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Revista atlântica de cultura ibero-americana

Número 01 Outono Inverno 2004

LUGARES DE PARTIDA SAGRES LÍDIA JORGE CIDADES INVISÍVEIS FERVOR DE BUENOS AIRES VIDAS CONTADAS ENTREVISTA COM VOLODIA TEITELBOIM A INVENÇÃO DA AMÉRICA NO RASTO DE CABRAL ANTÓNIO BORGES COELHO CRUZEIRO DO SUL N E R U D A E U M A PEDRA COBERTA DE MUSGO LUIS SEPÚLVEDA

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Revista atlântica de cultura ibero-americana

Número 01 Outono Inverno 2004

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MANIFESTO EDITORIAL João Ventura TODOS OS NOMES LUGARES DE PARTIDA

Sagres Lídia Jorge 10

VAGA GENTE

Um mineiro portimonense no Alto Peru Maria da Graça A. Mateus Ventura 12

TRAVESSIAS

Saudades de Chiriquí Maria Angeles Sallé 16 18 24 30 32 38

CIDADES INVISÍVEIS

FERVOR DE BUENOS AIRES Buenos Aires de hoje pelos caminhos de Borges João Ventura Na cidade dos livros João Ventura Os editores independentes em épocas de crise Daniel Divinsky Delírios porteños Carlos Cáceres Monteiro MALA DIPLOMÁTICA

Entrevista com Jorge Faurie, embaixador da República da Argentina Beatriz Padilla 42

MEMÓRIA DE FOGO

A saga andina do deus Con Osvaldo Henrique Urbano 46

BESTIÁRIO

Peixe-boi ou peixe-mulher? Maria Adelina Amorim 48

RIOS PROFUNDOS

Magdalena, un río del olvido Janet Núñez 54

ALTAS SOLIDÕES

Machu Picchu Pablo Neruda 56

VIDAS CONTADAS

Entrevista com Volodia Teitelboim Regina Rodríguez 70

A BIBLIOTECA DE BABEL

Aventuras e desventuras de uma biblioteca nos trópicos Lilia Moritz Schwarcz 76 78 86 90 92 94 96

A INVENÇÃO DA AMÉRICA

Yo vengo de las Indias Maria da Graça A. Mateus Ventura No rasto de Cabral António Borges Coelho Carta do Novo Mundo Américo Vespúcio Desassossego de uma mãe ausente Francisca de Trujillos Nuestra America es vasta y intricada Pablo Neruda A SEDE DO SUL

Pisco Sonia Tello Rozas 100

SINAIS DE FUMO

Dos tabacos ou fumaças dos índios no Haiti no século XVI segundo um cronista espanhol 102

ESTÁDIO DE SÍTIO

Estádio centenário de Montevideu Arón Mazas 104

SABORES PRINCIPAIS

Da canjica ao bacalhau. Uma arqueologia dos hábitos alimentares de uma família portuguesa nas Minas Gerais setecentistas José Newton Coelho Meneses 108

ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

Portugal nos confins do mundo Roberto Ampuero 110

O QUE FAÇO EU AQUI

O preço da minha vida João de Melo 114

CRUZEIRO DO SUL

Neruda e uma pedra coberta de musgo Luis Sepúlveda 120

A MARESIA DO MUNDO

Um poema inédito António Ramos Rosa 122

FICÇÕES

Lagoa Blues Tabajara Ruas 128 130 132 138 142

CORRENTES ATLÂNTICAS

O verdadeiro nascimento de Gardel Horacio Vázquez-Rial O bolero em tempo de amor Alberto Mosquera Moquillaza Os mortos comadam os vivos ou também de motocicleta se atravessa o mar Anabela Moutinho A COMPANHIA DOS LIVROS


Manifesto editorial João Ventura

A aposta numa revista de natureza multidisciplinar sobre a experiência cultural ibero-americana constitui um desafio ético aberto à participação daqueles que acreditam que a cultura, para além de factor de identidade dos povos, é, ainda, vector de aproximação intercultural, na circunstância, entre as duas margens atlânticas. Pensamos que um projecto desta natureza deverá traduzir uma certa epistemolização de um discurso sobre a Ibero-América, assente em motivações culturais, éticas, estéticas e políticas suficientemente claras para todos os que queiram colaborar. Não recusamos, portanto, um método e uma programação que, aliás, o roteiro de conteúdos previamente definido pretende expressar. Mas, ainda assim, esse método deve ser entendido mais na acepção de caminho ou trajecto do que na sua expressão positivista. Por isso, embora tenhamos ideias claras e distintas sobre a forma de abordar a experiência cultural ibero-americana, não rejeitamos trabalhar com intenções e ficções de todo o género para nos aventurarmos nesse «jardim dos caminhos que se bifurcam» que é a Ibero-América. E que poderá ser também esta revista, em termos dos itinerários de sentidos a percorrer. Trata-se, então, de um exercício da nossa curiosidade em relação ao «velho Novo Mundo» que há quinhentos anos os nossos navegadores começaram a inventar e ao qual, hoje, com este projecto editorial, procuramos regressar, interpretando sinais, traços, distinções, semelhanças onde se espelha a alma ibero-americana cuja matriz é, também, lusófona. Da experiência indo-afro-ibero-americana tratará, pois, esta revista, espécie de ponte sobre o Atlântico atravessada nos dois sentidos para nos reconhecermos, uns e outros, na nossa outra metade comum. Porque para nós hoje, como no passado o foi para os navegadores ibéricos, o Atlântico não separa, antes une dois continentes. Mar de encontros, portanto, apesar do desencontro inicial da conquista. Porque as águas que fluem nas nossas praias ibéricas, atlânticas as de Portugal, mediterrânicas as da Andaluzia, são as mesmas que banham as Antilhas, entram pelo Golfo do México e correm, depois, rumo ao sul ao longo da costa da América do Sul, unindo-se, finalmente, ao Pacífico no Estreito de Magalhães, para voltar a subir numa viagem de circum-navegação que incessantemente recomeça. Eis a geografia exterior da Ibero-América que é, também, a referência espacial da revista e que nos leva a perguntar, como Bruce Chatwin, o que fazemos ali, no outro lado do mar, quando como turistas acidentais percorremos as paisagens, as gentes, as culturas, os costumes, as gastronomias e as surpresas do «velho Novo Mundo». A história comum de encontros e desencontros. De Vespúcio e dos cronistas das Índias a Neruda, Carpentier e

Gabriel García Márquez, quase sempre uma América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos. Mas também a Ibero-América imaginada por Borges, Cortázar, Valejo, Paz, Onetti, Jorge Amado e tantos outros, cujas vidas são como as estrelas, caindo do alto do céu sobre este imenso Sul. E também aqueles que, como uma imensa corrente atlântica, derramam nas nossas praias as novas figuras da modernidade ibero-americana. Os lugares de partida e de chegada da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos», como conta Borges a Pessoa. Os portos e as praias da memória. Outras travessias de ida e volta entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar Atlântico em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa essência comum. Ver toda a América desde Machu Picchu. Das águas verde-limão das Caraíbas às «altas solidões» dos Andes. Da infinita e verde Amazónia aos glaciares azuis do Sul da Patagónia. Das paisagens lunares do deserto de Atacama aos inumeráveis fiordes do arquipélago de Chiloé. Viagem através dos seus «rios profundos». «Rios de raças, pátrias de raízes», no dizer de Neruda. Amazonas, Magdalena, Urubamba, Orinoco. «América arvoredo, sarça selvagem entre os mares», onde crescem o jacarandá e a araucária, mas também o café, o tabaco e o chocolate. Sobrevoada por tucanos, colibris, papagaios e condores. E onde, à noite, assoma o jaguar. Também, os lugares dos antigos construtores. Chichén Itzá,Teotihuacán, Mayapán. Resgatar da «memória do fogo» os mitos fundadores, as primeiras vozes, os lugares da criação. Quetzalcóatl. Pachacamac. As cidades. As da ausência, a Cuzco inca ou a Tenochititlán asteca, em cujos labirintos imaginários nos perdemos. E as outras, ibero-americanas. A Cidade do Panamá, espécie de ilha cercada de selva e mar. A Cidade do México, «cidade do sol parado, cidade de calcinações longas, cidade a fogo lento». Ou Santiago «das mulheres formosas com olhares de uva». Ou o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Ou a secreta Buenos Aires inventada por Borges. Ou todas as outras que convidamos a descobrir, «porque aquilo que nos interessa é o que o viajante vê». Outras inquirições, também. A Ibero-América nascida como tragédia que se repete, hoje, como melodrama na vida de todos os dias. Excesso e improvisação em cenário de telenovela. A «maracanização» do continente. Violência e narcotráfico. As tremendas desigualdades sociais. Mas também os novos movimentos sociais. Outras conspirações. A política entendida como «sinónimo de reconstrução, mas sobretudo de construção, na Ibero-América». Por isso, como acredita Carlos Fuentes, a esperança de uma melhor Ibero-América, no futuro, onde a utopia dos que viveram «os cem anos de solidão» possa recuperar, finalmente, o seu rosto verdadeiro.


TODOS OS NOMES

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ALBERTO MOSQUERA MOQUILLAZA [Lima, Peru] é antropólogo pela Universidade Nacional Mayor de San Marcos e Mestre em História da Filosofia na mesma Universidade, tendo exercido o jornalismo e colaborado em várias publicações periódicas da capital peruana. Actualmente é docente na Faculdade de Ciências Económicas da UNMSM, onde também é o coordenador da edição da sua revista institucional. ANABELA MOUTINHO [Faro, Portugal] é professora de Filosofia do ensino secundário e Professora Convidada na Escola Superior de Educação [Universidade do Algarve] e presidente do Cine Clube de Faro. ANTÓNIO BORGES COELHO [Lisboa, Portugal] é Doutor em Letras e Professor Catedrático jubilado da Universidade de Lisboa. Fundador e Presidente do ICIA de 1995 a 1998. Figura cimeira da cultura portuguesa, Director do Mundo Diplomático, é autor de numerosos títulos sobre a Expansão Portuguesa, a Inquisição e os Cristãos-Novos, além de poeta, jornalista e romancista. ANTÓNIO RAMOS ROSA [Faro, Portugal] é um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Poeta das coisas primordiais, da luz, da pedra e da água, recebeu inúmeros prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1998. A sua vasta obra poética e ensaística encontra-se publicada em numerosos livros, revistas e antologias. ARÓN MAZAS [Montevideu, Uruguai] é jornalista desportivo acreditado pelo Instituto Profesional de Estudios Periodisticos. Actualmente frequenta o curso de Ciência Política na Universidade de la República Oriental del Uruguay. BEATRIZ PADILLA [Mendoza, Argentina] obteve vários graus académicos em diferentes universidades [Universidade Nacional de Cuyo, Argentina; Universidade de Texas-Austin, Estados Unidos] e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign. É Professora Auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa, Professora Convidada no Instituto Superior Técnico de Lisboa e Investigadora de pós-doutoramento no CIES-ISCTE. CARLOS CÁCERES MONTEIRO [Lisboa, Portugal], jornalista e «repórter de guerra», tem desenvolvido intensa actividade jornalística. Recebeu o Grande Prémio de Jornalismo de 2002 atribuído pelo Clube Português de Imprensa. É director da revista Visão desde a sua fundação. Publicou recentemente Hotel Babilónia. DANIEL DIVINSKY [Buenos Aires, Argentina] editor, é sócio e director da prestigiada editora argentina Ediciones de la Flor, fundada en 1966 e uma das poucas que subsistiram como independentes. O seu catálogo, de mais de 600 títulos, compreende diversas temáticas, sendo o humor gráfico e escrito um dos mais significativos [com autores paradigmáticos como Quino, Fontanarrosa, Caloi e Rep, entre os dibujantes argentinos], além da narrativa do ensaio filosófico e político, do teatro argentino e latino-americano e da literatura infantil. HENRIQUE CAYATTE [Lisboa, Portugal] é presidente do Centro Português de Design e Professor Convidado da Universidade de Aveiro. Foi fundador e autor do design global, editor gráfico e ilustrador do jornal Público. Consultor para os projectos especiais de design da EXPO'98 e do respectivo plano de pormenor do recinto. Co-autor do sistema de sinalética e comunicação da EXPO’98. Co-autor e responsável pelo design da revista Egoísta. Comissário e autor do design de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Entre os vários galardões, recebeu em 2003 o Prémio Nacional de Design e o Prémio Dibner Award. HORACIO VÁZQUEZ-RIAL [Buenos Aires, Argentina] é Doutor em Geografia e História pela Universidade de Barcelona e autor de diversas obras de ensaio. Residente há muito em Barcelona, deu-se a conhecer ao público com o livro Segundas Personas em 1983. Desde então, tem publicado numerosos livros, dois dos quais foram finalistas do Prémio Nadal e do Prémio Internacional de Romance Plaza & Janés. JANET NÚÑEZ [Barranquilla, Colômbia] é licenciada em Design de Interiores. Durante 12 anos trabalhou como directora, produtora ou assistente en diferentes projectos de cinema e televisão. Nos últimos anos tem-se dedicado à promoção e produção de eventos culturais, sendo Professora de Produção de TV e Guiões Cinematográficos. JOÃO DE MELO [Açores, Portugal] é licenciado em Românicas pela Universidade de Lisboa. Escritor, tem-se notabilizado sobretudo como ficcionista, embora a sua obra se inscreva em diferentes domínios como o ensaio, a crítica literária, a poesia e a crónica. Publicou numerosos títulos e obteve vários prémios literários, entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Cristóbal Colón das cidades capitais ibero-americanas [Lima, Peru] com o livro Gente Feliz com Lágrimas [1989]. Actualmente é adido cultural da embaixada de Portugal em Madrid. JOÃO MARIANO [Aljezur, Portugal] é fotógrafo. Editou e coordenou a fotografia do Grupo Forum, dirigiu o departamento de fotografia do portal Terràvista e actualmente dirige a agência 1000olhos – Imagem e Comunicação. Publicou diversos álbuns, livros e catálogos, e expõe regularmente desde 1993. Colabora eventualmente com a revista Egoísta e com o semanário Dna. JOÃO VENTURA [Portimão, Portugal] é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e pós-graduado em Ciências Documentais [área de Bibliotecas] pela Universidade de Lisboa. Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Paris III e docente convidado na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve. Entre 1998 e 2003 desempenhou as funções de Delegado Regional do Ministério da Cultura no Algarve. Actualmente desenvolve actividade na área da gestão cultural. JORGE FAURIE [Argentina] é advogado e diplomata. Especialista em questões latinoamericanas, tem assumido vários cargos políticos de relevo, nomeadamente como Director no Mercosul e Vice--Ministro de Negócios Estrangeiros da Argentina, desempenhando actualmente o cargo de Embaixador em Portugal. JOSÉ NEWTON COELHO MENESES [Virginópolis, Brasil] é Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense e Professor Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais. Colabora na revista brasileira Nossa História e é autor


de O Continente Rústico. Abastecimento alimentar nas Minas Gerais setecentistas [Maria Fumaça Editora] e de História & Turismo Cultural [Editora Autêntica]. JOSUÉ BARRIOS [Lima, Peru] é engenheiro comercial, formador de Recursos Humanos e fotógrafo. GABRIELA CÁNOVAS [Santiago, Chile] é artista plástica [pintura e desenho gráfico]. Fez os seus estudos académicos na Universidade do Chile e na Universidade Complutense de Madrid. Tem exposto os seus trabalhos no Chile, em Espanha, em França, na Austrália e na Argentina. LÍDIA JORGE [Boliqueime, Portugal] é uma das mais prestigiadas romancistas portuguesas. É licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Em 1970 partiu para Moçambique, observando a guerra e os últimos anos da colonização portuguesa em África. Em 1979, Vergílio Ferreira aconselhou o seu romance O Dia dos Prodígios para publicação.Torna-se desde então uma das mais importantes romancistas portuguesas. Recebeu vários prémios literários, entre os quais o Prémio Europeu Jean Monnet com a obra O Vale da Paixão [1998] e, em 2003, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, com o romance O Vento Assobiando nas Gruas. LILIA MORITZ SCHWARCZ [São Paulo, Brasil] é professora livre-docente no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo [USP]. Doutorada em Sociologia Social pela USP, tem vários títulos publicados, dos quais se destaca As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos [Assírio & Alvim]. Colaborou na História da Vida Privada do Brasil e é colaboradora da revista Nossa História editada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. LUIS SEPÚLVEDA [Ovalle, Chile] é um prestigiado romancista chileno cuja obra se encontra traduzida em muitas línguas. Exilado durante a ditadura, acabou por ficar na Europa, residindo actualmente em Gijón onde desenvolve intensa actividade cultural de divulgação da literatura ibero-americana, nomeadamente como director do Salón del Libro Iberoamericano. Autor de numerosos livros, conta com vários títulos traduzidos em português, nomeadamente Um Velho Que Lia Romances de Amor, Patagónia Express, História de uma Gaivota e do Gato Que Lhe Ensinou a Voar e, recentemente, Uma História Suja. MARIA ADELINA AMORIM [Luanda, Angola] é Mestre em História do Brasil e Assistente Convidada na Universidade Lusófona em Lisboa. É autora de vários estudos sobre a missionação no Brasil e sobre a literatura de viagens. MARIA ANGELES SALLÉ [David, República do Panamá] é licenciada em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidade Complutense de Madrid e Professora Associada em várias universidades espanholas. É membro de grupos internacionais de especialistas em emprego, desenvolvimento e género, e autora de diversos projectos de investigação, estudos e publicações, dos quais se destaca a edição do livro-disco Travesías, Historias Emigrantes de Ayer y Hoy [Metáfora Ediciones] e do livro La Vi@ en Rosa, Ciberconversaciones de Mujeres. MARIA DA GRAÇA A. MATEUS VENTURA [Portimão, Portugal] é Doutora em Letras pela Universidade de Lisboa. Fundadora do ICIA, foi Vice-Presidente da Direcção de 1995 a 2002, sendo Presidente desde 2002. Membro do Nodo Coordenador da Cátedra de História da Ibero-América [OEI] e Coordenadora Executiva da CEIA, é Professora Convidada na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve no âmbito da Cátedra de Estudos Ibero-Americanos. É autora de vários estudos sobre a Ibero-América. OSVALDO HENRIQUE URBANO [Lima, Peru] foi de Aveiro para o Canadá onde obteve o grau de PhD em Ciências Sociais [Université Laval, Québec] e foi Catedrático de Sociologia da mesma Universidade. Daqui partiu para o Peru onde fundou o Centro Las Casas [Cuzco, Peru] e a Revista Andina. Actualmente é Director do Instituto de Investigações da Faculdade de Ciências da Comunicação, Turismo e Psicologia [Universidade San Martín de Porres, Lima, Peru] e Director da revista Turismo y Patrimonio. REGINA RODRÍGUEZ [Santiago, Chile] é jornalista, licenciada em Comunicação pela Universidade Complutense de Madrid e diplomada em Estudos Europeus pelo Instituto Latinoamericano de Estudios Internacionales. Foi directora da revista Mujeres [Madrid, 1983-1987]. Actualmente é Directora de Publicaciones de Isis Internacional [Santiago do Chile]. ROBERTO AMPUERO [Valparaíso, Chile] é um dos romancistas chilenos mais lidos. O seu recente romance Los Amantes de Estocolmo, o maior êxito editorial de 2003 no Chile, foi eleito livro do ano pela prestigiada Revista de Libros do Chile. Os seus romances foram traduzidos em alemão, francês, italiano e português. Em Portugal foi editado, este ano, o livro Encontro no Azul Profundo [Temas e Debates] que relata parte da saga do seu popular investigador chileno-cubano Cayetano Brulé. SONIA TELLO ROZAS [Cuzco, Peru] é Mestre em Gestão Cultural, Património e Turismo pelo Instituto Universitario Ortega y Gasset da Universidade Complutense de Madrid. Prepara o seu Doutoramento em Administração na École des Hautes Études Commerciales [Montréal, Canadá]. Foi responsável pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Cultural no Centro de Estudios Bartolomé de las Casas [Cuzco, Peru] e Directora dos Programas de Pós-Graduação na Faculdade de Turismo da Universidade San Martín de Porres de Lima [Peru]. TABAJARA RUAS [Uruguaiana, Brasil] é romancista e cineasta. Estudou arquitectura em Porto Alegre, onde se envolveu na luta contra a ditadura militar brasileira. Por esse motivo exilou-se no Chile, Argentina, Dinamarca e Portugal. Os seus livros foram traduzidos em Portugal, Dinamarca, Itália, Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia. Trabalha como guionista e jornalista e é um dos mais destacados escritores brasileiros da actualidade. VOLODIA TEITELBOIM [Chillán, Chile] é um dos nomes mais ilustres das letras chilenas e americanas do século XX. É um escritor multifacetado, autor de uma obra imensa que inclui romances, crónicas, memórias, biografias e ensaios. Integrou a Geração de 38 e é autor das biografias de Gabriela Mistral,Vicente Huidobro, Jorge Luis Borges [Temas e Debates] e Pablo Neruda [Temas e Debates]. Foi galardoado com o Prémio Nacional de Literatura do Chile em 2002.


LUGARES DE PARTIDA

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Sagres

Lídia Jorge


Foto de João Mariano

Por que razão evitar a palavra outrora? – Outrora não havia o ruído das estradas, os céus só de muito longe a longe eram riscados pelas rotas dos aviões, e as partidas eram feitas em grandes navios, com lenços brancos a acenar e longos mugidos que amarravam para sempre os corações amantes às pedras dos cais. Os soutiens das mulheres eram agudos como se fossem funis, e os sapatos dos homens rangiam à medida das suas passadas como se fossem de tábua. A música que se escutava era ainda predominantemente executada em presença, os lábios e os dedos próximos, a vibrarem contra os instrumentos, objectos então familiares nas nossas vidas. Hotel era ainda uma realidade mágica que só tinha consistência nos filmes americanos, e o telefone, um objecto de luxo que distinguia os senhores das vilas. Transpor distâncias geográficas, breves que fossem, era ainda uma tarefa assinalável.


LUGARES DE PARTIDA

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– Muita coisa, pouca coisa? Só o suficiente para dizer que, se penso em Sagres, é em Sagres desse outrora que penso. Regressando lá, a esse outro tempo, em que se ouvia o pêndulo dos relógios das torres marcarem as horas íntimas de cada um, Sagres de outrora não se me afigura um cabo nem um promontório, mas apenas uma luzinha brilhando no escuro da penumbra imensa em que se transformou o passado, a luz intermitente dum farol que a espaços riscava a noite, quando a noite ainda podia ser escura. Porque de dia a terra esmorecia desse lado, as formas das casas iam-se perdendo ao longe, confundindo-se com a rala vegetação da paisagem, e quando a lonjura quebrava a linha perceptível e se transformava ela mesma no próprio fio do horizonte, aí a distância tornava-se lilás, e desaparecia de encontro ao mar azul que por sua vez também desaparecia no céu anilado. Sagres encontrava-se lá, um espaço imerso nesse lugar vago, onde a Terra acabava diante da nossa vista e desaparecia como uma espécie de tira de fumo. Quando o Outono chegava, a distância transformava-se em alguma coisa mais palpável, passava a ser uma proveniência, uma direcção precisa, um ponto cardeal de onde sopravam os ventos que fustigavam as árvores. Era o local de onde provinham as chuvas arrebatadas de Novembro, as que entravam pela chaminé e aspergiam a toalha da mesa de gotas e salpicos, atingiam as nossas camas duma humidade ainda quente. Mas Sagres, o verdadeiro Sagres de outrora, era muito mais do que uma barra esfumada ou as intempéries que de lá provinham. Sagres era uma pátria nocturna, uma espécie de olho vigilante na noite que vinha ter connosco à varanda, quando subir as escadas durante a noite, para ver as estrelas ou distinguir o rebordo das nuvens, se transformava numa aventura nas nossas parcas vidas. Também a Geografia ainda era uma abstracção, mas o que a nossa mãe contava é que se caminhássemos por cima do mar, a partir daquela luz, e seguíssemos sempre em frente, se nos imaginássemos permanentemente a andar por cima das ondas, apesar das nossas pernas curtas, dentro de dois, três anos, chegaríamos à América do Norte. Se caminhássemos para sul iríamos ter a África, se nos dirigíssemos para sudoeste – e ela indicava essa direcção imprecisa com o seu braço, que nos parecia gigante – então chegaríamos aos países da América do Sul. Demoraríamos muito,

sofreríamos muito, no entanto seria bom, pois se lá chegássemos, em todos esses lugares, encontraríamos parentes. É possível que essas cenas de explicação de geografia humana familiar acontecessem também de dia, mas a imagem desse Sagres de outrora, sempre a associo às explicações da noite. A nossa varanda abria-se exactamente a meio do Algarve. Mais próximo brilhava o farol do Cabo Carvoeiro, depois piscava aquele frouxo olho de Sagres, tremido, longínquo. Quanto mais tremido e mais distante, mais doloroso, mais potente, como se o seu braço de luz fizesse a ponte entre nós que havíamos ficado e todos esses que haviam partido. Não o nego, aquela luz nas noites de outrora era um lugar que separava e unia a nossa gente. Gente sem passado nem futuros assinaláveis, gente que era apenas um só corpo desunido, disperso pelo mundo. A verdade é que ninguém dali havia partido, àquele lugar ninguém iria chegar, e no entanto, no relato escuro da varanda, era como se tudo ali tivesse acontecido, como se Lisboa, seus cais e aeroporto, onde as partidas reais se davam, não existissem em lugar nenhum. A partir da nossa varanda, aquele lugar sudoeste parecia ser o único ponto cardeal das nossas vidas. Mas, logo na primeira curva da infância, viria a História e viriam os mitos. Primeiro, a História. As coisas passaram-se assim – a professora do Liceu mandou apagar da cabeça todas as histórias de luzes e varandas, para nos contar como certo dia, quinhentos anos antes, um príncipe português, casto e visionário, tinha resolvido abandonar a corte, armado de seus cavalos e escudeiros, para vir assentar casa e villa no Sul de Portugal, e aqui dar início aos Descobrimentos Marítimos. A professora parecia estar enamorada desse príncipe. Segundo a sua narrativa de fábula, o príncipe havia descoberto, ao atravessar o Algarve, em direcção do Norte de África, que o Promontório de Sagres, muito mais do que um rochedo, era uma grande mão aberta cujo dedo indicador estendido apontava para o futuro do Mar. Em sua bata branca de oficial impecável, a professora falava da villa, do príncipe, dos sábios italianos que ali tinham chegado para falarem da rota das estrelas, dos engenhos, dos barcos e dos mapas da pequena Terra Cógnita da época, e a mão aberta do Promontório de Sagres, mais do que um local de partida era um local de chegada


que em simultâneo ligava o seu rochedo ao extremo Sul de África, à Índia, à China e ao Japão, ao cabo Horn, como se toda essa façanha de séculos tivesse jorrado da testa do príncipe, prodigiosamente, segundo a mesma lei de simplicidade que movia o ponteiro da professora por cima do planisfério. A História tinha então a forma duma mulher enamorada. Sob o impulso daquela professora em estado de paixão, desenhámos Infantes Dom Henrique sentados nos rochedos, caravelas no seus ombros e ao seu colo, fizemos prosa e versos, houve exposições e prémios. Aquela mulher tinha razão – Sagres, segundo a sua História, não tinha nada a ver com a tira lilás que se avistava da varanda, nem com a luz intermitente que apontava para a distância do mundo que nos era contemporâneo –. Mas, como disse, ainda haveria os mitos. Aliás, de modos diferentes, eles nunca tinham estado ausentes. Talvez uma parte do afecto seja mito, talvez toda a memória também o seja. O que sabemos nós da construção do pensamento? Mas Mitos mitos, aqueles que resumem os sentidos da existência com a síntese dum alfinete afiado, esses começariam a ficar cada vez mais explícitos. Afinal, por alguma razão superior, Sagres se situava em terras de Portugal. O assunto era tão sibilino quanto resultava claro. – Por alguma razão de ordem teleológica, tão estranha à vontade humana quanto a chuva ou o trovão, tinha havido Sagres para que Portugal pudesse ter enviado primeiro as caravelas, depois as fundas naus sem fundo, com a Cruz de Cristo arvorada nas velas e a doutrina cristã escrita nos livros. O Império de Cristo havia tido sua cabeça em Portugal. Todo o Portugal, ponta extrema da Europa, afinal não passava duma lança de Fé chamada Sagres. É preciso lembrar que nesse tempo as raparigas usavam véus para entrarem nos templos do Senhor, os cabelos das suas cabeças ainda precisavam desse abafo contra os seus próprios males. A pouco e pouco, o Mito havia tomado conta das nossas vidas e, por isso, subir acima da varanda da nossa casa já não era subir acima da varanda da nossa casa para ver o céu à transparência. Um véu não era um véu. O simbólico havia-se instalado com sua poderosa corte de substância entre o real e o imaginado. Só os cegos iam a Sagres e nele viam um rochedo perigoso por onde todos os navios provenientes do Mediterrâneo e do Atlântico, na rota da Europa, tinham obrigatoriamente de passar.

Só os cegos. Então, felizmente, fomos a Sagres. Ainda estávamos vivos e intactos. Fomos, fazia vento, já o disse de outros modos. Éramos adolescentes. Tudo isso aconteceu outrora, quando as estradas ainda corriam às curvas entre veigas e outeiros, amarradas aos caprichos do terreno. Fomos. Chegámos lá depois duma tarde de viagem num carro que carburava mal. A distância que nos separava era curta, mas nós achávamos que por mais que andássemos nunca chegaríamos lá. E, de súbito, ali estávamos em pé, sobre as costas dum rochedo. Uma pedra gigantesca, uma escarpa nua, onde o vento assobiava como se nos quisesse arrebatar para outra parte. E, então, à medida que os redemoinhos nos levavam os cabelos, foi simples imaginar quantos enxovais por estrear se haviam misturado com a areia, quantas quilhas, quantos mastros, quantas sepulturas abertas nas ondas, para que a distância entre continentes, ao longo dos séculos, tivesse sido transposta. Foi possível compreender como por cada príncipe sonhador que a História oferece, sempre foram necessários exércitos incontáveis de outros homens, cujos nomes só estão escritos entre os grãos de areia onde ficaram seus desejos e seus ossos. Tudo isso foi entendido durante essa primeira visita ao rochedo. Mas foi preciso mais tempo, sobretudo mais densidade no tempo, para que eu mesma entendesse que em Sagres, como em toda a escarpa nua que se prolonga pelo Mar, existe o aceno que leva para longe o nómada das águas. Existe o inquieto, o curioso, o móvel, o trotamundos sem destino à vista, o inqualificável. Aquele que sente, na sua carne e no seu espírito, que à medida que se vai afastando da sua casa, mais se aproxima da verdadeira morada. E assim se sabe que sempre que se fala do espírito do Príncipe, seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele outro infante múltiplo, sem retrato, que habita na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade. Era essa a palavra que eu desejaria ver escrita em letras gigantescas nas escarpas da futura Sagres. Em volta do seu relógio de sol desenhado no chão, cujos ponteiros não falam, Humanidade. – Todos os que partiram, ou não partiram de lá, ao longo dos séculos, mereceriam essa homenagem. Os ignorados, aqueles cuja vida anónima encontra no enrolar e desenrolar das ondas a sua única metáfora, seriam esses o seu destinatário.


VAGA GENTE

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Um mineiro portimonense no Alto Peru Maria da Graça A. Mateus Ventura

Os portugueses deixaram marcas da sua presença para além das fronteiras do território politicamente delimitado pelos sucessivos tratados entre Portugal e Espanha.Vaga gente que indecifravelmente forma parte do tempo, da terra e do olvido.


Proprietário, concessionário de minas e azougueiro, Afonso de Fonseca Falcão foi, decerto, um dos homens mais ricos do Potosí

Afonso de Fonseca Falcão era um mineiro poderoso, pela fortuna e pela teia de relações. Foi de Portimão para o Alto Peru, quando a produção da prata já anunciava o seu declínio, em 1621. Logo que chegou ao Potosí, Falcão ocupou-se em lavrar e beneficiar minas próprias, no Cerro Rico da Villa, à sua custa e sem qualquer ajuda de índios de cédula ou mitayos, tendo gasto muita prata e servido a Coroa com «grandes e quantiosos serviços de interesses de quintos reais que cresceram e aumentaram a Sua Real Fazenda» em mais de 500 mil pesos e, em especial, pela «grossa quantidade de metais ricos» que, desde 1635, pouco mais ou menos, sacara e beneficiara no asiento rico de Chocaya. Afonso Falcão foi um dos primeiros povoadores deste asiento e dos mais interessados na Veta de Clarines donde se sacou «tão grande soma de metais ricos» que a Coroa obteve elevadas receitas procedentes dos quintos. Quando as minas de Chocaya foram inundadas, Falcão foi o primeiro a desaguá-las, pelo que se pôde voltar a extrair muitos metais ricos, tudo à custa de grandes gastos por se ter continuado com os ditos desaguamentos por mais cinco anos. Não podendo manter a exploração desta mina, pelo «embaraço e impedimento da água», Afonso descobriu «muchos labores» no Cerro e asiento de Tasna donde sacou elevada quantidade de metais beneficiados no seu engenho de San Antonio de Villa Real de que era proprietário por título hereditário. Além de povoador de Tasna, Afonso Falcão explorou também as minas do Cerro e asiento de Chorolque donde sacou igualmente muitos metais, descobrindo minas novas e limpando minas antigas que estavam «cegas e cobertas», por «ignorância e pouca indústria» dos antigos mineiros. Em 1647, este mineiro algarvio abriu mais dois filões em Chorolque, tendo de novo gasto «mucha plata» para que estas minas se pudessem lavrar e desaguar com comodidade. Dos ditos filões extraía-se muita prata que garantia grande rendi-

mento à Coroa espanhola, até porque todo o investimento fora feito, mais uma vez, à sua custa, sem recorrer a «índios de cédula». Dos quantiosos e ricos metais, beneficiados no engenho de San Antonio e em outros que possuía na região dos Chichas e dos Lipes, haviam resultado importantes quantidades de marcos de prata em pinha, além do resultante da compra à Coroa de muitos quintais de azougue, pago em barras de prata. Proprietário e concessionário de minas e azougueiro, Afonso de Fonseca Falcão era, decerto, um dos homens mais ricos do Potosí e um dos mais importantes na sociedade local, pois soube aliar a fortuna a um casamento estratégico. Casou com D. Juana de Villela, filha do licenciado D. Juan de Villela que foi alcaide da Corte, ouvidor da Audiência de Lima, presidente da Audiência de Guadalajara e membro do Conselho das Índias. D. Juana havia casado em primeiras núpcias com o governador de La Plata, facto que valorizava, ao menos simbolicamente, o seu dote. Ao excelente estatuto social da esposa, Afonso acrescentava a sua fortuna e a nobreza dos seus antepassados. Em 1647, Afonso enviou a Filipe IV e ao Conselho das Índias uma petição para que se procedesse a uma informação sobre os seus méritos e serviços como justificação do seu pedido de mercê de cargo, renda ou hábito de uma das quatro ordens militares para o seu filho primogénito, os típicos apanágios indianos de poder – cargo, renda e hábito. Considerava-se a si próprio como «homem quieto e pacífico e muito atento ao serviço de Deus e de Sua Majestade e sempre se tratou e conservou com muito lustro de sua pessoa, casa e família, tendo criados espanhóis e escravos». Não sabemos se obteve esta mercê, mas Afonso de Fonseca Falcão foi, seguramente, um dos portugueses de sucesso no Alto Peru, graças à sua capacidade de iniciativa e de investimento numa actividade fulcral para o império espanhol – a mineração da prata, el nervio de la nación.


TRAVESSIAS

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Saudades de Chiriquí Maria Angeles Sallé

Mais do que de uma travessia de dupla direcção, entre Chiriquí e Barcelona, trata-se de um percurso de ida e volta através da saudade e da nostalgia de um imenso coração atravessado pelo mar, uma espécie de ponte entre o cais da memória e o porto da esperança.


Chiva, autocarro do Panamรก


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Quando eu era menina, ir de David à capital supunha dois dias de viagem envoltos em pó, água ou, com mais frequência, na sua incómoda síntese de barro. Mas, ao chegarmos, aguardava-nos – após a travessia da ponte das Américas – uma cidade caótica, de latidos e cores que me fascinavam. Nunca mais, em nenhuma das múltiplas viagens que empreendi, encontrei uma ponte que me parecesse tão imensa, nem uma cidade que encerrasse tanto mundo. Por isso o meu sonho de menina sempre foi repartir a minha vida adulta entre as duas margens daquela ponte: a da terra e água e a do ar e fogo. Mas eu, além de ter nascido em Chiriquí, também nasci espanhola, e a presença de Espanha – a sua cozinha, o seu «ceceio», as suas festas, costumes e, sobretudo, as suas nostalgias – foi a música de fundo de todos os meus crescimentos. Temia a minha prematura condição emigrante.Temia-a porque colocava sobre as minhas jovens raízes outras mais fortes e melhor plantadas; quiçá, também porque pressentia que, devido a ela, o meu sonho de viver entre as duas margens da ponte não ia poder cumprir-se. Tinha dez anos quando vi – pela primeira vez com os meus olhos – a luz de Espanha. Foi a do Mediterrâneo, em Barcelona, no mesmo porto de onde havia zarpado o meu pai, muitos anos antes, rumo às Américas. Dezasseis dias durou esse trajecto que me entregava a um destino de margens mais largas, as de um Atlântico cujas ribeiras nenhuma ponte podia aproximar, mas que os emigrantes espanhóis converteram em algo estranhamente familiar, baptizando-o de «el Charco».

