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As Flechas de Apolo – Aspectos Culturais da Medicina Ocidental, desde a Guerra de Troia até a Primeira Conflagração Mundial – 2a Edição Revista Copyright © 2013 Editora Rubio Ltda. ISBN 978-85-64956-74-2 Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução desta obra, no todo ou em parte, sem autorização por escrito da Editora. Produção, Editoração Eletrônica e Capa Equipe Rubio

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C91f 2. ed. Couto, Jr., Deolindo, As flechas de Apolo : aspectos culturais da medicina ocidental, desde a Guerra de Troia até a Primeira Conflagração Mundial / Deolindo Couto, Jr. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Rubio, 2013. 482 p. ; 25 cm Inclui bibliografia ISBN 978-85-64956-74-2 1. Medicina - História. I. Título. 13-01024

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CDD: 610.9 CDU: 61(09) 14/05/2013

Editora Rubio Ltda. Av. Franklin Roosevelt, 194 s/l 204 – Castelo 20021-120 – Rio de Janeiro – RJ Telefax: 55(21) 2262-3779 • 2262-1783 E-mail: rubio@rubio.com.br www.rubio.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Sobre o Autor Deolindo Couto, Jr., nasceu no então Distrito Federal, em 1932. Bacharelou-se em 1949, pelo tradicional Colégio Mello e Souza, matriculando-se na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil em 1950. Como estudante, acompanhou o fisiologista Professor Mario Vianna Dias e, no 5o ano, ingressou na 1a Cadeira de Clínica Cirúrgica na dita Faculdade (Professor Alfredo Monteiro), graduandose em 1955. Em 1957, estagiou na Universidade de Lyon e, em Paris, na Pitié; frequentou a Spleen Clinic na Universidade de Columbia. Recebeu o grau de Doutor em Medicina em 1959, na Universidade do Brasil, e, em 1961, na Universidade Federal Fluminense. Fez toda a carreira universitária, estando atualmente aposentado. Publicou numerosos artigos em revistas médicas nacionais e estrangeiras, defendeu duas teses aprovadas plenamente e deu a lume três volumes médicos. Foi pesquisador especializado para os setores de termos médicos e de ficciônimos do Dicionário Aurélio, da segunda à quinta edição, e assíduo frequentador do Sabadoyle. Como estudos relacionados à interrelação de medicina e cultura geral, escreveu sobre as contribuições médicas de Francis Bacon, Descartes, Piso e de renascentistas não médicos. Em 1974, foi eleito Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, passando a Emérito nesta Instituição em 1999; integra quadros de associações médicas nacionais e estrangeiras.

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Estamos voltados historicamente à história, à construção paciente de discursos sobre os discursos, à tarefa de compreender o que já foi dito. Michel Foucault. Naissance de la clinique. 1978

A importância capital do movimento progressivo que nos conduz é universalmente reconhecida em nossos dias e acreditamos poder adiantar, sem topar contraditores, que o primeiro lugar no mundo civilizado pertencerá, doravante, às nações que consagrarão os seus maiores esforços à cultura do espírito humano e que se imporão os maiores sacrifícios em favor do desenvolvimento das ciências; porque, definitivamente, é só por sua inteligência que o homem deve dominar e conquistar o mundo. Claude Bernard. Discours d’ouverture de la séance publique annuelle des cinq académies. 1869

Tanto da parte do enfermo como da do médico, a enfermidade é um fato cultural e altera-se com as condições culturais. Jean Starobinski. Historia del tratamiento de la melancolia desde los orígenes hasta 1900. 1962

O imenso progresso que constitui a obra de Hipócrates só se explica se ela for posta em seu contexto cultural. Maurice Tubiana. Histoire de la pensée médicale. 1995

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A Cecília e a Ísis. À memória de Lilita e de Cyro dos Anjos, de Alípio Augusto Camelo, de Luís Vianna Filho e de Peregrino Junior

