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a r t e d e s i g n C U LT U RA C O NTE M P O R â n e a e t e c n olo g i a

ol af breuning tony bellotto jac leirner antoni mu ntadas constant dul aart

do cairo à cracolândia, ocupações reinventam a política

MURAKAMI O JAPONÊS QUE botou warhol no chinelo

Gugu-dadá

The Band, de Olaf Breuning

I S SN

é preciso ser jovem? Psicanalista , dermatologista e filósofo respondem

A infantilização da cultura em tempos de Big Brother 2 2 3 6 - 3 9 3 9

fev/mar 2012 ANO 02 EDIÇÃo 04 R$ 14,90

ESPECIAL 3D COM óculos para ver IMAGENS DE NOVO FILME EM ULTRA-HD 9 7 7 2 2 3 6

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index

FOFURAS E DIABRURAS O P ÓS -PO P ALUCI NA DO D E TA KASHI M URA KA MI, N ASCIDO DO M ANGÁ E DO AN I M E

34

46 CULT URA DIGITAL

58 DESIGN

80 CURTO-CIRCUITO

102 COMPORTAMENTO

118 CRÍTICA

Google art O artivismo usa e abusa das ferramentas do maior site de buscas da internet

Favor tocar Não se reprima: há peças desenhadas para ser cutucadas e apalpadas

Sempre jovem

Precocidade total Cinco mais que jovens artistas de talento e uma tendência commodity

BBB não é coliseu Os equívocos de um formato obsoleto diante dos novos sistemas de informação

sobre a eterna juventude como padrão de beleza

FOTO: KAYKAYKIKI, CO LTD E LOUIS VUITTON

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index 96

portfólio

Cinema do futuro Filme 3D em altíssima resolução para ver tudo muito além da imaginação Use os ócUlos encartados na revista

90 capa

84 MErcado Editorial

Idiotia superséria Muita irreverência e toneladas de ironia colocam a arte contra a parede

É nóis na fita Com muita ginga, quadrinistas brasileiros conquistam prestígio internacional

50

Mo da

Brincar de super-herói Era uma vez, em um reino muito, muito distante, príncipes e princesas fashion

SeçõeS 9 Editorial | 10 cartas | 14 NavEgação | 26 tribos do dEsigN | 28 MuNdo codificado 112 tErritório | 121 rEviEw | 124 coluNas MóvEis | 126 sElEcts | 128 obituário | 129 dElEtE | 130 rEiNvENtE

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expediente

EDITOR E DIRETOR RESPONSÁVEL: DOMINGO ALZUGARAY EDITORA: CÁTIA ALZUGARAY PRESIDENTE-EXECUTIVO: CARLOS ALZUGARAY DIRETORA DE REDAÇÃO: PAULA ALZUGARAY EDITORA-CHEFE: GISELLE BEIGUELMAN EDITORA DE ARTES VISUAIS: ANGÉLICA DE MORAES DIREÇÃO DE ARTE : RICARDO VAN STEEN REPÓRTERES: JULIANA MONACHESI E NINA GAZIRE COLABORADORES

André Passos, Anna Dietzsch, Baptiste Demay, Bob Wolfenson, Camille Kachani, Clara Benfatti, Daniel Cavallero, Dimitri Mussard, Douglas Diegues, Ivan Cláudio, Marcelo Cipis, Mariasole Cecchi, Monica Tarantino, Osvaldo Costa, Raquel Rennó, Roberto Wagner, Rodrigo Savazoni, Ronaldo Bressane, Talita Hoffmann, Tony Bellotto

PROJETO GRÁFICO

Cassio Leitão e Ricardo van Steen

DESIGNER

Bruno Pugens

ESTAGIÁRIO

Adriano Vanni

PRODUÇÃO

Anna Guirro

PESQUISA DE FOTOGRAFIA

Vera Arruda Esteves

COPY-DESK E REVISÃO

Hassan Ayoub

PRÉ IMPRESSÃO

Retrato Falado

CONTATO SERVIÇOS GRÁFICOS OPERAÇÕES

faleconosco@select.art.br GERENTE INDUSTRIAL: Fernando Rodrigues COORDENADORA GRÁFICA: Ivanete Gomes DIRETOR: Gregorio França GERENTE GERAL: Thomy Perroni ASSISTENTES: Luiz Massa, André Barbosa e Fábio Rodrigo OPERAÇÕES LAPA: Paulo Paulino e Paulo Sérgio Duarte COORDENADOR: Jorge Burgati ANALISTA: Cleiton Gonçalves ASSISTENTE SÊNIOR: Thiago Macedo ASSISTENTES: Aline Lima e Bruna Pinheiro AUXILIAR: Caio Carvalho ATENDIMENTO AO LEITOR E VENDAS PELA INTERNET: Dayane Aguiar. LOGÍSTICA E DISTRIBUIÇÃO DE ASSINATURAS: COORDENADORA: Vanessa Mira COORDENADORA-ASSISTENTE: Regina Maria ASSISTENTES: Denys Ferreira, Karina Pereira e Ricardo Souza

VENDA AVULSA MARKETING

GERENTE: Rosemeire Vitório COORDENADOR : Jorge Burgatti ANALISTA: Cleiton Gonçalves ASSISTENTE: Bruna Pinheiro DIRETOR: Rui Miguel GERENTES: Débora Huzian e Wanderly Klinger REDATOR: Thiago Zanetin DIRETOR DE ARTE: Eric Müller ASSISTENTE DE MARKETING: Marciana Martins

PUBLICIDADE

DIRETOR NACIONAL: José Bello Souza Francisco GERENTE: Ana Lúcia Geraldi SECRETÁRIA DIRETORIA PUBLICIDADE: Regina Oliveira COORDENADORA ADM. DE PUBLICIDADE: Maria da Silva GERENTE DE COORDENAÇÃO: Alda Maria Reis COORDENADORES: Gilberto Di Santo Filho e Rose Dias AUXILIAR: Marília Gambaro CONTATO: publicidade@select.art.br RIO DE JANEIRO-RJ: Diretor de Publicidade: Expedito Grossi GERENTES EXECUTIVAS: Adriana Bouchardet, Arminda Barone e Silvia Maria Costa COORDENADORA DE PUBLICIDADE: Dilse Dumar; Tel.s: (21) 2107-6667 / (21)2107-6669 BRASÍLIA-DF: Gerente: Marcelo Strufaldi; Tel.s: (61) 3223-1205 / 3223-1207; Fax: (61) 3223-7732 SP/CAMPINAS: Mário EsTel.ita - Lugino Assessoria de Mkt e Publicidade Ltda.; Tel./Fax: (19) 3579-6800 SP/RIBEIRÃO PRETO: Andréa Gebin Parlare Comunicação Integrada; Tel.s: (16) 3236-0016 / 8144-1155 MG/BELO HORIZONTE: Célia Maria de Oliveira - 1ª Página Publicidade Ltda.; Tel./Fax: (31) 3291-6751 PR/CURITIBA: Maria Marta Graco - M2C Representações Publicitárias; Tel./Fax: (41) 3223-0060 RS/PORTO ALEGRE: Roberto Gianoni - RR Gianoni Com. & Representações Ltda. Tel.: (51) 3388-7712 PE/RECIFE: Abérides Nicéias - Nova Representações Ltda.; Tel./Fax: (81) 3227-3433 BA/SALVADOR: Ipojucã Cabral - Verbo Comunicação Empresarial & Marketing Ltda.; Tel./Fax: (71) 3347-2032 SC/FLORIANÓPOLIS: Paulo Velloso - Comtato Negócios Ltda.; Tel./ Fax: (48)3224-0044 ES/VILA VELHA: Didimo Benedito - Dicape Representações e Serviços Ltda.; Tel./Fax (27)3229-1986 SE/ARACAJU: Pedro Amarante - Gabinete de Mídia - Tel./Fax: (79) 3246-4139/9978-8962 Internacional Sales: GSF Representações de Veículos de Comunicações Ltda - Fone: 55 11 9163.3062 - E-mail: gilmargsf@uol.com.br MARKETING PUBLICITÁRIO - DIRETORA: Isabel Povineli GERENTE: Maria Bernadete Machado COORDENADORA: Simone F. Gadini ASSISTENTES: Ariadne Pereira, Regiane Valente e Marília Trindade 3PRO DIRETOR DE ARTE: Victor S. Forjaz REDATOR: Bruno Módolo

ASSINATURAS

DIRETOR: Edgardo A. Zabala DIRETOR DE VENDAS PESSOAIS: Wanderley Quirino SUPERVISORA DE VENDAS: Rosana Paal DIRETOR DE TEL.EMARKETING: Anderson Lima GERENTE DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE: Elaine Basílio GERENTE DE TRADE MARKETING: Jake Neto GERENTE DE PLANEJAMENTO: Reginaldo Marques GERENTE DE OPERAÇÕES DE ASSINATURAS: Carlos Eduardo Panhoni GERENTE DE TEL.EMARKETING: Renata Andrea GERENTE DE CALL CENTER: Ana Cristina Teen GERENTE DE PROJETOS ESPECIAIS: Patrícia Santana

SELECT é uma publicação da EDITORA BRASIL 21 LTDA., Rua William Speers, 1.000, conj. 120, São Paulo - SP, CEP: 05067-900, Tel.: (11) 3618-4200 / Fax: (11) 3618-4100. COMERCIALIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Três Comércio de Publicações Ltda.: Rua William Speers, 1.212, São Paulo - SP; DISTRIBUIÇÃO EXCLUSIVA EM BANCAS PARA TODO O BRASIL: Fernando Chinaglia Distribuidora S.A.; Rua Teodoro da Silva, 907, Rio de Janeiro-RJ, Tel.. (21) 2195-3307. IMPRESSÃO: PROL Editora Gráfica Ltda - Avenida Papaiz, 581 – Jd Nações – Diadema/SP – CEP.: 09931-610

WWW.SELECT.ART.BR

Esta revista foi impressa em papel Couché Suzano Print® Gloss 75g/m da Suzano Papel e Celulose, produzido à partir de florestas renováveis de eucalipto. Cada árvore utilizada foi plantada para este fim.


editorial

Do GooGle-DaDá à inteliGência coletiva Cheia de transgressão, irreverência e brincadeiras, seLecT está interessada nos significados do que é ser jovem hoje. Se, por um lado, triplicamos nosso tempo de vida em menos de cem anos (como afirma o dermatologista Otávio Macedo para a jornalista Mônica Tarantino, na seção Curto-Circuito), por outro, a sociedade nunca foi tão gugu-dadá. A infantilização da cultura – no que ela tem de mais fofo ou perverso, retrógrado ou vital – é o tema desta quarta edição de seLecT. Por isso chamamos Tony Bellotto para nos responder por que roqueiros não envelhecem, e convocamos o crítico de arquitetura da revista The New Yorker, Paul Gold berger, para esclarecer o “efeito parque de diversões” que tomou conta das cidades e dos museus. Recorremos também a Rodrigo Savazoni para refletir sobre o papel dos recém-nascidos movimentos de ocupação na construção de uma inteligência coletiva. Afinal, cada um de nós sente na pele o quanto a natureza humana mudou na era da informatização. Mesmo que ainda engatinhemos no que diz respeito a domínio e discernimento das novas ferramentas da cultura pós-moderna, vimos eclodir, em 2011, outro modo de fazer política, a partir das redes inteligentes. Mas também é verdade que, no estágio de exploração sensorial em que nos encontramos em relação às novas tecnologias (equivalente às fases tátil e oral dos bebês), a segurança da nossa vida digital nos é confortavelmente garantida por ambientes protegidos, cálidos e aparelhados para suprimir qualquer perigo ou conflito. Os ícones do bem-estar na era do “capitalismo fofinho” são tema de ensaio da editora-chefe Giselle Beiguelman. As redes são abordadas também na crítica da jornalista Juliana Monachesi ao programa BBB, mostrando como o estágio gugu-dadá da televisão brasileira, seus abusos, equívocos, mediocridade e obsolescência são colocados à prova por denúncias geradas nos novos sistemas de informação. Mas assim como a internet é um poderoso instrumento político capaz de articular e desarticular todas as dimensões da vida, ela também é suscetível a jogos de montar e desmontar. Atenta a esse fenômeno, a repórter Nina Gazire mostra como o maior site de buscas da internet virou um parque de diversões nas mãos de artistas e artivistas do mundo todo. Varias categorias de brinquedos estão contempladas nesta edição. Inclusive o lado B do grande circo do entretenimento. A reportagem “Os idiotas contra o baixo-astral” mostra como a idiotia é uma poderosa arma de resistência contra a infantilização da cultura. O perfil da edição não poderia deixar de ser o artista contemporâneo Takashi Murakami, que tem sua natureza ambígua – mistura de fofura e perversidade – desvendada pela editora Angélica de Moraes. E, já que até Martin Scorsese se rendeu aos encantos da tecnologia 3D para realizar seu primeiro filme para crianças, seLecT decidiu produzir em 3D o Portfólio desta edição, para satisfazer os desejos mais pueris de seus leitores. Boa diversão!

Paula Alzugaray

Ricardo van Steen

Giselle Beiguelman

Angélica de Moraes

Juliana Monachesi

Nina Gazire

Bruno Pugens

Anna Guirro

Hassan Ayoub

Mariel Zasso

Paula Alzugaray

D i reto ra d e re d a ç ã o Adriano Vanni Ilustrações: rIcardo van steen, a partIr do aplIcatIvo face your mangá

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cartas

via Facebook

Parabéns pela seLecT! Revista maravilhosa. Daquelas que vão passando de mão em mão... Até terminar de ler tive de ficar vigiando para os amigos não levarem. Agora mesmo já foi, com a promessa de voltar. Duvido, mas tudo bem... O que é bom merece ser compartilhado! Muito obrigada! Valeria Boa Sorte, via Facebook

Estou adorando a revista. Parabéns e obrigada pelo presente que ela é! Lala Deheinzelin , produtora cultural

Obrigado pela inclusão da nota da hora sobre a mostra This Orient no site da seLecT! Fico feliz com a existência desta publicação. Vi uma matéria sobre a revista na tevê e achei uma ideia incrível. Parabéns a todos vocês. César Meneghetti, artista

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Manoel Inacio Camilo Carreira, leitor

Descoberta da madrugada: @revistaselect _ Preciso de TODAS as edições impressas! Oh my God! Rafael, via Twitter Adorei ver no site o vídeo da grande banda Sex Gang Children (me lembrou a época das antigas que eu ouvia esse som) e o vídeo do Don McLean foi muito legal, gosto do som desse artista. Descobri vocês através da matéria do programa Vitrine, da Cultura. Edson, leitor Angélica, querida, psicografaste isto? Touché! Monica Paiva, de Nova York Show de revista. Esta edição está duca!. Renato Valderramas, via Facebook

via Twitter

Gostei muito da frase “contra-atacar a falta de imaginação” no último número da @revistaselect, na matéria sobre o hotel dirigível. Sergio Amadeu,

J orge Lui s Borges

Quero escanear vo cê Códigos de BArrAs pArA ContAtos interAtivos exclusivo Mac-usP eM branco novo museu é temA de ensAio fotog ráfiCo inédito o dires Mlászh o impressos virA m esCuLturAs, CoLAg ens, reCortes e inCisões

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via Twitter

Amigos, parabéns. Não deixem esta excelente revista seguir pelo caminho daquela que, após passar para os auspícios da arvorezinha, virou uma vitrine de anúncios e anunciantes. Inclusive no campo das artes.

A @revistaselect é uma publicação muito boa de arte, design, tecnologia, cultura etc. Thiago Z. Amâncio,

Augusto d e CA m p os m Aurí C i o i An ês ed i t h d erdy k m evi s & vAn d eurs en

literatura seM auto r espeCiAListAs deBAtem novos formAtos nA rrAtivos: ApLi CAtivos reALiz A rão tArefAs do homem?

A s re i nve n ç õ es d o l i v ro e d a a r te n o m u n d o d i g i ta l

WWW.SElECt.Art.Br

Versão iPad da @revistaselect: Melhor aplicativo editorial brasileiro que conheço. Autores, textos, fotos e edição fantásticos. Pedro Mezgravis,

via Twitter

a r t e d e s i g n C U Lt U r a C O n t e M P O r â n e a e t e C n O LO g i a

o futuro Do pApEl

designer

Alguém me dá um emprego na @revistaselect? Jornalismo cultural de primeira, como sempre sonhei fazer desde o primeiro período de faculdade. Rodrigo Azevedo,

DEZ / JAN 2012

Parabéns pela seLecT. Muito boa a revista. E as fotos do Ricardo van Steen do MAC-USP estão maravilhosas. Roberto (Neco) Stickel,

Escrevo para dizer que estou muito impressionado com a revista seLecT. Em poucas edições, a publicação tornou-se uma das minhas preferidas pela relevância dos temas. Parabéns pela revista, continuarei recomendando por aí. Fausto Sposito,

jan 2012 anO 01 EDIÇÃO 03 R$ 14,90

A seLecT é uma revista que abre a cabeça! Carla Caffé, artista

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professor da Universidade Federal do ABC

Genial a entrevista de Angélica de Moraes com Jorge Luis Borges! Damara Bianconi, artista, via Facebook

Fantástica, clara e justa a afirmação de Borges sobre o livro como “extensão da memória e da imaginação”! Arlete de Oliveira, artista, via Facebook

Parabéns pela revista, une tudo o que mais gosto! @WhiteSkull, via Twitter

Duca, Angélica, sua entrevista com Borges! Tonica Chaga, jornalista, de Nova York

escreva-nos rua itaquera, 423, pacaembu, são paulo - SP cep 01246-030 revistaselect revistaselect www.select.art.br faleconosco@select.art.br

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brígida baltar

voar

curadoria marcelo campos

07.02 > 10.03.2012 avenida europa 655 são paulo sp brasil t 55 (11) 3063 2344 info@nararoesler.com.br www.nararoesler.com.br


colaboradores

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Ronaldo Bressane

Camille Kachani

Mônica Tarantino

André Passos

é jornalista e escritor, autor do livro Céu de Lúcifer, entre outros. Em 2012, lança pela Companhia das Letras sua primeira graphic novel, VISHNU. – mercado editorial p 84

Atua como artista plástico há 12 anos e já participou da Bienal da França e de exposições em Cuba, China, EUA e outros países da Europa. – entretenimento p 76

Escreve sobre medicina e saúde para a Istoé. Ganhou prêmios nessa área e é autora de PretoBrás, o livro de canções e histórias de Itamar Assumpção. – curto-circuito p 80

é fotógrafo com formação em Londres, trabalhou para publicações internacionais como Harper’s Bazaar e Purple. – moda p 50

Anna Dietzsch é mestre em Desenho Urbano pela Harvard e trabalha na Davis Brody Bond Aedas. Abriu uma filial do escritório em São Paulo, onde coordenou projetos como a Valeo VSS e a Praça Victor Civita. – arquitetura p 70

Roberto Wagner é fotógrafo, membro do coletivo SX-70 e colabora com revistas como Vogue, Trip, Mag e época Negócios. – ambiente corporativo p 64

Marcelo Cipis

Tony Bellotto

Artista plástico, autor e ilustrador. Recebeu o prêmio Jabuti de melhor capa por Como Água para Chocolate e publicou dois livros. mundo codificado p 28

Douglas Diegues Nasceu no Rio e cresceu em Ponta Porã, fronteira do Brasil com o Paraguai. é poeta e autor de estudos sobre povos indígenas e línguas híbridas como o portunhol.– colunas móveis p 124

Rodrigo Savazoni é realizador multimídia e ativista da internet livre. é integrante da Casa da Cultura Digital e um dos organizadores do Festival CulturaDigital.Br. – territórios p 112

é guitarrista da banda Titãs. Desde 1995, escreveu sete livros. No Buraco, seu mais novo romance, foi publicado em 2010 pela Companhia das Letras. – colunas móveis p 125

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Osvaldo Costa

Mariasole Cecchi

é francês e decidiu criar raízes por aqui. Abriu a Acaju do Brasil, empresa de distribuição, importação e comunicação de marcas internacionais. – moda p 50

é designer e estudou moda e arte na escola Bunka, em Tóquio. Trabalha como editor de moda e realiza editoriais para diversas publicações nacionais. – moda p 50

Nasceu em Florença, Itália. é criadora da marca de acessórios LES PETITS JOUEURS. Atualmente vive no Brasil. – moda p 50

Daniel Caballero

Talita Hoffmann

Clara Benfatti

Carlos Jimenez

é artista visual residente em São Paulo. Sua obra aborda transformações dos cotidianos urbano e doméstico. – entretenimento p 76

é artista plástica. Utiliza o desenho e a pintura como meios de desenvolver narrações de seu universo particular. – entretenimento p 76

é artista plástica nascida em Paris, mas vive em São Paulo. As grandes cidades e a arquitetura são suas maiores inspirações. – entretenimento p 76

é critico de arte e curador independente. Professor de Estética da Univeridad Europea de Madrid e autor dos livros Extraños en el Paraiso e Los Rostros de Medusa. – crítica p 116

Dimitri Mussard

Baptiste Demay é francês, estudou marketing de luxo e moda em Londres e Paris, e vive em São Paulo há dois meses, trabalhando para a multimarcas LN-CC. – moda p 50

Ivan Claudio é jornalista e editor de Cultura da revista Istoé. – reviews p 120

Bob Wolfenson é fotógrafo. Colabora com as principais publicações nacionais e algumas internacionais. é coeditor e cocriador da revista Sem Número. – comportamento p 102

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notícias + tEndências + transcEndências

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VidEoinstalação play dEad; REal timE, dE douglas goRdon, Em Exposição Em FRankFuRt

Exposição

ExErcício dE mEmória Individual de Douglas Gordon em Frankfurt reúne conjunto poderoso de trabalhos em videoarte e cinema

O Museu de Arte Moderna de Frankfurt, Alemanha (MMK Museum für Moderne Kunst) possui em seu acervo uma das obras mais importantes de Douglas Gordon: a videoinstalação Play Dead: Real Time (this way), (that way),(other way), de 2003, em que o prolífico artista escocês, um dos mais importantes no cenário internacional, desenvolve sua obsessão pela memória em profundidade comovente. Essa videoinstalação ocupa lugar de honra na grande retrospectiva do artista, em cartaz no MMK. A exposição reúne fotografia, vídeo, videoinstalações, arte sonora (sound art) e até mesmo os filmes de longametragem da sua produção recente. Entre eles está Zidane: a 21th Century Portrait (2006), em codireção com Philippe Parreno, sobre o jogador de futebol francês Zinedine Zidane, que teve première mundial no Festival de Cinema de Cannes. AM

D o u g l a s G o r d o n Até 2 5 d e m a r ç o, n o M M K Museum für Moderne Kunst, Frankfurt, Alemanha www.mmk-frankfurt.de

Confira a obra Play Dead: Real Time em http://vimeo.com/11514857 foto: Axel Schneider

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Convite à Viagem – Rumos Artes Visuais 2011/2013 de 9 de fevereiro a 22 de abril. Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149

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www.newmuseum.org

Notas PúBlicas (da série lemBretes), de Íris HeleNa, iNstalação fotográfica aBerta à iNterveNção do PúBlico

artes visuais

Convite à viagem Projeto de mapeamento da produção emergente no Brasil é apresentado a partir de fevereiro em São Paulo

A quinta edição do programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais propõe uma viagem pelo Brasil por meio das mais de cem obras de 45 artistas de todo o País. O destaque é a produção carioca, que ultrapassa São Paulo em número de selecionados (11 contra 8). Outra presença grandiosa é a dos artistas gaúchos (7), maior de todas as edições do programa. Mas o que a exposição coordenada por Agnaldo Farias traz de mais instigante vem do Norte e Nordeste. A artista paraibana Íris Helena faz ampliações fotográficas (jato de tinta) sobre post-its amarelos, nos quais os visitantes podem escrever suas anotações. O maranhense Thiago Martins de Melo participa com quatro pinturas. Ele acaba de integrar a mostra Caos e Efeito, também no Itaú Cultural, com pinturas desconcertantes que sobressaíam no módulo assinado pelo curador Paulo Herkenhoff. JM BeBida

Cerveja iConoClasta BrewDog chega ao Brasil para agradar a paladares não conformistas

A cervejaria escocesa BrewDog foi criada em 2007 por dois jovens insatisfeitos com o mercado britânico de cerveja. Martin Dickie e James Watt, ambos com 24 anos, eram dois amigos com uma missão: “Criar algumas das mais extraordinárias e não conformistas cervejas artesanais conhecidas pelo homem”, conforme atesta o site da marca. As cervejas BrewDog são a epítome do punk, prossegue a propagandamanifesto: “Nós fabricamos cerveja intransigente, ousada e irreverente, cerveja com alma e propósito. A nossa abordagem tem o mesmo desprezo pelo mercado de cerveja em massa que os punks da velhaguarda tinham pela cultura pop”. A atitude e o sabor de suas long necks com nomes como Trashy Blonde (ale frutada), 5a.m. Saint (o Santo Graal das ales vermelhas), Paradox (cerveja de malte “imperial”), Tactical Nuclear Penguin (cerveja preta com 32% de teor alcoólico, resultado de um processo de maturação em barril de carvalho de uísque escocês e diversos processos de congelamento sucessivos) logo caíram no gosto dos mais exigentes e agora está disponível no Brasil com distribuição da Getec Trading. JM Confira a receita em http://vimeo.com/32731091 Fotos: estúdio select e divulgação/Foto da artista

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aRQuitEtuRa FloREstal

vivEndo nas alturas Escritório de arquitetura alemão desenvolve projetos especiais para casas em árvores

Construir uma casa na árvore tem sempre um toque de nostalgia da infância, mas o estúdio de arquitetura alemão Baumraum | Inhabitat dedica boa parte de sua produção profissional a projetos para casas desse tipo. O estúdio produziu casas com diversos tamanhos e com fins diferentes não só na Alemanha, mas também em outros países da Europa. Combinando arquitetura, paisagismo e arboricultura, eles criam habitações nas copas das árvores que se integram à paisagem florestal, preservando a integridade das árvores que lhes dão suporte. Para realizar projetos ecologicamente corretos e sustentáveis, o escritório possui uma equipe integrada de engenheiros e especialistas em espécies de árvores, os quais analisam a distância do solo e a quantidade de espaço disponível para a construção da estrutura. No Brasil, onde temos florestas de variadas espécies de grande porte, não seria mal ter um escritório de arquitetura com essa especialidade. NG

aRQuitEtuRa

Par EcE dE brinquEdo Igreja holandesa lembra blocos de Lego

Durante milênios, o ato de construir igrejas foi o centro de experimentação arquitetônica. Brunelleschi inaugurou a arquitetura renascentista ao projetar o domo da Igreja de Santa Maria das Flores, em Florença. Gaudí misturou o moderno ao gótico, resultando um estilo próprio ao projetar a Sagrada Família, em Barcelona. Depois de tudo isso, por que não simplificar de vez e fazer uma igreja em “estilo” Lego? É quase isso o que acontece com uma igreja holandesa, denominada Abondantus Gigantus, feita com blocos de concreto que pesam 545 quilos. Construída na cidade de Enschede, foi projetada pelo artista e arquiteto Philip Jonker Michiel Wit para o Grenswerk, um tradicional festival de artes do país. Mas não é só na aparência que a igreja em “estilo” Lego confunde quem a vê. Engana-se também quem pensa que o local foi projetado para receber orações mais descontraídas. O edifício foi erguido para receber as atividades que aconteceram durante os dias de festival. NG foto: creAtive commonS Attribution-noncommerciAl-no derivAtive WorkS 3.0 unported licenSe.