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Desde então, a minha existência converteu-se num ir e vir, quer fosse viajando, quer sonhando. Essa poderia ser uma boa síntese de uma travessia pessoal na qual, mais tarde, descobri que se espelhavam as viagens íntimas de muitos outros navegadores. Porque, para todos nós, emigrar supunha abrir uma ferida nas raízes pela qual se nos colou um bocado de terra nova. A cicatriz permanece sempre; inclusive se se regressa, as dores mestiças afloram à superfície uma e outra vez. A terra nova, por seu lado, aduba um jardim de liberdades, amores, esquecimentos, sonhos possíveis, encontros com um igual ou, simplesmente, um prato de comida quente em cada dia, que continua sendo, infelizmente, a razão fundamental dos êxodos que se produzem no mundo de hoje. A minha existência, como era lógico, mudou também – entre tantas voltas – ao conhecer uma série de histórias de pessoas que, como eu, sulcavam o mar repartindo o seu coração entre cá e lá. Muitos outros emigrantes se cruzaram, depois, no meu caminho. Aventureiros de passagem, gente que fracassou no seu esforço e teve de regressar de cabeça baixa e bolsos vazios, empreendedores que, como os meus pais, exerceram as profissões mais mirabolantes para seguir em frente (afiadores, vendedores de quadros, marceneiros, cafezeiros, comerciantes...), exilados da guerra civil... pessoas, todas elas, com trajectórias muito diferentes, mas, ao mesmo tempo, forjadas por uma esteira comum de lágrimas, suor e mar. Quatro milhões de espanhóis emigraram para a América ao longo do século XX. Uns

quantos vieram parar ao Panamá, onde se somaram à extensa colónia de italianos, chineses, gregos, antilhanos, indianos, judeus ou árabes aos quais o nosso país abriu generosamente as portas. Em cada uma dessas rotas há uma cadeia de esforços e lutas na qual se gesta uma boa parte da história grande de Espanha. Não obstante, há muito que venho notando como a nossa memória se esvai entre as realidades e as brumas do progresso, sem querer reconhecer que, se deixamos morrer a memória do país emigrante que sempre fomos, morrerá também a essência que nos move e tornar-nos-emos nómadas de nós mesmos. Recuperar a memória supõe, do mesmo modo, actualizá-la, reconhecer a circularidade de caminhos que, através dos nossos actos, imaginação ou memórias, percorremos quase sempre em dupla direcção. A Espanha emigrou para a América, tal como hoje a América emigra para a Espanha ou a própria América emigra entre si. E, assim, mais de um milhão de latino-americanos – se considerarmos os legais e os ilegais – foram lá tentar a sua sorte nos últimos anos. Um bom punhado são amigos, ou filhos de amigos, que se vão somando progressivamente ao mundo dos meus afectos. Partem da Argentina, em crise, buscando horizontes mais propícios para plantar o montão de sonhos que se viram obrigados a arrumar na mala de viagem. Aterram procedentes de uma Venezuela ferida, cujos sulcos continuam lambendo à distância. Não faltam artistas peruanos, chilenos, panamenhos... que necessitam que a Espanha desempenhe um papel mais activo na projecção da criatividade ibero-americana. Mas a


maioria são equatorianos, colombianos e peruanos que fogem de ambientes onde o futuro quase não se conjuga, deixando atrás de si famílias desfeitas para irem em cuidar dos nossos filhos e idosos, ou para se encarregarem do nosso ócio e bem-estar. Um paradoxo que se tece nestes milhares de histórias individuais, temperadas com o mesmo sal de lágrimas, suor e mar que o daqueles galegos, asturianos, bascos ou andaluzes que apontaram à América a proa das suas esperanças. O que mudou? Embora a emigração continue a ser uma constante nas nossas vidas, a diferença é que agora se inverteu a direcção (em vez de cá para lá, de lá para cá). Mudou também o meio: agora, aeroportos e aviões substituem prosaicamente a mítica imagem de antanho, quando portos e barcos eram os símbolos dessa grande mobilização atlântica. E mudou a comunicação: antes, o símbolo era a carta que jamais chegava, o tempo aprisionado, o telegrama conciso com as más notícias, a ligação telefónica de longas esperas. Agora, a cabina é o cibercafé, o sonho de agarrar o ente querido aferrando-se à sua imagem ou à sua voz, o amor virtual, o quotidiano do outro em tempo real, o desdobramento em duas vidas: a de cá e a de lá. Mas, sobretudo, mudou a identidade: ontem foram eles (70% dos emigrantes espanhóis na América eram homens), enquanto hoje são elas (60% dos emigrantes latino-americanos em Espanha são mulheres) quem está embarcando decididas a lavrar o futuro dos seus filhos. Podem encontrar-se, apesar de tudo, grandes similitudes entre estes trasfegos de dupla di-

recção. Porque aqueles que participaram ontem e participam hoje nesse ir e vir pelo nosso mar choraram e choram saudades e perdas, conheceram o valor da luta individual como ingrediente indispensável para ultrapassar a adversidade, desenvolveram um forte sentido de sobrevivência e constituíram todo o tipo de redes solidárias a partir da consciência de que um emigrante jamais consegue o seu objectivo sozinho. Creio que isso – e uma determinada maneira de sentir – é o que mais identifica o mundo dos emigrantes de todos os tempos: é gente tão empreendedora quanto gregária. E, como empreendedores que são, tampouco se

O Panamá é um país no qual vibra o planeta inteiro, um país-navio em travessia pode esquecer que muitos naufragaram e naufragam cada dia. Em barcos, fracassos, hipotecas ou desesperanças. Reivindicar o direito de sobreviver, de sonhar, de ser diferentes representa hoje muito mais que resgatar do esquecimento o legado de todos aqueles que nos abriram o caminho, forjando com o seu alento – ao mesmo tempo duro e nostálgico – boa parte do bem-estar de que, hoje, desfrutamos. É legar também aos nossos filhos, habitantes de um mundo cada vez mais complexo, a chave para abrir a porta da pouca ou muita sabedoria que fomos capazes de entesourar na nossa rota de identidades destroçadas, das

nossas esperanças, lutas e fracassos. É facultar-lhes as nossas velas desfiadas e cartas de viagem, é dizer-lhes que ser emigrantes é o seu destino. A identidade multicultural e emigrante está arreigada no fundo mais recôndito da alma do Panamá, se bem que no nosso caso – diferentemente ao contrário de Espanha e da maior parte da América Latina – mais pelo facto de sermos receptores (ontem de espanhóis, judeus, árabes, jugoslavos ou indianos; hoje de colombianos ou peruanos; e sempre de chineses) do que emissores de emigração. E isso com consequências passadas – e sobretudo futuras – muito importantes para o país, ainda que aparentemente ninguém pareça reparar nisso. Negro, chocolate, branco e amarelo são as cores do istmo, se bem que no nosso Chiriquí a mestiçagem – segundo as últimas investigações a este respeito – provenha, quase na mesma proporção, do branco e do índio. O Panamá cheira a incenso, a mercado árabe e a molho chinês. Sabe a manga, a doce hebraico, a arepas e a pasta italiana. Ressoam nela as cadências do mundo, que vão derramando pelas ruas e esquinas acentos em dó, ré, mi, fá, sol. O Panamá reza e pede perdão pelos seus pecados nas mil línguas paridas pela Torre de Babel. Foi também forjada por suor e sangue dos cinco continentes. E os mares que o banham estendem a sua mão à Europa e à Ásia, enquanto continuam a moldá-la como a cintura de uma América Latina hoje cada vez mais presente nos nossos habitantes. O Panamá é, pois, um país no qual vibra o planeta inteiro, um país-navio em travessia.


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Fervor de Buenos Aires De Buenos Aires disse Carlos Fuentes que, «se não há cidade mais sólida, mais construída e “feita” na América Latina, tão-pouco há cidade mais desvanecida na bruma da sua linguagem, da sua literatura, da sua música passageira». Da cidade secreta, invisível, inventada por Borges, aqui ficam alguns relatos «porque aquilo que nos interessa é o que o viajante vê».


Murais em La Boca


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A Avenida Corrientes é uma superstição

Buenos Aires de hoje pelos caminhos de Borges João Ventura

Avenida Corrientes

A Buenos Aires inventada por Borges nos seus livros já não existe, embora aqui e ali, se nos deixarmos perder pelos caminhos que o autor gostava de percorrer nos fins de tarde luminosos do Verão porteño, a possamos ainda imaginar. Para Borges, Buenos Aires foi muito mais que o cenário da sua obra, inspirada em personagens e histórias dos subúrbios porteños do princípio do século passado. A Buenos Aires de Borges é também a cidade recriada nas suas ficções, a cidade poética, mítica, revelada em muitas das suas histórias e poemas. Vem daí, dos textos de Borges, o meu primeiro conhecimento de uma Buenos Aires desaparecida, onde biografia e ficção convergem num espaço simultaneamente cartográfico e imaginário. Como Borges, procuro as ruas do centro numa manhã de sexta-feira, com a sua «prepotência de azul» (Inquisiciones). Primeiro, a casa onde nasceu: «Nasci aqui, no coração da cidade, na Rua Tucumán, entre as ruas Suipacha e Esmeralda, numa casa (como todas as desse tempo) pequena e sem pretensões, que pertencia aos meus avós maternos» (Autobiografia). Porque a casa já não existe, escolho um prédio ali perto, na Rua Maipú (n.º 944), que foi a última e a mais duradoura residência de Borges, e onde escreveu a maior parte da sua obra. Do terraço do apartamento, Borges podia ver as árvores da Praça San Martín, sobretudo o esplendor azul-violeta, às vezes com tonalidades lilases, dos enormes jacarandás em flor, nos fins de tarde de Verão austral: «Todo o sentir se acalma/


na absolvição das árvores/jacarandás, acácias...» (Fervor de Buenos Aires). Eis agora a Rua Florida cujos dezasseis quarteirões Borges percorreu a pé, durante anos, a caminho da Biblioteca Nacional, na Rua México. Aquela que foi a primeira rua pedonal de Buenos Aires é hoje o epicentro comercial da cidade, com lojas das melhores marcas e onde se podem comprar artigos de couro a preços convidativos, depois da desvalorização do peso argentino. Ao fim da manhã, uma multidão de turistas enche a rua. A paixão pelo futebol é visível nas dezenas de lojas de artigos desportivos que dão colorido à rua expondo as camisolas das principais equipas argentinas e da selecção nacional. À porta das Galerias Pacífico, onde se encontram instalados o Centro Cultural Jorge Luís Borges e a Escola de Dança de Julio Boca, um par de tango ensaia algumas figuras de dança ao som de La Cumparsita. Atravesso depois a Rua Lavalle que cruza com a Florida e lhe serve de extensão comercial. Esta artéria foi outro lugar de deambulação de Borges que frequentava as suas salas de cinema nos anos cinquenta. Mais adiante, a livraria El Ateneo, que foi nos anos sessenta um dos lugares mais concorridos pela geração de intelectuais e escritores, e onde Borges costumava deter-se no seu percurso diário para a Biblioteca Nacional onde era director, convida a entrar. Borges não gostava do centro. E embora durante anos tivesse que caminhar pelas suas ruas e frequentasse os cafés – como o Tortoni, na Avenida de Maio –, as tertúlias – como a do café Royal Keller, na Rua Cor-

rientes – e os jornais da zona – como La Prensa, na Avenida de Maio –, pouco mudou a sua opinião formada na juventude sobre o centro como «um lugar pitoresco e desenraizado» (O Tamanho da Minha Esperança). Muito mais tarde, já na velhice, afirmaria que «a Avenida Corrientes é uma superstição» (Borges, el memorioso), procurando destruir o mito da mais central das ruas de Buenos Aires. E é a extensa Corrientes que percorro ao crepúsculo, quando o néon dos anúncios dos teatros e dos cinemas começa já a der-

sempre existiram cafés com sabor a tango, a política e a todo o tipo de discussões, a movidas artísticas, a conquistas e enganos, ao rescaldo do último derby entre o Boca Juniors e o River Plate. A boémia porteña tinha o seu encontro privilegiado ao longo desta avenida que nunca dormia, carregada de sonhos e ilusões. Nos distintos cafés se pronunciaram panegíricos manifestos acerca da liberdade e os intelectuais da época evocaram com grande lirismo a autenticidade da alma artística. Borges frequentou tertúlias no Royal Keller. Carlos Gardel e

Praça San Martín

ramar a ilusão sobre a avenida que já foi uma espécie de Broadway porteña, cantada nas letras de tangos. E no interior das muitas livrarias – onde se compram edições desaparecidas de Borges, de Casares, de Cortázar – e nos incontornáveis cafés que ainda povoam a rua, acendem-se as luzes, iluminando histórias escritas e conversadas. Em Corrientes, desde a Avenida Callao até à Rua San Martín,

José Razzano, que actuavam no Teatro Esmeralda, hoje conhecido por Maipo, tinham todas as noites uma mesa reservada no Guarani. Horacio Quiroga frequentou La Richmond. A lista de cafés era infindável. E, embora hoje muitos já tenham desaparecido ou se tenham tornado irreconhecíveis pelas transformações sofridas, ainda se respira em Corrientes um pouco do tempo em que aquela rua nunca dormia.


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Talvez Borges tenha também, numa tarde qualquer, entrado no Giralda que, na esquina da Corrientes com a Uruguai, permanece inalterado, com as suas paredes de azulejos, mesas de mármore, as suas luzes de néon e os empregados vestidos de branco. E, quem sabe, saboreando o mesmo chocolate com churros que bebi enquanto ouvia histórias de cafés «tangueiros» contadas por um companheiro porteño.

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mos edifícios como o do antigo jornal La Prensa, de fachada art déco, que acolhe agora a Casa da Cultura. Imperdível a visita ao café Tortoni que parece esperar por Borges regressando do jornal Crítica. E, no reverso do mito, os edifícios ainda tingidos com as cores da revolta contra «los ladrones», como na porta principal do Banco de Boston, escolhido como símbolo da corrupção, do clientelismo e de

ção, para o próximo sábado, por ocasião do aniversário do golpe que instaurou a ditadura. No palanque estarão filhos de desaparecidos ao lado do presidente Kirchner. Porque é preciso não esquecer. Puerto Madero, na «Doca Sul, de onde outrora zarpavam o Saturno e o Cosmos» (Elogio da Sombra) levando Borges e a sua família até ao outro lado do rio da Prata, a Montevideu, já não é um território de ruas picantes

É em Palermo Viejo, no passado um súburbio perdido nas margens da pampa, que Borges encontra o cenário privilegiado para criar os mitos e dar corpo aos fantasmas das suas histórias Placita Cortázar, Palermo Viejo

Persigo Borges pela Corrientes, cruzando a mais larga avenida do mundo, a 9 de Julho, hoje desocupada dos piqueteros – a mais recente criação do populismo sindical argentino – que na véspera a tinham cortado exigindo compensações. E depois, pela Avenida de Maio – a mesma avenida que mitificou Eva Perón – com os seus belíssi-

uma desastrosa política económica assente na paridade artificial com o dólar, que ia levando a Argentina à ruína. À porta de um esplendoroso edifício, dois sem-abrigo acomodam-se para passar a noite, desmentindo o luxo do cenário. Na Praça de Maio, as mães já não choram pelos desaparecidos, mas anuncia-se uma grande manifesta-

onde «convivem o cosmorama e a leitaria, o bordel e os vendedores de Bíblias» (Ficções). Resultado de uma profunda intervenção de restauro e revalorização, o velho Puerto Madero, exemplo da arquitectura industrial inglesa do início do século XX, com os seus armazéns nas margens dos diques, concentra hoje numerosos restaurantes e áreas de lazer,


constituindo uma nova centralidade onde Buenos Aires se debruça sobre a corrente morna e pardacenta do rio da Prata. Em Palermo Viejo É em Palermo Viejo, no passado um subúrbio perdido nas margens da pampa, que Borges encontra o cenário privilegiado para criar os mitos e dar corpo aos fantasmas das suas histórias. A dois quarteirões da Praceta Julio Cortázar, numa esquina, pode ler-se, agora, o seu testemunho: «Um quarteirão inteiro, mas cuja metade/ ficava exposta a chuvas, auroras, rajadas./ O mesmo quarteirão que há hoje no meu bairro:/ Guatemala, Serrano, Paraguai, Gurruchaga» (A Fundação Mítica de Buenos Aires). Por isso, escolho Palermo Viejo para continuar este itinerário porteño e, numa manhã de um sábado que se anuncia luminoso, perco-me pelas ruas e pracetas de Palermo Viejo e, pelos caminhos de Borges, entre silêncios e milongas, deixo que o bairro se me revele. Em Palermo Viejo, onde Borges viveu, primeiro em criança e, depois, na juventude (na Rua Serrano, 2100, hoje chamada Jorge Luis Borges em sua memória), já não se pode ver, como Borges viu, «pares de homens dançando tangos, quando passava um acordeão, porque as mulheres não queriam dançar». Mas o espírito do lugar permanece por ali e, às vezes, é possível assistir-se na Praceta Serrano aos ensaios da murga Los Herederos de Palermo que nos transporta ao tempo de Borges. A Praceta Serrano (que na realidade se chama Cortázar, em memória do autor de Rayuela), a que os moradores e frequentadores chamam carinhosamente la placita, tornou-se, nos últimos

anos, o epicentro da movida jovem porteña e um lugar onde acontecem numerosas actividades culturais e comunitárias. Ou não fosse esta placita o lugar onde a toponímia junta Borges e Córtazar na esquina onde a Rua Serrano (que agora tem o nome do autor das Ficções) se cruza com a praça rebaptizada com o apelido do escritor de Rayuela. São 10 horas da manhã e no pequeno jardim central está prestes a começar um desfile de

necessitamos. Dizem-me que estas feiras informais constituíram uma resposta imaginativa dos argentinos à crise económica que se abateu sobre o país há cerca de dois anos. Hoje, não obstante os piores dias já terem passado, muitas continuam a realizar-se, aos domingos, em alguns bairros populares de Buenos Aires, alimentando uma pequena economia informal de troca directa de produtos e serviços. No auge da depressão de

Café Tortoni

moda, onde os criadores locais apresentam as novas tendências para o Outono-Inverno porteño, como se estivéssemos em Paris ou Milão. Noutro canto, à sombra de magníficos plátanos, estende-se através de algumas bancas improvisadas uma Feria del Trueque, um lugar onde se pode trocar quase tudo o que já não queremos por algo de que

há dois anos, esta intricada rede chegou a ter milhares de nós espalhados por antigas fábricas e armazéns devolutos. Como o sol começa a aquecer, sento-me na esplanada do Acabar (Honduras, 5733), um esplêndido bar de sumos naturais. Aliás, muitos outros bares – El Taller, Crónico, Malas Artes –, galerias de arte, ateliers de toda a


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Porta do Banco Boston, Avenida de Mayo

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Club del Vino, Palermo Viejo

Puerto Madero Bar Malas Artes, Palermo Viejo

Praça Dorrego

espécie envolvem esta placita, considerada, hoje, um dos lugares de passagem obrigatória do itinerário cultural e boémio porteño. Decido, depois, penetrar numa Buenos Aires de geografia labiríntica, errando ao longo de ruas arborizadas, como a Guatemala que ainda mantém um certo ambiente tranquilo de bairro, acedendo a ruelas com calçadas irregulares, curvando esquinas onde florescem buganvílias, esgueirando-me por estreitas travessas e íntimos saguões – Cabrer, Soria, Santa Rosa, Russel – onde as fachadas de um casario baixo e os muros que foram cenário em muitos livros de Borges se revelam agora, renovadas, nas suas «cores de aventura» (Lua Defronte). E através de metáforas, afortunadamente irreais, sob «a clara plenitude de um poente» (Fervor de Buenos Aires), é todo um catálogo da «mitologia bairrista» de compadritos, brigões e marginais de faca ligeira que se pode imaginar. Deste Palermo onde «vivia gente de fraca qualidade juntamente com gente muito pouco agradável, como os rufiões e os compadritos, que se caracterizavam pelas suas lutas à facada» (Autobiografia) pouco ficou e, hoje, pode passear-se com relativa segurança por aquele que é considerado uma espécie de Soho porteño. Curiosamente, a vocação cosmopolita de Palermo já Borges a descobrira muito tempo antes, ao afirmar sentir-se «mais porteño que argentino e mais do bairro de Palermo do que de outros bairros. E até essa pátria interessante – que foi a de Evaristo Carriego – se estava a tornar em centro...» (Carta publicada na revista Nosotros, 1925).


Embora não esqueça o seu passado rufião, Palermo Viejo é hoje um bairro seguro, habitado por gente com um forte sentido de pertença ao lugar e com uma notável consciência cívica, expressa nas mais variadas dinâmicas comunitárias de que mesmo um turista acidental facilmente se apercebe. Gente sensível, ecológica, reciclável, apesar do snobismo congénito que os faz saltar de um desfile de moda para uma galeria de arte e daí para a loja de agricultura biológica mais próxima. Palermo Viejo é, ainda, um lugar para descobrir pela noite dentro, com os seus restaurantes sofisticados, bares e cafés literários, clubes de tango e de jazz de novo cheios de gente que prefere consumir a arriscar as poupanças nos bancos. Por Belgrano, San Telmo e La Boca As grandes caminhadas de Borges levavam-no desde Palermo até Belgrano, um bairro com alma própria, onde velhos casarões se misturam, hoje, com edifícios modernos. Manhã cedo de domingo, deixo o «carinho das árvores em Belgrano» (O tamanho da minha esperança) em direcção aos bairros do sul, a San Telmo, onde reside «a essência original de que Buenos Aires é feita, a (sua) forma universal ou ideia platónica» (Buenos Aires en Tinta China). Antes, impossível não passar pela Rua Garay, perto da esquina com a Rua Bernardo de Irigoyen, no bairro da Constitución, onde se encontrava o Aleph, «o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos» (O Aleph). Através de ruas empedradas, chego à Praça Dorrego, no coração de San Telmo, bem a tempo

da feira de antiguidades que aí funciona há mais de trinta anos. O bairro, as ruas e a praça conservam ainda a sua imagem antiga, com as casas coloniais que Borges evocou: «Onde San Juan e Chabuco se cruzam/ vi as casas azuis/ vi as casas que têm as cores da aventura» (Lua Defronte). Sob as tendas que se amontoam no exíguo espaço da praça, velhos discos de tango de 78 rotações, livros e revistas esgotados, mapas e cartazes antigos acomodam-se ao lado de garrafas, taças, ferragens e brinquedos de outras épocas, enquanto à sombra das árvores começa uma aula de tango. De San Telmo chega-se facilmente a La Boca, um bairro que Borges evitava, como nos conta Adolfo Bioy Casares: «Não sei porquê, mas Borges tinha um desprezo por La Boca. Durante anos eu não fui a esse bairro por causa de Borges. E uma vez fui e achei que era lindíssimo» (Adolfo Bioy Casares, em entrevista com Carlos Aberto Zito). Ao início da tarde, o azul e amarelo da hinchada do Boca Juniors invadem o bairro que já foi de marinheiros e artesãos genoveses, pois é dia de jogo contra o Racing, mesmo ali ao lado no mais mítico estádio de Buenos Aires, a Bombonera, onde Maradona nasceu para o futebol. Na Rua Caminito, por onde passava um antigo ramal ferroviário, as velhas casas feitas com chapas de zinco onde viviam os imigrantes italianos exibem fachadas de cores garridas junto das quais pintores, malabaristas, músicos e dançarinos de tango se exibem para grupos de turistas confundidos com o crescente rufar de bombos e gaitas, vindos de escondidos subúrbios pobres, a caminho da cancha do Boca.


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Na cidade dos livros João Ventura

Livraria El Ateneo, Avenida Santa Fe

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Conta Umberto Eco que, em 1970, vasculhando nas bancas de um pequeno alfarrabista em Corrientes, lhe caiu nas mãos a tradução castelhana de um livro de Milo Temesvar, Do Uso dos Espelhos no Jogo de Xadrez, cuja versão original, em georgiano, se encontrava desaparecida. Com grande surpresa, ao folhear as suas páginas amarelecidas, encontrou abundantes citações de um manuscrito do monge beneditino alemão Adso de Melk que narrava uma perturbante aventura da sua adolescência vivida numa importante abadia por volta do ano 1327. Terá sido este achado que decidiu, definitivamente, Eco a escrever, depois, o Nome da Rosa, cujo narrador é, como sabemos, Adso de Melk. Sessenta anos antes, conforme descreve o livreiro Arturo Peña Lillo em Los Encantadores de Serpientes, num outro alfarrabista, em Lavalle, alguém desencanta debaixo de um amontoado de livros envoltos em densa poeira um volume que o livreiro avalia por cem pesos. Depois de regatear um pouco, o comprador paga finalmente oitenta e sai radiante. Algum tempo depois soube-se que um exemplar da Bíblia de Gutenberg tinha sido encontrado em Buenos Aires e, posteriormente, vendida ao Museu Britânico por dez mil libras. Entre a realidade e a ficção, na rica história das livrarias de Buenos Aires abundam histórias como estas que ajudam a construir o mito de uma cidade apaixonada pelos livros. Ou não fosse Buenos Aires o lugar onde, talvez mais do que em qualquer outro, melhor se percebe o oxímoro pessoano «o mito é o nada que é tudo». Por isso, só aqui seria possível aquela história do Livro de Areia que um dia

veio ter com Borges, num quarto andar da Rua Belgrano. Ou aquela infinita biblioteca hexagonal, descrita nas Ficções. Mas essas são metáforas cuja interpretação escapa aos objectivos do itinerário livreiro de Buenos Aires que aqui quero deixar.

Entre a realidade e a ficção, na rica história das livrarias de Buenos Aires, abundam histórias como estas que ajudam a construir o mito de uma cidade apaixonada pelos livros

Primeiro a génese, portanto. Em Libreros, Editores e Impresores (1974), Domingo Buonocuore traça uma genealogia das bibliotecas de Buenos Aires, repleta de saborosos episódios e figuras singulares de livreiros porteños. E o primeiro livreiro terá sido, como o seu nome parece indicar com reduzida margem de erro, um português chamado Joaquim da Silva e Aguiar que estabeleceu, por volta de 1776, na rua hoje denominada Suipache, o primeiro comércio de livros da cidade. A sua clientela seria

composta por clérigos, funcionários coloniais e alguns mercadores ricos. Depois, à medida que os crioulos conspiradores se multiplicavam e sopravam mais fortes os ventos da independência, outros comércios de livros apareceram. Data do princípio do século XVIII a livraria mais antiga de Buenos Aires, na época conhecida popularmente por Librería del Colegio, por se situar em frente do Colegio Mayor de San Ignacio. Ao longo de dois séculos de existência, a livraria Ávila (esquina Bolívar e Alsina), como é hoje designada, foi um lugar por onde passaram homens como Mitre, Sarmiento, Hernández, Estrada e outros. Anos depois, numa tarde de 1895, um homem sairá por uma porta do mesmo edifício para voltar a entrar, logo em seguida, pela porta da livraria. Trata-se do poeta nicaraguense Rubén Darío que durante algum tempo habitou um andar do mesmo edifício. Imagina-se que noutras ocasiões por aí também tenham passado os poetas Leopoldo Lugones e o boliviano Ricardo Jaimes Freyre que, conjuntamente com o inquilino do andar de cima, lideravam o movimento modernista. Actualmente, oferece uma grande variedade de livros antigos e esgotados sobre temas indígenas, história da Argentina, antropologia, Buenos Aires, tango e Patagónia. Entre muitas outras raridades para coleccionadores, deparei com uma primeira edição, de 1925, de Lua Defronte, de Borges, com uma tiragem limitada de trezentos exemplares. El Ateneo é outra mítica livraria de Buenos Aires. Fundada por Pedro García em 1938, foi nos anos sessenta um dos lugares mais frequentados da Rua Florida,


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no n.º 340, quase em frente da velha sede de La Nación. A renovação a que foi sujeita, entretanto, não apagou as marcas de um passado luminoso, quando escritores como Jorge Luis Borges, Francisco Luis Bernárdez, Leopoldo Lugones, Eduardo Mallea, Roberto Payró, Ricardo Molinari, Arturo Cancela, González Lanuza, Miguel Angel Bustos ou Arturo Cuadrado, entre tantos outros, aí se reuniam em animadas tertúlias, inspirando a organização da primeira Feira do Livro da ci-

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ter-se, no percurso que fazia entre a sua casa e a Biblioteca Nacional onde era director, conversando com o poeta de A Cidade sem Laura, Luis Bernárdez, saindo depois ambos para uma das suas longas caminhadas pela baixa de Buenos Aires. A família Gruneissen, que é hoje proprietária de El Ateneo, reconverteu, recentemente, numa belíssima livraria o antigo cine-teatro Gran Splendid (Santa Fe, 1850), transformando aquele espaço numa espécie de palco para

El Ateneo, desenhada por Fernando Manzone, respeita a construção original de 1903, adaptando-a às necessidades da nova função. Os acessos, a plateia, os camarotes, o palco com a sua teia sob a qual existe um café, as cortinas, as luzes, a sala de projecção, mas também o corrimão das escadas, o dourado das colunas, os lustres, tudo foi restaurado, restituindo ao velho teatro o espírito do lugar, que nem as escadas rolantes vêm perturbar. Especial cuidado mereceu o res-

os livros. A criação de espaços atractivos e modernos, onde se combinam livros, música e recantos onde se pode saborear um café enquanto se lê um livro, são a resposta que as livrarias encontraram para ultrapassar a crise que paralisou as vendas entre 2001 e Março de 2002. A nova

tauro, pela pintora Isabel Contreras, do fresco da cúpula, pintada na década de 1920 pelo artista italiano Nazareno Orlandi. Como tantas outras livrarias de Buenos Aires, também esta fica aberta até tarde, sobretudo aos fins-de-semana em que encerra à uma da manhã. Como um teatro, afinal.

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dade, denominada La Primavera de las Letras, que aí se realizou em 1965. Enquanto bebo um café no novo bar do primeiro andar, observo a disposição das estantes e bancas em baixo. Imagino o poeta de Fervor de Buenos Aires que diariamente aqui costumava de-


Mas, em vez das vozes de Carlos Gardel, de Ignacio Corsini ou Roberto Firpo, que em soirées inesquecíveis emocionaram gerações de espectadores, ouve-se agora o silêncio dos livros nas estantes e bancas distribuídas pelo espaço da antiga plateia e camarotes, apenas interrompido, de vez em quando, por algum cliente que pede uma informação a um empregado. Enquanto o projecto da El Ateneo da Avenida Santa Fe transformou a livraria num teatro da vida, outras tornaram-se lugares de discussão intelectual, recuperando a tradição das antigas sociedades literárias. Há em Buenos Aires, pelo menos, dois lugares de referência que correspondem a esta ideia da livraria como lugar de reunião e de encontro de afinidades electivas: a Clássica y Moderna (Callao, 892), aberta até às 3 horas da madrugada, é cada vez mais um lugar de discussão filosófica e, às vezes, também, um piano-bar; e a Ghandi (Corrientes, 1743) que, para além de livraria, é, ainda, uma espécie de salão literário contemporâneo, oferecendo um pequeno palco para recitais musicais. Ambas procuram retomar a tradição da livraria como lugar de debate público. Ainda nesta modalidade, o bar-livraria Un Gallo para Esculapio (Uriarte e Costa Rica), no borgesiano bairro de Palermo Viejo, é um lugar singular onde o enigma das palavras finais de Sócrates se renova entre um copo de cerveja e muitos livros. O café Oceano (Jorge Luis Borges, 1985) é outro lugar em Palermo Viejo que combina uma biblioteca de 2500 títulos com a música étnica e instrumental. A Ghandi não está sozinha em Corrientes. No coração de

Buenos Aires, «a rua Corrientes é uma suspertição», ironizou Borges contra o prestígio da mais popular rua de Buenos Aires. Talvez a Corrientes de hoje já não seja a Corrientes cantada nas letras de tangos de outrora, com os seus cinemas, os seus teatros, os seus cafés abertos até muito tarde e, também, as suas livrarias. Um lugar de exaltação para aqueles que chegavam do outro lado do Atlântico. Também de exaltação literária, quem sabe se para compensar a nostalgia das

tantas são as livrarias que por aí se encontram. E, apesar de muitas terem encerrado as suas portas nos últimos anos, a soma de todas as montras de livros que encontramos ao longo dos vários quarteirões, que vão desde Callao até ao cruzamento com a 9 de Julho, configurariam uma enorme livraria com centenas de metros de comprimento, o que é absolutamente surpreendente e sem paralelo em qualquer outro lugar. Aí se encontram nomes importantes do comércio livreiro

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pátrias perdidas no velho continente. Ou um certo vazio histórico de uma nação que nasceu dos barcos. Mas, ainda hoje, percorrer a pé a extensa avenida, que em épocas mais luminosas já foi uma espécie de Broadway porteña, é como passear ao longo de uma imensa montra de livros,

como Hernández, Losada, Cúspide ou Lorraine, lado a lado com armazéns poeirentos, estreitos corredores, ínfimos saguões borgeanos onde se vendem livros em saldo. E onde, às vezes, se pode ter a surpresa de encontrar, escondido sob um amontoado de livros de ginástica,


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de cozinha ou de jardinagem, aquele título esgotado que julgávamos perdido. Edições baratas, troca e venda de livros usados, os «livros do dia» pelo preço de uma cerveja. Eis o que ainda é, também, Corrientes. Parece que os leitores, que mesmo durante a crise nunca perderam o hábito de frequentar as livrarias, voltaram de novo a comprar livros. Reveladora desta atitude em relação ao livro foi o facto de a Feira do Livro de Buenos Aires de 2002, que esteve para ser suspensa, ter registado um nível de participação surpreendente, como se a literatura

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livrarias e a uma diminuição dramática da edição de romances e poesia, outras, como as muito recentes Capítulo 2 ou Tierra de Lectores, têm ocupado os seus lugares, apostando numa relação mais directa com os clientes. Outra consequência ironicamente feliz da crise tem sido o ressurgimento dos pequenos editores que, aproveitando aquilo que as grandes casas editoras descartam, têm vindo a estreitar os laços com os seus autores, incentivando o aparecimento de novos talentos e apostando na preservação de um fundo edito-

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representasse a última esperança. Para o editor Daniel Divinsky, das Ediciones de la Flor, muitos argentinos terão preferido desfrutar do dinheiro de que dispunham comprando livros, em vez de confiá-lo aos bancos. Registe-se que, já em 2003, a Cámara Argentina del Libro registara um número recorde de 14365 títulos entre novidades e reedições. E, se é verdade que a crise levou ao encerramento de muitas

rial próprio. Ediciones de la Flor, Manantial, Temas, Biblos, Quadrata, El Cuenco de Plata, Amorrortu, Bajo la Luna e La Crujía são algumas dessas editoras que apostam, sobretudo, na promoção do património editorial argentino que pode ser encontrado nas livrarias de Buenos Aires. Talvez o território onde melhor se percebe a particular relação amorosa dos argentinos com os livros seja a Feira do Livro

que, desde há 30 anos, constitui o principal acontecimento do Outono porteño. Quatrocentos expositores com milhares de livros, mesas-redondas, conferências, debates, ateliers, maratonas de leitura, apresentação de livros e sessões de autógrafos e recitais de poesia marcaram a 30.ª edição, onde esteve presente, entre muitos outros consagrados escritores, António Lobo Antunes. Mas aquilo que se revelou, mais uma vez, a sua imagem de marca foram os grupos de amigos ou de famílias inteiras carregando sacos de livros que voltaram a comprar como antes da crise. Terminada a feira, regressemos, ainda, às livrarias. Agora, às dos livros caros, de capas bonitas, encadernados a pele e dourados que forram estantes de madeira antiga. Livros raros, únicos, inexistentes, esgotados, exóticos, pergaminhos. Livrarias de usados, impecavelmente conservados. Elegantes antiquários livreiros. Dizem-me que, devido à crise que se abateu sobre o país nos finais de 2001, diminuiu o público que antes se juntava nestes pequenos lugares de culto em pequenas tertúlias de coleccionadores. E que a paixão pelos livros raros é cada vez menos partilhada por argentinos. Aproveitam os estrangeiros cujo poder de compra lhes permite adquirir, por módicas quantias, verdadeiras preciosidades. Como na Alberto Casares (Suipacha, 521), especializada em Borges, que propunha, por um preço muito aceitável, uma colecção completa da Sur, fundada e dirigida por Victoria Ocampo (1891-1979), uma das mais importantes revistas literárias da Ibero-América na qual colaboraram, desde o primeiro número


publicado em 1931 até ao n.º 371 publicado em 1992, Jorge Luis Borges, José Ortega y Gasset, Alfonso Reyes, Adolfo Bioy Casares, Octavio Paz, Silvina Ocampo, Eduardo Mallea e tantos outros importantes escritores. Ou, ainda, a Acquilant (Rincón, 79) e a L’Amateur (Esmeralda, 882). Outras, mais económicas, mas nem por isso menos ordenadas e sortidas na sua penumbra discreta, e com livreiros que conversam com discreta autoridade e simpatia sobre os livros que vendem, encontram-se um pouco por todo o lado. Como não recordar aquela pequena livraria de usados que dá pelo nome de Brujas (Rodríguez Peña, 429) onde encontrei uma primeira edição de Rayuela de Julio Cortázar. Percorro as estantes e as bancas que expõem os livros cuidadosamente arrumados por temas e autores, sem qualquer mácula de poeira. Detenho-me em algumas edições de Borges, mas acabo por pegar na Rayuela, que comprarei. O livreiro conhece Pessoa, Torga, Régio, Saramago. De Saramago, diz-me, leu o Ensaio sobre a Cegueira. Mostra-me, ainda, o suplemento literário da edição do Clarín com uma entrevista ao Nobel português. Fornece-me preciosas informações sobre outras pequenas livrarias de usados que visitarei depois, como a Romano (Ayacucho, 437), El Vitral (Montevideo, 108) ou El Tunel (Avenida de Mayo, 767). Em todas ouvirei histórias sobre livros. Talvez para que a nenhuma falte uma biografia que se alimenta de ficção e realidade. Mas livros usados também se podem procurar nas feiras que podemos encontrar no Par-

que Rivadavia ou na Praça de Itália, numa versão porteña dos bouquinistes do Sena – ou não fosse Buenos Aires um espelho de Paris na América do Sul –, onde um taxista que conhecia Lisboa me levou numa manhã de domingo. Alguém chega e abre uma mala de onde retira vários volumes que dispõe criteriosamente sobre um pano, no chão. Depois, um comprador pega num livro encadernado cujo título não pude ver. Quem sabe se um livro inexistente. Há, ainda, as livrarias especializadas, onde se pode encontrar quase tudo sobre um tema.

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Quem se interesse pela mítica Patagónia que conhecemos dos livros de Chatwin e de Coloane, essa terra do fim do mundo está mesmo ali, na World’s End, nas Galerias Pacífico. Se a paixão for o tango, então o melhor é procurar El Quiosco del Tango, em Corrientes, obviamente. Entre outras preciosidades, descobri aí uma referência a uma tal «Amelia, la Portuguesa» que por volta de 1920 encantou nos

cabarets de Buenos Aires. A melhor livraria borgesiana é a já mencionada Alberto Casares. Mas, se quisermos saber o que cantam os poetas argentinos de agora, será na Norte (Las Heras, 2237) que devemos procurar. Esta a cidade dos livros. A cidade «onde todos os caminhos se bifurcam» conduzindo a uma livrar ia. Cor r ientes, Callao, Santa Fe, os caminhos principais que levam à «extravagante felicidade» das infinitas livrarias hexagonais ou aos estreitos armazéns de usados ou aos elegantes antiquários livreiros de Buenos Aires.


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Os editores independentes em épocas de crise Daniel Divinsky


Ser editor, sem fazer parte de nenhum dos grandes grupos editoriais, significa, num país como a Argentina, viver um estado de crise permanente. A situação agravou-se em finais de 2001, como consequência do desmoronamento do esquema económico neoliberal, sustentado na manutenção fictícia de uma paridade cambial (1 peso argentino = 1 dólar norte-americano), que permitia que os livros importados fossem mais baratos que os editados localmente. Em Abril de 2002, devia realizar-se a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e, até ao último momento, pensou-se que haveria que suspendê-la. Para surpresa de todos, não só teve uma assistência de público similar às anteriores, como as vendas foram excelentes. O que se passou no contexto de um país empobrecido até níveis nunca antes conhecidos? Simplesmente que os sectores não pauperizados que haviam confiado as suas poupanças aos bancos, os quais viriam a encerrar devido à crise financeira, decidiram desfrutar do dinheiro de que ainda dispunham e, por exemplo, comprar livros. Também influiu, é certo, a afluência de visitantes dos países vizinhos que aproveitaram os preços da moeda local, subitamente abaratados. Nesse quadro, as «grandes» editoras isto é, as que integram os grupos multinacionais que, paulatinamente, foram comprando as chancelas argentinas tradicionais, que decidem o seu ritmo de lançamento das novidades e as suas tiragens em função da venda massiva e da inundação do mercado, viram-se mais afectadas que as médias e

as pequenas. Um editor médio, que não está obrigado a produzir uma grande quantidade de novidades mensais para manter em funcionamento as suas equipas de produção e de vendas, pode reduzir ao mínimo a sua produção enquanto o seu fundo editorial, reeditado regularmente, lhe permita solver os seus gastos gerais.

Os sectores não pauperizados que haviam confiado as suas poupanças aos bancos, os quais viriam a encerrar devido à crise financeira, decidiram desfrutar do dinheiro de que ainda dispunham e comprar livros

Ediciones de la Flor, editora fundada por mim, em 1966, e que continua sendo propriedade minha e da minha mulher, tem como base das suas vendas os livros dos grandes humoristas argentinos (Quino, autor de Mafalda, mas também de muitos outros títulos de humor, Fontanarrosa, Caloi, Maitena) e os de alguns autores como Rodolfo Walsh, um clássico da narrativa, e o jornalismo de investigação,

assassinado pela ditadura militar em 1977. Estes títulos reeditam-se regularmente e quando, a partir da desvalorização da moeda nacional, baixaram os seus preços de exportação em dólares, reencontraram o mercado de toda a América Latina e, em alguns casos, o de Espanha (quando os nossos direitos não estavam contratualmente limitados). Isso permitiu que de 7 novos títulos surgidos no, economicamente funesto, ano de 2002, se passasse a 20 novidades em 2003, e que serão 32 em 2004. E que as reedições, que são o segredo da sobrevivência de uma editora com um fundo, passassem, no mesmo lapso, de 14 para 60. Isto mesmo permitiu apostar em novos autores, no nosso caso jovens humoristas gráficos como os que assinam Nik y Liniers, que estão aumentando a sua fama e as suas vendas de modo surpreendente. Há algum tempo, um alto executivo de uma multinacional da edição disse que os grandes grupos editoriais são como bolas numa caixa: sendo esféricas, deixam pouco espaço entre elas para que ali se alojem outras editoras que, se crescerem demasiado, serão devoradas pelas maiores. O exemplo recente do grupo Vivendi, cuja divisão editorial estourou e teve de ser vendida em parcelas, e outros que interromperam a absorção de mais empresas, parece demonstrar que aquilo que é verdade para outros sectores não o é para os livros. A diversidade da criação literária e a inquietude dos leitores permitem escapar às estreitas margens que o marketing globalizado pretende impor.


