,p. 215-234, maio/ ago. São Paulo,2016.

Danieli Cristina Ramos Hernandes1 Evandro de Almeida2

A IMPORTÂNCIA DO

ASSISTENTE SOCIAL

NO APOIO ÀS FAMÍLIAS COM PESSOAS COM SÍNDROME DE DOWN

RESUMO

A Síndrome de Down (SD), uma condição genética, incide aproximadamente 1 a cada 700 nascimentos no Brasil, o que demanda supor- te multidimensional ao indivíduo e familiares. Este estudo objetiva demonstrar, através de revisão bibliográfica,opapeldoassistenteso-cialnoapoio das famílias de pessoas com SD, desde o diagnóstico ao acompanhamento. Os objetivos específicos incluem apresentar a SD, dificuldades familiares, estratégias de inter- venção profissional e recomendações da práti- ca do assistente social. A pesquisa evidenciou que a intervenção do assistente social media acesso às políticas públicas e promove auto- nomia da pessoa com SD e suportepsicosso-cial para resiliência familiar.

Palavras-chave: Serviço Social. Síndrome de Down. Família. Direitos. Inclusão Social.

INTRODUÇÃO

A Síndrome de Down (SD) é uma condição genéticaresultantedatrissomiadocromossomo 21. Segundo dados do Ministério da Saúde (Brasil, 2013), a síndrome ocorre em 1 a cada 600 a 800 nascimentos no Brasil,configuran-do-secomouma dasprincipaiscausasdedefi-ciênciaintelectual.

A condição apresenta desafios multidimensio- nais que impactam toda a família. O momento do diagnóstico é crucial e, muitas vezes, mar- cado porfragilidadeemocionaledesinforma-ção.

Conforme destaca Diniz (2018, p. 72), “a for- ma como o diagnóstico é comunicado pode influenciar profundamente a adaptação da fa- mília, podendo gerar sentimentos de luto, ne- gação ou fortalecimento, dependendo do su-porte recebido”. Uma pesquisa do Movimento Down (2019) mostrou que 68% das famílias re- cebem o diagnóstico de maneira inadequada, sem informações claras ou encaminhamento. As famílias enfrentam desafios complexos,

1 - Graduada em Ciências Contábeis -Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo – FACESP. Graduação em Peda- gogiaUniversidade Norte do Paraná, UNOPAR. Especialista em Psicopedagogia – UNOPAR. Mestrado em Controladoria. Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo - FACESP e-mail: danieli.hernandes@cogna.com.br

2 - Graduação em Relações Internacionais - Centro Universitário Belas Artes de São Paulo - FEBASP. Especialista em Negócios e Comércio Internacional – Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU; Especialista em Magistério para o Ensi- no Superior - Centro Universitário Belas Artes de São Paulo - FEBASP - Mestre e Doutor em Ciências Sociais – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP. Tutor na FAEP nos cursos de Gestão. e-mail: evandrovsky@hotmail.com

como: comunicação inadequada do diagnós- tico, frequentemente associada a estigmas sociais (MovimentoDown,2019);dificuldades noacessoa políticas públicas; e sobrecarga emocional e financeira.

Outro ponto enfrentado são as dificuldades burocráticas para acessar benefícios e servi- ços essenciais (IBGE, 2020). Existe também a questão da inclusão escolar, que representa um problema devido à falta de adaptações pedagógicas (Mantoan, 2015).

Nesse cenário, o Serviço Social desempenha um papel fundamental na mediação entre fa- mílias, serviços públicos e sociedade, pautan- do-se na “ética, direitos humanos e defesa in- transigente da dignidade” (CFESS, 2011).

Oproblemada pesquisaé:Comoo ServiçoSo- cial pode contribuir para o fortalecimento das famílias de pessoas com Síndrome de Down, desde o diagnóstico até o acompanhamento contínuo? O objetivo geral foi compreender o papel do Serviço Social noapoio a essas fa-mílias.

A pesquisa justifica-se por sistematizar o conhecimento científico, subsidiar a atuação profissional com base em evidências e contribuir para políticas públicas mais eficazes. O estu- do realizado foi uma Revisão de Literatura de abordagemqualitativa edescritiva.

DESENVOLVIMENTO

1. SÍNDROME DE DOWN

A Síndrome de Down é uma condição genética caracterizada pela presença de um cromosso- mo extra o 21, estando presente desde o nas- cimento. De acordo com o Ministério da Saúde (Brasil, 2012), ela não constitui uma doença, massim “uma variaçãogenéticaquefazparte

dadiversidadehumana”.

Estacondiçãoinfluencia,demaneirasingularo desenvolvimentointelectualefísicodapessoa, configurando-secomoumadasvariações,que compõemo espectroda experiência humana. A basegenéticadasíndromeestánaalteração cromossômica, queresultaem47 cromosso-mos, sendooadicionalligadoaopar21,como descreve Stratford(1997).

Esta alteração pode manifestar-se através de três formas principais: Trissomia Simples (95% dos casos), Translocação (3-4%) e Mosaicis- mo (12%). Cunningham (2008, apud Dezoti et al, 2013, p.80) ressalta que “a Síndrome de Down não é um rótulo fixo, mas a declaração de probabilidade sobre um ser humano”, evi- denciando a variabilidadeindividualnodesen-volvimento.

O desenvolvimento das pessoas comSíndro-me de Down pode apresentar características particulares, incluindo traços faciais distinti- vos e um ritmo cognitivo diferenciado.

Aestimulaçãoprecocerevela-se fundamental nesse processo, Pierro destaca (1987, p.2): “a cabeça de uma criança, mesmo a cabeça de umbebê Down, é uma lousa branca na qual po- de-se escrever muitas e muitas coisas”. Esta perspectiva enfatiza o potencial de desenvolvi- mento quando há intervençãoadequada.

A compreensão contemporânea da deficiência evoluiu para um modelo social, de acordo com o que estabelece a Convenção Internacional sobre Direitos das Pessoas com Deficiência (Brasil, 2008, p.16), que define que “a defici- ência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente”. Esta concepção ressalta que as limitações estão mais relacionadas às bar- reiras sociais do que às condiçõesindividuais.

O desenvolvimento da pessoa com Síndrome de Down resulta da interação entre fatores bio- lógicos e ambientais, Voivodic explica (2008, p.46): “o desenvolvimento da pessoa com SD resulta não só de fatores biológicos, mas tam- bém das importantes interações com o meio”. Schwartzman (1999) complementa que as limitações podem ser significativamente su- peradas mediante estimulação intensa e con- tínua ao longo de toda a vida, especialmente quandoiniciada precocemente.

2. O SERVIÇO SOCIAL E SUA ATUAÇÃO NO APOIO A FAMÍLIAS DE PESSOAS COM SÍN- DROME DE DOWN

2.1 Definição e Fundamentos do Serviço Social

O Serviço Social é uma profissão de caráter sociopolítico, crítico e interventivo, que atua nas expressões da questão social. Segundo Iamamoto (2004, p. 25), o Serviço Social “in- sere-se na divisão social e técnica do trabalho, assumindo uma dimensão pedagógica e po- lítica”. A profissão é regulamentada pela Lei nº 8.662/1993 (Brasil, 1993), que define suas competências e áreas de atuação, sempre pautada em princípios éticos e legais.

A definição contemporânea de Serviço Social, aprovada pela Assembleia Geral da Federação Internacional de Assistentes Sociais (Interna-tional Federation of Social Workers / IFSW) em 2014, caracteriza-ocomo:Umaprofissãodein-tervençãoe uma disciplina académica que pro- move o desenvolvimento e a mudança social, a coesão social, o empowerment e a promoção da Pessoa. Os princípios de justiça social, dos direitos humanos, da responsabilidade coleti- va e do respeito pela diversidade são centrais ao Serviço Social (IFSW, 2014).

2.2 Código de Ética do Assistente Social

OCódigo de Ética do Assistente Social serve como um guia essencial para a prática profis- sional, estabelecendo diretrizes baseadas em valores fundamentais, como a autonomia dos indivíduos, sua emancipação e a defesa intran- sigente dos direitos humanos.

Esse documento oficial, publicado pelo Con- selho FederaldeServiçoSocial(CFESS,2011), fornecea base moral e técnica que orienta to- das as ações e decisões no exercício da pro- fissão, assegurando um compromisso social claro e consistente. Ela está fundamentada em quatro pilares: 1) compromisso com a não discriminação; 2) importância da competência técnica; 3) combate ativo aos preconceitos; e 4)escutaativaeacolhimentonaprática.

Um dos pilares mais importantes do Código de Ética é o princípio da não discriminação. Isso significa que o assistente social deve garantir que todas as pessoas recebam o mesmo aces- so aos direitos, sem qualquer tipo de distinção. Seja por condição social, física, racial ou de gê- nero; o profissional trabalha para que todos tenham oportunidades iguais.

Essa postura é fundamental para construir uma sociedade mais justa, em que cada ci- dadão possa desenvolverseupotencial.Oas-sistente social atua como um guardião desse princípio em sua prática cotidiana.

A competência técnica assegura que o assis- tente social utilize conhecimentos científicos comprovados em seu trabalho, indo além de uma boa vontade e exigindo formação cons- tante e atualização profissional.

Esse profissional, por meio de métodos e te- orias validados, pode oferecer um atendimen- to de qualidade, que realmente atenda às ne- cessidades da população. Esse compromisso

com a excelência técnica garante que as intervenções sociais tenham base sólida e produ- zam resultados efetivos, evitando, assim, que o trabalho sejabaseadoapenas emopiniõesouimprovisos.

O Código de Ética vai alémde simplesmente evitar a discriminação, pois ele exige um em- penho ativo na eliminação de preconceitos. Ou seja, o assistente social deve combater estigmas e promover a inclusão social de for- ma propositiva, trabalhando para desconstruir estereótipos e criar espaçosmaisacolhedores paratodos.

Essa atuação inclui desde o enfrentamento de situações concretas de discriminação até a educação da sociedade sobre diversidade, configurando-se como um trabalho contínuo de transformação cultural.

A escuta ativa e o acolhimento são ferramen- tas essenciais no trabalho com famílias de pessoas com deficiência. Por meio da escuta verdadeiramente interessada, o profissional pode compreender as reais necessidades de cada família, pois esse acolhimento cria um espaço seguro, onde os sentimentos e dúvidas podem ser expressos sem julgamentos.

Além disso, essas práticas permitem que a orientação oferecida seja realmente adequada à realidade de cada caso, construindo, dessa forma, uma relação de confiança fundamental para o sucesso doacompanhamento social.

2.3 Áreas

de Atuação do Assistente Social

O assistente social atua em diversas áreas, sempre focando na garantia de direitos e na promoção da cidadania. Conforme a literatu- ra e a prática profissional, as principais áreas incluem: saúde, educação, assistência social, terceiro setor e interface com políticas públi-

No campo da saúde, o assistente social atua como um facilitador do acesso aos serviços médicos e de promoção do bem-estar.

Seu trabalho é desenvolvido em hospitais, unidades básicas de saúde e ambulatórios, onde realiza ações educativas e fornece informa- ções essenciais à população. O profissional orienta usuários sobre seus direitos no Siste- ma Único de Saúde (SUS) e auxilia no enfrenta- mento de vulnerabilidades sociais, que impac- tam as condiçõesde saúde.

Na área da educação, o assistente social contri- bui para a construção de ambientes escolares mais inclusivos e democráticos. Sua atuação envolve a mediação de conflitos entre família, escola e comunidade, alémda implementação de programas de apoio psicossocial.

O profissional trabalha para garantir a permanência e o sucesso educacional de estudantes em situação de vulnerabilidade, assegurando o cumprimento do direitoà educação dequali-dade.

Na assistência social, o profissional atua na ponta dosistemadeproteçãosocial,comatu-açãocentral nos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centros de Referência Especializado de Assistência So-cial).Seutrabalho envolve o atendimento dire- to à população em situação de risco e vulnera- bilidade social, com elaboração de planos de atendimento e encaminhamentos necessários para o acesso a direitos básicos.