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A História de um Livro Por ocasião da publicação da segunda edição do meu As Flechas de Apolo, ocorreu-me a pergunta que certa vez fizeram a Cyro dos Anjos e que ele relata, em seu ensaio A Criação Literária: “Por que escreve?” Perguntei-me: “por que As Flechas? Como surgiu a ideia? Que utilidade terá, para mim e para outros?” Imagino que sejam inquisições que se apresentam a todo autor. Vieram-me à memória, então, fatos da minha infância e que – creio – culminaram, em parte, neste livro. Sou filho único, tinha poucos companheiros; desde que “me entendo por gente” moramos em casa e meu Pai destinava, sempre, um cômodo a escritório. Este abrigava, permanentemente, mais livros do que seria razoável, o que dava à peça um aspecto abagunçado; espelhava bem meu Pai, dotado de extraordinária organização mental e de desorganização material não menos importante. Eu gostava de frequentar o escritório só para ver as figuras dos livros, mesmo por algum tempo depois que minha Mãe me ensinou a ler, escrever, as duas primeiras operações aritméticas, algumas noções de português, de história e de geografia. Em 1939, tinha eu 7 anos, mudamo-nos para uma casa ampla, com dois quintais e outras facilidades para uma criança. Meu Pai pôde ter, então, um escritório maior, resultante da fusão de dois quartos do primeiro pavimento. Passei a ir mais vezes ao escritório, mais confortável e com um sofá, não só para ver ilustrações como, também, ler-lhes as legendas. Os livros eram não apenas de medicina, mas também, de assuntos outros. Por alguns eu tinha especial predileção, como era o caso da História da Colonização Portuguesa no Brasil, com muitas estampas, algumas coloridas. Passei a ler. A princípio romances históricos, Gustavo Barroso, Olavo Setúbal, Assis Cintra etc. Minha mãe deu-me um livro de sua meninice, a História Universal, da Coleção FTD, que, à parte o sectarismo religioso, tinha apreciável valor didático. Interessei-me por livros de aventuras e por livros policiais, Rafael Sabatini, Zane Grey, Agatha Christie, o grande R. L. Stevenson. Frequentei os contos de Machado de Assis.

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Aos 14 anos, tive grande doença dos rins. Meu pai chamou o Dr. René Laclette, grande especialista no ramo e dono de grandes conhecimentos humanísticos. Então, como de há muito tempo, ouvir as conversas dos mais velhos era, para mim, motivo de grande prazer; aprendi muito de conhecimentos gerais, ouvindo amigos que visitavam a nossa casa: Pedro Nava, Paulo de Carvalho, René Laclette; falavam dos nossos grandes professores de Medicina e de suas vastas culturas, de Miguel Couto, de Austregésilo, de Francisco e Aloysio de castro, de Afrânio Peixoto, dos estrangeiros com quem tinham contato; tratavam de assuntos médicos e de não médicos. Doente, eu devia observar estrito repouso no leito, só me levantando para atividades essenciais. Passava a maior parte do dia deitado no sofá do escritório lendo; enfronhei-me na história brasileira, na britânica e na francesa, conheci Eça de Queiróz. Com 18 anos incompletos, matriculei-me na Faculdade Nacional de Medicina da então Universidade do Brasil; lá encontrei professores notáveis, tanto em suas especialidades quanto em cultura geral: Carlos Chagas Filho, dado a estudos sobre filosofia da ciência, Álvaro Froes da Fonseca, anatomista, antropólogo, grande conhecedor da língua alemã, Olympio da Fonseca Filho, autor de valiosos escritos sobre a história da medicina e iniciador, no Brasil, da paleontologia, Pedro A. Pinto, respeitada autoridade em português, a quem se devem importantes obras, como um dicionário de termos médicos, um dicionário de Lusíadas (em colaboração com Afrânio Peixoto) e numerosos outros trabalhos sobre o vernáculo. Paralelamente aos estudos médicos, interessei-me pela história da Medicina, por obras literárias e de artes plásticas, que versassem aspectos médicos e passei a coletar algum material (recortes de jornais, artigos de revistas médicas e laicas, anotações pessoais feitas em livros leigos etc.) a respeito daquele assunto. Meu Pai, a quem tanto devo, inclusivamente em assuntos de cultura geral, deveu a sua formação médica a dois eminentes professores, Antônio Austregésilo, no Brasil, e Georges Guillain, na França; ambos homens de grande cultura humanística, além de médicos notáveis. Meu Pai incutiu-me a noção de que o médico, pela natureza e modo de praticar o seu ofício, o qual frequentemente penetra na intimidade da vida do paciente e, não raro, também no de sua família, tem que ser um humanista. Não foi sem motivo que Osler, ao final de seu clássico Aequanimitas, forneceu uma relação de obras que compõem o que chamou de “biblioteca de cabeceira do estudante de Medicina”, em que há autores como Shakespeare, Montaigne, Plutarco, Marco Aurélio, Cervantes, entre outros.