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tRês andaREs dE apaRtamEntos pRojEtados soBRE Rodas

constRução

novo jEito dE fazEr a mudança pRojEtos dE Estúdio alEmãopREsERVam intEgRiaddE das áRVoREs

Empresa de engenharia finlandesa projeta primeiro edifício móvel

Foi em setembro de 2011 que o primeiro edifício móvel do mundo começou uma viagem por mar, saindo de um porto localizado na cidade finlandesa de Turku, localizada no sudoeste do país. O bloco completo, com três andares de apartamentos, foi entregue na sua futura localização, em uma ilha próxima à baia da cidade. Projetada pelo escritório de arquitetura e engenharia NEAPO, a estrutura foi levantada por meio de um chassi hidráulico em um estaleiro, antes de ser colocada na barcaça que a transportou. O edifício possui uma estrutura de aço considerada suficientemente segura para o seu transporte, incluindo decoração interior completa e telhas. O projeto foi solicitado por uma empresa que pretende colocar o imóvel para aluguel. A ideia é que o prédio possa mudar de lugar assim que o contrato de aluguel termine. NG

crédito: Jouni SAAriSto e mArkuS bollen

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moda

HomEnagEns ao quadrado Arquivo de fotos de Daniel Buren vira série limitada de lenços da Hermès

Como qualquer indivíduo de qualquer idade ou profissão, o artista francês Daniel Buren coleciona fotografias tiradas em viagens. Só que, em vez de morrer em álbuns de retratos, suas “fotos-souvenires” ganham vida em lenços de seda da Hermès. Os temas variam de florais, marinhos e arquiteturas até fragmentos de uma instalação realizada pelo artista no Ateliê Hermès da Coreia do Sul. Intitulada Photos-Souvenirs au Carré, a série é formada por 365 peças únicas – objetos de arte como monotipias ou pinturas, mas desenhados para ser vestidos e não expostos em paredes. Quatro dessas peças exclusivas chegaram à loja da grife em São Paulo, em dezembro de 2011, à venda por R$ 24 mil. Buren é o segundo artista a personalizar os lenços da Hermès. Em 2008, Josef Albers realizou a série Homage to the Square. PA

lEnço HERmès dE daniEl BuREn

moda

Para fadas tEcnológicas Coleção de estilista americana utiliza tecidos que exploram o LED sem pirotecnia

Na onda dos objetos com bateria recarregável, que tal um vestido feito com tecido luminoso para ser usado em sua noite mais brilhante? Essa é a proposta da coleção Rhyme & Reason 1.0, da designer americana Mary Huang. Para quem possa interpretar essas roupas como algum tipo de acontecimento natalino, a estilista afirma que sua criação é atemporal: trata-se, afinal, de explorar novas tecnologias de geração de luz em tecidos. Em sua mais recente coleção, Huang embutiu uma trama de LEDs que criam um efeito luminescente e diáfano sob a malha. Além disso, caso a usuária não faça questão de sair parecendo uma fada e atraindo vaga-lumes e borboletas ao seu redor, é possível desfilar o modelito simplesmente desligando-o. Todas as roupas da coleção Rhyme & Reason 1.0 possuem baterias removíveis com oito horas de duração. Não saia de casa sem recarregar o seu brilho. NG Rhyme & Reason 1.0 www.fashion.rhymeandreasoncreative.com

foto: dAniel buren (AcimA) e mAry huAng (eSquerdA)

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dEsign

mErgulHo socioambiEntal Coleção alto verão de joias de Elisa Stecca enfoca diversidade dos povos da floresta

Em vez de anéis, brincos e colares, a designer Elisa Stecca criou adornos de braços, aros para a cabeça e joelheiras. Toda inspirada em adornos corporais indígenas, a coleção Anga Teriva (Alma Alegre, em tupi-guarani) também não utiliza nenhum elemento orgânico, só matérias industriais. Em vez de plumas, PVC reciclado. “Eu não quis tirar nada da floresta. Preservar também é assimilar. Assim, procuramos criar contrapontos entre tradição e tecnologia”, diz Stecca. Para a campanha de lançamento, o fotógrafo Bico Stupakoff utilizou um iPhone na captação de imagens subaquáticas com lentes especiais. PA

pEça dE Elisa stEcca inspiRada Em adoRnos coRpoRais indÍgEnas

www.elisastecca.com.br

foto: bico StupAkoff

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mEio amBiEntE

nitidEz E transParência Papel e celulose brasileiros são pioneiros no uso de estratégias verdes FilosoFia

ProfEtas do Pós-rancor Série de programas produzidos por seLecT, Fora do Eixo e Pós-TV discute autores fundamentais para entender a contemporaneidade

Profetas do PosRancor é o nome da série de tevê online que estreia dia 27 de fevereiro no site da revista seLecT. São quatro programas em que o teórico da contracultura Claudio Prado, que formulou o conceito do pós-rancor, discute suas matrizes filosóficas. O termo, veiculado pela primeira vez em um debate em 2010, vem desde então suscitando polêmicas em listas de discussões e já se tornou até tese acadêmica. Contudo, nunca foi explicado. A partir de entrevistas conduzidas por Bruno Torturra, diretor de redação da revista Trip e um dos coordenadores da Pós-TV, e do jornalista Alex Antunes, Prado apresentará autores, livros e ideias que, segundo ele, pontuam, ao longo dos séculos, uma filosofia do pós-rancor. O psicanalista Erich Fromm, autor de Medo à Liberdade, o futurologista Alvin Toffler, autor de A Terceira Onda, e o médico Frederic Leboyer, autor de Nascer Sorrindo, estão entre os “profetas” que serão apresentados e terão trechos de suas obras lidos e comentados por Claudio Prado. Edgar Morin, Bertrand Russell, Jung, Timothy Leary e o pedagogo Anton Makarenko são outros. Segundo Prado, são pensadores marcados por “desvios de comportamento” que os tornaram párias de seu meio e destilaram o rancor fundamentalista de seus pares do século 20. Por isso mesmo são Profetas do PosRancor, do século 21, diz ele. GB

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A poucos meses da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que acontece de 20 a 22 de junho, chovem promessas “verdes”. Mas entre compromissos e sonhos destacam-se os fatos já consumados. São dignas de nota as empresas que já colocaram em ação estratégias despoluentes ou aquelas que incrementaram suas práticas para quantificar, reduzir e compensar os gases de efeito estufa (GEE). Caso da Suzano Papel e Celulose, que até o fim de 2011 estava entre as primeiras indústrias de celulose do mundo a quantificar sua emissão de GEE com a pegada de carbono, a mais eficaz medida de controle de um produto. Se os altos índices de brancura, lisura, opacidade e alvura são alguns dos pré-requisitos de papéis com alto padrão para impressão de livros e revistas, a transparência é condição primordial das empresas comprometidas com a sustentabilidade. Os resultados dos cálculos de emissão de carbono da empresa estão disponibilizados no site www.pegadadecarbonosuzano.com.br

Profetas do PosRancor, estreia: 27 de fevereiro

Th e Un govern a bles, a partir de 15 de fevereiro. New Museum, Nova York

www.select.art.br www.newmuseum.org

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aRtE

tEcnologia dE ProtEsto Artista sul-africano desenha roupa de proteção para manifestantes

No ano em que a revista Time concedeu ao manifestante o título de “personalidade do ano”, o Museu de Arte Moderna de Nova York expôs, entre suas aquisições recentes, a obra Suited for Subversion (Vestido para Subverter), realizada pelo artista sul-africano Ralph Borland em 2002. Fabricada com náilon reforçado com PVC, estofamento e alto-falante, trata-se de uma roupa protegida contra cassetetes policiais, para ser usada por manifestantes durante o exercício de defesa de suas mais ardentes convicções. Uma câmera instalada sobre a cabeça atua como testemunha, gravando as ações policiais. Um alto-falante no centro do peito amplifica e projeta o batimento cardíaco do usuário. Numa ação grupal, quando várias pessoas vestem essas roupas, as batidas aceleradas tornam-se audíveis na medida em que a tensão e a excitação crescem. “O projeto baseia-se em meu trabalho como ativista, envolvido em demonstrações de rua em Nova York e influenciado pelo trabalho de outros manifestantes que vestem roupas de proteção e fazem usos criativos de ferramentas e tecnologias de protesto”, afirma o artista em seu blog. PA

VEstido paRa suBVERtER, dE RalpH BoRland

aRtE

as urgências da gEração 2000 Jonathas de Andrade e Cinthia Marcelle participam da trienal do New Museum

tHE cEntuRy, VÍdEo dE cintHia maRcEllE E tiago mata macHado. copRoduzido com pincHuk aRt cEntRE, kiEV

Sob o título The Ungovernables (Os Ingovernáveis), a segunda edição da trienal do New Museum, em Nova York, dedicada a investigar a produção de artistas emergentes, apresenta obras de 50 artistas e coletivos, sendo nove latino-americanos, entre eles Nicolás Paris, Amalia Pica, Gabriel Sierra e os brasileiros Jonathas de Andrade e Cinthia Marcelle. Uma geração que cresceu em um contexto caracterizado por instabilidade política e econômica, disseminação do capitalismo global e eclosão do fundamentalismo, os artistas selecionados pela curadora Eungie Joo “demonstram resiliência, pragmatismo, flexibilidade e esperança notáveis”, afirma ela. Até o fim de abril, visitantes do New Museum poderão conferir obras que exploram a impermanência e um engajamento com o presente e o futuro, como as esculturas monumentais do argentino Adrián Villar Rojas, que, feitas de argila crua, estão fadadas a quebrar e se desfazer, ou as performances fotografadas da finlandesa Pilvi Takala, que se infiltra em ambientes corporativos e finge trabalhar durante dias (e até semanas), até ser expulsa do local. JM

fotoS: divulgAção/corteSiA gAleriA vermelho

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dEsign

o mais autêntico Punk britânico Design gráfico arrojado e fora dos padrões define a identidade visual das Olimpíadas de Londres

acima, pÔstER da aRtista RacHEl WHitEREad paRa as olimpÍadas dE londREs. acima, à diR, logotipo do EVEnto cRiado pEla agência WolFF olins. aBaixo, os mascotEs WEnlock E mandEVillE

oFEREcimEnto

Robôs? Celulares? Câmeras de vigilância? Difícil avaliar a identidade de Wenlock e Mandeville, mascotes das Olimpíadas e Paraolimpíadas de Londres em 2012. Michael Morpurgo, o escritor de histórias infantis que os nomeou e criou aventuras sobre eles, afirma que são feitos da “última viga de aço do Estádio Olímpico”. Wenlock foi inspirado na pequena cidade de Much Wenlock, na Inglaterra, origem do primeiro comitê para as Olimpíadas, em 1850. Já o nome Mandeville deve-se ao Stoke Mandeville Hospital, em Aylesbury, local que sediou os Jogos Stoke Mandeville, em 1948, e que inspirou a criação dos Jogos Paraolímpicos. Independentemente da origem, ambos são fofos e dóceis como todos os mascotes devem ser. Polêmica – porque diferente e fora dos padrões – é mesmo a logomarca do evento. Criada em 2008 pela agência Wolff Olins, ela representa uma mudança de paradigmas para as logomarcas institucionais e parece estar concatenada ao estilo dinâmico do design de mídias digitais. Segundo o ex-atleta e presidente do comitê organizador das Olimpíadas de 2012, Sebastian Coe, a logo – feita com uma fonte geométrica semelhante a um letreiro em néon – tem como objetivo “estimular a participação do público jovem”.

fotoS: divulgAção

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COBERTURA COMPLETA DE INFORMAÇÃO E EMOÇÃO. Falta pouco para começar a 30ª Edição dos Jogos Olímpicos, mas a Editora Três já colocou seu time em ação. De janeiro até agosto, as revistas ISTOÉ 2016, ISTOÉ, ISTOÉ DINHEIRO, ISTOÉ GENTE, STATUS, PLANETA, MENU, MOTOR SHOW, SELECT e ISTOÉ PLATINUM, vão trazer todos os lances, de dentro e de fora das arenas, do maior evento esportivo do mundo. Tudo para ser lido nas páginas impressas, na internet, no iPad e também nos dispositivos móveis. Cobertura repleta de informação e emoção para você acompanhar como se estivesse em Londres.

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PATROCÍNIO:

REALIZAÇÃO:


design industrial

Nome: BigDog | CompaNhia: Boston DynAmics | aNo de Criação: 2009 | país: eUA | Combustível: óleo Diesel | peso: 108 kg

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Nome: Ar. Drone | CompaNhia: PArrot | aNo de Criação: 2008 | país: eUA Combustível: BAteriA | peso: 379,88 g

Pa u l a a l z u g a r ay

Equipamentos que simulam as funçOes fIsIológicas do corpo humano, quadricópteros guiados por celular e big hits da robótica são objetos de desejo e funcionariam bem até em exposiçOes de arte

Objeto identif Nome: HAmmerHeAD altitude máxima: 2.500 m autoNomia: 482 km veloCidade máxima: 400 km/hora

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Nome: ToileT Bike Neo | CompaNhia: ToTo aNo da Criação: 2011 | país: japão Combustível: produzido a parTir de lixo domésTico peso: 500g

tos nÃo tificados fotos: divulgação

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Assista aos vídeos em http://bit.ly/upoAwF

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tribos do design

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Lu dóf i los Eles deixaram para trás a infância, mas sem perder a ternura. O design meigo e aconchegante, de cores festivas e bordas arredondadas, afaga corpos e mentes desta tribo com alma de Peter Pan Mint Backpack

Mais parece um escaninho, mas, acredite, é uma mochila. A Mint Backpack foi idealizada pelo estúdio de design Mint Pass. É feita de plástico ultraleve

Kotori In-Ear Phones Vendidos

exclusivamente no Japão, os fones de ouvido são customizáveis e vêm em sete linhas diferentes: pop, doce, cool, vivaz, natural, animal e delícia

Baseado na plataforma de veículos elétricos da GE Motors, o sorridente carro-conceito de 2009 da Chrysler é uma pérola do design biofofinho

Nokia Twist Celular

Sonho de consumo de amantes do design ergométrico, o protótipo dobrável da Nokia possui função touchscreen e é multitarefas

Bodum Bistro hand mixer Esta batedeira de

mesa é ultracompacta, com fio retrátil. Ao contrário de outros produtos semelhantes, permite variar seu comprimento, de acordo com a necessidade. Até uma criança pode usá-lo

Nest 6 Food Preparation Bowl Set A coleção de utensílios de cozinha organizados como um ninho ocupa menos espaço e inclui tigelas, colheres de medição, uma peneira e um filtro. A linha da Joseph Joseph prima pelo humor nas cores e na compactação

O-Zone Handheld Vacuum Cleaner

O aspirador manual de pó acaba com a dificuldade de limpar áreas difíceis de alcançar. O modelo é assinado pela designer industrial chinesa Linda Xinrui Jiang, que já desenhou molduras fofinhas para tablets e outros produtos divertidos

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Peapod Concept NEV

Bed Bug Esta é para aqueles que não saem da frente

da televisão. Não é um sofá, é uma cama com estrutura de madeira e estofamento revestido de tecido e forro removível, garantindo fofice sinestésica

PumPack Vacuum Suitcase Você pode

não escapar da multa por excesso de peso, mas conseguirá fechar a mala facilmente. O modelo divulgado via Yanko tem bomba a vácuo embutida na alça, que reduz o volume em 70%, garantem os designers

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mundo codificado

I nse p a r á v eIs d a m e m ó r I a d e h o m ens, a p a r ecer a m n a m e sm a é p o c a d a Ind ú st rI a a u t o m o bIlí st I c a

1CArrinhOs 9OO

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18OO

c r Ia d o s n o s é c ul o 1 9, p a s s a r a m a se r c on h e c I dos c omo “ t e ddybea r ” e m h ome n a ge m a o p r e s I de n t e d o s eua t h e odor e roos e v e l t , q ue se r ecu s ou a p a r t I c I p a r de uma ca ça d a de ur s os e m 1 90 2

UrsOs dE pElúCiA (EUA)

179O

BiCiClEtA pEsqUisA: gisEllE (frAnçA)

BEigUElmAn, ilUstrAçõEs: mArCElO Cipis, infOgráfiCO: riCArdO VAn stEEn E BrUnO pUgEns

a s p r Im eI r a s b I c Ic let a s er a m d e m a d eI r a e não t Inh a m p ed a I s

1413

BOnECAs (AlEmAnhA)

13OO A.C.

ChOCAlhO (EgitO)

os pr I meIros cho cal hos s u r gIram no egI to por vo lta de 136 0 a.c. e tI nham fo r mato de anI m aIs

séC. 6 A.C.

a p e s a r de exIstIrem desde o e g Ito, h á 5 mIl anos, a p r I me I r a f á b r Ic a de bonecas surgIu na alemanha no sec. 15

BOlA (ChinA)

1OOO A.C.

iOiôs dE pEdrA (gréCiA) o s pr ImeIros Io Iô s eram feI to s de marfIm e fI o de seda. os am er Icanos louIs & d ave marx os po pu la rIzaram pelo m undo

5OO A.C.

BAmBOlê (EgitO)

as bolas, eram feItas d e p e lo s d e a nI m a I s na c h Ina . são m a nI a na cIo na l no b r a sI l , e m r a zão d o f u t e bo l, Int r o d u z Id o a qu I n o f Im d o sé cu lo 1 9 , p o r c h a r le s m I lle r

os prImeIros bambolês eram feItos com galhos, no egIto. o bambolê de plástIco colorIdo começou a ser fabrIcado nos eua em 1958.

Fontes: http://www.museudosbrinquedos.org.br/ uoL-Crianças wikipedia

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C r i A d o p o r u M A M er i CA n o d e seM p r e g Ad o , o j o g o T e M p o r bA s e u M Mo d e lo p A r A ensi nA r A Te o r i A e Co nôM i CA d A T A x A si M p les

1 93O

futeBOl de BOtÃO (Brasil)

1BancO 936 imOBiliáriO (eua)

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Cr i A ção br Asil eirA do CArioCA g er Aldo déC ourT. ATé sereM indusTriAli zAd o s , er AM feiTos CoM boTões de Cu eCA, unifo rM es e CAMisAs.

Cr i A ção d o M A r C e ne i r o d i nA M A r qu ês ole Ki r K Ch r i sT i Ansen, o s blo C o s d e p lá sT i Co d er A M o r i g eM não só A o le g o , eM 1958, MAs TAMbéM A v á r i o s ‘ le g o lA nd s’

1 949

legO ( dinamarca) A v e r são p r o f i ss i on A l , T eM p i sT A d e 4 8 M e Tr os d e ex T e nsão

1 956

autOrama (inglaterra)

nA v er são A r T e sA n A l , ex i sT e M d esd e o s A no s 1 9 30, n As r u A s d A C A li f ó r ni A

1958 O filósOfO Walter Benjamin (1892-1940) escreveu que tÃO erradO quantO pensar O BrinquedO cOmO prOduçÃO da criança é “ver a Brincadeira exclusivamente na perspectiva dO adultO”. tinha razÃO. afinal, BrinquedO que se preza só é lemBradO pOrque funciOnOu, em algum mOmentO de nOssas vidas, cOmO antídOtO dO mundO chatO, pOvOadO de gente grande, que ninguém quer imitar. rendam-se, pOrtantO, terráqueOs, à magia das lemBranças!

skate (eua)

1968

videOgame (eua)

o priMeiro Console ChAMAvA-se odyssey 100. o dreAMCAsT, de 1998, iMAugurou A pArCeriA eTernA gAMe/inTerneT

o s b i C h i n h os virTuAis jAponeses forAM febre MundiAl.

1974

playmOBil (alemanha)

1996

tamagOtchi (japÃO)

C o M seu CA b e li nh o i nC o nf u nd í v el, ex i sT e h o j e eM M u i T A s v er sõ e s

2OO9

angry birds (finlândia)

. p r o p õ e o i nsó li T o C o nf r o nTo enT r e p ássA r o s e p o r C o s v e r d es

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A erA do cApitAlismo fofinho e seus dissidentes Giselle BeiGuelman

ilustração bruno Pugens

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Web 2.0 celebra um mundo cor-de-rosa e sem conflito, mas há formas de ocupação que questionam o que vem sendo chamado de “a economia neoliberal dos likes” O processo de globalização colocou os teóricos diante da necessidade de dar conta, sob novas perspectivas críticas, da reconfiguração cultural e política da ordem mundial. O capitalismo, que até o fim dos anos 1980 foi tratado como o vilão conceitual por excelência do mundo acadêmico – especialmente na Europa e na América Latina – precisava, diante da crise das utopias de esquerda do século 20 e dos modelos revolucionários tradicionais, ser reavaliado. Não por acaso, desde meados dos anos 1990, vêm sendo formuladas definições de diferentes matizes ideológicos sobre o tema.