No campo sociojurídico, o assistente social desenvolve suas atividades no sistema de justiça e no sistema prisional, realizando avaliações sociais e elaborando pareceres técnicos. Sua intervenção visa a garantir os direitos funda-

mentais de pessoas em conflito com a lei e de suas famílias, promovendo alternativas à pri- vação de liberdade, quando possível e acom- panhando o processo de reinserçãosocial.

No terceiro setor, o assistente social atua em organizações não governamentais (ONGs) e associações comunitárias, desenvolvendo e implementando projetos sociais. Esses pro- jetos visam ao fortalecimento comunitário, à geração de renda eà defesa de direitosde gru- pos específicos, como crianças e adolescen- tes, pessoas com deficiênciaepopulaçõesemsituação derua.

Em todas essas áreas, a atuação do assistente social se caracteriza pelo compromisso com a defesa intransigente dos direitos humanos e pela articulação com as políticas públicas exis- tentes. O trabalho profissional busca sempre a emancipação dos usuários e a transformação social, utilizando instrumentostécnico-opera-tivos, como entrevistas, visitas domiciliares e trabalhos em grupo, para alcançar seus obje-tivos.

Buscando o fortalecimento de vínculos, o profissional promove grupos de apoio, que previ- nem a sobrecarga dos cuidadores, alinhando-se com o princípio de defesa da democracia participativa.

Na garantia de direitos, orienta sobre benefí- cios sociais e articula acesso a políticas públi- cas, refletindoocompromissocomauniversa-lizaçãode serviços e justiça social, enquanto na promoção da autonomia, o assistente so- cial trabalha para que a pessoa com síndrome de Down seja reconhecida como sujeito de di- reitos, apoiando processos de inclusão escolar e profissional. Simultaneamente, combate de- sigualdades sociais em diversos espaços ins- titucionais, materializando o princípio de luta pelaequidade.

Em funções de assessoria e gestão, o profis- sional contribui para elaboração de políticas sociais intersetoriais, demonstrando compro- misso com a qualidade dosserviços.

No campo sociojurídico, por sua vez, atua em varas de família e sistema prisional, asseguran- do que o sistema de justiça não reproduza ex- clusões, numa concretização prática da defesa da cidadania plena parapessoascomdeficiên-cia.

2.4 O Momentodanotícia:fragilidade,processo de luto e a atuação do Assistente Social

O momento do diagnóstico da Síndrome de Down representa uma ruptura significativa para a família, caracterizada por sentimentos de cri- se e desestabilização. Segundo Bury (1982), este impacto configura uma “quebra biográfi- ca”, onde a trajetória familiar planejada é inter- rompida abruptamente. Os pais vivenciam um processo de luto simbólico pelo “filho idealiza- do” (Solomon, 2012), perdendo expectativas sociais e pessoais anteriormenteconstruídas.

Esta experiência pode ser compreendida atra- vés da metáfora de Kingsley (1987) sobre “viajar para a Holanda”, que ilustra a necessi- dade de adaptação a uma realidade diferente da esperada, porém, com valores próprios. Ol- shansky (1962) conceptualiza este processo como “luto crônico”, onde os pais experienciam ondas recorrentes de tristeza ao longo da vida. Goffman (1963) acrescenta que a deficiência é percebida como um estigma tribal, intensifi-cando medos de discriminação.

O assistente social atua como apoio funda- mental neste contexto, através de três eixos principais: escuta ativa e qualificada, que va- lida os sentimentos da família sem julgamen- tos; fornecimentodeinformaçõesclarassobre

direitos e acesso a serviços especializados; e conexão com redes de apoio ampliadas, in- cluindo grupos de pais e profissionais espe- cializados. Esta prática busca transformar a confusão inicial emnovasperspectivassobre a vida coma criança.

A intervenção profissional facilita a recons- trução de significados e o acesso a recursos essenciais, promovendo resiliência familiar frente aos desafios. Ao normalizar asemo-ções vivenciadase oferecer suporte concreto, o assistente social contribui para que a famí- lia elabore seu processo de adaptação e des- cubra caminhos para conviver com os novos desafios, sempre pautado no acolhimento e no fortalecimento dos vínculos familiares.

2.4.1 A Base Familiar no Desenvolvimento da Pessoa com Síndrome de Down e as Etapas da Vida

A família desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da pessoa com Síndro- me de Down. Conforme destacado por uma psicóloga do Instituto Mano Down, “a família é a base de tudo para a gente conseguir fazer qualquer tipo de intervençãocoma criança”.Aprimeirainfância(0a 6 anos), período definido como crucial pela UNICEF (2021), é quando a criança recebe a primeira fonte de amor, acei- tação e suporte emocional, elementos essen- ciais para a construção deuma autoimagempositiva.

Oapoiodoassistentesocialécontínuoeadap-tadoa cada fase do ciclo de vida, baseando-se na Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner (1996):

a) Primeira Infância (0-6 anos): Orientação sobre terapias e acesso a benefícios como o Benefício de Prestação Continuada BPC, com foco no sistema micro (família);

b) Idade Escolar (7-18 anos): Mediação entre família e escola, para garantir inclusão educacional, atuando nosistemameso;

c) Vida Adulta (18 anos em diante): Apoio na inserção no mercado de trabalho via Lei de Co- tas, atuando nosistema macro.

O assistente social desempenha o papel de mediador no acompanhamento contínuo, assegurando que os direitos sejam conhecidos e acessados.Noâmbitodoacolhimentoeorien-tação, garante o direito ao atendimento multi- profissional e orienta sobre benefícios sociais como o BPC e isençõestributárias.

O fortalecimento de vínculos assegura o di- reito ao apoio psicossocial através de grupos de apoio, enquanto na garantia de direitos, o profissional trabalha pelo acesso à educação inclusiva e benefíciosassistenciais.

Na promoção da autonomia, atua para garantir o direito à participação no mercado de traba- lho e à capacidade civil, conforme o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Brasil, 2015), as- segurando que a pessoacomSDtenhaacesso equitativo a serviços públicose culturais.

CONSIDERAÇÕESFINAIS

A chegada de uma criança comSD represen-ta um evento impactante, caracterizado como uma quebra biográfica, que exige da família um complexo processodeadaptaçãoeressig-nificação.

O assistente social possui um campo de atua- ção vasto e fundamental nesse contexto. Sua intervenção inicia-se no momento crítico da comunicação do diagnóstico, onde a escuta qualificada e o acolhimento são ferramentas primordiais para mitigar sentimentos de desesperança edesinformação.

O desempenho profissional, ancorado no Có-digo deÉticaenalegislaçãopertinente,como o Estatuto da Pessoa comDeficiência(Brasil, 2015), transcendeoassistencialismo,posicio-nando-se na defesaintransigentede direitos. Conclui-sequeo papeldoServiçoSocialées-tratégico para:

1). Orientar e garantir o acesso a direitos, des- de a solicitação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) até a mediação por uma educação inclusiva e a inserçãono mercado de trabalho. Oprofissional age como um elo essencial entre a família e a rede deserviçose políticas públicas.

2). Fortalecer a autonomia e a rede de apoio: Ao promover grupos de apoio e trabalhar o empoderamento das famílias, o assistente social contribui para a construção de resiliência, prevenindo a sobrecarga dos cuidadores e combatendo oisolamento social.

3). Enfrentar barreiras sociais: A atuação profissional é crucial para combater estigmas e o capacitismo, promovendo uma visão da pes- soa com SD como sujeito de direitos e de sua própria história.

Assim, esse estudo reafirma a indispensabi- lidade do Serviço Social como uma profissão comprometidacomajustiçasocialeaequida-de. A atuação técnica e ética desse profissio- nal, desde o acolhimento inicial até o suporte contínuo ao longo do ciclo vital, configura-se como um pilar fundamental para que as famí- lias possam superar os desafios e garantir o desenvolvimento pleno e a cidadania dapes-soa comSD.

Recomenda-se, para estudos futuros, pesqui- sas empíricas, que aprofundem a análise das intervenções realizadas na prática e investi- guem asnecessidadesespecíficasdaspesso-

ascomSDnoprocessodeenvelhecimento.

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ENTRE A FÉ E A DOR: A VIOLÊNCIADOMÉSTICAEM LARES CRISTÃOS E SEUS IMPACTOS HISTÓRICOS, SOCIAIS E ESPIRITUAIS1

1. RESUMO

O tema desse artigo é a compreensão da violência contra a mulher em lares cristãos, partindo de uma retrospectiva histórica do patriarcado. O objetivo principal da presente pesquisa foi realizar uma abordagem acessí- vel e fundamentada sobre as principais formas de violência contra a mulher no cristianismo, apresentando marcos legais, dados estatísti- cos e discussões atuais, pretendendo respos- tas para o enfrentamento da problemática. Para isso, foi feita uma pesquisa bibliográfica, qualitativa, complementada por alguns dados quantitativos. Foram utilizadas fontes de referências como: IBGE (2019), IPEA (2023) e Lei 11.340(2006),bemcomoautores que estudam o tema: Lerner (2019), Cesar (2021), Evaristo (2011), Federici (2017). As- sim, mesmo com a existência de leis como a Maria da Penha, o problema persiste, inclusive na Igreja Cristã, onde foi registrado que 43% dessas mulheres são as vítimas. Isso aconte- ce, porque leis sozinhas não mudam compor- tamentos enraizados no machismo estrutural

e no patriarcado. A Igreja precisa denunciar, acolher, reinterpretar as Escrituras e promover a liderança feminina para ser espaço de justiça e dignidade.

Palavras-chave: Violência contra a mulher. IgrejasCristãs.Patriarcado.

2. INTRODUÇÃO

O tema deste trabalho foi a violência domés- tica em lares cristãos, sendo que a questões desencadeadoras da pesquisa foram: De que maneira a violência doméstica se manifesta nos lares cristãos? Quais fatores religiosos, culturais e sociais contribuem para a sua ma- nutenção e o seu enfrentamento? A relevância do tema explicita-se na realidade alarmante, que atinge índices elevados no mundo, No Bra- sil, em 2024 foram registrados 1450 feminicí- dios e pesquisas indicam que 40% das mulhe- res cristãs sofrem violência doméstica, muitas vezes, praticada por homens que professam a mesma fé. Apesar da mensagem de amor e respeito do cristianismo, o silêncio, a cultura

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística da FAEP, sob orientação da Profa. Dra. Rosângela Aparecida dos Reis Machado e Profa. Me. Ana Maria Gentil. Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025.

2 - Estudantedo 8ºsemestredo curso deBacharelado emTeologia, do Centro Universitário FAEP-2025.

TalitaLemosdaSilveira2

patriarcal e interpretações equivocadas das Escrituras contribuem para a perpetuação desse problema. O principal objetivo é compreender a violência contra a mulher no contexto familiar cristão, visando contribuir para a sua redução. Considera-se que tal violência é incompatível com a fé, por este motivo. Deve-se desnatura- lizar comportamentos abusivos e fortalecer o debate acadêmico e social sobre gênero, fé e justiça. O estudo busca analisar as dinâmicas de poder,o silenciamento e a resistência femi- nina, promovendo uma reflexão crítica sobre o papel da religião na luta contra a violência de gênero. Inicialmente, a hipótese, para respon- der ao problema,eraqueomachismo, mesmo noshomens quefrequentavamasigrejascris-tãs, eraa principal causa para a perpetuação da violência doméstica. Entretanto, ao estudar a retrospectiva histórica do patriarcado e in- vestigar a violência nas igrejas cristãs,obtém-se uma visão mais ampla e profunda do que acontece nas igrejas cristãs, devido à herança patriarcal. Então, a partir desses estudos e da análise da legislação, pode - se constatar possiblidades de enfrentamento, de resistência e de transformação darealidade.

