revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):2-3 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.01
Editorial Eduardo Luersen[*] Ronaldo Cesar Henn[**] Christian Gonzatti[**]
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Instituto de Cultura Digital (ICD) nasce no Programa de Pós-Graduação de Ciências da Comunicação da Unisinos, pela percepção de alguns pesquisadores, de que o conhecimento produzido por suas atividades científicas extrapola o ambiente acadêmico. Com o objetivo de ampliar as conexões com outros públicos para além da comunidade acadêmica o ICD trabalha para desenvolver sujeitos, coletivos e organizações no âmbito dos desafios da Cultura Digital, a partir das competências de pesquisa instaladas e desenvolvidas nos grupos de pesquisa LIC - Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento e TCAv Audiovisualidades da Tecnocultura. A partir da produção do conhecimento resultado das pesquisas produzidas pelos pesquisadores e pesquisadoras, as ações e projetos do instituto estão inseridas no mercado da indústria criativa e é com os atores que fazem parte desse mercado que o ICD se conecta e dialoga através do trabalho que desenvolve. A ênfase das atividades que são realizadas no ICD está no diagnóstico de cenários e tendências, na capacitação de organizações, coletivos, indivíduos e na construção de soluções de recomendação para processos interacionais que se estabelecem em contextos mediados pelas tecnologias da informação e da comunicação. Dessa forma, o ICD tem atuado para ser um espaço de construção de conhecimento e pesquisa sobre a cultura digital no contexto da indústria criativa. Neste dossiê, recebemos textos que debatem a Cultura Digital no século XXI. Em Tecnopolítica migrante em disputa: ativismo e usos táticos de plataformas digitais, Liliane Dutra Brignol analisa de que forma as práticas ativistas reconhecem e enfrentam as lógicas algorítmicas que ingerem sobre as experiências de ação coletiva por meio das tecnologias digitais. [*]
A autora realiza essa análise a partir de observação online, observação participante em espaços urbanos, e entrevistas semiestruturadas com ativistas migrantes envolvidos em ações coletivas no contexto espanhol. O trabalho examina como as lutas políticas por visibilidade e por direitos migratórios se articulam através da mediação tecnológica. Com o direito à mobilidade – uma das grandes questões éticas contemporâneas – como pano de fundo, Brignol aborda os complexos tensionamentos tecnopolíticos resultantes da era digital, indo além das tradicionais tensões entre movimentos migratórios e as estruturas do Estado-nação. Ao enfatizar a importância da lógica algorítmica nas dinâmicas comunicacionais das plataformas digitais e as apropriações táticas dessas tecnologias por ativistas migrantes, a autora destaca como essas práticas buscam cada vez mais integrar as iniciativas da ambiência digital a contextos presenciais. Partindo da tecnopolítica em direção à tecnoestética, esta edição também apresenta o trabalho “Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube, de Débora Gauziski. A partir da análise das audiovisualidades de canais de lofi hip hop na plataforma e da observação netnográfica das dinâmicas comunicacionais nos campos de comentários de vídeos do gênero, a autora explora as manifestações de sentidos de nostalgia associadas ao consumo musical contemporâneo. Delimitando o estudo aos comentários publicados durante o confinamento causado pela pandemia de SARS-CoV-2 em 2020, a pesquisadora destaca a presença de memórias e relatos pessoais compartilhados pelos usuários. Dentre estes, sobressaem-se as associações com produtos culturais do passado, muitas vezes não experienciados diretamente pelos
Zukunftskolleg, University of Konstanz. Universitaetsstrasse 10 - 78464 Konstanz - Germany. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Av. Unisinos, 950 - Bairro Cristo Rei - São Leopoldo (RS).
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Editorial
usuários, e a paradoxal sensação de saudade de situações específicas da pandemia, mesmo diante das experiências trágicas e ainda muito recentes daquele período. Em Plataformização do telejornalismo: uma análise sobre os procedimentos adotados na cobertura da TV Globo na invasão dos poderes em Brasília (2023), Carolina Dantas de Figueiredo e Adriano Austeclínio Pádua dos Santos conduzem a análise da cobertura da TV Globo sobre os ataques à sede dos três poderes em Brasília em janeiro de 2023. A partir deste estudo de caso, os autores propõem uma reflexão mais profunda sobre as emergentes oscilações nas relações de poder entre instituições jornalísticas e as plataformas online: à revelia das disposições da indústria jornalística, a atuação dos algoritmos em relação às notícias das empresas de comunicação exerce controle sobre a visibilidade desses conteúdos, operando como um editor na seleção, produção e distribuição online. Através de análise detalhada das dinâmicas de circulação e visibilidade de conteúdos relacionados à invasão da sede dos três poderes, o artigo enfatiza as crescentes tensões entre o controle editorial das empresas de comunicação e as dinâmicas das plataformas, observando como este processo de edição algorítmica altera os critérios de noticiabilidade e compele a indústria do jornalismo a criar mecanismos de participação no ecossistema midiático digital. Em Representação da inteligência artificial pela mídia: análise do discurso e do conteúdo de uma cobertura noticiosa em língua inglesa, Frederico Reis Pacheco analisa a cobertura midiática, o conteúdo discursivo e as manchetes referentes a uma etapa de um experimento conduzido em 2017 pela equipe do Facebook AI Research (FAIR). A análise, realizada a partir de meios de grande circulação de língua inglesa, aponta como a cobertura jornalística extrapolou significativamente os processos e conclusões do estudo original, que consistia em avaliar o uso de inteligência artificial para realizar tarefas específicas sem intervenção humana, visando treinar modelos para interações entre agentes humanos e sistemas automatizados. A análise descreve como os discursos oscilaram entre o deslumbramento tecnológico e preocupações éticas, priorizando termos incomuns e excessivamente impactantes, com tendência ao sensacionalismo. Ao destacar aspectos dramáticos ou polêmicos em busca de um apelo mais emocional, a espetacularização dos acontecimentos acaba simplificando ou distorcendo informações técnicas. O autor sugere que, através de uma abordagem mais equilibrada, a imprensa poderia ter um papel fundamental na promoção do letramento em inteligência artificial, fornecendo ao público o conhecimento necessário para tomar decisões mais conscientes e responsáveis em relação à tecnologia. Tal letramento seria muito relevante socialmente no atual contexto, em que aplicações de modelos revista Fronteiras - estudos midiáticos