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Delírios porteños Carlos Cáceres Monteiro


La Boca. Foto de Carlos Cรกceres Monteiro


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Não conheço outra cidade no mundo com tanta força como Buenos Aires: nos seus bairros boémios onde a vida nunca pára; nos restaurantes onde se come o bife de chorizo, por exemplo em La Mosca Blanca; na célebre Avenida Corrientes, que é um rio de luz no coração da cidade; nos lugares onde se toca e dança tangos na rua, seja na Calle Florida (que Jorge Luis Borges frequentou e celebrizou), em Palermo Viejo, em La Boca ou, ao domingo, na feira de San Telmo. Ou ainda numa outra forma de força, nas marchas de protestos: ontem as falanges peronistas, hoje os piqueteros. Este fôlego, esta energia, não desfalece mesmo nos períodos mais difíceis. Estive em Buenos Aires em pleno tempo de bancarrota, no auge do corralito, que se traduzira no confisco temporário dos depósitos bancários. Pois, mesmo assim, apesar da profunda inquietação colectiva, a capital argentina não perdia grande parte da sua fervilhante alegria de viver e conservava um notável sentido de orgulho e dignidade; na Calle Lavalle não se calaram as concertinas e em La Recoleta as belas mulheres continuaram a sentar-se nas esplanadas; na Calle Camiñito as casas mantiveram a pureza das suas cores vivas; e, durante o dia, o célebre Café Tortoni, na Avenida de Mayo (e que foi frequentado por Borges e Gardel) guardou todo o seu velho esplendor e continuou a ser um dos templos do tango. Na Praça de Mayo intensificam-se os protestos frente à Casa Rosada, sob a balustrada que se celebrizou pelas aparições de Juan Perón e sua mulher, Evita Perón. Em todo o caso, no Verão

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de 2002, a última vez que estive na Argentina, essas manifestações não se comparam àquelas que, meio ano antes, a classe média organizou, de forma quase espontânea (por Internet) para protestar contra o corralito e contra o ministro da Economia que o gerou, o monetarista neoliberal Cavallo. Muitos milhares de pessoas participaram, em 30 de Dezembro de 2001, no cacerollazo. Munidos de panelas, pratos, potes e bandejas, os argentinos rejeitaram em bloco, nas praças de Mayo e do Obelisco, o rumo que o país seguia. E, mesmo assim, nunca às portas dos grandes armazéns (em muitos dos quais eram aceites os patacones, os bónus emitidos pelo Estado falido e insolvente) se deixou de cantar e dançar o tango. Foi em 1945 que se concretizou a ascensão política do caudilho argentino, depois da maior manifestação alguma vez realizada em Buenos Aires, no dia 17 de Outubro. Ainda hoje, historiadores e jornalistas discutem qual terá sido o exacto papel da então actriz Eva Duarte na noite da manifestação na Avenida 9 de Julho. Mas Perón costuma ser citado dizendo que foi a sua amiga Evita que organizou tudo. Um movimento aparentemente espontâneo de gente humilde da cintura operária, que nunca antes entrara no centro de Buenos Aires, ocupou a capital e impôs Perón. Facto que constitui, aliás, uma singularidade: a classe trabalhadora a colocar um coronel no poder (já então simbolizado pela Casa Rosada, o palacete que encima a Praça de Mayo). Foi no dia seguinte a esta marcha popular que nasceu o mito dos descamisados, ainda hoje fortemente ligados à história da populista Evita. Eram os pobres

da Argentina, os «sem camisa» a tomarem o seu destino nas mãos; só que a Argentina era, na época, um dos mais ricos países do mundo; acreditava-se que teria um grande futuro, maior do que o de qualquer outro da América Latina, incluindo o Brasil e o México. O 17 de Outubro passou a ser, ao longo dos anos, a data de todos os rituais peronistas. O mito de Evita, que entretanto se casara com Perón, avolumou-se porque as pessoas começaram a procurá-la para lhe pedir favores ou auxílio financeiro: mães pobres, crianças que necessitavam de assistência. A Newswek chamou-lhe então La Presidenta. Eva Perón passou a ter gabinete no Ministério do Trabalho. A Fundação Eva Perón reforçou o papel beneficente da mulher do Presidente, a tal ponto que houve quem passasse a chamar-lhe santa (hoje, há quem sugira a sua canonização). Um ano depois de ter morrido, as crianças argentinas já aprendiam uma prece que lhe era dedicada, semelhante ao padre-nosso, e nos calendários vendidos em Buenos Aires aparecia uma auréola à volta da sua cabeça. Em 17 de Outubro de 1951, na Praça de Mayo, já muito doente, aguentando-se a doses de morfina, Evita ainda conseguiu proferir, na varanda da Casa Rosada, um extraordinário e patético discurso em que agradeceu aos seus queridos descamisados e gritou que dava a vida por Perón, frase que foi repetida pelo milhão e meio de argentinos presentes. Desde os anos 50, afinal desde os tempos do peronismo, que a classe média não fazia ouvir, de uma forma tão clara, a sua voz na rua.


La Boca. Foto de Carlos Cรกceres Monteiro


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Sob este fervor visível (e audível) sobrevivem e alimentam a alma de Buenos Aires os eternos mitos da grande urbe. De resto, na América Latina (veja-se, por exemplo, o caso do México, do Peru ou de Cuba) os mitos e os ícones estão bem vivos, a par das histórias misteriosas e das lendas, como as do Lago Titicaca. Os dois grandes mitos de Buenos Aires, para não falarmos já do próprio Perón, são Carlos Gardel e Eva Perón. Em Buenos Aires revisitei, munido do meu caderno de repórter, a rota dessas grandes figuras que continuam a fazer parte do imaginário porteño. Estive,

Sob este fervor visível (e audível) sobrevivem e alimentam a alma de Buenos Aires os eternos mitos da grande urbe. De resto, na América Latina (veja-se, por exemplo, o caso do México, do Peru ou de Cuba) os mitos e os ícones estão bem vivos, a par das histórias misteriosas e das lendas, como as do Lago Titicaca. Os dois grandes mitos de Buenos Aires, para não falarmos já do próprio Perón, são Carlos Gardel e Eva Perón

mais do que uma vez, no jazigo de Eva Perón, no cemitério de La Recoleta. Na segunda vez, em 2002, a impressão que colhi foi muito forte, porque entretanto estudara os contornos da personalidade e da história dessa mulher, cuja vida também foi recriada por mais do que uma vez no cinema (a última das quais interpretada por Madonna). E recordemos, de tal forma foi impressiva a sua presença e memória, a opereta Don’t cry for me, Argentina, que resistiu muitas e muitas temporadas na Broadway (Nova Iorque) e em Londres.

Mas a força da revisitação ao cemitério de La Recoleta ganhou significado porque muitos argentinos evocaram sentidamente a combativa Eva, precisamente no pico da crise e da bancarrota. Nessa ocasião a taxa de desemprego atingia 21,5%, e era a mais alta da América Latina: cinco milhões de pessoas procuravam emprego. Nessa manhã de 16 de Julho de 2002 comovi-me, observando a cerimónia, na manhã soalheira do Inverno do rio de La Plata, ouvindo os dicursos de habitantes de Buenos Aires e de dirigentes sindicais. Militantes do Sindicato dos Taxistas, envergando capas e bandeiras pretas e amarelas, cantavam a marcha peronista. A eleição do Presidente Kirchner acabou por traduzir o desenlace possível para aquilo que parecia ser um beco sem saída. Os chefes de família sem trabalho passaram a receber 150 pesos (50 euros) por mês, uma preciosa mas magra ajuda que não tirou ninguém do grupo dos 50% do conjunto da população que vive em estado de pobreza (a Argentina tem 36 milhões de habitantes). Por isso, leio nas mais recentes reportagens dos meus colegas jornalistas que no centro histórico há adolescentes que dormem nos passeios, cartoneros que recolhem embalagens abandonadas e crianças que abrem as portas dos táxis na esperança de receber um peso. Da primeira vez que estive em Buenos Aires, em 1985, desde logo se me impôs a força de um outro mito, diferente mas nem por isso menos forte: Carlos Gardel, que morreu em 24 de Junho de 1935 na Colômbia, quando um avião em que seguia se preparava para largar de Bogotá para Cali. Portanto, estava-


se em ano evocativo do cinquentenário da sua morte, que ainda hoje permanece envolta em mistério porque o corpo do cantor foi encontrado atravessado por um tiro. Vivia em Buenos Aires, nesse já distante ano de 1985, um grande jornalista brasileiro, Flávio Tavares, que já depois disso publicou livros sobre o tema, o último dos quais é (neste ano de 2004) um dos grandes best-sellers das livrarias brasileiras, O Dia em que Getúlio Matou Allende. Foi Flávio Tavares que me iniciou nos meandros do culto de Carlos Gardel, levando-me a muitas das casas de tango que se encontravam abertas na capital argentina e onde o silêncio era imposto com uma frase simples e cortante: «Por favor, señores, que estan cantando tangos!» Por corredores longos e escuros, escadas que se despenhavam sobre caves sombrias, entrámos na Casa de Anibal Troyo, que era ao tempo um dos principais lugares de culto e estava cheia de fiéis dos tangos, desses tangos arrastados que cantam amores e milongas, inpirados nas pampas. «Adiós pampa mia/Me voy a tierras estrañas». Troyo dirigia a orquestra que acompanhava Gardel no princípio da sua carreira. Um músico abraçava um violão maior do que ele próprio e um acordeonista velhinho fazia tremer as garrafas da mesa. Um par saltou para a pista e em breve as pernas se colaram, os corpos requebraram, a mão do cavalheiro desceu pelo corpo da dama. Ou não fosse, como dizia Jorge Luis Borges, «o tango uma espécie de simulacro do coito». Foi Paul Morand que escreveu que o tango foi um dos grandes cantos do século passado – e continuará a

ser, certamente, deste século. Como Morand o descrevia: «O tango é terno, sensual; uma mestiçagem de italiano; o tango fala andaluz com pronúncia napolitana e acordeão alemão.» E também acrescentou (Morand) que se tratava de «uma cópula ritmada». Quais as origens do tango? Há quem diga que também há nele sangue português, porventura uma gota de fado cantado por esses muitos emigrantes lusos que embarcaram no convés dos navios, no século XIX, demandando a foz do rio de la Plata. Quem sabe verdadeiramente? Caño 16, Casa Rosada, Viejo Almacén, Camiñito – nesses dias passámos, mesmo que fugazmente, por esses lugares de culto, acabando o périplo na formal e requintada Casa Gardel, onde os troféus do cantor estavam profusamente expostos. Sobre a realidade política, social e cultural da Argentina muito haveria a dizer. Não é esta, contudo, a intenção deste artigo, que pretende ser uma revistação de mitos e lugares de culto. Não foi, certamente, por acaso que, em tanta coisa bonita e interessante que há em Buenos Aires, foi esse imaginário que mais me atraiu. É que a Argentina, e em concreto o Rio de la Plata, sempre foi um ancoradouro de sonhos, tantas vezes de delírios. A Argentina nasceu, ela própria, da ambição de levar a Europa, o estilo europeu, os seus hábitos e sua cultura para o Sul da América Latina. E não é por o sonho, como todos os sonhos, atravessar momentos de pesadelo que um dia não haverá um belo despertar. Afinal, em Buenos Aires o sono é sempre breve. E a única vida longa é a dos ícones imortais.

CÁTEDRA DE HISTÓRIA DA IBERO-AMÉRICA

Iniciativa aprovada na IX Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo (Havana, 1999) e incorporada na programação da OEI. FINALIDADE Contribuir para o desenvolvimento e consolidação da Comunidade Ibero-Americana de nações, através do fortalecimento e da afirmação da sua identidade regional, promovendo um maior e mais profundo conhecimento crítico dos processos históricos subjacentes às suas matrizes culturais. A Rede Portuguesa de Universidades signatárias adoptou a designação de CÁTEDRA DE ESTUDOS IBERO-AMERICANOS, sediada, rotativamente, na Universidade do Algarve e na Universidade de Lisboa.

TRIÉNIO 2004-2007 PROGRAMA DE ACÇÃO Formação Inicial História e Cultura da Ibero-América. Literatura Ibero-Americana Formação Contínua de Docentes Encontros Científicos Edições Biblioteca Especializada PARCERIAS Instituto de Cultura Ibero-Atlântica Câmara Municipal de Portimão Portal Universia, S.A.


MALA DIPLOMÁTICA

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A CORRENTE MIGRATÓRIA DA IBERO-AMÉRICA PARA A EUROPA PODE SER ENTENDIDA COMO UMA ESPÉCIE DE REGRESSO ÀS ORIGENS Entrevista com

Jorge Faurie

embaixador da República da Argentina

Beatriz Padilla Durante muito tempo, a Argentina foi vista como uma transposição europeia na América do Sul. Um país com um elevado nível de bem-estar. Depois, nas últimas décadas, fruto de desastrosas políticas económicas, o empobrecimento atingiu limites nunca antes vistos, até ao quase-colapso de há três anos. Parece, contudo, que o pior já passou, e o país procura agora novos horizontes capazes de devolver a esperança aos argentinos. Jorge Faurie, embaixador da Argentina, fala-nos desses novos horizontes que passam também pela renovação de relações privilegiadas com Portugal, no quadro do espaço ibero-americano em que ambos os países se integram.


Como caracteriza as relações actuais entre a Argentina e Portugal? É uma relação que assenta numa história comum, cujas raízes remontam ao período colonial em que Portugal marcou presença, nomeadamente no Rio da Prata. Depois, já no século XX, haveria um período de forte presença de portugueses na Argentina, através de uma corrente imigratória para países da América Latina. Grande parte desses portugueses regressaria a Portugal após a instauração da democracia em Abril de 1974 e consequente abertura económica que abriu novos caminhos de esperança e desenvolvimento económico. Em silmultâneo, a integração de Portugal na União Europeia abrandaria gradualmente o seu interesse pela América Latina, levando a alguma estagnação no relacionamento entre os dois países. Ainda assim, após a crise económica de 2002, a Argentina tem procurado contrariar este afastamento, assistindo-se, agora, a uma lenta mas efectiva reaproximação económica e cultural. Pode precisar os contornos dessa reaproximação? Em termos comerciais, as exportações argentinas para o mercado português ultrapassam os 150 milhões de dólares por ano. Reciprocamente, creio que há muito espaço para o crescimento do comércio português no mercado argentino. E já hoje os investimentos directos de Portugal na Argentina ultrapassm os 500 milhões de dólares, em diversas áreas de produção, sobretudo na vitivinicultura, na indústria corticeira, no fabrico de equipamentos eléctricos e ainda na marmoraria, azulejaria e porcelana. Uma área adicional, que creio que oferece muitas possibilidades para uma boa complementaridade, é o sector científico e tecnológico. Creio poder afirmar que a Argentina possui um nível de desenvolvimento tecnológico bastante interessante. A cooperação científica entre ambos os países constitui, por isso, um desafio em que que o governo argentino aposta, tendo para isso estabelecido contactos com o Ministério da Ciência e do Ensino Superior. O relacionamento económico é acompanhado por um diálogo político muito positivo, porque Portugal e a Argentina, para além de integrarem o mesmo espaço histórico-cultural ibero-americano, partilham visões do mundo que são muito semelhantes, sendo por isso fácil a aproximação entre ambos os países nos mais diversos foros internacionais. E em termos culturais? Creio que os portugueses têm uma espécie de visão mítica da Argentina, como uma terra rica que ofereceu níveis de bem-estar a uma corrente migratória e que, ao mesmo tempo, produziu um mundo de ideias e de pensamento que lhes parece atraente. Muitos portugueses conhecem Jorge Luis Borges, como demonstra o interesse pela edição em Portugal das suas Obras Completas. Mas também Julio Cortázar e Bioy Casares. Diria que se revêem na interacção de alguns escritores portugueses que foram coetâneos do período destes escritores argentinos. Aliás, a entidade tutelar, o prócer sobre a qual se celebra a identidade de Portugal, é um escritor, e aqui se rende uma homenagem extensiva aos escritores. E, entre os arquétipos, Borges é o homem da essência argentina, como Pessoa é o homem da essência portuguesa no século XX. Como caracteriza a comunidade argentina que hoje reside em Portugal? A comunidade não é numericamente muito representativa, quando comparada com a de outros países. Diria que, no total, entre os residentes que estão inscritos e os que não estão, não supera as 1000 pessoas. Desse conjunto, aproximadamente uns 40% são cidadãos nascidos em território argentino que, pela disposição da lei argentina, serão sempre argentinos, que nasceram de pais portugueses naquela etapa emigratória a que fiz referência, na primeira metade do


MALA DIPLOMÁTICA

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século XX, e que beneficiaram da circunstância positiva de terem crescido numa Argentina próspera, com altos padrões de justiça social e distributiva, o que lhes permite guardar uma auto-estima muito positiva relativamente à Argentina. Embora pela lei portuguesa, como filhos de portugueses, tenham adquirido a cidadania portuguesa, mantêm fortes vínculos com a Argentina. Há, também, um conjunto de argentinos que foram emigrando nas diferentes etapas, algumas difíceis, da vida política, social e económica do país, procurando níveis de excelência na sua formação ou novos horizontes profissionais e que, hoje, se encontram relativamente bem inseridos no país de acolhimento porque, por um lado, os portugueses têm uma atitude positiva face ao estrangeiro e, por outro, os argentinos integram-se bem, graças às afinidades culturais e à relativa facilidade idiomática, para além de apresentarem excelentes níveis de qualificação profissional que beneficiam a sociedade portuguesa. Uma dessas etapas, difíceis, da vida da Argentina foi a crise económica e social que se abateu sobre o país nos finais de 2001 e que levou, conforme escreveu o jornalista e escritor Tomás Eloy Martínez, a um «êxodo real e catastrófico» de quadros técnicos. Talvez a expressão «êxodo catrastófico» seja exagerada. Mas é um facto que, no momento mais agudo da crise, muita gente qualificada – cientistas, professores, famílias inteiras – deixou o país em busca de melhores horizontes, o que constituiu um preocupante movimento migratório, agora por razões económicas. Mas também é verdade que o pior já passou e muitos dos que partiram regressaram, entretanto, ao país. Como vê o futuro das relações entre a Europa e a Ibero-América? Situo-as num esforço extremadamente importante dos países da América Latina para manter a atracção, através do Atlântico, dos países europeus e, muito particularmente, dos dois países ibéricos, o que deverá passar pelo desenvolvimento de formas de aproximação no quadro da cooperação entre a União Europeia e o Mercosul. E isso dependerá tanto da nossa capacidade em encontrar, conjuntamente com a Europa, soluções para os nossos problemas de desenvolvimento, como da predisposição da própria União Europeia em abrir-se mais aos países da América Latina, quer em termos económicos, quer em termos sociais, colocando menos obstáculos, por exemplo, à circulação de latino-americanos no espaço europeu. Acha que essa abertura pode ser histórica e eticamente justificada, conforme a inscrição «Estamos aqui porque vocês estiveram lá» que podia ler-se num cartaz ostentado por um imigrante ibero-americano durante uma recente manifestação numa capital europeia? Há uma justificação histórica e ética para uma maior abertura da Europa à imigração de cidadãos oriundos da América Latina. A corrente migratória actual pode ser entendida como uma espécie de regresso às origens, pois, afinal, somos descendentes de sucessivas correntes migratórias de cidadãos europeus, sobretudo de Espanha, da Alemanha ou de Itália. Não foi por acaso que a Argentina foi vista, durante muitos anos, como uma transposição europeia na América do Sul. Por isso, mais do que um protesto, esse cartaz expressaria, julgo, uma reivindicação e a exigência do reconhecimento dos vínculos entre os dois lados do Atlântico.


MEMÓRIA DE FOGO

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A saga andina do deus Con Osvaldo Henrique Urbano


A saga andina do Deus Con; tapeçaria prÊ-colombina [Costa do Peru]


MEMÓRIA DE FOGO

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Entre as tradições pré-colombinas da América do Sul, recolhidas pela cronística espanhola do século XVI, existe um relato que nos chama muito a atenção, não só pela forma, mas também pelo conteúdo. Recompilou-o López de Gómara [1552]. Reza assim: “Dizem que no princípio do mundo veio pela parte setentrional um homem cujo nome era Con. Não tinha ossos. Caminhava muito e ligeiro e, para que o caminho fosse mais curto, baixava as serras e levantava os vales com a força da vontade e da palavra, como filho do Sol que dizia ser. Encheu a terra com homens e mulheres, deu-lhes muita fruta e pão e todas as coisas necessárias para viver. Mas um dia zangou-se com alguma ofensa que eles lhe fizeram. Então converteu a terra boa que lhes tinha dado em areais secos e estéreis, como se vêem hoje na costa, tirou-lhes a chuva e nunca mais ali choveu. Só lhes deixou, por piedade, os rios para que pudessem manter-se com o regadio e trabalho. Apareceu então Pachacama, também filho do Sol e da Lua, que significa Criador, e desterrou Con, transformando os seus homens em gatos com riscas pretas. E depois criou novamente os homens e mulheres como hoje são, dando-lhes as coisas que têm agora. Para agradecer-lhe essas mercês, proclamaram-no seu Deus e assim o guardaram e honraram em Pachacama, até que os cristãos o desterraram do lugar.” O templo de Pachacama ficava perto de Lima, era famosíssimo pelos seus oráculos, visitado por todos com muita devoção. Aparecia aí o diabo e falava com os sacerdotes que lá moravam. Os espanhóis que o visitaram com Fernando Pizarro, após a prisão de Atabalipa, despojaram o templo do muito ouro e prata que possuía, e com a cruz e o sacramento também cessaram os oráculos e as visões. Afirmam também que durante muito tempo choveu tanto que inundou todas as terras baixas, e todos os homens, aqueles que puderam, refugiaram-se numas covas feitas em serras muito altas, com portas pequeninas para que a água não entrasse. Meteram lá os víveres e os animais que cabiam. Quando sentiram que já não chovia, soltaram dois cães. E, como eles voltassem

limpos, mas molhados, viram que as chuvas não tinham cessado. Depois soltaram mais cães que voltaram com lama, mas enxutos, sinal de que as chuvas tinham acabado. Então saíram a ocupar as terras. E o que mais trabalho deu foi o grande número de cobras grandes que ainda existiam. Tinham-se criado na humidade e no lodo das cheias. Mas, finalmente, mataram-nas e agora vivem em segurança. Acreditam também no fim do mundo que será precedido por uma grande seca. Nela se perderão o Sol e a Lua que adoram; por isso dão grandes berros e choram quando há eclipses, sobretudo do Sol, porque pensam que vão desaparecer, não só eles mas também o mundo inteiro. Do deus Con, pouco ou nada sabemos. Mas os vocabulários antigos dizem que essa palavra, usada nas línguas dos territórios nortenhos andinos, concretamente em Huamachuco, significava «água». É um bom ponto de partida porque o mito dá uma definição que exprime metaforicamente as formas de um rio ou de um curso de água que se vai adaptando às condições geográficas por onde passa: «Con não tem ossos», isto é, não tem uma estrutura fixa. Ao contrário, serpenteia, transforma-se em lago, lança-se por uma ribanceira, atira-se em catarata e corre ligeiro porque amansa os cumes das montanhas e torna mais acessíveis os vales. O castigo que Con deu aos que ele tinha criado também está relacionado com a água. Privou as gentes dela e secou-lhes a terra. Há uma outra referência à água. É o dilúvio. Não diz o relato que tal acontecera em tempos do deus Con. Mas também se pode supor que se trata de uma das muitas expressões das chuvas abundantes que, de tempos a tempos, aparecem na costa peruana, fenómeno conhecido mundialmente como «Niño» ou Menino, em referência à época em que ocorre, ou seja, pelo Natal, tempo do Menino Jesus. Dizem os especialistas que a subida das águas frias do hemisfério sul fica aquém dos limites que em tempos normais atinge. Daí resultam as temperaturas muito altas na costa norte do Peru e as consequentes chuvas diluvianas, com outras expressões meteorológicas continentais.


CON E PACHACAMA O relato mítico introduz o deus Pachacama e associa-o ao santuário que existiu no sul da cidade de Lima, em tempos pré-colombinos. E, entre as coisas notáveis que fez, transformou os homens de Con em gatos pretos. O gesto de Pachacama não tem uma explicação fácil. A geografia e a fauna não deslindam o mistério. Entre algumas razões míticas que o explicariam, podíamos recorrer à força do Sol que transformou a primeira geração de seres humanos em pedras calcinadas pelo fogo. Cabe também recordar a presença da cor preta dos animais que acompanhavam os defuntos nas suas peregrinações por rios de águas escuras, antes de chegarem à última morada. Mas não eram gatos, eram cães. CON E CONTITI Não passa desapercebido, a quem tenha um pouco de informação sobre os antigos relatos míticos dos Andes, o herói ou demiurgo Contiti que veio das alturas do lago Titicaca e organizou as regiões lacustres,

avançando até à cidade de Cuzco e, finalmente, chegando à costa norte dos Andes, para desaparecer nas águas do Oceano Pacífico. A relação com a água é evidente, porque o lago foi o seu berço, e as águas do mar a sua última morada. Como aparece na região austral a palavra «con» oriunda dos territórios nortenhos, talvez desses povos que se chamavam Conchucos, «Terras de água»? Não o sabemos. O certo é que Contiti partilha com o herói mítico Con as honras do demiurgo que põe ordem nas coisas e que se irrita também quando os seus criados desobedecem às suas ordens. Contiti transforma as suas gentes em pedra; Con, no Norte, seca a terra e torna-a estéril, forma comparável à esterilidade das rochas. E o cronista Betanzos [1551], a quem devemos a referência a Contiti, anota a escuridão que então reinava nesse primeiro momento do mundo. Talvez por isso Pachacama transformasse os seres criados por Con, nas terras nortenhas, em animais pretos. Eram tempos que ainda não tinham Sol e Lua. Promessas doutros seres.


BESTIĂ RIO

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Peixe-boi ou peixe-mulher? Maria Adelina Amorim


Existi há muito nas águas pouco profundas dos dra tamanha como um ovo de pata, feita em três mares, bordejando as costas das Índias e os manpeças, a qual é muito alva e dura como marfim e gues do Brasil. tem grandes virtudes contra a dor de pedra.» Nada sabia de geografia, muito menos que a Hoje chamariam àquilo «otólitos» se eu fosse minha casa era um Oceano, pois sempre pensei que peixe. Como não sou, ainda continuam a pensar... fosse um aquário. Comeram toda a minha carne. Cozeram-na Um dia percebi que a vida tinha mudado. Checom couves, fritaram-na em estrugido, desfizeram garam monstros estranhos em grandes cascas de a minha gordura em banha e manteiga. Cada um noz enfeitadas de lenços triangulares e redondos deles inventava uma receita nova e dela se gabava que o vento enfunava como se fosse a minha barrinos seus livros científicos: «Este peixe he muito ga grávida. Ouvi dizer que eram velas, e os bichos, gostoso em grande maneira, e totalmente parece homens. carne, assi na semelhança, como no sabor, e assado Curiosos, observaram-me como se eu fosse um na tem nenhuma differença de lombo de porco. boi. Diziam entre si que mais parecia uma vaca. Também se coze com couves e guisa-se como carPerplexos, apreciavam como conseguia nadar mais ne...» Agora também sou porco! rapidamente que os seus barcos aparelhados. ChaFinalmente, percebiam que eu também existia maram-me peixe. Não contentes com isso, deramem Angola (sou peixe-mulher) e na Guiné, e nova-me um nome: «Guaraguá»: «Goaràgoá é o peixe a mente me chamaram peixe-booze: «há nos rios que os Portugueses chamam boi, que anda na água muito peixe, corcodilos, cavalos-marinhos, baozes, salgada e nos rios junto da água doce, de que eles que são os que no Brasil chamam peixe-boi». bebem [...]; o qual peixe tem o Há uma coisa em que todos se corpo tamanho como um novilho Inventaram mil histórias puseram de acordo. Sou muito mãe e de dois anos, e tem dois cotos alimento os meus filhos com o meu a meu respeito, com braços, e neles uma mão leite até eles poderem ir apanhar as confundindo-me sem dedos: não tem escama, mas ervas e as folhas dos rios doces (que pele parda e grossa.» eu não como animais, sou muito com sereias. Afinal, Inventaram mil estórias a evoluída). Já viram que optei pela vadiziam que tinha rabo meu respeito, confundindo-me ca já que só assim teria as tetas, e com sereias. Afinal, diziam que tinem me atrevo a dizer o que dissede peixe e corpo nha rabo de peixe e corpo de muram dos machos (coisas como «verlher. Mesmo assim, classificaramgalho de boi» e outras barbaridade mulher -me na ordem dos sirénios, classe des)... dos mamíferos. Eu tinha mamas com que alimentaTal como as mulheres, só tenho um filho em va de leite as minhas crias: «Guaragua é a vaca do cada parto e fiquei muito feliz quando escreveram mar, é da compridão de dez ou doze palmos, é que «as fêmeas parem só uma criança». Criança é grosso como uma vaca, é pardo cor de cinza, tem de mulher, não é assim? as tripas e a fressura como uma vaca e cria seus fiE tão forte e profundo é o meu lado maternal lhos de leite e tem as mamas debaixo dos braços.» que Frei Cristóvão de Lisboa, na sua História dos AniCom elas confundi os mais espertos, desde o mais e Árvores do Maranhão, assim o descreve: «Vi matar Aldrovandri (1612), que me desenhou como se eu uma fêmea e esfolarem-na e botarem a pele em terfosse um Manati Indorum, a Rondelet, que no seu ra à borda de água; e quando foi ao outro dia, indo Libri di Piscibus registou as duas grandes tetas com que alibuscar água, acharam o filho deitado em riba da mentava os meus filhos. pele...» Afinal, em que ficamos? Comovente? Tentaram de tudo. Pescaram-me (ou caçaramHoje estou praticamente extinto de todos os -me) com grandes arpões como se eu fosse uma mares. Apenas restarei nas lendas camonianas das baleia. Investigaram o meu corpo para descobrir sereias e nos livros de História Natural. como seria por dentro (mulher? peixe? vaca?). InLembrem-me como vaca do mar, peixe-muventaram que eu tinha duas pedras como se fossem lher ou peixe-boi, mas não me esqueçam. botões para tratarem neles a «dor da pedra, coisa Espero que um dia não cheguem outros monsexperimentada em França»: «O qoal tem os dentes tros em carcaças voadoras para escreverem sobre como boi, e na cabeça entre os miolos tem uma pevocês uma história parecida com a minha.


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Magdalena, un río del olvido Janet Núñez


Rio Magdalena em Barranquilla, princípio do século XX. Fotos do Archivo Histórico da Biblioteca Piloto de Barranquilla


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Como todos os rios que se sabem fecundos e vigorosos, o Rio Grande de la Magdalena apresentou-se, num meio-dia candente de 1501, aos olhos do conquistador espanhol Rodrigo de Bastidas, também fundador – 24 anos mais tarde – da primeira cidade da Colômbia, Santa Marta. Assim, o Magdalena, que havia sido desde tempos imemoriais uma fonte de comunicação e de sobrevi-

Hoje, o rio agoniza devastado pelo abate dos bosques, pelo abuso permanente dos seus recursos, pelo asssalto de predadores humanos que durante mais de cem anos têm violado normas e exterminado a sua fauna

vência para as tribos colombianas assentadas nas suas ribeiras, converteu-se também no eixo sobre o qual giraram as expedições colonizadoras. Encravada a sua origem no páramo de Las Papas, no departamento do Huila, as cordilheiras Central e Oriental bifurcam-se como as pernas de uma indígena milenária no transe de dar à luz uma corrente de águas cristalinas que os nativos paeces chamaram Yuma. E do Yuma, saltou a vida. Pelo verdor húmido da selva,


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entre uma fauna selvagem de caimões, tigres, papagaios, monos e manatins, abriu passagem a sua força visceral, numa travessia de 1540 quilómetros até ao Norte, e o rio cresceu como nunca, passando por cidades como Mompóx, vitais para o armazenamento e exploração de ouro e prata durante o colonialismo espanhol, até encontrar em «Bocas de Ceniza», muito perto de Barranquilla, a sua desembocadura, destino e abraço com o mar Caribe. A sua recordação nas últimas gerações é feliz e dolorosa. As minhas imagens mais remotas provêm da minha infância, naquelas tranquilas e pegajosas noites barranquenhas. Pela mão – ou pela voz – da minha avó, registávamos histórias que giravam em torno do rio. Ao cair o tépido vapor da tarde, a avó reunia-nos à sombra de uma pereira, no pátio traseiro, a cantar. E, entre canto e canto, a avó tecia o seu passado com fios de nostalgia e dedos de agulha que deixava dançar como plumas no ar, enquanto recuperava dos seus tempos de menina tristezas idas ou amores clandestinos com o avô. Recordava minha avó – recordo – um homem alto e acobreado, todo vestido de linho branco, imaculado lenço engomado na algibeira junto à lapela e chapéu de lã, que partia nos primeiros dias de cada mês com o seu rudimentar instrumental numa maleta negra e alguma roupa noutra maleta. Era o avô, um dentista que havia conhecido aos 14 anos e do qual nunca se separaria em toda a sua vida. Esse homem que devia partir cada quatro semanas num vapor pelo rio para visitar os seus pacientes. Dois dias antes da partida, a casa toda se agitava. A avó engomava três ou quatro camisas, passava a ferro e dobrava com mestria a roupa na maleta. Os nove filhos alvoroçavam a casa e enlouqueciam o pai, meu avô, fazendo-lhe todo o tipo de encomendas, quase todas delícias culinárias populares. A toda a pressa se escreviam cartas que deviam ser entregues a comadres e amigos de outras margens. A minha tia mais velha preparava farnéis

para a travessia. Os vizinhos mais chegados vinham desejar-lhe boa viagem e solicitar uma ou outra encomenda. Na primeiríssima hora do dia seguinte, todos se encaminhavam para o porto. Junto à embarcação, os vendedores ambulantes de comida confundiam-se com os carregadores de mercadorias. No momento de embarcar, homens e mulheres despediam-se com sentidos abraços. A viagem só devia durar três ou quatro horas até chegar ao primeiro destino, mas, enquanto o vapor iniciava a sua marcha sobre as águas, todos, passageiros a bordo e familiares desde a margem, acenavam os lenços em última despedida, enquanto a minha avó secava discretas lágrimas na sua face. Referia-se a Barranquilla do primeiro quarto do século XX. Uma cidade cosmopolita que acolhia 60% de todos os estrangeiros do país e já contava com comodidades como energia eléctrica e algeroz nas suas magníficas mansões republicanas do bairro «O Prado». A cidade que recebia muitas companhias de teatro e ópera no teatro Apolo, mas uma cidade que pouco a pouco virava as costas ao rio, deixando à ribeira as fábricas e seringueiros marginais. Talvez por falta de memória ou excesso de indiferença, ninguém tinha consciência de que a bacia do Magdalena integrava uma rede de rios que configuram uma zona de influência de mais de 250 000 quilómetros que, anos mais tarde, viria a gerar, por exemplo, 85% do PIB do país e 70% da sua produção hidroeléctrica. Por isso, desde o dia em que todos decidiram abandoná-lo, o Río Grande de la Magdalena deixou de ser grande e converteu-se num rio de esquecimento. Hoje, o rio agoniza devastado pelo abate dos bosques, pelo abuso permanente dos seus recursos, pelo assalto de predadores humanos que durante mais de cem anos têm violado normas e exterminado a sua fauna. Todo ele definhou com a afluência de outros rios, em especial o Bogotá, um dos mais contaminados do mundo, pois recolhe os dejectos de


8 milhões de habitantes da capital e verte a sua nefasta imitação de petróleo no generoso e cansado Magdalena. Tudo isto é lamentável, sobretudo para quem o conheceu no seu esplendor. E, à falta de uma mão redentora, uma boa maneira de preservar o perdido e fazê-lo presença permanente é através de expressões populares, que vão desde mitos e lendas como a do homem caimão, a mojana e o mohan, até à patasola e outros endriagos das suas águas, sem excluir a música silvestre que emana das suas ribeiras pela voz das cantoras Petrona Martínez, Totó a momposina, a Niña Emilia, Irene Martínez e José Barros, além de outro longo etcétera. No que toca à literatura, «El Inventario incompleto de las obras de ficción en las que está presente el río Magdalena nos revela que si el país le ha dado la espalda al río, nuestra literatura no» – assinala o investigador e crítico colombiano Ariel Castillo. No seu ensaio El Río y las Letras menciona, entre outras, as obras poéticas de Manuel María Madiedo (também narrativa), Juan de Castellanos, Candelario Obeso, Rafael Núñez, Tallullah Flores, Pablo Neruda ou Nicolás Guillén; assinala o investigador que o rio também serve de pano de fundo às tramas de obras narrativas, como El Desertor de Plinio Apuleyo Mendoza, La Sombra de Marvel Luz Moreno, Río Abajo, de Rafael Vega Jácome ou Los Domingos de Charito de Julio Olaciregui; que o rio assume carácter simbólico em La Casa Grande de Álvaro Cepeda Samudio e é objecto de aproximação mítica em La Otra Raya del Tigre de Pedro Gómez Valderrama. Finalmente, assinala Castillo, que a nota de imprensa El Río de la Vida de García Márquez é a chave para entender a sua obra posterior O Amor nos Tempos da Cólera e O General no seu Labirinto, romances com marcada presença do rio. De produção mais recente, recordo alguns episódios de El Tumbao de Macorina, de Jaime Cabrera González. E tudo o que eles contam é verdade, como verdade é que o seu abandono se torna infinitamente doloroso para quem descobriu noutras latitudes maneiras opostas de enfrentar as cidades fluviais.

XI JORNADAS DE HISTÓRIA IBERO-AMERICANA Portimão, 5, 6 e 7 Maio de 2005

O ASSOCIATIVISMO EM PORTUGAL E NA IBERO-AMÉRICA Confrarias Sociedades literárias e científicas Sociedades secretas Associações operárias Programa cultural Concertos, teatro, exposições, livros

Organização INSTITUTO DE CULTURA IBERO-ATLÂNTICA Informações Casa Museu Manuel Teixeira Gomes Rua Júdice Biker, 1 8500-538 Portimão T 282 470 822 F 282 470 749 iciaptm@mail.telepac.pt www.institutoculturaibero-atlantica.pt Patrocínio Câmara Municipal de Portimão


ALTAS SOLIDÕES

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Machu Picchu Pablo Neruda

Excerto da conferência Algo sobre mi poesía y mi vida, pronunciada por Neruda na Universidade do Chile, em 1954. Foi publicada na revista Aurora, n.º 1, Julho de 1954.

Entonces subimos por senderos ásperos y a lomo de mulo hasta la ciudad perdida y añorada: Machu Picchu, la misteriosa. Aquella altísima ciudad se había avergonzado de su propia época, se había reducido al silencio y se había escondido en su propio bosque. ¿Qué les sucedió a sus constructores? ¿Qué había sido de sus habitantes? ¿Qué nos dejaron, excepto la dignidad de la piedra, para darnos noticias de su vida, de sus propósitos, de su desaparición? Nos respondió un silencio sonoro. Yo ya conocía el silencio de otra ruinas monumentales, mas siempre fue un silencio humillado, de mármoles definitivamente vencidos. Allí, en las alturas del Perú, la imponente arquitectura se había conservado secretamente en el profundo silencio de las cumbres andinas. Todo era cielo en torno de los sagrados vestigios. El bosque verde se interrumpía con las rápidas y pequeñas nubes, que pasaban desflorando y besando aquella espléndida obra de lo eterno que hay en el hombre. En el punto más alto de la ciudad se levantaba el Reloj o Intihuatana, especie de calendar io formado por inmensas piedras, con una meridiana destinada quizá a señalar las horas en aquellas excelsas alturas. Estos relojes astronómicos fueron tenazmente perseguidos por los conquistadores, ansiosos, como siempre, de destruir el núcleo cultural. La ciudad de Machu Picchu los derrotó: se escondió entre peñas abruptas, multiplicó sus mantos de verde, y los intrusos destructores pasaron por su vera sin sospechar jamás su existencia.

Machu Picchu se reveló ante mí como el perdurar de la razón por encima del delirio, y la ausencia de sus habitantes, de sus creadores, el misterio de su origen y de silenciosa tenacidad desencadenaron para mí la lección del orden, que el hombre puede establecer a través de los siglos con su voluntad solidaria: el edificio colectivo capaz de desafiar el desorden de la naturaleza y de la humana desventura. Recordé entonces las construcciones mejicanas de Teotihuacán, los edificios de Monte Albán, de Chichén Itzá, el cuadrilátero de Uxmal, los templos de Palenque, las pirámides religiosas con sus prodigiosas moles, con su simetría radial, que en todo el territorio mejicano se alzaron hacia la sangre y la luz. Comprendí que por encima de las estructuras perdidas en el martirio y en la sombra, por encima de la creación formal de figuras, joyas y objetos subterráneos, más allá de la inmensidad vencida y derrotada de aquella América, que hoy está renaciendo de sus propias tinieblas, los antiguos maestros americanos habían erigido un alma aérea, invulnerable, capaz de desafiar con su ser el dominio y las olas embravecidas de la agresión y del olvido. Estos descubrimientos me revelaron muchos caminos, y entre ellos el recordar mi destino con aquella verdad tan duradera, con aquellas creaciones colectivas, en las que todos los componentes, esperanza y dolor, delicadeza y poderío, se habían unido muchas veces en un organismo central, que dirigía todas las posibilidades de acción y daba origen a un nuevo silencio sonoro, lleno de inteligencia y de música.


Machu Picchu


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NERUDA FOI UM HOMEM COMPROMETIDO COM O SEU TEMPO Entrevista com

Volodia Teitelboim

Regina Rodríguez O escritor chileno Volodia Teitelboim acaba de lançar em Portugal a biografia de Neruda. O livro é um olhar profundo sobre os grandes acontecimentos do século XX que ambos partilharam na dupla posição de poetas e homens comprometidos. Volodia foi secretário-geral do Partido Comunista Chileno, senador, mas sobretudo testemunha lúcida e activa do seu tempo. Fotos Josué Barrios e Archivo de la Fundación Pablo Neruda Documentação María Andrés Salazar. Biblioteca Nacional de Chile Ilustração Gabriela Cánovas, pintora chilena

Com quase 90 anos, mantém a vivacidade do seu pensamento e a esperança de que o direito das pessoas à felicidade seja uma realidade.