OBJETIVOS:

Oobjetivo geral desta pesquisafoi compre-ender a violência contra a mulher no contexto familiar cristão, visando contribuir para a sua redução. Os objetivos específicos foram: a) in- vestigar a violência contra a mulher na socie- dade sob uma perspectiva histórica; b) analisar a ocorrência da violência contra a mulher nas igrejas cristãs; e c) propor ações voltadas ao acolhimento e à prevenção da violência contra a mulher no lar cristão.

METODOLOGIA:

Para esse trabalho, foi adotada uma aborda- gem qualitativa, por meio de uma pesquisa

bibliográfica, complementada com investiga- ção de dados quantitativos. Na análise dos conteúdos das obras selecionadas, o objetivo foi identificar padrões relacionados à violência, ao silenciamento e à resistência das mulheres. Além disso, textos da Bíblia Sagrada foramexaminadossobaperspectiva da crítica femi- nista, buscando compreender como asmulhe- res vítimas de violênciasão representadas nas Escrituras. A fundamentação teórica apoiou-se em autores que abordam temas como gênero, religião e violência doméstica, possibilitando uma reflexão crítica sobre as dinâmicas pre- sentes no contextoestudado.

DESENVOLVIMENTO

1. A compreensão da violência contra a mulher na sociedade: uma retrospectiva histórica do Patriarcado.

A violência contra a mulher exige uma análi- se cuidadosa, pois trata-se de um fenômeno complexo, sustentado historicamente por estruturas sociais desiguais, como o patriarcado. Essa problemática ultrapassa fronteiras so- ciais, culturais, religiosas e geracionais, exigin- do um olhar atento para os fatores que contri- buem para sua perpetuação.

Osistemapatriarcalcolaborouparaanormali-zação daviolênciacontraamulhereparaama-nutençãoda desigualdade de gênero. Segundo Lerner (2019), o patriarcado é um sistema so- cial em que os homens ocupam posições de domínio e privilégio, enquanto as mulheres são subjugadas em diversas esferas da vida.

Aautora(Lerner,2019)consideraqueestesis-tema nãosurgiu deforma espontânea,masfoi construído no decorrer de séculos e gerações, colocando o homem em destaque, sendo o centro das decisões familiares, sociais e po- líticas. Na Antiguidade, a sociedade ocidental

moldou leis e normas que reforçavam o papel da mulher como propriedade exclusiva do ho- mem, principalmentenaquestãoreprodutivae sexual.

Durante a transição da Idade Média para a Modernidade, as mulheres que se recusavam a se submeter às normas patriarcais passaram a ser perseguidas e acusadas de bruxaria. A chamada “caça às bruxas” foi, na verdade, uma estratégia histórica de controle sobre o corpo feminino e uma forma de impor um novo mo- delo de disciplina, especialmente sobre o tra- balho e a sexualidade das mulheres.

Muitas das vítimas eram parteiras, curandeiras ou mulheres pobres e solteirasque nãoesta-vamsoba autoridadedeumhomem.Afoguei-ra foi o destino cruel de milhares de mulheres que ousaram viver fora dos padrões impostos de submissão (Federici, 2017).

Lerner (2019) afirma que, durante a Idade Mé- dia, a Igreja Católica consolidou a ideia de que as mulhereseramfontedepecado,oquejusti-ficavaa submissão e o controle total. A herme- nêutica errônea destaca que figuras, como Eva, na teologia cristã, foram associadas àorigem do pecado, reforçando a ideia de que a mulher era moralmente inferior, frágil, perigosa, tenta- dora e inclinada ao erro(Lerner, 2019).

Segundo Bourdieu (1999), a dominação masculina está tão enraizada na cultura que se torna invisível -“a ordem masculina se impõe como evidente e natural, mascarando sua construção histórica” (pg.11). Isso explica como práticas violentas contra a mulher são reproduzidas, sem contestaçãoemmuitos contextos.

Na escravidão, o corpo da mulher negra era explorado de forma brutal, sendo alvo de violên- cia sexual,trabalhoforçadoedesumanização.

Oseusenhortinhadireitosobreseutrabalhoe sobre seu corpo. Ele ou outros membros da fa- mília podiamconviverlivrementecomela,semassumira menor obrigação. A violência sexual contra as mulheres negras foi tornada institu- cional, constituindoumsistemadedominaçãototal(Lerner, 2019). “As mulheres negras cho- ram, mas os seus prantos não são ouvidos. São lágrimas que caem em silêncio, pesadas de dor e de resistência” (Evaristo,2011,p.14).

Assim, ao longo da história, a violência contra a mulher foi tolerada e, muitas vezes, incenti- vada por instituições sociais. As punições físi- cas e sexuais eram utilizadas como formas de adestramento e disciplina, sendo vistas como práticas educativas e moralizantes. A asso- ciação entre pecado, sexualidade e mulher alimentou visões misóginas, que legitimaram atos violentos, como a punição feminina por “bruxaria” ou desobediência(Lerner,2019;Fe-derici, 2017).

Conceição Evaristo, em Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011), denuncia como essa vio- lência histórica persiste nas atuais estruturas racistas.Suas personagens revelam que, mes- mo após a libertação,as mulheres negras con- tinuam sendo as mais atingidas pela pobreza, pelo racismo e pela violênciadoméstica.Ade-núncia,pormeiodaobra literária, é uma forma de resistência ao silenciamento patriarcal. Em um dos contos, a autora escreve: “A dor das mulheres não era só no corpo, mas na alma, no tempo, na herança da ausência. ” (Evaristo, 2011,p. 29)

Dentre as filósofas feministas, como Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), encontramos a denúncia do patriarcado como um sistema opressor que transforma a mulher em “o outro”, subjugada à identidade masculi- na. Para Beauvoir, “ninguém nasce mulher: tor- na-se mulher”, apontandoqueadesigualdade

femininaé uma construçãosociale histórica. No contextobrasileiro,essemodelopatriarcal se entrelaçacomo racismo estrutural. Amu-lher negra,porexemplo,sofreumatriplaopres-são:de gênero,declasseederaça,sendomar-ginalizada nos espaços sociais e políticos e vivendouma violênciadeformainterseccional.

Apesar dos avanços legais conquistados nos últimos anos, como a Lei Maria da Penha (Bra- sil, 2006) e a Lei do Feminicídio (Brasil, 2015), as mulheres que sofrem violência ainda enfren- tam uma realidade preocupante. Os casos de agressões físicas, psicológicas, sexuais e pa- trimoniais continuam aumentando, revelando que o sistema patriarcal permanece enraizado na sociedade atual. Esse sistema, sustentado por fatores como o machismo, a dependência econômica e a homofobia, mantém práticas violentas e discriminatórias contra as mulhe- res.Comoafirma Bourdieu (1999, p. 11), “a or- dem masculina se impõe como evidente e na- tural, mascarando sua construção histórica”, o que demonstra como essa estrutura se perpe- tua de forma velada e resistente àsmudançassociais.

2. A violência contra a mulher na Igreja Cristã

A igreja é o reflexo da sociedade. Ela é um espaço sagrado, no qual se reúnem pessoas de diferentes histórias, crenças e pensamentos. Contudo, o comportamento violento contra a mulher não respeita endereços, denominações ou estruturas religiosas para se manifestar. Vivemos em um país extremamente violento, onde os maiores alvos são as mulheres, as crianças e a população LGBTQIA+. Isso deve- ria nos chocar, comover e impulsionar à denún- cia e à ação. No entanto, os traços de um sis- tema patriarcal foram naturalizados, a ponto de muitos se calarem diante dessarealidade, inclusive dentro das igrejas.

No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas. A cada seis horas, uma mulher é morta dentro de casa o espaço que deveria ser seu refúgio. A cada minuto, incontáveis mulheres enfrentam agressões físicas, psi- cológicas, sexuais ou patrimoniais. De forma alarmante, 43% dessas mulheres, que sofrem violência doméstica, são cristãs (Cesar, 2021). A tabela abaixo ilustra a distribuição (educa- tiva e fictícia) da violência doméstica, entre mulheres brasileiras, segundo etnia ecrençareligiosa:

Fonte: IBGE (2019), IPEA (2023) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública(2024).

Os dados demonstram que mulheres evan- gélicas e católicas, majoritariamente pardas, estão entre as mais afetadas pela violência doméstica. Essa opressão não é apenas física, pois ela se expressa também no silenciamento de vozes femininas, que desejam servir no mi- nistério pastoral, mas são impedidas por uma interpretação patriarcal da fé cristã.

Por séculos, a narrativa religiosa reforçou a ideia de que a mulher foi a responsável pela queda do homemno Éden. Essa construção simbólica que transforma Eva na origem do pecado e da desobediência foi usada como fundamento teológico para justificar a submis- são moral, social e espiritual das mulheres. Gerda Lerner (2019) afirma que esse tipo de leitura fortaleceu o patriarcado religioso, co- locando a mulher como símbolo detentação, fraqueza e culpa.

Acríticaaessaconstruçãopatriarcaltambéméfeita porCésar(2021),quepropõeumarelei-

tura da figura feminina nas Escrituras. Para a autora, Eva representa não apenas a primeira mulher, mas a soma de todas as vozes femi- ninas abafadas, aolongo da história da fé cris- tã. Seu “grito” ecoa nas mulheres que desejam servir a Deus, mas são silenciadas ou excluí- das em nome de uma tradição, que desconsi- dera seus dons, sua fé eseu chamado.

Esse silenciamento se manifesta especialmen- te quando falamos de mulheres vocacionadas para o ministério pastoral. Muitas delas são tratadas como se fossem incapazes de liderar, instáveis emocionalmente ou teologicamente inferiores aos homens. A exclusão é justificada por interpretações literais de textos, como é o caso da Primeira Carta aos Coríntios, que afir- ma: “as mulheres estejam caladasnas igrejas” (Bíblia NVI, 2023, capítulo 14, versículo 34). Essa afirmativa desconsidera o contexto histó- rico-cultural da igreja de Corinto, marcadapor confusãoedesordemnoscultos.Nesta carta, o apóstolo Paulo não proíbe as mulheres de falar em qualquer tempo ou lugar, mas estabe- lece que os homens tinham prioridade, refletin- do uma hierarquia e uma cultura patriarcal (1 Coríntios 14:34-35, NVI 2023). Ainda assim, al- gumas mulheresparticipavamativamentedos cultos, como Febe, diaconisa recomendada por Paulo (Romanos 16:1-2), e Priscila, que en- sinava a Palavra ao lado de seu marido (Atos 18:26).

A exclusão de mulheres vocacionadas é uma forma de violência que silencia dons e sus- tenta injustiças na Igreja. Apesar de tradições religiosas tratarem o corpo feminino como im- puro, as Escrituras apresentam exemplos de li- derança feminina:Débora,juízaeprofetisa(Ju-ízes 4:4-10); Jael, que derrotou Sísera (Juízes 4:17-22); Hulda, consultada por autoridades (2 Reis 22:14-20); Priscila, instrutora de Apolo (Atos 18:26); e Junia, apóstolanotável(Roma-nos 16:7).

As Escrituras também revelam a dor de mulhe- res vítimas de violência: Eva, culpabilizada pela queda (Gênesis 3:12-16); Tamar, estuprada e silenciada(2 Samuel13:1-22);Diná,violentada semvoz no texto (Gênesis 34); Raquel e Lia, usadas como moeda de troca(Gênesis29:15-30);MariaMadalena, alvode estigmas antes de ser a primeira testemunha da ressurreição (João 20:11-18); e a mulher samaritana, dis- criminada e humilhada, mas acolhida por Cris- to (João 4:1-30). Essas histórias denunciam estruturas patriarcais que ainda ecoam hoje, quandomuitas mulheresvivema mesma lógica de dor,silenciamento eviolência.

Parte 3 – Possibilidades para refletir sobre o papel da Igreja Cristã no enfrentamento da vio- lência contra as mulheres.

