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Revista atlântica de cultura ibero-americana | Número 04 Primavera Verão 2006

Revista atlântica de cultura ibero-americana N.º 04 Primavera Verão 2006 15C_

Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

LUGARES DE PARTIDA LUANDA MANUEL RUI CIDADES INVISÍVEIS LIMA DO OUTRO LADO DOS MUROS DA CIDADE LITERÁRIA VIDAS CONTADAS UMA EVOCAÇÃO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS CECILIA BUSTAMANTE RIOS PROFUNDOS CÔA, O RIO QUE NUNCA VIU O MAR MARIA LÚCIA GARCIA MARQUES O QUE FAÇO EU AQUI M AG I C A L R E A L I S M – 1 0 1 ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA A MARESIA DO MUNDO PERTO DA RIA GASTÃO CRUZ


Revista atlântica de cultura ibero-americana

Número 04 Primavera Verão 2006

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ENTRE FRONTEIRAS DE SAL João Ventura TODOS OS NOMES HERÓIS DO MAR

Apanhadores de algas João Mariano 14

LUGARES DE PARTIDA

Luanda Manuel Rui 16

VAGA GENTE

Esta vida de marinheiro… Maria da Graça A. Mateus Ventura 20

TRAVESSIAS

Luanda-Minas-Luanda Ondjaki e Paulinho Assunção 30

SANTOS DA CASA

Vida, paixão, morte e ressurreição da Tirana do Tamarugal Virgínia Vidal 38 40 46 50

CIDADES INVISÍVEIS

LIMA Lima do outro lado dos muros da cidade literária Eva Valero Juan Os Bairros Altos e seus cinemas Alejandro Reyes VIDAS CONTADAS

Uma evocação de José María Arguedas Cecilia Bustamante 58

A INVENÇÃO DA AMÉRICA

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OS CAMINHOS DA DEMOCRACIA O obstinado retorno da utopia Roberto Ampuero Eixos e paradoxos das mudanças de rumo nas democracias e governos da América do Sul Gerardo Caetano

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CEM ANOS DE SOLIDÃO

Os filhos, Tucumán vinte anos depois Julio Pantoja 76

RIOS PROFUNDOS

Côa, o rio que nunca viu o mar… Maria Lúcia Garcia Marques 84

BESTIÁRIO

Do macaco de Paimogo ao mico-leão-dourado Maria Adelina Amorim 88

SABORES PRINCIPAIS

Sabores perdidos Carmen Yáñez 92

ESTÁDIO DE SÍTIO

Quando o futebol era magia Alberto Mosquera Moquillaza 96

ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

Portugueses nos Andes peruanos ou o mistério da Boca Mina de Pillpinto Osvaldo Henrique Urbano 100

O QUE FAÇO EU AQUI

Magical realism – 101 Onésimo Teotónio de Almeida 108

A MARESIA DO MUNDO

Perto da ria Gastão Cruz 110

FICÇÕES

A mosca e o ladrão Ondjaki 112

SETE MARES

Mar Portugal Ricardo Diniz 116

A MUDANÇA DA TERRA

Os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo de Marmelete (Algarve) Aliete Galhoz


Entre fronteiras de sal João Ventura jventura_atlantica@yahoo.com

Nesta edição mergulhamos, primeiro, com os apanhadores de algas da Costa Vicentina, para, depois, subirmos à Serra de Monchique e, numa errância pela tradição oral, recuperarmos os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo, em Marmelete. Descobrimos, ainda, o Côa, «correndo teimoso entre invernos e estiagens, cioso guardador de memórias». Mas é de Luanda que nos fazemos de novo ao mar oceano, puxando os fios azuis dos achamentos na outra margem atlântica. Imaginamo-nos em navios armados com a madeira da Serra de Monchique, cruzando as mesmas rotas da vaga gente lusitana. Como João Fernandes, marinheiro portimonense e

Fotografia de Paulo Barata

negociante em Acapulco. Ou como os mineiros escavando as entranhas dos Andes peruanos. Enchemos de sonhos uma embarcação a damos nome de Eusebel e partimos de Luanda para Minas guiados pelas estrelas do sul. Navegamos «sem passaporte entre fronteiras por sentinelas de sal e silêncio», até aportarmos a lugares «mais remotos que Lima» que apenas vislumbramos nos confins de um mundo, agora, invisível. E, como uma oportunidade de recomeço, reinventamos uma América onde se projectam as utopias da vaga gente de há cinco séculos e dos revolucionários que procuram calar o silêncio dos «cem anos de solidão».


TODOS OS NOMES

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ALBERTO MOSQUERA MOQUILLAZA [Lima, Peru] é antropólogo pela Universidade de São Marcos (UNMSM) e mestre em História da Filosofia na mesma Universidade, tendo exercido o jornalismo e colaborado em várias publicações periódicas da capital peruana. Actualmente é docente na Faculdade de Ciências Económicas da UNMSM, onde também é o coordenador da edição da sua revista institucional. ALEJANDRO REYES FLORES [Lima, Peru] é doutorado em História pela Universidade de São Marcos, sendo actualmente decano na Faculdade de Ciências Sociais da mesma Universidade. Tem como trabalhos publicados La esclavitud en Lima. 1800-1840, América Latina en la década del 90, Contradicciones en el Perú colonial. 1650-1810, e Hacendados y comerciantes en el norte peruano. 1780-1820. CARMEN YÁÑEZ HIDALGO [Santiago do Chile] viveu o seu exílio na Suécia entre 1981 e 1997. Em Gijón (Astúrias) desde 1997, publicou aí o seu primeiro livro de poesia Paisaje de luna fría. Em 2002, foi-lhe atribuído o prémio de poesia Nicolás Guillén. Alas del viento é o seu último livro. Actualmente, integra o conselho de redacção da revista do Salão do Livro Ibero-Americano de Gijón. CECILIA BUSTAMANTE [Lima, Peru] é escritora, poeta, jornalista, editora e conferencista. Foi a primeira mulher a receber o Prémio Nacional de Poesia do Peru em 1965. Representou o Peru em eventos nacionais e internacionais, na literatura, políticas culturais, desenvolvimento sustentável, direito das mulheres e direitos humanos. A sua obra literária foi traduzida e publicada em vários idiomas. EVA VALERO JUAN [Alicante, Espanha] é professora de Literatura Hispano-Americana na Universidade de Alicante, onde se doutorou em Filologia Hispânica. Dedicou vários trabalhos críticos à literatura peruana e às relações culturais e literárias entre Espanha e a América Latina. Publicou diversos artigos sobre autores hispano-americanos como Ricardo Palma e Pablo Neruda, entre outros. Entre as suas publicações, destaca-se o livro Lima en la tradición literaria del Perú. De la leyenda urbana a la disolución del mito (2003). GASTÃO CRUZ [Faro, Portugal] Poeta e crítico literário, formou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa. Foi professor do ensino secundário e, entre 1980 e 1986, leitor de Português no King’s College, em Londres. Como poeta, o seu nome aparece inicialmente ligado à publicação colectiva Poesia 61. Como crítico literário, colaborou em vários jornais e revistas ao longo dos anos sessenta. Além da sua obra poética, destaque-se o ensaio A Poesia Portuguesa Hoje (1973). GERARDO CAETANO [Montevideu, Uruguai] é um dos mais destacados historiadores e politólogos uruguaios. Director do Instituto de Ciência Política da Universidade de la República, é autor de numerosos livros e publicações nas suas áreas de especialidade, muitos dos quais premiados. É coordenador do programa de investigação sobre «Estudos Legislativos» do Centro Latino-Americano de Economia Humana e docente de cursos de licenciatura e pós-graduação em História e Ciência Política. HENRIQUE CAYATTE [Lisboa, Portugal] é presidente do Centro Português de Design e Professor Convidado da Universidade de Aveiro. Foi fundador e autor do design global, editor gráfico e ilustrador do jornal Público. Consultor para os projectos especiais de design da EXPO'98 e do respectivo plano de pormenor do recinto. Co-autor do sistema de sinalética e comunicação da EXPO’98. Co-autor e responsável pelo design da revista Egoísta. Comissário e autor do design de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Entre os vários galardões, recebeu em 2003 o Prémio Nacional de Design e o Prémio Dibner Award. JOÃO MARIANO [Aljezur, Portugal] é fotógrafo. Editou e coordenou a fotografia do Grupo Forum, dirigiu o departamento de fotografia do portal Terravista e actualmente dirige a agência 1000olhos – Imagem e Comunicação. Publicou diversos álbuns, livros e catálogos, e expõe regularmente desde 1993. Colabora eventualmente com a revista Egoísta e com o semanário Dna. JOÃO VENTURA [Portimão, Portugal] é mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e pós-graduado em Ciências Documentais (área de Bibliotecas) pela Universidade de Lisboa. Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Paris III e docente convidado na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve. Entre 1998 e 2003, desempenhou as funções de delegado regional do Ministério da Cultura no Algarve. Actualmente desenvolve actividade na área da gestão cultural como director do projecto «Fórum Cultural de Portimão». JULIO PANTOJA [Tucumán, Argentina] fotodocumentarista, jornalista, criativo e editor, formou-se como arquitecto e técnico de fotografia na Universidade Nacional de Tucumán (Argentina). É docente universitário e dirige, com Gabriel Varsanyi, os Ateliers de Expressão e Fotodocumentalismo. A sua obra integra colecções públicas e privadas, como as do Museu Nacional de Belas-Artes (Argentina) e as da Casa das Américas (Cuba). É membro do Instituto Hemisférico de Performance e Políticas para as Américas da Universidade de Nova Iorque. As suas fotografias foram expostas em galerias da Argentina, Venezuela, Brasil, Chile, Nicarágua, El Salvador, Espanha, França, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Suíça e África do Sul. MANUEL RUI [Huambo, Angola] licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra onde foi também membro fundador do Centro de Estudos Jurídicos. Poeta, ficcionista, ensaísta e cronista, entre as suas obras possui textos traduzidos para diversas línguas, como checo, servo-croata, romeno, russo, árabe e hebraico.Tem colaboração dispersa em diversos jornais e revistas lusófonos, entre os quais o jornal Público e o Jornal de Letras. Foi ministro da Comunicação Social do Governo de transição que antecedeu a independência de Angola, director do Departamento de Orientação Revolucionária e do Departamento de Relações Exteriores do MPLA. É autor da letra do primeiro Hino Nacional de Angola e de outros hinos, como o “Hino da Alfabetização, “Hino da Agricultura” e versão angolana da “Internacional”. Também é autor de canções em parceria com Rui Mingas,


André Mingas, Paulo de Carvalho e Carlos do Carmo (Portugal) e Martinho da Vila (Brasil), entre outros. Da sua vastíssima obra, destacam-se os dois últimos títulos: O Manequim e o Piano (2005) e Estórias de Conversa (2006). MARIA ADELINA AMORIM [Lisboa, Portugal] é mestre em História do Brasil e autora de vários estudos sobre a missionação no Brasil e sobre a literatura de viagens. Investigadora do CLEPUL e membro da ACLUS, colaborou na organização do Dicionário de Lusofonia (Texto Editora, 2006). MARIA ALIETE GALHOZ [Boliqueime, Portugal] é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi professora do ensino secundário de 1953 a 1972. Desde estudante que se dedica à pesquisa literária, tendo colaborado com Lindley Cintra, no Centro de Estudos Filológicos, e com Viegas Guerreiro, no Centro de Estudos Geográficos da FLUL. Ensaísta e investigadora, é autora de numerosos estudos sobre poesia e poetas portugueses, com destaque para Fernando Pessoa e para a literatura popular. Está ligada ao Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa e actualmente é vice-directora da Revista Lusitana. MARIA DA GRAÇA A. MATEUS VENTURA [Portimão, Portugal] é doutora em Letras pela Universidade de Lisboa. Fundadora do ICIA, foi vice-presidente da Direcção de 1995 a 2002, sendo presidente desde 2002. É professora visitante na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve no âmbito da Cátedra de Estudos Ibero-Americanos, da qual é coordenadora-executiva. Especialista em história da Ibero-América, com numerosos textos publicados nesta área, com destaque para Os Portugueses no Peru ao tempo da união ibérica: mobilidade, cumplicidades e vivências (INCM, 2005). MARIA DE LOURDES CARRASQUINHO GOMES [Lisboa, Portugal] é licenciada em Artes Plásticas-Pintura pela ESBAL. Professora de Educação Visual no ensino básico. Como pintora, participou em várias exposições colectivas. Associada no ICIA. MARIA LÚCIA GARCIA MARQUES [Lisboa, Portugal] é licenciada em Românicas, doutorou-se em Linguística Portuguesa Aplicada e dedicou-se à investigação sobre o Português Contemporâneo. Leccionou Análise de Texto na Universidade Católica Portuguesa. Esteve ligada ao Instituto de Cultura e Língua Portuguesa – ICALP (actual Instituto Camões) – cuja revista lançou e coordenou. Integra actualmente a direcção da ACLUS (Associação de Cultura Lusófona). Para além de trabalhos da sua especialidade científica, tem dois livros de poesia publicados. ONDJAKI [Luanda, Angola] é licenciado em Sociologia. Ficcionista, poeta, guionista e artista plástico, recebeu vários prémios literários em Portugal e Angola. Em 2005, o seu livro de contos E se amanhã o medo obteve os prémios Sagrada Esperança (Angola) e António Paulouro (Portugal). Alguns dos seus livros foram traduzidos para francês, espanhol, italiano e alemão. Actualmente reside em Terra de Saudade, a 800 km da cidade de Luanda. ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA [Pico da Pedra, S. Miguel, Açores, Portugal] é doutorado em Filosofia pela Brown University (EUA) e professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da mesma Universidade. Escritor com uma vasta obra publicada (conto, ensaio, crónica, teatro). Foi colaborador regular no DN e escreve com frequência para o Jornal de Letras. A sua obra mais recente, publicada em 2004, é Onze Prosemas (e um final merencório). OSVALDO HENRIQUE URBANO [Lima, Peru] foi de Aveiro para o Canadá onde obteve o grau de PhD em Ciências Sociais (Université Laval, Québec) e foi catedrático de Sociologia da mesma Universidade. Daqui partiu para o Peru onde fundou o Centro Las Casas (Cuzco, Peru) e a Revista Andina. Actualmente é director do Instituto de Investigações da Faculdade de Ciências da Comunicação, Turismo e Psicologia (Universidade San Martín de Porres, Lima, Peru) e director da revista Turismo y Patrimonio. PAULINHO ASSUNÇÃO [São Gotardo, Minas Gerais, Brasil] é ficcionista, poeta e jornalista profissional. Ganhou dois prémios literários nacionais no Brasil: o Prémio Cidade de Belo Horizonte, em 1983, com Diário do mudo (Poesia), e o Prémio Guimarães Rosa, em 1998, com Pequeno tratado sobre as Ilusões (contos), este editado em Portugal pela Campo das Letras. Vive em Belo Horizonte, dedicando-se à escrita e a uma pequena editora, a Edições 2 Luas. PAULO BARATA [Luanda, Angola] é fotógrafo free lancer, trabalha como fotógrafo de cena para teatro, cinema e televisão, e colabora regularmente com o DNA e Sábado. Expõe desde 1999. RICARDO DINIZ [Lisboa, Portugal] Autodidacta na arte de navegar pelos oceanos, é também criador e impulsionador de diversos projectos de educação, marketing e gestão. Colabora com escolas, empresários, artistas, escritores e atletas, como catalisador dos seus objectivos e ambições. Todos as suas iniciativas têm como pano de fundo o Projecto «Made in Portugal» – a promoção e credibilização de Portugal no mundo, transmitindo valores de tecnologia, qualidade e inovação no maior palco do mundo – os Oceanos. ROBERTO AMPUERO [Valparaíso, Chile] é um dos romancistas chilenos mais lidos. O seu recente romance Los Amantes de Estocolmo, o maior êxito editorial de 2003 no Chile, foi eleito livro do ano pela prestigiada Revista de Libros do Chile. Os seus romances foram traduzidos em alemão, francês, italiano e português. O livro Encontro no Azul Profundo (Temas e Debates, 2004) relata parte da saga do seu popular investigador chileno-cubano Cayetano Brulé. VIRGINIA VIDAL [Santiago, Chile] é escritora e jornalista. Exilada em 1976, viveu na ex-Jugoslávia e na Venezuela até 1987. Os seus textos foram traduzidos e publicados em diversas línguas. Tem inúmeros artigos de crítica cultural em revistas e diários da Venezuela. A sua novela Cadáveres del incendio hermoso recebeu o Prémio María Luisa Bombal de Viña del Mar em 1989. Trabalhou no programa cultural do Canal 9 da Universidade do Chile. Integrou o conselho de redacção da revista Araucária. Actualmente, é directora da revista Anaquel Austral e directora da Sociedade de Escritores do Chile.


HERÓIS DO MAR

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Apanhadores de algas João Mariano


HERÓIS DO MAR

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É chegado o mês de Julho e os preparativos são iniciados. Preparam-se os barcos, as pinturas, as limpezas, afinam-se os motores e os compressores, reúnem-se as companhas e avança-se para mais uma época de apanha submarina de algas. São cerca de três meses de uma actividade que, ao longo de alguns pontos da costa portuguesa, se revela como uma das mais duras tarefas executadas sob os auspícios do reino dos mares. Um ciclo de trabalhos que se inicia na Carrapateira e na Azenha do Mar, em terra, bem cedo pela manhã. E é junto ao «muro das lamentações», como alguns chamam ao muro que fica virado para o mar da Azenha, que os apanhadores de algas olham o mar e decidem se o dia é de trabalho. É aqui, também, que se reúnem quando o mar está mau e é aqui, ainda, que conversam acerca do futuro da actividade e recordam outros tempos de safra. A apanha submarina de algas, em todas as suas fases de recolha, é uma actividade onde os limites físicos do ser humano são levados ao extremo. São horas de trabalho extenuante, com uma repetição de movimentos executados num meio adverso e sujeito a variações constantes de pressão atmosférica em que, frequentemente, as regras elementares de mergulho não são cumpridas. É um esforço enorme, em circunstâncias a que o ser humano não está, por natureza, habituado, que transforma a apanha de algas num dos trabalhos mais árduos, duros e arriscados que podemos presenciar em território português.


HERÓIS DO MAR

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HERÓIS DO MAR

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LUGARES DE PARTIDA

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Luanda Manuel Rui

Luanda debruçada sobre o mar onde as ondas uma a uma vêm desfazer-se em espuma e a tua ilha beijar (canção de Eleutério Sanches)

Cidade de Luanda, séc. XVIII. Gravura aguarelada holandesa. Imagem: Arquivo Histórico Ultramarino


A Atlântica é uma indefinição que ocorre nas algas. Em muitas terras do mundo onde os búzios falam na praia sobre a paixão das conchas pelos sons. Os sons sempre foram uma paixão dos afectos. Os búzios dizem que são a paixão delas, as conchas, pelos sons deles. E as conchas vão conchilando na maneira fêmea e discreta que são a paixão deles pelo som delas porque os búzios andam sempre inteiros e fechados, e as conchas, elas de patroas do eros, deixando-se na embalação da maré até na areia revolvida e praia, se dão mesmo de entrega de sabida e fingida nostalgia, semiabertas ou abertas para se mostrarem nos olhos do sol e doarem seu sabor de inteiro sal. Sal de mar. Esse que andou a misturar tudo em suas maresias de marear as sinas com bué de viagens desbussoladas nos pontos cardeais embebedados em azimutes de cicatriz e sofrimento que tatuaram o mundo inteiro como se de marinhagem fossem o ódio, o amor e as lembranças para misturar os tons dos sons. De Luanda. Ninguém cansou maré por esses baixios e canais sempre cada vez mais mudados pelas luas de ibua e izala e os ventos do antigamente a repuxarem o tempo para outras travessias com a memória sem as tempestades a dar à costa quando os homens carregavam nas costas o mar como se fossem embondeiros com raízes a crescerem mesmo nas viagens como se fossem ramos e enchiam assim os porões de sonhos amarrados a grilhetas e agora o mar até dá sonambulações nos homens que usam ouro em anéis, fios grossos e pulseiras e olham pelas janelinhas dos aviões a água salgada sinalizada por sondas flamejantes demarcando os novos cemitérios da energia dos pássaros e das flores que andam a perder seu perfume no petro-aroma. Luanda abriu muitas linhas para o mar por nunca ter tido um princípio porque os homens chegantes dos achamentos jamais descobriram o que já existia. Só encontraram por acaso e por mor do mar e, então, nunca ninguém veio pela Atlântida de Lisboa para Luanda ou foi de Luanda para Niterói. Antes pelo contrário, as pessoas

foram pelo mar para o mesmo mar. Inventaram diferenças como a escravatura ou a conversão dos índios à cruz com os donos das roças ou fazendas na aprendizagem das danças e rituais das febres. Luanda abriu muitas linhas para o mar se conhecer nas luzes e nas trevas de cada remo e dongo de ximbicar com bordão saboado de espuma na miragem da terra salpicada de fogos-fátuos de metralhas e obuses tracejantes num incêndio que a cidade conseguiu apagar com o sorriso cansado e chorado dos meninos dos muceques. Luanda foi sempre um ponto de partida por causa do horizonte de quem a encontrou em paz consigo própria. E também foi ponto de partida para geografar de outra maneira o oceano e levar por ele a descoberta da Ibéria que se reinventou com esta parte de África no outro lado do oceano, tangando no tango, sambando e sobrevivendo nos blues a boiar nos salvados da tragédia de New Orleans. Luanda continua ponto de partida. Principalmente quando chegam e continuam a chegar mais pessoas para conhecer Luanda. Não é a Luanda dos cartazes. Nem a Luanda das grandes reportagens. É a Luanda que tem um povo mesmo luandense. Que gosta de farra. Gosta de rir. E de falar as coisas essas próprias de que Luanda é um ponto de partida que está sempre esperando todas as pessoas. As que saíram nas caravelas e sem morrer se infinitam na descendência multiplicada no topo do basquete ou futebol mundial ou ainda cantando blues e sambas, ou, ainda, erguendo força na construção civil com a recompensa de receberem a condecoração de problemáticos. Luanda é muito a sério. É muito atlântica e como ponto de partida quem daqui sair ou quem lhe vier conhecer, bebendo água do Bengo, só vai ter o coração cheio dessa magia de não querer sair mais. Luanda, deste oceano que desencontrou o encontro, é um ponto de partida. Mas sempre para voltar. Num hungo ou numa guitarra. É sempre um som de um tom tão viajado com sabor a beijo da boca tão beijada do mar de baçula ou capoeira.


VAGA GENTE

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Esta vida de marinheiro… Maria da Graça A. Mateus Ventura

Portal tardo-gótico da Igreja Matriz de Portimão. Fotografia de Paulo Arez


VAGA GENTE

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Vaga gente definida num olhar que um feitor espanhol para coordenar, no cruzava o oceano projectando na outra Algarve, a luta contra as falsas arribadas e o margem a ambição de regressar com fama contrabando desmesurado praticado pelos e muito proveito ou de ficar por lá rendida mestres e capitães que vinham das Índias à riqueza de outra terra. Gente do mar que com os barcos carregados de mercadorias partiu de Vila Nova de Portimão, à beira do que os oficiais da Casa da Contratação de rio, para as Índias, cruzando o grande Mar Sevilha teriam de onerar com os direitos Oceano em navios de negros, e que aporreais. tou a Cartagena das Índias, à terra que o Era vaga gente, como os antepassados historiador Pierre Chaunu disse que seria de Jorge Luis Borges que, um dia, partiram portuguesa se a unicefalia dos Estados ibéde Trás-os-Montes rumo ao sul, para ricos não se tivesse desBuenos Aires. As histófeito tão depressa. Nessa rias que nos contam, cidade, em 1630, muitos embora vagas, traduzem Os de cá recebiam eram algarvios de Portiuma maior familiaridamão frequentadores dos de com o mar que os portos antilhanos.Tinham lembranças, por vezes visitas sustentava e embalava os aportado como marinheiseus sonhos do que com ros, pilotos, mestres, paa terra onde nasceram. inesperadas, muitas vezes jens. Deixaram a mulher, Talvez por isso a maior os filhos, os pais e os parte não regressasse em irmãos e andavam de cá o resultado de um testamento definitivo. Ficavam por para lá, a bordo dos galá numa outra terra que leões da armada, tripuvivia daquilo que pelo lando os navios negreiros. mar circulava de poente que restituía a identidade Foram perseguidos por para oriente e de cá para piratas e corsários que lá. Negros em troca de aos que, tendo ficado no seguiam no rasto líquido prata. E era deste vaivém do ouro e da prata que incessante que a vaga jorravam do Peru e do que partiu se alisilêncio da espera, recebiam gente México. mentava e ganhava alguHabituados à faina, ma notoriedade. Os de numa vila muralhada a boa nova da parca fortuna cá recebiam lembranças, moldada na sua vocação por vezes visitas inesmarítima, conviviam de peradas, muitas vezes o perto com o contrabanresultado de um testano ofertório da missa de do que se praticava nas mento que restituía a praias recônditas, viajanidentidade aos que, tendo domingo na Igreja Matriz. ficado no silêncio da do pelo Mediterrâneo, movidos por um dinâespera, recebiam a boamico comércio de pesca-nova da parca fortuna do e de frutos secos, não resistiram ao no ofertório da missa de domingo na apelo da aventura nesse outro Mediterrâigreja matriz. É quando as histórias neo que Colombo inaugurara. Armavam ganham contornos que dissipam o anoninavios com a madeira da serra de Monmato e os oficiais da Contratação se vinchique, prenhe de castanheiros, incengam dos «ilegais». tivados pelos privilégios concedidos por Um João Fernandes, marinheiro, deiD. Sebastião aos moradores de Portimão xara a mulher «emprenhada» quando parpara a construção naval. Iam para Sevilha e tiu para Cartagena. Nunca mais regressou, daqui para a América espanhola, como se mas, em Guayaquil, onde redigiu o testafossem naturais de Castela, diziam eles. mento, já enfermo e entregue aos cuidados Mas não eram e, por isso, Filipe II nomeou dos irmãos do hospital de Santa Catarina


mártir, ia recebendo notícias da família e cria que o filho se chamaria André e teria já doze anos. Era verdade, o vigário da vara de Portimão, no processo de restituição dos bens do defunto, confirmou que João havia casado, «in facie ecclesiae conforme ao sagrado concilio tridentino», com Maria Vaz, filha de mareantes, e que o filho fora baptizado com o nome de André. Esse algarvio aventureiro estava acompanhado de outros conterrâneos e parentes envolvidos em negócios da China, através de Acapulco. Gostava de jogar xadrez e damas, vestia roupa de tafetá, de terciopelo, de seda, de algodão, usava um palito de prata e guardava as moedas num mealheiro de lata. Um António da Veiga, também natural de Vila Nova, conhecido como o «Bacalhau», serviu praça de marinheiro no patacho do mestre Manuel Tomé, seu conterrâneo, que transportava negros de registo de Angola para o México. Durante a travessia, perseguido por inimigos, arribou à ilha de Porto Rico. Aqui, a mando do governador,António embarcou, com outros mari-

nheiros de Portimão, num navio de Bartolomeu Gonçalves, também desta vila, que saiu a pelejar os corsários que o mataram com um balázio. Os 49.480 maravedis que deixou como herança, alegadamente resultantes de «seus vestidos» e do soldo que Sua Majestade lhe devia, foram destinados a sua mãe, mulata muito pobre sem bens para se sustentar. O prior da igreja de Portimão, na missa da terça de um dia festivo, leu o papel «de verbo ad verbum» dos senhores da Contra-tação para averiguar dos herdeiros. Só Catarina Afonso, a mãe, se manifestou. Mas os senhores da Contratação de Sevilha não consideravam que a morte por um balázio ao serviço do rei fosse suficiente para esclarecer uma história, em seu interesseiro entender, mal contada. E, em geral, era assim a vida de marinheiro. Os pobres, nem mortos tinham descanso. Vaga gente, raramente afortunada. Melhor sorte tinham aqueles que, em terra, lá para as bandas do Peru ou do México, se dedicavam ao trato de mercadorias.

Armavam navios com a madeira da serra de Monchique, prenhe de castanheiros, incentivados pelos privilégios concedidos por D. Sebastião aos moradores de Portimão para a construção naval. Iam para Sevilha e daqui para a América espanhola, como se fossem naturais de Castela, diziam eles.

Portimão na Foz do Arade. Foto de Paulo Arez

Cartagena das Índias. Foto de Juan Diego Duque


TRAVESSIAS

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Luanda-Minas-Luanda Ondjaki e Paulinho Assunção

Barcos seduzem o tempo. Fotografia de Abderrahmane Ualibo


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EUZEBEL (1) Ao meu barco, eu dei o nome de Euzebel. Era o mês de maio, os céus de Minas exibiam azuis de profundezas, tudo era quietude em nosso quintal. E ali, junto com Lucas Baldus, Rubem Focs e João Serenus, concluí o barco, embarcação pouco maior do que uma traineira, pintada de verde e vermelho, com madeirame polido à mão e o nome Euzebel bem à vista nos lados da quilha. Barco à vela, sim, mas igualmente a diesel para que pudéssemos vencer as distâncias pelo Atlântico. Lembro-me bem que foi logo antes do anoitecer, logo antes que testássemos nossas lunetas de ver estrelas, que nos arrodilhámos em volta do barco. E ali, com o gozo da tarefa cumprida e os desejos de milhas navegantes, passámos a imaginar o que embarcaríamos no Euzebel para a longa travessia, quem iria connosco, o que levaríamos a bordo e o que sonharíamos durante a viagem, rumo a Luanda.

1. DE ESTRELAS NA MÃO [DOS PENSARES DE UM DOS NARRADORES] A grávida olhou a embarcação pelas laterais brilhantes, areia do mar incluída na sujidade e o sal também, deixou os dedos da mão esquerda roçarem a madeira em jeito de carícia transbordante, e o que sentiu adensar-lhe o momento era uma espécie de cheiro carregado de futuro, o bebé no seu ventre adormeceu e ela sentiu nítida a saudade de um enjoo marinho, o vento no rosto empurrando os meses da espera que a cria leva a estrear-se no mundo, as velas suaves do barco convidando ao rumo, os búzios que entretanto se infiltrariam no pequeno porão e, já em alto-mar, fariam amor em prazer e função de reprodução, os olhos da grávida brilharam um pouco mais, e a embarcação encalhada gemeu um ruído nenhum, em acalentação da maré que enchia para humidificar a madeira do casco, a pintura recente da popa, a frieza da âncora e a beleza da figura daquela estranha máquina de viajar, a lua escondeu-se entre as nuvens voadoras e nenhum caranguejo se moveu, nenhuma concha voou, nenhuma onda rebentou, nenhum homem se aproximou, somente ali perto o comandante esperando o vaticínio da grávida para completar a cerimónia. E ela falou: o barco vai-se chamar «Estrela-do-mar». Com um gesto quase brusco, o comandante acendeu o cachimbo, e o cheiro morno atingiu o rosto do grávida que, sem falar sorriu e olhou para a mão do comandante que apertava a pipa, sendo que esse percebeu a mulher, era o seu jeito mais alegre de sorrir. A seu modo e ritmo, crê-se, também «Estrela-do-mar» sorriu. Era uma noite como outra qualquer, perto da baía de Luanda, num lugar conhecido como «praia da chicala».


