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Sumário | 1

NESTA EDIÇÃO Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria

DOSSIER SOBRE DOENÇAS OCULARES RELACIONADAS COM A IDADE

ESPECIALIDADES MÉDICAS

P.03

P.20

P.38

NUTRIÇÃO

Saúde e reabilitação oral em doentes seniores

ÍNDICE 02 Editorial

37 Reportagem

03 Nutrição

37 Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos 38 O envelhecimento numa visão transfronteiriça

40 Especialidades Médicas

Ver ou não ver, eis a questão?

Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria

06 Espaço Associação Coração Amarelo

O desafio da sustentabilidade

40 Saúde e reabilitação oral em doentes seniores 42 Alterações de comportamento na demência: desafios para quem cuida

07 Espaço Associação de Farmácias de Portugal Seringas Só no Agulhão: projeto já permitiu recolher mais de 102 mil seringas em cinco meses

08 Espaço RUTIS

Excesso de gerontotimismo

10 Espaço ERPIS

O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes: boas práticas (3.ª Parte)

44 Entrevista 44 José Manuel Silva: “Cuidar não é apenas ter atenção ao corpo, mas também ao espírito” 47 Nuno Ribeiro: “É importante abrir horizontes para um conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área” 49 APT: “Estamos aqui para ajudar, para tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”

14 A Voz de

51 Informação Técnico-Comercial

14 A importância da cidade acessível no processo do envelhecimento ativo 16 Cuidadores de idosos: um olhar sobre a família cuidadora

51 Solar das Camélias: um espaço de conforto e saúde 52 Stannah: mobilidade reduzida - o risco na hora do banho 55 FutureLift: mais tempo, mais qualidade de vida

20 Dossier sobre

Doenças Oculares relacionadas com a idade 20 Doenças oculares da idade 22 O que necessita saber sobre Glaucoma na idade adulta 24 Retinopatia Diabética 26 A Catarata em 2020 28 As pálpebras e a idade 30 Mente Ativa Corpo Ativo 30 Medicina chinesa e envelhecimento ativo 32 A Fisioterapia como coadjuvante no tratamento da Doença de Parkinson 34 Terapia Ocupacional e o seu papel na intervenção co a pessoa com demência

56 Case Study 56 Os lugares que o saber ocupa: a aprendizagem ao longo da vida no Programa 60+ 58 Vai nascer o primeiro hotel assistencial em Vila Nova de Famalicão

60 Notícias 63 Atividades 64 Bibliografia


2 | Editorial

Ver ou não ver, eis a questão?

Cláudia Guedes da Costa Diretora

Caríssimo leitor, O ser humano tem cinco sentidos e a visão é a única que permite ver o mundo criando imagens fantásticas na memória, tornando-se determinante na relação do indivíduo com o espaço envolvente. Das suas aferências derivam muitas operações complexas desde a sobrevivência à execução de tarefas claramente especializadas e elaboradas. As transformações morfológicas e fisiológicas associadas ao envelhecimento são inevitáveis. A visão acompanha esta degenerescência criando novos paradigmas visuais. A incidência das alterações normais e patológicas do sistema visual irão paulatinamente avolumar-se, condicionando a qualidade de vida com consequências a nível pessoal, familiar, profissional e ainda acarreta enormes custos sociais e económicos. Grande parte da perda visual não chega a ser diagnosticada e, portanto, não recebe tratamento, somando e agravando outras incapacidades funcionais, favorecendo a depressão, o isolamento social, aumentando as comorbilidades e as disfunções previamente presentes: »» perda de interesse por uma atividade anteriormente agradável, por exemplo, a leitura, um importante instrumento de inclusão social e de combate à solidão; »» intoxicações alimentares e mesmo envenenamentos pela dificuldade na leitura de rótulos e dos prazos de validade dos medicamentos; »» dificuldade no excesso de luminosidade; »» instabilidade nas passagens para ambientes mais escuros ou mais claros; »» dificuldade na identificação de letras pequenas; »» acidentes no interior e exterior porque não percebem desníveis e não visualizam degraus; »» dificuldade com a confluência de corredores; »» desorientação em ambientes com uniformidade de cores, bem como com excesso de padrão; »» dificuldade em seguir pistas sensoriais pouco ou escassamente identificadas como números ou letras nas portas; »» quedas e atropelamentos.

FICHA TÉCNICA DIGNUS 03 4.º trimestre 2019 DIRETORA Cláudia Guedes da Costa · claudia.dignus@gmail.com CONSELHO EDITORIAL Ana Araújo, Ana Isabel Martins, Ana Monteiro, António Palha, Carlos Wehdorn, Cláudia Moura, Elisa Serôdio, Filipa Menezes, Helena Costa, Horácio Firmino, Ilda Gois, Janinéri Cordeiro, Joana Monteiro, Joana Sousa, José Manuel Silva, José Reis, José Canas da Silva, Luís Jacob, Madalena Pinto, Manuel Viana, Márcio Vara, Margarida G. Resende, Ricardo Pocinho, Sandra Penêda Patrício, Sérgio Ferreira CORPO EDITORIAL Diretor Executivo: Júlio Almeida T. +351 225 899 626 · julio.almeida@dignus.pt Marketing: André Manuel Mendes · geral@dignus.pt Redação: Helena Paulino,T. +351 220 933 964 · redacao@dignus.pt DESIGN E WEBDESIGN Ana Pereira · a.pereira@cie-comunicacao.pt · T. +351 225 934 633 ASSINATURAS T. +351 220 104 872 · info@booki.pt · www.booki.pt COLABORAÇÃO REDATORIAL Susana Arranhado, Isabel Baião, Manuela Pacheco, Luís Jacob, Mónica Teixeira, Ana Soares, Catarina Teixeira, Adriano António Pinto de Sousa, Assunção Nogueira, Zaida Azeredo, José Guilherme Monteiro, Maria João Menéres, Lilianne Duarte, José Salgado-Borges, Filipe Esteves, Pedro Coelho, Sandra Prazeres, Helena Costa, Gabriela Martins, Cristiana Carvalho, Esmeralda Martins, Elisa Serôdio, Cristiana Pinto, Inês Varejão Sousa, Luísa Pimentel, Sara Mónico Lopes, Cezarina Maurício e Sandra Silva. PROPRIEDADE, REDAÇÃO E EDIÇÃO CIE - Comunicação e Imprensa Especializada, Lda.® Empresa jornalística Reg. n.º 223992 NIPC: 509 870 104 Grupo Publindústria Praça da Corujeira, 38, Apartado 3825, 4300-144 Porto T. +351 225 899 626/8 geral@cie-comunicacao.pt · www.cie-comunicacao.pt CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Júlio António Martins de Almeida (gerente) DETENTORES DE CAPITAL SOCIAL Júlio António Martins de Almeida (40%) António da Silva Malheiro (30%) Publindústria – Produção de Comunicação, Lda. (30%)

“Para preservar a saúde ocular, as pessoas devem ter acompanhamento médico regular, de preferência anualmente (...)”

Desde Hipócrates até à atualidade que a evolução do conhecimento na área da oftalmologia e a preocupação com a prevenção, tal como com um diagnóstico cada vez mais precoce, potenciam com o propósito de assegurar às pessoas um melhor funcionamento visual. A visão deve ser acautelada desde o nascimento, exortar a sua prevenção e tratar quando necessário. O aperfeiçoamento tecnológico em cooperação com a literacia visual permitem a prevenção e o tratamento de doenças anteriormente classificadas como incuráveis. Para preservar a saúde ocular, as pessoas devem ter acompanhamento médico regular, de preferência anualmente, ou em períodos mais curtos, caso haja prescrição para tal. No que respeita ao panorama da saúde da visão em Portugal, existem diferentes medidas para globalmente aumentar a assistência à população. Espero que veja com bons olhos este terceiro número dedicado às Doenças Oculares relacionadas com a Idade.

PUBLICAÇÃO PERIÓDICA Registo n.º 127253 Depósito Legal: 461353/19 ISSN: 2184-6359 Tiragem: 5000 exemplares Periodicidade: Trimestral INPI: 602419 IMPRESSÃO E ACABAMENTO acd print Rua Marquesa d´Alorna, 12 A | Bons Dias, 2620-271 Ramada Estatuto editorial disponível em www.dignus.pt Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.


Nutrição | 3

Alimentação e nutrição em Gerontologia e Geriatria Susana Arranhado Nutricionista e docente na Escola Superior de Saúde do Politécnico de Leiria e na Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches

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Q

ue a alimentação e nutrição são fundamentais em qualquer fase do ciclo de vida é sobejamente conhecido, mais ainda quando se trata de indivíduos idosos. As alterações próprias e fisiológicas do envelhecimento afetam as necessidades nutricionais do geronte e podem também dificultar a ingestão alimentar com repercussões, muitas vezes graves, ao nível do estado nutricional e funcionalidade. Deste modo, o binómio idade/envelhecimento-alimentação é dinâmico e bilateral. Assim, decorrente do processo de envelhecimento normal, outras limitações podem ocorrer, com consequências, na ingestão alimentar e no estado nutricional. De seguida, apresentam-se algumas dessas alterações. A nível da composição corporal, verifica-se redução da água corporal, o que aumenta o risco de desidratação nesta faixa etária (Medina, 2004; Ferry, 2004). Constata-se uma diminuição de 0,3 l/ano desde a idade adulta até aos 70 anos. Após “(...) a nutrição e alimentação esta idade, a diminuição é ainda mais acendo idoso exige uma atenção tuada (Ferry, 2004). aprofundada (...) um estado No envelhecimento saudável, as necesnutricional desapropriado sidades energéticas diminuem com a idade contribui significativamente para em função de modificações na composição a diminuição da funcionalidade corporal (Mahan, 2005): a perda do tecido e autonomia e aumento da metabolicamente mais ativo (da massa musmorbilidade e da mortalidade” cular) é acompanhada por um aumento do tecido adiposo, que preconiza assim uma diminuição das necessidades energéticas totais (NET). Respeitante ao sistema imunitário, verifica-se um decréscimo da sua função com a idade (Mahan, 2005), pelo que o idoso necessita de

um maior aporte de vitaminas do complexo B, vitamina E e de zinco (Blumberg, 1997). Verifica-se também uma diminuição do peristaltismo do esofágo, a qual conduz a uma maior lentificação na descida dos alimentos, à dilatação e alteração morfológica do esfíncter esofágico inferior (cárdia), podendo resultar no aparecimento de refluxo gastroesofágico (Medina, 2004). O pâncreas diminui o seu tamanho com o envelhecimento e apresenta maior fibrose do parênquima. O aumento dos níveis da hormona colecistoquinina promove uma diminuição do limiar de saciedade. Por conseguinte, a saciedade precoce manifestada pelos idosos pode ser explicada em parte pela diminuição da distensão do fundo gástrico, pelo aumento da estimulação do antro e pela secreção alterada de hormonas como a colecistoquinina e a leptina (Ferry, 2004; Medina 2004). As alterações da capacidade de secreção gástrica e consequente elevação progressiva do pH potenciam o aumento das necessidades em ácido fólico, vitamina B12, cálcio, ferro e zinco (Ferry, 2004, Mahan, 2005; Blumberg, 1997). As modificações nas vilosidades intestinais, com implicações óbvias na absorção de nutrientes acometem a pessoa idosa. Um intestino envelhecido é um intestino mais suscetível a perturbações como a obstipação, a flatulência e a diarreia, com um grande impacto no estado nutricional do ser humano, com especial expressão no idoso,


4 | Nutrição

na medida em que os indivíduos desta faixa etária desidratam rapidamente e com graves consequências. Importa, então, considerar a desidratação como um problema maior no idoso, uma vez que há uma diminuição da perceção da sede e diminuição da sensibilidade dos osmorrecetores, o que por si só já constitui um risco para a desidratação, pois desta forma a ingestão hídrica é insuficiente. Contudo, também pode ocorrer por aumento das perdas de líquidos, provocadas por infeções ou pela toma de medicamentos, como os diuréticos e os laxantes. A absorção de cálcio diminui no decurso do envelhecimento, levando a que este seja mobilizado dos ossos para manter os níveis extracelulares. O resultado é a perda da densidade óssea, que se pode manifestar por osteoporose. Esta situação reitera o aumento das necessidades de cálcio e vitamina D na pessoa idosa. Em bom rigor, a necessidade desta vitamina é dependente da idade, do sexo, da pigmentação da pele e do grau de exposição à luz solar. A capacidade da pele em produzir vitamina D a partir da luz solar é 60% menor nos idosos. No indivíduo idoso, a absorção de vitamina D no intestino diminui e aumenta a absorção de vitamina A. Assim, há uma redução da necessidade em vitamina A (Blumberg, 1997; Ferry, 2004; Afonso, 2012). Também o rim manifesta alterações anatómicas e funcionais. Quanto à função renal, a taxa de filtração glomerular pode diminuir cerca de 60% entre os 30 anos e os 80 anos (Mahan, 2005), devido à redução do número de nefrónios, à presença de doenças crónicas, bem como devido ao decréscimo do fluxo sanguíneo. A capacidade de concentração da urina diminui com a idade. Assim, a eliminação de produtos de degradação e substâncias tóxicas requer uma maior quantidade de urina (Ferry, 2004). Em síntese e com base no anteriormente mencionado, pode dizer-se que o idoso é tendencialmente desidratado.

Tabela 1. Resumo do impacto do envelhecimento nas necessidades nutricionais. Alteração na composição corporal ou função

Impacto nas necessidades nutricionais

fisiológica Diminuição da massa muscular

Diminuição das necessidades energéticas

Diminuição da densidade óssea

Aumento das necessidades em cálcio e vitamina D

Diminuição da função imunitária

Aumento das necessidades em vitamina B6, vitamina E e zinco

Aumento do pH gástrico

Aumento das necessidades em vitamina B12, ácido fólico, cálcio, ferro e zinco

Diminuição da capacidade da pele para a produção

Aumento da necessidade em vitamina D

de colecalciferol Aumento da capacidade para produção de hormona

Aumento da necessidade em vitamina D

paratiróide (Inverno) Diminuição da biodisponibilidade em cálcio

Aumento das necessidades em cálcio e vitamina D

Diminuição da função hepática do retinol

Diminuição da necessidade em vitamina A

Aumento do estado de stress oxidativo

Aumento das necessidades em betacaroteno, vitamina C e vitamina E

Aumento dos níveis de homocisteína

Aumento das necessidades em folatos, vitamina B6 e vitamina B12

Tabela 2. Envelhecimento e o seu impacto nos micronutrientes. Diminui com o aumento da idade

Aumenta com o aumento da idade

Vitamina A

Cobre sérico

1.25-dixidroxivitamina D

Iodo sérico (depois dos 45 anos)

Vitamina B1

Níquel (nos pulmões)

Atividade da glutationa redutase (associada à vitamina B2 e provavelmente à B3 Piridoxal fosfatase (associada à B6) Vitamina B12 Vitamina C Crómio e cobre (na saliva, cabelo e coração) Fluor no esqueleto Manganésio (no rim e coração) Selénio

A ingestão de alimentos pode igualmente ser condicionada pela perda ou por alterações das capacidades sensoriais (paladar, visão e olfacto), as quais podem ser alterações fisiológicas, ou seja, normais do envelhecimento ou podem resultar de doenças

“(...) pode dizer-se que o idoso é tendencialmente desidratado.”

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ou de efeitos da medicação (iatrogenia). As alterações nos órgãos dos sentidos, nomeadamente no paladar e olfacto, podem conduzir a variações do padrão alimentar do idoso, pois estes permitem a identificação dos alimentos e conferem às refeições o prazer e conforto associados ao consumo de alimentos. Permitem ainda a detecção de potenciais agentes de contaminação e de alimentos deteriorados. As disfunções verificadas ao nível do paladar e do olfacto surgem aproximadamente aos 60 anos, tornando-se mais acentuadas após os 70 anos. De facto, o paladar tem uma componente fisiológica mas também cultural muito marcada. A diminuição da capacidade de discriminação entre os sabores fundamentais (doce, salgado, amargo, e ácido) explica-se pela atrofia das papilas gustativas presente nesta faixa etária. Daí que os


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idosos preferiram alimentos mais doces e salgados ou muito condimentados (Ferry, 2004). A audição, a visão e o tato, participantes indiretos na ingestão alimentar, podem também condicionar o apetite, o reconhecimento dos alimentos e a capacidade de o idoso se alimentar sozinho (Mahan, 2005). Desta forma, o olfato, a visão, o tato e o paladar assumem um papel importante na fase cefálica da digestão, ao transmitem ao cérebro a informação sobre o alimento a ingerir. Têm a responsabilidade pela ativação de processos metabólicos, tais como as secreções pancreáticas, a estimulação da secreção das glândulas salivares e do suco gástrico, o aumento dos níveis plasmáticos de insulina, bem como estimulam o sistema nervoso parassimpático na libertação de acetilcolina. A falta de peças dentárias e consequentes problemas de mastigação constituem uma grande parte das limitações relacionadas ao envelhecer. As alterações nas gengivas e nos dentes (nomeadamente a perda de dentes, a redução do esmalte dentário e a utilização de próteses dentárias desapropriadas) podem levar a uma redução da ingestão ou até mesmo à recusa de certos alimentos (Ferry, 2004; Mahan, 2005; Medina, 2004), mesmo os preferidos. A perda de peças dentárias modifica a alimentação dos idosos, com redução do consumo de hortofrutícolas e de carne (Ferry, 2004). O edentulismo parcial ou total pode afetar de forma significativa a saúde global do indivíduo idoso assim como pode interferir diretamente e de forma nefasta na sua qualidade de vida, principalmente no convívio social. Nesta faixa etária, as patologias orais mais frequentes são a doença periodontal e as cáries dentárias, constituindo estas duas entidades clínicas, as principais causas de perda dentária. As lesões da mucosa oral e a xerostomia são, igualmente, condições orais muito frequentes em idosos. Em suma, a nutrição e alimentação do idoso exige uma atenção aprofundada e o mais personalizada possível, com inclusão dos diversos domínios (nomeadamente saúde e social) pois na pessoa idosa, um estado nutricional desapropriado contribui significativamente para a diminuição da funcionalidade e autonomia e aumento da morbilidade e da mortalidade.

Referências bibliográficas 1. World Health Organization (WHO). Active Ageing, A Policy Framework. A contribution of the WHO to the Second United Nations World Assembly on Ageing, Madrid, Espanha, abril, 2002. 2. Ferry M, Alix E. A nutrição na pessoa idosa – Aspectos fundamentais, clínicos e psicossociais. 2.ª Edição. Lusociência, Loures, 2002. 3. Afonso C, Morais C, de Almeida MDV. Alimentação e Nutrição in Manual de Gerontologia – Aspectos biocomportamentais, psicológicos e sociais do envelhecimento. Lidel, 2012. 4. Blumberg J. Nutritional nedds of seniors. Journal American College of Nutrition. 1997; 16(6):517-523. 5. Medina Mesa R., Dapcich V. Fisiología del envejecimiento. In: Hornillos MM, Bartrina JA, Garcia JLG. Libro Blanco de la Alimentación de los Mayores. 1.ª Edición. Buenos Aires: Editoral Médica Panamericana, S.A.; 2004. p.15-21. 6. Ferry M. Strategies for ensuring good hydration in the elderly. Nutrition reviews. 2004. 63(6 Pt 2):S22-9. 7. Mahan LK, Escott-Stump S: Krause - Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 11ª. ed. São Paulo, Roca,2005.


6 | Espaço Associação Coração Amarelo

O desafio da sustentabilidade

S Isabel Baião Socióloga responsável pela área de Projetos, Parcerias e Fundraising da Delegação de Lisboa

ustentabilidade, esta palavra soa familiar aos nossos ouvidos, principalmente quando falamos de questões ambientais, mas hoje venho propor-vos uma reflexão diferente: como é que associações sem fins lucrativos sobrevivem nesta economia de mercado em que ouvimos falar do setor público, do setor privado, mas muito pouco do terceiro setor. Tomemos como exemplo real a prática vivida na Associação Coração Amarelo – Delegação de Lisboa. Esta Associação tem por missão apoiar e acompanhar as pessoas idosas, da cidade de Lisboa, que se encontrem em situação de solidão e/ou isolamento ou em risco de virem a estar. Sendo uma entidade enquadradora de voluntariado, assegura esta missão através de um grupo de voluntários enquadrados por uma equipa técnica de retaguarda responsável pela integração, acompanhamento e supervisão do trabalho destes voluntários. Aposta na inovação de uma resposta qualificada e diferenciada que se coaduna com contextos pessoais e sociais em permanente desenvolvimento. A possibilidade de dispor deste enquadramento técnico advém da existência de um acordo atípico de cooperação com o Centro Distrital da Segurança Social, o qual assegura a atribuição de um subsídio mensal correspondente aos vencimentos dos colaboradores, MAS pago 12 vezes ao ano. Ora, evidencia-se desde já um desfasamento nas obrigações contratuais a que a delegação está sujeita, na medida em que, a Lei do Trabalho determina o pagamento de 14 meses de vencimento a trabalhadores com vínculo contratual. Acrescem a este fosso, as contribuições por conta da entidade, para a Segurança Social e para a Fazenda Pública que também não se encontram refletidas neste subsídio, os Seguros obrigatórios de Acidentes de Trabalho e ainda os Planos de Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho. Tal como qualquer outra organização, independente da sua natureza jurídica ou área de atuação. Daqui resulta que muito do trabalho das equipas de gestão que têm exercido funções nesta delegação se tem concentrado, na procura de soluções financeiras para cobrir os custos fixos a que se encontra obrigada, quando o desafio principal seria o desenvolvimento da própria resposta social que preconiza. Como podemos vencer este obstáculo? O desafio é gerar fontes alternativas de receitas para além das expectáveis neste tipo de as-

“(...) é preciso que cada um questione o que faz, como faz, para que faz e para quem faz, para que possa desenvolver um trabalho cada vez mais eficaz e adequado aos desafios que se apresentam.”

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sociações: quotas de associados e alguns donativos pontuais. Para além de procurar divulgar o trabalho que é desenvolvido pela Associação e de encontrar indicadores objetivos que permitam quantificar o impacto na vida dos utentes e dos voluntários também é importante conseguir alertar os decisores políticos a adaptar a legislação de modo a que as políticas públicas sejam adequadas às atividades das Instituições Particulares de Solidariedade Social e facilitem o desenvolvimento de novas iniciativas que possam fazer face à atual situação económica e social. A Rede Social também tem que funcionar como verdadeira rede para estabelecimento de parcerias, mais do que um conjunto de organizações concorrentes na procura de um objetivo comum, que é chamar a atenção das empresas para que se interessem pela missão de cada uma das instituições e possam assim contribuir com donativos regulares. Para além do que atrás foi referido é urgente mudar de paradigma: a gestão tem que ser profissional para conseguir fazer face aos desafios da economia. O voluntariado tem que estar enquadrado para que todos se foquem nos resultados a atingir e na criação de valor. Ao mesmo tempo, tem que existir uma preocupação de todos os envolvidos na melhoria contínua do desempenho das equipas profissionais: é preciso que cada um questione o que faz, como faz, para que faz e para quem faz, para que possa desenvolver um trabalho cada vez mais eficaz e adequado aos desafios que se apresentam. A partilha de boas práticas entre as diferentes instituições também poderá contribuir para a diversificação das fontes de financiamento e para o desenvolvimento de parcerias focadas na economia de escala, bem como para a racionalização da oferta de serviços, criando novos modelos de respostas sociais e encontrando estratégias adaptadas ao mercado e ao perfil das empresas com responsabilidade social. Só com a sinergia criada pela articulação de todos os fatores referidos anteriormente poderemos continuar o nosso caminho, sempre na direção de um envelhecimento positivo e participativo.


Espaço Associação de Farmácias de Portugal | 7

Seringas Só no Agulhão Projeto já permitiu recolher mais de 102 mil seringas em cinco meses

N

unca como hoje se falou tanto sobre políticas que promovam a melhoria dos cuidados de saúde prestados às populações. Atenta à emergência destas preocupações, a Associação de Farmácias de Portugal (AFP) tem-se dedicado à elaboração de soluções para responder aos desafios da nossa sociedade. Foi nesse sentido que criámos em 2019, o projeto-piloto pioneiro “Seringas Só no Agulhão”, um projeto que ambicionamos alargar, em breve, a todo o país. Manuela Pacheco Lançado em parceria com a empresa Stericycle, o programa Presidente “Seringas Só no Agulhão” tem como finalidade recolher nas farda Associação mácias as seringas e agulhas usadas pelos doentes diabéticos, de Farmácias bem como de todos aqueles que utilizam medicamentos injetáde Portugal (AFP) veis. Para esse efeito foi instalado nas farmácias aderentes um contentor próprio – o Agulhão. Embora sendo um projeto-piloto, os resultados obtidos durante os primeiros cinco meses do programa confirmam o sucesso e a relevância desta iniciativa: entre julho e novembro de 2019 foram recolhidas nas farmácias aderentes mais de 102 mil seringas e agulhas. Recorde-se que até à data não existe nenhum sistema de recolha nacional para este tipo de resíduos. O único sistema de recolha de seringas disponível está inserido no âmbito do PTS (Programa de Troca de Seringas) – um programa especialmente dirigido às Pessoas que Utilizam Drogas Injetáveis (PUDI). Nestes casos, as farmácias recolhem as seringas usadas (que depois são destruídas) e, em troca, devolvem aos cidadãos material esterilizado. Mas os doentes diabéticos vivem há décadas com o problema de não saberem o que fazer com as suas seringas e agulhas. A AFP sabe que nestes casos a solução mais comum passa por colocar as seringas dentro de garrafas de plástico que depois são depositadas no lixo. Por considerar que este não é, de todo, o destino ideal para resíduos desta natureza, a AFP criou o projeto “Seringas Só no Agulhão” para encontrar uma solução ambientalmente segura que permita aos utilizadores de medicamentos injetáveis entregarem as suas seringas usadas nas farmácias. Com o Agulhão, os cidadãos passam a ter ao seu dispor, pela primeira vez, uma solução segura, ecológica e gratuita para as suas seringas usadas. Nesta fase, o projeto-piloto “Seringas Só No Agulhão” está “(...) os doentes diabéticos implementado em 10 farmácias dos convivem há décadas com o celhos do Porto, Vila Nova de Gaia, Matoproblema de não saberem sinhos, Gondomar, Braga e Vila Verde. As o que fazer com as suas farmácias aderentes são as seguintes: Farseringas e agulhas.” mácia Costa Macedo (Vila Verde); Farmácia Cristal (Braga); Farmácia da Areosa (Rio Tinto); Farmácia de Aguiar (Gondomar); Farmácia Falcão (Porto); Farmácia Henriques (Porto); Farmácia Leça do Balio (Leça do Balio); Farmácia Monte da Virgem (Vila Nova de Gaia); Farmácia Padrão da Légua (Custoias); Farmácia Portela (Vila Nova de Gaia). Apesar de estar circunscrito ao Norte do país, a AFP tem a ambição de alargar o projeto a nível nacional.

Um projeto pioneiro que promove a Saúde Pública e defende o meio ambiente Segundo as estimativas da AFP, com base nos dados IQVIA, todos os anos são gerados em Portugal mais de 250 milhões de resíduos (seringas e agulhas) em ambulatório. São resíduos que, devido à inexistência de uma recolha segura, vão parar ao lixo comum. Se o projeto “Seringas Só no Agulhão” deixar de ser um projeto-piloto e passar a ser um programa de âmbito nacional, acreditamos que uma elevada percentagem destes resíduos passará a ser tratada de forma adequada quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista de Saúde Pública. Por todas estas razões, em 2020, a AFP estará focada na sensibilização das autoridades competentes para os benefícios do programa “Seringas Só no Agulhão” e para a importância do desenvolvimento de soluções de recolhas de seringas para os utilizadores de medicamentos injetáveis nas farmácias de todo o país. Da mesma forma, a AFP continuará a trabalhar para divulgar o Agulhão junto das populações, para que possam beneficiar desta solução inovadora. Vamos também apostar no desenvolvimento de novos programas que vão de encontro às necessidades de saúde dos cidadãos. Porque esta é a nossa missão: trabalhar de perto com os farmacêuticos para melhor servir a comunidade.


8 | Espaço RUTIS

Excesso de gerontotimismo

F Luís Jacob Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Bragança e Presidente da RUTIS

requentemente quando reflito sobre o envelhecimento recordo-me de três frases que me marcaram de alguma forma, uma é de Jorge Amado (1912-2001, 89 anos), que numa das suas últimas entrevistas afirmou que “A velhice é uma porcaria”, outra é da atriz brasileira Tónia Carrero (19222018, 95 anos) que afirmou “A velhice é a prova que o inferno existe” e por fim a minha mãe dizia no final da sua vida (1937-2017, 80 anos), “Já enterrei tanta gente”. O que estas três pessoas têm em comum é que ultrapassaram os 80 anos e tiveram um envelhecimento ativo até quase ao fim das suas vidas. Estas afirmações vem contradizer um pouco a “vaga” que surgiu nos últimos anos de um gerontotimismo, considerando este como “a perceção que é transmitida de que a velhice é a melhor fase de vida e que o envelhecimento é um processo isento de dificuldades, pleno de satisfação”, que advoga e enaltece as maravilhas e potencialidades da velhice, muito associado ao conceito de “envelhecimento ativo ou bem sucedido”. Este movimento afirma que a terceira/ quarta idade é a melhor fase da vida, há até quem lhe chame a idade “dourada” ou quem promova a gerontoadolescência, como se os mais velhos pudessem e devessem repetir os comportamentos dos adolescentes. No entanto o envelhecimento é um processo pessoal, gradual e irrecuperável de declínio e de percas (pessoais e coletivas), maiores ou menores conforme a sorte e saber do individuo. Para uns o envelhecimento será um caminho para a morte, tranquilo e sem grande sofrimento, para outros será um percurso pejado de amargura e dor. Sendo que, se uma parte está entregue aos “deuses” ou ao “destino/sorte” de cada um, uma boa parte da preparação deste caminho está na mão de cada um.

