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The Portuguese-American Monthly Magazine in the US

Apr 2010 • vol. IV • nº 20 • $3

PAULINO NUNES

Um actor dividido

John Lema

Luso-descendente dá milhares para Bolsas de Estudo em Português

Manny Lopes Português dirige a maior empresa de distribução alimentar de NY

Azores offers internships for luso-americans Pág. 9

Pedro Batista

Cientista português ganha prémio de prestígio na medicina


Café Bakery Majestic (703) 330-4447 Mais do que um Café Morais Plaza • Manassas, Virginia


The Portuguese-American Magazine in the United States

Edição Dupla - vol. III • nº 20 • APR 2010 www.ComunidadesUSA.com

Neste número: 4 – EM FOCO Census 2010: formulários devem ser enviados no prazo de 10 dias 5 – FALATÓRIO 6 – ACTUAL – Numa Europa cada vez mais “inglesa”, UE gasta anualmente 530 milhões de euros para traduzir documentos; Cartão do Cidadão já é emitido em alguns Consulados, mas não ainda nos EUA 7 – PORTUGAL – Níveis da emigração voltam aos anos 60, com quase 75 mil a deixarem anualmente o país; emigrantes nos EUA (e todos os outros) mandam menos dinheiro para Portugal 9 – AÇORES – Governo açoriano paga estágios a jovens luso-descendentes; Lusitânia de Angra encerra portas 10 – EM FOCO – Consulados dos EUA já nomearam os Conselheiros Consultivos 11– PORTUGUESES EM DESTAQUE – João Carlos, fotografo português residente em NY, ganha prémio interncional 12 – ACTUAL – Estados Unidos não estendem direito de voto a emigrantes, mas há Estados com excepções; 16 – CULTURA – Marie Fraley, directora do Centro de Estudos Portugueses e Lusófonos do Rhode Island College, fala do Centro 21 – SOCIAL – Vintage Trading mostra vinhos portugueses; Radisic, velha glória do Sporting, visita amigos em NY 27 – PESSOAS – Mágico português Jim Rainho continua a encantar gerações de cá e de lá; Adalino Cabral recebe Medalha da Câmara do Nordeste 29-31 – COMUNIDADES – IV Congresso Internacional sobre as Festas do Espírito Santo em San José, Califórnia, em Junho; Academia do Bacalhau tem direcção maioritariamente feminina 32 – DESPORTO – Estados Unidos já têm 20 Casas do Benfica; Portugal aposta nos grandes eventos

PEDRO BATISTA Cientista português a trabalhar no laboratório do Prémio Nobel Craig Mello ganha importante prémio de investigação

PAULINO NUNES Actor português, residente no Canadá, faz carreira no teatro, cinema e televisão

Secções 33 – RUMORES DA DIÁSPORA – por Diniz Borgess 35 – DIA-CRÓNICA – por Onésimo Almeida 36 – LIVROS – “Oceans of Wine”, por Duarte Barcelos 38 – DA AMÉRICA E DAS COMUNIDADES – por Diniz Borges 40 – OPINIÃO – Reformar os canais internacionais, por Paulo Pisco 42 –HUMOR

15 – JOHN LEMA: luso-descendente doa milhares de dólares para Bolsas de Estudo em Português

17 – MANNY LOPES: português dirige a maior empresa de processamento e distribuição alimentar em New York


EM FOCO The Portuguese-American Monthly Magazine in the USA www.ComunidadesUSA.com

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PUBLISHER: José João Morais (ComunidadesUSA)

NEWS Editor: António Oliveira

COLABORADORES e Correspondentes: Colaboradores Lélia Pereira Silva Nunes, Dr. António Simões, Ana Duarte, Prof. Onésimo Teotónio Almeida, Prof. Mayone Dias, Duarte Barcelos, Diniz Borges, João Martins, David Tatlock, Ângela Costa, Glória de Mello, Fernando G. Rosa, Cândido Mesquita, Dr. Manuel Luciano da Silva, Edmundo Macedo, Dr. Carlos Pimenta, Maria João Ávila, Manuela da Luz Chaplin, José Carlos Fernandes, José Brites, Adalino Cabral, Francisco Vieira, José Carlos Sanchez CORRESPONDENTES NEW JERSEY: Glória Melo SUN COAST (Flórida): Sidónio Fagulha SAN DIEGO, CA: Manuel Coelho e Mizé Violante WATERBURY, CT: Manuel Carrelo FLORIDA: José Marques PALM BEACH, FL: Fernando de Sousa Taunton, Ma: Elisabeth Pinto PENSYLVANIA: Nélson Viriato Baptista PEABODY, MA: Ana Duarte

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COMUNIDADESUSA (USPS 024-936) is published monthly by ComunidadesUSA, 9255 Center St., suite 400, MANASSAS, VA 20110-5567. Periodicals Postage paid at MANASSAS VA and at additional mailling offices. POSTMASTER: Send changes of address to: ComunidadesUSA, 9255 Center St., suite 400, MANASSAS, VA 20110-5567. PRINTED IN NEW YORK USA

Census 2010: formulários devem ser devolvidos no prazo de dez dias O preenchimento é orbrigatório, indepedentemente da situação legal, e as respostas são confidenciais e não serão usadas para outro fim Mais de 103 milhões de lares norte-americanos começaram já a receber os formulários do Census 2010 que, depois de devidamente preenchidos, devem ser devolvidos no prazo de 10 dias no envelope com franquia paga. Recorde-se que a devolução do impresso do Census, preenchido, é obrigatória, pelo que todos os agregados familiares o devem fazer dentro dos prazos previstos, registando todos os elementos da família, e outros, que vivem na mesma casa. É muito importante que todas as pessoas preencham o questionário, independentemente da sua situação legal no pais, pois o único objectivo deste Census é apenas contar a população residente no país. Hea toda a vantagem em devolver o sue formulário, pois é com base no número de habitantes por cidade e estado que são distribuídos fundos federais e estaduais muito importantes para projectos vários, incluindo os educativos. Por outro lado, é também com base no número de habitantes que o mapa dos congressistas e senadores é desenhado. No caso da comunidade portuguesa é muito importante sabermos exactamente quantos somos, entre os emigrantes de primeira geração e o lusodescendentes, pois esse conhecimento pode trazer vantagens para todos. Assim, e embora em nenhuma das perguntas do formulário se peça explicitamente para registar a sua naturalidade ou nacionalidade, os portugueses podem fazê-lo volunta-

riamente escrevendo “Portuguese” na pergunta 9, na opção “Some other race”. Na pergunta 8, onde se pergunta se o declarante é de origem hispânica, é também importante assinalar “No, not of Hispanic, Latino or Spanish origin”. Este questionário do Census 2010, na sua forma abreviada, contém apenas 10 questões que levam cerca da 10 minutos a responder. Toda as respostas são confidenciais e não podem ser usadas para outros fins que não a contagem da população. Para mais informações, ou se deseja trabalhar como agente do Census 2010, contacte 1-866-861-2010


... a falar é que a gente se (des)entende

FALATÓRIO

Uma página politicamente (in)correcta onde as opiniões e afirmações expressas não coincidem necessariamente com as dos proprietários e editores da revista

Pasta (Medicinal) Couto também é vendida nos Estados Unidos

Automóveis em Portugal

em alguns casos identificada como sendo produzida em... Espanha Quem não se lembra da famosa pasta medicinal Couto e dos seus anúncios na RTP, nomeadamente aquele de um africano a dançar e a fazer equilibrismo com uma cadeira nos dentes? Pois, a ASAI ainda não conseguiu dar cabo dela. A pasta nasceu em 1932 inventada pelo Dr. Alberto Ferreira do Couto, fundador da farmácia Flores e Couto, no Porto, e apesar de ter sido obrigada pela União Europeia a prescindir do nome “pasta medicinal”, e a interromper a produção durante meio ano, continua de boa saúde e a vender cerca de meio milhão da bisnagas por ano. Até nos Estados Unidos! A Couto pode ser encontrada na loja da Internet da Amazon (veja a foto) e em outras lojas virtuais como a touchofeurope.net ou a spacadet.com, entre outras. Uma delas, a http://ArizonaSpaGirlcom/, anuncia a posta como sendo frabricada... em Espanha.

6.638.300 Número de automóveis (com seguro)

Em milhares de unidades: Lisboa: 1.3 Porto: 1 Braga: 0.50

A empresa chegou a empregar 40 pessoas no auge da sua produção, em 2000, mas o meio ano em que esteve parada para se

Aveiro: 0,49 Automóveis por habitante: 1º lugar: Lisboa – 0,73 carros por pessoa Último: Acores – 0,59 carros por pessoa

O célebre anúncio da pasta medicinal Couto (em cima) e a pasta anunciada na Amazon; à direita, a descrição da www.spablahblah.com onde se lê que a pasta é fabricada em Espanha...

adaptar às normas da UE, acabou por fazer reduzir as encomendas para menos de metade e hoje trabalham na produção apenas três pessoas.

cos. O produto mantém-se no mercado com outra composição e para o mesmo fim: acabar com os cabelos brancos.

Além da cor amarelada, que é uma imagem de marca, a Couto continua a empacotar o produto em caixas de papel, produzidas em Águeda, e a usar as bisnagas de alumíno, fabricadas em Valença. Estas terá sido uma das razões pela qual a Couto nunca chegou a acordo com nenhuma das várias empresas que se mostraram interessadas ao longo dos anos em adquirir a marca.

Para além das pasta e do Restaurador, a Couto produz ainda um creme desodorizante, vaselina, creme para as mãos e água oxigenada. A pasta dentífrica, porém, representa 70% da venda totais da Couto.

A pasta medicinal Couto era vendida sobretudo em drogarias, mercearias e farmácias, nunca tendo chegado ao “mainstream” das grandes superfícies. A marca Couto produziu também outros produtos, como o restaurador Olex, cuja fórmula original teve de ser descontinuada por imposição das regras da União Europeia que proíbem o uso de acetato de chumbo na composição de cosméti-

Pela nossa saúde...

A pasta Couto nunca foi popular entre os mais jovens por causa do seu sabor um pouco acre e amargo, pouco doce quando comparado com as outras marcas comerciais. Na sua composição entram 13 matérias-primas e a receita parece não ser segredo, pois todos os ingredientes estão mencionadas na caixa à excepção de um aroma de produção caseira, aparentemente o “segredo” que capta os seus fiéis

Homicídios: mais 14% Violações: mais 25% Sequestros: mais 70% * em relação a 2008

E a política...

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Congressos realizados pelo PSD desde 1974

PEC vai obrigar cada português a pagar mais 800 euros de impostos até 2012... ComunidadesUSA

O crime em Portugal em 2009*

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Congressos realizados pelo PCP desde... 1921, ano da sua fundação

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ACTUALIDADE

UE gasta anualmente €500 milhões para traduzir documentos em 23 línguas Numa Europa cada vez mais “inglesa”, cada cidadão europeu paga por ano €2 para este serviço ser feito A Comissão Europeia gasta cerca de 500 milhões de euros anualmente nos serviços de tradução e de interpretação. O português é uma das 23 línguas oficiais das instituições da União Europeia e é utilizada diariamente em dezenas de reuniões, através de um sistema sofisticado de tradução e interpretação simultânea, numa instituição em que o inglês está a ganhar terreno. "O português e as restantes 22 línguas oficiais [da UE] têm todas a mesma importância", explicou à Agência Lusa o porta voz da Comissão Europeia para a Educação, Cultura, Multilinguismo e Juventude. Dennis Abbot

sublinhou que "é fundamental esta ideia de respeito de todas as línguas oficiais" que as instituições europeias promovem. Os textos traduzidos para português pelos tradutores das várias instituições europeias são lidos por um grande número de pessoas não só na Europa mas também em todo o mundo. Há textos que têm um caráter jurídico vinculativo, como aqueles que são publicados no Jornal Oficial da União Europeia, e outros documentos relacionados com as múltiplas actividades das instituições, nele se incluindo obras de divulgação destinadas ao público em geral.

Cartão do Cidadão já é emitido em 17 consulados portugueses Consulados nos Estados Unidos ainda não sabem quando poderão começar a emitir documento O Cartão do Cidadão começou a ser emitido pelo consulado de Portugal em Maputo, Moçambique, permitindo que os cerca de 25 mil portugueses residentes no país tenham documentos de identificação sem se deslocarem a Portugal. Moçambique torna-se assim o primeiro país africano de língua oficial portuguesa onde é possível pedir o Cartão de Cidadão, segundo uma nota do Governo português. “O Cartão de Cidadão permite aos portugueses residentes no estrangeiro o acesso facilitado aos serviços on-line portugueses, aproximando-os da Administração Pública Portuguesa e de alguns serviços privados que já utilizam o Cartão de Cidadão”, lê-se na mesma nota. O consulado de Macau foi o primeiro a emitir do documento único, em fevereiro de 2009, seguindo-se o do Rio de Janeiro e o de Londres. Hoje, o Cartão do Cidadão já está dispo-

nível em 17 consulados espalhados pelo mundo, nomeadamente Estrasburgo, Estugarda, Manchester, Maputo, Marselha, Paris, Sidney, Valência, Zurique, Berna, Camberra, Clermontferrand, Curitiba e Toulouse. O Cartão de Cidadão integra-se na estratégia de modernização e simplificação administrativa e enquadra-se na política comunitária de identificação eletrónica e de proteção de dados pessoais. Com um formato semelhante ao dos cartões de crédito e Multibanco, o novo documento de identificação inclui na frente a fotografia, assinatura, sexo, altura, data de nascimento e nacionalidade do titular. No verso consta a filiação, os vários números de identificação e uma zona de leitura ótica, que permitirá o seu uso como documento de viagem no espaço

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"Não é apenas uma questão legal, também se trata de respeitar a diversidade na Europa", defendeu Dennis Abbot. Em 2009, os serviços de tradução do executivo comunitário produziram 1 666 687 páginas de textos em todas as suas línguas, segundo dados da instituição. Quase 74,6 por cento dos textos traduzidos vinham escritos inicialmente em inglês, 8,3 em francês, 2,7 em alemão e 14,4 em outras línguas.

Dois euros por pessoa "Custa muito dinheiro (…), mas se dividirmos esse montante por cada cidadão europeu significa cerca de dois euros por pessoa. Penso que é dinheiro bem gasto porque é mais barato investir dinheiro em tradutores e intérpretes do que em armas", sustentou o porta voz da Comissão Europeia. A importância da língua inglesa tem vindo a aumentar ao longo dos anos, de 45 por cento de textos que chegavam nesse idioma em 1997 para 62 em 2004 e quase 75 no ano passado, mas o lugar do Português parece estar assegurado. "Mesmo que nos corredores da Comissão Europeia ouçamos mais inglês, francês ou alemão, também se ouve português", assegurou Dennis Abbot. (Nota: Este texto, por ser da agência Lusa, foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

Schengen. O cartão é dotado ainda de um “chip” com dois certificados digitais que permitem a autenticação eletrónica segura do cidadão e a assinatura digital qualificada sobre documentos eletrónicos. Nota: Este texto da agência Lusa foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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PO RTUGA L

Saídas: entre 70 a 75 mil portugueses emigram a cada ano Voltámos aos níveis dos anos 60, segundo o Observatório da Emigração O coordenador do Observatório da Emigração revelou que, em média, 70 mil a 75 mil portugueses emigram cada ano, ressalvando, no entanto, que não existem dados fiáveis. Ouvido pela comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, Rui Pena Pires disse ter "sérias dúvidas" de que o número de emigrantes portugueses tenha aumentado em 2009, considerando que o movimento migratório se mantém "estável". "A emigração neste momento andará provavelmente entre os 70 a 75 mil por ano. Aproxima-se da média dos anos 1960, mas está abaixo dos anos de maior emigração", afirmou, explicando aos deputados as várias dificuldades que impedem uma obtenção de dados fiáveis. "Não há em Portugal dados fiáveis sobre a emigração, vivemos num regime democrático onde as pessoas são livres de sair do país quando quiserem. Há estatísticas razoavelmente fiáveis sobre entrada, mas praticamente um vazio sobre as pessoas que saem", explicou Rui

Pena Pires. O coordenador do Observatório realçou que actualmente o problema do país "não é a possibilidade de a emigração ter aumentado, mas de a imigração para o país estar a perder atracção". Por outro lado, Rui Pena Pires lembrou que, apesar de ser "impossível conseguir saber com rigor quantos portugueses há em todos os países de emigração, é possível aproximar-nos [dessa realidade] em países como a França Suíça ou Espanha". O responsável explicou também que um dos "equívocos que se criou" actualmente é que as pessoas que emigram sejam mais qualificadas.