BIBLIOTECA DE COISAS (2) O mar de Minas é feito de montanhas e serranias e foi em um desvão, lugar entre o que é e o que não é, abertura no horizonte a meio passo do abismo e da superfície dos morros, que embicámos o Euzebel. Dali, desse lugar de risco, o nosso barco mirou o leste, o leste das distâncias atlânticas. Até então, pouco tínhamos. Até então, éramos três marujos de palavras, homens da pena e do cálamo, homens feitos de páginas. E foi Rubem Focs quem sugeriu que alimentássemos o porão do Euzebel com as porções disto e daquilo, migalhas do nosso convívio, delicadas lembranças, amuletos, biblioteca de coisas e imagens. E então passámos a recolher frutas, como o araticum; pedras, como a carne de vaca; flores como a sempre-viva; lascas, como a do jatobá; pássaros, como o bem-te-vi; ventos, como o que sopra pelo planalto, pelo cerrado, pelas altanias do Alto do Paranaíba, caminhos do lobo-guará, trilhas das siriemas. Tudo isto, em presença ou efígie, fomos colocando nos porões do Euzebel. Uns sonhos novos e uns sonhos despedaçados. Uns amores ainda quentes e outros já tornados cinza em fornalhas abandonadas. E muito tardámos em semelhante tarefa, um mês ou mais, enquanto o Euzebel mirava o leste com a sua quilha lustrada de novo e de impetuosas vontades. Nosso Euzebel queria o oceano, quase nos pedia e implorava fazer-se ao mar. Mas ainda não era o tempo da navegação. Viria o junho entrante, viriam as brumas de julho. A hora chegaria com a conclusão de um mapa, este a cargo de João Serenus.

2. A EMBARCAÇÃO NÃO FALA MAS SENTE [CONSIDERAÇÕES POUCAS] A embarcação não tinha hora de partir, nem a coisa era tão combinada ao ponto de se saber rumos, crenças ou buscas pessoais da índole das paixões que fazem mover os homens, as montanhas e os mares, simplesmente o tal barco de nome «Estrela-do-mar» repousava com o corpo beijando a maré que, subindo, subia, sem com essa pressão salgada querer apressar o evento da partida. Ao largo, peugadas várias brotavam na areia perturbando a paz dos caranguejos e o sono dos coqueiros, eram pernas que ajudadas por corpos traziam das casas mantimentos de ordem gastronómica, ornamentos minúsculos de natureza pessoal, medicamentos tradicionais no formato de folhas e raízes, bem como os corações repletos de um suco antigo a que os mais velhos chamam «incerteza». De noite, além do brilho da lua, era fácil detectar, de longe como não, o brilho pueril que cada rosto levava pendurado, e não eram lágrimas de chorar.


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UM BILHETE (3) Em meados de julho, chegou-nos um bilhete de Luanda. Era meia folha de caderno, com rasgos nos cantos, um tanto amassada. E, letra a letra, frase a frase, percebemos que o bilhete fora escrito à beira-mar. Nele havia as marcas de sol e de sal. E lá estava dito: «Daqui de Luanda, saudamos o Euzebel. Boa viagem. Ao mar, o que é do mar.»

3. PRIMEIRA CARTA DA GRÁVIDA [GRÁVIDA OLHA A BAÍA DE NOITE ENQUANTO ESCREVE] Meu filho com comportamento de pássaro que um dia ainda vais nascer: Escrevo-te desde o brilho bonito da nossa baía da chicala, aqui onde os pescadores deixam os barcos repousar para vir adormecer o corpo depois de, desajeitados, fazerem um amor saboroso com as suas mulheres, donas de mãos calejadas em tempo e memória; Hoje é tão cedo para saber dizer-te o que te quero contar... O teu pai já aqui não está, não sei se esteve. E tu a cada movimento me dizes que queres chegar e eu a cada dia te digo que há um tempo para o ser se descobrir em pessoa viva, dessas que habitam o mundo social dividido pelos limites a que mais tarde serás forçado a conhecer.Tudo isso são coisas da lógica e da necessidade, a que um dia terás acesso se assim as coisas te ditarem, e que a par dessas virão outras, hoje apetece-me dizer-te, como os poemas que o cego jeremias gosta de recitar, ou como os poemas que hás-de de descobrir em livros mais antigos que nós e que a cidade, ou em poemas que talvez descubras pela ponta viva dos teus dedos, olhando esta baía que só eu agora miro, inventando palavras de constelações ainda não vistas, versos inaugurais, moldes de matérias humanas que eu, a tua mãe, não sei dizer nem esperar que cheguem. Por isso te espero, meu filho. Por isso te levo a esta viagem de descoberta e errância, para que dentro de mim, e pelos meus olhos, pelo meu corpo de enjoo e de maresia, te possa chegar ao sangue o fluxo de um vasto oceano chamado atlântico. Porque o futuro também é teu, meu filho da áfrica das cores, das ternuras e as magias também. Segura-te, meu filho, que eu te quero ensinar a viajar.

Falava sobre certas palavras da língua portuguesa que acompanharam as caravelas, mais precisamente a espuma das caravelas.


NOVAS PALAVRAS (4) Enquanto nos preparava o mapa de navegação e exercitava compassos e réguas de cartógrafo, João Serenus falava sobre certas palavras da língua portuguesa que acompanharam as caravelas, mais precisamente a espuma das caravelas, e foram ora para Angola ora para o Brasil, palavras muitas delas hoje em desuso, quase fósseis de palavras. Palavras que viraram frutas e viraram bichos, palavras que viraram sóis e luas, palavras que, em cópulas, cópulas em praia aberta ou cópulas selva adentro, geraram outras palavras, essas palavras ardentes sob o sol dos trópicos, milhares de sílabas renascidas e de frases iluminadas, alaridos de vogais e consoantes, tumulto de vocábulos em nudez e festa. João Serenus nos dizia tudo isto, enquanto traçava rotas e caminhos para o Euzebel.

4. DO TAL HOMEM [E DOS SEUS PÁSSAROS] Os pássaros eram transportados numa espécie de gaiolas-ao-contrário, artefacto de difícil construção técnica e de mais complicada manutenção, como uma mini-jaula aberta, com lugar para as patas dos passarinhos e o recipiente para pouca comida, pois que estes pássaros, em verdade, circulavam livremente e a estas gaiolas voltavam sem chamamento de assobio ou pedido de regresso. O homem que as transportava esquecera-se de usar dentes na boca, de modo que o seu sorriso era uma varanda bonita sem ser linda, curiosa sem ser fantasmagórica, e simpática sem nunca chegar a ser bela. Caminhava devagar o tal homem-que-vendia-pássaros, fazendo tanto ou menos ruído que o vento. Era uma espécie de pássaro, também ele, mas sem uma gaiola circundante que se pudesse ver com olhos de olhar ou formato de compreender.

PRIMEIROS ASSENTAMENTOS NO DIÁRIO DE BORDO (5) Na manhã em que ficou pronto o mapa de navegação, João Serenus igualmente nos mostrou um livro enorme, encapado de azul, o qual, logo soubemos, seria o nosso Diário de Bordo. E ali mesmo, naqueles desvãos do Mar de Minas onde se equilibrava o Euzebel, Rubem Focs quis fazer o primeiro registro, o primeiro assentamento, a primeira garatuja. Eis o que Focs escreveu: «Logo estaremos ao sabor do Atlântico. O nosso destino é uma ilha em um ponto secreto do oceano, entre Angola e Brasil. De Luanda, também está para vir um barco-irmão, barco igualmente mágico, para esse encontro na ilha. Quando nos encontrarmos, o barco de Luanda virá para Minas, o Euzebel irá para Luanda. Pelo que sei, o barco-irmão-angolano tem o nome de Estrela-do-Mar. Belo nome para tão benfazejos propósitos.»


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5. OUTRA CHEGADA [UM HOMEM QUE GOSTAVA DE DIZER POEMAS] Era uma pessoa acumulada em poesia, de sua autoria e de autoria vária, com complementos de saber tremelicar os olhos e orelhas enquanto o discurso, fluido, lhe brotava das cordas vocais plenas de acalentamento e prosa corrida. Não tinha um metro e meio do chão aos cabelos, mas era grande na sua dimensão de ser humano. De ser humano. Chegou como os outros – com vontade partir. Ferdinando

FLAUTA MÁGICA (6) Ferdinando Flauta Mágica, o que viajou pelo mundo e pelas épocas, fez-nos uma visita na terceira semana de julho. A lua estava de namoricos pelos bailes da madrugada, corujas felpudas atravessavam galhos e sombras, um curiango fez ruído nas copas de uma gameleira. Foi aí, enquanto arrodeávamos uma fogueira, que Ferdinando nos apareceu, ele com o seu chapéu, ele com o seu capote, ele com as suas botas de cano alto. Vinha em missão de reconhecimento, mas vinha também com desejos de embarque. Puxou histórias com Lucas Baldus, disse bravatas sobre os perigos do mar. Por fim, sem rodeios, anunciou sua vontade de viajar a Luanda. E até alisou o casco do Euzebel, como quem acaricia o pescoço de um cavalo bravio.

6. MAPAS PROPÍCIOS [O COMANDANTE ESPERA PACIENTEMENTE] Explicou que havia uma configuração propícia à movimentação marinha, e que isso de se saber para onde se iria era de menor relevância, antes, isso sim, saber decidir em que condições a viagem poderia decorrer, não no que a mantimentos se referisse mas aos materiais humanos, aí sim, incluídos os mantimentos gastronómicos e medicinais necessários, bem como os da natureza intrínseca à humanidade, os poemas, as vozes, a música e as bússolas que imitando corações soubessem ditar ritmos e bombear desejos mais ou menos próximos do instinto.

COLECCIONADOR DE VENTANIA (7) Foi pelas artes de Ferdinando Flauta Mágica que conhecemos um outro visitante, poucos dias depois, chamado Coleccionador de Ventania. Alegre no falar, alegre no modo de ser. Dizia-se português da região do Minho, mas com algum tempo a mais de conversa logo descobrimos que nascera na Beira Interior, para os lados da Covilhã. Muito imaginoso, Coleccionador de Ventania contava enoveladas histórias. O nome verdadeiro era José, José das Dores Terrenas. O apelido tivera origem, conforme disse, nas lides das navegações. «Sempre em pequenos barcos pesqueiros», contou. Ele apareceu numa noitinha que era uma noitinha de promessas de luas. O Euzebel pontificava altivo, à espera de fazer-se


ao mar. João Serenus ainda media distâncias e latitudes, porém o mapa já se encontrava pronto. Rubem Focs trouxe um vinho, Lucas Baldus quis solfejar cançonetas esquecidas. E ali, um tanto acriançados de felicidades inocentes, ficamos ouvindo as histórias do Coleccionador de Ventania. Assim que chegava ao fim um relato, Ferdinando Flauta Mágica dava o mote para mais uma narrativa interminável. E assim estávamos. Um outro bilhete tinha chegado na noite anterior e dizia: «Em Luanda, o Estrela-do-Mar tem igualmente ânsias para navegar.»

7. MOMENTOS [DE COMO O CURIOSO PERGUNTOU E ESCUTOU] – Mas isto é um navio, um barco, uma traineira? – Isto é uma embarcação. – E para onde vai? – Para longe. – Mas em que direcção? – Do outro lado deste mar aqui. Para as bandas do Brasil. – Brasil? – Sim. – E param nalgum lugar, de caminho para lá? – É possível. Assim queira a embarcação. – Você entende de navegação científica? – Eu só arrisco na navegação por estrelas. – E de dia? – Espero que a noite volte.

UMA HÉLICE PARA O EUZEBEL (8) Ferdinando Flauta Mágica sugeriu que colocássemos uma hélice-helicóptera no mastro do Euzebel, de modo a que nossa embarcação pudesse vencer o Mar de Minas, o qual, todos sabem, é um mar seco, mar de morrarias e serranias. Com tal instrumento, em dois ou três dias, pelos ares, poderíamos atingir o Atlântico e lá nos metermos de vez pelo curso das peripécias. Sugestão dada, sugestão aceita. Logo, mãos exímias no lavrar e no chanfrar, mãos artífices e engenhosas se puseram na tarefa de construir a hélice, de polir as suas pás e de colocá-la nos altos do mastro-mestre. E um jogo de polias e roldanas fez a hélice se acoplar ao motor, um pequeno mas vigoroso motor, agora com a função de dar ao Euzebel a condição de barco alado. Nem é preciso dizer que tivemos de brindar, e brindar em brindes e alaridos de alegria o novo invento. Houve júbilo. Até pude ouvir canções e cançonetas entre as mulheres e os meninos que por ali estiveram, todo o tempo, assistindo a tão doidivanas cerimónia.


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8. A MULHER APETITOSA [ESCREVE AO PADRE] Querido bartolomeu, Soube que estás de mala feita para um estranho barco e que tudo isso supostamente é segredo. O meu corpo também sabe de tudo isso, e o que te digo é que não há distância, nem haverá, que me perturbe neste ritmo de encontro ao que for, e há-de ser, inevitável. Nunca te escondi isto, e onde cabe um padre cabe uma mulher: se fugires, fujo contigo. A verdade é que mais cedo ou mais tarde hás-de fazer amor comigo. Por favor, digo eu: não faças essa cara, nada disto é uma ameaça. É, tu sabes, uma simples promessa. Beijos, Margarida-em-flor.

LISTA PARCIAL DA CARGA DO EUZEBEL (9) Água do rio São Francisco (dois tonéis); quarenta quilos de polvilho doce e azedo, mais dez rodas de queijo curado (para o pão de queijo a bordo); vinte quilos de fubá (para broas a bordo); vinte litros de caninha alambicada em socavões de Minas (para alegrias a bordo); dez quilos de carne de sol procedente de Curvelo (para assados a bordo); pimentas várias e diversas; feijão roxo e feijão preto; farinha de milho e farinha de mandioca; linguiça defumada; maquineta de gelo movida a querosene; duas geladeiras para a conservação das frutas e dos legumes e das hortaliças; uma sanfona e uma viola de dez cordas; dois tambores; um baú para guardar palavras novas; lunetas de olhar para fora e lunetas de olhar para dentro; binóculos de ver estrelas; um bacamarte propulsor de fogos-de-artifício; anzóis e caniços; dois livros de Ana Paula Tavares; um de Camões e outro de Gregório de Matos; um de Guimarães Rosa e outro de Luandino Vieira; ramos de alecrim e de hortelã; um dicionário dos passarinhos de Minas e um dicionário dos passarinhos de Luanda; apitos para chamar sereias; vozes gravadas: de sabiás, bem-te-vis, curiós e pintassilgos.

9. DE MÃOS, DE ESTRELAS [DOS PENSARES DE UM DOS NARRADORES] No fundo, o que as pessoas e o barco faziam era esperar, em acumulação e sabedoria, uma boa hora para partir. Alguém no meio dos já chegados sabia, evidentemente, o que se iria passar, sem incluir nesta previsão os ventos, as correntes, as refeições e os barcos com que se cruzariam. Havia um destino a cumprir, e era uma viagem. No céu as estrelas estavam prontas, na «praia da chicala» as mãos estavam salgadas. E esperaram.


DESEJOS DE NUVENS (10) O motor do Euzebel solavancou duas, três vezes, tossiu, resfolegou, imaginamos que fosse parar ou explodir. Foi engano. Ele ainda sequenciou uns solavancos, fez mimos, quis carinho, mas aí seguiu, foi adiante, entrou em calma de rolamentos e correias, os pinos se aquietaram, o metal azeitou-se, e o motor suspirou e produziu música. Ferdinando Flauta Mágica então moveu uma manopla e liberou as energias para a hélice. Ela girou, rodopiou, entrou em redemoinhos, colheu vento e agiu como uma dócil fêmea ventoinha. E nem acreditamos quando, aos poucos, movendo quadris e carcaças, o barco ganhava altura, elevava-se, subia um, dois, quatro metros. E lá pairou todo pássaro. O barco tinha desejos de nuvens. Ele tinha vontades de altitudes. Aquilo era apenas um teste, mas o Euzebel estava pronto para a viagem.

10. CORPOS [& VONTADES] Não era o vendedor de pássaros que transportava as gaiolas, era, mais me parece, as gaiolas-ao-contrário que transportavam ao homem que, sorridente, aceitava os destinos que a madeira aconselhava. Ele, o homem, elas as gaiolas, e eles os pássaros alegres aproximaram-se da praia e encontraram uma mulher nitidamente grávida, nessa imagem que não gera outra coisa que não ternura. O vendedor sentiu o cheiro da mulher – misto de folha-de-louro, alho recente, óleo-de-palma e a fumaça de um certo peixe-grelhado que ele quis imaginar fosse peixe-galo. Veio-lhe água à boca e uma pontinha de fome roçou-lhe o interior do estômago. Evitou cruzar o corpo ou o olhar com o da mulher. Passou ao largo e aproximou-se, vagaroso, da embarcação deitadiça junto ao mar. Era de noite.

Havia um destino a cumprir, e era uma viagem. No céu as estrelas estavam prontas, na «praia da chicala» as mãos estavam salgadas.


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Vida, paixão, morte e ressurreição da Tirana do Tamarugal Virgínia Vidal

«Nascemos sem passaporte entre fronteiras guardadas por sentinelas de sal e silêncio» Albano Martins

Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Herman Pereira


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Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Montserrat Sáenz. Prochile

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Após a celebração do chamado ano de 1535 pelos conquistadores, Diego de Almagro saiu de Cuzco à conquista do Sul do império. Não conseguia esconder o orgulho por ter subjugado os incas, mas, como ia penetrar em territórios difíceis e desconhecidos de um império de saudade tão infinita como a sua aridez, levou como reféns o sacerdote do Templo do Sol e a sua filha, a Ñusta Huillac. Creio que, na intenção de se defender de eventuais armadilhas e para gozar da mais absoluta segurança, levava consigo Paullo Túpac, irmão do príncipe Manco Capac, baptizado de Paulino, e Huillac Huma, último dignitário supremo de um culto que ele pretendia dar por extinto. Sua mulher, Malgarida, tão africana como os seus escravos, envolvia-o de paz, apesar das suas noites de pesadelo e enfermidade. Tão ilustres reféns eram tratados com respeito, ainda que pesasse sobre as suas cabeças a ameaça de que pagariam com a vida qualquer tentativa de rebelião, na caravana que integrava cerca de dez mil súbditos do império, aborígenes chamados de índios pelos espanhóis. Yanaconas e escravos africanos. Nela vinham encobertos alguns wilkas ou capitães, de importante carvina, que já tinham comandado os já dispersos exércitos incas. Também alguns acólitos do Sol se encobriam nas filas, envoltos em míseras roupagens e em aparente submissão, à espera da ocasião certa para se rebelarem. Ñusta Huillac descendia dos senhores de Tahuantisuyu e não se resignava às humilhações sofridas como consequência da debilidade de Atahualpa, tão prontamente disposto a confiar nos conquistadores. Ñusta conversou, ao largo da travessia, com Paullo Túpac sobre a forma de se separarem da expedição espanhola. Nenhum motivo os levava a continuar junto a Almagro. E foi assim que, sigilosamente, decidiram abandonar o exército espanhol, quando a expedição ia na zona de Atacama La Grande (mais tarde chamada Calama), onde habitavam os Kunza. Numa noite de espessa neblina, introduziram-se no deserto, até à cordilheira, em busca de um caminho que os levasse à


província de Charcas, cumprindo assim o propósito de instigar a rebelião, já promovida pelo inca Manco Capac, em Cuzco. No entanto, a neblina, a ausência de estrelas, o deserto e o horizonte circular desviaram-nos, fazendo-os seguir para norte, rumo ao poente. Quando julgavam ter-se perdido para sempre, arrastando-se pela areia, avistaram o paraíso sob a forma do oásis de Pica. Desta vez, Ñusta Huillac, seguida de uma centena dos seus melhores guerreiros e inseparáveis servidores, os wilkas, refugiou-se num bosque de tamarugos, cactos e alfarrobeiras nativas, que na altura cobriam o que é actualmente a Pampa do Tamarugal. Apelidaram essa região de Tarapacá, que em língua quechúa significa bosque impenetrável (dessa vegetação espessa, restam apenas hoje vestígios nas imediações do povoado de Tarapacá e dos casarios de Canchona e La Tirana). Durante quatro anos, Ñusta Huillac foi rainha e senhora desses locais porque Paullo mostrou uma debilidade crescente e vivia apenas para alimentar a sua nostalgia. A mando dos seus valentes wilka, Ñusta organizou as tropas e distribuiu-as de tal modo que esses bosques de Tamarugos constituíram um invencível bastião. Organizou o resto da população ao modo incaico, que permitia a exploração racional da terra e produção de vestuário e alimentação para todos. Pão e justiça era o lema desta mulher, cuja força de carácter e firmeza das suas decisões lhe conferiram o título atribuído pelo seu povo, como um segredo em coro: a Tirana do Tamarugal. Bem, Ñusta não se incomodou com o apelido, pois significava que o seu empenho em impor disciplina e ordem para combater os conquistadores triunfava. A melhor prova do sucesso do governo da Tirana do Tamarugal ia sendo dada pelo crescente apoio que lhe foram proporcionando os povos repartidos pelo vasto deserto. De todos os cantos do território de Tahuantisuyo, quadrilhas de homens dispostos a dar a vida para acabar com os invasores acorreram a prestar-lhe homenagem e a jurar-lhe lealdade.

A selva do Tamarugal foi, durante quatro anos, o baluarte de um povo que também se negou a aceitar a religião imposta pelos conquistadores. Por esse motivo, constituiu-se como lei inexorável dessa comunidade condenar à morte todo o estrangeiro ou aborígene baptizado que caísse em seu poder. No entanto, Ñusta Huillac ignorava a partida que o destino lhe reservava. Certo dia, levaram-lhe uns prisioneiros capturados, pouco depois de terem fugido de uma mina de prata de Huantajaya. Juraram ter partido com a intenção de se introduzirem na região em busca da

Numa noite de espessa neblina, introduziram-se no deserto, até à cordilheira, em busca de um caminho que os levasse à província de Charcas, cumprindo assim o propósito de instigar a rebelião, já promovida pelo inca Manco Capac, em Cuzco. Mina do Sol, que proporcionaria incalculáveis riquezas à Tirana. Os infelizes não entendiam que, para esse povo, o ouro não era nada mais do que «lágrimas do sol» destinadas a confeccionar objectos preciosos para o próprio culto desse deus senhor da vida. O grupo de esfarrapados era comandado por um estrangeiro, não espanhol mas sim português, chamado D. Vasco de Almeida. Ao vê-lo ferido, as roupas rasgadas, envolto em suor e pó, Ñusta sentiu na sua própria pele os golpes, o cansaço, a derrota e o orgulho indomável daquele homem.


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A selva do Tamarugal foi, durante quatro anos, o baluarte de um povo que também se negou a aceitar a religião imposta pelos conquistadores.

Sentiu quando o olhar dele penetrou nos seus olhos. Sentiu o mar que o havia agitado durante meses, antes de chegar ao ardente deserto. Sentiu a sua sede e a sua fome. Sentiu a nostalgia que ele possuía do calor da sua casa… Mas os wilkas e o comité de anciãos acordaram cumprir a lei e aplicar a pena de morte ao prisioneiro. A Tirana do Tamarugal sentiu então algo que desconhecia: uma terrível dor perante a simples ideia de vê-lo trespassado por uma lança. Pior ainda: era como se a ferida dele já lhe doesse a ela. E a ferida imaginária continuou a atormentá-la dias e dias, e a dor crescia, pois a execução de um prisioneiro não é algo que se decida de bom grado. A morte é recebida com solenidade e respeito. Há que dar banho ao condenado, alimentá-lo, fornecer-lhe as roupas adequadas. D. Vasco de Almeida deveria receber a morte como se recebe uma noiva. Entretanto, a Tirana do Tamarugal pensava dia e noite. Decidiu reunir os dignitários para adverti-los que, na sua qualidade de

Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Montserrat Sáenz. Prochile


sacerdotisa, se inclinaria perante o espelho de pedra e afirmaria o seu rosto no vazio para contemplar as estrelas. Queria mergulhar no destino e compreender o sinal. Após a consulta aos astros, resolveu que a execução de Almeida deveria ser adiada por quatro luas. Entretanto, Ñusta e Vasco de Almeida conheceram-se. Com o passar do tempo, começou a dizer-se que o português a teria convertido e que ela, renunciando ao seu credo, se deixou baptizar. Quem pode dar fé do que o prisioneiro e a Tirana tramaram, planearam e trocaram naquelas furtivas noites? O certo é que Ñusta se pôs em fuga mais uma vez, desta vez com D.Vasco de Almeida. Mas não foram muito longe. Foram perseguidos pelos wilkas que depressa descobriram o esconderijo onde se refugiavam os dois amantes, mas a chuva de flechas não conseguiu desenlaçar-lhes o abraço. Os soldados do último baluarte do império inca colocaram dois paus cruzados, no lugar onde os enterraram, como símbolo do que consideravam uma traição.

Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Hernán Pereira

Pouco tempo depois, no decurso de 1540 a 1550, um espanhol que andava em evangelização, frei Antonio Rodón, da ordem mercedária, chegou ao bosque dos Tamarugos1, situado a norte do Salar de Pintados, a mil metros de altitude, entre Iquique e Pica. Ali conheceu a história da Tirana. Vagueando pelo bosque, encontrou uma cruz numa clareira e considerou-a cristã. Escavou e descobriu restos humanos. Mais tarde disse que o esqueleto do homem conservava em muito bom estado um escapulário carmelita.

Com o tempo, foi crescendo a romaria para prestar, fervorosamente, devoção à virgem do deserto.


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Todos os humilhados da terra se vestem de gala, pagam as suas promessas, gastam o seu dinheiro e, livres, livres dançam com orgulho, durante três dias, perante a Tirana, a sua virgem adorada. Com o tempo, foi crescendo a romaria para prestar, fervorosamente, devoção à virgem do deserto. São principalmente os mineiros provenientes de toda a grande região norte do Chile que comparecem, ano após ano, no dia 14 de Julho, a expressar

1 Conjunto de árvores da família das papilionáceas, espécie de alfarrobeira que cresce na pampa chilena. (N. da T.) 2 Referente a acumulação de guano; acumulação de excrementos de aves marinhas nas costas do Peru e do Norte do Chile. (N. da T.) 3 Nome utilizado na Bolívia e no Peru, referente aos naturais da região selvagem, escassamente incorporados na civilização ocidental. (N. da T.)

Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Hernán Pereira

devoção absoluta à sua chinita que, segundo os devotos, possui o rosto de Ñusta Huillac. Após a noite de vigília de milhares de peregrinos, ao som de matracas e pandeiretas, a Tirana avança escoltada pelos chinos de Iquique, os únicos que possuem o direito de tirá-la do templo, por terem sido humilhados e escravizados nas guaneras2. E dançam os morenos (como são chamados os africanos) libertados para sempre da escravidão. E dançam os ciganos, livres de toda a suspeita e perseguição. E dançam os chunchos3 selvagens, as pastoras e os bolivianos com lamas, livres como condores. E dançam os peles vermelhas com seu bruxo, saídos do cinema mudo, fugindo dos invasores, e dançam os marinheiros apaixonados para sempre pelo mar. Todo o cenário andino e amazónico, todos os humilhados da terra se vestem de gala, pagam as suas promessas, gastam o seu dinheiro e livres, livres dançam com orgulho, durante três dias, perante a Tirana, a sua virgem adorada.


Festividades Tirana do Tamarugal. Fotografia de Montserrat Sรกenz. Prochile


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Lima, 1687. Archivo General de Indias, MP, Perú y Chile, 13

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LIMA DO OUTRO LADO DOS MUROS DA CIDADE LITERÁRIA Eva Valero Juan

O DITADO POPULAR ESPANHOL «MAIS LONGE QUE LIMA» É TALVEZ A FRASE MAIS SUGESTIVA PARA EVOCAR AQUELA CIDADE IMAGINÁRIA QUE, DESDE A SUA FUNDAÇÃO EM 1535, SE VISLUMBRAVA NOS CONFINS DE UM MUNDO QUASE INACESSÍVEL.