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Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, autor do referencial A Sociedade em Rede, vivemos hoje um capitalismo informacional e baseado na produção, consumo e circulação de informações. Para Antonio Negri e Maurizio Lazzarato, o que vigora é um capitalismo cognitivo, em que a posse do saber é a riqueza (e não mais a posse do trabalho do outro). Até Bill Gates arriscou o seu conceito _ capitalismo criativo _ conclamando os grandes empresários a investir parte de seus lucros em atividades sociais. A essas definições propomos mais uma: capitalismo fofinho. Trata-se de um regime cuja lógica se explicita na iconografia da Web 2.0. Ele celebra, por meio de ícones gordinhos e arredondados, um mundo cor de-rosa e azul-celeste que se expressa a partir de onomatopeias e exclamações pueris. Essa celebração opera por meio de um design de informação, cujo objetivo parece ser suprimir a possibilidade de conflito. A forma mais bem acabada desse tipo de design é a do Facebook, o empreendimento online mais bemsucedido de todos os tempos. Espaço de relacionamento protegido, espécie de jardim murado de redes dentro das redes, o Facebook é uma máquina de aceitação feliz do mundo. O pai do seu amigo morreu? O Japão foi inundado por um

#SOPAblackout, que uniu ativistas, Wikipedia e sites de corporações contra votação de lei antipirataria, é exemplo das Zonas Temporárias que põem em questão as retóricas do capitalismo fofinho

tsunami? A jornalista sumiu na Líbia? Ótimo, você pode apertar o botão Like e curtir isso tudo com seus amigos. No limite, isso cria uma verdadeira rede antissocial, pois esse modelo tende à rarefação dos conflitos, uma vez que suprime a necessidade de negociação entre as partes. Consolidam-se aí mundos planos, de comunidades cujos membros replicam os gostos uns dos outros e no qual entram apenas aqueles que são nossos semelhantes. Isso não implica, porém, que organizem redes de inteligência coletiva ou vocação para o comum. Pelo contrário, fomentam, paradoxalmente, uma aspiração individualista que calibra o sucesso de sites como Is It Old? (www.isitold.com). O Is It Old? é um programa de busca que pretende proteger seus usuários de passarem por trouxas. “Antes de fazer papel de bobo quando envia um link para seus amigos, colegas ou seguidores no Twitter, insira-

créditos: Jake thomas, occupy Labs, ashLey carter, eL passo Libre e phLoating man

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-o aqui para ter certeza de que é novo o bastante”, adverte a home page. Caso já tenha sido tuitado mais de uma meia dúzia de vezes, o site vocifera: “Ridiculamente velho! Isso já está cheirando mal. Já foi tuitado 120 vezes e há mais de 200 dias”. Contudo, são em grande parte os mecanismos disponíveis nas redes sociais e no seu imaginário o que permite também a articulação de novas formas de fazer política, grupos de contestação que estão dando cara ao século 21, como ficou patente com a Primavera Árabe, as ações do WikiLeaks e dos Anonymous, todas bastante discutidas nas mídias de todos os portes. Mais diluídas e, no entanto, cada vez mais constantes são as infiltrações que se espalham nas redes sociais, através do Twitter e do Facebook, e tensionam o campo do design de informação e a retórica do mundo sem pontas e sem perigos do capitalismo fofinho.

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Designers propõem uma linguagem visual Das ocupações

Trata-se de uma ocupação da web que se dá na periferia e nos interstícios das redes corporativas, contestando o que vem sendo chamado da economia neoliberal dos likes (ícones de aprovação do Facebook), que se justificam pelas suas ações pontuais e locais. São verdadeiras Zonas Autônomas Temporárias – uma conceituação de Hackim Bey para grupos que se unem em razão de objetivos comuns, em formatos não hierárquicos, como bandos efêmeros. Um bom exemplo disso foi o #SOPAblackout, que uniu ativistas, Wikipedia e sites de corporações, como Google e Flickr, contra a votação da lei antipirataria norte-americana, no dia de sua apresentação à Câmara dos Deputados nos EUA, retirando mais de 100 mil sites do ar por um dia. (Leia especial sobre o assunto na seLecT online). Outras formas de ocupação que também questionam as dinâmicas do capitalismo fofinho são movimentos como o Occupy Cyberspace, que propõe a formação de uma rede social dos ativistas do OWS, a Global Square, e redes alternativas, como a Diaspora.com e Unthink.com, em operação desde o ano passado. Extremamente bem cuidadas do ponto de vista do webdesign – clean no caso da Diaspora, e contemporâneo no da Unthink –, apostam em uma estética menos infantilizada e em políticas de preservação da privacidade de seus membros. Comprometidos com agendas transformadoras, buscam, acima de tudo, outros parâmetros de sociabilidade que não redundem em uma abordagem quantitativa das afetividades balizada pela competição por números de amigos e seguidores. Na mesma direção, com plataformas menos ambiciosas, porém não menos críticas, merecem destaque projetos como o Hatebook, que parte do pressuposto de que ninguém tende a ser mais seu amigo do que o inimigo do seu inimigo, e o My Frienemies, no qual nos cadastramos com informações sobre o que não gostamos. São nesses espaços que a ideia de ocupação, palavra prenhe de significados militaristas, ganha novas dimensões propondo um território de confluências e objetivos temporários, baseados em princípios que não cabem mais em cartilhas de esquerda e direita, mas que pressupõem a construção coletiva de novas agendas comuns. Elas reinventam as formas de sobrevivência, de convivência e especialmente de fazer política, que deixam de ser feitas na internet, ou fora dela, para vazar nas redes de todos os tipos e formas.

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O ja pO nê s que sup erOu a n dy WarhO l n a p rOduçãO g lO ba li zada e m assiva d e arte , faz u m p ó s -pOp a m b í guO, m i stu ra d e fO fu ra e p e rve rsi dade angélica de moraes

The FacTory (a Fábrica), o míTico esTúdio que andy Warhol criou nos anos 1960 na rua lexingTon, em nova york, para inundar o mundo das arTes com uma produção verTiginosa, Fica minúsculo na comparação. o mundo das artes mudou definitivamente de escala. Warhol tinha meia dúzia de auxiliares e seu mercado eram os eua e, depois, alguns países europeus. Takashi murakami vende para os cinco continentes, mora entre Tóquio, nova york e los angeles e mantém ocupada uma centena de assistentes, em três “fábricas”: em Tóquio, trabalham 50 assistentes no estúdio central e mais uma dezena no estúdio de animação. na sede norte-americana, em long island (ny), há outros 40 auxiliares e mais uma dezena no escritório nova-iorquino, que coordena a produção executiva de sua agenda de exposições ao redor do mundo, em estreito diálogo com as galerias que o representam. a próxima exposição individual de murakami será inaugurada em 9 de fevereiro e fica em cartaz até 24 de junho, no qatar museum, em doha (golfo pérsico). denominada sugestivamente de ego, é a primeira em grande escala do artista no oriente médio. acontece depois do sucesso da individual no palácio de versalhes (França), em 2010, e na galeria gagosian de roma, no ano passado. em pouco mais de duas décadas, murakami criou um império onde jamais o sol se põe: o kaikai kiki company limited. o nome da empresa dá a pista para entender sua produção. são dois personagens onipresentes na obra: kaikai é um bebê róseo e feliz metido em uma fantasia de coelho, kiki tem expressões diabólicas e dentes serrilhados de diabinho. ambos saltaram do universo otaku, ou seja, da cultura de massa japonesa baseada no animê (desenho animado) e no mangá (história em quadrinhos).

TA KA SHI mu rA KA mI ©

cortesia takashi murakami/ kaikai kiki co., ltd.

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murakami na parada de thanksgiving day de 2010, em nova york, com os bal천es de seus personagens kaikai e kiki ao fundo

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TAN TAN BO PUKING - A.K.A. GERO TAN, 2002 acrĂ­lica sobre tela

cortesia galeria perrotin, paris

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A cultura oficial japonesa detesta as manifestações otaku na mesma medida em que venera a cerimônia do chá. Mas Murakami é a melhor representação da cultura japonesa contemporânea. Uma cultura multifacetada que trata as fraturas do pós-guerra e as sequelas atômicas de Hiroshima e Nagasaki desenvolvendo uma fascinante relação de amor e ódio com o Ocidente. Algo novo que refaz os mitos de bravura não mais pelas sagas dos samurais, mas pela ação dos super-heróis apropriados da tradição ocidental dos estúdios de HQ da Marvel e da Disney. De Warhol à Disney A aparente banalidade da obra de Murakami é apenas isso: aparente. O artista é autor do Manifesto Superflat (2000) texto sofisticado em que defende uma arte feita de superfícies planas, em oposição à tradição ocidental da perspectiva renascentista. Seria possível imaginar a maestria de desenho de Murakami sem que houvesse, antes, o mestre nipônico da gravura em madeira (xilogravura) Hokusai? Foi Hokusai, com as séries de panorâmicas

misturadas a personagens, quem prefigurou o universo planar do desenho animado de qualquer latitude. Também da mesma época (Período Edo, séculos 16 a 19), a pintura Kanô (fundo de ouro), é rigorosamente planar ao criar cenas em diversas distâncias e também influenciou Murakami, que focou seus estudos universitários nesse assunto. Warhol, autodidata alérgico a teorias, também transformou suas pinturas em superfícies planares e esse é um dos traços a unir a arte pop do norte-americano ao pop otaku de Murakami, além do uso de matrizes serigráficas na pintura. Mas a personalidade dos dois não podia ser mais diversa. Warhol ganhou de seus assistentes o apelido de Drella, por combinar a candura de Cinderela e o utilitarismo vampiresco de Drácula. Algo a ver com Kaikai e Kiki? Difícil saber diante da notória discrição oriental. Mas Warhol não costumava criar oportunidades profissionais para seus assistentes. Murakami já tem uma década dessa prática. “Kaikai Kiki também

cortesia galerias perrotin, paris; gagosian, ny e marianne boesky, ny

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acima, à esquerda, wARhOl/sIlvER, 2009, acrílica com folha de platina sobre tela. acima, KAIKAI KIKI ANd mE - fOR BETTER OR wORsE, IN GOOd TImEs ANd BAd. ThE wEAThER Is fINE, 2010, acrílica com folha de platina sobre tela. abaixo, sUPER NOvA (1999), acrílica sobre tela

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perfil

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trabalha para nutrir e desenvolver a próxima geração de artistas”, diz ele em seu site oficial http://english.kaikaikiki.co.jp. Murakami concebeu e organiza, desde 2001, a Geisai Art Fair, uma feira de arte originalíssima, em que não há a mediação de galerias. Os jovens talentos são selecionados por um júri de curadores de prestígio e participam de uma mostra com duração de um único dia, com acesso direto a colecionadores e a um público especializado. A próxima feira Geisai acontece dia 14 de setembro, em Tóquio. O evento anterior foi apresentado em paralelo à feira Miami Basel, em dezembro. Além disso, Murakami participa de coletivas com seus assistentes mais talentosos, revelando nomes como Yoshitomo Nara e, atualmente, Akane Koide (que começou a expor na Geisai com 15 anos), autora de retratos de uma juventude que se autoflagela

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M u ra k aMi co n c eb e u e o rga ni za , des de 20 0 1 , a g e i sai art Fai r, u M a Fe i ra de arte jove M e M qu e n ão há a M e d i aç ão de ga l e r i as

à esquerda e à direita, as esculturas em fibra de vidro my lONEsOmE cOwBOy (1998), vendida por us$ 15,2 milhões na sotheby’s, e hIROPON (1997)

cortesia kaikai kiki co, ltd

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à esquerda, OvAl BUddhA GOld (2007/10), na exposição realizada no palacio de versailles (frança), em 2010. acima, bolsas louis vuitton da série mONOGRAm chERRy BlOssOm (2003) e mONOGRAm cERIsE (2005). ao lado, ThE wORld Of sPhERE (2003), acrílica sobre tela

com lâmina como reação ao vazio consumista. Assim como Nara no passado e Koide na atualidade, muitos jovens povoam os estúdios de Murakami, somando competências para executar projetos do astro. O processo de trabalho assemelha-se ao dos estúdios Disney, onde o roteiro e as características dos personagens são esboçados pelo autor e completados pela equipe. Curto-circuito no conceito de autoria? Sim, toneladas disso. Mas o artista garante que acompanha todos os detalhes e estágios de produção de uma peça. A internet e a webcam estão aí mesmo para tornar essa versão aceitável como verdadeira. As cores, por exemplo. Ninguém que já teve o privilégio de ver ao vivo uma pintura de Murakami deixou de ficar impressionado com a sutileza das centenas (centenas!) de camadas de tinta sobrepostas com total controle de registro de impressão serigráfica, bordas nítidas e cromatismo intenso e complexo.

cortesia louis vuitton e kaikai kiki co, ltd

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perfil

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acima, RElEAsE chAKRA’s GATE AT ThIs INsTANT (2008), acrílica e folha de platina sobre tela. na página ao lado, BEyONd ThE PAlE Of vENGEANcE (2011), acrílica sobre tela

Luxo e arte Em entrevista ao site www.paris-art.com em novembro de 2006, quando de sua exposição de pinturas na parisiense Galerie Perrotin, o artista confirmou que “a serigrafia me permite trabalhar com camadas sucessivas; a pintura se acumula e os tons mudam em razão desse acúmulo. A textura evolui nesse processo. (...) O trabalho serigráfico, mecânico, permite obter uma base de trabalho que depois é terminado à mão”. Nas fases preparatórias, observa ele ainda, “o computador é muito útil, para desenvolver a ideia principal e estabelecer um plano geral. Logo a seguir, meus assistentes executam o meu projeto. Dirijo e acompanho tudo que acontece e, no fim das contas, é como se eu mesmo pintasse todas as peças”. A aparente fofura do elenco de personagens de Murakami, moldado nas histórias em quadrinhos infantis, guarda diversos signos do mal-estar cultural gerado pelo embate entre o Japão tradicional e o Japão do século 21. Os cogumelos vermelhos com bolinhas brancas, constantes nos trabalhos do artista, remetem ao cogumelo alucinógeno Amanita muscaria, mas também ao grande cogumelo, o maior de todos: o da bomba atômica. Um de seus protagonistas ganhou o nome de Little Boy (garotinho), o mesmo nome da bomba que foi lançada sobre Hiroshima. Assim como Warhol, Murakami fez do mundo da moda e da publicidade algo integrado à sua produção. A convite do designer Marc Jacobs, diretor artístico da Louis Vuitton, Murakami desenvolveu, a partir de 2000, séries de padronagens para bolsas e outros acessórios fashion. As mais famosas e disputadas são as séries Eye Love Monogram (2003) e Cerises (Cerejas, 2005). Mas novamente Murakami foi muito além: instalou uma loja Vuitton

a obra de M uraka Mi teM taMbéM u M lado tr á gi co, que r eMet e ao t rauMa da boM ba at ôMica

no meio do espaço expositivo de sua mostra retrospectiva, em 2007, no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (Moca), com bolsas de tiragens especialmente criadas para ser vendidas nesse local. Como obras de arte. “Isso significou o ponto mais alto dessa colaboração entre o mundo da arte e o mundo da moda”, disse Yves Carcelle, presidente internacional (CEO) da marca. Marc Jacobs observa que o evento no Moca “foi um monumental casamento entre arte e comércio, para ser registrado tanto nos livros de história da moda como de história da arte. A melhor parte disso tudo é que continua, cresce, se transforma e fascina”. Para Murakami, “essa experiência na indústria do luxo é transferível ao mundo da arte. A comparação funciona perfeitamente. A sede de novidade é tão grande quanto, ela é a marca de fábrica da arte contemporânea, que vive bradando pela renovação”.

cortesia galerias blum & poe, los angeles e gagosian, ny

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fotos: edouard fraipont/cortesia galeria vermelho

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Um parque de diversões chamado

Artivistas apropriam-se de uma das maiores empresas do mundo para contestar, fazer arte ou dar muita risada

NiNa Gazire

“Don’t be evil!”

(Não seja mau!) é o slogan do Google, empresa avaliada em US$ 39,7 bilhões e a quinta marca mais valiosa do mundo. Esse preceito “googleano” serviu como provocação para alguns artivistas dispostos a tudo para questionar o monopólio e o poderio econômico da empresa. É o caso do polonês Piotr Parda, do holandês Constant Dullaart e da parceria entre o duo, suiço-austríaco-norte-americano, UBERMORGEN com os italianos Alessandro Ludovico e Paolo Cirio. Eles protagonizam notórios casos de mobilização ideológica – ou gozação mesmo –, que também podem ser interpretados como trabalhos artísticos. Em 2002, Piotr Parda realizou On Ocasion, uma série de trabalhos modificando a logomarca do Google, que causou muita polêmica. Retrabalhando as letras, ele fez uma espécie de Google Doodle – modificações temáticas no logo da empresa – com temas como nazismo, Ku Klux Klan e os conflitos de Darfur, no Sudão. O artista questionava a estética do Google e também o fato de o logo fazer, então, apenas modificações que celebrassem eventos norte-americanos, apesar de seu alcance ser mundial. “Senti necessidade de criar meus próprios rabiscos, em

No fundo da página ao lado, imagem do trabalho Google Will Eat Itself, feito pelo duo UBERMORGEM em parceria com os artistas Alessandro Ludovico e Paolo Cirio. O objetivo é comprar ações do Google por meio de anúncios publicitários criados pelos próprios artistas À direita, de autoria anônima, Google Gravity, a página do Google desaba, caindo na tela assim como um objeto cai no chão, e Google House, dos artistas Marika Dermineur & Stéphane Degoutin, em que uma casa é construída com imagens do Google Image

fotos: divulgação

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vez de ‘assumir’ o Google como uma ‘ideologia’ ou um ‘sistema’. Senti a necessidade de pintar os doodles usando lápis-aquarela. Na verdade, todos os logos de On Ocasion, que foram expostos em galerias de diferentes partes do mundo, são aquarelas scaneadas”, diz o artista. Constant Dullaart, outro netartista, questionou a hegemonia da empresa em Google Disco Disease (Doença Disco do Google), de 2009. Nessa obra, ele apresenta buscas por imagens relacionadas à palavra disease, inserindo uma solicitação de cor específica associada à busca (azul, amarelo ou vermelho, por exemplo). As páginas de resultados são apresentadas em sequências cronometradas, criando um certo clima discoteca, com direito a trilha sonora de fundo. Um dos mais polêmicos projetos, contudo, é o Google Will Eat Itself (O Google Comerá a Si Próprio), de 2005, de autoria do UBERMORGEN com os artistas Alessandro Ludovico e Paolo Cirio. A intenção do projeto era implodir o Google comprando todas as ações da empresa. “A motivação prévia para a Google Will Eat Itself foi o desgosto com os projetos de arte com o Google”, comentou Hans Bernhard, do UBERMORGEN. Em GWEI, sigla pela qual o trabalho ficou conhecido, a dulpa produz anúncios com o Google Adense, serviço de publicidade oferecido pelo site, exibindo-os em sites de redes privadas ligadas aos autores do trabalho. Com o dinheiro gerado pelos anúncios,

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eles compram ações do Google com o objetivo de se tornarem, gradualmente, proprietários. Caso o empreendimento dê certo, prometem entregar todas as ações para o GTTP Ltd. (Google To The People Public Company), de propriedade dos artistas criadores do projeto. Essa associação, a GTTP Ltd., é encarregada de receber clicadores que se cadastram voluntariamente para acessar os anúncios providos pelo AdSense criados pelos artistas. Atualmente, o GWEI detém 819 ações do Google, que, somadas, valem mais de US$ 400 mil. Esse dinheiro foi arrecadado com base em mais de 1,5 milhão de cliques em anúncios e é enviado para uma conta aberta em um banco da Suíça. Com base nos ganhos atuais, o artista Bernhard, do UBERGMORGEN, calcula que dentro de 200 mil anos eles se tornarão os donos da empresa. Anônimos e divertidos Nem só transgressão e rebeldia fazem a Google Arte. Grande parte das apropriações é feita de irreverência e brincadeira. Um desses exemplos é Where in The World Is The Loira do Banheiro? (Em Qual Lugar do Mundo Está a Loira do Banheiro?), do brasileiro José Carlos Silvestre. Foi em 2007 que o artista, ao realizar um trabalho para uma disciplina do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP, criou uma das obras mais divertidas da rede. O trabalho é um dos primeiros a se apropriarem de outra ferramenta do Google, o Google Maps. Para isso ele escolheu a famosa lenda urbana da Loira do Banheiro, em que o

Nem só transgressão e rebeldia fazem a Google arte. Grande parte das apropriações é feita de irreverência e brincadeira

À direita, Google Fight , dois termos quaisquer são colocados para disputar o título de mais procurado do Google. À esquerda, Google Disco Disease, onde a palavra “disease” é procurada pelo Google Color Search em tempo real

fotos: divulgação

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suposto espírito de uma estudante assombra os banheiros das escolas em diferentes partes do mundo. Muito mais do que aguçar a curiosidade adolescente ou de quem acredita na história, a brincadeira acabou por revelar que existem diferentes versões do “mito” atraindo participantes de outros lugares do planeta. Participar de Where in The World is The Loira do Banheiro? é simples. Basta acessar o site http://bogotissimo.com/ mapas/loira.php e dar as coordenadas locais da última visão do fantasma. Se possível, relatar de que maneira o encontro se deu e clicar em enviar. Os dados serão adicionados ao registro e em seguida um fantasminha aparecerá no Google Maps indicando o local de ocorrência do fenômeno. “Como história de fantasma é uma espécie de meio-termo entre o documental e o criativo, achei que seria uma boa forma de começar a trabalhar com o Google. Você pode seguir um viés mais propriamente político, mas também partir da importância que esses sistemas ganharam para a nossa subjetividade e expor sua influência por meio da subversão tecnológica”, diz Silvestre. Nem todos os projetos famosos têm autoria conhecida. Clássicos como Google Gravity, que ao ter a página aberta provoca um efeito de desabamento do logo do Google, ou o Google Fight, em que um mecanismo simula a luta entre dois termos quaisquer pelo título de mais procurado, são trabalhos anônimos e que fazem a graça desse grande parque de diversões chamado Google. Ainda nessa onda estão outras “performances” como o Google Winnie, no qual o logotipo vai diminuindo gradativamente, o Google Epic, em que o logo vai aumentando até ocupar a tela inteira, e o Google Demolition, onde a marca é implodida. Os responsáveis por essas empreitadas não deram as caras, mas suas criações são citadas por qual-

quer um que se diz especialista em “Google Fun”. Talvez o trabalho que resume melhor toda a ambiguidade do Google, curiosamente, não se dê em rede, mesmo utilizando o Google Street View para transformá-lo em uma animação. Criado, em 2011, pela The Theory, produtora inglesa de filmes publicitários, Address Is Approximate (Endereço Aproximado) é realizado por meio da técnica de stop motion e tem enredo estilo Toy Story. Os brinquedos que enfeitam a mesa de um escritório ganham vida quando o ambiente está livre da presença humana. O desejo de abandonar o lugar, ainda que impossível de ser realizado no “mundo real”, é atingido quando os robozinhos usam um carro de brinquedo estacionado em frente à tela do computador. Eles simulam uma viagem pelo Google Street View, percorrendo diferentes lugares do mundo. O Google, que se tornou a principal porta de entrada para a internet, nos dá um pouco dessa ilusão de Address is Approximate: a de nos possibilitar “viajar” pelo mundo infinito da informação e, de vez em quando, nos fazendo esquecer de que há um lindo dia de sol brilhando lá fora.

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Acesse as obras citadas em http://bit.ly/tG1UID

Acima, o trabalho On Ocasion, do artista Piotr Parda. Em 2002, as logomarcas foram feitas em protesto contra as datas comemorativas escolhidas pelo Google. Relembram as mortes causadas pelo nazismo, pela Klu Klux Klan e os conflitos de Darfur, no Sudão

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Ao infinito

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e


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e Além! * 51

eles são heróis e seus cavalos só falam inglês. elas são princesas lindas, noivas intergalácticas inacessíveis. Assaltantes de armários dos pais, reinventam roupas para criar armaduras, vestidos de baile e fantasias de sonho Fotos a n d r e pa s s o s , edição de moda o s va l d o c o s ta da esquerda para a direita, Baptiste veste Carré e gravata Hermès, Blazer viComte a., Calça laCoste, meias Falke, tenis twins For peaCe. osvaldo veste parka missoni, Blazer Brunello CuCinelli, gravata Hermès, Calça viComte a., meias Falke, Botas louis vuitton, Cinto anderson’s. dimitri veste parka e CasaCo surFaCe to air, Carré gravata e sapatos Hermès. *grito de guerra do astronauta Buzz ligHtyear no Filme toy story

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Baptiste e Dimitri vestem casacos Da cavalaria militar De Napoleรฃo BoNaparte (acervo pessoal), calรงas e polos vicomte a., coelho empalhaDo e Broches Da taBela periรณDica Da loja Do Bispo.