É fundamental lembrar que a Igreja não deve encobriropecadonemprotegeragressores.OLivro dos Romanos (Biblia, NVI 2023 cap 13, verso 4) “Afirma que a

autoridade civil é ministra de Deus para fazer justiçacontrao malfeitor”. Encaminharumaví-tima para as autoridades competentes não é falta de fé, é obediência bíblica, eresponsabi-lidade social.

A violência contra a mulher não é apenas um problema social é um desafio espiritual e ético que exige da Igreja posicionamento. A Igreja não pode ser cúmplice do silêncio da dor do outro, instrumentodejustiça,amoreliber-tação.

Dessa forma, o papel da Igreja Cristã frente à violência contra a mulher é o de denunciar toda forma de violação da dignidade humana, organizando ações concretas e determinantes para prevenir, apoiar as vítimas e orientar toda a comunidade defé. Essa atuação inclui:

•promover espaços seguros de escuta e acolhimentopastoralepsicológicoparamulheres; •formar lideranças preparadas para lidar com situações de abuso, evitando a revitimização e o julgamento;

• reinterpretar, emcomunidade, os textos bí-blicos a partir de uma hermenêutica crítica e libertadora, que supereleituras machistas e opressoras;

• estimular a participação ativa das mulheres na liderança, no ensinoe no pastoreio;

• estabelecer parcerias com órgãos públicos e organizações da sociedade civil que atuem na defesa dos direitos das mulheres.

Refletir sobre o papel da Igreja Cristã no enfrentamentodaviolênciacontraasmulheresé reconhecerqueespiritualidadeejustiçacami-nham juntas.Afé,quandovividadeformaau-tênticae contextualizada, pode ser uma fonte deresiliênciae esperançaparamuitasvítimas,oferecendo consolo e umsenso de propósito. Entretanto, a maioria das instituições religio-sas ainda não está devidamente preparada para lidar com a complexidade da violênciadoméstica.

Frequentemente falham em ofe-recer o suporte adequado ou,emcasos mais graves,acabam perpetuandoociclodeabuso pormeiode orientaçõesquepriorizamamanu-tenção do casamentoa qualquer custo, mes-mo em situações de agressão e sofrimento(Nunes & Souza, 2021).

Cabe lembrar que o Livro de Romanos (Biblia, NVI 2023 cap 13, verso 4) afirma que “a autoridade civil é ministra de Deus para fazer justi- ça contrao malfeitor”. Encaminharumavítima para as autoridades competentes não é falta de fé, é obediênciabíblica,eresponsabilidadesocial.

Nesse sentido, segundo Sousa e Oshiro (2018), as instituições religiosas e o poder público têm responsabilidadeconjuntanoesclarecimento,

acolhimento e orientação de mulheres e ho- mens quanto à realidade da violência domésti- ca, suas consequências e caminhos possíveis para a superação.

RESULTADOS

Este estudo teológico sobre a violência domés- tica no contexto cristão busca romper o silên- cio em torno de um tema que, por muito tempo, foi pouco debatidonasigrejasecomunidades defé.Apesarda gravidadedaviolêncianoam-bientefamiliar,ainda háresistênciaparatratar doassuntonessesespaços. O objetivo central é conscientizar que a violência doméstica é in- compatível com os princípios do Evangelho.

A pesquisa demonstrou que a religião exerce forte influência na formação de valores cultu- rais, podendo, emalguns casos, reforçar de-sigualdades de gênero e encobrir comporta- mentos abusivos por meio de interpretações equivocadas das Escrituras. Esse uso distorci- do da Bíblia contribui para práticas de silencia- mento, submissão feminina e controle mascu- lino sobre o corpo e o papelsocial da mulher.

Os dados acentuam a urgência do tema: se- gundo o Fórum Brasileiro de Segurança Públi- ca (2024), o Brasil registrou um feminicídio a cada seis horas e mais de 245 mil casos de violência doméstica em um único ano. Dentro do meio religioso, levantamento do Instituto de Pesquisa Datafolha (2023) revelou que 43% das mulheres cristãs que frequentam igrejas já sofreram algum tipo de violência doméstica, número que demonstra que a fé,porsisó,não asprotegede contextosabusivos.

Foi constatado que a omissão diante da violên- cia doméstica torna a Igreja cúmplice. Embora as mulheres sejam maioria nas congregações, muitas comunidades ainda sustentam, por ações ou doutrinasmalinterpretadas,umacul-

tura machista que legitima o abuso. A Palavra de Deus, porém, não autoriza tais práticas: Romanos 13:4 (NVI 2023) afirma que a autoridade civil é ins- tituída por Deus para fazer justiça contra o malfei- tor, o que legitima o encaminhamento das vítimas às autoridades competentescomoatodeféeres-ponsabilidade social.

O estudo de obras que tratam o tema, relatos reais e exemplos bíblicos revelou tanto a dor quanto a resistência das mulheres vítimas de violência. Es- sas reflexões evidenciam que a missão da Igreja é denunciar toda forma de desumanização, rever interpretaçõesbíblicasquesustentamadesigual- dade e tornar-se umespaço seguro, de cura e li-bertação,onde o Evangelho promova dignidade, igualdade e vida em abundância paratodos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Historicamente, a mulher foi vista como proprie- dade e perseguida por resistir a essa dominação, como na “caça às bruxas”. A Igreja Católica, na Idade Média, reforçou essa visão ao associar a mulher ao pecado. No Brasil, o patriarcado se en- trelaça com o racismo, fazendo com que a mulher negra sofra opressões de gênero, classe eraça.

Atualmente,emboraexistamavançoslegaiscomo a Lei Maria da Penha, a violência persiste. Dentro da Igreja Cristã, o problema é significativo, com 43% das vítimas de violência doméstica sendo cristãs, segundo dados pesquisados. A Igreja, mui- tas vezes, falha em lidar com o problema, perpetu- ando o silêncio e reforçando o machismo por meio de interpretações bíblicas distorcidas.

Para combater essa violência, a Igreja precisa denunciar,acolherasvítimas,reinterpretarasEscritu-ras de forma libertadora, promover a liderança fe- minina e colaborar com as autoridades. A omissão faz com que essainstituiçãosetornecúmplice,ea verdadeiramissão cristã é ser um espaço de justi- ça, compaixão e dignidadepara todos.

REFERÊNCIAS:

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BÍBLIA NVI, Bíblia - Nova Versão internacional. Disponível em: Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/ nvi, 2023. Acesso em 26/04/2025.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de MariaHelenaKuhner.RiodeJaneiro:BertrandBrasil, 1999. BRASIL. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Violência doméstica e familiar contra a mulher. Brasília, 2024.

BRASIL. IBGE. Estatística de gênero e raça. Brasília: IBGE, 2019

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BRASIL. Lei 13.104.2015. Prevê o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. Brasília, 2015. Disponível em: https://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13104.htm. Acesso em 27 de julho de 2025.

CÉSAR, Marília de Camargo. O grito de Eva: a mulher e a igreja – histórias reais sobre abuso espiritual e a busca por cura. São Paulo: Mundo Cristão, 2021.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Religião e enfrentamento à violência doméstica: boas práticas de instituições religiosas no Brasil. Brasília: CNJ, 2022. EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulhe- res. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Violência contra a mulher no Brasil. Brasília: IPEA, 2023.

LERNER, Gerda. A criação do patriarcado. Tradução de Débora Danowski. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

NUNES, Ana Clara de Arruda; SOUZA, Tatiana Machiavelli Carmo. Análise das Vivências de Violência Doméstica em Mulheres Evangélicas Pentecostais e Neopentecos- tais. Revista da SPAGESP - Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo, 22 (2), p. 5872.SãoPaulo,2021)

SOUSA, Sandra Duarte de; OSHIRO, Claudia Poleti. Mulheres Evangélicas e Violência Doméstica: o que o poder público e a Igreja têm a ver com isso? Caminhos, v. 16, nº2, jun/dez, 2018. Goiânia. Goiás, 2018, p.203-2019

INTERFACES ENTRE FÉ CRISTÃ E HOMOAFETIVIDADE: CONFLITOS, DIÁLOGOS E PERSPECTIVAS

TEOLÓGICAS

CONTEMPORÂNEAS1

1. RESUMO

Este artigo explora as complexas relações en- tre a fé cristãe a homoafetividade, analisando as tensões históricas, os conflitos enfrenta- dos por fiéis LGBTQIA+ e os caminhos emer- gentes de diálogo e reconciliação na teologia contemporânea.

A pesquisa teve como obje- tivo compreender como a fé pode ser recons- truída a partir de princípios de acolhimento, justiça e empatia, em oposição aos discursos historicamente opressores. Para isso, foi uti- lizada uma metodologia de pesquisa biblio- gráfica e qualitativa, com análise de obras li- terárias e artigos científicos de autores como Gardel (2021), Santos (2015), Moura (2024) e Toniette (2006). A investigação revelou que, embora as relações homoafetivas tenham sido aceitas em culturas antigas como a Gré- cia, sua condenação sistemática surgiu na Eu- ropa Medieval com a consolidação do Estado e do Cristianismo. A homossexualidade pas- sou a ser vista como um “pecado” e, depois, como uma “doença”, até que a Organização

Mundial de Saúde (OMS) a removeu da Classificação Internacional de Doenças em 1990.A pesquisa também revelou a diversidade de atitudes dentro do cristianismo em relação à homossexualidade, que podem ser classifica- das em “aversão”, “omissão” e “compaixão”. Embora a “compaixão” represente um avanço, ela ainda é insuficiente para resolver o conflito de fiéis que buscam conciliar sua identidade sexual com sua fé. A pesquisa também apon- ta para o surgimento de igrejas inclusivas que, baseadas em novas formulações teológicas, acolhem a diversidade sexual e celebram uni- ões homoafetivas. A obra literária A palavra que resta, de Stênio Gardel, complementa a discussão ao exemplificar a violência física e emocional enfrentada por indivíduos LGBT- QIA+, explicitada na narrativa do personagem Raimundo. Os resultados indicam que, embo- ra a hipótese de uma postura mais dialógica das igrejas tenha sido parcialmente compro- vada, o caminho para uma inclusão plena ainda é longo. A literatura disponível sobre o tema aindaéescassa,indicandoanecessida-

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística da FAEP, sob orientação da Profa. Dra. Rosângela Aparecida dos Reis Machado e Profa. Me. Ana Maria Gentil. Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025

2 - Estudantedo 8ºsemestredo curso deBacharelado emTeologia, do Centro Universitário FAEP-2025.

SamaraSantos Oliveira2

de de maior aprofundamento e futuras refle- xões. O ambiente religioso pode causar trau- mas ou ser um espaço de cura, ressaltando a importância de clareza nosfundamentos dafé ena prática pastoral.

Palavras - Chave: Igrejas Cristãs. Homoafetividade. Inclusão.

2. INTRODUÇÃO

Arelaçãoentreafécristãeahomoafetividadeéum tema atual e desafiador. Essa discussão envolve aspectos históricos, sociais, culturais e religiosos que, por muito tempo, foram mar- cados por preconceito e exclusão e constitui um campo fértil para a reflexão crítica, espe- cialmente diante das atuais transformações sociais e o avanço das discussões sobredi-versidade e direitos humanos.

A homossexualidade, em diferentes perío- dos da história, foi condenada em discursos religiosos e morais que a condenavam, con- tribuindo para a criação de estigmas que ain- da permanecem. Esse processo estimulou a construção de discursos normativos que mar- ginalizaram a população LGBTQIA+, impac- tando sua vivência social, espiritual e identi- tária. Entretanto, observa-se que, nas últimas décadas, emergiram correntes teológicas e práticas pastorais, que buscam ressignificar tais entendimentos, promovendo leituras in- clusivas das Escrituras e favorecendo espa-ços de diálogo e acolhimento.

Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo compreender os conflitos e diálogos entre afécristãeahomoafetividade,napers-pectiva das teologias contemporâneas, refle- tindo sobre as possibilidades de aproximação entre religião e diversidade sexual. Ao recorrer a obras acadêmicas e literárias, pretende-se ampliar a compreensão desse fenômeno e

estimulou a produção de conhecimento críti- co, que possibilite uma análise mais justa e humanizada sobre atemática.

O tema é relevante porque toca diretamente a vida de pessoas que, muitas vezes, se veem divididas entre a experiência da fé e a acei- tação de sua identidade, além de ampliar as reflexões sobre inclusão,justiçae respeitoàs diferenças.

3. OBJETIVOS

Foram traçados objetivos para realizar a pre- sente pesquisa. O objetivo geral foi: com- preender os conflitos e diálogos entre a fé cristã e a homoafetividade, na perspectiva das teologias contemporâneas. Os objetivos específicos foram: a) investigar a história da homossexualidade e a origemdopreconceito; b) refletir sobre a relação entre a fé cristã e a homossexualidade.

4.

METODOLOGIA

A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica e qualitativa. Foram consultadas obras de diferentes autores, queinvestigarameestudaram otemaproposto.Estabeleceu-se a interlocução com a obra literária, de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, uma narrativa lite- rária que revela os impactosdosilenciamentoe repressão.

5. DESENVOLVIMENTO

5.1. A HISTÓRIA DA HOMOSSEXUALIDA- DE E A ORIGEM DO PRECONCEITO

A relação entre pessoas do mesmo sexo sem- pre existiu e nemsempre foi vista de maneira negativa. Na Grécia Antiga, a prática de atos sexuais entre dois homens era algo relativa- mente normal, pois tinha status privilegiado,

na forma de pederastia1, incluída na passa- gem de um rapaz, com idade entre 12 e 20 anos, para a vida adulta, como um caminho elevado de educação e transmissão de va- lores aristocráticos de uma geração a outra. Muitos imperadores praticavam atos sexu- ais com outros homens, e isso não era visto como algo escandaloso. Alguns deles manti- nham relações duradouras com seus parcei-ros. (Moura, 2024).

Havia, no contexto histórico e social da Grécia Antiga, naturalidade em abordar esse assunto, pois, “na época, diferente do que existe hoje, não havia o conceito de “orientação sexual” como um identificador social de determinado grupo de pessoas” (Moura, 2024).

O Estado homofóbico nasceu mais tarde, na Europa Medieval, a partir do surgimento das primeiras religiões (Judaísmo e Cristianismo), combinadas como Estado, sacralizando o que seria o “ideal” para a sexualidade huma- na, assim, apenas a relação heterossexual seria aceita (Toniette, 2006). Desse modo, o comportamento homossexual passou a ser condenado e considerado moralmentepeca-minoso.

Nos primeiros séculos da Era Cristã, à medida que o Cristianismo ganhava mais relevância e adeptos, sua influência se capitalizava e a mo- ral sexual tornava-se mais rígida. No contexto da Idade Média, alémdas questões religiosas, havia também questões econômicas, que tor- navam indesejada a prática da homossexuali- dade. Foi instituído, então, pelo Rei dos Fran-cos Clóvis I, no séculoV, um dos primeiros códigos legais, chamado de “Lei Sálica”, esta-

belecendo reformas que se tornariam modelo para a Europa Medieval (Moura,2024).

Dentre essas mudanças, havia, expressamente, a previsão de que as mulheres e os filhos fora do casamento seriam ex- cluídos dos direitos à herança de terras, de modo que nenhuma mulher ou “filho bastardo” (incluindo os filhos adotados) poderiam herdar propriedades. Assim, todas as terras deveriam ser transmiti- das aos membros masculinos e “legíti- mos” da sua família (Moura, 2024, s/p).

A prática de transferir as terras exclusivamen- te para os filhos homens gerava uma cons- tante pressão nos matrimônios, no sentido de que tivessem muitos filhos, sobretudo do sexo masculino. Isso assegurava que os di- reitos sobre as terras fossem preservados e passados de geração em geração. Nesse contexto, as relações homossexuais eram vistas como extremamente indesejadas, não apenas por questões religiosas, mas também por razões econômicas, já que, biologicamen- te, não resultariam em descendência. Assim, umfilhoquemantivesseuma relação homos- sexual colocava em risco a continuidade da posse das terras e dos bens da família, algo inaceitável para qualquer pai ou mãe da épo-ca (Moura, 2024).

Em meio a essa realidade medieval, com a propagação desse tipo de discurso, gerou-se uma espécie de tabu e preconceito generali- zado, que tendia a condenar a homossexuali- dade como uma aberração. Assim, começam a surgir as primeiras perseguições sistemáti- cas e institucionalizadas contra homossexu-

1 - Na Grécia Antiga, a pederastia se referia a relações sexuais afetivas entre um homem adulto e um adolescente do sexo masculino. Estas relações eram reconhecidas socialmente, como sendo a introdução do jovem à vida adulta e à cidadania (Sousa, 2014).

ais(Moura,2024, s/p).

Desde o princípio do medievo, já existia uma forte perseguição aos homossexuais, com a criminalização e a deserção sistemática des- sas pessoas do convívio social. Mas, cabe destacar, que a homossexualidade foi oficial- mente condenada como “pecado” pela Igreja Católica, no século XIII, quando o Papa Gregó- rio IX instituiu a Inquisição Católica, por meio do Tribunal do Santo Ofício em 1231. Após a criação desse Tribunal e nos séculos seguin- tes, milhares de “praticantes de sodomia2 fo- ram condenados à fogueira pela Inquisição Católica.(Moura, 2024).

Assim, até o Século XVII, as práticas de tortu- ras e de humilhações públicas foram comuns antes da execução dos condenados, que ti- nham seus genitais amarrados com cordas, presas em cavalos ou arrastadas por solda- dos, sendo obrigados a andar nus pelas ruas da cidade. Seus bens eram confiscados e a fa- mília perdia o direito à herança (Moura, 2024, s/p).

Mesmo no século XVIII, durante a Idade Moderna, cientistas e pesquisadores buscavam provar que a homossexualidade era uma do- ença ou um “desvio” da natureza, passando da ideia de pecado, para a de uma doença mental ou moral. Essa concepção perdurou em muitos países que condenavamahomos-sexualidadeem

2 Sodomia, no sentido mais comum, refere-se ao sexo anal, tanto em relações heterosse- xuais como homossexuais, mas também às relações sexuais “nãoprodutivas”ouconside-

radas “contra a natureza”.

todas as esferas sociais, considerando-a um desvio sexual,umadoençaoumesmo,umcri- me (Moura, 2024, s/p).

A Organização Mundial de Saúde (OMS), inclusive, apenas retirou a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), em maio de 1990,isto é,há apenas 30 anos.

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia, por meio da Resolução CFP 01/99, passou a proibir o tratamento psicológi- co visando a “cura” da homossexualida- de, considerando que para existir a cura pressupõe-se a existência de doença, o que é incompatível da homossexua- lidade. Tal resolução foi criada a partir de denúncias de que psicólogos, asso- ciados às Igrejas, promoviam a “cura” (=”conversão”) de homossexuais para heterossexuais, em uma perspectiva moral e ideológica (Toniette, 2006,p.48).

Em boa parte do século XX, a comunidade LGBTQIA+ precisava viver escondida embair-ros seguros, em cinemas privados, à margem da sociedade,nãopodendoconviverlivremen-te.

Como exemplo, no livro “A palavra que resta”, de Stênio Gardel (2021), o personagem Rai- mundo, que era homossexual e tinha sido ex- pulso de sua casa, em uma cidade do interior, em um contexto tradicional preconceituoso e homofóbico, foi para a capital, zona urbana,

2 - Sodomia, no sentido mais comum, refere-se ao sexo anal, tanto em relações heterossexuais como homossexuais, mas também às relações sexuais “não produtivas” ou consideradas “contra a natureza”.

frequentando “cine privê”, relacionando-se comoutroshomens, apenasnesse ambiente.

O enredo apresenta a história de um homem nordestino, analfabeto, que escreve uma car- ta para o amor do passado. Embora não seja uma obra religiosa, a narrativa revela marcas de repressão moral e vergonha internaliza- da frequentemente oriundas de discursos religiosos. A escrita torna-se, aqui, um gesto de resistência, libertação e ressignificação da própria identidade, possibilitando uma ou- tra forma de reflexão sobre o tema proposto, com mais sensibilidade e compreensão. O contexto da obra interliga-se com a presente estatística:

Nas mais recentes pesquisas, o Nor- deste ainda se revela uma região muito violenta com homossexuais. De acor- do com o Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2023 foram registradas 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, sendo que a Região Nordeste foi responsável por 94 dessas mortes, o que represen- ta a segunda maior incidência regional. Pessoas entre 16 e 45 anos, como Rai- mundo e Cícero, são os mais afetados, e muitas dessas mortes ocorrem no es- paço doméstico ou em áreas externas ermas, como ruas e terrenos baldios (Moura, 2024).

Para caracterizar esta realidade, por meio da literatura, Gardel (2021, p. 61) expõe as ideias que as famílias e as pessoas, moradoras da localidade, revelavam

sobre a homossexualidade: “Gente torta, povo imundo, foi isso que o pai lhe disse. Sujo. Não de terra, nem de lama, nem de areia e de san- gue como ele estava agora. Não era sujo na pele, do lado de fora. Era dentro, lá onde ele era”. Destaca ainda: “O arqueinspiravasetor-

nava impuro, e Raimundo, expirava podridão. Sujava a família, filho infeto, dela nãodeves-se ter nascido”. Essa forma de considerar o relacionamento homoafetivo levou o tio de Raimundo a induzir o afogamento de seu filho homossexual, que não sabia nadar, no rio da cidade, acreditando que seria melhor a morte, do que aceitar a relação de seu descendente com outro homem.

5.2. FÉ CRISTÃ E HOMOSSEXUALIDADE

Geralmente, católicos e evangélicos se recu- sam a aprovar essa orientação sexual, por acreditarem que a homossexualidade é in- compatível com os ensinamentos das Escri- turas. Entretanto, a interpretação cristã tra- dicional dos textos bíblicos já nãoencontra unanimidade entre os cristãos, pois, nos últi- mos anos, houve um esforço para a descons- trução do entendimento a respeito dos ensi- namentos, que supostamente condenavam as práticas homossexuais, estabelecendo novas formulações teológicas para sancionar esse comportamento.

Para Santos (2015), existe uma divergência entre as igrejas cristãs, sejam católicas ou evangélicas, em relação à interpretação do texto bíblico, no que se refere à homossexua- lidade. Algumas igrejas fazem a interpretação tradicional das escrituras e outras aderema outras compreensões.

A comunidade inclusiva realiza celebrações, com integrantes da comunidade LGBTQIA+, considerando a homossexualidade como um “dom divino”, não vendo contradição entre a fé cristã e a prática homossexual.

Santos (2015) destaca três atitudes cristãs em relação à homossexualidade, que estive- ram presentes ao longo da história e que se repetem, nos diasdehoje,deforma concomi-tante:

1. Aversão: algumas igrejas e/ ou alguns membros cristãos rejeitam totalmente a pre- sença de homossexuais nos cultos religiosos, expulsando –os ou realizando discursos para constrangê-los. Frequentemente, as igrejas cristãs mais tradicionais interpretam os tex- tos bíblicos de forma mais literal, tendo uma visão mais rígida sobre a inclusãode homos-sexuaisnas igrejas;

2. Omissão: alguns líderes e cristãos evitam a discussão, por acharem que o assunto não tem relevância para a comunidade cristã. Ou- tros evitam qualquer diálogo e são contra a evangelização dos homossexuais, porque não querem se indispor, nem com os fiéis mais tradicionais, nemcomos mais liberais;

3. Compaixão: algumas igrejas têm mudado sua visão sobre a homossexualidade e mani- festam comportamentos de compaixão, que é apenas um sentimento piedoso, permitindo uma postura mais terna para com o sofrimen- to ou tragédia alheia. Nesse sentido, muitos cristãos, que sentem compaixão, não concor- dam com a prática, mas respeitamquema pratica.

