Livreto | Prematuridade

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Prematuridade: desenvolvimento infantil e cuidado nas práticas terapêuticas e educacionais

LIVRETO DA

Falar sobre prematuridade é adentrar em um tema complexo, sensível e extremamente importante para a sociedade, para as crianças, os familiares e todas as equipes de saúde e assistência social envolvidas. A prematuridade corresponde a um número maior de 15 milhões de nascimentos por ano, sendo apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como uma das principais causas de morbimortalidade no bebê e na infância (WHO, 2012). Além disso, é um sinal de alerta para pais, educadores, médicos e terapeutas para atenção ao desenvolvimento biopsicossocial da criança.

Em 2025, o Brasil sancionou uma lei voltada à redução dos partos prematuros. Essa legislação oficializa datas que já são usadas por parte da população, como o Novembro Roxo, mês de conscientização sobre o tema, e o Dia Nacional da Prematuridade, que é celebrado no dia 17 de novembro. A lei ainda estabelece ações sobre prevenção, orientações às gestantes em relação aos riscos e sinais do parto prematuro e reforça o acompanhamento especializado aos bebês, garantindo cuidados direcionados a sua reabilitação e apoio às suas famílias.

Por isso, é com grande alegria, que a Inclusão Eficiente se dedicou para construir esse livreto, criado para disseminar informações importantes sobre diversos aspectos que envolvem a prematuridade e o universo que a cerca. O objetivo principal é apresentar, de forma breve e prática, informações relevantes sobre a prematuridade, apontando áreas que devem ser observadas e avaliadas com cuidado, com fins de potencializar o desenvolvimento global das crianças, ampliar a qualidade de vida da família com seu novo bebê e promover mais oportunidades de participação desde os primeiros anos de vida, seguido da adolescência e da vida adulta.

Boa leitura!

1. Introdução

Nos últimos anos, houve um crescente avanço em todas as áreas de atenção à prematuridade - desde as técnicas de intervenção médica e os avanços tecnológicos até as intervenções da equipe de reabilitação, com estratégias de acolhimentos e apoio técnico às famílias. Esses avanços contribuíram para a redução da mortalidade e, consequentemente, aumentaram a necessidade de atenção ao pós-natal dessas crianças, que necessitam de intervenções especializadas. Isso porque muitos bebês e suas famílias, após o nascimento, enfrentam desafios relacionados a necessidades específicas para apoiar o desenvolvimento de habilidades e promoção da qualidade de vida (CAÇOLA; BOBIIO, 2010; JAHN; GERZSON; ALMEIDA, 2021).

Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, a prematuridade representa uma interrupção abrupta, em diferentes etapas e intensidade, da maturação cerebral intrauterina. O período final da gestação é marcado por processos intensos de mielinização, sinaptogêneses e organização cortical. Quando o nascimento ocorre precocemente,

“15 milhões de bebês nascem prematuros por ano.”

(OMS, 2023)

esses processos podem ser alterados porque continuam ocorrendo em um ambiente hospitalar, muitas vezes estressante (SILVA et al., 2024; JAHN; GERZSON; ALMEIDA, 2021).

Sendo assim, crianças prematuras apresentam uma maior probabilidade de alterações no desenvolvimento, tais como: atrasos motores, dificuldades alimentares, distúrbios sensoriais, seletividade alimentar, apraxias, alterações comportamentais e risco aumentado para deficiências, como a paralisia cerebral.

Apesar disso, é essencial que saibamos que o sistema nervoso central (SNC) é plástico, ou seja, é capaz de mudar, se adaptar e fazer novas conexões ao longo da vida, tanto em sua estrutura quanto em seu funcionamento. Esse fenômeno é chamado de neuroplasticidade e permite que o cérebro se reorganize em resposta às experiências, aprendizagens, estímulos do ambiente, lesões ou processos de desenvolvimento (JAHN; GERZSON; ALMEIDA, 2021).

A neuroplasticidade é um ponto central e essencial para o desenvolvimento de novas habilidades para as crianças prematuras. Isso porque o nascimento ocorre antes da completa maturação cerebral e muitas estruturas e circuitos ainda estão em processo de formação, tornando esse cérebro altamente sensível às influências externas (tanto positivas quanto adversas). Intervenções precoces multiprofissionais, exposição a experiências adequadas e o envolvimento afetivo e responsivo da família favorecem a construção e o fortalecimento de redes neurais, contribuindo para o desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional. Dessa forma, compreender e estimular a neuroplasticidade nos primeiros meses de vida é essencial para potencializar as

capacidades adaptativas do bebê e minimizar os impactos das condições associadas à prematuridade.

2. Prematuridade

2.1 Conceito e classificação

A criança é considerada prematura quando nasce com idade gestacional (IG) inferior a 37 semanas, prematuro extremo com <28 semanas, muito prematuro com 28 a <32 semanas), prematuro moderado com 32 a <37 semanas e prematuro tardio com 34 a 37 semanas (OMS, 2023; MOREIRA, 2018). Quanto menor a idade gestacional, maior a probabilidade de complicações neurológicas, respiratórias e gastrointestinais, e, consequentemente, de impacto funcional a longo prazo.

Quadro 01 - Classificação de Prematuridade por Categoria

Categoria

Extremamente prematuro

Muito prematuro

Prematuro tardio

Descrição

Nascidos com menos de 28 semanas de gestação

Nascidos entre 28 e menos de 32 semanas de gestação

Nascidos entre 32 e menos de 37 semanas de gestação

Fonte: Adaptado de Almeida (2019). / (SILVA et al., 2024).