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Baptiste veste Carré e Cinto Hermès, parka surfaCe to air, Calça laCoste, Botas louis vuitton. Cléo veste BomBe de equitação, fouet, gravatas, pulseira e sellier talaris tudo Hermès. Corset e saia marita de dirCeu, Cinto e sapatos louis vuitton, tailleur Weill

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da esquerda para a direita, Mariasole usa vestido de sr alber elbaz para lanvin feito para a loja H & M eM paris, sapatos CHristian louboutin. torre eiffel, Cano de ar-CondiCionado e baCk ligHts loja do bispo. baptiste usa guarda-CHuva rua 25 de Março, polo, blazer e berMuda viCoMte a., Cinto anderson’s, Meias falke , botas louis vuitton, gravata HerMès. Cléo usa Colete de peças de Metais glória CoelHo sobreposto eM trenCH de reinaldo lourenço e sapatos CHristian louboutin.

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aciMa: baPtistE vEstE chaPéu hErMès, cashMErE Missoni, Polo E shorts vicoMtE a. , MEias FalkE, saPatos louis vuitton. baMbolês rua 25 dE Março. diMitri vEstE cashMErE Missoni, Polo E shorts vicoMtE a. , MEias FalkE, saPatos hErMès. cléo vEstE colEtE E vEstido Glória coElho , saPatos osvaldo costa Para sarah abstrato , Minicasaco MulticorEs udi la Galinha. à dirEita: MariasolE vEstE rEinaldo lourEnço, bolsa MariasolE cEcchi Para lEs PEtits jouEurs, saPatos christian louboutin. clEo vEstE rEinaldo lourEnço, bolsa MariasolE cEcchi Para lEs PEtits jouEurs, saPatos osvaldo costa Para sarah abstrato. back liGht loja do bisPo. Produção ExEcutiva: anna Guirro. ModElos: MariasolE cEcchi, clEo dobbErthin, diMitri Mussard, baPtistE dEMay E osvaldo costa. bElEza: bruno Miranda aGradEciMEntos: FazEnda catuçaba, loja do bisPo, hErMès

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tátil, tangível Designers e artistas colocam a mão na massa para criar espaços e objetos que atingem altos níveis de sedução tátil. É o contra-ataque da gestualidade e do palpável? PA U L A A L Z U G A R AY

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À esquerda: Girafa em crocodilo (2011), criada por Marjolijn Mandersloot para o ateliê petit H. nesta página: instalação diG (2011), de snarkitecture à esquerda: CoCo amardeil; à direita: Peter a lee

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aciMa, Ghost chair, de snarkitecture, da galeria Baró; aBaixo, puff tato-White Bunny, de Maurizio galante, feito eM poliuretano Macio coBerto coM tecido tecnológico e iMageM iMpressa, da firMa casa

Os BuBBle Games Bem que tentaram. Viraram mania em laptOps e palmtOps, cOmO que reVerBerandO em uníssOnO: O que a pOnta dOs dedOs nãO tOca O cOrpO nãO sente. mas isso até aparecerem mobiliários inteiramente revestidos por plástico bolha, devolvendo-lhe a condição de “material” e redimensionando suas relações sensoriais. ao criar a Bubble chair, os designers brasileiros rodrigo almeida e Guto requena evocaram a memória infantil de estourar as bolhinhas com os dedos, mas amplificando-a para todo o corpo. “decidimos penetrar essa bolha e seguir um caminho que guiou nossos pensamentos para um universo onírico e de fantasias, obedecendo apenas à vontade do material e dos estímulos que ele proporcionava”, afirmam eles. como almeida e requena, há diversos artistas e designers que trocam o tato da tecla do computador pela criação de espaços tangíveis e tridimensionais. quando a dupla Humberto e Fernando campana deixou a zona de conforto dos produtos industriais macios, abandonando-a pelo tensionamento entre realidades tão contraditórias como o vime e o plástico, chegou a uma obra que explora por completo o fascínio das matérias. isso fica evidente em seus objetos artesanais, como o cabideiro de couro em forma de árvore seca, uma de suas últimas criações. na França, a manualidade faz a diferença do petit h, laboratório fotos: marCos Cimardi (BuBBle Chair), Baleri (Pufe tato-tatoo), daniel malhao

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61 À direita, BuBBle cHair (2011), de rodrigo alMeida e guto requena, feita de plástico BolHa; aBaixo, as esculturas Hercule (2011) e la Monégasque (2011), de joana Vasconcelos

Ao criar a Bubble Chair, Rodrigo Almeida e Guto Requena evocaram a memória infantil de estourar as bolhinhas com os dedos, mas amplificando-a para todo o corpo

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design e arte

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criativo da Hermès, que desde 2010 aproxima designers e artesãos em atividades de reaproveitamento de matéria-prima. a responsável pelo projeto, pascale mussard, define a produção como “objetos poéticos não identificados”. O trabalho manual chega às últimas consequências em daniel asrham/snarkitecture, tornando-se um impulso tátil corporal. na instalação performática diG, realizada em nova York, em 2011, o artista, armado de martelos, picaretas e cinzéis, mergulhou em blocos de isopor, criando um ambiente tridimensional que denomina “arquitetura da escavação”. “nós não usamos modelagem paramétrica. todo o nosso trabalho é criado pelas mãos”, diz asrham, que com o mesmo empenho braçal manufaturou as paredes da

loja do estilista richard chai, em nova York. seu design tátil e tangível inclui também a Ghost chair, coberta pela pele de um falso tecido. efeito ótico e desejo tátil também se combinam nos trabalhos do italiano maurizio Galante, que chegou ao design pela via da alta-costura. seus pufes tato-tatoos são objetos que despertam os sentidos de cuidado e afeto, pets que pedem para ser abraçados. sentar, deitar e rolar é o tipo de relação que todo design tangível pede. mas o que acontece quando obras de arte, que não devem ser tocadas – especialmente quando expostas em galerias e instituições – atingem altos graus de sedução tátil? “reconheço que o meu trabalho tem esse elemento de tatilidade, e que a abundância de cor, as texturas, as formas e o mo-

fotos: fernando lazlo

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na página ao lado, instalação sem título (2009, coleção Bernardo paz), de Maria nepoMuceno, feira de cordas, contas, resina e fiBra de Vidro; À esquerda, manceBo caatinGa (2011), eM couro, dos irMãos caMpana, da firMa casa; aciMa, escultura Hallyu (2011), de joana Vasconcelos

Nas esculturas de Maria Nepomuceno e Joana Vasconcelos, o desejo do tangível deve ser satisfeito pelo tato do olho

vimento convidam o corpo a interagir”, diz a artista portuguesa Joana Vasconcelos. em trabalhos de parede, como Hallyu, de 2011, o desejo do tangível deve ser satisfeito pelo tato do olho. mas, na obra da artista, a interação física pode ser alcançada em instalações como passerelle, spin e ponto de encontro. a dicotomia palpável/não palpável move também a obra da brasileira maria nepomuceno. entre suas instalações destacam-se objetos em forma de redes feitas de cordas, palhas, contas e colares, que instigam visão e olfato, encantam pelos brilhos e cheiros, mas que não podem ser usados. “acho que um desenvolvimento natural da obra é que ela se torne de fato absolutamente tátil e possa ser experimentada pelo corpo plenamente. essa é uma das questões da minha obra e em algum momento essa entrega/desapego vai acontecer!”, anuncia. agradeCimentos: a gentil CarioCa, galeria firma Casa, galeria Baró

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O trabalho, que em suas origens era sinônimo Giselle de sofrimento, é a diversão do século 21

BeiGuelman

Sorria, você eStá trabalhando!

Nas líNguas latiNas, a palavra trabalho é derivada do termo tripalium, um iNstrumeNto de tortura romaNo de três paus, Na forma de pirâmide, utilizado para supliciar os escravos. a associação entre trabalho e sofrimento está relacionada ao fato de o trabalho, até o fim da idade média significar a perda da liberdade. trabalhavam aqueles que não eram patrícios, senhores, nobres ou clérigos. isso não foi exclusividade do ocidente. basta lembrar que, em hebraico, as palavras trabalho (avodá) e escravidão (avdut) são derivadas do mesmo radical.

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VanEssa MonTEIro DE barros Profissão: arquiteta e diretora de arte Há quanto tempo tem a coleção de snow globes? Desde a primeira vez que vi o filme cidadão Kane, nos anos 70, me apaixonei. sempre trago na bagagem de todas as viagens. Tem outras coleções? Tenho outra ainda maior, de miniaturas de monumentos arquitetônicos: Torre Eiffel, Empire state, coliseu, big ben etc.

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Marco assub Profissão: publicitário Idade: 32 Há quanto tempo tem a coleção? Desde 2005. Tem outras coleções? sneakers. Exponho nas ruas diariamente!

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a modernidade trouxe uma nova dimensão ao trabalho e a mentalidade burguesa o converteu em um signo de elevação moral e enobrecimento da alma. hoje, na era da interface, o trabalho, para profissionais corporativos, é uma espécie de palco e confunde-se com uma performance e um ritual de encenação. o computador explica, em parte, essa transformação. é para ele que convergem, cada vez mais via browser, os canais de comunicação pessoal, sociabilidade, tarefas cotidianas – como banco e compras – guia de ruas, espaços de entretenimento, bibliotecas, playlists de toda sorte e, como não mencionar, o trabalho. em volta dele projetam-se, quase naturalmente, os cenários que revelam os gostos, as manias, os desejos e as vontades dos seus protagonistas: os felizes trabalhadores do século 21. seLecT visitou alguns desses espaços e mostra como se divertem diretores, produtores e criadores de várias áreas enquanto, acredite, trabalham.

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LuIzão Profissão: publicitário Idade: 41 anos, Há quanto tempo tem a coleção? Desde 2004. Tem outras coleções? só tenho essa, que aumenta cada vez mais.

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GIacoMo aLbanEsE Profissão: engenheiro civil Idade: 53 anos. Há quanto tempo tem a coleção? 1998 Tem outras coleções? Flâmulas de futebol, soldadinhos de chumbo, rótulos de cerveja, cartões- postais do brasil, tudo que se relacione ao sPFc, fotografias e pôsteres de cinema, memorabilia da revolução de 1932 e arte sacra.

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PauLa TrabuLsI Profissão: cineasta Idade: 48 anos. Há quanto tempo tem a coleção? Há mais de 20 anos. são cerca de cem peças. Tem outras coleções? Gente bemhumorada ao meu redor

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MarcELo DuarTE Profissão: jornalista e editor da Panda books Idade: 47 anos. Há quanto tempo tem a coleção? Desde 1999, quando abri a editora. Tem outras coleções? coleciono tudo relacionado à coca-cola. com minha esposa, faço coleção de girafas e com meu filho, miniaturas de vilões.

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Produção ExEcutiva: anna Guirro, Produção dE objEtos/locação: solanGE Porto / tatiana stEPanEnko, FotoGraFia - robErto WaGnEr, assistEntE dE FotoGraFia: adriano vanni, dirEtor dE artE: ricardo van stEEn aGradEcimEntos: bossa nova Films, box arquitEtura E artE, tribbo Post, tErra E Panda books.

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arquitetura

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Por uma arquitetura Para além do esPetáculo e do consumo D e n o v a Y or k ,

AnnA Dietzsch

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Paul Goldberger, crítico de arquitetura da revista The New Yorker, fala sobre a proximidade entre museus, cidades e parques de diversões Desde a construção das pirâmides, a arquitetura revela seu lado espetacular, pontuando a história humana com estruturas que nos fascinam. Em 2012, na era do consumo e do individualismo exacerbado, o espetáculo se vulgariza para permear nossas cidades e edifícios, nos induzindo a consumir imagens em vez de lugares e espaços. Paul Goldberger, respeitado crítico norte-americano, autor do livro A Importância da Arquitetura, no qual teoriza sobre o papel da arquitetura nas nossas vidas, conversa com seLecT sobre essas tendências e sobre Frank Gehry, considerado por muitos o profissional mais representativo da “arquitetura-espetáculo”. Goldberger está escrevendo a biografia de Gehry, é critico da revista The New Yorker e já publicou vários livros sobre o assunto. fotos: Raga Jose/ PRisma/glowimages e fRidmaR damm/CoRbis

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“Museus são hoje prédios especiais, com uma ambição que a todos afeta, como antes eram as catedrais” Paul Goldberger

E m s u a v i s i ta a o B r a s i l , n o f i m d o a n o pa s s a d o , o s E n h o r a f i r m o u q u E “ o s m u s E u s s ã o a s n o va s c at E d r a i s ”. p o d E r i a fa l a r u m p o u c o s o B r E i s s o ?

G o l d b e r G e r Eu não os estava comparando em termos arquitetônicos, mas querendo dizer que ocupam o mesmo plano simbólico dentro de uma comunidade. Museus são hoje prédios especiais, com uma ambição que a todos afeta, como antes eram as catedrais. E não acho que isso seja verdade somente para os museus, mas para o edifício cultural em geral. Veja, estou nesse momento em Los Angeles, em frente ao Walt Disney Hall, de Frank Gehry, e a alguns quarteirões está a catedral desenhada por Rafael Moneo. Acho que, se você trouxer alguém aqui que não conheça a cidade e lhe perguntar qual é a caixa onde se toca música e qual é a catedral, ele provavelmente escolherá o edifício de Gehry para catedral, porque parece ser mais especial.

Acervo do entrevistAdo

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Hoje somos atraídos pelo consumo onde quer que estejamos. aeroportos fazem as vezes de sHopping centers e museus são projetados como espaços de entretenimento. o senHor não acHa que o museu está mais próximo do parque de diversões do que propriamente da catedral?

Não acho que o “efeito parque de diversões” tenha tomado conta de tudo, mas, é claro, tem hoje uma maior representatividade. De uma certa maneira, o parque de diversões tomou conta da cidade e o museu é apenas um dos seus componentes. Antes, não se podia fazer negócio sem a cidade, era ela que aproximava as pessoas para que pudessem comerciar e negociar. Hoje em dia, podemos cuidar dos nossos negócios estando em qualquer lugar, sem necessariamente ficar em contato direto com alguém. Escolhemos estar nas cidades porque nos dão prazer, nos distraem, nos estimulam, e essas são qualidades inerentes a um parque de diversões. Aqui em LA, por exemplo, se você já foi aos Universal Studios, pode entender isso bem. Aquilo é um shopping center disfarçado de parque temático, ou é um parque que quer ser shopping? A mesma coisa com Rodeo Drive, em Beverly Hills, que é simplesmente uma versão muito chique da Rua Principal na Disneylândia. A conf luência entre a cidade e o parque de diversões é um fenômeno interessante das últimas gerações e é inevitável que afete o museu. Mas acho que o museu se beneficia com a grande expansão do seu público e, como nada é de graça, paga um preço por isso. Esse preço é justamente a sua maior comercialização e o fato de que tem de agradar de uma maneira como antes não precisava. n a n o s s a c u lt u r a d e c o n s u m o , c o i s a s to rnam -se pro d utos e a pró pria a r q u i t e t u r a pa r e c e t e r - s e t o r n a d o u m d e l e s . a r q u i t e t o s fa m o s o s c H e g a m ao s tat u s d e “ m a r c a” e p o d e m o s “ c o m p r a r u m f r a n k g e H ry o u u m a z a H a H a d i d ”. o s e n H o r p o d e r i a fa l a r s o b r e e s s e f e n ô m e n o?

Numa época em que muita coisa virou “marca” e as pessoas referem-se a si próprias como “marcas”, não há dúvida de que a arquitetura e os arquitetos também se tornaram “marcas”. Vivemos numa época de culto à celebridade e a arquitetura dificil-

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“Escolhemos estar nas cidades porque nos distraem, nos estimulam, e essas são qualidades inerentes a um parque de diversOes” mente poderia ficar imune a isso. Acho, no entanto, que esse fenômeno tem precedentes. Não conheço ninguém melhor em autopromoção e manipulação da mídia do que Frank Lloyd Wright, que praticou arquitetura há cem anos, tendo morrido há mais de 50. Hoje, talvez esse fenômeno seja mais visível porque a “marca” tornou-se uma forma de identidade em nossa cultura. a “arquitetura do espetáculo” exacerba a visualidade e, com o advento da tecnologia, a forma passa a ter possibilidades infinitas. a arquitetura é muitas vezes concebida na tela do computador e construída para ser consumida como imagem de revista. qual a sua opinião sobre essa tendência da arquitetura, de relegar para um plano secundário aquilo que é da sua natureza espacial? por que somos mais lady gaga e menos alvar aalto?

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Museu GuGGenheiM BilBao, espanha

Rua pRincipal da disney WoRld, oRland

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“Rodeo Drive, em Beverly Hills, é simplesmente uma versão muito chique da Rua Principal na Disneylândia. A confluência entre a cidade e o parque de diversOes é um fenômeno interessante das últimas geraçOes e é inevitável que afete o museu”

Bom, não há duvida de que a arquitetura de Aalto seja o oposto do superficial e do bidimensional, mas para entendê-lo é preciso também entender a Finlândia, o mundo onde sua arquitetura se inseria. Mas, na época de Alvar Aalto, nem toda a arquitetura era como a de Aalto. É um grande erro pensar que antigamente tudo era sério e apropriado e hoje vivemos no mundo da superficialidade. Nessa, vamos dizer, “era Gehry” tendemos a pensar que é assim, mas me lembro, anos atrás, quando Michael Graves era proeminente. As pessoas achavam que tudo estava sendo feito “à Michael Graves” e reclamavam de que não havia mais “seriedade” na arquitetura. Quando arquitetos de menor talento tentam imitar algo com certa complexidade acabam produzindo pastiches que, obviamente, serão superficiais. Bons arquitetos criam edifícios que não podem nem devem

ser imitados. Somente Frank Gehry pode ser Frank Gehry, da mesma maneira que há poucos que conseguiram fazer uma arquitetura de vidro como Mies (van der Rohe). Mas entendo o que você esta dizendo; creio que Gehry dá a impressão de que é fácil fazer edifícios espetaculares e isso leva a uma arquitetura que é mais superficial. O s e n h O r p O d e n O s c O n ta r s O b r e O livrO que está escrevendO sObre FranK Gehry?

Estou escrevendo uma biografia de Gehry que ainda está muito no início. É um grande desafio, porque é a minha primeira biografia e estou fascinado com a possibilidade de conseguir conectar a obra e a vida numa só narrativa. Muito do que estou tentando fazer é entrar na mente do arquiteto para tentar desvendar por que certas coisas são como

fotos: thomas KaKaliK/ Panthermedia/GlowimaGes, suPerstocK/GlowimaGes e alan coPson

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WoRld, oRlando, eua

Rodeo dRive, los angeles, eua

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são e explicar a história da sua vida em conexão com a sua obra. Poderia dizer que estou escrevendo uma “biografia crítica”.

O s e n h O r ac h a q u e O u t r O s a rq u i t e tO s s e g u i ra m O pa ra d i g m a d e g e h ry, O u s ua a r q u i t e t u ra e st á est r i ta m e n t e l i ga da a u m a h i st ó r i a p e ss Oa l?

O s e n h O r cO n cO r da cO m a n O ç ã O d e q u e s e u s e d i f í c i O s s ã O m a i s e s c u lt u ra s d O q u e a rq u i t e t u ra?

Alguns arquitetos como Owen Moss e Tom Maine se aproximaram de Gehry, trabalhando com sucesso numa direção parecida. Creio que se podia falar, sim, numa Escola de LA, principalmente nos anos 80 e 90. Mas acho que isso se dissipou e hoje pensamos mais em arquitetos como indivíduos, menos em um grupo ou escola. Acho que isso tem a ver com, a arquitetura como “marca” e o fato de que nossa cultura está mesmo empurrando tudo nessa direção. Acontece também com a arte. Não pensamos mais em escolas de pintura ou escultura como antes fazíamos, mas há vários artistas bem-sucedidos que são muito proeminentes e discutidos.

Não posso concordar com a noção de que sua arquitetura é puramente escultural, muito embora ache que esse elemento esteja presente com muito mais força em Gehry, do que em outros arquitetos. Se você for ao museu em Bilbao (Guggenheim), verá que a maioria das galerias – fora, é claro, a grande galeria do térreo, com as esculturas de Serra – é bastante tradicional, permitindo o display da arte de forma tranquila e não agressiva. Acho que é um museu bem desenhado e funcional, com os cuidados que um museu precisa.

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A HISTÓRIA DE QUATRO POP STARS QUE chegaram à imaginária Shangri-lá nas asas da juventude de seu público

Forever young giselle beiguelman

Shangri-lá é um lugar paradiSíaco e fictício criado pelo eScritor inglêS JameS hilton, autor de horizonte perdido (1933). é um lugar imaginário onde todoS vivem em harmonia e o tempo para. Seus habitantes são quase imortais e os sinais de envelhecimento quase não se fazem presentes em sua pele. a utopia retoma um tema recorrente, especialmente entre os ocidentais. Basta lembrar do elixir da Juventude – ou da longa vida, uma substância mítica capaz de prolongar a vida e curar todas as doenças –, que aparece em diversas lendas antigas e foi uma das pesquisas mais constantes dos alquimistas, que o associavam à pedra filosofal. essa busca não povoa apenas a ficção e a mitologia. evidência disso é um ramo da medicina contemporânea chamado medicina da longevidade, que investiga formas cientificamente comprovadas de prolongar a juventude. para além dos mitos e das pesquisas de ponta, um grupo muito particular de criadores, atravessa gerações e parece ter encontrado a fórmula da eterna mocidade, dispensando, às vezes, o kit básico de Botox e silicone, verdadeiro feijão com arroz das celebridades de nossa era. a receita ninguém entrega, mas passa, com certeza, pela sabedoria de conviver eternamente com os mais novos.

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Dinho Ouro Preto , Curitiba (PR), 1964. Líder e vocalista do Capital Inicial desde 1983. A banda, que se separou em 1993, voltou aos palcos em 1998, mantendo os milhares de fãs. Lançou dois discos-solo e odeia a data do seu aniversário. “Acho que na real não gosto de ficar mais velho”, explica em seu site o “cantor das multidões”. i l u s t r a ç Ã O da n i e l c a b a l l e r O

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entretenimento

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Serginho Groisman , São Paulo (SP), 1950. Apresenta e comanda programas de entrevistas com adolescentes desde os anos 1980, quando lançou, na TV Cultura, o Matéria-Prima, avô do atual Altas Horas, seu programa na TV Globo desde 2000.

i l u s t r a ç Ã O c l a r a b e n fat t i

Marcelo Tas

, Ituverava (SP), 1959. Entrou para a história do telejornalismo brasileiro com o repórter Ernesto Varela, nos anos 1980, voz da geração criada durante a ditadura. Tornou-se a cara da juventude conectada à frente do Vitrine, na TV Cultura. Como um híbrido desses dois personagens, pilota o CQC na Bandeirantes desde 2008. i l u s t r a ç Ã O c a m i l l e k ac h a n i

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Xuxa

, Santa Rosa (RS), 1963. A eterna Rainha dos Baixinhos já foi modelo nas passarelas das altinhas, namorada dos campeões Pelé e Ayrton Senna, esposa de Luciano Szafir, pai de sua filha. Atriz de cinema, fez história em um filme de arte de Walter Hugo Khouri, que retirou de circulação, e protagonizou inúmeros outros sucessos de bilheteria passageira de verão. Apresenta programas infantis desde 1983. i l u s t r a ç Ã O ta l i ta h O f f m a n n

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curto-circuito

Vê nus

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D e u s a g r e g a A f r o d i t e , 3 0 0 a .c .

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A psicanalista Miriam Chnaiderman, o dermatologista Otávio Macedo e o filósofo Luiz Felipe Pondé discutem a obsessão pela juventude e os prós e contras da infantilização da produção cultural ilustrações por ricardo van steen

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c e s a s , 2012 a f ra n

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G i s e l e B ü n d c h e n , 2007

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Há gr andes investimentos tecnológicos na criação de tr atamentos mais eficientes e r ápidos par a o r ejuvenescimento facial e corpor al. as novidades nesse segmento são temas frequentes de revistas e programas de tevê que sustentam: apagar as marcas da passagem do tempo o quanto antes seria a atitude mais inteligente. para discutir esse fenômeno que varre o mundo, seLecT convidou a psicanalista, cineasta e ensaísta miriam chnaiderman, o requisitado dermatologista e especialista em rejuvenescimento otávio macedo, e o filósofo, professor universitário e colunista da folha de s.paulo, luiz felipe pondé. por diferentes caminhos, os entrevistados revelam o que está na epiderme e no interior dessa questão.

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O u v i r q u e v O c ê n ã O pa r e c e t e r a i d a d e q u e t e m s Oa cO m O e lO g i O, i n cO m O da Ou ambOs?