de inteligência artificial se inserem em áreas diversas, da economia às artes, da educação à administração pública. A partir de uma análise discursiva, Karen de Paula Santos e Patrícia Gonçalves Saldanha procuraram identificar os efeitos de sentido presentes na campanha de comunicação publicitária promovida pelo conglomerado de tecnologia Google durante a tramitação no Congresso Nacional do Projeto de Lei 2630/20, em 2023, que institui a lei brasileira de liberdade, responsabilidade e transparência na internet, também conhecida como PL das Fake News. Com o título A comunicação silenciosa do Google sobre o PL 2630/2020: midiatização discursiva contra a regulamentação de difusão da informação na ambiência digital, o artigo traçou, como objetivo, de compreender se/como a circulação do discurso, aparentemente sem pretensão financeira, aliado ao monopólio de poder e domínio tecnológico, poderia constituir, de maneira silenciosa, subterfúgios para a legitimação dos interesses de mercado da corporação. As autoras constataram que, ao articular dinâmicas de produção e circulação de conteúdos relacionados à temática da regulamentação, houve uso de estratégias textuais características da desinformação, além da circunscrição do PL em uma Formação Discursiva que pressupõe subserviência legislativa aos interesses dos conglomerados empresariais. Em Uma análise dos memes sobre vacinação de covid-19 em redes sociais on-line, Tiago Franklin Rodrigues Lucena, Lara Beatriz Natalie Arantes e Graça Penha Nascimento Rossetto apresentam o resultado de pesquisa qualitativa que analisou os materiais meméticos sobre o tema que circularam entre final de 2021 e início de 2022. Os autores coletaram 41 memes através da ferramenta Google Imagens ou de hashtags nas RSOs Instagram e X, e deste total depois do processo de seleção e exclusão, destacaram seis foram submetidos à análise visual e de conteúdo, além de serem categorizados quanto à temática e tipo de meme. Os resultados apontaram para uma forte presença do humor principalmente do auto-humor, quando a finalidade é rir de si próprio, com peças consideradas do tipo macro, que consistem em imagens somadas a texto, a favor da vacinação e de crítica às informações divulgadas por grupos antivacinas e falas do ex-presidente Jair Bolsonaro. O artigo aponta que os memes se configuram como peças de posição política e, “em um cenário de crise sanitária cercada por incertezas, funcionaram como mecanismo de enfrentamento ao surgimento ou agravamento de doenças como ansiedade e depressão”. Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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Tecnopolítica migrante em disputa: ativismo e usos táticos de plataformas digitais Migrant technopolitics in dispute: activism and tactical uses of digital platforms Liliane Dutra Brignol[*] liliane.brignol@ufsm.br
RESUMO Partindo de discussão teórica sobre práticas ativistas migrantes com base na perspectiva da tecnopolítica, o artigo analisa resultados de pesquisa empírica de caráter exploratório sobre usos de plataformas digitais por migrantes residentes na Espanha. Com base em sete entrevistas com homens e mulheres de diferentes nacionalidades que se reconhecem como ativistas, foi possível identificar um conjunto de táticas nos usos de plataformas digitais para a promoção de ações de luta por direitos migrantes, decorrentes, em parte, da percepção da incidência de relações de poder estabelecidas pelas lógicas algorítmicas nestas plataformas. Entre as práticas observadas como forma de resistir às limitações impostas, destacam-se a combinação ou adaptação ao uso das plataformas conforme tipo de ação, busca de alternativas diante de censuras, promoção de campanhas conjuntas, preferência por plataformas consideradas menos tóxicas ou mais seguras, articulação em rede entre coletivos, bem como mediação entre organizações migrantes e antirracistas com organizações de defesa dos direitos humanos no contexto das tecnologias digitais.
ABSTRACT The article analyzes results of an exploratory empirical study about uses of digital platforms by migrants residing in Spain. To this end, it starts from a theoretical discussion based on the perspective of technopolitics. Based on seven interviews with men and women of different nationalities who recognize themselves as activists, it was possible to identify a set of tactics in uses of digital platforms to promote actions to fight for migrant rights, resulting, in part, from the perception of the incidence of power relations established by algorithmic logics on these platforms. Among the practices observed as a form of resistance, we highlight the combination or adaptation to the use of platforms according to the type of action, search for alternatives in the face of censorship, promotion of campaigns, preference for platforms considered less toxic or safer, network articulation between collectives, as well as mediation between migrant and anti-racist organizations with organizations defending human rights in the context of digital technologies.
Palavras-chave: Ativismo; migrações; plataformas digitais; táticas.
Keywords: Activism; migrations; digital platforms; tactics.
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Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Av. Roraima, nº 1000, Cidade Universitária, Bairro Camobi - Santa Maria/RS. 4
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Tecnopolítica migrante em disputa: ativismo e usos táticos de plataformas digitais
Introdução
É
possível fazer ativismo hoje a partir das plataformas digitais? Especialmente no caso de disputas em torno de direitos migratórios, de que ativismos estamos falando quando nos aproximamos das experiências mediadas pelas tecnologias digitais? Partindo destas duas grandes questões, este artigo foca a atenção na percepção de sujeitos migrantes que se identificam como ativistas e atuam em defesa dos direitos humanos, em especial o direito à mobilidade, sobre usos de plataformas digitais para ações coletivas. Interessa conhecer, especialmente, se e como reconhecem a incidência de relações de poder estabelecidas pelas lógicas algorítmicas presentes nas apropriações de plataformas de redes sociais para suas lutas políticas, de modo a identificar possíveis usos táticos destas plataformas que busquem resistir às limitações impostas. Essas foram algumas das questões que nortearam pesquisa empírica exploratória realizada junto a coletivos e organizações migrantes no contexto espanhol, que se baseou em observação online, observação participante e entrevistas no período de dezembro de 2023 a maio de 2024. No total, foram identificadas 25 organizações migrantes e realizadas sete entrevistas com sujeitos de diferentes nacionalidades residentes em Barcelona e Madri, como parte de ações desenvolvidas em estágio como professora visitante sênior pelo Projeto Capes/PrInt UFSM no Instituto da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona – InCom UAB, sob supervisão da profa. Dra. Amparo Huertas. O projeto em que se situa este trabalho teve como objetivo investigar as relações entre tecnopolítica, ativismos migrantes e interculturalidade1, com base em pesquisa teórica e empírica, de caráter qualitativo e exploratório, no qual partimos do pressuposto de que migrações representam uma das questões éticas centrais do nosso tempo. Neste cenário, entendemos não ser possível alcançar justiça em um mundo que continua dividido entre cidadãos de primeira e segunda classe (Appadurai, 2019) ou mesmo não cidadãos (Santos, 2007), em que pobreza, conflitos,
crises climáticas, desigualdades de gênero, entre outros fatores, expulsam parte da população de regiões do globo (Sassen, 2016) ou criam fronteiras de desigualdade dentro dos próprios Estados-nação. Assim, o debate proposto, ao abordar formas emergentes de ativismo mediadas por tecnologias digitais geridas por grupos migrantes, permite repensar a própria lógica da migração e as posições construídas frente aos regimes de desigualdade global. Neste contexto, o ativismo migrante, ao mesmo tempo em que se fortalece a partir de apropriações das tecnologias digitais, é desafiado pelas limitações impostas pelas lógicas excludentes e pouco transparentes destas mesmas tecnologias. Assim, como recorte do trabalho explorado neste artigo, partimos de uma breve reflexão teórica sobre os conceitos norteadores do trabalho, para, num segundo momento, apresentar uma aproximação a usos sociais das plataformas digitais por migrantes residentes na Espanha, com base nas entrevistas realizadas, de maneira a identificar algumas táticas empreendidas para a promoção de ações diretas de luta política, antirracista e contra regimes de desigualdade e preconceito a que estão submetidos, diante de suas percepções sobre limites experimentados para a construção de ações coletivas.