A interrupção precoce da gestação interrompe processos fundamentais da maturação neurológica, como a migração neuronal, mielinização e organização sináptica. Essas alterações explicam,

em parte, o perfil funcional frequentemente observado: hipotonia, lentidão de processamento, dificuldades de atenção, regulação sensorial alterada e atrasos na aquisição de marcos motores, cognitivos e de linguagem.

Segundo a OMS (2023), o parto prematuro ocorre por uma variedade de razões. A prematuridade resulta de uma interação multifatorial entre aspectos biológicos, genéticos, ambientais e sociais, que podem atuar tanto no período pré-natal, durante o parto e após o nascimento. A maioria dos partos prematuros acontece espontaneamente, mas alguns são devidos a razões médicas, como infecções ou outras complicações na gravidez que exigem a indução precoce do trabalho de parto ou o parto cesáreo. Algumas das causas incluem gestações múltiplas, infecções e doenças crônicas como diabetes e hipertensão; no entanto, muitas vezes nenhuma causa é identificada. Também pode haver uma influência genética.Veja (MORAN et al., 2024; SILVA et al., 2024; DIAS et al., 2025; PITILIN et al. 2021).

1. Entre os fatores externos mais relevantes estão as condições socioeconômicas desfavoráveis, a baixa escolaridade materna, o acesso limitado ao pré-natal de qualidade e uma nutrição inadequada durante a gestação, os quais

comprometem o desenvolvimento fetal e aumentam o risco de nascimento antecipado.

2. Condições pré-existentes, como hipertensão arterial e diabetes gestacional, são amplamente reconhecidas como fatores de risco importantes para o parto prematuro, por influenciarem a saúde materna e fetal. Além disso, complicações gestacionais, como a pré-eclâmpsia e as gestações múltiplas, estão fortemente associadas ao aumento da probabilidade de prematuridade. O histórico obstétrico de partos prematuros anteriores ou abortos espontâneos também representa um fator adicional que eleva esse risco.

3. Entre as variáveis pós-natais, o baixo peso ao nascer, o percentil de crescimento reduzido e a necessidade de correção da idade gestacional são condições que impactam diretamente o perfil motor e neurológico do recém-nascido.

4. Apesar da ampla gama de fatores conhecidos, em muitos casos a causa específica da prematuridade permanece indeterminada, o que evidencia a natureza complexa e interdependente desses elementos.

Essa realidade reforça a importância de abordagens integradas e multidisciplinares voltadas à prevenção, ao acompanhamento gestacional e ao cuidado neonatal, com foco tanto na saúde materna quanto no desenvolvimento global do bebê.

2.2 Avaliação

A avaliação do bebê prematuro constitui uma etapa fundamental para compreender o impacto da imaturidade neurológica e das experiências iniciais sobre o desenvolvimento global da criança. Essa imaturidade dos sistemas orgânicos e neurológicos faz com que os bebês apresentem trajetórias de desenvolvimento singulares, que exigem observação minuciosa. O objetivo desses processos avaliativos é identificar precocemente possíveis alterações no tônus, nos reflexos, no comportamento, na autorregulação e na interação com o ambiente, possibilitando a implementação de estratégias terapêuticas e psicoeducativas adequadas para favorecer a funcionalidade e a qualidade de vida da criança (MORAN et al., 2024).

Avaliar esses bebês vai muito além de observar seu crescimento físico, envolve compreender como ele se organiza frente aos estímulos, como responde ao toque, ao som, à luz e às interações humanas que o cercam. Cada sinal - como o olhar, os movimentos, o choro e as posturas - traz informações valiosas sobre seu estado neurológico, sensorial e emocional do bebê.

As avaliações começam desde o nascimento, com protocolos conhecidos em todas as maternidades e UTIs neonatais, mas para os bebês nascidos de forma prematura, devem ocorrer ao longo de todo o acompanhamento médico e terapêutico, avaliando minuciosamente as áreas do desenvolvimento.

Segundo Moran et al. (2024), avaliar o neurodesenvolvimento em bebês prematuros é fundamental, mesmo quando não há comorbidades aparentes, pois essa população apresenta alto risco

de atrasos e alterações neurocomportamentais sutis, que podem passar despercebidas nos primeiros meses de vida.

Além disso, é necessário adotar abordagens colaborativas da equipe multiprofissional, envolvendo diferentes áreas para que possam identificar todos os sinais do bebê e do seu desenvolvimento a longo prazo. A integração dessas informações é essencial para uma compreensão ampla das potencialidades e dificuldades de cada criança, favorecendo a elaboração de planos de intervenção individualizados e eficazes (SILVA et al. 2024).

Quanto mais cedo forem detectados os sinais de atrasos nos marcos de desenvolvimento esperados, mais precocemente ocorrerão as intervenções. Entretanto, o uso de protocolos e a participação de uma equipe multidisciplinar completa, ainda não constituem uma rotina habitual e padronizada (MORAN et al., 2024).

Algumas avaliações podem ser realizadas por profissionais de diversas áreas, uma vez que contribuem tanto com os processos avaliativos quanto de intervenção para com esses bebês até a primeira infância, como:

• TIMP - Test of Infant Motor Performance (“Teste de Desempenho Motor do Lactente” – avaliação do desempenho motor em bebês de 34 semanas de idade gestacional até 4 meses pós-termo).

