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OPENARENA A INCERTEZA DA NOVA ORDEM MUNDIAL PONTUALIDADES PERGUNTA & RESPOSTA SESSÃO DE INVESTIGAÇÃO AGENDA REVIEW & PREVIEW

Newsletter do Observatório Político IX Outubro 2016 – Dezembro 2016


Direção do Observatório Político Cristina Montalvão Sarmento Suzano Costa Patrícia Oliveira Editorial: Cristina Montalvão Sarmento Patrícia Oliveira Colaboradores: Alberto Cunha Cristina Santos Emmanuel Cortês Patrícia Tomás Vítor Ramon Fernandes Edição Patrícia Tomás Composição e Organização Alberto Cunha Cristina Santos Emmanuel Cortês Patrícia Oliveira Patrícia Tomás Capa Slobodan Obradovic | Usurpador, in Vecernje Novosti World Press Cartoon 2012 Contactos Rua Almerindo Lessa Pólo Universitário do Alto da Ajuda 1349-055 LISBOA Telf. (+351) 21 361 94 30 geral@observatoriopolitico.pt www.observatoriopolitico.pt

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3 Editorial Cristina Montalvão Sarmento Patrícia Oliveira

4 Pontualidades Alberto Cunha

7 Pergunta & Reposta Alberto Cunha, Emmanuel Cortês | Vítor Ramon Fernandes

14 Programa de Estágios do Observatório Político

16 Publicações | e-Working Papers

17 Sessão de Investigação Na Pátria dos Ancestrais: O Imperador D. Pedro II em Portugal (1871-1872) Lúcia Maria Paschoal Guimarães

23 Agenda | Review & Preview

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EDITORIAL Professora Doutora Cristina Montalvão Sarmento Mestre Patrícia Oliveira Direção e coordenação do Observatório Político (ISCSP-ULisboa)

A IX OPen Arena – Newsletter do Observatório Político referente ao último trimestre do ano de 2016 vem dar conta aos nossos associados das últimas conferências, publicações, atividades de investigação e formação na área dos estudos políticos. Mesmo a terminar o ano de 2016 inauguramos uma nova rúbrica no âmbito do Programa de Estágios Académicos e Curriculares do Observatório Político. No momento em que escrevemos este editorial, encerrou o período de candidaturas para a segunda fase do VI Programa de Estágios; as entrevistas iram decorrer na primeira semana de Janeiro, e uma nova equipa de estagiários será selecionada para o período de formação intensiva de muito curta duração. O Programa de Estágios Académicos e Curriculares do Observatório Político visa dar formação e constituir-se enquanto plataforma de enquadramento institucional para os recémlicenciados e mestrandos que, ao longo deste anos, têm passado pelo OP, deixado a sua marca e inequívoco contributo, quer nos procedimentos administrativos, quer na imagem e comunicação com os nossos membros associados e comunidade académica. A todos eles somos também agradecidos pelo contributo pessoal e pela disponibilidade destes jovens. Apesar da impossibilidade direta de atribuição remuneratória, temos assistido com apreço à evolução no seus percursos e conquistas profissionais, bem como à titulação em mestrados e doutoramentos. Por estas razões, consagramos um espaço nos próximos edições da OPen Arena para dar retorno ao trabalho e percurso académico da nossa equipa. Estamos em crer que o OP têm funcionado enquanto plataforma entre as universidades e o mercado de trabalho. Por isso, estamos empenhados na divulgação, já em 2017, de uma área de ofertas de empregabilidade. Aproveitamos a ocasião para dirigir aos nossos leitores Votos de Boas Festas e Próspero Ano Novo! Fiquem connosco nesta OPen Arena.

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PONTUALIDADES Mestre Alberto Cunha, Membro Associado do OP

O que é ser estudante de mestrado em Relações internacionais? Por que mudei? E o que tem sido a minha vida como estudante de RI? Mudei porque percebi que queria seguir a minha paixão, a de conseguir compreender o mundo e procurar contribuir para a sua melhoria, por mais humilde que seja essa contribuição. Senti que, num mundo cada vez mais globalizado, os estados-nação e as suas diferentes culturas, histórias, religiões e geografias mantêm-se como constante das actividades humanas. Esta diversidade deve ser respeitada e compreendida, pois a homogeneização de hábitos a nível mundial não é de todo realizável (ou talvez mesmo desejável), como as enormes divisões e tensões a nível global e regional têm demonstrado em anos recentes.