Emigrantes nos EUA mandaram menos quase 50 milhões em 2009 Os portugueses radicados no estrangeiro enviaram no ano passado menos 215,66 milhões de euros para Portugal do que em 2008, com o valor a aproximar-se dos 2269 milhões de euros, segundo dados do Banco de Portugal, sendo que os Estados Unidos mandaam menos 44,57 milhões. Nesse período, os portugueses residentes neste país enviaram para Portugal 126,90 milhões de euros, enquanto os da Alemanha mandaram 120,41 milhões. Em 2008, o montante enviado para Portugal pelos emigrantes foi de cerca de 2485 milhões

de euros, já então em queda anual, mas inferior em menos de metade à registada no ano passado. A maior queda de remessas verificou-se de França – menos 97,69 milhões de euros – embora este país continue a ser a principal fonte de remessas de emigrantes para Portugal, com 885,34 milhões de euros, seguido da Suíça, com 530,74 milhões de euros. Entre os países da União Europeia com dados individualizados, só de Espanha as remessas aumentaram - de 126,23 milhões de euros para 129,69 milhões de euros.

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Fundação Talento quer reunir “crâneos” portugueses no estrangeiro A Fundação Talento, que pretende promover o talento português que vive fora do país, será lançada em finais de abril, disse um dos dinamizadores do projeto, Tiago Forjaz. “A Fundação, que irá ser lançada no final de abril, terá um conjunto de iniciativas voltadas para toda a sociedade”, disse à Agência Lusa Tiago Forjaz, da Jason Associates, uma consultoria de gestão de talento e um dos promotores da nova instituição. Entre as iniciativas, Forjaz referiu a promoção do “debate sobre o que é o talento em escolas e universidades, além de identificar empresas que paguem bolsas para talentos que possam representar a sua marca no mundo, entre vários outros projetos que serão oportunamente apresentados.” Forjaz disse ainda que fará “parcerias com outras instituições para a promoção dos talentos portugueses pelo mundo.” A fundação, que deverá igualmente criar concursos e prémios, terá como ponto de partida a rede social “The Star Tracker, da qual Tiago Forjaz é um dos fundadores. "The Star Tracker" é uma rede social de contactos que permite o estabelecimento de oportunidades de negócios e trocas de experiências, sendo especialmente dirigido para portugueses no estrangeiro, mas 60 por cento dos inscritos reside em Portugal, apesar de já terem tido alguma experiência de trabalho lá fora. Esta rede é primeira de talentos portugueses e conecta mais de 27 mil cidadãos em mais de 125 países. Os portugueses que se juntaram ao "The Star Tracker" são, na generalidade, jovens com estudos superiores que estão ou estiveram no estrangeiro para evoluírem na sua carreira. Tiago Forjaz declarou que é visível o aumento da emigração de jovens portugueses mais qualificados para outros países e que “era preferível que ficassem em Portugal”, mas citando Fernando Pessoa disse ainda, “a minha pátria é a língua portuguesa”, já que Portugal “vai para além das suas fronteiras territoriais”, referindo-se nomeadamente à diáspora. Nota: Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

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Churrasqueira

Bairrada Rodízio Portuguese wood-charcoal barbecue Eat in or take out

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AÇORES

Governo açoriano oferece estágios nos Açores a jovens luso-americanos Programa denomina-se “Colombo” e pretende fomentar a aproximação dos jovens universitários às suas origens O Governo Regional dos Açores apresentou recentemente o programa 'Colombo' para fomentar a aproximação às origens de jovens emigrantes açorianos e luso-descendentes nos Estados Unidos, através de estágios profissionais em S. Miguel. O programa é desenvolvido pelas direcções regionais das Comunidades e da Juventude, com o apoio do Acordo de Cooperação e De-

fesa entre Portugal e os Estados Unidos e os estágios variam entre dois a seis meses. "É um programa de estágios para jovens universitários açorianos que residam nos Estados Unidos há mais de 15 anos e para jovens luso-descendentes até à quarta geração que frequentem o último ano da licenciatura ou que estejam a frequentar mestrados e doutoramentos", afirmou a directora regional das

O fim: Lusitânia Sport Club de Angra cessa todas as actividades desportivas Dívidas de mais de 3 milhões de euros ditam o fim do mais emblemático e antigo clube desportivo açoriano, fundado em 1922

Comunidades, Rita Dias. O programa possibilitará, a partir do segundo ou terceiro trimestre deste ano, estágios de dois e seis meses em empresas na ilha de S. Miguel, nas áreas das Ciências do Mar e da Terra, Biotecnologia e Ciências Físico-Químicas e Tecnologias da Comunicação, ou ainda na Universidade dos Açores. Inicialmente, o 'Colombo' vai abranger seis jovens, mas a directora regional das Comunidades admitiu que este número possa vir a ser alargado no futuro, assim como a realização dos estágios noutras ilhas do arquipélago. Alem do pagamento das deslocações entre os Açores e os EUA, os jovens terão "uma bolsa mensal e de formação, na área da língua e cultura", disse Rita Dias. O cônsul dos EUA nos Açores, Gavin Sundwall, sublinhou que se trata de um projecto que reflecte "a excelente cooperação entre os Estados Unidos e o Governo Regional dos Açores" e "um exemplo da boa relação entre os povos açoriano e americano". "A nossa relação conta já com 215 anos a fazer uma diferença no mundo e continua a manter uma força positiva no estabelecimento de boas parcerias", afirmou.

A Comissão Executiva do Lusitânia deu por terminada a actividade desportiva do clube, um dos mais emblemáticos dos Açores, avançando nos próximos dias com o processo tendente à declaração de insolvência. "Por iniciativa dos atletas, as equipas do Lusitânia envolvidas na Liga profissional de basquetebol e na série Açores da III divisão de futebol ainda poderão participar em algum jogo, mas o clube não dispõe de meios para garantir a presença em competição", declarou João Meneses, porta-voz da Comissão Executiva. O dirigente do clube de Angra do Hero-

ísmo explicou que a decisão de encerramento da actividade desportiva decorre da persistente recusa de uma instituição bancária em renegociar a dívida do Lusitânia, confrontado com um "bloqueio completo das suas receitas". Segundo referiu, o processo para a declaração judicial de insolvência vai começar a ser tratado nos próxiUma das primeiras equipas de futebol do Lusitância Sport Clube de Angra mos dias por um jurista do clube. Fundado em junho de 1922, o Lusitânia Apesar de ter baixado nos últimos agrega um total de cerca de 500 atletas e foi dois anos de 4,5 para cerca de três a primeira equipa açoriana a ingressar nos milhões de euros, a dívida do clube campeonatos nacionais de futebol (época supera em muito o seu património, 1978/79). O clube conquistou por 21 vezes o avaliado em 1,5 milhões de euros, e campeonato açoriano de futebol e obteve 38 os credores do clube pretendem pro- títulos de campeão da Ilha Terceira na mesma ceder à execução de penhoras. modalidade. A equipa de basquetebol do Lusitância Sport Clube de Angra

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Em FOCO

Consulados nos Estados Unidos já nomearam Conselheiros Consultivos

Os Conselheiros Consultivos Consulares nos EUA

Área Consular de Boston

Só New York, porque não têm cônsul, ainda não indicou Conselheiros Todos os Consulados portugueses dos Estados Unidos já nomearam os seus Conselhos Consultivos à excepção do Consulado de New York, posto que se encontra sem cônsul há mais de um ano depois da partida do embaixador Almeida Fernandes. Segundo disse à nossa revista o chanceler António Pinheiro, a nomeação do Conselho Consultivo Consular tem sido atrasada precisamente por esse motivo, pois o chanceler têm dúvidas sobre a sua competência para nomear este órgão consultivo. Por outro lado, o Consulado de New York tem ainda na sua dependência o Consulado honorário de Connecticut, sedeado em Waterbury, que tem à sua frente um cônsul honorário. De qualquer forma, a mesma fonte adiantou que dentro em breve as associações portuguesas destes dos estados e os líderes comunitários vão ser contactados para se proceder à nomeação dos conselheiros. O Conselho Consultivo Consular é um órgão consultivo dos Consulados e rege-se pelo decreto-lei nº 71/2009 (reforma consular). Todas as áreas consulares com pelo menos 1.000 cidadãos inscritos são obrigadas a criar um Conselho, nomeado pelo respectivo cônsul, que é também o seu presidente. O número de conselheiros varia consoante o número de inscrições consulares, e pode ir de 2 a 12. Da sua composição fazem parte o assessor consular, adido ou conselheiro social ou cultural e o Coordenador do Ensino, quando existam. Segundo o decreto-lei, compete ao Cosnelho “produzir informações e pareceres sobre as matérias que afectem os portugueses residentesna respectiva área de jurisdição consular, assim como elaborar e propor recomendações respeitantes à aplicação das políticas dirigidas às comunidades portuguesas” (artigo 16º, ponto 4) O Conselho reúne ordinariamente três vezes por ano, em data a convocar pelo presidente, e extraordinariamente por iniciativa do seu presidente ou a requerimento de, pelo menos, um terço dos seus membros. Competelhe também elaborar e propor recomendações respeitantes à aplicação das políticas dirigidas às Comunidades Portuguesas.

Cônsul Geral Paulo Cunha Alves João Carreiro Maria Chaves Fernanda Costa (Coordenadora do Ensino) Natália Melo Anna Pires Nuno Rocha Claudinor Salomão Maria da Silva Pedro Spínola.

O mandato dos elementos dos Conselhos termina quando o cônsul da respectiva área cessar funções.

A polémica

A criação deste Conselho Consultivo Consular não está isenta de polémica, sobretudo com o Conselho das Comunidades Portuguesas, que se queixa de esta ser “uma concorrência às suas funções”. De facto, é difícil entender que se gastem mais de 500 mil euros num processo eleitoral para escolher conselheiros das comunidades em todo o mundo com funções consultivas em questões de emigração e se nomeiam agora pessoas com as mesmas funções por área consular. A Secretaria de Estado das Comunidades argumenta que estes conselheiros têm apenas o papel de aconselhar os cônsules, mas a legislação que os criou vai mais longe ao estabelecer que eles têm além de “produzir informações e pareceres sobre as matérias que afectem os portugueses residentesna respectiva área de jurisdição consular”, têm também competência para “...elaborar e propor recomendações respeitantes à aplicação das políticas dirigidas às comunidades portuguesas”. Ora isto é precisamente o que fazem os Conselheiros das Comunidades: aconselhar o governo em matéria de emigração. Por isso, muitos Conselheiros das Comunidades acham que a criação deste Conselho Consultivo, adicionado à revisão da Lei do CCP aprovada com os votos do PS que instituiu um Conselho Mundial composto por eleitos e nomeados, é mais um passo para o fim do Conselho das Comunidades. As polémicas que têm envolvido o Conselho nos últimos anos e as sucessivas querelas com o Secretário de Estado das Comunidades António Braga durante o anterior Conselho, que o acusou de nunca ter ouvido as suas recomendações, são, segundo muitos, causa suficiente para o PS se querer ver livre deste incómodo órgão de consulta que ninguém quer ouvir. A não ser que com o novo presidente do CCP, ele também do PS, esses tempos estejam esquecidos...

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Área Consular de Providence Vice-Cônsul Leonel R. Teixeira Daniel da Ponte João Luís Pacheco Augusto Pessoa Hélio Melo David Andrade Isabel Reis António Costa António Ambrósio José Francisco Costa

Área Consular de Newark Cônsul Geral Amélia Paiva Mons. João Antão Alberto Coutinho Mónica Pereira Fernanda Costa Fernando Grilo Carlos Carvalho José M. Marques Carlos Morganheira

Área Consular de S. Francisco Cônsul-Geral, António Costa Moura Maria João Bonifácio (directora do AICEP) Ana Cristina Sousa (Coordenadora do Ensino) Vice-Cônsul, Manuela Ávila Silveira Manuel do Bem Barroca Rodrigo Leal Alvernaz Batista Vieira Helmano Costa Manuel Eduardo Vieira Manuel Bettencourt Idalmiro da Rosa Deolinda Adão António Goulart

Área Consular de New York Ainda não nomeados

Área Consular de New Bedford Cônsul Graça Araújo Fonseca Fernanda Costa (Coordenadora do Ensino) Manuel Melo (assessor consular) Fernando Garcia Manuel Estrela Maria Amélia Estrompa António Cruz Luís Carreiro Willitts Mendonça Antonino Nunes António Teixeira

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p o r t u g u e s e s no m u n d o

Fotógrafo caldense radicado em NY ganha prémio internacional “Estando em Nova Iorque já consegui trabalhos mais importantes em Portugal do que quando estava lá”, diz João Carlos

A

imagem de uma noiva, registada no Palácio Foz, em Lisboa, valeu ao fotógrafo luso-americano João Carlos o prémio Hasselblad Masters 2009, promovido por aquela marca sueca de máquinas fotográficas. A fotografia foi considerada a melhor na categoria Social, de um total de dez áreas distintas da fotografia internacional, como Editorial, Paisagem, Retrato e Arquitectura. Venceu com uma fotografia de moda feita em 2004 no edifício do Palácio Foz, com uma criação de Susana Agostinho para uma produção de vestidos de noiva. A produção resultou na edição de um calendário e numa exposição, com o autor a doar os lucros à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. “Estou contentíssimo, é muito prestigiante, um reconhecimento mundial que é muito

bom, pelo título, pelo júri que escolheu os vencedores”, disse João Carlos à agência Lusa, em reacção ao anúncio dos premiados. Filho de pais portugueses, João Carlos, 32 anos, nasceu em Nova Iorque mas viveu nas Caldas da Rainha muitos anos. Em Portugal formou-se em pintura, escultura e história de arte, e regressou aos Estados Unidos há dois anos. O prémio Hasselblad Masters traduz-se na oportunidade dos vencedores poderem utilizar equipamento daquela marca sueca para a realização de um projecto que será publicado em livro. Além disso, João Carlos foi convidado a assinar a nova campanha de imagem da Hasselblad Masters para os próximos dois anos, um convite que considera tão importante com a conquista do prémio. O currículo de João Carlos inclui trabalho em diferentes áreas, do fotojornalismo a editorial de moda, de fotografia de cena em cinema a campanhas publicitárias. Já trabalhou para as revistas Wallpaper, Umbigo, Cerimónia e Número e entre os seus clientes contam-se a Nike, Avon, Pfizer, Elite Models, L’Agence Models e Vodaphone. Depois de uma temporada em Lisboa, João Carlos regressou há dois anos a Nova Iorque, cidade onde

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diz que o mercado é muito maior e onde é julgado apenas pelo seu trabalho. “Estando em Nova Iorque já consegui trabalhos mais importantes em Portugal do que quando estava em Portugal”, disse o fotógrafo.

Promover a sua terra

Nos Estados Unidos João Carlos possui o seu próprio estúdio e faz também workshops de fotografia e está neste momento empenhado em promover a costa oeste de Portugal junto de fotógrafos americanos, procurando parceiros para esta iniciativa. Em cima, o fotógrafo João Carlos; e Alguns dos seus trabalhos como fotógrafo profissional na área da moda

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Ao contrário de muitos países da UE, Estados Unidos e Canadá não estendem direito de voto aos emigrantes Emigrantes não podem votar nas eleições nacionais americanas, mas há Estados que abrem excepções por António Oliveira (LUSA) A questão da reciprocidade dos direitos políticos, nomeadamente do direito de voto, não se põe entre as comunidades portuguesas residentes nos Estados Unidos nem nunca fez parte da agenda de organizações comunitárias ou cívicas. Os imigrantes portugueses parecem não reivindicar o direito a votar nas eleições nacionais, pois sabem que a legislação americana é muita clara nesse aspecto. A lei eleitoral consigna eleições exclusivamente para americanos, como as presidenciais, mas permite a abertura de certas eleições locais a não-cidadãos. No entanto, o alargamento do direito de voto a imigrantes é uma questão controversa e em todo o país somente uma dúzia de municípios em Maryland, Massachusetts e Califórnia o autorizam, e apenas em algumas eleições, como a dos membros do distrito escolar. Mas são apenas iniciativas de governantes locais aprovadas por concelhos municipais ou assembleias dos condados.

Se emigrantes votassem...