VIDAS CONTADAS

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Em sua casa, discreta, situada num belo bairro de Santiago, repleto de árvores e de pássaros, Volodia acaricia a sua gata Miel, enquanto olha a história com uma serenidade de quem viveu muito e conseguiu compreender algumas coisas, sem perder a confiança no ser humano. Falamos da amizade, de poesia, de política e dos sonhos que ainda tem. Vai conversando, incansável, com um tom profundo e doce, sem afectação, pura sabedoria. Sabemos que a sua amizade com Neruda durou mais de quarenta anos. Como começou? A amizade com Neruda iniciou-se com um poeta ausente. Eu era um adolescente que estudava no liceu de Talca, e o professor de castelhano, um dia, levou para a aula um livro de poesia e começou a ler, com grande entusiasmo, poemas de amor que se atreviam a falar muito directamente de sexo, algo que nessa época, nos anos 1924-25, era inaceitável. Eu, ainda criança, descobri que o idioma, a língua serve não só para comunicar com o outro, mas também para que a palavra mágica provoque certo estremecimento. Depois, já maduro, pareceu-me que ela representava a descoberta da beleza. Gabriela Mistral, através das suas rimas infantis, foi a «Mãe» que nos levou a descobrir a poesia. Desde então, eu procurava-a porque necessitava dela, porque algo em mim requeria essa presença enigmática. Então, quando cheguei a Santiago para estudar na universidade, já tinha duas definições que foram duas linhas paralelas na minha vida: a poesia e a política. Em 1932, li no jornal que Neruda ia dar um recital, mas eu era um rapaz tímido, tinha 16 anos e não podia aproximar-me de um homem famoso. Sentei-me na galeria com a esperança de vê-lo e ouvi-lo. Ouvi-o, mas não o vi porque ele fez todo o seu recital atrás de uns enormes biombos chineses que lhe tapavam todo o corpo. A sua poesia era enigmática e desconcertante porque não tinha nada a ver com os vinte poemas, era mais complicada, mais complexa, eram poemas de Residencia en la Tierra. Então, não o conheci. Foi em 1937, quando ele regressou da Ásia, que o fui entrevistar. Recebeu-me muito bem e aí começou a nossa amizade; quando Neruda vivia no Chile, e não estava desempenhando cargos diplomáticos, víamo-nos todos os dias. Começou como amizade jornalística, depois tornou-se política, a seguir poética, no sentido do interesse pela poesia, e, finalmente, pessoal, quotidiana, partilhávamos tudo, ele tomava a iniciativa porque era intruso, era curioso, era intrometido, gostava muito de participar da vida das pessoas e fazê-las mais felizes, se pudesse.


A FIGURA MATERNA A mãe de Neruda morreu de parto. Como influiu este facto na sua poesia? Eu creio que influiu em tudo, influiu na sua vida, influiu na sua poesia, influiu na sua relação com as mulheres. Eu creio que Neruda não procurava a beleza clássica, nem sequer quando era um homem maduro lhe interessavam as jovens, mas sim as mulheres maduras. Ele não se aproximava das mulheres deslumbrantes, famosas pela sua beleza. A sua primeira esposa, Delia del Carril, «A Formiga», tinha mais vinte anos que ele. Eu creio que, de um modo inconsciente, estava procurando a mãe que nunca tinha conhecido, mas cuja falta sentiu durante toda a vida, apesar de ter tido uma mãe substituta que o amou e o tratou muito bem, mas esse vínculo sanguíneo era absolutamente único.

A POESIA: NERUDA QUIS SER A SUA PRÓPRIA VANGUARDA Referindo-se à palavra «saudade», Neruda disse no Crepusculario: «essa doce palavra de perfumes ambíguos». Porquê essa tristeza da sua primeira fase? Porque tudo tinha sido irregular, o seu nascimento significou a morte da sua mãe, porque teve de viver em casa de familiares, avós, amamentado por uma camponesa que estava criando... creio que sentia a falta da mãe. O pai levava-o a um Temuco que acabava de nascer (Temuco era a cidade mais jovem do Chile, fun«Eu creio que Neruda não dada em 1885), um procurava a beleza clássica acampamento militar construído à custa do desnas mulheres» terro da população indígena que ocupava essas terras desde tempos imemoriais, era uma cidade que nascia e também uma vida que nascia difícil, com uma situação familiar que não era próspera. O pai conseguiu trabalho nos caminhos-de-ferro e levava-o consigo nas suas viagens até à selva profunda. E é uma tristeza que se agudiza quando está no Oriente, tem a ver com a sua condição de estrangeiro? Ele parte para o Oriente, creio, para escapar do Chile. Aqui havia conhecido uma glória precoce, mas estava a afundar-se na companhia dos seus amigos de geração, os poetas malditos da boémia. Eram jovens de 20 anos como ele, assediados pela tuberculose, que era o grande fantasma da juventude. Eram tempos em que se morria facilmente, sobretudo os que não comiam e se embebedavam todos os dias, e ele sabia que tinha de viver, como um impulso de sobrevivência natural, mas também porque ele se sabia poeta, sabia que ainda não havia dito tudo o que tinha para dizer e queria escapar para uma terra onde pudesse fugir a este tipo de vida, concentrar-se em si mesmo. Desejava mudar a sua poesia, eram os tempos da vanguarda, chegavam todas estas mensagens indirectas de Paris, conhecia a


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poesia francesa, Baudelaire, Mallarmé, começava a falar-se de uma poesia distinta, de Apollinaire e outros. Ele queria mudar, mas não queria mudar em Paris, queria ser a sua própria vanguarda e fê-lo reconcentrando-se em si mesmo, na inóspita vida asiática onde estava sozinho e podia conversar consigo mesmo. Daí nasceu essa poesia que é um corte radical com a sua poesia anterior que é a primeira Residencia, um livro fundamental na poesia latino-americana. Queria sobreviver como poeta, di-lo num verso: «el lugar que yo quiero guardar para mí eternamente». Era um homem consciente do seu valor e da sua responsabilidade perante si próprio e o mundo. Diz Gonzalo Rojas que Gabriela Mistral é a poetisa fundamental. É pouco conhecida na Europa, embora tenha recebido o primeiro prémio Nobel para um poeta da América Latina, em 1945. Qual foi a relação de Neruda com Gabriela Mistral? Eu, que admiro muito Gonzalo Rojas, creio que é o melhor poeta chileno vivo, sublinho na sua declaração a palavra fundamental. Gabriela é uma poetisa dos fundamentos, ou seja, da vida, da infância, da morte também; aí estão os seus Sonetos de la Muerte, e Neruda creio que a sentiu assim. Escrevia versos desde miúdo e não tinha um juízo alheio que lhe dissesse se estavam bem ou mal, até que chegou a Temuco, procedente de Punta Arenas, esta mulher que era directora do liceu e da qual Neruda conhecia Los Sonetos de la Muerte. Porque Gabriela Mistral não tinha publicado nenhum livro, mas era muito conhecida pelos livros de leitura dos liceus que haviam reproduzido os seus poemas. Neruda, menino, tinha estudado por esses textos e sabia-os de cor, então quis atrever-se e levou uns quantos versos seus para que ela lhe desse uma opinião. Gabriela, muito severa e muito verdadeira, disse ao miúdo que tem 14 ou 15 anos: «há em si um poeta», mas tem de trabalhar muito, leia muito, não só poesia, mas também romance, e não literatura francesa, «leia os russos, Tolstoi e Dostoievski». Neruda seguiu o seu conselho e, entre esses grandes escritores, também leu Eça de Queirós. Neruda sempre manteve uma excelente relação com Gabriela Mistral, coisa que tem importância porque alguns trataram de inimizá-los na base de que um era melhor que o outro, mas eles nunca aceitaram participar nessa discórdia fabricada. Qual é a teoria de Neruda sobre os elefantes e os poetas? Na época da polémica dos poetas no Chile, em 1935, Neruda disse: «Lamento esta polémica entre os escritores, deveriam aprender com os elefantes, são tão grandes e convivem pacificamente na selva; sejamos como os elefantes.» O senhor disse que, em Espanha, Neruda recupera a confiança em si mesmo. Porquê? Porque no Chile era flagelado pelo seu grémio, por aqueles que, tendo dez anos mais que ele e aspirando a conquistar o galardão mundial da poesia, e vêem que um provinciano, fraco, azeitonado, verdoso, morto de fome, que havia feito parte desse


bando de indigentes e famintos começa a subir na vida literária e os vai eclipsando a todos. Há uma grande campanha contra ele, particularmente por parte de Vicente Huidobro. Os espanhóis são mais generosos com ele? Ao invés, chega a Espanha, é recebido de braços abertos por García Lorca e por toda a nova geração, a chamada geração de 27. Lorca apresenta-o na universidade, convidando a que se descubra este poeta: «Muitos dos poetas que chegam da América têm uma certa marca parisiense; ao contrário, este poeta há que lê-lo com atenção porque é a voz de um continente, é um grande poeta.» Convidam-no para director da revista Caballo Verde, ele aceita e, aí, comete o grande agravo contra o «papa» espanhol da poesia pura – Juan Ramón Jiménez – porque escreve um texto, «Por una poesía sin pureza». E isto é uma revolução na poesia porque proclama o direito de as coisas simples, supostamente Prosaicas, entrarem na casa da poesia, sempre que tenham a condição de rei Midas, de transformarem em ouro tudo o que tocam. Porque, se há um verdadeiro poeta que pode falar da coisa mais mesquinha e a converte numa poesia significativa, grande, que estremeça o coração humano, isso transforma-se em poesia, abre as portas. É uma espécie de proposição democratizadora da poesia, uma anunciação da sua própria poesia e, inclusive, daqueles que se sentem antipoetas porque a antipoesia também tem de ser poesia. Tudo isso começa, mas logo se enche de sangue porque vem a guerra e então ele próprio vai pôr em prática a sua teoria, isso lho impõe a história, o que está vendo com os seus olhos, sofrendo directamente.


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O que lhe evoca o nome de García Lorca em relação com Neruda? Eram duas personalidades muito distintas: García Lorca era a graça espanhola, talvez com alguma raiz cigana, que fazia da vida uma fantasia, que tinha de lhe agregar sempre algo que saísse dos eixos, no sentido de acrescentar beleza, porque ele sentava-se ao piano, cantava, era amigo de toureiros... toda esta coisa andaluza, forte; Neruda era a anti-Andaluzia, embora ele não o quisesse, porque vinha de uma zona chuvosa, solitária, desconstruída, com um péssimo desenvolvimento verbal, porque as pessoas dali quase não falam. E, de repente, conhece García Lorca em Buenos Aires, com quem havia partilhado a história de recitar em grupo, e isto naturalmente repete-se em Espanha e todos os jovens espanhóis consideram que ele é um marco novo na poesia de língua espanhola não só da poesia latino-americana, mas também para eles. Ali conheceu o direito à alegria. Neruda disse que García Lorca irradiava felicidade, criava situações de prazer para os outros, o gosto pelas conversas e por uma certa desordem de uma geração grandiosa, não só na poesia, mas também na pintura, é a geração de Picasso e de Dalí. A POLÍTICA: A GUERRA TRANSFORMA O OLHAR DO POETA Depois da Guerra Civil Espanhola e com a derrota da República, Neruda pede para ser enviado como cônsul especial para a emigração espanhola. Porquê? A Guerra Civil atira-o para a política. Em criança, no Chile, tinha grande inclinação para o povo, mas eram inclinações anárquicas. Quando chegou a Espanha, disse: «Eu não sou comunista nem socialista, sou antifascista ou esquerdista, essa é a minha definição.» Nesse momento, simultaneamente com a revista que Neruda dirige, que é claramente literária, há outra revista dos republicanos dirigida pelo seu grande amigo Rafael Alberti que se chama El Mono Azul. Rafael Alberti diz-lhe: «Porquê isto de Caballo Verde? Não há cavalos verdes. Tens de assumir uma atitude mais definida». «Sou poeta», responde-lhe Neruda. Mas a guerra lança-o na política, a guerra transforma-o e diz: «Eu, da Guerra de Espanha, saí com outros olhos e olhei o mundo de maneira diferente.» Neruda ocupou-se pessoalmente do envio para o Chile do barco Winnipeg repleto de refugiados espanhóis republicanos. O senhor fala também de um barco português que realizou um feito similar e saiu para a América Latina a partir de Casablanca... Algum português do meu tempo deve recordá-lo, o barco chamava-se Serpa Pinto. Foi um gesto muito nobre porque essas pessoas estavam na iminência de morrer. Era uma época em que a América era um continente de acolhimento para os europeus. Acha que a Europa esqueceu isto ou tem boa memória? Eu creio que o século XXI ou, de modo mais empolado, o terceiro milénio será uma época em que as relações entre os povos


Volodia e Neruda na época da construção da casa La Chascona, Santiago, 1953

vão sofrer uma mudança colossal. Para mim, o mais importante desta mudança é a ideia da mestiçagem a que se está a assistir na Europa. A gente do Magrebe vai para Espanha, Portugal e França, e chega também a gente do Leste. Isto ocorre também na América, porque a América Latina está a entrar nos EUA com um vigor enorme, o que faz García Márquez dizer que, no ano «Era um homem consciente 2050, os EUA serão uma fusão, um encontro ou um de- do seu valor e da sua sencontro entre o latino e o responsabilidade perante saxão. Então, vamos fazer a o mundo» fusão que, por outro lado, é a história e a riqueza da humanidade; essa diversidade, essa mescla, essa mestiçagem é algo que me dá a maior confiança. Há elementos religiosos fundamentalistas que agora se manifestam com mais força do que no passado, mas esses fundamentalismos partem do princípio de que uma pessoa é superior a outra e que a sua convivência é impossível. Há que esperar que se aceite o contrário, porque um é a morte e o outro é a vida e o tesouro maior. A propósito deste tema, o senhor diz que é fundamental porque se encontra com a identidade latino-americana. Sim, claro, Neruda, curiosamente, estava sempre rodeado pelo povo mapuche porque o seu pai o levava aos três ou quatro anos à zona da Frontera, que se chama assim porque até ali chegava o «Chile branco», para lá vivem os mapuches e não se pode passar sem a sua autorização. Neruda chegou lá, conheceu-os, viu a sua situação deteriorada, a inferioridade imposta de fora pelo preconceito, a negação dos seus direitos, mas não fez disso tema principal. Sendo já famoso, explica por que se pronuncia a favor


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da justiça e da causa dos aborígenes: «Pela cultura, formei uma consciência com base nos antecedentes, nas leituras e vejo que corresponde à realidade que eu também vivi.» Neruda tinha a obsessão de criar a Universidade da Araucânia onde se ensinasse o idioma mapuche, o mapudungum, para que o Chile tivesse consciência de que não é um país de uma só vertente, mas um país pluricultural. O poema «Alturas de Machu Picchu» desvenda a transcendência desse lugar? Machu Picchu é a imagem sintética, condensada de toda a América, particularmente da América Latina, desse mundo pré-colombino, com toda a majestade e significação que tem. Machu Picchu existia antes de Neruda, mas esta descoberta que ele faz converte a sua poesia numa grande poesia que vai desvendar aos olhos de quem a lê e também dos governos que ali há algo que é muito mais do que parece, o passado da América. Quem vai a Machu Picchu também pode recuperar a América antes da chegada dos conquistadores: havia uma civilização própria, havia uma cultura, havia uma mitologia, uma filosofia, uma história, una medição do tempo. Mas, no poema, Neruda não faz – há que sublinhar isto – o elogio do Inca nem dos sábios. A ele, interessam-lhe o «João corta-pedras» e o «João pé-descalço», ou seja, os inonimados, os anónimos que construíram essa cidadela e que nunca foram nomeados, os sem-nome da história. Ele fala não só para quem não o pode ouvir, mas também para os aborígenes que estão ali, que estão no Peru, que estão em toda a parte e diz-lhes: «Sube a nacer conmigo hermano, hablad con mis palabras y mi sangre.» Converte-o num manifesto revolucionário dirigido aos povoadores da América. Neruda foi perseguido pelo governo de González Videla em 1946. Saiu do Chile ajudado por muitas pessoas. Lembra-se como foi? Era uma operação clandestina que devia fazer-se com reserva e ninguém podia saber que eu estava envolvido nessa missão. Estávamos em 1946, terminara no ano anterior a Segunda Guerra Mundial, e González Videla persegue os comunistas e quem o elegeu. É a guerra fria, e o presidente do Chile tinha de estar de acordo com os EUA a qualquer preço, inclusive o preço de queimar todas as suas bandeiras e perseguir aqueles que o tinham apoiado, entre eles Neruda. Neruda denunciou a traição, acusouo no Senado e enviou o texto do discurso ao proprietário do El Nacional, na Venezuela, «Carta para millones». Isso desencadeou uma furiosa perseguição. Neruda entrou na clandestinidade. Eu convivi com Neruda durante esse tempo e dei-me conta do seu sentido de responsabilidade. Foi ali, na clausura, que escreveu a maior parte do seu Canto Geral onde faz uma verdadeira «biografia da América», desde que surgiu em tempos imemoriais e estava sozinho porque não havia ninguém. O homem vem pelo lado asiático, através do estreito de Bering, do Norte, numa espécie de caminhada que dura 10 mil anos e que lhe permite povoar desde o Alasca até à Terra do Fogo. Neruda converte-se numa espécie de


Volodia e Neruda no México, 1949

secretário da história, defende a sua condição de cronista e diz que não se vai calar em relação aos tempos contemporâneos, inclusive faz pagar o preço da infâmia a González Videla e a outros que o acompanharam, nomeando-os no livro e contando as suas malfeitorias, algo que foi criticado por alguns porque dizem que desfeiam a sua poesia, mas é uma poesia combatente, uma poesia «punitiva» para castigar o malvado. Há uma profunda imbricação entre a sua vida e a de Neruda com os grandes acontecimentos do século. Que influência pode ter tido o golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 na morte de Neruda? Para muitos, foi uma surpresa que tivesse morrido poucos dias depois do golpe. Teve uma influência muito directa. Após a eleição, Allende nomeia Neruda embaixador em França. De lá chegam notícias alarmantes sobre a sua saúde. Então, pedem-me que vá ver o que se passa e qual é a sua enfermidade. Matilde, sua mulher, disse-me: «Pablo tem um cancro.» Os médicos dizem que é um cancro de evolução retardada e que pode viver muito tempo, a não ser que ocorra algum transtorno fisiológico ou se dê um golpe demolidor de fora que afecte a sua saúde. Em Setembro de 1973, está doente na Isla Negra, mas espera ter tempo de receber, no seu 70.º aniversário, os sete livros que tinha escrito no seu leito. Morre poucos dias depois do golpe de Estado... foi demasiado para ele. PORTUGAL: FORMOSÍSSIMO, GRATO E GENEROSO Qual é a sua relação pessoal com Portugal? Se tivesse de sair do Chile novamente, coisa que não desejo, escolheria Portugal. Quando era jovem, lia Eça de Queirós, que era um grande escritor português muito conhecido nos colégios dessa época. Tem vários livros como O Crime do Padre


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Amaro a partir do qual foi feito um filme, recentemente, mas também outros. Talvez tivesse sido silenciado por ser um autor anticlerical. Tem um livro que causou sensação porque era um livro radical, intitula-se A Relíquia e é uma crítica aos beatos que vão à Terra Santa para encontrar um pedacito da cruz de Cristo. Há outro que se chama A Cidade e as Serras que é uma espécie de premonição do ecológico. Eça era um grande narrador que envolvia o leitor. Que importância confere à publicação do seu livro em língua portuguesa? Portugal mostrou-se generoso, tudo foi surpreendente porque não foi um livro trabalhado por um agente literário, trabalhei com alguns portugueses que em dado momento leram esse livro em espanhol e pensaram que era necessário traduzi-lo para português. Trata-se também de um livro orientado para Portugal, país formosíssimo, grato, generoso, modesto na sua grandeza, náutico, admirável. O idioma português, marinheiro, navegador, é, além do mais, falado em metade da América do Sul e, para mim, a relação entre estes dois idiomas de mãe comum é íntima. Desde a minha infância que gosto dos fados que se cantam em Portugal, formosíssimos, profundos, aí está também a saudade. Por isso fiquei feliz com esta edição. Gabriela Mistral escreveu nas suas Crónicas sobre a Europa, a seguir ao título El escenario maravilloso de la nación portuguesa uma epígrafe que diz: «Quem tiver estada prolongada na Europa venha a estes Portugais recompor-se do seu cansaço.» A ternura vegetal portuguesa é a índole do país. Vai publicar a sua biografia de Gabriela Mistral em português? Seria algo justo e também uma descoberta porque Gabriela está ofuscada por Neruda, sem que Neruda o pretendesse. Neruda é uma árvore muito frondosa que projecta muita sombra, não porque seja sua intenção, mas porque os outros o fazem assim. A MEMÓRIA: AS DITADURAS MALTRATAM AS CONSCIÊNCIAS Com estas obras, o senhor contribui para a recuperação da memória histórica. É uma missão assumida? Eu creio que o pior dano das ditaduras, juntamente com a atrocidade dos assassinatos, dos desaparecimentos e das violações, é um dano um pouco secreto, interno, é o dano que se produz nas consciências. O dano produzido ao ser humano, a um povo, a um país, é um dano que perdura. Essa é a razão pela qual eu escrevi estas biografias, para que os cidadãos deste país e aqueles que sofreram a ditadura possam voltar à sua condição de países democráticos. Eu resistia a escrever algo que parecesse personalista porque temo muito os desmandos do ego, porque o vejo noutros escritores, o ego há que controlá-lo para que não se desboque. Mas o meu filho, que tem mais de 50 anos, disse-me: «Tu tens uma obrigação, não podes levar para debaixo da terra tudo o que viste, tudo o que viveste, as pessoas precisam de o saber.» Mas eu não


A gata de Volodia, Miel

quero falar de mim, insisto. «O eu existe, disse-me, e a única maneira de torná-lo suportável é rir-se de si mesmo». É também um resgate dos valores? Sim, porque são valores permanentes. Nós não dependemos de um regime nem de um sistema, o que abraçamos é uma causa, uma grande ideia, um ideal que é, no fundo, o humanismo, a humanidade, e isso nunca desaparecerá e não foi inventado no «Neruda conheceu século XIX, apesar de Carlos em Espanha o direito Marx o ter visto pela sua própria à alegria» óptica, atravessou, sim, milénios, as religiões, os sonhos dos grandes transformadores ou dos pequenos maltratados pelo mundo que pensaram que seria bom ter uma vida diferente. Isso se moverá se alguém o está movendo, e esse alguém tem de ser uma multidão. Cortázar escreveu, referindo-se à herança de Neruda: «Sei que um dia voltaremos à Isla Negra, que o seu povo entrará por aquela porta e se encontrará em cada pedra, em cada folha de árvore, em cada grito de ave marinha, a poesia sempre viva deste homem que tanto a amou.» Crê que a memória de Neruda está a ser fiel ao seu espírito e à sua obra? Há diversos usos de Neruda, há usos nerudianos e há usos extranerudianos, e Neruda já não se pode defender, foi incorporado na indústria cultural, e isso é também o mercado, isso significa que há um Neruda pós-nerudiano ou contranerudiano, inclusive alguns interrogam-se: o que seria Neruda agora? Seria um poeta neoliberal? Nunca! Ele é um planeta, um mundo à sua disposição, e pode-se escolher uma ilha, uma montanha, o que cada um preferir. É como


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os Andes, tem altos cumes como o Aconcagua e também muitas funduras, a sua obra também é assim, tem poemas esplêndidos e poemas que não alcançam essa categoria, algo compreensível, porque foi o poeta mais prolífico do século, mas há que considerá-lo na sua totalidade, não é possível esquartejá-lo. A sua obra é tão gigantesca, tão colossal que não creio que haja alguém que a conheça toda, continuarão os especialistas a estudá-lo de distintas maneiras, e os juízos podem ser diferentes. A Neruda há que usá-lo, alguém pode roubar versos seus para fazer uma declaração de amor a uma míuda – Neruda estava encantado com esses roubos –, ele era propagandista do amor. Mas não se pode abusar de Neruda para fabricar Nerudas que nunca existiram. OS SONHOS: É IMPORTANTE PROPOR O DIREITO AO PARAÍSO A epígrafe do seu último livro, Antes del Olvido, diz: «Valparaíso foi declarado pela UNESCO património da humanidade. Eu estou à espera que “o paraíso” seja declarado património da humanidade.» Ou seja, o direito à felicidade de todos os seres humanos, Neruda também o dizia, a começar pela democracia do almoço. Sonhava que a terra inteira seria rodeada por uma grande mesa circular e haveria uma cadeira, uma colher e um prato para cada ser humano [ri!]. «Estamos nessa!» Lutar por um ideal, por um sonho, por um mundo mais justo! Por isso é muito importante propor o direito ao paraíso, que não se alcançará, mas permitirá adiantar algo, no sentido de tornar a vida melhor. Há um conto onde falo de um sonho que tive. Vêm visitar-me os representantes das Ilhas Encantadas, porque sabem que eu sou propagandista do Paraíso Terreal. Dizem-me que o Paraíso Terreal são as Ilhas onde eles vivem e pedem-me ajuda para que a UNESCO reconheça as Ilhas Encantadas como o Paraíso Terreal. Digo-lhes: Eu sou partidário não só para as Ilhas, mas também para toda a Humanidade. «O senhor está louco, isso nunca poderá acontecer!», dizem-me. Nesse momento desperto e fico com o discurso feito. Chama-se «Un sueño intervenido». Além disso, eu interrogava-me como é que eles conheciam esse livro, se ele ainda não havia saído. Uma jovem pediu-me que lhe fizesse esta pergunta: tem medo da morte? O jovem tem mais medo da morte que o velho, porque a vida nos vai aproximando da aceitação, que não é renúncia à vida. Queremos morrer o mais tarde possível... a morte é prematura [reflecte], mas, já que é um facto inevitável, aceitemo-la simplesmente como o último acto da vida.

BIOGRAFIA DE VOLODIA TEITELBOIM VOLOSKY Filho de emigrantes, de pai ucraniano e mãe moldava, é um escritor imprescindível das letras chilenas. Publica desde 1935 e conta com mais de vinte livros. Foi jornalista, ensaísta, romancista, poeta e biógrafo. Alguns dos seus romances, como Hijo del Salitre (1952), La Semilla en la Arena (1957) ou La Guerra Interna (1979), foram traduzidos em vários idiomas. Entre os seus ensaios sobre a realidade latino-americana, contam-se: El Amanecer del Capitalismo y la Conquista de América (1943), Hombre y Hombre (1969), El Oficio Ciudadano (1973), El Pan y las Estrellas (1973), Pólvora del Exilio (1976), La Letra y la Sangre (1986), En el País Prohibido (1988). Publicou as biografias de Neruda, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro e Borges. Durante 15 anos, na Rádio Moscovo, leu as suas crónicas, mais tarde recolhidas no livro Noches de Radio. El Tiempo es un Viaje. Jornalista, advogado, deputado, senador e secretário-geral do Partido Comunista do Chile até 1994.


«A morte morteéésimplesmente simplesmenteooúltimo últimoacto actoda davida» vida» «A


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Aventuras e desventuras de uma biblioteca nos trรณpicos Lilia Moritz Schwarcz


O TERREMOTO DE 1755 pécie de ícone da erudição e do conheciOU «O MAL VEM DA TERRA» mento possíveis e assim acumulados. Em Portugal contava-se que o rei D. Mas a sina dessa biblioteca iria mudar. João I, conhecido como O de Boa MemóNo só o monarca D. João morria em 31 de ria (1356-1433), já possuía uma boa biJulho de 1755, como no sábado, 1.º de blioteca – ou livraria, como se chamava na Novembro de 1755, Dia de Todos-os-Sanépoca. D. Duarte (1391-1438), seu sucestos, um grande terremoto caiu sobre Lissor, deu continuidade à coleção, sendo ele boa. Dizia uma testemunha, Francisco José mesmo um poeta e esFreire, em suas Memorias critor. E assim caminhou das principaes providencias que a tradição: D. Afonso V se derão no Terremoto, que paLivros narram (1432-1481) reuniu tandeceo a Corte de Lisboa no antas obras valiosas que no de 1755 que «[...] às histórias, mas assim sua biblioteca passou a nove horas e quatro miser reconhecida como nutos da manhã, estando uma das mais famosas e «ajuntados» valem até o céu limpo, o ar sereno completas do Velho e o mar em calma, se boas aventuras. Mundo. O fato é que no viu Lisboa surpreendida século XVIII o acervo com um Terremoto dos real português era motimais horrorosos que a Para o país vo de orgulho e avaliado tradição conserva, ou como um dos melhores descrevem os livros. Seus recém-independente, conjuntos bibliográficos efeitos provam esta verde toda a Europa. D. João uma Biblioteca como dade; porque em tão V (1689-1750) costubreve tempo deixou remava dizer que os muiduzidos a ruínas quase essa contava muito: tos mil volumes que todos os edifícios da compunham a Real Bimesma cidade, sepulera a tradição blioteca quase não catando nos estragos um biam mais em seu grangrande número de seus acumulada de edifício, no Palácio habitadores, especialda Ribeira, e tinham immente nos templos, que que permanecia portância maior que topor ser dia de tanta soledo o ouro remetido do nidade, todos se achaem uma nação Brasil. vam assistidos de numePor sinal, o Seiscenroso povo». de tradição recente tos português é sempre Pouco sobrou da calembrado em função da pital dos portugueses. e a ser inventada riqueza e do luxo que o Devastada, elevava-se a ouro do Brasil trouxe mais de 30 mil o número para a corte portuguesa. de habitantes mortos Grandes festas, procissões, edificações mapor entre os escombros. E o que nos intejestosas como Mafra, uma corte mais ressa mais de perto: o Paço da Ribeira foi mundana... muitos eram os sinais do bridestruído e, com ele, quase toda a Livraria lho fácil que chegava em Lisboa. Junto de El Rey, que mais se parecia nesse mocom tanto fausto, também a Real Biblioteca mento com um amontoado de cinzas. foi sendo aumentada, bem ao gosto dos Esse artigo conta um pouco da história tempos: livros, incunábulos, códices, madessa Real Biblioteca que, reconstruída nuscritos, mapas, obras de arte e alguns logo depois do terremoto, se converteu objetos para romper com a monotonia em uma das metas políticas do governo dos livros. Por essas e por outras é que a pombalino. Depois disso acompanharia, livraria real era quase um troféu, uma escom um pouco de atraso, a família real ao


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Brasil e se transformaria no pivô de uma batalha bibliográfica. A Livraria Real ficaria na ex-colônia americana e mostraria como a verdadeira independência se faz, também, entre livros; muitos livros.

de abertura e de cerceamento e censura. Os livros apreendidos eram incorporados à Biblioteca que, por sua vez, era frequentada apenas por funcionários ou pessoas ligadas à corte. No entanto, a sorte da política portu«AJUNTANDO LIVROS»: guesa estava também para virar. Com a NO MUNDO DAS BIBLIOTECAS morte do rei D. José e a ascensão de sua fiLogo depois do incêndio que se selha D. Maria I, tudo que lembrasse a Pomguiu ao terremoto, junto com os trabalhos bal seria destituído, substituído ou posterque começavam a reconstruir e a reinventar gado e o mesmo ocorreria com a sorte da a velha Lisboa, o rei D. José I empenhou-se Real Livraria. em resgatar as sobras do fogo e a dar iníPor sinal, nessa época iniciavam-se os cio a uma nova coleção. A partir da comtrabalhos de abertura de uma nova bibliopra de acervos privados, da requisição de teca – a Real Biblioteca Pública – instalada livros de alguns mosteibem no Terreiro do Paço ros, da incorporação de e organizada segundo bibliotecas dos jesuítas princípios mais moder(expulsos de Portugal e Assim, a Real Biblioteca nos. À frente estava Ande suas colônias), ou tónio Ribeiro dos Sanpassou a fazer parte doações (como as de tos, um profissional acosDiogo Barbosa Machado tumado com a reforma do novo país, mudou e de G. Dugood), a Real da Biblioteca de CoimBiblioteca, agora no Pabra e que imprimiria de nome ao longo lácio da Ajuda, não panova direção aos trabarou de crescer, mesmo lhos em Lisboa. dos anos, adicionou após a morte de D. José, Mas deixemos essa em 1777. disputa um pouco de laEm finais do século do, uma vez que o amaquisições e doações XVIII estava recomposta. biente não estava para Pode-se imaginar o traesse tipo de contenda. A ao seu acervo até balho e quantos esforços política internacional depositavam-se a seu reandava remexida e o tornar-se, segundo dor. Sua importância exército napoleônico esnão residia apenas no a UNESCO, na oitava tava para chegar em tervalor monetário dos liras portuguesas. vros, mapas, estampas, instituição do gênero etc. A biblioteca expresA VIAGEM: sava aspirações, projetos HOMENS no mundo e representações de uma E LIVROS AO MAR monarquia culta e marDiante da iminente cada por esse acervo que invasão das tropas franrevelava o universo intelectual da elite cesas, em novembro de 1807, o príncipe portuguesa ou, ao menos, o que se imagiregente de Portugal, D. João, a família real nava significar a erudição naquele moe parte da corte – uma multidão estimada mento. em 10 mil pessoas – que conseguira emMas a nova Biblioteca trazia as aspirabarcar apressadamente nos 36 navios leções dos novos tempos, e do poderoso vantaram ferros de Lisboa, rumo ao Brasil, ministro de D. José I, o marquês de Pombal. sua colônia d’além mar. Foram quase dois A Livraria seria então convertida numa das meses em alto mar, intempéries, água pontas de lança do iluminismo português, pouca e limpeza nenhuma, piolhos, tempor certo paradoxal entre seus movimentos pestades e inseguranças de todo tipo.


E se a Real Biblioteca não veio junto, tinado ao uso dos príncipes –, a Real Bipois lugar não havia, sua história ficou liblioteca era considerada na época uma das gada ao fado dos Bragança que, em inícios maiores e melhores bibliotecas do mundo. do século XIX, lidavam com os impasses O acervo não veio inteiro devido às criados pela França e pela Inglaterra: as óbvias dificuldades da partida. Do que fiduas grandes nações que disputavam nesse cara, certamente bem escondido para escontexto o controle político e econômico capar dos butins dos tempos de guerra, da Europa. outro lote aportaria no Brasil em 1811, Diante de um quadro de instabilidacom o bibliotecário Luís Joaquim dos Sandes e da situação frágil vivenciada pela tos Marrocos. É certo que o príncipe remetrópole – sem dirigentes reais a partir gente queria mais, e uma outra leva aporde novembro de 1807 e sempre exposta a tou poucos meses depois, ainda em 1811. novas invasões –, a saída (tantas vezes deChegara mesmo a ordenar a vinda de dosenhada) foi optar pela transferência para cumentos constantes na Torre do Tombo e a rica colônia brasileira. E era o próprio livros da Real Biblioteca Pública de Lisboa, príncipe regente quem, mas o que veio foi o já em terras tropicais e bastante para que em dando-se conta da falta, 1876 Ramiz Galvão, enDiante da iminente ordena a vinda de seus tão diretor da Biblioteca, acervos de livros e doafirmasse que naquele invasão das tropas cumentos, como se não conjunto estavam reunifosse possível governar das «todas as províncias francesas, apartado deles. do saber humano». Na verdade, a pressa Vale a pena pergunem novembro de 1807, tar por que em meio ao do embarque, em finais de 1807, havia feito das caos dos primeiros anos o príncipe regente suas, mas não impediu não se esquecera a Real que, entre a multidão de Biblioteca. Com efeito, o nobres e muitas bagade Portugal, D. João, que viajara junto com a gens, viesse boa parte família era uma espécie dos documentos polítia família real e parte de «política do conhecicos e administrativos do mento»: transportava-se Estado lusitano. A mesnão um amontoado de da Corte levantaram ma atenção não coube, livros, mas o espírito porém, à Real Biblioteca. ferros de Lisboa, rumo pombalino, uma verdaPor mais que se tenha deira política de Estado, alardeado, no navio Meao Brasil, sua colônia a idéia de que uma bidusa, acondicionada preblioteca era um repositócariamente, acomodourio universal de saber. A d’além-mar se apenas a biblioteca ilustração aportava defido Conde da Barca. O nitivamente no Brasil e imenso acervo ficou escom ela o espírito menquecido no porto e teve que ser guardado, tal dos Bragança, bem no início do agitado novamente, às pressas. século XIX. Chegavam juntos a administraMas com a segunda invasão francesa, ção e a cultura oficial. em 1810, a partida da Real Livraria seria Nesse momento começava também questão de tempo. Entraria na colônia em essa original história brasileira, tão vincutrês remessas, como se a ilustração chegasse lada à vinda da família real ao Brasil. De ao Brasil em caixotes e sem aviso expresso. fato, é no mínimo inusitado pensar numa Tanto esforço deveria valer a pena. colônia sediando a capital de um império, Composta por dois acervos – o da Livraria assim como numa biblioteca que atravessou do Rei e o da Casa do Infantado, este deso Atlântico. Tal qual uma «internalização


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da metrópole», a instalação da corte portuguesa no Brasil significou não apenas um acidente fortuito, mas antes um momento angular da história nacional; a origem de um processo singular de emancipação. Transformado em Reino Unido no ano de 1815, o Brasil distanciava-se de seu antigo estatuto colonial, ganhando uma autonomia relativa, jamais conhecida. Humilhado, perseguido e transplantado, o Estado português reproduziu aqui o seu aparelho administrativo. E do Rio de Janeiro, D. João, denominado «rei do Brasil», governava todo o seu Império. UMA BIBLIOTECA EM TERRAS TROPICAIS A Real Biblioteca entrou definitivamente na história brasileira em 27 de junho de 1810, quando, por alvará régio, foi mandada instalar em parte do hospital da Ordem Terceira do Carmo, nos fundos da igreja de mesmo nome, nas proximidades do Paço Real. Ainda no mesmo ano, em 29 de Outubro, vendo que o local não era apropriado para sua biblioteca – que tinha que dividir espaço com doentes, remédios e até ossos –, o príncipe regente manda que se erijam nas catacumbas da Ordem do Carmo os cômodos necessários para «o arranjamento e manutenção do referido estabelecimento». Em 1811 a Biblioteca era aberta ao público, se bem que de maneira seletiva: só para eruditos que obtivessem o consentimento régio, o que não era difícil. No entanto, em 1814 a autorização prévia foi suprimida, ficando definitivamente franqueado o acesso. Já ocupava todo o prédio que abrigara o hospital, possuía cerca de 60 mil livros e era a maior das Américas. Todo cuidado era pouco diante das preciosidades desse acervo: livros de horas renascentistas, incunábulos (de Cícero à Bíblia de Mogúncia), partituras, libretos, vilancicos, códices, desenhos e estampas (de Dürer, Rafael, Rembrandt, Piranesi, van Dick, entre outros), livros de história, ciência e filosofia (da História Natural de Buffon à Enciclopédia de Diderot e D’Alembert), literatura sacra, obras de autores quinhentistas portugueses (Camões, João

de Barros, etc.) ou catecismos e gramáticas raras. Aqui seria acrescida de valiosas doações (como a coleção do frei José Mariano da Conceição Veloso) e aquisições (de José da Costa e Silva e do Conde da Barca). Além disso, foram incorporadas propinas – denominação da época para o recolhimento obrigatório de livros e periódicos editados em Portugal e no Brasil – e documentos oficiais do Estado. TEMPOS DE REVOLUÇÃO E DE DEFINIÇÃO: A BIBLIOTECA FICA Mas a história dessa grande livraria ainda passaria por conturbações. Em conseqüência da Revolução Liberal do Porto, D. João VI volta para Portugal em 1821 e a sina da Real Biblioteca mudaria mais uma vez. Não é hora de discutir os acontecimentos que culminaram, em 7 de setembro de 1822, com a proclamação da Independência e mesmo a nova liderança política que surgia. O fato é que o padre Joaquim Dâmaso, então prefeito da Real Biblioteca, recusa-se a aderir ao movimento autonomista e retorna a Portugal. A sua postura intransigente nos custaria caro: transportou consigo boa parte dos manuscritos da instituição. Ou seja, dos mais de 6 mil códices existentes no acervo, levou de volta mais de 5 mil. E queixou-se ainda de não ter conseguido carregar também os impressos. E esta «disputa bibliográfica» não foi um mero detalhe. A partir dela pode-se ter idéia da luta travada, de um lado, no sentido de conseguir que a biblioteca voltasse a seu destino original, e de outro para mantê-la, como parte de uma política para fortalecimento científico e cultural da nova nação. Se essa batalha acabou sendo ganha pelo Brasil, a vitória teve um alto custo. O valor da Biblioteca Imperial e Pública da Corte, denominação adotada após a Independência, virou motivo de cláusulas e atos diplomáticos, firmados com vista a consolidar a emancipação. Através da Convenção Adicional ao Tratado de Paz e Amizade, de 29 de Agosto de 1825, D. Pedro I, Imperador do Brasil, concordava em indenizar a


família real portuguesa por seus bens e propriedades deixados no país, inclusive a biblioteca real. E na verdade se pagou muito, pela «famosa conta» que Portugal cobrava do Brasil. No Arquivo da Torre do Tombo, pode ser encontrado o documento denominado – «Carta dos objetos que Portugal teria direito de reclamar» aonde se pode ajuizar a posição privilegiada da Biblioteca, que vinha logo em segundo lugar depois da «dívida pública» A Biblioteca surgia avaliada em 800 contos de réis, um valor tremendamente alto dentro do montante geral. Para se ter idéia, tal valor correspondia a 12,5% do total a ser pago, quatro mais do que a famosa prataria da coroa, assim como 4 vezes mais do que a equipagem elencada na conta. Significava portanto muito e para nós muito mais. Assim, a Real Biblioteca passou a fazer parte do novo país, mudou de nome ao longo dos anos, adicionou aquisições e doações ao seu acervo até tornar-se, se-

gundo a UNESCO, na oitava instituição do gênero no mundo. Livros narram histórias, mas assim «ajuntados» valem até boas aventuras. Para o país recém-independente uma Biblioteca como essa contava muito: era a tradição acumulada que permanecia em uma nação de tradição recente e a ser inventada. Como dizia o Bibliotecário de S. Majestade, «as bibliotecas fazem o adorno principal e mais precioso dos Paços Reais e merecerão com toda a justiça que as Letras o olhem e reconheçam por seu valioso protetor». «Adorno principal, jóia do reino ...», aí estão algumas expressões que falam do valor simbólico acumulado por uma biblioteca. Mais do que os livros, leis e tratados era o conhecimento (infinito por definição) que se pretendia colecionar e classificar. A sina dessa Livraria como que reconta, à sua maneira, um pouco da história de Portugal e do Brasil. Os personagens são diferentes, assim como o recorte. Dessa vez é por meio de livros que se narra uma mesma história.