À velhice associam-se regulamente “(...) muitos males, como por exemplo a solio envelhecimento dão, a doença, o isolamento, a pobreza, é um processo a incapacidade, a exclusão; pelo que é pessoal, gradual considerada por muitos como o prine irrecuperável cípio do fim. Contudo tendo em conta de declínio e de os atuais conhecimentos do desenvolpercas (...)” vimento humano ao longo do ciclo de vida, pode-se dizer que a mudança dessas diferentes capacidades não é unidirecional, nem universal, nem irreversível. Embora algumas capacidades se possam deteriorar, outras mantêm-se e podem inclusive ser enriquecidas. Há vários fatores que influenciam a qualidade do envelhecimento e a maneira como este se relaciona com a vida do próprio individuo. Há fatores intrínsecos e extrínsecos à pessoa, os internos relacionados com as opções que fez ao longo da vida, aos hábitos de vida que teve/tem; com a capacidade mental que possui e/ou desenvolveu (iniciativa, otimismo, ansiedade, resistência ao stress, resiliência, entre outros); com quem escolhe/eu viver; as redes sociais que construiu. Os externos são referentes a acontecimentos que o individuo não controla/ou, a sua própria genética: a acidentes; a doenças; ao meio onde esteve inserido; à família e “azares” e “sortes” que teve na vida. Os principais fatores estão expressos nesta figura:

De todos estes 6 fatores são a “saúde e autonomia” e “companhia e redes comunitárias” que assumem uma maior relevância, analisando vários autores e estudos realizados. Em conclusão, apesar de a última fase da vida ser inevitavelmente associado a muitas percas e como tal devemos ser alguma prudência neste gerontotimismo, também é verdade que pode ser um período muito interessante na vida, assim as condições pessoais e ambientais o permitam.

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Adaptado do texto: Jacob, Luis (2019), “Factores para a melhoria da qualidade de vida dos seniores” in A geriatria e gerontologia no século XXI, capítulo 12, pp. 141154, Edição da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia.


10 | Espaço ERPIS

O papel do Centro de Dia na ocupação dos utentes Boas práticas » 3.ª Parte Mónica Teixeira, 2Ana Soares e 3Catarina Teixeira

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Diretora de serviços do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 2

Equipa técnica do Centro de Apoio Social

de Vila Nova de Monsarros 3

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Exemplos práticos de atividades individuais e de grupo e considerações genéricas Tal como expusemos anteriormente, todas as atividades subsequentemente mencionadas são realizadas em contexto real, num Centro de Dia integrado em meio rural, com outras respostas socais associadas e com um número máximo de 30 utilizadores diários. Deste modo, o modelo de ocupação apresentado poderá, no nosso entender, contribuir para a replicação dos procedimentos operacionais usados, primordialmente em ambientes similares. No que concerne às atividades individuais o foco prende-se, como já mencionámos, em cativar os indivíduos de modo a compreender exatamente quais as suas necessidades, preferências, limitações, potencialidades e de que forma cada um se sente inserido/integrado na instituição e no grupo. Considera-se fundamental este tipo de trabalho junto dos indivíduos através da promoção e incremento de atividades de ocupação significativas, resultantes de uma escolha livre e voluntária. Consideramos uma diversidade de formas de proporcionar resposta às necessidades ocupacionais

dos utentes e de os manter preenchidos no dia a dia, de modo a que experimentem sentimentos de utilidade e de importância a nível individual e ou coletivo. Assim sendo, elencamos seguidamente uma listagem de contributos práticos previamente experienciados no Centro de Dia em análise. Primeiramente destacamos a importância das criações em cadeia, isto é, distribuição das diversas tarefas em que cada utente possui uma função diferente, mas essencial para o resultado final. Destacamos deste modo o seguinte exemplo: mensalmente os utentes participam numa aula de ginástica interinstitucional com todos os idosos do concelho. O local de realização da atividade é previamente calendarizado para diversas infraestruturas dos diferentes locais do concelho (com dimensão para acolher 150 a 300 participantes). No momento em que a atividade se realiza na comunidade, do Centro de Dia em questão, os utentes criam, desenvolvem e oferecem um acessório de ginástica (previamente aferido com o monitor da atividade) a todos os participantes para a realização da aula. Assim sendo, a atividade “ginástica” começa com a dinâmica da definição e conceção dos acessórios, a qual

descrevemos seguidamente: a criação de sacos de peso em tecido (aproveitamento de retalhos), com diferentes pesos e atilhos para a utilização nas mãos e pernas/pés de forma a adaptar-se a idosos com as mais variadas características bio fisiológicas (capacidade física, doença, entre outras); assim sendo, necessitámos de participantes para colocar areia em sacos, outros para vedar os mesmos sacos com fita-cola a toda a volta, outros para costurar os retalhos em forma de saco, outros para cortar o trapilho no tamanho certo, outros para costurar os atilhos nos sacos e outros a fechar os sacos. Para além deste exemplo de objeto, ao longo dos últimos 5 anos, os utentes criaram cordas entrançadas em trapilho, canas compridas protegidas nas extremidades com balões e trapilho, bolas de areia com balões, canas curtas com fita de seda na ponta,

“(...) as rotinas ocupacionais dos indivíduos mais velhos contribuem para que esta fase da vida seja satisfatória e produtiva.”


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elásticos feitos com câmaras de bicicleta e canas nas extremidades, entre outros. Os utentes que apreciam trabalhos de costura podem estar envolvidos, individualmente tendo em conta a sua aptidão, em tudo o que necessite de costura num âmbito institucional. A planificação das atividades manuais pode agregar igualmente as atividades de cariz solidário realizadas em prol da instituição (como seja a venda de produtos), bem como as necessidades internas diárias (produtos necessários ao Centro de Dia). Deste modo, é tida em consideração a melhor forma de manter as pessoas ocupadas, assim como, fomentar sentimentos de utilidade ao verem as suas produções usadas e valorizadas. Como exemplo das atividades de costura já experienciadas salientamos: quadro de orientação para a realidade, costurado integralmente por uma utente; assim como, os resguardos de peito para a refeição, os sacos de atilho para as compras e para transportar lanche, decoração dos jantares e stands em que a instituição está representada. Para além dos anteriores salientamos a realização de outras manualidades como sejam sacos em crochet com trapilho para a colocação das garrafas de água em cada uma das cadeiras junto da pessoa, elementos decorativos exteriores para festividades da comunidade, tapetes de trapilho para a sala das crianças, das respostas sociais da instituição, costura de elementos base para que as crianças possam decorar e oferecer em dias temáticos (gravatas, corações, saquinhos, tabuleiros de jogos, entre outros) e também mantas/aventais/painéis/xailes de histórias acompanhados de fantoches/ dedoches. Para os utentes que preferem atividade de leitura, o Centro de Dia associou-se ao projeto da Biblioteca Rota dos

Livros, que permite a requisição mensalmente de livros. Neste âmbito, a requisição dos mesmos assenta nos gostos particulares do utente, sendo que o mesmo os poderá continuar a sua leitura no período em que está no domicílio. Os utentes do Centro de Dia que, por iniciativa e criatividade próprias, criaram e desenvolveram objetos diversificados são incentivados pela resposta social no sentido que essas produções sejam exequíveis. Neste âmbito destacam-se: cestos, monumentos em ponto pequeno, bases para a colocação de cartas para os utentes com dificuldade em manter o baralho na mão, casas de cortiça e de palha para presépio, carros alegóricos para o carnaval, etc. Ainda no que respeita às atividades de criação, perceciona-se como mais-valia a ajuda às crianças, pelos idosos, nos processos de criação (nomeadamente em tarefas que as crianças não são capazes de realizar e que implicam alguns riscos, como seja a utilização de cola quente). Por fim, ainda relativamente às atividades individuais, destacamos a atribuição de tarefas relacionadas com o cuidar das plantas existentes no interior/exterior do Centro de Dia, conceção e desenvolvimento da horta, preparação do espaço para receção dos utentes e atualização diária do calendário. Já nas atividades coletivas, a diversidade de opções das mesmas junto do grupo de utentes são, no nosso entender, numerosas. No entanto, destacamos aquelas que avaliamos, após a sua realização, como benéficas, prazenteiras e relevantes para os utilizadores do Centro de Dia em foco do presente artigo. Na continuação das ideias debatidas anterior-

mente, a perspetiva coletiva engloba forçosamente a individualidade de cada utente uma vez que esta é potenciada dentro do grupo. Assim sendo, na promoção de atividades em grupo considera-se o papel específico para cada elemento. Para manutenção da dinâmica do grupo com base na diversidade de atividades, tendo por base os gostos/preferências dos utilizadores, poderá ser concebido um baú de recursos que contemplam possibilidades de dinâmicas variadas para um período, de por exemplo, de um mês. Dentro das várias opções será possível eleger diariamente uma atividade sem recorrer à repetição. Este instrumento de trabalho permite que os idosos possam, também eles, recorrer ao baú de forma autónoma independentemente do incentivo do profissional. No âmbito da dinâmica de grupo, destacamos as atividades intergeracionais entre idosos e crianças de várias idades. Na instituição em análise, este tipo de interação processa-se de forma efetiva, isto é, defende-se que o conceito intergeracional integre uma ligação efetiva entre as diferentes faixas etárias, de modo a colocar e envolver os seus intervenientes. Salientamos que através de atividades manuais foram concebidos objetos que envolveram os grupos de diferentes idades (aventais, painéis, mantas e xailes de histórias) Estes objetos associaram participantes mais velhos do Centro de Dia e crianças de diferentes respostas sociais. Destas destacam-se atividades como a celebração anual do livro infantil, na qual os mais velhos anualmente produzem uma história em vários formatos (diferentes do vulgar livro) de modo a partilhá-lo com as crianças, sobre a forma de música, de conto ensaiado ou outro. As referidas histórias têm por base o reportório já existente nas vivências dos utentes mais velhos, para que sejam simples de recordar e de contar às crianças. No que concerne aos aventais de


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histórias, por exemplo, estes foram colocados por vários utentes, representando várias partes do cenário da história, e de dentro dos bolsos saíram vários objetos que surpreenderam as crianças e animaram o conto. Ainda no âmbito a intergeracionalidade, o exemplo experienciado no Centro de Dia em questão consiste num jogo de perguntas em que as equipas, são constituídas por idosos e crianças, e as questões são dirigidas, estrategicamente, de forma particular a um grupo ou a outro (temas mais dirigidos às crianças, outros aos idosos e outros transversais aos dois grupos) para que os mesmos tenham de se envolver entre si e entreajudar-se para conseguirem responder corretamente, e assim pontuar. Apresentam-se seguidamente outras tipologias de jogos de grupo realizados no Centro e Dia em análise, servindo apenas de exemplo de atividades que podem ser desenvolvidas em regime de Centro de Dia (não obstante todas elas poderem e deverem ser ajustadas/adaptadas às particularidades do grupo de trabalho). Assim sendo, o jogo Carica ao Alvo consiste numa improvisação feita no chão com fita colorida e marcadores permanentes e não sendo mais do que uns conjuntos de quadrados que formam um alvo com características e regras específicas de jogar. Os participantes são distribuídos em torno do alvo e têm em sua posse caricas, rolhas de iogurtes (reciclagem) ou sacos de peso, 6 se for para jogar a solo ou 3 se for para jogar a pares. Devem jogar à vez com o objetivo de alcançar o máximo número de pontos possível, podendo acertar no 100 ao centro, nos cantos extra (cantos que dão direito a uma peça extra 20+, 30+ ou 70+) ou nos espaços em torno, que valem 50, 30, 20 e 10. No fim do lançamento de todas as peças a nível individual ou a pares, o(s) jogador (es) deve (m) proceder à soma dos pontos (os idosos que não conseguem são apoiados pelo grupo para efetuar os cálculos). Este

jogo permite exercitar o cálculo, promover a coordenação de movimentos, trabalhar o controlo da força, promover a interação e acima de tudo descontrair e divertir as pessoas. No jogo apresentado anteriormente foi possível envolver também uma utente invisual, que conseguiu, através de adaptações, participar no jogo com os restantes participantes. Para que fosse possível a utente lançar a peça com o mínimo de orientação, basta que uma pessoa mova um guizo dentro da casa mais ao centro do alvo e a utente, através da forte acuidade sonora que tem, lança a peça na direção do som. Foi igualmente possível também uma utente em cadeira de rodas com limitações físicas (incapacitantes para a coordenação de lançar a peça) mas com muito potencial ao nível do cálculo. Sempre que algum participante apresenta dificuldades ao nível da realização de cálculos é auxiliado pelos participantes ou pelo dinamizador da atividade. No que respeita ao jogo do Bingo começou inicialmente por ser jogado no Centro de Dia de forma clássica, com números, mas através do feedback dos participantes percebeu--se que as pessoas que se iam juntando ao grupo não conheciam os números e tinham muita dificuldade em acompanhar a atividade. Assim sendo, procedeu-se uma adaptação do jogo com imagens significativas, relacionadas com as vivências das pessoas, com a abordagem das cores através de “bandeiras” e dos números através de pontos negros tipo dominó (exemplo: carro de bois, motorizada, mula, cabra, bicicleta quadro de homem e de mulher, agulha e dedal, galo de Barcelos, bandeira de Portugal, galo, galinha,entre outros). No que respeita à construção do jogo na criação dos cartões deverá ter-se em conta a necessidade de os mesmos integrarem imagens grandes, definidas e relativamente fáceis de decifrar. No jogo os utentes encontram-se dispersos no espaço (incentivar as pessoas que precisam de aju-

da a ficarem perto de pessoas mentalmente mais ágeis). Cada um tem um cartão com imagens à sua frente (20 por exemplo), caricas para tapar as imagens que vão saindo e ganha quem tapar o cartão todo com caricas e disser a palavra Bingo. Uma outra versão de jogo poderá associar sons às imagens e estimular também a função auditiva.

Seguidamente, apresentamos o jogo Virá´Lata pois é prazenteiro para a maioria dos idosos do Centro de Dia em questão, no entanto, este jogo na versão em lata torna-se muito ruidoso. Assim sendo, os utentes recrearam-no através da colocação de mangas com retalhos de tecido de forma a forrar as latas, tornando-as mais silenciosas no momento da queda, e formar uma grande “montanha” colorida. Para derrubar as latas foram costuradas bolas de trapos com meias e restos de tecido no interior. O jogo Roleta da Corneta surge da adaptação de uma roleta simples, habitualmente usada nas festas da comunidade e transformada numa roleta colorida com o propósito lúdico de envolver e estimular qualquer pessoa independentemente da idade. Esta roleta consiste num jogo com, por exemplo 5, categorias que são colocadas no tabuleiro à medida que vão sendo escolhidas e jogadas (as categorias podem ser mais variadas, embora para os idosos se opte, por exemplo, por: adivinhas, palavras que dão música (palavras são ditas com o propósito das pessoas pensarem numa música com aquela palavra), cultura geral, provérbios, música falada (pequenos excertos de música são lidos para que as pessoas adivinhem qual a música e por quem é cantada), questões de cultura


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(relacionadas com o distrito e concelho no qual o Centro de Dia está inserido), questões sobre imagens de cidades, monumentos ou personalidades. Para além da componente do jogo a componente lúdica está presente na atividade Bola das Categorias e pode ser realizada com recurso a uma bola leve que é distribuída aos participantes organizados em formato de roda ou em duas filas frente a frente. A atividade realiza-se através de categorias que vão sendo pedidas de forma rápida e enérgica aos participantes. Exemplifica-se as categorias a trazer para o jogo: nome de quem está a passar o objeto, cidades, partes do corpo, peças de roupa, animais, cores, números, nomes femininos, nomes masculinos, nomes de familiares, vizinhos, produtos hortícolas, objetos, frutos, flores, aves, países, meios de transporte, ingredientes de receita culinária, entre outros. A esta dinâmica poderá ser associada música que, ao ser interrompida, indicará ao utente que tem a bola na mão a necessidade de responder à categoria em questão. Em suma, através da panóplia de exemplos apresentados, previamente experienciados no Centro de Dia, podemos observar

que, neste contexto, a simplicidade dos objetos usados e a criatividade dos profissionais permitem o fomento de dinâmicas de ocupação em Centro de Dia.

Considerações finais O Centro de Dia disponibiliza aos seus utentes uma multiplicidade de serviços, que na sua maioria permitem ao individuo a resolução de dificuldades na satisfação das atividades básicas de vida diária (alimentação e cuidados de higiene). A rotina diária dos utentes inclui o período de realização das atividades básicas deixando, no entanto, o utente com tempo livre que requer ocupação. Neste âmbito, a tutela prevê que a resposta social disponibilize aos seus utentes o serviço de convívio/ocupação (Bonfim & Saraiva, 1996). De acordo com autores anteriormente referenciados, as rotinas ocupacionais dos indivíduos mais velhos contribuem para que esta fase da vida seja satisfatória e produtiva. Destacamos, neste âmbito, o papel do Centro de Dia como prestador de serviços de ocupação/animação no mesmo nível de importância de outros serviços como sejam: refeições, cuidados de higiene, tratamento de roupa e férias organi-

zadas. (Bonfim & Saraiva, 1996). Sendo esta temática tão complexa e volátil, partimos da experiência diária salientando as atividades bem-sucedidas resultantes de uma diversidade de outras que não resultaram. Entendemos a planificação, execução e monitorização de atividades de ocupação para idosos em Centro de Dia como uma intervenção exigente e que necessita de um aperfeiçoamento constante por parte do profissional (pessoal e técnico) que as dirige, para além de uma preocupação séria, ao nível da qualidade, por parte da entidade prestadora do serviço. Deste modo, consideramos fundamental uma discussão sobre a temática pelos diversos intervenientes, sejam eles academia, entidades de tutela, instituições de apoio a idosos e profissionais.

Referências bibliográficas 1.

Benet, A. S. (2002). La dinamización sociocultural en los centros de día para mayores. Nuevas perspectivas en el trabajo socioeducativo con personas mayores. Educación social. Revista d’intervención socioeducativa, (22), 97-110.

2.

Bonfim, C. J. & Saraiva, M. E. (1996). Centro de Dia (Condições de localização, instalação e funcionamento). Lisboa: Direção Geral de Acção Social.

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A importância da cidade acessível no processo do envelhecimento ativo Vereador da Câmara Municipal de Vila Real Adriano António Pinto de Sousa

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segunda metade do século XX foi caracterizada por três tendências: a urbanização, a motorização e o envelhecimento demográfico. São inegáveis o poder de atração e o fascínio que as cidades hoje exercem sobre as pessoas. Porque é aí que mais facilmente encontram emprego, é aí que, por norma, o poder de compra é mais elevado, é aí onde reside a mais completa oferta pública de serviços e é aí onde as novidades acontecem primeiro. Em 1900, apenas 10% da população mundial vivia em cidades. Em 2007, essa percentagem já era de cerca de 50%. Entretanto, algumas estimativas apontam já para que, no ano 2030, esse valor atinja os 60% e, em 2050, possa chegar aos 75%. Esta progressiva concentração populacional nas cidades ocorreu, em simultâneo,

com o aumento exponencial da taxa de motorização automóvel, fruto da conjugação de um conjunto de fatores, nomeadamente o da alteração dos estilos de vida das pessoas decorrente das obrigações de natureza profissional, do tipo de vínculo laboral, dos locais de residência cada vez mais afastados do posto de trabalho, do aumento do poder de compra das pessoas, da fraca oferta (em qualidade e em quantidade) de transportes públicos e do facto de teimarmos programar a nossa vida na bitola dos cinco minutos. Tudo isto contribuiu para que se instalasse na sociedade o conceito de “uma pessoa, um carro”. Um bem que para uns é visto como um instrumento de prazer e de status de quem o utiliza, para outros como um instrumento de trabalho, mesmo em movimento, fruto do advento do telemóvel

e, para muitos, como um meio de transporte indispensável para as deslocações quotidianas casa-escola-trabalho-casa. Neste processo de urbanização, o automóvel acabou por ter um papel decisivo na expansão desordenada das cidades em direção às periferias, deixando os seus centros mais antigos entregues ao comércio e aos serviços. A facilidade do acesso ao automóvel, associado ao fenómeno da especulação imobiliária acabou por empurrar muitas famílias para fora dos perímetros urbanos, não obstante terem de continuar a trabalhar e a estudar nos centros das cidades. A cidade outrora compacta e multifuncional, deu origem a uma cidade zonada e dispersa. O resultado foi o do aumento significativo das deslocações pendulares e dos consequentes congestionamentos, mais gravosos nas pontas do início da manhã e do final da tarde. As cidades foram literalmente invadidas pelo automóvel, a ponto de se sentirem impotentes para os acomodar, seja pela insuficiência da sua rede viária, seja pela inexistência de espaço público suficiente para os estacionar, acabando por se transformar em autênticos “armazéns” de carros ao ar livre. Tudo o resto, principalmente a rede pedonal, foi secundarizado, porque era o carro quem mais ordenava. Hoje, são por demais conhecidos os custos sociais, económicos e ambientais resultantes do uso intensivo do automóvel: custos sociais decorrentes do flagelo da sinistralidade rodoviária; custos económicos resultantes do excesso de tempo perdido nos constantes congestionamentos, mais frequentes nas médias e nas grandes cidades; custos ambientais fruto da poluição sonora e atmosférica. É inquestionável que o urbanismo praticado na segunda metade do século XX moldou as cidades à escala motorizada e sacrificou o espaço público e espaço pedonal às exigências de estacionamento automóvel. Mas, mais grave, foi termos deixado que essas alterações urbanas se institucionalizassem e se instalassem na linguagem política e no imaginário comum. As cidades deixaram, assim, de ser espaços de todos e para todos. O automóvel ocupou o espaço que era dele e também o que não era; as barreiras arquitetónicas foram surgindo um pouco por todo o lado; o espaço público, em particular a rede pedonal, degradou-se fruto do desinvestimento na sua melhoria e na sua manutenção. Tudo isto porque os direitos de fruir a cidade na sua plenitude por parte das crianças, dos idosos e das pessoas com mobilidade tem-


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“(...) os idosos saudáveis são um recurso para as respetivas famílias, para as comunidades e para a economia.”

porária ou permanentemente condicionada foram sistematicamente relegados para segundo plano. Porventura atenta ao evoluir desta complexa problemática, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou, em 2007, uma publicação intitulada “Global age-friendly cities: a guide”, ciente de que o século XXI irá ficar marcado por duas tendências globais: uma, relacionada com o facto de haver cada vez mais pessoas a viver em cidades; outra, com o aumento da população idosa, devido ao bem sucedido desenvolvimento humano ocorrido durante o século passado. Por sua vez, a União Europeia decidiu declarar 2012 como Ano Europeu do Envelhecimento Ativo. Foi uma espécie de alerta aos decisores políticos para a necessidade de passarem a dar mais atenção à forma como constroem e gerem as cidades. Fazendo com que sejam mais amigas dos idosos, reforçando assim a ideia subjacente à declaração de Brasília de que “os idosos saudáveis são um recurso para as respetivas famílias, para as comunidades e para a economia”. Os avanços proporcionados pela medicina preventiva e curativa fizeram aumentar a longevidade das pessoas, a ponto dos gerontólogos terem adotado já o termo “quarta idade”, para caracterizar a população idosa com mais de 80 anos. Hoje, há estudos que afirmam ser a Europa o continente onde o envelhecimento adquire maior expressão. Em 2006, a percentagem de população com mais de 60 anos era de 21%, prevendo-se que em 2050 atinja os 34%. Portugal é já apontado como um dos países onde esse fenómeno será mais expressivo no futuro. Daí a necessidade de se dar especial atenção à forma como se tratam e gerem as cidades para que elas possam contribuir, de

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forma efetiva, para o processo de envelhecimento ativo. Na publicação “Global age-friendly cities: a guide”, vêm indicadas oito áreas contributivas para a afirmação da “cidade amiga do idoso”: os espaços exteriores aos edifícios; os transportes; a habitação; a participação social; o respeito e a inclusão social; a participação cívica e o emprego; a comunicação e a informação e, finalmente, o apoio comunitário e os serviços de saúde. A qualidade do envelhecimento ativo dependerá, em grande parte, da articulação das políticas ativas em cada uma destas áreas e, também, de um conjunto de influências ou determinantes de um indivíduo, nomeadamente as suas condições materiais, os fatores sociais e os sentimentos de cada um. Relativamente aos espaços exteriores, os pontos valorizados foram: a limpeza urbana; as praças e os jardins onde os idosos possam parar, descansar e conviver um pouco; passeios com larguras generosas, com piso adequado e em bom estado de conservação; passadeiras dotadas de condições para uma travessia cómoda e segura, devidamente rebaixadas nas zonas de transição para os passeios; edifícios/serviços públicos dotados de meios que permitam uma acessibilidade universal e providos de um tipo de atendimento que seja sensível às necessidades das pessoas idosas. Vemos, pois, o quão importante é termos as cidades providas de espaços acessíveis, convidativos, cómodos e seguros. No caso específico dos idosos, quantos relatam medo de sair à rua devido ao grande movimento de carros, à falta de sinalização, ao tempo insuficiente disponibilizado pelos semáforos para os atravessamentos pedonais, às barreiras arquitetónicas e aos buracos nos

passeios. Tudo isto faz com que eles limitem as suas saídas apenas aos casos de absoluta necessidade (por exemplo, consultas médicas), e assim acabem por, gradualmente, se afastarem das atividades sociais e culturais. Na área dos transportes, valorizou-se a necessidade de salvaguardar os aspetos económicos do transporte público face ao rendimento disponível dos idosos; a importância de se garantirem transportes fiáveis, com frequências adequadas e com uma cobertura espacial que permita ao idoso ter acesso ao maior número de pontos de interesse dentro do perímetro urbano da sua cidade; a indispensabilidade de se garantir a presença em circulação de autocarros confortáveis e ajustados às necessidades dos idosos; a existência de paragens cómodas e seguras, providas de abrigos e de plataformas de paragem para um mais fácil e cómodo acesso da via pública para o autocarro e vice-versa, bem como a necessidade de haver motoristas devidamente sensibilizados para ajudar os que manifestam maiores dificuldades de locomoção. Extrai-se daqui uma conclusão óbvia: uma cidade que ofereça à população idosa, e não só, bons espaços públicos, uma boa rede pedonal e um bom sistema de transportes públicos será certamente uma cidade mais inclusiva e, por via disso, uma cidade promotora do envelhecimento ativo, onde os idosos, não dispondo mais de todas as capacidades e aptidões necessárias a uma condução automóvel segura, possam continuar a dar os seus passeios, a conviver com os amigos, a ir às compras, a levar os netos à escola, a ir ao médico e aos serviços públicos, seja andando a pé ou viajando de transporte público. Temos de caminhar nesse sentido!


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Cuidadores de idosos Um olhar sobre a família cuidadora Assunção Nogueira1 e Zaida Azeredo2 1

Especialista em Enfermagem Comunitária, Doutorada em Educação, Docente na ESSVS, IPSN, IINFACTS CESPU Médica de Medicina Familiar; Doutorada em Saúde Comunitária; Coordenadora da RECI/ Piaget Viseu

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No agregado familiar, geralmente o cuidador principal surge, não porque este se ofereça para tal, mas devido à conjugação de vários fatores, nomeadamente estar no desemprego ou na reforma e ser próximo do idoso com dependência. Cuidar de um doente dependente, no domicílio, cujo estado se agrava a cada dia que passa, ainda que lentamente, não é uma tarefa fácil nem isenta de custos. O cuidador fica propenso a também ficar doente se esta tarefa não for partilhada com outros ou se não sentir deles a compreensão devida.

Ser Cuidador Informal

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Introdução As alterações sociodemográficas e o avançar da ciência permitem que as pessoas vivam mais tempo engrossando e alongando o topo da pirâmide etária. Este fenómeno, propicia, também, o aumento da prevalência de doenças crónico-degenerativas e de incapacidades. Estas, apesar das pessoas viverem mais anos ativas, acabam por surgir embora em idades mais tardias, coincidindo frequentemente com as etapas finais do ciclo vital da família, isto é já na sua fase de dissolução. Estes aspetos e outros levantam, às sociedades envelhecidas e a envelhecer, desafios sociais e de saúde nomeadamente na prestação de cuidados individuais com particular atenção para os idosos, grandes idosos e/ou idosos com incapacidades. Durante todo o ciclo vital a família deve ser o suporte do indivíduo saudável ou doente, porém hoje, pode não ser possível, não só devido às mudanças estruturais na família, mas também pela dispersão geográ-

“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha” (Confúcio)

fica e ocupações dos seus membros, para além da fase do ciclo vital em que surgem as dependências e perdas de autonomia, que aumentam a necessidade de se cuidar na proximidade, havendo muitas vezes nesta condição apenas o conjugue que também é idoso(a). Em algumas situações (exemplo: famílias unitárias) que são cada vez mais frequentes, pode mesmo não haver parentes, havendo apenas solidariedade de vizinhança (quando a há). Quando na comunidade não existem recursos capazes de dar respostas adequadas e eficazes é à família que o idoso tende a recorrer para suporte quer humano quer económico. Porém torna-se cada vez mais difícil à família dar resposta em tempo útil às necessidades dos idosos.