Augusto Amador, vereador na cidade de Newark (Nova Jérsia), onde se concentra uma das maiores comunidades portuguesas da Costa Leste, disse à Lusa que se os imigrantes do seu bairro pudessem votar nas locais “certamente que o espectro político da cidade seria alterado radicalmente e o poder mudaria de mãos”. “Mas essa é uma questão muito controversa e sensível”, acrescenta o vereador originário da Murtosa. E mesmo que o estado alargasse o direito de voto, era ainda necessário que cada município aprovasse uma lei local que o permitisse, o que “pelo menos na cidade de Newark é impensável, uma vez que iria desequilibrar a balança de poder instalado há décadas”, refere. Um eventual alargamento do direito de voto aos imigrantes permitiria também resolver o problema dos indocumentados, que se estima serem mais de 12 milhões em todo o país. Mas para Amador, o mais importante neste momento é dar continuidade à sensibilização dos portugueses para que se organizem,

naturalizem e votem. “Temos de ganhar mais peso político e isso só pode ser conseguido com o voto”, diz. De Nova Jérsia ao Massachusetts, da Flórida à Califórnia, as últimas duas décadas têm sido férteis em exemplos de associações portuguesas que organizam regularmente campanhas de naturalização de portugueses, desde pequenos clubes sociais a organizações mais estruturadas, como The Portuguese American Citizenship Project. No entanto, a naturalização só por si não significa um novo eleitor e daí a preocupação seguinte: recensear cada novo naturalizado para que vote em todas as eleições. Segundo uma fonte do Portuguese American Citizenship Project, os portugueses estão entre os cidadãos naturalizados que mais votam. Mas, para muitos, votar nunca fez parte dos seus hábitos enquanto residiram em Portugal e a naturalização, em muitos casos, “fez-se mais para ter o passaporte americano que lhes permita entrar e sair do país sem problemas e garantir que não lhes é descontada uma per-

centagem na reforma”, explica fonte de uma associação comunitária de Nova Jérsia. Apesar disso, as comunidades portuguesas estão hoje mais sensibilizadas para a importância do voto. Não só o número de portugueses naturalizados tem aumentado nos últimos 20 anos, como também a sua participação política, sobretudo em eleições locais. Exemplos disso são as cidades dos estados de Nova Jérsia, Massachusetts, Connecticut, Rhode Island e Califórnia, onde residem fortes comunidades, que hoje têm entre os seus políticos locais muitos portugueses e lusodescendentes.

Canadá: direito de voto para os emigrantes beneficiaria a comunidade portuguesa Elisa Fonseca (Lusa) A atribuição do direito de voto a imigrantes no Canadá significaria um passo em frente na sociedade canadiana e beneficiaria também os portugueses, consideram dois conhecidos membros da comunidade lusa. No Canadá, o direito de voto para imigrantes não existe e não se prevê que se torne realidade no futuro próximo, apesar de o país depender crescentemente da imigração. François Rocher, professor, investigador e director da Escola de Estudos Políticos da

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Universidade de Otava, sublinhou à agência Lusa que “a criação do direito de voto para imigrantes é algo que não se vislumbra no curto prazo no Canadá, porque esse direito faz parte dos direitos políticos adquiridos com a nacionalidade canadiana”. “Ao contrário do que acontece em Portugal e na União Europeia, em que tiveram de ser garantidos aos indivíduos os direitos de mobilidade, no Canadá não se colocou esse problema”, refere este especialista em Direito (continua na pág. seg)

ComunidadesUSA


Constitutional, Imigração e Direito da Nacionalidade. “Não vejo desvantagem na ideia de atribuição do voto a imigrantes, por exemplo, em eleições municipais. Mas essa questão não faz parte do debate nacional, nem da agenda política”, afirma o académico. Integrada na Constituição canadiana de 1982, é a Carta de Liberdades e Garantias que inclui o Direito Democrático dos Cidadãos, que confere apenas a quem tem a nacionalidade canadiana o direito de voto para assembleias legislativas e de concorrer às mesmas. É neste quadro que os direitos políticos no Canadá, quer de voto quer de candidatura a cargos políticos dos três níveis - municipal, provincial e federal -, são restringidos aos nacionais, sendo, aliás, este o único factor que faz a destrinça entre o estatuto dos residentes permanentes e os cidadãos. A história do Canadá evidencia, porém, excepções. No pós-I Guerra Mundial, os britânicos chegaram a ter direito de voto, mas foi-lhes retirado na década de 1970 pela Lei Eleitoral canadiana, quw restringiu o direito de voto aos nacionais. Quanto ao futuro, dois membros da comunidade portuguesa no Canadá interpelados pela Lusa disseram encarar como positiva a possibilidade de atribuição do direito de voto a imigrantes, sobretudo para os sufrágios municipais. Peter Ferreira, conselheiro de Imigração em Toronto e actualmente membro do Novo Partido Democrático (NPD), defende que esta ideia devia avançar, justificando com a forte presença da imigração em algumas regiões. "Em Toronto, 55 por cento dos residentes não nasceram ali nem são canadianos. Mas todos eles ali vivem e pagam impostos”, enfatiza. “O direito de voto para imigrantes [nas autárquicas] é uma questão que está a ser analisada em Toronto e que poderá avançar efectivamente”, avançou. “Sou a favor de que esse direito de voto seja dado às pessoas que têm estatuto de residentes permanentes e isso representaria um passo muito positivo para a participação cívica e política, assim como beneficiaria a comunidade portuguesa que aqui está há décadas”, defendeu. Para a ex-vereadora da Câmara de Montréal Isabel dos Santos, “a ideia de alargamento do voto a imigrantes em eleições locais faz sentido se se tiver em conta o princípio americano do 'no taxation without representation' [não aos impostos sem representação]".

O Parlamento de Otava, Canadá

Para a ex-autarca, um projecto com esse objectivo teria de ser amplamente regulamentado e poderia abarcar duas categorias de pessoas: as que não se tornaram cidadãs porque, por lei, perderiam a nacionalidade

do país de origem; e as comunidades mais antigas e que são proprietárias, comerciantes e trabalhadoras, por serem pagantes de impostos (o que incluiria as gerações mais velhas de portugueses).

Imigrantes em Portugal só podem votar se o seu país reconhecer o mesmo direitos aos portugueses Meio milhão de imigrantes vivem em Portugal, mas nenhum está entre os 230 deputados que representam os cidadãos no Parlamento. Associações e especialistas ouvidos pela Lusa defendem que há muito a fazer pelos direitos políticos dos imigrantes. "Os imigrantes devem poder participar e estar representados nos órgãos de soberania", disse à Agência Lusa Paulo Mendes, dirigente da PERCIP (Plataforma das Estruturas Representativas das Comunidades de Imigrantes). "Fica mal a Portugal, um país que esteve em lugares cimeiros na teorização das políticas de imigração", disse Paulo Mendes, afirmando ainda que "hoje não se pode compreender Portugal sem um olhar atento para as comunidades imigrantes". No fim de Dezembro, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, disse na Assembleia da República que o alargamento dos direitos de voto aos imigrantes nas eleições locais tinha deixado de ser "prioritário" com a entrada em vigor da lei da Nacionalidade, que facilitou a aquisição de cidadania portuguesa. Paulo Mendes discorda e diz que quanto ao princípio de reciprocidade – o direito de votar em Portugal só é reconhecido a imigrantes de países que deixem os emigrantes portugueses votar – "não faz sentido e deverá cair na próxima revisão constitucional". É que Portugal só tem acordos de recipro-

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cidade com o Brasil e Cabo Verde. O presidente da Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, Rui Machado, concorda que "a reprocidade tem de cair" e disse que ser mais fácil obter a nacionalidade não é argumento para não aumentar os direitos de participação dos imigrantes, que não deviam ter de "abdicar da sua nacionalidade de origem" para poderem ter uma voz activa na política portuguesa. "Nós ficamos sempre satisfeitos quando temos portugueses eleitos para autarquias, senadores, deputados ou com responsabilidades acrescidas em partidos políticos no estrangeiro", recordou Feliciano Duarte, ex-secretário de Estado do PSD com responsabilidades na área da imigração. "Coloquemo-nos numa posição de cidadãos estrangeiros que lutaram bastante para ter um acesso mais fácil aos direitos mais elementares, como a saúde ou a educação. Ao final de algum tempo, querem dar a sua opinião, votar, participar em partidos políticos, isso é mais do que normal, permitelhes integrarem-se melhor e trazer mais benefícios à sociedade portuguesa", disse. Feliciano Duarte, que está a preparar uma tese sobre imigração na universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, afirma que 2010 é uma boa oportunidade de entrar numa "nova fase" de políticas de imigração e encarar o fenómeno "como uma oportunidade, não como um problema".

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Filantropo luso-americano já doou mais de $100 mil para bolsas e programas em Português em RI John Lema criou o John A. e Mary Lema Memorial Schoolarship em Português no Rhode Island College e prepara-se para fazer nova doação ao Bristol Community College John A. Lema, um luso-descendente residente em Newport, Rhode Island, foi recentemente homenageado pelo Rhode Island College como "Partner in Philanthropy" deste estabelecimento de ensino. Lema doara ao Centro de Estudos Portugueses do Colegio $100 mil para a criação de um fundo em memória dos seus pais – John A. and Mary V. Lima Memorial Scholarship Endowment Fund in Portuguese Studies – destinado a conceder bolsas de estudo a estudantes que prossigam estudos na área da língua e cultura portuguesas. John Lema diz à nossa revista que a decisão de fazer esta doação ao Rhode Island Colege surgiu numa conversa com a directora interina, Marie Fraley, que lhe pediu apoio para o Centro de Estudos Portugueses. “Como felizmente não tenho responsabilidades financeiras nem família directa, achei que seria boa ideia deixar algo para os outros que pudesse ser usado em prol da língua e da cultura portuguesa que eu tanto gosto”, explica. Após analisar as alternativas, achou que a melhor opção seria criar uma Bolsa que realmente ajudasse a promover o estudo da língua, em vez de fazer apenas uma contribuição financeira para a Universidade. Sugeriu assim a criação de um fundo em memória dos seus pais, aqueles que lhe transmitiram os valores da cultura portuguesa, que tanto diz admirar e apreciar, doando $100 mil a serem aplicados em bolsas de estudo a jovens que queriam estudar língua e cultura portuguesas no Rhode Island College. Depois de uma carreira profissional de sucesso de mais de 42 anos na marinha norteamericana, na base naval de Newport como analista financeiro, e como nunca casou, John Lema diz que, “felizmente”, pode ajudar, decidindo fazê-lo em memória daqueles que lhe deram o ser – os pais –, acabando esta por ser esta também uma forma de os homenagear postumamente. “O meu pai era bem português”, diz John ComunidadesUSA

o interesse é promover a cultura e o país, acrescenta.

Um Lima que virou Lema

John A. Lema Jr

Lema que, pelo entusiasmo como fala de Portugal, não lhe fica atrás. “Desde a primeira vez que visitei Portugal que me apaixonei pelo país e pela cultura”, explica. É por isso que a sua acção filantrópica pela causa da língua portuguesa não vai acabar por aqui, pois neste momento estuda a possibilidade de fazer também uma contribuição para o Bristol Community College de Rhode Island – colégio que também tem um Centro de Estudos Portugueses, dirigido pelo Dr. José Francisco Costa –, com os mesmos objectivos, se não mesmo mais. “Eu penso que uma forma de promover ainda mais a nossa língua e cultura é criar um programa para enviar todos os anos um estudante a Portugal, e é isso que vamos tentar fazer no BCC”, explica. A estas bolsas e programa podem candidatar-se estudantes de qualquer nacionalidade, desde que façam estudos em Português, pois APR 2010

John Lema Júnior (na verdade seria Lima, como o pai, mas um erro no seu certificado de nascimento fez dele Lema), nasceu há 85 anos em Newport, Rhode Island, filho de John Lima, natural de Valença do Minho, e Maria Lima, filha de emigrantes açorianos da Ribeira Grande, S. Miguel. Aprendeu a falar português com a família e chegou a ter aulas na igreja com um professor que nesse tempo lá ia duas vezes por semana, mas foi na Universidade Brown, em Providence, onde estudou, que aperfeiçoou os seus conhecimentos da língua e cultura portuguesas. De tal maneira que a primeira vez que foi a Portugal (e já lá foi 37 vezes...) sentiu-se logo em casa. Desde então nunca mais deixou de voltar, ao continente e aos Açores. Mesmo hoje, e apesar da sua idade, continua a viajar. No final do ano esteve na ilha da Madeira e mais recentemente em S. Miguel, Açores. John Lema recorda à nossa revista que ficou encantado com o Minho, onde conheceu os seis irmãos do seu pai, e que conheceu o Portugal antes do 25 de Abril, sendo testemunha da grande evolução que o país conheceu. Gosta de comida portuguesa, lê livros portugueses (é leitor assíduo da nossa revista) e ouve regularmente fado, conhecendo todos os nossos fadistas, tanto os clássicos com os contemporâneos, como Marisa, Ana Moura, Cristina Branco... No dia em que falou connosco acabara de receber uma encomenda de CDs de Ana Moura. Em Lisboa conhece também praticamente todas as casas de fado e nos Açores todas as ilhas. John Lema vive em Newrport e tem dois irmãos na Califórnia e em Connecticut. O exemplo de um verdadeiro filantropo. Pena não haver mais como ele na comunidade portuguesa. 15


Marie Fraley, directora interina do Centro de Estudos Portugueses e Lusófonos do Rhode Island College

Marie Fraley

Marie Fraley é directora interina do Centro de Estudos Portugueses do Colégio de Rhode Island. É igualmente directora da PALCUS. Figura bem conhecida entre a comunidade portuguesa, aqui fica o testemunho na pri-

meira pessoa: “A little about myself: I am the granddaughter of immigrants from S. Miguel in the Azores. All four of my grandparents were born in São Miguel, immigrated to the US, settled in West Warwick, RI, met and then married. I was born, raised and educated in Rhode Island and trained to be a Speech-Language Pathologist, a profession that I practiced for more than 20 years. After retiring, I turned my attention to researching my genealogy and found that my parents had little information about any of my family lines (except that they were all from S. Miguel). As a matter of fact, my parents (born in the U.S.) had never traveled to the Azores and knew little about their grandparents or the life there. In doing my research in the archives in Ponta Delgada, I realized that I needed to learn to read

Portuguese to understand the documents. At Rhode Island College, I began with Portuguese 101 sitting in classes with students the ages of my children. There was a desire from these students to study the language and culture which I and others wanted to support and encourage. The Friends of Portuguese STudies was born with the help of many volunteers to attract attention to the program that draws first generation college students from the greater metropolitan Providence area, among them Portuguese, to Rhode Island College. Almost 10% of Rhode Islands claim Portuguese ancestry so many of our students are heritage speakers of Portuguese. My maiden name is Ray but was anglicized from "Rei" when my paternal grandfather naturalized. (Francisco Rei became Frank Ray).

O Centro de Estudos Portugueses e Lusófonos do Colégio de Rhode Island Tell us about the Institute for Portuguese and Lusophone World Studies no Rhode Island College. The IPLWS was launched on Oct. 21, 2006 as an affiliate of the Center for Public Policy at Rhode Island College in Providence, RI. The Institute was born from a need to institutionalize what began as a "grassroots" effort by students, faculty and community members to strengthen and support the Portuguese Studies program at Rhode Island College. For three years prior, the group known as "Friends of Portuguese Studies at Rhode Island College" volunteered to raise money for scholarships, academic prizes and lectures. OUtreach activities that would draw students of Portuguese from Portuguese Schools (Escolas Comunitárias), public and private secondary schools in Rhode Island to the campus were a primary objective. The mission of the IPLWS is three-fold: 1) to support the academic program of Portuguese Studies at Rhode Island College;

2) to forge connections between the Luso-American Community of RI and Rhode Island College; 3) to pursue cultural and scholarly research projects relative to the Portuguese language and Lusophone cultures. Any support from Portugal? The IPLWS has enjoyed the support of the Instituto Camões, the Luso-American Foundation (FLAD), The J.B. Fernandes Memorial Trust and the Gulbenkian Foundation. Who supportts the Center? We have received financial support from the groups listed above toward the establishment of a $1million Endowment Fund for Portuguese Studies. Also contributing to that endowment fund has been the State of Rhode Island and many private donors. What kind of portuguese studies the Centers offers?

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The IPLWS is affiliated with the Department of Modern Languages under the Faculty of Arts and Sciences of the college. The academic department is responsible for the program in Portuguese Studies and offers courses at the introductory, intermediate and advanced levels. What will be the importance of the John A. Lema Scholarship Fund in the Center’s future? The John A. and Mary V. Lima Memorial Scholarship Fund in Portuguese Studies is an endowed fund established by Mr. John A. Lema (yes, he spells it with an "e") in memory of his parents. The proceeds of the fund will provide a scholarship(s) for a student at Rhode Island College who is studying Portuguese and shows a commitment to continuing to study Portuguese.