• DENVER - Denver Developmental Screening Test II (Triagem do desenvolvimento infantil em quatro áreas: pessoal-social, linguagem, motor fino-adaptativo e motor grosso).

• BAYLEY - Bayley Scales of Infant and Toddler Development (Escala Bayley de Desenvolvimento Infantil, avaliando cognição, linguagem, motor, socioemocional e comportamento adaptativo).

• AIMS - Alberta Infant Motor Scale (Escala Motora Infantil de Alberta – avaliação observacional das habilidades motoras de crianças de 0 a 18 meses).

As estratégias de cuidado voltadas à saúde do recém-nascido, que envolvem ações de promoção, prevenção e assistência integral, exercem impacto direto sobre o curso do desenvolvimento infantil, com efeitos que se estendem do período neonatal até a vida adulta. A qualidade da atenção recebida nos primeiros dias de vida, incluindo o acompanhamento neonatal, o suporte nutricional, o estímulo ao vínculo afetivo e o monitoramento do crescimento e do neurodesenvolvimento, é determinante. Dessa forma, investir em cuidados precoces e integrados constitui uma medida essencial para prevenir atrasos e promover o desenvolvimento saudável ao longo de todas as fases da vida.

3. Consequências da prematuridade no neurodesenvolvimento

O desenvolvimento infantil é um processo multifatorial complexo e integrado, dependente da maturação cerebral, corporal e da qualidade das experiências ambientais.

Portanto, o período que se estende do nascimento até os primeiros anos de vida de todas as crianças desempenha um papel fundamental para a construção do desenvolvimento de todas as habilidades ao longo de cada fase da vida (PAPALIA; FELDMAN, 2021). Por isso, nascer antes da 37ª semana de gestação e vivenciar tantas intervenções invasivas após o nascimento, causa um importante impacto na saúde desse bebê, que embora seja essencial para a manutenção da vida, também gera estresses e consequências para o desenvolvimento cognitivo, motor, de aprendizados, emocionais e comportamentais (SILVA et al. )

Após o nascimento, esse bebê vivencia intensos estímulos, como: exposição descontrolada à luz e ruídos, manipulações médicas frequentes e estressantes e a separação prolongada dos pais. Essas experiências podem gerar estresse tóxico e sobrecarga sensorial, interferindo diretamente no amadurecimento das redes neurais.

Silva et al. (2024) afirmam que o desenvolvimento neuropsicomotor nessas crianças deve ser analisado como um processo totalmente dinâmico e individual, porque cada bebê vivenciará uma complexidade variável de desafios internos e externos. Por isso, indicam que os profissionais saibam identificar precocemente as necessidades de cada bebê, relacionando a atrasos no

desenvolvimento, bem como devem ter atenção aos encaminhamentos o mais cedo possível, para que aconteçam as reabilitações assertivas e realizadas por múltiplos profissionais.

As consequências da prematuridade podem ser determinadas por diversos fatores, como a idade do nascimento, o peso ao nascer, a ocorrência de complicações neonatais e as condições ambientais e de estimulação que a criança terá desde o nascimento.

A prematuridade pode levar às crianças a apresentarem problemas de adaptação no período neonatal precoce, bem como ao surgimento de consequências devido à imaturidade dos sistemas respiratório, cardiovascular e, principalmente, cerebrovascular (ZIVALJEVIC et al., 2024). As complicações neonatais precoces em recém-nascidos prematuros envolvem, principalmente, a síndrome do desconforto respiratório, a persistência do canal arterial, a sepse precoce, a enterocolite necrosante e a hemorragia intraventricular. Essas condições resultam, em grande parte, da imaturidade dos órgãos e sistemas, especialmente dos pulmões e do sistema nervoso central (ZIVALJEVIC et al., 2024).

Entre as complicações tardias, destacam-se a retinopatia da prematuridade, responsável por aproximadamente 32 mil casos

de deficiência visual irreversível no mundo, e a displasia broncopulmonar, que acomete cerca de 23% dos bebês nascidos com 28 semanas de gestação. A sepse tardia também é frequente, especialmente em ambientes hospitalares, sendo causada por microrganismos oportunistas e associada a atrasos no desenvolvimento e crescimento. Além disso, alterações estruturais renais, como redução do número de néfrons, predispõem esses indivíduos à hipertensão e à doença renal crônica na vida adulta. A longo prazo, os prematuros apresentam maior risco de alterações cognitivas, motoras e metabólicas (ZIVALJEVIC et al., 2024).

Mesmo quando não há alterações neurológicas aparentes nos primeiros meses, é comum que, ao longo da infância, surjam dificuldades sutis em áreas como atenção, memória de trabalho e funções executivas. Esses achados evidenciam a importância de um acompanhamento contínuo e interdisciplinar, que possibilite identificar precocemente possíveis desafios e que viabilize apoio do desenvolvimento global da criança (SILVA et al., 2024; DIAS et al., 2025).

Nesse contexto, a neuroplasticidade, associada a planos precoces de intervenção — como técnicas e estratégias menos invasivas na UTI neonatal, rotinas familiares seguras, brincadeiras estruturadas conforme as necessidades de estimulação e adaptação dos contextos naturais de aprendizagem — pode estimular novas conexões sinápticas e promover melhorias significativas na funcionalidade e na qualidade de vida da criança (FUTEFRIA; SILVEIRA; PROCIANOY, 2017).