Tecnopolítica, ativismos migrantes e usos táticos de tecnologias digitais Embora a discussão sobre a importância dos usos de tecnologias digitais para as experiências migratórias tenha crescido nas últimas décadas em vários contextos, concordamos com Leurs (2023) que se trata de uma área de pesquisa ainda bastante dispersa e cujos resultados acabam ficando delimitados em termos de disciplinas ou de região de abrangência das pesquisas. No campo da Comunicação e no âmbito brasileiro, observamos um interesse crescente na temática, a partir de trabalhos de investigação envolvendo aspectos como representação midiática das migrações (Cogo, 2002), webdiáspora
1 – Por uma questão de delimitação, a noção de interculturalidade não será aprofundada neste trabalho. Situamos
apenas nosso entendimento de que, em contextos migratórios, envolve um grande conjunto de fenômenos, incluindo, como lembra Grimson (2001) aspectos tão diversos como a convivência nas cidades e em espaços multiétnicos, projetos empresariais e de turismo, a vida transfronteiriça e os meios de comunicação. Trata-se da diversidade cultural vivida em diferentes dimensões do cotidiano, passando por uma convivência que não elimina os desentendimentos e conflitos. Ou seja, a interculturalidade vai além da simples co-presença da diversidade e torna-se um desafio a nossas sociedades em contextos de mudança radical marcada pela “presencia cotidiana de alteridades sociales, culturales y políticas (Grimson, 2019, p. 175). revista Fronteiras - estudos midiáticos
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(Brignol, 2010; ElHajji e Escudero, 2020), usos e apropriações de mídias por coletivos migrantes (Cogo, 2012; Brignol, 2010 e 2021), migração, transnacionalismo e cidadania (Cogo, 2007; Cogo, ElHajji e Huertas, 2012; ElHajji, 2011), migrações e interculturalidade (ElHajji, 2023), apenas para destacar alguns. Especificamente sobre ativismo migrante, apontamos a contribuição de Bringel (2011), Cajiga e Cogo (2017), Alles e Cogo (2018), ElHajji e Domingues (2018), Cogo, Camargo e Generali (2023), Cogo e Santos (2022), Cogo (2019), entre outros. Em pesquisas anteriores, o ativismo foi estudado como relacionado a usos de tecnologias apropriadas em dinâmicas de associativismo migrante, no caso de latino-americanos no Brasil e na Espanha (Brignol, 2010), e a lutas antirracistas, no caso da análise de redes sociais de migrantes senegaleses no sul do Brasil (Brignol, 2021). Nos dois contextos, foi possível perceber que, ao dar visibilidade para uma pauta em que são protagonistas, como sujeitos políticos, os migrantes subvertem a ordem de exclusão a que estão circunscritos e passam a disputar outras políticas de posição. Neste trabalho, os ativismos migrantes são entendidos a partir da aproximação à noção de tecnopolítica, ao reconhecermos que é urgente voltar a atenção para as inter-relações entre tecnologias e política, em uma expansão de ações que se convencionaram identificar como ciberativistas. A partir daí, as práticas tecnopolíticas podem ser definidas, com base em Calvo e Candón-Mena (2023), pela popularização do ativismo digital entre pessoas comuns, pelo uso simultâneo de tecnologias comerciais e autônomas, pela hibridização entre o físico e o virtual, com o uso de todos os tipos de mídia, não apenas digitais, em uma ecologia midiática mais complexa (Treré, 2016), de maneira a se abordar a tecnologia como uma questão política, além de seu uso instrumental. Nesse sentido, as transformações vivenciadas no campo das ações coletivas e nas formas de estar junto exigem um redimensionamento do próprio pensamento comunicacional sobre o espaço público, sobre o mundo digital e sobre as relações entre cultura, economia e democracia. Para isto, parte-se do entendimento dos movimentos sociais contemporâneos não mais organizados exclusivamente em termos de uma base institucional, mas cada vez mais marcados por articulações específicas de formação de redes e por suas lógicas de comunicação (Castells, 2013), o que implica modelos renovados de participação cidadã e mobilização social. Assim, em uma aproximação também à perspectiva da autonomia das migrações, os próprios fenômenos de 6
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mobilidade humana contemporâneos podem ser interpretados enquanto um movimento social de caráter global, que desloca a presença dos migrantes de uma postura de simples vítimas para um lugar em que expressam resistência e práticas conflitivas inovadoras (Mezzadra, 2005). Sem desconsiderar as profundas desigualdades estruturais em que estão inseridos, falar de autonomia das migrações implica “observar los movimientos y conflictos migratorios desde una perspectiva que priorice las prácticas subjetivas, los deseos, las expectativas y los comportamientos de los propios migrantes” (Mezzadra, 2012a, p. 160). Os migrantes são percebidos, desta forma, como sujeitos ativos e com projetos próprios, que constroem diversas ações de luta e resistência, implicando em processos de transformação em múltiplos âmbitos (social, econômico, político, cultural, como propõem Lacomba e Moraes Mena (2020). Estas mudanças são também comunicacionais e de ordem tecnopolítica, como observamos. Buscamos, neste contexto, entender possíveis tensões “por la hegemonía entre las diferentes orientaciones tecnopolíticas que forman parte del repertorio de acción digital de los movimientos sociales” (Candón-Mena; Montero Sánchez, 2023, p.308), trazendo a atenção para as ações coletivas empreendidas diante de uma agenda de luta dos movimentos