O meu nome é Alberto Cunha e sou estagiário do Observatório Político, enquanto escrevo a minha tese de mestrado em Relações Internacionais (R.I.) subordinada ao tema “O posicionamento pósGuerra Fria da França e Alemanha nos seus espaços de influência geopolítica”. Muito facilmente, a minha carreira poderia ter seguido um caminho bem diferente. Desde pequeno que me interesso por questões globais, desde a Geografia à História, passando pela Política; no entanto, o meu primeiro instinto foi o de escolher um curso que potenciasse as minhas possibilidades de obter um trabalho bem remunerado. Nesse sentido, e por também me interessar por questões económicas, fui estudante e posteriormente trabalhei nas áreas de Economia e Gestão.

O que penso eu do estado do Mundo? O tema desta newsletter, “A incerteza da nova ordem mundial”, aponta para uma realidade ainda por descobrir de um mundo que parece navegar para fora das realidades políticas do mundo pósguerra Fria, em que os EUA poderão 4


vir a deixar de ter o papel global que têm assumido desde 1945. As teorias de R.I. são fundamentais no sentido de proporcionar uma base científica, lúcida e informada sobre o contexto global dos recentes acontecimentos, e as suas possíveis repercussões para o futuro.

com uma visão mais global e mais informada sobre o mundo; significa que estudo e pretendo trabalhar num ramo de trabalho extremamente interdisciplinar, e que vai buscar informações e comunica permanentemente com campos como a história, antropologia, ciências sociais e políticas, entre muitos outros. Estas são considerações fundamentais para quem pretende compreender os fenómenos globais, históricos e políticos de várias perspectivas e procurando conjugar várias formas de observar a realidade mundial. Foi a escolha certa para mim e penso que que é um campo com interesse para qualquer pessoa que partilhe este tipo de interesse sobre os diferentes sistemas, eventos e realidades que compõem o complexamente fascinante mundo da sociedade humana.

O que é ser um estudante de mestrado em RI? A minha vida como estudante de R.I. significa que pude trabalhar com um conjunto de colegas e professores interessados em dissecar a realidade do mundo e procurar explicá-la; significa que consigo analisar eventos que enchem os nossos noticiários de uma perspectiva mais científica, mais exacta, mais concreta; significa que poderia um dia trabalhar numa organização, governo ou empresa

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PERGUNTA & RESPOSTA O Observatório Político PERGUNTA Professor Vítor Ramon Fernandes investigador doutorado do OP

RESPONDE sobre reflexões sobre a Ordem Internacional, a Segurança, e a Teoria das Relações Internacionais

A NOVA ORDEM MUNDIAL

Recentemente, o mundo assistiu a uma série de fenómenos políticos internacionais com um potencial grande impacto no futuro da ordem mundial. Destes fenómenos, dois com proeminência na definição do futuro dessa ordem serão o processo ainda em curso desencadeado pelo voto favorável à saída do Reino Unido da EU (podendo culminar no tão falado Brexit) em Junho de 2016, bem como para a surpreendente eleição de Donald Trump como presidente dos EUA em Novembro do mesmo ano.

Apesar da enorme polémica e controvérsia gerado pelos eventos anteriormente descritos, o efeito que terão a nível da ordem mundial não é ainda, em grande medida, claro. Com as seguintes perguntas pretende-se um olhar detalhado e informado sobre a natureza e os possíveis impactos destes eventos, bem como o contributo que a Teoria das Relações Internacionais deverá ter na sua análise.

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1. Como pode ser descrito o processo desencadeado pelo voto favorável ao Brexit, e quais os seus impactos? O processo desencadeado pelo resultado favorável ao Brexit pode ser descrito, por um lado, como uma revolta de algumas camadas da população contra determinados fenómenos associados à globalização, mais ligados a questões de geração e distribuição de riqueza e, por outro, a um reacender de sentimentos nacionalistas e, em determinados casos, até racistas.