Diante disso, destacamos como é fundamental que a equipe técnica desenvolva planos avaliativos e intervenções estratégicas

voltadas aos potenciais impactos funcionais futuros, conforme será demonstrado nas seções seguintes deste livreto.

4. Impactos no desenvolvimento e desafios

na funcionalidade

O aumento dos casos de nascimentos prematuros têm gerado maior atenção para os possíveis impactos no neurodesenvolvimento dos primeiros anos e na funcionalidade a longo prazo, como nas fases escolares, nas exigências cognitivas e sociais da adolescência, assim como na fase adulta.

Por essa razão, é fundamental que essas crianças sejam avaliadas de forma abrangente e direcionadas para as suas respectivas especialidades, as quais são capazes de oferecer suporte nos processos mais complexos de desenvolvimento.

4.1 Aspectos motores

Frequentemente, crianças que nasceram de forma prematura apresentam desafios no desenvolvimento das habilidades motoras, tanto finas quanto grossas, devido à imaturidade do sistema nervoso central e às possíveis intercorrências neonatais que tenham existido. A imaturidade neuromotora, a hipotonia, o tempo prolongado de internação e a limitação de movimento em incubadoras interferem no controle postural, coordenação e aquisição dos marcos motores. Essas dificuldades podem se manifestar em aspectos como coordenação, equilíbrio, controle postural e planejamento motor, impactando a realização de atividades que

exigem força, estabilidade e precisão, como correr, pular, escrever e manipular objetos do cotidiano (SILVA et al., 2024).

Estudos como de Moran et al. (2024), apontam que ao avaliar bebês nascidos a termo com aqueles nascidos antes das 37ª semanas de gestação, são observadas diferenças significativas nas características motoras e no desempenho motor, desde o período hospitalar, como: menores medidas antropométricas, desenvolvimento físico mais lento e maior fragilidade clínica ao nascimento.

O desenvolvimento das habilidades motoras finas, como segurar objetos, manipular pequenos itens e realizar movimentos coordenados entre mãos e olhos, pode apresentar atrasos ou dificuldades para essas crianças. Isso ocorre devido à imaturidade neurológica e à menor exposição a experiências sensório-motoras no período inicial de vida. Como consequência, essas crianças podem demonstrar menor precisão e controle nos movimentos manuais, o que interfere em atividades cotidianas e escolares, como desenhar, escrever, recortar, abotoar roupas e utilizar talheres (Spittle et al., 2019).

A aquisição de habilidades motoras grossas, também sofre consequências pelo nascimento prematuro, como rolar, sentar-se, engatinhar e andar, em função da imaturidade neurológica e muscular característica desse grupo. Apesar disso, com o avanço do desenvolvimento e o estímulo adequado, as crianças conseguem alcançar essas etapas, ainda que em um ritmo um pouco mais lento quando comparadas às crianças nascidas a termo. Esse acompanhamento deve considerar a idade corrigida e incluir oportunidades de movimentação e interação sensorial que favoreçam o ganho progressivo de força, equilíbrio e coordenação,

além do uso de brincadeiras e estímulos no dia a dia hospitalar e domiciliar (Chorna et al., 2017).

Nesse sentido, a avaliação do bebê e da criança com histórico de prematuridade deve considerar não apenas os marcos motores cronológicos, mas o contexto, o ambiente e a qualidade do movimento. É fundamental utilizar instrumentos validados e respeitar a idade corrigida até os dois anos de vida.

Silva et al. (2024) apresenta autores que destacam a importância fundamental de uma observação cuidadosa das conquistas motoras nos primeiros meses de vida dos bebês prematuros, justamente por ser um período crucial para o desenvolvimento neuromotor e para marcar sinais de alerta para atrasos. A sustentação da cabeça, a manipulação de objetos, o controle dos movimentos dos membros e a aquisição de padrões posturais adequados devem ser acompanhados de forma sistemática. A detecção precoce de qualquer alteração permite intervenções direcionadas, favorecendo o fortalecimento muscular, o alinhamento postural e a promoção de experiências motoras que contribuam para o desenvolvimento global do bebê.

Outros estudos mostram que a evolução das posturas motoras (posturas mais baixas como controlar a cabeça, sentar-se sem apoio e engatinhar), deambular com e sem apoio, são desenvolvidas com satisfação em crianças que recebem intervenções precoces, com programas estruturados desde o nascimento. Esse desenvolvimento pode ser visto, inclusive, em crianças com deficiências neurológicas que são atendidas precocemente, mesmo que em tempo mais prolongado de intervenções (VAN GORP et al., 2018).

Esses fatores ocorrem devido às complexas características da plasticidade cerebral, que segue ocorrendo à medida que o bebê amadurece suas estruturas cerebrais e neurológicas, através de estímulos terapêuticos corretos, apoio ambiental e atitudinal de quem o acompanha.

O trabalho integrado entre os profissionais das diversas áreas da saúde, potencializa resultados ao alinhar os ganhos motores com a funcionalidade e a participação social almejada para esses bebês. Além disso, a intervenção precoce, quando centrada em atividades significativas, brincadeiras e interações cotidianas, favorecem a neuroplasticidade e o aprendizado motor. O uso de abordagens como o treino orientado à tarefa e a estimulação motora baseada na funcionalidade tem demonstrado eficácia na literatura científica.