Dessa forma, a compaixão pode não colabo- rar na compreensãodoconflitovividopeloho- mossexual religioso entre encontrar a verdade do eu, por meio de uma experiência religiosa e a busca da verdade do ser, pelo prazer pesso- al das ligações homoeróticas.Seráprecisole- var em consideração que a vivência religiosa pode permitir muitas possibilidades de leitura para as essas relações, assim como, “a vivên- cia da homossexualidade permite também a ressignificação da experiência religiosa” (Natividade, 2009, p. 108). Assim, defende-se uma postura de diálogo e acolhimento entrea religião ea sexualidade

Segundo Barreto e Oliveira Filho (2012), um

exemplo de compaixão é oposicionamento atualde algumas igrejas protestantes em rela- ção à homossexualidade. Hoje, essas igrejas passaram a acolher pessoas homossexuais como membros comungantes, pastores e mi- nistros leigos, e algumas chegam a celebrar a união matrimonial homoafetiva. Historica- mente, o protestantismo só admitia a presen- ça de homossexuais mediante a conversão, exigindo que abandonassem sua orientação e práticas sexuais. A mudança de postura representa um avanço significativo para a co-munidade homossexual.

Pode-se afirmar que os fiéis de diferentes igrejas cristãs, jovens, adultos e idosos, osci- lam entre seguir os preceitos religiosos mais dogmáticos e acolher as diferenças, em rela- ção à orientação sexual, como indicado pelo discurso presente nos evangelhos. Observa-se as diferenças internas e a alternância de posicionamentos, pela pesquisa realizada por Silva; Paiva e Parker (2013), com um número significativo de jovens de diferentes religiões cristãs:

Entre os evangélicos pentecostais, identificou-se a existência de um código di- vino de conduta considerado o primeiro de todos os códigos, a partir do qual construíram seus posicionamentos so- bre as questões relacionadas ao exer- cício da sexualidade e, portanto, sobre homossexualidade. Apesar do conflito existente entre o reconhecimento da legitimidade da não-discriminação das pessoas homossexuais e das orienta- ções de religiosos que julgam-conde- nam as práticas homossexuais, não se pode deixar de ressaltar constante pre- ocupação dos evangélicos com a não-discriminação, que, certamente, resulta de alguma participação da socialização em outros territórios “do mundo” (Silva,

De acordo com os autores, a abertura apre- sentada nas entrevistas com jovens evangé- licos pentecostais possibilita odiálogo so-bre os direitos sexuais e a interlocução com gestores das políticas públicas para garantir a saúde sexual da população. Eles apontam algumas igrejas, que já defendem a necessi- dade de outras leituras da Bíblia e caminham para o reconhecimento da diversidade sexu- al: “a Igreja Cristã Contemporânea, a Igreja da Comunidade Metropolitana e a Comunidade Cristã Nova Esperança” (Natividade, 2009, p. 112).

Existem, no cenário da Igreja Cristã, homossexuais que se sentem amados e acolhidos por cristãos e outros que acusam as Igrejas Cristãs de homofobia e discursamnegativa-mente emrelação a elas, chegando a enca- minhar processos jurídicos, acusando-as de preconceito. No que concerne às concepções a respeito da homossexualidade, identifica-se uma vasta diversidade de opiniões e compor- tamentos entre osreligiososeoshomossexu-ais. Esse assunto está longe de deixar de ser um dilema na Igreja Cristã. A aversão, omis- são e compaixão sempre existirão, quando o tema for homossexualidade (Santos, 2015).

Conforme Barretoe Oliveira Filho (2012, p.133)

A religião foi demonstrada como sen- do um efetivo meio pelo qual é possí-vel fazer com que indivíduos diferentes se unam ao redor de valores comuns e compartilhem de uma mesma moral. Ela, portanto, não se preocupa apenas com uma relação vertical com o divino, mas também toma o divino como meio de legitimação para ordenar a vida em grupo. No entanto, a legitimação reli-

giosa não é um fim em si mesmo. Seu propósito é fazer com que os indivídu- os sejamintegrados à vida religiosa, de maneira que eles possam compartilhar das mesmas crenças e práticas, en- quanto interagem entre si e se dedicam a um propósito comum.

Portanto, a partir dos autores, observa-se que o homossexual deseja expressar a sua fé cris- tã e fazer parte de uma comunidade religiosa, sem abandonar a sua orientação sexual, en- contrando acolhimento e pertencimento nas igrejas inclusivas, interagindo com os outros fieis, na perspectiva de alcançar objetivos co- muns e vivenciando um relacionamento ho- rizontal, para, em unidade, buscar a ligação com o Divino. Entretanto, ainda pertence ao futuro a constatação da efetividade de talin-clusão e dos seus efeitos sobre asociedade.

6. RESULTADOS

Após os estudos e leituras sobre a interface entre a fé cristã e homossexualidade, consi- dera-se que o tema ainda precisa ser discuti-do na sociedadee na comunidade cristã, com um maior aprofundamento sobre a interpre-tação dos textos bíblicos, para que haja uma melhor compreensão da visão bíblica a res- peito da homossexualidade e os direitos dos homossexuais de exercerem e expressarem a sua fé cristã.

Acredita-se que ainda será um desafio para a Igreja Cristã explicitar sua posição teológica sobre o assunto e realizar a sua prática pasto- ral. A reação do corpo de membros das igre- jas tem sido diversificada, tanto nos grupos de compreensão mais tradicionais, quanto nos grupos mais inclusivos.

Destaca-se que a literatura disponível a res-

peito da responsabilidade evangelística, em relação aos homossexuais, é relativamente pequena, necessitando de uma busca maior de conhecimento sobre o assunto e a am- pliação do panorama religioso, em relação à temática, fermentando reflexões futuras. O ambiente religioso pode tanto causar traumas quanto servir de espaço para a cura e recons- trução da espiritualidade, indicando a respon- sabilidade emter clareza dofundamento de fé e da práticapastoral.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção da pesquisa e a escrita do pre- sente artigo possibilitaram a análise de dife- rentes discursossobre ahomossexualidadee a inclusão na Igreja Cristã e, embora não se tenha apontado uma solução, o texto convida a refletir mais atentamente sobreo tema.

O percurso de estudo da história da homossexualidade trouxe saberes sobre fatos que não são de conhecimento de toda a sociedade, revelando preconceitos e exclusão da popula- ção homossexual.

As obras estudadas revelaram as tensões vi- vidas por pessoas, que têm relações homoa- fetivas em ambientes cristãos, mas também apresentaram possibilidades de diálogo. E ainda, explicitaram a urgência de revisão her- menêutica, de abertura para o testemunho dos fiéis LGBTQIA+ e de transformação das práticaspastorais.

8. FONTES CONSULTADAS

GARDEL,Stênio.Apalavraqueresta.SãoPau-lo: Companhia das Letras,2021.

BARRETO, Maria Cristina Rocha; OLIVEIRA FILHO, José Evaristo de. A inclusão de homos-

sexuais no protestantismo. Revista Brasileira de História &Ciências Sociais. Vol. 4, nº8, dezembro de 2012. Rio Grande do Norte: FURG, 2012.

MOURA, Maria Camila. Contexto do livro “A palavra que resta”. Ceará: Material didático do Clube de Leitura(A) Normal, Edição2024.

NATIVIDADE, Marcelo. Ser homossexual ou ser evangélico? Dilemas de construção de identidade. In.: GOMES, Edlaine de Campos (Org.). Dinâmicas contemporâneas do fenô- meno religioso na sociedade brasileira. Apa- recida, SP: Ideias &Letras, 2009.

SANTOS, Valdeci. Homossexualidade: da repressão à celebração. FIDES REFORMATA XX, Nº 2. São Paulo: Editora Mackenzie, 2015, p. 7191.

SILVA, Cristiane Gonçalves da; PAIVA, Vera; PARKER, Richard. Juventude religiosa e homossexualidade: desafios para a promoção da saúde e de direitos sexuais. Interface- Comunicação, Saúde, Educação v.17, n.44. Botucatu/SP: UNESP,2013, p.103-17.

SOUSA,LuanaNeresde.ApederastiaemAte-nas no período clássico: relendo as obras de Platão e Aristófanes. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Univer- sidade Federal de Goiás, Jataí, 2014. Dispo- nível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/ up/113/o/SOUSA Luana_Neres_de.pdf. Aces- so em: 18jul.2025.

TONIETTE, Marcelo Augusto. Um breve olhar histórico sobre a homossexualidade. Revista brasileira de sexualidade humana, v. 17, nº1. Rio deJaneiro/RJ: SBRASH, 2006, p. 41-52.

FabianadeSouza LacerdaViana2

INFANTIL

NA PERSPECTIVA DA PARTICIPAÇÃODAS

CRIANÇAS, EM JANUSZ KORCZAK1

RESUMO

O tema da pesquisa foi o acolhimento das crianças de educaçãoinfantil, na perspectiva da participação nas decisões da instituição, tendo como inspiração as práticas de Janusz Korczak, nos orfanatos organizados por ele, na Polônia. Os principais objetivos do traba- lho foram: compreender essas práticas, de- senvolvidas pelo médico polonês, investigar as formas de acolhimento na escola da in- fância e apontar exemplos de instituições de educação infantil, que planejam propostas de participação e conhecimento das crianças. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográ- fica e qualitativa, fundamentando-se nos au-tores como Korczak (1997), Staccioli (2013), Holtman(2023), Penzani (2017) entre outros. Dessa forma, acreditase que a atuação das crianças nas decisões das instituições de educação infantil é essencial, porque poderá ampliar a imaginação, a criatividade, as di- ferentes formas de expressão, a procura por realizações, o enfretamento de problemas, a autonomia, a segurança e, especialmente,

a experiência do processo democrático e a aprendizagemdasposturasdecidadania.

Palavras-chave: Acolhimento. Participação. Janusz Korczak.

1. INTRODUÇÃO

O tema deste artigo foi a participação das crianças na escola da infância, considera- da como formas prioritárias de acolhimento, inspiradas nas práticas de Janusz Korczak. A pergunta problematizadora para orientar a pesquisa foi: “Como as práticas de Janusz Korczak, com crianças internas em Varsóvia, podem inspirar práticas pedagógicas de aco- lhimento, na perspectiva da participação nas decisões, nas instituições de educação infan- til? A relevância da pesquisa está na impor- tância da observação e da escuta da criança, que contribuirão com as decisões dos educa- dores, em relação às questões pedagógicas, estruturais e sociais. O objetivo principal da pesquisa foi relacionar acolhimento, partici- pação e as práticas de Korczak, na perspecti-

1 - Artigo resultante de pesquisa científica, desenvolvido no Programa de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística da FAEP, sob orientação da Profa. Dra. Rosângela Aparecida dos Reis Machado e Profa. Me. Ana Maria Gentil. Trabalho apresentado no CONIC/SEMESP-2025.

2 - Estudantedo6ºsemestredePedagogia, do Centro Universitário FAEP-2025.

va de transformar em democráticas as ações pedagógicas na educação infantil. A hipótese inicial era de que, com crianças pequenas, torna-se fácil pensar em acolhimento, porém, seria mais difícil pensar na participação delas nas decisões, pelo olhar e pela escuta. Entre- tanto, na trajetória da pesquisa, ao estudar as ideias e ações de Korczak, as concepções de acolhimento e os exemplos de escolas de educação infantil, que concretizam a partici- pação das crianças, verificou-se que devem ser repensar as práticas pedagógicas depro-fessores da pequena infância.