M i r i a M C h n a i d e r M a n Quando alguém nos elogia, tranquiliza nossa relação com nossa imagem corporal. Complicado é que o parâmetro para o elogio seja aparentar menos idade e anular a presença de um corpo que envelhece. Se alguém me diz que não pareço ter a idade que tenho, isso não me soa como elogio. Acho que a grande questão é poder ter a idade que tenho e agradar, ser gostada. OtáviO MaCedO Soa como um cumprimento e um reconhecimento, pois na maioria das vezes é verdade. Mas há situações em que é apenas um elogio simpático, baseado na crença atual de que mais jovem é melhor, o que, convenhamos, nem sempre é verdade. L u i z F e L i p e p O n d é Elogio. Mas não me preocupo com a idade e acho que não vou fazer nada para parecer mais jovem. Para os homens é mais fácil: a questão é continuar sendo capaz de penetrar as mulheres. usar Os recursOs da medicina e das indústrias da beleza e da mOda para apagar as marcas dO tempO é OpçãO Ou necessidade?

C h n a i d e r M a n É uma opção muitas vezes vivida como necessidade pelas pressões sociais. As marcas da passagem do tempo parecem assustar porque sinalizam a transitoriedade e a morte. Assim, o idoso passa a querer anular a presença do corpo envelhecido, movido pelo mito do corpo jovem a qualquer preço. Isso é muito violento. Outra coisa seria usar dos recursos atuais em prol do bem-estar e do envelhecer com dignidade. Aí a utilização dos recursos da medicina, das indústrias da beleza e da moda pode ser importante. M a C e d O As marcas da passagem do tempo dãose internamente. É a alma que envelhece e, neste caso, não há o que fazer. Resta a aparência, que, sim, é uma necessidade e não uma opção. Isso fica mais claro em relação aos dentes. Hoje, com os implantes, podemos ter uma terceira dentição. Ninguém julga que ter dentes limpos e bem tratados seja apagar as marcas do tempo. Mas há questionamento e até preconceito quanto ao tratamento da pele, do abdome, do corpo.

MiriaM ChnaiderMan

OtáviO MaCedO

O objetivo dos tratamentos de que dispomos é obter a melhor aparência possível, respeitando-se a idade e as condições de vida de cada um. p O n d é Quase sempre necessidade, se você não quer se sentir sozinho. É mais um traço da nossa cultura maníaca pela juventude e saúde. Acho isso tudo brega e está em toda parte. quais as cOnsequências da cOrrida cOntra O tempO das nOvas tecnOlOgias da medicina?

ChnaiderMan O repúdio ao próprio corpo é apenas mais uma consequência do processo de depreciação de si mesmo. A identidade de qualquer pessoa depende, em grande parte, da relação que ela tem com seu corpo. Para se construir enunciados sobre a própria identidade, de modo a poder criar uma estrutura psíquica harmoniosa, é necessário que o corpo seja predominantemente vivido e pensado como local de vida e prazer. Muitas vezes a tatuagem, o piercing e o se cortar são modos desesperados de se sentir existindo. MaCedO Conquistamos algo sem paralelo na natureza, que é triplicar o nosso tempo de vida, em menos de cem anos. Uma aparência saudável – e não artificialmente jovem – é parte dessa vida excepcional que podemos ter hoje. Apostar que estamos corrompidos pelo culto da beleza é desprezar o bom senso e o progresso que temos conseguido. Nunca estivemos tão bem. p O n d é A juventude cada vez mais será um produto caro e não um estado biológico ou psicológico. O futuro é dos retardados afetivos, que associam afeto com felicidade e significado da vida com vida como balada. A lógica do capital vale nessa questão. Não é só o emprego, é a própria fisiologia que é a mercadoria. O velho é lento e por isso não valeria nada.

ilustrações por ricardo van steen

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Qual é o impacto do privilégio à juventude na produção cultural e intelectual?

Chnaiderman Há uma infantilização da arte e da cultura. Freud falou do quanto a criação artística passa, necessariamente, por algo que tem a ver com o infantil. Na criação, o artista resgata o brincar. Isso é bem diferente do infantilizar o mundo. Resgatar a capacidade de brincar é parte da fruição e da produção artística. Mas não como prótese de um mundo perdido, e sim como abertura libertadora para possibilidades inusitadas de construção da vida. maCedo Antes dos anos 1960, ser jovem era ser imaturo, incapaz e rebelde. A geração dos anos 1960 tornou ultrapassado tudo o que representava ser adulto e afirmou que ser jovem é que era bom. Isso transformou todos em eternos jovens e continua sendo um mantra em nossa civilização, embora já se perceba uma revisão nesses conceitos. A ideia não é negar o valor da juventude, mas afirmar que temos de manter o nosso espírito jovem.

Cildo, afirma que a memória é o melhor lugar para uma obra de arte. A ausência de memória é a impossibilidade de criação. O apagamento das marcas do corpo confunde-se com o apagamento da memória. m a C e d o Falar em corrida contra o tempo é um equívoco. Trata-se da busca pela conservação e pela saúde, fugindo do que pode nos dar um aspecto cansado, envelhecido e descuidado. A conquista disso envolve fazer ajustes no estilo de vida, como atividade física e nutrição adequada. As mulheres já perceberam isso e hoje a balzaquiana derrotada pelos anos não existe mais. O que existe são mulheres lindíssimas, sensuais, conservadas, cuidadas em seus 40, 50, 60, 70 anos, desejáveis e saudáveis. Este me parece o ethos mais atual da civilização. P o n d é A breguice de ser jovem quando não se é mais. O pior estrago é quando você está diante do espelho, sozinho. A mãe quer ser como a filha, o que implica que a filha não tem futuro. Há o cultivo de retardo mental alegre como modo de ser. Porque ser maduro hoje é como ser podre. Mas o lado interessante dessa busca pela juventude para a geração que está envelhecendo é não se tornar tão escravo de falsas verdades, como casamento, família e paternidade. Ruim com eles, pior sem eles.

Pondé Isso deixa os jovens de verdade perdidos. Eles não têm narradores de vida porque os pais querem ser filhos para sempre. Narrar a vida é dar significado a ela. Para isso você tem de ser adulto e bancar alguma certeza em um mundo em dissolução como o nosso. O difícil não é amar quando se é jovem, mas quando já se sabe que a vida nunca satisfaz nossos delírios de felicidade.

A mãe quer ser como A filhA, o que implicA que A filhA não tem futuro. mAs o

Quais aspectos chamam a sua atenção em uma cultura Que preza cada vez mais a aparência jovem?

C h n a i d e r m a n A vida passou a ser descartável, na medida em que a morte violenta se banaliza nos noticiários cotidianos. Hanna Arendt, referindo-se a essa cultura que nos aprisiona, diz: “É a durabilidade que dá às coisas do mundo sua relativa independência diante dos homens que as produzem e as utilizam. Sua objetividade as faz suportar, resistir e durar, pelo menos por algum tempo, diante das vorazes necessidades de desejo de seus produtores e usuários vivos”. Esta é uma afirmação saudosista, na busca de uma estabilidade perdida. Hoje temos outros recortes, como o nomadismo e a transitoriedade. Cildo Meireles, no documentário

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lAdo interessAnte dessA buscA pelA juventude pArA A gerAção que está envelhecendo é não se tornAr tão escrAvo de fAlsAs verdAdes, como Luiz FeLiPe Pondé

cAsAmento, fAmíliA e pAternidAde

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Ronaldo BRessane

fotos: divulgação

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quadrinho da hq inédita Furry Water, de rafael Grampá +

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Há sinais por todos os lados, mas seLecT falou com quadrinistas, editores e críticos para entender: o Brasil chegou à Era de Ouro dos quadrinhos? Mauricio de Sousa dar autógrafos por cinco horas seguidas é uma cena normal – afinal, trata-se de uma lenda viva dos quadrinhos: seus personagens já venderam 1 bilhão de exemplares no mundo todo. Mas presenciar autores independentes autografando e rabiscando fanzines durante o mesmo período era impensável anos atrás. O clima de beatlemania em relação aos quadrinistas nacionais, com direito a assédio de marias-nanquim e paparazzi mirins rolou em novembro no FIQ 2011, o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. O tradicional evento reuniu 150 mil pessoas em cinco dias – há dois anos, havia a metade disso –, culminando uma sequência que começou na Gibicon de Curitiba, em julho, e se popularizou na RioComicon em outubro. O estilo yes we can dos três festivais, somado à emergência de novos artistas e expressivas vendagens – só a Companhia das Letras, que publica quadrinhos há apenas dois anos, vendeu mais de 160 mil exemplares de seus romances gráficos –, faz formular o diagnóstico: o Brasil vive sua Era de Ouro da HQ. Quem é do meio confirma, mas vários pedem calma e outros até refutam a tese. rafael grampá

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“Sim, a HQ brasileira vive sua Era de Ouro”, afirma categoricamente Rogério de Campos, diretor editorial da Conrad, que trouxe ao mercado tanto luxuosas edições de gringos como Milo Manara e Robert Crumb quanto graphic novels de Marcelo Quintanilha e Allan Sieber. Campos acredita que houve momentos em que os quadrinhos eram mais fortes nas bancas de revista e tinham tiragens maiores que as atuais – e também houve um tempo em que o gênero tinha mais influência cultural (como no Pasquim, por exemplo). “Mas nunca tivemos tantos quadrinistas com tanto domínio técnico e tanta variedade de estilos e gêneros sendo explorados ao mesmo tempo”, analisa. “O reflexo desse momento vai aparecer mais tarde e, enquanto isso, é preciso manter o trabalho”, diz André Conti, editor do selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras. “Nossas vendas excelentes mostram duas coisas: que há público para os mais diferentes tipos de quadrinhos e que o crescimento das HQs nas livrarias demonstra que há um público novo, ou que parte do público das bancas migrou para as livrarias”, explica. O quadrinista e editor Odyr Bernardi sublinha: “Agora, além de termos mais roteiristas – alguns vindos do cinema e da literatura –, temos artistas pensantes, com um jeito todo particular de contar histórias e gerir a carreira”. Bernardi também tem uma graphic novel no forno da Quadrinhos na Cia. Jornalista especializado em quadrinhos, Delfin lembra que a HQ nacional viveu uma época dourada nos anos 50/60 com sua superpopulação de gibis de terror e mistério, e também nos anos 70, quando surgiram Laerte, Angeli, Glauco e Luiz Gê. “Mas acho que temos uma nova Era de Ouro despontando diante de nossos olhos, desde a publicação do primeiro fanzine 10 Pãezinhos, de Fábio Moon e Gabriel Bá”, diz. De fato, a carreira dos gêmeos paulistanos os coloca como os pop stars dessa Era. Agraciada com o prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero, sua HQ Daytripper figurou entre os livros mais vendidos da lista de quadrinhos do jornal New York Times, provando ser possível debutar no mercado americano desenhando super-heróis e mais tarde devolver para o mesmo mercado uma história brasileira e nada heroica – como é a trajetória de Brás, um obituarista

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quadro do livro Quando meu Pai se encontrou com o et Fazia um dia Quente, de lourenço Mutarelli. à direita, Quase nada, de Fábio Moon & Gabriel bá, autores que já FiGuraraM na lista dos Mais vendidos do new York tiMes

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Especialistas apontam que, agora, além de mais roteiristas, também temos artistas pensantes que sonha em levar uma vida menos ordinária. Télio Navega, que cobre quadrinhos no jornal O Globo, também aponta os gêmeos como principais nomes dessa cena otimista, mas tempera a euforia com o fator econômico. “A boa fase está atrelada à estabilidade brasileira e ao grande número de livros comprados pelo governo federal através do Programa Nacional Biblioteca da Escola”, lembra.

Pera lá! Há, no entanto, quem prefira ir devagar com o andor. É o caso do jornalista Eduardo Nasi, que recorda: a expressão Era de Ouro nos quadrinhos apareceu nos EUA dos anos 50, quando os títulos de super-heróis vendiam milhões – e nem sequer eram considerados uma forma sofisticada de arte, como hoje. “Ainda temos um mercado pequeno tentando acomodar muitos talentos emergentes. Dados concretos? Só a diversidade e a qualidade dos trabalhos que surgem.

Mas, tirando Mauricio de Sousa e Disney, não se sabe tiragem e vendagem de quase nada de uma forma concreta”, alerta Nasi. O escritor Joca Reiners Terron é frio ao analisar o momento. Responsável pelo projeto que idealizou a série de graphic novels reunindo escritores e quadrinistas publicada pela Companhia das Letras, Terron detesta expressões do tipo “Brasil, celeiro de gênios”. “A Era de Ouro continuam a ser os anos 40/50/60. Mas talvez estejamos assistindo a uma época dourada de divulgação das HQs, do papel à webcomic”, pondera.

Cadê o meu? Mais realistas, os próprios quadrinistas se ressentem da falta do ouro nos bolsos para consolidar essa Era. “Economicamente estamos no bom caminho, mas falta muito para a tal Era Dourada”, avalia Rafael Coutinho, desenhista e corroteirista da graphic novel Cachalote e (não custa lembrar) filho de Laerte Coutinho, “o Buda das HQs”, segundo Eduardo Nasi. “Temos de lidar com o baixo consumo de livros e HQs em comparação com Argentina, França, Japão, EUA e Bélgica. Mas há cinco anos não havia uma estante de quadrinhos nas principais livrarias do País, e hoje todas têm, nem tanto editor gringo vinha pessoalmente rastrear a cena.” “Vivemos é a Era do Fervor”, prefere Rafael Grampá, também detentor de um prêmio Eisner, faturado com sua revista Mesmo Delivery – aliás, em processo

À direita, Lorenço MutareLLi; aciMa, Fábio Moon e gabrieL bá

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quadro do livro Quando meu Pai se encontrou com o et Fazia um dia Quente, de lourenço Mutarelli.

TOP FIVES

JÁ É

Artistas e profissionais ouvidos por seLecT falam quem são os talentos consolidados e quem são as apostas para o futuro da HQ brasileira

JOCA REINERS TERRON

TÉLIO NAVEGA

Laerte, Guazzelli, Angeli, Lourenço Mutarelli, Fábio Moon & Gabriel Bá

Fábio Moon & Gabriel Bá, coletivo Beleléu, coletivo Mondo Urbano, Samba, Golden Shower

Rafael Coutinho, Rafael Grampá, El Cerdo, Gabriel Góes, Eduardo Medeiros

Vitor Cafaggi, Chiquinha, André Kitagawa, Rodrigo Rosa, Shiko

Se LIGA

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Nosso estilo tem mais ginga: nossos quadrinistas já passaram por design, animação, graffiti e artes plásticas de adaptação para o cinema. “Temos boas HQs, muitas medianas e inúmeras ruins, mas pouquíssimas excelentes”, condimenta. Todos os profissionais ouvidos por seLecT lembram: o bom período da arte serial pode ser só o início de uma fabulosa convergência, no meio digital, de plataformas artísticas, editoriais e comerciais. Tudo bem, mas digamos que essa Era de Ouro do quadrinho brasileiro se consolide e se multiplique em livros, revistas, games, tablets e telas. Teremos um estilo único, forte para brigar na cena internacional? “Já ouvi que temos um estilo solto e ‘sinuoso’, que valoriza o traço gestual em detrimento da precisão realista”, conta Coutinho. Terron e Nasi lembram que o estilo brasileiro funda-se no humor dos cartuns. Já Navega e Delfin acham que nossa HQ prescinde de uma marca. “E torço para que não tenha: quanto mais plural, melhor”, pede Navega. “A HQ brasileira pode se alegrar de não ter estilo nem estigma”, define Delfin. Grampá lembra que, para sobreviver, os brasileiros já fizeram de tudo. “Têm artistas que passaram por design, animação, graffiti, artes plásticas e HQ de super-herói. Tudo isso influencia o quadrinho. Daí nosso estilo ter mais... ginga!”

ODYR BERNARDI

EDUARDO NASI

RAFAEL COUTINHO

Rafael Coutinho, Daniel Galera, Lobo, Lourenço Mutarelli, Guazzelli

Lourenço Mutarelli, Laerte, André Dahmer, Fábio Zimbres, Jaca

Marcelo D’Salete, Yuri Moraes, Bruno Maron, Maturi, Tito

Rafael Coutinho, Rafael Yida & Acioli, Wesley Grampá, El Cerdo, Gabriel Rodrigues, Pedro Franz, Góes, Eduardo Medeiros Vítor & Lu Cafaggi, Gêmeos Marcelo e Magno Costa

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Fábio Moon & Gabriel Bá, Rafael Grampá, André Dahmer, Marcelo Quintanilha, Lourenço Mutarelli

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quadro de Hq de rafael CoutinHo

DELFIN

SIDNEY GUSMAN

Fábio Moon & Gabriel Bá, Rafael Fábio Moon & Gabriel Bá, Danilo Beyruth, Rafael Coutinho, coletivo Beleléu, Albuquerque, Gustavo Duarte, coletivo Quarto Mundo, Lobo André Diniz Os Cafaggi, “Osmoleques” (Felipe Nunes, Pedro Cobiaco e João Montanaro), coletivo Quadrinhos Rasos, Mario Cau, Danilo Beyruth

Vitor Cafaggi, Mário Cau, Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho, Shiko

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artes visuais

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Fat Convertible (2005), de erwin wurm; à direita, White SnoW and dopey (2011), de mccarthy

Os idiOtas cOntra O baixO -

Há uma divertida, corrosiva e irônica família de ar FoFices à parte, a era gugu-dadá também tem seu lado negro. alguns trabalhos de arte recentes podem ser tomados como sintomas do pueril, da idiotia e do mau gosto grassando no inconsciente cultural. é o caso da foto, feita por olaf breuning, de um homem de quatro coberto de macarrão (spaghetti dog, 2005). ou da branca de neve e o anão dunga da escultura monumental de madeira maciça de paul mccarthy, que amalgama os personagens criando um deformado conto de fadas mutante. participam do mesmo universo as animações de massinha de nathalie djurberg, em que animais fofos protagonizam roteiros lascivos.

J u l i a n a M o n ac h e s i

Fotos divulgação/cortesia galeria Xavier HuFkens, bruXelas (acima) e tHomas mueller/cortesia galeria Hauser & wirtH, ny

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O - astral

de artistas que virou o mundo das artes do avesso

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Collage Family (2007), fotomontagem de olaf Breuning: “a arte se leva muito a sério”, diz

Também integra o elenco a futilidade levada às raias da loucura no vídeo de Ryan Trecartin, em que uma adolescente tenta o suicídio bebendo uma garrafa de Listerine. Ou, ainda, as regras de comportamento politicamente incorretas das fotos de Erwin Wurm, ensinando a cuspir na sopa alheia ou tirar um cochilo no banheiro da empresa. Esse breve panorama permite detectar uma corrente artística que se vale da carga política e poética de atitudes infantis ou simplesmente ridículas. O império do mau gosto tem vultosos precedentes na história da arte contemporânea: toda a filmografia de John Waters, as esculturas de Jake & Dinos Chapman ou Mike Kelley e, acima de tudo, o filme Os Idiotas (1998), de Lars von Trier, que marcou uma geração ao sinalizar a potência revolucionária de atitudes débeis. A radicalidade de forma e conteúdo da obra-prima do cineasta dinamarquês logo seria enfraquecida em diluições ao estilo do programa de televisão Jackass. Na teoria da arte, esse tipo de produção foi abordado em Informe – exposição e livro de Yve-Alain Bois e Rosalind Krauss que releem o modernismo a partir da filosofia de Georges Bataille –, em Nosso Grotesco (subtítulo da curadoria de Robert Storr no site Santa Fe 2004), e na curadoria sobre idiotia, dAfT, de Mathieu Borysevicz, realizada em uma galeria de Xangai em 2011.

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Imersão na cultura pop e humor adolescente são a marca regIstrada do suíço olaf BreunIng

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Olaf Breuning, artista suíço residente em Nova York, faz suas fotografias, esculturas, desenhos e vídeos como uma criança que destrói e reconstrói seus brinquedos. Os utensílios domésticos estão entre seus materiais de trabalho preferidos: luvas de borracha fazem as vezes de pelos de cachorro e sandálias Crocs estão no lugar das patas. Vasilhas, talheres e outros apetrechos de cozinha dão forma a robôs e figuras antropomórficas que habitam instalações bizarras do artista, juntamente com outras tantas quinqui lharias compradas nos mercados populares novaiorquinos de Canal Street e Chinatown. Nas fotografias de grupo, Breuning cria encenações que parecem egressas de filmes B de terror, com especial predileção por zumbis e motosserras, cabelos ou barbas compridas e máscaras toscas, em ambientes sombrios e esfumaçados. Ele cria ainda cenas (tableaux) pseudo-históricas, reunindo índios (Primitives, 2001), cavaleiros em armaduras (Knights, 2001) ou vikings empunhando pranchas de surfe longboard (Vikings, 2005). Quando os protagonistas das fotos não são estranhos grupos uniformizados, eles são personagens com desenhos, alimentos e utensílios acoplados ao corpo. É assim em Brian (2008), que tem cara de porco e bolas de tênis no lugar das orelhas, pepinos como dedos da mão e uma das pernas mutilada na altura do joelho, com o sangue artificial mal encobrindo a perna dobrada. Para o crítico da revista ArtForum Michael Wilson, a imersão na cultura pop é uma crítica de Breuning à codificação excessiva da arte recente. “Enfatizando uma continuidade entre a vida diária e os universos oníricos da moda, do cinema e da tevê, ele recusa a possibilidade de uma verdade única e singular. E, como Mike Kelley antes dele, emprega humor adolescente para contornar quaisquer expectativas persistentes de uma conclusão adulta e sem graça”, escreveu em resenha da exposição do artista na galeria Metro Pictures, em 2004. “A arte em geral é muito cheia de si e se leva muito a sério”, afirma Breuning em entrevista à seLecT. “Bons os velhos tempos do dadaísmo, quando ainda era possível ser um artista verdadeiramente malvado.” Para o artista, enquanto “a vida adulta parece ser carregada de tantos problemas autogerados”, a visão infantil sobre as coisas fundamentais é menos filtrada. “Os problemas estúpidos ainda não estão lá. Elas são capazes de fazer um desenho de uma casa, de um cavalo ou de um carro sem pensar em todos os modelos possíveis de

Double (2002), de Breuning: “A vidA AdultA é cArregAdA de proBlemAs AutogerAdos”

i never invite my frienDs again they are weirD! (2003), outrA oBrA de olAf Breuning

Fotos divulgação/cortesia do artista

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Spit in Someone’S Soup, fotografia Da série instructions on How to Be Politically incorrect, Do artista austríaco erwin wurm

um carro. É isso que ainda estou fazendo aos 41 anos: procuro falar sobre as coisas de uma forma universal e não filtrada.” O artista austríaco Erwin Wurm, respondendo à mesma pergunta sobre infantilidade como motor da produção, recusa a aproximação: “Não há nada de infantil no meu trabalho. Faço um trabalho sério, sobre assuntos sérios. Ele pode ser engraçado para algumas pessoas, mas de fato é um trabalho preocupado politicamente, não é sobre essa absurda realidade em que, em pleno século 21, há pessoas na África do Norte acreditando que a sociedade deve ser governada por 65 leis islâmicas dos séculos 14 e 15”. “O que me interessa são pessoas vivendo realidades tão díspares ao mesmo tempo. A realidade é dez ou cem vezes mais absurda do que as pessoas gostam de acreditar. Como artista estou interessado em observar o mundo e comentar ou lançar perguntas sobre essa nossa realidade”, afirmou à seLecT, por telefone, de seu ateliê em Viena. Wurm é conhecido pela ironia que beira o cinismo de suas esculturas rechonchudas – carros, casas, figuras humanas – e também pelas performances fotografadas da década de 1990, as One-Minute Sculptures (Esculturas de Um Minuto), em que ações desafiam a mesmice do cotidiano. São poses absurdas envolvendo objetos do dia a dia, como acessórios de moda ou itens de escritório, postas em

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prática em um minuto pelo próprio artista, por performers ou por visitantes de suas exposições. Apesar do humor por vezes infantil, o artista recusa o rótulo: “Definitivamente, não crio obras para entreter as pessoas nem tampouco para fazê-las rir. Eu faço obras como One-Minute Sculptures e Instructions on How to Be Politically Incorrect certo do poder subversivo e anárquico, da relação absurda e estranha entre objetos e pessoas”. Wurm admite que os dadaístas estão entre suas referências: “Meus trabalhos têm maior relação com a ideia do absurdo e das diferentes percepções da realidade que cada pessoa tem. A palavra ‘infantil’ não se aplica de maneira alguma. Minha obra tem mais a ver com a liberdade de poder rir de si mesmo ou poder agir de maneira ridícula e não se envergonhar disso nem com todas as coisas que socialmente costumam constranger as pessoas. Tem a ver com não precisar agir de maneira apropriada ou como a sociedade considera normal. Isto sim é uma ideia subversiva”.