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Além das atividades profissionais, passei, levado por meu sogro, Cyro dos Anjos, a frequentar a reunião sabática na biblioteca de Plinio Doyle, conhecida como Sabadoyle. Aí relacionei-me com alguns dos mais notáveis representantes da inteligência brasileira, o que muito contribuiu para o meu acervo de conhecimentos gerais; Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Mario da Silva Brito, Peregrino Jr., Rubem Braga, Álvaro Cotrim (Alvarus) e tantos outros. Aposentei-me e fomos morar em Friburgo, minha mulher e eu. Na serra, em casa que construímos, em local paradisíaco, comecei a dar um balanço de leituras e do material acumulado por tantos anos. Veio-me, então, a ideia de tentar escrever algo sobre a óbvia e importante relação reciproca de medicina e cultura geral; sem prazo e, mesmo, em caráter experimental: a que serviria isso? A pesquisa demorou mais de dez anos, a quantidade de dados ia-se tornando muito grande; creio que, no mínimo, uma quinta parte dos dados recolhidos não conta no livro. Da cultura geral para a Medicina e desta para a cultura geral, a quantidade de contribuições é impressionante. Geniais autores literários, como Camões, Cervantes, Shakespeare, filósofos, como Platão e Aristóteles, historiadores como Heródoto e Tucídides abordam temas médicos, descreveram quadros clínicos; a síndrome de Alice no país das maravilhas e o bovarismo são entidades psiquiátricas aceitas na especialidade. Dizia Jules Romains que “a medicina e a literatura sempre tiveram fronteiras comuns e praticam usurpações mútuas, quando não foram até o condomínio”. Indispensável foi a contribuição da pintura para a Medicina, dado que, até o advento da fotografia, foi, ao lado da escultura e da cerâmica, o meio de documentação de fatos médicos. Aprendi, de meu Pai, principalmente, que, dentro da relação bidirecional médico-paciente, há a necessidade de estabelecer-se, entre ambos, um diálogo que frequentemente transcende o trivial, o que importa penetrar o médico no universo intelectual do paciente, e vice-versa. O médico deve ter assunto, ter conversa para todo tipo de paciente, do erudito ao analfabeto, assim aumentando-se a confiança no médico, levando mesmo, eventualmente, a que a preferência do paciente se dirija a um e não a outro profissional. Reflita-se, ainda, sobre como o ambiente cultural pode influenciar a Medicina e vice-versa; como exemplo atual, salientem-se o aparecimento e as consequências, tanto culturais como médicas, do problema de limitação da natalidade.

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Assim, decidi aproveitar o material acumulado por tanto tempo e publicar este volume. O aparecimento dele parece-me oportuno, tendo em vista a tendência atual de incorporar disciplinas não médicas, como a sociologia, a literatura, etc., ao currículo do estudante de Medicina. A isto acrescente-se a volumosa bibliografia que vem sendo dada à luz e para a qual almejo trazer contribuição, em língua portuguesa. Se esta é a meta, qual foi, ou quais foram, o(s) início(s)? Como pessoas, Austregésilo e Guillain influenciaram meu Pai e este a mim. E como peça material? Foi o escritório que, desde cedo, me habituei a ter como lugar fundamental na casa, tanto pela existência quanto pela frequência. O costume perseverou. Hoje, sou viúvo, mas não moro só. Ele, o escritório, com muito do que foi de meu Pai, continua comigo; é meu companheiro diário, mudo mas eloquente, frio mas caloroso. Nele passo a maior parte do dia. Ele me dá as mais diversas ajudas: com Molière, se estou abatido, com Pope, se quero a poesia filosófica, com Shakespeare, se desejo mergulhar na alma humana, com Cervantes, se viso o sério travestido de cômico, e assim por diante. Um dia morrerei e ele é que será viúvo. Que destino terá? E isto é, para mim, um grande motivo de angústia, tal o apego que lhe tenho.