2. OBJETIVOS

Os objetivos organizados para o desenvolvi- mento da pesquisa pretenderam responder à questão elaborada. O objetivo geral foi: com- preender como as práticas deJanuszKorczak, nos orfanatos, em Varsóvia, podem inspirar as transformações nas ações pedagógicas de acolhimento, na perspectiva da participação das crianças nas decisões das instituições de educação infantil. Os objetivos específicos foram: pesquisar acolhimento, com o sentido de participação, expresso em materiais escri- tos de e sobre Janusz Korczak; compreender acolhimento na Educação Infantil; investigar práticas pedagógicas em instituições de Edu- cação Infantil que acolhem as crianças, possi- bilitando a participação nas decisões

3. METODOLOGIA

A metodologia utilizada para atender os obje- tivos propostos foi a pesquisa bibliográfica e qualitativa. Investigou-se obras do autor estu- dado – Janusz Korczak (1997) e de pesqui- sadores que aprofundaram os estudos sobre Korczak: Silva (2022) e Holtman (2023). Inte- grou-se teoria e prática, analisando as obser- vações realizadas nos estágios supervisio- nados, obrigatórios no curso de Pedagogia,

que dialogaram com a prática pedagógica participativa da EMEI Dona Leopoldina, des- crita em entrevista com a Diretora da Unidade Educacional, por Penzani (2017). Buscou- se, também, a concepção de acolhimento desenvolvida por Staccioli(2013)

4. DESENVOLVIMENTO

4.1 ACOLHIMENTO NA PEDAGOGIA DE JA-

NUSZ

KORCZAK

Korczak nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 1878. Ele foi um judeu polonês “sonhador, escritor, poeta, herói e mártir” (Holtman,2023, p. 78), que dedicou a sua vida para as crianças de diferentes idades. Seu nome era HenrykGoldszmit. Assumiu o pseudônimo de Janusz Korczak, para concorrer em um concurso lite- rário, evitando o preconceito em relação a sua origem judaica e escolhendo o nome de um protagonista de uma história, que era órfão, corajosoe de origemnobre.

Formou-se na Faculdade de Medicina de Varsóvia e tornou-se pediatra, pois já pretendia colaborar com a população infantil. Ele escre- veu inúmeros livros, incluindo vários gêneros literários e histórias infantis e juvenis. Elabo- rou textos científicos para compartilhar suas vivências comas crianças (Holtman, 2023).

Entretantasobrasdesuavastaprodução,me-recem destaque os livros: “Como amar uma criança”(1920), “Rei Mateusinho Primeiro” (1923) e “Quando eu voltar a ser criança”, pu- blicado originalmente em1925.

Em dois orfanatos, organizados e dirigidos por ele, após várias experiências de volunta- riado com crianças pobres e órfãs, de dife- rentes idades, realizou um misto de cuidado e educação, revelando a construção de uma concepção arrojada deinfância,quepretendia

a formação de cidadãos ativos e participan- tes (Holtman,2023), que poderiam viver como protagonistas,emcomunidade.

Esse educador morreu em1942,juntamente comas duzentas crianças do orfanato que dirigia, na câmara de gás do campo de exter- mínio de Treblinka. Recusou-se a abandonar os órfãos e optou por acompanhá-los, nos úl- timos momentos de vida.

Korczak criou uma filosofia para a infância (Silva, 2022), trazendo para o mundo a sua concepção de criança. Ele apostou no “sujei- to-criança-aluno”, que é capaz de assumir res- ponsabilidades, de pensar sobre seus atos e suas consequências para a vida do coletivo, tornando-se autônomo, pela vivência de umespaço,onde a participação de cada umé fundamental(Holtman, 2023).

Para Silva (2022), a contribuição de Korczak consiste em apurar o olhar para a criança, compreendendo-a como um sujeito de direi- tos, desejos, interesses e necessidades. Por isso, é necessário proporcionar a ela “um lu- gar de fala, de escuta e de diálogo”. Korczak acreditava na criança que defendia, conside- rando possível que ela mesma pudesse gerir a comunidade, em que estáinserida.Eleacre-ditava:

Que elas dão conta de ouvir o outro, de se posicionar, de ficar bravas, de ficar indignadas, de construir um código de conduta. Elas dão conta disso. Então, quem é a criança de dois anos, de três anos, de cinco anos? Quem é a criança? O que se espera dela? Eu acho que essa é a grande contribuição dele: a mudan- ça da nossa perspectivadealuno(Silva, 2022, p.5).

Ele soube, com educação, carinho, conheci-

mento, cuidado e confiança na criança, colo- car em prática uma educação democrática, respeitando os direitos dos infantes. Korczak utilizava uma linguagem simples para que a criança entendesse a vivência da cidadania, pelo diálogo e protagonismo.

Embora tenha tido a influência de alguns pensadores pedagógicos da época, como Dewey, Montessori, Froebel, entre outros, Korczak fundamentou a sua “pedagogia” nas suas observações,nassuasexperiênciasenacerteza deque “a educação é um processo coletivo”. Ele pretendia que a criança vivenciasse a au- togestão, combatendo a “ditadura do adulto”, pois buscava promove-la como um ser huma- no completo, respeitando as suas necessida- des e interesses, porém, estabelecendo limi- tes conjuntos para a boa convivência. Assim, “Amar não significa, para Janusz Korczak, ceder sempre, aceitar, mimar. Amar é edu- car, formar adequadamente para a vida em sociedade, impor limites, dizer não, construir regras” (Holtman, 2023, p.84).

Para que o coletivo se apropriasse do proces- so democrático, ele propunha adotar vários procedimentos(Holtman, 2023):

I. O Quadro de Avisos: revelava os desejos, sonhos, fantasias e a imaginação das crian- ças em forma de bilhetes, desenhos, carta- zes, identificados com os nomes de cada um. Constituía-se em um meio de comunicação entre todos.

II. A Estante: era composta de uma pequena biblioteca, que possibilitava a pesquisa das crianças, contendo, além de livros diversos: jornais, enciclopédias, mapas, cadernos das crianças e diários dosprofessores.

III.A Caixa de Cartas: as crianças podiam se expressar livremente, escrevendo o que sen-

tiam para enviar para alguém. Aprendiam a esperar respostas e pensar nos sentimentos colocados na carta, refletindo sobre suas de- cisões. Aqueles que não dominavama escri-ta,poderiamdesenhar.

IV.A vitrina de objetos achados: ao encontrar um objeto perdido, as crianças o colocavam em uma vitrina, para que o dono pudesse en- contrar, pois acreditavam que aquele objeto tinha valor sentimental para o seu proprietário e precisavam respeitá-lo..

V.O comitê de tutela: um morador mais velho ficava responsável por orientar um mais novo (como se fosse um tutor). Eles se comunica- vam por um diário, no qual as crianças escre- viam suas dúvidas e receios e o “tutor” res- pondia imediatamentecomconselhos

VI. O jornal: todas as questões importantes do orfanato eram publicadas no jornal e lidas nas reuniões. As crianças e os adultos faziam uma autocrítica e reflexão dos seus próprios atos, após a leitura.

VII. As Reuniões-debate: aprendiam a deba- ter, expressando sentimentos e emoções, sem provocar o rancor no outro, esclarecendo suas dúvidas, no momento do debate. Todas as questões da instituição eram decididas nestas reuniões, com professores, funcioná-riose crianças.

VIII.O tribunal de arbitragem: momentos de reflexão sobre um ato da criança e do adulto, que repercutiu negativamente na vida do ou- tro. Ela eralevada arefletir sobre as suas

ações, avaliar e rever suas atitudes. O objetivo era que todos melhorassemcomo seres hu- manos para que soubessemviver emcomu-nidade.

O lugar que dedico neste livro aos tri-

bunais das crianças pode parecer, para alguns, demasiadamente importante. É porque vejo neles o primeiro passo para a emancipação da criança, a elabora- ção e proclamação de uma Declaração dos Direitos da Criança. Ela temdireito de exigir que seus problemas sejam tra- tados com imparcialidade e seriedade. Até agora tudo dependia da boa ou má vontade do educador, do seu humor na- quele dia. Realmente é tempo de se pôr fim a esse despotismo. (Korczak, 1997, p. 332).

IX. O Conselho Jurídico e o Parlamento: decidiam sobre o julgamento de questões mais complexas e elaboravam leis para todos. O Parlamento aprovava ou rejeitava as leis.

X.Plebiscito:ascriançascoordenavamasde-cisões de interesse coletivo. Há a valorização da autonomia infantil e da autogestão das crianças, exercitando a cidadania e respeito à vida em comunidade.

Dessa forma, Korczak expressava seu compromisso e coerência com os princípios democráticos, resgatando as identidades das crianças e, como destaca Gadotti (1998, p. 07, apud Holtman, 2023, p. 88), ele “aprendia a ser gente com elas”.

Silva (2022) expressa, de forma significativa, a concepção do protagonismo infantil, considerando as experiências das crianças no cole- tivo das instituições:

Podemos atrelar a questão do olhar da criança como sujeito,umsujeitoque entende as coisas, que entende a reali- dade, que sofre ou que é feliz com essa realidade, que tem desejos e que tem direitos. E que tem deveres, porque ele está numa prática coletiva em que todo mundo tem; então, existe uma divisão

do trabalho, existe a responsabilidade de cada um, existe o respeito ao espaço do outro. Tudo isso contribui para o nosso olhar para a escola hoje, quando pensamos numa escola que quer um jovem mais pro- tagonista, uma criança mais protagonista (Silva, 2022, p.7).

5.2. O QUE É ACOLHIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL?

Para mim, como sem dúvida, para todos os educadores, “as crianças” não existem, existem seres humanos, cada um dotado de uma personalidade própria, cada um re- agindo de um modo tão diferente em rela- ção ao mundo queorodeia(Korczak,1997, p. 379-380).

Acolherumacriançanaeducaçãoinfantilécons- truir, com ela, um ambiente de pertencimento. Staccioli (2013) considera o acolhimento um “método” educativo complexo, que envolve uma postura pedagógica do adulto, planejada inten- cionalmente. Ele defende que acolher é planejar um espaço próprio para criança aprender e se de- senvolver. Assim, devese organizar um ambien- te em que ela realize experiências com materiais concretos e com elementos naturais. Essas ex- periências envolvem objetos como: plantas, gar- rafas, bolinhas e galhos, emque ela possa

explorar e conhecer cada detalhe – textura, temperatura, cheiro, sons e propriedades em geral. Isso tudo possibilita a apropriação cultural e a produção de culturas infantis, elaboradas por meio de ações significativas. Então, o acolhi- mento proporciona experiências significativas de fazer e agir em contextos deaconchego.

O autor acredita que acolhimento é um método em que o professor deve confiar na criança e na sua forma de aprender, de modo personali- zado, levando em conta as suas emoções e as

de seus familiares, reconhecendo a criança e também o seu mundo, favorecendo a autonomia, sem abandoná-la. A concepção de Staccioli coincide com a de Korczak (1997, p. 140), pois afirma que“ A criança quer ser levada a sério: precisa de nossa confiança, dos nossos conselhos. Em vez disso, é mais comum que se choque com a nossa incom- preensão, brincadeiraseeternas suspeitas”.

A escuta e a observação das crianças fazem parte da investigação para conhecer o mun- do interno delas: suas expectativas, seus planos, suasilusões esuashipótesesdiante domundo, sem corrigir as explicações que elas dão para as situações e fenômenos da realidade. Ao observar, o adulto pode com- preender as necessidades, desejos e ideias das crianças e reorganizar suas propostas pedagógicas em função delas, ampliando a confiança nosseus projetos(Staccioli, 2013).

Segundo Korczak “quanto mais se aproximar da criança, mais verá nela coisas dignas de sua atenção. E é nessa observação escrupu- losa que encontrará sua recompensa e a co- ragem para novos esforços, que permitam que vá sempre em frente.(Korczak, 1997, p. 252).

Possibilitar que as crianças brinquem é uma forma de acolhimento importante, porque elas podemtestar suashabilidades e cria-tividade.

A acolhida é o tempo de encontro com as culturas infantis, o relaciona- mento entre elas e o brincar, quando as crianças estão brincando, elas es- tão exercitando, simbolicamente seus pensamentos sobre o mundo, vão construindo suas histórias e assim vão decodificando um signo, que re-

presentaumobjeto(Oliveira,2024).