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Para o artista e crítico Rafael Campos Rocha, o idio tismo e a infantilidade podem ter um “poder corrosivo sobre o estabelecido e as estruturas de dominação que o sublime e, principalmente, o edificante dificilmente conseguem”. Rocha há dez anos ministra cursos livres de história da arte e atualmente é professor no Instituto Tomie Ohtake, onde sempre inclui uma aula sobre Paul McCarthy, centrada no vídeo Painter (1995). “Trabalhos como os de Paul McCarthy têm muito mais força do que, por exemplo, a obra de Hélio Oiticica, mesmo na crítica do capitalismo que os dois, acredito, exercem. Primeiro, porque HO exige o tempo inteiro um estatuto de arte para a própria obra. E a arte é o produto perfeito do capitalismo, a mais brilhante face da mercadoria-fetiche. Enquanto o brasileiro luta por manter o estatuto da arte como alternativa ao mundo, McCarthy ridiculariza inclusive o sonho modernista como sendo autoritário, com o seu genial Painter, porque o mundo que Oiticica almeja, como o dos futuristas, é um mundo onde ele, o artista-criador, ocupa uma posição de poder. E justamente ridicularizar as posições de poder é o que os melhores artistas fazem”, observa Rocha. Paul McCarthy, norte-americano que encena fantasias regressivas, violentas e perversas em videoperformances, esculturas e instalações, nos confronta com “um pesadelo de sexualidade polimorfa e decadência física que só poderia ser o mau sonho de uma cultura do consumo tão espectral e desencarnada como a nossa própria”, conforme análise do curador nova-iorquino Ralph Rugoff. Pinóquio (Pinocchio Pipenose Householddilemma, 1994), Papai Noel (Santa Chocolate Shop, 1997) e diversos outros personagens de contos de fadas e da Disneylândia já foram objeto da perversão do universo infantil de McCarthy, que em sua mais recente exposição na galeria Hauser & Wirth, em Nova York, no fim de 2011, se dedicou aos Sete Anões (The Dwarves, the Forests). Ken Johnson, em crítica no jornal New York Times, sugeriu que as obras da exposição poderiam ser interpretadas como “monumentos de resistência à hipócrita cultura dominante”, situados em uma tradição que vai de Rimbaud a Dash Snow. Isso porque estão “baseados na convicção de que enlouquecer é a única resposta sã à vida moderna”. Detendo-se na escultura Branca de Neve e Dunga (2011), entretanto, o crítico sugere que, “tendo exaurido as possibilidades da feiura

Os artistas que fazem crítica sOcial a sériO sãO hipócritas, já uma pOstura idiOta cOlOca em dúvida O estatutO da arte e de seu entOrnO

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Santa with Butt Plug (2007), de mccarthy

caótica”, McCarthy estaria agora considerando o “potencial subversivo da beleza”. Para Wurm, a estratégia de McCarthy tem mesmo a ver com a mudança dos tempos: “Nos anos 1980, qualquer discurso sobre a realidade tendia a ser cheio de paixão e excessos, como uma espécie de sobrepeso. Quando eu penso no trabalho dos minimalistas e dos estruturalistas, considero obras de uma importância ‘pesada’. Hoje trabalhos sobre essas questões são mais possíveis, como a obra de McCarthy, Martin Kippenberger ou Maurizio Cattelan. Eu chamo meu método de ‘cinismo crítico’ e creio que se aplica ao trabalho desses artistas também. Acho que é possível manter a importância daquele discurso, mas tornando-o absurdo a partir dos elementos cínicos da nossa vida”, defende. “Os artistas evitam rir deles mesmos para manter uma posição de respeito dentro da hierarquia social e, dessa forma, serem recompensados por isso. Ao manterem firme a posição da arte na sociedade, reforçam a suposta ‘naturalidade’ dessa sociedade, ainda que aparentemente a critiquem. São porta-vozes do status quo do capitalismo, do fetiche da mercadoria e da exploração, ainda que aparentemente digam o contrário. Com raras, raríssimas exceções, não passa de hipocrisia. Já uma posição pouco séria coloca em dúvida o estatuto da própria obra e, por consequência, de seu produtor, lançando uma nuvem de dúvida sobre tudo que a cerca, principalmente a Arte. Acho essa posição mais saudável e mais honesta”, completa Rafael Campos Rocha.

fotos divulgação/cortesia galeria thaddaeus ropac, paris (esquerda) philippe de gobert courtesy the artist and hauser & Wirth (direita)

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abre-alas estereoensaios, Filme brasileiro 3d em altíssima resolução, inaugura visualidades e Faz a ponte entre o pré e o pós-cinema A n g é l i c A d e M o r A e s e g i s e l l e B e i g u e l M A n

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o tema do carnaval rendeu 창ngulos e detalhes inusitados

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acima e ao lado: a tridimensionalidade salta nos fios das ligações clandestinas (“gatos”) das favelas cariocas e na banda de músicos

EstErEoEnsaios é o primEiro filmE rEalizado no Brasil na mais alta dEfinição dE imagEm disponívEl no mErcado, com uma câmEra quE capta 5 milhõEs dE pixEls (5k) E Em tErcEira dimEnsão (3d). para se ter uma ideia do que isso significa, o que chamamos de tevê de alta definição (hdtv) tem 2 milhões de pixels e não é estereoscópica. isso mostra a diferença entre as imagens a que estamos nos acostumando a ver e as que vêm por aí, embaladas na tecnologia desse filme dirigido por Jane de almeida, professora da pós-graduação do mackenzie e realizado pela rede nacional de pesquisa (rnp) e pelo laboratório de aplicações de vídeo digital (lavid), da universidade federal da paraíba (ufpB). tudo nele, exceto o comprimento das narrativas, é grandioso. a fotos: divulgação

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a imagem, em torno de 10 milhões de pixels, desafia os equipamentos do circuito exibidor

câmera, de 48 quilos e sistema de lentes superpostas, aumenta as dimensões de tudo. Que o diga Fabio Pestana, fotógrafo e cameraman do projeto. Afinal, muitas das imagens foram feitas com o equipamento nos seus ombros. Ele comenta: “É cinema do século 21, mas parece que você está lidando com as câmeras de 1910. Pesadíssimas!” O projeto enfrentou vários desafios tecnológicos, desde o par único de câmeras, equipamento ainda desconhecido dos especialistas, passando pelo processamento de imagens, com cerca de 10 milhões de pixels de definição, até a exibição do filme em projetores especiais, ainda em fase de estabilização. O objetivo da experimentação, esclarece Jane, foi não só “formar uma competência técnica no País, mas também somar a tecnologia atual à história da estereoscopia,

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ancestral mais antiga do cinema em terceira dimensão”. Foi o que o grupo de trabalho responsável pelo filme realizou, em parte, ao trazer o estereógrafo norte-americano Keith Collea para orientar os efeitos estereoscópicos dos equipamentos de última geração usados na filmagem. Keith Collea é especialista em 3D e trabalhou nas filmagens do blockbuster Avatar, do diretor James Cameron. As câmeras Red Epic em 3D que ele trouxe ao Brasil são as mais inovadoras do cinema mundial. Do ponto de vista estético, o trabalho aposta na substituição da ansiedade quase demente que comanda a edição dos disaster movies hollywoodianos (notórios clientes dessa tecnologia na atualidade) por um olhar desacelerado, prazeroso, flâneur. O filme organiza-se em torno de imagens-padrão do Rio de Janeiro (paisagem, futebol,

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a edição apostou no olhar desacelerado, que privilegia a paisagem do rio de janeiro

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favela e samba), além de imagens inusitadas das estruturas de concreto sob a ponte Rio-Niterói e guindastes trabalhando na área portuária carioca. A busca de imagens convencionais teve o objetivo de retirar a ênfase da potência narrativa da imagem para mostrar a diferença que a filmagem em 4k e 3D promove na espessura e na definição da imagem. Quem nunca viu uma passista de escola de samba, com seus enormes penachos de plumas na cabeça? Em 3D, essa experiência ganha contornos inéditos: as plumas, filmadas de cima para baixo, ameaçam tocar nosso nariz. As saias rodadas da ala das baianas da Mangueira, filmadas com a câmera quase no chão, mostram todos os seus detalhes decorativos. Os fios de um poste de luz da favela (cheio de ligações clandestinas) estendem-se no espaço tridimensional, formando uma escultura cinética. O barco que singra a Baía de Guanabara parece estar nos levando na proa. Trata-se de um exercício de desmontagem dos clichês, a partir dos próprios clichês, que implicou momentos muito interessantes na filmagem. Jane, a diretora, conta que as sambistas da Mangueira não sabiam o que se passaria na fil-

magem e ficaram intrigadas ao não ver as câmeras perseguindo seus quadris para o fatal enquadramento em close das coberturas televisivas. “Vendo a câmera apontada para seus pés, elas ficavam arrumando a roupa, como se pensassem que havia algo de errado com elas.” As imagens são encantadoras. Inesquecíveis também são as do mar. Em alguns trechos, parece que a água vai vazar da tela, apontando para um novo momento da reinvenção da paisagem, que tanto ocupou os pioneiros da estereoscopia.

fotos: divulgação

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no sentido horĂĄrio: equipe de filmagem em cena metalinguĂ­stica e duas imagens com a paisagem horizontal da baĂ­a de guanabara que homenageia os pioneiros da estereoscopia

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comportamento

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Nascidos eNtre 1984 e 1987, ciNco artistas relatam seus camiNhos para as artes visuais e refletem sobre o atual coNtexto, em que “jovem artista” virou commodity ElEs têm obras dE gEntE grandE, mas ingressaram muito cedo no circuito da arte e construíram uma trajetória artística com apenas vinte e poucos anos. sofia borges, 27, Felipe bittencourt, 24, rafael Carneiro, 26, Flávia Junqueira, 26, e andré Feliciano, 27, são jovens precoces que estão inscrevendo seu pensamento e sua atitude na conversa da arte contemporânea brasileira. Produção: AnnA Guirro. Assistente de FotoGrAFiA: Pedro BonAcinA / renAtA terePins / cAiuA FrAnco, cenoGrAFiA: Aécio AmArAl

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RETRATO DO ARTISTA QUANDO J U L I A N A M O N AC H E S I

f OtO b O b w O L f E N S O N

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comportamento

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DECRETAdO O FIM DO CONTEMPORÂNEO André Feliciano, o mais precoce entre os precoces, que formulou seu primeiro (de muitos) manifesto sobre arte ainda no colegial, atende hoje pelo nome Jardineiro de Arte. Ele já teve outros codinomes ao longo de uma breve e acintosamente frutífera carreira de artista: foi moderno (2000-2001), foi Pós-moderno (2002-2005), Contemporâneo (2005-2006) e, por fim, encontrou a verdadeira vocação, que não é, segundo ele, ser artista, mas “cultivar a natureza da arte”, como Jardineiro. “A arte surgiu na minha infância como uma dúvida: eu tinha uma memória muito forte de brincar em um galinheiro, em um sítio que visitava sempre nas fé-

rias, em Minas Gerais, mas não sabia se essa memória provinha de uma experiência ou de uma fotografia. Passei muitos anos com essa dúvida que, de certa forma, nutriu minha vontade de querer entender mais sobre a natureza da fotografia”, conta o Jardineiro André. Uma dificuldade de mobilidade aos 17 anos levou-o a começar a fotografar. “Por algum motivo misterioso tornei-me uma fotografia: não tinha ação própria, não conseguia me comunicar e vivia em um espaço plano”, explica. Ele elaborou, em 2001, um manifesto sobre o que seria a arte do futuro, intitulado Neo-pós-pós, passou a criar e costurar as próprias roupas e conseguiu “sair do mundo estático e fotográfico” em que havia se metido. Em 2002, Feliciano ingressou na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e, por que deixou “de ser espontâneo”, adotou o codinome Pós-Moderno. “No ambiente intenso de criação em que me encontrava no final do colegial, eu não

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À ESquErda, Flávia Junqueira protagoniza aS própriaS fotoS, como nESta cEna EntrE alEgrE E mElancólica clicada durantE uma rESidência na cité dES artS, Em pariS, intitulada “ElE ainda não EStá aqui (2011)” À dirEita, doiS momEntoS da pErformancE “palhaço Ergométrico (2011)”, dE Felipe Bittencourt, Em quE o artiSta pEdala uma biciblEta Ergométrica até quE a maquiagEm SE dESfaça pEla ação do Suor

Florescentista há cinco anos, o Jardineiro vem se dedicando a cultivar a natureza da arte em lugar de superpovoar o mundo com mais obras de arte. Escritos florescentistas, festas florescentistas e conversas florescentistas perfazem sua obra hoje. Nas festas, por exemplo, o anfitrião serve apenas comidinhas em forma de câmera, que simbolicamente fotografam os convivas. “A minha entrada no circuito das artes começou de fato com a exposição Ecológica no MAM-SP. Depois dessa iniciativa, as pessoas dizem que entenderam mais o que eu tento falar há muitos anos. Entretanto, meu trabalho é um longo cultivo, mas a poética do meu trabalho não está pronta”, avalia. Em 2011, Jardineiro fez duas exposições em Nova York, na Bonni Benrubi Gallery e em um prêmio internacional de jovens artistas no Brooklyn, e tem prevista para março sua primeira individual na Galeria Zipper, em São Paulo.

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O que significa ser “jOvem artista”

conhecia outra possibilidade a não ser cursar uma faculdade de artes. Perdi um pouco a noção de realidade durante o curso e me aprofundei nas questões sobre a natureza da fotografia”, conta. No percurso de formação, o artista introjetou de tal maneira o pensamento sobre a fotografia e as experimentações intensas com o meio (técnica e simbolicamente) que voltou a se sentir, no último ano do curso, estático e com dificuldade de se comunicar. “Tornei-me o próprio contemporâneo. Só consegui sair do buraco com ajuda do meu orientador, que me ensinou a ler e escrever textos de modo claro e estruturado para, enfim, conseguir me comunicar.” Orientado por Felipe Chaimovich em seu trabalho de conclusão de curso, em 2006, o que o Jardineiro André Feliciano fez foi ousar reescrever a história da arte moderna a partir de uma perspectiva fotográfica e decretar o fim do contemporâneo e o surgimento de um novo ciclo histórico: o Florescimento.

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A artista e professora de artes visuais da Faap Dora Longo Bahia faz uma diferenciação entre “artista jovem” – “uma denominação retroativa que pressupõe a existência de uma obra feita por alguém que faz arte (o artista)”, como subentendido no título do romance de James Joyce – e “jovem artista”, designação que prescinde da obra. “O jovem artista é uma categoria que existe antes da arte; é uma promessa do mercado, é uma aposta que pode dar certo (valorizar) ou não”, defende. As escolas de arte, hoje, ainda segundo Bahia, ensinam os alunos a ser “jovens artistas”, a se inserir no mercado e até a usar dispositivos de “subversão”. Uma marca dos jovens artistas no contexto atual é a diversidade de meios que escolhem para se comunicar. Apesar de certo predomínio da pintura figurativa (basta visitar a exposição Os Primeiros 10 Anos, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake até 26 de fevereiro, para perceber que esse suporte é o cavalo de batalha da nova geração), os artistas também fazem farto uso do vídeo, da fotografia e do tridimensional. Mesmo na pintura há visadas marcadamente distintas, como no caso da obra de Rafael Carneiro. Ele se vale de um olhar mediado ou maquínico, capturado por câmeras de segurança ou stills de filmes de Alfred Hitchcock, como base para uma pintura que faz questão de figurar a própria artificialidade. “Tento resolver o mal-estar cultural em meu trabalho. Para mim, a obra de arte não tem nada a ver com sublimação, acho que o que existe é a tentativa de solucionar o jogo de necessidades psicológicas em um objeto”, afirma.

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comportamento

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Ao lAdo, no sentido horário, “sem título (2011)”, pinturA de Rafael CaRneiRo que se bAseiA em pAisAgem retirAdA de um filme de Alfred hitchcock; “JArdim fotográfico (2010)”, de andRé feliCiano, nA exposição ecológicA (mAm/sp), e detAlhe de umA dAs flores fotográficAs do JArdim; “pepitA (2011)”, impressão JAto de tintA sobre pApel-Algodão, de Sofia BoRgeS

O problema é, na opinião do artista, que no mercado de arte aquecido existe pouco espaço para a subjetividade. “Não posso negar que a pintura hoje é algo vendável. Mas uma pintura minha leva um mês para ser feita, cinco horas por dia. Ter uma galeria me obrigou a ter a responsabilidade de trabalhar, mas a investigação crítica nunca deixou de ser parte integrante do trabalho”, defende um desencantado Carneiro, sugerindo que nem todo mundo que está pintando consegue conciliar demanda e consistência de pesquisa.

Transparência e opacidade De família tradicional, Flávia Junqueira cursou direito e filosofia antes de estudar artes também na Faap. “A decisão pela faculdade de artes plásticas não foi fácil. Cresci em ambiente familiar que sempre me deu liberdade de escolha, porém, por estar imersa em um contexto de valores mais tradicionais, me sentia pressionada a escolher profissões que proporcionassem maiores garantias no mercado de trabalho”, conta. Quando se formou, em 2009, a artista já tinha uma boa inserção institucional com participações em salões e editais, e também no mercado. “Esse caminho me possibilitou começar a apresentar meu trabalho fora da faculdade, o que despertou o interesse de galerias. A maior dificuldade que encontrei foi entrar no mercado muito jovem. Tive de aprender a dividir o tempo entre dar continuidade ao processo criativo e administrar tarefas além da produção. Isso é muito difícil, pois estou em um processo inicial de construção do trabalho. Percebo que muitos jovens artistas também acabam tendo essa dificuldade, da pouca experiência aliada à demanda comercial, o que pode comprometer a produção e a concentração”, desabafa. Um universo solitário de referências infantis marca a produção de Junqueira. A artista realiza perfor-

esTabilidade econômica mances fotografadas, simulando o ambiente multicolorido de festas infantis (pilhas de presentes, balões, casa de bonecas, flores), nos quais se insere vestida de menininha e com expressão melancólica. Flávia Junqueira e Sofia Borges trabalham em limites diametralmente opostos do espectro da investigação fotográfica: a primeira se vale da transparência e a segunda, da opacidade. A melancolia do set infantil de uma tem, entretanto, um paralelo com as indecifráveis encenações da outra, que modifica pouco o ambiente de forma direta. As transformações desse set solitário e desolado são produzidas no interior do processo fotográfico, da iluminação ao processamento na ampliação. “Eu sempre soube que trabalharia em alguma área ligada à criação. Durante o colegial cheguei a resolver que seria escritora. Mas, quando, morando em São Paulo havia dois meses (aos 19 anos), visitei uma exposição de arte contemporânea, me dei conta de que havia uma área do conhecimento na qual eu poderia exercer aquele tipo de prática. Ao me dar conta disso, decidi cursar artes plásticas”, lembra Borges, que já saiu da USP, em 2008, com galeria (Virgilio, em São Paulo). A entrada no mercado de arte é menos cristalina no caso de alguém trabalhando com performance. Felipe Bittencourt conta que sua inserção foi “bem torta”: carioca vivendo em São Paulo, participou da primeira mostra coletiva no Rio de

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formance por dia durante o período de um ano, lançando, assim, um desafio e tomando a ação de desenhar diariamente como performance. Nenhuma foi desenhada com o intuito de acontecer de fato. Não havia limitações financeiras, lógicas ou de segurança nas ideias desenhadas.”

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Hegemonia de um padrão de gosto

“A arte está cada vez mais colada na moda, operando segundo uma mesma lógica: assim como as marcas lançam coleções sazonais, também as faculdades e instituições lançam artistas sazonalmente”, analisa Dora Longo Bahia. “Hoje, o jovem artista tornou-se uma mercadoria, é uma commodity como as ações do mercado de futuros, pois a arte reproduz o sistema econômico”, continua. “A descontextualização da experiência do artista em seu ateliê em relação à obra formatada para estar nos museus e galerias é muito perversa.” Com base em uma pesquisa de Tiago Mesquita para o livro Pintura Brasileira Século 21, que a editora Cobogó lança em fevereiro, a exposição no Instituto Tomie Ohtake promove relações entre a onipresente produção de pintura de nomes que despontaram no

facilitou a profissionalização Janeiro. “Meu trabalho foi extremamente desrespeitado, assim como o de muitos outros: um edital enganoso e um espaço precário que não atenderam a nenhuma exigência dos artistas. Decepcionado, não produzi por um tempo”, lembra. De uma série de decepções pessoais surgiu o projeto de realizar performances de limite físico, que foram os trabalhos que lhe deram projeção e renderam convites para expor pelo Brasil em espaços institucionais e festivais internacionais. Um exemplo é a ação de apontar vários lápis durante três horas, até sangrarem os dedos. “Testo o limite do objeto e o objeto testa o meu limite”, explica o artista. Bittencourt trabalhou na exposição Objeto Transitório para Uso Humano (2008), de Marina Abramovic, na então Galeria Brito Cimino, na qual as pessoas podiam interagir com os objetos e propostas da artista. “Minha função era performar ações durante 12 horas, todos os dias, por um mês, como exemplo vivo e constante na exposição. Foi um contato muito forte e uma grande influência em minha produção”, conta ele. “A constante crítica de que minha produção não renderia dinheiro foi outro fator importante no meu processo como artista, porque resolvi produzir somente pela arte e não pelos seus fins financeiros”, observa. Um exemplo disso é o belíssimo projeto de performance diária que Bittencourt iniciou em 8 de dezembro de 2010. “Minha proposta foi fazer uma ideia de per-

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cenário da arte na última década com obras em outros suportes de colegas de geração. Mesquita, que é cocurador da exposição, atribui a profissionalização dos jovens artistas a fenômenos novos como a continuidade do processo democrático e, de seis a oito anos para cá, à estabilidade econômica do Brasil. “Esse contexto permite uma continuidade na trajetória dos artistas; não há muitos sobressaltos. Além disso, há muita organização do meio de arte nos dias de hoje”, afirma Mesquita. A facilidade do acesso a informações – seja pela quantidade de livros circulando na internet, seja pela facilidade de se fazer uma viagem de formação – também contribui para a continuidade de uma investigação artística, na opinião do curador. “Parte da produção brasileira atual é muito marcada pela hegemonia do mercado internacional de arte, pela hegemonia de um padrão de gosto, e isso é um problema”, diz.