Plaza de Armas de Lima. Fotografia de Mylene D’Auriol - Promperú


Fundada com o nome de Ciudad de los Reyes, o seu nascimento como espaço físico requeria uma nova fundação: aguardava ser escrita como uma forma de alimentar a sua natural propensão utópica; necessitava de adquirir uma segunda realidade que lhe conferiria uma dimensão perdurável. E efectivamente, desde as origens, a literatura foi o reflexo fiel da evolução urbana que, ao largo de cinco séculos, converteu «a triste Ciudad de los Reyes» – como a apelidara César Moro – na «Lima horrível» traçada em meados do século XX por Sebastián Salazar Bondy1. Um factor histórico determinante nesta evolução foi a inevitável barreira que cercou a Lima colonial, separando-a do resto do país. Esta barreira não foi somente de ordem sociocultural, uma vez que a sua construção física data de 1685, quando Casa de Torre Tagla. Promperú Fotografia de Coco Martín - Promperú

Balcones, centro de Lima. Fotografia de Aníbal Solimano - Promperú

Lima se converteu no lendário hortus clausum da Colónia, com a edificação de umas muralhas enormes que marcavam tanto os seus limites, como a sua fisionomia de reduto espiritual de elite. Este divórcio entre o país e a sua capital terá sido fundamental na evolução das letras peruanas e na consolidação das suas diferentes correntes literárias.Talvez a irónica declaração de Abraham Valdelomar seja uma das mais eloquentes para compreender o momento anterior à mudança: «Lima é o Peru, o Jirón de la Unión é Lima, o Palácio Concerto é o Jirón de la Unión, e eu sou o Palácio Concerto!» À margem da expressão, a frase é especialmente significativa na medida em que,com ela,Valdelomar dava significado àquela Lima da belle époque que, no princípio do século, mantinha a essência aristocrática da antiga cidade colonial. No entanto, a mudança


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não se faria esperar, e a prematura morte de Valdelomar não lhe permitiu comprovar como a sua frase mudaria radicalmente de significado em muito pouco tempo, dado que a evolução da cidade, durante a primeira metade do século XX, converteria a citada sentença num paradoxo histórico: Lima continuou a ser o Peru, mas já não num sentido de centralismo exclusivista e de elite, senão o oposto, na perspectiva da «peruanização» da sua sociedade, resultante da avalanche migratória das províncias, a partir da década de trinta. Desde o princípio do século, a Lima vice-reinal tinha começado a desvanecer-se num passado quase inverosímil, pelo contraste radical que impôs a transformação urbana. A constatação desta profunda mudança teve uma imagem concreta e real no espaço da cidade e, ao mesmo tempo, numa construção literária desenvolvida por uma série de autores, desde finais do século XIX. No ano de 1870, «o mandato das mutações» chegava à aristocrática Ciudad de los Reyes com o objectivo de destruir o símbolo principal do seu inabalável elitismo: as muralhas construídas pelo duque de la Palata. A demolição dos velhos muros marcou um ponto de inflexão transcendental na evolução da cidade que abriu as suas portas à modernidade, mas também ao Peru na sua globalidade. Foi assim que, no século XX, Lima transformou radicalmente as suas faces para adquirir um rosto peruano e, nesse processo, o divórcio secular do Centro com o resto do país, que escondia o drama dos despojados por detrás dos cumes dos Andes, e que se revelou no espaço que transpunha os limites da cidade moderna. Paralelamente, a desa-

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justada transformação nacional gerou a decadência física e espiritual da urbe despoetizada: a «Ciudad de la Gracia», como a apelidara Ruben Darío, cobria-se de cinzento para desvanecer-se no idêntico e impessoal de uma problemática modernidade. Contudo, o lirismo daquele «horto fechado» que foi a Lima do passado não cairia no esquecimento: a literatura encarregar-se-ia de resgatá-lo quando, depois do caos revolucionário da inde-

NO SÉCULO XX, LIMA TRANSFORMOU RADICALMENTE AS SUAS FACES PARA ADQUIRIR UM ROSTO PERUANO E, NESSE PROCESSO, O DIVÓRCIO SECULAR DO CENTRO COM O RESTO DO PAÍS.

pendência, surgiu a necessidade de recuperar a memória histórica como forma iniludível de incluí-la no presente para olhar para o futuro. Neste âmbito, a recuperação do passado na literatura peruana concretiza-se, fundamentalmente, numa tradição literária urbana que tem a sua origem nos finais do século XX, na obra de Ricardo Palma. Nas suas Tradiciones

Peruanas, o escritor construiu a cidade mítica da colónia, inaugurando um discurso evocativo cujas reminiscências, todavia, se sentiram em meados do século XX, na obra literária de Julio Ramón Ribeyro, que assumiu o desafio de criar a geografia literária da Lima moderna. Entre Palma e Ribeyro, a história da capital na literatura do Peru desenvolveu-se através de uma tradição concreta: a construção literária de «una Lima que se va», título da obra de José Gálvez na qual este cronista, recorrendo à semente arraigada nas Tradiciones Peruanas, consolidou uma literatura urbana baseada nas recuperações do passado. Mas retornemos à origem, as «tradiciones» palmianas, um género que, através da inédita fusão entre história, lenda e literatura, deu lugar a várias séries de relatos nos quais a cidade vice-reinal revivia os seus faustos. Nas Tradiciones, os limenhos da urbe republicana, saturados de história entre a real e a inventada, podiam descobrir em cada rua da sua cidade uma anedota do tradicionista, de forma que o hortus clausum vice-reinal, em processo de extinção, se impregnou de história e de lenda, integrando-se decididamente na consciência republicana da segunda metade do século XIX. Através da visão intra-histórica do anedotário social e político dos séculos anteriores, e do trabalho de recuperação da literatura colonial, Palma restituiu a consciência histórica que havia eliminado, num primeiro momento, o fervor da Independência. No problemático ambiente republicano, esta afirmação das raízes parecia necessária e dela se deduz uma mitificação da cidade como


Arcádia, como resposta necessária de um momento histórico flutuante e instável, que procurava referentes ou argumentos para salvaguardar a hesitante utopia republicana. Emergia assim para a literatura a cidade do passado, quase invisível em pleno século XX, mas, em todo o caso, idiossincrasia da Lima moderna. Sobre essa cidade invisível que Palma converteu em mito fundador de uma sociedade, meditava Julio Ramón Ribeyro no artigo que dedicou ao narrador tradicionista, intitulado «Gracias, viejo socarrón». Ali, Ribeyro defendeu que a existência de Lima como cidade histórica, tal como se concebe no imaginário cultural, se devia indiscutivelmente à obra de Ricardo Palma: «O nosso passado seria para nós terreno baldio, desertificação e silêncio, não fossem as centenas de Tradiciones que este “cocabichinhos” escreveu no decurso da sua longa vida.»2 A influência da obra de Palma na literatura que posteriormente alimentou o mito arcádico do passado, e que se deu em chamar literatura passadista, intensificou-se fundamentalmente após a demolidora Guerra do Pacífico, que aboliu as esperanças e confirmou a frustração da «promessa» republicana. Só uns anos antes, em 1870, tinham-se destruído as muralhas simbólicas que até ao momento enclausuravam a consciência de desenvolvimento urbano. O desaparecimento dos intolerantes muros, símbolos do obscurantismo e do centralismo, parecia confirmar o advento definitivo da modernidade urbana – que se viu truncada após a guerra – e predizia a iminência de uma futura abertura ao mundo andino. No entanto, a incorporação

da serra no espaço alienante da cidade tardaria umas décadas a efectuar-se. Foi assim que, nos alvores do século XX, surgiu uma nova geração de escritores, os filhos da Guerra do Pacífico, que evitaram a problemática nacional para nos oferecer essa versão «passadista» da cidade, impregnada de nostalgia e melancolia, gerando, de uma forma muito clara, a versão idealizadora de Lima como Arcádia colonial. Entre eles, José Gál-

EMERGIA ASSIM PARA A LITERATURA A CIDADE DO PASSADO, QUASE INVISÍVEL EM PLENO SÉCULO XX, MAS EM TODO O CASO IDIOSSINCRASIA DA LIMA MODERNA.

vez escreveu a citada Una Lima que se va (1921)3; e Luis Alayza, em Mi país (4.ª serie: ciudades, valles y playas de la costa del Perú), recordou a construção das muralhas com as quais o duque de la Palata quis proteger Lima dos piratas que assediavam as costas – «Noutros tempos, as muralhas foram sítios de recreio aristocrático e, muitas vezes, de aventuras românticas»

– para logo descrever, uma vez destruídas, «a interminável colina de lixeiras em que se chegou a converter a defesa da “Ciudad de los Reyes”»4. Esta é a incipiente «barriada» cujas consequências dramáticas se encontram analisadas em algumas obras dos escritores da denominada geração de 50. A opulenta Ciudad de los Reyes, enriquecida graças ao centralismo que a manteve isolada da realidade andina da qual se nutria, assistiria por fim à nacionalização do seu espaço. O processo da literatura peruana mitificou um passado quimérico de paz e felicidade, nas obras que registam a desintegração da Lima vice-reinal – Enrique A. Carrillo «Cabotín», Gastón Roger, José Gálvez, etc. –; o mesmo passado que Manuel González Prada, José Carlos Mariátegui e Sebastián Salazar Bondy denunciaram como causa directa da sobrevivência do sistema de classes e dos problemas globais do país. Em meados do século, a transformação urbana impôs uma fisionomia totalmente renovada da cidade, enclausurou a já cambaleante exclusividade limenha e incorporou no seu espaço a imagem fervorosa do país real. Esta nova realidade foi traçada pelos escritores neo-realistas desde os anos 50, através de uma perspectiva crítica e analítica das aceleradas transformações urbanas ocorridas durante estas décadas. A dissolução do hortus clausum vice-reinal era já definitiva na realidade da cidade, mas, na literatura, o seu próprio processo sobreviveu, gerando uma tradição urbana concreta: o discurso literário que dramatiza as mudanças e impõe o contraste com o presente. Este discurso já se encontrava nas Tradiciones de


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EM MEADOS DO SÉCULO, A TRANSFORMAÇÃO URBANA IMPÔS UMA FISIONOMIA TOTALMENTE RENOVADA DA CIDADE, ENCLAUSUROU A JÁ CAMBALEANTE EXCLUSIVIDADE LIMENHA E INCORPOROU NO SEU ESPAÇO A IMAGEM FERVOROSA DO PAÍS REAL.

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Palma e chegou até à narrativa de Ribeyro: Lima ganhou em Civilização, mas despoetizou-se e, dia após dia, perde tudo o que houve de original e típico nos seus costumes (Ricardo Palma: «Com días y ollas venceremos»)5. O país tinha-se transformado e continuava a transformar-se, e Lima, em particular, tinha deixado de ser o «hortus clausum vice-reinal» para se converter numa urbe ruidosa, feiíssima e industrializada, onde o mais raro que se podia encontrar era um limenho (J. R. Ribeyro: «El marqués y los gavilanes»)6. O horto fechado tinha-se convertido no seu oposto quando a abertura da capital ao mundo andino surpreendeu os limenhos de antes. Estupefactos, viram cair, definitivamente, aqueles muros antigos que, ainda que destruídos tempos atrás, tinham sobrevivido no mais profundo da cidade

limenha. A lenda urbana de Palma diluía-se assim entre as novas facções mestiças daquela Lima transformada que escritores como Ribeyro souberam descobrir e revelar, dando lugar aos novos rumos que, de acordo com a realidade social, a literatura peruana seguiria por volta do fim do século XX. 1 Lima, la horrible é o título de um emblemático ensaio de Sebastián Salazar Bondy (México, Era, 1964). 2 Julio Ramón Ribeyro, “Gracias, viejo socarrón”, em Antología personal, México, Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 127. 3 José Gálvez, Una Lima que se va, Lima, Euforión, 1921. 4 Luis Alayza y Paz Soldán, Mi País (4.ª serie: Ciudades, valles y playas de la costa del Perú), Lima, Talleres

Gráficos Publicidad-Americana, 1945, pp. 17 e 13. 5 Ricardo Palma, Tradiciones Peruanas, Barcelona, Montaner y Simón, 1893, tomo I, pág. 387. 6 Julio Ramón Ribeyro, “El marqués y los gavilanes”, em Cuentos completos, Madrid, Alfaguara, 1994, p. 467.


Alameda de Barranco. Fotografia de Carlos Sala - PromperĂş


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OS BAIRROS ALTOS E SEUS CINEMAS Alejandro Reyes

Praรงa Buenos Aires (Bairros Altos). Arquivo Pessoal de Alejandro Reyes


Aproximadamente 70% dos cine-teatros dos Bairros Altos começaram a funcionar na segunda década do século XX, reflectindo a elevada densidade populacional e o poder económico dos seus vizinhos. O Lima, o Mazzi e o Delicias foram cine-teatros que fascinaram pela sua arquitectura moderna e a sua elegância interior. Na segunda década do século XX, o cine-teatro Lima, com a administração de Dom Venâncio Rada, oferecia três sessões diárias, havendo quatro tipos de entradas: balcão, plateia, galeria e camarotes. As poltronas do balcão e da plateia estavam forradas com veludo, criando-se um ambiente propício para ver os filmes «mudos» que eram acompanhados com o ritmo de um piano. Um exemplo da importância do público e dos cinemas dos Bairros Altos foi a apresentação de companhias estrangeiras como a de Margarita Xirgú no cine-teatro Lima (versão do meu pai, Alejandro Reyes Verás-

tegui).Também se apoiou a produção nacional, difundindo a nossa música crioula, como o festival que se realizou no teatro Lima a 8 de Maio de 1926 «a favor do músico Nicolás Wetzell, contando-se com a participação de Felipe Pinglo, o duo Montes y Manrique, os irmãos Vilela, Carlos Saco, Guillermo Acosta, Juan Araújo, além de outras figuras do crioulismo daquela época» (D. Mejía).

Fachada Cine-teatro Mazzi (Bairros Altos), in Revista Variedades, Lima, Ano VIII, 17.02.1912, n.º 207

A confluência de culturas nos Bairros Altos reflecte-se nitidamente nos seus cine-teatros. Os primeiros chineses que se foram instalando nos Bairros Altos em 1860, no começo do século XX já constituíam uma numerosa colónia com uma sólida economia, levando a que, institucionalmente, construíssem o cine-teatro Delicias na rua colonial do Rastro de la Huaquilla, junto ao famoso e

BAIRROS ALTOS / CINEMAS 1910-1960 Cinema Rua Cinelandia Vitervo América General La Fuente Bolívar* Plazuela de Santa Catalina Apolo Chirimoyo Delicias* Rastro de la Huaquilla Francisco Pizarro* Plazuela de Santa Ana (Mazzi) Unión* Plazuela de Santa Ana Continental Plazuela Mercedarias Buenos Aires Acequia de Islas Conde de Lemos* Plazuela Buenos Aires Lima* Manuel Morales (Astor) Huáscar Aromo * Cine-teatro

Fonte: Autor

Sala Cine-teatro Mazzi (Bairros Altos), in Revista Variedades, Lima, Ano VIII, 17.02.1912, n.º 207


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As poltronas do balcão e da plateia estavam forradas com veludo, criando-se um ambiente propício para ver os filmes «mudos» que eram acompanhados com o ritmo de um piano.

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enorme beco conhecido como as «Siete puñaladas», demolido no princípio de 1950 para dar lugar a um edifício de apartamentos. Na segunda e terceira décadas do século XX, o cine-teatro Delicias projectou filmes chineses, «dando-se ao luxo» de contratar directamente na China companhias completas de teatro para oferecer ao seu público. Também o cinema Apolo, em dias especiais, projectou películas chinesas até meados do século XX. Não obstante, os cinemas América, Buenos Aires, Astor e Continental foram mais populares, não só pela sua estrutura, como também pelas películas que projectavam e pelo preço das suas entradas. Uma segunda geração de cinemas nos Bairros Altos, que reafirma a elevada densidade e solidez económica dos seus vizinhos, é marcada pela construção do sóbrio edifício do cinema Bolívar. De igual modo, a elegância, a amplitude, o ecrã e a iluminação do Francisco Pizarro sublinharam o valor imobiliário da praça Itália, sendo projectados filmes modernos e apresentando-se anualmente a companhia cubana

de «Carlitos» Pons entre 1948 e 1951. Por esta altura, construía-se no «coração» dos Bairros Altos, na praceta de Buenos Aires, o último cine-teatro, o Conde de Lemos, destruindo-se, para a sua edificação, parte do beco de São José. À excepção do Continental, conheci todos estes cinemas, assistindo a filmes, teatro e variedades. A modernidade da televisão (1960-1970) começou a eclipsar os cinemas dos Bairros Altos, e o público que se havia deleitado com sessões de dois filmes pelo preço de uma entrada ou com as «terças-feiras femininas», «pouco a pouco» foi abandonando as suas poltronas, algumas delas com iniciais que indicavam «propriedade», e refugiou-se em suas casas a «ver televisão». Hoje, os cinemas dos Bairros Altos, que se iniciaram com a pré-história do cinema «mudo», perderam a sua finalidade inicial: projectar filmes. Alguns foram destruídos, outros estão a cumprir outra função social, e a maioria encontra-se abandonada «à sua sorte», como se pode verificar no seguinte quadro:

BAIRROS ALTOS / CINEMAS 2006 Cinema Rua - Lugar Cinelandia Vitervo América General La Fuente Bolívar* Plazuela Sta Catalina Apolo Chirimoyo Delicias* Rastro de la Huaquilla Francisco Pizarro* Plazuela de Santa Ana (Mazzi) Unión* Plazuela de San Ana Continental Plazuela Mercadarias Buenos Aires Acequia de Islas Conde Lemos* Buenos Aires Lima* Manuel Morales (Astor) Huáscar Aromo

Situação actual Feira de livros Galeria comercial Galeria comercial Local comercial Abandonado Abandonado Abandonado Abandonado Abandonado Abandonado Abandonado ?

* Cine-teatro

Fonte: Autor


O referente popular dos Bairros Altos não deve ser considerado apenas como sinónimo de pobreza, mas também como uma zona de elevada densidade populacional que pode explicar a edificação de um grande número de cine-teatros, nas primeiras décadas do século XX, e cuja vida se prolongou mais de meio século. Este indicador dos cine-teatros nos Bairros Altos, com uma afluência massiva de público, estaria a demonstrar-nos que, como «um todo vicinal», a economia familiar pôde satisfazer um consumo quotidiano e permanente. Porque se ia ao cinema «todas as semanas», uma ou duas vezes, pais, filhos, netos, e, quando chegava um espectáculo «ao vivo» toda a família assistia. Houve casos extremos de bairroaltinos que todos os dias iam ao mesmo cinema, sem conhecer o filme, e outros que escolhiam um dia fixo da semana. Dos primeiros cinemas que apareceram no início da segunda década do século XX, o Mazzi mudou para Unión, no início de 1950, e o Ástor sofreu um incêndio, sendo substituído pelo Huáscar, os restantes continuaram a funcionar normalmente com outros cinemas que se lhe juntaram, até que todos encerraram devido à concorrência da televisão e do VHS. Não foi por acaso que, hoje, os cinemas se transferiram para os conos, que são zonas «populares». Na época da construção dos cinemas, o município de Lima

iniciou uma política de «abrir» ruas na cidade com a finalidade de facilitar a deslocação da sua população que aumentava significativamente. Nos Bairros Altos, prolongaram-se os jirones, urbanizaram-se quarteirões, construíram-se casas para satisfazer uma crescente procura da sua população. O jirón Paruro prolongou-se até à avenida Grau, e a rua Chirimoyo (jirón Puno) avançou para se encontrar com o jirón Huanaco (Cocharcas). Por Maravillas, na zona conhecida como San Isidro, abrem-se o jirón Manuel Pardo, as ruas Tenente Arancibia, Rodríguez, Centro Escolar e outras. Os Barrios Altos, desde a sua origem, foi uma zona de expansão urbana natural, tendo crescido desordenadamente com o decorrer dos séculos. Aqui não se respeitou a quadrícula do tabuleiro de Pizarro, os seus quarteirões de grande extensão e as suas ruas prolongavam-se por 200 e até 300 metros, como a rua Los Naranjos que abarca, ainda hoje, três quarteirões; Rufas atravessava dois quarteirões, e algo semelhante havia acontecido com a rua La Confianza, que começava em Santa Catalina e terminava na rua Chirimoyo, sendo cortada para permitir o prolongamento dos jirones Paruro e Huanta. Relativamente aos quarteirões de solares ou hortas que existiam nos Bairros Altos, o único que desafia o tempo e que é um testemunho da vastidão destes lugares é o histórico estádio de Buenos Aires.

Em 1909 foi destruído o beco Otaiza, comunicando a avenida Ucajali com a avenida Ayacucho (depois Miró Quesada). Prolongar avenidas e abrir ruas fez parte de uma política estatal e municipal de modernização do casco urbano de Lima. De acordo com a higiene ambiental de princípios do século XX, em 1909, a azinhaga «Oitaza», identificada como «foco infeccioso», foi destruída, permitindo, ao mesmo tempo, a comunicação dos jirones Ucayali com Ayacucho (depois Miró Quesada). Mas não havia apenas que «limpar» Lima, como também «oxigenar» a cidade, abrindo «atalhos» que economizassem tempo aos limenhos para se deslocarem de um lugar para outro. Em 1911, nos Bairros Altos, expropriaram-se e destruíram-se casas da Beneficência de Lima e do convento da Buena Muerte situados na rua Carmen Alto de um lado, e do outro, a horta Manuel Morales, situada na rua Los Naranjos, conseguindo-se o acesso directo entre ambas as ruas. Anos depois, numa parte da nova rua Manuel Morales, a Beneficência de Lima construiu uma formosa quinta com duas portas de entrada que ainda hoje existe. De igual modo, rapidamente se construiu o cine-teatro Lima que em 1913 anunciava os filmes «El Judio Errante y Fantomas», cobrando a entrada de um sol para um balcão de quatro lugares e 6 centavos1 por um camarote. 1 Diário El Comercio, 15 de Junho de 1913.


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UMA EVOCAÇÃO DE JOSÉ MARÍA ARGUEDAS Cecilia Bustamante

Arguedas é o escritor dos encontros e desencontros de todas as raças, de todas as línguas e de todas as pátrias do Peru. A sua vida e a sua criação nutriram-se da sua terra, do povo peruano, especialmente dos camponeses, artesãos, músicos e artistas populares. «Recorri los campos e hice las faenas de los campesinos bajo el infinito amparo de los comuneros quechuas», contava. Em 1928, publica na revista Antorcha de Huancayo. Em 1931, ingressa na Universidade de S. Marcos de Lima e termina os seus estudos de literatura em 1937, ano em que é preso devido às suas actividades políticas. Em Portugal, o seu mais importante livro, Os Rios Profundos, encontra-se publicado pela Assírio & Alvim. Cecilia Bustamante leva-nos ao encontro do grande escritor peruano. Atrás, Alicia e pessoa não identificada. Sentados da esquerda para a direita: Célia, poetisa Blanca Varela e José María Arguedas. Rancho del Puerto de Supe, norte de Lima. Foto do Arquivo Pessoal de Cecilia Bustamante


«Tú ves, como niño, algunas cosas que los mayores no vemos…» Os Rios Profundos


VIDAS CONTADAS

O meu pai tinha viajado para o Norte do Peru para tentar a sorte. Regressou a Lima em 1939, com vários filhos e pouca fortuna. Vínhamos com grande desejo de conhecer os avós, tios, primos, cujas imagens e nomes meu pai tinha mantido vivos, para mim, em histórias fantásticas. À luz do candeeiro a petróleo, na distante fazenda piurana de Parihuanás, escutávamos os seus relatos sobre os nossos tetravós, bisavós, avós, de vários lugares do Sul do Peru e do Norte do Chile. Relatos sobre as figuras mais próximas das suas irmãs mais novas,Alicia e Celia – que se apresentavam na minha imaginação infantil como duas mulheres extraordinárias.A voz do meu pai enchia-se de carinho e admiração ao recordá-las. Chegámos, por fim, a Callao, depois de três dias de viagem por mar desde Paita, Piura, no barco «Rainha do Pacífico». A minha mãe viajava com seis filhos, o mais novo com dois anos, e todos enjoámos.A «nossa família» foi receber-nos ao porto. Senti para sempre uma grande admiração por Alicia e Celia. Não eram como as outras pessoas: pareciam unidas por um laço especial de força, uma paixão que, animando-as, lhes concedia singularidade e beleza. Mais tarde compreendi que essa paixão incluía o seu ideal político e o seu trabalho a favor dos indígenas do Peru. Viajavam constantemente pelos povoados da costa e das serras reunindo objectos de arte popular que mais tarde formariam a sua famosa colecção de «Arte Popular Peruana»1. Nutriam um amor violento pelo Peru, em defesa do nativo e pelo reconhecimento dos artistas populares que constantemente ajudavam. Era inevitável que conhecessem José María Arguedas

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quando ele chegou a Lima. Alguém o levou a esse centro peruanista, indigenista, a «Peña Pancho Fierro» que elas tinham fundado (1938?) e que funcionava num recanto da Praceta San Agustín. Àquele local afluíram,durante mais de vinte anos, artistas, intelectuais peruanos e estrangeiros que visitavam Lima,constituindo a vanguarda da vida cultural peruana2.

Era inevitável que conhecessem José María Arguedas quando ele chegou a Lima. Alguém o levou a esse centro peruanista, indigenista, a «Peña Pancho Fierro» que elas tinham fundado (1938?) e que funcionava num recanto da Praceta San Agustín. José María enamorou-se da bela arequipenha Adelita Montesinos, com a qual me cruzei na minha adolescência inquieta e que me contou da sua rivalidade com Celia pelo amor de José María com quem se ia casar. José María enamorou-se de Celia, com quem casou em 1939, uma data que não recordo mas que deixou algumas imagens na minha memória. Os meus avós, Josefina Vernal y Luza (nascida em Iquique) e

Carlos Bustamante y Gandarillas, arequipenho, viviam no segundo andar de uma casa colonial, na Rua Mariquitas, 336, no centro antigo de Lima. Havia mais gente que de costume, nós os Bustamante e Moscoso estávamos de regresso a Lima e vivíamos em casa dos avós. A avó estava cega havia vários anos, Celia era a sua filha mais nova e a mais querida. Nesse dia, a avó desejava saber tudo o que se passava à sua volta: como estava vestida Celita, que horas eram, quem ia e vinha. Sabia que a sua filha iria viajar para a serra após a cerimónia. Eu tinha aprendido a ler muito cedo e tinha-me convertido em sua «leitora e acompanhante». Desejosa de falar, a avó contava-me longas histórias da sua infância em Iquique e, depois, da sua vida de colegial na Europa, recordações de um mundo que tinha desaparecido. Falava a uma criança, como falamos a quem esperamos que esqueça. Celita, dizia-me, casava-se com um escritor que falava quechúa e que escrevia misturando o castelhano com a língua nativa. Um rapaz inteligente que tinha encontrado um posto de professor num povoado perto de Cuzco que se chamava Sicuani. Para lá levaria a minha tia Celia depois de se casarem. Que pena não terem dinheiro. E deixava resvalar algumas lágrimas na sua obscuridade. – Chama-me «Dona Josefina, a ceguinha»; quem me dera poder vê-lo! Bom rapaz. Um escritor, é pena que vão trabalhar para tão longe, mas assim são os artistas… Algo mais a deixava triste: – José não estará aqui. Casaram-se por procuração, entendes? – Não, avó. – Outra pessoa representará o noivo. Além do mais, não vão


à igreja, eles não acreditam nessas coisas. Suspirava, secava as lágrimas nos seus olhos vazios, com o seu lencito de cheiro a lima, que depois escondia numa das mangas. Não me lembro de quem representou José, talvez Carlos Cueto Fernandini, naquele dia, entre as malas semifechadas, alguns parentes próximos, pouquíssimos amigos. Celia aprumava-se, vestida com um fato curto branco, saia-casaco, tricotado, estava muito linda. Alicia, emocionada e séria, preparava a partida. As duas irmãs inseparáveis iam separar-se pela primeira vez. José María, Celia e Alicia formaram uma tríade unida pelos seus ideais e pelo trabalho. Emilia Barcia, amiga de Alicia, arranjou-lhe um trabalho num jardim-escola. O que Alicia fez daquelas actividades com os pequenos, como artista que era, foi algo maravilhoso: o papel crepe em formas fantásticas, as cores brilhantes, os miúdos pareciam duendes saídos de um conto enquanto dançavam evocando a Primavera no parque Neptuno. Durante pelo menos um quarto de século, a sua casa foi também pousada dos artistas populares que chegavam à grande cidade, vindos do alto dos Andes. A sua conjugação era fecunda e a época das suas mais profundas buscas e produções deu-se enquanto estiveram juntos. José escrevia sobre um mundo que Alicia pintava nos seus quadros e que Celita tornava real na colecção nascente. Celia apoiou e estimulou vivamente o marido, o escritor serrano que se impunha num meio tão classista e superficial como tende a ser a sociedade limenha. As minhas tias conheciam esse ambiente e desafiaram-no constantemente à custa

de alguns desgostos dos avós, que as aprovavam em silêncio, e da censura de alguns parentes com vícios de aristocratas falidos. A tia e o seu escritor foram para a sua aldeia na serra. Às vezes chegavam cartas e fotos. Muito campo, sol, trigo, música: a essência pura daquilo de que gostavam. Viajavam para outras terras, o seu amigo Emilio Adolfo

José escrevia sobre um mundo que Alicia pintava nos seus quadros e que Celita tornava real na colecção nascente. Celia apoiou e estimulou vivamente o seu marido, o escritor serrano que se impunha num meio tão classicista e superficial como tende a ser a sociedade limenha. Westphalen juntou-se-lhes numa viagem, com Celia e José abraçados, ao sol. Uma fotografia fixou-os a todos, felizes, em fato-de-banho.Algum tempo depois, «o casal», como lhes chamava a minha avó, regressou de visita. Foi nessa altura que conheci José María. Era um homem muito simples, modesto, doce. Reconheci nele os amigos de província das serras onde tínhamos crescido. O seu ar infantil convidava-nos à brincadeira, aos contos.

Revelou-se muito curioso: queria saber das nossas histórias, o que tínhamos conhecido, escutado, aprendido, comido, brincado; o que os índios dessas povoações nos contavam pelas tardes. Recordei o sabor destas divertidas conversas, vários anos depois, quando tive nas minhas mãos Canciones y cuentos del pueblo quechua (1947), uma colecção de tradições, mitos e lendas que recolheu junto das alunas do colégio onde eu estudava e de outros lugares do país. Celia e José instalaram-se em casa dos meus avós. Trabalhavam muito e nem sempre era permitido brincar com ele. O quarto deles era, para mim, um lugar fantástico. Repleto de objectos de arte popular peruana e mexicana, de sacolas, chullos3, quenas4, llicllas5, um charango6, uma guitarra, papéis, uma máquina de escrever velha e ruidosa, na qual a minha tia Celia teclava. Era uma mistura de atelier e «quarto onde se vive». José escrevia à mão. Tinha uma mão aleijada. Ouvi que, em criança, tivera uma madrasta muito má que o maltratava. Supus que teria algo a ver com os seus dedos encolhidos, o que me dava muita pena. José María conversava muito com a minha avó, na penumbra da sala de jantar; eu observava-os através do biombo, numa tarde sombria de Inverno limenho que me apertava o coração com algo parecido ao medo. Da minha cadeirinha de vime via que estavam juntos, à cabeceira da mesa, como se ele estivesse a fazer queixa das suas penúrias de criança. A avó abanava a cabeça, fazia-lhe perguntas, tacteava-lhe a mão. Quando ele estava a trabalhar, não devíamos entrar no seu quarto. Às vezes chamavam-nos para cumprimentarmos, rapidamente,


VIDAS CONTADAS

algum amigo ou parente, que queriam que nos conhecesse. Assim conheci Alliocha, filho dos seus amigos Ortiz Rescaniere. Tinham-lhe especial afeição, era um miúdo inquieto, vivaço. José María referia-se a ele na sua carta de despedida, ao Reitor da Universidade Agrária, como Alejandro Ortiz, seu discípulo muito querido. Certa tarde, um jovem alto, magro e narigudo veio buscá-los. Mãos nos bolsos do gabão, ar apressado e sorriso simpático. Era Sebastián Salazar Bondy que tinha regressado de Buenos Aires, após o seu divórcio de uma actriz argentina. Entrou para o grupo da Peña. Não imaginava que a minha irmã Alicia casaria mais tarde com o seu primo-irmão; este noivado aproximou-nos como família nos meus anos de vida literária em Lima, e, sem me aperceber, interferi nos seus amores com a minha irmã mais nova, Marcela. (Depois de ter partilhado belos tempos na Lima crioula de então, afastámo-nos. Sendo um intelectual cada vez mais influente na cultura peruana da época, a sua inimizade foi um dos maiores obstáculos na minha carreira, porque, digamos, herdei-a dos seus solidários discípulos que Lima chamava «as viúvas de Salazar Bondy».) Um dia, no mês de Outubro, na casa dos avós, prepararam as varandas para que chegassem os seus amigos toureiros que vinham ver passar a procissão do Senhor dos Milagres e atirar-lhe flores desfolhadas enquanto o incenso se espalhava ao ritmo da música. Manolete entre eles, o próprio Dominguín e alguns outros jovens toureiros que faziam pegas na fazenda Huando onde vivia a minha tia Rebeca de Simpson… Depois arranjaram uma casita de praia no porto de

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Supe, a norte de Lima. Era, na época, um porto bonito e calmo, sem fábricas de farinha de peixe. Para lá convidaram, ano após ano, os seus amigos da Peña e, após a temporada, comentavam com a minha avó os namoricos e os acontecimentos do Verão: o de Blanca Varela com Gody Szyszlo, ou Sebastián. O da minha exótica e sedutora prima Nita, que era a sua favorita. Uma vez

«O que sou? Um homem civilizado que não deixou de ser, na medula, um indígena do Peru; indígena, não índio. E assim caminhei pelas ruas de Paris e Roma, de Berlim e Buenos Aires…»

visitei essa casa ou rancho, quando ainda não estava concluída; alguns quartos sem tecto, um pátio com vista para o mar, vasos por todos os lados, conchas incrustadas nas paredes das casas-de-banho e quadros de pintores indigenistas nas paredes da sala de jantar. Passaram em Supe verões inesquecíveis com os seus amigos pintores, poetas e músicos. «Ela (Celia), a sua irmã Alicia e os amigos comuns abri-

ram-me as portas da cidade de Lima, tornaram mais fácil a minha superficial entrada nela e, com o meu pai e os livros, o melhor entendimento do castelhano, a metade do mundo. E também com Celia e Alicia começámos a quebrar o muro que encerrava Lima e a costa – a mente dos crioulos todo-poderosos, colonos de uma mescla bastante indefinível de Espanha, França e Estados Unidos e dos colonos dos seus colonos…»7. Um dia, a minha avó referiu que José estava a terminar um livro e que não se podia entrar no seu quarto, nem tocar em nenhum papel. – Vai publicar um livro novo. A tua tia Alicia fez os desenhos, ou seja, as ilustrações. Sim, já sabia.Tinha visto Alicia diante do seu cavalete. Gostava de a ver pintar, mas importunava-a fazendo-lhe muitas perguntas que eu não sabia serem indiscretas, como, por exemplo, porque eram todos tão amáveis com os primos ricos. Outra pergunta irritou-a tanto que me deu com a paleta na cabeça. Saí disparada e ressentida. Por isso não contei à minha avó como eram os seus novos desenhos e muito menos os quadros que estava a pintar. Geralmente, lia-lhe as notas sobre as exposições e também o que era publicado a respeito de José María. Eu não entendia grande coisa, mas reconhecia um ou outro nome. A minha avozinha embevecia-se e enchia-se de orgulho: – Lê isso de novo, como diz… excepcional, autêntico? Pouco depois apareceu Yawar Fiesta. No dia em que chegaram alguns embrulhos, nem se podia caminhar. Alguns amigos, os meus outros tios e tias, os meus primos, estava tudo em alvoroço.