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«AL OCCIDENTE VAN LAS NAVES INVENTORAS DE REGIONES», ESCREVEU JUAN DE CASTELLANOS. MIRAGEM DE COLOMBO, INVENÇÃO EUROPEIA, A AMÉRICA DEMOROU A GANHAR IDENTIDADE PRÓPRIA NO UNIVERSO MENTAL DO VELHO MUNDO. A RESISTÊNCIA DOS VELHOS PARADIGMAS


CONDICIONOU A RECEPÇÃO DA NOVIDADE, MOLDANDO O NOVO MUNDO. DESLUMBRAMENTO, DESENCANTO, SAUDADE, DESASSOSSEGO SÃO SENTIMENTOS EXPRESSOS NAS FONTES NARRATIVAS, NA TOPONÍMIA E NAS CARTAS PRIVADAS DE EMIGRANTES. Organização de Maria da Graça A. Mateus Ventura


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Yo vengo de las Indias Maria da Graça A. Mateus Ventura

Fauna marinha fantástica na costa do Brasil. Theodorus de Bry, Historia Americae, Frankfurt, 1590 [BN, HG 2612 A]


«Ao ocidente rumam as naus inventoras de regiões», escreveu Juan de Castellanos no seu canto épico da conquista da América pelos espanhóis, em 1589. Descobrimento ou invenção, a Quarta parte do mundo, precipitadamente baptizada de América por Waldseemuller, em 1507, apresentava-se aos europeus como um jardim de delícias. A pr imeira percepção do Novo Mundo foi fruto de uma projecção da mentalidade europeia na nova geografia. Captou-se o desconhecido em função do conhecido. Baptizaram-se as terras, os mares e os rios de acordo com o imaginário, as expectativas e as recordações. A tradicional visão ptolemaico-cristã da Terra dificultava a aceitação de uma nova realidade geográfica como entidade espacial, temporal e cultural. Se nas vésperas da expansão marítima os europeus dispunham de informação vaga e dispersa sobre a África e a Ásia, de um quarto continente nem sequer se suspeitava. A constatação da existência da América e a sua gradual aparição como uma entidade de direito próprio constituíram, pois, um desafio maior a todo um conjunto de preconceitos tradicionais, crenças e atitudes. A dimensão deste desafio permite-nos compreender um dos factos mais surpreendentes da história intelectual do século XVI: a aparente lentidão da Europa no ajustamento mental necessário à integração da Amér ica no seu campo de visão. A reacção dos europeus aos primeiros textos publicados sobre o Novo Mundo, manifestada na avidez da leitura e nas sucessivas edições das cartas de Américo Vespúcio, de Cristóvão Colombo e de muitas outras narrativas, reflecte emoção e deslumbramento, sentimentos progressivamente esfriados pelo desbravamento do espaço real. Às descrições edénicas da paisagem e dos índios, sucederam-se relatos que suscitaram inquietações de ordem teológica e filosófica, como a condição humana dos índios. Se os europeus não viajados conservaram, durante todo o século XVI, uma imagem paradisíaca do Novo Mundo, patente nas

Índios brasileiros como Adão e Eva. Theodorus de Bry, Historia Americae, Frankfurt, 1590 [BN, HG 2612 A]


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iluminuras e gravuras, os viageiros europeus constatavam o contraste civilizacional e sublinhavam o estado de «barbárie» das sociedades índias. Na verdade, a resistência de filósofos e cosmógrafos em incorporar a nova informação proporcionada pela descoberta da América é um exemplo da dificuldade do Velho Mundo em gerir a diversidade cultural e, em particular, os efeitos desta nova realidade. Sob o ponto de vista intelectual, a descoberta da América constituiu um desafio à Europa, na medida em que pôs em causa preconceitos europeus sobre a geografia, a história e a natureza do homem. Uma primeira barreira mental dos descobridores era configurada por um sistema mítico com profundo enraizamento cultural, como o Éden, os mitos da Antilha e de São Brandão, as Sete Cidades de Cibola, as Amazonas, o Eldorado. Por outro lado, a influência dos livros de cavalaria moldou um código de conduta do conquistador que reproduzia o código de honra e fama próprio do cavaleiro medieval. A obsessão pela fama e pela riqueza fácil constituiu outro entrave a uma clara percepção do Novo Mundo. Os conquistadores manifestam uma visão economicista da natureza, deslumbrando-se com a riqueza em pérolas do Caribe ou com os tesouros mexicanos e peruanos. À medida que se avançava no descobrimento e na conquista e os limites do Novo Mundo se alargavam, a experiência e a familiaridade com o continente permitiram um olhar mais atento e distanciado por parte dos cronistas europeus, sempre condicionados pela sua função no processo, interesses (materiais ou espirituais), formação cultural e grau de vivência da diversidade. Daí que o soldado descreva a terra em função das condições para a conquista, o colonizador se fixe nas condições do território para a sua exploração e o evangelizador se centre num estudo etnográfico e antropológico. Em termos cognitivos, a mudança joga-se na controvérsia entre o velho e o novo, numa profunda resistência à novidade e no apego aos velhos paradigmas. Os primeiros descobridores estão profun-

damente constrangidos pelos modelos culturais europeus, pelo que a sua percepção peca por deformação. Os cronistas-conquistadores, condicionados pelas duras condições de sobrevivência e pelos imperativos de imposição militar, estavam limitados a uma leitura utilitária, mas revelam algum distanciamento na descrição da natureza americana. Os cronistas-evangelizadores manifestam um maior empenho na descrição antropológica e cultural que na descrição geográfica e, nesse campo, apresentam um forte eurocentrismo, ainda que a imagem do índio chegue à Europa associada a virtudes como a bondade, a humildade e a afabilidade. Os cronistas-gerais, como António de Herrera, mais ou menos distanciados do seu objecto nar rativo, oscilam entre a contemplação e a especulação. Fernández de Oviedo representa a primeira atitude, enquanto o padre José de Acosta é o expoente máximo da segunda. Em 1528, o humanista espanhol Hernán Pérez de Oliva escreveu, a propósito da preparação da segunda viagem de Colombo, que esta se destinava a «mesclar o mundo e dar àquelas terras estranhas a forma da nossa». Segundo Edmundo O’Gorman, a América não foi descoberta, mas inventada pelos europeus do século XVI. Oviedo apresenta Cristóvão Colombo como «primeiro inventor e descobridor e almirante destas Índias», enquanto Juan de Castellanos inicia o canto II das suas Elegias de varones illustres exactamente com o verso «Al ocidente van encaminadas las naves inventoras de regiones». Nesta medida, ambos se aproximam de Nelson Goodman quando este conceptualiza o mundo como uma leitura e não como uma realidade. A visão do novo dos viageiros europeus estava condicionada pela sua expectativa, viam o que queriam ver e ignoravam aquilo para o qual não estavam preparados, num puro acto de supressão e completação. Neste sentido, os navegadores, os cartógrafos, os cronistas foram inventores de regiões não só por lhes terem atribuído novos nomes, mas sobretudo porque a sua representação


do mundo novo constituía uma invenção mais ou menos presa a interesses particulares e a padrões culturais e mentais. Não esqueçamos que o nome de Índias, atribuído por Colombo a esta quarta parte do mundo, logo em 1492, rapidamente se impôs e prevaleceu na terminologia oficial até ao século XVIII. É uma invenção também porque a América foi construída por agentes que transmudaram para esse mundo novo a imagem da Europa – organização urbana, sistema político-administrativo e, até, a toponímia europeia.

Alegoria do descobrimento: Américo Vespúcio encontra a América. Jan van der Stralt (1523-1605) [BN, EA 15 (22) P.]

A cartografia, embora marcada pela geografia de Ptolomeu, vai representando os contornos dos Novos Mundos, recheando-os de topónimos míticos, religiosos, profanos, reflectindo a passagem do estado de deslumbramento, manifestado nas esmeradas iluminuras com animais exóticos, a uma progressiva racionalização da concepção do espaço. A geografia do imaginário apresenta na América uma primeira configuração cujos elementos fundamentais são os rios e os espaços insulares. Da Boca del Drago, nas costas venezuelanas, à costa da Florida, encontramos Paraíso, Matinino, Ofir, Bimini, o rio Jordão, o Eldorado.


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Trata-se de um percurso encantatório sucessivamente transposto para o interior meridional, mas sempre associado aos rios e às ilhas. Logo na primeira viagem, Colombo afirmou ter visto uma ilha habitada só por mulheres a que chamou Matinino. Mais não fez que ajustar o mito das Amazonas a uma ilha onde as mulheres acorreram à praia à vista das caravelas. Enrique de Gandía relaciona a convicção colombina de ter chegado à costa oriental da Ásia com o baptismo da ilha Matinino, pois Marco Polo difundira a ideia de que no Oriente havia uma ilha feminina e uma ilha masculina. De facto, Colombo distingue o Car ibe (masculino) de Matinino (feminino). Segundo Gandía, esta é a principal explicação para a transposição do mito das Amazonas para a América. O Eldorado surge pela primeira vez em 1539, sendo atribuído a Sebastián de Benalcázar o baptismo de um lugar com este nome em Nova Granada. Parece que nesta região um cacique mergulhava todas as manhãs num tanque e que saía da água coberto de pó de ouro. Este tanque transformou-se, na mitologia dos conquistadores, num lago localizado sucessivamente em vários lugares, desde a Colômbia ao rio Amazonas. Este mito, que remonta à mitologia grega, atormentou mentes obcecadas de descobridores e conquistadores da Amér ica, como Federmann, Jiménez de Quesada, Benálcazar e Pizarro. A descoberta do tesouro de Atahualpa viria a configurar o mito na região do Peru. Avançam os conquistadores, retrocede o Eldorado, sempre inacessível. Associado à obsessão pelo ouro, este foi um dos móbiles da exploração das profundezas do continente americano. O cenário mítico do Novo Mundo convocou o delírio perante a riqueza fácil, amplificado pelos relatos dos navegadores e dos conquistadores desejosos de acrescentar as suas hostes. A expectativa e a obsessão, deformando a realidade, acabaram por suscitar a desilusão. As crónicas estão repletas de exemplos. Díaz de Guzmán expressa este contraste: os espanhóis encontraram na província de

Guairá «umas pedras mui cristalinas» que se criavam no subsolo e que assumiam cores diversas, com «tanta diafanidade e brilho» que pareciam pedras preciosíssimas. Com esta ilusão, os conquistadores «acreditaram que possuíam a maior das riquezas do mundo» e decidiram deixar esta terra e caminhar para a costa a fim de partir para Espanha com as suas famílias. Se o estado de maravilha corresponde ao primeiro impacto do contacto com a Natureza do Novo Mundo, o estado de desencanto vai-se instalando à medida que se frustram as expectativas de riqueza fácil. O êxito militar da conquista e o sucesso relativo da evangelização não foram acompanhados de um igual grau de satisfação individual e colectiva por parte dos conquistadores e colonizadores. A luta pelo poder, a iniquidade na repartição dos saques, o desajustamento entre as expectativas e a realidade e uma natureza muitas vezes adversa justificam o desencanto que as fontes revelam. São memoriais de conquistadores em que estes se queixam que «padecem necessidade», são cartas de mulheres viúvas ou de maridos ausentes a reclamar da imensa saudade. Lope de Vega, no epitáfio do poeta Medina Medinilla, escreveu «No mar da América se perdeu a flor e a nata de nossa época», ideia corroborada por Gôngora e outros autores. Afogados nos rios, nos portos ou em mar alto, morreram muitos marinheiros, capitães, adelantados e viageiros, muitos dos quais não sabiam nadar nem tinham alguma vez visto o mar. Uma leitura diacrónica do baptismo do Novo Mundo permite-nos percorrer o espaço mental dos colonizadores. Se na fase de descobrimento se baptizou o Novo Mundo de acordo com critérios essencialmente míticos e litúrgicos, embora surjam também critérios de funcionalidade e evocativos de espaços ausentes e semelhantes, na fase de conquista e colonização a toponímia corporiza a frustração e o desencanto. A civilização ocidental estava profundamente marcada pela tradição clássica e


cristã. Logo, a leitura do Novo Mundo era condicionada por referências culturais e religiosas profundamente enraizadas. A necessidade de compreender uma diversidade geográfica e humana levaria, por um lado, a uma revisão do conhecimento divulgado por autores como Mandeville e, por outro, a um processo de transposição dos mitos cristãos para um novo espaço. O mito de Ofir, associado desde Heródoto a uma terra/deserto de areias auríferas, é transferido geograficamente para o Atlântico. Cristóvão Colombo situa-o no Haiti: «esta ilha é Tharsis, é Cethia, é Ophir e Ophaz e Cipango, e nós lhe chamámos Espanhola». Aqui se descobr iu um mundo virgem, como que recém-nascido, onde não havia indícios de velhice. Toda a natureza se encontrava num estado de perpétua juventude. Ofir e Cibola aparecem sucessivamente nos relatos de descobridores, do Atlântico ao Pacífico. O mito de Ofir está ligado ao Eldorado que mobilizou numerosos aventureiros que se sujeitavam aos maiores perigos, movidos pela obsessão do ouro. O seu rasto ficou nas crónicas e na toponímia. Sabendo que cristãos e hebreus acreditavam que o universo havia sido criado no equinócio da Primavera, não admira que os primeiros navegadores julgassem ter chegado ao paraíso perdido. Daí a sucessão de topónimos míticos. Era a transmutação de um mundo ideal, remoto no tempo, para um mundo remoto no espaço. A alusão directa ao paraíso é frequente na toponímia hispano-americana: Valle del Paraiso, nome atribuído por Colombo – «e o vale grande onde estão povoações, e disse que outra coisa mais formosa não havia visto, por meio do qual vale vem aquele rio... pus nome ao vale, Vale do Paraíso» (Colombo, Diário del primer viaje (1492). Na sua 3.ª viagem, Colombo chegou à foz do Orinoco e

ficou deslumbrado com a imensidão de água doce. Julgou ter avistado o Paraíso «porque o sítio é conforme à opinião destes santos e sacros teólogos. E assim mesmo os sinais são muito conformes, que eu jamais li nem ouvi que tanta quantidade de água doce fosse assim adentro e vizinha com a salgada; e nisso ajuda assim mesmo a suavíssima temperança. E se dali do Paraíso não sai, parece ainda maior maravilha...» (Colombo, 1498). Também Vespúcio ficou maravilhado com a diversidade e a beleza da paisagem a sul do equador, embora não fosse partidário dos sonhos obsessivos de Colombo. Além do Eldorado, também o mito das Sete Cidades de Cibola, frequente na literatura cristã, se foi corporizando na cartografia do descobrimento do Novo Mundo. A sua localização foi-se deslocando cada vez mais para terra firme, a partir das Antilhas. Em 1520, corriam notícias de que na governação de Pedrárias Dávila (América Central) se havia encontrado uma ilha tão rica que se poderiam lastrar as naus com ouro. Os conquistadores acreditavam que as Sete Cidades regurgitavam de ouro e outras riquezas. Esta crença reflecte a confluência dos mitos paradisíacos e de um imaginário marcado pela ambição e pela expectativa de felicidade viável, algures, no espaço ainda desconhecido. Em 1539, o frade português Marcos de Niza, com autorização do vice-rei de Nova Espanha, percorreu o Oeste americano (actual Novo México) onde afirmou ter encontrado as Cidades de Cibola. No Islário General de Alonso de Santa Cruz (1541), as Sete Cidades já são representadas a norte do México, último refúgio da lenda em finais do século XVI. No planisfério Anónimo – João Baptista Lavanha-Luís Teixeira (1597-1612) – está inscrito o topónimo Sete Cidades de Cibola, a


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nordeste da Califórnia, o que reflecte a sua busca incessante. Na ilha de S. Miguel (Açores) subsiste ainda o eco dessa primeira identificação na Lagoa das Sete Cidades. Perduram ainda, nomeadamente na cartografia mexicana, topónimos que ilustram a emocionalidade dos viageiros: do deslumbramento – El Encanto, Islas Encantadas, La Encantada, El Edén, El Delirio, El Ideal, Las Delicias, Esmeralda, Eldorado (em Nuevo León, San Luis de Potosí, Sinaloa), Paraíso (em Campeche, México, Oaxaca, Yucatán, Querétaro, Quintanaro, Guanajuato) – ao desencanto – El Purgatorio, El Infierno, El Triste, El Perdido, El Olvido, El Imposible.

No campo da evocação, as efemérides religiosas constituem o principal critério usado pelos primeiros navegadores. Cristóvão Colombo usou a nomenclatura cristã, logo na 1.ª viagem, no baptismo das terras que avistou: San Salvador, Navidad, Santa María de Guadalupe, Santa María de Monserrate, Once Mil Virgens, San Juan Baptista... Assim também o Brasil, primeiro «Terra dos papagaios», seria baptizado Terra de Santa Cruz por Pedro Álvares Cabral, embora o nome actual, de origem mítica (Hy Bressail ou Brazil) ou profana, cedo se impusesse, mau grado o protesto de João de Barros (1555) e de Pêro de Magalhães Gândavo (1576). Os conquistadores espanhóis baptizaram inúmeras vilas e cidades

de acordo com o calendário litúrgico: Pedro de Alvarado fundou um povoado, entre o Volcán de Agua e o Volcán de Fuego, a que chamou Santiago de los Caballeros de Guatemala, esperando por uma segunda-feira, 25 de Julho, para baptizar a vila com o nome do santo padroeiro de Espanha; Santa María de la Victoria (em Tabasco), Los Reyes (Lima, Peru), fundado no dia da Epifania,Triunfo de la Cruz (Honduras), ou Santa Cruz (na ilha de Cozumel), Santa Fe (de Bogotá), Gracias a Dios, Nombre de Dios, Corpus Christi (no Rio da Prata e no México), ou Santo Domingo, ou ainda São Salvador da Baía, São Paulo, Santa Catarina, São Luís do Maranhão (Brasil). No campo da simbologia cristã, o calendário litúrgico foi o principal sistema de referência usado por navegadores ibéricos. Contudo, os espanhóis e, em menor grau, os portugueses não se limitaram à liturgia, adoptando também os dogmas como critério de baptismo – Trinidad, Triunfo de la Cruz, Espíritu Santo, San Salvador, Corpus Christi. Por vezes, o novo nome concilia diferentes critérios, como Villa Rica de la Veracruz, na costa oriental do México: «E logo ordenámos de fazer e fundar e povoar uma vila, que se nomeou a Villa Rica de la Veracruz, porque chegámos quinta-feira da Ceia, e desembarcámos sexta-feira Santa da Cruz, e rica por aquele cabaleiro que... se chegou a Cortés e lhe disse que mirasse as terras ricas...» (Oviedo). O viageiro europeu lia o novo à luz do familiar, pelo que o sistema classificativo traduz uma gramática percepcional que evoca a semelhança e a analogia da configuração externa visível. Os espanhóis foram prolixos na evocação do espaço ausente: à ilha de Haiti, ou Bohio, Colombo chamou La Española porque «A ilha é muito grande... vi que é toda muito lavrada... este porto... ao cabo dele tem duas bocas de nós que trazem pouca água; em frente dele há umas vegas as mais formosas do mundo e quase semelhantes às terras de Castela, antes estas têm vantagem, pelo qual pus nome à dita ilha a ilha Espanhola» (Colombo, 1492); na primeira incursão pelo México, um grupo de portugueses da hoste de Cortés rebaptizou o povoado de


Ixtac-Imaxtitlán, próximo de Tlaxcala: «e quando vimos branquear muitas açoteias, e as casas do cacique e os cues... pareciam muito bem, como alguns povoados da nossa Espanha, e pusemos-lhe nome Castilblanco, porque disseram uns soldados portugueses que parecia a vila de Castelo Branco de Portugal, e assim se chama agora»; Venezuela tem origem nas semelhanças com Veneza: «quando os espanhóis descobriram pela primeira vez esta Laguna, acharam grandes povoações de índios formados dentro de água por todas as suas margens; e daqui tomaram motivo para chamá-la Venezuela, pela semelhança que tinha a sua planta com a cidade de Veneza; nome que se estendeu depois a toda a província...» (Díaz del Castillo). É extensa a lista de topónimos evocativos de similitude com espaços ausentes: Cartagena, Nueva España, Nueva Galicia, Nueva Vizcaya, Nuevo Reino de Granada, Nova Lusitânia. As fontes espanholas mencionam vários referenciais políticos, embora estes viessem a desaparecer a favor dos nomes pré-colombinos. Foi Colombo quem baptizou Cuba de Fernandina, logo na 1.ª viagem, segundo Oviedo, «em memória do sereníssimo e católico Rei Dom Fernando...». Desconhecendo a configuração real de Cuba, Colombo atribuiu a outra parte da ilha o nome de Juana, em homenagem à princesa filha de D. Fernando. Independentemente do critério adoptado, o tempo, o espaço, a herança cultural e a linguagem condicionaram a leitura do mundo e a incorporação do Novo Mundo no horizonte intelectual da Europa. A diversidade nas leituras justifica-se pelo modo como a tradição, a experiência e a expectativa se conjugaram na formação e nos interesses de cada protagonista. Com Fernando Gil, concluiríamos que o viageiro europeu de Quatrocentos e Quinhentos representava, na literatura ou na cartografia, «colocando tanto o que havia, quanto o que não havia, no mesmo plano da imaginação em que a expectativa precede o conhecimento, a interpretação se sobrepõe à observação e a analogia neutraliza a diferença». Tropeço inesperado de um genovês, invenção de um cosmógrafo alemão a par-

tir das cartas do veneziano Américo Vespúcio, a América metaforiza a conflitualidade entre a tradição e a inovação, entre o Novo e o Velho Mundo. Mas representa também uma dolorosa caminhada de viageiros que perseguiram e perseguem ainda, em ambas as margens do Atlântico, sonhos, fantasias e expectativas de riqueza, tão desajustados ontem como hoje. A globalização, timidamente inaugurada há 500 anos pelos Estados Ibéricos e por outros europeus que os seguiram, atenuou os contrastes culturais pela imposição de padrões de comportamento e de modelos de organização, mas não eliminou as profundas barreiras sociais responsáveis pelo desencanto de tantos emigrantes. O mito do Eldorado, como metáfora do inatin-

PARA SABER MAIS: Bernal Díaz del Castillo, Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España. (Ed. Lit. de Carmelo Sáenz de Santa María). Madrid: CSIC, 1982

Cristóbal Colón: Textos y Documentos Completos. Ed. de Consuelo Varela. Madrid: Alianza Editorial, 1992

Edmundo O’Gorman, The Invention of America. Bloomington: 1961

Enrique de Gandía, História de los Mitos y Leyendas de la Conquista Americana. Buenos Aires: Centro Difusor del Libro, 1946

Fernández de Oviedo, História General y Natural de las Indias. (Ed. Lit. de Juan Pérez de Tudela Bueso). Madrid: Ed. Atlas, 1992

Juan Gil, Mitos y Utopías del Descubrimiento. 3 vols. Madrid: Alianza Editorial, 1988

gível, perdura ainda, obsessivamente, na mente de milhares de homens e de mulheres que partem para um desconhecido longínquo em busca de felicidade. Diversificaram-se as rotas de encanto-desencanto, manteve-se o espírito aventureiro dos viageiros de outrora. A diferença reside na inversão da relação de desequilíbrio: os «índios» naturais foram submetidos pela tecnologia dos que chegaram ruidosamente pelo mar, atordoando-os com o trovejar dos canhões e o relinchar desvairado dos cavalos; os emigrantes de hoje chegam silenciosamente, em pequenas vagas, disponíveis para todos os sacrifícios em troca de algum conforto material.

Hernán Pérez de Oliva, História de la Invención de las Indias. Bogotá, 1965

J. H. Elliott, El Viejo Mundo y el Nuevo (1492-1650). Madrid: Alianza Editorial, 1995

Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994


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No rasto de Cabral António Borges Coelho

OS NAVEGANTES Ao lermos os mais antigos relatos de aportagem à costa brasileira, sentimo-nos como Noé a olhar da barca. As águas baixaram, a terra emerge do azul. Começamos a dar nome às coisas, aos cabos, aos rios, às plantas, aos animais. Ao nomeá-las, marcamo-las para a posse. A bordo da arca vão carneiros, galinhas. Mas outros animais estão já há milhares e milhões de anos no terreno. Animais e homens. Mediada pelos oradores sagrados, a Bíblia constituía a matriz europeia da história e da explicação do Mundo. Mas se Noé desembarcou, lançou as sementes à terra, comeu as uvas, bebeu o vinho e ficou ébrio, estes primeiros nautas não chegam como sobreviventes do dilúvio nem só ao sabor das águas. Manobram navios veleiros, determinam vitoriosamente o rumo com a bússola, a medição da altura do sol e das estrelas, lêem o não visível caminho nas folhas inventadas e em correcção das cartas de marear. Nos primeiros tempos, o Atlântico Sul é um deserto de água. A todo o momento, as vagas podem abrir-se e engolir um navio, o de Vasco de Ataíde, sem nos ficar um grito, um sinal no murmurar das águas. Numa viagem de mês e meio, podiam não avistar uma vela. Mas a armada de Pedro Álvares Cabral, formada por 13 navios e 1500 homens, era uma das grandes vilas ou cidades portuguesas que navegava no Mar Oceano. Em 1530, Pêro Lopes de Sousa encontrava uma caravela e um navio que regressavam das pescarias do Cabo Branco; em Cabo Verde, uma nau e uma chalupa castelhanas que pretendiam alcançar o Maranhão; e, na costa, duas naus francesas na carga do pau-brasil e uma caravela portuguesa cujo destino era Sofala, mas

preferiu a caça aos escravos ameríndios. O Atlântico povoava-se de veleiros. E, desde cedo, os navegantes têm de apelar às armas, às de metal e às da fé, para se precaverem contra os maus encontros. O perigo não estava só nas tempestades, no mau estado dos navios roídos pelo gusano, mas principalmente nos franceses huguenotes, nos ingleses, nos holandeses e mouriscos. Jorge de Albuquerque Coelho embarcou em Olinda na Santo António, em 1565. A nau abriu tanta água que davam à bomba dia e noite. Depois encontraram corsários franceses, primeiro junto das ilhas de Cabo Verde e, mais tarde, ao largo dos Açores. Os corsários, além de franceses, incluíam ingleses, escoceses e alguns portugueses, um deles conhecido de Jorge de Albuquerque. Este resistiu ao assalto com as poucas armas que levava, mas o navio foi entregue pelo piloto, o mestre e os marinheiros. Maltratados, roubados e abandonados, sem leme e sem provisões, andaram três semanas à deriva. Durante dezassete dias não beberam água. Alguns morreram de fome. Outros pediram licença ao capitão para comerem os que morriam. Jorge de Albuquerque Coelho respondeu com os olhos rasos de água: enquanto fosse vivo, tal não havia de consentir e, depois de morto, que o comessem a ele primeiro. Os companheiros de Pedro Álvares Cabral e dos outros capitães que aportaram ao Brasil eram filhos de camponeses, capitães, pilotos, mestres, calafates, carpinteiros, tanoeiros, ferreiros, marinheiros, fidalgos, frades, mercadores, aventureiros, degredados, escravos e alguns línguas, como o piloto Pêro Anes. Com pilotos, mestres e alguns capitães capazes de manobrar o quadrante e o astrolábio, e tantas vezes de sonda na mão


ou dia e noite por baixo da coberta a bombear a água, estes navegantes obravam por «experiência verdadeira». Pêro Lopes de Sousa fez construir em terra dois bergantins de 15 bancos e na nau uma jangada em que lançou ferro e a forja para fazer os pregos necessários ao batel que a bordo construía. Jorge de Albuquerque Coelho empenhava-se no fabrico dos pregos que pregava ainda quentes nas tábuas do resto da nau Santo António. As relíquias e os santos esculpidos e pintados na proa das naus esconjuravam os demónios e protegiam os nautas contra todos os perigos. Mas não faltaram prisioneiros, náufragos, afogados, despedaçados pelas balas e as espadas ou mortos de pasmo. Empurrados pela pressa da morte, se faltava padre, confessavam-se uns aos outros em altas vozes: Não matarás, matei! Não roubarás, roubei! Não desejarás a mulher do próximo, desejei e tomei! Estes navegadores portugueses têm as pernas arqueadas de tanto sofrer nas tábuas os baldões das vagas. Têm olhos de albatroz. Vêem até ao mais fundo do horizonte. Nas caravelas e nas naus viajavam também passageiros invisíveis: os armadores, os mercadores que fretavam os navios, os seguradores, os contratadores do pau-brasil, do trato dos escravos, o próprio rei a cuja lei mais ou menos obedecem, mesmo que a bandeira da Ordem de Cristo, e não a do rei, ondeie na primeira missa celebrada no Brasil. DA TERRA E DOS HOMENS Os primeiros olhares exprimem espanto, desconfiança, cálculos do proveito. Admiram a terra em vários tons. É de muito bons ares, frios e temperados como os de Entre Douro e Minho. É a mais aprazível que jamais cuidei de ver: não havia homem que se fartasse de olhar os campos e a formosura deles. Os montes parecem formosos jardins e hortas, e nunca eu vi tapeçaria de Flandres tão formosa. Formosa, formosa. É algum tanto melancólica, regada de muitas águas, de rios caudais e do céu; é cheia de grandes arvoredos que todo o ano são verdes, e montuosa, principalmente nas fraldas do mar.

Quando os ameríndios saem da sombra das árvores e caminham pela praia de Porto Seguro, as imagens vivas trazem à memória a nudez bíblica e imaginária de Adão e Eva, cercados pelas bondades do paraíso terreal. Os portugueses, vestidos, sentem-se nus. Olham sem vergonha as vergonhas. É um olhar de homens. Percorre devagar a nudez das ameríndias que não temem comparação com as mulheres da rua Nova de Lisboa e repara que os homens silvestres não são circuncidados, ao contrário dos hebreus. A inocência desta gente é tal, que a de Adão, em vergonha, não seria maior. Um ameríndio nu, coberto de penas, lembra o corpo trespassado de setas de São Sebastião. Portugueses e ameríndios dançam ao som do gaiteiro de Diogo Dias e dum tamboril, de tal maneira confiados «que são muito mais nossos amigos que nós seus». Mais amigos porque os europeus já fazem os seus cálculos: para os convertermos à fé cristã e, portanto, para os usarmos ao nosso serviço, não falta mais do que «entenderem-nos» e não entendermo-nos. Trinta anos volvidos, Pêro Lopes de Sousa preserva a ideia da inocência e da beleza dos ameríndios. Abraçam os portugueses, choram com as suas desventuras e ficam tão contentes de os verem que «queriam sair fora de seu siso». No primeiro diálogo entre Pedro Álvares Cabral e os ameríndios, os europeus usam logo o alfabeto do ouro e da prata. Não obtêm respostas satisfatórias. «Até agora não podemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro; nem lho vimos.» Ainda se mostraram esperançados quando os índios, depois de admirarem o colar de ouro de Pedro Álvares, acenaram para terra. Mas Pêro Vaz de Caminha desconfia que é tomar os desejos pela realidade. «Isto tomávamos nós por o desejarmos; mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque não lhos havíamos de dar.» Nas primeiras viagens, estão já presentes as personagens do futuro: a massa dos ameríndios, senhores da terra; os


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pequenos destacamentos portugueses e europeus; e anónimos, nas equipagens, os africanos. Não têm nome mas estão lá. Até ao final do século XVI, o confronto principal será entre as comunidades ameríndias e os europeus que chegavam nos seus veleiros em busca do pau-brasil e dos escravos. Nos primeiros tempos, a atracção maior provinha das comunidades ameríndias. Pedro Álvares Cabral deixou na terra dois degredados, a que se juntaram dois grumetes fugitivos. O mesmo aconteceu na armada de Martim Afonso de Sousa. João Ramalho, o povoador de Piratininga, vivia rodeado das suas mulheres índias, filhos e netos. No Rio de Janeiro, alguns franceses da França Antárctica adoptaram o viver dos índios, incluindo nalguns casos a prática da antropofagia. Os clérigos concubinavam. O sertão estava cheio de filhos de cristãos, grandes e pequenos, machos e fêmeas que viviam e se criavam nos costumes do gentio, escrevia o padre Manuel da Nóbrega. A partir de meados do século, quando começa a desenvolver-se a nova sociedade, a visão europeia dos ameríndios sofre conotações extremamente negativas, em boa parte devidas à prática da antropofagia, à poligamia e à recusa dos moldes europeus. Manuel da Nóbrega chama-lhes «negros», embora não seja essa a cor da sua pele. Mesmo cristianizados, não perdem de todo a qualidade de negros. A princípio, o padre ainda ridiculariza os seus irmãos de Coimbra que se escandalizavam com a nudez das ameríndias: «por falta de algumas ceroulas não deixa uma alma de ser cristã e conhecer a seu Criador e Senhor e dar-lhe glória». Mas, mais tarde, levanta dúvidas aos letrados do Colégio de Coimbra: «parece que andar nu é contra lei de natura e quem a não guarda peca mortalmente». No Diálogo sobre a Conversão do Gentio, o irmão Gonçalo Alvarez afirma que algumas pessoas avisadas levantavam a questão de saber se os ameríndios eram nossos próximos, duvidando mesmo se seriam humanos. Responde-lhe o irmão Mateus Nogueira, ferreiro pelo ofício: todo o homem é uma mesma natureza e pode conhecer Deus e salvar a sua alma.

O elogio da inocência e a visão negativa prosseguem nos textos jesuíticos. Num desabafo, o padre José Anchieta declara os ameríndios mais próximos da natureza dos animais selvagens que da dos homens. No entanto, o padre Fernão Cardim, que confessava índios e índias por meio de intérprete, considerava-os candidíssimos e com menos pecados do que os portugueses. Esta visão contraditória tem a ver com a maior ou menor resistência dos ameríndios à integração na nova sociedade onde os jesuítas pretendiam desempenhar um papel dominante. «A idade de ouro chegará ao mundo austral», escreve o autor anónimo do poema «De rebus gestis Mendi de Saa». Evidentemente, «quando os povos do Brasil observarem as tuas leis». À MANEIRA DE HARPA O rosto da terra aparece figurado logo em 1502 no mapa português chamado de Cantino que sobre ela pinta papagaios vermelhos. Outros mapas vão desvendando a terra, os índios e o seu trabalho na recolha do pau-brasil. Por volta de 1506, Duarte Pacheco Pereira mede a costa desde a angra de S. Roque, a 3 graus e 30 minutos a sul do equador, até à ilha de Santo Amaro em 28 graus e 30 minutos. Este será o cenário fundamental da nova sociedade no século XVI. E anota já o cabo de Santo Agostinho, o rio de S. Francisco, a aguada de São Miguel, o Porto Real, a Angra de Todos-os-Santos, Porto Seguro, o rio de Santa Luzia, a ilha de Santa Bárbara, o rio dos Reféns, a ilha de Santa Clara, o Cabo Frio, a ilha de Fernão e a ilha de Santo Amaro. Esta notação da costa brasileira liga-se à notação da carreira da Índia: ilha da Ascensão, Angra Formosa e a índica ilha de São Lourenço. Numa cartografia de palavras, escrita pelo ano de 1575, o humanista Pêro de Magalhães Gândavo descreve deste modo a Província de Santa Cruz: «Está situada naquela grande América, uma das quatro partes do Mundo. Dista o seu princípio dois graus da Equinocial para a banda do Sul e daí se vai estendendo para o mesmo sul até quarenta e cinco graus. Está formada à maneira de uma harpa. Pela banda do Norte corre do Oriente a Ocidente e está olhando


a Equinocial. Pela do Sul confina com outras províncias da mesma América, povoadas e possuídas de povo gentílico com que ainda não temos comunicação. Pela do Oriente com o Mar Oceano Áfrico e olha direitamente os reinos de Congo e Angola até o Cabo da Boa Esperança que é o seu opósito. E pela do Ocidente confina com as altíssimas terras dos Andes e fraldas do Peru.» O mar assegurava a unidade do território. O Oceano e os rios eram as estradas naturais, sulcadas no final do século por alguns milhares de embarcações, sem contar os navios grandes e mais pequenos que atravessavam o Mar Oceano. Todas as fazendas se serviam por mar. Não havia engenho que não possuísse quatro ou mais embarcações. Em 1587, só na Baía, podiam juntar-se 1400 barcos, assim distribuídos: 100, de 45 para 70 palmos de quilha, muito fortes, que podiam levar 2 falcões por proa e 2 berços por banda; 800, de 35 a 44 palmos onde pode jogar, no mínimo, 1 berço por proa; 300 barcos, de 34 palmos para baixo, e 200 canoas bem rumadas. No final do século, a nova sociedade ainda ficava presa ao litoral e ao território ligado pelas estradas fluviais. A cunha mais avançada em direcção ao interior era a vila de Piratininga. Devido às condições naturais e à sua posição estratégica que lhe permitia um acesso mais rápido a Lisboa, Pernambuco constituía zona de maior desenvolvimento, seguido pela Baía onde se fixava o Governo-Geral. A capitania de S. Vicente e mesmo a do Rio de Janeiro queixavam-se de dificuldades de escoamento da sua produção por os navios do reino aportarem com menos regularidade. Ao visitar a vila de Piratininga, Fernão Cardim registou que os moradores se vestiam de burel e pelotes pardos e azuis, de pertinas compridas, como antigamente, o que contrastava com as sedas, os damascos e os luxos das mulheres de Olinda. Em 1590, a nova sociedade estendia-se da Paraíba a Santo Amaro e poderia contar, segundo um estudo recente, com 101 705 habitantes, dos quais 30 855 eram portugueses, 28 600 eram índios escravos ou vivendo nos aldeamentos dos jesuítas, e 42 250 africanos. As capitanias mais

povoadas eram a de Pernambuco com 31 000 habitantes, a da Baía com 29 850, e a do Espírito Santo com 11 900. O Rio de Janeiro, com 5240 moradores, distanciava-se de São Vicente/Santo Amaro com 10 100, e do Espírito Santo, com 7595. Os números indiciam uma baixa integração dos ameríndios na nova sociedade, embora no total dos portugueses se contassem muitos mestiços de mães ameríndias e africanas. A maior parte dos habitantes de Piratininga eram filhos de índias e de portugueses. Gabriel Soares de Sousa escreveu que a vila de Olinda e o seu termo poderiam pôr em campo mais de 3000 homens de peleja, entre os quais 400 de cavalo, a que juntariam 4000 a 5000 escravos de Guiné e muitos gentios da terra. Pelo seu lado, em 1583, Fernão Cardim atribuiu à Baía, certamente à cidade e ao termo, 3000 vizinhos portugueses, 8000 índios cristãos e 3000 a 4000 escravos da Guiné. Pernambuco liderava a produção açucareira, a Baía constituía o centro político do território e, porventura, a principal praça mercantil e financeira, como sugerem os valores das letras de câmbio do mercador Miguel Dias Santiago. As letras da Baía sobre Lisboa, entre 1596 e 1599, elevavam-se a 7 925 398 reais, enquanto as de Pernambuco sobre Lisboa, entre 1599 e 1601, se ficavam pelos 3 272 099. Por outro lado, as letras da Baía sobre Pernambuco, ainda nos anos de 1596 a 1599, somaram 1 055 440 reais, enquanto as de Pernambuco sobre a Baía, entre os anos de 1599 e 1601, se ficaram pelos 201 500. O mercador movimentou ainda, entre 1599 e 1601, 434 760 reais de Pernambuco sobre a praça do Porto e 55 000 reais de Pernambuco sobre Viana. Demograficamente, que outra cidade, com excepção de Lisboa, e do ponto de vista financeiro, com excepção de Lisboa e Porto, se poderia ufanar do peso humano e de fortunas de 10 000 a 80 000 cruzados, incluídos 100 a 300 escravos, como alguns moradores de Olinda e da Baía? Gândavo lá tinha as suas razões quando incitava os portugueses a demandarem o Brasil: Deus tinha de há muito reservada esta terra à Cristandade.