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Prefácio São amplas as mútuas relações da Medicina com outros ramos de conhecimento, como história, literatura, filosofia, artes plásticas, música, religião, política, economia etc. Como ignorar, por exemplo, as fantásticas repercussões econômicas da Peste Negra ou que o naturalismo literário se inspirou, largamente, nos trabalhos dos médicos Claude Bernard, Prosper Lucas e Charles Letourneau? Reciprocamente, leigos foram precursores, ou autores, de importantes descobertas e de invenções, no domínio da Medicina; por exemplo, o navegador Jacques Cartier (1494-1554) e o filósofo F. Bacon (1561-1626) falavam da importância de cítricos na prevenção de escorbuto. Quanto de terapêutica medicamentosa não aprenderam europeus com índios? A necessidade de integrar a ciência no quadro geral da cultura é, como bem diz Olson (1), uma preocupação que remonta ao século V a.C., e tal integração deve ser feita harmoniosamente, na contribuição das partes, evitandose o funesto predomínio de uma sobre a outra. O assunto é delicado, prestando-se a controvérsias. O homem atual, maravilhado com a ida de astronautas à Lua, com os milagrosos antibióticos, com a velocidade com que se transmite a informação, fatos que a ele revertem em proveito e conforto (e, muitas vezes, em enorme perigo), vai sendo, insensivelmente, subjugado pelas possibilidades da ciência. Resulta disto um distanciamento — quiçá um desprezo — quanto à importância do estudo das humanidades, no contexto global da vida, o que representa uma sinistra ameaça, inclusivamente dos pontos de vista ético e moral. Vale salientar que Russell (2), em face do avanço da ciência, propôs que se criasse uma nova religião: “O cristianismo, sob suas formas atuais, está prescrito. Temos necessidade de uma nova religião, adaptada à ciência, e que, sem embargo, ajude a bem conduzirmo-nos”. Naturalmente, a discussão de tão complexo tema variará, de acordo com a época e com o nível humanístico e tecnológico de uma sociedade. Na Idade Média ocidental, por exemplo, o espiritual predominava, largamente, sobre o material, pouco tendo a ciência, especialmente a Medicina, a oferecer na prática, levando a um desequilíbrio cultural pernicioso.

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Inúmeras vicissitudes enfrentou, e enfrenta, o homem, para sua sobrevivência; entre elas, e cada vez mais, o próprio homem, que, frequentemente, além de não levar em conta a salubridade de seu próprio ambiente, cria instrumentos terríveis de destruição de seu semelhante. E, deploravelmente, para que tais instrumentos sejam idealizados e materializados, conta-se, entre a de outros cientistas, a colaboração de médicos; não há, pois, exagero em dizer-se que o médico se encontra relacionado, também, à involução da humanidade. Ora, estes fatos impõem a necessidade — muito mais do que se imagina e do que se ensina — de uma segura compreensão da História, do sentido e do alcance do poder do médico e da Medicina. Na atualidade, esse poder é especialmente importante, tendo sido objeto de uma investigação por Boncenne e Assouline (3), na França, e que deu margem a que se salientassem alguns pontos do maior interesse. Inicialmente, o do aumento significativo de publicações, acessíveis a leigos, de obras de médicos famosos que, sem pretensões a literatos, relatando suas grandes experiências decorrentes do contato com pessoas das mais diversas classes sociais, e como testemunhas de importantes acontecimentos, opinam, com crescente audiência, sobre “[...] educação, política, costumes, família, história, Terceiro Mundo, futuro do homem, moral e, ainda, sobre muitos outros assuntos [...]”. Atribuem a “[...] influência excepcional de maitres penseurs [...]” dos médicos aos seguintes fatores: 1. Crises religiosas e políticas. 2. Sobressaliência da moral médica, contrapondo-se a desilusões e a suspeitas quanto a políticos. 3. Laços que se estabelecem em decorrência da relação médico-paciente. 4. Predominância dos progressos da Biologia (contraceptivos, controle da natalidade etc.), sobre os da Física Nuclear, que tanto impressionaram, na década de 1950. 5. Crescente inclusão de notícias médicas em meios de comunicação. 6. Assunção, pelo médico, do papel de humanista. Com os progressos no domínio da higiene e da medicina preventiva (da maior importância, sobretudo em face de doenças cujos tratamentos são desconhecidos ou precários), o médico penetrou na administração pública e na política. Dos programas de governo passaram a figurar, significativamente, medidas, diretas e indiretas, relativas a assuntos de saúde, de alta repercussão individual, social, econômica, militar etc.