O envelhecimento da população e a longevidade do indivíduo são hoje, sem dúvida, uma das maiores conquistas do Homem. Como já atrás se afirmou tal feito deve-se, entre outros fatores, às melhores condições sócio sanitárias em que se vive. Porém, com o desenvolvimento sociocultural, e, de novas políticas sociais e de saúde, embora se viva mais tempo com saúde também se vive mais tempo em, situação de doença, com incapacidades e dependência de terceiros (sobretudo quando se sofre de doenças crónico-degenerativas e, no fim de vida). À medida que a idade vai avançando as fragilidades vão aparecendo, devidas a alterações anátomo-fisiológicas e/ou psicológicas, entendidas como normais, próprias de um envelhecimento fisiológico. Progressivamente o idoso perde a capacidade de adaptação ao meio ambiente interno e externo, surgindo, com a diminuição da sua homeostasia, uma maior probabilidade de co-existirem processos patológicos, que vão lentamente encaminhando a pessoa, para a perda de autonomia e independência, ou para a institucionalização necessitando, por isso, de uma pessoa para cuidar de si, seja um Cuidador Informal seja um cuidador formal ou ambos (Nogueira, 2012; Oliveira, 2018). O Cuidador Informal é uma pessoa (familiar ou não) que assume o cuidado de outrem, sem, contudo, ter sido preparada para o efeito. É uma pessoa cuja função principal é acompanhar e auxiliar a pessoa a se cuidar quando esta já perdeu capacidades físicas e/ou mentais que não lhe permitam fazê-lo sozinha. Normalmente é um familiar ou alguém muito próximo do ponto de vista relacional, não recebendo, por isso, até ao presente, qualquer remuneração, tendo apenas como recompensa a satisfação do cuidar e por vezes a gratidão da pessoa cuidada. Cuidar do idoso no domicílio acarreta custos físicos, emocionais e sociais para a pessoa, que a médio ou longo prazo po-


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dem desencadear doença no cuidador ou mesmo fadiga/burnout, sobretudo quando o idoso sofre de patologias degenerativas neurológicas com implicações mentais. O Cuidador Informal, apesar de ser uma figura imprescindível na prestação de cuidados ao idoso no domicílio, ainda não vê a sua importância reconhecida pela sociedade e muitas vezes pela própria família. Portugal pela primeira vez aprova na Assembleia da República, a 5 de julho de 2019, por unanimidade, a partir de diferentes diplomas, o Estatuto do Cuidador Informal (Lei 100/ 2019, de 6 de setembro, de 2019), estabelecendo, assim, algum reconhecimento ao cuidador principal. O Estatuto do Cuidador Informal recentemente publicado, tem por objetivo regular os direitos e os deveres do cuidador e da pessoa cuidada, estabelecendo as respetivas medidas de apoio. No seu artigo 2.º do Estatuto do Cuidador (Anexo da Lei) é dada a definição de cuidador principal e cuidador não principal: “Considera-se Cuidador Informal principal o cônjuge ou unido de facto, parente ou afim até ao 4.º grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanha e cuida desta, de forma permanente, que com ela vive em comunhão de habitação e que não aufere qualquer remuneração de atividade profissional ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada. Considera-se Cuidador Informal não principal o cônjuge ou unido de facto, parente ou afim até ao 4.º grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanha e cuida desta de forma regular, mas não permanente, podendo auferir ou não remuneração de atividade profissional ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada” (Anexo da Lei 100/2019 de 6 de setembro, de 2019). O artigo 5.º refere-se ao direito do cuidador afirmando-se entre outras coisas que deve ter direito a: »» “Ser acompanhado e receber formação para o desenvolvimento das suas capacidades e aquisição de competências para a prestação adequada dos cuidados de saúde à pessoa cuidada; »» Receber informação por parte de profissionais das áreas da saúde e da segurança social; »» Aceder a informação que, em articulação com os serviços de saúde, esclareçam a pessoa cuidada e o Cuidador Informal sobre a evolução da doença e todos os apoios a que tem direito; »» Aceder a informação relativa a boas práticas ao nível da capacitação, acompanha-

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mento e aconselhamento dos Cuidadores Informais; Usufruir de apoio psicológico dos serviços de saúde, sempre que necessário, e mesmo após a morte da pessoa cuidada; Beneficiar de períodos de descanso que visem o seu bem-estar e equilíbrio emocional; Beneficiar do subsídio de apoio ao Cuidador Informal principal, nos termos previstos neste Estatuto; Conciliar a prestação de cuidados com a vida profissional, no caso de Cuidador Informal não principal; Beneficiar do regime de trabalhador-estudante, quando frequente um estabelecimento de ensino.”

No artigo 6.º são elencados os deveres do cuidador tais como: »» “Promover a satisfação das necessidades básicas e instrumentais da vida diária, incluindo zelar pelo cumprimento do esquema terapêutico prescrito pela equipa de saúde que acompanha a pessoa cuidada; »» Desenvolver estratégias para promover a autonomia e independência da pessoa cuidada, bem como fomentar a comunicação e a socialização, de forma a manter o interesse da pessoa cuidada; »» Potenciar as condições para o fortalecimento das relações familiares da pessoa cuidada; »» Promover um ambiente seguro, confortável e tranquilo, incentivando períodos de repouso diário da pessoa cuidada, bem como períodos de lazer; »» Assegurar as condições de higiene da pessoa cuidada, incluindo a higiene habitacional; »» Assegurar à pessoa cuidada uma alimentação e hidratação adequadas. No Capí-

tulo III é dada a definição de pessoa cuidada bem como estabelecidos os seus direitos e deveres.” Este estatuto ainda estabelece a possibilidade do cuidador principal receber um subsídio, mediante diligências legais para o efeito. Podemos, pois, afirmar que o Cuidador Informal principal será aquele que desempenha no cuidar o maior número de tarefas e passa mais tempo com a pessoa cuidada enquanto o cuidador não principal (secundário) é aquele que vai ajudando o cuidador principal nas suas tarefas sem, contudo, despender o mesmo tempo a cuidar. No exercício das funções de cuidador principal encontramos numa primeira linha o cônjuge, seguindo-se as filhas, as noras em substituição dos filhos e por último outros familiares ou amigos do doente idoso (Nogueira & Azeredo, 2019), com predominância feminina. O Cuidador Informal é na esmagadora das situações um familiar do idoso, muitas vezes também ele idoso e a necessitar de cuidados de apoio e de saúde. Atualmente com frequência se verifica pessoas com 65 e mais anos a cuidarem dos pais com 90 e mais anos. A proximidade relacional entre cuidador e pessoa cuidada torna-se cada vez mais penosa, à medida que o estado da pessoa cuidada se degrada, obrigando o cuidador a um esforço em crescendo que para além de físico (mais carga física e menos descanso, por menos horas de sono) é também psíquico e emocional. É sobretudo nestas situações que o Cuidador Informal deve ser ajudado. Ao ajudar-se este está-se a contribuir para a prevenção da fadiga/burnout neste, e, em simultâneo, a prevenir incidentes no cuidar da pessoa com incapacidades,


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bem como atos de violência/negligência. No entanto esta prevenção pode-se e deve-se iniciar muito antes, sobretudo quando os profissionais de saúde e sociais conhecem bem a dinâmica familiar por prestarem cuidados sistemáticos a toda a família, estando também atentos às necessidades sentidas do Cuidador Informal. O Estatuto do Cuidador veio dar suporte e visibilidade há muito sentidas pelos cuidadores e observadas pelos profissionais de saúde e que são entre outras a necessidade de informação e formação adequadas ao cuidar, a necessidade de descanso em algumas situações e, o devido acompanhamento por profissionais de saúde e sociais. O Cuidador Informal, para além de cuidador pode ter que desempenhar papeis que outrora eram desempenhados pela pessoa cuidada (para os quais pode não estar preparado, obrigando a um esforço suplementar), bem como ter que gerir conflitos intrafamiliares (previamente existentes ou desencadeados por esta situação) e por vezes ainda cuidar de outras pessoas do agregado (exemplo: netos, filhos, conjugue, entre outros). A acrescer a isto tudo pode ter uma sobrecarga de competências apreendidas com a situação e não previamente aprendidas, que lhe são delegadas e que em outras circunstâncias (como num internamento) seriam feitas por profissionais. Num estudo desenvolvido por Nogueira (2012) foram definidas as seguintes competências a atribuir ao Cuidador Informal, nos seguintes domínios: »» Cognitivo – necessitam saber sobre o processo de doença, quais as atividades de vida diária de que o doente necessita (alimentação, mobilização, eliminação entre outras); »» Psicomotor – sendo estas, competências do apoderamento das habilidades, competências técnicas, deve saber fazer (de como alimentar o doente segundo as suas necessidades, de como promover um ambiente seguro, de como realizar a higiene no leito ou no wc entre outras); »» Relacionais – deve saber relacionar-se com o doente, e outros familiares comunicar sobre as várias formas e respeitar as suas vontades (Nogueira, 2012; Nogueira, 2014), e também saber-se relacionar com os profissionais que cuidam no domicílio. Estes devem dar formação/informação de como proteger a sua saúde e salvaguardar o seu bem-estar evitando chegar à exaustão. Assim, os cuidadores devem estar aptos a

perceber quais as suas capacidades físicas e psicológicas para que possam prestar cuidados (ou como as podem desenvolver e proteger) compartilhando, sempre que possível, tarefas com outros familiares e/ou profissionais estabelecendo com estes uma equipa com tarefas partilhadas. À medida que um doente crónico ou um idoso, se vai degradando e o cuidador vai tomando consciência desse facto, antevendo estados mais problemáticos, e/ou o fim mais ou menos próximo, vai sentindo mais sofrimento, associado a uma angústia e/ou frustração sobretudo se não foram previamente preparados ou não possuírem conhecimentos adequados. A dúvida de não terem feito tudo que estava ao seu alcance persegue muitas vezes estes cuidadores muito para além da morte da pessoa cuidada, ouvindo também censuras de familiares, sobretudo se a família for disfuncional contribuindo então para o desencadear de uma depressão. Os profissionais de saúde que cuidam de toda a família de forma continuada devem estar atentos a esta situação, antecipando de forma preventiva problemas de saúde e familiares que possam daí advir. A relação que o cuidador mantinha com o doente antes da doença, a inversão de papeis que acontece com muita frequência no seio familiar, a responsabilidade de cuidados que raramente é partilhada por outros, aumentam a probabilidade de conflitos intrafamiliares (Paúl, 1997, cit Nogueira, 2012) e o

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risco de desgaste emocional, agravado pelo isolamento social e ocupacional a que o cuidador foi condenado, sobretudo se o cuidar foi longo e em crescendo. O nível de desgaste físico e psicológico, não depende apenas do número de tarefas que tem de cumprir ao longo do dia, mas também do tempo que permanece a cuidar, da privação de sono, do grau e tipo de dependência do doente, do seu estado psicológico e perfil de personalidade, da cultura/literacia, da sua idade, do isolamento social e da solidão que diz sentir na prestação de cuidados. Para além disto depende ainda do suporte que tem de outros familiares, apoios de serviços comunitários e de saúde básicos, assim como o sentir reconhecimento, por parte dos outros, com especial relevo por parte da pessoa cuidada, de que o seu trabalho é importante para o bem-estar e qualidade de vida desta. Cuidar dia após dia sem conhecimentos e sem recursos é uma tarefa muito difícil que tem repercussões na saúde de quem cuida.

Cuidar de quem cuida Para cuidar do familiar cuidador pode ser o suficiente dar-lhe toda a informação de que necessita para bem cuidar do seu doente. Estudos têm demonstrado que ele se preocupa mais com a pessoa que é cuidada negligenciando cuidados a si mesmo. Conforme afirma Collière, cuidar é um ato individual importante no autocuidado, mas é também um ato de reciprocidade para com o outro que temporariamente ou definitivamente tenha necessidade de ajuda nas suas funções vitais (1989, p. 235). Por isso a informação a ser fornecida pelos profissionais ao cuidador principal, e a outros familiares, deve ser simples direcionada para as necessidades da pessoa cuidada tendo em conta as dificuldades e perfil do cuidador, devendo evitar-se erros, ou contrainformações, pois estas são geradoras, e potenciam sentimentos, de revolta e de confusão (Nogueira, 2014). Hileman e colegas (1999) citados por Pereira e Lopes (2002, p. 82), referem como necessidades sentidas e expressas pelos cuidadores ao cuidarem um doente dependente no domicílio: I) ter informações sobre a(s) doença(s) da pessoa cuidada e o seu prognóstico; II) ter informações sobre os recursos que a comunidade dispõe; III) ter informações sobre necessidades físicas do doente (de como preparar uma boa alimentação); IV) satisfazer as necessidades psicológicas e ensinar formas de manter o doente tranquilo; V) ter informações sobre os efeitos da medicação; VI) conhecer formas de ser


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mais tolerante com o doente e manter a manutenção da vida familiar; VII) de aprender estratégias que lhe permitam lidar com medos e superar a fadiga.

Nota final Cuidar de quem cuida é fundamental pois o Homem é um ser social que dificilmente consegue sobreviver sozinho. O Cuidador Informal representa para o doente o seu maior (senão mesmo o único) suporte, sendo também um importante recurso para os serviços de saúde, havendo, por isso também um interesse social, político e económico. O familiar cuidador, geralmente emerge de entre as pessoas mais próximas do idoso a ser cuidado, quer sob o ponto de vista relacional quer sob o ponto de vista geográfico, tornando-se cuidador principal sem que o deseje ser. Por isso há necessidade de promover a sua motivação, se possível pela positiva, isto é, pela recompensa e não pela obrigação de cuidar. É importante também fazer um trabalho junto de outros familiares, para que estes reconheçam o papel do cuidador principal. Sempre que possível, as suas dificuldades devem ser aplanadas serem atendidas, para que possa prestar cuidados com qualidade, garantindo a sua segurança e a do doente, mas ao mesmo tempo preservando o seu bem-estar de forma a que o cuidar conduza ao conforto da pessoa cuidada e à recompensa no cuidador

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Doenças oculares da idade Oftalmologista. Antigo Diretor do Serviço de Oftalmologia do Hospital Pedro Hispano

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partir de uma fase mais ou menos precoce da vida têm lugar dois processos que se acentuam progressivamente à medida que o tempo passa. Por um lado, em alguns tecidos, de que o sistema nervoso central é um exemplo, as células deixam de se dividir, o que significa que uma perda de células desses tecidos será irrecuperável. Por outro lado, a divisão celular e os processos metabólicos alteram-se, seja por deficiente velocidade ou por funcionamento alterado. A associação das consequências dos dois mecanismos referidos leva a alterações, de importância variável com os tecidos, que se traduzem pelo que genericamente se chama de envelhecimento. O olho não está isento dessas perturbações e a complexidade da estrutura ocular faz com que elas se possam manifestar de diferentes maneiras (Figura 1). Acresce ainda que a sua exposição ao meio ambiente o tornam susceptível a agressões externas, com especial relevo para a luz, em especial a luz azul e a ultravioleta (invisível).

José Guilherme Monteiro

Uma alteração frequente com o aumento da idade é a diminuição da secreção lacrimal ou a perda de qualidade das lágrimas, o que leva à perturbação ou mesmo perda da lubrificação da superfície do olho. Em consequência, podem aparecer vários qua-

Figura 1.

dros clínicos conhecidos pelo nome genérico de “doenças da superfície ocular” que se na maior parte dos casos não são graves podem, pelo contrário, ser extremamente desagradáveis para o doente e permitir o aparecimento ou agravamento de situações mais complicadas. Também a patologia tumoral aumenta de frequência, particularmente ao nível das pálpebras, podendo as lesões pré-neoplásicas evoluírem mais ou menos rapidamente para verdadeiros tumores que exigem actuação cirúrgica. De todas as perturbações oculares da idade a mais frequente é, sem qualquer dúvida, a catarata, que não é mais do que a perda de transparência do cristalino. O cristalino é uma estrutura intra-ocular com características de uma lente e cujo papel é focar as imagens exteriores na retina. Assim,


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a perda da sua transparência irá degradar a qualidade da imagem formada e consequente perda da qualidade da visão. Mas apesar das perturbações que a catarata acarreta para os doentes, esta patologia pode ser tratada por métodos cirúrgicos e os resultados funcionais da cirurgia permitem uma recuperação visual e um resultado que, cada vez mais, se aproxima da situação existente antes do aparecimento da catarata. Ao contrário da catarata, outras patologias têm uma evolução e resposta ao tratamento menos favorável, embora os progressos verificados nos últimos anos tenham permitido melhorar os resultados obtidos. Três patologias assumem particular importância pela sua frequência – a retinopatia diabética, a degenerescência macular relacionada com a idade e o Glaucoma. São doenças crónicas, cuja frequência aumenta com a idade e em relação às quais o tratamento ainda está longe de poder ser considerado óptimo. Mais ainda, a sua frequência tem aumentado a nível mundial e também em Portugal, mercê do aumento da esperança de vida, do regime alimentar actual e das modificações do estilo de vida. Na forma do adulto, a que aqui nos interessa, a diabetes já foi classificada como uma doença da civilização e em grande parte consequência de uma vida sedentária e de uma alimentação rica em elementos nutritivos. A retinopatia diabética é uma das suas complicações. Na forma de diabetes do adulto a retinopatia surge alguns anos após o aparecimento da diabetes, tanto mais precocemente quanto maior o valor da glicemia (concentração de açúcar no sangue) e maior a oscilação dessa glicemia. Pode assumir duas formas, que se combinam em maior ou menor grau – a forma proliferativa, que se caracteriza pelo aparecimento na superfície da retina de um tecido aparentado com o tecido cicatricial, e o edema macular (acumulação de líquido na mácula, a área da retina responsável pela visão de pormenor). A gravidade das duas formas de retinopatia é diferente, mas de uma forma simplificada pode dizer-se que ambas levam em maior ou menor grau a uma perda generalizada da visão. A forma proliferativa permite durante algum tempo manter a visão, mas é responsável por complicações graves, como o descolamento da retina. Pelo contrário, o edema macular leva a uma redução precoce da visão. O tratamento actual, para além do controlo da glicemia, depende da situação particular de cada caso, mas assenta na utilização de injecções de fármacos no interior do olho e/ou na fotocoagulação pelo laser de árgon e/ou na cirurgia do vítreo.

A degenerescência macular relacionada com a idade é, como o seu nome indica, uma patologia da mácula cuja frequência aumenta com a idade. A forma de maculopatia da idade simples pode não ter sintomatologia durante algum tempo, mas é um factor de risco para a evolução para formas mais graves. Na forma seca, a mais frequente, a evolução e perda visual podem ser lentas, mas a forma húmida leva precocemente a alteração visual e a sua evolução pode ser muito rápida. De início o doente pode notar distorção da imagem (mais evidente nas linhas) ou perda de continuidade.

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Com o evoluir da doença estas alterações intensificam-se e podem aparecer perdas visuais localizadas (escotomas). Como consequência, a visão central diminui, tornando-se a área central menos clara e precisa e com o decorrer do tempo acaba por se chegar a uma situação de perda da visão central. A amplitude desta área de perda visual aumenta ao longo do tempo, mantendo-se no entanto a visão periférica relativamente conservada. Como consequência, o doente fica limitado nas actividades que impliquem a utilização da visão central, tais como ler ou ver televisão, mas por a visão periférica se manter a sua capacidade de movimentação e orientação são relativamente conservadas. Dada a rapidez da evolução da forma húmida, é importante a vigilância dos doentes e o diagnóstico precoce, tanto mais que o tratamento das formas iniciais da doença permite obter melhores resultados. A terceira patologia a considerar é o Glaucoma. É uma doença crónica, mais comum após os quarenta anos, cuja frequência aumenta com a idade e que numa parte dos casos tem características hereditárias.

O principal factor de risco (mas não o único) é a existência de pressão intra-ocular aumentada. Esta doença leva à perda irreversível da visão lateral e com o seu agravamento o campo visual fica progressivamente mais apertado, acabando o doente por ficar só com a visão central, na forma extrema designada por “visão tubular”. No adulto o aumento da pressão intra-ocular pode resultar de uma diminuição do espaço por onde se faz o escoamento do humor aquoso (líquido que preenche parte do olho e que permite manter a sua forma), o chamado Glaucoma de ângulo fechado. Neste caso o aumento da pressão pode ser extremamente rápido (embora haja formas de evolução intermitente), traduzindo-se por dor, halos à volta das luzes e perda visual. É um quadro verdadeiramente urgente e que exige tratamento imediato. Mais frequente é o Glaucoma de ângulo aberto no qual a observação não revela de início alteração das estruturas. Um aspecto preocupante deste último quadro é a sua evolução lenta, em consequência da qual o doente só tardiamente se apercebe do problema, quando a visão central é atingida. Por este motivo não é de admirar que uma percentagem elevada de doentes desconheça a sua situação e o diagnóstico só seja feito numa consulta de rotina ou num rastreio. Assim, a vigilância periódica é fundamental para que o diagnóstico e tratamento precoces sejam possíveis e se possam limitar as consequências do Glaucoma. Sendo as alterações irreversíveis, o tratamento destina-se não a curar a doença ou a recuperar o já perdido, mas antes a parar ou pelo menos reduzir a velocidade de progressão da perda visual. O tratamento do Glaucoma de ângulo fechado é feito com o laser ou por cirurgia, para permitir o restabelecimento de uma via de escoamento. No caso do Glaucoma de ângulo aberto o tratamento actual destinase a reduzir a pressão ocular. Inicia-se com o uso de gotas, de uma ou mais composições, e pode também ser usado o laser, mas se o tratamento não for eficaz a alternativa será a cirurgia. Em resumo, temos diferentes patologias que têm em comum o aparecimento geralmente tardio, uma evolução progressiva que se não for tratada a tempo acaba por conduzir a perda visual acentuada ou mesmo à cegueira. Em consequência, é fundamental a vigilância periódica para que se possa instituir precocemente o tratamento adequado. Texto escrito de acordo com a antiga ortografia.


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O que necessita saber sobre Glaucoma na idade adulta © freepik

Médica Oftalmologista. Clinivis e Centro Hospitalar Universitário do Porto Maria João Menéres

O Glaucoma é uma doença ocular considerada, a nível mundial, a primeira causa de cegueira irreversível. É, por isso, rotulada de o “ladrão silencioso da visão”. Na verdade, esta patologia pode estar presente desde o nascimento e pode ou não estar associado a outras doenças oculares ou sistémicas. Neste artigo debruçarmo-nos sobre os tipos de Glaucoma mais frequentes na idade adulta, tendo em conta que o mais frequente de todos é o Glaucoma primário de ângulo aberto.

O que é o Glaucoma? O Glaucoma é uma doença caracterizada por uma deterioração progressiva e lenta do campo visual, podendo culminar em cegueira. No caso de estarmos perante um Glaucoma, o nervo ótico responsável por levar a informação visual ao cérebro, local onde é processada, encontra-se lesado. Assim, à medida que a doença evolui, as células deste nervo vão morrendo e não têm capacidade para se regenerarem. Muitas vezes este processo de deterioração é tão lento que quando as pessoas se apercebem que estão a ver mal, as lesões são irreversíveis.

O que é o campo visual? Considera-se o campo visual aquilo que o nosso olho pode ver quando fixamos o olhar num ponto fixo, vemos o ponto onde fixamos a visão e tudo o que está à sua volta (perifericamente ao ponto fixo). Por exemplo, quando conduzimos, temos de fixar o olhar em frente e, ao mesmo tempo, temos que estar a ver o que se passa na berma da estrada, não vá um peão começar a atravessar, ou surgir uma bola, ou um

animal... o simples ato de descer um degrau, num indivíduo com uma alteração marcada no seu campo visual, pode ter consequências nefastas, como uma queda, com todas as consequências que daí podem advir. Na prática, o leitor se quiser testar uma alteração grave no seu campo visual deve colocar as suas mãos em “binóculo” em frente aos seus olhos e vai perceber quão limitado fica o seu ângulo de visão. Por último, importa salientar que a evolução natural da doença sem tratamento ou com diagnóstico tardio, se converte em cegueira.

Como evitar ou minimizar todos estes problemas? A consulta de Oftalmologia, com vigilância regular, é absolutamente necessária, pois no que se refere especificamente ao Glaucoma, a observação da visão em cada um dos olhos, a medição da pressão intraocular, a observação do nervo ótico, bem como a determinação da espessura da córnea são absolutamente essenciais. Uma grande maioria dos vários tipos de Glaucoma cursa com elevação da pressão intraocular. No entanto, há Glaucoma de pressão normal, em que os valores medidos se encontram dentro dos parâmetros de normalidade (entre 10 mmHg a 21 mmHg), mas o nervo ótico encontra-se alterado. Neste caso, só a observação do nervo ótico por um(a) oftalmologista, em conjugação com exames auxiliares de diagnóstico, pode fazer o correto diagnóstico, que levará ao seu posterior tratamento. A partir dos 40 anos, ainda que não apresente outras doenças oculares, é aconselhá-


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vel ir a uma consulta de Oftalmologia uma vez por ano. É ainda necessário ter particular atenção a fatores de risco para Glaucoma, sendo que os de maior relevo são: a existência de familiares com diagnóstico de Glaucoma, ter miopia elevada, ser de raça negra, ser diabético e tomar regularmente medicação como os corticoides. Para além disto, há também que ter alguma atenção com certo tipo de medicação, como os antidepressivos, os anti-histamínicos usados de forma crónica, os broncodilatadores usados em doenças como a asma e alguns medicamentos usados na prevenção e tratamento da enxaqueca. Isto porque em pessoas com predisposição anatómica para ângulo estreito, estes são fatores que podem precipitar este tipo de Glaucoma, que pode apresentar-se de uma forma crónica ou aguda. Daí a necessidade de uma observação regular pela especialidade de oftalmologia.

Uma vez estabelecido o diagnóstico de Glaucoma, o que esperar e o que fazer? Antes de responder a esta questão, gostaria de diferenciar hipertensão ocular de Glaucoma. Na grande maioria das vezes, o Glaucoma encontra-se associado a um aumento da pressão intraocular num ou em ambos os olhos. Muitas vezes, o Glaucoma é assimétrico entre os dois olhos, ou seja, está mais evoluído num dos olhos. Para o diagnóstico de Glaucoma, e como já foi referido, é necessário que se verifiquem alterações do nervo ótico, com diminuição das suas células que não voltam a regenerar-se e, consequente, alteração mais ou menos grave do campo visual. Na hipertensão ocular, como o próprio nome indica, a pressão intraocular encontra-se elevada, mas o nervo ótico, bem como o campo visual não apresentam alterações. No entanto, nesta situação, é muito importante o controlo da pressão intraocular e a vigilância em consulta de Oftalmologia, uma vez que alguns casos podem evoluir para Glaucoma, daí a necessidade de monitorização e uso de medicação antiglaucomatosa. Uma vez estabelecido o diagnóstico de Glaucoma, é muito importante a consciencialização de que é uma doença para a vida, que exige vigilância regular por a especialidade de oftalmologia, medicação e eventual cirurgia. Para o controlo da pressão intraocular usam-se medicamentos, sob a forma de colírios, vulgarmente chamadas de “gotas”. Existem vários tipos de colírios, cada um com as suas características, cuja meta é baixar a pressão intraocular e tentar evi-

Figura 1. Fiável com alterações.

Figura 2. Fiável sem alterações.

tar a progressão da doença. O doente tem de colocar diariamente as “gotas”, mesmo que não sinta nenhuma dificuldade visual. Algumas devem ser aplicadas duas vezes por dia, outras devem ser aplicadas só à noite ou só de manhã. É frequente o doente com Glaucoma necessitar de colocar mais do que um tipo de “gotas”, mais do que um frasco ou monodose. Como outros medicamentos, estes também podem apresentar efeitos secundários, alguns dos quais são visíveis para o doente e, por isso, devem estar alertados para este facto. Algumas vezes, os doentes, na fase inicial da sua doença, não se queixam da doença, mas sim dos efeitos locais da medicação. Exemplificando, entre outros sintomas e sinais podem sentir os olhos mais secos, lacrimejo, olhos vermelhos, crescimento das pestanas e hiperpigmentação da pele ao redor do olho. No entanto, o doente deve cumprir a medicação e, em estreita parceria com o seu médico(a), deve ser encontrada a medicação mais adequada para si, minimizando os efeitos secundários. Cada doente deve ter a pressão intraocular mais adequada para o seu caso, ou seja, uns necessitarão de pressões intraoculares mais baixas do que outros, para evitar a progressão da sua doença. No caso da medicação em “gotas” não ser suficiente para o controlo da doença, ou se esta continuar a progredir ou, ainda, se o doente for intolerante à medicação, pode haver necessidade de ponderar proceder-se à cirurgia de Glaucoma. A cirurgia de Glaucoma tem como objetivo o controle da pressão intraocular e não a melhoria das alterações visuais que já ocorreram, pois, as lesões que já existem

não são passíveis de ser corrigidas. Com a cirurgia, pretende-se controlar a pressão intraocular e evitar a progressão da doença. Mesmo com cirurgia, pode ser necessário o uso concomitante de colírios para o controle da pressão intraocular. Existem várias técnicas cirúrgicas que o(a) oftalmologista tem ao seu dispor, e irá propor a que mais se adequar a cada caso e a cada tipo de Glaucoma que lhe seja apresentado. É de salientar que pode haver a necessidade de ser feita mais do que uma intervenção cirúrgica para controlo da doença. Para além da observação oftalmológica, do tratamento médico e/ou cirúrgico, o doente deve fazer, com regularidade, exames complementares de diagnóstico para seguimento e monitorização do seu Glaucoma. É necessário saber a espessura da sua córnea e realizar regularmente os exames de campos visuais, bem como a medição da camada de fibras nervosas. Estes exames não são dolorosos e permitem determinar se a doença se encontra estável e controlada ou se, por outro lado, são necessárias medidas adicionais para o controle da mesma. Gostaria de terminar deixando a mensagem de que o Glaucoma pode ser uma doença devastadora e incapacitante, uma vez que conduz à perda de visão. No entanto, um diagnóstico atempado e um tratamento adequado podem fazer toda a diferença. Com os procedimentos corretos, um doente com Glaucoma pode ter uma visão sem ou com poucas consequências nas suas atividades diárias. Por isso, valorize a sua saúde ocular, mantendo regularidade na sua observação pelo Oftalmologista.


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Retinopatia Diabética Lilianne Duarte Prof. Doutora e Médica Oftalmologista. Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (Stª Maria da Feira), Lenitudes (Stª Maria da Feira), Hospital da Luz (Porto e Póvoa de Varzim), LD- Clínica Oftalmológica Prof. Drª Lilianne Duarte e Clinica Oftaldent (Vila Nova de Famalicão)

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Diabetes tem vindo a aumentar de forma exponencial nos últimos anos tendo sido considerada como um problema epidémico por parte da Organização Mundial da Saúde. Desde 1980 quadruplicou para mais de 425 milhões de adultos diabéticos a nível mundial e estimase em 2045 um aumento para cerca de 630 milhões. A Retinopatia Diabética é a causa mais frequente de perda visual irreversível na população adulta entre os 20-74 anos de idade nos países industrializados. Cerca de 93 milhões de pessoas no mundo sofrem de Retinopatia Diabética, e 1 em cada 3 pessoas com Diabetes vão desenvolver Retinopatia Diabética ao longo da vida. O aumento do número de doentes diabéticos e em idades cada vez mais precoces leva a um risco acrescido das complicações da doença. O risco de aparecimento e agravamento das complicações da diabetes aumenta com a duração da doença. Com o aumento

da sobrevida das populações para idades avançadas, aumenta a probabilidade de estadios mais avançados da retinopatia em idades mais avançadas. Em Portugal existem cerca de 250 mil diabéticos com Retinopatia; 25 mil têm perda visual mais ou menos grave devido á doença. Cerca de 3 mil diabéticos por ano ficam com uma acuidade visual igual ou inferior a 10%. A Retinopatia Diabética caracteriza-se pela lesão vascular (das veias e artérias) responsáveis pelo aporte de nutrientes e bom funcionamento da retina, a parte do olho responsável pela visão. Se não diagnosticada e tratada atempadamente leva à perda irreversível da visão e cegueira.

“Em Portugal existem cerca de 250 mil diabéticos com Retinopatia; (..) Cerca de 3 mil diabéticos por ano ficam com uma acuidade visual igual ou inferior a 10%.”