PARA SABER MAIS:

Frédéric Mauro, Le Portugal, le Brésil et l’Atlantique (1570-1670), Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1983

Gabriel Soares de Sousa, Notícia do Brasil, Lisboa, Publicações Alfa, 1989

Jorge Couto, A Construção do Brasil, Lisboa, Edições Cosmos, 1995

Pêro de Magalhães Gândavo, História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, ed., fac-similada, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1984

Pêro Vaz de Caminha, Carta a El-Rei D. Manuel, ed. de M. Viegas Guerreiro e Eduardo Nunes, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974


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Carta do Novo Mundo

Ao serviço de D. Manuel, Américo Vespúcio realizou uma viagem ao litoral sul-americano, em 1501, tendo desembarcado em Terra Firme, algures entre a Venezuela e o Brasil, e permanecido 27 dias com os índios do Brasil. Ressaltam, da carta que escreveu ao chegar a Lisboa, o deslumbramento pela Natureza edénica e a surpresa por tanta diversidade. Américo Vespúcio escreve, de Lisboa, a Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici, em Florença


[...] Esta tierra es muy amena y llena de infinitos árboles verdes y muy grandes, y nunca pierden la hoja, y todos tienen olor suavísimo y aromático, y producen infinitisimas frutas, y muchas de ellas buenas al gusto y salutíferas al cuerpo. Los campos producen mucha hierba, flores y raíces muy suaves y buenas, que alguna vez me maravillaba del suave olor de las hierbas y flores, y del sabor de estas frutas y raíces, tanto que entre mí pensaba estar cerca del Paraíso Terrenal: entre todos estos elementos hubiera creído estar cerca de él. ¿Qué diremos de la cantidad de los pájaros y de sus plumajes y colores y cantos, y cuantas especies y de cuanta hermosura (no quiero alargarme en esto porque dudo ser creído)? ¿Quién podría enumerar la infinita cosa de los animales silvestres, tanta copia de leones, onzas, gatos, no ya de España, sino de las antípodas, tantos lobos, cervales, babuinos y macacos de tantas suertes y muchas sierpes grandes? Y vimos tantos otros animales, que creo que tantas suertes no entrasen en el arca de Noé, y tantos jabalís y corzos y ciervos y gamos y liebres y conejos; y animales domésticos no vimos ninguno. Volvamos a los animales racionales. Encontramos toda la tierra habitada por gente toda desnuda, así los hombres como las mujeres, sin cubrirse vergüenza ninguna. Son de cuerpo bien dispuesto y proporcionados, de colores blancos y de cabellos largos y negros, y de poca barba o ninguna. Mucho trabajé para conocer su vida y costumbres, porque 27 días comí y dormí entre ellos, y lo que conocí de ellos es lo que sigue enseguida. No tienen ni ley ni fe ninguna, viven de acuerdo a la naturaleza, no conocen la inmortalidad del alma. No tienen entre ellos bienes propios, porque todo es común; no tienen límites de reinos ni de provincia, no tienen rey ni obedecen a nadie: cada uno es señor de sí mismo. No administran la justicia, la que no les es necesaria, porque no reina entre ellos codicia. Habitan en común en casas hechas a la manera de cabañas muy grandes, y para gentes que no tienen hierro ni otro metal ninguno, se pueden considerar sus caba-

ñas, o bien sus casas, maravillosas, porque he visto casas de 220 pasos de largo y 30 de ancho, y construidas con arte, y en una de estas casas hay 500 o 600 almas. Duermen en redes tejidas de algodón, colgadas en el aire sin otra cobertura; comen sentados en el suelo: sus viandas son muchas raíces y hierbas y frutas muy buenas, infinito pescado, gran copia de mariscos, erizos y cangrejos de mar, ostras, langostas, camarones, y muchas otras cosas que produce el mar. La carne que comen, máxime la común, es carne humana, del modo que se dirá. Cuando pueden tener otra carne de animales o de aves, se la comen, pero toman pocos, porque no tienen perros, y la tierra está muy poblada de bosques, los cuales están llenos de fieras crueles, y por eso no acostumbram internarse en los bosques, si no es con mucha gente. [...] En cuanto a la disposición de la tierra, digo que es tierra muy amena y templada y sana, porque durante el tiempo que anduvimos por ella, que fueron 10 meses, no sólo no murió ninguno de nosotros, sino que pocos se enfermaron: como he dicho, ellos viven mucho tiempo, y no sienten enfermedad de peste ni de corrupción del aire, excepto de muerte natural o causada por su mano o sofocamiento; y en conclusión, los médicos tendrían un mal pasar en tal lugar. Encontramos infinito brasil y muy bueno para cargar cuantos navíos están hoy en el mar, y sin costo alguno, y lo mismo de cañafístula. Vimos cristal e infinitos sabores y olores de especiería y droguería, pero desconocidas. Los hombres del país dicen sobre el oro y otros metales y droguerías muchos milagros, pero yo soy de aquellos de Santo Tomás: el tiempo hará todo. [...] Lisboa, 1502

Amerigo Vespucci, Cartas de viaje, Madrid, Alianza Editorial, 1986


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Desassossego de uma mãe ausente

Os emigrantes ibéricos na América mantinham com os amigos e familiares ausentes uma relação afectiva reafirmada nas cartas que circulavam para cá e para lá. Para nós, leitores, desvendar o mundo dos afectos e das inquietações desses homens e dessas mulheres que partiram movidos pela fortuna, mas desejosos de reagrupar a família, é uma viagem ao fundo das emoções. Eis uma carta de uma mãe espanhola, emigrante no Panamá, para a filha, recém-casada com um livreiro em Valladolid.


Panamá, 9 de Maio de 1578 Amados hijos: Vuestras cartas he recibido, las unas con mi hermano Hernando Pecero y las otras con Juan Jiménez del Río, el cual está al presente en esta ciudad y os escribe. En lo que, hija, me enviáis a decir habéis pasado y pasáis mucho trabajo, yo estoy informada que será así, y duéleme tanto y hame dolido que no sé cómo lo signifique. Para eso nacimos en este mundo, para pasar trabajo, y que si yo significase los que he pasado, son hartos, pero con ser las gentes buenas y virtuosas Dios se acuerda de ellas a las mayores necesidades. Pésame que vuestro tío haya usado tantas crueldades con vos; débelo haber hecho no haber vos sabido llevarle la voluntad. Como quiera que sea, es vuestra sangre, y habéis de sufrirle como vuestro padre, pues no conociestes otro. A las buenas y a los buenos da Dios trabajos en este mundo, y se acuerda de ellos. Y así, hija mía, os ruego que no tengáis odio con vuestro tío, sino que lo obedezcáis como a padre, y le tengáis como a señor, si él no hiciere lo que debe o no lo ha hecho. Es menester que perdáis ese rencor, y no os acordéis de nada, sino entender que Dios os hace mucha merced, y que no naciesteis en su hucia [?], sino en la de Dios, que es padre de todos. Escribísme sois casada con un librero, hombre de bien, y que estáis pobre y pasáis trabajos. De que vos tengáis buen marido me da mucho contento. Que no sea rico, si es virtuoso y hombre de bien y buen cristiano, Dios le hará la hacienda, mayormente que, pues Dios me ha dado vida hasta saber de vosotros, espero en Su Divina Majestad me la dará hasta veros muy bien remediados.Y así es mi determinación que, vista ésta, procuréis que vuestro marido saque licencia del Consejo Real para poder venir a estas partes y al Perú, y, sacada, vendáis las heredades que vuestro tío os dio, y os vengáis hasta Sevilla, donde es mi voluntad de que estéis hasta que tengáis orden de lo que habéis de hacer.Y para esto os escribirá mi marido y vuestro señor, y os enviará alguna plata. Lo que os enviare tendréis en mucho, y sabréislo gobernar asentándolo a

las espaldas de vuestra carta de dote, y escribiendo luego el recibo de ello. Y aunque sea poco, tenedlo en mucho, porque quien os ha de dar siempre y remediaros como a hijos, es menester que vaya sabiendo vuestro marido lo que vale el real. Y venidos acá, Dios queriendo, os remediaremos y daremos orden en vuestras vidas.Y para esto escribe el señor Juan del Río una memoria cómo os habéis de guiar, para que no erréis en lo que os conviene y cumple para vuestro buen aviamiento. Dios lo encamine como puede y os me deje ver con bien, y veros y remediaros y debajo de mi ala. Esta sirva para vos y para vuestro marido.Yo os ruego, hija, que, pues habéis sido mujer honrada, y tales nuevas tengo de vos, que tengáis siempre delante de los ojos esta honra, queriendo siempre bien a vuestro marido, ausente y presente, y estimándole en mucho. Y a él digo por ésta que le tengo por hijo y me huelgo esté casado con vos, y le ruego os trate bien y honradamente, apartándose de malas compañías, y procurando de hacer como hombre honrado.Y haciéndolo así, lo tendré en mucho y lo estimaré, aunque sea más pobre que puede ser, porque las virtudes sobrepujan a las riquezas. Así que, hijos, no os tengo más que os avisar, sino que, gloria a Nuestro Señor, tengo salud, y vuestro señor padre también la tiene, y vuestros hermanos y todos se os encomiendan y ruegan a Dios os tenga de su mano y os me deje ver con bien. Decirme tenéis un hijo y nieto mío, y no me enviáis a decir cómo se llama ni qué edad tiene. Avisarme eis de todo y escribiéndole a vuestro señor padre, y respondiéndole. Y con tanto Nuestro Señor os me guarde por muchos años, amén. De Panamá, y a 9 de mayo de 1578 años, vuestra madre, que vuestra honra y descanso desea, Francisca de Trujillos Vuestra hermana os quería enviar unas joyas de oro: por no haber de quien fiarlo, no os lo envía. Cuando vengáis acá lo gozaréis. (Para los muy deseados hijos Diego de Torres y Juana de Trujillos, en la calle de la librería, en Valladolid)

Enrique Otte, Cartas Privadas de Emigrantes a Indias (1540-1616), Sevilla, EEHAA, s.d.


A INVENÇÃO DA AMÉRICA

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Nuestra America es vasta y intricada Pablo Neruda*


Entre los invasores de Méjico –oscuros aldeanos, braceros del campo, forzados, aventureros y fugitivos – había un joven soldado llamado Bernal Díaz del Castillo, el cual escribió sus memorias en edad ya bastante avanzada, cincuenta años más tarde, siendo consejero municipal en la América Central. He visto, he tenido en mis manos y he leído el enorme manuscrito, asegurado con una cadena a una mesa, al alcance de todos, en el municipio de Guatemala. Es curioso ver encadenado ese gran libro, escrito con una caligrafía clara y esmerada, quizá por alguno de aquellos copistas que abundaban en España, dictado posiblemente por el viejo soldado, desde su sillón o desde el fondo de la cama, pero, desde luego, desde el fondo, de la increíble verdad. Bernal, a pesar de su edad, tenía una memoria que podía facilitarnos los nombres de los caballos y de las yeguas y de cada uno de los hombres, que siguieron a Hernán Cortés. [...] Aunque discutible, lo cierto es que aquel esplendor fue aniquilado por la sangre y las sombras. Hombres y vestiduras, templos y construcciones, dioses y reyes, todo fue devorado, destruido y sepultado. La Conquista fue un gran incendio. Los conquistadores de todos los tiempos y todas las latitudes reciben un mundo vasto y resonante, dejan un planeta cubierto de cenizas. Siempre ha sido así. Nosotros los americanos, descendientes de aquellas vidas y de aquella destrucción, hemos tenido que excavar, para buscar debajo de las cenizas imperiales las gemas deslumbradoras y los colosales fragmentos de los dioses perdidos. O también hemos tenido que mirar a las alturas: a veces una torre de los antiguos tiempos, venciendo el miserable paso de los siglos, eleva su orgullo sobre el continente. Porque yo distingo el arte subterráneo y el arte de los espacios abiertos de los antiguos americanos. Y ésta es mi propia manera de conocerlos y comprenderlos. Cuando, en años ya lejanos, vivía exiliado en la Ciudad de Méjico, vinieron dos extraños visitantes con la pretensión de venderme su mercancía: traían un voluminoso paquete, envuelto en pringoso papel de periódico, que desatamos y abrimos allí, en mi mesa de despacho. Había centenares de figurillas de oro, acaso chimúes, chibchas o chiriquíes: un tesoro que palpitaba sobre mi pobre mesa con

el fulgor amarillo del pasado. Eran pendientes, anillos, pectorales, insignias, figuras de pececillos, de extrañas aves, eran estrellas abstractas, círculos, líneas, discos, mariposas. Por aquella maravilla me pidieron doce mil dólares, cantidad que yo no poseía. Este tesoro lo habían encontrado trabajando en una carretera, entre Costa Rica y Panamá. Y se apresuraron a sacarlo del país para venderlo en cualquier lugar. Abandonaron mi casa con su tesoro bajo el brazo, envuelto en periódicos viejos, y ya no he sabido a donde fueron a parar aquellos peces, aquellas mariposas, aquellos destellos de oro. [...] Nuestra América es vasta e intrincada. Y a lo largo de su línea espiral, a lo largo de sus desmesurados ríos, debajo de los montes y en los desiertos, e incluso en las calles de las ciudades recientemente excavadas y puestas al descubierto, aparecen todos los días estos testimonios de oro. Son estatuillas antropomorfas, aztecas, olmecas, quimbayas, incas, chancayas, mochicas, nazcas, chimúes. Son millones de vasijas de cerámica y de madera, enigmáticas figuras de turquesas, de oro, trabajadas, tejidas: son millones de obras maestras rituales, figurativas, abstractas. Son escuelas y disciplinas, estilos excelsos, que representan la crueldad, la adoración, la humillación, la tristeza, la locura, la verdad, la alegría. Todo un mundo que palpitaba con las grandes fiestas desaparecidas en torno a los enigmas de la vida y de la muerte, con los acontecimientos que alimentarán la poesía y la teogonía, en homenaje a la resurrección y consagración de la primavera, con su infinita sabiduría sexual, con el goce de la tierra en todas sus tentaciones y sus frutos, o ante el misterio del silencio absoluto y de las posibles resurrecciones. Nuestros museos de Méjico, de Colombia y de Lima están repletos de estas figuras, que jamás fueron degradadas ni aniquiladas bajo tierra. Precipitadamente fueron arrebatadas, sepultadas a lo largo de un camino cualquiera, fueron excomulgadas en todos los púlpitos coloniales, y al igual que sus creadores fueron perseguidas por centuriones y matarifes. Mas, debajo de la tierra y del agua, tras siglos de oscuridad, continúan apareciendo, continúan dando su imperecedero testimonio de múltiple grandeza.

* Excerto do texto escrito por Neruda para a apresentação do livro Civilización Andina, de Roberto Magni e Enrique Guidoni, Valência, Mas-Ivars, 1972


A SEDE DO SUL

Pisco Sonia Tello Rozas

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Baco. Jan van der Straet [BN, EA 15 (42) P.]

Nos últimos anos, com alguma indolência, eclodiu uma guerra entre produtores e comerciantes de aguardente chilenos e peruanos. Não se trata da Guerra do Pacífico em que os chilenos saíram airosos e triunfantes, é a Guerra do «pisco». Até agora não houve mortos nem feridos. Mas as batalhas sucedem-se em distintos cenários e em regiões que não respeitam os espaços tradicionais. Falemos delas. Há já muito tempo que o Chile registou nos organismos internacionais a palavra «pisco» como produto chileno. A ousadia tinha um objectivo: comercializar um produto, neste caso a aguardente de uva com as características químicas definidas segundo os critérios requeridos pela legislação internacional em matéria de produção vinícola. Não se falou muito no Peru quando o país vizinho obteve o galardão. Mas, pouco a pouco, os produtores peruanos foram tomando consciência do que se estava a passar. E, de repente, lançaram-se no campo de batalha com a única arma que tinham ao seu alcance: a multicentenária tradição de fabrico de aguardente de qualidade indiscutível e de excelente sabor. E nesse pé de guerra estamos. O certo é que a palavra «pisco» é peruana, isto é, de origem quéchua, que pode ser traduzida por «pássaro». Mas é também o nome da cidade e do porto de mar que estão situados a sul da capital, Lima. O porto de mar, Pisco, deu o nome ao produto exportado, a aguardente, e as terras da região, o húmus necessário para o sabor e os cheiros específicos dos mostos de uva. Ao transformarem o «pisco» em produto chileno, os


A SEDE DO SUL

Tinalhas de pisco com formas prĂŠ-colombinas

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vizinhos do Sul, de certo modo, invadiram um território com nome e tradição. Mas não conseguiram o que, geralmente, se ganha numa batalha: a honra e a fama. Os últimos acontecimentos são prova disso. E o «pisco» peruano ganhou ultimamente vários concursos internacionais em que não faltaram concorrentes famosos e reconhecidos. Este ano, na Praça de Bruxelas e também em França. Tenho a impressão que foi o sabor tão fácil de reconhecer do «pisco» peruano que derrotou a química falácia do produto chileno, que se vende já elaborado em garrafas pouco elegantes. O marketing não é todo-poderoso. E, neste caso, o gosto e o sabor foram capazes de derrotá-lo. A uva «quebranta» é deliciosa. Dá um perfume muito especial ao mosto. A uva «itália» é uma Nossa Senhora. Das adegas de Ocucaje, saem uns aromas nunca vistos, ardentes e voluptuosos. E os alambiques das vinhas Tacama destilam umas aguardentes, sendo a mais famosa a que tem o nome de Demónio dos Andes, para honrar o que foi um dos primeiros conquistadores que se revoltou contra o próprio rei de Espanha. Não há, nos anais do «pisco» peruano, aguardentes velhas ou, pelo menos, não são muito conhecidas. Existem algumas fabricadas em alambiques artesanais. As mais conhecidas e populares vêm do Sul, como aliás toda a produção pisquenha. Uma região que confina com a fronteira chilena é reconhecida como famosa nesses produtos envelhecidos em casco de carvalho: Moquegua. Era uma região famosa durante a Colónia e, no século XVII,

já produzia uva de grande qualidade. Diz-se que os vinhos generosos, que então se produziam, competiam com os bons vinhos de Jerez de la Frontera. Com a filoxera, desapareceu a maior parte da produção. Já avançado o século XX, os vinhedos voltaram à região e, hoje em dia, há excelentes mostos moqueguanos. Com eles renasceram também as antigas tradições de aguardentes velhas, com laivos de doçura e fragrâncias de mel. O certo é que o «pisco» acabou por impor-se ao Peru e ao mundo. Há tradições literárias que relatam como as festas tanto em Lima como nas regiões do Sul, Ica, Arequipa, Moquegua, contavam sempre com a presença inevitável da aguardente pisqueira. Ricardo Palma, o grande contista peruano do século XIX, recorda-se das grandes festas do Natal em que a bebida por excelência era o «pisco». Os serões terminavam sempre com dança e «pisco». E como as autoridades decidiram um dia aplicar um imposto à aguardente, o povo revoltado cantou: «Santa Rosa de Lima,/¿Como consientes/que un impuesto le pongas/al aguardiente?» Hoje já vai sendo costume oferecer aos convidados um bom «pisco sour» antes que cheguem os pratos de comida. E também é frequente ver tomar um «pisquinho» após as refeições, como na Europa um bom cognac ou uma aguardente velha com o café. É uma boa maneira de terminar com chave de ouro um saboroso ágape. E com o «pisco» a saúde está garantida. Assim canta o povo: «Eso es lo que no se explica/no miro claro, estoy bizco;/pero la razón me indica/que nadie se muere en Ica/estando el remedio en “pisco’’.»


SINAIS DE FUMO

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Dos tabacos ou fumaças dos índios no Haiti no século XVI segundo um cronista espanhol

Os sinais de fumo surpreenderam os navegadores espanhóis logo nas Antilhas. Fumar era um devaneio dos índios, para os europeus um vício. Os efeitos inebriantes das fumaças fizeram do tabaco um produto valioso para colonizadores da América Central e do Norte, numa perfeita e lucrativa conjugação do ócio com o negócio. O cronista espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo, em 1535, descreve o tabaco e os rituais do fumo no Haiti.


Usavam os índios desta ilha, entre outros vícios, um muito mau, que é o de tomar fumaças, que eles chamam tabaco, para sair do sentido. E isto faziam com o fumo de certa erva que, ao que pude entender, é da qualidade do meimendro; mas não daquele feitio ou forma, segundo parece, porque esta erva é um talo ou pimpolho com quatro ou cinco palmos, ou menos, de altura, e com umas folhas largas e grossas e macias e velosas, e o verdor assemelha-se algo à cor das folhas da língua-de-vaca (ou buglossa, assim chamada pelos herbolários ou médicos). Esta erva a que me refiro, de alguma maneira ou género, é semelhante ao meimendro. A qual tomam desta maneira: os caciques e homens principais tinham uns pauzinhos ocos, do tamanho de um jeme*, ou menos, da grossura do dedo mindinho, e estes canudos tinham dois canhões respondentes a um, e tudo numa peça. E punham os dois nas narinas, e o outro no fumo e erva que estava ardendo ou queimando-se; e estavam muito lisos e bem lavrados. E queimavam as folhas daquela erva, amarrotadas ou envoltas, do modo que os pagens cortesãos costumam deitar as suas fumaças; e aspiravam o fumo para si, uma e duas e três e mais vezes, quanto o podiam porfiar, até que ficavam sem sentidos, muito tempo, estendidos no chão, ébrios, ou adormecidos de um grave e pesado sono. Os índios que não tinham aqueles pauzinhos tomavam aquele fumo com uns cálamos ou caninhas de carriços, e a esse dito instrumento com que tomam o fumo, ou as ditas caninhas, chamam os índios tabaco, e não a erva ou o sono que os toma (como pensavam alguns). Esta erva, tinham os índios por coisa muito apreciada e criavam-na nas suas hortas e lavouras, para o dito efeito; dando-se a entender que tomar aquela erva e defumadoiro não só era coisa sã, mas também coisa santa. E logo que o cacique ou principal cai no chão, tomam-no as suas mulheres (que são muitas) e deitam-no na sua cama ou rede, se ele assim o mandou antes de cair; mas se não o disse antes de cair, não quer senão que o dei-

xem ficar assim, no chão, até que lhe passe aquela embriaguez ou adormecimento. Eu não posso pensar que prazer se obtém de tal acto, a não ser da gula do beber, que primeiro o fazem antes que tomem o fumo ou o tabaco; e alguns bebem tanto de certo vinho que eles fazem, que antes que se defumem caem bêbedos; mas quando se sentem cansados e fartos, acodem a tal perfume. E muitos também, sem que bebam demasiado, tomam o tabaco e fazem o que é dito, até caírem de costas no chão, mas sem náuseas, só como homem adormecido. Sei que alguns cristãos já o usam, em especial alguns que estão tocados pelo mal das bubas, porque dizem que esses, no tempo em que estão assim enlevados, não sentem as dores da sua enfermidade. Não me parece que isto não seja outra coisa senão estar morto em vida, aquele que tal faz; o qual tenho por pior que a dor de que se escusam, pois não se curam com isso. Presentemente, muitos negros dos que estão nesta cidade e em toda a ilha tomaram o mesmo costume e criam nas fazendas e herdamentos dos seus amos esta erva, para o que foi dito, e tomam as mesmas fumaças ou tabacos; porque dizem que quando deixam de trabalhar e tomam o tabaco se lhes tira o cansaço. Aqui me parece que quadra um costume vicioso e mau que a gente da Trácia usava entre os seus criminosos vícios, segundo Abulensis escreve sobre Eusebio De los tiempos, onde diz que têm todos por costume, varões e mulheres, de comer à volta da fogueira, e que folgam muito de estar embriagados, ou de o parecer; e que como não têm vinho, tomam sementes de algumas ervas que há entre eles, as quais, lançadas nas brasas, dão de si um tal aroma que embriagam todos os presentes, sem beber. Em meu parecer, isto é o mesmo que os tabacos que estes índios tomam.

Traduzido de Gonzalo Fernández de Oviedo, História General y Natural de las Indias, Libro V, Cap. II, Sevilha, 1535

* Distância máxima entre o polegar e o indicador


ESTÁDIO DE SÍTIO

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Estádio Centenário de Montevideu Arón Mazas

Nos últimos anos do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, começou a desenvolver-se no Uruguai uma actividade que depressa ocuparia um lugar central na vida social e cultural do povo uruguaio. O futebol ultrapassou o âmbito desportivo para se tornar um elemento-chave da história do país.

Rapidamente, o Uruguai afirmou-se como uma inigualável potência nesta modalidade, vencendo os Jogos Olímpicos de Colombes em 1924 e de Amesterdão em 1928.Tendo em conta que nessa época os campeões olímpicos se consideravam como campeões do mundo, o Uruguai chega à década do 30 sendo bicampeão mundial. Com o início de uma nova década e aproximando-se o centenário do Juramento da Constituição de 1930, que melhor maneira de festejar este feito histórico que organizando o primeiro mundial de futebol em Montevideu?! O país dos campeões olímpicos apostaria na organização

de um «grande» mundial encarregando-se de todos os gastos. No começo do ano de 1930, o Ur uguai concentrou-se no «seu» mundial que, naturalmente, teria de se jogar num grande estádio. Assim que obteve a responsabilidade da organização do mundial, deu-se início à construção do mítico e grande Estádio Centenário. Foi uma obra inovadora em termos de arquitectura desportiva pela sua disposição quase circular em volta do relvado. O autor da obra, o arquitecto Juan Scasso, confessou ter-se inspirado nos teatros gregos clássicos no que respeita ao aproveitamento dos declives naturais.


A monumental obra é ainda hoje um símbolo iniludível da cidade de Montevideu. A «grande» tribuna olímpica é toda uma «tribuna cultural» com o seu museu do futebol e uma escola pública. Para além dos espectáculos desportivos, dentro do estádio têm-se realizado grandes concertos que marcaram a história da vida cultural do país: Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, «El Gusto es nuestro» (Serrat, Ana Belén, Victor Manuel e Miguel del Río), «Los Olimareños» e Mercedes Sosa, entre outros. O MUNDIAL DE 30 A seleção uruguaia estreou-se no Mundial no dia em que se comemorou o centenário da Constituição, em 18 de Julho de 1930. O primeiro jogo dos comandados pelo «grande capitão» José Nasazzi foi contra o Peru, tendo os «celestes» triunfado por um 1-0, com golo de Héctor, «el manco Castro». No jogo seguinte, venceram a Roménia por 4-0, com golos de Dorado, Héctor Scarone, Anselmo e «o basco» Cea. Depois, a Jugoslávia seria esmagada por um concludente 6-1, com golos de Cea, Anselmo e Iriarte. Na grande final, perante um mar de chapéus de feltro que inundava as bancadas, a selecção uruguaia disputou o clássico do Rio da Plata com a Argentina: o Uruguai arrebatou a taça ao vencer por 4-2, graças aos goleadores Pablo Dorado, Cea, Iriarte e Castro. A imprensa europeia quase ignorou a façanha dos rioplatenses, ofendida com o fulgor do melhor futebol do mundo. A galeria de honra dos futebolistas uruguaios era constituída por operários e boémios que fizeram da camisola azul-celeste o seu estandarte de glória: o «Ma-

riscal» Nasazzi (capitão das gestas de Colombes 1924, Amesterdão 1928 e Montevideu 1930), cortador de pedras de mármore, várias vezes campeão sul-americano e uruguaio com o Nacional de Montevideu, dentro do campo mandava, gritava e atemorizava os rivais; José Leandro Andrade, músico de Carnaval e engraxador, maravilhou o mundo não só pelo seu futebol criativo, mas também por ser o primeiro jogador negro visto e admirado na Europa; Lorenzo Fernández, o grande «caudillo» do Peñarol daquele tempo, atemorizava de tal modo os seus adversários que estes não tinham coragem de olhá-lo de frente, após o primeiro embate; Héctor Scarone, conhecido como o Gardel do futebol, foi considerado o primeiro «melhor jogador do mundo» e nunca falhou um penálti; Héctor Castro era manco e nos cantos apertava o estômago dos guarda-redes com o coto; Pedro Cea, cortador de gelo, era o preparador físico da equipa; Pedro Petrone, hortaliceiro, etc. Neste mítico estádio, o Uruguai sagrou-se quatro vezes campeão sul-americano de futebol (1942, 1956, 1967 e 1995), uma vez campeão sul-americano juvenil (1979) e campeão do Mundialito de 1980-81. No seu relvado desfilaram as grandes equipas do Peñarol (1960, 1961, 1966, 1982, 1987) e do Nacional (1971, 1980, 1988) vencedoras da Taça Libertadores da América. «EL NEGRO JEFE» E A IDIOSSINCRASIA DO MARACANÃ O dia 16 de Julho de 1950 tornou-se uma data histórica para o Uruguai – a vitória dos

«celestes»sobre o Brasil por 2-1, em terreno brasileiro, num Maracanã a abarrotar com 200 000 espectadores (a maior multidão alguma vez vista num campo de futebol) –, constituindo uma referência incontornável na identidade da nação. O grande capitão daquela equipa, Obdulio Varela, «el negro jefe», construiu a maravilhosa vitória. Logo que o Brasil fez 1-0, temia-se uma avalancha de golos, mas Obdulio fez arrefecer os corações brasileiros. Conta-se que o «negro jefe» disse aos seus rapazes «... los de afuera son de palo» e, a partir daí, a «guerra» recomeçou e o Uruguai deu a volta ao resultado. OUTRAS LENDAS DO FUTEBOL Pelo Centenário passaram outros fabulosos jogadores que marcaram a história do futebol mundial: Roque Gastón Maspoli, Anibal Paz, o «mono» Gambetta, Julio Pérez, Walter Gomes (ídolo no River Plate argentino onde nasceu a frase «la gente ya no come por ver a Walter Gomes»), Jorge Gonçalvez, Luis Ubiñas, Montero Castillo, «cien gramos» Rodriguez, Roberto Matosas, Ladislao Mazur-kiewicz, etc. Inesquecíveis avançados do Peñarol: Ghiggia, Hohbreg, Miguez, Schiaffino (considerado o melhor estrangeiro da história do Milão de Itália e um dos melhores jogadores do mundo) e Vidal, nas décadas de 40-50; Abbadie, Sacia, o equatoriano Spencer, Pedro Rocha e o peruano Joya, na década do 70; e do Nacional: Ciocca, Castro, o argentino Atilio García, Porta e Zapirain na década do 40, e Cubillas, Espárrago, o argentino Luis Artime, Ildo Maneiro e Morales na década de 70.


SABORES PRINCIPAIS

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Da canjica ao bacalhau. Uma arqueologia dos hábitos alimentares de uma família portuguesa nas Minas Gerais setecentistas José Newton Coelho Meneses


Portuguesa, indígena, africana, com influência paulista e de outras partes da América portuguesa, a comida mineira tem herança ampla. Se nos primeiros tempos da ocupação territorial das Minas do Ouro os mineiros tinham «sua melhor bodega nos matos e nos rios», como nos informa o mestre Sérgio Buarque de Holanda, no decorrer do século XVIII a comida da região vai ampliando e diversificando sua base alimentar, fundamentada em uma produção mais diversa e no acesso a produtos de outras regiões do espaço colonial português na América e da Europa. A «civilização do milho», aludida pelo grande historiador acima citado, transforma-se e diversifica-se com a sedentarização dos habitantes e com a fixação das populações nos arraiais e nas vilas mineiras. Naturalmente que não se perderam os costumes dos primeiros tempos: continuaram a ser consumidos os produtos do milho e os da mata. Angu, milho verde em espiga (cozido ou assado), pipoca, curau, pamonha, farinha («o verdadeiro pão da terra»), canjica grossa, canjiquinha, cuscuz, catimpuera, aluá e jacuba, originários do milho, além do broto de samambaia, do palmito, das caças e dos peixes, do mel de abelhas e outros produtos dos matos continuam a freqüentar a mesa dos habitantes das Minas, associando-se àquela maior oferta de alimentos e, ainda, amalgamando-se mais perfeitamente aos costumes reinóis e aos de índios e de africanos. O milho, entretanto, não deixa de ser o alimento mais consumido e de modo mais democrático freqüenta a mesa de pessoas de posse e do homem do povo, como nos prova o costume de comer angu de fubá que, de alimento destinado à escravaria, passa à mesa de todos. Mas não podemos nos esquecer que o homem português e sua família não abdicaram totalmente de seus costumes alimentares. Além disso, com o tempo, encontraram na produção local produtos que satisfizessem o gosto por comestíveis de origem animal, baseados em pratos da tradição portuguesa e da sua influência da cozinha francesa. Esses pratos adquiriram maior complexidade à medida que se jun-

tavam diversos «adubos» à carne de porco, de boi, de carneiro, aos pombos, codornas, pacas e frangos, além das amêndoas, azeites doces e ovos em quantidade, porque comida portuguesa que se preze não os dispensa. Podemos inventariar a mesa de D. Anna Perpétua Marcelina da Fonseca, chefe de uma família portuguesa nas Minas Gerais. D. Anna era viúva do Dr. Luiz José de Figueiredo, homem que, em vida, teve posses e influências no Tejuco (hoje Diamantina). Ele morreu em 1793 e sua viúva e inventariante foi cuidadosa em fazer a relação de Despesas de Mantimentos no período de julho de 1793 a outubro de 1796, Nas Minas Gerais, quarenta meses em que se desenrolou o a base alimentar processo de Inventário post mortem do das famílias abastadas marido. Da mesma forma, D. Anna lis- e das pobres tou em outro documento anexo ao In- se distinguia pouco. ventário do marido, os Lucros que tem tido a Os modos à mesa Erança, no mesmo período. Assim, nos é que denotavam informa sobre a produção de alimentos em suas ter- as distinções entre ras de lavoura e dos produtos que ela, as categorais sociais por ter produção própria, adquiria em menor quantidade no comércio local. A lista de despesas arrola 42 itens de consumo distinguindo os produtos «do Reino» e os «da terra», possibilitando-nos evidenciar a procedência dos mantimentos, a maior parte produzida na própria região do Tejuco. A produção «da roça» da família concorria para minorar em muito as despesas com a aquisição de produtos no mercado local. Incluíam-se aí o feijão, o arroz, o milho e a sua farinha, carne de boi, leite, hortaliças, algodão (que se mandava para fiar), azeite para iluminação, lenhas, carvões e sebo para sabão. O consumo do arroz,


SABORES PRINCIPAIS

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claramente percebido, contraria as interpretações tradicionais que não o colocam como hábito alimentar dos mineiros, no período. A dieta cotidiana no domicílio de D. Anna apresentava variações mensais. O consumo de peixe fresco, a título de exemplo, crescia durante os períodos que incluem os dias de jejum, notadamente os meses de março e de abril, correspondentes ao período da quaresma. O mesmo acontece com o bacalhau que é adquirido, basicamente, nos meses de março, abril e dezembro, ou, eventualmente, como compra «para as sextas e sábados». Já a carne Mineira desde de porco, seus miúdos e o toucinho são os tempos que Minas compras cotidianas, o que confirma-nos Gerais era Portugal, o uso do toucinho não só como compode diversos a mesa dos mineiros nente pratos das pessoas de ou dos escravos tem gosto e tradição posse e de pobres (no feijão e em «torrespaulista, africana, mos», principalmente), mas como ingreindígena, de tantas partes diente na cocção de cereais, tubérculos e da América portuguesa e, hortaliças e, também, como meio de consobretudo, de Portugal servação das carnes. A mandioca, mesmo não sendo um alimento preferencial como na região litorânea, era consumida como farinha ou cozida. A família de D. Anna Perpétua adquiriu pouca farinha de mandioca, apenas em dois meses dos quarenta que compõem a listagem. Podemos admitir que, nas Minas Gerais, a base alimentar das famílias abastadas e das pobres se distinguia pouco. Os modos à mesa é que denotavam as distinções entre as categorias sociais, como evidenciam as análises de Jean-Louis Flandrin para os costumes europeus à mesa, no mesmo período.

Alguns produtos eram escassos nas mesas mineiras, inclusive nas das famílias abastadas. O trigo, por exemplo, de consumo raro – embora fosse produzido em pequenas quantidades nas regiões contíguas às minas –, vinha da Capitania de São Paulo ou da Europa e era caro. O pão de trigo, assim, não foi um alimento do cotidiano, mesmo no ambiente das famílias de posses. Os portugueses, nas Minas, adaptaram-se à falta desse cereal nobre. A farinha de milho e o fubá configuraram, então, produtos para a confecção de vários petiscos substitutos do pão, dando origem às tão tradicionais quitandas mineiras. Observando a lista de D. Anna Perpétua, percebemos uma oferta já regular do sal, ao final do século XVIII. O preço do produto vindo do Reino não sofreu grandes variações, ao contrário do «sal da terra», vindo das barrancas do rio São Francisco, que teve no decorrer do tempo da listagem uma variação de 4 a 7 oitavas de ouro por bruaca. Consumiam-se queijos, importados e de fatura local, além das hortaliças e frutas que, cotidianamente, enriqueciam a dieta alimentar de todas as categorias sociais. Os quintais continham bananeiras, frutas de espinho e jabuticabeiras, além de equipamentos e moinhos d’água, tudo muito detalhado nos Inventários post mortem. As frutas eram apreciadas in natura ou em doces, como a marmelada e o doce de cidra e, como as hortaliças e os tubérculos, são alimentos descritos pelos memorialistas da região e pelos relatos dos viajantes estrangeiros. A comida mineira, em sua origem setecentista, rústica em seu cotidiano, tinha requintes ocasionais. O uso de talheres à mesa, seguindo os costumes já difundidos em toda a Europa, tornou-se comum tanto para os portugueses quanto para os nascidos na América portuguesa, ou vindos da África, ou descendentes de africanos. É grande o número de peças descritas nos Inventários, o que pressupõe o seu uso cotidiano, principalmente nas famílias de origem reinol. D. Anna Perpétua, nossa testemunha especial neste estudo, possuía objetos de


mesa finos: pratos da Índia (rasos e fundos, grandes e pequenos), chocolateiras de cobre, colheres, garfos e facas de prata, «faqueiro de prata com caixa forrada de veludo», «1 talher de galhetas de vidro» e bandejas diversas. Outros Inventários de portugueses e de homens livres ou forros pobres também detalham talheres e vasilhames que vão do latão à prata, da louça simples à da Índia ou à do Porto, jogos de pires com xícaras, cálices e frascos de vidro, além, é claro, das gamelas, tabuleiros e bandejas de madeira. Mineira desde os tempos que Minas Gerais era Portugal, a mesa dos mineiros tem gosto e tradição paulista, africana, indígena, de tantas partes da América portuguesa e, sobretudo, de Portugal. E, em toda essa diversidade, é mineira, uai!

Glossário Adubos Expressão de origem portuguesa que deve ser entendida como temperos. Aluá Bebida refrescante feita de milho fermentado e adoçada com açúcar. Angu Prato de fubá cozido em água e sem sal. Bruaca Saco ou mala de couro cru para transporte de produtos e mercadorias sobre bestas. Canjica ou Canjiquinha Milho triturado em moinho de água com distância entre as mós suficiente para deixar a farinha mais grossa. Catimpuera Bebida de milho ou de mandioca cozidos e fermentados adicionado de água e mel de abelhas. Frutas de espinho Laranjas. limões, limas e outros cítricos. Frissura ou fressura «Miúdos» de porco, ou seja, fígado, rim e pâncreas desse animal, picados, temperados e cozidos. Jacuba Bebida em que se mistura farinha de milho (ou fubá) com água e mel de abelhas (ou açúcar). Bebia-se quente ou fria. Uai Interjeição usual e popular na fala dos habitantes de Minas Gerais que exprime surpresa, espanto, afirmação categórica, dúvida, alegria.