é necessária aprovação pelo parlamento britânico ou se a primeira-ministra pode utilizar a prerrogativa real para o efeito. E todo o debate em seu redor tem tido algum impacto a nível político e social. Existem também outras questões que, com toda a probabilidade, se colocarão num futuro próximo, muito particularmente durante as negociações. Isto porque as interpretações, quer por parte do Reino Unido quer da União Europeia, em matéria de legislação europeia, muito particularmente, em relação ao art.º 50º do Tratado de Lisboa, podem ser várias. E, nesse sentido, os debates em redor dessas polémicas terão certamente os seus impactos na sociedade britânica e ao nível da União Europeia durante todo o processo, que está rodeado de incertezas. Naturalmente, o impacto final do processo dependerá muito dos acordos celebrados e das opções tanto do Reino Unido como da União Europeia. Isto porque, a título de exemplo, será muito diferente o Reino Unido acabar por ficar como membro do Espaço Económico Europeu, mas não da União Europeia, algo que não pode ser totalmente posto de parte ou, alternativamente, desligar-se completamente da União Europeia e

Imagem 1: Brexit “IN or OUT” É um tema complexo e levanta também várias questões importantes relativas ao posicionamento do Reino Unido na Europa e no mundo. A polémica em redor do processo tem sido grande, designadamente no Reino Unido, porque não se compreende exatamente o que significa, podendo ter vários significados e implicações diferentes. Para além disso, existem questões de natureza constitucional relativamente à legitimidade de quem tem poder para desencadear o processo, muito particularmente, se 8


ter, designadamente, de negociar com a Organização Mundial do Comércio. O mesmo, caso se estabeleça um outro acordo. Para além disso, teremos várias eleições importantes em 2017, designadamente, em França e na

Alemanha, que podem conduzir a alterações importantes em termos de política europeia e cujos resultados poderão influenciar, tanto as negociações como o resultado.

Imagem 2: Brexit – Saída do Reino Unido da União Europeia

2. O que se pode esperar em termos de política de segurança e defesa norte-americana após a eleição de Donald Trump? A eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA deverá provocar alterações significativas para esse país e para a ordem internacional e, muito particularmente em matéria de segurança e defesa. O sistema norteamericano tem o conhecido sistema de checks and balances, que procura prevenir e evitar a concentração de poderes, mas a verdade é que Donald Trump beneficiará de uma maioria do Partido Republicano nas duas câmaras do Congresso, na

Câmara dos Representantes e no Senado. E, se durante a campanha eleitoral o Partido Republicano estava profundamente dividido, desde a sua eleição que essas divisões se atenuaram e a ala mais radical e extremista parece prevalecer. Do mesmo modo, alguns dos principais potenciais membros do seu governo estão alinhados com essa tendência mais radical e conservadora e deverão apoiar a sua política. Assim sendo, e de acordo com as ideias que projetou durante 9


a campanha eleitoral, é expectável que, por um lado, a política externa tenderá a ser menos interventiva do que a do seu antecessor, e muito particularmente em relação ao que seria a de Hillary Clinton caso tivesse sido eleita. Por outro lado, Donald Trump demonstra ter uma atitude pragmática, mas também muito transacional.

uma aliança política e militar criada após o fim da 2ª Grande Guerra com os objetivos de travar o expansionismo soviético e fomentar a integração europeia. Presentemente, a NATO é composta por 28 Estados membros, mas são os EUA que financiam maioritariamente a organização no que concerne as despesas de defesa. E, nesse sentido, os EUA poderão fazer com que haja uma maior contribuição financeira por parte dos outros Estados membros. Para além disso, e também em relação à NATO, poderá colocar em causa o Art.º 5º do Tratado de Washington ou, pelo menos, utilizá-lo como uma arma negocial. Esta situação seria muito problemática e até perigosa, na medida em que o Art.º 5º é um princípio fundamental da organização, que determina que um ataque contra um dos seus membros é considerado como um ataque contra todos e dará lugar a uma resposta coletiva. Uma alteração a este princípio seria colocar em causa vários equilíbrios regionais e teria implicações de segurança muito importantes, causando grandes preocupações aos países do leste da Europa que são membros da NATO. Mas Trump poderá também tentar estabelecer um relacionamento de tipo transacional com a Rússia, reconhecendo até a anexão da Crimeia como instrumento de negociação. Um destes casos é o Médio Oriente, muito