A avó chamou-me mais tarde, depois do almoço como sempre, para conversar. Desta vez dei-me conta de que, à cabeceira da enorme mesa, não iria ouvir rádio. – Vem Yola, lê-me agora o livro de José. Conta-me como são as ilustrações. E tirou do seu regaço um exemplar novinho. Era um livro de muitas páginas que lhe descrevi minuciosamente, as notas de rodapé, tudo. A minha avó, que tinha crescido na Europa, regressou ao Peru aos 26 anos para se casar com o senhor Bustamante, de Arequipa. Ela falava cinco idiomas mas preferia o alemão. Sabia de cor poemas de Göethe, Schiller. Ao ler-lhe Yawar Fiesta, detínhamo-nos nas palavras quechúas. – Parece alemão. Gostarão as pessoas do uso do quechúa num livro? «O que sou? Um homem civilizado que não deixou de ser, na medula, um indígena do Peru; indígena, não índio. E assim caminhei pelas ruas de Paris e Roma, de Berlim e Buenos Aires…» Algumas noites, quando acabávamos de jantar na longa mesa presidida pela minha avó e à qual se sentavam os meus três tios, os sete netos de então e os meus pais, os meus tios escolhiam alguns de nós para irem com eles à estação central dos Correios na Praça de Armas meter as suas cartas. Levavam-nos de mão dada pela névoa de Lima, às vezes sob uma chuva miudinha. Lima não era ainda uma grande cidade despersonalizada. Tinha um discreto sabor colonial, com as suas varandas coloniais que se viam na noite como caixinhas de encaixe recortadas pela luz interior. Por vezes, comentavam

a última reunião na Peña, o seu trabalho. Apesar de não captar grande parte das suas conversas, sentia que os três possuíam algo que me fazia vê-los de forma diferente. Outras noites, José falava-nos em quechúa, fazendo recordar o que tínhamos aprendido nas nossas férias em Huariaca, a pequena povoação na zona mineira onde o meu pai se tinha estabe-

Lima não era ainda uma grande cidade despersonalizada. Possuía um discreto sabor colonial, com as suas varandas coloniais que se viam na noite como caixinhas de encaixe recortadas pela luz interior.

lecido para vender madeira para as minas. Ensinava-nos algumas frases e, quando as estreávamos com os nossos amigos da povoação, convertiam-se em piadas picantes ou palavrões. Ainda hoje uso algumas delas. Os meus tios também viajaram pelo México e falaram muito desse país. Fizeram uma grande amizade com o revolucionário mexicano Moisés Sáenz. Uma fotografia sua estava em lugar de destaque, ao lado do

cavalete da minha tia Alicia. Décadas depois, numa reunião cultural nos Estados Unidos, cruzei-me com uma sobrinha de Sáenz que comigo queria confirmar detalhes daquela relação amorosa. Os tios falavam da arte popular peruana e mexicana, ameaçada de destruição pelo turismo, pela pobreza e pelo desrespeito pelos índios. Quando se punham a trabalhar, estavam a uma grande distância, num mundo que eu admirava e que os fazia viver como só eles eram. Alegres, jovens, apaixonados. Tudo o que os rodeava adquiria um tom de beleza e plasticidade. As suas roupas, as suas coisas, a disposição dos móveis, os souvenirs, algumas plantas, os gatos, sem os quais José não podia passar.Ainda os vejo: José dedilhando o seu charango, no ócio de uma tarde feliz, cantando suavemente hinos que me eram familiares, ou também o refrão «Wifalalaaaa! Wifalalaaaaa!». De vez em quando, José começava a dançar. Era como se fosse mais uma criança na casa. Admirávamo-lo, em parte, porque a minha avó tinha-nos ensinado a respeitar o talento, a inteligência. Quando nasceu a minha irmã Nora, a minha mãe pediu-lhe que a levasse à pia baptismal. A José agradou-lhe muito a ideia de ser padrinho. «Desde 1943, fui visto por muitos médicos peruanos… e dantes sofri muito de insónias e depressões…»8 Depois de terminar o secundário, via pouco José María. Uma vez foi buscar-me ao diário La Crónica, onde eu trabalhava, e pediu-me os meus poemas. José Flores Araoz tinha-me publicado na revista Cultura Peruana e isso provocou-lhe curiosidade, por isso lhe levei um folheto ao seu


VIDAS CONTADAS

gabinete do Museu. Estava nervoso, diferente, tenso. Viajava muito, havia regressado famoso, e tinha-se mudado várias vezes, fugindo dos ruídos que o perturbavam facilmente, o ladrar dos cães, as brigas dos gatos, a estridência dos vizinhos, o ruído das ruas. Algo se desmoronava subtilmente entre ele e Celia, e o amor pereceu neste caos. Separaram-se em 1964, depois de terem partilhado a vida durante mais de vinte anos. Ela não o tinha acompanhado nas suas viagens. Ele ia com frequência ao Chile para acompanhamento psiquiátrico. A minha numerosa e conservadora família nunca conseguiu compreender por que José deixou Celia e, muito menos, que tivessem decidido dar-se até ao fim. A minha avó, sim, tê-lo-ia compreendido. Mas já não estava viva, na altura. Discordando da política familiar, eu ia buscá-lo, às vezes, à Galeria de Arte onde trabalhava a sua nova mulher, a chilena Sibila Arredondo. Uma vez estivemos a tomar café no «Viena» com Ángel Rama, ao lado da Galeria. Eu planeava sair do Peru, já estava casada e tinha três filhos mas queria viajar, e disso falámos, como ao ir ao México havia decidido regressar. Deu-me o nome de alguns amigos, o mesmo Ángel que não voltei a ver senão num congresso em Austin. Também se queixou da sua saúde, José estava muito tenso, era verdade, estávamos em finais de 1968. Fomos à Galeria porque me disse que queria que conhecesse Sibila: era uma mulher jovem, olhos de expressão profunda, perspicaz, com um véu cálido no olhar. Fiquei surpreendida, fazia-me lembrar a minha tia Celia.

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Alicia e Celia continuaram a viver juntas. Alicia sofria de uma doença que a incapacitou fisicamente, hoje creio que foi a doença Lou Gherig. Trabalhou até poder no Museu, e Luis Valcárcel, ao ver as dificuldades que tinha para se deslocar, cedeu-lhe o seu gabinete de director no primeiro piso. Morreu nos braços de Celia, a 27 de Dezembro de 1968.

Alegres, jovens, apaixonados. Tudo o que os rodeava adquiria um tom de beleza e plasticidade. As suas roupas, as suas coisas, a disposição dos móveis, os souvenirs, algumas plantas, os gatos, sem os quais José não podia passar.

Recordando-a, José María escreveu no diário El Comercio aquele que seria um dos seus últimos artigos: «Alicia Bustamante Vernal fazia parte da elite artística limenha, teoricamente convencida do destino ilimitado da arte e da cultura peruanas, a chamada arte indígena (…) nas suas apaixonadas viagens pelos povos serranos chegou a cumprir uma função inestimável (…) chegou a ser unicamente o que tantas ve-

zes se disse dela: que foi quem pela primeira vez ofereceu a Lima uma exposição de arte popular peruana (1939), pela primeira vez alcançou a façanha de expor a arte tradicional peruana nas capitais europeias (1959), tudo isto sem nunca ter tido fortuna pessoal; mas, ainda assim, esta não foi a melhor obra de Alicia Bustamante. Igualmente importante foi que ela se convertera numa ponte viva entre os dois mundos culturais, ainda que hoje muito separados, mas que o estavam muito mais quando ela partiu para os campos para recompilar a arte indígena. Consumida pelas “luzes” e pelo amor à obra de todos os artífices índios e mestiços de quem ela se aproximou, pôde, por sua vez, mostrar a esses artífices a mudança que se estava a operar no outro universo social do país. Ela, Alicia, tinha o aspecto, o rosto típico dos menosprezadores que formavam a casta dos dominadores, mas Alicia era diferente. Apesar de não falar quechúa, ela conquistava num instante… a confiança e o afecto dos oleiros, tecelães, fazedores de imagens… convencia que nem todos os “mistis”, nem todos os “brancos” eram surdos e como que feitos de outros materiais misteriosamente impenetráveis e odiosos… Sem dúvida, a difusão da arte popular e o que este feito representa para a cultura peruana devem muito a Alicia Bustamante. Ninguém duvida que o país lhe deva a ela mais do que a ninguém.» José Maria suicidou-se finalmente a 2 de Dezembro de 1969. No seu leito de morte, mandou chamar Celia, tendo a seu lado o seu amigo Carlos Cueto. E havia muitas pessoas, os meus tios tinham sido do Partido


Comunista, e percebeu-se nestes dois grupos o divisionismo na esquerda de então. Uns demonstravam simpatia e apoio a Celia, outros a Sibila. O seu enterro foi um acto político, não havia dinheiro suficiente para o seu túmulo e Alicia Maguiña fez uma colecta. Não teve filhos. Celia sobreviveu até 1973, morrendo tragicamente a 25 de Agosto desse ano, a caminho de Supe. Num artigo do El Comercio, assinado com as iniciais H.B.G., no dia 14 de Setembro do mesmo ano, dela se diz: «O país perdeu uma mulher excepcional que dedicou a sua vida às mais altas manifestações do espírito.Afirmou-se na sua condição de incansável promotora da arte popular…

1 Doada em vida de ambas as irmãs à Universidade

até ao último instante da sua vida, Celia, como antes a sua irmã Alicia, esteve dedicada à recolha, cuidado e incremento da «Colecção de Arte Popular Peruana». Acabaram assim, separados e vítimas de um meio tão inclemente, como é o Peru, para com os seus criadores. José María e Celia não deixaram filhos. Alicia não se casou, irritou, sim, alguns convencionalismos limenhos. Deixaram muitos livros, alguns quadros, a sua magnífica colecção de arte popular. Lamentavelmente, foi tudo desagregado pela própria família. Contudo, tinha eu o propósito de reunir os seus documentos e criar na Universidade de Texas, em Austin, um Centro de Documentação e Ar-

letras de Lima (…) Dirigem a Peña duas raparigas

Nacional Mayor de São Marcos de Lima e ao povo de

jovens, inteligentes, limenhas na graça e no tipo:

Cuba. Celia viajou para Cuba com esse fim, em 1971.

Alicia e Celia Bustamante. Vendo-as rir, conversar (…)

Confundiram-na comigo no Aeroporto de Barajas e

recordava as observações de Radiguez

despediram-me do meu trabalho no Consulado dos EUA

(sobre as limenhas), José Sabogal pintou o retrato

em Barcelona. Quando se dedicava a entregar a outra

das duas irmãs em grupo. Apresentaram-me a Xavier

quivo José María Arguedas, que não se pôde concretizar. José Miguel Oviedo, que estava então de visita a Austin, disse-me sem querer: «Esquece… é uma tarefa impossível… sim, parece que nunca existiram…» Mas, à medida que os anos passam, é como se os ouvisse cantar cada vez com mais força, com o Mestre Oblitas de Os Rios Profundos: Aún estoy vivo El hálcon te hablará de mí, Las estrellas de los cielos te hablarán [de mí, He de regresar todavía, Todavía he de volver.

4 Flauta aborígene construída tradicionalmente com cânhamo, osso ou barro. Mede à volta de 50 cm de comprimento. (N. da T.) 5 Capa indígena, vistosa, com a qual as mulheres cobrem os ombros e as costas. (N. da T.) 6 Instrumento musical de corda, usado especialmente

parte da colecção à UNMSM, morreu num acidente,

Abril, Emílio Adolfo Westphalen, Enrique Peña

na zona andina, semelhante a uma pequena guitarra

a 25 de Agosto de 1973, no povoado de Barranca,

Barrenechea, José Hernández, Alberto Tauro,

de cinco cordas duplas e cuja caixa de ressonância

o que só se descobriu várias semanas depois.

Orestes Plath, Martín Adan, César Moro,

O seu trabalho ficou por concluir.

José María Arguedas, o contador de «Agua…»,

2 A escritora porto-riquenha Concha Meléndez disse, num reconto da sua viagem ao Peru: «A Peña Pancho Fierro é um local de reunião das gentes das artes e das

Entrada al Peru, Havana, 1941, pp. 48-50.

3 Gorro com orelhas, de lã, com desenhos multicolores, usado nas regiões andinas para proteger do frio. (N. da T.)

é feita com carapaça de tatu. (N. da T.) 7 Carta a Gonzalo Losada, Revista Oiga, Lima, N.º 353, 1969, pp. 17-18. 8 Carta a Sibila Arredondo, Revista Visión del Perú, Lima, 1970. N.º 5, pp. 28-29.


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A INVENÇÃO DA AMÉRICA SURGIU COMO UMA OPORTUNIDADE DE RECOMEÇO PARA A EUROPA. NELA SE PROJECTARAM AS UTOPIAS DE HUMANISTAS E DESCOBRIDORES EUROPEUS NO SÉCULO XVI E OS SONHOS LIBERTADORES DOS REVOLUCIONÁRIOS QUE BEBERAM NO VELHO CONTINENTE O NÉCTAR DE IDEAIS QUE MOVERAM O MUNDO MAS NÃO ELIMINARAM AS FRONTEIRAS SOCIAIS. A IBERO-AMÉRICA INSISTE, PASSADOS 200 ANOS SOBRE A INDEPENDÊNCIA, NO RETORNO DA UTOPIA.


Organização e tradução de Maria da Graça M. Ventura

URGE UMA NOVA ORDEM PÓS-LIBERAL QUE CONFIRA AOS AVANÇOS DEMOCRÁTICOS NO CONTINENTE MAIS DESIGUAL DO PLANETA O CONTEÚDO SOCIAL QUE ERRADIQUE A POBREZA E RESTITUA A CONFIANÇA NO PODER DEMOCRÁTICO. ROBERTO AMPUERO, ESCRITOR CHILENO, E GERARDO CAETANO, CIENTISTA POLÍTICO URUGUAIO, UNIDOS NA SUA FÉ INABALÁVEL NO TRIUNFO DA DEMOCRACIA POLÍTICA E SOCIAL, ADVERTEM-NOS PARA PERIGOS DO POPULISMO, DO AUTORITARISMO E DO NEOLIBERALISMO.


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O obstinado retorno da utopia Roberto Ampuero

O tormento (o castigo do prisioneiro), (detalhe). David Alfaro Siqueiros


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Durante estes meprecisamente à sua Ter-se-ão efectivamente ses em que no hemisobsessão utópica. fério sul sofremos o Ao ser «descoberos intelectuais Inverno e a Europa to», o Novo Mundo latino-americanos desfruta do Verão, tive emerge como possibia oportunidade de parlidade de um novo despedido da utopia, ticipar nos Estados Unicomeço para a Europa. como um horizonte ideal dos em alguns fóruns A Europa encontra-se sobre literatura, polítinuma etapa de saturade um mundo mais justo, ca e cultura, nos quais ção, não descola ainda ou preocupam-se hoje se debateu com paixão, completamente para o e de que modo, o tema Renascimento, e a reliapenas com estabelecer da utopia na América gião continua a repriprioridades novas, Latina. Até há pouco mir a expressão de um tempo, a palavra utopia pensamento livre dos mais orientadas tinha caído em descrégrilhões das escrituras, para a sua incorporação dito, assemelhava-se à esse pensamento que irresponsabilidade, a permitirá o desenvolno mercado global, uma espécie de infanvimento das ciências e para a circulação tilismo progressista, e as posições indepenconceitos como «prag- de traduções e consolidação dentes face à teologia. matismo», «realismo», A América surge como da sua carreira? «coisismo», haviam perpossibilidade de um dido o brilho, e os polínovo começo. Raraticos renovados, antimente, talvez nunca, a gos militantes de esquerda, ontem com humanidade se encontrou em semelhante botas, boina e barba, hoje com pós-graduacircunstância: a possibilidade de começar de ção numa universidade dos Estados Unidos, novo, como quando o indivíduo, após uma impecável traje Giorgio Armani e uma barbita crise, planeia iniciar uma nova existência. Por incipiente, com mais de cinco dias, os que ao isso Colombo, que era um pragmático e de deixarem o poder passam de imediato a abrir certo modo um oportunista, acredita que o escritórios de consultoria e «lobbismo», ou a Paraíso está na desembocadura do Orinoco; ocupar uma cómoda poltrona de couro nas por isso Tomás Moro, procurando dotar a sua direcções das empresas que há décadas se visão de realismo, instala a sua sociedade utóhaviam proposto expropriar. O lema parecia pica na América; e por isso Ponce de León ser: If you cannot beat them,join them! Apesar destas procura aqui, e com seriedade e convicção mudanças e do poderio militar dos Estados plenas, a fonte da eterna juventude. E por isso Unidos, liderados por um presidente que crê Fernando Cortez parte para estas terras em possuir uma missão messiânica no mundo, a busca das amazonas, que nunca foram pergunta persiste: existe ainda a utopia como encontradas, mas que legaram o seu nome à força inspiradora de mudanças ou ressaibo selva americana, hoje em perigo de desfloresdo passado? Ter-se-ão efectivamente os intetação; e por isso tantos demandaram o El lectuais latino-americanos despedido da utoDorado, a Cidade dos Césares, dos grifos, dos pia, como um horizonte ideal de um mundo tritões, dos dragões, dos anões, das sereias e mais justo, ou preocupam-se hoje apenas dos gigantes. O que na Europa podia ficar com estabelecer prioridades novas, mais reduzido a folclore, a lenda e relato para ouvir orientadas para a sua incorporação no mercaà volta de uma fogueira, na América movia do global, para a circulação de traduções e exércitos, destruía vidas, oprimia povos inteiconsolidação da sua carreira? Estas questões ros, criava fortunas. não são menores num continente que nasMas a utopia não acaba ali nas nossas terceu pela mão da utopia e que deve grande ras latino-americanas. A luta pela indepenparte dos seus dramas e momentos épicos dência e a consolidação das nossas nações é


inspirada, mais tarde, guntar qual seria a Chávez disse pelo sonho de uma situação de países sentir-se Bolívar; América Latina melhor, como o México ou da por parte dos libertaAmérica Central se Lula chega ao poder dores, sonho partilhado não contassem com expressando por Miranda, Bolívar, milhões de cidadãos San Martín, O’Higgins, as reivindicações históricas seus no coração do Artigas, Hostos, Martí império, donde anualdas classes populares, e tantos outros; e esses mente enviam remessonhos, reformulados sas aos seus familiares, e Morales, à semelhança mas nunca essencialpara o outro lado do do líder opositor mente modificados,imrio Bravo, mais de 40 pulsionaram também mil milhões de dólares. Ollanta Humala, no Peru, revoluções sociais ao Para o México, as Honé porta-voz dos indígenas longo do século XX. duras ou a Guatemala, Ali estão os nomes as remessas constituem num país onde estes de Allende, Arbenz, uma das principais, constituem a maioria, Castro, J.J. Torres, Che senão a principal, fonte Guevara. E tudo indica de receitas em divisas, mas nunca governaram. que, com o fim dos o que traduz não só as socialismos reais (China condições que oferee Cuba são um caso à cem estes países à sua parte), a utopia contipopulação, como tamnua a palpitar obstibém o papel desconnadamente na região gestionante e estimucomo força inspiradora, que se nutre de uma lante para a economia nacional que a emigratradição de longa data, já presente nos relatos ção para o Norte representa para essas nações. dos povos aborígenes indo-americanos, que É evidente que as expectativas populares animam os intelectuais progressistas, e que despertadas, nos seus países, por Chávez, Lula mantém vigente a iniquidade social que ou Evo Morales resultam não apenas do facto caracteriza a América Latina como a região de que estes líderes recolhem não só aspiramais desigual do mundo e que os meios gloções e frustrações de vastos sectores nacionais balizados tornam mais evidente e condenámarginalizados, como também utilizam uma vel. Na América Latina, não é a persistência de versão reciclada das utopias da América Latiuma determinada ideologia que mantém viva na. Chávez disse sentir-se Bolívar; Lula chega a utopia, mas sim as condições sociais realao poder expressando as reivindicações histómente existentes, e por isso a utopia não ricas das classes populares, e Morales, à semeenvelhece, não declina e continua a vibrar lhança do líder opositor Ollanta Humala, no como um desejo em busca de líder, um líder Peru, é porta-voz dos indígenas num país que pode ser tanto um revolucionário bem onde estes constituem a maioria, mas nunca intencionado como um demagogo da pior governaram. É verdade que estes líderes têm estirpe. O que mantém vigente a utopia é a agendas diferentes e que, sob o manto da traagenda social pendente que as elites latinodição utópica, acabam por aplicar políticas -americanas mantêm com os seus povos pragmáticas, mas, quando recorrem à utopia, desde o surgimento das pátrias independenfazem-no como Fidel Castro que, usando a tes, que arrastavam estas sociedades desiguais imagem de Martí e de Che, tende a impor já desde a Colónia. A emigração para os Estauma versão da utopia revolucionária na qual dos Unidos e para a Europa é uma forma de esta se torna, supostamente, realidade na sua fugir dessas condições asfixiantes, nunca aliilha. Por outro lado, o êxito de Michelle viadas pelo êxito da utopia, até a um Norte Bachelet no Chile também se deve à persiscujas fronteiras, por momentos, se tornaram tência de uma aspiração utópica nacional que permeáveis. Neste contexto, cabe-nos perela encarnou melhor que o centro-direita e


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que surge da perceporgânico, coerente e Na América Latina, não é ção maioritária de que monolítico, mas antes a persistência de uma o país está no bom vago, contraditório, dicaminho, embora haja verso e descentrado. determinada ideologia problemas sociais deliEm sentido estrito, que mantém viva a utopia, cados que exigem solumais que uma utopia é ção urgente, como a mas sim as condições sociais um horizonte utópico, educação, a saúde e o um ponto inspirador realmente existentes, e por isso ao qual ninguém pode trabalho digno e que, no quadro da prospeaceder e que, cona utopia não envelhece, ridade económica que sequentemente, ninnão declina e continua o Chile vive, adquirem guém pode monopoum carácter realmente lizar. É, ao mesmo vibrando como um desejo escandaloso que devetempo, uma utopia em em busca de líder, ria cobrir de vergonha certo sentido, que coruma coligação de cenre o risco de ser seum líder que pode ser tro-esquerda que goquestrada por dematanto um revolucionário verna o Chile desde gogos ou oportunistas, 1990 e que ainda não por políticos que pobem intencionado conseguiu tirar o país dem colocar-se na licomo um demagogo de um ranking inaceiderança de causas mastável: o de país com sivas sem terem uma da pior estirpe. a maior desigualdade agenda viável e cujo de rendimentos do objectivo real pode continente. ser o de mero apetite Suspeito que ao «desaparecimento da pelo poder e pelas vantagens que este utopia», após o fim do comunismo, na qual comporta. também acreditei, aconteceu o mesmo que Esta utopia coloca uma interrogante ao conceito de «fim da história» de Fukuyaquestão-chave ao intelectual latino-americano: ma. No meio da euforia que se apoderava qual a sua alternativa se pretende comunicar dos detractores do socialismo real, Fukuyadiscursos com conteúdo à população? Procuma postulou que a actual sociedade indusrar no Estado bolsas, prémios e cargos no trial ocidental era uma espécie de estado final Governo ou embaixadas, convertendo-se do desenvolvimento humano. Curiosamenassim no escritor Paniaguado que denuncia te, como anteriormente Hegel, Fukuyama Cervantes como um dos que vive do pão e da não previu a complexidade da História nem água que lhe dão os patronos? Ou emigrar a sua capacidade de metamorfose. A surpara os Estados Unidos ou para a Europa, para preendente ebulição que reconquista o contentar a partir dali, fundamentalmente a partir tinente e inquieta Washington é prova de que da academia, uma inserção no circuito intera utopia continua ali, tenaz e obstinada como nacional de livros como autor globalizado sempre, mas metamorfoseada. Já não é uma com voz e prestígio? Ou está condenado a utopia concreta como a que pintaram Moro, desaparecer como voz crítica, eclipsado pelas Marx, Lenine, Mao ou Castro, mas antes entrevistas aos protagonistas do teatro, dos esfumada e de contornos imprecisos, como reality shows ou das estrelas de cinema, todos os quadros de Turner. Paradoxalmente, a eles convertidos hoje nos filósofos moderforça da utopia renovada emerge da sua nos? No primeiro caso, corre o risco de se ambiguidade, do seu nexo solto com princíconverter em voz provinciana dentro do pios gerais que exigem equidade social, acesgrande discurso global, em alguém que, pelo so à educação e à saúde, aprofundamento da seu exotismo, talvez possa ser incorporado no democracia, desenvolvimento sustentável e sistema. No segundo caso, enfrenta o perigo oposição a um mundo unipolar. A sua conde ser arrumado na estante da livraria como vocatória baseia-se em não ser um corpo escritor «hispano» ou «latino», como


apêndice do main stream literário, periferia da Weltliteratur, mais ainda se o seu discurso tender a circular fundamentalmente no âmbito académico, cuja, por vezes, indecifrável linguagem teórica perde cada vez mais contacto com o mundo real e recepção entre leitores. Suspeito que uma das escassas formas de que hoje dispõe o intelectual latino-americano para alcançar uma certa significação – quer viva sob a protecção do Estado ou da academia – consiste em regressar à tradição do intelectual continental, à que foi capaz de se libertar da preocupação pelo texto, pelas traduções e pelos contratos dos seus romances e procurou o compromisso com a realidade política. Assim como não existem nem o «fim da história» nem o «desaparecimento da uto-

pia», tão-pouco existe, a meu ver, a morte forçada do compromisso do intelectual. Pode soar a retro, mas, na realidade, o que na América Latina se quebrou foi o compromisso sartreano com um projecto utópico concreto, e não o intelectual que está atento à realidade política e à utopia de contornos agora esfumados. A utopia como inspiração para conseguir um mundo melhor e o compromisso do intelectual com causas nobres não estão determinados, na América Latina, por um voluntarismo ideológico nostálgico, mas pela porfiada realidade social de um continente que, celebrando 200 anos de vida independente, exibe os maiores índices de desigualdade e injustiça social do Planeta.

Suspeito que uma das escassas formas de que hoje dispõe o intelectual latino-americano para alcançar uma certa significação – quer viva sob a protecção do Estado ou da academia – consiste em regressar à tradição do intelectual continental, à que foi capaz de se libertar da preocupação pelo texto, pelas traduções e pelos contratos dos seus romances e procurou o compromisso com a realidade política.


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Eixos e paradoxos das mudanças de rumo nas democracias e governos da América do Sul Gerardo Caetano

A greve (detalhe). Antonio Ruiz «El Corcito»


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INTRODUÇÃO As discussões sobre o conceito de cidadania e de representação política ocupam um lugar central na agenda política e académica internacional. Na América Latina, o recolocar destas problemáticas retomou-se no seu início com os efeitos ainda persistentes dos processos de transição para a democracia e dos processos de «reacção antipolítica» posteriores ao fracasso estrondoso de vários governos que aplicaram de uma maneira ortodoxa as receitas e os postulados do chamado neoliberalismo, em voga no continente durante grande parte dos anos 90. No entanto, não há dúvida de que, desde há uns anos, o fenómeno que mais decisivamente impulsiona este debate se relaciona com o advento, em vários países do subcontinente, de governos de esquerda ou de sentido mais ou menos progressista (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai, Venezuela) que, apesar das suas diferenças, em alguns casos notórias, foram eleitos com base na esperança de sociedades que, ao fazerem essas opções, apostavam claramente na procura de mudanças profundas a diferentes níveis. A explosão de expectativas que acompanhou, e ainda acompanha, a sucessão destes processos, estimulada pela coincidência de novas eleições neste mesmo ano de 2006 noutros países da região, o que poderia aumentar e consolidar esta tendência para a mudança começou, no entanto, a mitigar os seus signos, entre sinais de impaciência ou de desencanto perante o desempenho dos novos governos. A expectativa de mudança e as realidades críticas que as sociedades latino-americanas apresentam tornam absolutamente lógica a impaciência de pessoas cujo objectivo central poderia muito bem sintetizar-se no objectivo de alcançar, em alguns casos pela primeira vez, o «direito a ter direitos». Em suma, tratar-se-ia de, efectivamente, converter pessoas em cidadãos genuínos. Na nossa opinião, neste ponto reside um dos eixos fundamentais da encruzilhada institucional em sentido radical que atravessa o subcontinente.

O CENÁRIO GLOBAL DA POLÍTICA SUL-AMERICANA CONTEMPORÂNEA Ao comparar o cenário latino-americano das décadas de quarenta ou cinquenta do século passado – quando apenas dois ou três países podiam ser qualificados como democráticos – com o presente, é impossível não aceitar o avanço das instituições, dos valores e dos hábitos da democracia. Neste sentido, alguns acontecimentos históricos específicos e processos políticos globais ofereceram um último impulso ao avanço democrático no continente. É possível verificar na região uma tendência para a consolidação, por um lado, dos instrumentos vigentes em matéria de integração política como alternativa perante os avassalamentos do formato unipolar e hegemónico da globalização impulsionada pelos EUA e, por outro, para a construção de novos governos orientados para transformar (no quadro de fortes restrições internas e externas) as tendências ultraliberais provenientes do chamado «Consenso de Washington» em orientações programáticas de sentido progressista, em termos gerais. Para lá de diferenças ou matizes nas políticas aplicadas, esta é a perspectiva que se abre com a ascensão de governos como os de Lula no Brasil, Kirchner na Argentina, a consolidação da experiência da Concertação Democrática no Chile de Lago e agora de Bachelet, as oportunidades abertas no Uruguai através da vitória, na primeira volta, da esquerda unida na Frente Ampla com Tabaré Vázquez, o triunfo espectacular, também na primeira volta, do MAS sob a liderança do dirigente indígena Evo Morales num autêntico contexto revolucionário na Bolívia. Inclusive, apesar da sua locução, por vezes de perfil autoritário e populista, a própria experiência do Governo de Chávez, na Venezuela, em particular no que concerne à sua rejeição do intervencionismo norte-americano e à sua militância integracionista bolivariana, mostram um continente que parece mudar política e ideologicamente, sempre dentro das margens estreitas de um contexto internacional não demasiado favorável. Em algumas destas experiências, não em todas, e isto con-


figura um profundo desafio para as concepções progressistas na região, o advento destes governos de esquerda ou afins incorporou, como um dos eixos do seu trabalho, o aprofundamento democrático: o Chile, a Bolívia, o Brasil e o Uruguai são exemplos claros e definidos nessa situação; na Argentina de Kirchner, persistem dúvidas a respeito deste ponto, enquanto na Venezuela de Chávez este constitui um dos calcanhares de Aquiles ou, pelo menos, um dos pontos controversos de toda a experiência chavista, posição assinalada, inclusive, por sectores e grupos de esquerda desse país. Em princípio, então, para lá dos matizes, o balanço que podemos efectuar sobre a evolução política da região, nos últimos anos, é positivo e alentador: em primeiro lugar, pelo retorno à democracia após o padecimento de extensos regimes ditatoriais em países de larga tradição democrática como o Chile e o Uruguai; em segundo lugar, pelos avanços da vida democrática em sistemas políticos de indiscutível gravitação continental como a Argentina e o Brasil, desde a superação de instabilidades profundas e com o sinal sempre alentador de rotações não traumáticas no Governo, no caso do segundo; em terceiro lugar, pela incorporação no círculo democrático de outras sociedades que ao longo do século XX viveram sempre, ou quase sempre, sob regimes autoritários, como é o caso mexicano; finalmente, pela revitalização, nuns casos, ou a criação, noutros, de espaços de integração política regional ou sub-regional, com uma procura acrescida para superar os seus rasgos de «défice democrático». Sem desconhecer ou minimizar este auspicioso avanço da democracia representativa no continente, também nos últimos anos puderam ser observados alguns outros sinais no panorama político regional. As profundas crises políticas e institucionais que alguns países da região padeceram nos últimos anos dão conta de muitos fenómenos já inocultáveis. Observemos alguns deles: 1) Os formatos democráticos e os seus actores tradicionais deterioraram-se de forma profunda e hoje são claramente

As posturas anti-imperialistas e um antinorte-americanismo profundo (entendido não como uma ruptura face ao povo dessa nação, mas como uma rejeição profunda das práticas contrárias ao Direito e à Comunidade internacionais, adoptadas pela administração ultradireitista do presidente Bush), expandem-se, como há décadas não ocorria no continente, impulsionando posturas nacionalistas e de defesa de soberanias agredidas.