Os principais fatores de risco para o início da retinopatia são o tempo de duração e tipo de Diabetes, o mau controlo metabólico e o mau controlo da pressão arterial. Com o avançar da idade aumenta a morbilidade das pessoas, frequentemente associando ao diagnóstico de Diabetes também a hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol elevado), patologias cardíacas, fragilidade vascular. Tal comorbilidade faz com que as pessoas com idade mais avançada estejam muito mais facilmente suscetíveis ao aparecimento das complicações da diabetes e Retinopatia Diabética, mesmo numa doença ligeira a moderada. Há dois grandes tipos de Diabetes, a tipo 1 e a tipo 2. A tipo 1 surge em idades mais precoces, enquanto a tipo 2, que abrange a grande maioria dos diabéticos surge mais tardiamente na vida. A diabetes tipo 2 está mais relacionada com hábitos alimentares, sedentários e patologias sistémicas associadas, muito frequentemente descurados nas idades mais avançadas. A Retinopatia Diabética manifesta-se por lesão progressiva dos vasos podendo levar à oclusão dos mesmos impedindo a irrigação de zonas da retina (isquémia) resultando na perda funcional e morte das células. Por vezes na tentativa de compensar essa isquémia crescem novos vasos, mas anómalos com elevado risco de provocar hemorragias dentro do olho causando uma perda súbita da visão. A causa mais frequente de perda irreversível da visão quando não tratada atempadamente é o Edema Macular, que consiste na acumulação de líquido, hemorragias e exsudatos intraretinianos na parte central da retina, a mácula (zona mais importante para a nossa visão diária e de pormenor). A deteção das lesões de Retinopatia Diabética, a sua classificação por graus de severidade da doença – de ligeira, moderada, grave e proliferativa – com ou sem edema macular,


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deve ser orientada correta e atempadamente para o tratamento adequado para evitar a perda progressiva da acuidade visual. Os doentes com Diabetes tipo 1 têm maior propensão para desenvolver lesões de Retinopatia Diabética periféricas levando ao risco de evolução da doença para estadios muito avançados antes de surgir a sintomatologia de perda de visão por alterações na mácula. Pertencem ao grupo com maior risco de desenvolvimento mais precoce da doença no olho, necessitam de uma vigilância precoce e apertada. Os doentes com Diabetes tipo 2, têm mais propensão para o atingimento macular precoce sendo a baixa da acuidade visual dos primeiros sintomas da doença. No entanto estes doentes frequentemente já são diabéticos há vários anos antes que seja feito o diagnóstico da doença por falta de controlo regular com o médico de família, podendo já apresentar retinopatia à data do diagnóstico. A Diabetes ocular pode ter um impacto muito importante do ponto de vista socioeconómico. Sendo a causa principal de perda visual em idades adultas ativas ou produtivas, afeta a qualidade de vida dos doentes diabéticos afetados e a de seus familiares. Com a perda da visão, a capacidade de trabalho fica grandemente limitada com perda laboral ou reformas antecipadas; há um aumento progressivo e proporcional à severidade da perda visual da dependência de terceiros até para tarefas básicas. Sendo uma doença crónica, muitas vezes com necessidade de tratamento e consultas regulares, cuja frequência e complexidade aumenta com a severidade da doença, o custo para o SNS ou para o próprio, para os familiares com as deslocações e faltas ao trabalho, pode tornar-se exorbitante. Quanto mais avançada a idade, a essas implicações devido á diabetes e Retinopatia Diabética, acrescem as provocadas pelas patologias associadas e limitações expectáveis devido à idade. As implicações socioafetivas são evidentes nessas situações. O primeiro passo na prevenção da Retinopatia Diabética passa pelo diagnóstico precoce da Diabetes, início do tratamento adequado com bom controlo metabólico, bom cumprimento por parte do doente e adoção de hábitos de vida adequados. Um controlo glicémico intensivo pela dieta e medicação pode prevenir o aparecimento da Retinopatia Diabética em 76% dos casos e diminuir o risco de progressão em 54% dos casos nos doentes tratados com insulina. O papel do Médico de Família, Médico assisten-

Figura 1. Retina Normal sem lesões de Retinopatia Diabética.

Figura 2. Retinopatia Diabética com edema macular.

temente é necessária a realização de outros exames complementares como a Angiografia da retina com injeção de um produto de contraste, a fluoresceína, que permite avaliar a forma como se faz a circulação na retina e detetar anomalias da mesma; ou da tomografia ótica de coerência que permite detetar alterações da mácula como a presença de edema, por exemplo. O tratamento da Retinopatia Diabética começa sempre pela colaboração com o médico diabetologista para um bom controlo da Diabetes e outras doenças sistémicas associadas, como a hipertensão arterial, dislipidemia, obesidade e outras. A nível ocular estão disponíveis várias opções de tratamento diferentes com indicação e aplicações diferentes, muitas vezes complementares entre si. A fotocoagulação com laser é o tratamento disponível há mais tempo para a Retinopatia Diabética. Pode estabilizar a acuidade visual, mas poucas vezes a melhora pelo que deve ser iniciada antes que haja perda acentuada da visão. É também frequentemente utilizada para prevenir as complicações da Retinopatia Diabética que afetam a periferia da retina ou graves, com risco de hemorragia intraretiniana ou glaucomas neovasculares. As injeções intraoculares de medicamentos antiangiogénicos ou de corticosteroides existe desde 2004, é simples e segura quando executada por cirurgiões experientes e no bloco operatório com todas as condições de assepsia. Permite preservar ou melhorar a acuidade visual num número considerável de casos. A indicação principal para a utilização do tratamento intravitreo é o edema macular central associado a baixa da acuidade visual.

Conclusão Figura 3. Retinopatia proliferativa grave com Hemorragia intravitrea.

te, Diabetologista ou Endocrinologista é fundamental nesta fase e seguintes. Como a Retinopatia Diabética é na maioria das vezes assintomática no estadios iniciais, é essencial que se faça uma vigilância oftalmológica regular para uma deteção precoce da doença de forma a se poder evitar a evolução para estadios graves. O diagnóstico da Retinopatia Diabética é feito pela observação da retina central e periférica, seja por retinografias ou por observação direta feita pelo Oftalmologista. Frequen-

O risco de agravamento e complicações da diabetes ocular aumenta nas idades mais avançadas pela maior duração da Diabetes e por muito frequentemente estarem associadas outras doenças como a hipertensão arterial, dislipidemia e outras que agem como fatores de risco acrescido de progressão da doença. O diagnóstico precoce e o controlo da Diabetes e outros fatores pelo Diabetologista, a referenciação regular (anual) para a Oftalmologia, e o tratamento ocular adequado e atempado com laser e/ou injeções intra-vitreas, podem reduzir a perda visual grave até 90% e diminuir os casos de cegueira legal por Retinopatia Diabética grave/muito grave de 50% para 5%. O impacto positivo na qualidade de vida e custos económicos é indubitável.


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A Catarata em 2020 José Salgado-Borges, Filipe Esteves e Pedro Coelho Médicos Oftalmologistas da Clínica Oftalmológica J. Salgado Borges (Porto), Grupo Trofa Saúde e Lenitudes (S. M. Feira)

Definição e diagnóstico Segundo o relatório da OMS, cerca de mil milhões de pessoas têm uma deficiência visual que poderia ter sido prevenida ou que atualmente ainda é tratável. Um dos principais exemplos é a catarata, problema que afeta cerca de 300 milhões de pessoas e responsável ainda por cerca de 50% dos casos de cegueira a nível mundial. Estima-se que em Portugal existam mais de 300 000 pessoas com sinais de catarata, principalmente na população idosa. O seu tratamento é realizado através de cirurgia. A catarata trata-se de uma opacidade parcial ou total do cristalino, lente natural do olho localizada imediatamente atrás da pupila. Este em condições normais é transparente o que permite a passagem dos raios luminosos e a sua focagem na retina, obtendo-se dessa forma uma imagem nítida. Com a perda da transparência do cristalino ocorre inicialmente uma diminuição da qualidade visual e posteriormente a diminuição da qualidade e quantidade de visão. Existem diversas causas que podem originar uma catarata, das quais a principal está re-

lacionada com o processo fisiológico de envelhecimento do cristalino, razão pela qual a sua prevalência aumenta com a idade, resultando na denominada catarata senil. É frequente a maioria das pessoas com mais de 60 anos apresentarem algum grau de catarata. Outras causas menos frequentes de cataratas são, por exemplo, os traumatismos, a utilização prolongada decorticosteróides, doenças como a diabetes, anomalias congénitas do desenvolvimento do cristalino. Os doentes míopes poderão apresentar catarata mais precocemente. A suspeita de catarata pode ser facilmente identificada com um oftalmoscópio manual. O

Figura 1. Catarata nuclear senil.

reflexo vermelho do fundo ocular aparece opaco, extinto ou sombreado em doentes com catarata. Para a sua correta identificação e caracterização é necessário o recurso ao exame com lâmpada de fenda ou biomicroscópio. Consoante a área do cristalino opacificada podemos adotar uma classificação anatómica, sendo a catarata designada como cortical, nuclear, cortico-nuclear, subcapsular ou total. Existem diversas escalas de classificação do tipo de catarata, a mais conhecida das quais é a escala Lens Opacity Classification System (LOCS III) (Figura 1). São vários os sintomas e dependem do tipo e grau de opacidade do cristalino. É frequente a visão à distância ficar enevoada, com diminuição do contraste entre objetos e cores. Segue-se uma perda progressiva da acuidade visual que pode ser rápida (alguns meses) ou evoluir lentamente ao longo de alguns anos (Figura 2).

Figura 2. A) Visão Normal e B) Visão com Catarata.


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Outros sintomas menos frequentes são o deslumbramento, alteração da visão das cores, má visão noturna, dificuldade na leitura, necessidade de mudar frequentemente de óculos ou visão dupla com apenas um olho aberto.

Tratamento e prevenção O tratamento da catarata é sempre cirúrgico, não existindo atualmente qualquer tratamento médico que seja eficaz para impedir o seu desenvolvimento ou cura. Quanto à prevenção, a exposição à luz ultravioleta e o tabaco têm sido associados à formação acelerada de cataratas. É assim razoável aconselhar os doentes a reduzirem a sua exposição à luz solar sem uma proteção adequada à luz ultravioleta; esta proteção é ainda mais importante após a realização da cirurgia de catarata em que foi removido o filtro natural mais importante das referidas radiações “o Cristalino”. Também o deixar de fumar deverá ser recomendado, tanto mais que o tabaco está também relacionado com o aumento de risco de perda de visão associada com a degenerescência macular relacionada com a idade. As cataratas incipientes não justificam a realização de cirurgia. Ela apenas está formalmente indicada quando a perda da visão é importante ou surjam sintomas que interfiram significativamente com a atividade diária habitual, tal como a condução ou a leitura. A técnica moderna mais utilizada atualmente é a facoemulsificação do cristalino, que permite uma rápida recuperação visual. Consiste na realização de uma pequena incisão (aproximadamente 2 mm) e, mediante o uso de um instrumento denominado facoemulsificador que emite ultrassons através de uma ponta de titânio, a catarata é fragmentada e aspirada. Posteriormente, introduz-se uma lente intraocular com um injetor, não

Figura 3. Facoemulsificação do Cristalino.

Figura 4. Lente multifocal.

Figura 5. Cirurgia de catarata.

induzindo astigmatismo ou distorção da córnea (Figura 3). É atualmente possível, através da realização da cirurgia de catarata, corrigir elevados erros refrativos preexistentes, nomeadamente astigmatismos superiores a 2 dioptrias, com o recurso a lentes intraoculares tóricas, o que reduz significativamente a dependência de óculos. Em casos selecionados, a mais recente tecnologia de lentes intraoculares (lentes multifocais) permite ao doente obter boas acuidades visuais ao longe, a meia distância e ao perto (Figura 4). Uma vez implantada a lente considera-se terminada a cirurgia, sem ser necessário sutura, nem mesmo, na maioria dos casos, internamento. Em regra, o doente pode retomar a sua atividade normal poucos dias após a realização da intervenção cirúrgica. A cirurgia da catarata é hoje em dia uma um procedimento com elevados níveis de segurança, uma alta taxa de sucesso alta e praticamente indolor. Contudo, tal como em qualquer cirurgia, existem riscos, nomeadamente de infeção e/ou inflamação pós-cirúrgica, embora estes riscos sejam escassos devido à técnica atualmente utilizada, aos aparelhos e à medicação administrada, bem como aos cuidados de assepsia protocolados antes, durante e após a cirurgia (Figura 5). A cirurgia da catarata é então nos dias de hoje um procedimento cada vez mais personalizado. Com a tecnologia de diagnóstico disponível, os instrumentos cirúrgicos altamente precisos e com a diversidade e qualidade das lentes intraoculares, o cirurgião experiente, após uma avaliação cuidadosa das suas espectativas e necessidades pode não só restituir a visão ao doente como também permitir-lhe um maior rendimento e obviamente um maior grau de satisfação. Em Portugal o nível com que hoje se realiza a cirurgia da catarata é elevado, semelhante ao efetuado em qualquer outro país do Mundo, podendo o médico oftalmologista proporcionar estas técnicas à grande maioria dos seus doentes.

Em conclusão, a catarata é uma importante causa reversível de cegueira e a cirurgia não visa apenas restituir a visão devendo ser encarada como um verdadeiro procedimento refrativo, já que é possível que o doente operado fique a ver bem e com uma qualidade ótica excelente.

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As pálpebras e a idade Sandra Prazeres Responsável pelo Departamento de Oculoplástica e Órbita do Serviço de Oftalmologia Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia / Espinho e Lenitudes Centro Médico Avançado

A

s pálpebras são as principais estruturas responsáveis pela proteção dos olhos. As doenças relacionadas com as pálpebras devem ser tratadas por um Oftalmologista especializado em Oculoplástica que conhece bem a anatomia periocular e todas as implicações das doenças palpebrais nos olhos. Para além das cirurgias reconstrutivas das mal posições palpebrais, o Oftalmologista especializado em Oculoplástica é recomendado para cirurgia palpebral estética de forma a aliar um bom resultado estético à função. Os olhos têm um papel fundamental na aparência da face, comunicando os nossos sentimentos e emoções através das pálpebras. Com o passar dos anos, as pálpebras superiores e/ou inferiores ficam flácidas e caídas dando uma imagem envelhecida e/ ou cansada. Para além do aspeto estético, as pálpebras superiores caídas (dermatocalásia) podem reduzir o campo visual e causar cefaleias de tensão. Quando a laxidez se verifica nas pálpebras inferiores pode ocorrer

lacrimejo por alteração do normal percurso de drenagem das lágrimas. O principal fator que contribui para as modificações das pálpebras é a idade ao qual se associam outros fatores tais como: a predisposição genética, a exposição solar e o tabaco. A cirurgia estética das pálpebras, conhecida como blefaroplastia, é um procedimento cirúrgico pouco invasivo que remodela a pálpebra superior e/ou inferior através da remoção do excesso de pele, da laxidez muscular e das bolsas de gordura palpebrais. A cirurgia é realizada no bloco operatório em ambulatório (sem internamento) e sob anestesia local com sedação na presença de um anestesista. O procedimento das pálpebras superiores consiste numa incisão feita ao longo da prega natural da pálpebra superior, enquanto que nas pálpebras inferiores a incisão é realizada na parte interna da pálpebra (via conjuntival) ou logo abaixo das pestanas resultando em cicatrizes invisíveis ou impercetíveis (Figura 1).

As blefaroplastias são um dos procedimentos mais efetuados no âmbito da cirurgia plástica mundial. A estes procedimentos cirúrgicos podemos associar tratamentos de medicina estética, tais como: injeção de toxina botulínica (Botox®) para as rugas peri-oculares, injeção de ácido hialurónico para preenchimento de olheiras ou sulcos palpebrais profundos ou peelings para rejuvenescimento cutâneo da pálpebra. Estes procedimentos médicos podem ser usados isoladamente ou como complemento à cirurgia realizada para um resultado mais completo e duradouro. A ptose palpebral refere se à queda da pálpebra superior que resulta do enfraquecimento ou desinserção do músculo elevador da pálpebra. Pode ser uni ou bilateral. O

Figura 1. Blefaroplastia superior e inferior via conjuntival: pré e pós-operatório.


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Figura 2. Ptose palpebral bilateral: pré e pós-operatório.

grau de ptose pode interferir apenas com a aparência estética (ptose ligeira) ou interferir também com o campo visual quando cobre o eixo visual (ptose grave). Há vários tipos de ptose sendo a ptose senil ou aponevrótica (relacionada com a idade) a mais frequente. É frequente o paciente compensar a ptose de forma inconsciente, elevando a sobrancelha por contração do músculo frontal ou posicionando a cabeça com elevação do queixo. O tratamento da ptose palpebral é cirúrgico, sendo a indicação funcional ou estética. O grau de ptose e a força do músculo elevador da pálpebra influenciam a escolha da técnica cirúrgica mais adaptada (Figura 2). Por vezes, é necessário associar à blefaroplastia a correção de ptose palpebral (Figura 4). Com a idade, as pálpebras podem sofrer outro tipo de alterações devido à laxidez dos tecidos e relaxamento muscular, tais como o ectrópio ou entrópio. O ectrópio palpebral corresponde à eversão da pálpebra inferior. O posicionamento incorreto das pálpebras no portador de ectrópio pode resultar em oclusão incompleta das pálpebras, lesões da córnea, alteração na drenagem lacrimal, inflamação palpebral e alteração estética (Figura 4). O entrópio caracteriza-se pela inversão da margem palpebral. O contacto da pele e das pestanas com o globo ocular pode resultar em sintomas irritativos, com lesões da córnea e, até mesmo, diminuição da acuidade visual (Figura 4). Estas patologias são tratadas cirurgicamente, com anestesia local e com bons resultados funcionais e estéticos.

Figura 3. Blefaroplastia superior associada a correção de

Figura 4. Em cima: Ectrópio da pálpebra inferior;

ptose palpebral bilateral: pré e pós-operatório.

Em baixo: Entrópio da pálpebra inferior.

Os tumores palpebrais, benignos ou malignos, são responsáveis por uma parte importante da prática clínica da oftalmologia. O diagnóstico precoce é fundamental para uma menor remoção de tecido e uma cirurgia de reconstrução palpebral simplificada. Um fator de risco importante para o aparecimento de lesões tumorais, para além da idade, está relacionado com a exposição solar. Algumas regras ajudam o oftalmologista a diferenciar lesões benignas e malignas das pálpebras: lesões malignas costumam causar perda de pestanas, distorção da margem palpebral, alteração da coloração ou textura da pele ou hemorragia persistente. Os pacientes que apresentam estes sintomas devem consultar um oftalmologista para avaliar a necessidade de realizar uma biópsia. O carcinoma basocelular é o tumor de pálpebra mais comum, correspondendo a cerca de 90% dos tumores malignos da pálpebra. Quando não removido por completo, o carcinoma basocelular pode recidivar localmente, mas muito raramente dá origem a metástases. O prognóstico varia com o grau de diferenciação celular, tamanho e profundidade do tumor. O carcinoma espinocelular invade os tecidos de maneira mais agressiva que o basocelular e pode causar metástases nos linfonodos regionais. Outros tipos de tumores malignos da pálpebra são: carcinoma espinocelular, queratoacantoma, carcinoma sebáceo, melanoma e sarcoma de kaposi. O tratamento das lesões malignas requerem a intervenção de um oftalmologista especializado em oculo-

plástica com conhecimento das várias técnicas utilizadas em reconstrução palpebral (Figura 5). As lesões malignas devem ser ressecadas com margem de segurança. O material deve ser enviado para avaliação anatomopatológica que determina o tipo de tumor e se foi removido completamente. Diversas técnicas cirúrgicas podem ser utilizadas para reconstruir a pálpebra depois da remoção do tumor, geralmente resultando num bom resultado funcional e estético para o paciente.

Figura 5. Tumor basocelular da pálpebra inferior: pré e pós-operatório.


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Medicina chinesa e envelhecimento ativo Helena Costa Licenciatura em Fisioterapia, Pós-Graduação em Medicina Chinesa Formação em Hipnose Clínica pelo London College of Clinical Hypnosis

O

envelhecimento é um processo natural e universal. Para a Medicina Chinesa o processo de envelhecimento inicia-se a partir do momento da conceção. O óvulo, de natureza yin, e o espermatozoide, de natureza yang, transportam determinada quantidade de energia e da sua junção resulta o capital energético disponível do ser humano para a sua vida. Este capital energético é-nos fornecido de uma só vez, na sua totalidade, e o seu potencial vai-se enfraquecendo à medida que envelhecemos. É armazenado no rim e corresponde à energia pré-natal a que os chineses chamam Jing. A energia Jing funciona como uma conta bancária que os nossos pais nos disponibilizam no momento da fecundação que nunca pode ser aumentada.

Ao longo da nossa vida este capital energético vai diminuindo sempre, podendo ser consumido mais rapidamente ou mais lentamente em função do nosso estilo de vida. Uma das causas para o envelhecimento prematuro pode ser de ordem constitucional, isto é, depende da energia Jing que recebemos no momento da conceção. No entanto, a velocidade de depleção dessa energia depende essencialmente dos nossos hábitos de vida e podemos minimizar o seu consumo assumindo a responsabilidade pelas nossas escolhas. O estilo de vida que adotamos, a escolha dos alimentos, o equilíbrio entre o trabalho físico, intelectual e o descanso, a prática de atividades físicas moderadas, saber gerir as emoções é determinante para nos mantermos saudáveis.

“Envelhecer ativamente é uma realidade alcançável e compete-nos a nós assumirmos a responsabilidade sobre o nosso processo de envelhecimento.”


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“Para a Medicina Chinesa o processo de envelhecimento inicia-se a partir do momento da conceção.”

Os fatores externos também determinam o processo de envelhecimento, a exposição prolongada ao frio, ao vento, ao calor ou à humidade, obriga o organismo a criar adaptações energéticas como forma de proteção. Assim, envelhecer ativamente depende do funcionamento harmonioso entre fatores externos e internos. Através da Medicina Chinesa podemos potenciar o funcionamento do organismo dando-lhe uma maior capacidade de reação perante os desequilíbrios a que é submetido continuamente, sejam eles de natureza interna ou externa. Com o passar dos anos o envelhecimento natural do corpo leva o indivíduo a tomar por vezes grandes quantidades de medicamentos químicos sobrecarregando órgãos como o fígado e o rim. A utilização da Medicina Chinesa pode minimizar as suas consequências e promover um envelhecimento ativo físico, mental, energético e emocional. Após um diagnóstico energético individual, através da anamnese, da observação da língua e da palpação do pulso, a Medicina Chinesa determina qual ou quais as técnicas a utilizar para restabelecer o equilíbrio energético do indivíduo. Para tal pode selecionar técnicas de Acupuntura, Fitoterapia, Qi Gong, Dietética e Tui Na. A Acupuntura é uma técnica indolor que consiste em colocar agulhas em pontos específicos do corpo de forma a equilibrar energeticamente todo o organismo. A Fitoterapia é um ramo da Medicina Chinesa baseado nas caraterísticas terapêuticas de plantas medicinais. Estas plantas são administradas em fórmulas equilibradas que podem ser ingeridas sob a forma de gotas, cápsulas ou comprimidos. Estes medicamentos naturais potenciam os benefícios da Acupuntura. Algumas patologias mais predominantes com o envelhecimento em

que é recomendada a conjugação de fitoterapia e da acupuntura são as dores musculares ou articulares, acufenos ou zumbidos, edemas, diabetes, insónias, ansiedade, perda de memória, incontinência, entre outros. Outro benefício é o aumento da imunidade, a ingestão de plantas que reforçam a energia do rim em simultâneo com a estimulação com moxa de determinados pontos de Acupuntura permite diminuir a suscetibilidade a doenças infeciosas como gripes, pneumonias e outros quadros respiratórios que afetam a qualidade de vida do idoso. O Tui Na é o ramo da Medicina Chinesa que utiliza técnicas de estimulação manual dos meridianos e pontos de Acupuntura. É utilizado em diversas patologias ou simplesmente para relaxamento. De acordo com o diagnóstico energético também podem ser selecionados exercícios de QiGong e selecionados determinados alimentos de forma a potenciar a vitalidade do organismo. Envelhecer é inevitável, à medida que o Jing renal se vai consumindo vamos envelhecendo de forma natural. Quando esta reserva termina, a nossa vida chega ao fim. Envelhecer ativamente é uma realidade alcançável e compete-nos a nós assumirmos a responsabilidade sobre o nosso processo de envelhecimento.

“A Fitoterapia é um ramo da Medicina Chinesa baseado nas caraterísticas terapêuticas de plantas medicinais.”


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A Fisioterapia como coadjuvante no tratamento da Doença de Parkinson Gabriela Martins

Fisioterapeuta, pós-graduanda em Fisioterapia Geriátrica e Gerontológica pela Universidade Federal de Minas Gerais

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G

eralmente, ao acordarmos, levantamo-nos, fazemos as nossas necessidades fisiológicas, tomamos café e em muitas vezes já o fazemos automaticamente devido aos deveres do dia a dia. Porém, quando a pessoa tem a Doença de Parkinson, essas tarefas são bem mais comprometidas. O corpo não responde como deveria, rigidez ao ao tentar movimentar-se, movimentos mais lentos, desequilíbrio, o tremor por vezes dificulta o simples acto de segurar um copo e uma dor difusa por vezes acompanhada por cãimbras. Se não conhece, possivelmente em breve irá conhecer alguém com pelo menos uma dessas características. A Doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa crónica progressiva que afeta o sistema nervoso, caracterizada pela perda de neurónios dopaminérgicos (os que produzem a dopamina) da via nigroestriatal, a sua dimunuição é em cerca de 70% quando a doença se manifesta, já a sua prevalência mundial é de 150 a 300 por 1 milhão de habitantes, o que equivale de 2% a 3% em pessoas acima de 65 anos, podendo chegar a 5% da população acima de 85 anos, principalmente com o atual crescimento populacional de idosos (geralmente os mais

acometidos), mas também, em alguns adultos jovens[1]. A marcha é um dos sintomas motores mais acometidos E é caracterizada pela redução de velocidade e da dificuldade de realizar os movimentos, geralmente acompanhado de episódios do congelamento, freezing ou marcha festinada[2]. A marcha é frequentemente realizada simultaneamente com outras tarefas cognitivas ou motoras, ou seja, em dupla tarefa (DT). A DT é a associação entre os sistemas cognitivo e motor, sendo caracterizada como a realização de uma tarefa primária que é o fator principal da atenção, e uma tarefa secundaria, ambas realizadas ao mesmo tempo[3]. É suposto que indivíduos com Parkinson apresentem mais dificulda-

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de em realizar DT que indivíduos sem esta condição. No entanto, esta questão precisa ainda de ser investigada, pois pode ter implicações na reabilitação destes indivíduos. O portador da Doença de Parkinson possui sintomas motores e não motores. Como motores podemos observar o caminhar com passos mais curtos e rastejantes, acinesia ou bradicinesia (perda da capacidade de movimentar os músculos por conta própria ou movimentos mais lentos, como por exemplo a diminuição do balançar dos braços), derigidez muscular ou hipertonia plastica, tremor de repouso, instabilidade postural e quedas. O diagnóstico é clinico onde deve ser acompanhado por um neurologista especialista em distúrbio do movimento, já que não existe um exame específico que a confirme[2]. Existem também os sintomas não-motores como a diminuição do tamanho da letra (ao escrever, a micrografia), dificuldade de falar (afasia), dificuldade de engolir (disfagia), distúrbios respiratórios, dificuldade de iniciar os movimentos, transtornos do sono, constipação, sialorréia (salivação), dor difusa, impotência sexual, incontinência urinária, diminuição da olfato (hiposmia), alucinações, ansiedade e depressão, (este um dos mais prejudiciais)[2].


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De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é de fundamental importância o tratamento multidisciplinar com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeuta ocupacional, nutricionista, acupunturista, entre outros. Neste artigo será ressaltado a importância da fisioterapia. A avaliação fisioterapeutica tem como finalidade identificar as limitações do paciente para assim promover uma melhora na mobilidade, força muscular, controlo postural, equilíbrio, marcha, transferências, condicionamento físico, redução da dor, prevenir contraturas, do medo de cair, contraturas, entre outros, o seu objetivo é diminuir a gravidade dos sintomas, auxiliar na melhoria da qualidade de vida da pessoa com Doença de Parkinson, dos seus familiares e cuidadores, e assim minimizar demais complicações que a doença possa ocasionar[1]. Como estratégia de tratamento os exercícios fisioterapêuticos devem incluir:

Exercícios: »» Alongamentos globais; »» Fortalecimento com carga progressiva e aumento de números de repetições/séries »» (Respeitando sempre o limite do indivíduo); »» Transferências, equilíbrio, proprioceção e treino de marcha, com estímulo das pistas externas; »» Treinar em situações com os sintomas motores na fase on e off da medicação em pistas auditivas (sons) para o aumento da velocidade da marcha e visuais para um maior comprimento de passo; »» Prevenir as quedas; »» Amplitude de movimento; flexibilidade, mobilidade (dissociação de escapular e cintura pélvica, como por exemplo exercícios de ponte, quatro apoios); »» Dinâmicos associados as atividades diárias (como por exemplo exercícios funcionais sentar-se e levantar, circuitos); »» Coordenação motora; »» Exercícios respiratórios para diminuir o padrão de respiração restritivo; »» Relaxamento;

»» Orientar em adaptações funcionais (calçado, altura da cadeira, uso de bengalas e ou andadores) »» Musculação, hidroterapia, acupuntura, caminhadas, pilates, realidade virtual, boxe, tai chi chuan, dança entre outros. É de fundamental importância a parte cognitiva e motora serem trabalhadas, pois são necessárias nas tarefas diárias, auxiliando assim ao máximo na independência nas atividades da vida diária da pessoa com Doença de Parkinson. A reabilitação deve ser associada ao tratamento farmacológico, onde é primordial que o doente mantenha a ingestão das medicações no horário determinado [1] e respeitar o período onde deve se evitar o consumo de proteínas 1 hora antes ou 1 hora após a medicação para uma melhor absorcão deste no organismo. No tratamento fisioterapêutico devem ser incluídos programas de exercícios tanto preventivos, corretivos, e compensatórios[3], estimular a manutenção da postura adequada e inspecionar o indivíduo em aferição da pressão arterial, saturação, frequência cardíaca, respiratória e temperatura são também fundamentais. Os instrumentos geralmente utilizados para as atividades de reabilitação são: faixas elásticas, halteres, caneleiras, bambolês, argolas, cones, escadas de agilidade e rampas, bolas, bastões, bicicletas ergométricas, colchonetes para exercícios no solo, jogos de realidade virtual, entre outros. De acordo com o Guide to Physical Therapist Practice devem ser incluídos como objetivos da fisioterapia[3]: »» Aumentar a habilidade para realizar as atividades os cuidados pessoais de e das atividades de vida diária; »» Melhorar os desempenhos nas tarefas físicas e demais atividades; »» Reduzir a incapacidade ocasionada pela doença; »» Orientações com a pessoa com Doença de Parkinson, familiares e cuidadores com conscientização da doença, prognóstico e resultado do tratamento;

Figura 3. Paciente realizando atividades na ASPARGMIG. Arquivo pessoal.