ComunidadesUSA


foto: António Oliveira

Manny Lopes no escritório da BaldorFoods, no Bronx, New York

Manny Lopes

Português dirige a maior empesa de NY de processamento e distribuição alimentar entrevista de António Oliveira (no Bronx, NY)

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uem olha para ele sempre com ar descontraído e bem-disposto está longe de imaginar que este português dirige as operações diárias de uma super-empresa de processamento e distribuição de produtos alimentares na grande área metropolitana de New York, tendo sob a sua supervisão mais de 630 trabalhadores e uma frota de quase duas centenas de camiões. Mas desafios são coisas que fazem parte da rotina de Manny Lopes desde muito jovem. Natural da freguesia de Matas, concelho de Ourém, trabalhava como operador de máquinas e distribuidor de materiais de construção quando decidiu emigrar pela primeira vez, em 1976, para a França. Depois de algum tempo na construção, regressa a Portugal para emigrar de novo, desta vez para a Suíça país onde aprendeu a fazer o famoso queijo Gruyère, um queijo gigante ComunidadesUSA

apreciado em todo o mundo. Apesar de se sentir bem na Suíça e de gostar do que fazia, em 1985 decidiu reemigrar, agora para os Estados Unidos. “Desde novo que tinha uma certa curiosidade em visitar os Estados Unidos e saber como era a vida aqui”, diz Manny Lopes em entrevista à nossa revista. “Assim, quando fiz 25 anos decidi que era tempo de vir experimentar e cá fiquei”, acrescenta. Nos Estados Unidos, fixou-se em Mount Vernon, New York, sem nenhum familiar por perto, e agarrou-se ao que apareceu, neste caso um trabalho de jardinagem, a ganhar $40 por dia, das 6 horas da manhã às 6 horas da noite. Mas a ambição levou-o a procurar um trabalho melhor e que lhe pagasse mais. “Decidi comprar um camião de mercadorias e comecei a fazer transportes para a Califórnia”, explica. Era um trabalho duro, mas ia recompensando. Certo dia, travou conhecimento com um dos clientes a quem fornecia produtos alimentares da Califórnia que lhe disse andar APR 2010

à procura de alguém para gerir o seu armazém, desafiando-o a aceitar o trabalho. “Decidi experimentar”, diz, “mas não vendi o camião, a toda a cautela, não fosse não gostar do trabalho”. “Comecei a trabalhar nesta empresa em 1992 e dentro de pouco tempo fui promovido a supervisor de todas as operações”, recorda. Nessa altura a Baldor era uma pequena empresa familiar com um armazém de 5 mil pés quadrados situado em Long Island City, New York, que dava os primeiros passos no negócio de distribuição de produtos alimentares. Manny Lopes recorda ainda o dia em que, já sob sua supervisão, foi atingido um recorde histórico de vendas num só dia: 20 mil dólares! “Celebrámos todos com pizza”, diz. Hoje, a Baldor factura quase 50 mil dólares por hora... Sob a sua direcção a Baldor nunca mais parou de crescer. Em 1996 compraram um novo armazém de 20 mil pés quadrados em Masspet; em 2000 adquirem novas instalações de 145 mil pés quadrados no Bronx, 17


Um dos muitos armazéns da BaldorFoods no Bronx, New York

foto: António Oliveira

e em 2008 mudam-se para o Ford Center Drive, ainda no Bronx, para aquele que é considerado o maior e mais moderno centro de processamento e distribuição de vegetais, frutas e outros produtos alimentares de New York, um colosso de 165 mil pés quadrados onde trabalham mais de 630 pessoas. Manny Lopes continua a dirigir o dia-a-dia da empresa, tal como começou há 18 anos: “Com muito trabalho, muita honestidade e aquela capacidade bem portuguesa de saber resolver os problemas quando eles surgem”, diz. O facto de trabalhar com o proprietário da empresa praticamente desde o seu início (a Baldor foi fundada por dois irmãos em 1991, sendo actualmente apenas de um) permite-lhe conhecer todos os aspectos do negócio como ninguém. A sua pessoa é omnipresente, pois toda gente a ele recorre para resolver quase tudo, desde o controlo da qualidade dos produtos recebidos às encomendas, à carga e descarga, à manutenção e distribuição, enfim, uma responsabilidade que ele tenta não o submergir, pois arranja ainda tempo para se dedicar aos seus hobbys, que envolvem, entre outras coisas, a criação de uma empresa de importação de produtos de Portugal, sobretudo da sua área, Ourém, nomeadamente azeite, vinho e pinhão. “Vai ser mais uma aventura”, que não o impedirá de continuar a dar o seu tempo inteiro à Baldor, diz. “O meu sonho sempre

foi ter o meu próprio negócio, mas devido à boa relação que tenho com o meu patrão – e talvez porque ele via em mim algumas qualidades –, foram-me dando cada vez mais e mais responsabilidades que, acompanhadas pela compensação financeira, me têm mantido à frente da empresa”, confessa. Vinte cinco anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos, Manny Lopes diz que “valeu a pena”. “A gente nunca sabe se tivesse ficado em Portugal, na França ou na Suíça se estaria melhor ou pior, mas aqui sinto-me realizado por ver que alguém confiou em mim dando-me tanta responsabilidade e continuando a acreditar no meu trabalho, o que me leva a concluir que devo estar a fazer as coisas bem”, diz com modéstia mas algum orgulho. “Em Portugal, tenho as minhas dúvidas que isso acontecesse”, acrescenta. Com dois filhos também a trabalharem na Baldor, um responsável por todas as operações de informática e computadores e outro na secção de vendas, Manny Lopes não esquece Portugal. No concelho de onde veio é já proprietário de uma pousada e no futuro novos investimentos estão no seu horizonte. Quanto a importar produtos de lá para a Baldor, é com alguma mágoa que diz não ter grandes expectativas. “Há muita burocracia, as experiências que temos tido são muito más. As coisas

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demoraram um eternidade. Só para lhe dar um exemplo, para fazer um simples rótulo de uma garrafa, que tem de ter indicações em inglês, a empresa demorou quase dois meses a tomar uma decisão e foi preciso nós desenharmos aqui tudo e mandarmos para lá. Qualquer coisinha, uma simples pergunta que fazemos demora três ou quatro dias a resolver. É frustrante”, diz.

Baldor: a maior distribuidora alimentar de NY

A Baldor abastece diariamente de produtos alimentares os restaurantes, mercearias e supermercados toda a área metropolitana de New York, desde Philadelphia, PA, a Boston, MA, onde desde 2006 tem também um armazém com 17 camiões. Os produtos vão do cento de distribuição de New York, via camião, a cada 12 horas, mas, tal como em New York, chegam um pouco de todo o lado. “A Baldor importa produtos da maior parte dos Estado americanos, da América do Sul e de outros países”, explica Manny à nossa reportagem ao mesmo tempo que apontava um monitor onde se via um comboio a estacionar ao cais de descarga do armazém vindo do Ohio e Montana, carregado com 4.500 caixas de batatas e cebola. “Trazer os produtos de comboio é uma das formas que nós usamos para bater os

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foto: António Oliveira

Baldor tem mais de 630 empregados e um negócio anual de mais de $350 milhões O interior de um dos armazéns da Baldor; em baixo um dos cais de carga e descarga os e camiões da BoldorFoods

preços da competição”, explica, adiantando que os vagões que se preparam para descarregar transportam o equivalente a quatro camiões. “Conseguimos preços melhores e ao mesmo tempo reduzimos as emissões de ComunidadesUSA

dióxido de carbono”, acrescenta. Durante o ano, e conforme a estação agrícola, os camiões chegam ao Bronx regularmente carregados com todos os produtos que o leitor possa imaginar. Nos vegetais e outros produtos perecíveis, a empresa só traAPR 2010

balha com em alimentos frescos processados e embalados por centenas de operárias nas suas linhas de empacotamento que fazem lembrar uma enorme passadeira rolante de um aeroporto. Os produtos são depois transportados para os muitos armazéns que existem dentro da planta, divididos por secções e com temperaturas e humidades controladas que variam entre os 10 graus farenheit negativos e os 80 positivos. Podemos assim andar um dia inteiro por este colosso e experimentar as quatro estacões do ano, pois se aqui temos carne e peixe congelado, com temperaturas negativas, no próximo temos azeite, castanhas ou queijo, a temperatura normal, e no seguinte ananás ou morangos, com temperaturas tropicais. Mas nenhum deles aqui fica muito tempo, pois o stock é renovado diariamente com a carga a ser feita durante a noite de modo a que às primeiras horas da manhã a frota de camiões tenha já distribuído as encomendas pelos restaurantes, mercadorias e supermercados. E quando o leitor pede num restaurante desta área uma salada, ou um queijo italiano, azeite, batata doce, cebola, fruta, presunto, pastéis, caviar, especiarias, etc., etc., está longe de saber que grande parte deles fez já milhares de milhas até chegar aos armazéns da Baldor e depois ser distribuído aos clientes. Do portfolio da Baldor constam milhares de produtos, entre eles frutas e vegetais orgânicos. Se o leitor tiver curiosidade em saber mais, dê uma olhadela na página www.baldorfood.com. 19


Instituição sólida em franco crescimento...Transferências GRÁTIS. Soluções para emigrantes e não residentes

O Banif – Banco Internacional do Funchal, também está presente junto das comunidades portuguesas nos EUA, através do Banif Açores, Inc. Para mais informação consulte o escritório próximo de si...

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SOCIAL

Vintage Trading mostra vinhos portugueses

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restaurante “Galitos” em Mount Vernon, New York, propriedade do nosso assinante Fernando Viegas, para além de servir boa comida portuguesa é também ponto de encontro da comunidade portuguesa, e não só, lugar de realização de eventos gastronómicos e vinícolas e local de passagem de muita gente famosa. A foto diz respeito a uma prova de vinhos portugueses organizada pela Vintage Trading, de Waterbury, Connecticut, empresa importadora de vinhos propriedade de José Gaspar. Nesta prova, que reuniu cerca de uma centena de pessoas, foram degustados vinhos portugueses do Douro acompanhados de uma ementa especial adequada aos sabores destes tintos e brancos. Na foto podemos ver

(da esquerda para a direita) Odete, vendedora da Vintage Trading, Fernando Viegas, o proprietário do Galitos, e José Gaspar e esposa.

velha glória do Sporting

Srecko Radisic revive gosto pela comida portuguesa em New York

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uem esteve também recentemente no restaurante “Galitos” em Mount Vernon, New York, foi o ex-preparador físico jugoslavo Srecko Radisic, campeão na época 1979/80, que veio aos Estados Unidos visitar o filho e aproveitou para reviver o gosto pela comida tradiconal portuguesa neste restaurante. Integrou várias equipas técnicas do Sporting e chegou a ser treinador principal no decorrer da época de 1980/81. Radisisc esteve no restaurante com a família, pois tem um filho que vive em New Jersey e, tal como ele, fala fluentemente português. Foi durante uma dessas animadas conversas em que se lembraram os tempos gloriosos em Alvalde, que a ComunidadesUSA o apanhou. Aqui a conversar com David Guerreiro e Fernando BViegas (direita). Segundo o Fórum SCP, Radisic foi “apontado como um dos grandes responsáveis pelo titulo conquistado pelo Sporting na temporada de 1979/80, devido à magnifica condição física apresentada pela equipa. Iniciou essa época sob o comando do Professor Rodrigues Dias, mas seria com Fernando Mendes que concluiria esse trabalho de sucesso. ComunidadesUSA

Em Dezembro de 1980 João Rocha resolveu demitir Fernando Mendes depois de um começo de época desastrado, incumbindo Srecko Radisic de comandar a equipa até ao final da temporada que o Sporting concluiria sem brilho, mas com o técnico jugoslavo a aproveitar para lançar alguns jovens, com destaque para Carlos Xavier. Na época seguinte voltou a ser Campeão como preparador físico da equipa técnica comandada pelo inglês Malcolm Allison, ganhando nessa altura também a Taça de Portugal. Ainda como preparador físico fez parte ainda das equipas técnicas lideradas por António Oliveira, Keith Burkinshaw e Pedro Rocha, contribuindo assim para a conquista de mais duas Supertaças.” APR 2010

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Pedro Batista Cientista português ganha prestigiado prémio de investigação médica entrevista de António Oliveira (ComunidadesUSA)

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edro Batista, cientista português e estudante de doutoramento a trabalhar na Graduate School of Biomedical Sciences (GSBS) da University of Massachusetts Medical School em Worcester, MA, no laboratório do Prémio Nobel da Medicna Craig Mello, foi um dos galardoados deste ano com o prestigiado prémio "2010 Harold M. Weintraub Graduate Student Award". O prémio, criado pelo Fred 22

Hutchinson Cancer Research Center de Seattle, WA, foi atribuído a apenas 12 estudantes de pós-graduação entre milhares de candidatos de todo o mundo e distingue trabalhos de investigação baseados na sua qualidade, originalidade e relevância. Trata-se de um prestigiado prémio que, mais do que o valor pecuniário, distingue trabalhos inovadores que podem vir a ter reflexos importantes no progresso das

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Pedro Batista trabalha no laboratório de Craig Mello, Prémio Nobel da Medicina, na investigação do ARN ciências médicas. “Basicamente é um prémio dado a pessoas que estão prestes a defender sua tese de doutoramento”, disse Pedro Batista à nossa revista. Pedro trabalha na equipa do professor Craig Mello, o luso-descendente Prémio Nobel da Medicina 2006, no seu laboratório da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, em Worcester, preparando o seu doutoramento. “Trabalho no processo de interferência do RNA (a descoberta que deu o Nobel a Craig Mello). É um mecanismo que permite aos cientistas desligar a expressão de um gene utilizando o RNA em cadeia dupla”, explica. “Se queremos estudar um gene e queremos desligá-lo para ver para o que ele é necessário, podemos criar um RNA em cadeia dupla a partir desse gene, e pondo isso nos organismos, eles vão usá-lo para desligar o gene. O que fazemos e estudar porque é que essa possibilidade existe e perceber como é que isso funciona para tirar vantagem desse processo”, acrescenta. Pedro trabalha com um pequenos organismos (umas minhocas minúsculas, de cerca de um milímetro) e diz que as suas investigações podem ser aplicadas ao mundo da medicina de várias maneiras. “Basicamente hoje em dia quase toda a gente usa RNA para acelerar os processos de estudo de doenças específicas; também se começa a estudar a possibilidade de usar RNA para tratar directamente doentes, mas isso ainda é muito preliminar”, explica. No seu trabalho Pedro identificou pequenos ‘fragmentos’ de ARN que, ao atingirem ácidos nucleicos invasivos, desempenham um papel importante na manutenção da integridade do genoma e também funcionam na segregação de cromossomas. Neste momento o seu trabalho de investigação tenta perceber melhor o papel que este ‘fragmento’ pode desempenhar na fertilidade e no desenvolvimento de embriões. Segundo ele, e pese embora todos os avanços conseguidos nos últimos anos, “o campo das moléculas pequenas de ARN está só agora a começar a ser a ser explorado”. E

embora muitos laboratórios já trabalhem há muito tempo com RNA, Pedro diz que usa nas suas investigações um tipo específico de proteína que lhe tem permitido avançar em grande escala. "Estudo após estudo estamos a descobrir que as pequenas moléculas de ARN desempenham papéis surpreendentes e essenciais nos mecanismos celulares que nós pensávamos já ter percebido”, sublinha. O laboratório de Craig Mello é um dos que está na vanguarda deste tipo de estudos, os que procuram perceber como é o que o mecanismo funciona. Ali trabalham, sob a supervisão do Prémio Nobel, cerca de vinte investigadores oriundos do Japão, China, e Índia, Canadá, Portugal e Estados Unidos. “Aqui apenas estudamos o processo que permite a outros tipo de investigação o aproveitamento deste conhecimento para desenvolver terapia”, explica. “Não fazemos terapia com humanos”, acrescenta. Quanto ao trabalho com Craig Mello, Pedro diz que tem sido uma experiência muito interessante. Sem qualquer tratamento especial pelo facto de ser português (Craig Mello, conforme se sabe, é descendeste de emigrantes açorianos). “É um excelente ambiente de trabalho”, diz. De Lisboa para MA Pedro Batista é natural de Lisboa cidade onde nasceu há 30 anos. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e é aluno do programa de doutoramento da Fundação Gulbenkian. Desde sempre quis ser cientista e se interessou por Biologia genética. Uma das áreas que lhe despertou interesse ainda durante a licenciatura foi a pesquisa no campo do RNA. Foi durante o primeiro ano, quando estava no Instituto de Ciências da Gulbenkian para escolher o tema sobre o qual queria fazer os estudos de doutoramento, que tomou conhecimento com o trabalho do professor Craig Mello, um dos líderes neste campo que já trabalhara com outros alunos do programa da Gulbenkian. “Contactei-o por e-mail”, diz, “e ele convidou-me para vir a Massachusetts para

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uma entrevista. Ele aceitou e eu vim para o seu laboratório em 2003, e desde então cá estou”. Pedro espera defender a sua tese de doutoramento ainda este ano em Lisboa, mas ainda não decidiu se vai regressar a Portugal. “Para já a certeza que tenho é que quero fazer um pós-doutoramento nesta área, mas como há muito mais investigação nos Estados Unidos do que em Portugal, eu diria que é mais provável continuar por cá”, diz, frisando que isso não tem qualquer juízo de valor sobre a qualidade da investigação que se faz em Portugal. “A única diferença é que aqui há mais recursos e a comunidade científica é mais internacional, com investigadores de todas as partes do mundo que permitem uma maior interacção de ideias, de resto é igual”, explica. “Se em Portugal houvesse os mesmos recursos financeiros que há aqui, a qualidade e quantidade da ciência era a mesma”. Se optar por ficar nos Estados Unidos, o 2010 Harold M. Weintraub Graduate Student Award vai ser sem dúvida uma mais valia na abertura de portas em novas universidade e laboratórios. Ele diz que gosta de viver e fazer investigação nos Estados Unidos e que se adaptou sem grandes dificuldades à sua nova casa e ao país. “Não foi muito difícil, talvez as coisas mais complicadas foram o facto de não haver tantos transportes públicos, como em Portugal, e a comida também me deixa saudades, mas como vou a Portugal duas vezes por ano, dá para compensar”, explica. Em Massachusetts diz que costuma ir ver o futebol de Portugal aos clubes portugueses da área de Boston, uma forma de se manter ligado ao país. E para falar a língua e discutir os lances polémicos dos “derbys” tem o Daniel, um outro estudante português no laboratório que faz também investigação.