4.2 Aspectos sensoriais

O processamento sensorial ocorre através da interação entre os sistemas sensoriais, sendo: tátil, visual, auditivo, gustativo, olfativo, vestibular, proprioceptivo e interoceptivo. Eles atuam de forma integrada para captar estímulos provenientes do ambiente e do próprio corpo. Essas informações são transmitidas ao cérebro, que as organiza, interpreta e utiliza para planejar e executar respostas motoras e comportamentais adequadas às demandas do contexto. A eficiência desse processamento sensorial é fundamental para o desenvolvimento da percepção, da atenção, da autorregulação e da participação funcional do indivíduo nas atividades do cotidiano (SERRANO, 2016).

Durante a gestação, dentro do útero, o bebê já é exposto a uma série de estímulos sensoriais e demonstra respostas a essas experiências, como o contato com o líquido amniótico, das paredes do útero, os movimentos da mãe, escuta o som dos batimentos cardíacos, sabores do líquido amniótico, sensação dos seus próprios movimentos e muito mais (BARBOSA et al., 2017).

Após o nascimento, o ambiente externo oferece uma imensa variedade de novas sensações (sons, luzes, movimentos, texturas e odores) que precisam ser vivenciadas, exploradas e integradas pela criança. Esse processo contínuo de experimentação permite que o bebê aprenda a organizar e interpretar as informações recebidas pelos diferentes sistemas sensoriais, ajustando suas respostas de forma cada vez mais adequada às demandas do meio. Por isso, um dos primeiros e mais importantes desafios do desenvolvimento infantil é justamente transformar essas experiências

em percepções significativas, que servirão de base para o aprendizado, a regulação emocional e a interação social ao longo da vida (MAGALHÃES; LAMBERTUCCI, 2004).

A prematuridade se destaca como um importante fator responsável pela alteração sensorial dos bebês e crianças, devido aos processos interrompidos e/ou alterados que envolvem a maturação e o desenvolvimento das estruturas neurológicas. Essa vulnerabilidade é intensificada pela exposição precoce a estímulos intensos e desorganizados presentes no ambiente hospitalar, onde sons, luzes, manipulações frequentes e procedimentos invasivos substituem as experiências sensoriais protegidas e moduladas do útero materno. Como consequência, o bebê pode apresentar maior dificuldade na autorregulação, na organização do comportamento e na resposta adaptativa aos estímulos do meio, na coordenação motora grossa e fina, no desenvolvimento do esquema corporal, na manutenção da postura e do equilíbrio do corpo, exigindo intervenções precoces e cuidadosas para favorecer o desenvolvimento sensorial e funcional saudável (PEDROSA; CAÇOLA; CARVALHAL, 2015; MITCHELL et al., 2015).

O aperfeiçoamento das equipes técnicas da saúde sobre as influências positivas e negativas relacionadas ao processamento sensorial desses bebês é essencial, porque poderão afetar diretamente o sono, a alimentação, o brincar e o aprendizado. Além disso, a longo prazo, poderão se relacionar à dificuldade nas áreas de comunicação, do brincar, limitação na participação social, motricidade grossa e fina, problemas com escrita e leitura, alimentação e diversas outras atividades básicas do dia a dia.

Superando as experiências hospitalares, a parceria com os cuidadores é indispensável para garantir a continuidade e generalização dos estímulos corretos e dos ganhos constantes.

SENSAÇÕES DENTRO DO ÚTERO:

1. Sistema tátil (toque):

• Contato com as paredes do útero e o líquido amniótico.

• Movimento do próprio corpo e braços.

• Toque da mãe, como quando ela acaricia a barriga, que transmite vibrações através da parede uterina.

2. Sistema vestibular (equilíbrio e movimento):

• Movimentos da mãe, como caminhar, deitar ou girar, que são percebidos pelo bebê.

• Alterações de posição e aceleração que estimulam o desenvolvimento do senso de movimento e orientação espacial.

3. Sistema auditivo:

• Sons internos, como o batimento cardíaco da mãe, fluxo sanguíneo, digestão e respiração.

• Sons externos filtrados pelo corpo da mãe, como a voz dela, música ou ruídos do ambiente.

4. Sistema visual:

• Ainda que limitado, há percepção de luz intensa que atravessa a parede abdominal e o útero, permitindo algum reconhecimento de diferenças entre claro e escuro.

5. Sistema gustativo:

• Sabores do líquido amniótico, que variam conforme a alimentação da mãe (doce, amargo, salgado).

6. Sistema olfativo:

• O olfato não é totalmente funcional, mas algumas moléculas do líquido amniótico podem ser percebidas e influenciar preferências alimentares após o nascimento.

7. Sistema proprioceptivo:

• Consciência do próprio corpo em movimento dentro do útero, percepção da posição dos membros e da pressão.

8. Sistema interoceptivo:

• Sensações internas, como fome, saciedade, conforto e mudanças fisiológicas, são detectadas e ajudam o bebê a reconhecer seu próprio corpo.

4.3 Aspectos da linguagem e da cognição: comunicação e habilidades sociais

O desenvolvimento da linguagem e da cognição em crianças prematuras pode ser afetado pela imaturidade neurológica e pela limitação de experiências sensoriais e interacionais nos primeiros meses de vida. Essas condições podem gerar atrasos na linguagem expressiva e

“A apraxia não

é apenas um atraso de fala — é uma dificuldade de planejar o movimento”

receptiva, dificuldades de atenção compartilhada e prejuízos nas habilidades sociais.