migrantes, em que observamos uma crescente articulação em rede de organizações diversas que, muitas vezes, combinam agendas para fortalecer suas lutas. Longe de uma visão ingênua sobre a apropriação de tecnologias para avançar demandas a favor dos direitos migrantes, reconhecemos os tensionamentos que se dão em ambiências digitais marcadas pela polarização dos posicionamentos (Machado e Miskolci, 2019; Recuero, Soares e Zago, 2021), discursos de ódio (Silva et. al, 2019), reprodução de discriminação e racismo (Noble, 2018; Carrera, 2020; Silva, 2020), propagação de desinformação, fragmentação dos conteúdos, entre outros aspectos. Deste modo, fugindo de uma leitura eminentemente cética ou demasiado otimista, como percepção recorrente no debate teórico sobre movimentos sociais e tecnologias (Candón-Mena; Montero Sánchez, 2023), a perspectiva da tecnopolítica pode levar a uma complexificação da análise, centrada em uma realidade empírica muito mais paradoxal e contraditória. Isto porque considera as formas em que as ações coletivas se configuram a partir de dinâmicas sociais, econômicas, política e culturais específicas, incluindo não apenas experiências de organização coletiva em torno de causas consideradas progressistas, como o direito à revista Fronteiras - estudos midiáticos
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mobilidade, por exemplo, mas também toda a lógica de fabricação de consentimento, sabotagens às dissidências ou mesmo ameaças e discursos de ódio contra ativistas e coleta de informações dos cidadãos (Treré, 2016). Interessa entender como, no caso dos ativismos migrantes, a lógica algorítmica constitutiva das dinâmicas comunicacionais nas plataformas, segundo Bonini e Treré (2024), ao mesmo tempo em que produzem opressão, podem ser apropriadas pelos usuários para resistir ao poder das grandes companhias que as governam. Portanto, mais do que simples facilitadoras de serviços, as plataformas digitais são entendidas a partir de relações assimétricas de poder, o que, nos termos de Van Dijk, Poell e Nieborg (2019), deve ser problematizado para além da questão de concentração econômica, mas a partir de seu entendimento enquanto um ecossistema integrado que tem implicações inclusive em questões de cidadania e nos quais aspectos sociotécnicos e relações políticas precisam ser considerados. Presos nestas dinâmicas, enquanto usuários das plataformas, quais seriam nossas alternativas - ou nossas formas de agência e capacidades de resistência, nos termos de Bonini e Treré (2024)? Levando em conta que não somos igualmente vulneráveis, com base em Eubanks (2018), os autores afirmam que as pessoas mais pobres, minorias étnicas, povos indígenas, jovens e mulheres estão mais expostos à discriminação gerada por algoritmos e ao poder de plataformas. Trata-se, portanto, de uma relação atravessada por intersecções de classe, raça, gênero e condição de cidadania (especialmente observado no caso dos migrantes), por exemplo. São justamente essas intersecções que nos interessam pesquisar. Ao nos aproximarmos de realidades diversas, marcadas pela dificuldade de acesso a direitos, inserção desigual no mercado de trabalho, precarização, violências cotidianas relacionadas com questões de gênero e raça, a partir de experiências de sujeitos nascidos em diferentes países e atravessados por múltiplas formas de reconhecimento, interessa saber quais são os pontos de identificação em torno de lutas compartilhadas. Mais do que isso, neste trabalho, como se mobilizam a partir do que identificamos como usos táticos de plataformas digitais para dar visibilidade a suas demandas e disputar espaços em torno a ações concretas por direitos. Seguindo uma máxima há muito consolidada nos estudos de recepção, na relação dos sujeitos com os meios, não há apenas submissão, mas também interpretação, reprodução, criação, entendimentos e desentendimentos, oposição, produção de significados múltiplos. No revista Fronteiras - estudos midiáticos
contexto da sociedade de plataformas, reconhecendo a complexificação das relações de poder por elas atravessadas, seguindo a perspectiva de Bonini e Treré (2024), dizer que o poder das plataformas é inseparável do poder de resistência individual e coletivo das pessoas que as utilizam não significa assumir que haja um equilíbrio nesta dinâmica. Entretanto, a resistência algorítmica pode se dar, neste processo, como uma dinâmica em vários níveis, e pode ser definida como um ato de alguém em posição subalterna ou em solidariedade a alguém nesta posição, respondendo ao poder através de táticas algorítmicas (Bonini; Treré, 2024, p.23). Em nossa pesquisa, esta abordagem e suas análises decorrentes provocam problematizar a noção de agência e resistência naquilo que identificamos como usos táticos das tecnologias digitais por migrantes ativistas, ou seja, sujeitos em mobilidade que se apropriam de maneiras críticas, inventivas ou não previstas desde o ponto de vista da produção, como a noção de tática a partir de Certeau (1998) provoca pensar. Entendemos, neste contexto, que as apropriações midiáticas e tecnológicas pelos migrantes são observadas, muitas vezes, como práticas cotidianas caracterizadas pela ausência de um lugar próprio (à diferença da noção de estratégia), marcadas pela astúcia do homem comum, em suas muitas maneiras de fazer (Certeau, 1998). Assim, observamos os usos das tecnologias desde a perspectiva das brechas e das pequenas subversões cotidianas, responsáveis por mobilidades, que são muitas vezes transgressoras e políticas (Peixoto, 2018, p. 101).