»» Diminuição da intensidade por assistência; »» Melhoria da capacidade de tratar os próprios sintomas; »» Favorecer a ter hábitos saudáveis; »» Diminuição dos riscos de comprometimento secundário; »» Manter a integridade e mobilidade das articulações; »» Aumento de força, resistência, potência da musculatura, capacidade aeróbica e resistência física; »» Melhorar função motora e controlo da postura, marcha, locomoção e equilíbrio; »» Aumento do conhecimento do indivíduo sobre a realização das atividades e preservar a energia; »» Diminuir o stress e favorecer a parte psicológica tanto no indivíduo com Parkinson como nos seus familiares e cuidadores[3]. Cada indivíduo é único, com características diferentes mesmo com a mesma doença, por isso o tratamento fisioterapêutico deve ocorrer precocemente e de acordo com as necessidades e questionamentos do paciente, pois irá auxiliar na prevenção de demais complicações que a Doença de Parkinson ocasiona, auxiliando assim na melhoria da capacidade motora e na sua funcionalidade. As orientações sobre como é a doença, tanto ao doente como aos familiares e cuidadores é de extrema importância para que se obtenham bons resultados[3].

Referências bibliográficas 1. Daniela Cristina Carvalho de Abreu, Flavia Doná. Tratamento Fisioterapêutico na pessoa idosa com a Doença de Parkinson. In: Patrícia Moesch, Gustavo Nines Pereira, Ângelo Jose Goncalves Bós.- Fisioterapia em Gerontologia.- 1 ed.- Rio de Janeiro: Rubio 2018. Capítulo 15, p. 169-182. 2. Capato TTC, Domingos JMM, Almeida LRS. Versão em Português da Diretriz Europeia de Fisioterapia para a Doença de Parkinson. São Paulo: Omnifarma; 2015. 3. Susan B.O’Sullivan, Doenca de Parkinson. In: Susan B.O’Sullivan,Thomas J.Schmitz. Fisioterapia Avaliacao

Figura 1. Pacientes a realizar atividades na ASPARGMIG.

Figura 2. Pacientes a realizar atividades na ASPARGMIG.

e Tratamento. 4- ed- São Paulo: Manole 2004. Capítulo

Arquivo pessoal.

Arquivo pessoal.

23, p.747-773.


34 | Mente Ativa Corpo Ativo

TERAPIA OCUPACIONAL e o seu papel na intervenção com a pessoa com demência Cristiana Carvalho

A

Mestre em Terapia Ocupacional na especialidade de Reabilitação Física e Pós-graduada em Integração Sensorial

Terapia Ocupacional é uma área da saúde que ultrapassa a mera ocupação das pessoas, um mito frequentemente escutado por quem exerce esta profissão. Com certeza já ouviu o provérbio “Parar é morrer” mas alguma vez refletiu sobre esta expressão? O ser humano é um ser ocupacional, um ser que necessita de estar em atividade para conseguir sobreviver. Se existem dificuldades no desempenho de uma atividade ou ocupação, seja ela qual for, isso é matéria de especialidade desta valência. O Terapeuta “O ser humano é um ser ocupacional, Ocupacional é um Técnium ser que necessita de estar em co de Diagnóstico e Teraatividade para conseguir sobreviver.” pêutica que avalia, planeia e intervém com todas as pessoas, de todas as idades. Na avaliação incluem-se a história ocupacional, que engloba as áreas de ocupação significativas para o indivíduo como as profissões que exerceu, as atividades de interesse que ainda realiza e as que deixou de fazer, e por que motivo: os padrões de desempenho (hábitos, rotinas, rituais e papéis), os fatores inerentes ao indivíduo (valores, crenças, espiritualidade, funções e estruturas do corpo), associados às competências de desempenho (cognitivas, sensório-motoras e psicosociais) e os contextos onde esteve e está inserido, criando-se assim o Perfil Ocupacional. A partir daí, elabora-se o plano de intervenção individualizado e centrado na pessoa.

O tema da edição passada da Dignus foi sobre Perturbações Cognitivas e Envelhecimento, uma área particularmente desafiante para o Terapeuta Ocupacional. No trabalho com a esta população o Terapeuta Ocupacional recorre a atividades e ocupações significativas com o objetivo de manter ou restaurar algumas funções, estimulando e despertando o interesse no envolvimento de atividades, levando a que cada pessoa seja parte ativa do seu processo de reabilitação. O Terapeuta Ocupacional realiza assim atividades de estimulação cognitiva, sessões de orientação para a realidade (orientação no espaço e no tempo), treino das atividades de vida diárias (AVD’s) e instrumentais (AVDI’s) consideradas problemáticas, sessões de movimento, sessões de estimulação sensorial, sessões de relaxamento, sessões de terapia pela arte e outros recursos expressivos e sessões de terapia pela música. As sessões podem ser individuais ou em grupo, sempre com objetivos de intervenção centrados na manutenção das capacidades remanescentes do paciente; promoção da sua auto-estima e do seu bem-estar; prevenção do isolamento social; estimulação cognitiva e sensorial. O Terapeuta Ocupacional também prescreve e utiliza ajudas técnicas quando necessário, atua ao nível da adaptação dos contextos e do ambiente onde a pessoa se insere, nomeadamente ajudando as famílias e as instituições a adaptarem os espaços às necessidades de cada pessoa


Mente Ativa Corpo Ativo | 35

(por exemplo, na adaptação de mobiliário e utensílios), procurando eliminar barreiras e criar facilitadores para um maior conforto e segurança, prevenindo os riscos de queda e facilitando a mobilidade e as transferências e promovendo, dependendo de cada caso, a autonomia e a independência de cada pessoa, através da sua participação nas atividades do quotidiano. Partilho de seguida algumas estratégias que poderão ser importantes e que provavelmente irão fazer a diferença para o leitor, seja familiar, cuidador ou profissional de saúde.

Criação de um Plano Estruturado de Rotina Diária Trabalho diretamente com os familiares e cuidadores, quer em contexto de Estrutura Residencial para Idosos (ERPI), quer em contexto de domiciliário. A minha experiência tem-me demonstrado que a estruturação das rotinas é um fator chave para que o idoso se sinta menos ansioso ou demonstre sintomas de instabilidade e irritabilidade, contribuindo também para que o cuidador se sinta mais confortável no desempenho do seu papel. Em contexto de ERPI existem horários para as diferentes atividades do dia, mas normalmente em contexto familiar não existem horários consistentes e há por vezes uma resistência muito grande à criação, e sobretudo à alteração de rotinas. A criação de um plano diário vai permitir ao cuidador antecipar as atividades de modo a gerir e organizar o tempo de forma mais eficiente. A desorganização e o apressar geram mais ansiedade no paciente e são de todo contraproducentes. Assim, e a título de exemplo, se tiver um horário (ver Anexo 1) para cada atividade do dia-a-dia como levantar, tomar banho, vestir, tomar o pequeno-almoço, tomar a medicação da manhã, lavar os dentes, realizar atividade matinal, lanche meio da manhã, almoçar, tomar a medicação da tarde, descansar, lanchar, participar em atividade, jantar, tomar a medicação, e se este for diariamente repetido, criam-se hábitos e rotinas, que vão ser saudáveis tanto para quem cuida como para quem recebe os cuidados, contribuindo para a redução de sintomas de agitação, e alterações de humor.

Para criar o plano é importante saber: »» Qual a medicação que toma e a que horas? (Figura 1); »» Quais as alturas do dia em que se encontra mais funcional? (para que possamos

selecionar essas horas para as atividades mais significativas); »» Quais as atividades mais significativas, ou seja, quais as atividades que mais gosta de fazer? O que gostava de fazer antigamente? Cozinhar, passear, cantar, tocar piano, ver televisão, pintar, fazer crochet? Limpar a casa? Cuidar do jardim? Cuidar dos animais? Conversar? Rezar? (frequentemente escutamos que a pessoa “agora já não faz nada”, e isto poderá advir, porventura, porque não lhe é dada, de forma consciente ou inconscientemente, a oportunidade de se envolver numa atividade prazerosa. Encontrandose as respostas a estas questões poderá incluir-se no seu plano as atividades que a motivem mais à participação); »» Quais as atividades que pode fazer em conjunto com a pessoa? Pôr a mesa, estender a roupa, lavar a roupa à mão,

seguir receitas, assistir a uma novela e ir comentando em conjunto, dar passeios a pé? (lembre-se de incluir, sempre que possível, e dependendo do estádio da demência, a pessoa nas atividades e tarefas de casa. A pessoa com demência que deixa de estar envolvida nas AVD’s e AVDI’s acaba por se isolar e distanciar das pessoas que a rodeiam); »» A pessoa fazia parte de algum grupo de atividades? Existe possibilidade de a acompanhar e continuar a fazer parte do mesmo? Existe na freguesia um centro de dia ou algum grupo que pudesse ser do interesse da pessoa? Respondidas as questões anteriores poderá encontrar-se uma série de atividades que servirão para incluir na estrutura do plano da pessoa que será cuidada. Todas as atividades podem vir a ser adaptadas, caso se verifique necessário, com auxílio de um Terapeuta Ocupacional de modo a promover a sua participação em todos os contextos onde se insere, prevenindo-se assim o isolamento social, com o intuito de frenar, tanto quanto possível, o avanço da sintomatologia da demência.

Observações a registar Existem determinados aspetos que são importantes ficarem registados, embora possam parecer preciosidades, poderão fazer toda a diferença na qualidade de vida e bem-estar da pessoa com demência. Se registar as atividades que fazem com que a pessoa fique bem-disposta ou relaxada e as


36 | Mente Ativa Corpo Ativo

que devem ser evitadas para que não fique ansiosa ou desorientada irá assegurar que qualquer cuidador possa dar continuidade à prestação dos cuidados com a mesma qualidade. Por exemplo, se a pessoa para se vestir, independentemente da estação do ano, gosta de usar camisola interior antes de vestir a restante roupa, ou então, se a seguir ao almoço gosta de tomar café em chávena fria devem anotar isso no seu plano. Anote também todas as alterações que tiverem que ser feitas pontualmente, seja na medicação ou por exemplo em algum comportamento/acontecimento irregular. Assim, o cuidador terá sempre essa informação para poder intervir de forma adequada.

1

Preparação das atividades Nunca force a pessoa com demência a fazer uma determinada atividade, especialmente se essa atividade nunca fez parte da sua história ocupacional. Poderá incentivar, arranjar motivação para que a pessoa queira aderir, mas forçar só vai aumentar a irritabilidade e insegurança.

2

Prepare uma área para a realização das atividades segura Se vai realizar uma atividade sentado, certifique-se de que elimina objetos que possam apresentar perigo, utilizando uma base protetora antiderrapante para colocar os materiais. Uma boa iluminação é importante, mas note que o excesso de claridade ou brilho provavelmente poderá incomodar e ofuscar a visão. Ajuste a iluminação sempre que necessário. Se vai sair à rua, certifiquese que leva consigo uma mala com água, protetor solar, toalhitas, e outros acessórios que considere indispensáveis. O cuidador saberá melhor que ninguém quais as necessidades da pessoa que cuida.

3

Diga não à sobre-estimulação Um ambiente seguro e calmo é muito mais agradável do que um ambiente com muitos estímulos visuais e auditivos. Não invalida que a pessoa não frequente eventos sociais, mas primeiro perceba se estes são significativos para ela, por exemplo, em situações onde a pessoa vai ficar exposta a um ambiente mais confuso como uma festa de aniversário prepare-a para tal e, se necessário, mostre-lhe fotografias do espaço e ou das pessoas com quem vai estar e explique a que evento vai. Evite perguntar “sabe o meu nome?” “Sabe quem é esta ou este?”, os sentimentos de falta de memória e de fracasso vão tornar a pessoa

Anexo 1. Plano semanal (Disponível para download em: www.dignus.pt/Plano_semanal_anexo1.docx ). Nome:

Nome Cuidador(a):

PLANO SEMANAL Segunda-feira Atividade

Terça-feira Observação

Atividade

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Observação

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Quinta-feira Observação

Atividade

08:00

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Observação

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Atividade

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21:00

Observação

mais confusa e angustiada. Aja naturalmente e envolva-a nas conversações.

mostrar partes de objetos e pedir que identifique a parte pelo todo.

Explique passo a passo as atividades O planeamento motor e a sequenciação vão gradualmente ser afetados na demência, logo utilize explicações simples e claras, recorrendo por exemplo a pistas visuais (fotografias com exemplos do passo-a-passo), escrevendo o nome dos passos e numerando -os. Evite complicar! E lembre-se de dar tempo à pessoa para realizar cada tarefa.

Recorde-se que ao estruturar o seu plano deve pensar no tempo necessário à realização da atividade (cada pessoa tem o seu tempo!), não esquecendo as idas à casa de banho, o tempo despendido nas transferências e também os eventuais contratempos, incluindo as oscilações de humor da pessoa com demência ao longo do dia. O registo de cada momento, pode ajudar a compreender melhor o que faz desencadear cada comportamento e atuar em conformidade. Importa ir fazendo ajustes no seu plano, experimentar e assim que as rotinas estiverem ajustadas, criar esse hábito! A disciplina e a consistência são muito importantes para que este método seja um facilitador precioso na organização do dia-a-dia. E já agora, não deverá esquecer-se também de fazer um horário para si, pois ser cuidador implica também cuidar de si para melhor cuidar dos outros!

4 5

Adapte e gradue A perceção visual pode estar afetada e por isso deve ter em conta a necessidade ou não de aumentar as letras, ou escolher imagens com contraste figura/fundo. Pode graduar a dificuldade das atividades ou criar desafios, como por exemplo: mostrar sequências de imagens e pedir que identifique o que são e numa segunda tarefa da atividade


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Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Os cuidados paliativos estiveram em destaque no I Encontro Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos, iniciativa organizada pela ANGES – Associação Nacional de Gerontologia Social com o apoio do ISEC – Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, que se realizou no Auditório do ISEC no dia 18 de outubro de 2019.

A definição de cuidados paliativos, a importância da comunicação, da formação dos profissionais, o empreendedorismo e os direitos dos cuidadores e das pessoas cuidadas foram alguns dos temas abordados durante um dia intenso de palestras e debates. A primeira intervenção do encontro esteve a cargo de Isabel Duque, responsável pela Unidade de Dor Crónica e Medicina Paliativa da ULS de Castelo Branco e coordenadora regional dos cuidados paliativos, que abordou na sua intervenção a realidade dos “Cuidados Paliativos na região Centro”. Na sua intervenção explicou o que são cuidados paliativos e lamentou o número reduzido de profissionais qualificados e o facto de muitos dos profissionais com formação realizarem tarefas que não são da sua competência. Luís Capelas, antigo Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos entrou em seguida por videoconferência e na sua apresentação, “Cuidados Paliativos na

atualidade: onde estamos e para onde queremos ir?”, salientou que os cuidados paliativos têm sofrido uma grande evolução, com grande enfoque na mudança na qualidade de vida e saúde das pessoas, reforçando que este tipo de serviços se estende para lá dos centros de cuidados paliativos. A última intervenção do primeiro painel do dia foi da responsabilidade de Elsa Mourão, cuidadora profissional e membro da equipa da LInQUE. Com o tema “Empreendedorismo em Cuidados Paliativos”, Elsa Mourão explicou o processo de criação da LinQUE e todas as valências da cooperativa. O segundo painel do dia teve uma única interveniente, Cláudia Telles de Freitas, que teve como tema da sua intervenção a “Gestão emocional e motivacional das equipas de Cuidados Paliativos”. A especialista em comunicação sublinhou que as pessoas nas equipas devem contagiar as outras pessoas com a sua atitude, e identificou três pontos fundamentais para qualquer equipa: o investimento na formação; o saber fazer e não reter o saber; e a atitude como forma de fazer a diferença. A tarde do I Encontro Olhar(es) pelos Cuidados Paliativos iniciou-se com o terceiro painel que teve como primeira interveniente a enfermeira Ângela Simões que falou sobre Cuidados Paliativos em Estruturas Residenciais para Idosos. “A velhice não é uma doença, mas todos vamos morrer”, sublinhou, explicando que hoje um grande número de residentes nas ERPI estão numa fase final da vida e. Segundo Ângela Simões 20% das mortes dos idosos ocorrem em ERPI, 80% delas com mais de 75 anos, sendo que 2/3 morre com duas ou mais doenças crónicas. Por esta realidade, a enfermeira salientou igualmente a importância do apoio ao luto, não só aos familiares, mas também aos cuidadores.

A Professora Doutora Lucília Nunes tomou voz na intervenção seguinte intitulada “Direitos das pessoas em fim de vida”. Na sua intervenção a Professora Coordenadora na Escola Superior de Saúde do IP Setúbal abordou as Diretivas Antecipadas de Vontade, dos direitos das pessoas em contexto de doença avançada e em fim de vida e do Testamento Vital. Os Palhaços D´Opital, associação cultural sem fins lucrativos, foram apresentados em seguida pela voz de Jorge Rosado, o Doutor Risotto, numa apresentação intitulada “Felicidade e Positividade em fim de vida”. Esta é das poucas entidades artísticas a trabalhar com cuidados paliativos e terminais, com demências e doenças oncológicas. “O Doutor Palhaço vive o agora, não julga e brinca”, sublinhou. A Professora Doutora Patrícia Coelho da Universidade Católica deu o mote para o último painel do dia com o tema “Dignidade em Cuidados Paliativos”. Na sua apresentação sublinhou que os cuidados paliativos não são o último passo para a morte. A dignidade, a individualidade, a qualidade de vida, a autonomia e o relacionamento doente-profissional são fundamentais para “juntar vida aos dias e não juntar dias à vida”, parafraseando uma frase da fundadora dos cuidados paliativos. As duas últimas intervenções do dia estiveram a cargo de João Gomes e da enfermeira Ana Rocha. Na apresentação “Capacitação dos Cuidadores Informais”, João Gomes falou sobre o Estatuto do Cuidador Informal e da importância da sua recente aprovação. A enfermeira Ana Rocha falou sobre “Comunicação com a pessoa com doença crónica e avançada”, sublinhando que a comunicação é um pilar dos cuidados paliativos e que é tão importante como outros pilares.


38 | Reportagem

O envelhecimento numa visão transfronteiriça

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Foi em pleno Alto Minho, em Vila Nova de Cerveira, que se discutiram recentemente os desafios do envelhecimento em Portugal e em Espanha, num encontro em que se procurou abordar esta temática numa visão transfronteiriça. Foi no dia 8 de novembro que o Hotel Minho recebeu cerca de meia centena de participantes oriundos de toda a Península Ibérica para a I Conferência Internacional de Gerontologia e Geriatria, uma iniciativa da ANIES - Associação Nacional Interdisciplinar da Economia Social. Durante este dia debateram-se diversas temáticas transversais a todo o processo de envelhecimento, desde as necessidades da pessoa idosa, o papel dos cuidadores, das instituições, das associações, políticas públicas, entre outros. Josué Morais da IXUS Formação & Consultadoria, Narciso Moura da ADNP - Associação de Desenvolvimento do Noroeste Peninsular, e Lígia Monterroso, docente do ISAVE - Instituto Superior de Saúde receberam os participantes alertando inicialmente para o envelhecimento da população. Com este alerta sublinharam a importância de apostar em respostas efetivas para as necessidades recorrentes neste setor, nomeadamente a falta de qualificação dos profissionais e a recorrente questão das necessidades dos cuidadores informais.

As primeiras intervenções do dia foram dedicadas a políticas públicas, políticas nacionais na área do envelhecimento, a visão da Geriatria e Gerontologia na enfermagem, esta última com uma visão mais reflexiva, mas também com o conteúdo teórico tradicional, e também a realidade do envelhecimento em Espanha. A participar neste painel estiveram Assunção Nogueira, docente na CESPU, Diogo Batalha, gerontólogo e Presidente da ANIES, Miguel Angel Vasquez Vasquez, médico especialista em Geriatria e Presidente da Sociedad Galega de Xerontologia e Xeriatria, e Miguel Cardoso, Diretor “O envelhecimento do Centro Distrital do Porto do Instituto de Segurança Social. não é uma doença” Assunção Nogueira identificou as alterações demográficas e do perfil epidemológico como as principais responsáveis por esta nova realidade que assistimos no envelhecimento. A docente explicou ainda as alterações que ocorrem durante o processo de envelhecimento e os conceitos centrais para cuidar de idosos por parte dos cuidadores formais. Diogo Batalha, gerontólogo e Presidente da ANIES apresentou a associação e toda a metodologia de trabalho e de investigação pelas quais se regem. De acordo com o mesmo, a organização do evento optou por abordar as temáticas da gerontologia e geriatria pelo facto de a população idosa ser aquela que apresenta mais dificuldades e representa os maiores desafios para a sociedade e para a ciência. “Estamos a assistir à maior transformação demográfica da história da humanidade”, afirmou, abordando posteriormente na sua


Reportagem | 39

intervenção a respetiva da sociedade sobre o envelhecimento e o conceito do que é uma pessoa idosa que, de acordo com o gerontólogo “deve ser desconstruído e reconstruído”. A visão e a realidade espanholas foram clarificadas por Miguel Angel Vasquez Vasquez, este que salientou que em Espanha têm uma visão multidisciplinar ao abordar a temática do envelhecimento. De acordo com o médico a realidade é que, em 2050, a população idosa em Espanha vai duplicar, uma previsão que alerta para a necessidade de uma tomada urgente de medidas preventivas no que respeita aos cuidados do idoso. No que respeita concretamente à Gerontologia, Miguel Angel Vasquez Vasquez admitiu que esta serve para cuidar, apoiar e supervisionar, sendo que os profissionais são os que têm diariamente a responsabilidade de tomar decisões pela pessoa doente. “O envelhecimento não é uma doença”, sublinhou. A parte da tarde iniciou-se comum painel que incidiu a sua visão no ensino superior, nas pessoas que estão no terreno e em como perceber que este misto de contribuição interdisciplinar pode trazer alguns resultados. Para discutir estes temas juntaram-se Lurdes Teixeira da CESPU, Carla Faria do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) e José Carreira do Centro de Apoio Alzheimer Viseu. Lurdes Teixeira afirmou que a “sociedade não está preparada para os velhos” e que cada vez mais se tentam encontrar respostas para “envelhecer sem ficar velho”. E o perfil da pessoa idosa é diferente nos dias de hoje, segundo Carla Faria. A docente focou-se nos desafios do envelhecimento e nos ganhos sociais em apostar nos idosos. “Através da aprendizagem e educação podemos fazer com que as pessoas tenham um envelhecimento saudável e ativo”, afirmou a docente o IPVC. Para terminar José Carreira falou dos desafios da nova longevidade, centrando-se na preocupação com a tripla sustentabilidade - social, económica e financeira. Por fim falou-se da necessidade de perceber como formar profissionais preparados e sensibilizados para trabalhar estas temáticas, não só no contexto profissional como também no dia a dia, ou seja, como podemos ser uns bons influenciadores destas temáticas no quotidiano, para com quem

“Estamos a assistir à maior transformação demográfica da história da humanidade”

lida diariamente com estas populações envelhecidas. Durante o evento a revista Dignus falou com Diogo Batalha, gerontólogo e Presidente da ANIES - Associação Nacional Interdisciplinar da Economia Social, por forma a conhecer o trabalho desenvolvido pela ANIES e também para perceber qual o objetivo da organização da I Conferência Internacional de Gerontologia e Geriatria. Dignus: Que associação é a ANIES e que trabalho desenvolve? Diogo Batalha (DB): A ANIES foi fundada por um conjunto de pessoas e profissionais no sentido de se criar uma associação destinada à produção científica na área da economia social. Esse é o ponto principal de uma associação com uma visão inovadora do que é a produção científica. O que queremos implementar é uma metodologia de investigação interdisciplinar onde haja convergência de todo o tipo de competências, experiências e vivências, não só sobre o ciclo de vida, mas sobre a produção de conhecimento científico. O que queremos é transportar o conhecimento científico para a prática, pois o conhecimento científico de nada vale se não for aplicado. O objetivo final é fazer chegar o resultado deste conhecimento aos centros de decisão para que seja claro e objetivo para todos que existem várias lacunas no setor que têm que ser colmatas. Dignus: Qual o intuito da realização da I Conferência Internacional de Gerontologia e Geriatria? DB: O percurso de vida tem várias etapas e decidimos começar pela faixa etária que

hoje nos trás mais desafios naquilo que é a resposta da economia social. Pensamos na Gerontologia e Geriatria por diversos fatores, sendo um deles o reconhecimento destes profissionais, que não existe. Foi uma primeira abertura para um espaço de reflexão, não só pela necessidade desta faixa etária, mas também abrir o diálogo a associações do nosso país que têm desenvolvido trabalhos excelentes no que respeita ao reconhecimento dos profissionais da área, nomeadamente a Associação Nacional de Gerontólogos e outras associações homologas que têm feito um bom percurso. Temos que levar estes eventos a comunidades que estejam descentralizadas, temos que conseguir perceber que estas comunidades também têm que ter eventos, mesmo para chamar os técnicos das IPSS mais pequenas que enfrentam tantas dificuldades como os outros. Dignus: Como foram selecionadas as temáticas para este evento? DB: Houve uma necessidade estratégica de perceber qual era o trabalho da Sociedad Galega de Xerontologia e Xeriatria, não só pela figura do seu Presidente, um médico geriatra reconhecido, mas também para ouvir quem não está em Portugal. Este é o nosso primeiro passo a nível internacional, principalmente porque é necessário perceber aquilo que já existe. Temos que perceber o que já se faz e de que forma se pode traduzir e validar isso para o nosso país. Trouxemos oradores que estão diretamente ligados ao desenvolvimento de políticas sociais ou ligados à investigação e ensino superior.


40 | Especialidades Médicas

Saúde e reabilitação oral em doentes seniores Esmeralda Martins Médica Dentista e responsável pela Medicina Dentária na Clínica Milenio

O

aumento da esperança média de vida – situada nos 78/80 anos, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) – e a diminuição da taxa da natalidade traduz-se, como é do conhecimento comum, no envelhecimento da população. E quando passamos a ser idosos? Pasme-se quem julgava que já tinha pensado nisso: em países em desenvolvimento o idoso é classificado como o indivíduo que tem 60 anos de idade ou mais e, nos desenvolvidos, a partir dos 65 anos. Uma década depois da maturidade sábia e serena dos 50, entramos, pois, nos cuidados geriátricos. Um estudo recente do INE revela-nos que quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro dos próximos 60 anos. Num momento em que Portugal foi classificado pela Organização Mundial de Saúde como estando na cauda da Europa no que toca ao tratamento dos seus idosos, urge valorizar e investir particular atenção na Geriatria, a especialidade na medicina que analisa e providencia o tratamento das doenças do envelhecimento. A medicina dentária, no seu sentido mais geral, é coloquialmente associada – e muitas vezes mesmo mais orientada – para tratamentos da saúde oral de crianças e jovens. Vemos enraizados os hábitos dos pais levarem as crianças aos dentistas (os primeiros dentes, as cáries na infância…), dos adolescentes corrigirem a dentição com aparelhos

ortodônticos e cada vez mais dos jovens e adultos manterem essa vigilância e cuidados, mas constatamos que, a dada altura, as visitas ao dentista começam a espaçar mais e mais. Tornou-se normal um idoso ter a dentição comprometida, não ter dentes de todo e usar próteses pouco estéticas e pouco funcionais. No entanto, o envelhecimento populacional de que tomamos consciência é uma realidade que se vai já traduzindo na amostra dos pacientes que assistimos na prática clínica, e obriga-nos a entender a necessidade de dar cada vez mais atenção a uma população “menos jovem” de modo a proporcionar uma melhoria – que creio muito significativa – na sua qualidade de vida. Hoje, o paciente de 60 anos é, na sua maioria, um paciente com muita falta dentes, com dentes arrancados e com problemas de maxilar. A sua saúde oral é bastante pobre, com uma elevada prevalência de cáries coronais e radiculares e de patologia periodontal, reabilitação protética inadequada e presença abundante de placa bacteriana, seja nos dentes naturais ou nas próteses. Ora o processo de envelhecimento do indivíduo é acompanhado por diversas transformações que afetam o sistema mastigatório

“Delimitaria os 60 anos como o marco ideal para iniciar os cuidados de saúde oral geriátricos abrindo assim uma janela de várias décadas de qualidade de vida e saúde.” e que podem incluir os músculos, a articulação temporomandibular, as glândulas salivares, as mucosas e os próprios dentes e respetivos tecidos de suporte. A face mais visível é a perda dos dentes naturais, com a consequente diminuição da capacidade mastigatória, mas não é a única tribulação. A medicamentação, doenças sistémicas como a diabetes, a síndrome de Sjorgen (doença crónica inflamatória na qual o sistema imunitário ataca e danifica órgãos e estruturas do próprio organismo, atingindo frequentemente as glândulas exócrinas [como as glândulas salivares, lacrimais e as glândulas da pele]) e os tratamentos oncológicos, nomeadamente a radioterapia à cabeça e pescoço contribuem, por exemplo, para um baixo nível de saliva no idoso, sendo a Xerostomia, ou “boca seca”, promotora e potenciadora de cáries, gengitives, risco de candidíase oral e outras sequelas na saúde oral. O tabagismo, o consumo excessivo de café e o stress também geram a hipofunção das glândulas salivares. A xerostomia pode ainda afetar o prazer na ingestão de alimentos, pela dificuldade na


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mastigação e deglutição e diminui a retenção das próteses removíveis podendo comprometer a dieta alimentar e fazer perder a vontade de ingerir alimentos. Uma higiene bucal rigorosa, o uso de dentífricos e tratamentos bocais adequados, a ingestão de muita água e uma dieta adequada pode ajudar a minorar estes sintomas. Os efeitos colaterais da idade e a falta de cuidados e vigilância fazem desta uma população de risco debilitada na sua saúde oral mas também, é importante ressalvar, mais informada hoje em dia e que reconhece e começa a valorizar o investimento na saúde oral. Revestem-se, pois, de particular importância as reabilitações, que devem ser cuidadosamente planeadas e tidas em conta essas alterações próprias da faixa etária, e também com o facto dos doentes apresentarem, na maioria dos casos, outras patologias e serem polimedicados. Qualquer que seja o tipo de reabilitação a ser operada, deverá ser escolhida tendo também presentes os aspetos psicológicos e a fragilidade emocional associados aos problemas do envelhecimento, doenças associadas e incrementados pela perda ou comprometimento avançado da dentição (fraca autoestima, isolamento, depressão). Há ainda a considerar o menor poder de adaptação das estruturas articulares tendo as próteses, sejam elas fixas ou removíveis, de ser elaboradas de maneira a estarem em harmonia com o funcionamento da articulação temporomandibular. Delimitaria os 60 anos como o marco ideal para iniciar os cuidados de saúde oral geriátricos abrindo assim uma janela de várias décadas de qualidade de vida e saúde. Quando iniciei a minha prática, as pessoas de 60 anos partiam de uma postura de que “já não valia a pena”, agora, os 60, e também os 70, já começam a ser encarados pelos pacientes como uma idade razoável e cada vez mais pertinente para se cuidar do sorriso e da saúde da boca e dos dentes, valorizando também, com crescente importância, a sua parte estética. Cabe ao profissional informar e divulgar os modernos tipos de reabilitação disponíveis para esta população, com tratamentos hoje em dia mais acessíveis, menos invasivos, menos demorados e praticamente indolores. Adaptando a célebre frase de Victor Hugo - “40 anos é velhice para a juventude, e 50 anos é juventude para a velhice” - diria que os 60 anos podem ser velhice para a juventude, mas são atualmente juventude para os tratamentos de saúde oral.