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cultura digital

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Line For Heaven

Você acredita que se for um bom menino vai para o céu depois de morrer? Outras mil pessoas também. Elas fazem parte dessa rede social para aqueles que acreditam que existe vida após a morte. http://www.lineforheaven.com

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REMCloud

Teve um sonho louco na noite passada e não tem coragem de contar para ninguém? A rede permite usar o Twitter anonimamente para desabafar se você não tem dinheiro para ir ao terapeuta. E, claro, fazer amizade com outros sonhadores por aí. http://remcloud.com

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U Ralvery

Rede social dedicada a quem gosta de tricô, crochê e bordado. Porém, para entrar tem de mostrar algum trabalho que você tenha tricotado. Boa sorte! https://www.ravelry.com

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MYFreeImplants

Quantas vezes você trocou o silicone? Não tem dinheiro para aumentar seus seios? Essa é a rede social para quem já fez ou quer fazer alguma cirurgia plástica. http://myfreeimplants.com

fotos: divulgação

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LOSTZombies

Rede social para quem gosta, quer ser ou é fã de filmes de zumbi. http://www.lostzombies.com

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Desde que a INTERNET se tornou popular nos anos 1990, muito se fala sobre SEU potencial de conexão. Hoje, no auge da web 2.0, essa noção de associação por afinidades, contudo, beira as raias da bizarrice

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O NiNa Gazire

Antes das redes formadas pelos meios de comunicação, nós já vivíamos em redes: cidades, bairros, famílias, e por aí vai. Também é anterior ao fenômeno o fato de nos sentirmos instigados a filtrar os tipos de relações sociais que queremos estabelecer por meio de afinidades. Mas algumas vezes a organização dada pelas redes sociais digitais parece potencializar os caminhos das pedras de um jeito muito juvenil. Tem-se a sensação de não termos saído daquela fase adolescente, na qual só queremos andar com nossos iguais, sem dar muito espaço para a diferença. Há quem diga, ainda, que a rede social da internet 2.0 apenas reproduz em um ambiente virtual as estruturas

Respectance.com

Essa é só para quem já morreu. Se você perdeu algum ente querido pode registrá-lo nesta rede. Funciona como uma espécie de obituário digital em tempo real, em que também é possível compartilhar experiência sobre a dor do luto. http://www.respectance.com

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cultura digital

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Spiritual Community

Você prevê o futuro? Vê fantasmas? Esta é uma rede social só para médiuns, videntes e paranormais. http://www.psychics.co.uk

HAMSTERster

Rede social só para quem gosta de hamsters. Sem mais comentários. http://www.hamsterster.com

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FUBAR

Uma rede social que pretende ser um pub virtual. Por meio de webcams pessoas se reúnem para beber e falar sobre cerveja. Só é permitida a entrada de maiores de 18 anos. http://fubar.com

sociais preexistentes. A plataforma aSmallWorld, por exemplo, é uma rede que só aceita triliardários bem-nascidos, que são obrigados a mostrar o extrato bancário para ser aceitos. A pretensão de aSmallWorld é ser uma versão de um Country Club na web, porém de maneira muito inocente. É muito fácil enganar alguém falsificando dados e saldos bancários na internet, não é mesmo? De fato, essas características do anonimato e da incerteza nas redes sociais convivem, ao mesmo tempo, com o esgotamento da noção de privacidade e intimidade. Se na web 2.0 ficou mais fácil descobrir o pulo de cerca do namorado, também ficou mais fácil exacerbar as nossas personas: quem nunca entrou em chat e fingiu ser loira e alta que atire a primeira pedra. As possibilidades lúdicas tornaram-se infinitas e hoje em dia encontramos redes sociais para todos os gostos e vontades. Conheça aqui uma lista do que há de mais estranho no quesito rede social. Se antes “de perto todo mundo era louco”, agora você pode escolher a distância aqueles que têm uma maluquice parecida com a sua. Não se sinta sozinho.

Stache Passions

Para aquelas que são chegadas em caras de bigode, ou para aqueles que querem cultivar um. Bigode hoje é coisa de hipster. http://www.stachepassions.com

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A MAIS ATUAL DESDE 1867

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território / ocupações

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RodRigo savazoni Redes, ocupações, Revoluções: o caminho da libeRdade é a Rua

Da Praça Tahir, no Cairo, ao Occupy Wall Street e o OcupaRio.org a sequência virtuosa de ocupações e manifestações orquestradas em rede, estamos diante de um dado novo que devemos celebrar: a aceleração de uma (des)organização que devolveu a esperança às ruas NAOMI KLEIN, uMA DAS GRANDES CABEçAS DA NOSSA GERAçãO, DIzIA há CERCA DE DEz ANOS quE, GRAçAS à NET, AS MOBILIzAçõES DO MOvIMENTO ANTIGLOBALIzAçãO Ou ALTERMuNDISTA SE DESDOBRAvAM “COM POuCA BuROCRACIA E hIERARquIA MíNIMA”. Nessa época, tínhamos no governo dos Estados unidos um Bush filho proclamando guerras em nome da liberdade. Nós, jovens ativistas, por nosso lado, gritávamos bem alto essa mesma palavra – liberdade –, para que ela não sumisse, apropriada por aqueles que gostam de sangue. O movimento foi à rua, nos dias de ação global que tiveram como epicentro as manifestações de Seattle (N30), Praga (S26) e Gênova (A21), e no Fórum Social Mundial, cujas três primeiras e antológicas edições ocorreram em Porto Alegre, no Brasil. Como escreveu a jornalista e ativista Klein, em sua obra-prima No Logo, o livro que conta a história dessa balbúrdia global, esse movimento já estava moldado pela internet “à sua imagem”, com uma dinâmica de “troca de informações constante, frouxamente estruturada e, às vezes, compulsiva”. Não é de hoje, portanto, que a internet é mais que um instrumento para a organização política. Poderia, inclusive, dizer que, criada pelo improvável arranjo descrito por Manuel Castells (big science + militares + contracultura), a rede surgiu como um poderoso instrumento político, capaz de articular e desarticular todas as dimensões da vida. No caso do movimento altermundista, foi por As siglas N30, S26 e A21 significam respectivamente 30 de novembro, 26 de setembro e 21 de agosto, datas em que esses eventos aconteceram, conforme o jargão dos manifestantes.

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meio do site colaborativo do Centro de Mídia Independente (CMI), lançado no fim da década de 1990, que a cena se forjou. Aquele www.indymedia.org era o ponto de encontro e de registro da história. E quem geria a infraestrutura, as máquinas, e detinha a propriedade das informações eram os ativistas, e não uma grande corporação criada para extrair de nós o bem mais valioso que hoje detemos: a informação. No Festival CulturaDigital.Br, realizado no Rio de Janeiro em dezembro de 2011, eu, ao lado de Ivana Bentes, Sergio Amadeu da Silveira, Cláudio Prado e Pablo Capilé, do Circuito Fora do Eixo, chamamos uma arena – uma roda de conversa embaixo dos pilotis do Museu de Arte Moderna – com o mesmo mote deste artigo: redes, ocupações, revoluções. Tinha gente do OcupaRio que tomou a principal praça da capital fluminense, a Cinelândia, e se desfez depois que a realidade desigual das ruas brasileiras se impôs. Tinha um camarada do movimento dos moradores de rua, o pessoal do Democracia Real Já! (Espanha) e da organização das Marchas da Liberdade e OcupaSalvador (no Brasil). Tinha gente que foi muito atuante na época do altermundismo, e também estiveram conosco os tropicalistas Gilberto Gil e Jorge Mautner, que ocupam ruas e mentes desde os anos 1960, entre várias outras pessoas. “Eu, sem dúvida, festejo e celebro o abraço afetuoso que as novas gerações fazem a essas novas possibilidades, o abraço maravilhoso que a gente dá no computador, no ciberespaço, no mundo digital. Mas fica claro que isso não passa de mais uma ferramenta, de mais um instrumento, de mais uma oportunidade para que a gente continue enfrentando as grandes dificuldades e os grandes problemas postos pelo rio da história”, disse Gil naquele dia, fazendo uma espécie

foto: Anders GrAnberG/rex feAtures/GlowimAGes

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de resumo do que foi o nosso encontro das redes de cultura digital. Nossas redes nos deram a potência de tomar as ruas. O ano de 2011 mostrou isso. Foi uma época bem agitada da perspectiva da rearticulação do movimento libertário global. Começou em janeiro, em duas localidades: na Praça Tahir, no Cairo, onde jovens foram às ruas depois de se articularem por meio de sites de redes sociais e depuseram Hosni Mubarak; e na Tunísia, onde a rede cumpriu papel determinante na articulação das manifestações contra o ditador Zine Al-Abidine Ben Ali, que caiu. Era a Primavera Árabe, cujos ventos sopraram e refizeram a rota dos mouros em seu encontro com a Europa. Em 15 de maio, a Espanha também se levantou com o movimento 15M (15 de Maio), que reuniu milhares de pessoas e produziu um enorme acampamento na Praça Porta do Sol, em Madri e em outras cidades. No Brasil, o ponto alto foram as Marchas da Liberdade, que mostraram a cara de uma nova geração de ativistas. A marcha de São Paulo teve início após a proibição e repressão à Marcha da Maconha, no início de junho. Vários movimentos de todo o Brasil se reuniram e chamaram uma nova marcha para a semana seguinte, que novamente foi proibida. Desta feita, no entanto, cerca de 5

mil pessoas marcharam pacificamente. Na Turquia, as manifestações contra as tentativas de censura na rede ganharam as ruas no mês de agosto e demonstraram que os jovens não pretendem deixar que essa infraestrutura potencialmente emancipadora seja desarticulada pelos governantes. A explosão final ficou por conta do Occupy Wall Street, que começou em 17 de setembro, quando ativistas tomaram as ruas do centro financeiro global. Em várias cidades dos Estados Unidos e de outros países, movimentos semelhantes tiveram início. O Occupy Wall Street lembra que somos 99% das pessoas do planeta que querem outra vida, não subordinada aos interesses de um capitalismo genocida, e que o 1% que governa os mercados deveria nos ouvir. Em 15 de outubro foi feito um chamado de ação global. Isso me faz pensar que a história é cíclica

fotos: giselle beiguelman / studio select

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O cu pa ç õ es da s p ra ç a s p O r j Ov e n s d O m u n d O tO d O m Ost ra m q u e a p O l í t i ca d O s é cu lO 2 1 pa ssa p O r n OvOs fO r m atOs d e O r ga n i z a ç ã O

Dez anos atrás, montavam-se protestos nos momentos em que os líderes da globalização se reuniam e, como num passe de mágica, as cúpulas e as manifestações se dissolviam. Agora as ruas estão cheias de pessoas que não pretendem ir embora, até conseguirem o que foram nelas buscar

e que ainda estamos nos primórdios dela. Houve vários outros momentos em que as novas tecnologias desempenharam papel central em processos políticos, como no caso do Irã, em 2009, ou mesmo da mobilização espanhola após os atentados de 11 de março de 2004, quando a população, por meio de tecnologias móveis, convocou uma manifestação contra o primeiro-ministro que havia mentido sobre a razão da explosão no metrô. A culpa era da Guerra do Iraque, para a qual José María Aznar tinha enviado tropas e não uma ação de radicais do ETA. A partir de 2011, no entanto, com a sequência virtuosa de protestos, manifestações, ocupações e revoluções orquestradas em rede, nos colocamos diante de um dado novo, que devemos celebrar: a aceleração dessa (des)organização que devolveu a esperança às ruas. Em sua ida ao Occupy Wall Street, Naomi Klein disse que duas características diferenciam o movimento atual daquele iniciado na virada do século. Em primeiro lugar, destaca ela, as manifestações não são esporádicas. São ocupações. Dez anos atrás, montavam-se protestos nos momentos em que os líderes da globalização se reuniam e, como num passe de mágica, as cúpulas e as manifestações se dissolviam. Agora as ruas estão cheias de pessoas que não pretendem ir embo-

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ra, até conseguirem o que foram nelas buscar. Além disso, chamou a atenção para o caráter pacífico das ocupações. Há dez anos, o movimento tolerava protestos violentos, os quais, em geral, eram articulados pelos Black Bloc, uma tática de protesto radical que resultava em destruir símbolos do capitalismo, como lojas do McDonald’s e outras grifes. Esses atos faziam com que, na imprensa mundial, toda a articulação fosse vista como violenta, o que não era o caso. Nos movimentos em rede atuais, impera a política da afetividade, o olhar ao outro e a ideia de que precisamos reinventar as práticas de sociabilidade por inteiro. E já aprendemos: o caminho da liberdade é a rua. Acesse o resumo do encontro com Gilberto Gil no Festival CulturaDigital.Br em (http://www.ustream.tv/ recorded/18903392)

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carlos jiménez,

de madri

atenção Às evidências exposição de antoni Muntadas no Museo Reina sofía mapeia as reflexões do artista sobre o ambiente midiático que define a atualidade

fotos: oscar Balducci, Joaquín cortés/román lores

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Muntadas está entre os artistas que Melhor respondeM aos desafios apresentados por nossa época, tão radicalmente marcada pelo propósito compartilhado entre estado e Mercado de moldar ao seu gosto a vida cotidiana, a vida comum. esta é a conclusão definitiva oferecida pela visita à grande exposição sobre sua obra, em cartaz desde novembro de 2011 e que vai até março de 2012, no Museu reina sofía de Madri, que mostra tanto a riqueza poliédrica de seu trabalho quanto seu obstinado interesse pelos meios e técnicas que permitem essa crucial manipulação. na busca de seus objetivos, Muntadas optou com frequência por uma tática que não é descobrir o que está escondido, mas chamar a atenção sobre o que é evidente. foi assim que ele realizou, em 1980, The limousine project, colocando para circular em Manhattan uma imponente limusine preta com vidros escuros e monitores de vídeo nas janelas traseiras, exibindo imagens que enfatizavam os traços enigmáticos desse símbolo de poder e status social característico de nova York. nenhum nova-iorquino ignora a existência desses automóveis, mas é provável que poucos deles, antes da intervenção de Muntadas, tenham se dedicado a refletir sobre a ostentação de poder que o seu uso faz supor. essa estratégia elíptica valeu a Muntadas o questionamento eficiente de duas maneiras muito poderosas de controle da vida contemporânea: a arquitetura e as mídias. a exposição traz architektur/räume/Gesten, peça crucial de 1991, composta da reunião, em uma série de slides, de imagens de exteriores de edifícios imponentes com imagens de escritórios onde se tomam as decisões e os gestos corporais característicos dos que efetivamente comandam essas decisões. a arquitetura revela-se nessas imagens como um dispositivo de poder formalmente congruente com a retórica gestual daqueles que o agenciam e representam. o mesmo assunto ocupa a instalação de Antoni Muntadas 1987, The Board room, uma grande sala Entre/Between, Museo de reuniões na penumbra, de cujas pareNacional Centro de Arte des pendem retratos de 13 personalidaReina Sofía, Madri, Espades religiosas, políticas e televisivas, com nha. Até 26 de março um pequeno monitor de vídeo em vez da boca, emitindo fragmentos de seus diswww.museoreinasofia.es cursos habituais que, sobrepostos, geram um rumor ininteligível.

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à esquerda , insta l aç ã o T he boar d ro o m ( 1 9 87 ); acima , mi rar V e r Pe rc i bi r (2009)

a grande mostra no reina sofía inclui ainda outra obra emblemática do artista: stadium, que interroga tanto a história de um arquétipo arquitetônico originário do circo romano quanto os usos esportivos e políticos que ele tem em uma sociedade definitivamente entregue ao espetáculo. cabe mencionar ainda situación 2011, uma intervenção realizada entre os edifícios de francesco sabatini e Jean nouvel, que servem de sede ao reina sofía. esse trabalho analisa tanto as diferenças entre edifícios de épocas tão distintas quanto as existentes em termos de políticas expositivas e concepções museográficas que orientaram o projeto inicial do centro de arte reina sofía e o atual Museo nacional centro de arte reina sofía. em relação à importância da televisão na obra de Muntadas, deve ser dito que ele qualifica de Media landscape (paisagem Midiática) o ambiente eletroacústico que tem na televisão seu principal meio de realização e projeção. na exposição sobram exemplos do que Muntadas fez com essa paisagem, começando pelas tentativas de democratizá-la, nos anos 70, com os projetos de televisão comunitária cadaqués canal local e Barcelona distrito uno. ou ainda de sabotá-la, como em acción tV, que pretendia interromper as transmissões normais da televisão com um vídeo em que o artista aparece com a letras t e V tapando seus olhos. talvez o projeto com formato televisivo mais ambicioso do artista catalão seja o que explora o medo, sentimento que divide mais do que as fronteiras físicas. esse assunto aparece em duas versões: fear/ Miedo, realizada na fronteira entre tijuana (México) e san diego (eua), em 2005, e Miedo/Jauf, realizada na região do estreito de Gibraltar, entre tarifa (espanha) e tanger (Marrocos), em 2007. impressionantes.

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Juliana Monachesi *

O shOw tem de parar reação da rede Globo à denúncia de estupro no BBB escancara moralismo, sexismo e equívocos de um formato que se mostra obsoleto diante dos novos sistemas de controle pulverizado

A 12ª edição do Big Brother BrAsil começou mAl: no primeiro diA dA gincAnA gloBAl (terçA, 10 de jAneiro), os 16 pArticipAntes se comprimirAm dentro de um cArro pArA disputAr umA imunidAde (regAliA de não poder ser mAndAdo pArA o pAredão nA primeirA semAnA). Quem aguentasse mais tempo no carro – privado de água, comida e sono – ganhava a prova (e também o carro). Quando foi ao ar o programa do dia seguinte, o apresentador pedro Bial comunicou aos espectadores que três participantes permaneciam na disputa e, orgulhoso, afirmou que dali a 20 minutos a prova de resistência completaria 24 horas. considerando que dois dos três heróis da resistência eram mulheres, e que 24 horas sem esvaziar a bexiga pode causar infecção urinária, o mais razoável que se podia esperar da produção do reality show era que a imunidade fosse concedida aos três e a prova terminasse ali. Ao final do programa, no entanto, Bial apenas comemorou o marco das 24 horas e os telespectadores viram a atração acabar com a cena dos três abandonados à própria sorte dentro do veículo (a prova terminou seis horas depois, batendo todos os recordes de edições anteriores). prenúncio de que o programa seria recordista em excessos por parte de seus diretores? três dias depois, ocorreu a festa em que, supostamente, daniel se aproveitou do estado de semiconsciência de mo-

nique para protagonizar uma cena de sexo. o programa de domingo mostrou cenas dos dois na cama, os corpos escondidos sob um edredom, e o rapaz realizando movimentos indubitavelmente correspondentes aos de um ato sexual. A cena foi arrematada por Bial com a infame frase “o amor é lindo”, a pérola que faltava para adornar sua brilhante carreira de jornalista. no programa de segunda-feira 16, após a enxurrada de protestos em redes sociais e na blogosfera, a direção do BBB consentiu que houve algo de podre no reino da dinamarca. pedro Bial anunciou que daniel havia sido eliminado do programa por comportamento inadequado. e arrematou: “o show tem de continuar”. A partir daí, tudo se passou como se o participante nunca tivesse existido. ninguém tocou mais no assunto, obviamente sob coerção, direta ou internalizada, do grande irmão. o que é mais perverso? endossar um suposto crime – veiculando imagens no mínimo duvidosas em um contexto de romance – ou vetar, em seguida, qualquer menção ao assunto? um crítico de televisão comparou o episódio da mudança de postura da globo, do domingo para segunda, com a manipulação da cobertura do comício das diretas já, em 1984, mascarada em festa pelo aniversário de são paulo. “2012 não é 1984”, concluiu o crítico. Vale notar que tampouco 2012 é 2002, quando a primeira edição do BBB foi ao ar. naquela temporada de estreia, por exemplo, a mesma competição de permanência dentro de um carro durou “míseras” 14 horas. os participantes têm mais resistência física dez anos depois? não. eles resistem melhor ao funcionamento de reality shows. na quarta 18, monique se esbaldou na festa seguinte à do “incidente” e, em conversa com outra participante, contou que brincava de Big Brother quando era criança – “A gente tinha uma poltrona na sala que a gente filmava e fazia de confessionário”, disse. em 2002, ela tinha 13 anos, assim como a maioria dos integrantes desta 12ª edição. esta é uma geração que cresceu vendo BBB, conhece todos os seus códigos e, provavelmente, não considera o filme o show de truman (1998) uma metáfora distópica.

foto frederico rosado

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o que é mais perverso: endossar um suposto crime – veiculando imagens no mínimo duvidosas em um contexto de romance – ou vetar, em seguida, qualquer menção ao assunto?

vítima ou atriz numa fa rsa pó s -o rw ellia na , mo niqu e é o c e n t ro das at e n ç õ es

Outro motivo por que 2012 não é 1984 (nem 2002) é a vigilância distribuída, este novo player do jogo que coloca em xeque o modelo de vigilância advogado pela Globo na condução do BBB. Esse modelo de controle centralizado foi apropriado da figura literária de George Orwell para dar o falso poder de controle à audiência (por meio da votação para determinar quem sai e quem fica) sobre os albergados na casa “vigiada”. A emissora disponibiliza durante 24 horas imagens em tempo real da casa cenográfica tanto em seu site quanto por meio de sistema pay-per-view na tevê a cabo, para garantir a credibilidade da edição. Então, como imaginar que interpretações moralistas, sexistas e cínicas dos fatos serão engolidas em massa por um público que, paralelamente, compartilha sua própria interpretação em um sistema de controle pulverizado, desmascarando qualquer manipulação: a internet? Tirar do ar o streaming do Big Brother seria como assinar uma declaração oficial de que não há nada

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de real nesse “show da vida”, esvaziando o interesse por ele. Manter a transmissão aberta pode desembocar em novas infrações de preceitos do Código Brasileiro de Comunicações, que prevê, entre as sanções cabíveis, desde multa até a interrupção dos serviços. Não seria hora de rever as regras do jogo? Entretenimento tem limite e televisão não é coliseu. O diretor do programa, em uma última manobra de manipulação, chamou o público de racista. Preconceituosa foi a postura dele, ao usar a raça do participante para chamar aqueles que denunciaram o episódio de burros. Mobilizações em resposta aos desmandos da direção do reality mostram que a inteligência é mesmo coletiva. O Movimento Defesa da Mulher, do Rio de Janeiro, e dois outros coletivos de direitos humanos decidiram atacar o inimigo pelo bolso e enviaram uma carta de apelo aos patrocinadores do BBB para se posicionarem em nome da responsabilidade social. Com participantes e espectadores ultraespecializados na novela do século 21 que a Globo foi pioneira em criar (nos outros 23 países onde a atração da holandesa Endemol é replicada, não ocorre nem de longe a mesma repercussão na sociedade), ou bem ela faz radicais transformações no formato – como, por exemplo, admitindo um processo de edição tão compartilhado quanto a função de vigilância – ou, como escreveu uma amiga no Twitter, depois do ”show must go on” do ex-repórter, opta pela saída mais nobre: “The show must stop”. *

Colaborou NiNa Gazire

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Exposição

HETERoTopiAs conTEMpoRânEAs GisEllE bEiGuElMAn Em mostra retrospectiva, Jac Leirner exibe a arte de monumentalizar o cotidiano pela ironia da noção de valor

Um dos segredos do fascínio que as listas provocam é sua ambivalência. Elas, aprendemos com Umberto Eco, oscilam o tempo todo entre a abertura para um infinito et cetera e um mundo que se fecha em si mesmo. Impossível não pensar nisso ao visitar a retrospectiva de Jac Leirner, em exposição na Estação Pinacoteca do Estado de São Paulo. O conjunto de 60 obras, realizado entre 1980 e 2011, é uma sequência de projetos que reorganiza, metódica e delirantemente, elementos do cotidiano. Para criar, a um só tempo, um universo próprio e um jogo que poderia não terminar jamais. As obras são construídas com cartões de visita, cobertores, saquinhos de vômito e cinzeiros de avião, etiquetas de preço de maços de cigarro, cédulas de dinheiro, sacolas plásticas de lojas, adesivos, rolos de Durex, coleções de todos os portes, cores e formas. No conjunto, constituem uma enciclopédia do século 20, cuja única variável constante parece ser a sua capacidade de “perturbar todas as familiaridades do pensamento”, como escreveu o filósofo Michel Foucault no prefácio de As Palavras e as Coisas. Foucault comentava aí um texto de Borges, em que ele discorre sobre uma enciclopédia chinesa que assim enumerava a divisão dos animais: “a) Pertencentes ao imperador; b) Embalsamados; c) Domesticados; d) Leitões; e) Sereias; f) Fabulosos; g) Cães em liberdade; h) Incluídos na presente classificação; i) Que se agitam como loucos; j) Inumeráveis; k) Desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo; l) Et cetera; m) Que acabam de quebrar a bilha; n) Que de longe parecem moscas”. Essa ordem, que paradoxalmente desordena as certezas, é o que as obras de Jac Leirner põem em circula-

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Na págiNa ao lado, a iNstalação Nomes, com sacolas plásticas; acima, a aquarela 4 yellows, de Jac leirNer

ção. Mais do que desfazer a lógica das sintaxes previsíveis, o conjunto em exposição brinca com as nossas referências mais sutis e também arraigadas. Desfaz a relação entre valor e perenidade, por operações de inversão que transformam o transitório (como o anonimato das frases escritas em notas de 100 cruzados) em monumento: o Livro (dos cem), de 1987. E o próprio dinheiro é transformado em objeto descartável. Leirner problematiza, como assinala o curador da exposição, Moacir dos Anjos, “os padrões formais estabelecidos pelo racionalismo nos movimentos artísticos (Arte Concreta e Minimalismo)”, e se institui, como referência da arte que inquieta porque nos impede, como as heterotopias de Foucault, de nomear “isso e aquilo”. ARTE

MiRAdA sobRE A coR ivAn clAudio Com curadoria exemplar, retrospectiva de Carlos Cruz-Diez, em Buenos Aires, persegue a materialidade da cor na obra do artista venezuelano. A grande retrospectiva

Ja c Lei rn er, Esta ç ã o Pinacoteca. Largo General Osório, 66 . Tel. (11) 33344990. De terça a domingo, das 10 às 18h00. R$ 6 e R$ 3 (meia). Grátis aos sábados. Até 26 de fevereiro

dedicada ao artista franco-venezuelano Carlos CruzDiez, em cartaz no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), até 5 de março, é exemplar por vários motivos. Organizada originalmente para o Museum of Fine Arts of Houston, no Texas, a mostra reúne apenas obras de primeira grandeza – o que, de resto, deveria ser o objetivo de qualquer retrospectiva. Ao dispô-las segundo a simples cronologia, a curadoria minimiza a intervenção, esconde a escolha meticulosa e chega a passar a falsa

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Livros

ideia de um artista em evolução ascendente, sem altos e baixos. Sob essa falsa aparência, no entanto, identificase o vetor que, se não orienta totalmente a produção de Cruz-Diez, termina por ser a visão norteadora da curadoria, assinada pela diretora do MFAH, Mari Carmen Ramírez. E qual seria essa mirada? A cor, em sua materialidade pura, evidenciada no título da retrospectiva, El Color en el Espacio e en el Tiempo. É fácil perceber a cada segmento da mostra como, a partir da fase figurativa inicial, a cor começa a se desprender da forma e como a própria forma se desprende do fundo e nega o suporte. Esse processo é visível também em artistas que buscaram a tridimensionalidade e o ambiental, a exemplo de Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas numa retrospectiva tão completa como essa de Cruz-Diez – que soma 120 peças de coleções como da Tate Modern, do Centre Georges Pompidou, da Daros Latinamerica, de Pratricia Phelps de Cisneros etc. – se chega ao ponto do didatismo. O trabalho de Cruz-Diez tem raízes na pop art e na arte cinética, mas foi tão aprofundado na fisiologia da percepção e nos fundamentos da física e da óptica que acabou por abrir uma trajetória singular, afastando-o de conterrâneos como Jesús Soto – é bom ter em mente que o cinetismo teve terreno fértil no país de Hugo Chávez. Isso fica patente na série de Fisiocromias (40 ao todo), cujas linhas de cores em sequência vertical, algumas delas saltando do quadro, têm as tonalidades alteradas de acordo com a incidência da luz ambiente. Outra série, Cor Aditiva e Indução Cromática, trabalha com o princípio da persistência retiniana – o olho cria uma cor virtual ao se expor a duas cores complementares. São conceitos que se repetem e ganham plenitude nas três obras ambientais que fecham a mostra. Ao escolher Cruz-Diez para comemorar os dez anos de existência, o Malba reafirma a sua aposta no embaralhamento de noções entre centro e periferia e busca os pontos comuns a uma experiência latino-americana. São questões que certamente virão à luz quando a mostra chegar ao Brasil, em julho, na Pinacoteca do Estado, e poderá ser aproximada, por exemplo, ao trabalho de Abraham Palatnik e Lothar Charoux.