Aproximação exploratória aos ativismos migrantes no contexto espanhol Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), a Espanha tornou-se um país de destino para muitos migrantes no final do século passado, intensificando-se no início deste século. O país passou de 923.879 migrantes em 2000, o que representava 2,2% de sua população total, para 5.542.932 em 2022, representando 11,7%, um percentual muito semelhante à população migrante média na Europa. Em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística da Espanha, estima-se que a população estrangeira no país esteja em torno de 13%, considerado um recorde histórico. Cidades como Barcelona e Madri, de acordo com Álvarez Henriquez (2013), podem ser consideradas Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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megacidades – ou cidades globais, nos termos de Sassen (2003) – que condensam o melhor e o pior da sociedade: servem de conexão com redes globais ao mesmo tempo em que geram fortes desconexões com atividades locais em distintos setores. A chegada mais expressiva de migrantes acentua a dualidade intrínseca desses centros urbanos. Por um lado, a presença migratória enriquece a diversidade social e acentua o fenômeno da multiculturalidade, por outro, dá lugar a fortes fraturas sociais que se expressam no crescimento da desigualdade, crise no acesso à moradia e serviços urbanos, aumento da pobreza e diversos fenômenos de exclusão social (Álvarez Henriquez, 2013, p.127), incluindo a intensificação de práticas xenófobas e racistas contra a população migrante. De acordo com Contreras (2015), trata-se de um racismo que se manifesta de forma multidimensional: socialmente, se expressa em representações negativas que acentuam a associação da migração como problema (ainda muito presente na cobertura midiática, por exemplo). Em nível institucional, manifesta-se na violência policial ou em políticas migratórias restritivas, levando à violência de Estado, pois mantém a população migrante em situação inferior em termos de acesso e reconhecimento de direitos. Ao estudar a relação entre políticas de prevenção antiterrorista associadas ao que denominam como islamofobia de Estado, Douhaibi e Amazian (2019) discutem algumas destas manifestações institucionais do racismo em protocolos de prevenção de radicalização que associam terrorismo à população muçulmana e também em violências sofridas contra a população de origem árabe em geral nas escolas, por exemplo. O debate é ampliado diante do novo pacto migratório europeu2, ainda mais restritivo e que circunscreve a migração à esfera da proteção das fronteiras e à segurança nacional. Neste contexto, as lutas migrantes são, de acordo com Varela Huerta (2015), mobilizações políticas cidadãs – ainda que protagonizadas por sujeitos considerados ‘não cidadãos’, ou seja, pessoas que, desde uma perspectiva
jurídica, são colocadas em uma condição assumida como ‘clandestina’, como eternos estrangeiros ou ‘não nacionais’. Entre suas principais reivindicações estão o efetivo exercício e reconhecimento do direito ao asilo e à liberdade de circulação. “Além disso, as lutas dos migrantes orientam a sua ação política para o horizonte de um sistema global que reconhece o direito de qualquer pessoa escolher o seu local de residência sem ter que mediar relações de trabalho próximas à servidão e/ou escravidão” (2015, p. 2). Partindo deste cenário, para o desenvolvimento da pesquisa empírica de caráter qualitativo, compartilhamos com Varela Huerta (2010) a ideia de que, para compreender as lutas migrantes, é preciso “investigar participando”3. Assim, a pesquisa se deu a partir da inserção em redes migratórias e de ativismos migrantes, com base em um trabalho de campo multissituado e de caráter exploratório, marcado pela integração dos ambientes online e offline. O objetivo foi identificar, através de técnicas de observação online e observação participante em espaços urbanos (sobretudo na cidade de Barcelona), práticas ativistas empreendidas por migrantes, sem uma delimitação anterior quanto à nacionalidade de procedência ou o tipo de ação coletiva observada. Em um segundo momento, desenvolvemos entrevistas semiestruturadas para compreender as principais apropriações de plataformas digitais realizadas por migrantes ativistas, de maneira a identificar possíveis usos táticos, a percepção sobre o poder das plataformas e possíveis situações de preconceito ou racismo algorítmico (Silva, 2022). Inicialmente, fizemos um levantamento online de organizações, coletivos e associações migrantes. A pesquisa se deu através das ferramentas de busca de plataformas de redes sociais e pelo serviço de pesquisas do Google, bem como através da visita online de organizações que já conhecíamos de pesquisas anteriores ou por meio da pesquisa bibliográfica. Assim, nos inserimos na própria lógica de redes que configura os movimentos sociais migrantes, o que permitiu que, a partir de uma
2 – Em abril de 2024, o Parlamento Europeu aprovou um novo Pacto sobre Migração e Asilo, que revê o funcionamento do sistema de gestão dos fluxos migratórios e proteção das fronteiras da União Europeia, através da mudança das regras para o acolhimento, redistribuição de refugiados e repatriamento dos candidatos à proteção internacional com pedidos rejeitados. Informações: https:// www.consilium.europa.eu/pt/policies/eu-migration-policy/eu-migration-asylum-reform-pact/ 3 – Segundo Varela Huerta (2010, p.31), a investigação ação participante é uma forma de investigação que parte da intenção de aproximar um exercício de empiria investigativa com processos de transformação que provoquem respostas coletivas a problemas sociais vividos por determinada comunidade. Apesar de não chegarmos a contemplar ações de intervenção e transformação social, como proposto pela autora, a exemplo de oficinas com devolutivas dos achados da pesquisa e/ou produções conjuntas com os sujeitos pesquisados, esta pesquisa se inspirou neste processo investigativo ao combinar ferramentas para aproximação à realidade social investigada que contemplam investigação documental, observação participante, entrevistas, em um movimento que exige o envolvimento da pesquisadora nas ações propostas pelos coletivos ativistas de maneira a ampliar a compreensão do fenômeno social. 8
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Tecnopolítica migrante em disputa: ativismo e usos táticos de plataformas digitais