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Pode ser tomado como marco primeiro da Medicina do Ocidente o episódio inicial da Ilíada, em que Apolo, deus da Medicina, para vingar-se de afronta a um sacerdote seu, feita por Agamenon, contra soldados deste rei dispara flechas; é, pois, um deus que, também, envia a morte. Neste volume, deram-se como limites a Guerra de Troia, aceita como indicativa do início histórico da documentação médica ocidental, e a eclosão da Primeira Guerra Mundial; procedeu-se assim porque as consequências dessa catástrofe mudaram de tal forma o panorama do planeta que o que a ela se seguiu merece estudo à parte. Devem ser ressaltados alguns pontos, relativamente aos critérios de redação aqui utilizados. Optou-se, não raramente, por transcrições, eventualmente extensas, de trechos inalterados de autores de época, médicos ou não; entendeu-se que, assim, melhor se transmite o espírito da fase estudada, essencial para a compreensão de fatos em seu verdadeiro tempo de ocorrência. Na realidade, interessa conhecer, na medida do possível, e dentro de um julgamento sincrônico, o que pensavam, sobre medicina e sobre médicos representantes das várias camadas sociais e das diversas correntes de pensamento. Afinal, o conceito sobre medicina e médicos pesava, consideravelmente, sobre a opinião pública, sobretudo em tempos de poucos conhecimentos da arte de curar. Acresce que é importante admitir que um fato histórico narrado, ainda que mais ou menos fantasioso, deve ser tomado em conta, dado que pode representar a verdade da época. Alguns assuntos, como, por exemplo, o alcoolismo, embora importantes em mais de uma fase, foram tratados, principalmente, naquela em que se tornaram mais relevantes. Em algumas ocasiões, deixaram de constar dados cronológicos, por não terem sido encontrados ou não parecerem fidedignos. Intencionalmente, omitiram-se dados médicos técnicos, exceto quando imprescindíveis para a compreensão do assunto em foco. É muito difícil, para não dizer impossível, enquadrar, de modo preciso, corrente de pensamento, opinião intelectual ou movimento social em um período específico. Destarte, a orientação seguida na divisão de capítulos regeu-se pelo predomínio, no Ocidente, ora de um povo, como o grego ou o romano, ora de uma religião, como se deu na Idade Média com o cristianismo católico, ora de tendências filosóficas, como se verificou no Iluminismo. Neste passo, o autor deseja registrar os seguintes agradecimentos: A sua mulher, Margarida, que, como habitualmente, lhe prestou valiosa ajuda, em numerosas oportunidades, notadamente no que se referiu a tradução de textos em alemão, na consulta a dicionários de grego e na revisão dos originais deste trabalho.

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A Regina Soares de Oliveira, Regina Rajs e Froim Mostowski, no tocante a pesquisa bibliográfica. Aos Professores Eliete Bouskela, José Barbosa Filho e Luis Gonçalves Paulo, pela leitura crítica de alguns capítulos. Ao Professor Sílvio Meira, por informações sobre legislação sanitária romana. Ao Professor Ruy Garcia Marques, incentivador de estudos sobre a história da Medicina, pelo auxílio concedido pela Faperj para a publicação deste volume; e À Editora Rubio, pela amável acolhida dada ao autor bem como pelo esmero da realização gráfica. Referências 1. Olson R. Science deified and science defied. Berkeley. University of California Press: Los Angeles. Oxford; 1982. 2. Russell B. Autobiographie 1872-1914. Paris: Éditions Stock; 1968. London: George Allen and Unwin; 1967. 3. Boncenne P, Assouline P. Médecins. Nouveaux maitres à penser? Lire. 1983; (96):21.