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

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Portugal nos confins do mundo Roberto Ampuero

Nasci no Chile, nos confins do mundo, mas curiosamente Portugal sempre esteve perto de mim, primeiro como um nome simples, belo e misterioso, depois como uma revelação política mais que estimulante, inspiradora e, a seguir, quando o conheci, como um desses lugares que nos parece curiosamente familiar e conhecido porque de algum modo suspeitamos que estivemos ali antes, noutra vida. Quando era criança, no pátio do colégio alemão de Valparaíso costumávamos cantar uma cantiga de roda muito famosa que dizia: «Arroz con leche, me quiero casar, con una señorita de Portugal.» Cantávamo-la de mão dada, meninas e meninos, cantávamo-la com uma fé cega, como se fosse imperativo casarmo-nos com uma rapariga de Portugal, mas a verdade é que então não pretendia casar-me e nem sequer sabia muito bem onde ficava o país ibérico. Decorriam os anos sessenta, quando o Chile era uma democracia estável e orgulhosa, e pensávamos que todo o mundo vivia em democracia. Um dia, o meu pai mostrou-me um mapa da Europa e disse-me com voz grave: «Aqui fica Por-

tugal, um país belo, parecido com o Chile e que é governado por um ditador.» Confesso que me custou várias noites de sono acostumar-me à ideia de que a presumível rapariga com quem devia casar-me vivia sob uma ditadura. Mais tarde ouvi, sobressaltado e incrédulo, as fabulosas histórias sobre os grandes navegadores de Portugal. Até então eu pensava que Fernão de Magalhães era chileno, e a razão era simples: o famoso estreito que tem o seu nome pertence ao Chile e faz parte essencial da identidade dos chilenos austrais, os quais são descritos de forma magistral pelo narrador chileno Francisco Coloane nos seus livros que deram a volta ao mundo. Mas a minha surpresa foi enorme ao ouvir que os navegadores portugueses haviam sido os primeiros a chegar ao Brasil, às ilhas da Madeira e dos Açores, à costa africana e à China. Portugal era, diziam muitos no Chile, um país que pelo clima e pelo carácter se assemelhava ao nosso, e eu sonhava secretamente com que o Chile pudesse construir um dia um império como o iniciado pelo Infante D. Henrique.


Em 1966, inteirei-me, através da rádio e desses álbuns com cromos de jogadores, que a estrela do mundial de futebol, que se celebrava em Inglaterra, já não era o mítico Edson Arantes do Nascimento, Pelé, mas um jogador de Portugal, de destreza inigualável, chamado Eusébio, a «Pérola Negra de Moçambique». Três coisas me chamaram a atenção nele: que sorrisse sempre como que surpreendido pelo seu próprio êxito, que tivesse o mesmo nome do meu avô paterno, um silencioso carpinteiro da ilha patagónica de Chiloé que se casou com uma francesa da Normandia, e que fosse natural de Moçambique. Creio que foi a minha primeira aula prática sobre o colonialismo. No meu colégio, onde os meus professores alemães eram quase todos ex-soldados da Segunda Guerra Mundial, não se costumava falar de política ou, melhor dito, a história morria antes de Adolfo Hitler. Eusébio levou-me, então, a compreender o que era aquilo que os adultos denominavam colonialismo: era uma forma política que podia obrigar um nativo de um país a ter de jogar por outro, era levar a pátria no peito mas envergar a camisola de quem a subjugava. Portugal voltou a emergir com particular força na minha vida durante os anos setenta, quando estudei em Cuba. Um dia inteirei-me que em Havana vivia discretamente a filha do chefe da polícia política do regime português, algo que parecia impossível, mas era verdade. Nunca soube a razão daquilo, até que há pouco li um apaixonante livro de jornalistas portugueses que desvendava o mistério: a mulher, esposa de um diplomata suíço em Havana, apaixonara-se perdidamente por Che Guevara e pela revolução cubana. Procurei então localizá-la, falar com ela para lhe dizer que eu amava Portugal e sonhava com a sua liberdade, mas nunca consegui vê-la. Morreu nos anos em que eu ainda vivia na ilha. Depois Portugal voltou a aparecer ante os meus olhos. Desta vez, porque chegou a Cuba uma grande delegação militar da «revolução dos cravos», altos oficiais progressistas que haviam deposto o antigo regime e implementavam medidas sociais revolucionárias, que finalmente possibilitaram o aggiornamiento de Portugal à Europa. E vi então Otelo Saraiva de Carvalho, todo um mito para mim, e também Álvaro Cunhal, outra figura emblemática da esquerda latino-americana, e o meu coração latejava entusiasta porque se acabava a ditadura de que meu pai me havia falado, e as colónias do Ultramar seriam livres e eu poderia co-

nhecer um dia um Portugal democrático. Pouco tempo depois, milhares de jovens cubanos, alguns companheiros meus, foram combater em Angola, contra os sul-africanos do apartheid e as tropas de Holden Roberto e Jonas Savimbi. De certa forma, os cubanos perderam a sua vida nessas terras alheias como, anos antes, os portugueses. E um dia, vivia já em Bona, na Alemanha, pude ir finalmente a Portugal. Recordo que o país me fascinou pela sua gente, reservada e avessa à desordem, como a minha, pela sua arquitectura histórica sem comparação, as suas paisagens, similares às da zona central do Chile, as suas cidades tão magníficas, a sua comida caseira tão diversa, os seus vinhos e a sua música. Cheguei lá com aquela que viria a ser a minha mulher e recordo que um dia, em Albufeira, decidi propor-lhe que nos casássemos. Dirigimo-nos à Câmara Municipal dispostos a fazê-lo, porque esse seria o melhor lugar do mundo para isso. Não me ia casar com aquela «señorita de Portugal» da cantiga, mas sim em Portugal com a mulher que amava. Mas a burocracia não no-lo permitiu. Para casar não bastava sermos solteiros e querermos casar, eram necessários selos, documentos e embaixadas. Admito que comecei tarde a estudar português. Queria ler Camões, Pessoa e Saramago na sua língua, queria desfrutar da língua portuguesa a partir de dentro e não de fora, como se faz quando se crê que se entende português porque se fala espanhol. Mas não foi nem Portugal nem no Chile que estudei português, mas sim em Iowa City, uma cidade do Midwest norte-americano. E a minha professora não foi alguém de Lisboa, Coimbra ou Porto, mas sim uma académica norte-americana da Costa Leste dos Estados Unidos, descendente de açorianos. Enfim, Portugal continua a perseguir-me e eu não sou surdo aos seus apelos. Quando os meus filhos cresceram, levei-os de imediato a Portugal e percorremo-lo de Lisboa para sul e para norte, até ao Promontório de Sagres e Trás-os-Montes, e enquanto o percorria com eles dei-me conta, mais uma vez, das afinidades secretas que existem entre o Chile e Portugal: a consciência clara da sua gente de que vive num extremo do mundo, o seu carácter retraído e reservado, a sua melancolia permanente, a sua afeição pelo vinho, a comida marítima e a poesia, os nevoeiros e os céus azuis, a sua existência frente ao mar. Sim, Portugal persegue-me desde que eu cantava no colégio da minha infância.


O QUE FAÇO EU AQUI

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O preço da minha vida João de Melo


Jiron Junin, no centro de Lima


O QUE FAÇO EU AQUI

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Cheguei a Lima a meio Estive não mais do que dores em volta da sala «vip» de uma noite brumosa e pado aeroporto, ali estivessem um minuto na fila rada de Julho, em 1990, já de guarda, sempre de olhos no limite das minhas forças e postos em mim – como tamdos vistos e passaportes: bém não estranhei a viatura após mais de trinta horas de viagem – ao fim das quais logo um homem baixo, blindada que me foi atribuída senti que chegava a outro (na minha qualidade de conmas muito entroncado, vidado especial), nem o amtempo, a uma nova dimensão e a um mundo muito diplo sorriso zeloso do Sr. Bercom ar de chefe ferente do meu. Lisboa/Mamúdez, o meu condutor (que drid/São Paulo/La Paz e, fipedia sempre licença antes de de segurança, nalmente, Lima. Ia ao Peru trancar as portas por dentro, o de cabelo envernizado que fazia por sistema), nem receber o prémio literário «Cristóbal Colón» das Cidaos outros dois carros que e lambido para a nuca, abriam e fechavam o cortejo des Capitais Ibero-Americanas. Estive não mais do que chamou repetidamente até à cidade. Semanas atrás, o um minuto na fila dos vistos país havia eleito Fujimori prepelo meu nome e passaportes: logo um hosidente da República do Peru, mem baixo, mas muito encontra o famoso escritor Matroncado, com ar de chefe de rio Vargas Llosa, talvez o cidasegurança, de cabelo enverdão peruano mais conhecido nizado e lambido para a nuca, chamou repetidano mundo inteiro (mais até do que Pérez de mente pelo meu nome («Señor de Melo! Señor de Cuéllar, nessa altura secretário-geral da ONU). Melo!»). Quando me apresentei, disse-me apenas Ainda em Lisboa, o Ministério dos Negócios estar ali em representação do município de Lima. E Estrangeiros tinha-me prevenido: só na semana tendo-me saudado de uma forma polida e sucinta, anterior, a guerrilha do Sendero Luminoso fizera pediu-me delicadamente que o acompanhasse. Deexplodir treze bombas em Lima, pondo a cidade via ser pessoa de alguma importância, porque me na antecâmara de uma guerra civil. Por consesubtraiu ao controlo da alfândega, à polícia de guinte, não estranhasse eu ver a polícia armada fronteira e a tudo o mais que costuma atormentar de metralhadora e viseira, colete à prova de bala e a vida dos homens cansados de viajar. capacete, a singrar pelo meio do intenso tráfego Eu vinha ao contrário do tempo e dos fusos de Lima com as sirenes numa estridência caótica. horários, no sentido inverso ao dos ponteiros dos Até certo ponto, achei justo que os meus relógios (o biológico e o de pulso). Segui-o até à guarda-costas não usassem de nenhuma subtileza sala «vip». A embaixada risonha, simpática e com ninguém, nem mesmo comigo. Quando o tranquila que aí me aguardava, dispensando-me Sr. Bermúdez me largava à porta do Hotel Bolívar, grande soma de cumprimentos e adjectivos, pôsna baixa de Lima, eles, como que por encanto, -me então ao corrente do programa: visitas, resaíam dos seus secretos esconderijos: corriam a cepções em diversas embaixadas, alguns comprorodear a minha viatura, de metralhadora em pumissos com jornais e rádios, a cerimónia oficial nho, abrindo alas para eu passar; se ia até ao bar, do prémio. «Bienvenido, señor de Melo, a las eles seguiam-me os passos e espiavam-me o mífiestas de Lima!», concluíram. nimo gesto; e punham-se em sentido para me Camilo José Cela, Nobel da Literatura do ano anunciarem a chegada de alguém que viesse à anterior, Don Agustín Rodríguez Sahagún, o alcaiminha procura ou uma chamada telefónica. De de de Madrid, o escritor peruano Alfredo Bryce resto, esses perfeitos e excessivos anjos-da-guarda Echenique, que vivia no estrangeiro desde os temjamais me deixaram em paz ou sequer entregue pos do exílio (e com quem passei os momentos aos serviços do hotel; acompanhavam-me ao mais divertidos desses nove dias de Lima), e não quarto, pedindo-me que trancasse a porta por sei que outros ilustres convidados, já estavam na dentro e que nunca por nunca a abrisse a nincidade. Por isso mesmo, não estranhei que cinco guém. Pensando bem, tudo ali se justificava, mas índios mudos, uns «cholos» colossais, todos vestinão estritamente por mim. A cidade enchera-se dos de negro, cujas sombras passeavam nos correde gente venerável (digo: vulnerável), provinda


de não sei quantos países com destino a Madrid. Então Por mim, vivi nove dias do Mundo, e toda ela bem ele, o académico, pondo-se numa Lima de prazer mais importante do que eu. subitamente muito sério, e Imagine-se um atentado em depois ainda cheio de mise de grandes tormentos; Lima contra o escritor Catério mas já com o melhor milo José Cela, o Nobel da na mesma cidade dos livros dos sorrisos, puxou-me por Literatura, ou contra o alum braço e levou-me até de Llosa, das casas caide de Madrid, ou contra um canto da sala para que um qualquer daqueles exmais ninguém ouvisse. que não eram casas, traordinários embaixadores Apontou para os índios que nos prepararam tantas, das ruas planas que davam guarda-costas que ainda se tão magníficas e tão opípadisfarçavam por ali, na para os pueblos perdidos, sombra. Pediu desculpa, ras recepções nas suas residências oficiais! O que não disse-me que não estrado seu magnífico centro se falaria do Peru (do reginhasse as medidas de segume, da pobreza do seu pocolonial espanhol que era rança com que me tinham vo, do terrorismo urbano) rodeado durante todas preciso salvar do tempo nos cinco continentes da aqueles dias – mas o caso é Terra! que (e só agora ele achava e da ruína Por mim, vivi nove dias por bem revelar-mo!) hounuma Lima de prazer e de vera uma ameaça de rapto e grandes tormentos; na mesma cidade dos livros de morte do Sendero Luminoso contra mim, dias Llosa, das casas que não eram casas, das ruas planas antes da minha chegada...! Acusado de quê? De que davam para os pueblos perdidos, do seu magníter ido a Lima receber um prémio «burguês». fico centro colonial espanhol que era preciso salMotivo mais do que suficiente, ao que parece, pavar do tempo e da ruína. Vi-a por dentro de uma ra que os guerrilheiros do Sendero me raptassem viatura blindada, é certo; mas explicada pela voz levando-me para as faldas da cordilheira andina e doce e muito religiosa do Sr. Bermúdez (pai de aí me degolassem sem qualquer pudor, nem nove filhos, devoto da Virgen de la Almudena) e consciência, nem misericórdia... depois comentada pelo diplomata português que Disse-mo com o mesmo sorriso simpático e me levou a conhecê-la, desde o centro histórico prodigioso que sempre lhe conheci, um sorriso até aos arredores e aos subúrbios – bela, horrível, complacente e quase infantil, e tão escrupuloso pobre, riquíssima; uma cidade injusta e desigual como o de um bandido irrepreensivelmente como poucas que até agora conheci. educado; um sorriso que por um momento me No fim, as mesmas viaturas, com seus «choconfundiu e quase indignou, mas que logo me los» mudos e colossais, me levaram de regresso pôs também a sorrir como ele então sorria: ao aeroporto. Os mesmos académicos e autarcas olhando-me nos olhos e pedindo repetidamente foram até lá despedir-se de mim. O tal homem desculpa. Com um último abraço de despedida, do cabelo envernizado e lambido para a nuca voltou a desejar-me boa viagem, e muitos e muitambém não faltou. À despedida, disse um adeus tos sucessos futuros na minha carreira de escricomovido ao Sr. Bermúdez, o meu motorista, que tor, e um próximo regresso ao Peru, se possível me havia contado toda a sua vida; passei as mesmenos atribulado. E então, num gesto puramente mas portas e cancelas do dia da chegada, fui seninstintivo, como de defesa contra os perigos visítar-me à conversa com um dos jurados do tal préveis e invisíveis que me haviam ameaçado em Limio literário. Estávamos já na sala de embarque, ma sem que alguma vez tivesse dado por isso, lecom o avião à vista. O académico «bebia» a mivei a mão ao bolso de dentro do casaco: tacteei, nha permanência até ao fim, movido pelo prazer apalpei, enchi a mão com os cinco mil dólares de ambos amarmos a poesia de Fernando Pessoa, americanos, disse a mim mesmo, com um suspios romances de Eça de Queirós e os sermões do ro de alívio, que aquele não era o dinheiro de Padre António Vieira. Por fim, chegou a hora de prémio literário nenhum, mas sim o preço, o innos despedirmos: as vozes de feltro do aeroporto cêndio e o rescaldo da minha vida toda por um convidavam a embarcar os senhores passageiros fio. Em Lima, no Peru.


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Neruda e uma pedra coberta de musgo Luis SepĂşlveda


Neruda na Isla Negra . Foto de Antonio Quintana. Archivo Fundaciรณn Pablo Neruda


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Há algumas semanas, a Os versos em que Neruda cía Lorca, Miguel Hernández, jornalista chilena Isabel LipRafael Alberti, chamavam com thay enviou-me da Alemarazão «a casa das flores». Mas fala da sua filha nha uma história comoMalva Marina nasceu com o vente que falava de outro são tristes, enigmáticos, indelével selo das flores transiNeruda, à margem das justórias, daquelas que não chetas celebrações pelos cem gam a mostrar a plenitude das como se o poeta anos do seu nascimento e suas pétalas nem a oferecer a que, se tivesse de atribuirembriaguez dos seus aromas. tivesse tentado -lhe um título, deveria chaA menina nasceu hidrocéfala e mar-se «As razões do silêno seu nascimento marcou salvar-se da dor cio». talvez o poeta com uma dor Não conheci Pablo Nedefinitiva, pois não existe dor com a perfeição ruda na sua intimidade, mais intensa que a certeza de apenas o vi três vezes, mas que sobreviveremos aos nosdo génio essas três ocasiões foram sos filhos. para mim decisivas para Os versos em que Neruda concluir que, nos olhos de fala da sua filha são tristes, Neruda, havia uma tristeza singular, algo assim enigmáticos, como se o poeta tivesse tentado salcomo a tristeza dos náufragos que, uma vez salvos var-se da dor com a perfeição do seu génio: «Oh e regressados aos seus lugares de origem, não deiniña entre las rosas, oh presión de palomas/ oh xam de sentir saudades da ilha deserta na qual fopresidio de peces y rosales/ tu alma es una botella ram Robinson Crusoe, tristeza que cresce com a de sal sedienta...» (Oda con un lamento). De toda a ricerteza de que nunca mais regressarão a essa ilha. ca correspondência mantida por Neruda, apenas A história de Isabel Lipthay, brevemente escrita numa carta dirigida a seu pai menciona a presença como devem ser as boas histórias, levou-me a da filha: «Parece que la niña nació antes de tiemantecipar uma viagem à Holanda, prevista para po, y ha costado mucho que viva...» Outubro, e parti decidido a encontrar também En 1936, os madrilenos preparam-se para a uma pedra esquecida e coberta de musgo. grande tragédia do fascismo, a República está em Durante a viagem procurei na melhor biograperigo, Neruda é um activista da democracia, abre fia de Pablo Neruda, a escrita pelo seu amigo e a sua casa a todos os que estão decididos a lutar companheiro do Partido Comunista Chileno,Volocontra Franco, e abre também o seu coração a oudia Teitelboim, certamente a melhor que se escretra mulher: Delia del Carril, «A Formiguinha», veu, dados sobre María Antonieta Hagenaar, a mípintora e companheira de causa. María Antonieta tica «Holandesa de Java», primeira esposa de NeHagenaar, a «Holandesa de Java» desaparece da ruda e à qual dedicou versos cheios de temor e sua vida, e com ela a pequena Malva Marina, que que mostravam o desamor que só se resolve com se retira da vida do poeta com o mesmo silêncio o distanciamento definitivo. Não encontrei demacom que uma sombra desaparece. siada informação, apenas pinceladas que confirNesse mesmo ano de 1936, «a la hora del mam que esteve, sim, casada com o poeta e que, fuego, al año del balazo», como tão bem o definiu juntos, tiveram uma filha, Malva Marina. César Vallejo, a «Holandesa de Java», a sua solidão Diz-se e sabe-se que as mulheres que acomde abandonada e a pequena Malva Marina deixam panharam Neruda tiveram uma importância capiEspanha e partem para a Holanda. Na sua mala, tal na obra do poeta. Com María Antonieta Hagelevam talvez, como única grande recordação, os naar partilhou os anos de desterro nos quais a sua versos que lhe escreveu Federico García Lorca: genialidade encontrou os elementos para escrever «Niñita de Madrid, Malva Marina/ no quiero darResidencia en la Tierra. te flor ni caracola:/ ramo de sal y amor, celeste Malva Marina Reyes – Neruda chamava-se lumbre/ pongo pensando en ti sobre tu boca». Neftalí Reyes – nasceu em Madrid a 18 de Agosto Alheia à beleza e ao horror, longe do amor e de 1934, foi talvez chamada a ser a flor mais imdo ódio, Malva Marina continuou a sua existência portante dessa casa madrilena à qual os amigos do vegetal em Gouda, abandonada inclusive pela sua poeta, Antonio Machado, María Teresa León, Garmãe, que confiou a sua custódia a um casal de


Neruda em Machu Picchu, 1943. Archivo Fundaciรณn Pablo Neruda


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Porque crescem os fetos nos cemitérios esquecidos? Porque escolhem as pegas esses lugares para ensaiar os seus grasnidos? Porque é o musgo o sinónimo do esquecimento?

holandeses. Não soube do fim da República em Espanha, nem da morte de García Lorca, nem da morte de Machado, nem da morte de Miguel Hernández, nem da morte da poesia quando caiu a última barricada do bairro madrileno de Lavapies. Não soube que os nazis invadiram a Holanda e que o horror marchava com música wagneriana por toda a Europa. Tampouco soube que seu pai organizava a partir de Trompeloup, próximo de Bordéus, a maior operação de salvamento de republicanos espanhóis perseguidos por Franco e pelas autoridades pró-nazis da França ocupada. A água que afogava a sua cabeça manteve-a flutuando no ventre benigno dos ausentes, e negou-se a nascer num mundo de medo e espanto. O velho cemitério de Gauda é um monumento nacional, assim mo explica o meu amigo Gerd Kooster, nenhuma sepultura pode ser aberta ou fechada, de tal maneira que a sua eternidade é a mesma frágil eternidade do planeta. Após percorrer durante uma hora os estreitos carreiros do cemitério, invadidos por uma vegetação em que predomina o ténue verde da humidade, encontramos a campa de Malva Marina, essa pequena presença do sangue de um dos maiores poetas de todos os tempos, e talvez a responsável pelo ricto de tristeza que sempre acompanhou o seu rosto, como se a água que afogava Malva Marina se tivesse instalado nas suas olheiras eternas. A inscrição que cobre essa lápide, onde cresce o musgo, é lacónica: «Aquí yace nuestra querida Malva Marina Reyes nacida en Madrid el 18 de agosto de 1934/ fallecida en Gouda el 2 de Marzo de 1943.» Porque crescem os fetos nos cemitérios esquecidos? Porque escolhem as pegas esses lugares para ensaiar os seus grasnidos? Porque é o musgo o sinónimo do esquecimento? Porque escreve Neruda, no seu poema «Farawell»: «desde el fondo de ti y arrodillado/ un niño triste como yo nos mira»? Salve, Pablo, Salve Poeta, como tão bem escreveu Atahualpa Yupanqui, «gracias por la ternura que nos diste». Quando erguer a minha taça para brindar pelos teus cem anos de Poeta e companheiro, far-te-ei essas perguntas e muitas outras. E quando regressar à Isla Negra, às tuas carrancas de proas, às tuas colecções de garrafas e objectos infantis, olharei à beira das escarpas onde ainda crescem as Malvas embaladas pela salobre brisa Marina.


A MARESIA DO MUNDO

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Ouvir na noite a maresia e ver o arco inteiro dos astros é pertencer inteiramente ao grande harmónio do universo Mas nós vivemos em quartos poeirentos e já não vemos as constelações ofuscadas pelas luzes da cidade O silêncio já não tem a placidez planetária de um grande bálsamo de sombra universal Lembro-me ainda na minha terra solar de me estender ao comprido no ladrilho do terraço de frente para as estrelas e o firmamento inteiro abria-se num vasto leque tranquilamente cintilante Ondulava na grande embarcação do universo e respirava o seu vagaroso e rescendente pulmão Ninguém navega já assim no espaço e por isso se perdeu a fértil lentidão da terra Se o poema é um búzio em que ressoa a maresia do mundo poderá ele suscitar o desejo de pertencer à terra como uma árvore que se inclina sobre as ondas ou uma torre vegetal de sombras embriagadas pela brisa marinha?

Poema inédito de António Ramos Rosa


Foto de JoĂŁo Mariano


FICÇÕES

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Lagoa Blues Tabajara Ruas


Era raro encontrar alguém que gostasse como ele de Chet Baker. Pensou isso porque o aparelho de som pendurado num canto do café rodava um CD de Stan Getz. Ao menos parecia de Stan Getz, já que uma voz brasileira emitia um lalálá sincopado e afinadíssimo, e ele fez a asneira de comentar com a cliente a seu lado que detestava esse mingau aguado que Stan Getz servia. O café era minúsculo, num canto do posto de gasolina em frente à lagoa, e se chamava Café do Tom, o que o estimulou a fazer o comentário com a cliente. A cliente afastou para a testa os óculos escuros e contemplou-o com todo o desprezo dos seus olhos verdes. Sabia que aqueles olhos eram verdes. Era perito em feições, fora cientificamente preparado na academia em Washington e desenvolvera esse preparo em doze anos de atividade permanente na Polícia Federal. Quando a mulher levantou os óculos, saboreou seu pequeno triunfo, ignorando o desprezo. A cliente tinha pernas longas e queimadas de sol, o short curtíssimo e dezenas de pulseiras nos braços. Ela poderia ser paulista, paranaense ou gaúcha: a maioria dos freqüentadores do café vinha desses estados, como as placas dos carros estacionados em frente mostravam. O feriado de Finados estava em cima e o centrinho da Lagoa da Conceição estava cheio de turistas. A mulher de olhos verdes não tinha jeito de turista. Há muito tempo a Lagoa não era apenas o paraíso buscado pelos visitantes dos feriadões, mas por pessoas que desejavam uma alternativa de vida ao stress dos grandes centros. A pacata vila de pescadores tinha se transformado rapidamente num bairro de classe média internacional. Não apenas paulistas e gaúchos tinham aberto casas de comércio ou bares ou restaurantes ou escolas de todo tipo – de idiomas, de caratê, dança, meditação transcendental – também uma enorme quantidade de argentinos, uruguaios, chilenos e mesmo ingleses e alemães tinham escolhido a Lagoa para viver. O cara que ele buscava era francês. Olhou o relógio. Onze e vinte e cinco. Tinha cinco minutos para pegar a barca. Pagou o café, deu um último olhar para as pernas da mulher e saiu procurando manter certa dignidade. Caminhou até a ponte começando a se tomar de um sentimento de vaga e não premeditada euforia.


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Era uma manhã de primavera, o vento tinha parado e o sol caía em cheio na lagoa, que brilhava como um diamante. Isto era tudo que queria. Lutara muito pela transferência para este posto, que só conseguira graças a sua folha e amigos influentes. Nascera e vivera em Porto Alegre e, como boa parte dos porto-alegrenses, alimentava uma secreta fantasia com Florianópolis e suas praias e seus morros. Em nenhum momento sentiu decepção. O trabalho era bem mais fácil: a burocracia cotidiana com os estrangeiros, carimbar documentos, certificar-se de que os passaportes estavam em dia e de que os vistos estavam nos prazos. Essa história do tal francês é que estava um pouco fora dos eixos, mas até que servia de pretexto para um revigorante passeio na lagoa. A barca da linha chegou, os passageiros desembarcaram e ele entrou com mais uma dúzia de turistas e moradores da Costa da Lagoa. A travessia durava quarenta minutos até a Costa, onde só se chegava de barca ou a pé, por uma trilha escarpada. As potentes lanchas particulares, as «voadeiras» segundo os nativos, levavam quando muito quinze minutos, e passavam vigorosamente por eles, levantando ondas. Mas apreciava essa lentidão. Ia em pé, na proa, gozando o sol e a brisa, acompanhando as gaivotas em vôos circulares, apreciando os adeptos do wind surf com suas enormes velas multicores passando perto da barca e pensando como fora duro deixar o cigarro ao vislumbrar esse desejo que o assalta de repente, enquanto observa as recém construídas casas dos ricaços invasores manchando o verde dos morros. Antes de falar com a velha passaria no restaurante do Índio e encomendaria um almoço, como lhe recomendara Tomás, veterano freqüentador dos restaurantes da Costa. Camarão, dissera Tomás, frito, ao molho, com pirão, empanado, como quiser. E uma tainha frita, que é pescada ali mesmo, diante do restaurante. As tainhas pulavam de longe em longe, causando exclamações dos turistas. A conversa com a velha não levaria mais do que alguns minutos. O tal francês tinha desaparecido e o último lugar onde tinha sido visto fora na Costa, onde alugara um quartinho da velha. Isso era tudo. O consulado insistira, o caso caíra na sua mesa e agora estava aí, desembarcando no trapiche de madeira, onde pneus velhos serviam de amortecedores para a barca encostar. Passou no restaurante do Índio, bebeu um

guaraná, encomendou o almoço e se informou onde era a casa de Dona Severina. Antes perguntou pelo francês. Sim, era conhecido, um bom rapaz, ficava lá com seus livros, gostava de dar grandes caminhadas, nunca incomodou ninguém. Fazia algumas semanas que não o viam, já devia ter ido embora. Caminhou algumas quadras constatando, maravilhado, que nas ruelas da vila não circulavam automóveis. Parou numa casinhola um pouco afastada das demais, a menos de quatro metros da beira da lagoa. Bateu palmas diante do portão. A velhota era baixinha, dava um pouco acima da sua cintura, e tinha a postura curvada, como se fosse corcunda ou tivesse algum grave defeito na coluna. Convidou-o para entrar, que não reparasse que era casa de gente simples, ofereceu um cafezinho que ele aceitou, sentou na pequena poltrona forrada de plástico, sentiu o cheiro de fritura vindo dos fundos, ouviu latidos. O moço foi embora, sim, senhor, pagou tudo direitinho, era um moço muito bom, nunca incomodou. Desapareceu? Virge. Nunca conheci nenhum amigo dele não senhor. Nunca recebeu carta não senhor. Namorada? A velha deu um risinho esperto. Ele era moço, não tem? Moço e bem bonito. Se mora alguém comigo? Não senhor. Só a Imaculada. Hóspede ele foi o último. Até que seria bom. Minha esperança é que agora já vem o verão, pode ser que alugue o quartinho. Fez mais algumas perguntas sem convicção, olhando ao redor e vendo quadros de familiares nas paredes, um calendário, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. A velha tinha uma almofada com bilros na sua frente e uma toalha de renda ainda por terminar. Deveria ser essa sua principal fonte de renda. Terminou de tomar o café, pousou a xícara na mesinha de centro, levantou-se. A senhora disse que morava com alguém. Agora ela não está. Bom... Percebeu que estava com fome, já passava do meio-dia, havia camarões e uma tainha esperando à beira da lagoa. Escolheu uma mesa ao ar livre, perto do trapiche, e ficou vendo os turistas chegarem em bandos barulhentos. A comida fazia jus à fama, acha que abusou um pouco, sentiu-se pesado e com sono. Tomou um café, pediu a conta e perguntou com quem Dona Severina morava.


Com ninguém. Ela mora só. Há anos ela mora só. Ficou cismando enquanto esperava o troco e calculava quanto tempo teria antes da próxima barca. Talvez fosse um detalhe sem importância, mas um francês desaparecido pode trazer complicações para um departamento inteiro. Precisava fazer um relatório. Um detalhe desses não passaria por alto aos tiras do consulado e muito menos na embaixada. Tornou a bater palmas diante do portão. Dona Severina não apareceu. Esperou um pouco, abriu o portão e avançou pelo pequeno pátio. Espiou pela porta entreaberta. Ninguém na sala. Deu a volta à casa, ficou outra vez diante da imensidão da lagoa, observou os paraglides coloridos flutuando no céu, aproximou-se da porta que deveria ser da cozinha, ninguém ali dentro. Mas havia pequenos ruídos, algo rangendo. Enfiou a cabeça na cozinha, uma porta ligava a outra peça. Na penumbra dessa peça viu um pé, calçado com botina, escapando de uma rede, e não era o pé de Dona Severina. Era de um homem, e dormia uma sesta pesada. O senhor voltou. Dona Severina estava atrás dele. Tinha levado um pequeno susto, foi obrigado a sorrir. Preciso lhe perguntar mais uma coisa, se não incomodo. Deram a volta à casa, entraram outra vez na sala, sentou outra vez na poltrona forrada de plástico, aceitou o cafezinho. Dormindo na rede? O Antônio. Não, ele não é hóspede. Mais açúcar? Ah, a Imaculada. Ela só aparece de noite. Me ajuda um pouco. Mais café? O senhor está ficando branco. O banheiro é aqui do lado. O senhor não repare. Levantou-se amaldiçoando o almoço, o café, o vento da lagoa que começava a soprar. O assoalho pareceu mover-se, agarrou a porta do banheiro para não cair, viu o homem na rede, enorme, ressonando. Um frio o invadia, um frio enorme, um frio paralisante e viu que sua mão escorregava lentamente pela porta do banheiro. Era patético, mas sentiu que ia desmaiar, abriu a boca para pedir ajuda, mas não conseguiu dizer nada. O assoalho aproximou-se rapidamente de sua cabeça e ouviu um estrondo misturado ao grito das gaivotas lá fora. Abriu os olhos muito devagar, sentindo alí-

vio, sentindo os membros amolecidos. Estava recostado numa cama no quarto em penumbra, o homem ainda ressonava na rede, a três passos dele, mas teve a impressão de que passara bastante tempo. Pela janela entreaberta viu que o céu estava rosado. Já era o crepúsculo! Moveu o rosto. Dona Severina, na sala, trabalhava na toalha de renda, movendo com habilidade os bilros. Abriu a boca para chamar por ela, mas não conseguiu articular nenhum som. Percebeu que estava encharcado de suor, e de que era um suor frio, quase gelado. O homem na rede continuava imóvel. Estava vestido com uma roupa caqui, grossa, e suas pesadas botinas pendiam para fora da rede. O homem se moveu. Usava uma jaqueta de couro, forrada de lã e uma coisa estranha na cabeça. O homem se acomodou melhor. Viu, então, espantado, que o homem usava um capacete de aviador, um desses capacetes de pilotos da Segunda Guerra, com óculos grandes e barbicacho pendendo dos lados do rosto. Tentou falar, tentou se mover, mas sentia uma fraqueza demolidora, que o deixava imóvel e indefeso. Dona Severina fazia sua toalha. Um mosquito começou a circular perto da sua cabeça. Uma lua enorme, uma lua cheia, uma lua amarela e ameaçadora apareceu na fresta da janela e esparramou sua luz na penumbra do quarto. O homem na rede tinha a cara de Saint-Exupéry. Nunca se enganava com um rosto. Sabia que era uma bobagem, mas nunca se enganava com um rosto. Tentou respirar fundo, tentou com toda a calma articular algum som e mover pelo menos um dedo da mão, mas era impossível. Foi quando percebeu o leve ranger. Um vulto rastejava no assoalho. Dona Severina fazia sua toalha. O piloto se mexeu na rede. Um vulto rastejava no assoalho, percebeu pequenos brilhos que se deslocavam. Na faixa de luar apareceu a cabeça da cobra. Rastejou até a perna do piloto, pendendo da rede, e se enroscou nela, suavemente. Agora vou me levantar, vou gritar, vou fazer um escarcéu, mas continuava paralisado, entorpecido de frio e começando a achar que era hora de acordar do pesadelo. Dona Severina olhou para ele. Dona Severina disse Imaculada chegou, sem parar de fazer a toalha. O piloto olhou para os lados, talvez sem saber porquê, despertara de repente.


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Precisava avisá-lo, precisava avisá-lo! Com desespero, observava o imenso animal subindo em direção à cabeça do piloto. O piloto sente algo. Isso morno sobe na sua perna, sem fazer pressão nem vacilar, confiante. A cabeça é esguia e larga, a língua pequena e pontuda, os olhos circulares e friamente sem expressão. O piloto duvidou um momento entre ter medo e aceitar o estranho companheiro. Cuidado, precisava gritar, a cobra! Um esticão, o recolher da perna como se um escorpião a tivesse picado e o pequeno grito. E, então, Imaculada passou da languidez amorosa para a velocidade do caçador saltando sobre a presa. Subiu no ar escurecido, alta, curva, e durante segundos que parecem pingos de água crescendo na ponta de uma torneira, imobilizou-se, agora ameaçadora. Banhado no suor do seu terror, a viu como um animal de outra época, um dragão aquático, verde escuro e liso, quase roçando o teto de palha, curvado sobre a rede, começando a tornar-se fosfóreo, inchando de excitação ou maldade ou apenas susto. E viu também o branco horror do piloto, sua contração, a dentadura postiça que vomitou e o espasmo que o acometeu quando viu a grande cobra imóvel no ar morno, fitando-o com seus dois olhos perfeitamente circulares. A cobra desceu sobre ele antes que pudesse fazer um gesto e o envolveu num abraço apertado. Descobriu que não podia escapar. Descobriu que se urinava e as vísceras afrouxavam. Uivou. O piloto uivava. Imaculada lançou com um som mole novo abraço e envolveu o tórax do piloto com um segundo anel, grosso como pneu de caminhão. A cabeça de Imaculada ergueu-se ameaçadora sobre a cabeça do piloto. O piloto livrou um braço, o braço esticou como catapultado e a grande mão peluda a agarrou um palmo abaixo da cabeça. O piloto era forte: a mão grudou-se como tenaz à pele escamosa, o esforço o fazia mudar de cor, os olhos pareciam prestes e explodir. Caíram da rede com um som fofo, embolados. Imaculada aliviou a pressão e o piloto livrou o outro braço e desenroscou-se numa agitação histérica, chocou contra a parede e a peça toda estremeceu. Compreendeu que não podia fazer absolutamente nada para salvar a vida, a não ser fechar os olhos e ficar completamente imóvel. O corpo vertebrado de Imaculada apertou a perna do piloto até este pensar que ela seria triturada e viu o animal erguer-se bem alto e preparar o bote. Estava outra vez fosfo-

rescente ou talvez fosse o luar entrando pelas frestas da parede. Os insetos de longas asas circulavam alucinados, Imaculada deu o bote e enlaçou a outra perna. O homenzarrão caiu com estrépito, uivando outra vez, gritando, papai, papai, como uma criança, tentando morder a cabeça do bicho que deu mais uma laçada, afrouxou e então apertou com firmeza fazendo algo estalar dentro do piloto. Agora afrouxou novamente, desenroscou-se da perna e tornou a dar um longo, silencioso abraço, lentamente descendo em curva, envolvente e vivo, pulsando duma energia ávida. O piloto começou a ser estrangulado. A cobra fez mais uma pressão e outro estalo seco fez ferida no seu cérebro. Não queria mais ver isso! Escondeu a cabeça no peito. Imaculada agora envolvia, outra vez, e com certa pressa nos movimentos, as pernas do piloto, fazendo-o dar voltas sobre voltas, já com o rosto completamente roxo e os olhos esbugalhados. Imaculada foi afrouxando o aperto, a cor roxa foi desaparecendo do rosto do piloto, soltou um braço, soltou o outro. Abriu um olho e não acredita, mas parece que viu um brilho de satisfação no olhar do monstro fosfóreo que farfalhava suavemente na habitação, desenroscando-se do corpo do piloto que estendeu os braços livres e agarrou com as duas mãos peludas dois palmos abaixo da cabeça sorridente do animal. Imaculada abriu a boca e todo seu longo e pesado corpo se contraiu como acumulando forças. As mãos do piloto a levantavam vagamente verde e vagamente luminosa no lusco fusco riscado de grandes insetos e sua boca foi crescendo. Paralisado na cama a viu crescer. Ela abriu a bocarra com um ranger de molas e foi abrindo ainda mais do que ele acreditava e a língua pontuda e negra passeou nas orelhas do piloto e então as rangentes mandíbulas se fecharam e engoliram a cabeça arrepiada. Parecia que o monstro devorava a si mesmo. O silêncio absoluto envolveu o quarto. Escutou o fremir das asas dos insetos e o cicio das folhas no matagal distante. O monstro era um corpo circular, grosso e fosforescente, imobilizado na penumbra do quarto. O piloto era aquele corpo paralisado pelas várias voltas que o monstro dera nele, o tórax estalante onde o coração pulsava apertado e os pulmões não bombeavam ar. Imaculada não havia utilizado os dentes. Apertava a cabeça do piloto com os músculos que circundavam sua boca. O piloto começou a retirar as mãos peludas de redor do corpo de Imaculada e debateu-as no ar, lentas e patéticas e sem uso. E Imaculada inteira estre-


meceu percorrida por um calafrio e houve uma vertiginosa sucessão de contrações e cada contração correspondeu a um estalo nas pernas do piloto que se contorceu de repente num furor apoplético, tornou a grudar as mãos peludas no corpo do animal e começou a forcejar como alguém que tem um capuz apertado enfiado na cabeça. Banhado no suor de seu terror viu, comovido, horrorizado, afogado pelo soluço trancado na garganta, o corpo todo dormente e gelado, num deslumbramento viu o piloto arrancar de sua cabeça a cabeça do monstro como um ser nascendo num parto fantástico. O piloto engoliu ar e uivou com toda a força dos seus pulmões achatados um grito cavernoso e flamejante e continuou gritando ou talvez já não fosse o grito o que continuava a ressoar em seus ouvidos mas seu próprio grito de terror porque a cabeça do piloto caíra mole para um lado embora continuasse a emitir o resto do grito. Deixou a cabeça bater na guarda de ferro da cama, exausta de horror. Descobriu o silêncio da peça. Há o fremir das asas dos grandes insetos e há o mato imóvel, prateado pela lua, e ciciando intrigas de coruja para coruja e de galho para galho. Há, ainda, o rufar do coração e o indiferente mosquito que busca insistente um alvo para sua ávida agulha. Imaginou o animal (a cobra) tornando-se mais brilhante, quase azul, e imaginou que ele sobe novamente no ar parado. Uma gota de suor desliza pela testa, sabe quando ela pinga no assoalho. O piloto está calado. Tudo respira ofegante. Uma vez por ano há um crepúsculo em Porto Alegre que é o mais belo de todos os crepúsculos já havidos no planeta e concebeu para si a pequena lenda de que o dia que visse esse crepúsculo sentado num banco da Praça Argentina e tivesse a coragem de escolher esse crepúsculo como o mais belo crepúsculo jamais havido seria honrado com uma graça e se tornaria poderoso. Já escolheu esse crepúsculo e talvez tenha havido um equívoco na forma como recebeu o poder, pois se é que o possui ainda não descobriu a maneira de utilizá-lo. Sentiu a picada do mosquito sugando o lóbulo de sua orelha direita. Sentiu uma gana desesperada de espantá-lo, de acertar-lhe um tapa, de coçar o lugar que latejava como um nervo. Porto Alegre completamente vazia numa quinta-feira chuvosa às cinco horas da tarde. Nenhuma pessoa, nenhum carro, nenhum ruído a

não ser o da chuva e dos meus passos. Todos desapareceram. Subo a gola do meu impermeável. Olho ao redor imaginando o crepúsculo que se esvai no meu coração. Imaculada está dando mais uma volta no tórax do piloto e agora o comprime. Fecha os olhos simultaneamente com o estalo das costelas. Imaculada abre a grande boca com o ranger de molas e fecha-a suavemente sobre o rosto destroçado do piloto, sem fazer nenhum movimento brusco, mas com certo cuidado e atenção. Deu ainda mais duas voltas no corpo e de repente contraiu-se com imperceptível espasmo, triturando como numa mó os ossos das pernas do piloto. Ficou longamente imóvel. A aura fosforescente foi se tornando mais fraca, o tom azulado foi cedendo a uma alvura menor e mais fria, e o silêncio foi restabelecendo uma ordem nova e sossegada no âmbito ainda trêmulo da habitação. Havia longuíssimos hiatos de silêncio, cortados pelo discreto estalar de ossos quando Imaculada acomodava seus anéis através de leves estremeções que se propagavam como uma onda. Dona Severina continuava a tecer sua toalha. Lembrou da mulher de olhos verdes que encontrara pela manhã no café e então tirou todo e qualquer pensamento da cabeça enquanto olhava os estranhos e enigmáticos desenhos que a lua cheia traçava na parede de bambu e enquanto a dimensão do seu ódio pelo minúsculo vampiro que dava voltas em torno de sua orelha crescia e enquanto um pequeno lagarto verde estirava a rápida língua em direção aos insetos, apanhava-os e os engolia com um ar regalado. Não tem?