“Crianças prematuras podem apresentar dificuldades em atenção, memória, funções executivas e velocidade no processamento, déficit com números. Outras habilidades comprometidas foram encontradas em grupo de crianças prematuras na idade escolar, dentre essas, raciocínio matemático, coordenação viso-motora, memória visual, habilidade tátil-cinestésica. Algumas dificuldades da criança nascida prematura e com baixo peso ao nascer podem ser reveladas no ambiente escolar, como exemplo, o transtorno de aprendizagem e cognitivo-comportamentais” (RIECHIL; MOURA - RIBEIRO; CIASCA, 2011; CORREIA, 2023).

Desde os primeiros dias de vida, o ser humano busca estabelecer trocas com o ambiente e com as pessoas ao seu redor, utilizando diferentes formas de expressão que evoluem gradualmente conforme o desenvolvimento neurológico, motor, cognitivo e social. O domínio das habilidades comunicativas, como atenção compartilhada, contato visual, gestos, vocalizações e, mais tarde, a linguagem verbal, é fundamental para a construção de vínculos afetivos, para a aprendizagem e para a participação ativa nas interações sociais (SEGATTI, 2023).

Antes de falar, o bebê já se comunica de maneira rica e intencional: o choro sinaliza necessidades, o balbucio e os estalidos expressam prazer ou desconforto, e a imitação e os gestos marcam o início da reciprocidade comunicativa. Essas primeiras trocas formam a base sobre a qual a linguagem se desenvolverá, demonstrando que a comunicação é muito mais do que o uso de palavras, ela é um processo de conexão, significado e interação

com as pessoas e com o mundo (SEGATTI, 2023).

O desenvolvimento dessas habilidades é resultado da interação entre fatores biológicos, neurológicos e ambientais, exigindo tanto a integridade das estruturas desde a gestação, nascimento e infância, quanto a qualidade das experiências vividas em todas as fases. O aparato neurobiológico deve ser sofisticado e integrado, envolvendo áreas cerebrais responsáveis pela percepção auditiva, processamento cognitivo, planejamento motor da fala e cognitivas. Com isso, qualquer fator que interfira nesse desenvolvimento, como a prematuridade (imaturidade neurológica e menor tempo de exposição às experiências sensoriais e interacionais), pode comprometer a aquisição e a evolução da linguagem e da comunicação (MOUSINHO et al., 2008).

Podem ser identificadas alterações nas vocalizações ainda nas fases iniciais da comunicação, refletindo-se progressivamente em todas as etapas do desenvolvimento linguístico e cognitivo.

Observa-se que essas crianças tendem a apresentar atraso na linguagem expressiva, limitações na ampliação do vocabulário (extensão lexical) e déficits em habilidades cognitivas relacionadas à compreensão, uso da linguagem e aprendizados conceituais. Além disso, podem ocorrer dificuldades na organização do pensamento simbólico, na formação de conceitos e na associação entre linguagem e ação, aspectos fundamentais para a construção da comunicação funcional e do aprendizado escolar futuro.

Por esses motivos, a equipe de terapeutas e a famílias devem ficar atentas aos processos complexos que poderão acompanhar a criança na fase escolar, como as dificuldades de atenção, lentidão no processamento de informações, baixa tolerância à frustração

e desafios na coordenação motora fina, incluindo alterações no desempenho acadêmico e social. Essas manifestações, muitas vezes sutis, são confundidas com desinteresse ou preguiça, o que reforça a importância da formação de professores com conhecimento suficiente em relação ao neurodesenvolvimento e às práticas inclusivas. A inclusão escolar de crianças com histórico de prematuridade exige uma visão interdisciplinar que compreenda o impacto das dificuldades sensoriais, motoras, cognitivas e emocionais na aprendizagem e na participação escolar.

A detecção precoce dessas alterações e o suporte adequado são essenciais para promover trajetórias de comunicação mais funcionais e favorecer o desenvolvimento global da criança. Essas crianças frequentemente apresentam dificuldade em planejar ações novas, realizar gestos coordenados e imitar movimentos, mesmo quando possuem força e amplitude adequadas. Em contextos de fala, isso pode se manifestar como apraxia de fala na infância, com dificuldades articulatórias inconsistentes, substituições de sons e lentidão na transição entre fonemas.

Sendo assim, a intervenção precoce focada nessas áreas favorece aspectos funcionais essenciais para a qualidade de vida e desenvolvimento dessas crianças, como o uso de comunicação

alternativa e intervenções fonoaudiológicas focadas em apraxia de fala e outros transtornos de linguagem.

DESENVOLVIMENTO DA FALA:

• De 0 a 6 meses o bebê apresenta vocalizações não linguísticas, sendo que de 1 a 3 meses a comunicação varia de acordo com a entonação do choro do bebê e dos sons emitidos;

• Na fase de 3 a 6 meses o bebê grita, inicia o balbucio e começa a brincar com os sons da fala;

• De 6 a 9 meses as vocalizações começam a ter entonação, ritmo e tom (BEE, H., BOYD, D., 2009).

• Com 10 meses utiliza gestos para se comunicar, brinca de gesticular e imita sons sem entendê-los;

• No período de 11 e 12 meses a criança agrupa sons e sílabas repetidas e compreende algumas palavras familiares, como “mamãe”, “papai”, “nenê”;

• De 13 a 18 meses surgem as primeiras palavras funcionais;

• De 16 a 24 meses a criança aprende muitas palavras novas, expandindo rapidamente o vocabulário expressivo, passando de cerca de 50 palavras para 400 e maior capacidade de nomear as coisas (CASANOVA, 1992).