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Paulino Nunes

Um actor dividido por António Oliveira

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aulino Nunes é um actor português com mais de 100 participações em filmes, séries, documentários, teatro e televisão no Canadá e Estados Unidos. Do seu currículo constam filmes como “Stan & Rose”, “Zos: Zone of Separation”, “Traitor”, “Would be Kings”, Icebound”, “Hustle”, “The State Within”, “The Eleventh Hour”, “Kojak”, “Thoughcrimes”, “The Trojan Horse”, “Postal”, entre outros, e séries como “The Listener”, “Lawyers, Guns & Money”, etc. A sua carreira começou no teatro, mas desde há mais de quinze anos que Paulino tem diversificado a sua participação por curtas e longas metragens no cinema e séries de televisão. Trabalhou já com realizadores de renome como Jim Sheridan, John McTiernan, Peter Bogdanovich, Mario Azzopardi, David Wellington, Joe Carnahan, Ken Finkleman e Uwe Boll e contracenou com actores como Susan Sarandon, Jason Isaacs, Forest Whitaker, Michael Madsen, Ving Rhames e Ally Sheedy, entre muitos outros. No teatro e televisão Paulino tem também uma carreira estabelecida sobretudo no Canadá, sendo considerado um actor versátil que se adapta a qualquer papel. foto António Oliveira


Com uma carreira que vai do teatro ao cinema e televisão, Paulino entrou já em mais de uma centena de peças, filmes e séries de TV Do Pico ao Faial e a Toronto

Paulino Cabral Mendonça Nunes nasceu no Faial em 1969, o mais jovem de 4 irmãos de uma família oriunda do Pico. Emigrou com os pais quando tinha apenas 20 meses de idade, fixando-se no Canadá, numa área da grande Toronto do chamado “Little Portugal”. Os primeiros anos foram vividos na comunidade e na cultura portuguesa com os pais a procurarem transmitir-lhe as tradições da ilha e a aprendizagem da língua. Viveu ali até 1975 quando a família decide mudar-se para Etobicoke, mais para distante do centro e onde a comunidade portuguesa era escassa. Começou então um afastamento progressivo da língua e da cultura lusa e uma assimilação mais rápida da cultura canadiana. “As coisas mudaram muito”, diz Paulino. “Praticamente não havia portugueses na escola, era eu, o meu irmão, a minha irmã e um outro português, o Frank Melo, que nunca mais vi”. De Paulino a Paul e a Paulino de novo “Nessa altura eu cresci sem ter bem a consciência do que era ser português, aliás, insistia em que me chamassem Paul e não Paulino, apesar de ser este o meu nome de baptismo”, diz. Paul (Paulino) acabaria por se destacar na escola secundária e frequentar uma aula para estudantes super-dotados, o que lhe transmitiria uma certo estatuto de “outsider” onde a comunidade portuguesa, ou a sua identidade lusa, não entravam. No entanto, em 1981, na sua segunda viagem aos Açores (a primeira fora em 1972, mas ele diz que não se recorda de nada) Paulino sentiu um apelo das raízes, embora na altura não o tenha compreendido muito bem. Mas a verdade é que trouxe na bagagem mais do que ele imaginaria, embora isso se tivesse mantido no seu subconsciente ainda durante alguns anos. Lembra-se que corrigir os professores na escola secundária quando eles, no primeiro dia, lhe chamavam Paulino, fazendo questão de dizer imediatamente “Paul, not Paulino”, porque não queria ser “o miúdo diferente, com um nome estranho”. As coisas só mudariam quando ele ingressou na universidade. Um dia, numa aula de representação, num exercício simples onde o professor pediu que cada aluno confrontasse a turma e se apresentasse de uma forma natural, ele pensou que poderia impressionar os colegas se dissesse o seu nome completo em português. Toda a gente o conhecia por Paul, por isso seria, de certeza, uma surpresa. E foi. Paulino caminhou para o centro da cena e disse o seu nome completo: “Paulino Cabral Mendonça Nunes”. Todos o olharam pasmados e o professor perguntou-lhe se aquele era o seu nome completo e se era assim que ele queria que o chamasse. Paul (Paulino) respondeu instintivamente “não”, mas lá dentro algo de muito forte o tocou e o trouxe de repente para uma realidade que ele, embora vivendo, desconhecia. É que, apesar de ter passado toda a sua vida até aí a querer ser igual aos colegas canadianos – “cool” – no fundo era diferente deles. E pela primeira vez sentiu-se bem com isso.

A escolha das artes

Paulino diz que não sabe muito bem de onde veio o desejo de ser actor, mas refere que se recorda de uma peça de teatro na comunidade portuguesa quando tinha cerca de 4 anos em que entrava no palco repreComunidadesUSA

De cima apra baixo, Paulino Nunes nos filmes “ZOS: Zone of Separation”, “Kojak” e “Would Be Kings”

sentando um ladrão que apanhava uma mocada na cabeça e caía. “Quando as pessoas me perguntam quando decidi ser actor e porquê, eu costumo citar este exemplo, porque de facto não faço a mínima ideias de onde veio este desejo que nunca foi encorajado pela minha família”, explica Paulino. “Bem, a não ser pela minha irmã Paula, que gostava de brincar aos pais e professores e fazia questão de me vestir a rigor e representar como deve ser fazendo de mim uma vítima, por ser mais novo, das suas fantasias teatrais”, diz a brincar.

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“Mas foi bom, porque ela ensinou-me a ler muito cedo, mesmo o português, que foi a primeira língua que eu aprendi a falar mas que não vejo como a minha língua-mãe”. Aliás, a questão de saber qual é a sua língua-mãe é apenas, e só uma, das muitas interrogações que o atormentaram (e atormentam) ao longo dos anos na descoberta da sua identidade, como explicou. “Trata-se de saber quem sou no Canadá e quem sou nos Açores, quando lá vou, o que não é fácil”. Por causa disso, só aprendeu a falar bem português muito mais tarde, quando começou a visitar os Açores com os pais. Foi ainda na escola secundária que decidiu que queria seguir uma carreira nas artes, concretamente como actor. Os pais nunca o encorajaram, mas também não o demoveram de ele tomar esta decisão. “Os meus pais não compreendiam porque razão queria eu ser actor, pois achavam que ninguém podia viver disso”. Mas seguiu o seu sonho matriculando-se na Universidade de York onde concluiu o curso de representação. A sua careira no mundo do espectáculo começou pelo teatro e passou por todas as dificuldades com que se debatem os jovens artistas num mundo habituado apenas a pagar bem às grandes estrelas de cinema. “Esta é uma área muito difícil, com desafios muito grandes, muito competitiva onde por vezes somos obrigados a fazer trabalhos de que não gostamos para conseguirmos sobreviver”, diz Paulino. Depois de viver os altos e baixos da profissão, em 1996 sentiu-se chegado a uma encruzilhada – “sentia-me frustrado”, diz – e chegou a equacionar se valia a penar continuar a prosseguir o seu sonho como actor. Os pais, entretanto, tinham regressado aos Açores. “O meu pai nunca gostou do Canadá, ao contrário da minha mãe. Uma semana depois de emigrar o meu disse-lhe que se tivesse dinheiro teria voltado de imediato ao Açores, por isso logo que teve oportunidade regressou a casa”, explica Paulino. Por essa altura, o então grupo “Madredeus” tocava em Toronto e um amigo português convida Paulino para ir ao concerto. Foi aí, no meio da música e do grupo de portugueses, que Paulino sentiu de novo o apelo das raízes. Decidiu então ir aos Açores e ficar meio ano. “Foi uma experiência única e profunda, pois à medida que ia desenvolvendo a minha mestria na língua comecei a sentir uma connection que nunca sentira no Canadá”, explica. “Foi essa experiência, essa sensação estranha, que me faz sentir que nunca estou em casa, nem cá nem lá, que eu trouxe comigo. Senti claramente, pela primeira vez, que pertenço a dois lugares, mas isso fez-me sentir bem comigo mesmo, sentir-me diferente, mas especial, e é essa diferença que eu tenho para oferecer”, confessa. Decidiu então adoptar o verdadeiro nome como nome artístico, pois até aí era conhecido no mundo do espectáculo como Paul Nunes. “Isso acabou também por me identificar como um actor diferente, provocando a interrogação daa pessoas de onde virá esta etnicidade, mas para mim foi também uma experiência maravilhosa, mas por vezes também pesada”, diz. “É uma coisa difícil de descrever”, De cima para baixo, em “October 1970”, “Common acrescenta. Ground” e durante as filmagens de “The Listener’

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PESSOAS

Jim Rainho, mágico português de MA que faz os seus próprios truques, continua a encantar gerações Esteve recentemente em Portugal para espectáculo e “workshop” de magia Jim Rainho deve ser caso raro entre os portugueses e luso-descendentes nos Estados Unidos. É que tem uma profissão pouco comum nas nossas gentes: mágico. Residente em Cambridge, Massachusetts, tem dedicado toda a sua vida a uma paixão que lhe vem dos tempos de infância, quando sonhava com truques, fantasias e outras artes. Mas sua entrada neste mundo não teve nada de mágico, antes pelo contrario. Natural de Fermelã, distrito de Aveiro, tinha então 9 anos quando a mãe decidiu deixar a aldeia para se juntar o pai que já então era emigrante em Cambridge, MA, trazendo Jim e a sua irmã. Estávamos no ano de 1939 e a

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viagem ainda está bem viva na memória de Rainho, que se lembra bem que andava na terceira classe da primária de Fermelã e de que a mãe carregou os livros todos para lhe ensinar o Português nas terras americanas. Foi graças a ela que ainda hoje fala e escreve correctamente. Nos Estados Unidos Rainho fez o percurso normal de típico filho de emigrantes portugueses. Lembra-se que a música, neste caso o fado, estava Jim Rainho em Ponta Delgada e durante o seu espectáculo sempre presente na sua casa, e por isso desde cedo desenvolveu uma aptidão e um gosto muito especial por esta arte. Começou chamado GI Bill (apoio para os veteranos a ouvir Western & estudarem) e regressou ao colégio onde se Country Music — formaria em engenharia e técnico de som. nesse tempo chamava- Terminado o colégio fundou um estúdio se cowboy music, ou em Cambridge onde fez várias gravações música de combwoys mas um dia decidiu que tinha de se dedicar — por lhe lembrar a tempo inteiro àquilo de que mais gostamuito o fado. Estudou va — a magia — vendeu o estúdio e foi ser música e em 1947 mágico profissional. Estudou com alguns dos formou um grupo que melhores mestres da arte e começou a fazer chegou a ter projecção espectáculos um pouco por todo o país, a nível do estado, e tornando-se conhecido rapidamente graças não só. A par disso, aos engenhosos truques originais que iam começou a apreender criando. Acabaria por fundar uma empresa, magia e criou o seu que ainda mantém em Cambridge, e vender próprio espectáculo para os outros mágicos. já com alguns truques Jim Rainho mantém laços estreitos com inventados por si. Portugal onde vai aos congresso de magia, Mas a guerra acabasobretudo ao de Valongo, e é membro da ria por interromper Associação Portuguesa de Ilusionistas. Diz à aquilo que poderia ter nossa revista que esta arte ainda “é mágica” sido uma carreira no em todo o mundo, apesar do cinema, da mundo do espectátelevisão e da Internet. culo bem sucedida, Jim Rainho esteve recentemente em pois em 1951 Rainho Ponta Delgada, nos Açores, contatado pela é mobilizado para a cidade, para um espectáculo onde encanCoreia, onde permatou centenas de pessoas com a sua magia. neceu até 1953. Apresentou também um espectáculo apra De regresso aos crianças e fez um “workshop”. Estados Unidos aproPara contactos telefone para o781-391veitou as oportuni6800 ou vá até à página http://www.rainho. dade oferecida pela com/ para mais informações. APR 2010

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Adalino Cabral recebeu Medalha de Mérito da câmara de Nordeste Veterano do Vietname, é acérimo defensor da Língua e Cultura Portuguesas e grande promotor da portugalidade na América

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nosso colaborador de Massachusetts, Adalino Cabral, recebeu recentemente a Medalha de Mérito do concelho do Nordeste, que lhe tinha sido atribuída em Julho do ano passado por esta de câmara municipal a ilha de São Miguel. A distinção visa reconhecer o importante trabalho de Cabral, emigrante nos Estados Unidos há mais de 40 anos, em defesa da língua e cultura portuguesas. Cabral, um veterano do Vietname, é professor e tem três bacharelatos, dez mestrados e um doutoramento, sendo um acérrimo defensor da nossa língua e cultural e um embaixador da portugalidade em terras americanas. A acta de atribuição da medalha a Adalino Cabral pode ler-se: “Tendo em conta o que tem acontecido em outras ocasiões e prosseguindo a prática desenvolvida pelas edilidades que nos precederam de homenagear pessoas individuais ou colectivas nacionais ou estrangeiras de cujos actos resultam momentos de prestigio do concelho do Nordeste, melhoria das condições de vida da sua população ou contribuições relevantes nos campos do ensino, da cultura, do comércio, da indústria entre

outros (...) proponho que sejam atribuídas as seguintes distinções honoríficas às individualidades que mais se distinguiram nos últimos tempos. Medalha de Mérito Municipal, professora doutora Maria Adelaide Correia Monteiro de Freitas, pelo contributo dado em prol da cultura e do ensino; dr. José Germano de Sousa, por ter desempenhado o alto cargo de Bastonário da Ordem dos Médicos, o que muito honrou e contribuiu para o prestígio deste concelho; dr. Adalino Cabral, pelo contributo dado em prol da cultura nos Estados Unidos”. Manuel Estrela, de “O Jornal”, de Fall River, foi o orador convidado ao elogio de Cabral, tendo afirmando, nomeadamente: “Falar sobre Adalino Cabral pode ser muito fácil, se não houvesse limite de tempo, dado que a grandiosidade da sua alma, faz com que ele, sendo relativamente baixo de estatura, seja um grande homem. Dizer que foi muito pobre, sem sapatos, ou casa de banho, quase desterrado naquele Nordeste pouco interessa, desde que seja para servir de exemplo. O exemplo dele é este. Sempre para a frente. Partindo de Rabo de Peixe num aviãozinho que estremecia e fazia estremecer os passageiros de medo. Ele dizia – Sempre para a Frente. Nos EUA, naquela grande viagem de Boston a New Bedford, ele dizia carro vai depressa - Para a Frente - que quero abraçar a minha mãe. No Vietname, perante poderios de dificuldades e acções heróicas ao ponto de ser condecorado. Nos estudos que o levaram aos mestrados e doutoramento ele dizia – Sempre para a Frente. Nos seus escritos e participações na Café Açoriano (internet) vem sempre com a sua frase – Sempre para a Frente. Mas o que será que isto quer dizer? Optimismo, força de vencer, é luta contra as fraquezas, contra a desistência, contra o comodismo. É esta a sua marca – Sempre para a Frente. Todo o seu esforço que se traduz hoje nos seus escritos, nos seus ensinamentos é fruto desse seu “Sempre para a Frente”.