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O que vem das Américas. Às vezes, são boleros que nos fazem reencontrar com a paixão, como os que nos chegaram através do projecto «Buenavista Social Club», ao som de Compay Segundo, Rúben González, Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo ou, mais recentemente, com


vozes como as de Pablo Milanés, Tania Libertad e Soledad Bravo. Outras vezes, pode ser uma motocicleta de Che atravessando o Atlântico para nos fazer acreditar de novo na utopia. Ou até o mito de Gardel, fragilizado por uma biografia que oscila entre a verdade e a ficção.


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E se Gardel não fosse argentino nem tivesse morrido num acidente de aviação, mas de um complot mafioso? Movendo-se entre os limites do histórico e do ficcional, Horacio Vázquez-Rial reconstrói de forma apaixonante a biografia do cantor no seu livro As Duas Mortes de Gardel, recentemente editado em Portugal. O autor deixa-nos agora mais alguns dados para melhor se compreender a ficção.

O verdadeiro nascimento de Gardel Horacio Vázquez-Rial


O falso coronel Carlos Escayola, que nunca fez carreira militar, foi um precursor do pior: tinha algo dos repressores que no século XX fariam desaparecer os cidadãos incómodos, algo do que os torturadores exerceriam com os desaparecidos e também algo do agora célebre Marc Doutroux. Na sua estância, entravam opositores políticos ao governo que jamais voltariam a sair, aos quais se obrigava a confessar coisas que jamais haviam feito. A casa em que vivia, em Tacuarembó, comunicava por uma entrada interior com a que ocupavam a argentina Juana Sghirla, mulher forte, atraente e de má fama, e o marido, Juan Bautista Oliva, cônsul italiano em Tacuarembó. O domicílio dos Oliva Sghirla constituiu-se em viveiro de meninas para desfrute do coronel. Escayola e Juana Sghirla eram amantes, quiçá a sabendas de Oliva e apesar de a mulher ser bastante mais velha do que ele. Isso não impediu que a senhora incentivasse as bodas sucessivas do coronel com as suas filhas Clara, com a qual se casou em 1868, Blanca, com a qual se uniu em 1873, ao enviuvar da primeira, e María Lelia, que seguiu o mesmo destino em 1889, após a morte de Blanca. Tudo parece indicar que María Lelia, a mais nova, era filha de Escayola, pelo que o santo matrimónio de ambos supunha a prática de incesto. Claro que esse é um pecado menor, à vista dos acontecimentos que precederam a sua boda: em 1883, quando só tinha catorze anos e desempenhava o papel de cunhada, María Lelia ficou grávida do coronel, e pode deduzir-se dos relatos fragmentários que os investigadores recolheram, muitos anos depois,

que a menina não se prestou voluntariamente aos apetites de seu pai biológico, mas que foi violada. Uma vez constatada a gravidez da vítima, houve consenso familiar quanto à conveniência de retirá-la de circulação até que parisse: ninguém deveria inteirar-se da existência desse ventre, nem da do menino que nasceria dele, de modo que foi enviada para a estância Santa Blanca, a

E sobre essa voz gravada podia-se construir uma história, qualquer uma. Por exemplo, a do bom filho da boa mãe solteira, trabalhadora e dignamente pobre. Pura hagiografia. A realidade é sempre mais terrível que a ficção mesma que servia de cárcere e de matadouro político. Aí, no maior dos segredos, viu a luz, em finais de 1883, um menino, oportunamente apagado de todos os registos. Esse menino, filho do estupro, da violação e do incesto, foi, com o correr do tempo, Carlos Gardel. A suposta mãe, Berta Gardés, uma imigrante francesa, amante ocasional do coronel Escayola e prostituta ocasional, viu-se comprometida com o cuidado da criatura contra a sua vontade. Nunca houve entre eles confiança, nem sequer simpatia, e Gardel afastou-se dela tão depressa quanto pôde. A sua passagem à história como mãe do cantor de-

veu-se à morte imprevista deste em Medellín, sem filhos reconhecidos, nem casamento, nem parentes: inventou-se-lhe uma mãe, e falsificaram-se um testamento e um registo de nascimento, para que os seus bens, os que tinha em vida e os que as suas obras e discos gerariam durante largos anos, não fossem parar ao Estado por direito público. Dona Berta herdou e em seguida cedeu o seu legado a testas-de-ferro e gerentes das máfias que sempre pulularam em torno da indústria do espectáculo: Holywood, Las Vegas, Havana e as carreiras de artistas como Frank Sinatra são produto das máfias, sobretudo a italiana e secundariamente a judia, que encontraram no teatro, no cinema, nos discos e nos casinos um negócio óptimo para os grandes investimentos, com excelsas margens de lucro, e para a correspondente lavagem de dinheiro procedente de outros tráficos, ainda mais obscuros. O mito de Gardel não se construiu durante a sua vida. Até à sua morte, Gardel fez uma carreira normal, e não seria arriscado dizer que a sua passagem ao cinema e ao disco teve a ver com a decadência da sua voz, que começava já a ser dificilmente audível nas salas de teatro, que não dispunham dos recursos técnicos que hoje sustentam qualquer garganta para além das suas possibilidades reais. Morto, já não haveria mudanças: a voz seria para sempre a que estava gravada. E sobre essa voz gravada podia-se construir uma história, qualquer uma. Por exemplo, a do bom filho da boa mãe solteira, trabalhadora e dignamente pobre. Pura hagiografia. A realidade é sempre mais terrível que a ficção.


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Se Cuba foi o berço do bolero, o México e Porto Rico perfilharam-no e universalizaram-no, fazendo dele, definitivamente, verso e dança, intimidade ímpar, colóquio e sensualidade, onde o par ia fundindo sentimentos e ansiedades, alimentando sonhos e utopias românticas.

O bolero em tempo de amor Alberto Mosquera Moquillaza


A Buenavista Social Club, a banda cubana do momento, tem o mérito de ter afrontado a globalizada indolência sentimental com que o Ocidente encerrou o século XX. Os seus sons e boleros clássicos, com tantos ou mais anos que os seus cansados mas rejuvenescidos cantores, voltaram a electrizar multidões, como se tivéssemos entrado no túnel do tempo para nos reencontrarmos com a paixão e o sabor de que os nossos pais e avós fizeram gala, quando, apesar da dureza da vida, o cantar e o bailar, ao aproximá-los, os tornava verdadeiramente humanos. Para o gozo do amor não há limites no tempo porque, assim como pode haver amores que durem toda uma vida, também podem existir os tempestuosamente efémeros, mas de marcas indeléveis, e – porque não? – os amores de ocasião. A

idade tampouco é uma barreira intransponível: em cada um de nós, homem ou mulher, pode esconder-se um Florentino Ariza ou uma Fermina Daza, os velhos amantes de O Amor nos Tempos da Cólera que, com os seus corações estilhaçados – não precisamente pelo tempo, mas pelo amor – alcançaram o paraíso no final das suas vidas. «Eu creio, com Florentino Ariza, que, se a gente continua, o corpo continua. E eu creio que a gente continua se há amor. Sempre», diria García Márquez, autor desse monumento literário, numa entrevista em torno do amor, da velhice e da morte. DOS GARDENIAS Dessas encruzilhadas de paixões, com os seus altos e baixos, surgiu e expandiu-se o bolero para levar ao êxtase os encontros furtivos ou abertos, consentidos ou proibidos, ou para mitigar na nostalgia a dor

da separação ou da traição trapera; ainda que muitos prefiram a encantadora celestinaje dos seus versos e compassos para exclamar, com a cumplicidade de Isolina Carrillo: «Dos gardenias para ti:/ con ellas quiero decir:/ «Te quiero, te adoro, mi vida»./ Ponle toda tu atención,/ que serán tu corazón y el mío/»; ou, quiçá, a partir da nossa ansiosa saudade, alentados pela criatividade de María Graver, desejar: «Si yo encontrara un alma/ como la mía,/ ¡cuántas cosas secretas/ le contaría!:/ un alma que, al mirarme, sin decir nada,/ me lo dijese todo/ con la mirada;/ un alma que embriagase/ con suave aliento,/ que al besarme sintiera / lo que yo siento.» Não interessava que Carrillo fosse cubana ou mexicana; o mais importante era a sua linguagem, a do amor, cultivado e enriquecido em cada um dos boleros que os inspirados criadores nos foram entregando,


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durante décadas, nos quais milhões de latino-americanos embalaram as suas ansiedades, sem saberem, muitas vezes, no caso dos varões, que podiam estar afogando as suas emoções por uma mulher nas sentimentais letras escritas por outra mulher. Porque se não era Carrillo ou Graver, podia ser a mexicana Consuelo Velásquez que embelezava com o seu «Bésame/ bésame mucho/ como si fuera esta noche/ la última vez/ Bésame/ bésame mucho/ que tengo miedo a perderte/ perderte otra vez». Se Cuba foi o berço do bolero, o México e Porto Rico perfilharam-no e universalizaram-no, fazendo dele, definitivamente, verso e dança, intimidade sem par, colóquio e sensualidade, onde o par ia fundindo sentimentos e ansiedades, alimentando sonhos e utopias românticas de alta voltagem, num cadenciado movimento corporal que, para os especialistas, não devia ultrapassar o espaço de uma pequena lousa. E se nasceu nas ruas e esquinas de Santiago de Cuba, da simples, mas inflamada inspiração de guitarristas enamorados – virtuosos expoentes da fusão de elementos hispânicos, africanos e cubanos –, conforme avançou para Havana, Veracruz, San Juan de Puerto Rico ou outras cidades latino-americanas, foi ganhando em solidez musical e lirismo, para expressar com liberdade as infinitas estações e situações do amor, que costumam ir do êxtase da alma pelo amor desejado ou conquistado até à dor de uma separação irreversível. Assim, desde as primeiras décadas do século XX, o bolero abriu cenários inéditos de identificação musical, que eliminou fronteiras e demarcações so-

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Dessas encruzilhadas de paixões, com os seus altos e baixos, surgiu o bolero para levar ao êxtase os encontros furtivos ou abertos, consentidos ou proibidos

ciais. Esplêndidas gerações de autores e intérpretes lendários, cantando a vida a partir da vida, confundiram-se num só rosto de entregas musicais, nas quais o bolero alcançou novas dimensões, ao confundir-se e enriquecer-se com o son, o chachachá e o mambo, de raiz cubana, e a ranchera de origem mexicana; e cujos cultores, ao fazerem da noite, da lua e das estrelas um reino de fantasia – alheio às convenções e às hipocrisias sociais –, alimentaram a imaginação popular, os seus mitos e rituais amorosos. Ao maestro Miguel Matamoros, também de Santiago de Cuba, coube injectar cadência tropical no bolero cubano. A sua antológica «Lágrimas negras» «Aunque tú me has dejado en el abandono/ aunque ya han muerto todas mis ilusiones/ en

vez de maldecirte con justo encono/ en mis sueños te colmo de bendiciones» continua sendo um convite à identificação com a sensualidade caribenha, o calor das ruas havanesas e as fragrâncias e o sabor do rum cubano. Interpretam-no o próprio «Trío Matamoros», «Los Compadres», Rolando Laserie, o «Buenavista Social Club». Muitos ainda continuam enamorados dos versos de Ernesto Lecuona que, com «Damisela Encantadora» – «Por tus ojazos negros llenos de amor/ por tu boquita roja que es una flor/ por tu cuerpo de palmera lindo y gentil/ se muere mi corazón» –, «Siboney», «Noche azul», «Siempre en mi corazón» (que hoje faz parte do repertório do tenor Plácido Domingo) e a sua «Lecuona’s Cuban Boys» ganhou os corações de quem, na América Latina, na América do Norte ou na Europa, teve oportunidade de escutá-los para viver e morrer de amor. Uns e outros, contudo, não regateiam as suas preferências pelo maestro dos maestros, o grande Benny Moré, que era capaz de compor e entoar uma «guajira» como um som montanhês, um «mambo» como um bolero, dando rédea solta à sua inspiração vagabunda e montaraz. Ninguém como ele para cantar os amores perdidos: «Para qué perder el tiempo/ para qué volvernos locos/ si tú sabes que nosotros/ no nos comprendemos ya/ tengo fe en que tú comprendas/ como yo lo he comprendido/ que nuestro amor se ha perdido/ como una estrella fugaz/». Arráncame la vida A grafonola e o disco, a rádio, o cinema e a própria televisão


contribuíram para a difusão do género que, a partir das noites de ronda e serenata, se colaria nos lares, nos selectos salões de baile, assim como nos mais famosos bordéis das principais cidades latino-americanas. Num deles, no México, Agustín Lara, lânguido de amor e ao pé de um piano, começou a ganhar eternidade na letra e no espírito de cada uma das suas composições, grande parte das quais reflectia o frenesim da sua azarada vida sentimental, galardoada com a conquista de uma mulher como María Félix, bela entre as belas; mas também com uma chuçada no rosto, com que uma das suas amantes deixou a marca dos seus endemoninhados ciúmes. Com Agustín Lara, o amor chegou a ser efectivamente pão da vida e sortilégio total. Nada escapou ao génio e sentimento impulsivo: a entrega total, as ânsias, os ciúmes, a nostalgia arrebatadora, o culto da mulher (nas suas palavras: «la más completa expresión de la belleza,/ vida en donde principia la vida,/ luz en donde el sol enciende los luceros,/ ríos de todas las lágrimas/ selva y rosal/ amor y perdón)», a dor e a angústia provocados pela paixão (como diria Jorge Amado, «o amor não é uma espinha que se arranca, um tumor que se corta, é uma dor rebelde, pertinaz, que mata por dentro»), levado ao clímax em «Arráncame la vida»: «Arráncame la vida con el último beso de amor/ arráncala, toma mi corazón/ arráncame la vida/ y, si acaso te hiere un dolor,/ ha de ser de no verme/ porque al fin tus ojos me los llevo yo». Sintonizando com a azáfama amorosa da vida, o mesmo

Tal como na Argentina, os enamorados do Chile, Panamá, Venezuela, Peru, Colômbia e Equador encontram no bolero o elixir musical para continuarem a sonhar com o ser amado

Amado perguntava-se: quem pode entender as coisas do coração, quem pode explicá-las? Longe daqueles ilustrados literatos e poetas que faziam serpentinas com os seus versos, os mexicanos procuraram a resposta em trovadores da dimensão de Lara, enquanto os porto-riquenhos vibravam com Pedro Flores, mas também com o mítico Rafael Hernández que fez «Lamento Bor incano», «Canción del Alma», «Diez Años», «Amigo», «No me quieras tanto» ou «¿Qué te importa?», entre outras tantas criações de sonho para os verdadeiros amantes. Na Argentina, o bolero arrancou espaços importantes ao tango. Talvez a precoce morte de Carlos Gardel em 1935, as letras prostibulárias do tango, a difusão radial e a própria presença

em Buenos Aires de celebridades do bolero como Agustín Lara, Pedro Vargas ou José Mojica tivessem permitido que nesse país aparecessem, entre outros grandes compositores, um Don Fabián, para entregar-nos «Dos almas», ou um Mario Clavel e «Somos»: «Después que nos besamos/ con el alma y con la vida,/ te fuiste con la noche/ de aquella despedida», como demonstração do enraizamento que o género romântico havia alcançado na nossa América. Tal como na Argentina, os enamorados do Chile, Panamá, Venezuela, Peru, Colômbia, Equador, etc., encontraram no bolero o elixir musical para continuarem a sonhar com o ser amado, ou o antídoto para a frustração que os amores inatingíveis costumam gerar. Todavia, a força sedutora do bolero não residia apenas na letra e no espírito sentimental do bardo. Seria injusto subestimar a solidez interpretativa ou musical de quem encantava com a sua voz ou as suas guitarras, quando não com os seus harmoniosos sons orquestrais. Como escapar do influxo de vozes como as de Pedro Vargas («Noche de Ronda», «Vereda Tropical», «Mujer»), de Toña la Negra («Cenizas», «Arráncame la vida», «Cada noche un amor», «Veracruz»), de Bienvenido Granda («Señora», «Angustia», «Nostalgia», «Por dos caminos»), de Tito Rodríguez («Inolvidable», «Llanto de luna», «Tu pañuelo», «Cuando ya no me quieras»), de Lucho Gatica («Tú me acostumbraste», «Encadenados», «Si me comprendieras») e de Javier Solís («Sigamos pecando», «Llorarás», «Perdóname, mi vida»); de trios como «Los Panchos»


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(«Amorcito corazón», «Rayito de luna», «Flor de azalea», «Perdida») ou Los Tres Diamantes («Usted», «Sigamos pecando», «Embrujo, Júrame»); sem esquecer, certamente, o íman de orquestras como a eterna «Sonora Matancera» com os seus boleristas de antologia, de que Leo Marini, Celio González ou Vicentico Valdés são algo assim como a ponta de um gigantesco icebergue formado de boleros e cantores imortais? A lista de intérpretes é, certamente, maior, como a relação de boleros criados, sobretudo entre 1935 e 1965, considerada a «época de ouro», que vai culminar gloriosamente com Armando Manzanero, o último dos grandes compositores e intérpretes que, com «Adoro», «Esta tarde vi llover», «Mía», «Aquel señor», «Contigo aprendí» e milhares de outras criações, demonstrou que o amor é fonte inesgotável de poesia e música, que na sua interpretação por vozes como as de Roberto Ledesma, ou do próprio Manzanero, vão continuar retroalimentando gozos e paixões porque, parafraseando o ilustre mexicano, sempre haverá enamorados que, cegos de amor, tentarão, onde quer que estejam, contemplar a aurora, o brilho da lua ou, simplesmente, apagar a luz para deixar voar a imaginação. Cada um impôs ao bolero o seu próprio estilo, aproveitando ao máximo, no caso dos cantores, as qualidades da sua voz, a sua força interpretativa, a sua maneira particular de tocar os sentimentos dos seus seguidores. Por exemplo, Lucho Gatica sussurrava as suas canções, levando-as do coração aos lábios, apoiado na doçura das letras de Roberto Cantoral («La barca», «El reloj», «Regálame esta no-

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As suas vozes continuam a animar os desvelos amorosos daqueles que encontram nas suas canções um remanso sentimental

che», «La noche del adiós», etc.), que tanto encantaram as beldades dos anos 50; as mesmas que se desvaneciam com Nat King Cole e a sua maneira tão especial de cantar «Ansiedad», «Cachito» e «Yo vendo unos ojos negros»; enquanto Javier Solís, seguindo as pegadas de Jorge Negrete e Pedro Infante, fez do bolero-ranchera um convite para morrer de amor, mas de pé, cantando e recordando, no recanto de uma tasca, exigindo mais e mais à rockola, para que não deixasse de incentivar a recordação do amado ou malquerido, com «Vendaval sin rumbo», «Escándalo», «Ay, cariño», «Que se mueran de envidia», entre tantas outras interpretações que em seu tempo invadiam até ao último beco onde podia acolher-se uma alma enamorada.

NO JOGO DA VIDA Muitos desses intérpretes já não existem. Não obstante, as suas vozes continuam a animar os desvelos amorosos daqueles que encontram nas suas canções um remanso sentimental. Os velhos discos de 33 e 45 rotações por minuto, filhos queridos dos discos de carvão, que se tocavam nos memoráveis pick-up e suas intermináveis agulhas, ou os modernos discos compactos, continuam a manter acesas as lembranças dos amores do passado ou reforçam os do presente. Existe também, nessa magia, a lenda que acompanhou a vida de compositores e cantores, que originou a mitificação dos mesmos quando os seus seguidores encontraram neles modos de vida, costumes, vivências, histórias, fantasias, com as quais estavam plenamente identificados, ao fazer parte do seu próprio quotidiano ou das suas mais caras ilusões. Por isso é que Daniel Santos, o «Inquieto Anacobero» de Porto Rico, foi e continua a ser um paradigma existencial. Com o seu estilo inconfundível, passou à história como o melhor dos intérpretes das canções de Rafael Hernández e Pedro Flores, ou como o grande ídolo de Cuba nos tempos da Sonora Matancera, onde cantou e bailou durante 15 anos consecutivos. Não obstante, foi a sua própria vida, para além dos cenários, que ajudou a convertê-lo num mito. A pobreza das suas origens, a lenda da sua aproximação às marquesinhas do êxito, o seu deambular pelo álcool, as drogas e as prisões, o seu patriotismo purificado, a sua desfaçatez para enfrentar «o jogo da vida» ou, finalmente, a sua turbulenta vida sentimental


converteram-no num herói para a indelével imaginação popular. E o mesmo poderíamos dizer de Julio Jaramillo, que deixou cinco esposas e vinte e seis filhos, ou do inolvidável Héctor Lavoe, cuja folha de vida é tão mítica como as suas electrizantes interpretações de «Taxi», «Ausencia», «Plazos traicioneros» ou «Un amor de la calle», nas quais o son, confundindo-se com o bolero, continua a dar corda aos corações enamorados, ainda que o sonero, tal como Daniel ou Julio, já não esteja connosco. EPÍLOGO Ao contrário do que tradicionalmente se pensa, a música popular é um poderoso factor de identificação. Estamos a pensar naquelas criações que, por surgirem de baixo, da rua ou da esquina, expressando sem rodeios a azáfama e o sentir quotidiano de homens e mulheres: a sua ancestral luta pela sobrevivência, as suas alegrias, tristezas e amores, conquistam rapidamente os sentimentos e a consciência das multidões. O bolero é uma daquelas criações que, ao reflectir a idiossincrasia amorosa do latino-americano, foi tecendo uma trama invisível que converteu os nossos pais e avós, cubanos, mexicanos, peruanos ou porto-riquenhos, em verdadeiros militantes da internacional do amor, sem mais mandatos que o da sua paixão amorosa, levada sempre à flor de pele, prestes a transbordar ao mais leve impacto dos dardos melosos de um sorriso coquete, de um olhar inquietante ou, simplesmente, de um caminhar insinuante. Contra isso, todavia, têm conspirado, por um lado, a

mercantilização dessas criações, que nesse processo costumam perder as suas essências íntimas e poéticas, que as entrelaçam com a própria vida; e, por outro lado, a invasão de ritmos forasteiros que, através de grupos e cantores de qualidade duvidosa e apoiados numa tecnologia ruidosa, vão acantonando e diluindo a nossa cultura musical e sentimental. Com o bolero passou-se isso. Felizmente, iniciativas como as do «Buenavista Social Club» (que juntou Compay Segundo, Rúben González, Ibrahin Ferrer e Omara Portuondo), ou a incursão nesse género de vozes como as de Pablo Milanés, Tania Libertad e Soledad Bravo tendem a revitalizar o bolero e a restituir-nos o sentimento, a paixão, os estilos e hábitos de todo o bom escravo e amo do amor porque, como costumava cantar Roberto Ledesma, lá por mil novecentos sessenta e tantos, «el día que deje de salir el Sol,/ y la Luna deje de alumbrar,/ y las estrellas dejen de brillar,» nesse dia, só nesse dia, deixaremos de amar.


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«As fronteiras são fictícias e arbitrárias», reconhece o actor mexicano Gael García Bernal que encarna a personagem de Che em Diários de Che Guevara. Eis a lição de continentalidade da tão pobre e rica América do Sul renovada neste último filme de Walter Salles.

Os mortos comandam os vivos ou também de motocicleta se atravessa o mar Anabela Moutinho


Walter Salles é meu conhecido de há uns anos a esta parte. Gosto de o cumprimentar, sinto-me bem por trocar olhares, emoções e descobertas em sotaque brasileiro. Não chega a ser meu amigo, porque esse é quem te toca sempre e não só a espaços. Mas, seja como for, enternece- me a vontade louca, a dele, de ser o seu país em mensagem universal. E, quando o consegue, apetece- me ser convidada para entrar naquela sua casa. Porque aí ela seria minha também. Um pouquinho, mas o suficiente. Da obra de Walter Salles, o filho e por isso Júnior, se afastaram os caminhos diplomáticos de seu pai mas não o desejo de errância ou, pelo menos, o fantasma dela que a sua própria vida lhe forneceu durante anos de infância e adolescência. Os errantes são seres em demanda, e nas histórias de Salles o Santo Graal são eles próprios. Ora, em todos os seus filmes de ficção – melhor dito, em todas as suas longas-metragens porque não vi nem as curtas-metragens, nem os filmes para televisão, nem os documentários, nem os filmes publicitários (isto é, o grosso da sua filmografia...) –, o cálice que se busca é a identidade. E jogos entre ela e a do realizador, e a do povo, e a do continente, e a do mundo. Quando Waltinho chega ao cinema, carrega já um olhar: o do fotógrafo que ele foi – e não por acaso a sua primeira longa-metragem, A Grande Arte (1991), adaptada do romance homónimo de Rubem Fonseca, é protagonizada por um fotógrafo, tornado no guião em norte-americano pela vontade, muito inicial como se vê, de internacionalizar os filmes como estratégia

comercial e fruto de necessidade económica – mas também o do cinema próximo das pessoas que assume como sua herança e influência, ou seja, o neo-realismo italiano, a Nouvelle Vague francesa e o Cinema Novo Brasileiro. E desta mistura – Cartier-Bresson, Kertesz e Kubelka guiando Salles, como o próprio confessa, nesses gestos de fixar instantâneas pessoas a preto e branco, Sica ou Truffaut ou Glauber a inspirar o mesmo em gente do campo ou da cidade em imagens em movimento – dizem particularmente bem o início e o final de A Grande Arte: Peter Mandrake (interpretado por Peter Coyote) vai disparando a sua máquina a esses meninos loucos que desafiam a vida no «trem-surf», imobilizando assim em imagens a preto e branco essas aventuras a cores de quem ama o risco da morte para dar algum sentido a existências sem nenhum, para terminar reconciliando-se com o amor após uma história cruel de vingança indomável, fotografando beijos carinhosos da gente simples que dá vontade de chorar. Os filmes de Salles oscilam assim entre uma preocupação lúcida e um optimismo cândido quanto ao destino dessa gente que é a dele. Aliás, esse não é o único traço comum na sua obra. Em todas as suas longas-metragens «os mortos comandam os vivos», frase que roubo a uma personagem de Abril Despedaçado; em A Grande Arte, que é a de ferir com crueldade quem nos feriu, manejando as navalhas com a sabedoria de samurais dos bas-fonds, a morte surge como consequência natural de tal desvario ético; em Terra Estrangeira (1996), é a mãe basca falecida que conduz o seu filho desde São Paulo a uma San Sebastián

Da obra de Walter Salles, o filho e por isso Júnior, se afastaram os caminhos diplomáticos de seu pai, mas não o desejo de errância ou, pelo menos, o fantasma dela


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Ora, de qualquer viagem, o que recordamos são momentos, e são esses os que me comovem em Walter Salles

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que ele não alcançará nunca pois pelo meio fica este Portugal que «não é sítio para se encontrar ninguém, é uma terra de gente que partiu para o mar, o lugar ideal para se perder alguém ou para se perder a si próprio», como certeiramente diz a personagem belissimamente interpretada pelo nosso João Lagarto; em Central do Brasil (1998), é a figura do pai ausente, nem se sabe se vivo ou morto, que se persegue até ao Brasil mais profundo e esquecido, e nessa busca um menino encontra uma mãe e uma mulher encontra-se a si mesma; em O Primeiro Dia (1998), são os depósitos de armas clandestinas que são filmados como livros em bibliotecas públicas, e dessas letras escritas com pólvora se faz uma história de felicidade impossível para quem se comprometeu com um assassínio; em Abril Despedaçado (2001), de novo uma incursão em obra literária prévia, desta vez de Ismail Kadaré, é a tradição de raízes sicilianas da honra da família «cobrada pelo sangue» presente no Nordeste brasileiro do início do século passado, que aliás ainda se encontra, desvirtuada embora, nas favelas do final dele (não foi portanto por acaso que Walter Salles foi o produtor de Cidade de Deus de Fernando Meirelles, adaptação do romance homónimo de Paulo Lins sobre a favela com o mesmo nome, o filme-choque que deu a volta ao mundo em 2002 recordando o mesmo efeito que Pixote de Hector Babenco tinha provocado nos idos dos anos 80). Os mortos comandando os vivos. E, como se começa a perceber, em todos eles o estilo é o do road-movie ou literal por-

que são viagens que se contam, ou metafórico porque até nos mais negros films noirs uma viagem interior acontece. Ora, de qualquer viagem, o que recordamos são momentos, e são esses os que me comovem em Walter Salles: o Tonho de Abril Despedaçado a quebrar a tradição familiar quando se permite uma viagem de baloiço filmada como se de voo de pássaro se tratasse e nos ares planasse a alegria e não mais a dor; o João de O Primeiro Dia disparando a sua 9 mm, antes responsável pela morte do seu melhor amigo que ele mesmo executou cedendo a chantagem policial que nesse acordo lhe garantia a liberdade, agora para o ar, depois de salvar Maria do suicídio e assim se juntando ao fogo-de-artifício que à meia-noite explode com o Corcovado ao fundo e gritando «nunca mais a morte», projecto de uma nova felicidade para todo um povo num milénio que se inicia; a Dora «escrevedora de cartas» de Central do Brasil no final do filme escrevendo uma em seu nome e já não, a troco de 1 real («2, se for pra botar no correio»), a gentinha analfabeta que confiava nela as suas ilusões e esperanças que por sua vez ela deitava no lixo, Dora finalmente a confessar que tem saudades do seu pai, que tem saudades de tudo, e por isso entendemos que o seu cinismo deu lugar a um coração de novo quente, de novo coração; a Alex do seu melhor filme, Terra Estrangeira, a soluçar o Vapor Barato enquanto Paco se esvai em sangue no seu colo, e finalmente a voz de Gal Costa a continuar a canção porque Alex tem que ir sossegando inutilmente eu te levo a casa,


meu amor, eu te levo a San Sebastián, meu amor, nós vamos para casa, meu amor, meu amor eu te levo a casa; e o Mandrake de A Grande Arte a descobrir no final de um negro passeio pelo dentro de si que só tem medo do escuro quem nunca o afrontou. Mortos comandando vivos em viagem. Mortos e vivos de um país. Com a minha língua. Com identidade própria. E por isso, só por isso, com todos nós. Porque, como sabiamente (e poderia ser de outra maneira nela?) disse Agustina Bessa-Luís ao receber o recente Prémio Camões, «o riso e as lágrimas não têm sotaque». Parece portanto evidente que, de outra ou da mesma maneira, o com curiosidade esperado Os Diários da Motocicleta – que em Portugal se chamam Os Diários de Che Guevara – se integrará nesta mesma linha, nesta mesma coerência, nesta mesma urgência. Uma reconstituição da viagem de motocicleta que Che fez em 1952, aos 24 anos, com o seu amigo Alberto Granado, a partir da sua Buenos Aires natal ao encontro do espírito transfronteiriço que foi a sua ideologia, a sua paixão e a sua morte. «As fronteiras são fictícias e arbitrárias», reconhece ainda hoje quem o encarnou na tela, o mexicano Gael García Bernal. Dessa lição de continentalidade da tão pobre e rica América do Sul espero eu que Salles, mais uma vez, me ofereça as ocasiões que me fazem sentir bem aconchegada em sua casa. Desta vez não só em momentos, mas para sempre. Para que eu lhe possa enfim chamar Walter, meu caro amigo. Também de motocicleta se atravessa o mar?


A COMPANHIA DOS LIVROS

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O Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, em colaboração com as Edições Colibri, editou quatro títulos da Colecção Travessias. Travessia do Mar Oceano feita em múltiplas direcções e acepções, norteada pelo prazer da viagem e da companhia dos livros.

Maria da Graça A. Mateus Ventura NEGREIROS PORTUGUESES NAS ROTAS DAS ÍNDIAS DE CASTELA (1541-1556) 1998, 191 pp. Feitores, agentes lidam com o dinheiro dos outros, traficam o que não é seu.Viajam por esse Atlântico fora, buscando também o seu próprio destino. Vão e voltam. Ou ficam por lá com as suas famílias e alguns criados. Dispensados das provas de pureza de sangue, amalham-se no cargo do trato. Judaizantes, aos molhos, tecem redes de tráfico em terra, em correlação com as outras que, do mar, lhes trazem as mãos e os corpos para o trabalho e a fortuna.

Maria da Graça A. Mateus Ventura PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA HISPANOAMÉRICA: VIAGENS E EXPEDIÇÕES (1492-1557) 1999, 274 pp. Os Estados ibéricos, acordando em Tordesilhas a partilha do mundo, delimitaram áreas de influência e de jurisdição, mas não impediram que os homens circulassem por todo o lado, navegando, combatendo ou traficando, alheios a fronteiras ou a vínculos nacionais. Italianos, flamengos, franceses, gregos, alemães ou portugueses circulariam, apesar de proibições conjunturais, num vasto território em processo de definição e configuração cartográfica e política.

Ivone Correia Alves GAMAS E CONDES DA VIDIGUEIRA: PERCURSOS E GENEALOGIAS 2001, 347 pp. Tal como nos brasões de armas, a memória dos Gamas e do primeiro conde da Vidigueira plasma-se nas Casas que lhe vão sucedendo. Não há como retomar o fio original destes meandros de arquivos e famílias. Os seus descendentes são uns e outros, mas talvez os Gamas de fora do condado nos transmitam com maior fidelidade aquele obscuro e determinado Vasco da Gama que aceitou o desafio de vencer «O mostrengo que está no fim do mar» e no princípio de outros novos mares.

Virgínia Trindade Valadares ELITES MINEIRAS SETECENTISTAS: CONJUGAÇÃO DE DOIS MUNDOS 2004, 541 pp. A insubmissão, a rebeldia, o espírito anticolonialista, antiesclavagista, libertário, característicos do mineiro, e tão decantados pela historiografia de Minas Gerais, não me parece ser a tónica da elite formada em Coimbra. Vale dizer, entretanto, que este segmento da sociedade não era homogéneo e que havia, na elite mineira instruída na própria capitania, elementos que não representavam a mentalidade coimbrã e que foram refractários aos ditames metropolitanos e a eles se opuseram. Na verdade, a elite mineira que se bacharelava em Coimbra assumiu, em Minas, o papel do agente régio, reinol de nascimento, que substituiu o turbulento conquistador, caudilho e potentado.


NOVIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA Eu hei-de amar uma pedra António Lobo Antunes O mais recente e emocionante romance de António Lobo Antunes nos 25 anos de vida literária do Autor.

Fotobiografia António Lobo Antunes Tereza Coelho Vida e obra de António Lobo Antunes num extraordinário álbum ilustrado.

O Anjo da Tempestade Nuno Júdice O novo e surpreendente romance de Nuno Júdice.

Gémeos Mário Cláudio «Um romance perfeito.» António Lobo Antunes

Triunfo do Amor Português Mário Cláudio Doze grandes casos de amor da História de Portugal. Prefácio de Agustina Bessa-Luís e ilustrações de Rogério Ribeiro.

Transatlântico Paulo Nogueira Um romance vertiginoso, divertido e tocante.

Pena Suspensa Fernando Pinto do Amaral O brilho e a maturidade de um dos nossos grandes poetas.

Cruz das Almas Patrícia Reis Uma estreia literária de grande qualidade. Ilustrações de Rodrigo Saias.

Nua e Crua Marta Gautier Um romance sobre a revolta, o encontro e o renascer de uma jovem mulher.

DAMOS VALOR AO QUE É NOSSO


Revista atlântica de cultura ibero-americana

PUBLICAÇÃO SEMESTRAL EDIÇÃO Instituto de Cultura Ibero-Atlântica (Associação cultural sem fins lucrativos)

DIRECTOR João Ventura CONSELHO EDITORIAL António Borges Coelho (Portugal) Caio Boschi (Brasil) Gerardo Caetano (Uruguai) João de Melo (Portugal) Luis Sepúlveda (Chile) Maria da Graça A. Mateus Ventura (Portugal) Mempo Giardinelli (Argentina) Osvaldo Henrique Urbano (Peru) Plínio Apuleyo Mendoza (Colômbia) Teódulo Menéndez López (Venezuela) PROJECTO EDITORIAL João Ventura DESIGN Atelier Henrique Cayatte com Susana Cruz e Sónia Oliveira FOTOGRAFIA Carlos Cáceres Monteiro João Mariano João Ventura Josué Barrios

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Alberto Mosquera Moquillaza Anabela Moutinho António Borges Coelho António Ramos Rosa Arón Mazas Beatriz Padilla Carlos Cáceres Monteiro Daniel Divinsky Horacio Vásquez-Rial Janet Núñez João de Melo João Ventura Jorge Faurie José Newton Coelho Meneses Lídia Jorge Lilia Moritz Schwarcz Luis Sepúlveda Maria Adelina Amorim Maria Angeles Sallé Maria da Graça A. Mateus Ventura Osvaldo Henrique Urbano Regina Rodríguez Roberto Ampuero Sonia Tello Rozas Tabajara Ruas Volodia Teitelboim

EXCERTOS AUTORIZADOS Pablo Neruda COLABORAÇÃO EDITORIAL Nossa História (Brasil) TRADUÇÃO Maria da Graça A. Mateus Ventura REVISÃO & COPY DESK António José Massano CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS Biblioteca Nacional Archivo Histórico de la Biblioteca Piloto de Barranquilla Fundación Pablo Neruda PROPRIEDADE Instituto de Cultura Ibero-Atlântica Presidente Maria da Graça A. Mateus Ventura Vice-Presidente Valdemar Coutinho Coordenadora Adjunta Margarida Cunha Vogais Adelina Amorim e José Canelas

REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO Rua Júdice Biker, n.º 1 8500-538 Portimão E-mail: iciptm@mail.telepac.pt T. (351) 282 470 822 F. (351) 282 470 749 PROMOÇÃO E PUBLICIDADE iciaptm@mail.telepac.pt PRÉ-IMPRESSÃO Critério – Produção Gráfica, Lda IMPRESSÃO Norprint DISTRIBUIÇÃO ICIA ISSN 1646-1002 DEPÓSITO LEGAL 219149/04 PREÇO POR NÚMERO 15 € SÓCIOS DO ICIA 12,5 € ASSINATURA ANUAL 25 € © Instituto de Cultura Ibero-Atlântica e autores dos textos e das fotografias

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agradece a generosidade dos autores que tornaram possível esta edição. Os textos assinados são da exclusiva responsabilidade do(s) autor(es).

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