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insuficientes para consolidar verdadeiras democracias no continente; emergem novos actores sociais e políticos de feição contestatária face a estas «democracias de baixa densidade», através de modalidades e lideranças renovadoras que vêm dar voz aos «invisíveis» ancestrais dos regimes anteriores (indígenas, pobres, negros, mulheres, sectores marginalizados em geral, etc.) e exigir o cumprimento, longamente adiado, das suas legítimas exigências de justiça, tanto em matéria política e social como cultural; 2) As posturas anti-imperialistas e um anti norte-americanismo profundo (entendido não como uma ruptura face ao povo dessa nação, mas como uma rejeição profunda das práticas contrárias ao Direito e à Comunidade internacionais, adoptadas pela administração ultradireitista do presidente Bush), expandem-se, como há décadas não ocorria no continente, impulsionando posturas nacionalistas e de defesa de soberanias agredidas; 3) O consenso acrítico reinante nos anos 90 sobre as bondades pouco menos que indiscutíveis do receituário liberal ortodoxo, emanado dos organismos financeiros internacionais, cada vez gera mais críticas e contestação, além de que muitas delas resultam mais firmes nos discursos de oposição do que nos conteúdos das políticas implementadas, uma vez chegados ao exercício do governo; entre outros fenómenos que poderiam ser citados. ALGUMAS VIAS POSSÍVEIS PARA UMA NOVA ORDEM PÓS-LIBERAL NA AMÉRICA DO SUL As linhas de força desta ordem que bem poderia classificar-se de «pós-neoliberal», na região, traduzem-se efectivamente em triunfos eleitorais tão espectaculares como impensáveis há alguns anos. As razões desta viragem histórica podem encontrar-se em múltiplos factores. Tendo em conta os eixos anteriormente referidos, destaquemos só três dos mais importantes, no seio de uma ampla série: 1) A rejeição dos efeitos de uma política exterior dos EUA para o continente caracterizada tanto pela persistência de um

intervencionismo desenfadado (os exemplos são múltiplos e não deixam de suceder-se), como por um desinteresse efectivo em planos alternativos de cooperação, propícios a um desenvolvimento minimamente viável para os países do continente. Neste sentido, concorrem tanto os conteúdos inaceitáveis da sua proposta da ALCA, como a sua atitude cada vez mais prescindível em termos de cooperação. 2) O fracasso cada vez mais aceite da implementação das reformas impulsionadas pelos organismos financeiros internacionais durante os últimos anos, pela mão do receituário emanado do chamado «Consenso de Washington». Neste sentido, tanto as análises académicas como as provenientes de estudos dos mesmos organismos financeiros internacionais resultam consensuais na consideração de que a implementação das chamadas «reformas de primeira geração», durante os anos 90, culminou em desempenhos muito pobres, em particular nos tópicos fundamentais da criação de emprego genuíno, no combate à pobreza e à indigência, no crescimento económico e na construção institucional. 3) O agravamento de cenários de pauperização e marginalização social, pela mão de Estados «desertores» ou «suicidas» como o que alienou Menem durante o seu longo decénio no governo da Argentina (postulado pelo FMI em 1998 como o seu «melhor aluno» na região). Neste quadro, os processos renovados de pauperização vieram a tornar mais dramáticas e inocultáveis as injustiças não só sociais e económicas, como também políticas, culturais e étnicas em países como o Brasil ou a Bolívia, para citar apenas dois exemplos particularmente assinalados. Para ilustrar a gravidade destes processos e a situação dos diversos países do continente, basta consultar os indicadores da evolução do investimento social na região, assim como as estatísticas dos relatórios da CEPAL. O aprofundamento da rejeição popular nas sociedades sul-americanas da política exterior norte-americana, em geral, e, em particular, na região, a crítica crescente às políticas «neoliberais» e aos seus defensores no subcontinente e o agravamento dos


quadros de pauperização, desigualdade e marginalização constituem, com efeito, factores não únicos, mas dos mais decisivos para o advento das mudanças políticas na região.Também resultam factores desafiantes e problematizadores para a gestão destes novos governos de tipo progressista. Em suma, os mesmos factores que estimularam o seu crescimento eleitoral e o seu triunfo nas urnas tendem a problematizar e a interpelar a gestão destas forças políticas, uma vez que se transformem em governo, tendo de lidar com realidades dramáticas que exigem transformações urgentes e profundas. AS DEMOCRACIAS DE «BAIXA INTENSIDADE» NO CONTINENTE «MAIS DESIGUAL DO PLANETA» Por outro lado, as sondagens ou inquéritos de opinião pública, como veremos mais adiante, dão conta de uma situação preocupante: em muitos países, uma percentagem significativa dos cidadãos não acredita nas instituições democráticas, manifesta não preferir a democracia face a qualquer outra forma de governo, não se sente representada pelos partidos políticos e avalia criticamente o desempenho dos governos e das instituições públicas (o poder executivo, o Parlamento, o sistema judicial e os governos locais), independentemente da sua ideologia. Por exemplo, na Argentina, 46% das pessoas maiores de 18 anos diziam estar satisfeitas com o funcionamento da democracia no ano de 2000; em 2002, após a crise institucional de finais de 2001, só 8% dos inquiridos manifestaram sentir-se satisfeitos com a democracia1. Importa também destacar que o avanço da democracia no continente não permitiu, contudo, garantir, nem sequer aumentar, o respeito pelos direitos humanos, em particular das mulheres, dos sectores mais pobres e das minorias (os povos indígenas, os afro-americanos, etc.). Seguramente, uma das principais matérias pendentes da democracia é a persistência de altos níveis de pobreza, desigualdade económica e carências em termos de desenvolvimento humano (desnutrição, falta de

O aprofundamento da rejeição popular nas sociedades sul-americanas da política exterior norte-americana, em geral, e, em particular, na região, a crítica crescente às políticas «neoliberais» e aos seus defensores no subcontinente e o agravamento dos quadros de pauperização, desigualdade e marginalização constituem, com efeito, factores não únicos, mas dos mais decisivos para o advento das mudanças políticas na região.


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acesso à saúde e baixa qualidade e iniquidade educativa), que geraram a circunstância lamentável de a América Latina constituir o continente mais desigual do Planeta. O direito dos povos à democracia também requer avanços e consolidações efectivas nestes campos, em resposta à exigência de milhões de latino-americanos que não podem esperar, como indicam de modo, em nossa opinião, tão rotundo como indiscutível as séries estatísticas e os dados oficiais. A esta enumeração de dívidas (como diria o filósofo político e jurista italiano Norberto Bobbio, «promessas incumpridas») que as democracias da região ainda não saldaram com os seus povos, haveria que adossar alguns défices de carácter político ou institucional, aos que, por outro lado, nem sequer as sociedades mais desenvolvidas escapam: referimo-nos, por exemplo, à persistência de fenómenos de corrupção política e à frequente falta de transparência no aparelho do Estado. Como se sabe, a região, no seu conjunto, e a maioria dos seus países isoladamente exibem as piores classificações, comparativamente a outras áreas do mundo, nos índices usados para medir a corrupção. Se se considerar o índice elaborado pela «Transparency International», no ano de 2001, em média, os países das Américas situam-se no 53.º lugar entre os 91 países estudados, com um amplo intervalo que ia do Canadá (7.º país mais transparente do mundo) à Bolívia (em 85.º lugar, só seis lugares atrás do país menos transparente do Planeta). Este fraco desempenho, em matéria de transparência pública e gestão democrática, conspira, sem dúvida, contra a credibilidade e a legitimidade das instituições políticas, o que, a curto ou médio prazo, pode redundar em crises institucionais. Por outro lado, a generalização de uma cultura de corrupção afecta o funcionamento da economia, enquanto os agentes económicos requerem parâmetros claros, regras inequívocas e estáveis para operar (investir, produzir e comercializar) no mercado, com níveis mínimos de previsibilidade. Finalmente, a corrupção política (que, como lamentavelmente temos podido

constatar, não constitui património da direita) e, mais em geral, a falta de respeito pela legalidade vigente empreenderam o aparecimento da violência social, o que acaba por alimentar um círculo vicioso de instabilidade e fragilidade democráticas, que incrementa uma agenda de «securização da vida quotidiana» que, geralmente, gera ensaios e implantações políticas de cariz autoritário. Não se trata de haver um contexto favorável ao retorno dos militares a liderar ditaduras de terrorismo de Estado, do género das que assolaram o continente entre os anos 60 e 70. Hoje, o perigo radica na ascensão de autoritarismos de novo tipo que, inclusive, poderiam aceder ao governo com legitimação eleitoral e que, sem dúvida, se veriam amplamente favorecidos por um fracasso dos governos progressistas perante as complexas agendas que enfrentam. De tal modo que o descrédito da política constitui um factor negativo para a afirmação das esquerdas e das forças progressistas, tanto em contextos de ocupação de papéis de oposição, mas, sobretudo, para o exercício da liderança do governo. Se, como se assinalou, a expansão da democracia no continente constitui um sinal alentador dos tempos que correm, o panorama político mais actual não está livre de sinais preocupantes e, em alguns casos, verdadeiramente alarmantes. As diversas crises que vários países da região atravessaram nos últimos anos, os escassos avanços em matéria social, os fenómenos de corrupção e a insegurança física que afecta importantes segmentos da população nas grandes metrópoles e nas áreas rurais, os cenários de polarização política e social, a dificuldade, em alguns casos crescente, em vislumbrar e concretizar um futuro melhor para os nossos países no que concerne à sua inserção competitiva nos novos contextos internacionais configuram um quadro no qual a afirmação da democracia constitui uma tarefa de primeira ordem, trabalho, por outro lado, inacabado e inacabável. Este desafio, em particular, resulta incontornável para os governos de esquerda, a partir de respostas que não podem ser restauradoras e que têm de


apostar com coragem e criatividade em induzir e contribuir para tornar visíveis novas formas de poder e organização dos actores sociais, com capacidade efectivamente participativa na tarefa governamental. No recente relatório do PNUD intitulado La Democracia en America Latina2, entre outros dados extraordinariamente preocupantes, é impossível omitir a referência a alguns: «No ano de 2003, viviam na pobreza 225 milhões de latino-americanos, ou seja, 43,9%, dos quais 100 milhões eram indigentes (19,4%)»; «10% da população mais rica recebe uma quantia 30 vezes superior à da mais pobre», o que converte a América Latina no continente mais desigual do Planeta. Por outro lado, no referido relatório também se mencionava esta tendência da opinião pública: «Em 2002, 57% das cidadãs e dos cidadãos da América Latina preferiam a democracia face a qualquer outro regime. Contudo, dos que dizem preferir a democracia a outros regimes, 48,1% preferem o desenvolvimento económico à democracia, e 44,9% apoiariam um governo autoritário se este resolvesse os problemas económicos do seu país»3. Estes últimos registos e dados corroboram a preocupação já expressa no diagnóstico anteriormente apresentado sobre a realidade política das democracias contemporâneas do continente. ALGUNS DESAFIOS PARA UMA MUDANÇA INADIÁVEL Em suma, o distanciamento crítico entre cidadanias e instituições ameaça transformar-se num dos problemas mais acutilantes tanto para a saúde das democracias latino-americanas em geral, como para a acção dos governos de esquerda ou progressistas da região. As nossas sociedades inseridas no continente mais desigual do Planeta apresentam ainda fragmentações e feridas duríssimas nos seus respectivos tecidos sociais, o que leva a uma crescente falta de credibilidade no funcionamento e nos resultados da acção quotidiana dos actores e das instituições da política, com particular ênfase para os partidos e os Parlamentos. Como vimos, este resultado, que em boa medida foi impulsionado (ainda

que não exclusivamente) pelo tipo de acção pública que caracterizou os governos sul-americanos, na sua grande maioria durante os anos 90 (com excepções), converteu-se num factor que tendeu a erodir a credibilidade dos partidos e figuras da política tradicional na região, assim como a impulsionar forças políticas renovadoras com novas lideranças. Com efeito, como vimos, começou a emergir, como resposta a esta situação de desencanto político, uma viragem relevante na perspectiva da vitória eleitoral em vários países da região de governos de centro-esquerda ou «progressistas», com programas diferentes, em muitos casos, mas também com similitudes, em especial no que concerne à rejeição das orientações do chamado «Consenso de Washington». Todavia, seria um grave erro para esses novos governantes ignorarem que os mesmos factores que os ajudaram a ganhar as eleições poderiam prontamente virar-se contra a sua legitimidade governativa, boicotar a sua acção transformadora e apoiar o regresso ao poder dos seus adversários. Considerando esta prevenção, há que advertir que, no primeiro mandato destes governos, as situações herdadas e o consequente espaço de acção impõem restrições e potenciam desafios muito fortes no que respeita às verdadeiras mudanças inadiáveis. Daí que, em simultâneo com a aplicação de outro tipo de políticas públicas, a procura de novas formas de cidadania e de instituições renovadas através de reformas democráticas específicas e profundas constitua encargos incontornáveis na agenda destes governos. Sobretudo se se quer efectivamente a transformação profunda de sociedades demasiado feridas e habituadas ao fracasso. E é sabido que o fracasso, sobretudo se provier da inadvertência ou da soberba, fere muito mais as esquerdas do que as direitas.

1 Fonte: www.latinobarometro.org 2 PNUD, La Democracia en América Latina: Hacia una democracia de ciudadanos y ciudadanas, 2004.

3 PNUD, Encuesta, elaboración propia con base en Latinobarómetro 2002.


CEM ANOS DE SOLIDÃO

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Os filhos, Tucumán vinte anos depois Julio Pantoja

Com o nome de «Operativo Independencia», em 1975, lançava-se em Tucumán, a mais pequena província argentina, uma feroz repressão movida contra as organizações populares, com o pretexto de combater a guerrilha. Com o golpe de Estado de 24 de Março de 1976, que durou até 1983, a violência estatal aperfeiçoou-se e estendeu o seu braço a todo e qualquer opositor que ousasse levantar a voz. Esta violência, que logo se generalizou a todo o país, deixou, em Tucumán, um saldo de centenas de desaparecidos, assassinados, presos, torturados e exilados. Duas décadas depois, o mesmo militar que dirigiu aquela repressão e que foi interventor dessa ditadura na província, o general Antonio Domingo Bussi, foi eleito governador nas eleições democráticas, apesar das acusações de genocídio, torturas e rapto de bebés. Com um endémico atraso económico, político e social, face ao resto do país, esta convulsionada província do Noroeste argentino continua a debater-se, até hoje, entre um tenebroso passado marcado a fogo pelo zumbido das balas dos anos 70 e a formalidade democrática envenenada pela corrupção da mudança de século.

A FOTOGRAFIA E ESTE ENSAIO FOTOGRÁFICO A partir do triunfo, nas eleições da minha província, do general genocida, conjuntamente com o vigésimo aniversário do golpe militar, dediquei-me sistematicamente a retratar os filhos de vítimas da repressão em Tucumán. A princípio, foi talvez apenas um impulso quase ingénuo de resistência conduzido pela indignação, mas, aos poucos, foi-se consolidando e tomando a forma de uma tomada de posição lúcida, usando a minha ferramenta: a fotografia. Um dia, quando estava a começar este trabalho, a curadora de fotografia de um importante museu dos Estados Unidos fez-me uma brilhante pergunta que serviu de síntese e de desafio para este ensaio. Interrogou-me sobre a eventual diferenciação visual entre um grupo de adolescentes cujos pais haviam desaparecido e os restantes adolescentes. A minha hipótese de trabalho foi simples. Sempre estive certo de que devia existir um denominador comum entre aqueles que, sendo de uma mesma geração, tinham passado por tanto sofrimento do mesmo tipo, atormentados pelo Estado terrorista. Se o nexo partia da mesma experiência de vida, deveria existir o seu correlativo no visual. As respostas chegavam à medida que o trabalho se desenvolvia. Sob o ponto de vista estético, encontrei duas linhas sobre as quais seria interessante trabalhar. Uma, poderíamos denominá-la horizontal, e está relacionada com o geracional: com um grupo de jovens marcado pelo rock, e pela música popular em geral, e por um importante compromisso social e político. E aqui se produz o cruzamento vertical. Este compromisso não é um signo característico dos nossos dias, mas relaciona-se com os agitados anos 70 que tiveram os seus pais como protagonistas. Mas aqui surge outra relação: naquela época, os seus pais teriam aproximadamente as idades que eles têm hoje. Outro ponto sempre importante, mas vital neste caso, é a relevância do nome que acompanha cada retrato porque permite preservar a identidade e a história de cada um. As fotos sem nome são fotos de «NN», como classificavam os militares as suas vítimas. Eu deveria situar-me nos antípodas. Simultaneamente, era óbvio que não tinha interesse em retratar estes jovens de uma forma fria. A minha ideia era mais profunda. A intenção era dar uma pincelada muito mais subjectiva e pessoal sobre este grupo humano tão particular. Tirar cada uma destas fotografias levou horas, até dias, de conversas e confidências, com álbuns desbotados e fotos também descoloridas entre as mãos. Logo a partir dos primeiros contactos, quase sempre telefónicos, propunha-lhes que escolhessem um local que se relacionasse com as suas histórias, vivências e recordações mais íntimas. Assim, surgem casas de avós, pátios de escolas, praças e, claro, os quartos da adolescência ainda recente. Deste modo, com este clima e algumas lágrimas que embaciavam os olhos – de ambos –, a pouco e pouco foram-se esboçando, melancolicamente, as imagens deste ensaio.


Para não esquecer os anos de solidão que marcaram a ditadura argentina, publicamos aqui o «ensaio fotográfico» de Julio Pantoja sobre os «filhos dos desaparecidos» e, ainda, um texto do mesmo autor sobre a exposição evocativa do golpe militar, trinta anos depois.

Alejandra Leiva, 22 anos, estudante de Psicologia, 1997

Andea Vicente Achín, 22 anos, estudante de Inglês, 1997

Andrés Jaroslavsky, 27 anos, pianista e ilustrador, 1997

Carla González Medina, 30 anos, artesã, 1997

Lucía Coronel, 20 anos, estudante de Teatro, 1996

Martín Suter, 25 anos, empresário, 2001

Natalia Aviñez, 23 anos, estudante de Arquitectura, 1999

Tucumán, Argentina, 2000

Viviane Vicente Achín, 20 anos, estudante de Direito, 1997


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Côa, o rio que nunca viu o mar… Maria Lúcia Garcia Marques

Outono. Fim da tarde. A estrada velha desce, dormente, até ao rio. Na penúltima curva, em brutal colisão, extinguira-se, havia meses, uma vida que me era cara. E esta era uma espécie de romagem, in memoriam, na assunção de um luto que o curso ensombrecido do rio, lá em baixo, parecia acompanhar. No local, espiava as marcas do desastre quando, vindo do fundo da valeta, certeiro, direito a mim, um lampejo de vidro me fez descobrir os óculos que minha mãe usara. Parecia que todo aquele tempo tinham esperado ali por mim para me dizerem que olhasse por quem ficara. Recolhi-os piedosamente e, numa oração, olhei o rio. Na quase noite, pressenti-o mais do que o vi e pareceu-me que o seu marulhar se aquietara, como se, guardião daquela vontade última, cumprida a missão, pudesse seguir mais em paz o seu caminho. Requiescat... Bode cuja cabeça se encontra animada, Quinta da Barca (foto CNART), Instituto Português de Arqueologia


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Parafraseando Alberto Caeiro, diria que o Côa «não é como o rio da minha aldeia» porque «Ninguém nunca pensou no que há para além/ Do rio da minha aldeia// O rio da minha aldeia não faz pensar em nada/ Quem está ao pé dele está só ao pé dele». Ora, o Côa dá que pensar. Desde logo, o seu nome. Os romanos chamaram-lhe Cuda, de coda ou cola, que significa «ribeira», «caudal». Porém, essa designação não aparece, tal qual, nos primeiros documentos, mas tem de se depreender do derivado transcudani, o primeiro designativo a ser registado. De facto, segundo J. Leite de Vasconcelos, o rio Cuda (Côa) «não se encontra nem na literatura antiga, nem na epigrafia, mas encontra-se

No Portugal Saccro diz J. Bautista de Castro: «Pelos annos de 550 antes de Christo, pouco mais ou menos, deixando alguns turdulos antigos a costa marítima em que viviam, foram habitar aquelle espaço de terreno que se estende do norte a sul entre o rio Côa e o Águeda e, pela situação em que ficavam além do Côa, se ficaram chamando transcudanos...» Na opinião do arqueólogo Dr. Joaquim Manuel Correia4: «Podiam ter vivido ali os Vetónios, os Váceos, Astures ou Carpetanos ou outros, talvez mesmo os Galaicos, que nenhuns ficavam distantes deste território e poderiam tê-lo ocupado. (...). Não é, porém, de crer que estes e os turdulos fossem os únicos habitantes de Riba-Côa.» Como quer que seja, e regres-

É um dos poucos rios em Portugal que correm de sul para norte, o que, olhando-o no mapa, o faz parecer como que um rio ao invés.

… correndo teimoso entre invernos e estiagens, ora caudaloso ora parco, foi cioso guardador da memória que os Homens, na aurora dos seus dias, lhe entregara.

apenas o seu derivado transcudanus = transcud(a)-anus...»1. J. Pinharanda Gomes2 aduz a este respeito: «Seria estranho que fossem os romanos a baptizar o rio. Antes deles e mesmo sem a total visão geográfica do acidente hídrico, os povos chamariam a esse curso de água algum nome. Nome esse que seria, como sempre foi, ribeira, sem mais nada; e que os romanos traduziriam por coda ou cola, que significa isso: a ribeira, o caudal. É inevitável, hoje em dia, dizer Rio Côa; mas é repetitivo. Côa é ribeira. E a forma cuda parece espúria. A forma genuína aberta, eila: coda>côa». Aliás, é assim que se encontra atestado em documento de 1145: «... et fluvium qui vocatur Côa», citado por Frei Joaquim Santa Rosa Viterbo3. E quem antes dos romanos – e isto, no caso, é particularmente importante – se fixou junto ao rio?

sando a Pinharanda Gomes, o Côa «foi, no decurso do tempo, grave acidente na geografia política. Serviu de fosso entre ribacudanos e transcudanos nos tempos tribais e através da reconquista; serviu de raia leonesa, na parte de Cima-Côa, face ao novo reino português» até que, com as conquistas de D. Dinis5, reconhecidas pelo Tratado de Alcanizes, em 1297, que fixou definitivamente as fronteiras de Portugal na zona, passou a rio interior, transferindo para o Águeda a sua função limítrofe. Feita a conquista, D. Dinis tratou de a assegurar e, por isso, construiu castelos, edificou muralhas em volta das vilas e levantou pontes sobre o Côa, guarnecendo fortemente as praças. É assim que a fortaleza do Sabugal, que vigiava de Leão o reino de Portugal, passou, depois de recuperada por D. Dinis, a vigia de Portugal face ao poder de Castela.


Uma cena do romance regionalista de Nuno de Montemor, Maria Mim6, surpreende o Castelo do Sabugal com grande felicidade estética no seu quadro heróico-romântico, que vale a pena transcrever: «Intacto, garboso e sempre vivo, continuamente embalado pela água azul do Rio Côa que, em jeitos de pajem, graciosamente se lhe curva, a banhá-lo, dir-se-ia que os seus fundamentos criaram raízes vegetais no leito do rio, tão viçosa é a escarpa íngreme que a ele conduz, e sobre a qual o castelo assenta enramado de heras e flores, como altar de Maio em constante Primavera. (...) Belo e encantado castelo das cinco quinas, como, no dizer do povo, não há outro em Portugal! Que o rio encurvasse pelo nascente, um braço, a

É um cenário de fascínio da arte rupestre, «museu de história da arte ao ar livre como não há outro no mundo com esta profundidade temporal. enlaçar a cintura da vila, para a mudar numa ilha branca e verde e o tão enamorado Almourol não passaria de um pobre e ressequido esqueleto.» O apontamento final deste trecho convida-nos a considerar mais em detalhe o percurso sinuoso do rio. E também aqui o Côa se mostra raro: é um dos poucos rios em Portugal que correm de sul para norte, o que, olhando-o no mapa, o faz parecer como que um rio ao invés – sobe em vez de descer, acentuando a imagem de um rio esforçado, no penoso afã de levar à foz um caudal atormentado. Nasce na freguesia de Fóios na serra das Mesas, também conhecida por serra da Nave Molhada, pequeno como qualquer outro, mas o seu caudal vai engrossando até desaguar, majestoso e farto, na margem esquerda do rio Douro, próximo de Vila Nova de Foz Côa (que do facto lhe tira o

nome). Da nascente até à foz são 135 km de tortuoso leito, alimentado por muitos afluentes (sendo os principais na margem direita, as ribeiras de Alfaiates e Adão e, na esquerda, as ribeiras de Noémi, Gaiteiros, Cabras, Massucine e Tamegal). Atravessa, qual espinha dorsal, o concelho do Sabugal, desde próximo da raia, passa, como se viu, na vila do Sabugal e segue a este das freguesias de Valongo e Castelo Mendo, a oeste dos concelhos de Almeida e de Pinhel, até entrar no Douro em Vila Nova de Foz Côa. Por volta de 1800, Frei Bernardo de Brito7 descreve-o com pitoresco rigor da seguinte forma: «É rio de muita cópia de peixe, como são barbos, bogas, bordalos e outros modos de pescaria. A cor das suas águas é pouco clara, tirante a verde escuro; é de malíssima digestão, e mui pesada, causa tristeza, dores de barriga e de cabeça, engrossa o entendimento e, para mulheres formosas, é de muito pouco proveito, porque lhe dana o carão notavelmente: só tem virtude para tingir lãs e caldear ferro, que neste particular é excelente.» Porém, é sabido que «não há trutas como as do Côa» e também é verdade que as suas águas serviram desde sempre para irrigar lameiros e campos de cultivo, fazendo das suas margens viveiros férteis das localidades por onde passa. Mas a primeira «biografia» total do rio traça-se pela primeira vez a partir do «Inquérito do Ministério do Reino dirigido às Paróquias em 1758». Consta de 19 perguntas que incidem sobre a origem, características hídricas, aproveitamentos, construções, navegabilidade e até eventual mineração no caudal. Assim se fica a saber do cultivo de algumas partes das margens, das espécies arbóreas que acompanham o curso do rio que tem (tinha) muitos moinhos e algumas pontes, tudo em 10 conjuntos de respostas (tantos quantas as paróquias) de análise deveras interessante. Pelo pormenor e pela curiosidade das observações, não resisto a transcrever o teor da resposta assinada pelo abade de Quadrazais, Paulo Correia da Costa, datada de 18 de Abril de 1758:

1 In J. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia

(3 volumes, 1897, 1905, 1913). 2 In J. Pinharanda Gomes, Geógrafos do Côa, Actas do Congresso do 7.º Centenário do Foral – Sabugal, 1996,

págs. 97-108. 3 In Frei Joaquim Santa Rosa Viterbo, Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal Antigamente se Usavam,

(2 volumes, 1798-99). 4 In Joaquim Manuel Correia, Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal, ed. da Federação

dos Municípios da Beira-Serra, Lisboa, 1946, pág. 14. 5 D. Dinis teria conquistado ou tomado posse efectiva destas terras, em 1296, de regresso de uma mal-sucedida empresa em terras de Leão, ao apoiar as pretensões ao trono do tio de Fernando IV de Castela (ainda menor ao tempo) e que, por ilegítimas, se goraram. Diz o Dr. Joaquim Correia: «O certo é que D. Dinis invadiu a comarca de Riba Côa, desde a Ribeira de Tourões e o Rio Águeda, que ficou sendo a linha divisória dos dois países até ao Côa, que anteriormente separava as duas nações.» O direito à posse destas terras por Portugal, anterior mesmo a esta expedição, parece, aliás , ser implicitamente reconhecido pelo texto do Tratado de Alcanizes. 6 Nuno de Montemor (pseudónimo literário de Joaquim Augusto Álvares de Almeida), Maria Mim, 1939, 4.ª ed. da Câmara Municipal do Sabugal, 2003. 7 Frei Bernardo de Brito, Geografia Antiga da Lusitânia (1804), ed.

1957, págs. 22-23.


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«Resposta sobre a Ribeyra deste Lugar: 1. – Junto a este povo de Coadrazaes8, como já se disse, passa huma Ribeyra chamada Côa. Esta nasce, distância deste povo duas légoas, perto de huma Aldea chamada Foyos,em hum sítio chamado Currais das Moreyras,de fronte de hum cabeço que chamam o Cabeço Vermelho, na distância de dous tiros de mosquete da Serra já nomeada da Nave Molhada ou das Mezas. 2. – Nasce a dita Ribeyra dando vista ao Norte, logo bastantemente vigoroza, porque em menos de meyo quarto de legoa moem logo nella moinhos. Corre todo anno por estas vizinhanças, em espaço de outo ou nove legoas, sem embargo de que, haverá seis annos, secou no tempo de Verão, em muitas partes, mas foy cazo que outro se não conheceu dos nascidos. 3. – As Ribeyras de que tenho noticia entram nella, há uma chamada dos Sargaçais, perto da Villa do Sabugal; outra chamada a Ribeyra de Pega, perto de um povo que chamam Rapoula; outra chamada Ribeyra de Villar Mayor, junto a hum povo que chamam Vadamallos. 4. – Nam me consta que a dita Ribeyra seja navegável, e só tenho notícia que lá perto donde se mete no Rio Douro, tem suas barcas de passagem. 5. – He de curso arrebatado, em toda a sua distância, menos em algumas partes, mas em muito pouco espaço, como em alguns açudes ou pedaços de terra que chamam veigas. 6. – Tem a dita Ribeyra o seu nascimento ao nascente do Sol, sem embargo, de quando nasce dá vista ao Norte como levo dito e leva o seu decurso a Nordeste para o Poente. 7. – Os peixes que cria nestas vizinhanças, por serem aguas muito frias, san trutas com suficiente abundancia, cria tambem barbos, bordallos e bogas, no espaço de tres legoas de distância e no mais espaço do seu decurso,já cria poucas trutas,por serem aguas mais quentes, mas cria mais abundancia dos mais peixes acima nomeados, e mais criaria se o tempo ou mezes defezos com rigor se observassem, e se prohibissem os materiais que no Rio se lançam para matar os peixes, com que morrem grandes e pequenos. 8. – Em todo o tempo do anno, há na dita Ribeyra pescarias, porque se não observam os tempos prohibidos pella ley do Reyno. 9. – Por estas vizinhanças, em espaço de quatro legoas não me consta que na dita Ribeyra haja pesqueyros, porem mais abaixo,me consta que alguns há de pessoas particulares.10.– Em alguns sítios da dita Ribeyra se cultivam as suas margens como na Villa do Sabugal, e junto a um povo Vadamallos e em outros sítios mais; mas nam me consta de que se valham das aguas de tal Ribeyra para a cultura dos campos, o que tudo hé incuria dos habitadores. Athé onde chega a minha noticia, nem me consta que


tenha arvores de fructo; sem embargo que as poderá ter, em muitas partes, se houvesse curiozidade. De arvores sylvestres tem bastantes, na mayor parte de seu decurso, como sam amieyros e outras mais de semelhante qualidade. 11. – A este nam há que responder [se têm alguma virtude particular estas águas]. 12. – Desde o seu nascimento athé onde morre, sempre conserva o mesmo nome, nem consta que em tempo algum tivesse outro. 13. – Vay morrer em hum Ryo chamado Douro em distancia de dezasseis legoas nas vizinhanças de huma Villa chamada Villanova de Foscoa, e naquelle sitio é só que perde o seu nome.14. – Nam tem a tal Ribeyra capacidade que admita navegaçoens. Nam me consta que tenha cachoeyra ou reprezas grandes, e só sim pella mayor parte della tem quantidade de assudes e pegos, por razão dos moinhos que nella há. 15. – Athé onde se estende a minha noticia, me consta que a dita Ribeyra tem sette pontes: duas dellas com pilares ou cortamares de cantaria; e o pavimento de madeira; huma dellas está em huma Aldea chamada Val de Espinho e outra está neste

8 Esta grafia parece pretender

povo de Coadrasaes. Das cinco de cantaria huma está na Villa do Sabugal, outra que chamam a ponte

indicar um nexo etimológico

de Sequeyros , perto de um povo chamado Miusella, outra junto a Villa de Castello Bom, outra meya

povoação, o que não está

legoa distante da praça de Almeyda e outra perto de hum povo chamado Sinco Villas. 16. – Só me

A este topónimo atribui-se

consta que a dita Rybeira, pella mayor parte della, tem moinhos e de que tenha lagares ou pizões me

leonesa. Terra-mãe de

não consta. 17. – Conheço-me lembrado de que haverá vinte annos, pouco mais ou menos, vieram às

foi cenário de aventuras

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entre o nome do rio e o da

cientificamente provado.

uma possível origem arcaica

contrabandistas, Quadrazais

e dramas das suas vidas

vizinhanças deste povo certos homens, e que com instrumentos que traziam, tiraram nas areas e entre

arriscadas, que o supracitado romance de Nuno

as pedras desta Ribeyra algum ouro, mas muito pouco, e por tirarem pouco lucro nam repetiram a

de Montemor ilustra com verdade e emoção.

vinda mais que em duas ou tres ocazioens.18.– Nam me consta que no uso das aguas de tal Ribeyra,

9 Um dos dois únicos exemplos que ainda subsistem no

para a cultura dos campos, haja pençam alguma nestas vizinhanças, mas antes, dellas se uza livre-

nosso país de ponte com habitáculo onde se cobrava

mente pelos habitadores, e melhor podiam usar, se nam foram negligentes. 19. – Tem a tal Ribeyra

a portagem. Ou, como sugere Joaquim Correia, se

16 legoas de curso, pouco mais ou menos em direytura, que tantas sam as que fazem da Aldea dos

controlava a passagem de portugueses para

Foyos, aonde nasce, a Villa Nova de Foscoa, onde morre; passa por meyo da dita Aldea dos Foyos, vem

Espanha, uma vez que o torreão posicionado junto

à vista do Lugar de Val de Espinho, à vista deste de Coadrasaes, à vista do Lugar da Rapoula, à vista

à margem direita do rio sugere ser uma espécie

de Val Longo e Seixo do Côa, à vista de Vadamallos e Porto de Ovelha, cujas povoaçoens se acham

de posto fronteiriço. A ser assim, a ponte seria de

na distância de quatro legoas em direitura de tal Ribeyra, e nam chega a mais a minha notícia

construção anterior ao domínio português

neste particular.»

em Riba Côa.