Imagem 3: Série televisiva dos Simpsons prevê a eleição de Donald Trump O que isto pode significar é que poderá tentar desenvolver a sua política externa como se fossem situações de transações, em que a capacidade de negociação é o fator chave de sucesso e em que o poder dos EUA é fundamental enquanto arma negocial tendo, obviamente, como objetivo central os interesses dos EUA. Um dos casos em que esse tipo de atitude se poderá manifestar é em relação à NATO e ao papel dos EUA nessa organização. A NATO é uma organização internacional de segurança coletiva, que resulta de 10


particularmente em relação às situações no Iraque e na Síria, que são as mais problemáticas atualmente. E, nesse âmbito, poderá também considerar que a presença no poder de Bashar al-Assad tem mais hipóteses a prazo de estabilizar a Síria com a ajuda da Rússia do que outras forças no terreno. Poderá também favorecer situações de governos autoritários em determinados países de determinadas regiões tendo em

consideração os falhanços e desilusões das políticas intervencionistas anteriores e as tentativas de democratização. E, como frequentemente salientou, o combate ao terrorismo em geral, e ao Daesh em particular, deverá ser a sua prioridade. Esse tema pode também trazer possibilidades de cooperação e entendimento com Putin, dado que o terrorismo é também uma grande preocupação da Rússia.

Imagem 4: Série televisiva dos Simpsons prevê a eleição de Donald Trump

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3. A área de doutoramento do Prof. Vítor Ramon Fernandes é História e Teoria das Relações Internacionais. De que modo poderá a história e a teoria das RI ajudar-nos a compreender os impactos internacionais tendo em consideração os fenómenos anteriormente referidos? A Teoria das Relações Internacionais visa dotar-nos dos instrumentos teóricos para a análise e integração sistémica dos acontecimentos internacionais, e fornecer-lhes as bases da legitimação ontológica, epistemológica e metodológica da área das Relações Internacionais. Qualquer declaração sobre política internacional tem subjacente, implícita ou explicitamente (mais frequentemente implicitamente), hipóteses teóricas sobre temas como, poder, interesses, normas, identidade, e sobre a forma como estas se relacionam com os atores na cena internacional. Dito de outro modo, em relação ao que consiste o “internacional” e ao seu funcionamento. O que isto significa, e implica, é que quer queiramos quer não, estamos dependentes da teoria na disciplina e das chamadas “teorias das relações internacionais”. Isto não significa que elas são absolutamente indispensáveis para compreendermos os fenómenos

ligados ao “internacional”, mas que são importantes na medida em que nos ajudam a compreender, comparar e avaliar as possíveis interpretações sobre os fenómenos e acontecimentos respeitantes ao domínio do internacional. A utilização desses “quadros mentais” permite-nos também explicitar e compreender melhor a nossa posição face a determinado assunto. Por esse motivo também, as teorias das relações internacionais devem ser analisadas como um debate contínuo e em evolução e não enquanto categorias estanques. Elas pretendem confrontar ideias, compreender os seus elementos basilares e o que as separa. É, assim, também possível compreender a forma como se teoriza nas Relações Internacionais, notando que as teorias não servem apenas para explicar ou prever fenómenos, mas também para compreendermos as possibilidades que existem para a ação humana e a intervenção, sem negligenciar forçosamente nem as questões éticas nem as pragmáticas.