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Sumário

1. A Medicina no Âmbito Cultural ............................................... 1 2. O Saber e a Sabedoria dos Gregos .......................................... 43 3. A Organização dos Romanos ................................................. 135 4. O Catolicismo Dominante ....................................................... 173 5. O Ressurgente e o Maravilhoso ........................................... 249 6. A Ordem e a Medida ....................................................................... 311 7. A Vitória do Racional ................................................................ 359 8. A Afirmação da Medicina .......................................................... 409

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1 A Medicina no Âmbito Cultural

Cultura e Civilização

Os termos cultura e civilização são usados, frequentemente, de modo confuso e, eventualmente, indistinto. Eliot (28) não procurou estabelecer a fronteira entre cultura e civilização, que, na realidade, consideraria artificial, reconhecendo que, em certas ocasiões, um vocábulo pode ser usado pelo outro; ele mesmo, em algumas oportunidades, assim procede. Os alemães utilizam, dentro do assunto, três diferentes palavras — bildung, kultur e wirtschaft — significando, a primeira, cultura do espírito, educação; a segunda, civilização; e a terceira — que pode, mesmo, ter conotação depreciativa (causar estragos, fazer barulho) — “as verdades concretas de uma civilização” (48). Na realidade, os germânicos distinguem bem “cultura” de “civilização”, dando àquela uma significação mais voltada para as atividades da inteligência.* Curiosa é a opinião de Hittmair (39), para quem “[...] a cultura ocasiona civilização e esta, ao exaltar-se, conduz ao ocaso * Lima (53) salienta que “os franceses chamam geralmente de civilização aquilo que os alemães chamam de cultura”.

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dos povos. Fala-se, então, de decadência e degeneração”. O esforço cultural do homem consubstanciar-se-ia em tudo quanto ele realiza para libertar-se do que, interiormente, lhe obsta o desenvolvimento; já a meta da civilização seria a de exercer a potencialidade de que a cultura o dota. O homem, ao atuar sobre si mesmo, age sobre a cultura; ao efetuar modificação no meio, influi sobre a civilização. Lima (53) julga que: “quando falamos em cultura de um povo ou de um indivíduo, é mais em sentido pessoal que coletivo, queremos acentuar a sua formação marcada pelo aspecto intelectual, moral e espiritual. Quando falamos em civilização, ao contrário, mais em sentido coletivo que pessoal, embora não exclusivamente, queremos acentuar os elementos políticos, econômicos, jurídicos, em suma, sociais”. Williams (99) reconhece a dificuldade de definir cultura: “[...] em fins do século XVIII, particularmente no alemão e no inglês, um nome para configuração ou generalização do ‘espírito’ que informava o ‘modo de vida global’ de determinado povo”,

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“[...] no século XIX, onde continuou designando um modo de vida global e característico”; “[...] a própria ‘cultura’ oscila, então, entre uma dimensão de referência significativamente global e outra, seguramente parcial.” No que respeita à conceituação da cultura, Toynbee (95) endossa a opinião de Bagby (6), de que uma cultura é representada pelas “[...] regularidades no comportamento, interno e externo, dos membros de uma sociedade, com exclusão daquelas regularidades que são de origem hereditária”, acrescentando, ainda, Bagby (6), que, por ser “o elemento padronizado da história”, a “cultura é o aspecto intelegível da história” . No que toca a civilização, Toynbee (95) entende que ela representa uma “[...] qualidade especial ou uma fase da cultura que tenha existido durante determinada era. No atual estado do conhecimento, a era da civilização parece ter começado há aproximadamente cinco mil anos.” Toynbee (95) estende, ainda, seu conceito de civilização, tendo-a como “[...] um estado da sociedade no qual uma minoria da população, ainda que pequena, fique liberta da tarefa não apenas de produzir alimento, mas de trabalhar em qualquer outra atividade econômica — por exemplo, a indústria e o comércio — que tenha de ser realizada a fim de manter a vida da sociedade no plano material, ao nível da civilização. Estes especialistas não econômicos — soldados profissionais, administradores e talvez, principalmente, sacerdotes — têm certamente sido habitantes das cidades no caso da maioria das civilizações que conhecemos.” Diz, finalmente, que “[...] a presença numa sociedade de uma minoria liberada das atividades econômicas é a marca identificadora da civilização, mais do que sua definição” (95).