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“Uma pessoa impressionante que lutou extraordinariamente”

A cerimónia de entrega da Medalha de Mérito teve lugar em Providence e contou com a presença de José Carlos Carreiro, presidente da Câmara Municipal do Nordeste. Infelizmente Adalino Cabral não pôde estar presente por motivos de saúde, pela que a medalha foi recebida pelo seu irmão Olivério Cabral. Na altura, José Carlos Carreiro disse sobre Adalino Cabral: “É na verdade uma pessoa impressionante. Que lutou extraordinariamente desde o berço, passando por outros países, outras culturas, outros povos e sempre de uma maneira extraordinária. Ele é uma fonte inspiradora. Um homem que consegue tirar dez mestrados, um doutoramento, várias licenciaturas fazem dele uma figura impressionante. Eu achei tão impressionante esta expressão de “Sempre para a Frente”, onde no meio das dificuldades não perdemos a esperança. Não temos qualquer receio do que se nos irá deparar. Eu admiro tanto ou tão pouco esta expressão que a adoptei na minha campanha eleitoral “Para a Frente Nordeste”. Adalino Cabral não só é uma referência para a comunidade portuguesa aqui radicada, como para nós nos Açores dado o seu extraordinário valor. Por este motivo, a Câmara Municipal do Nordeste, por minha proposta, votou por unanimidade a atribuição da Medalha de Mérito Municipal”. Adalino Cabral é natural da Feiteira Grande e colaborador desde sempre da imprensa portuguesa nos Estados Unidos e nos Açores. É professor de português, espanhol e inglês em Malden, Mass. Onde foi um dos fundadores do ensino bilingue. Foi administrador nas escolas públicas de Cambridge, Mass. e leccionou em Boston, Cambridge e Hudson, nomeadamente na Boston University e no Stonehill College.

Uma família de emigrantes

A história de emigração de Adalino Cabral começa nos seus avós maternos. Clemente Francisco Resendes e Maria Nogueira, que vieram para os EUA no princípio do século XX. Radicaram-se em New Bedford, onde em 1920 nasceria a filha Olívia Resendes. A depressão obriga o regresso aos Açores nos anos 20, onde Olívia casa com Manuel Rocha Cabral. Do casal nasceran três raparigas e dois rapazes, entre os quais Idalino (Adalino) Cabral. A vida não era fácil (cont. pág. 34)

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C O M U NI D A D E S

IV Congresso Internacional sobre as Festas do Espírito Santo em São José, CA Congresso reúne em Junho estudiosos da temática e representantes dos Açores, Estados Unidos, Canadá e Brasil fotos ComunidadesUSA

local dar a conhecer aos participantes/visitantes as diversas manifestações associadas às celebrações, proporcionando-lhes a vivência de uma festa típica em honra ao Espírito Santo — neste caso, a festa da Irmandade do Espírito Santo de San José. Sendo a primeira vez que este evento tem lugar na América do Norte, a Comissão Organizadora pretende alargar a participação a representações dos Açores, Portugal continental e Brasil, bem como às comunidades lusas e irmandades do Espírito Santo do Canadá, Bermuda, Costa Leste dos EUA, Nevada, Utah, Colorado e Hawaii.

Quatro dias de reunião magna

O City Hall da cidade de São José, Califórnia

Sob os auspícios da Comunidade Portuguesa e o apoio da Direcção Regional das Comunidades dos Açores, o IV Congresso Internacional sobre as Festas do Espírito Santo realizar-se-á de 24 a 27 de Junho próximo nas cidades de San José e Santa Clara, na Califórnia. Este encontro tem o propósito de apro-

fundar os conhecimentos dos interessados neste vasto movimento do culto ao Espírito Santo, de ser uma ocasião privilegiada para os representantes de organizações do Espírito Santo partilharem as suas experiências e a história da evolução das celebrações locais e, finalmente, um espaço para a comunidade

A tradição das Festas do Espírito Santo remontam à Idade Média em Portugal acabando por se estender ao arquipélago dos Açores onde hoje são as cerimónias religiosos mais populares em todas as ilhas e também nas comunidades dos Estados Unidos, Canadá e Brasil. As festas são exteriores à Igreja Católica e radicam na fé do povo que em tempos difíceis pede a intercessão do Divino. Na Califórnia estas festas realizam-se praticamente desde o início da chegada de açorianos, ainda no século XIX, e hoje são uma das maiores tradições religiosas étnicas do estado. ComunidadesUSA

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Este evento que terá uma duração de quatro dias, está a ser projectado como uma reunião magna de irmandades do Espírito Santo, e funcionará com comunicações divididas em painéis das diversas áreas geográficas que se façam representar. O vasto programa, em preparação, contempla ainda outras actividades paralelas, como exposições de fotografias, desenho de crianças e pintura por artistas lusoamericanos, apresentações de livros, actuações de grupos de foliões, cantorias e cavaleiros, bem como uma exposição inédita de capas de rainhas do Espírito Santo e uma colecção de coroas históricas de diversas localidades. A participação individual ou em representação de associações comunitárias, como apresentador de comunicação ou participante nas sessões – está aberta a todas as comunidades acima mencionadas, exigindo-se apenas que os(as) interessados(as) se inscrevam, seguindo as directrizes expostas na página da internet: www.ConferenceHS2010.com ou contactando directamente os Coordenadores: goulartt@ comcast.net (Tony Goulart) ou jdocouto@ yahoo.com (José do Couto Rodrigues). Os interessados poderão ainda contactar a Organização através do endereço postal: IV Conferência Internacional sobre o Espírito Santo P.O. Box 32517 – San José, Calif. 95152, USA 29


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Lídia Figueiredo, Cristina Oliveira e Almerinda Serra, a nova direcção da Academia do Bacalhau de New York; em baixo, à esquerda, alguns compadres e comadres presentes na última reunião mensal, e na foto da direita a pasasgem do testemunho de Fernando Rosa, presiudente cessante, para Cristina Oliveira, a nova presidente

Academia do Bacalhau de New York tem direcção maioritariamente feminina

mensal que desta vez se realizou no restaurante “Lusíadas”, de Mount Vernon, e que reuniu cerca de uma centena de compadres e comadres. A Academia do Bacalhau de New York é uma instituição sem fins lucrativos que anga-

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nova direcção da Academia do Bacalhau de New York tomou posse recentemente com a particularidade de ser constituída maioritariamente por senhoras. A presidente é Cristina Oliveira, a vice-presidente Lídia Figueiredo e a secretária é Almerinda Serra. Acresce ainda a curiosidade de a presidente ser é médica dentista em Scarsdale, New York. A passagem do testemunho – o sino e o estandarte das Academias – foi feita solenemente pelo presidente, cessante, Fernando Rosa, cujo trabalho à frente da Academia nos últimos dos anos foi muito elogiado por todos os presentes. Integram ainda a direcção com tesoureiro e segundo secretário Hermenegildo Correia e David Guerreiro, respectivamente. O presidente da Assembellia Geral é Fernando Viegas e do Conselho Fiscal Paulo Costa. A tomada de posse da nova direcção teve lugar durante o encontro ria fundos para ajudar várias causas sociais e humanitárias. Actualmente esta Academia faz ainda uma contribuição mensal para dois compatriotas em dificuldades. Em Janeiro passado a Academia fez um donativo para a ONG portuguesa Associação Médica Internacional (AMI) cujos médicos se encontravam na Haiti a ajudar as vítimas do terramoto que abalou este país. Fazem também donativos pontuais para outras causas nos Estados Unidos, sobretudo ajudas direccionadas à comunidade portuguesa. ComunidadesUSA

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DESPORTO foto AOL (ComUSA)

Seabra’s Marisqueira A Casa do Benfica de Danbury, CT

Clube da Águia já tem 20 Casas do Benfica nos Estados Unidos Com a inauguração oficial das Casas do Benfica de Danbury e Hartford, Estado de Connecticut, e de New Bedford e Chicopee no Estado de Massachusetts, as comunidades portuguesas nos Estados Unidos vão passar a ter 20 Casas do Benfica nas duas costas. Estas agremiações de benfiquistas radicados nos Estados Unidos funcionavam já há tempos, mas ainda não tinham recebido a visita do presidente para as oficializar, o que aocntece agora. A comitiva benfiquista veio representada por dois vice-presidentes, além do presidente, mas nenhum jogador a acompanhou por causa dos compromissos do clube da águia na Liga Europa em futebol. A expetativa, segundo fonte oficial do clube, é de forte comparência nas outras inaugurações, até pelo sucesso que o clube tem vindo a conhecer esta temporada, líder no campeonato nacional de futebol.

A tradição continua! • A casa da verdadeira cozinha portuguesa e do marisco em New Jersey

Portugal aposta na organização de grande eventos desportivos em 2010 O Governo português vai manter a aposta na generalização da prática desportiva e projecção internacional do país, através dos desempenhos de alto rendimento ou eventos no ano de 2010. Do OE 10 destacam-se medidas como "a instalação da Agência Antidopagem de Portugal, em coordenação com a Agência Mundial Antidopagem", a "instituição e operacionalização de um Programa Nacional de Formação de Treinadores" e de um "Programa Nacional de Ética no Desporto". As orientações estratégicas do OE2010 reflectem as Grandes Opções do Plano (GOP), divulgadas no início do ano, nomeadamente os apoios ao desporto de alto rendimento e selecções nacionais, garantindo a execução dos contratos com os Comité Olímpico e Comité Paralímpico de Portugal, para o projecto Londres2012. O documento refere ainda um "reforço da aposta nos eventos desportivos que promovam Portugal e incentivem os cidadãos à prática desportiva", citando os Jogos Desportivos da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e Jogos da Lusofonia. 32

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RUMORES DA DIÁSPORA

Escritores de língua portuguesa confessam-se:

Nome, naturalidade, cidade e país onde reside? Lélia Pereira da Silva Nunes. Nasci em Tubarão, no sul de Santa Catarina, Brasil. Vivo em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina O Primeiro livro que leu? Tenho quase certeza que foi Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato ou História do Mundo para Crianças do mesmo Monteiro Lobato. As fábulas e os clássicos contos de Charles Perrault, Hans Christian Andersen e as histórias dos irmãos Grimm fizeram parte deste universo de descobertas e do meu imaginário infantil. Mas, o primeiro livro mesmo foi “A Cartilha de Laurita” foi aí que aprendi a ler. Quando sentiu o chamamento para a escrita? Não tive um chamamento para escrita propriamente dito. E sim um grande incentivo. ComunidadesUSA

Foto ComunidadesUSA (AOL)

Coordenação do Instituto Açor-Americano Direcção de Diniz Borges (CA)

Em poucas palavras

Lélia Pereira da Silva

Lélia Pereira da Silva Nunes

Página de Artes & Letras

Com a frescura da Primavera de 2010, cá estamos com uma série de entrevistas que publicaremos de vez em quando neste espaço de artes e letras. Foram feitas pelo jornalista Afonso Quental e são publicadas com a devida autorização do jornal Correio dos Açores. São entrevistas breves em estilo de tertúlia literária/artística. A entrevista desta edição é com Lélia Nunes. Uma brasileira que não só tem raízes nas ilhas de bruma como tem coração açoriano. A Lélia está intimamente ligada à cultura açoriana e à sua divulgação no sul do Brasil. Tem feito pesquisa nos Açores e tem-se dedicado a vários temas, incluindo o dos festejos do Espírito Santo. É socióloga tendo sido professora universitária. Escreve para vários jornais e revistas, incluindo para esta ComunidadesUSA. É co-coordenadora (com Irene Blayer, professora catedrática no Canadá) do Blogue Comunidades da RTP-Açores, um espaço virtual único com imensos trabalhos sobre a cultura açoriana além arquipélago. abraços. Diniz

Fui fortemente estimulada por amigos, familiares e muito especialmente por amigos açorianos. Uma malta de escritores que tenho convivido nos últimos 20 anos e que muito me incentivaram abrindo as portas em Suplementos Culturais sob sua responsabilidade ou espaços em jornais e revistas nos Açores e nas comunidades da diáspora na América. Tenho uma dívida enorme, um débito que nunca será pago a não ser com a minha gratidão e imenso afeto. Antes disso eu escrevia artigos acadêmicos e ligados a minha área de ensino e pesquisa como professora de Sociologia da UFSC e como socióloga. Ao me dedicar a investigação do patrimônio cultural açoriano sobrevivente em terras de Santa Catarina fui me aproximando mais e mais do imaginário açoriano e de uma literatura que dá vida a este imaginário seja no arquipélago dos Açores seja na margem de cá. Talvez, temos no Sul do Brasil uma outra açorianidade aqui fincada e sobrevivente há 260 anos. Ouso afirmar… Hoje, estou mergulhada até a medula dos ossos neste universo e escrevo com paixão sobre a cultura açoriana esteja onde estiver. A difusão desta escrita criativa produzida nos dois lados do Atlântico tem sido o meu maior desafio e o meu compromisso. Mas, veja bem. Eu não sou uma Escritora. Apenas, uma mulher que gosta de escrever. Não é a mesma coisa. Qual é o seu género literário? A narrativa, a prosa poética é onde me identifico. Nesta condição escrevo crónicas e ensaios. Na escola primária era habitual ter boas classificações nas redacções? Sim e não só na escola primária. Também no II grau (o Liceu). Fui sempre ótima aluna de Redação. Também era só. Nas demais APR 2010

disciplinas “dava pro gasto”. Já na escola primária, eu participava de atividades culturais. Fazia teatro, recitava nas festinhas, atuava nos grêmios literários, publicava no jornalzinho do Colégio, o Jornal Aurora. Foi neste jornal escolar que publiquei o primeiro artigo, aos 10 anos, um texto pequeno que questionava a criação do Dia das Mães. Há algum livro dos seus que gostaria de reescrever? Não. Quais os livros que publicou e o mais recente? “Zumblick, uma história de Vida e de Arte” (Ed.Senado Federal, Brasília, 1993); “Caminhos do Divino, um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina” (Ed.Insular, 2007). Com saída da II edição prevista para maio/2010. O mais recente e pronto para sair é “Na Esquina das Ilhas” um livro que reúne crônicas e textos publicados nos jornais açorianos e catarinenses, em suplementos de cultura, na minha coluna Pedra de Toque no Portuguese Times (New Bedford, USA) Indique-me um livro de um escritor açoriano que gostaria de ter sido a autora? Muitos são os escritores açorianos que tenho a maior admiração e cuja escrita criativa me encanta e me seduz. Escritores ícones da produção literária açoriana que reverencio com a maior consideração e um sentimento (cont. página seguinte) 33


“Fajã de Cima”, de João Carlos Tavares: uma viagem ao passado da freguesia açoriana mais popular em Rhode Island

João Carlos Tavares

O precioso livro “Fajã de Cima”, de João Carlos Tavares está repleto de informações e recordações e belas fotografias de cá e de lá. Sempre considerei o barbeiro um ser bastante inteligente, pois há sempre comunicações entre o cliente e o "corta-gadelhas”. Falam de tudo, e muito se aprende. E, quando é em português,

ainda melhor. Os tempos idos regressam durante aquele período sentado na cadeira. Estamos muito mais à vontade! Contudo, há sempre quem chore... Os miúdos, que vêm com o pai, às vezes a mãe ou um irmão mais velho... Embora haja muita informação de valor em “Fajã de Cima” – por razões de tempos idos da minha própria juventude nos States (ou lá o que for) – fiquei mais apegado ao capitulo do barbeiro com um certo carinho vivo especial; provavelmente impacto das primeiras cabeleiras quando viemos do Nordeste de Sao Miguel – na década de 50 – para New Bedford, em terras do Tio Sam. O tal "ultimo barbeiro" – sr. António V. Sousa, de Fox Point, Providence, Rhode Island foi o último de uma geração antiga dos nossos tempos. Pelo próprio "tom": "o último barbeiro – ou "the last barber" – até denota um certo toque histórico no coração de tempos que jamais regressarão; até como quem fala dos "cowboys", dos locomotivas (o primeiro a ser construído na "Cidade de Prata" (Silver City), Taunton, Massachusetts), e não só. Ora, a própria cadeira era geralmente de cabedal negro, e de braços de mármore