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ESTÁGIOS DO OBSERVATÓRIO POLÍTICO O Observatório Político vai já na segunda fase da VI edição do programa de estágios académicos e curriculares, destinado a proporcionar aos jovens estudantes e recém-licenciados uma experiência de desenvolvimento de funções em contexto de trabalho numa associação científica. Os pedidos de estágio devem ter correspondência com as áreas de intervenção do Observatório Político e situar-se em proposta de desenvolvimento de tarefas em Estudos Políticos, Relações Internacionais, Comunicação e Imagem, Secretariado e Informática, entre outras. Tendo a duração máxima de três meses. Para mais informações viste o nosso site, www.observatoriopolitico.pt, ou contacte-nos por email: geral@observatoriopolitico.pt. Candidaturas selecionadas 2011 / 2012 Inês Amador Teresa Furtado Joana Ferreira Pedro Fragoso Cláudia Ribeiro Filipa Brandão Filipa Magalhães Isabel Madeira Tânia Frade Cláudia Madruga Catarina Santos João Mártires Bruno Bernardes Gilberto Pereira Candidaturas selecionadas 2012 / 2013 Ana Meireles Vasco Batista João Gaspar André Rato Alain Lantoine Cristiana Silva Francisco Costa Diana Serôdio José Campino Mariana Faísca

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Candidaturas selecionadas 2013 / 2014 Ana Sofia Santos Filipe Ferreira Pedro Sobral Rui Coelho Adriana Correia João Bandeira Nuno Lopes Sandra Ponte Candidaturas selecionadas 2014 / 2015 Beatriz Viegas Bernardo Esperança Bruna Peixoto Catarina Rolim Daniela Gomes Dorian Rosca Ricardo Fernandes Sara Leitão Apolo de Carvalho André Vieira Eva Nave Joana Lemos Miriam Sousa Ana Rita Dias Maria Amado Candidaturas seleccionadas 2015 / 2016 Ana Rita Dias Mariana Duarte Sara Gouveia João Sampaio Jorge Campos Patrícia Tomás Verónica Ferreira Candidaturas seleccionadas 2016 / 2017 Alberto Cunha Cristina Santos Emmanuel Cortês Patrícia Tomás

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PUBLICAÇÕES DO OBSERVATÓRIO POLÍTICO e-Working Papers Working Paper #64 "As motivações que levam os jovens a aderir aos partidos políticos em Portugal" Membro Associado Patrícia Tomás Working Paper #65 "A Evolução do Direito de Sufrágio na História Constitucional Portuguesa" Membro Associado José Pedro Almeida Working Paper #66 "Representação Política e Democracia: Contemporâneo a partir de Hanna Pitkin" Membro Associado Orlando Coutinho

uma

análise

do

Panorama

Político

Upcoming e-Working Papers Working Paper #67 "Paving the New Silk Road: the evolution of the Sino-German strategic partnership" Membro Associado Alberto Cunha Working Paper #68 "Diplomacia Digital e Soft Power no Século XXI" Membro Associado Cristiana Oliveira Working Paper #69 "O estudo dos assuntos religiosos pela ciência política: Análise dos conteúdos das revistas de ciência política europeias entre 2010-2015" Membro Associado Jorge Botelho Moniz Working Paper #70 "Post-crisis constitution making in UN supported peace processes. Towards a Liberal-Participatory Peace" Membro Associado Maria Ejarque Albuquerque

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SESSAO DE INVESTIGAÇÃO NA PÁTRIA DOS ANCESTRAIS: O IMPERADOR D. PEDRO II EM PORTUGAL (1871-1872) 2 de Novembro de 2016 Observatório Politico | ISCSP-ULisboa

Lúcia Maria Paschoal Guimarães A Professora Doutora Lúcia Maria Paschoal Guimarães é membro do Conselho Científico do Observatório Político e docente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no departamento de História. Licenciada em História com Mestrado em História Social, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutorada em História Social pela Universidade de São Paulo. Professora Titular de Teoria da História e Historiografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Realizou estágio de pesquisa sabática em Portugal, na Universidade Nova de Lisboa (2008-9). Publicou livros e trabalhos no Brasil e noutros países, em temas como: cultura histórica, cultura e poder, história e política, intelectuais e poder no Segundo Reinado (o período de D. Pedro II) e relações culturais lusobrasileiras. Co-autora (coord.) com Professora Doutora Cristina Montalvão Sarmento, directora do Observatório Político, de “Culturas Cruzadas em Português. Redes de Poder e Relações Culturais (Portugal - Brasil, séc. XIXXX)”, Volumes I a III. Coimbra: Edições Almedina 2010, 2012 e 2015.