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Inclui-se a atividade intelectual, em suas formas diversas, como teorias, postulados etc., e que constituem os fundamentos da filosofia, das artes, da literatura, da ciência, como sendo do domínio da cultura; no âmbito da civilização coloca-se a materialização daquela atividade. Do exposto resulta que, apesar da distinção doutrinária entre cultura e civilização, é forçoso reconhecer-se que ambas permanecem ligadas intimamente e muito se influenciam reciprocamente, além de haver fatos que dificilmente podem considerar-se, claramente, como pertencentes, apenas, ao terreno da cultura ou situados, exclusivamente, dentro dos limites da civilização. Lima (53) chega a dizer que “[...] há uma natural interdependência entre cultura, aspecto eminentemente interior, e civilização, aspecto eminentemente exterior de uma realidade completa, em suas duas faces. A civilização é a face exterior da cultura. A cultura é a face interior da civilização”. Para Eliot (28), na conceituação ou, pelo menos, no estudo da cultura e da civilização, há certos pontos que, sem serem os únicos, devem ser ressaltados: 1. Nenhuma cultura surgiu, ou desenvolveuse, sem estar associada a uma religião; ou a cultura parece ser o produto da religião ou uma religião o produto de uma cultura. 2. São importantes condições para a existência de uma cultura: I. Uma estrutura orgânica (não apenas planejada, mas em crescimento) que fomentará a transmissão hereditária de cultura dentro de uma cultura, o que requer a persistência de classes sociais. II.

Uma cultura deve ser analisável, geograficamente, em culturas lo-

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A Medicina no Âmbito Cultural

cais, o que levanta o problema do regionalismo. III. O equilíbrio entre unidade e diversidade de religião, isto é, universalidade de doutrina, com particularidade de culto e de devoção. Sem estas condições, é improvável o desenvolvimento de uma alta civilização (ou de uma cultura). Excetuado o ponto III, todos os outros dois são relevantes para a história da Medicina. Conclui-se, pois, pela impossibilidade ou, no mínimo, pela inconveniência, num estudo relativo a cultura, de excluírem-se aspectos pertinentes a civilização, e vice-versa. Em se tratando de estudar-se a evolução da medicina no plano cultural, amplamente considerado, o aspecto civilização terá que ser, obrigatoriamente, incluído, não só pelas íntimas relações naturais daquela com a cultura, como, também, pelo fato de que a medicina representa uma atividade de aplicações eminentemente comunitárias e de largas implicações intelectuais e materiais e, portanto, suscetível a amplas repercussões sobre o evoluir de uma civilização. Saliente-se que os assuntos relativos a saúde e a doença, na medida em que a Medicina progride, vêm ganhando repercussão cada vez maior nos âmbitos cultural, social, econômico, político etc. Avanços materiais que, ao longo do tempo, se observam na evolução da civilização ocidental, predispõem ou causam, claramente, doenças, ditas da civilização, e devidas a alterações ambientais, impactos emocionais, guerras, atividades profissionais etc. As situações morbígenas ligadas ao assunto são, naturalmente, muito numerosas;

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cite-se apenas uma, por suas gravíssimas repercussões psíquicas, somáticas, sociais etc., como seja a de progressos tecnológicos que resultem em substituição de trabalho humano pelo de máquina, redundando em verdadeira tragédia, o desemprego. Surgimento da Cultura Cultura Endocêntrica e Cultura Exocêntrica