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E ainda hoje em muito assim é. Porém, na opinião de Pinharanda Gomes, «o retrato de corpo inteiro tirado do natural» do nosso Côa só ficou disponível a partir do projecto científico do geógrafo Carlos Alberto Marques, de que nasceram duas obras indispensáveis (de 1936 e 1939), reeditadas pela Assírio & Alvim (Lisboa, 1995) num único volume intitulado A Bacia Hidrográfica do Côa seguido de Algumas Notas Etnográficas de Riba Côa. Ribacudense, natural de Vale de Espinho, o autor relata, para além da geografia física, da flora e da fauna, pormenores da vida dos homens: a caça, a pesca, as touradas, as festas joaninas, o contrabando, os santos e as matanças. Dos anos trinta até hoje, com

Como se, na áspera ascese do seu percurso final, o rio assumisse o enigmático sentido da História e se constituísse sentinela perene de um património miraculosamente conservado a transmitir aos vindouros.

10 Cancelado definitivamente o projecto da barragem do Vale do Côa foram constituídos o «Parque Arqueológico do Vale do Côa», e um projecto de desenvolvimento para a região, o PROCÔA.

a emigração e as mutações económicas, parte disto perdeu expressão ou feneceu, mas em termos científicos este é, ainda hoje, um testemunho incontornável para a história do Rio. Mas, avaro e secreto, o Côa entesourou um segredo velho de milénios. Vindo do fundo dos tempos, sisudo e constante, correndo teimoso entre invernos e estiagens, ora caudaloso ora parco, foi cioso guardador da memória que os Homens, na aurora dos seus dias, lhe entregaram. São as gravuras rupestres, só verdadeiramente descobertas em 1989, aquando de um estudo ambiental realizado por exigências da construção de uma barragem a efectuar junto à sua foz10. Os núcleos conhecidos estendem-se pelo Vale do Côa e de alguns dos seus afluentes ao longo de cerca de 17 km do seu percurso final. No entanto, estando

ainda em curso os estudos especializados, não se conhece por ora o número definitivo e total das gravuras que enriquecem o vale, calculadas já em vários milhares. É um cenário de fascínio da arte rupestre, «museu de história da arte ao ar livre como não há outro no mundo com esta profundidade temporal e onde é possível reconstituir toda a história da região a partir do comportamento artístico dos povos que a habitaram». São manifestações artísticas que atravessam diversas fases da Pré-História e da História. Sinais de percursos cinegéticos, vitais para a sua sobrevivência, de estágios ou êxodos do Homem Paleolítico, elas parecem participar da natureza simbólica do próprio rio, configurando a seu modo a existência humana e o seu curso, com a sucessão dos seus eventos, sentimentos, intenções, temores e preitos. De algum modo, a fluidez das formas parece ter a ver com o fluir das águas, mas, por outro lado, não deixa de marcar, indelevelmente, no Tempo que corre (entre a Vida e a Morte, como o rio entre a Nascente e a Foz) a presença do Homem vivo e universal. Subindo o rio até ao Douro, vão-se sucedendo, quais «santuários» apelando a estudiosa romagem, os sítios da arte rupestre paleolítica: Faia, Quinta da Barca, Penascosa, Ribeira de Piscos, Vale de Figueira, Vale Videiro, Canada do Inferno, Canada do Amendoal e Vale dos Moinhos. Após a realização de trabalhos de prospecção com vista à localização de possíveis sítios de habitat humano contemporâneo das gravuras, chegou-se, em 1995, à identificação dos primeiros sítios arqueológicos datados do Paleolítico Superior, revelando um deles uma ocupação de há cerca de 22 000 anos. A datação deste enorme património artístico do vale do Côa pressupôs vários critérios e levou à constatação de que as gravuras foram executadas em diversas épocas, apresentando-se muitas vezes em configurações sobrepostas. A identificação das espécies animais figuradas, como o cavalo, o auroque (antepassado dos nossos bois domésticos), a cabra montês e os veados, levou, por exemplo, à determinação do Paleolítico Superior


(período entre 30 000 e 10 000 anos antes do presente em Portugal) como data para o núcleo da Ribeira de Piscos, mas, já com representações humanas estilizadas, serão datadas do Neolítico ou do Calcolítico as gravuras do núcleo da Faia, enquanto no núcleo de Orgal, além de gravuras desta época, se descobriram outras já da Idade do Ferro (meados do I milénio a.C.) representando guerreiros armados a cavalo. No entanto, parece ser o vale do Côa local privilegiado na arte da figuração rupestre, pois dela encontramos exemplos de representações religiosas e populares que quase tocam a actualidade, executadas entre o século XVII e a década de 50 do século passado. Fruto ou não da atracção do rio, o que é facto é que todos os conjuntos artísticos paleolíticos, até ao momento documentados, se situam nas vertentes viradas ao Côa (ou aos seus afluentes). É uma raridade sem paralelo na Pré-História recente e, se tal não for devido apenas a factores rela-

cionados com diferentes condições de preservação, esta distribuição das gravuras pode ser interpretada como um deliberado e consciente comportamento focalizado no curso de água. Como se, na áspera ascese do seu percurso final, o rio assumisse o enigmático sentido da História e se constituísse sentinela perene de um património miraculosamente conservado a transmitir aos vindouros. Algo de quase místico, a que Nuno de Montemor já fora sensível ao descrevê-lo no citado romance: «O ambiente majestoso e recolhido daquela paisagem religiosa, enquadrada por serras de pedregulhos soltos, eriçada, de onde em onde, por altas colunas de montes, recorda[va] o recinto de imensa catedral desmoronada por cataclismo cósmico.» Mas é pacificado e generoso que o Côa se entrega, com o seu precioso tributo, ao «rio-do-oiro», para, nele transfigurado, atingir o seu destino último: o mar.

Vista geral do Vale do Côa (foto CNART), Instituto Português de Arqueologia


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Do Macaco de Paimogo ao Mico-Leão-Dourado Maria Adelina Amorim

Macacos são personagens de romances, de contos, de lendas, de canções. De José de Alencar (O Guarany, 1857) a Mia Couto (“Fábula do macaco e do peixe”), passando por Castro Alves (A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876), Mário de Andrade (Macunaíma, 1928) ou Graça Aranha (A Viagem Maravilhosa, 1929), todos se deixam fascinar pela figura do macaco, relevando-lhe qualidades de entretenimento, diversão e fantasia ou transmutando-os no papel dos homens. Alexandre Rodrigues Ferreira, «Guariba Vermelho», in Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuibá (1783-1792), Rio de Janeiro, Conselho Federal de Culturas, 1791


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Jamais se viram. E, provavelmente, nunca se encontrarão, a não ser pelas fímbrias do imaginário que povoam as cabeças dos humanóides, seus primos mais próximos. Um é matéria rochosa e permanece há milénios a enfrentar o Oceano-Mar com seu ar de lonjura e altivez infinita. Vive, transformado em pedra, sentado nas areias da Lourinhã, ainda por ali habitavam Pterodáctilos e outras animálias semelhantes. O outro existe apenas na Mata Atlântica junto ao Rio de Janeiro, do outro lado do mar. Ao contrário do gigante de Paimogo1, o mico-leão-dourado é um pequeno e leve primata com pelagem da cor do fogo e uma juba à moda do rei da selva, a quem deve a titulação. Ao sol, o pêlo brilha tão intensamente que parece saído do próprio astro para encantar companheiros de habitat e viajantes de toda a Orbe: Há também huns pequeninos pela costa de duas castas pouco mayores que doninhas, a que commumente chamam Sagoís, cõuen a saber,há huns louros & outros pardos.Os louros tem hum cabello muito fino, & na semelhança do vulto & feição do corpo quasi se querem parecer com lião: sam muito fermosos, e nam os há senam no rio de Janeiro. Os pardos se acham apraziueis: mas nam tam alegres á vista como estes. E assi huns como outros, sam tam mimosos & delicados de sua natureza, que como os tiram da patria & os embarcam pera este Reino, tanto que chegão a outros ares mais frios quasi todos morrem no mar, & nam escapa senam algum de grande maravilha. [Pêro Magalhães de Gândavo,História da América Portuguesa a que Vulgarmente se Chama Brasil, 1576]

Popularmente, é conhecido como sauí, saguí, saguín, sagûi-piranga, sauí vermelho, mico, entre outras designações e variantes dos macacos (estes também conhecidos por símios, bugios, ou cebídeos, no último caso, o palavrão com que baptizaram esses primatas antropóides do Novo Mundo). Isto para não falarmos das famílias e das espécies, desde as Callitricidae às Cebus apella macrocephalus ou às Cebus apella tocantinus. Saguins são bugios pequeninos mui felpudos e de cabelo macio, raiados de pardo e preto e branco; tem o rabo comprido e muita felpa no pescoço a qual trazem sempre arrepiada, e que os faz muito formosos (…).Do Rio de Janeiro vem outros saguins da feição destes de cima [Bahia] que tem o pêlo amarelo muito macio, que cheiram muito bem; as quais e os de trás são mimosos e morrem em casa, de qualquer frio, e das aranhas. [Gabriel Soares de Sousa, Notícia do Brasil, 1587]

Mas voltemos ao nosso Leontopithecus rosalia ou, mais propriamente, ao mico-leão-dourado que vive mansamente nas florestas, entre as bromélias e os cipós, comendo insectos, frutos, ovos e um ou outro pássaro ou lagarto mais desprevenido (ninguém é perfeito, e nisto parecem-se com os mamíferos humanos, pois, como dizem os antigos, «não há bela sem senão». Especialmente os macacos de grande porte, como os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos, acumulam tanto de beleza, como de pequenos defeitos, o que os aproxima dos homens, pois não é por acaso que se diz «errar é humano», e não «errar é animal». Perdoem-me os animais humanos, mas esta tribuna é pelos bichos «à séria»). Rezam as crónicas que estes micos são monogâmicos – coisa que eu não comento, pois não tenho nada a ver com a vida privada de cada um – e levam a paternidade muito a sério. O filhote recém-nascido passa os primeiros quatro dias pendurado no ventre materno, mas, passado esse período, é o pai que o transporta, limpa e penteia os seus pêlos sedosos, apenas o emprestando à mãe para a mamada, não se afastando do seu bebé nem durante essas ternuras maternais. Infelizmente, o nosso amigo mico-leão-dourado é uma das espécies em risco de extinção, assim como o seu «primo irmão», o mico-leão-de-cara-dourada (o Leontopithecus chrysomelas), que vive no Sul da Bahia, sujeitos à captura ilegal de inescrupulosos comerciantes e ao desmatamento do seu habitat. Pior é a situação do mico-leão-de-cara-preta, descoberto apenas em 1990 na Mata Atlântica do Estado do Paraná – um dos biomas brasileiros mais ricos em biodiversidade, mas também o mais ameaçado – e de que restam apenas trezentos indivíduos. Estes «caras pretas» são famosos pelos sons muito agudos que emitem para comunicarem entre si e pelo modo como se deslocam de galho em galho pendurando-se pela cauda dourada. Há muito que estes símios suscitam nos viajantes um grande fascínio, sejam os macacos-prego, muito generalizados em todas as florestas da América do Sul, os macacos-barrigudos da Colômbia, Peru e de grande parte da região amazónica e que se distinguem pela grande rapidez e espectacularidade dos seus saltos, os macacos-aranha… enfim, uma quantidade infinita de bugios e similares, ou seja, uma interminável macacada:


Outras de animaes de caça, antas, veados, porcos monteses, & aquários, pacas, tatus, tamanduás, lebres, coelhos, & estes de 5 ou 6 espécies. Outras de animaes de gosto, & recreação, monos, macacos, bugios, çaguíz, preguiças, cotias, & outras espécies sem conto. [Simão de Vasconcelos, Coisas do Brasil, 1663]

Mas o que torna o macaco tão famoso e importante, tornando o seu uso indiscriminado e eterno? Agora até há o Macaco Photoblog, o Macaco M4 Robot Head, o Bio Macaco, o Macaco Capoeira, o Macaco Lyries, os Macaco banda musical... Há muito que as expressões populares promovem o bicho, mesmo que o simiesco politicamente correcto não esteja presente quando se manda a um hominídeo «pentear macacos», sendo mais prazeiroso pôr «cada macaco no seu galho». Desde sempre se viu neste animal uma espécie de alter-ego do homem, usando-o para criticar o mundo às avessas, para relevar a infantilidade perdida («são os animaes que mostrão mais instincto, pelos brincos, e acções que fazem», Sebastião da Rocha Pita, História da América Portugueza, 1730) ou para redescobrir a alegria e a inocência («alguns sam do tamanho de ratos, lindos, alegres, e estimados», Casal, Corografia Brazílica, 1817). Macacos são personagens de romances, de contos, de lendas, de canções. De José de Alencar (O Guarany, 1857) a Mia Couto («Fábula do macaco e do peixe»), passando por Castro Alves (A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876), Mário de Andrade (Macunaíma, 1928) ou Graça Aranha (A Viagem Maravilhosa, 1929), todos se deixam fascinar pela figura do macaco, relevando-lhe qualidades de entretenimento, diversão e fantasia, ou transmutando-os no papel dos homens («…enquanto Adelaide e Azevedo se entretinhão na frívola conversação que acabámos de ouvir, os outros estudantes grimpavão pelos galhos da jaboticabeira como verdadeiros saguis, e enchião a copa dos chapéos dos mais doces e sazonados fructos» [Bernardo Guimarães, Rozaura a Engeitada, 1883]). E que dizer do uso do termo «macaco» com conotações pouco abonatórias, carregadas de sentidos infelizes? O próprio José Lins do Rêgo, no seu Bangué, enuncia este aspecto na fala do seu personagem: «Veria meu avô os negros do engenho como bichos? Um saguim, um porco, um cachorro?» Ainda hoje é vulgar insultar alguém, apodando-o de «seu macaco», repreender uma criança com um «não faças macacadas», ou caluniar o semelhante com o piropo «macaquinho de imitação». Afinal, os homens é que querem

mesmo ser macacos. Não imagino tais aproximações por parte da macacada, nem eles querem saber do Darwin para nada. Pior, pior, para o prestígio do símio é quererem cortar-lhe o rabo para o tornarem «elegante e gracioso», à boa maneira humana: «Até lhe digo mais. Se não fosse o seu rabo comprido, que tanto o desfeia, parecia tão homem como eu», como aconteceu na História do Macaco de Rabo Cortado, enganado com a conversa do barbeiro. Pior para este que ficou sem a navalha, mas ainda hoje me pergunto o que teria mesmo acontecido ao macaco e à sua viola… Terá mesmo dado um salto para Angola? Ou ficou empedernido nas escarpas rochosas de Paimogo, pelas bandas da Lourinhã, onde ainda espera que o seu grande corpo ganhe coragem para atravessar o oceano? É que à sua espera está o pequeno mico-leão-dourado, «… nos galhos mais altos do landí, mal penteado e careteiro, fazendo gatimanhas, chiando e dando pinotes». (Guimarães Rosa, Sagarana, 1946) 1 Uma jazida situada na praia de Paimogo, no concelho da Lourinhã, revelou vestígios de uma centena de ovos de dinossáurios terópodes do Jurássico Superior. É neste anciano contexto que se distingue o grande afloramento rochoso que conflui no extremo sul dessa praia, com a forma de uma gigantesca cabeça de macaco vigilante que mira o infinito – o Macaco de Paimogo.

O mico-leão-dourado é um pequeno e leve primata com pelagem da cor do fogo e uma juba à moda do rei da selva.


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Sabores perdidos Carmen Yáñez

E, no meu sonho, via a mesa repleta de frutos de verão: pêssegos amarelos e vermelhos, damascos, anonas, lúcumas, nêsperas, papaias, uvas, melões, melancias. Natureza viva. Frida Khalo


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Cheguei a Estocolmo no dia 28 de Agosto de 1981. Começava o frio Outono e a luz do dia ia-se retirando até se apagar quase por completo, como um prelúdio ao duro Inverno escandinavo. Tudo era novo, começava uma nova vida numa cultura totalmente desconhecida para os meus sentidos. Neófita e analfabeta, percorria os supermercados e as lojas da cidade que me acolhera. Os meus olhos abriam-se, assombrados e curiosos, perante as montras e a exposição dos diversos artigos, suspeitosamente comestíveis, que ainda não tinham nome. Recordo uma família latino-americana que, entusiasticamente, contava ter descoberto uma saborosa carne enlatada, a muito bom preço, da marca Kitekat. Os infelizes consumiam carne para gatos sem o saber! Com esta lamentável e vergonhosa experiência, redobrei o cuidado com as minhas compras. Consegui um dicionário sueco-espanhol, e assim começou o meu amaldiçoado processo de aprendizagem de um idioma com nove vogais e consoantes impronunciáveis para as minhas cordas vocais. Pouco a pouco, fui-me habituando ao som e à melodia escandinavos. Mas o mais difícil foi o conhecimento e a adaptação das minhas papilas gustativas. Como apreciar umas sardinhas azuis e fritas com marmelada de arandanos1, ou um pudim de sangre y dulce, acompanhados também de marmelada e batatas cozidas, ou o suspeito arenque do Norte, fermentado em água e levedura, embalado em boiões, acompanhado com cerveja, vodca ou licor de absinto, e comido no início da Prima-vera, sem a presença das crianças nos terraços ou jardins, porque cheira sempre a estrume?! Como não estranhar, nestas circunstâncias adversas – quase um atentado terrorista ao paladar –, os doces pêssegos amadurecidos pelo Sol e amontoados, todas as sextas-feiras pela manhã, no mercado de frutas e hortaliças do bairro popular de São Miguel?! Ou os tomates amadurecidos com a rama, com sabor a tomate, ou os figos a secarem numa grande cesta de vime à espera do Inverno?!

Recordo um sonho recorrente no meu exílio: regressava a casa, depois de muitos anos, os meus pais tinham envelhecido, atravessava o guarda-vento verde da porta principal da minha casa, caminhava pelo corredor estreito em direcção à cozinha onde havia sempre uma mesa grande e generosa, as cadeiras colocadas para cada irmão e parentela adjacente, como uma tia solteirona que nunca soube a diferença entre o orégão e o orgasmo, mas que sabia de cor os poemas do romântico Becker. Voltava a cruzar o largo corredor, as portas de dois batentes dos quartos principais, até ao fundo, onde estavam a sala de jantar, no pátio interior, e a cozinha, demasiado pequena para dar de comer a tão numerosa família. E, no meu sonho, via a mesa repleta de frutos de Verão: pêssegos amarelos e vermelhos, damascos, anonas, lúcumas2, nêsperas, papaias, uvas, melões, melancias. Ao despertar de cada um desses sonhos, levantava o meu corpo com esforço e dirigia-me à minha própria realidade, frente à janela, descascando a ácida laranja universal como o meu desencanto, enquanto caíam lentamente os flocos de neve, até formar uma camada de distância entre esse solo e o meu. Os sonhos são lampejos eléctricos, desejos incrustados da nossa realidade. Era a minha lista de perdas que gotejava como uma chuva fina e refrescante. Suponho que, nessas circunstâncias de afastamento, sobredimensionava os afectos e fazia uma selecção aleatória das memórias. Só deixava as passagens harmoniosas e benignas para me reconciliar com tanto sofrimento passado. A mesa repleta de frutos representava os meus pais, as suas ausências, o lamento que eu intuía desde a outra margem e o desejo de sobreviver à separação que me era imposta. Na longa costa do meu país, abundam peixes e mariscos, saborosos e apreciados por isso. A sul, existe um mexilhão chamado «choro zapato», apelidado assim pelo seu tamanho grande, como o de um sapato de um adulto. Em determinada época do ano, a sua carne é suave como manteiga e costuma-se comê-lo cru com umas gotinhas de limão. Foi assim que o


saboreei na meridiopanha as carnes e as Passaram muitos anos nal cidade de Concepminhas nostalgias. É um ción e numa das suas ingrediente imprescine, no meu afã praias, Dichato. dível em todas as coziMais a sul, na ilha nhas chilenas: com o de me adaptar de Chiloé, costuma-se «ají» moído e seco prepreparar o «curanto para-se o «pebre», num en olla»3 ou, na sua molho picante, com a cada lugar versão descomunal e alho, coentro e salsa, chilena, num buraco também para acompaonde me coube viver, cavado na praia. Prenhar as carnes, as baviamente, aquecem-se tatas, as beringelas e só levo comigo pedras numa fogueira a c re s c e n t a n d o - l h e gigante e, quando chetomates pelados e cortagam ao ponto de se dos aos bocados ou os sabores perdidos, partir, depositam-se no moídos, mais um fio de fundo do buraco e como o sabor e o aroma água da fonte, tem o sobre elas colocam-se nome de «chancho en as carnes vermelhas e piedra». De qualquer do cominho, o coentro modo, nós, os nostálgios cordeiros abertos, depois as carnes brancos, «desenrascamo-nos» cas, porcos e aves, chousempre, para obter os e o manjericão. riços, todos os marisnossos produtos da cos do frio Pacífico e, terra distante. por fim, tudo é coberPassaram muitos to com folhas de anos e, no meu afã de «nalca»4 e raízes de me adaptar a cada pasto. A cozedura de lugar onde me coube todos estes manjares viver, só levo comigo leva uma hora e seros sabores perdidos, vem-se, depois, acompanhados de um pão como o sabor e o aroma do cominho, do de farinha de trigo e batatas chamado coentro e do manjericão, três cheiros que «milcao» e de outro chamado «chapalele», inundavam a cozinha e as mãos da minha à base de batatas, e a saborosa alga «cochaavó, quando cozinhava almôndegas em yuyo». Serve-se com «chicha de manzacaldo de verduras frescas e pés de porco na nas», uma versão austral da cidra. panela, como encontrei também agradáveis Esta comida do Sul está ligada a um semelhanças na cozinha do Norte do esforço solidário de trabalho partilhado, mundo – almôndegas acompanhadas de costumam fazê-lo durante as colheitas ou a batatas e um molho à base de farinha de construção de uma casa. Esta reunião trigo, leite e nata («Köttbullar»). designa-se «la Minga»5 e nela participa Por amor à vida, juntei as duas extremuita gente durante todo o dia. midades da Terra para me sentar à mesa Costumo ter em algum canto da apátrida, resgatando com ternura rebelde minha cozinha um almofariz de mármore os ternos e rebeldes sabores perdidos. onde macero com paciência o «cacho de cabra», um «ají»6 vermelho-escuro e seco que um amigo e compatriota livreiro, que vive na Suíça, me envia sempre. Deixo por vários dias o «ají cacho de cabra» (chama-se assim pela sua forma comprida como um cone), com azeite puro, vinagre e alho. Este «ají», proveniente do Norte do Chile, acom-

1 Fruto da planta ericácea chamada erva-do-monte. (N. da T.) 2 Fruto do tamanho de uma maçã pequena, proveniente de uma árvore existente no Chile e no Peru, da família das sapotáceas. (N. da T.) 3 Prato que se serve na Argentina e no Chile, à base de legumes, marisco ou carne, cozido sobre pedras muito quentes, num buraco que se cobre com folhas. (N. da T.) 4 No Chile, designa o pecíolo do «pangue», planta medicinal usada também em curtumes. (N. da T.) 5 Termo utilizado na Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru para designar uma reunião de amigos e vizinhos com o propósito de realizar algum trabalho gratuito em comum. O mesmo termo também se utiliza em referência a um trabalho agrícola colectivo e gratuito com fins sociais. (N. da T.) 6 Pimento picante chileno. (N. da T.)


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Quando o futebol era magia Alberto Mosquera Moquillaza

Ao contrário do que possam pensar os adeptos de futebol de hoje, houve um tempo em que os magos deixavam o fraque e a cartola, se vestiam de calções e iam para o relvado, como qualquer mortal, tirar coelhos, pombas, panos multicolores, serpentinas, e vá-se lá saber que outras coisas mais, enquanto as multidões, de pé, se divertiam e a bola, como dizia o poeta, ria e cantava, bem aninhada nos pés desses malabaristas da bola. Barro de Zé Caboclo, de Pernambuco, Brasil


Hรก que acariciar a redondinha, dar-lhe ritmo de samba, candombe, milonga, ou marinera para que ela se ajuste ao que o ilusionista deseja.


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ESTÁDIO DE SÍTIO

«La pelota ríe y canta! ¡La pelota zumba y vuela!»

1

Juan Parra del Riego2

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Isabelino Gradín3, um negro de ascendência africana, possivelmente congolês, angolano ou, porventura, mandinga, foi um desses primeiros magos. Bastou que se aproximasse dos marinheiros ingleses que levaram o futebol a Montevideu para, com os seus feitiços, se apropriar do ir e vir da bola e, depois, ao ritmo dos endiabrados tambores do candombe, despedaçar as cinturas dos seus adversários brancos.

Ágil, sagaz, veloz, eléctrico, repentino, fulminante

Este é Gradín aos olhos do surpreendido Parra del Riego. Negro víbora que desaparece por momentos: esquiva-se, curva-se, flutua, para voltar a sair com a bola, e lá vai o fulgurante espadachim. E vai um, e vão dois, e vão três, quatro, cinco, sete jogadores estoqueados para, finalmente, chutar a bola com o pé, a alma, o peito, com a vida inteira, para que descanse no fundo da rede. Gradín!, Gradín!, Gradín!, gritava o soberano, enquanto o mago, sorridente e prazenteiro, se dispunha a mostrar novos sortilégios: deixou as cartas, agora tira os lenços… Senhores, é chegada a hora do hipnotismo. Ninguém melhor nesses momentos de transe que o peruano José María Lavalle. Nada por aqui, nada por lá. E ali está a bola: acaricia-a, beija-a, namora-a, uma finta, uma evasiva, sempre à margem direita, sempre à beira da linha de cal, lenço branco alçado e chuta! Ali vai o nené,

cantando e rindo, prazenteiro pelo trato, à procura de outros malabaristas que o continuem a mimar; ou, se o mago assim o dispôs, directo, a colocar-se no fundo das redes. Porque, isso sim, os magos nunca tratam a bola aos pontapés já que a diversão não passa pelo pontapé ardiloso. Há que acariciar a redondinha, dar-lhe ritmo de samba, candombe, milonga4, ou marinera5 para que ela se ajuste ao que o ilusionista deseja. Recordam-se de Didi e sua folha seca? A bola ia onde esse negro admirável queria que fosse. Se não acreditam em mim, perguntem a Dom Rafael Asca, o guarda-redes peruano que, em Abril de 1957, só conseguiu ver a trajectória de uma bola que foi colar-se exactamente no ângulo inalcançável da sua baliza, depois de um raro efeito em pleno voo. O Peru inteiro emudeceu. Morriam as ilusões do Mundial da Suécia, mas o próprio Maracanã também se calou de espanto. «É coisa de bruxas», disse um adepto, estupefacto. O próprio Waldir Pereira deu uma explicação para esse estranho idílio com a bola: «Se alguém não a trata com carinho, ela não obedece… Às vezes ela ia por aí e eu: “vem filhota”, e trazia-a. Dava-lhe de calcanhar, de joanete e ela estava ali, obediente.» No entanto, não se pense que os magos só marcavam golos, também os evitavam, plantados sob as traves da baliza, sempre prontos a voar mesmo não tendo asas, a transformar os seus corpos em muralhas ou a converter as suas mãos em pinças. Nem o ar conseguia penetrar nas suas barreiras. O húngaro Franz Platko6 foi um desses ilusionistas. Rafael Alberti, o saudoso poeta espanhol, fala dele:


Nadie se olvida, Platko, no, nadie, nadie, nadie oso rubio de Hungría Ni el mar, que frente a ti saltaba sin poder defenderte Ni la lluvia. Ni el viento, que era el que más regía

Alberti escreveu esta ode a Platko após uma memorável partida entre bascos e catalães. Nesse dia, o guarda-redes foi uma verdadeira muralha humana, um pára-raios, um polvo de mil tentáculos, um touro disposto a deixar-se matar, mas não disposto a ver vencida a sua cerca. Em cima, em baixo, à direita, à esquerda, em todos os sítios estava Platko. E, mesmo sem sentidos, com a cabeça exausta, simulou, para não deixar a bola na posse de ninguém, apertada como estava nos seus braços. A lista dos mágicos guarda-redes não é pequena. Ricardo Zamora, o «Divino», e Lev Yashin, a «aranha negra», são os primeiros da lista. E, no Peru, Juan Valdivieso, o inesquecível «Mago», integra a história como o «genial pára-penalties» que num instante, em segundos, com a bola dominada entre as suas mãos, convertia a tristeza em alegria transbor-

dante. Só com o olhar intimidava o atacante. Y a gozar se há dicho señores! Porque o futebol é antes de tudo festa e diversão. Assim o sentiam os prestidigitadores da bola, assim o celebravam freneticamente as bancadas. Uma, duas, três evasivas, e aí vai a velha, como no bilhar, de um lado ao outro. E chegam os toques de salão, o drible ziguezagueante pela direita, pela esquerda, o chapéu presunçoso, o túnel liquidador, o sonho do tacão, a majestosa chalaça. Um verdadeiro trabalho de joalharia. Aplausos, senhores, já aí vem o golo e, se não vem, que importa! A vista arregalou-se, a alegria transbordou e o estádio veio abaixo com a paixão descontrolada da torcida. Quem não se deleitou com o trio Sotil-Perico-Cubillas, no Mundial de 70, no encontro com os seus pares brasileiros? Quem não recorda esse negrito vaidoso, Victor «Pitín» Zegarra, que, perante 40 mil almas, fazia o que queria com a bola? Ou, só para citar mais um nome, não nos invade a nostalgia quando recordamos um Miguelito Loayza, borboleta de Surquillo, que com os seus truques e piruetas fez o que quis com os argentinos, brasileiros e uruguaios no Sul-Americano de 1959, para depois, já

em Lima, dar aos fleumáticos ingleses o baile das suas vidas?! Lamentavelmente, esse futebol praticamente já não existe. O «turbocapitalismo» dos nossos dias, que arrasa tudo, está a liquidá-lo. Os magos, com o seu fraque e cartola, foram esquecidos no banco. Aos negociantes da bola só interessam os resultados e não a magia, ou a diversão libertária. Agora procuram-se atletas, velocistas, sem imaginação nem verso, mas prontos a tatuarem o corpo e a encherem as orelhas de argolas. Metrossexuais são apelidados por uns, galácticos por outros. Quem sofre é a branca e negra que, de pontapé em pontapé, já não ri nem canta e, quiçá, agora chora à espera de melhores dias. Mas nem tudo está perdido. Já o disse Jorge Valdano: o futebol tem algo de erva daninha, porque sempre sobrevive a tudo. Amantes do futebol de todo o mundo, uni-vos! Para defender a arte e a paixão pelo futebol, a sua magia, a sua beleza, a sua alegria. Que não nos tirem as ruas, que não nos arrebatem os descampados, que nos deixem os terrenos baldios livres, porque aí, no meio das rosas e dos cravos, das hortênsias e das flores de açafrão, aí, meus senhores, florescerá o futebol dos bons.