No passado dia 2 de Novembro de 2016, teve lugar nas instalações do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (Sala 8 do Piso 3) uma sessão de investigação conduzida pela Professora Doutora Lúcia Maria Paschoal Guimarães, sob o título “Na Pátria dos ancestrais: D. Pedro II em Portugal (1871-1872) ”.

ao Observatório Político um tema de “micro-história”, num exercício metodológico original e interessante, tendo por base a sua investigação mais recente: as viagens do Imperador D. Pedro II do Brasil à Europa, entre 1871 e 1872. A primeira paragem consistiria numa estadia em Lisboa, em 1871; o périplo Europeu iria ser concluído no ano seguinte na cidade do Porto. Foi nestas duas passagens por Portugal que a sessão se focou.

Nesta sessão, a Professora Lúcia Maria Paschoal Guimarães trouxe 17


A abordagem da sessão ao seu tema foi muito além do simples relato das viagens do imperador, procurando suscitar o interesse por temas históricos mais vastos: os hábitos de viagem culturais oitocentistas; as interacções culturais entre as elites brasileiras e as elites europeias (e mais concretamente, neste caso, as portuguesas); a natureza dos laços entre as casas de Bragança Portuguesa e Brasileira.

humor certeiro e mordaz a época cultural do Portugal oitocentista: Rafael Bordalo Pinheiro.

Através do olhar da imprensa e elite cultural lisboeta da época, foi traçado um retracto exacto da natureza da imprensa e hábitos da época Portuguesa: a pesquisa para esta sessão baseou-se largamente no diário do Imperador, mas igualmente em importantes elementos da imprensa Portuguesa, nomeadamente d’”As Farpas”, publicações mensais de nomes tão ilustres da cultura Portuguesa como Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, e que marcaram uma época na imprensa e cultura portuguesa ao surgirem precisamente no ano da estadia do imperador em Lisboa, em 1871. A informação foi igualmente recolhida em livros publicados sobre a vida e as viagens do imperador (bem como livros sobre os hábitos de viagem oitocentistas), e alguma pesquisa de época nos jornais de 1871 e 1872. A imprensa da época usada para a sessão incluiu o recurso às caricaturas de outra figura que, tal como os autores d’”As Farpas”, marcou com o seu

Imagem 5: A capa d"As Farpas" A sessão começou com a longa viagem de barco do Imperador até Lisboa. O imperador tinha desde cedo revelado um desejo muito forte de visitar o mundo, e teve de pedir autorização prévia para as viagens relatadas nesta sessão. Foi uma viagem de longa preparação, até porque o Imperador precisou ainda de esperar pelo fim da guerra do Brasil com o Paraguai, que durou de 1864 a 1870. O seu espírito é extremamente curioso e típico do desejo das viagens das elites na época no combinar de lazer e exploração cultural, tendo por exemplo sido relatado como o imperador organizou vários saraus em Lisboa. Na viagem de barco inicial é dado o primeiro sinal daquilo que será uma regra da 18


conduta do Imperador ao longo da viagem: o forte anseio de contacto com os seus companheiros de vigiam, dispensando em parte as cortesias que lhe seriam devidas tendo em conta a sua qualidade imperial. Nesse sentido, conversa largamente com os seus companheiros, alguns dos quais aparecerão retratados no seu diário e presentes no lado visual trazido para esta apresentação: destaque para o inglês Mr. Crawley e um casal que o imperador designa humoristicamente no seu diário como “Romeu e Julieta”.

Este é um edifício usado nestas quarentenas na margem Sul, e que será durante a estadia do Imperador alvo de inúmeras visitas dos lisboetas (a professora refere com humor as carreiras improvisadas criadas para tais visitas, que permitiram a muitos lisboetas ganharem “algumas patacas”) e até disponibilização de música por bandas militares pela família real portuguesa. Os desenhos do edifício pelo imperador no seu diário enriquecem a apresentação visualmente, e são mostrados pela professora nesta fase.