Aponto, em seguida, alguns dos casos mais comuns que surgem na prática clínica na população idosa e o tipo de intervenção realizada, tendo em conta todos os fatores anteriormente enunciados. Os tratamentos contra o cancro têm evoluído bastante ao longo do tempo, com melhorias muito significativas para o doente em termos de eficácia e de qualidade de vida, mas têm efeitos a longo prazo que necessitam de acompanhamento e cuidado. Entre as várias eventuais sequelas, esses pacientes podem apresentar problemas a nível dos dentes e das gengivas que não devem ser descurados. A quimioterapia, por exemplo, pode afetar o esmalte dos dentes e aumentar o risco de problemas dentários e altas doses de radioterapia na região da cabeça e pescoço podem alterar o desenvolvimento dos dentes, causar doenças da gengiva e diminuir a produção de saliva (xerostomia), provocando boca seca.

através da colocação de 4 a 6 implantes na região anterior dos maxilares, onde a densidade óssea é maior, permitindo a colocação de uma prótese fixa de 12 a 14 dentes, imediatamente, no próprio dia da cirurgia. Quando se tem todos os dentes em falta ou quando os dentes já não são viáveis, este é o método utilizado para devolver os dentes e consequentemente a harmonia e a juventude ao sorriso do paciente.

Antes e depois

Antes e depois

Figuras 3 e 4. Doente com falta de dentes e muitos estragos, mobilidade dentária e problemas periodontais.

O natural envelhecimento reflete-se nos dentes amarelados, mais curtos (bruxismo e desgaste natural) com espaçamentos e apinhamentos causados por problemas gengivais e mobilidade dentária.

Antes e depois Figuras 1 e 2. Doente oncológico - dentição comprometida pelos tratamentos de radioterapia às cordas vocais.

Esta impressionante reabilitação foi efetuada num paciente que passou por um processo de radioterapia nas cordas vocais para combater um tumor, que se consistiu numa curetagem subgengival seguida de destartarização, vital para assegurar a boa saúde das gengivas e reabilitação no maxilar superior com a colocação de facetas feldspáticas. É comum o paciente idoso apresentar falta dentes e muitos estragos, muita mobilidade dentária e problemas periodontais. A reabilitação indicada poderá passar por retirar os poucos dentes e colocar implantes de carga imediata. A técnica com o mínimo de 4 implantes é um procedimento cirúrgico e protético que consiste na reabilitação da maxila e da mandibula, com prótese fixa,

Figuras 5 e 6. Makeover dentário em doente de 60 anos com dentes envelhecidos e estética comprometida.

Na foto do depois, podemos ver o resultado, após curetagem subgengival seguida de destartarização, com a aplicação de três facetas resistentes e muito estéticas no maxilar superior e uma apenas no maxilar inferior.


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Alterações de comportamento na demência

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Desafios para quem cuida Medicina Geral e Familiar

O

Elisa Serôdio, Cristiana Pinto, Inês Varejão Sousa

envelhecimento populacional acarreta um aumento da prevalência das síndromes demenciais, das quais 80% têm causa degenerativa, como, por exemplo, a Doença de Alzheimer. A demência é uma síndrome caracterizada por deterioração progressiva das funções cognitivas (memória, linguagem, coordenação dos movimentos, perceção visual, função executiva). Embora os sintomas cognitivos sejam necessários para o diagnóstico, os Sintomas Psiquiátricos e Comportamentais de Demência (SPCD) podem dominar tanto a apresentação como a manifesta“Cerca de 90% dos doentes ção clínica da síndrome demencial. Cerca de desenvolvem Sintomas 90% dos doentes desenvolvem SPCD duranPsiquiátricos e Comportamentais te o curso da doença. São exemplos a agitade Demência (SPCD) durante o ção, agressividade, alucinações, desinibição curso da doença.” sexual ou distúrbios alimentares. Estes sintomas estão associados a aumento do uso de recursos de saúde, institucionalização precoce e aumento de morbimortalidade, além de diminuição de qualidade de vida do doente e do seu cuidador. Está já documentado que os cuidadores que lidam com estes sintomas apresentam mais frequentemente depressão e níveis elevados de stress.

Tradicionalmente, o tratamento deste conjunto de doenças centra-se na diminuição da deterioração cognitiva, sendo fulcral a intervenção também ao nível dos SPCD. A avaliação das alterações de comportamento deve ser realizada tendo em conta três eixos de avaliação: o doente, a interação com o cuidador e o meio envolvente. A procura de fatores desencadeantes, nomeadamente de causa orgânica, não deve ser negligenciada. Na abordagem dos SPCD e cuidados de doentes com síndrome demencial podem ser úteis terapias farmacológicas e não farmacológicas. As recomendações da Sociedade Americana de Geriatria e da Associação Americana de Psiquiatria Geriátrica sobre demência recomendam medidas não farmacológicas como tratamento de primeira linha, exceto em casos de psicose


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com risco de dano ao próprio ou a outros, depressão major e agressividade com risco para o próprio ou a outros. As medidas não farmacológicas incluem estratégias como a Terapia Comportamental (análise de padrões comportamentais do doente, desencadeadores, a ação e a consequência destes e sua discussão); Validação (resolução de conflitos não resolvidos); Reminiscência (discussão de experiências passadas) e Orientação na realidade (relembrar ao doente, por meio de pistas ou auxiliadores externos, factos sobre o próprio ou orientação temporal). Outras abordagens incluem programas de atividade física, musicoterapia, fototerapia, terapia com animais, estimulação multissensorial ou aromaterapia. As adaptações ambientais (ambiente tranquilo, agradável, iluminado e com objetos familiares) e a instituição de rotinas específicas (manutenção de horários e promoção de orientação temporal – colocação de relógios e uso da exposição à luz solar e evicção de situações desconhecidas), também são estratégias úteis. É importante não negligenciar a educação do cuidador sobre o tema e fornecer orientações para evitar o contacto físico para conter o comportamento, não levantar a voz, não castigar, falar devagar, com voz calma e tranquilizadora, aproximar-se da pessoa pela frente, para não a assustar, antecipar as vontades do doente e promover cuidados de segurança. As intervenções com foco nos cuidadores revelaram-se mais eficazes relativamente à diminuição da frequência dos SPCD, melhoria da confiança dos cuidadores e da comunicação cuidador-doente. São entraves à aplicação das abordagens não farmacológicas a ausência de formação na área e a restrição no tempo reservado à avaliação dos sintomas e aplicação das intervenções. Contudo, estas intervenções mostraram efeito benéfico não apenas no controlo dos SPCD, mas também no declínio cognitivo e nas atividades da vida diária.

“As intervenções com foco nos cuidadores revelaram-se mais eficazes relativamente à diminuição da frequência dos SPCD, melhoria da confiança dos cuidadores e da comunicação cuidador-doente.”

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As intervenções não farmacológicas complementam-se entre si e ao tratamento farmacológico, com a vantagem de não apresentarem efeitos adversos e não potenciarem interações medicamentosas. A nível do tratamento farmacológico existem diversas classes de medicamentos que podem ser úteis para o tratamento dos sintomas neuropsiquiátricos. Sendo o Médico de Família o profissional que presta cuidados de saúde longitudinais à pessoa com demência e à sua família, torna-se imperativo que tenha uma postura ativa no que concerne ao reconhecimento e

abordagem desta sintomatologia, de forma a melhorar a qualidade de vida do doente e do seu cuidador.

Referências bibliográficas 1. Direcção Geral da Saúde. Abordagem Terapêutica das Alterações Cognitivas. Lisboa, DGS, 2011. Norma n.º 053/2011. 2. Caramelli P, Bottino CM. Treating the behavioral and psychological symptoms of dementia. J Bras Psiquiatr, 56(2): 83-87, 2007. 3. Niedens M. The Neuropsychiatric Symptoms of Dementia: A Visual Guide to Response Considerations. Alzheimer’s Association – Heart of America Chapter, 2012.

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José Manuel Silva “Cuidar não é apenas ter atenção ao corpo, mas também ao espírito” texto e fotos por André Manuel Mendes

Aos 69 anos tem um longo percurso profissional ligado, sobretudo à área do ensino e, mais recentemente, à saúde e cuidadores e assistentes pessoais. José Manuel Silva é Presidente do Conselho de Direção da Escola Superior Saúde Santa Maria, no Porto, fundador e Presidente da Caregivers Portugal – Associação Portuguesa de Cuidadores, investigador e voluntário em organizações sociais. Nascido no Alentejo, é um “cidadão do mundo”, fez o mestrado na Universidade de Boston, nos Estados Unidos

da América (EUA), o Doutoramento na Universidade da Extremadura e uma pós-graduação em Gestão Estratégica de Universidades na Universidade Politécnica da Catalunha. Iniciou a sua vida profissional como professor do ensino secundário, passou para o superior nos anos 80 e fez grande parte da sua carreira profissional no Instituto Politécnico de Leiria onde chegou a Professor Coordenador. Desde 2013, fez um reset na carreira profissional e na vida pessoal, assumiu o desafio de liderar a Escola Superior Saúde Santa Maria


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(ESSSM), de se tornar cidadão do Porto e de se dedicar a questões no âmbito da formação em saúde, com particular atenção à emergência de novos especialistas em cuidados e assistência pessoal, tão necessários no apoio a pessoas com deficiências ou limitações de autonomia. As questões da educação não foram esquecidas, mas a evolução demográfica e a atenção crescente a quantos necessitam de apoios nas suas atividades de vida diária, fizeram com que o foco da sua atividade seja hoje muito mais direcionado para as áreas estratégicas da ESSSM que se preocupa em formar profissionais que possam prestar assistência e apoio em termos de enfermagem fisioterapia, cuidados pessoais, de que o curso de Gerontologia e cuidados de longa duração é exemplo e, no futuro, terapia ocupacional. A revista Dignus foi conhecer o percurso pessoal e profissional de José Manuel Silva, um homem que ao longo da sua carreira foi acumulando conhecimento e experiências muito diversificadas, incluindo gestão autárquica, o que a par da sua sensibilidade social e do espírito de missão com que se envolve em tudo o que faz, lhe permitem ter uma forma muito peculiar de analisar a realidade social e demográfica do tempo presente e os grandes desafios que se nos colocam em termos de longevidade e de apoios para que o envelhecimento e as limitações de autonomia sejam vividos sem dramas e sempre com um projeto de vida positivo.

Dignus: Como vê a realidade do envelhecimento em Portugal? Quais os principais desafios de ser idoso nos dias de hoje? José Manuel Silva (JMS): Os principais desafios com que os idosos se deparam são principalmente dois: um deles é que estamos a envelhecer mas não estamos preparados para envelhecer, as pessoas não se preocupam com o envelhecimento ou só se começam a preocupar quando estão efetivamente a envelhecer, e essa atitude tem que ser corrigida. Por outro lado, a sociedade portuguesa, tal como grande parte das sociedades, não está preparada para uma realidade em que a esmagadora maioria das pessoas chega a idades avançadas e não existem estruturas para as acolher. Há ainda um problema adicional, é que as pessoas envelhecem e a sua situação económica deteriora-se também, ou seja, temos um quadro onde as pessoas per-

dem qualidade de vida em termos pessoais e financeiros, e isso é uma preocupação que tem que nos mobilizar. Em Portugal temos um grande problema pois temos níveis de envelhecimento semelhantes aos dos restantes países, mas envelhecemos com menos qualidade porque temos menos saúde e um nível económico-social e financeiro mais baixo. Dignus: Tendo já na sua formação passado por diversos países como Espanha e Estados Unidos da América, como encaram a realidade do envelhecimento nesses países? JMS: A forma como hoje as sociedades mais desenvolvidas encaram o problema do envelhecimento é semelhante, o que muda são as condições financeiras e a cultura dos países. Em Portugal ainda há uma certa tradição de proximidade familiar, mas estamos a avançar rapidamente para níveis de cuidados profissionais que outros países já alcançaram. Cada vez mais as famílias podem cuidar dos seus entes queridos e são necessários mais prestadores profissionais de cuidados com qualificação adequada. Em muitos países já é corrente as pessoas, há medida que vão envelhecendo, trocarem de residência procurando casas mais pequenas e mais funcionais, o que facilita a sua autonomia e a prestação de cuidados. Em Portugal quem faz isso é uma minoria, por razões culturais e financeiras, o que torna muito mais difícil a independência e a manutenção de melhores condições de vida. Por outro lado, ainda não há preocupação de se construírem casas flexíveis a pensar em adaptações mais fáceis quando surge um problema de saúde limitador de autonomia e de independência. No âmbito do projeto ICAVI, em que estamos a trabalhar, há uma equipa da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto a trabalhar nessa área. Dignus: Quais as principais preocupações em que se centra a investigações nesta área? JMS: Aquilo que nos preocupa mais é tentar perceber como podemos melhorar as condições de vida das pessoas mais idosas ou com limitações de autonomia. Hoje em dia o conhecimento sobre o envelhecimento está muito avançado e o que é urgente e necessário é fazer um esforço suplementar para percebermos como podemos dar melhor qualidade de vida às pessoas, recorrendo a profissionais muito qualificados e a todas as ferramentas e serviços disponíveis, incluindo a utilização das tecnologias e da inteligência artificial.

Um aspeto decisivo são os cuidadores pessoais/assistentes pessoais, pois há algo que nada substitui, o afeto, o carinho, a atenção ao outro, e aí entra a formação dos cuidadores, quer dos formais, quer dos informais, estes últimos também têm uma importância enorme, nomeadamente num país em que ainda há muitas famílias que cuidam dos familiares. Já é positivo ter um Estatuto do Cuidador Informal, mas a legislação não basta, é necessário regulamentar o Estatuto. Estamos todos na expetativa. Dignus: Estão as instituições adaptadas às diferentes necessidades dos idosos e com respostas adequadas, ou ainda se assiste ao modelo tradicional do lar de idosos? JMS: É preciso fazer um esforço muito grande para mudarmos a nossa perspetiva face à institucionalização, porque instalou-se em Portugal a ideia de que a melhor solução seria institucionalizar as pessoas, colocá-las num lar, quando as famílias não conseguem tratar delas. Mas esta solução é muito despersonalizadora e hoje em dia começa a ganhar força uma orientação completamente diferente, o Ageing in Place, isto é, envelhecer nas suas casas, nas suas comunidades, sem que as pessoas se desenraizem. Este caminho não é fácil, é mais simples criar equipamentos onde se agrupam as pessoas, até politicamente é mais vistoso, mas é urgente e necessário e isso passa por incrementar as redes de cuidados, o diálogo interinstitucional, juntar esforços, abandonar a tradição dos silos, dos quintais privados, e passar a trabalhar em conjunto, em comunidade. É um enorme desafio que temos pela frente, mas não tenho dúvidas que é a melhor solução. A institucionalização deve ser apenas o último recurso, o último capítulo de uma vida que se apaga.


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Há um ditado popular africano que diz que para educar uma criança é preciso uma aldeia, e neste caso podemos dizer que para cuidar de um idoso ou de alguém com autonomia limitada é preciso uma comunidade. Temos de olhar para estas realidades de uma forma global e sistémica. Dignus: De que forma se podem identificar e tentar colmatar as carências sentidas por esta faixa etária que é tendencialmente mais vulnerável? JMS: Na escola criámos um programa denominado “vintAgeing Mais Felizes” destinado a pessoas isoladas que são autónomas, mas um problema ainda mais grave são as pessoas idosas que não podem sair de casa, são invisíveis, e essas têm muito pouco suporte. Estarão identificadas nalguns casos, pela GNR e PSP, mas esses dados não são partilhados e o apoio acaba por falhar em muitos casos, para não dizer na maioria. A invisibilidade da velhice e da pobreza são uma chaga social e essas pessoas são a quem menos apoios chegam, não se queixam, não se manifestam, carregam a sua cruz no silêncio e, muitas vezes, com a nossa indiferença. Claro que há muitas organizações, Misericórdias, IPSS, autarquias, Segurança Social e outras envolvidas, mas falta diálogo cruzado, trabalho em rede, planeamento, rentabilização de recursos. Veja-se o que se passa com os sem-abrigo, é apenas um exemplo, há uma miríade de organizações a trabalhar na área e quantos se tiram da rua? Por vezes, os apoios sobrepõem-se, porque todos querem aparecer, mostrar serviço, e quem cuida da eficácia das ações? Veremos se os NPISA (Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo) conseguem desmentir esta triste realidade. Dignus: O que é a Caregivers – Associação Portuguesa de Cuidadores e qual o intuito da sua criação? JMS: Em Portugal não existe a carreira profissional de cuidador(a), existem pessoas que fazem esse tipo de trabalho do ponto de vista profissional, mas que não são designados como cuidadores, são auxiliares de ação médica, auxiliares de lares, assistentes operacionais que também desempenham essas tarefas. Nós temo-nos empenhado muito na criação e dignificação de uma carreira de cuidadores, ou seja, o reconhecimento dos Cuidadores Profissionais. Nesse sentido criamos a Caregivers Portugal – Associação Portuguesa de Cuidadores, que é uma associação que em grande medida nasceu da nossa preocupação com os nos-

sos diplomados, pois estes quando chegam ao mercado são integrados em carreiras em Portugal que não têm enquadramento para estes novos diplomados do ensino superior. A Caregivers tem procurado chamar a atenção para a importância dos cuidadores pessoais formais e para a importância da criação de uma profissão estruturada e reconhecida. Os cuidadores informais/familiares são muito importantes, mas os formais são cada vez mais necessários e é da formação destes que a ESSSM se ocupa. O ato de cuidar é mais do que fazer tarefas básicas, cuidar não é apenas ter atenção ao corpo, mas também ao espírito. Por vezes precisamos mais de um carinho ou de um abraço do que propriamente que nos tratem bem do corpo. Um cuidador tem de ser cada vez mais um profissional muito qualificado, com conhecimentos variados que vão da execução de tarefas de higiene e limpeza a procedimentos técnicos complexos, um formação muitifacetada que inclua componentes da psicologia, da sociologia, do relacionamento interpessoal, das patologias mais recorrentes e das suas consequências,

“(...) todos nós vamos ser chamados a ter um papel ativo não só porque vamos envelhecer mas também porque vamos ter que cuidar.” entre outras, pelo que não podemos continuar a pensar que qualquer pessoa com boa vontade e algum espírito prático serve para cuidar de nós em situações específicas de fragilidade e dependência. Para além do mais temos de encarar estes problemas como questões de direitos e de cidadania. Dignus: Qual a sua visão sobre a recente aprovação do Estatuto do Cuidador Informal? O que ainda é necessário fazer?

JMS: Julgo que é um passo muito positivo, mas é ainda e apenas um primeiro passo. Temos que esperar a aprovação da regulamentação do estatuto e depois ver a forma como vai ser implementado. No entanto, tem havido, por variadas razões, um empolamento da situação dos cuidadores informais, que melhor seria designar por familiares, em detrimento dos formais que são profissionais e que são igualmente fundamentais na prestação de cuidados especializados. Isto tem tido um efeito perverso pois tem contribuído para desvalorizar o papel dos cuidadores profissionais, muitas vezes com o aval das instituições empregadoras que contratam profissionais diferenciados e os colocam a todos a realizar as mesmas atividades. Uma das situações recorrentes são os auxiliares de ação médica e os assistentes operacionais a exercerem exatamente as mesmas funções em regime de rotação, quando os seus perfis profissionais são muito diferentes, situação generalizada a outras categorias dado que face à inexistência de uma carreira e de uma profissão regulamentada de cuidador pessoal/assistente pessoal o que vigora são os instrumentos reguladores dos vários setores. É muito importante que se dê o real valor a esta profissão emergente de profissionais cada vez mais qualificados e mais conscientes de que o seu trabalho não é apenas de tratar do corpo das pessoas, mas também do seu espírito, dos seus afetos, do seu lado pessoal e emocional. Dignus: Olhando para a nossa realidade social e política atual, como antevê o futuro do envelhecimento em Portugal? JMS: Acho que hoje estamos mais preparados do que estávamos há algumas décadas, mas ainda há muito caminho para fazer, sobretudo através da mobilização da sociedade para esta realidade. É preciso que nos convençamos que não é só às instituições e aos outros que compete tratar deste assunto, não é só às famílias que têm pessoas idosas, não é só à Segurança Social, é a todos nós, é uma tarefa que nos toca a todos até porque todos vamos envelhecer. É preciso que a sociedade em geral se consciencialize que o processo de envelhecimento é um processo normal e natural, que envolve toda a gente e, portanto, todos nós vamos ser chamados a ter um papel ativo não só porque vamos envelhecer mas também porque vamos ter que cuidar e ser cuidados. Como dizemos na Caregivers Portugal, “Todos somos cuidadores, todos precisamos de cuidados”.


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Nuno Ribeiro “É importante abrir horizontes para um conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área” texto e fotos por André Manuel Mendes

A transição digital é um custo ou um investimento? Esta é uma das principais questões com que as instituições e empresas da área social se deparam num quotidiano cada vez mais exigente, onde se procuram ferramentas e soluções que permitam agilizar o trabalho e os cuidados aos idosos. Foi com o intuito de dar uma resposta efetiva que nasceu um projeto alavancado por um conjunto de jovens empreendedores. Chama-se GeriCarePro e é uma aplicação web de gestão de unidades geriátricas, paliativas e continuadas, nomeadamente para uma gestão clínica e operacional. Esta plataforma permite um melhoramento da operacionalização das unidades, e tem como principal foco a agilização dos processos e uma poupança efetiva de custos para a entidade. Nuno Ribeiro, farmacêutico de profissão de base foi um dos mentores deste projeto. Exerceu durante 10 anos a profissão de farmacêutico comunitário mas a sua visão e veia empreendedoras fizeram com que se aventurasse numa nova realidade. O seu irmão, Hugo Ribeiro, começou desde cedo a especializar-se na área da Geriatria, quer medicina paliativa quer cuidados continuados, e desafiou Nuno Ribeiro a criar algum tipo de aplicação web, inexistente e especializada face às necessidades que os profissionais de saúde sentiam, e ao mesmo tempo o mais diferenciado em termos científicos. “Não queremos ser uma mera plataforma de registos de entradas de tarefas, sinais vitais, queremos ter sempre uma componente científica o mais avançada possível”. A Meritposition, empresa criadora do GeriCarePro, é composta por uma equipa de 5 elementos: Nuno Ribeiro, CEO e responsável financeiro; Hugo Ribeiro, médico especializado em Geriatria, medicina da dor e medicina paliativa, responsável pela parte científica de toda a aplicação; Pedro Caetano, médico especializado em hidrologia, medicina aeronáutica e economia da saúde, que dá o seu contributo na parte do negócio e da comunicação do mesmo; João Pedro, Programador Chefe que coordena a equipa de programação; e Gonçalo Ramos, Engenheiro Informático que está no controlo de qualidade, ou seja, no desenvolvimento de testes na plataforma. Estão no mercado desde setembro/outubro de 2019 e têm uma série de objetivos, projetos e parcerias para o futuro. A revista Dignus foi conhecer o GeriCarePro e falou com Nuno Ribeiro, empreendedor que admitiu que é “importante abrir horizontes para o conhecimento técnico e científico mais atualizado nesta área”.

Dignus: O que é o GeriCarePro? Nuno Ribeiro (NR): O GeriCarePro é uma aplicação web de gestão de unidades geriátricas, paliativas e continuadas, nomeadamente para gestão clínica e operacional, ou seja, tudo o que esteja relacionado com processos das rotinas diárias como registo na plataforma dos utentes, controlo das tarefas, avaliações, ocorrências, entre outros. Na parte legal e logística obrigatórias atualmente, quer seja uma unidade social ou privada, queremos facultar ferramentas de gestão que deem uma resposta efetiva às necessidades. Na parte clínica queremos de ter o que de melhor e mais atualizado pode existir no mercado e, para tal, temos algumas funcionalidades que nos diferenciam no mercado. Em Portugal há uma grande diversidade de gestão, logística, operacionalidade das unidades, não é como em diversos países europeus onde as instituições se regem por determinadas guidelines, ou seja, há uma uniformidade de processos. Dignus: E que tipo de funcionalidades se podem encontrar na plataforma? NR: Uma das funcionalidades que temos atualmente incorporadas e que nos diferencia no mercado chama-se Critérios de Beers, critérios de medicação potencialmente inadequada, que analisam uma potencial descontinuação/retirada de medicamentos. Não


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queremos com isto substituir-nos ao decisor clínico, o médico, queremos ser um auxiliar de decisão. Temos ainda um diagrama corporal que ajuda na identificação de lesões, da sua gravidade e o seu acompanhamento, as escalas de avaliação geriátrica global com avaliação cognitiva, nutricional, motora, entre outros, que vai permitir aos técnicos de saúde intervir, mas também ao medico poder prescrever medicação mais adequada a cada doente. Esta plataforma possibilita uma visão integrada, totalmente na mesma área, sem haver menus diferentes, para que todos os profissionais possam interagir de uma forma objetiva, simples e prática. Dignus: Os dados são sempre inseridos pelo profissional de saúde ou contam com algum sistema para monitorização da condição do utente? NR: Para já ainda não há nenhum hardware, mas está em estudo. A sua implementação está a ser analisada numa relação custo/benefício. Colocam-se duas questões, se o mercado quer um sistema desse género e se está disponível para pagar por esse serviço. Interessa-nos fazer esse upgrade? Sim interessa, mas acarreta sempre tempo e investimento adicional. Temos atualmente alguns equipamentos que irão entrar em fase de testes, mas não é a nossa prioridade. Nesta fase é muito mais importante para nós a internacionalização da aplicação que está já em 5 línguas (português, português do Brasil, francês, espanhol e inglês), do que propriamente a integração de hardware. Mas se sentirmos que o mercado nos pede essa integração estamos disponíveis para integrar qualquer tipo de equipamento, seja para medição de glicémia, pressão arterial, sensor de quedas, entre outros. E temos outros projetos. Para já esta aplicação é para ser usada num circuito interno de uma instituição pelos profissionais que lá trabalham, mas pode ser aberta a outro tipo de público, como por exemplo os cuidadores. Dignus: Que representatividade tem o mercado português para a empresa e qual a importância da internacionalização da plataforma? NR: O processo de decisão em Portugal não é fácil nem rápido. Se pensarmos que grande parte das unidades em Portugal ainda são sociais, estamos a falar sempre de um processo de decisão complexo porque implica a perceção de que ter um software de gestão é um investimento ou é um custo. Infelizmente muitas das vezes vê-se como um custo. Em Portugal ainda não chegamos à fase em que o familiar

tem como ponto do processo de decisão o facto de a unidade estar ou não digitalizada, ou seja, o facto de saber a rastreabilidade dos processos do seu familiar. Temos atualmente alguns clientes em Portugal, temos muitos contactos previstos, mas a internacionalização é muito importante para nós, e estamos já presentes no Brasil, um mercado que tem uma grande capacidade de incorporação de novas tecnologias que tem pouca oferta nesta área. Queremos despertar consciências para a sociedade, grupos de utentes, família, que para além do preço, da qualidade do serviço, localização, fatores de enfermagem e cuidados médicos, que devem também incluir no processo de decisão a questão da digitalização. Dignus: Que tipo de formação facultam nas instituições para a utilização da vossa plataforma? NR: Damos formação no processo de instalação de uma plataforma que funciona na cloud, não é um software que é instalado num dispositivo. Deslocamo-nos à instituição, conhecemos a equipa, vemos as suas necessidades, damos os nossos conselhos e informações relevantes para a transição digital. O suporte pode ser dado fisicamente quando nos deslocamos às instalações, podemos ajudar na instalação da aplicação, na dinâmica da equipa com a aplicação, sendo que posteriormente a equipa vai desenvolver a sua própria dinâmica. Pode também ser dado remotamente através de Skype, por acesso remoto, ou através da nossa aplicação que permite comunicar um determinado problema numa determinada página de uma forma simples e intuitiva. Neste momento temos uma grande disponibilidade para colaborar no desenvolvimento de novas funcionalidades ou na melhoria de funcionalidades existentes.

“Não queremos ser uma mera plataforma de registos de entradas de tarefas, sinais vitais, queremos ter sempre uma componente científica o mais avançada possível”

Dignus: Em 2019 foram distinguidos com o prémio internacional Headstart para a região InnoStars atribuído pelo EIT Health. Qual a importância deste reconhecimento? NR: O EIT Health é um consórcio independente ligado à Comissão Europeia, que tem como sócios as principais indústrias e universidades público-privadas da Europa. Estes recebem financiamento para ajudar startups que estão em processo de desenvolvimento de ideia, outras em processo final de ideia, que era o nosso caso, e ainda programas de aceleração para empresas que já estão no mercado. Todos estes prémios focam-se também no processo de internacionalização das empresas. Portugal pertence a uma região denominada InnoStars. Nesta região foram 15 as empresas premiadas, em Portugal foram 3, no caso de empresas diretamente relacionadas com o envelhecimento ativo com uma aplicação web deste género fomos a única. Recebemos um financiamento que nos permitiu fazer a transição para o mercado em meados de setembro, investimos em marketing, programação, e estamos neste momento em processo de mentoria com o EIT Health. Dignus: As novas tecnologias como o GeriCarePro terão um papel preponderante no futuro do envelhecimento? NR: Obviamente esse é o futuro. A geração entre os 35 e os 45 anos atualmente vive com a tecnologia e fez parte de toda esta transformação digital e, como tal, eu não acredito que daqui a alguns anos queiram estar numa instituição que não tenha um suporte digital. Isso é o futuro, vai acontecer para qualquer setor. Eu enquanto familiar de pessoas institucionalizadas ou que poderão vir a estar institucionalizadas no futuro vou estar muito mais sensível a este tipo de questões. No futuro vamos saber de uma forma segura e rastreável todos os processos e cuidados de saúde que nos foram dados. No caso das plataformas geriátricas poderão encaminhar-se para uma comunicação com os SPMS. Eu acredito, a minha equipa acredita, e qualquer pessoa ligada a esta área acredita que isto vai ser o futuro. Mas isto não quer dizer que por terem uma plataforma digital passam a ter qualidade, não, nós somos apenas um auxiliar à decisão. É preciso perceber se a transformação digital é um custo ou é um investimento. Nós fizemos um piloto durante 9 meses em 222 utentes de 3 instituições sociais e privadas, em que lidamos com diversos tipos de realidades, e temos provas do benefício do digital, no nosso caso do GeriCarePro.