Adalino Cabral homenageado (cont. página 28)

pelo que Olívia Cabral (cidadã americana) resolve regressar aos EUA, chegando a 5 de Janeiro de 1952. Enviada a carta de chamada todos se aportam à viagem, com os sapatos idos da América, sem os quais não podiam embarcar. Em 15 de Janeiro de 1954 regista-se a união do resto da familia à mãe, todos dispostos a encarar as dificuldades que se iriam deparar. Adalino fez toda a espécie de trabalhos de forma a contribuir para o sustento familiar. Veio o Vietname, a guerra e mais tarde o regresso

Adalino Cabral em criança, nos Açores

com tudo o que uma experiência deste tipo acarreta. De regresso aos Estados Unidos, decediu apostar no estudo e volta à universidade, tirando vários cursos. AOL, ComUSA (com Portuguese Times, NB, MA)

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branquinho (já vi em verde, pela primeira vez em Lisboa na década de 70), com uma correia de cabedal dependurada ao lado para se aguçar a "navalha da barba." Batia sempre nas narinas--sempre à entrada--aquele cheirinho de perfumes/pomadas de cabelo/barba especiais da casa. E, havia sempre o jovial Bom dia! Boa tarde! Haja saúde! Ora viva!, quer dos clientes a espera, quer do próprio "corta-gadelhas." E, o fulano que estava sentado como uma estatua so' mexia os olhos, quando falava, com medo de ser picado pela tesoura, ou, pior, perder orelha! FAJA de CIMA é, sim, uma obra de amor, e não só. É', sim, uma obra de grande valor para os açorianos, e, em particular, como contribuição à historia de Fajã de Cima, de Ponta Delgada e da ilha verde. Agora João Carlos Tavares--outro livro! P'ra frente é que é o caminho! Obrigado pelos cheirinhos de outrora por intermédio da barbearia do Sr. António V. Sousa de Fox Point, e nao só. O nosso JoãoCarlos está de parabéns, sim senhores! Quando gente-da-nossa-gente enaltece, somos todos vencedores. For sure! Adalino Cabral

Escritor confessa-se (cont. página 33 )

de infinito respeito. Claro, que gostaria muitíssimo de ter sido autora de um de seus livros. È inveja das boas! Mas, se é para indicar um livro que seja o romance “Mau Tempo no Canal”, a grandiosa obra-prima de Vitorino Nemésio, um incomparável humanista, romancista e, sem dúvida, um poeta inconteste. E se me permite, na poesia, queria ter escrito Os Silos do Silêncio” de Eduíno de Jesus, uma obra poética belíssima. E também, poemas do Emanuel Félix e Urbano Bettencourt. Paro por aqui, senão esta lista não tem fim. Como se relaciona com outros escritores? Como uma aprendiz: muito bem. Pensa enriquecer como escritor? Eu, nem pensar! Ah! Só se for um enriquecer de experiências. Aí, sim. Que livro nunca recomendaria a um amigo? Os de auto ajuda. Que livro gostaria de deixar e que ainda não escreveu? Um romance Afonso Quental - afonsoquental@hotmail.com

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DIA-CRÓNICA

Livra! Tanto livro! OnéSImo Teotónio Almeida

Ainda e sempre os livros, o papel nosso (meu?) de cada dia. E-mail de aluno solicita-me o empréstimo de um a fim de preparar a aula. Sem problema, mas vou precisar depois de amanhã. Chega? Acho que sim. No meu ritmo normal, tento ler um livro por dia e então será tempo suficiente. Com um ritmo desses, bate-me de longe. A casa chegam-me quase diariamente, mas lê-los, ainda que nule die sine linea, nem com um curso de speed reading. E cá vêm as inevitáveis estórias a propósito. O espaço não dá para muito, mas veremos. Contarei contando os caracteres até atingir o limite imposto pela redacção. Livro acompanha-me como peça de vestuário (e o carro leva suplentes, para além do pneu). Serve para abafar tempos mortos, esperas, minutos imensos, prolongados na cabeça de quem subitamente fica no vazio de nada que fazer, porque não nasci contemplativo. De uma vez, a Leonor e eu íamos de barco da ilha Graciosa para a Terceira. A fome sentou-nos na sala de jantar. Enquanto esperávamos pelo repasto, fomos lendo, hábito não rotineiro mas frequente, conforme os sítios e as circunstâncias. Por sinal, eram dois livros em inglês, o que deve ter posto à vontade o moço de uma mesa de folgazões terceirenses ao nosso lado, que comentou para a sua malta: Olhem-me estes dois aqui à esquerda. Não têm nada que dizer um ao outro. De outra vez, descíamos os dois rumo à Fajã das Almas,

na bela ilha de S. Jorge. Ao fundo da íngreme encosta, uma esplanada repleta de silêncio (o marulhar não é barulho) convidava a um bom naco de leitura regada com o o refrescante que à venda houvesse. A Leonor sentou-se e eu avancei para o interior em cata de alguém quando, ainda entre portas, ouvi o dono cochichando para a mulher: Devem ser estrangeiros. Trazem livros debaixo do braço. Antes, porém, de o leitor se apressar a queixar-se dos meus estereótipos, aviso que venho já estragá-los. Num Inverno, no elegante Hotel S. Pedro de Ponta Delgada, notei que o porteiro preenchia a inactividade das horas lendo concentradamente. Não resisti a meter conversa e, claro, moveu-me logo o impulso de mexericar o livro. Era de Albert Camus, já não recordo o qual. Não escondi o espanto e avancei a indagar como o descobrira. A explicação veio em tom de Homessa! coisa mais simples! Pois encontrara-o mencionado num livro de Sartre. E fui conversando por ali fora todo aristotélico em cata da causa primeira, mas cada livro encaixava sempre noutro – o moço era autodidata e, por um, ia chegando ao seguinte. Caso raro? Talvez não, como o demonstra esta outra estória fresquíssima que ainda nem pus no frigorífico da minha colecção:

colóquio na Universidade dos Açores) e, no dia seguinte, de novo no bar, os quatro abancávamos. Fui ao balcão encomendar bebidas e puxei conversa com ele, o Pedro. “Então ontem abriu o seu Larousse?”. “Não. Ontem foi dia de Houaiss”. Fiquei menente, como se diz lá na terra. Este homem também conhece o dicionário do Houaiss? Voltei para junto dos amigos – o Francisco Fagundes, a Irene Blayer e um pintor ilhéu, saído muito jovem para os States, cuja fala portuguesa acusa alguma ferrugem e,

Meti conversa e perguntei-lhe de onde provinha o seu vocabulário. Tenho um Larousse na mesa de cabeceira, já segundo o novo acordo ortográfico, apesar de eu não concordar com ele – explicou.

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De novo Ponta Delgada. O barman do Hotel Camões é de uma freguesia rural. Impecavelmente educado no trato, notei-lhe o léxico erudito (“isso é relativo”, “um acontecimento inolvidável”, “chegar exausto ao fim do dia”, “reagiu rispidamente”). Meti conversa e perguntei-lhe de onde provinha o seu vocabulário. Tenho um Larousse na mesa de cabeceira, já segundo o novo acordo ortográfico, apesar de eu não concordar com ele - explicou. Contei aos colegas (estávamos ali por via de um

quanto a escrita, a que mais lhe interessa é a do pincel. Reproduzi-lhes o que acabara de ouvir do nosso barman. Dali a pouco, chegou ele à nossa mesa, resposta pronta em copos na bandeja. O pintor luso-americano, sempre loquaz e intrometido, entabulou conversa de imediato. Ignorando de que livro se tratava, repetiu o que ouvira: Então anda a ler o Oaisse? E o Pedro, na maior das calmas, porém sempre cortês: Desculpe, mas o Houaiss não se lê; consulta-se.

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LIVROS

“Oceans of Wine” Estudo inédito de David Hancock, sobre o Vinho Madeira publicado nos Estados Unidos por Duarte Barcelos (investigador da ilha da Madeira)

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Yale University Press – a editora de uma das mais antigas e prestigiadas universidades americanas – editou, em Outubro de 2009, um estudo inédito sobre o Vinho Madeira. De seu título completo Oceans of Wine and the Emergence of American Trade and Taste, (em português: Oceanos de Vinho e a Emergência do Comércio e Gosto Americano) esta obra é da autoria de David Hancock, Professor de História na University of Michigan. Trata-se de um livro de capa dura, em cuja folha de rosto está patente uma garrafa que outrora foi usada para servir o nosso vinho na América na casa de algum aristocrata. Este trabalho arrojado apresenta 632 páginas, 158 das quais referem-se às notas dos capítulos, o que por si só é indiciador do grau de investigação nele colocado. O que levou o seu autor a dedicar-se sobre este tema foi uma simples visita à Madeira, há 17 anos atrás, em que aproveitou o mau tempo que então encontrou para fazer uma visita à Madeira Wine Company, tendo acabado por cair nas boas graças do seu director, que lhe mostrou alguns livros antigos da empresa e ainda lhe permitiu que pesquisasse uma montanha de livros antigos depositados num antigo armazém, onde encontrou importante documentação inédita contendo os registos de transacções de três empresas exportadoras de Vinho Madeira no séc. XVIII. Esta foi uma das suas fontes na Madeira, para além da consulta de documentação original mantida em privado pelos descendentes dos Leacock e Welsh. Mas David Hancock visitou outros arquivos na Madeira e no mundo, indo desde Portugal, Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, França e Jamaica. Para elaborar o presente estudo este professor universitário contou com o apoio de inúmeras instituições norteamericanas e ainda da FLAD. Ao longo do

seu trabalho de pesquisa, o autor contou com o apoio de historiadores de renome, de várias partes do mundo, que cita nos Agradecimentos, e dos quais destaca, na Madeira, o nome de Alberto Vieira. Que a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776, foi brindada com Vinho Madeira, (quase) toda a gente sabe. O que não saberão, porventura, é que este produto regional já era largamente importado por aquela região do globo desde o século XVII, conforme nos revela este livro, que analisa detalhadamente o comércio do Vinho Madeira entre 1640 e 1815. Esta obra está dividida em três partes: Making Wine (Fazendo Vinho), Shipping and Trading Wine (Embarcando e Comercializando Vinho) e Consuming Wine (Consumindo Vinho). A primeira parte é constituída por dois capítulos, onde o autor se refere ao início e desenvolvimento da produção vinícola, as diferentes castas, o armazenamento e refinamento deste néctar de Baco. David Hancock defende nesta obra que o comércio do Vinho Madeira para os Estados Unidos era assente numa rede de contactos em contínuo diálogo entre si, visto que os exportadores ingleses a americanos mantinham larga correspondência com os seus agentes e clientes, inquirindo acerca do que pensavam do vinho, se este lhes agradava ou que sugestões apresentavam para o melhorar. Foi com base nestes “diálogos” que os exportadores adaptaram o vinho ao palato dos seus clientes, na medida em que o produto enviado para Boston, New York ou Philadelphia não era todo igual, mas variava na tonalidade, textura e cheiro, de modo a adaptar-se ao palato dos seus consumidores.

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Na segunda parte deste livro, que contém cinco capítulos, David Hancock refere-se largamente à exportação do Vinho Madeira para os Estados Unidos confrontando os dados da sua exportação com os da sua importação e distribuição na América, dando-nos uma inédita perspectiva sobre a aceitação deste produto no território norte-americano, quer durante o período colonial, quer após a independência, que ia até às margens do Rio Mississipi. Na América, refere o autor, este produto esteve ainda associado à invenção de um novo modelo de comércio, o franchising, de modo a expandir a sua distribuição em zonas remotas. Na terceira parte desta obra o autor traça o perfil de alguns dos principais importadores e consumidores deste produto, entre os quais se encontravam influentes comerciantes, políticos e aristocratas, que a partir de determinada altura começaram a armazenar o vinho em caves, entre os quais cita o conhecido o caso do presidente Thomas Jefferson. No século XVIII, quando a exportação (Conclui na página seg.)

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Merecem ainda destaque as plantas de alguns edifícios outrora conotados com o comércio deste produto regional, quer na Madeira, quer na América, das quais salientamos a do estabelecimento comercial de John Howard March, antigo cônsul americano no Funchal e exportador de Vinho Madeira para o seu país natal.

Uma da gravuras da produção de vinho da Madeira incluída no livro de Hancock

de Vinho Madeira para a América atingiu o seu ponto máximo, possuir uma cave com pipas de Vinho Madeira, apresentar este néctar aos convidados em bonitas garrafas de vidro, em ocasiões especiais, era sinónimo de prestígio na sociedade, visto que devido aos impostos que recaíam sobre este produto o mesmo não estava acessível a todas as bolsas. Para além do texto este livro conta ainda com outros elementos dignos de interesse, tais como mapas, tabelas e gráficos com dados importantes, uma cuidadosa selecção de imagens, entre as quais se destacam algumas fotos a preto e branco, aguarelas do Funchal do séc. XIX e outras ligadas à produção de vinho, alguns retratos dos principais importadores e comerciantes de Vinho Madeira

nos Estados Unidos, entre outras. Merecem ainda destaque as plantas de alguns edifícios outrora conotados com o comércio deste produto regional, quer na Madeira, quer na América, das quais salientamos a do estabelecimento comercial de John Howard March, antigo cônsul americano no Funchal e exportador de Vinho Madeira para o seu país natal. Este não é o primeiro livro de David Hancock, visto ele já ter publicado outras obras importantes, a saber Citizens of the World: London Merchants and the Integration of the British Atlantic Community, 1735-1785; The Letters of William Freeman, 1678-1685; e History of World Trade since 1450. Felicitamo-lo por se ter dedicado à es-

Livro sobre os portugueses em San Diego apresentado em MA

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m livro sobre os portugueses em San Diego da autoria de Donna 
Alves Calhun, é apresentado a 25 de Março na Universidade de Massachusetts, na Prince Henry 
Society Reading Room dos FerreiraMendes Portuguese American Archives. Natural de Point Loma, Donna Alves Cahun é uma luso-descendente responsável pelo Portuguese Historical Center de San Diego, organização fundada em 1977 para preservar e divulgar a história e cultura da comunidade portuguesa de San Diego, cidade onde residem actualmente cerca de 20 mil portugueses e luso-descendentes. ComunidadesUSA

David Hancock

crita de Oceans of Wine, de modo a dar-nos uma perspectiva sobre o comércio do Vinho Madeira nos Estados Unidos, complementando assim tudo o que já era conhecido sobre este produto regional. A publicação deste livro pela Yale University Press pode ser ainda encarada como um óptimo meio de divulgação deste nosso produto de excelência junto do competitivo mercado norte-americano e, quem sabe, poderá fazer aumentar a curiosidade sobre o mesmo e suscitar o incremento da sua procura. Este livro poderá ser encomendado directamente à editora, através do seu sítio na Internet http://yalepress.yale.edu por $50, e ficarem assim a conhecer muitos outros factos inéditos sobre o Vinho Madeira nos Estados Unidos. OCEANS OF WINE, David Hancock Yale University Press, 2009 680 p., 6 1/8 x 9 1/4 57 b/w illus. & 16 color plates ISBN: 9780300136050

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DA AMÉRICA E DAS COMUNIDADES

por DINIZ BORGES (na Califórnia)

Com veneno e sem perfume* A América que elegeu Barack Obama, e que deseja uma mudança, não é a América que vimos durante e depois do debate da reforma da saúde.