O desejo de contacto com as gentes comuns é estendido ao período de quarentena inevitável em viagens da época desde o Brasil, tendo o imperador chegado a Lisboa em Maio de 1871: não obstante a disponibilização pela Família Real de uma ala do Palácio de belém para o Imperador e sua comitiva (que incluiu a sua mulher e mais 15 pessoas), o Imperador prefere passar a quarentena no Lazareto, tal como os seus companheiros de viagem.

Em Portugal, a expectativa pela viagem do Imperador é grande, e esta sessão foi bem-sucedida no traçar do retracto de uma sociedade em período de transição. Neste sentido foi referido o facto de o ano de 1871 ser o das famosas Conferências do Casino, que incluem a exposição das “Causas da decadência dos povos peninsulares”, e que viriam como sinal de uma crescente insatisfação das elites culturais a ser proibidas logo após a saída do Imperador de Portugal. D. Pedro II não é indiferente a esta realidade social portuguesa: refere no seu diário o escritor João de Deus como sendo um preso político, e a sua visita inclui o desejo de visitar várias figuras já icónicas da literatura (Romântica, na altura já forma de moda pelo que é criticado pelos satiristas da época), como o

Imagem 6: O Lazareto

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historiador Alexandre Herculano, que lhe refere a sua falta de esperança no futuro de Portugal. Visitará Camilo Castelo Branco ao passar pelo Porto, quando volta a Portugal em 1872.

o seu irmão D. Miguel em 1834, e primeiro imperador brasileiro, após o “Grito do Ipiranga” de 1822. D. Pedro II encontra-se repetidamente com vários dos comandantes na guerra liberal liderada pelo seu pai, dos quais se destacam figuras como o Duque de Saldanha. Aquando da sua segunda passagem em Portugal já na conclusão das suas viagens pela Europa e Egipto (depois de passar em locais como a Áustria, onde visita a sua família maternal), o Imperador ficará como referido na cidade do Porto, onde procura reunir os veteranos da mesma guerra e visitar todos os locais relevantes para a tal guerra que teve como fase decisiva o cerco falhado dos miguelistas às forças comandadas pelo seu pai no Porto.

Intermediando todas estas referências aos encontros do Imperador, é bem-sucedido o estabelecer de um contraste claro entre as cortesias e deferências com que a elite lisboeta e a casa real esperavam receber o imperador, e a simplicidade com que este pretende viajar. Esta constitui, como afirmará certeiramente o investigador associado do Observatório Político e autor no III volume do livro Culturas Cruzadas em Português (Edição Almeida), Dr. Carlos Vargas, uma estratégia de “semianonimato” que o Imperador adopta e que permite conjugar este convívio com os locais mas não abdicando totalmente da sua qualidade de Imperador. De facto, esta sessão demonstrou ainda de forma certeira como um dos maiores objectivos da visita a Portugal é a vontade do Imperador reencontrar o seu próprio passado. Se por um lado é grande o espanto lisboeta ao ver o Imperador a ir ao mercado fazer compras e conversar com os locais, por outro lado D. Pedro II é aclamado pelas multidões na ida à praça do Rossio em carruagem aberta, na homenagem que faz à estátua do seu pai, o rei D. Pedro IV - vencedor da Guerra Liberal contra

Imagem 7: A comitiva imperial no Egipto Em suma, uma apresentação extremamente interessante, suscitando várias perguntas da audiência, tendo terminado com algumas ideias chave sobre a natureza da viagem do Imperador. A principal ideia é a conjugação na viagem de D. Pedro II da sua “cultura de viajar oitocentista” com 20


o seu desejo de recuperar as raízes do seu passado e nomeadamente o tributo à figura do seu pai, D. Pedro IV. Já na fase das questões, e em resposta às interpelações atentas da audiência presente, é referido como a cultura de viagens pela Europa e Estados Unidos (que o imperador iria visitar ainda na mesma década) era obrigatória para as elites brasileiras, que a consideravam como parte fundamental da sua formação e eram, no fundo, dominadas por um desejo de imersão na cultura europeia a que consideravam pertencer. Foi portanto de grande interesse a menção aos preconceitos culturais

omnipresentes na época entre as elites da Europa e Estados Unidos. Quando estas recebiam membros da referida elite de países como o Brasil esperavam pessoas “mais selvagens” ou pelo menos muito mais diferentes culturalmente. Com esta última nota sobre as interacções culturais entre as elites oitocentistas, terminou esta sessão cujo sucesso reforça o objectivo de continuação de colaboração científica por parte do Observatório Político com todos os seus membros que desenvolvem a sua actividade pelo mundo, e que tanto trazem ao perfil internacional indispensável à natureza da nossa associação.