organização, outras fossem localizadas. A pesquisa em sites de organizações sociais e públicas sobre o tema das migrações também permitiu uma primeira entrada no campo de pesquisa. Entre elas destacamos o Conselho Municipal de Migração de Barcelona4, o Programa BCN Acción Intercultural5, a Federación de Entidades Latinoamericanas de Cataluña –FEDELATINA6, que congrega 47 entidades, a Lafede.cat – Organizaciones para la justicia global7, com 148 entidades federadas. Num segundo momento, a participação em encontros, eventos, manifestações e outras ações coletivas permitiu ampliar a inserção na rede de coletivos e oportunizou conhecer experiências de migrantes que foram entrevistados ou indicaram outros possíveis sujeitos a colaborar com a pesquisa. Foi possível perceber, assim, como se dá a ocupação do espaço público pelas organizações (com graus diferentes de formalidade e estatutos diversos), em centros culturais, espaços comunitários, equipamentos municipais (como centros cívicos, bibliotecas ou casas de ação comunitária mantidas pela prefeitura de Barcelona em diferentes bairros). Participamos, por exemplo, da mesa redonda “Migración LGTBI: historias de vida, documentación e integración”, realizada no Centro LGTBI de Barcelona, um equipamento municipal que oferece serviços de orientação e informação, bem como programa cultural e de ação comunitária sobre o tema. Ali foi possível conhecer ativistas migrantes que participaram do programa Joves Referents8 de formação por diversidade, interculturalidade e prevenção de violências organizada pelo Centre d’Estudis Africans i Interculturals (CEAi)9, sendo um deles entrevistado para a pesquisa. Também destacamos a participação em uma formação intercultural sobre imaginários, racismo e narrativas discriminatórias, que integra a ação BCN Antirrumores10 do Programa Municipal BCN Interculturalidad, onde também conhecemos experiências de migrantes de diferentes nacionalidades
que atuam em organizações coletivas na cidade, sendo uma das ativistas entrevistada para a pesquisa. Além disso, a participação em manifestações, como a que integrou a jornada internacional de protestos pelo dia da ONU contra a discriminação racial, em 16 de março de 2024, entre outras ações, permitiu a observação das lógicas e dinâmicas dos ativismos migrantes no contexto local, ampliando as reflexões sobre suas orientações tecnopolíticas. Ao total, este duplo movimento de observação online e observação participante presencial em atividades promovidas por associações e coletivos da sociedade civil ou vinculadas a políticas públicas, nos levou à identificação de 25 organizações e/ou coletivos migrantes. A partir de observação de suas ambiências digitais, foi possível identificar algumas táticas de ação coletiva, objetivos, área de atuação, presença digital, o que levou também ao contato com ativistas para participação em entrevista, foco da análise neste artigo. Ao total, foram realizadas sete entrevistas, que duraram em torno de 50 minutos cada, com um roteiro que se concentrou no perfil sociodemográfico, trajetória de migração, usos de tecnologias e plataformas digitais, participação política e ativismo. Foram entrevistados três homens e quatro mulheres, nascidos nos seguintes países: Rússia, Venezuela, Honduras, Colômbia, Peru, Marrocos e Bolívia. O tempo de residência na Espanha varia entre dois e mais de 30 anos. Os motivos que levaram ao deslocamento também são diversos, com a busca por trabalho e melhores condições de vida como o fator mais recorrente (em três casos), bem como solicitação de refúgio por perseguições políticas (dois casos), reagrupamento familiar e estudos (em um caso em cada situação). O perfil dos entrevistados é resumido na tabela 1, com dados sociodemográficos e da organização em que atuam. Optamos por não usar pseudônimos, somente enumerar as informações para identificar os entrevistados11.
4 – https://ajuntament.barcelona.cat/consell-municipal-immigracio/es 5 – https://ajuntament.barcelona.cat/bcnacciointercultural/es 6 – https://fedelatina.org/ 7 – https://www.lafede.cat/es/ 8 – https://jovesreferents.org/ 9 – https://centredestudisafricans.org/ 10 –https://ajuntament.barcelona.cat/bcnacciointercultural/es/estrategia-bcn-antirumores/participacion/red-bcn-antirumores 11 – Na próxima seção, apenas nomeamos o entrevistado que atua no projeto AlgoRace. Neste caso, o uso do nome foi autorizado e o ativista aparece publicamente na condição de coordenador do projeto. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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Liliane Dutra Brignol
Identificação
Gênero
Idade
Entrevistado1
Masculino
30 anos
País de nascimento Rússia
Atividade profissional Diretor de audiovisual (desempregado) Entregador
Entrevistado2
Masculino
58 anos
Venezuela
Entrevistada3
Feminino
40 anos
Honduras
Entrevistada4
Feminino
41 anos
Colômbia
Entrevistada5
Feminino
45 anos
Peru
Jornalista
Entrevistado6 Entrevistada7
Masculino Feminino
30 anos 49 anos
Marrocos Bolívia
Jornalista Professora
Trabalhadora doméstica e de cuidados Conselheira comunitária
Organização em que atua Associação Rusos Libres España Sindicato de riders de Barcelona Asociación Mujeres Migrantes Diversas Partido BCN en Comú e UCFR (Unitat contra el feixisme i el racisme) RedGMD (Género, Migración y Desarrollo) AlgoRAce Partido BCN en Comú e Plataforma de Afectadas por la Hipoteca
TABELA 1 Fonte: Elaboração própria com dados das entrevistas Fonte: Elaboração própria com dados das entrevistas
Usos táticos de plataformas digitais em disputas assimétricas de poder As organizações migrantes a que os entrevistados estão vinculados como ativistas não serão aprofundadas neste artigo, mas fazem parte da contextualização de seus perfis e ajudam a situar os tipos de ações em que participam, portanto são apresentadas de forma resumida na tabela 2, juntamente com as principais plataformas que são apropriadas para a articulação de suas ações. Tomamos como base o relato dos entrevistados e a observação online. As principais ações de cada organização em que estão vinculados os entrevistados estão relacionadas também com o tipo de plataformas apropriadas (com diferença para aqueles com mais articulação e organização interna e as que desenvolvem mais campanhas de visibilidade e de reconhecimento de suas lutas, por exemplo). Importante observar que o nível de envolvimento dos entrevistados é diferente, desde filiados a partidos políticos, trabalhadores sindicalizados, ativistas responsáveis por coordenar projetos de formação e de incidência política, com maior 10