1 Texto lido no encontro de narradores e poetas organizado

3 Isabelino Gradín nasceu em Montevideu a 8 de Julho

5 Dança popular do Chile, do Peru e do Equador. (N. da T.)

Punta Piedra, Agosto de 2005

pela revista Ciberayllu, 9 de Agosto de 2005,

de 1897 e faleceu a 21 de Dezembro de 1944. Foi um

6 Nasceu na Hungria em 1898 e morreu em Santiago do Chile

na Casa de Mariátegui, em Lima.

extraordinário jogador de futebol e o atleta mais rápido

em 1982. Após ser titular indiscutível no Barcelona, em

da América do Sul. Entre 1915 e 1921, jogou no Peñarol

Espanha, dirigiu a mesma equipa, para depois assumir as

e morreu em Montevideu, em 1925. Foi o criador do

e, durante a primeira edição da Copa América,

funções de treinador nos clubes sul-americanos de Colo Colo,

poli-ritmo, um canto dinâmico à vida. A epígrafe

em 1916, na Argentina, foi um dos artífices das vitórias

River Plate, Wanderers e Boca Juniors. O jogo que comoveu

corresponde à sua «Loa al fútbol», inicialmente publicada

uruguaias que permitiriam a este país conquistar o título.

Rafael Alberti ocorreu a 20 de Maio de 1928, onde o Barcelona

como «Elogio lírico del football», enquanto o seu canto a

Retirado do futebol, chegou a ser campeão

enfrentou a Real Sociedad para a Taça de Espanha.

Gradín tem o título de «Polirritmo dinâmico a Gradín,

da América do Sul dos 200 e 400 metros planos.

2 Poeta peruano que nasceu em Huancayo, em 1984,

jugador de fútbol». Ambos os trabalhos foram publicados

4 Composição musical argentina de ritmo vivo e marcado

na Antologia General de la Poesia Peruana, de

em compasso de dois por quatro, que se parece

Alejandro Romualdo e Sebastián Salazar Bondy (1957).

com o tango. (N. da T.)


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

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Portugueses nos Andes peruanos ou o mistério da Boca Mina de Pilipinto Osvaldo Henrique Urbano

A uns 30 quilómetros a oeste da cidade de Cuzco, antiga capital do império incaico, está Pillpinto, junto às margens do rio Apurimác. É uma povoação com umas mil e tal almas, sem muito espaço para alargar as suas estreitas fronteiras, definidas por altas montanhas e majestosos cumes de rocha viva. As águas do rio abriram aí uma profunda garganta para deslizarem alegremente em direcção à Amazónia, entre três mil e dois mil e quinhentos metros de altura. O sol é ardente, e da vegetação abundante das margens do rio saem milhares de borboletas de todas as cores e feitios. Pillpinto é uma palavra quechúa que significa «borboleta». Andes peruanos. Fotografia de João Ventura


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

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Aí cheguei eu um dia qualquer de 1972. Ia por incas. Fui guiado por um boato. Dizia-se em Cuzco que os pillpis eram portugueses. E a estranha notícia estava documentada, não com papéis mas com abundantes palavras. Por esses anos, a viagem de Cuzco a Pillpinto demorava oito horas. O autocarro era pequeno e saía da Praça Limacpampa Grande, às sete da manhã. Já por alturas da ponte de Quiquijana, subia para as lagoas de Pomacanchi para descer até às paragens de Acomayo, as dos moinhos de Escalante. Um salto mais e estávamos em Acos e imediatamente descia a estrada em ziguezague até às margens do Apurimác. Lá bem em baixo estavam as águas que se fingiam paradas e a ponte e as areias finas das margens e a roupa lavada e a gente.

E a notícia correu em quechúa: «Chegou o nosso primo de Lisboa.»

Apresentei-me ao presidente da junta de freguesia. «Português?» , «Pois sim...» « Nasceu aqui?» «Não, em Portugal»... E a notícia correu em quechúa: «Chegou o nosso primo de Lisboa.» O mistério que rodeava a origem da população não tinha, à primeira vista, uma solução fácil.A traça era a mais comum e corrente. A fala era quechúa. E o trato era afável. Desconfiado mas afável. Do português, nem sombras. E quanto mais eu cavilava sobre o assunto, em noite de altura de frio e geada, com um fundo musical que vinha das gargantas profundas do Apurimác – «O senhor falador» –, mais me convencia que havia aí uma misteriosa coincidência de «ditos e feitos».Vamos aos primeiros. Se a memória não me atraiçoa, foi no mercado de São Pedro, em Cuzco, que ouvi falar de Pillpinto. Mas já nessa altura me tinham dito que por aí havia

«malta lusa». Depois soube porquê. Era uma velha tradição ir ao mercado de São Pedro comprar folha de coca quando uma arroba não valia grande coisa – os colombianos ainda não tinham descoberto o negócio... – e eram precisamente os pillpis que a comercializavam, ou por dinheiro ou por «troco», isto é, por outro produto. E, como era coisa nova para mim ver comprar e mastigar essa «divina folha» – a Virgem Maria descansava de suas mágoas trincando a folha de coca, diz a lenda –, averiguei quem a vendia e, como toda a gente faz, comprei meio quilo para aquecer as frias noites cusquenhas. Remédio santo! Feitas as primeiras averiguações, contaram-me os próprios fregueses que era uma antiga tradição dos pillpis negociar produtos na região, cobrindo longas rotas altiplânicas e descendo até às terras quentes de Urubamba e Quilhabamba, onde se abasteciam de folha de coca e a transportavam para os mercados de Cuzco e arredores.Tudo isso se fazia com mulas, com numerosas récuas e dilatados dias de trabalho. Para os vales cálidos levavam carne seca – o famoso charqui – e aí trocavam a carne por coca. Eram meses de caminhar sem descanso, até que os trabalhos agrícolas e a festa patronal exigiam a presença dos caminhantes na aldeia. Julho e Agosto eram obrigatórios. 15 de Agosto era a festa da Nossa Senhora da Assunção. Procissões, missas, baptizados, matrimónios e muita cerveja e abundante chicha, a bebida de milho fermentado. Com tudo isso não avançava muito na pesquisa dos rasgos lusos de Pillpinto. A paisagem humana da povoação mudou com os festejos. Mas o mistério da sua origem continuava imutável. O assunto moía-me a cabeça. E decidi entrar em zonas de alfarrábios para desvendar o que a palavra popular escondia. O Arquivo Departamental de Cuzco guardava papéis sobre Pillpinto: transacções comerciais, propriedades e umas quantas rixas legais. Também descobri que a povoação tinha participado activamente nas revoltas de Túpac Amaru, apoiando os rebeldes contra o regime espanhol. Vencidos os indígenas, executado o chefe, as autoridades espanholas enviaram a Pillpinto um braço do infeliz caudilho para que todos soubessem como se castigam as massas revoltosas. Não foi por serem portugueses. Os motivos eram outros, e as raízes deles vinham talvez da vizinhança de Acos onde pontificava a cacique Micaela Bastidas, companheira de infortúnio de Túpac Amaru.


Sem saber onde encontrar a chave do mistério das origens de Pillpinto, a paciência e a vida bucólica iriam, pouco a pouco, dar conta dos «ditos» e passar aos «feitos». E, como acontece em muitos casos, o azar acabou por desempenhar um papel importante. Passava eu as horas a recolher notas sobre usos e costumes de Pillpinto, indagando sobre os lugares e nomes que os designavam, com a ideia de que as pedras e caminhos escondiam feitos que os olhos esqueceram. E nessas tardes perdidas de Primavera mediterrânica, em direcção do caminho que ia para o santuário do Senhor de Pampacucho, na antiga estrada ou carreiro de pedras que ligava Pillpinto a Rondocan e Paruro, detectei uma caverna cuja abertura tinha jeitos de ter funcionado como boca mina. A palavra popular confirmou-me essa hipótese. Umas historiazinhas relacionadas com esse lugar contavam que a mina escondia lobisomens e outras nefastas espécies de personagens nocturnos.Tomei-as a sério. Os argumentos podem resumir-se em umas quantas frases. Primo: os fantasmas que povoavam as mentes dos pillpis – lobisomens ou duendes – pertencem a uma raça imaginária que atormenta os povos obcecados com a chegada de pestes, fomes e desgraças. E, claro, alguém tem de pagar por isso. Ora, precisamente houve certos grupos de excluídos pela sociedade cristã que serviram de bode expiatório, entre eles os judeus. Secundo: nos Andes e em zonas afastadas dos centros urbanos, houve uma grande febre mineira que teve como protagonistas algumas figuras portuguesas que assinalaram com notável ousadia a busca da prata e o tratamento dela com mercúrio. E os judeus portugueses estavam bem metidos nesse negócio peruano e andino. Tertio: e, vai daí, as povoações que num dado momento intentaram a sorte escavando as entranhas da serrania assumiam a crença popular que as identificavam como portuguesas. «Mina», «mineiro», «prata», «banqueiro» eram palavras que os séculos XVI e XVII associavam no Peru a «português». E os judeus ou judaizantes pagaram caro por isso. Muitos foram parar aos calabouços da Inquisição e depois à fogueira ritual. E de tudo isso dá ainda conta a palavra popular em forma de mistério.

«Mina», «mineiro», «prata», «banqueiro» eram palavras que os séculos XVI e XVII associavam no Peru a «português».

Quechúas. Fotografia de João Ventura.

Dizia-se em Cuzco que os pillpis eram portugueses.


O QUE FAÇO EU AQUI

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Magical Realism – 101 Onésimo Teotónio de Almeida


Em português eu deveria escrever «Introdução ao Realismo Mágico», ou «Realismo Mágico – I», mais ajustado aos hábitos universitários lusitanos, mas a verdade é que todos estes anos de América acabam por cobrar o seu imposto no meu linguajar. E de facto é por estas terras de Colombo que amiúde de mais tenho encontrado descrições de cursos sobre a tal indústria cunhada no título desta narrativa, anunciando análises em ladainha laudatória dos seus pergaminhos inovadores na literatura com imaginative flights of fancy, o conceito mítico de tempo, a visão animista e vitalista, a simbiose natural-sobrenatural imano-transcendente, a osmose humano-telúrica, o hiperbólico e o monumental. Como se isso não bastasse, ainda há a fluidez ontológica, o méta-récit, a técnica de evasão semântica e a reticência autoral, a convenção transculturada, noções místicas de causalidade e essa lengalenga toda a evocar em mim um poeta guatemalteco hoje de nome morto na minha memória mas que nos meus anos juvenis, via Livraria Morais, no Largo do Picadeiro, 11, em Lisboa, atravessou o mar e me foi ter às ilhas, um engagé que bordoava nos intelectuais alienados, a alturas tantas desancando em verso nos filósofos con su ontológica manera de llegar a las monedas. Estou a ser cruel, pedestre mesmo, como se a desdenhar o real maravilhoso de Carpentier, a esquizofrenia cultural em Miguel Ángel Asturias, o jogo mágico com o impossível de tantos outros autores, para não falar da etnografia imaginária do omnipresente García Márquez, endeusado esse em coro universal por o elemento fantástico na sua obra não ser nem obtrusive nem gratuitous, mas enriching, supporting and enhancing da narrativa. Em Macondo, um cadáver incorrupto, o padre que levita, a jovem que sobe ao céu, o bebé que nasce com cola de cerdo, que a gente diria rabo de porco, alfombras que voam, mortos que ressuscitam, e até chuvas de flores, mexeram com o mundo inteiro nos meus vinte e tantos anos, mas buliram pouco com a minha obtusa cabeça de basalto. A verdade é que nasci empírico e gostei cedo da repetida frase de um professor de música (sim, por incrível que pareça aprendi, ou melhor, tentaram ensinar-me): As couves nascem do chão! Nunca fui dado a arroubos teóricos e interesso-me sobretudo por coisas visíveis e palpáveis, como o aluno de medicina que só gostava de estudar anatomia pelo método de Braille. Quando viajei por Hegel, num curso por acaso optativo, deliciei-me interiormente no instante em que o Andy, conhecedor do desdém que o filó-

sofo nutria pelos factos (a ponto de um dia, confrontado com um naco deles, ter dito arrogantemente Não me importam os factos!), não se conteve a meio de uma prelecção do professor lançado estratosfera fora em devaneio delirante e, depois de ter esperado ansiosamente por um parágrafo, pois nas aulas nos States fica muito mal interromper-se alguém, professor ou aluno, tanto faz, desferiu: Faça, por favor, um intervalinho para eu estragar essas teorias com um simples punhado de factos. Quando a gente é como a terra deu, nada a fazer. Por isso me desculpe o leitor este arrazoado rasteiro que em nada belisca a honra, fama e glória de escritores que, felizmente para a humanidade, nasceram de outra estirpe e são por isso capazes de rasgos que transportam os seus leitores para fora deste mundo mesquinho, chato e patusco onde só acontecem coisas previsíveis como a morte, as doenças, o casamento, a febre e a necessidade de limpar o quarto. Ah! E os impostos, como nos lembraria Woody Allen. Se estava o amável leitor indignado comigo, fique sabendo que não procuro impor o meu gosto, naturalmente ou pela natura carimbado, largando-me por aí fora a aferir tudo o mais por ele. O acima dito teve apenas a intenção não consciente, e por sinal oriunda mesmo do quase-acaso, de lhe expressar sentimentos antigos como quem se confessa a um amigo que espero o leitor seja. A que vem então este maçudo e inoportuno prefácio?

Estou a ser cruel, pedestre mesmo, como se a desdenhar o real maravilhoso de Carpentier, a esquizofrenia cultural em Miguel Ángel Asturias, o jogo mágico com o impossível de tantos outros autores, para não falar da etnografia imaginária do omnipresente García Márquez.


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Foi com efeito um quase-acaso a levar-me à Colômbia, mais precisamente a uma cidadezinha dona do mais bonito nome de lugar – Cartagena de Indias – se for pronunciado devidamente na língua e sotaque das nativas. Já lá vou, sim, que é tempo. Falei em «quaseacaso» e foi com efeito um quase-acaso a levar-me à Colômbia, mais precisamente a uma cidadezinha dona do mais bonito nome de lugar – Cartagena de Indias –, se for pronunciado devidamente na língua e sotaque das nativas (bom, Madalena do Mar não lhe fica atrás, mas aqui para a estória deixemos que fique). Estava decrépita a cidade naqueles anos, como uma mulher que após a sua idade de ouro desoladamente passou a descuidar a apresentação e se habituou mesmo a nem sequer se pentear. Um banhinho pela Páscoa da Ressurreição era tudo. As fachadas da arquitectura davam testemunho de anos áureos mas longínquos. Todavia, mesmo naquele abandono ainda se podia imaginar assomando às varandas súbditos de sua majestade imperial D. Filipe, o Grande, que ali mandou construir um castelo bem mais imponente do que o também por sua ordem erguido em Angra, esse palmilhado por mim em antigos anos. Igualmente por quase acaso, soube ficar Aracataca, terra natal de García Márquez, para lá de Barranquilla, esta por sua vez a não exagerados quilómetros de Cartagena. E isso ajudava, aliás, a cimentar as minhas convicções sobre o irrealismo do realismo mágico porque, se Macondo não existe mais, como nos informa o final de Cien Años de Soledad, e a sua gente não teve outra oportunidade sobre a terra, Cartagena de Indias, por sua vez, exibia uma sólida realidade que tinha mais a ver com Lisboa e o Rio de Janeiro de antanho do que com as invenções da tremenda broma literaria de García Már-

quez. O terceiro e último quase-acaso aconteceu dias antes de viajar para Cartagena com a chegada do então mais recente livro do grande Gabi, Crónica de una Muerte Anunciada, remetida por um livreiro amigo em viagem pela América Latina, entusiasmado com a edição de 800 000 exemplares largamente publicitada no seu lançamento. Decidi por isso levá-lo comigo para companheiro de praia e estendi-me, à letra, a lê-lo na areia por trás do Hotel Las Velas. A verdade é que a leitura foi um acto mecânico quase, porque anunciada estava na minha mente a ausência de entusiasmo por ela. Se calhar um círculo vicioso, mas dos meus preconceitos e defeitos pré-avisei o leitor. Três quase-acasos, portanto, trindade nada despicienda mesmo para quem como eu não é supersticioso. A Joanne aceitou de bom grado a sugestão de irmos a Barranquilla e, de lá, a Aracataca. O problema era o transporte. Comigo ficava a incumbência de discernir uma solução através de contactos com os locais. Veio auspiciosa: um taxista levar-nos-ia à cidade por um preço bem módico e trar-nos-ia de volta pelo anoitecer. Foi portanto assim, segundo o plano anunciado de véspera, que começou no dia seguinte o que venho contar neste relato. Não caí na patetice de falar ao taxista em realismo mágico. Que mais não fosse, por uma razão vital: ele entendia com lapsos graves o meu portunhol silabado e eu quase apenas lhe lia os gestos das mãos. Com o rodar do carro e dos minutos, foi aumentando o número de sons e palavras decifráveis, mas nunca cheguei muito longe nesse trabalho insano. De qualquer modo, a meia hora de viagem ele conseguiu transmitir-nos um plano muito superior ao de Barranquilla onde, segundo ele (e os taxistas sabem sempre tudo), não havia nada melhor do que Cartagena – esa sí, una bella ciudad! – e onde nem sequer se desvendam quaisquer rastos de García Márquez. Prometia levar-nos ao início de uma floresta tão fascinante como a Amazónia – no mínimo!, garantia-nos – mas se calhar mesmo melhor. Desviou o curso, meteu-se por estradas ainda mais esburacadas e, a dada altura, parou o carro, inspeccionou as redondezas e, ao regressar, enrolou um amontoado de frases aparentemente explicando que a estrada se lhe deparara inesperadamente intransitável, mas não valia a pena desistir do projecto se não nos importássemos de ir pela praia. Eu ainda barafustei que o Amazonas em nada se parecia com o mar Caribe e que o seu prometido sósia não poderia ficar naquela direcção. A verdade é que, sem mapa, não tinha argumentos,


tanto mais que não sabia onde estava, condição sine qua non para, se tivesse mapa, discernir para que banda virá-lo. Assim, fiquei ali mais a Joanne totalmente à mercê do nosso taxista. Que não mentiu, pois dentro de algum tempo desaguava no areal imenso de uma praia a perder de vista. ¡Mira, señor, mucho mejor, mucho mejor! Sim, o piso não tinha buracos e nem sequer havia tráfego. Tínhamos aquela pista enorme toda por nossa conta, o que, retrospectivamente falando, dá para pensar em coisas ruins que na altura não nos ocorreram. De Amazónia ou algo semelhante, todavia, nicles. O homem não parava de elogiar o piso do areal duro e liso a ponto de lhe permitir acelerar. Depois de uns avantajados quilómetros virou para a esquerda e meteu de novo terra dentro por mais atalhos e curvas, canadas a adensarem-se e a desembocarem em espesso mato verde. A Joanne e eu entreolhámo-nos. O taxista era franzino e exalava uma bonomia inassociável à personalidade de cultivador de artes marciais. Fisicamente não constituía ameaça. Além disso, ele sabia que o dinheiro que levávamos era quase só o estritamente necessário para lhe pagarmos a viagem. Um assalto não lhe obteria qualquer mais-valia de considerar. Um solavanco e o carro estancou. Bonito serviço! – pensei. Mas nem tive tempo de dizer nada porque o condutor exibia-nos um sorriso eufórico: ¡Llegamos! E eu de novo a pensar: Aonde? Um moço negro, estátua grega em versão africana, veio abrir-nos a porta. Alto, proporcionado, musculoso, não sorria. Conversou com o taxista e deu para decifrar que combinavam uma hora para este último nos vir buscar. Agora tínhamos de seguir a pé o nosso guia umas centenas de metros, por supostamente ser impossível o carro continuar. Lá fomos então os dois, sem comunicar um ao outro a apreensão que começava a assaltar-nos. Estupidez ingénua de turistas parvinhos, ou receios irrealistas de americanizados medrosos das culturas estranhas? O melhor era silenciar as dúvidas e abafar os medos. A verdade é que, não galgado ainda um quilómetro de atalho mal calcorreado entre intenso arvoredo com abertas ao alto aqui e ali, arribámos a uma corrente de água, meio estagnada e salpicada de folhas e raízes, diga-se porém que de um verde límpido. Uma aberta de céu soalheiro mas filtrado pela grelha de neblina cinzenta. O rapaz mandou-nos saltar. Para onde? Estava ali um barco e eu não via. Eu disse um barco? Nada! Uma canoa. Cavada num tronco negro com espaço para o guia,

em pé, a Joanne sentada no meio a fazer lastro e eu atrás, de plantão também, num tem-te-não-caias. Iniciámos uma viagem entra canal sai canal, penetrando mais e mais a floresta, por vezes a ter mesmo de me baixar para não bater com a cabeça ou até o peito contra grossos ramos atravessados que o nosso condutor evitava com naturalidade congénita e a mim quase me colhiam de surpresa, em risco sério de me fazerem cair e – quem sabe? – servir de almoço a algum crocodilo. A serenidade da água e do ar era apenas perturbada pelo ritmo da vara à procura do fundo do canal para impulsionar o avanço da embarcação que aquele gondoleiro trasladado fazia deslizar. Tudo o mais era ruído suave de folhagem, gorjeios de aves sem nome, saltos inesperados de sapos ou familiares seus, patos bravos de repente em debandada, bandos de pássaros esvoaçando em espessas nuvens, aves, peixes, árvores, fauna e flora anónimos para mim, irreconhecíveis no meu catálogo ilhéu feito vulgar de Lineu onde nada existia de tropical figura. Tudo uma sucessão de telas, cores, arvoredo sem etiqueta numa espécie de documentário da National Geographic em versão muda. O guia não explicava nicles, nem falava sequer. Nada tinha ali nome, apenas imagem. Eram aves e peixes, árvores como na narrativa do Génesis nos dias da criação. Ele ia concentrado lá na proa e nem sei se se preocupava se ainda estávamos a bordo ou se caíramos à água. Talvez a sua atenção se concentrasse a vigiar jacarés ou, sei lá, parentes

Igualmente por quase acaso soube ficar Aracataca, terra natal de García Márquez, para lá de Barranquilla, esta por sua vez a não exagerados quilómetros de Cartagena.


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Prometia levar-nos ao início de uma floresta tão fascinante como a Amazónia – no mínimo!, garantia-nos – mas se calhar mesmo melhor.

de hipopótamos para se precaver a si e aos anónimos passageiros à sua responsabilidade. Múmia egípcia, espécie de um livremente-condenado-à-canoa a fazê-la vogar, em ritmo compassado, num intrigante e misterioso silêncio. Juro que cheguei a avistar ao longe cabeças bem definidas de bichos semelhantes a hipopótamos, que depois, numa espécie da síndroma de Sancho Panza, sempre se transmutavam, como se fossem desenhos de Escher, em troncos de árvore ou pedregulhos que o timoneiro contornava com perícia. O matagal verde adensava-se, um túnel por vezes escuro avivava os ruídos de viventes nas águas mais e mais impenetráveis à luz, e eu suspeitava de espíritos do outro mundo a esconderem-se naqueles entrelaçados ramos e raízes, troncos e folhedo, e passeando-se certamente durante as noites. O certo é que abundavam por ali borboletas semelhantes às feiticeiras dos meus Açores, esvoaçando sobre nós e salpicando de furtivas cores as margens dos canais. De súbito, o guia volta-se e diz que temos de saltar. Pensei, mas não me autorizei o pensamento e por isso não o revelo. Apenas obedeci, mais a Joanne, enquanto ele agarrava da canoa para a pôr às costas e depois, à Hércules, com os dois braços soerguê-la à altura da cabeça. Subiu um penedo e desceu de novo para o canal que, ao final de contas, continuava mais adiante, chamando-nos para embarcar de novo e prosseguir viagem. O guia quase-mudo falou então: No tienen hambre? Pensei nos milagres que iria ele fazer. Agarrar

de um peixe e oferecê-lo cru, cortar raízes e, de mistura com folhas, presentear-nos com uma salada? Mas o seu plano era outro.A mãe tinha um restaurante e poderíamos lá ir comer por uma magra quantia. Novo assentimento da parte dos seus pouco exigentes passageiros. Dali a um naco de tempo desaguávamos num areal imenso, com o mar longe, como longe estava eu de saber se aquela tinha sido a nossa auto-estrada de horas antes. O cenário acinzentara-se. Não chovia, mas abundavam sinais de ter desabado muita água dos céus. Não diria que chovera durante quatro anos e seis meses, como em Macondo, mas o céu era na verdade una substancia gelatinosa y gris e no ar pairava una humedad caliente y pastosa. Na distância da orla havia sinais de barcos e, nas bandas para onde nos encaminhava o moço, leves sinais de habitações que, à medida que nos aproximávamos, se revelavam simples caramanchões urdidos de troncos e ramos. De dentro de um desses emergiu uma negra corpulenta, fresca e saudável com quem o guia trocou conversa – deduzimos que seria a mãe – antes de se encaminhar na direcção de um dos barcos. A mulher sem nome (Úrsula? Não sei; tudo prossegue, aliás, sem nome nesta estória, nesse mundo onde havíamos aos poucos entrado muchas cosas carecían de nombre y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo) chamou precisamente com o dedo um garotito, negro também, que num ápice produziu dois caixotes usados, em obediência ao sinal de Úrsula, para nos sentarmos junto a tosca mesa de canas amarradas sobre um grosso tronco, enquanto ela ia dentro e regressava com um facalhão luzidio e um molho de tubérculos e outros vegetais que mergulhou e retirou no mesmo instante num tanque de onde saíram a pingar. Ficámos ali a observar a laboriosidade daquela mulher activa, a menudo severa naquele paraíso de humedad y silencio anterior al pecado original, espacio de soledad y de olvido. Ela descascou, decepou, truncou com energia e foi enchendo dois pratos, mas logo desapareceu e de novo voltou com uma vassoura e começou barriendo la casa, voltou a sumir-se y volvió a hundirse en el trabajo, desculpe, leitor, lá me distraía de novo pois não sei quem me traz este castelhanar ao ecrã. Interroguei-me, sempre sem dizer nada à Joanne, que me censurava qualquer reparo etnocêntrico, europeu ou americano, será que este é el único rincón de seguridad establecido por los pacíficos negros antillanos que construyeron una calle marginal (sim, calle era mesmo aquela praia, se eu até viajara nela de táxi) e que falavam un farrogoso papiamento? Em papiamento parecia


comunicar o filho, nosso guia (José Arcadio?), que voltava com um garoto, carregando dois enormes peixes que entregou à mãe, logo por sua vez lançada na azáfama de os governar e trucidar, acender uma fogueira num canto e colocá-los numa grelha. Eis senão quando o grunhir de porcos nos fez voltar as cabeças e vimos entrarem no nosso espaço (recinto não era, dada a ausência de divisões), cauda a abanar, encaminhando-se direitinhos para os restos de tubérculos que Úrsula-talvez cortara. José Arcadio (ou seria José Gabriel, o único que ficou em Macondo?) deu ordens a uma jovem que passara ao lado, e daba instrucciones para la siembra y consejos para la crianza de niños y animales – desculpe mais uma vez, benévolo leitor, estes descontrolados tropeços nas páginas de Cien Años de Soledad, queria eu dizer, importunos para a boa marcha da narrativa desse almoço frugal e bucólico. Mãe Úrsula produziu diante de nós dois colossais pratos de vegetais, sobretudo tubérculos, de que consegui distinguir uma espécie de pepino, coco com arroz e frijoles. No centro de cada, um garboso peixe (mojarra? sábalo?) barrado de apetite. O meu, de olhos fixos em mim e a querer falar papiamento também, os porcos já ao nosso lado rondando a mesa à espera das espinhas e eu a servir-lhes de bom grado a cabeça e o rabo, e o porco maior a dar à cauda feliz, bem educado, quase a pedir licença ou a desculpar-se de qualquer gesto mais desatinado, a salivar os beiços como se a limpá-los antes da refeição, e a Úrsula-talvez com uma enorme familiaridade abrindo caminho entre aquela vara para nos vir perguntar se desejávamos mais alguma coisa; ¡No, muchas gracias! e ela de volta a fazer carícias ao porco maior e eu, sem querer, juro que sem querer, olhei para o garoto a ver se tinha cola de cerdo, mas também confesso que nada vislumbrei. Mãe Úrsula sempre num vaivém azafamado e eu a querer meter conversa, que Macondo parecia un pueblo feliz e ela que en Macondo no ha pasado nada, ni está pasando nada ni pasará nunca e lengalengou coisas que não entendi bem mas que traduzi mais ou menos por hay mucho que cocinar, mucho que barrer, mucho que sufrir por pequeñeces. Lá me distraí de novo, meu querido leitor, e compreenderei se de fúria não mais me perdoar ainda esta falha, mas juro que não voltará a acontecer nova mezcla de castelhano na nossa puríssima língua que comungamos. O resto foi assim, tudo naquele mistério de lugar, de gente, sem nome e sem nada, apenas com uma grande paz para os olhos e para as almas dos viajantes que nós éramos naquele outro mundo.

Só depois, já em casa, a minha curiosidade botânica foi suspeitar nomes colados a figuras e palpitou termos provavelmente comido patacones,yuca,berenjena e talvez rábano, mas não juro nem por nada deste mundo ter acertado num sequer desses vegetais tornados iguarias. Chegou o momento da torna (não houve pagamento, eram contas com o filho), a entrega certinha deste vosso criado e narrador mais a Joanne no final da tarde ao taxista, que nos esperava de regresso daquele além ignoto, tendo agora com uma preocupação no rosto explicado assim: a maré estava cheia e ia ser complicado regressar pela praia, no entanto tinha de ser por não existir melhor alternativa. Lá entrámos no carro-anfíbio para seguirmos em avanços e recuos, esperando o retrocesso das ondas para de novo avançar uns metros mais, e sempre nesse pára-avança-pára-avança a fazer-me duvidar se os buracos da estrada estariam assim tão medonhos a ponto de tornarem mais seguro viajar num quase submarino. Uma onda maior deu um safanão no carro e sentimos o fresco da água nas pernas e o sorver da onda sugadora a querer arrastar-nos consigo. Era noite quando chegámos a Cartagena e, à entrada do hotel, enquanto pagávamos ao nosso taxista arquitecto desse desvio não anunciado de Barranquila para Macondo, eu ia já contando tudo a um casal americano que conhecêramos dias antes mas não se atrevera a juntar-se-nos naquela

Eram aves e peixes, árvores como na narrativa do Génesis nos dias da criação.