A cultura humana surgiu no momento em que o homem se reconheceu como tal, aprendendo sua distinção em face de outros seres. Nasceu a civilização quando este reconhecimento — significativo de cultura — se transmitiu a outros homens e quando se iniciou o desenvolvimento de esforços — obviamente, muito rudimentares — para influir sobre o meio exterior, no sentido de amenizar a agressividade deste meio, de obter benefícios, de facilitar a vida humana. Como decorrência, estabeleceram-se regras de convívio, ainda que muito primitivas. Lê-se em Rousseau (81) que “[...] puderam os homens insensivelmente adquirir certa ideia grosseira dos compromissos mútuos e da vantagem de respeitá-los, mas somente tanto quanto poderia exigi-lo o interesse presente e evidente, posto que para eles não existia a providência e, longe de se preocuparem com um futuro distante, não pensavam nem mesmo no dia de amanhã. Se era caso de agarrar um veado, cada um sentia que para tanto devia ficar no seu lugar, mas, se uma lebre passasse ao alcance de um deles, não há dúvida de que a perseguiria sem escrúpulos e, tendo alcançado a sua presa, pouco se lhe dava faltar a dos companheiros”. E salienta, ainda, que obtendo certos avanços, como na comunicação com seu

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semelhante, ficou “[...] por fim o homem à altura de conseguir outros mais rápidos. Quanto mais esclarecia o espírito, mais se aperfeiçoava a indústria” (81). Evidentemente, todos os elementos de formação de cultura e de civilização foramse transformando — ora por evolução, ora por involução —, de modo desigual, heterogêneo, não raro, paradoxal. Na Roma antiga, por exemplo, ao lado de altas manifestações de cultura e de civilização (e, em relação a estas últimas, salientavam-se, especificamente, notáveis instituições jurídicas, instrumentos de proteção individual e social do homem) registravam-se práticas bárbaras, como espetáculos de lutas de gladiadores e massacres de cristãos, como forma de diversão pública e aplaudida por governantes. A compreensão adequada de atitudes, em setores os mais diversos, incluída a medicina, e que, hoje, devem provocar sentimento de repulsa, impõe que elas sejam enquadradas na cultura, na civilização e na época em que foram praticadas. O atendimento desta necessidade, de encararem-se os fatos dentro de uma perspectiva historicista, sincrônica, contextualista, é imprescindível para a boa compreensão dos acontecimentos, em qualquer domínio.* Assim, por exemplo, não há estudo abrangente sobre história da Medicina, na Antiguidade, que não saliente as figuras de Herófilo e de Erasístrato, pelos trabalhos científicos de ambos; contudo, muito provavelmente, * No dicionário Webster (98) assim se conceitua a palavra historicismo, em sua primeira acepção: “Teoria de que todos os fenômenos socioculturais são determinados historicamente, de que todas as verdades são relativas, de que não há valores, categorias ou padrões absolutos e de que o estudioso do passado deve penetrar na mente e atitudes de períodos passados, aceitar seu ponto de vista e evitar qualquer intromissão de seus próprios padrões e preconceitos.”

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praticavam dissecção em criminosos condenados à morte, mas ainda vivos. Entretanto, assim como é necessário que se compreendam cada época e as ideias nela preponderantes, também é preciso que se tenha presente que entre duas ou mais culturas e civilizações contemporâneas as diretrizes nelas dominantes podem diferir, mais ou menos. Ainda hoje, a despeito das enormes realizações nos terrenos da difusão de correntes de pensamento, de costumes, apesar do câmbio cultural entre povos, persistem, entre muitos, várias e marcadas diferenças, há substratos de culturas e de civilizações que não foram suplantados e que se mantêm atuantes, há ideais básicos de que não se afastam, ou se-lo-ão muito dificilmente. É claro que a maneira por que se encaram a vida e a morte atua, de modo substancial, sobre muitas atividades exercidas por quantos estão sob a influência de uma cultura e de uma civilização, e, obviamente, também, sobre a importância atribuída à medicina. A orientação filosófica, os conceitos e os preconceitos religiosos, o papel e a posição do homem no mundo, o progresso cultural e o desenvolvimento da civilização a situação econômica, estarão entre os fatores determinantes das características da Medicina, bem como do papel social e do comportamento dos médicos e da reputação que alcançarem. Pela consideração rápida de traços distintivos das grandes civilizações, vê-se que a ocidental cristã pode-se considerar endocêntrica, atribui ao homem o lugar proeminente entre os seres da Terra e nele reconhece o mais capacitado, de todos os pontos de vista, a deter o domínio do planeta, incluída a prerrogativa de dar a este as instituições e organizações necessárias ao exercício

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