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ou menor atuação em ações diretas. Quanto às organizações, observamos que, apesar da diversidade de objetivos ou causas que acionam, há interseccionalidade em suas reivindicações em função da sobreposição de opressões e discriminações a que estão submetidos. A luta por direitos à regularização, ao trabalho e à moradia, lutas antirracistas, antipatriarcais e de perspectiva decolonial, vão ser compartilhadas pela maior parte dos ativistas entrevistados. No geral, são prevalentes apropriações utilitárias de plataformas comerciais e proprietárias marcadas pela opacidade algorítmica (Burrell, 2016), o que interfere no alcance das ações ativistas e é percebido pelos entrevistados, a depender do que observamos quanto a um nível variado de competências para apropriação, cuidado com a proteção de dados e referência a questões de vigilância com relação ao tipo de conteúdo que se dará visibilidade nas redes. A posição dos migrantes sobre os limites do ativismo nas plataformas foi uma das questões chave da pesquisa (o que será aprofundada em outro trabalho). De maneira geral, ao serem perguntados sobre possíveis dificuldades ou problemas observados individualmente ou pelo coletivo em que atuam no uso de aplicativos e outras tecnologias digitais para as práticas ativistas, foi identificado um conrevista Fronteiras - estudos midiáticos
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Entrevistado
Organização
Entrevistado1
Associação Rusos Libres España
Entrevistado2
Sindicato de los riders de Barcelona
Entrevistada3
Entrevistada4
Entrevistada5
Objetivo da organização Coletivo ativista formado por migrantes russos contra a guerra entre Rússia e Ucrânia, pela paz e pela democracia Luta por direitos trabalhistas de entregadores
Principais ações
Asociación Mujeres Migrantes Diversas
Associação de trabalhadoras domésticas e cuidadoras vinculadas ao feminismo comunitário e pró LGBTI+
Partido BCN en Comú / UCFR (Unitat contra el feixisme i el racisme) RedGMD (Género, Migración y Desarrollo)
Partido político de esquerda / Movimento de unidade contra a extrema direita Articulação de organizações de luta por direitos migrantes, de caráter feminista decolonial e antirracista Projeto sobre usos de sistemas algorítmicos e de inteligência artificial ligado à Asociación Antirracista por los Derechos Humanos Partido político de esquerda / Plataforma de luta pelo direito à moradia
Formação e capacitação para o trabalho, apoio documental para a regularização migratória, apoio a busca de emprego e de moradia Atuação política, manifestações de rua, promoção de campanhas
Entrevistado6
AlgoRace
Entrevistada7
Partido BCN en Comú / Plataforma de Afectadas por la Hipoteca
Manifestações de rua, campanhas de apoio a vítimas da guerra, promoção de eventos culturais e outras ações pela paz Integra o grupo de Prevención de Riesgos Laborales (PRL)
Sites e usos de plataformas Site, perfis no Facebook e Instagram e na plataforma X
Plataforma do aplicativo de entregadores, grupos de Whatsapp Facebook, X e Whatsapp
Site, X, Telegram, Whatsapp, Instagram, Youtube
Formação, pesquisa e incidência política
Site, Facebook, X, Instagram e Youtube
Pesquisa, formação, incidência política, campanhas
Site, X, Instagram, TikTok, Linkedin
Atuação política, manifestações de rua, promoção de campanhas
Site, X, Telegram, Whatsapp, Instagram, Youtube, Vimeo
TABELA 2 Fonte: Elaboração própria com dados das entrevistas e observação Fonte: Elaboração própria com dados das entrevistas e observação revista Fronteiras - estudos midiáticos
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junto de percepções bastante amplo e complexo. Entre parte dos entrevistados, é recorrente a reflexão sobre o sentido de manter a presença digital em plataformas controladas pelo que identificam como lógicas hegemônicas, majoritariamente contrárias a agendas de transformação social. No entanto, revelam a opção de ocuparem perfis em redes sociais digitais como Instagram, Facebook, Youtube, TikTok e X, antigo Twitter, como uma forma de marcar uma posição política e dar visibilidade para suas ações. Outra questão apontada é a limitação para ampliar a propagação do conteúdo produzido para além das próprias organizações e sujeitos já sensibilizados para a temática migratória e de direitos humanos (outros ativistas, comunicadores, acadêmicos), relatando dificuldade, inclusive, para fazer chegar a comunicação aos próprios migrantes. Assim, as principais limitações observadas dão conta de questões estruturais relacionadas com o poder das plataformas, como a falta de compreensão sobre o funcionamento dos aplicativos, a redução de alcance dos conteúdos segundo critérios pouco claros, a censura de temas como luta antirracista e ligadas à causa Palestina, ou a propagação prioritária pelas plataformas de conteúdos considerados contrários à perspectiva dos direitos humanos. O entrevistado 6, por exemplo, relatou o bloqueio sistemático de sua conta, a dificuldade de publicar ou a redução do alcance no Instagram a respeito de qualquer conteúdo relacionado com os termos racismo, Palestina, violência policial, fronteiras, entre outros considerados essenciais para o tipo de denúncias que fazem: “Cuando utilizamos estas palabras en las publicaciones parece que somos invisibles. Estás luchando contra la propia lógica de las plataformas en sí”. Questões socioculturais e políticas ligadas à precariedade da vida migrante também foram apontadas entre as principais limitações no uso das plataformas para o ativismo, como o que a entrevistada 7 identifica como “pobreza de tempo”, o que é compartilhado por quase todos os entrevistados. Entre trabalhar, cuidar da família (sendo responsáveis, em alguns casos, por envio de remessas econômicas), participar de assembleias e reuniões comunitárias, fazer formações, atuar em termos de incidência política, incluindo outras ações de “ativismo de rua”, como relatado pela entrevistada 7, sobra muito pouco tempo para produzir conteúdo ou mediar os comentários, muitas vezes ofensivos, nas plataformas. Este aspecto, à luz da perspectiva da autonomia das migrações, precisa ser entendido no contexto de produção de subjetividades ligada à mercantilização da força de trabalho, em torno a movimentos de lutas radicais dos migrantes, cuja explo12