• A partir de 24 a 30 meses começam a surgir sequências de três elementos; 36 a 42 meses é uma etapa em que a criança aprende os recursos essenciais de sua língua;

• Na fase de 42 a 54 meses as estruturas gramaticais vão sendo complementadas mediante o uso do sistema pronominal (me, te, se), pronomes possessivos, verbos auxiliares etc;

• 4 anos em diante inicia a fase de contar fatos do dia e inventar histórias com começo, meio e fim, entender regras e jogos simples, e já tem condições de falar frases completas (MOUSINHO et al., 2008).

4.4 O brincar e as atividades básicas do dia a dia

Devido à complexidade e os diversos fatores que envolvem a saúde e o desenvolvimento dos bebês prematuros, observa-se frequentemente alterações na capacidade e no desempenho para explorar os ambientes, brincar, alimentar-se, comunicar-se e interagir, interferindo diretamente em suas atividades cotidianas. As dificuldades observadas não se restringem apenas às funções corporais, como apresentado nos capítulos anteriores, mas também ao modo como a criança se envolve nas suas atividades de rotina, como no uso dos seus brinquedos, vestir suas roupas, escolher e conseguir se alimentar, fazer suas tarefas de higiene,

realizar suas atividades escolares e interagir com os ambientes em que vive com a sua família.

Essas crianças podem apresentar alterações (CORREIA, 2023):

• No processamento sensorial: evita texturas diferentes, não pisa na grama ou não brinca com tinta; foge de ambientes barulhentos;

• Nas atividades de vida diária (AVD), particularmente na higiene e cuidado pessoal, como escovar os dentes, lavar, pentear os cabelos, cortar as unhas;

• Na alimentação,

• No brincar: jogos de computador e videogame, artes, artesanato, música e passatempos;

• Nas habilidades motoras (dificuldade no ato motor voluntário e psicomotricidade, atraso nos marcos do desenvolvimento, coordenação motora fina;

• Nas habilidades cognitivas, perceptuais e psicossociais (dificuldade de socialização e participação social; déficit de atenção, dificuldade de aprendizagem e atraso de linguagem.

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), proposta pela OMS, orienta profissionais a considerar a criança em seu contexto real de vida (em casa, escola e na comunidade) (OMS, 2020). Isso significa que o foco não deve estar apenas nas intervenções diretas com a criança ou nos atrasos orgânicos e neurológicos, mas nas possibilidades de participação significativa, propondo ajustes nas atividades e no enriquecimento ambiental.

O profissional que atua com crianças prematuras deve considerar o brincar e as atividades naturais da criança como ferramenta terapêutica e avaliativa, utilizando jogos e atividades que estimulem o corpo, a imaginação e a interação. O uso de brinquedos sensoriais, atividades com movimento e jogos simbólicos guiados e/ou lúdicos favorecem o desenvolvimento global e fortalecem o vínculo com a criança e da criança com os ambientes.

A orientação à família é igualmente essencial: os cuidadores devem ser encorajados a oferecer tempo, espaço e oportunidades de brincar livre, respeitando os sinais de autorregulação da criança. Envolver os cuidadores no processo de intervenção é essencial (SILVA et al. 2024). O terapeuta deve compartilhar metas claras, respeitar as prioridades familiares e adaptar as atividades para que possam ser realizadas no cotidiano, de forma prazerosa e com mais chances de sucesso.

4.5 Dificuldades alimentares

A alimentação é uma das primeiras experiências sensório-motoras do bebê, e seu sucesso depende da integração de múltiplos aspectos, como: neuromotor, sensorial, gastrointestinal e emocional. Nessa fase, ela é essencial para o crescimento saudável e a prevenção de doenças ao longo da vida. As experiências alimentares iniciais influenciam diretamente as preferências e escolhas futuras, exercendo impacto duradouro sobre os hábitos nutricionais. Compreender os fatores que moldam o comportamento alimentar desde cedo é fundamental para promover a saúde e prevenir doenças crônicas não transmissíveis, dado o papel decisivo da alimentação nos processos de saúde e doença ao longo da vida (GERMANO et al., 2022).

Em crianças prematuras, essa experiência inicial é frequentemente interrompida ou distorcida, desde o aleitamento, por fatores como intubação, sondas, dor, ausência de sucção prazerosa e estímulos táteis aversivos em ambiente hospitalar. Essa combinação de experiências pode resultar em dificuldades de sucção, mastigação, deglutição, associações negativas com o ato de alimentar-se, levando a comportamentos defensivos, como seletividade e recusa alimentar (SARAIVA, 2024).

Estudos apontam que as alterações alimentares (recusa alimentar, vômitos, náuseas, choro, irritação, engasgos e tosse, habilidades alimentares atrasadas e dificuldade de mastigar) em crianças prematuras são comuns desde o nascimento (GOMES et al., 2024), podendo ser prolongados aos transtornos de alimentação e ou dificuldades alimentares em algum grau de dificuldade

alimentar nos primeiros anos de vida. Essa condição, além de comprometer o crescimento esperado, impacta o vínculo familiar, a socialização e o desenvolvimento global.