A cor ocupA o espAço em obrA AmbienAl de cArlos cruz-diez, no mAlbA, em buenos Aires

Em busca do ovo da sErpEntE angéLica dE moraEs

Carlos Cruz-Diez: El Color en el Espacio y en el Tiempo, até 5 de março. Malba – Fu nd a c ió n C osta ntini, Buenos Aires, Argentina

O Cemitério de Praga Umberto Eco, Editora Record, 480 págs. R$ 49,40 (papel), Breve em e-book

Em O Cemitério de Praga, Umberto Eco cria um romance de enorme voltagem de denúncia política Não é uma leitura fácil nem

o autor pretendeu criar um mero entretenimento. “Apenas editores de livros e alguns jornalistas acreditam que o público quer coisas simples. O público está cansado de coisas simples e quer ser desafiado”, diz Umberto Eco sobre seu romance O Cemitério de Praga. O novo livro do escritor, teórico da comunicação e bibliófilo italiano situa a ação na segunda metade do século 19 e segue o estilo literário praticado na época, com acréscimos de flash-backs do cinema do século 20. Narra as aventuras farsescas e escusas de Simone Simonini, exímio falsificador de documentos cartoriais que, à noite, se disfarça para assumir a personalidade do abade jesuíta Dalla Piccola. Eco volta a um de seus temas prediletos: a conspiração. Assim como no seu famoso romance de estreia (O Nome da Rosa, 1980), há um mistério a ser resolvido. O crime? A falsificação de um documento. A dúvida: quem é o falsificador? Nesse momento, como em inúmeros outros ao longo da narrativa, misturam-se fatos reais e inventados. E surge até um doutor Froïde, referência ao pai da psicanálise, Sigmund Freud, contemporâneo da ação narrada. A falsificação realmente aconteceu e é a questão central de todo o livro. A investigação é pela autoria de Os Protocolos dos Sábios do Sião, texto apócrifo escrito no século 19 para denunciar suposta conspiração dos judeus para dominar o mundo. Esse texto forjado foi amplamente citado como verdadeiro no livro Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, fornecendo as bases teóricas que resultaram no nazismo e no Holocausto. Equilibrando-se entre ficção e história, Umberto Eco traça uma envolvente narrativa que busca as origens do antissemitismo. Nota-se que o teórico da

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comunicação dirige a cena escrita pelo ficcionista. O personagem Simonini/Dalla Piccola encarna todos os preconceitos repugnantes veiculados em Os Protocolos e os defende em minúcias já no início do livro, criando uma barreira quase intransponível aos que não notam esse artifício da ficção de Eco. A leitura literal apontaria uma defesa do antissemitismo, mas Eco está denunciando pelo avesso e pela ironia mordaz. Afinal, como observa o escritor, o que lhe interessa é a influência dos documentos forjados na construção da história. “Uma das principais características da linguagem humana é a possibilidade de mentir. O cão não mente. Quando ele late, isso significa que há alguém lá fora.”

Cinema

Sobre relógioS e filmeS Paula alzugaray

O herói hugO, sua amiga isabelle e O autômatO prOtagOnizam lOngametragem de scOrsese sObre a Origem dO cinema

Martin Scorsese presta homenagem ao mestre Georges Méliès em seu primeiro filme para crianças

Martin Scorsese conduz a cena de abertura de seu primeiro filme, realizado em 3D e destinado a públicos de todas as idades, com uma trilha sonora ostensiva e um plano-sequência com movimento de câmera de tirar o fôlego. A câmera logo acalma, mas a trilha prossegue grandiloquente, acompanhando o drama do menino órfão e maltrapilho Hugo (Asa Butterfield), que vive de pequenos furtos e de dar corda nos relógios de uma estação ferroviária na Paris do início do século 20. Hugo passa seus dias entre as fugas de um policial pastelão (Baron Cohen), as duras disputas com um velho ranzinza proprietário de uma loja de brinquedos e as tentativas frustradas de consertar um boneco autômato, herdado do pai. Sob a tensão de longos acordes sentimentais, a melancolia dá o tom do primeiro terço do filme. Mas Scorsese começa a revelar a que vem no momento em que conclui a fase de apresentação dos personagens. O flerte com o clichê e a sensação de déjà vu ganham um acorde final

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Hugo, direção de Martin Scorsese, EUA, 126 minutos Previsão de estreia no Brasil 17/2

no momento em que o nome Méliès é pronunciado. Em uma cena luminosa, Hugo descobre que Tio Georges (Ben Kingsley), o vilão da loja de brinquedos e padrinho de sua única amiga, Isabelle (Chloe Grace Moretz), é, na realidade, um grande mestre do cinema, do ilusionismo e dos efeitos especiais. Esquecido. Como num passe de mágica, o que era sentimental torna-se comovente. Ilumina-se a história e volta-se aos primórdios, quando a ideia de cinema nasce para o ator e prestidigitador Georges Méliès, depois de assistir às primeiras projeções de Atualidades dos Irmãos Lumière. São deslumbrantes os remakes que Scorsese faz dos filmes de Méliès, que foram mais de 500 – com personagens tão fantásticos quanto sereias, diabos e lagostas alienígenas –, mas que foram em sua maioria destruídos com a Primeira Guerra Mundial, juntamente com os sonhos e as fantasias da sociedade europeia da época. De escola realista, o diretor de Touro Indomável e Os Bons Companheiros não se deixa impregnar pelo lirismo surrealista de Méliès. Em vez dos truques ilusionistas do mestre a quem homenageia, prefere dedicar-se às metáforas entre relógios e cinema. Ainda assim, o espectador não vê o tempo passar, até que o grande diretor de Uma Viagem à Lua (1902) seja redescoberto na estação de Montparnasse.

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colunas móveis / fronteira

Douglas Diegues 124

City Maravishoza Toneladas de muamba son konfiscadas todos los años en los asfaltos selvagens do Rio de Janeiro pero igual todos los dias son comercializadas klandestinamente toneladas de muamba nel kamelódromo de la calle Uruguaiana entre los edificios históricos del centro antiguo assim como assim en otras calles de otros bairros de la zona sul y de la zona norte y del resto de la city maravishoza Buena parte dessa muamba es muamba triplefrontera procedente de várias partes del mundo y que adentra la selva urbana carioca generalmente via Paraguaylandia para animar la fiesta de los pobres y los ricos que se deliciam con el contrabando exótiko. Kontrabando de brinquedos, fetiches de pelúcia y plástico, eletrônicos, objetos que hablan, brinquedos para crianzas adultas y para adultos crianzas, sensaciones de plazer seudo refinado primermundista a precios baratellis, obscuros y claros objetos del deseo de miles de consumidores infantilizados por los atributos de la magia kapitalista, que nunca perdona un miserable centavo. Exotismo kitsch, exotismo posmo, exotismo brega, exotismo chic, tudo es exótico bajo los sovacos del cristo redentor. Para ficar por dentro de las nobidades es necessário disponer de uma rede de informaziones de negocios prohibidos. Lo mais óbvio proveniente de Paraguaylandia son los eletrónicos, los brinquedos de fumar tipo crack, maconha, cigarros importados, cigarros paraguayos falsificados, y los brinquedos de matar: fuzil AR15, metralhadoras uzi, lanza míssil de fundo que quintal, pistolas 765, revólver taurus 38, espingarda calibre 12, armamento pesado para rebolucionário ninguno reclamar. La pirataria y el contrabando muebem juntos mais de 1 trillón de reales por año en todo el mundo. Trata-se de una suma dos vezes más alta que la movida por el narcotráfico. En Brasil son sonegados cerca de 30 millones de reales por año. Muitas vezes com ajuda ofiziale. En los dias que corren, miles de brinquedos esperan los consumidores nel mercado posmo klandé de muamba rarófila de la guanabara. Una de las nobidades es un aparelho inútil que faz um ruído idiota

y dá choke. ¿Cómo se llama essa porkería? Se llama choke. ¿Y para qué sirve? Para assustar a las personas com choke eléctrico me lo kontesta un vendedor pedestre que camina por las calles ofrecendo um arsenal de pequenas bugingangas, incluso remédios tipo Pramil e Viagra avulsos, para los viejos faunos turistas que están yirando por el sábado salvaje. Pero los brinquedos mais rarófilos que pueden ser ubikados nel paradizo del contrabando exótiko son los brinqueditos erótikos. Vibradores de 15 hasta 25 cm para yiyi ninguma poner defectos. Vibradores com dois falos de borracha flexible para dupla penetracione simultanea unipersonal, además de los famozos falos hespanholes para duos de amantes lesbis. Porongos de chocolate podem servir para hacer um regalito pascualino a la novia ou ser degustados tipo sobremesa en la cama redonda de los moteles del suburbio ou de la zona chic. Algunos vibradores, que loco puede ser todo, tienen cara de duende. Y hay vibradores que tienen cara de teletubies pokemonizados! Pílulas levanta defunto também tienen expressivo público. Gorra de marinero y de kapitán, tipo Querelle fassbinderizado, para fantasias carnavalescas erotikonas gay, trans ou hetero. Hay cassetetes também, para los desesperados, los famosos cachiporros policialescos, y chicotinhos, para los domadores de humanos. Hay que ver para creer de que modo la ficción del contrabando exótiko supera diariamente la realidade aduanera de la city maravishoza…

À esquerda, douglas diegues; À direiTa, ilusTração sobre foTo de Theo Wargo/Wireimage

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colunas móveis / música

Tony BelloTTo 125

roqueiro não envelhece? Numa Noite coNturbada, em que delírios etílicos se misturam às faNtasias eróticas de praxe, toca o telefoNe. Vislumbro entre névoas de remela o iphone: 3h15 da matina. “alô?”, balbucio, zoado. É a esfinge. ela me liga de vez em quando, sempre me propondo enigmas inúteis em horários proibitivos. “isso é hora, esfinge? 3h15?” “roqueiro de merda”, diz a esfinge – sim, não há cerimônias entre nós –, “você não era assim, belo”. uma pausa rápida, para que se entenda um pouco mais da esfinge: ela fala com sotaque italianado, com um timbre de voz idêntico ao da falecida atriz Nair belo (às vezes, acho que a esfinge é a Nair belo). “o tempo passa, esfinge. as coisas mudam. Não tenho mais 25 anos nem a mesma predisposição para atravessar em claro noites escuras.” “ah, você fala como o corvo, de edgar allan poe! só falta me dizer agora: ‘Nunca mais’.” “Nunca mais o quê, Nair?”. “por que você sempre me chama de Nair?” “essa é a pergunta que você quer me fazer? quer dizer que a esfinge me liga às 3h15 da manhã só pra saber por que eu às vezes a chamo de Nair? Você também não era assim, bela.” “Vá tomar no cu, italiano de merda. minha pergunta é: por que roqueiro não envelhece?” e desliga. Não sei vocês, mas, quando a esfinge me propõe alguma questão, preciso responder, sob pena de ser devorado – sou um titã, afinal, envolvido até as vísceras com a mitologia grega, vocês entendem. levanto-me, vou até o banheiro e me encaro no espelho: por que roqueiro não envelhece? como assim? à minha frente está um sujeito razoavelmente enrugado, com cabelos brancos nas têmporas, testa cada dia mais larga, manchas senis no rostinho cansado de um cinquentão conservado em barris de carvalho, exalando pelos poros os profundos questionamentos de um homem de meia-idade: será que creme de babosa retarda mesmo a calvície? tenho certeza de que esses pneuzinhos estavam menores ontem à noite. eureka!, penso de repente. Já sei por que roqueiro não envelhece! pelo simples fato de que roqueiros morrem antes de ficar velhos: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim morrison,

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brian Jones, Kurt cobain, bradley Nowell, renato russo, cazuza, marcelo fromer, cássia, John lennon, elvis, raul. mas e os que não morreram?, pergunta aquela metade de mim que vive enchendo o saco da outra: mick Jagger, iggy pop, Keith richards… peraí, Keith richards não é velho? ele é o quê? um maracujá guitarrista? Volto pra cama. amanhã vou dizer à Nair belo que ela precisa ler o retrato de dorian Gray, de oscar Wilde.

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selects / acessórios

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Raquel Rennó GooGle-dadá na cabeça!

E l m ed i co d e m i h i j @

Nerd B a by

b i t .ly/9 G RyGO

b i t .ly/sWq wOV

Adultos falando tatibitati, pediatras xiitas, barrigões embrulhados para presente. Há vida inteligente no mundo da maternidade? Alguns sites mostram que sim.

U m blog fe ito p or um exp e r ie nte p e dia t ra q ue t ra t a com res p e ito a s d úv ida s dos pa is e ev it a os ra dica lis m os e exces sos t ã o na m oda a t ua lm e nte.

Produtos para o seu pequeno cientista, mesmo que ele ainda esteja no berço.

Code Babies

P i k ku Ka k ko n en

Pregn a n cy Chicke n

bi t . ly/n Vri n J

b i t .ly/8p QxwJ

b i t .ly/9 kRQ dU

Livros como HTML para Bebês e CSS para Crianças podem ser encontrados neste site. Como diz Dan Frommer, do site de tecnologia SplatF, “Ensine seus filhos a codificar, não a falar chinês”.

Se o seu bebê é pequeno demais para entender uma conversa, não há melhor modo de interação que entrar na onda. Site com excelentes games, vídeos e áudios educativos para crianças. Totalmente em finlandês.

“Porn para grávidas”, “ Povo da Walmart: uma exploração do incrível”, “Ideias de fantasia de Halloween para grávidas” são apenas alguns dos posts que podem ser encontrados neste site que entende de verdade o humor tão especial da gravidez. E sem culpa.

Stark Raving Ma d Mom my

Ra n ts f ro m m o m my la n d

Ac kwa rd fa mily photos

bi t . ly/93 J gfg

b i t .ly/9 Pn n ur

b i t .ly/S FoVl

M a tern ida d e ri m a t an to co m fel i c i d ad e qu a n to co m i n s an i d ad e e o b log t rat a desses temas co m m u i t a i n tel i g ên c i a.

No site são discutidas dúvidas do mundo materno como: “Era pra ser assim tão difícil?” “Isso é normal?” “Que cheiro é esse?”.

Este blog já é um clássico da web, continua valendo mais que muitas sessões de terapia para traumas pósfestas de fim de ano e reuniões familiares em geral.

My milk toof

Super Duper

Raquel Rennó

bi t . ly/c IH 4 I H

b i t .ly/xO8l 7 T

Dentinhos de leite retratados em várias aventuras. Para explicar para onde eles vão depois da visita da fada do dente.

Um blog sensato, sem regras e ameaças, com muita informação de quem topou a maternidade como ofício.

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é professora do Departamento de Artes e Design da UFJF, consultora dos cursos de extensão universitária em Arte e Tecnologia da Universitad Oberta de Catalunya (UOC) e mãe de Sofia, de 8 meses

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EM FEVEREIRO NAS BANCAS

www.gooutside.com.br


obituário

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PC - computador pessoal (1971-2012) Soberano inconteste dos lares e empresas do fim do século 20, o computador chega ao fim da primeira década do século 21 como trambolho dos tempos da imobilidade

Nascido nos anos 1970, o computador pessoal (PC) parecia consolidar as utopias acalentadas por décadas na ficção científica, desde os tempos em que Flash Gordon enfrentava os maléficos habitantes do planeta Mongo. Em contraposição aos mastodônticos computadores empresariais mainframe, que chegavam a ocupar uma sala e ser maiores que uma geladeira, eram carinhosamente chamados de “micro” por seus donos. Espécie de televisores “verde e preto” pendurados em teclados, não serviam para muito mais que salvar a vida de datilógrafos disléxicos. E isso já era muito, rendendo-lhes o trunfo de entrar para a história como implacáveis assassinos de litros de corretor branquinho. Colocaram fim a uma era de ruídos em redações jornalísticas e eclipsaram para sempre técnicas de edição literalmente cut & paste, baseadas em recortes

– com tesoura – e colagem com incontáveis tubos de cola Prit. No começo tinham nomes, como Commodore e Atari, que lembravam espaçonaves e embates entre jogadores de GO, mas depois, com a Apple, foram assumindo ares mais humanos, anunciando uma época de naturalização das tecnologias. Com a internet, a partir de meados dos anos 1990, chegaram a ser os soberanos das empresas e dos espaços domésticos, transformando-se nos melhores amigos do homem contemporâneo. Abalados pelo poder de comunicação instantânea dos celulares, têm sua morte dada como certa, em 2012, aos 40 anos de idade, esganados pelo poder de seus filhos mais pródigos, os tablets, que prometem, com o parricídio iminente, uma era de conexão e mobilidade. Amém. GB FOTO: DIVULGAÇÃO

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delete

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no ca rnava l de sa lva do r, só quem po de se saco de

Abadá, um flagelo sociológico Camarotes e abadás passam um cordão de isolamento nas utopias do carnaval AngélicA de MorAes Em clima de carnaval, Delete põe som na caixa e samba no pé. Nosso enredo desta edição é inspirado em “Plataforma”, de autoria do compositor mineiro João Bosco. Ele reivindica: Não põe corda no meu bloco Nem vem com teu carro-chefe Não dá ordem ao pessoal Não traz lema nem divisa, Que a gente não precisa Que organizem nosso carnaval O carnaval mudou de dono. A tal “maior festa popular do planeta” tirou o povo da frente, passou um cordão de isolamento para deixar bem clara essa história de elite e colocou seguranças parrudos a vigiar o cercadinho vip que segue os carros de som dos blocos. Tudo para atender os diferenciados portadores de abadás. Essa curiosa roupa/ passaporte é vendida a preços extorsivos que esclarecem a quem se destinam. O carnaval baiano pratica as cotações

mais altas no circuito Dodô (Barra-Ondina). Segundo os sites www.abadaweb. com.br e www.meuabada.com.br, o preço para pular o sábado de folia no bloco Nana Banana, do grupo Timbalada, liderado por Carlinhos Brown, chega a R$ 750. O preço mais módico é do Araketu: R$ 150. Pela média, o extenso festejo baiano (uma semana) custa R$ 3 mil só no item abadá. Haja fôlego financeiro e pulmonar. Mas tem também o camarote, outra engrenagem para estabelecer diferenças diante da patuleia. O mais caro, o Salvador 2012, cobra R$ 1.040 para homens frequentarem o local no sábado, com open bar. O mais barato, com o rótulo Skol, custa R$ 330 para homens e R$ 290 para mulheres. A rua é o espaço público, afirmam os sociólogos. Nela, deve imperar a lógica do convívio e do compartilhamento igualitário dos espaços. Roberto DaMatta esclarece que “a rua é o oposto da casa, espaço privado por excelência, onde estão ‘os nossos’, que devem ser protegidos e favorecidos”. Propomos deletar o abadá e seu cortejo de privilégios momescos. No livro O Que Faz o Brasil Brasil?, DaMatta observa que o carnaval cumpriria um papel especial entre nós. Numa sociedade “que tem horror à mobilidade social”, o carnaval seria “a possibilidade utópica de mudar de lugar, de posição. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade”.

Foto: Adenilson nunes/lAtinContent/Getty imAGes

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reinvente

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C HUR RASC ã o dA ge n t e di f e Rê n CiAdA l evoU À C RACo lândiA , em S ão pAU lo, 1.500 peSSoAS, 100Kg de CAR ne, lingUi ç A e v i n Ag R e t e

Viva as rugas das cidades

Giselle BeiGuelman

Sociedade civil organiza-se em pequenas associações e restaura os afetos entre cidadãos e cidades A palavra rua tem origem latina e vem de ruga, sulco, rego, vinco. Como as dobras da pele, as ruas são linhas que retêm a memória da passagem do tempo e suas histórias. O cronista João do Rio (1881-1921) dizia que a rua “é a agasalhadora da miséria.” Todos os renegados ali encontram seu espaço e é ali também que a cultura se reinventa, interferindo na língua, “matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa”, escreveu ele. Território de criação, moradia, lembrança – pessoal e urbana –, a rua é hoje diretamente relacionada ao seu valor imobiliário. Rebeldes como João do Rio, que decidiu não compactuar com os livros que veem as ruas como mera sucessão de fachadas, várias organizações e coletivos vêm propondo ações independentes para repensar e viver as cidades. A recente operação dos governos do

estado e do município de São Paulo na área da Luz, conhecida pejorativamente como Cracolândia, deu visibilidade a vários deles. Polêmica, a ação que propõe “estratégia de dor e sofrimento”, no seu plano de erradicação do enclave dos dependentes de crack do centro de São Paulo, gerou uma onda de protestos. Variados e veementes, vão da contestação às políticas urbanas que teriam objetivo de higienizar socialmente o centro para favorecer a especulação imobiliária, passando pela crítica ao despreparo da Polícia Militar e chegando à confusão entre saúde e segurança pública. Mas isso tudo não se faz à custa da perda do bom humor – que parece ser uma das características da geração “pós-rancor”. Um dos marcos desse processo foi o Churrascão de Gente Diferenciada – Versão Cracolândia, que reuniu ativistas diversos na área em 14 de janeiro. Nem todos os grupos que vêm discutindo o problema são formados por urbanistas, como a associação AmoaLuz, paulistana. Outras, como a BaixoCentro, também de São Paulo, são formadas por ativistas que procuram reinventar a sociabilidade, a partir de redes locais, reivindicando que “as ruas são para dançar”. O fenômeno não se restringe a São Paulo nem ao Brasil e muitas vezes se articula com conglomerados multidisciplinares, como o Hackitetura, coletivo espanhol de artistas, ativistas, programadores e arquitetos, e o Fabrique Hacktion, francês, um grupo de designers que propõe “enxertos” nos equipamentos urbanos para melhorar o uso dos espaços públicos. De diferentes perfis e escalas, ecoam uma pulsação comum que é a restauração do homem como ser político por excelência, tendo a cidade, a polis, como seu lugar no mundo.

FOTO: adrianO vanni

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SeLecT nº 4 fevereiro

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