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DIÁRIO DO COMÉRCIO

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sábado, domingo e segunda-feira, 14, 15 e 16 de dezembro de 2013

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Brasil ganha espaço na telona

Do Nordeste veio a surpresa do ano mágica do cinema produz casos curiosos, que desafiam a lógica do sistema. Neste ano a indústria brasileira teve uma grata surpresa: sem explicação, uma pequena produção nordestina conseguiu alcançar a marca de 50 mil espectadores, com uma relação de pessoas por sala de 5 mil – bem mais que a média de 2,6 mil pagantes por sala dos dez filmes mais vistos neste ano até setembro. “Cine Holliúdy” conta a história de um morador do interior do Ceará que cisma de montar uma sala de cinema num rincão do interior. História simples e cativante, que atraiu milheres de pessoas. E o cinema brasileiro precisa de mais casos mágicos como este.

Fotos: Divulgação

2013 foi um ano bem positivo para o cinema nacional, com mais filmes, salas e espectadores.

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Rejane Aguiar inda não dá para dizer que os filmes nacionais estão perto de ameaçar a hegemonia dos blockbusters de Hollywood, firmes como campeões de audiência nas salas brasileiras. Mas 2013 termina como um ano bastante positivo para esse segmento da indústria nacional d o e n t re t e n i m e n t o , c o m boas notícias nos vários elos da cadeia. Aumentaram os números de salas de exibição, os lançamentos e a audiência. A evolução do cinema brasileiro, que tem como marco recente o espetacular desempenho do filme “Tropa de Elite 2” (11 milhões de espectadores em 2010), parece estar na direção certa. Se for mantida a tendência deste ano, em médio prazo o Brasil deixará de ter apenas os extremos – filmes nacionais (predominantemente comédias com estrelas globais) exibidos em centenas de salas e vistos por milhões de pessoas, de um lado, e títulos de pequenas p ro du to ra s q u e c h egam a um

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número muito reduzido de espectadores, quase sempre em circuitos alternativos. O ideal é trilhar o caminho do meio, com filmes médios, com cerca de 500 mil espectadores, o que pode levar o mercado nacional ao que se chama de pré-indústria (tendo como referência o monumental mercado dos EUA). Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), órgão regulador da indústria do audiovisual, no fim do terceiro trimestre a participação do público dos filmes nacionais em relação à audiência total era de 17%. Pode parecer pouco, mas em setembro do ano passado o percentual era bem menor, de 6,6%. A diferença, de 10,4 pontos percentuais, o cinema brasileiro tirou dos estrangeiros. Os títulos de outros países saíram de uma participação de 93,4% no fim do terceiro trimestre de 2012 para 83% no último mês de setembro. Outros números comprovam o avanço: enquanto o público de cinema cresceu 6,5% sobre o número registrado em setembro do ano passado e o público dos estrangeiros c a i u 5 , 2 5 % , a a udiência para filmes brasileiros aumentou 173,4% – de 7,18 milhões de espectadores pagantes para 19,65 milhões. O filme brasileiro mais visto até setembro foi “Minha mãe é uma peça”. Exibido em até 407 salas, o título atraiu 4,6 milhões de espectadores, número ainda distante dos 7,63 milhões da produção campeã do ano até então (o americano “Homem de ferro 3”). O maior interesse do brasileiro pelos títulos nacionais, impulsionado pela entrada da classe C no mercado de entretenimento (com menos escolaridade, essa fatia da população prefere filmes falados em português) favorece o

aumento de produções e lançamentos. Os dados finais de 2013 só devem sair no início do próximo ano, mas a expectativa é de que o número de lançamentos ultrapasse 100 – se confirmado, será o maior volume de novos filmes desde o período conhecido como retomada, em meados dos anos 1990, quando a indústria começou a se reerguer depois de quase ser destruída no confisco do governo Collor (são de 1995 filmes conhecidos, como “Carlota Joaquina” e “Terra estrangeir a”). Até setembro, haviam sido lançados 81 filmes na-

trado, o que deixa pouco espaço para produções de menor porte. Há muitos filmes para poucas salas e precisamos batalhar muito para conseguir lugares para exibição. Como um filme só se torna cinema quando é visto, há ainda muito o que fazer para fortalecer o cinema nacional”, diz Cynthia Alario, sócia da distribuidora e divulgadora Brazucah, empresa que se dedica à formação de público para o cinema brasileiro. A divisão desigual das salas impede que o grande público tenha contato com produções mais diversificadas, Tina Cezaretti/Hype que possam ajudar a formar esse público que está no radar da Brazucah. Um bom exemplo recente: o documentário “Qualé o teu negócio?”, que mostra a história de empreendedores das periferias, ficou apenas uma semana em cartaz em São Paulo – e, nesse período, teve só um horário de exibição. É esse o funcionamento do cinema nacional hoje. O exibidor – empresa que está por trás das salas – precisa escolher o que apresentar, de acordo com estratégias de negócio que nem sempre coincidem com as das produtoras (as empresas que “f ab r ic am ” Cynthia, da Brazucah, trabalha os filmes) ou com as com a formação de público. das distribuidoras cionais, ante 54 nos três pri- (que “vendem” os títulos). A meiros trimestres de 2012. saída, por enquanto, está na Aqui, de novo, o cinema brasi- criatividade. A Brazucah, por leiro avançou mais que o mer- exemplo, desenvolve projecado: alta de 50%, ante 21%. tos de exibição de filmes em O cenário é promissor, mas lugares que não têm salas de a indústria brasileira conti- cinema. A empresa tem até nua convivendo com um im- um veículo movido a energia portante limitador: a falta de solar que carrega os equipaespaços de exibição. Embora mentos necessários para o número de salas tenha au- uma sessão de cinema fora mentado (o saldo líquido do do roteiro tradicional. E ainda ano, até setembro, é de 110 existe, de fato, muita gente salas), a maior parte é ocupa- no Brasil sem acesso à prazeda por poucos filmes, em ge- rosa experiência de ir ao cineral grandes produções es- ma. Dos cerca de 1,3 mil mutrangeiras, animações e co- nicípios brasileiros que têm médias brasileiras, como os entre 20 mil e 100 mil habisucessos “De pernas pro ar 2” tantes, apenas 188 têm salas (3,78 milhões de espectado- de cinema. O País tem hoje res) e “Vai que dá certo” (2,72 2,6 mil espaços de exibição, milhões). “O mercado exibi- mais da metade instalados dor brasileiro é muito concen- em capitais.

Ajudam a impulsionar o cinema brasileiro títulos com temas parecidos: ou são comédias com atores globais ou são histórias ligadas a ídolos da música.

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