Por meio de estudos e pesquisas científicas, é possível associar diversas causas associando a prematuridade e as dificuldades alimentares (GERMANO et al., 2022):

• Quanto menor a idade gestacional e menor o peso ao nascer, maior é a prevalência de dificuldade alimentar.

• Complicações oromotoras e dificuldade na introdução dos alimentos.

• Uso prolongado de suporte respiratório e uso de alimentação por sonda.

• Oferta da nutrição enteral ou parenteral, por exemplo, que resultam em um rápido ganho do peso e melhora das funções cognitivas, em paralelo o uso prolongado pode levar a complicações (sepse, infecção hospitalar, osteopenia e restrição da ingestão oral ao nascer e redução da função intestinal) e causar experiências negativas e dolorosas com a alimentação.

• Problemas gastrointestinais.

• Dificuldade ou retardo para o início do aleitamento materno, apresentando dificuldade de sucção do seio materno, deglutição e na respiração e risco de aspiração.

“A dificuldade alimentar das crianças prematuras envolve mais que as restrições ao aleitamento materno”

• Fatores socioeconômicos e aspectos comportamentais dos pais, que podem apresentar extrema preocupação e ansiedade em alimentá-los, gerando insegurança e dificuldade para os planos de introdução alimentar.

Dessa forma, é imprescindível que as intervenções sejam propostas de forma interdisciplinar, focadas na criança e na família com o objetivo de atuar em todos os processos envolvidos na dificuldade alimentar da criança em todas as suas fases.

4.6 Família e Escola – influência dos ambientes naturais

O desenvolvimento infantil ocorre de forma dinâmica e contínua, sendo profundamente influenciado pelos contextos nos quais a criança está inserida (IMSS et al. 2016). Para o bebê prematuro, cuja trajetória de desenvolvimento pode envolver desafios em várias áreas, o papel dos ambientes naturais, especialmente a família e a escola, torna-se um fator determinante.

A família representa o primeiro e mais significativo ambiente de aprendizado e afeto. Logo, as experiências vividas em casa, o estabelecimento de vínculos seguros e a estimulação nas rotinas diárias favorecem a aquisição de habilidades fundamentais, promovendo o senso de competência e autonomia da criança (BOURKE-TAYLOR; COTTER; STEPHAN, 2014). Nesse mesmo sentido, o papel da equipe pedagógica e do ambiente escolar se torna fundamental, porque amplia as oportunidades de interação social e exploração do meio, com diversos aprendizados.

Pais de bebês prematuros podem enfrentar dificuldades em vários aspectos do cotidiano, devido à fragilidade dos filhos e de todos os processos desafiadores enfrentados, adquirem altos níveis de ansiedade e inseguranças para enfrentar no dia a dia de cuidados intensos. O ambiente estruturado com cuidadores bem orientados, receptivos e engajados com as necessidades específicas dos bebês tendem a oportunizar mais aprendizados para o desenvolvimento global deles. Por outro

“Cuidar da criança é também cuidar de quem cuida”

lado, práticas controladoras e restritivas podem influenciar negativamente o desenvolvimento dos bebês (SILVA et al., 2024).

Os ambientes naturais e as práticas desenvolvidas neles são essencialmente relevantes, já que a neuroplasticidade é um dos aspectos mais potentes para o bebê prematuro desde o nascimento. Os ambientes (assim como as pessoas neles) exercem papel decisivo na estimulação de habilidades constantemente, através da própria rotina, como agentes estimuladores dessa plasticidade. As interações afetivas, a oferta de experiências sensoriais, cognitivas e motoras diversificadas e o apoio emocional promovido pelos pais e professores contribuem para o fortalecimento das redes neurais e para o avanço do desenvolvimento global da criança. Em contrapartida, ambientes pouco estimulantes ou com interações restritas podem limitar as oportunidades de aprendizagem e reduzir o potencial adaptativo do cérebro em formação, reforçando a importância de práticas educativas e familiares intencionais, sensíveis e enriquecedoras (JAHN; GERZSON; ALMEIDA, 2021).

Em síntese, investir na parceria entre família, escola e equipe terapêutica é promover funcionalidade, autonomia e qualidade de vida, garantindo que a criança prematura tenha não apenas acesso aos cuidados necessários, mas também condições reais de participação plena em seus ambientes naturais.

5. Considerações finais

A prematuridade é um evento que marca não apenas o início da vida de uma criança, mas a sua família. Compreender suas consequências e atuar de maneira interdisciplinar e centrada na funcionalidade é essencial para promover resultados significativos, duradouros e bem-sucedidos.

Ao longo deste material, discutimos temas que refletem os principais desafios e potencialidades dessas crianças: alimentação seletiva, atraso motor, brincar, linguagem e apraxia, processamento sensorial, participação da família e inclusão. Todos estão interligados e devem ser compreendidos sob a lente da neurociência do desenvolvimento e da prática baseada em evidências.

Nesse contexto, o atendimento especializado por uma equipe multidisciplinar torna-se indispensável, pois permite avaliar e intervir de forma integrada, considerando todas as dimensões do desenvolvimento infantil, além de promover uma melhora na qualidade de vida para a criança e sua família.

Mais do que oferecer técnicas, o objetivo é inspirar profissionais e interessados a repensarem suas práticas e fortalecerem a rede de apoio à criança e sua família. A formação contínua é o caminho para transformar o conhecimento científico em uma prática cada vez mais humanizada e eficaz.

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