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Congresso dos Estados Unidos acaba de aprovar uma lei para reestruturar a saúde em terras norte-americanas. O Presidente Barack Obama promulgou-a dois dias depois da histórica votação ter ocorrido no Capitólio. Dentro de poucos meses entrarão em vigor uma série de leis que mudarão o rosto do seguro de saúde nos EUA. Apesar de não ser um plano tão ambicioso como muitos esperavam, apesar das companhias seguradoras continuarem com o seu reinado, apesar de não haver grande interferência governamental, a direita americana não se apazigua com o voto maioritário do Congresso e com a promulgação de um Presidente que foi eleito com um mandato de mudança. O que vimos antes, durante e depois do debate e do subsequente voto é puro veneno político, que tem tido as naturais repercussões negativas na população em geral. O veneno, sem qualquer gota de perfume, saiu à rua. A retórica inflamatória utilizada pelos Congressistas Republicanos na Câmara dos Representantes, e posteriormente no Senado, em cuja câmara foram introduzidas uma série de emendas completamente inadequadas, com o único intuito de “envergonhar” os Democratas, aliadas à retórica insultuosa e extremista utilizada pelos Republicanos nos vários programas de televisão, até à incitação feita por vários Congressistas nos arredores do Capitólio, tiverem, indubitavelmente, a repercursão directa nos insultos, nas provocações e nas ameaças a que vários Congressistas Democratas foram alvo. Assim como as várias iniciativas repelentes que têm ocorrido através dos Estados Unidos nas últimas semanas. A liderança do Partido Republicano é a grande culpada. Tudo o que aconteceu em torno da passagem desta lei em nada enobreceu a América ou a democracia. Em Washington, no último dia do debate, com centenas de pessoas a serem instigadas por vários legisladores da direita, o Congressista Barney Frank foi alvo de uma série de insultos homofóbicos; o Congressista John Lewis (um dos verdadeiros heróis do movimento dos direitos civis) foi vitima de inúmeros insultos racistas; cuspiram num legislador afroamericano e mais tarde vários Congressistas do

Partido Democrático foram alvo de ameaças, algumas extensivas às suas famílias. Mais, onze legisladores Democratas viram os seus escritórios de representação assaltados durante as noites que seguiram o voto na Câmara dos Representantes. Apesar da cúpula do Partido Republicano estar a tentar distanciar-se dos insultos e das ameaças, assim como dos actos de violência cometidos em várias partes da nação americana, dificilmente ficarão isentos de culpas. A retórica da direita é radicalmente agitadora e os seus acólitos apenas respondem ao tom piromaníaco dos seus legisladores e dirigentes políticos. É que mesmo depois dos insultos e das ameaças, registaram-se uma série de ocorrências excessivamente provocatórias, como o caso do secretário-geral do Partido Republicano, Michael Steele que na televisão disse: “depois desta reforma há que colocar a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi na linha de fogo”. A antiga governadora de meio mandato no Alasca, Sara Palin ao colocar na sua página na Internet uma lista de vários Congressistas do Partido Democrático que haviam votado a favor da reforma da saúde e que são de distritos conservadores, dai alvos predilectos nas próximas eleições legislativas em Novembro, fê-lo com o indicador de uma espingarda. Até o nosso Congressista luso-descendente Devin Nunes, não fugiu à regra e acusou os seus congéneres de serem “comunistas” e de estarmos a entrar no caminho do socialismo. O Congressista Nunes, insultou os seus colegas luso-descendentes, Dennis Cardoza e Jim Costa (ambos votaram a favor da legislação) acusando-os de terem recebido favores especiais. Por último, Devin Nunes justificou a violência como algo que acontece quando se “utiliza tácticas totalitárias”. Há quem diga que o que tem acontecido nos últimos dias não passa de pequenos incidentes perpetrados por grupos nas franjas da esfera política. Antes fosse! A realidade é que toda a violência e indecência ocorridas após a aprovação e promulgação da lei da reforma da saúde são reverberações das afirmações incendiárias de alguns legisladores e dos seus cúmplices na comunicação social. O ódio que tem sido or-

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por DINIZ BORGES

questrado por personalidades da comunicação social como Rush Limbaugh e Glenn Beck acaba por penetrar um segmento da população que por vezes não quer pensar e que anda, constantemente, à busca de bodes expiatórios. Daí que este seja o momento, como escreveu recentemente o conceituado cronista do New York Times Bob Herbert, para “todos os americanos lutarem contra este tipo de lixo. Chegou a hora para todos os americanos com boas intenções responsabilizarem o Partido Republicano pelo seu envolvimento ao tolerar, sustentar e estimular este tipo de comportamento odioso nas hostes do partido e nos seus militantes.” A América que elegeu Barack Obama, e que deseja uma mudança, não é a América que vimos durante e depois do debate da reforma da saúde. Sabemos que são poucos os elementos radicais e que não representam um grande segmento da população, mas ao serem instigados pela classe política com acesso aos grandes meios da comunicação social, como recentemente o fez o candidato à nomeação do Partido Republicano para Presidente dos EUA, Mike Huckabee, que equacionou as políticas da administração de Barack Obama ao marxismoleninismo, acabam por semear confusão e atear ainda mais achas na fogueira da ignorância, do pavor, do divisionismo. Quero acreditar que a América verá além desta nuvem asquerosa. Quero acreditar que a América já se libertou de muitos tabus e que o cidadão comum americano, do qual faço parte, decifrará esta amalgama de embustices que nos querem impingir. Quero acreditar que depois desta tempestade desrespeitosa e maléfica dos conservadores virá uma bonança repleta de um debate civilizado e progressivo. O Presidente americano tem por hábito dizer que “nunca se disse que as mudanças seriam fáceis”. Mas também nunca se esperava que o Partido Republicano fosse tão perverso. Que estivessem cheios de tanto veneno e sem uma única gota de perfume. * baseado no título de um livro de contos do escritor açoriano Álamo Oliveira.

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Crónica de um enófilo

O nosso alegre mundo virtual... Onde o nosso cronista enófilo fala do bom que seria se tivéssemos também um governo virtual num mundo que é já quase todo... virtualw Por Dionísio Amado

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ui para degustar um pinot noir Chileno, quando o meu amigo David me presenteou um produto caseiro, da lavra do enólogo artesão J. Domingues, capaz de desafiar os melhores Napa Valley (s) que andam por aí e ainda por cima acompanhado de um genuíno queijo da serra da Estrela, num autêntico manjar dos deuses. Noite estragada, sobretudo para quem chegou a casa a altas horas e ainda teve de alinhavar algumas frases que lhe perpassaram pela mioleira, durante o ocasional convívio, onde o deslumbrante tinto de cor Rubi mais vermelho do que o vermelho debotado da cor do partido do engenheiro Sócrates, era rei. Daí abstraído dos restantes comensais, e porque é sempre com um grão na asa que isto me acontece, polvilhou-se-me a mente de maus pensamentos. Ainda assim, julgo eu, pensamentos avinhados e certo, mas de confesso e partilha. O tão propalado ensino à distância que parece, agora, ressurgir, com outros nomes mais pomposos e rodeados de doutos argumentos ou não fosse a geração das intranetes..., a da ciber sabedoria e... do seu poder de sedução, mais até do que as vantagens pedagógicas que tal método da ensinança nos anuncia... vem aí as escolas virtuais! Nos tempos da ditadura, o ditador, cujo nome não merece, aqui, menção, pelos idos anos 60, mais precisamente em 65, criou o ensino à distância através da televisão. A Telescola. Com o tempo e para superar algumas deficiências do sistema converteram-se no chamado EBM – ensino básico mediatizado – e que se perpetuou até à altura de sobre ele se dizer, e sem outra contra indicação, desnecessário nos tempos que correm. Penso que perdurou até metade dos anos noventa. Para além de muitas considerações, que se cogitaram, ganharam vantagem as que consideravam a telescola razoável, sobretudo, para os que cumpririam o ensino mínimo obrigatório. E a todos os que quisessem continuar seria recomendado a escola tradicional. Ou seja o ciclo, o liceu etc. Lembro-me de

alguns estudantes que queriam prosseguir os estudos e eram provenientes da telescola tinham enormes dificuldades em integrarse com sucesso no ensino liceal. O que não invalida o facto de poder haver um caso ou outro de sucesso escolar. Mais um naco de queijo que como é sabido pela voz do povo faz perder o fio à meada. Mais um trago de néctar de metade de Merlot por metade de Cabernet de Sauvignon para trazer o fio da meada de volta. E assim, num movimento do esquecer e relembrar, veio-me à memória um tal senhor ministro dos Nnegócios Estrangeiros, sua Exa. Martins da Cruz, também conhecido por Martins da cunha sobre quem alguém escreveu que o dito aristocrata

era um paladino do desempenho político queirosiano por parte dos representantes da nossa diplomacia. Isto é semelhante ao que Eça de Queiroz protagonizou quando cônsul de Portugal em Paris. In illo tempore, a recordar, o grande Eça para além do realismo descritivo, desempenhou um papel activo na política, dando conta ao governo do império das suas críticas de carácter social político e económico. E seria este o papel que o Sr. ministro gostaria de circunscrever aos diplomatas da máquina do poder diplomático, no estrangeiro. Relegar-se-ia para as Calendas Gregas a participação duma diáspora de quase cinco milhões de luso descendentes em todo mundo com capacidade de contribuir nos vários domínios da vida do nosso país qualquer que seja o lugar onde se encontrem, e onde existem qualificados operários, empresários, professores, intelectuais, artistas, autarcas etc. Assim, para além

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de mais protagonismo para os agentes da diplomacia portuguesa, haveria uma verdade oficial ou oficiosa dos acontecimentos e destinos da comunidade portuguesa. Claro que nunca foi implementada e ainda bem... mas nota-se que há honrosas figuras que ora chegam aos aposentos diplomáticos, ora partem, por decisão superior, com frequência – às vezes mal chegam a aquecer o lugar – e quantas vezes isolados de uma diáspora que vai a custo construindo e levantando em nome de uma pátria portuguesa, distante e tantas vezes madrasta, escolas, associações, lares sociais, igrejas, organizações desportivas, grupos folclóricos, empresas, etc, etc, defensores deste olhar sobre as coisas. E vai daí que alguns arautos da memória colectiva das nossas comunidades, cada vez mais virada para os futebóis, se forem cavalheiros, e para revista Maria se forem damas que se prezem, os que tudo decidem e informam os governantes bem ao gosto do tal ministro, intricam na escola virtual como única forma viável de administrar os cursos da língua e cultura portuguesas, no estrangeiro. Não que tal como o ditador traga a malícia de individualizar o individuo, desvirtualizar o percurso e crescimento do estudante ao sabor de outros saberes e vontades, ou inverter o nefasto e perverso papel do ensino em criar o homem livre, humanista, interventivo, ou seja o homo social, atributos e privilégios de alguns. Traços desse passado obscurantista. Nada disso! Não porque a democracia contenha os anti-genes de certas formas de afirmação do poder, antes e talvez agora muito em voga por razões de desenvolvimento, inovação e tecnologia. Na verdade e nisso estamos de acordo, não é mais necessária a telescola. O vinho, harmonioso na boca de sabores abaunilhados, óptimo para a reflexão destas e doutras coisas, levou-me a perguntar: e porque não consulados virtuais, cônsules virtuais, embaixadas virtuais, embaixadores virtuais, ministérios virtuais, ministros virtuais, secretários de estado virtuais, governos virtuais, escolas virtuais, universidades virtuais professores virtuais e ate alunos virtuais? Sim porque pelos caminhos que vai a educação e a família, os pais dos filhos já há muito que são pais virtuais! E filho de virtual?! Branco é... galinha o põe!

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Reformar os canais internacionais Onde se fala da mudança que se exige na RTPi e na RTP África para acompanhar o mundo global de hoje

Por PAULO PISCO Deputado pela Emigração (Europa)

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s canais internacionais de televisão podem ser um poderoso instrumento para afirmar a presença de Portugal no mundo, defendendo a sua imagem, pontos de vista e intereasses. Mas para isso seria necessário que a programação fosse encarada de forma madura e com sentido estratégico, para que as suas potencialidades pudessem ser plenamente aproveitadas, o que agora manifestamente não acontece. Em tempos de globalização, com tudo o que isso implica de fácil e rápida circulação de ideias e de concorrência com outros canais internacionais, uma boa utilização da RTP-I e da RTP-África no cumprimento da sua missão de serviço público levaria necessariamente a que fossem consideradas as vastas comunidades portuguesas e o universo mais alargado dos luso-falantes, não só para a difusão e manutenção da língua, mas também para afirmação dos nossos interesses colectivos nos múltiplos pontos do mundo onde temos algum tipo de presença histórica, cultural ou económica. Mas quando se observa a grelha de programação dos canais internacionais, percebe-se a displicência como são encarados, como se fossem uma espécie de vazadouro de programas, que em alguns casos até podem ter qualidade, mas a verdade é que não foram produzidos a pensar nos públicos a que se destinam, isto é, as comunidades portuguesas e os países e

dimensão política e cívica fundamental para a valorização das nossas comunidades, ela esteja totalmente ausente da RTP-I, não sensibilizando assim os portugueses no exterior para uma melhor afirmação nos países de acolhimento. As linhas de orientação estratégica para tornar os canais internacionais mais úteis, adaptadas aos tempos e aptos a sobreviver num contexto de crescente concorrência com canais internacionais em língua portuguesa e em outras línguas, estão até definidas numa resolução do Conselho de Ministros de finais de 2008. A resolução afirma a necessidade de "reforçar o desenvolvimento dos canais internacionais (RTP - Internacional e RTPÁfrica, RDP - Internacional e RDP - África), em particular no tocante ao cumprimento das suas missões como plataformas de difusão mundial da língua portuguesa e de informação e criação em língua oficial portuguesa, projectando um olhar português sobre o mundo, favorecendo a cooperação entre os países de língua oficial portuguesa e promovendo a ligação às comunidades portuguesas residentes

populações que falam a nossa língua. Para evitar que os canais internacionais sejam tão despojados de sentido estratégico, era fundamental que tivessem autonomia editorial, financeira e administrativa e equipas profissionais que criassem informação e programas específicos para os seus públicos-alvo, de forma a tornarem-se uma referência para todo o universo dos falantes de português. Tal como seria fundamental que o Canal 1 tivesse um pouco mais de consideração pelas nossas Comunidades, atribuindo um espaço de programação e de noticiário que contribuísse para dar em Portugal uma imagem actualizada sobre a importância dos portugueses no mundo, o que fazem as novas e as anteriores gerações e como estão integrados nas sociedades de acolhimento. Não é justo ignorar o resto da nação que está fora das Futebol a pontapé, programas de festas foleiras, “talk shows” a pingar lágrimas e concursos a toda a hora parece ser a receita da RTPi para calar os emigrantes... nossas fronteiras…. Mas a verdade é que a RTP-I funciona subjugada às necessida- no estrangeiro". des e disponibilidades do Canal 1 e das suas Mas como nada se alterou ainda, o mais direcções de informação e de programação, certo é haver, eventualmente, resistências dencom poucos recursos humanos e financeiros e tro da RTP, das suas direcções de programação uma muito reduzida produção própria. Aliás, e de informação que, como em muitos outros o único espaço informativo que existia direc- sectores da nossa sociedade, desvalorizam as cionado para as Comunidades foi suspenso nossas dimensões externas das comunidades e há cerca de dois anos. A RTP-I não transmite da cooperação nas suas múltiplas vertentes, o valores, apenas pouco mais do que entreteni- que é um óbvio erro estratégico. Seja como for, mento inócuo. Não é feito nenhum esforço a afirmação do interesse nacional nunca devepara cativar as novas gerações, para promover ria ser prejudicada por resistências internas, a imagem de Portugal no mundo, fortalecer os visões pessoais ou falta de sensibilidade para laços de cooperação, promover o intercâmbio estas questões. Há pelo menos uma certeza: tal empresarial, a cultura ou a dimensão cívica. como estão, os canais internacionais são pouco É incompreensível, por exemplo, que sendo a mais que puro desperdício.

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January 2007

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Passatempos

HUMOR Frase de alunos nos testes Caudal de um rio, é quando um rio vai andando e deixa um bocadinho para trás!

Palavras Cruzadas - Antónimos

A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo Os rios podem escolher desembocar no mar ou na montanha O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo. A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação. Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer. O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu. Quando o olho vê, não sabe o que está a ver, então ele amanda uma foto eléctrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver. A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje O Convento dos Capuchos foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do monte. Há duas palavras que abrem muitas portas: Puxe e Empurre. Os psiquiátras dizem que uma em cada quatro pessoas sofre de alguma deficiência mental. Agora observe bem três dos seus amigos mais chegados. Se eles lhe parecerem normais, o anormal pode ser você...

Atenção: estas palavras cruzadas são de antónimos, isto é, para cada pista em baixo o leitor deve escrever o seu antónimo (contrário). Horizontais 1. Bruto Verticais 1. Aborrecido 2. Sincero 3. Antipático 4. Afectuoso 5. Interesseiro 6. Introvertido 7. Preguiçoso 8. Único

Provérbios Modernos - Quem ri por último... é de compreensão lenta.
 - Os últimos são sempre... desclassificados. 
 
-Quem o feio ama... tem que ir ao oculista. 
 
-Deitar cedo e cedo erguer... dá muito sono!

 - Filho de peixe... é tão feio como o pai.
 
- Quem não arrisca... não se lixa. 
 
- O pior cego... é o que não quer cão nem bengala. 

 - Quem dá aos pobres... fica mais teso.
 
- Há males que vêm... e ficam.

 - Gato escaldado... geralmente esta morto. 


Deixei a bebida... O pior é que não me lembro onde!

Alguém me pode dizer a razão pela qual “tudo junto” se escreve-separado e “separado” se escreve tudo junto? 42

9. Manhoso 10. Realista 11. Sério 12. Reservado 13. Educado 14. Maluco 15. Discreto 16. Dinâmico 17. Apático 18. Meigo 19. Humilde

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ComunidadesUSA#20  

Edição nº 20

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