Entrevista | 49

“Estamos aqui para ajudar, para tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”

texto e fotos por

André Manuel Mendes

Ajudar os outros é mais do que uma simples ação, é dar um pouco de nós a quem mais precisa, é falar a “linguagem do amor”. Cristina é cabeleireira e Susy trabalha na área da protética dentária, e entre os afazeres do trabalho e da família do dia a dia, conseguem encontrar um espaço na sua agenda para ajudar quem mais precisa. São ambas o rosto da Ajuda Para Todos (APT), um grupo de amigos que se juntou para tentar chegar a todos que precisam de ajuda, sejam eles sem-abrigo ou famílias carenciadas. Todas as sextas-feiras este grupo de pessoas tem a disponibilidade para dar uma refeição quente aos sem-abrigo da Baixa do Porto1, e diariamente procuram dar resposta às necessidades de cidadãos e famílias carenciadas. A revista Dignus foi conhecer de perto este projeto e paixão de Cristina e Susy, duas mulheres que têm apenas um grande objetivo, “tornar a vida dos outros um pouco mais fácil”. 1

Estima-se que sejam perto de 600 os sem-abrigo apenas na cidade do Porto.

Dignus: Como nasceu a APT e em que consiste esta iniciativa? Susy Freire (SF): A APT foi fundada depois de eu ter feito voluntariado noutro grupo, que não me preenchia na totalidade, optando assim por criar um grupo próprio com o intuito de ajudar famílias carenciadas e sem -abrigo. Dignus: O que fazem nas vossas ações, desde a etapa de preparação até irem para o terreno? SF: Primeiramente temos que angariar e preparar a semana, ver quem vai fazer a sopa, quem é o restaurante que vai cozinhar, senão temos que procurar quem cozinhe as refeições. Eu cozinhei durante dois anos para a APT, fechava a minha empresa às 17h, mas neste momento não me é possível porque o restaurante onde eu cozinhava fecha mais cedo. Por sorte temos a Cristina que nos deixa cozinhar no seu salão porque senão tínhamos que sair para a rua apenas com sandes. Mas arranjava-se sempre alguma coisa para eles comerem, sendo que a sopa é o essencial e tentamos sempre que nunca falte. Dignus: Quando são as vossas saídas para a rua?

Cristina Moreira (CM): A nossa saída é à sexta entre as 20h30 e as 20h45, mas como a cozinha que aqui tenho é pequena tenho que cozinhar enquanto trabalho, fazendo depois as recolhas pelo caminho. Eu tenho que colocar o fogão a funcionar pelas 17h. Normalmente os restaurantes dão massa com acompanhamento, é algo que preenche o estômago das pessoas e é fácil de se fazer. Quando confeciono as refeições no salão tento fazer algo diferente para as pessoas, aproveitando o que os doadores nos dão de boa vontade. Temos que juntar todos os grãos que recebemos durante a semana para que há sexta-feira tenhamos farinha feita. SF: Temos que nos preocupar com o que vamos ter para a próxima semana, mas temos que ter sempre alimentos em stock. Tentamos que nunca falte stock para irmos para uma sexta-feira com tudo aquilo que eles merecem. Dignus: A equipa da APT é composta por quantas pessoas? CM: É muito variável. Devemos destacar que para além dos sem-abrigo que apoiamos na Baixa da cidade do Porto, também ajudamos algumas famílias com necessidades que são por nós identificadas. Normalmente dividimos a tarefa entre as duas, a Susy assegura o stock para essas famílias enquanto eu asseguro o stock para a Baixa. E quando falamos em stock não falamos apenas de comida, mas também de pratos, guardanapos, colheres, copos. Temos também que ter capacidade para doar o “Kit do dia seguinte”, um saco com mais uma refeição para o dia seguinte composto por um sumo, sandes, bolachas e fruta, para que não estejam sem comer nada durante um longo período de tempo. SF: Queremos garantir que estas pessoas tenham mais uma refeição porque depois do


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jantar de sexta eu sei se só voltariam a comer no jantar de sábado… e isso a mim não me faz sentido. Dignus: Como se conseguem conciliar todo o trabalho e vida pessoal com este voluntariado? CM: Tenho uma resposta muito simples para isso, com boa vontade, com bom coração. Claro que abdicamos de muito de nós. No meu caso envolvo a minha família, vou para a Baixa com as minhas filhas. Não é preciso ter dinheiro porque com doações tudo se faz, é preciso é ter boa vontade. Quando a dor dos outros é sentida por nós, não conseguimos simplesmente não fazer nada. Dignus: O que mais necessitam na APT? De que forma as pessoas podem ajudar? CM: Com alimentos básicos, nomeadamente temos pouco stock de sumos individuais de 250 ml que colocamos no “Kit do dia seguinte”. As carnes que usamos para cozinhar e que damos nos cabazes para algumas famílias também temos muitas dificuldades em ter regularmente para dar. SF: Mensalmente necessitamos de cerca de 380 a 400 sumos pequenos, 400 taças, colheres e copos, é o que mais precisamos. Dignus: Têm parcerias com restaurantes que vos ajudam e doam refeições? CM: Temos algumas parcerias sim, não cobrem a totalidade das semanas do mês, mas ajudam-nos bastante. Para além dos restaurantes temos também confeitarias que nos doam as sobras dos bolos e do pão, para além de uma confeitaria que coze semanalmente 100 pães para a APT. Dignus: Quantas pessoas dão apoio semanalmente? CM: Cerca de 70 pessoas por semana na rua, para além das cerca de 6 famílias que auxiliamos. Dignus: E que pessoas são essas? CM: São desde pessoas idosas que na maior parte das vezes nem conseguem comer em pé porque têm dificuldades ou usam moletas. Temos também aquelem sem-abrigo adictos que anda por aí a deambular, bem como pessoas que tiveram de deixar as suas casas por infortúnios da vida e que têm que viver no quarto de uma pensão, mas que o dinheiro não chega para comerem. SF: Nestes casos ou comem ou pagam uma renda. Já aconteceu de nos aparecerem famílias inteiras, com crianças. Nunca quis ter

“Basta a linguagem universal do amor que o resto resolvemos.” crianças nas “filas” e tentamos garantir todas as semanas alimentos para terem em casa. CM: As crianças aumentam nas “filas” na altura das férias de Natal porque muitas das crianças a única refeição que fazem é na escola. Estamos aqui para ajudar, para tornar a vida dos outros um pouco mais fácil. Há dias de muito frio, chuva e vento. A Baixa do Porto é muito fria e é horrível estar na rua à noite. As minhas colegas perguntam-me muitas vezes: “Tu vais Cristina? Com as tuas filhas? A tua filha é asmática! Já viste o frio que está?”, eu respondo que quando sair de lá as minhas filhas têm uma refeição quente e uma cama à espera delas, e aquelas pessoas que lá ficaram vão ficar no sítio onde as deixamos, na rua. Dignus: Os idosos são uma classe naturalmente mais frágil. Quem são essas pessoas que encontram na rua? Quais as suas histórias e o que as levou para esta situação? CM: Temos um senhor que vive sozinho e que tem que optar por comer ou comprar os medicamentos com a sua reforma. SF: Temos outro caso de um senhor que faleceu recentemente que procurava emprego, e conseguiu, mas como o salário não era suficiente para pagar renda, contas e alimentação, a sua esposa vinha sempre para a “fila” buscar as refeições. Tentamos dar-lhes sempre o maior carinho possível, porque aquelas pessoas que ali estão precisam de uma palavra amiga. Falar com eles e dar-lhes atenção é muito bom. CM: Estar ali na Baixa junto dos sem-abrigo é uma autêntica lição de vida. Acredite que somos verdadeiros príncipes e princesas. A nossa sociedade ainda encara muito os sem abrigo como lixo… O sem-abrigo precisa de tanto de ajuda como nós, dentro daquela pessoa existe um coração apertado e um cérebro que pensa e sofre, e se nós podermos contribuir para que sofra um bocadinho menos já valeu muito a pena. Há muitos idosos na rua, porque isto é uma sociedade de costas voltadas. Há 3 anos con-

seguimos uma enfermeira que foi para a rua vacinar os idosos contra a gripe porque essas pessoas não existem para o Estado, não podem sequer tirar o seu cartão de cidadão porque não têm uma morada. Dignus: Como veem a gratidão nessas pessoas? CM: Fazem-nos chorar muitas vezes. Já me aconteceu chegar à Baixa e ter uma sem-abrigo a dar-me uma flor, que me deixou logo emocionada. À minha filha dão rebuçados, flores, ganchos para o cabelo. Mas é principalmente aquele abraço, aquele obrigado, isso é tão bom. Aquela pessoa que come a sopa, a refeição, come um bolo e toma café, é tão bom saber que saiu dali quentinho. Na Baixa só precisamos de ter amor ao próximo, e com a linguagem do amor resolvemos tudo. Basta a linguagem universal do amor que o resto resolvemos. Dignus: E o que esperam para futuro? SF: Esperávamos que a fila diminuísse. CM: Mas tem tendência a aumentar cada vez mais. Aquela gente que é sem-abrigo, sejam homens ou mulheres, são gente que porventura um dia contribuiu muito para o nosso país, e está ali muito potencial desaproveitado. Gostava que mudasse a nossa atitude perante os sem-abrigo, que não nos lembrássemos delas só em épocas especiais.

Para apoiar esta iniciativa pode contactar através da página do Facebook da APT – Ajuda Para Todos. Pode igualmente dirigir-se ao Cabeleireiro Corte e Cabelo, na Rua dos Bombeiros Voluntários de Valbom, n.º 81, espaço que serve de ponto de recolha de roupa, calçado, bens alimentares e doações monetárias. Há também outros pontos de recolha, basta contactar a APT para informações sobre o ponto de recolha mais próximo de si.


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Um espaço de conforto e saúde Nascido pelas mãos de um homem da terra com a vontade de poder oferecer aos habitantes da região um serviço de apoio às suas incapacidades, o Solar das Camélias veio suprimir uma lacuna existente na zona envolvente de Ribeira de Fráguas e Albergaria-a-Velha. Com um conjunto de serviços que respondem às necessidades de todos os residentes, o Solar das Camélias conta com um conjunto de profissionais qualificados que garantem a quem usufrui do espaço a máxima atenção e cuidados no seu dia a dia.

M

anuel Lourenço, o administrador, adquiriu o edifício das atuais instalações do Solar das Camélias nos anos 90. DeFax: +351 234 540 069 voluto e a necessitar de uma intervenção de raiz para que info@solardascamelias.pt se pudesse transformar num espaço de excelência em cuidados de www.solardascamelias.pt saúde, de imediato começaram as obras e o projeto começou a ganhar vida. Longe da cidade e imerso no sossego do campo e do verde da natureza, o Solar das Camélias conta com uma equipa composta por 30 colaboradores, entre eles efetivos e externos, bem como um conjunto de serviços como alojamento permanente e temporário, cuidados higiene e conforto, serviço de medicina familiar, serviço de enfermagem, serviço de fisioterapia, animação sociocultural, apoio psicossocial, serviço de refeições, “(...) o Solar das Camélias conta serviço de lavandaria, acompanhacom um conjunto de profissionais mento personalizado nas deslocaqualificados que garantem a quem ções ao exterior, e ainda cabeleireiro usufrui do espaço a máxima atenção e estética. Esta instituição tem uma e cuidados no seu dia a dia.” capacidade para 38 residentes, em Solar das Camélias Tel.: +351 234 540 060

quartos duplos ou individuais, sendo que a maioria dos residentes são grandes dependentes. Releva-se a importância atribuída pela administração na contínua aposta na formação e certificação geriátrica das suas colaboradoras, uma estratégia que pretende potenciar a instituição a oferecer mais e melhores serviços. Paralelamente outros projetos estão a ser estudados como a ampliação das instalações ou ainda a aposta no turismo sénior, projetos esses que são metas a cumprir para o futuro. O Solar das Camélias tem como objetivo permanente continuar a ser uma referência no alojamento e prestação de serviços à população sénior, na região Centro.

Comodidades do Solar das Camélias »» Quartos individuais, duplos ou de casal (com WC privado, televisão, telefone e aquecimento); »» Salas de estar diferenciadas »» Salão de beleza; »» Gabinete médico; »» Gabinete de enfermagem e fisioterapia; »» Bar; »» Envolvência do meio rural – ambiente tranquilo; »» Amplos espaços verdes naturais e ajardinados; »» Recursos humanos com formação profissional especializada; »» Acesso à Internet.


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Mobilidade reduzida: o risco na hora do banho Dicas para transformar o banho seguro, acessível e confortável

Stannah Tel.: +351 808 918 388 info@stannah.pt www.stannah.pt

O Stannah Especialista em mobilidade reduzida 150 anos de experiência

quarto de banho é, provavelmente, a divisão mais subvalorizada das nossas casas. Talvez por fazer parte da nossa rotina diária, acabamos por não lhe dar muita importância até que algo nos impeça de o usar em segurança. Ora, esta divisão da casa merece melhor atenção na senescência ou por motivos de doença e co morbilidades, comuns na população sénior. Fazer uso do quarto de banho passa, então, a tornar-se uma preocupação e até algo perigoso. Basta imaginar: o piso escorregadio; os azulejos molhados; as barreiras arquitetónicas; a força e equilíbrio que não a mesma de outrora e como tudo conjugado pode resultar em uma queda desastrosa. O próprio ato de tomar banho, outrora usufruído como um momento de prazer, passa a ser um motivo de grande preocupação e, muitas vezes, tonar-se num verdadeiro constrangimento. “Na análise do último relatório publicado pelo Observatório Nacional de Saúde, a grande maioria dos acidentes ocorre em casa (>65%), nas escadas e no quarto de banho, e o principal mecanismo da lesão foi a queda, apresentando uma frequência de 76% entre os 65-74 anos e de 90% no grupo etário com mais de 75 anos…” Muitas pessoas com mobilidade reduzida veem-se, então, obrigadas a pedir ajuda a um familiar para conseguir usar o quarto de banho em segurança, sujeitando-se à perda de privacidade; mas outras, mais reservadas, consideram esse recurso um ataque à sua dignidade e privacidade, preferindo sujeitar-se à possibilidade

de escorregar e sofrer incidência ou mesmo prevalência de quedas. Podemos julgar estas pessoas? Em boa consciência, nunca o faríamos; basta colocarmo-nos no lugar destas pessoas, por um momento que seja, e é fácil ver como também não gostaríamos de viver dependentes de alguém para uma atividade básica de vida diária, como tomar um banho.

Envelhecer em casa: um quarto de banho acessível, um banho seguro Felizmente, hoje em dia já existem muitas formas de combater a insegurança no quarto de banho e devolver a um idoso ou uma pessoa com mobilidade reduzida a autonomia, independência e sensação de segurança, para poder fazer uso pleno do quarto de banho, especialmente na hora da sua higiene. Por todo o quarto de banho existem pequenas, mas importantes, alterações que podem ser feitas, promovendo maior acessibilidade e segurança nesta divisão da casa. Destacamos algumas, das muitas que possam existir:


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Mais iluminação: à medida que a idade avança, diminui a nossa acuidade visual e é muito importante garantir a melhor iluminação possível para maior conforto visual. Ajustes de altura: Elevar a altura da sanita ou colocar um alteador e assento sanitário pode fazer toda a diferença, promovendo uma utilização sem dores ou receio de cair. Pavimento antiderrapante: sair do banho ou até mesmo caminhar no interior do quarto de banho pode representar risco enorme quando o nosso equilíbrio e força não é o mesmo doutrora. Os pavimentos antiderrapantes vão promover uma deslocação mais segura e cómoda, ajudando a prevenir males maiores. Torneira de alavanca: É verdade, quando a nossa força e equilíbrio diminui, o ato de abrir e fechar uma torneira pode ser uma barreira na utilização completa do quarto de banho. Substituir as torneiras de roscas por torneiras de alavanca vai promover a facilidade de utilização, eliminando mais uma barreira no acesso completo ao quarto de banho.

E na hora do banho… A hora do banho é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos idosos e pessoas com mobilidade reduzida, sendo considerada uma das maiores barreiras de acessibilidade. Existem duas possíveis soluções, contribuindo para um banho seguro, cómodo, sem perigos.

A hora do banho é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos idosos e pessoas com mobilidade reduzida, sendo considerada uma das maiores barreiras de acessibilidade. Banheiras com porta Um banho quente de imersão tem imensos benefícios: ajuda a aumentar a circulação sanguínea; a relaxar os músculos; a aliviar dores; a baixar a pressão arterial; a libertar toxinas e a melhorar a qualidade do sono. Ora, é perfeitamente compreensível que não queira abrir mão destes benefícios. Porém, algo tão necessário e reconfortante como tomar um banho de imersão pode rapidamente revelar-se um problema. Entrar e sair de uma banheira convencional torna-se uma missão arriscada e, por vezes, dolorosa, principalmente quando o sentido de equilíbrio e força estão comprometidos. Cada vez mais procuradas, as banheiras com porta Stannah surgiram como solução para quem, por razões de saúde ou gosto pessoal, preferem um banho ao duche. Por terem uma porta de baixo limiar, estas banheiras permitem entrar e sair da banheira sem esforço para os joelhos e, no caso dos


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Figura 5.

Figura 3. Banheiras com porta - facilitam o acesso ao banho.

de auxílio no momento de entrar e sair da banheira.

Cabine de duche

Figura 4. Banheiras com porta - perfeitas para áreas menores.

modelos altos, as próprias paredes das banheiras funcionam como apoio, sobretudo útil para quem sofre de desequilíbrio. Além disso, todas as banheiras com porta Stannah estão equipadas com bases antiderrapantes e apoios colocados de forma estratégica, facilitando a entrada e a saída do banho. Estão ainda equipadas com assento integrado, permitindo que o utilizador consiga facilmente chegar aos membros inferiores, promovendo a higiene do corpo completa. Mas as possibilidades de opção não se esgotam por aqui. Para casas de banhos com áreas menores, existem banheiras com porta frontal e design exterior compacto, com medidas perfeitamente ajustáveis a espaços mais pequenos. E se o que pretende é uma banheira que facilite as transferências, poderá optar por uma banheira alta com porta mais larga e desenhada a pensar, não só no utilizador comum, mas também nos utilizadores que necessitem

As cabines de duche destacam-se por serem uma solução muito completa, capaz de responder a diferentes necessidades – ideal tanto para utilizadores independentes como para um banho assistido a utilizadores de cadeira de rodas. O Aqualuxe Stannah, um dos nossos modelos mais procurados, é fabricado à medida das dimensões da antiga banheira (não necessita de obras ou de alterar as cerâmicas/canalizações). Integra-se perfeitamente em qualquer casa de banho com moldura cromada, painéis em vidro temperado e revestimento em pedra branca, para combinar com a decoração da sua casa de banho.

Com base de baixíssimo perfil e portas de correr que se movimentam pela calha do topo, entrar e sair da cabine é muito fácil, principalmente para pessoas com dificuldades de mobilidade ou em cadeiras de rodas. Os painéis em vidro temperado garantem durabilidade e resistência à quebra. O tratamento anticalcário (garantia de 10 anos) repele a água, impedindo a formação de manchas e calcário e dispensa o recurso a detergentes na limpeza. A base de duche antiderrapante, composta por fibras reforçadas naturais e antibacteriana, possibilita ainda que se movimente dentro do interior da cabine com inestimável tranquilidade e segurança. Outra caraterística que distingue a cabine de duche de Aqualuxe de um poliban convencional é a cadeira de banho ortopédica ou banco articulado para o duche. Este auxílio de mobilidade (fabricado em conformidade com as exigências legais) promove um banho independente e seguro. Dispõe ainda de uma barra de apoio, fixada em conformidade com as preferências do(s) utilizador(es).

Envelhecimento positivo, ativo e saudável – A Stannah ajuda! Por existir um leque variado de equipamentos, é preciso escolher com cuidado qual se adapta melhor às suas necessidades e à sua casa de banho. Será necessário verificar as condições atuais da casa de banho e identificar qual a solução indicada para voltar a usufruir de um banho despreocupado. A Stannah efetua uma avaliação de mobilidade do utilizador e do próprio espaço, apresentando, na hora, a solução que melhor se adapta, devidamente orçamentada na hora, sem qualquer custo ou compromisso para si. Tratamos de tudo para uma instalação célere e sem inconvenientes para o cliente: num dia só, sem surpresas de última hora e com todas as intervenções necessárias, desde a canalização aos acabamentos. Retiramos a sua banheira antiga, instalamos a solução de banho pretendida, limpamos ao final do dia antes de sair. Garantimos um serviço único onde o cliente nunca terá de se preocupar com prazos, obras ou coordenação de serviços.


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Mais tempo, mais qualidade de vida

“Os nossos produtos e a nossa tecnologia adaptam-se às diversas exigências arquitetónicas”

FutureLift Tel.: +351 253 146 964 info.pt@futurelift.es www.futurelift.es

N

uma altura em que novos indicadores vêm reforçar o aumento da esperança média de vida, resultando em mais tempo para usufruir do nosso dia a dia, torna-se mais relevante olharmos para o meio envolvente e adaptá-lo, ganhando mais mobilidade e mais segurança, acabando por se traduzir num maior conforto. Na FutureLift, os nossos recursos e as nossas tecnologias orientam-se no sentido de acompanhar esta tendência, acompanhar a natural evolução das sociedades. Mais tempo e mais qualidade são dois dos nossos fatores de diferenciação, pelos quais pautamos a nossa orientação estratégica. Tais fatores são-nos facultados “(...) torna-se mais relevante pelos nossos colaboradores, no seu olharmos para o meio envolvente dia a dia, trazendo para a empresa e adaptá-lo, ganhando mais uma idoneidade clara com o foco no mobilidade e mais segurança (...)” cliente final, parceiros e fornecedores. Dentro deste paradigma, na Futurelift estamos convictos que podemos proporcionar ao nosso cliente as melhores condições para a experienciar um serviço diferenciador. Os nossos produtos e a nossa tecnologia adaptam-se às diversas exigências arquitetónicas, possuindo como produto base as nossas cadeiras elevatórias de escadas. Para outros graus de exigência e nível arquitetónico temos os Elevadores Residenciais /Homelift, que oferecem uma maior área de transporte à sua mobilidade.

Figura 1. Elevador Residencial /Homelift.


56 | Case Study

Os lugares que o saber ocupa a aprendizagem ao longo da vida no Programa 60+ Luísa Pimentel1,2, Sara Mónico Lopes1,3, Cezarina Maurício1 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - Politécnico de Leiria; CICS.NOVA.IPLeiria, 2CIES.IUL, 3APCEP

1

O

questionamento sobre o lugar que os seniores ocupam nas sociedades contemporâneas é uma constante e decorre, em grande medida, das crescentes preocupações que uma velhice marcada pelo alheamento e pela exclusão de contextos sociais, culturais e educativos estimulantes pode trazer às pessoas que a experienciam, bem como às sociedades que acolhem essas pessoas. Desde o final do século XX que a Organização das Nações Unidas espelha esta preocupação nas suas recomendações, defendendo a adoção de medidas que assegurem a construção de uma sociedade para todas as idades (Comissão das Comunidades Europeias, 2002). Passados 20 anos, as metas mantêm-se, revelando que as anteriormente delineadas não foram, ainda, alcançadas. No documento Global Strategy and Action Plan on Ageing and Health da OMS, é realçada a transversalidade da temática do envelhecimento nos objetivos do desenvolvimento sustentável, definidos pela ONU. Considerando o tema desta reflexão, destacamos o objetivo 4: “Ensure inclusive and equitable quality education and promote lifelong learning opportunities for all” (WHO, 2017, p.1). A aprendizagem ao longo da vida e a educação permanente são conceitos e práticas cada vez mais presentes no nosso quotidiano, que procuram distanciar-se de um modelo de educação assente na compartimentação do ciclo de vida em três grandes etapas: uma para estudar, uma para trabalhar e uma para descansar (Machado & Madeira, 2016). Este novo paradigma educativo, ancorado

na perspetiva de que a formação e a aprendizagem devem estar presentes ao longo de toda a trajetória de vida, serve os que pretendem valorizar-se profissionalmente, mas também os que, tendo já deixado o mercado de trabalho, querem continuar a valorizar-se a nível pessoal e social. Serve, portanto, as pessoas que queiram contrariar o que Torres e Carrião (2016) chamam de “cultura BBB”, referindo-se a uma realidade de menorização dos seniores que se contentam com “bolo, baile e bingo”. Segundo estes autores, a “lazeirização” do tempo dos mais velhos, alimenta-se do estereótipo de que já não faz sentido estes assumirem papéis socialmente e economicamente relevantes, e da crença de que as pessoas querem simplesmente ocupar o tempo livre com atividades de lazer, para não ficarem sozinhas e fechadas em casa. As instituições de ensino superior, cumprindo a sua vertente de responsabilidade social, de ligação à comunidade e de criação de oportunidades de aprendizagem para todos, têm desenvolvido cada vez mais programas para seniores, procurando dar resposta a novas necessidades socioeducativas de um grupo emergente, que procura soluções inovadoras, estimulantes e inclusivas. O acesso à educação é basilar na consolidação do processo participativo, em qualquer idade. Tendo em conta a perspetiva de Mirabelli e Carielo da Fonseca (2016), baseada na pedagogia de Paulo Freire, a educação tem de ser pensada como um processo contínuo e emancipatório, que favorece uma leitura reflexiva do mundo e, consequente-

mente, uma ação transformadora do mesmo. Nas etapas mais tardias da vida, a inserção em espaços de educação formal, mesmo que não cumpra o objetivo de certificação das competências e das aprendizagens desenvolvidas, e tenha subjacentes propósitos distintos dos que motivam os mais jovens, é uma via possível para reforçar a autonomia dos indivíduos, “enquanto forma civilizada de agir” (Faleiros, 2013, p. 46), ajudando-os a adquirir ferramentas e habilidades que facilitam a convivência intergeracional e o diálogo familiar e social. O Politécnico de Leiria, percebendo as potencialidades da abertura da sua oferta formativa a um público mais velho, criou, em 2008, o Programa 60+. Trata-se de um projeto socioeducativo, destinado a indivíduos com mais de 50 anos, reformados ou em situação de pré-reforma, que ambiciona contribuir para a concretização de processos de envelhecimento ativos e saudáveis, promover a partilha de saberes e de experiências, assim como, promover a convivência e a aprendizagem intergeracional. Como já afirmámos em outra publicação “O principal elemento diferenciador do Programa em relação a outras iniciativas de formação para seniores em Portugal é a integração destes em aulas de licenciatura. Ainda que o façam com motivações e expetativas diferentes das dos jovens, podem protagonizar com estes as mais diversas dinâmicas sociopedagógicas” (Pimentel & Faria, 2016, p. 107). Os estudantes seniores podem frequentar até 5 unidades curriculares dos cursos de licenciatura ou dos cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTESP) ministrados em qualquer das cinco escolas do Politécnico de Leiria. Em concomitância a esta componente formativa e académica, desenvolvem-se, por iniciativa dos próprios estudantes seniores, da coordenação do programa, de docentes do Politécnico de Leira, de estudantes mais jovens ou de pessoas externas, a título volun-


Case Study | 57

Oferta socioeducativa específica do Programa 60+ no ano letivo 2018/2019 UC Específicas

Atividade física

(sujeitas a pagamento de taxa

Oficina de TIC

de inscrição)

Oficina de dispositivos móveis

Seminários temáticos

dizagem híbrido, que concilia uma dimensão formal, com possibilidade de avaliação e certificação, com uma dimensão informal, ajustada às necessidades individuais e à singularidade do público em questão. Através deste modelo, aproveitam-se e potenciam-se os recursos institucionais; facilita-se o acesso dos seniores ao ensino superior e a todas as oportunidades e desafios que este implica; promove-se a iniciativa pessoal e de grupo, uma vez que os seniores propõem e dinamizam os mais diversos projetos; e, através de tudo isso, reforçam-se as relações intergeracionais.” (Pimentel & Lopes, 2016, p. 116)

SessenTuna

Referências bibliográficas

(dinamizadas por professores contratados ou do corpo

Inglês

docente do Politécnico) Clube de leitura e de escrita

Inglês do dia a dia

Conversas intergeracionais e interculturais

Oficina de artes plásticas

Atividades gr

Cultivo divertido

Oficina de espanhol

atuitas

Dança

Oficina de iniciação à informática

(dinamizadas por estudantes,

Gerontomotricidade

Projeto ProAlfa

voluntários, docentes ou não

Iniciação ao esperanto

Projeto En-Red-Versad@s

docentes)