Imagem 8: Imperador Pedro II 21


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AGENDA | REVIEW 2016 Outubro:

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Lopes, proferiu uma aula aberta intitulada "A ONU e a necessidade de reforma do seu Conselho de Segurança", na FCSH da Universidade dos Açores.

Foi convidado do programa de

informação da RTP1, “Bom Dia Portugal”, para comentar a eleição do novo Secretário-geral da ONU, o Investigador Associado do Observatório Político, José Miguel Bettencourt.

Novembro:

2

Disponibilização do e-Working

Paper #65, da autoria do membro associado José Pedro Almeida sobre o tema "A Evolução do Direito de Sufrágio na História Constitucional Portuguesa".

7

Disponibilização do e-Working

Paper #64, da autoria do membro associado Patrícia Tomás sobre o tema "As motivações que levam os jovens a aderir aos partidos políticos em Portugal".

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O

Observatório

Político

organizou uma sessão de investigação intitulada “Na Pátria dos Ancestrais: O Imperador D. Pedro II em Portugal (1871-1872) ”, que foi conduzida pela Professora Doutora Lúcia Maria Paschoal Guimarães (UERJ-Brasil), Membro do Conselho Científico Internacional do Observatório Político/ ISCSPULisboa.

O Investigador Associado do

Observatório Político e co-editor executivo da Revista Portuguesa de Ciência Política, Mestre Nuno 23


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Lançamento

da

do e-Working Paper Observatório Político.

Revista

Portuguesa de Ciência Política nº6, que contou com a colaboração gráfica do artista Pantónio.

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#63

do

O Investigador Doutorado e

membro do conselho científico do Observatório Político/ Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - ISCSP/ULisboa, Professor Catedrático José Adelino Maltez, esteve na SIC Notícias a comentar o falecimento do líder cubano, Fidel Castro.

Dezembro:

2

Realização da Assembleia Geral

anual do Observatório Político.

2

Paper #66 da autoria do Membro Associado Orlando Coutinho, com o tema “Representação Política e Democracia: uma análise do panorama político contemporâneo a partir de Hanna Pitkin”.

17 Lançamento da VIII Newsletter do Observatório Político, Open Arena, dedicada ao tema "Crise, Segurança e Ambiente".

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O

membro

associado

Disponibilização do e-Working

do

Observatório Político, Emmanuel Cortês, publicou na plataforma "África Monitor Intelligence" uma análise sobre as desigualdades na distribuição de recursos como raiz do conflito em Moçambique, a partir

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AGENDA | PREVIEW 2017 Janeiro:

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Actualização dos correspondentes internacionais do Observatório Político.

Disponibilização do e-Working

Paper #67, da autoria do Membro Associado Alberto Cunha, com o tema “Paving the New Silk Road: the evolution of the Sino-German strategic partnership”. Início da segunda fase do VI Programa de Estágios do Observatório Político Revista Portuguesa de Ciência Política 7 e 8, avaliação e arbitragem científica a decorrer.

Fevereiro:

Calendário a definir para o Call for Papers Revista Portuguesa de Ciência Política 9 e 10 | 2018.

2

Disponibilização do e-Working Paper #68, da autoria do Membro Associado Cristiana Oliveira, com o tema “Diplomacia Digital e Soft Power no Século XXI”.

Março:

2

Disponibilização do e-Working

Paper #69, da autoria do Membro Associado Jorge Botelho Moniz, com o tema “O estudo dos assuntos religiosos pela ciência política: Análise dos conteúdos das revistas de ciência política europeias entre 2010-2015”.

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OPen Arena IX  
OPen Arena IX  
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