O colhimento deve estar associado à partici-pação das crianças na educação infantil, nas decisões sobre as questões pedagógicas, re- lacionais e estruturais da unidade educativa. Muitos adultos ainda consideram as crianças incapazes, incompletas e afirmam a superio- ridade dos adultos, não acreditando que elas possam tomar decisões

significativas, nem participar das discussões coletivas e deliberar sobre questões relacio- nadas ao planejamento pedagógico, aos es- paços e tempos da instituição eaosmate-riais.

Para Cruz (2008), a escuta das crianças traz subsídios importantes para a transformação de creches e pré-escolas, pois, acolhendo as suas perspectivas de si mesmas, da vida e do mundo, será possível cuidar e educar, respei- tando seus desejos e necessidades e orga- nizando propostas pedagógicas, apartir de suas ideias.

5.3. UNIDADES DE EDUCAÇÃO

INFANTIL PAULISTANA: ACOLHIMENTO E PARTICIPA- ÇÃO,

Na Prefeitura Municipal de São Paulo, exis- tem várias unidades educacionais, que aten- dem crianças de 0 a 5 anos e realizam um trabalho pedagógico, que envolve o acolhi- mento, incluindo a escuta e a participação das crianças nas decisões.

5.3.1. Escola Municipal de Educação Infantil “Dona Leopoldina”

A unidade educativa garante a gestão democrática, o protagonismo infantil e a escuta ativa das crianças, bem como, “resgatar as culturas populares, fazer uso das múltiplas linguagens, discutir as relações étnico-ra-

ciais, refletir sobre a educação para a sustentabilidade e o consumo consciente”, afirma a diretora da EMEI, Márcia Corvelo (Penzani, 2017) Esta escola fundamenta seu trabalho nos ensinamentos de Paulo Freire e Loris Malaguzzi (Reggio Emília). Os eixos do Projeto Político Pedagógico são: Arte, Educação Ambiental e o Brincar.

AEMEIpossibilitaaautonomiadascrianças, nos cuidados com o corpo, com o espaço, com o outro, nas decisões e nas escolhas para os encaminhamentos dainstituição. Umdos grandes espaços para o exercício da autonomia e da participação é o Conse- lho Mirim, implantado na EMEI, em 2012, que auxilia a gestão da escola sob a pers- pectiva do olhar infantil. A diretora Márcia afirma que “Muitos teóricos e teorias sobre a Infância apontam para a necessidade do trabalho com o protagonismo infantil, com o dar vez e voz às crianças, e nosso projeto procura transformar essa teoria em prática” e complementa: “Os pequenos se sentem grandes quando são capazes de tomar de- cisões difíceis” (Penzani, 2017).

O “ Conselho Mirim” valoriza o olhar da criança, para repensar a escola, em igual- dade com o dos adultos. Sendo que, muitas vezes, as visões são diferentes,

porém, os educadores acreditam que o tra- balho deve ser realizado pelas crianças e não para elas.

MárciaCorvelotambémafir-ma:

Nossos grandes objetivos são: proporcionar a participação das crianças na gestão democrática; contribuir para o diálogo entre crianças e adultos, respeitando a cultura infantil; qualificar e valorizar a visão das crianças em igualdade com o dos adultos; fomen-

tar a autoria das crianças na reflexão e tomada de decisões sobre assuntos de interesse da escola; problematizar a realidade local e apontar encaminhamen- tos (Penzani,2017).

Para o funcionamento do conselho das crian- ças são realizados dois encontros mensais com os educadores: uma Assembleia comtodas as crianças e uma reunião com os re- presentantes de cada sala, ummenino e uma menina.

As Assembleias são realizadas a partir de umtema, que é discutido anteriormente na sala referência e registrado em diferentes lingua- gens (desenho, colagem, pintura, escrita e oral). É feita uma roda de conversa para tratar o tema proposto, sendo um espaço para falar, ouvir, provocar contradições e aprender a fun- damentar as hipóteses. Foram atendidos os pedidos das crianças, tais como: pista de trici- clos, subir em árvores, parque sonoro, casinha de bonecas, cabanas, observatório de pássa- ros e até uma casa na árvore, cujo desenho das crianças foi transformado em um projeto arquitetônico.

5.3.2. Centro de Educação Infantil “Aracy Gouveia de Souza”

No CEI, com crianças de zero a cinco anos, as brincadeiras são eixos do trabalho pedagó- gico. Os educadores utilizam materiais reci- cláveis para a confecção de brinquedos: pu- la-pula, balanço e chocalhos; organizam uma cozinha externa para o trabalho com as crian- ças, possibilitando a autonomia. Confeccio- nam caixas de luz, com diferentes materiais para a exploração dos bebês. As crianças pin- tam em azulejo e telas, com diferentes mate- riais. São disponibilizados objetos não-estru- turados para a investigação e construção de artefatos pelas crianças. A organização dos

espaços, com estes materiais, depende das diferentes idades e possibilitam a exploração das crianças.Ascrianças,de2a 5anos,parti-cipamde discussões, em reuniões dos educa- dores com representantesdassalas,parade-cidirsobre:novos brinquedos e a organização integral das festas mensais para “Celebrar a vida”. Considera-se, assim, que o CEI realiza acolhimento, escuta e participação.

5. RESULTADOS

As ideias de Janusz Korczak inspiram uma Pedagogia da Infância, que defende princípios, que podem ser considerados em diferentes tempos e espaços. O médico polonês ensinou um profundo respeito pelas crianças, como sujeitos de direitos e seres humanos dignos e completos, que necessitam de acolhimento e escuta ativa, a qual envolve compreendero olhar, o gesto e apostura.

Korczak defendeu que a criança tem o direito de ser criança e viver a sua infância “aqui e agora”, experimentando o mundo pelas brin- cadeiras livres com seus pares e de acordo com seus ritmos e singularidades.

As instituições de Educação Infantil brasilei- ras, se refletirem sobre esses ensinamentos, poderão estabelecer um diálogo profundo com as crianças e com as famílias e cons- truírem juntas um ambiente de participação e autogoverno. Neste espaço significativo, a criança aprende a conviver com seus pares e adultos, por meio de decisões coletivas, em reuniões regulares, nas quais expressa suas ideias e sentimentos, opinando sobre a reso- lução de problemas do cotidiano e a organização da instituição, colaborando com toda a comunidade educativa.

Portanto,diferentedoquesepensavanoinício da pesquisa (hipótese), é possível potenciali-

zar a participação real das crianças de educa- ção infantil nas decisões das instituições, por meio das diferentes linguagens: desenho, o gesto, o olhar, a fala, o movimento. Essa pers- pectiva foi inspirada pelo conhecimento das ações de Korczak e das escolas de educação infantil, que concretizamessas práticas.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa trouxe conhecimento sobre a vida e as práticas de Korczak, que acreditava em uma educação democrática, na qual a criança é um sujeito capaz de assumir responsabili- dades e participar da vida em comunidade. Sua pedagogia, baseada na observação e na confiança, buscava combateroadultocentris- mo. Ele implantou vários procedimentos em seus orfanatos para promover a autogestão e o protagonismo infantil, criando condições para que a criança expressasse suas ideiase opiniões.

O estudo sobre o tema proposto possibilitou conectar as ideias de Korczak ao conceito de acolhimento na educação infantil, que se traduz em criar um ambiente de pertencimen- to, confiança e escuta ativa. O acolhimento não é apenas uma postura, mas um método pedagógico que planeja espaços e experiên- cias significativas para o desenvolvimento da criança. A observação e a escuta são funda-mentais para entender as necessidades infantis e, a partir delas, reorganizar as propostas pedagógicas. As instituições de educação infantil, aborda- das no artigo, confirmam a importância da participação das crianças nas decisões sobre a escola e na organização dos espaços, valo- rizando a autonomia, a criatividade e transfor- mando em prática a visão infantil.

Aoterminarapesquisa,considera-sequeain-

da será necessário um maior aprofundamen- to das ideias deKorczake uma investigação mais apurada de escolas que trabalham com as práticas de participação das crianças.

7. FONTES CONSULTADAS

CRUZ, Sílvia H.V. A qualidade da educação infantil na perspectiva das crianças. In.: FORMOSINHO, JúliaOliveira (Org.). Aescolavistape-las crianças. Coleção Infância. Porto/Portugal: Porto Editora, 2008.

HOLTMAN, Cecília Szenkowicz. Janusz Korczak: Rei Mateusinho Primeiro e a Revo- lução das Crianças: Uma Vida Analisada pela Obra. Caderno deLínguaeLiteraturaHebraica daUniversidadede São Paulo, nº 24. São Pau- lo: USP, 2023, p.77100.

KORCZAK, Janusz. Como amar uma criança. São Paulo: PazeTerra, 1997.

OLIVEIRA, Renata Cristina Dias. O acolhimento na Educação Infantil. Palestra proferida pela Coordenadora do CEI “Onadyr Marcondes” para as alunas do oitavo semestre da FAEP. São Paulo: FAEP, 2024.

PENZANI, Renata. A vez e a voz das crianças: por dentro da EMEI Dona Leopoldina. Portal LUNETAS – Múltiplos olhares sobre as múltiplas infâncias. São Paulo: Lunetas, 2017. Disponível em https://lunetas.com.br/emei-dona-leopoldina- educacao-infantil. Acesso em 14 de julho de 2025.

SILVA, Kelly Cristina Ducatti da. Entrevista com Ana Carolina Marangon: Janusz Korczak, a criança e seu olhar para a infância. Olhar de Professor, Ponta Grossa/PR, v.25, 2022, p. 1-14. Disponível em <https://revistas2.uepg.br/index.php/olhardeprofessor. Acessoem18 dejunhode 2025.

STACCIOLI, Gianfranco. Diário de Acolhimen- to na escola da infância. Campinas, SP: Auto- res Associados, 2013. (Coleção formação de professores. Série Educação Infantil em movimento).

Normas para publicação de trabalhos

AComissãoEditorialdaRevistaEducaçãoIntegral dogrupoEducacionalIneqtornapúbli-coaos interessadosquereceberátextosdeentrevistas,traduçõesdedocumentosetex-tosclássicos, artigos,resenhaserelatóriosdecampo,decaráterinédito,cujasmatériastratemdasteorias,objetos emetodologiasdasCiênciashumanaseSociaisAplicadas,resultantesounãodepesquisas empíricas.Osreferidostextosdeverãoconterasseguin-tes cláusulas:

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5. As entrevistas deverão ter, no máximo 04 (quatro) laudas; as traduções de do- cumentos e textos clássicos e os artigos científicos, de 08 (oito) a 16 (dezesseis) laudas, as resenhas até

03 ( três) laudas e os relatórios de trabalho de campo até

15 (quinze) laudas, incluindo-se nessas delimitações as tabelas, quadro, gráficos, figuras,fotografiasereferênciasbibliográ-ficas quefizerempartedostextos;

6. Apresentar notas de rodapé ( se necessário)numeradasemalgarismosarábicos;

7. As citações e referências bibliográficas devem obedecer ao padrão estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Téc- nicas (a mais atualizada), para referencia- mento de livros, revistas, suportes eletrô- nicos e outros multimeios, disponíveis no site www.abnt.org. br;

8. Os textos encaminhados à Comissão

Editorial da Revista Educação Integral do Grupo Educacional Ineq serão apreciados por três membros desta comissão, que po- derão aceitá-los integralmente, propor rea- juste ou recusá-los, com base em critérios técnicos como: coerência textual, encade- amento lógico, normas da ABNT vigentes, problemática enunciada e desenvolvida, introdução, referencial teórico, considera- ções finaisereferênciabibliográficas;

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11. O conteúdo dos textos deve passar por criteriosa revisão textual, que é de responsabilidadedeseusautores;

12. Os casos omissos serão discutidos e deliberadospelaComissãoEditorial;

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