Encontros de reflexão sobre temas gerais de ciência Grupo de Jograis

1. Comissão das Comunidades Europeias (2002). Res-

tário, outras atividades formativas e socioculturais, com caráter gratuito. Apesar dos estudantes seniores valorizarem a possibilidade de aceder a formação em variadas áreas científicas e de alguns escolherem exclusivamente unidades curriculares de licenciatura ou de CTESP, muitos afirmam preferir as unidades curriculares e projetos que são delineados especificamente para si. A maior adequação aos seus ritmos de aprendizagem, a maior informalidade dos contextos de aula e a maior flexibilidade na evolução das matérias são alguns dos fatores que influenciam essa manifestação de preferência (Pimentel & Faria, 2016). Através de um estudo sobre as motivações que trazem os seniores ao Programa 60+ (Pimentel & Faria, 2016) percebemos que estas são muito diversas, mas, as dominantes prendem-se com a valorização pessoal dos sujeitos, quer seja pela aquisição de conhecimentos, quer seja pela valorização de competências pessoais. As motivações relacionais, que dão enfase à interação com os outros, são menos relevantes para os inquiridos. Também os benefícios que realçam são essencialmente de cariz individualista. As pessoas procuram aprender e atualizar-se para daí retirarem benefícios pessoais e para não se distanciarem das gerações mais jovens. Procuram valorizar-se, dedicando tempo a si próprios, ainda que a família seja, frequentemente, a sua prioridade. Investem em aprendizagens que se revelam úteis no seu quotidiano, nomeadamente na área das TIC, para poderem, entre outras coisas, interagir através das novas plataformas digitais. Apostam, também, na aprendizagem das línguas estrangeiras para conseguirem comunicar durante as suas viagens. Tendo em conta os dados do relatório de avaliação do ano letivo 2018/2019 (Programa IPL60+, 2019), por comparação com os anos

anteriores, verificou-se um ligeiro crescimento no número de inscritos: 112 no total. Mantem-se a elevada taxa de permanência dos estudantes, o que entendemos como um indicador de sucesso, pois 32% das pessoas inscritas em 18/19 frequentavam o programa há mais de 8 anos. Contudo, a procura por parte novos estudantes também é relevante, situando-se a taxa de rejuvenescimento nos 20%. Entre estes, encontravam-se três estudantes internacionais, de nacionalidade brasileira. Quanto ao perfil dos inscritos neste ano letivo: são maioritariamente mulheres (58%), com idades compreendidas entre os 60 e os 69 anos (52,6%), com habilitações académicas muito diversificadas, sendo o ensino superior (licenciatura) o nível de escolaridade com maior representatividade (38,4%). A categoria profissional mais significativa é a dos Especialistas das Atividades Intelectuais e Científicas (42,9%), tendo particular relevância a profissão de professor. No que concerne ao local de residência, a grande maioria reside no concelho de Leiria (92%). Apesar dos traços gerais se manterem em relação aos anos anteriores, é de realçar o aumento do número de estudantes do sexo masculino. O contributo dos estudantes seniores tem sido valorizado através da criação de oportunidades para que concretizem as suas ideias e aos seus projetos; do envolvimento em iniciativas de âmbito social e cultural, que contribuem para a sua valorização pessoal e para o fortalecimento dos laços intra e intergeracionais; e da participação ativa na tomada de decisões. A eleição de três representantes dos inscritos em cada ano letivo para articularem, de forma regular, com a coordenação do Programa e participarem nas reuniões da Comissão Científico-Pedagógica é uma das formas de promover essa participação. Em síntese podemos afirmar que “desenvolvemos um modelo de formação e apren-

posta da Europa ao Envelhecimento da População Mundial. Promover o Progresso Económico e Social num Mundo em Envelhecimento. Contribuição da Comissão Europeia para a II Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento. Bruxelas. COM (2002) 143 final. 2. Faleiros, V. P. (2013). Autonomia Relacional e Cidadania Protegida: Paradigma para Envelhecer Bem. In M. I. Carvalho (coord.). Serviço Social no Envelhecimento (pp.35-48). Lisboa: Pactor. 3. Machado, M. & Madeira, R. (2016). Perceções de estudantes seniores sobre os desafios de ler o mundo em contexto universitário. Investigar em Educação – II série, 5, 73-97. 4. Mirabelli, S. & Carielo da Fonseca, S. (2016). Educação permanente: diálogo com o contexto globalizado e impacto na vida de idosos. In S. Carielo da Fonseca (org.). O Envelhecimento ativo e seus fundamentos (pp. 382-417). São Paulo: Portal Edições. 5. Pimentel, L. & Faria, S. (2016). O Programa IPL60+: um contexto privilegiado de intervenção social na promoção do envelhecimento ativo e das relações intergeracionais. In L. Pimentel, S. M. Lopes e S. Faria (coord.). Envelhecendo e Aprendendo. A Aprendizagem ao Longo da Vida no Processo de Envelhecimento Ativo (pp. 101-128). Lisboa: Coisas de Ler. 6. Pimentel, L & Lopes, S. M. (2016). Programas de Aprendizaje a lo largo de la vida en formación superior, el caso del Instituto Politécnico de Leiria. In XIV Jornadas Internacionales sobre asociacionismo en los Programas Universitários de Mayores. Aprender sempre: Nuevos desafíos en el siglo XXI. Universidade do Porto, 30 de setembro a 3 de outubro de 2015 (pp.106-118). Vigo: CAUMAS. 7. Programa IPL60+ (2019). Relatório de Atividades. Ano letivo 2018-2019. Leiria: Instituto Politécnico de Leiria. Disponível em: http://60mais.ipleiria.pt/o-que-funcionamos/documentos/. 8. Torres, L. V. & Carrião, L. H. (2017). Universidade da Terceira Idade. Lugar de idoso também é na escola. Col. Gerontologia e Educação. Goiânia: Editora da PUC Goiás. 9. World Health Organization (2017). Global strategy and action plan on ageing and health. Geneva: WHO.


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Vai nascer o primeiro hotel assistencial em Vila Nova de Famalicão texto e fotos por André Manuel Mendes

C

ampus de Fiães Assisted Living Hotel é o nome do novo projeto que vai nascer em solo famalicense e que pretende dar uma resposta efetiva às necessidades da população sénior, não só da região, mas também de todo o país. Este é um projeto alavancado por Susana Dias, fundadora e CEO da OldCare Famalicão e Tiago Lima, Mestre em Engenharia Mecânica com 10 anos de experiência no setor da construção. A visão de ambos potenciou a idealização de um projeto que conjugasse as aptidões e know-how dos dois profissionais na construção de uma infraestrutura que vem responder a uma necessidade premente. A sessão de apresentação realizou-se no dia 13 de dezembro de 2018 na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e contou com a presença do Presidente da Câmara do município, Paulo Cunha.

Um novo projeto a pensar nos cuidadores e seniores Susana Dias iniciou a apresentação a reforçar que existem atualmente em Portugal 800 mil Cuidadores Informais e que cerca de 8% da população cuida dos seus familiares e não recebem nada em troca. “Nesse

sentido, e dada a minha intervenção e experiência no terreno enquanto diretora clínica da OldCare, uma clínica de cuidados domiciliários sediada em Vila Nova de Famalicão, pudemos constatar algumas necessidades, nomeadamente no apoio a Cuidadores Informais, apoio esse que diz respeito nomeadamente ao descanso do cuidador”, explicou Susana Dias. “Com a esperança média de vida a aumentar e as respostas sociais a serem cada vez mais escassas”, surgiu a necessidade de um criar um projeto a pensar nas necessidades dos cuidadores informais e proporcionar a estes uma possibilidade de descanso enquanto, simultaneamente, os seus familiares recebem assistência médica e cuidados de saúde multidisciplinar adaptados às suas necessidades e diferentes doenças. Por outro lado, disse a CEO da OldCare Famalicão, “há pessoas ativas e autónomas que recusam o conceito de lar de idosos, não querem institucionalização das tradicionais respostas sociais”. Surge assim o projeto do Campus de Fiães Assisted Living Hotel, um empreendimento hoteleiro cujo valor de investimento será de 3 milhões de euros (financiado pelo Programa 2020), e que será erigido na fre-

guesia de Gondifelos. Será constituído por um edifício principal onde estará localizada uma unidade de internamento destinada a estadias temporárias, local onde será possível, ao longo da estadia, a realização de programas de avaliação e de reabilitação. Contará ainda ao longo da zona circundante verde com 10 casas modulares autónomas para pessoas que queiram usufruir de uma melhor qualidade de vida, sendo acompanhados em permanência por médicos e equipas de enfermagem. “O objetivo passa por nos constituirmos como uma referência na área da hotelaria de assistência médica, querendo sempre contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas que acolhemos”, explicou Susana Dias.


Case Study | 59

Valências diferenciadoras para a região e para o país Tiago Lima explicou que idealizaram desde o início a construção deste espaço num local deslocado dos grandes centros, onde os utentes tivessem a oportunidade de aproveitar o silêncio, o descanso e a natureza. Este hotel será criado numa área de aproximadamente 3000 m2 e será composto por 40 suites duplas, 2 suites “Premium” e 10 casas modulares individuais de tipologia T1 (60 m2). Este é um projeto que possibilitará desde o início a criação de 30 postos de trabalho, número que irá crescer ao longo do tempo. “Toda a conceção deste projeto é assente em conceitos sustentáveis, com grande foco nos espaços verdes, com muitas árvores. Estamos a trabalhar com o arquiteto e com as equipas das engenharias para otimizar o consumo energético dos edifícios, de modo a que os consumos sejam complementados com sistemas fotovoltaicos. O edifício foi otimizado para maximizar o aproveitamento de luz natural, a orientação dos quartos e o facto de o edifício ser 60% envidraçado permite maximizar este ponto”, explicou Tiago Lima. Os serviços do Campus de Fiães Assisted Living Hotel incluem ainda: »» Serviço hoteleiro completo, com possibilidade de room service; »» TV e acesso gratuito à Internet; »» Ginásio e piscina; »» Restaurante e bar; »» Capela; »» Biblioteca; »» Atividades lúdicas. Os utentes poderão contar com: »» Serviços de apoio médico e de enfermagem 24 horas por dia; »» Cuidados assistidos de higiene, imagem e conforto pessoal; »» Programa de animação sociocultural; »» Programas de reabilitação específicos; »» Programas de exercício para manutenção do estado de saúde. “Estamos neste momento a finalizar os projetos de arquitetura e especialidades de modo a entregar às entidades oficiais, por forma a submetermos a candidatura ao Portugal 2020. De seguida está previsto o início da fase de construção em meados do ano 2020. Após esse processo, que se estima que demore sensivelmente dois anos, iremos proceder à inauguração, estando prevista para finais de 2022 ou inícios de 2023”, concluiu Tiago Lima.

Uma aposta para o desenvolvimento da região Paulo Cunha, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, agradeceu a iniciativa destes empreendedores, mas também o facto de a partilharem com a região. “Gostaria de deixar patente o quanto apreciamos o projeto em si, sublinhando a preocupação ambiental que está presente. Esta dimensão da sustentabilidade é algo que deve estar no nosso dia a dia e está aqui bem presente, não só no enquadramento mas também dos materiais que vão ser usados”, sublinhou, acrescentando que este é um “verdadeiro exemplo de que é possível ser inovador, ser vanguardista, ter respostas com muita qualidade, e simultaneamente proteger o ambiente e o equilíbrio intergeracional”. O edil famalicense afirmou que esta é uma resposta que não é local, mas que está em

Famalicão. “Isto significa que as pessoas que vão frequentar no futuro este complexo virão de muitas localidades e, como tal, este é mais um fator de atratividade para o concelho”, disse, sublinhando que esta será “uma referência não só para a freguesia de Gondifelos e para o concelho, mas sim para toda a região e para o país, tal é a atratividade do mesmo”. Segundo o autarca, o Campus de Fiães Assisted Living Hotel vem colmatar uma necessidade de mercado que realmente existe porque a maior parte das respostas existentes são respostas de institucionalização clássica, os chamados lares residenciais que são a solução comum para o universo de pessoas. “É uma resposta para as necessidades, que tem uma retaguarda assistencialista, médica, de segurança e conforto que na fase final da vida das pessoas é muito necessária”, concluiu.


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GeriCarePro quer revolucionar gestão de unidades geriátricas GeriCarePro Tlm: +351 910 119 966 geral@gericarepro.com · www.gericarepro.com

O GeriCarePro é uma aplicação web de gestão de unidades geriátricas, paliativas e continuadas, nomeadamente para gestão clínica e operacional. Esta aplicação possibilita a gestão de todos os parâmetros relacionados com processos das rotinas diárias como registo na plataforma dos utentes, controlo das tarefas, avaliações, ocorrências, entre outros. De acordo com Nuno Ribeiro, CEO da empresa criadora do GeriCarePro, “em Portugal há uma grande diversidade de gestão, logística, operacionalidade das unidades, não é como em diversos países europeus onde as instituições se regem por determinadas guidelines, ou seja, há uma uniformidade de processos”. Por forma a dar uma resposta a esta realidade, foi criada uma plataforma permite um melhoramento da operacionalização das unidades, e que tem como principal foco a agilização dos processos e uma poupança efetiva de custos para a entidade.

Oldcare reforça apoio aos utentes com novos serviços Oldcare Famalicão Tel.: +351 919 394 371 famalicao@oldcare.pt · www.oldcarefamalicao.pt

No desenvolvimento dos serviços e dos Cuidados Domiciliários a OldCare sentiu a necessidade de chegar a mais pessoas, com serviços menos interventivos, com um custo mais baixo e que acompanhem a pessoa ao longo do ciclo do envelhecimento.

Desenvolveram serviços com intervenções de 30 minutos para cuidados de higiene, conforto, vigilância, e apoio na toma do medicamento. Estes serviços diários de segunda a sexta iniciam-se nos 170 euros mensais. Paralelamente contam atualmente com um serviço de Piquete de Apoio Domiciliário que se aplica a clientes da Oldcare que necessitem de intervenções não programadas, estando disponível 24 horas por dia. Assim, com um custo muito baixo, ou por vezes inexistente, a Oldcare alargou a sua intervenção ao máximo. A oferta de serviços de assistência remota e teleassistência 24 horas foi também reforçada, proporcionando apoio e segurança. A Oldcare melhorou ainda a sua oferta de terapias de estimulação cognitiva e treino de marcha e mobilidade no domicílio, com planos desde 30 euros por mês.

Centro de investigação de demências nasce em Riba de Ave

Esta estrutura de saúde da Santa Casa da Misericórdia de Riba de Ave terá também uma unidade de dia e apoio domiciliário para possibilitar todos os tratamentos especializados ao nível da alimentação, higiene pessoal, atividade diária e cuidados clínicos aos seus utentes que sofram de demência. As instalações do CIDIFAD terão ainda outras especialidades na área da investigação, apoio administrativo, formação e diagnóstico. A área total de construção é de cerca 14 000 metros quadrados, distribuídos pelos diversos espaços. O CIDIFAD conta com a parceria do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, tendo como base um elevado investimento na área da investigação, e da formação de profissionais e de Cuidadores Informais. Privilegia-se o apoio aos familiares.

Fundação S. João de Deus lança 12 jogos de estimulação cognitiva Fundação S. João de Deus Tel.: +351 217 983 400 sede@fsjd.pt · www.fsjd.pt

Com um investimento de cerca de 15 milhões de euros, o projeto do Centro de Investigação, Diagnóstico, Formação e Acompanhamento de Demências (CIDIFAD), desenvolvido pela Santa Casa da Misericórdia de Riba de Ave, teve início em janeiro de 2018 e pretende melhorar a qualidade da investigação nos diferentes processos e fases demenciais, proporcionando acolhimento, acompanhamento, assistência médica e cuidados especializados às pessoas com demência. As instalações do CIDIFAD estão inseridas numa área de 43 500 metros quadrados, com 80 quartos individuais para as unidades de internamento e 12 quartos direcionados para estadias de curta duração a pessoas com demência. Permitem o descanso dos cuidadores e dos familiares. Existirá ainda uma ala com 8 quartos destinados aos familiares de pessoas com demência em situação de internamento, por um período de curta duração.

A Fundação S. João de Deus criou e editou 12 jogos de estimulação cognitiva, com o apoio da Fundação EDP Solidária e do BPI Seniores, no âmbito do projeto Academia da Memória, um programa de estimulação cognitiva para pessoas adultas e mais velhas, que tem como missão implementar a estimulação cognitiva como um hábito de vida saudável. Os jogos têm um design mais criativo e mais adaptado à população sénior do que aqueles que se encontram no mercado. Foram pensados para as pessoas mais velhas, podendo e devendo ser, igualmente, utilizados pelos mais novos. A construção dos jogos contou com o apoio técnico multidisciplinar de profissionais (uma socióloga, uma psicóloga, uma gerontóloga e um designer) que nele colocaram o seu profissionalismo e dedicação para que quem os utilize possa usufruir de um jogo simples e estimulante e adaptado ao treino


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e estímulo de diversas funções cognitivas (desde a atenção, concentração, memória à linguagem, raciocínio e abstração), podendo ser utilizado individualmente ou em grupo, em família, por instituições sociais e consultórios. O valor angariado com a venda dos jogos reverte na totalidade para apoiar o Hospital S. João de Deus, em Montemor-o-Novo, na aquisição de cadeiras de rodas, cadeiras de banho e outros equipamentos de saúde. O valor de cada jogo é 11,90€ + portes de envio e podem ser visualizados e adquiridos através da plataforma Compra Solidária: https:// comprasolidaria.pt/fsjd ou através da Fundação S. João de Deus, por telefone 217 983 400 ou e-mail lisboa@fsjd.pt.

Lançada app para profissionais de saúde da área respiratória

Já está disponível gratuitamente, para Android e iOS, a nova aplicação PNEUMO365, dirigida a profissionais de saúde da área respiratória. Trata-se de um agregador informativo multiplataforma, acessível via smartphone, tablet, PC e smartwatch, atualizado diariamente com as principais notícias, vídeos e eventos de Pneumologia. Seguindo uma lógica de navegação simples e intuitiva, o projeto digital apresenta quatro secções informativas distintas. No calendário de congressos, os utilizadores podem consultar os principais eventos na área respiratória, quer a nível nacional, quer internacional, contendo todas as informações relativas ao programa, deadlines importantes, inscrições e localização. É possível adicionar o evento diretamente ao calendário do dispositivo, guardar nos favoritos da app ou mesmo sugerir um evento para ser acrescentado nesta secção. Para além disso, a PNEUMO365 agrega diariamente um conjunto de notícias e vídeos sobre Medicina Respiratória, selecionados de fontes internacionais credíveis, que são publicados, respetivamente, nos separadores de Notícias e Vídeos, incluindo as opções de classificar os conteúdos, guardar nos favoritos ou partilhar.

Por fim, a área reservada da aplicação, apenas acessível a profissionais de saúde registados, disponibiliza dossiers especiais com conteúdos dedicados a eventos da área, notícias e vídeos corporativos do promotor, entre outros materiais úteis para os profissionais dedicados à Medicina Respiratória.

Federação Internacional da Diabetes tem representação portuguesa

partilhar e refletir sobre as práticas vigentes. Serão também objetivos destes Congresso promover e divulgar: o conhecimento prático e científico na área dos Cuidados Continuados; os estudos e intervenções comunitárias interdisciplinares e transdisciplinares em Cuidados Continuados; a cooperação intersetorial; o debate de temas atuais e pertinentes sobre a RNCCI; a educação para a cidadania; as investigações e práticas de excelência na área dos Cuidados Continuados. A revista Dignus é media partner oficial do Congresso Internacional em Cuidados Continuados.

Portugal regista mais de 600 novos casos de diabetes por 100 mil habitantes O Presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), José Manuel Boavida foi eleito como membro do Board of Directors da International Diabetes Federation Europe (IDF). João Nabais, assessor da direção da APDP, ocupa agora o cargo de Vice-Presidente da mesma instituição internacional. Estas nomeações decorreram durante o congresso instenacional da IDF entre os dias 4 e 6 de dezembro, na Coreia do Sul. A IDF é a maior instituição a nível mundial que junta pessoas com diabetes e profissionais de saúde, com o intuito de promover os cuidados, prevenção e cura da diabetes, colaborando de perto com organizações como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Congresso Internacional em Cuidados Continuados em Vila Nova de Gaia

O Auditório Paroquial de Mafamude, em Gaia, será o palco do Congresso Internacional em Cuidados Continuados, uma iniciativa que se realizará nos dias 7 e 8 de maio de 2020. Este congresso pretende congregar vários especialistas, nacionais e internacionais, desta área do conhecimento, para discutir,

De acordo com um comunicado do Observatório Nacional da Diabetes (OND) da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), nos últimos três anos verificou-se ainda um número muito elevado de novos casos de diabetes diagnosticados anualmente em Portugal. O OND estima que existam atualmente entre 605 a 618 novos casos de diabetes por cada 100 000 habitantes, verificando-se assim uma tendência para a estabilização da incidência da diabetes em Portugal desde 2008. Em 2018 a prevalência estimada da diabetes na população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos (7,7 milhões de indivíduos) foi de 13,6%, isto é, mais de 1 milhão de portugueses neste grupo etário tem esta patologia. O OND concluiu também que em 2017 a diabetes causou a perda mais de 8 anos de vida por cada óbito provocado por esta doença na população com idade inferior a 70 anos. No entanto, nos últimos três anos verificou-se uma diminuição significativa do número de anos potenciais de vida perdidos por Diabetes Mellitus em Portugal (-15%). Além do impacto crescente no número de casos, a diabetes assume também um papel significativo nas causas de morte, tendo estado na origem de 3,8% das mortes ocorridas em 2017.


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GeriCarePro distinguido a nível nacional e internacional GeriCarePro Tlm: +351 910 119 966 geral@gericarepro.com · www.gericarepro.com

A aplicação web de gestão de unidades geriátricas GeriCarePro foi distinguida com o prémio internacional Headstart para a região InnoStars atribuído pelo EIT Health, e também com uma Menção Honrosa nos Prémios de Boas Práticas em Envelhecimento Ativo e Saudável da Região Centro pela CCDR Centro. O prémio internacional Headstart para a região InnoStars foi atribuído pelo consórcio EIT Health e permitiu à empresa fazer a sua transição para o mercado em meados de setembro, investindo em marketing e programação. A Menção Honrosa foi atribuída durante o 7.º Congresso Envelhecimento Ativo e Saudável, organizado pelo consórcio Ageing@Coimbra no Convento de São Francisco, Coimbra, e teve como objetivo distinguir entidades que promovam o envelhecimento ativo e saudável na Região Centro.

Equitação terapêutica em Matosinhos ajuda idosos sobreviventes de cancro

Em Matosinhos existe um projeto de equitação terapêutica que ajuda idosos sobreviventes ao cancro, na maioria mulheres, a ter uma vida melhor e a realizar sonhos, trabalhando os aspetos físicos e emocionais. Este projeto é da responsabilidade da Associação Equiterapêutica do Porto e Matosinhos (AEPM) que aceitou o desafio Associação de Apoio a Pessoas com Cancro (AAPC)

para criar uma iniciativa direcionada para sobreviventes de doenças oncológicas. De acordo com Joana Pereira, Presidente da AEPM, em declarações à Agência Lusa, a utilização de cavalos para fins terapêuticos, ou mesmo em atividades lúdicas e pedagógicas, é muito útil. Estas terapias “decorrem uma vez por semana”, com a “participação de oito utentes de cada vez”, no picadeiro do Lar do Comércio, em Matosinhos, podendo “durar cerca de duas horas”, acrescentou. Nestas trabalham-se várias competências, mas principalmente a emocional, a relação que se estabelece com o animal.

Oldcare lança produtos de marca própria e loja online Oldcare Famalicão Tel.: +351 919 394 371 famalicao@oldcare.pt · www.oldcarefamalicao.pt

Premium Cataract Surgery 2020 abordará tratamento das cataratas

A conferência Premium Cataract Surgery está agendada para o dia 18 de fevereiro de 2020 na Universidade do Minho, e nesta edição irá abordar as técnicas cirúrgicas no tratamento das cataratas e novidades no procedimento. Este evento, destinado a oftalmologistas de Portugal e Espanha com experiência no tratamento de cataratas, irá debater ainda o futuro na cirurgia às cataratas e os princípios fundamentais das técnicas usadas, utilizando ainda casos clínicos com complicações experienciadas no contexto de cirurgia. O programa completo pode ser consultado na página de Internet da Universidade do Minho.

Coimbra acolhe congresso de Comunicação e Marketing em Cuidados Paliativos A área dos dispositivos médicos e produtos ortopédicos tem revelado um especial crescimento e, como tal, a Oldcare sentiu a necessidade de especificar cada vez mais a sua oferta e alargar a diversidade. Para isso lançaram a marca OldCare Medical, direcionada aos Centros Ortopédicos, bem como a loja online em oldcaremedical.com. Nos produtos de apoio, a marca tem feito um esforço para baixar os custos aos clientes, e para tal lançou produtos com a marca OldCare, com especial destaque para a linha de gel de banho e creme hidratante. A Oldcare dá grande destaque aos consumíveis de higiene e incontinência, onde a experiência da empresa em cuidados no domicílio permite aconselhar os melhores produtos, as melhores absorções, sendo assim possível uma economia nos custos mensais. Destaque merece igualmente a gama de calçado ortopédico, calçado feito por medida e flebologia. No que respeita ainda a produtos de ortopedia técnica e ortóteses, a Oldcare introduziu uma novidade, o aluguer de ortóteses. Para melhor cuidar, a prevenção é fundamental, e por isso esta aposta da Olcare em equipamentos e produtos de apoio é tão fundamental.

Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos Tel.: +351 225 097 300 geral@apcp.com.pt · www.apcp.com.pt

A Escola Superior de Enfermagem de Coimbra recebe nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2020 o I Congresso Internacional de Comunicação e Marketing em Cuidados Paliativos, uma iniciativa organizada pela Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos. Este Congresso Internacional, de abordagem multidisciplinar de áreas científicas diversas, convida ao debate sobre a comunicação e o marketing em torno dos Cuidados Paliativos. Pretendendo ser um espaço público de discussão sobre o tema, este Congresso tem como desígnio principal partilhar as mensagens de construção do melhor caminho para que os Cuidados Paliativos cheguem efetivamente a quem deles necessita, mas cheguem de uma forma esclarecida.


Atividades | 63

Fundação São João de Deus

Sandra Silva

ADIVIHE

ESCREVA

O que é, o que é? O país que serve para comer? Se souber geografia, é capaz de saber...

Escreva 5 nomes de animais de que se lembre, começados pela letra M, em 1 minuto.  Resposta

Resposta

ATRIBUA O Gil, o André, a Júlia e a Leonor têm cada um o seu animal de estimação. Um tem um canário, outro um cão, outro um gato e outro um periquito. O Gil tem um canário. A Júlia e a Leonor não têm um cão. A Leonor não tem um gato. Que animal tem cada pessoa?

COMPLETE Complete a sequência: 3 romãs – 10 romãs – 17 romãs – 24 romãs – 31 romãs – _______ romãs 

ENCONTRE Encontre a letra P nas linhas pares e a letra R nas linhas ímpares

Resposta Gil:

S A F T P O V N M L M N O E R D F G R J Z O P Q L D O S M L Z I l O  J L E J D M A Q X C L F E R M S O I F D J L N B A I K N S D I R I T E I 

André:

Júlia:

GR J M O A S D L C Z B U R K J B T P L M A S J O L T U I T L M O A Z Q P L T G R P C V B Z N T U A E U B R I B N E I O T J L D R I H J O M  L O Q E R G L N C P S R N V C P A E Z Q U J L X Z L P I L T I L F I E R 

Leonor:

N Q Z O L J F R T B M P C V R A L P E T O S D F C V O R O I Q I R A S 

FORME Forme, pelo menos, 15 palavras com as letras que se seguem:

O D R F E A L

B


64 | Bibliografia

Fundamentos de Geriatria Clínica - 7.ª edição

PVP: 42,40 € Poupa: 4,24 € Preço BOOKI:

38,16 €

Autores: Robert L. Kane, Joseph G. Ouslander, Itamar B. Abrass, Barbara Resnick Editora: MCGraw-Hill Número de páginas: 544

Fundamentos de Geriatria Clínica (7.ª edição) é um manual prático e envolvente dos temas centrais da medicina geriátrica, escrito para auxiliar os médicos a atuarem de forma mais eficaz no atendimento de idosos. Para isso, a obra contempla aspetos básicos e aplicados de Geriatria e Gerontologia, com informações sobre diagnóstico e gestão de doenças crónicas, diagnóstico diferencial e gestão de delirium e demência, depressão, incontinência urinária, quedas e imobilidade. São também apresentadas estratégias gerais de gestão de distúrbios cardiovasculares, diminuição da vitalidade e comprometimento sensorial, além de informações sobre prevenção, terapias farmacológicas, serviços de saúde, cuidados em clínicas geriátricas, questões éticas e cuidados paliativos. Índice: O paciente idoso e a avaliação geriátrica; Diagnóstico diferencial e gestão; Estratégias gerais de gestão.

Ano de edição: 2014 ISBN: 9788580554427 Idioma: Português (do Brasil)

Manual de Avaliação Motora para Terceira Idade

PVP: 20,14 € Poupa: 2,01 € Preço BOOKI:

18,13 €

Autores: Francisco Neto Editora: Artmed Ano de edição: 2008 Número de páginas: 268

O manual de avaliação motora para a terceira idade oferece uma descrição clara e concisa das diferentes áreas da motricidade humana. O livro utiliza a escala motora para a terceira idade - EMTI, método reconhecidamente testado que auxilia na identificação de alterações neurológicas, comportamentais, físicas e motoras. Índice: A aptidão motora e o idoso; Neurociência e neuropsiquiatria do processamento motor do idoso - compreensão do envelhecimento normal e patológico na terceira idade; Aspetos psicológicos e neuropsicológicos do idoso; Atividade física, envelhecimento e avaliação; Avaliação funcional do idoso portador de doença neurológica; Exercício físico e envelhecimento; Escala motora para terceira idade; Produção científica com a escala motora para terceira idade; Propostas de atividades de intervenção e reeducação motora para idosos; A influência de um programa de intervenção psicomotora na aptidão motora.

ISBN: 9788536316918 Idioma: Português (do Brasil)

CURRENT: Geriatria - 2.ª edição

PVP: 77,38 € Poupa: 7,74 € Preço BOOKI:

69,64 €

Autores: ie A. Williams e outros Editora: MCGraw-Hill Ano de edição: 2015 Número de páginas: 608 ISBN: 9788580555158 Idioma: Português (do Brasil)

Fonte confiável e repleta de informações sobre as condições relacionadas à saúde da população idosa, CURRENT: Geriatria - diagnóstico e tratamento, fornece conteúdo estruturado relativo aos estados funcional e cognitivo, bem como ao prognóstico, de modo a orientar o diagnóstico e o tratamento de condições clínicas em idosos. Desta forma, este livro traz importantes conteúdos sobre saúde cardiovascular, cancro, distúrbios endódrinos, problemas cutâneos, doenças respiratórias e distúrbios renais, delirium, comprometimento cognitivo, demência, quedas e distúrbios da mobilidade, doença de Parkinson, distúrbios do sono e artrite, entre outras importantes informações relacionadas com esta população. Além disso, inclui informações sobre promoção de saúde, questões éticas, tomada de decisão informada e cuidados paliativos. Índice: Princípios dos cuidados geriátricos; Ambientes de cuidados; Condições comuns em Geriatria; Situações clínicas comuns em Geriatria; Ampliando a prática clínica.

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DIGNUS nº3  

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