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En Macondo no ha pasado nada, ni está pasando nada ni pasará nunca.

aventura pelo incógnito. Suspeitei então logo ali que estariam a descrer do que nos acontecera porque vi, sobretudo nele, o Jack, sinais de cepticismo. Mas aceitou escutar o relato narrado com minúcia, embevecimento e élan. Foi a Joanne quem lhe ouviu em aparte comentar cepticamente para a companheira nunca ter ido nisso de literatura fantasiosa, nem mágica, nem fantástica, recusando-se mesmo a ler um badaladíssimo best-seller em tradução inglesa de latino-americano García-Qualquer-Coisa que uma literatonta ex-namorada lhe tentara impingir. Hoje reconheço bem a dificuldade de García Márquez em se fazer acreditar. De Macondo, disse ele, não restou ninguém, talvez só o Gabriel, que eu suspeito fosse o moço da canoa. O namoro com a Joanne acabou e ela acusa-me agora de delírios ficcionais, e ficou-me com tanta raiva por ninharias que se entrepõem nas vidas de um par de amantes (ninharias que estragam tudo, sobretudo a alegria das esperadas noites) que, se o leitor porventura a encontrasse e tentasse indagar da veracidade da minha estória, ela teria estômago para lhe mentir com uma cara tão serena e séria que nem daria para levantar ponta de dúvida sobre a sua palavra. Poderia sugerir-lhe, mui estimado leitor, que contactasse o Jack e a Ann – era assim que se chamava a namorada dele, se ainda não lho revelei – que ao menos ouviram o meu relato no fresquinho do acontecer. A verdade é que – e aposto que vai com esta convencer-se mesmo de que estou a lançar-lhe patranhas – perdi o contacto com eles e não lhes descortino o paradeiro.

A história com o Jack é simples e conta-se em poucos minutos, se o leitor os tem ainda antes de fechar o livro e atirá-lo para um canto com o seu desencanto. O Jack e a Ann nunca tinham saído dos States. Calhara por sorte agarrarem como nós de uma pechincha em forma de pacote de férias. Até ficaram toda a semana no hotel porque não falavam espanhol, e havia piscina e praia com tudo servido nas travessas em inglês. O Jack revelou-me uma manhã ao pequeno-almoço estar fascinado com a nunca vista generosidade do hotel que lhe enchia todos os dias o bar no frigorífico do quarto. Dezenas de pequenas garrafas das mais variadas bebidas que ele não conseguia consumir completamente e por isso ia empacotando para levar de regresso. Expliquei-lhe que receberia a conta por tudo, mas ele recusou acreditar-me porque não tinha pedido nada e nada estava no contrato. Que não pagaria pelo que não solicitara. Eu ainda tentei insistir mas só quando à saída o presentearam com uma brutal demanda de 550 dólares de bar, do que fui testemunha porque estava na fila à espera de vez para o check out, é que ele me deu furiosamente razão. Barafustou sem qualquer efeito e, desesperado, esvaziou sobre o balcão a lancheira das garrafas que não tinha conseguido consumir ainda. Naquele mesmíssimo momento eu tive uma ideia perversa. Fui lesto ao quarto (o leitor aguente um pouquinho mais que verá aonde tudo isto vai dar e, sobretudo, entenderá as razões da minha perda de contacto com o Jack) e agarrei de uma folha de papel timbrado do hotel que arrumei na mala. Já de casa, umas semanas depois, escrevi ao Jack (tínhamos os quatro trocado endereços) dando os parabéns ao casal por ter ganho o prémio de O Melhor Cliente do Hotel Las Velas, graças ao seu consumo de verdadeiros campeões do bar. O prémio seria uma semana de hospedagem grátis quando voltassem a Cartagena.Terminava com mil agradecimentos, mais parabéns, e a assinatura de El Gerente, para servirlo,Andrés Nacimiento Martínez. Carta direitinha para o correio, rumo a algures nas montanhas da Pennsylvania e, em poucos dias, eis o Jack a telefonar-me eufórico com a notícia da reviravolta naquela estória de provinciano papalvo que terminara afinal em azul e ouro. Era tão generosa a oferta do hotel que a Ann e ele queriam absolutamente aproveitá-la muito em breve, até porque tinham adorado a Colômbia, quer dizer, o circuito fechado do Las Velas. Acossou-me o receio de eles irem mesmo.Vai eu enchi-me de coragem, respirei fundo e confessei-lhe a brincadeira.


Suicídio imediato. Tudo terminou ali com o Jack a desligar ríspido e eu a ouvir apenas o retinir da fúria, o embate do telefone no seu poiso. Eis aí, meu caro leitor, a razão da não existência de testemunhas da minha viagem real e autên-

Vila à margem do rio. Roberto Burle-Marx, 1932

tica àquele mágico sítio onde todo lo escrito era irrepetible para siempre e onde me parece que também eu não terei una segunda oportunidad sobre la tierra.


A MARESIA DO MUNDO

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Perto da ria Gastão Cruz

O Pescador, Ria de Alvor. Escultura de João Cutileiro. Foto de Paulo Arez


O sol dilata as praรงas onde outrora chegava รกgua, ainda designadas por palavras na รกgua comeรงadas chรฃo empedrado agora onde antes fora o que dizem os nomes, desmentidos pelo movimento da realidade


FICÇÕES

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A mosca e o ladrão Ondjaki

Ilustração de Maria de Lourdes Carrasquinho Gomes


Uma mosca lânguida dançava. O som chegava libertino do mar – como um vento adocicado. A mosca exercitava movimentos concisos, rápidos, frenéticos. Transe ou passe desajeitado. O seu corpo obedecia a uma melodia ou a uma interferência magnética não perceptível. Mas que dançava a mosca, dançava. As nuvens embalavam a madrugada. A brisa fraca trazia em si restos de sal, e memórias, e sorrisos de vidro que a todo momento se podiam quebrar. Talvez o amor seja isso: restos de vidro e belas cicatrizes. Ele dormia no quarto. O aquário dormia na sala. Os peixes não. Uma destas noites…, dizia-lhe eu às vezes. Ele dormia, sob o mosquiteiro encarnado. Quero que me ofereças um mosquiteiro, mas que seja encarnado. Distingui com nitidez os passos do ladrão na cozinha. Calculei até o seu peso. Afligia-me não detectar nenhum odor. Pousou o que fosse um saco ou uma mochila pequena. Foi acumulando objectos. Talvez a minha colher preferida. O meu prato fundo trazido da Argélia com os seus desenhos finos, feitos à mão, lembrando estrelas no céu de um deserto frio. As minhas chávenas de todos os cafés tomados. Tudo o que ordenava a minha escuridão numa pauta de gestos quotidianos. A minha escuridão. A escuridão da sala. Era uma janela enorme. Cabiam nela a madrugada e a mosca. A mosca era, como outras, pequena. Outrora, o amor tinha sido enorme. Do tamanho de uma obsessão. Uma destas noites tudo vai mudar. Ele dormia sob a paz encarnada do mosquiteiro. Deslocou-se, o ladrão, da cozinha para a sala. Sem hesitação. A mosca parou a sua dança. Viu-me. Compreende que, não o tendo visto, eu já sabia da sua presença. Não tendo gritado, já não o faria. O ladrão não podia gritar. Pousou a mochila no chão, em gesto de entrega. Olhou a sala, o armário de madeira. Tocou os livros como se soubesse deles. Olhou a mulher na sala. Era eu. Viu a janela. A mosca ainda lá estava. A madrugada também. Trazia nos pés um par de sandálias dotadas de uma simplicidade comovedora, e os pés limpos, e nem aproximando-se pude identificar o seu odor. Talvez algum resto de incenso. Talvez madeira já esculpida. O que leva desta casa que não encontrou nas outras? O ladrão sentou-se no sofá comigo. Mas não chegou perto. Comida. Cruzou as pernas como se não tivesse pressa.

Eu olhava alternadamente o ladrão e a mosca. Ele dormia lá dentro, no quarto. A janela acolhia a mosca. Também tem os livros de poesia reunida, isso poupar-lhe-á algum trabalho. Leve pelo menos a poesia oriental e a brasileira. Ele acedeu com a cabeça. Fechou os olhos, respirando fundo, libertando-se não tanto do cansaço, mas de uma espécie de futuro. Olhou de novo para mim. O ladrão emanava uma certa culpa. Atrapalhado por não ter mais que dizer, sentia cada oferta como um dardo doloroso. Leve-me consigo, ladrão. Não posso.Vou para muito longe. Era esse o meu desejo. Levantou-se. Alcançou os dois livros de poesia reunida. Levo uma vida já ocupada. Mulher e dois filhos. Não me leve a mal. Estendeu-me a mão.Tocaram-se os corpos. Era mão não de homem mas de pessoa. Trazia nela, confirmei, um cansaço para além das actividades diurnas ou das coisas materiais. E, nessa proximidade, constatei, não possuía odor algum. A mosca voltou aos seus movimentos desajeitados. No seu bailado havia algo de caos organizado. Contudo, o tempo de exposição da dança não me permitiria detectar um padrão. O corpo do ladrão obedecia a uma melodia de retirada que não sofreria nenhuma interferência feminina. A madrugada continha em si restos de sal, e sorrisos, e memórias de vidro que a todo momento se podiam quebrar. Talvez o passado seja somente uma bela cicatriz. Regressei ao quarto. Havia um mosquiteiro. Era encarnado. No mosquiteiro, havia uma fresta aberta. Ninguém dormia na cama. Não houve, nunca, um homem adormecido na minha cama. Difícil é aceitar lembranças: sei de um ladrão que não liberta odor algum. E nunca tinha visto uma mosca dançar.


SETE MARES

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Mar Portugal Ricardo Diniz

Treinos no Atlântico. Fotografia de Sérgio Dionísio - Ocean Fashion


Aos 21 anos, o sonho comandava a vida. Era comandante de um enorme veleiro nas CaraĂ­bas.


SETE MARES

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É daquelas coisas... Na altura custava muito. A todos. Várias despedidas por ano, muitas lágrimas, um estranho país frio e cinzento onde falavam uma língua que não era a minha e que demorava a compreender. Mas antes assim.Valeu a pena. Ensinou-me muito e deu-me estofo emocional para desafios futuros. Acima de tudo expôs-me a uma outra visão do mundo e a um gosto natural pela independência. Mas não foi fácil ir para Inglaterra com cinco anos, deixando em Portugal a minha mãe, os meus avós, os meus amigos. O meu Mar. Sempre fez parte da minha vida, o Mar. «Hey man, where are you from?» – Adorava esta pergunta. Era uma oportunidade de falar da minha terra, das suas gentes, do seu Mar.Viver Portugal de fora para dentro puxa pelo orgulho, pelo carinho, mas também pela exigência. Ficava triste quando não sabiam de onde eu era, mas também éramos todos miúdos e com outras prioridades que não a geografia mundial! Mas Portugal é já ali tão perto.Tão bonito. «Como é que é possível não saberem onde fica?»... Estava plantada a semente. Recebi o meu primeiro Atlas com 8 anos. Foi uma prenda fantástica! Era um livro pequeno e robusto mas suficientemente flexível para andar sempre comigo, ora na mochila, ora no bolso. Como eu adorava aquele livrinho de bolso! Ao folhear as suas coloridas páginas sonhava e viajava, tentando imaginar como seriam aquelas ilhas no meio do Oceano Atlântico ou a vastidão do deserto gelado da Antárctida. Conseguia passar horas ali dentro, entretido com novos e curiosos dados. Fiquei intrigado ao reparar que o Brasil tinha um grande rio com um nome do mês em que a minha mãe fazia anos! O meu Pai lá me explicou que «aquilo» não era bem um rio... Passadas duas décadas, ainda tenho esse Atlas. Quando o retiro da prateleira reparo que ele se abre com naturalidade na página 30 e, em poucos segundos, revivo as emoções que justificam esse vício das folhas soltas. Reparo que o canto da folha já fora dobrado em tempos, talvez para rápida referência. Em pequeno olhava para o mapa do meu país e chorava com um misto de saudades, paixão e orgulho. Era a minha terra, ali tão perto mas ainda a tantos meses de me voltar a acolher. Impossível ficar indiferente, ainda hoje. Aos 21 anos, o sonho comandava a vida. Era comandante de um enorme veleiro nas Caraíbas, ganhava muito dinheiro para fazer o que adorava, mas vivia uma vida simples e desprendida. Duran-

te cerca de nove meses andei descalço e sem nunca passar o corpo por água doce. Mergulhava num incrível mar azul todos os dias e comia a fruta doce das generosas árvores desse mundo preguiçoso. Conhecia centenas de pessoas por mês e ouvia a célebre pergunta que sempre me acompanhou. Já não éramos miúdos, mas a situação mantinha-se; «Portugal? That’s nice. I was in South America last year. Lovely place...» O mesmo acontecia nos EUA quando por lá passava. As pessoas pura e simplesmente não sabiam onde ficava Portugal.Associavam o nome «Portugal» a um território anexo a um país qualquer num continente que não o nosso. Com sorte, lá apanhava um raro ser iluminado que timidamente sugeria que Portugal tinha qualquer coisa a ver com Espanha. Great!.. Nesse mesmo ano, a CNN descobriu que havia «... um jovem velejador que estava a retraçar a história do seu país». Numa simples peça de seis minutos, a bandeira de Portugal foi vista por um universo de 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Falou-se de Portugal. Falou-se do nosso Mar. Falou-se da nossa História. Recebi perto de mil e-mails e passei semanas a responder a cada um! Todos tinham algo em comum: orgulho em ser Português. Foi aqui que percebi que os meus projectos como velejador eram um potente e relevante veículo com uma capacidade além do meu sonho de infância de fazer a volta ao mundo à vela sozinho. Em 2003, lancei o Projecto «Made in PORTUGAL» com o claro objectivo de promover Portugal no mundo, associando-o a valores essenciais de qualidade, inovação, tecnologia e design. Queria posicionar Portugal como um país dinâmico, culturalmente rico, mas moderno e ambicioso. Passei a ser apenas o homem do leme num projecto amplo que trabalha áreas tão diferentes como a construção naval e a educação. É com muito orgulho que vejo cada vez mais escolas a usarem as minhas viagens para, de forma mais interessante e directa, ensinarem geografia, história, português e matemática. É talvez a vertente mais importante do meu trabalho como velejador. É fantástico ver o entusiasmo das crianças quando partilho com elas as minhas viagens e vivências, tentando transmitir lições de garra, perseverança e empreendedorismo. Mostro-lhes o que significa isto de sermos Portugueses e que todo aquele Mar é nosso. Afinal de contas, Portugal é um apenas um bocadinho de terra com algumas pequenas ilhas, mas muito, muito Mar. O futuro de Portugal


passa, obrigatoriamente, pelo nosso Mar. O Mar Português é o principal factor que nos diferencia como nação e é a nossa maior e mais rica herança. Não somos conhecidos no mundo por termos uma magnífica indústria de vinhos, sermos líderes mundiais na produção de cortiça ou pela qualidade das nossas loiças ou cristais. O mundo não associa Portugal a excelência técnica nem a qualidade. Ainda. Mas temos uma ligação histórico-cultural com os Oceanos e é essa a nossa melhor carta trunfo que já estamos a saber jogar. Há sectores óbvios que beneficiarão, como o turismo e a oceanografia. Mas o mar também é fonte de energia e tela de ligação entre países.

Portugal é um país fantástico, com um povo único. Temos tantas coisas boas, mas também um enorme potencial para fazermos mais e melhor. Vale a pena sonhar e sermos ambiciosos e arregaçarmos as mangas. O Mar de Portugal lá estará para quando o soubermos aproveitar ao máximo. Hoje, felizmente, as perguntas já começam a ser outras. «Não te sentes só quando estás sozinho no mar?» Como é que me posso sentir só num mar salgado tão imensamente bonito e azul, tão vasto e tão nosso? Comigo navegam os verdadeiros heróis do mar e suas histórias. As suas aventuras e conquistas são hoje a história de todos nós.

Ao folhear as suas coloridas páginas sonhava e viajava, tentando imaginar como seriam aquelas ilhas no meio do Oceano Atlântico ou a vastidão do deserto gelado da Antárctida.


A MUDANÇA DA TERRA

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Os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo de Marmelete (Algarve)

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Aliete Galhoz

Para construir um diálogo, uma ponte, uma errância a que se deseja a culminação em périplo feliz, parte-se de algum lugar, chega-se (ou não) ao rumo desejado, transita-se, regressa-se (ou não), transporta-se, traz-se. O património criado pelos homens é perecível, irrisório, destruído e recomeçado, espantoso de frágil e tenaz. Um pequeno património espiritual, viajando em memória, aprendido, ensinado pela voz, pode surpreender o abraçar o mundo, a ecúmene, «a nossa casa». O texto que se segue é uma malha num tecido ou num sistema conotado em rede. «A» Festa e Folia do Espírito Santo, de raiz medieval, inspiração joaquimita, no que toca a Portugal, disseminou-se para as ilhas atlânticas, sobretudo as dos Açores, com os povoadores, no século XV, e foi levada até ao Brasil, à Índia e a Goa com as Descobertas, no século XVI. Banda Filarmónica de Marmelete, 1950. Arquivo Pessoal de Aldina Duarte


A MUDANÇA DA TERRA

1 Servimo-nos, para elaborar este artigo, de parte do

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Marmelete – um recanto da aldeia, 1960 Arquivo Pessoal de Aldina Duarte

material e estudo presentes nestes dois trabalhos nossos: «Cantigas Paralelísticas de Tradição Oral de Trás-os-Montes e do Algarve», in Literatura Medieval, vol. IV, Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval

(Lisboa, 1-5 de Outubro de 1991), organização de Aires A. Nascimento e Cristina Almeida Ribeiro. Lisboa, Edições Colibri, 1993, pp. 11-17, principalmente pp. 14-15; «Cantigas Paralelísticas na Tradição Oral Portuguesa – Trás-os-Montes: cantigas das mondas, das malhas, das trilhas. Algarve: os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo de Marmelete. Açores: estruturas paralelísticas nos cantos dos foliões das festas do Espírito Santo». Lisboa, Ed. Apenas Livros, 2006, pp. 19-21.

Marmelete, povoado rural incrustado na vertente atlântica da serra de Monchique, possui um valioso património a nível da etnografia e da literatura oral, com destaque para os vilancetes glosados dos foliões das festas do Espírito Santo. Além do «corpus» de cantigas de trabalho, paralelísticas, da tradição de Trás-os-Montes, e que se podem, a esta altura, cifrar em 20 matriciais, outro valioso contributo há a apontar, neste campo, e vindo também de uma área lateral do país e até à década de 60 do século XX zona fortemente isolada – refiro-me às «cantigas paralelísticas» de Marmelete. Em 1921-1922, o etnógrafo local José Guerreiro Gascon publica, na Revista Lusitana, num capítulo de uma monografia sobre Monchique2, trinta e cinco cantigas de tradição das Festas do Espírito Santo na pequena freguesia de Marmelete. São, tal como as reveladas por José Leite de Vasconcellos para Trás-os-Montes, paralelísticas de acentuado cunho ancestral. Passaram, contudo, então desapercebidas; José Leite de Vasconcellos,

em nota de pé de página, no artigo do próprio J.G. Gascon, aproxima-as apenas de giros linguísticos do «romanceiro»3. Sobre elas viemos nós a chamar a atenção, em 1959, numa comunicação apresentada ao IX Congresso Internacional de Linguística Românica e que intitulámos de «Chansons Parallélistiques dans la Tradition de l’Algarve; genres, structure, langage»4. Alertada pela nossa comunicação, interessou-se por elas a grande especialista da lírica tradicional hispânica Margit Frenk, que apresentou, por sua vez, sobre elas, uma comunicação, «Permanencia Folklórica del Villancico Glosado», ao IV Congresso Internacional de Hispanistas, Salamanca, 19715; entravam assim, por sua singularidade conservadora de formas e sentidos da poética medieval, no circuito da lírica tradicional hispânica de cariz similar mais arcaico. Estas «cantigas de Marmelete» recolhidas por Guerreiro Gascon em 1918 da boca de um velho «folião» da Confraria do Espírito Santo, de Marmelete, não se cantavam publicamente desde 1903, data da última celebração, aí, das «Festas do Santo Espírito». Chamavam-se «cantigas do Santo Espírito» ou «cantigas de Santa Isabel», pois foi a rainha D. Isabel, mulher de el-rei D. Dinis, que incrementou a cerimónia do culto («império e coroação») do Espírito Santo em Portugal a partir da festividade que instituiu solenemente na sua vila de Alenquer em 12956. Eram cantadas por um grupo de «foliões», designação que não é sem importância correlativa. Como paradigma, apresentam uma estrutura matriz que é uma espécie de molde: uma cabeça dística e 2 quadras em que o 1.º e o 3.º versos são invariavelmente o 1.º e o 2.º da cabeça dística, isto é: AB// AcBc/ AdBd. Variam o 2.º e o 4.º versos, mantendo, todavia, estrito paralelismo semântico. Encontrámos esta estrutura empregue por Afonso X, o Sábio, em duas das Cantigas de Santa Maria7 e, do mesmo Afonso X, numa cantiga de escárnio, 476 do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, e, ainda, numa cantiga de escárnio de Pero da Ponte contra o jogral Pero de Burgos, 1173 do Cancioneiro da Vaticana8 e 1639 do Cancioneiro da Biblioteca Nacional.


O campo lexical é o característico, sobretudo, das «cantigas de amigo» medievais, embora com a mutação de que a cantiga, e o elogio, é posta em boca de homem e se dirige à donzela, como nestas duas cantigas (apresentada, aliás, uma sem a cabeça) e onde se encontram vestígios, também, da fraseologia das cantigas de amor numa delas (não normalizamos os textos): Moças de Lagos, Em Lagos nascidas Brancas e vermelhas E tam floridas. E moças de Lagos, Em Lagos criadas, Brancas e vermelhas, E tam clòradas. Revista Lusitana, vol. XXIV, p. 280

Moças do Tolêdo, Chêra la sua roupa.

do; apenas chamei a atenção, novamente, para uma sobrevivência de modelos e formulação de longa veiculação e similitude a modelos e figuração poéticos medievais, mas com características mais primárias na utilização das estruturas. Estendem-se, sim, na performance do canto, com hábil técnica matemática, pela reiteração e pelo refrão (as de Marmelete eram cantadas «muito repisadinhas», como informa Guerreiro Gascon e se pode imaginar pelas suas congéneres das «folias do Espírito Santo» nos Açores gravadas com fidelidade), sendo no entanto ausentes de artifícios adicionais na própria composição. Por outro lado, o inventário lexical, sem deixar de ser económico, como é regra das «cantigas de amigo», faz ressaltar uma diversidade regionalizada, embora ténue. Adstritas à ruralidade, revelam referência a «caça» e «pesca» no rio e «romaria» no Norte e a uma natureza mais tratada no Sul remanescente da moçarabização (as cantigas de Marmelete aludem a «olival», a «meimendro», a «laranjeira», a «lima» e «limonas», por exemplo)9. Citamos uma (não normalizamos o texto):

2 Editada postumamente: José António Guerreiro Gascon, Subsídios para a Monografia de Monchique. Edição da viúva

do autor, Maria C. R. Guerreiro Gascon, Lisboa, Composto e impresso na Gráfica Sepol, 1955. 3 Revista Lusitana, vol. XXIV, p. 276, nota 1. 4 Publicada no vol. II das Actas, Ed. do Centro de

Estudos Filológicos, Lisboa, 1960, pp. 5-10. 5 Publicada in Nueva Revista de Filologia Hispánica,

tomo XXIX, 1980, n.º 2, México, D.F., El Colegio de México, pp. 404-411. 6 Ver Maria Aliete Galhoz, «Une Note de plus pour L’Étude du petit Corpus de Chansons Parallélistiques

Moças do Tolêdo, Vão lavar ò rio, Chêra la sua roupa A trevo florido.

D’onde vêm estes senhores e mais senhoras Que me vêm cheirando a limas mais [a limonas?

Colloque, Paris, Fondation

Moças do Tolêdo, Vão lavar ò alto, Chêra la sua roupa A trevo granado.

D’onde vêm estes senhores e mais senhoras Qu’ê bem le digo, Vêm-me cheirando a limas mais a limonas E a trevo florido?

7 Cantiga 90, pp. 360-361, vol. I,

de Marmelete», Actes du

Calouste Gullbenkian, Centre Culturel Portugais, 1987, pp. 39-58.

Revista Lusitana, vol. XXIV, p. 280

O que se deduz da leitura destas cantigas, quer as de Trás-os-Montes, quer as do Algarve, é a aproximação a modelos que os poetas dos cancioneiros medievais galaico-portugueses atestam, mantendo, estas cantigas tradicionais populares, fidelidade a estruturas, a «jargão poético» das «cantigas de amigo», principalmente, mas com um ou outro afloramento do das «cantigas de amor» e, ainda, com passar de similitude irónica que lembra as de escárnio. Não faço qualquer conjectura sobre fontes e origens, para que não tenho bagagem erudita que mo permitisse, nem é o meu campo de estu-

e 320, pp. 181-182, vol. II; in Afonso X, o Sábio, Cantigas de Santa Maria,

edição crítica de Walter

D’onde vêm estes senhores e mais senhoras, Ê bem le falo, Vêm-me cheirando a limas mais a limonas E a trevo granado? Revista Lusitana, vol. XXIV, p. 278

Mettman, tomos I e II, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1981. 8 Cancioneiro Português da Biblioteca Vaticana

(Códice 4803), Lisboa, Ed. do Centro de Estudos

O «corpus» das «cantigas dos foliões», de Marmelete, alcançou, discreta e tenazmente, o seu lugar no acervo da lírica tradicional ibérica, nos seus testemunhos de veiculação oral e persistência memorial, sobretudo no que respeita ao modelo cancioneiril do «vilancete glosado», tão em moda, e tornadas cortesãs nos fins do século XV, parte do século XVI. Sobre tal, referin-

Filológicos/Instituto de Alta Cultura, MCMLXXIII. (Fac-símile). Introdução de Luís F. Lindley Cintra. 9 Cf. também Eugenio Asensio, Poética y Realidad en el Cancionero Peninsular de la Edad Media, Madrid,

Ed. Gredos, 1957, pp. 95-98.


A MUDANÇA DA TERRA

10 José Manuel Pedrosa, «Reliquias de Cantigas Paralelísticas de Amigo y de Villancicos Glosados en la Tradición Oral Moderna», in Lírica Popular/Lírica Tradicional – Lecciones en homenaje a Don Emídio García Gómez.

Edición de Pedro M. Piñero Ramírez. Universidad de Sevilla/Fundación Machado, 1998, pp. 183- 213, particularmente pp. 200-201. 11 Margit Frenk, Nuevo Corpus de la Antigua Lírica Popular Hispânica (siglos XV a XVII), 2 vols.

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do este «corpus», escreve, sumariando, José Manuel Pedrosa, da Universidade de Alcalá de Henares, e um dos melhores especialistas nesta área, em 1998, num Colóquio Internacional sobre Lírica Popular/ /Lírica Tradicional: «Otro “corpus” importantísimo de villancicos glosados que han llegado a la tradición oral moderna es el de las “cantigas dos foliões”, que se cantaban, hasta 1903, en las fiestas “do Santo Espírito” de Marmelete, pequeño pueblo del Algarbe portugués. Nada menos que casi cuarenta de estos villancicos fueron recogidos y publicados por José António Guerreiro Gascon a comienzos de la década de 1920. Posteriormente, diversos artículos de Aliete Galhoz y de Margit Frenk han llamado la atención sobre este extraordinario tesoro, cuyos ecos tendrán la suerte de escuchar las generaciones futuras, porque tengo noticia de que, a comienzos de la década de 1960, el folclorista Michel Giacometti alcanzó a grabar estos villancicos de boca del anciano sacristán de Marmelete que aún recordaba las “fiestas do Santo Espírito”»10. Além do estudo de Margit Frenk sobre as «Cantigas de Marmelete», há outras referências a este acervo, com destaque para o Nuevo Corpus de la Antigua Lírica Popular Hispánica (Siglos XV a XVII)11, onde a colecção recolhida por Guerreiro Gascon tem dez referências, quer no item «Supervivencias», quer no item «Correspondencias». Transcrevemos uma «cantiga de Marmelete» que Frenk indicia com duas referências: uma como «supervivencia», a «cabeça» do vilancete glosado, e outra como «correspondencia», a glosa (não normalizamos o texto):

Faculdad de Filosofía y Letras/Universidad Nacional Autónoma de México. El Colegio de México – Fondo de Cultura Económica, 2003. 12 Conhecido por Chansonnier

Chovia e anevava pela noite escura e a ná que vai no porto corre la fortuna Frenk, 942 B «Supervivencias»

Masson 56, é um

cancioneiro luso-espanhol quinhentista, ms. 56 do fundo da Bibliothèque de l`École Supérieure des Beaux-Arts de Paris.

– Que me digas, marinhêro, que navegas no rio, na qual daquelas naus vai o seu diamigo. Frenk, 942 B «Correspondencias»

– Que naquela deantêra mastro erguido. – Que me digas, marinhêro, que navegas no alto, na qual de aquelas naus vai o seu diamado? – Na sua deantêra mastro alçado. Guerreiro Gascon, Revista Lusitana, XXIV, p. 279.

(Lhueve) a menudo y haze la noche escura, la nave a el puerto, el viento a la fortuna. Frenk, 942 B

– Digasme, marinero, que andas por la mar, si me traes nuevas d’amador leal. – Darlas hé, señora, de tu desventura. La nave en el puerto Y el vento a la fortuna. Fontes: Cancionero Musical Masson 56, f. 35 (ms. Do século XVI)12

Ao contrário do que acontece para Trás-os-Montes, de que há vários registos em suporte sonoro para estas suas «cantigas de trabalho» (Kurt Schindler, 1928/1931; Michel Giacometti, 1960; Anne Caufriez, princípios de 1980, Domingos Morais, 1985, e outros, para o «corpus» de Marmelete apenas existe o registo gravado por Michel Giacometti. Com efeito, Michel Giacometti logrou ainda registar uma execução cantada de grande parte das «cantigas de Marmelete» da boca de um velho sacristão que havia fixado o repertório e as melodias. Fez uma primeira gravação em Abril de 1961, obtendo o registo de 15 «cantigas». Em Abril de 1970, efectuou novamente um «inquérito acerca da Festa do Espírito Santo», e o velho sacristão, então octogenário, recordou o cerimonial e entoou 14 cantigas. A memória da execução cantada está portanto preservada e é um contributo


precioso, pois nenhum apontamento musical existia, até então, dessas cantigas. O espólio etnomusicológico de Michel Giacometti está depositado (é património nacional) no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa.Todos os espécimes já estão digitalizados. É, pois, indubitável a raridade e o testemunho patrimonial deste acervo do repertório dos «foliões» das Festas do Santo Espírito de Marmelete cujos passos ritualizados acompanhavam, quer com cantos mais profanos (as «alvoradas», as «marchas» de rua), quer com cantos alusivos a cada momento das cerimónias religiosas e para-religiosas. Assim, podemos

afirmar que o «corpus» dos vilancetes glosados de Marmelete é uma pequena jóia da lírica tradicional cancioneiril ibérica! Acerca deles escreve Antonio Sánchez Romeralo nas Actas del Congreso Romancero – Cancionero, UCLA (1984)13 numa comunicação com o título «El villancico, como texto oral»: «También puede decirse esto de otras canciones, de cuya existencia antigua no queda testimonio escrito, pero que, por la factura, muestran claramente su entronque con la antigua tradición; así, esa sorprendente colección de 35 villancicos portugueses glosados recogidos por José Guerreiro Gascon en Marmelete, lugar de la sierra de Monchique, en el Algarbe, hacia 1918.»

13 Edição de Enrique Rodríguez Cepeda, colaboração especial e bibliografia crítica de Samuel G. Armistead, tomo I, II, Madrid. Ediciones José Porrua Turanzas, 1990; tomo I, pp. 59-80, particularmente p. 68.


Revista atlântica de cultura ibero-americana

Número 01 Outono Inverno 2004

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