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ração da mão de obra a partir de lógicas sistemáticas de precarização e da incorporação desigual das “irregularidades” é base para a manutenção dos regimes de desigualdade do capitalismo global (Mezzadra, 2012b). Prevalência de ameaças e discurso de ódio (o que foi sofrido por alguns dos entrevistados e é tido como algo recorrente para pelo menos um deles), crescimento da extrema direita, impossibilidade de proposição de espaços de argumentação e debate foram outros aspectos levantados. Bem como a questão da vigilância dos dados, manifestado como preocupação entre os entrevistados, sobretudo em relação à exposição de informações envolvendo migrantes indocumentados ou no caso dos entrevistados que sofreram perseguição política em seus países. A partir destas limitações, no geral, foi possível identificar distintas táticas de apropriação das plataformas para o ativismo, que vão desde a criação de grupos de comunicação fechados (ainda que em plataformas proprietárias) e combinação de usos de diferentes interfaces, conforme o objetivo da ação, demostrando agência dentro da imposição das lógicas das próprias plataformas adotadas. A opção por plataformas consideradas mais seguras ou menos tóxicas foi relatada pelos entrevistados 1, 3, 4 e 5. Neste caso, em consonância com estudos da área (Saveski; Roy; Roy, 2021), os migrantes identificam a plataforma X como a rede digital em que encontram mais conteúdo relacionado a comportamentos antissociais, de caráter violento ou de discurso de ódio, sobretudo em relação às minorias sociais, o que aparece associado à própria estrutura da plataforma e o alcance maior observado neste tipo de conteúdo. Além disso, a entrevistada 7 relatou que deixou de usar o Twitter, à época, por perceber que não conseguia interagir com pessoas com as quais acredita que deve voltar-se o ativismo migrante: “He estado un tiempo, pero Twitter llega poca gente a la que yo quiero llegar que es la gente de base. La gente que, por tiempo, no puede informarse y acaba informándose por pequeños videos que les desinforma en lugar de informar. De hecho estoy ahora mucho más en TikTok”. Para a entrevistada 4, o Telegram é o meio usado para os grupos de comunicação do partido em que atua em função de considerarem garantir mais proteção nos dados compartilhados. No caso do entrevistado 1, deixou de usar uma plataforma de redes sociais mais comum na Rússia em função da vigilância e controle sofrido a partir do governo de Vladmir Putin. Desde que migrou, intensificou o uso de plataformas como Instagram e Whatsapp para articular ações, entrar em contato com outros ativistas e fazer denúncias às violências da guerra e violações de direitos humanos. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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Quanto ao controle de conteúdo, a entrevistada 3 relatou que sua organização prefere publicar menos informações, o que é centralizado como papel de uma das ativistas capacitada para o trabalho de comunicação, com receio de expor as mulheres que participam da associação. “Uno de nuestros objetivos fue no capitalizar nuestras precariedades. Mostrar más el empoderamiento de la mujer, la emancipación, los logros obtenidos”. Por exemplo, durante a pandemia, fizeram ações de distribuição de cestas básicas às trabalhadoras afetadas, mas não permitiam que fossem feitas fotos das mulheres nos momentos de distribuição. Além disso, demonstrou o cuidado da organização com um léxico compartilhado e com os valores da associação, que precisam estar presentes no conteúdo produzido para as redes digitais. Também considera importante capacitar as próprias trabalhadoras da associação e remunerá-las através dos projetos para atuar na comunicação, de maneira a valorizar competências de mulheres que, muitas vezes, mesmo com uma formação superior, não conseguem ter acesso a outros postos de trabalho. Os grupos fechados em plataformas de troca de mensagens como Whatsapp e Telegram apareceram como importantes para a troca de informações, articulação de ações externas como marchas e manifestações de rua, difusão de conteúdos criados por equipes de comunicação e, nos casos dos entrevistados 2 e 3, troca de informações de apoio no contexto do trabalho, denúncias de violações de direitos e busca por apoio mútuo. Para as trabalhadoras domésticas e de cuidado, atuam também como possibilidade de interação, diante de um contexto de isolamento a que muitas estão expostas: “Cuando tu trabajas de interna, hasta la capacidad de hablar pierdes. Yo no conocía mucha gente en España. Dos años estuve totalmente sola, sin conocer a nadie más que mis compañeras de trabajo”, foi o relatado pela entrevistada 3, ao relacionar a situação de confinamento que todos viveram na pandemia com uma situação que é comum na experiência de mulheres que trabalham e moram nas casas dos empregadores, sobretudo aquelas que estão sem a documentação para o trabalho, portanto, mais suscetíveis à exploração. Naquele período, buscaram realizar encontros online em plataformas como Zoom ou Google Meet como forma de aproximar trabalhadoras, divulgar suas demandas e ampliar o apoio em suas lutas por melhores condições de trabalho e de vida na Espanha. Para o entrevistado 2, nos grupos de Whatsapp
de entregadores do aplicativo em que trabalha, são comuns os pedidos de ajuda sobre endereços de entrega e as trocas de informações sobre direitos trabalhistas, com especial atenção para a necessidade de controle das métricas do aplicativo de entrega, a partir do qual serão pagos. Comparar o trajeto para a entrega entre o sistema de GPS do aplicativo com o do seu smartphone particular é uma das táticas usadas para buscar rotas mais curtas e mais seguras, por exemplo, além de registrar toda a quilometragem percorrida diariamente para comparar com os pagamentos efetuados no final das jornadas. As entrevistadas 4, 5 e 7 revelam táticas de produção de conteúdo adaptados ao perfil de cada plataforma como forma de buscar ampliação do alcance das publicações sobre temas como a luta antirracista ou de feminismo decolonial. A entrevistada 5, por exemplo, deixou de publicar na plataforma X, depois de situações de violência e de discursos de ódio que sofreu. Passou a usar o TikTok para a divulgação de um conteúdo associado de maneira mais indireta aos temas da rede em que atua: “Hay una actividad de la que disfruto mucho que es estar en el mar. Entonces hago videos cuando estoy en el mar y les pongo música y frases decoloniales: como descolonizar la vida, del amor, de la libertad. Hay personas que lo miran que no son del activismo. Es una forma de llegar a más gente”. Outra tática adotada pela organização da entrevistada 5 foi a de publicar mais conteúdo de divulgação das ações que promovem (como cursos, oficinas, pesquisas), do que propriamente para “fazer ativismo”, em suas palavras. “A raíz de que hemos decidido no entrar para hacer campañas, más la difusión, no hemos visto más tantos comentarios racistas”. Quando estes comentários aparecem, têm uma política de excluí-los imediatamente. “No entramos a discutir, pero borramos. Es una forma también de autodefensa”. Para isso, as ativistas se revezam na gestão das contas da organização nas plataformas digitais. Na luta por direitos políticos, a entrevistada 4 participou da campanha Votar es un derecho12, organizada na Catalunha pela ativista Safia El Aaddam (@hijadeinmigrantes) que criou uma plataforma para aproximar cidadãos que não votariam nas eleições nacionais de 2019 (visto que o voto não é obrigatório no país) e migrantes que não tinham direito ao voto (somente pessoas nacionalizadas espanholas podem votar nas eleições das comunidades autonômicas e eleições nacionais, enquanto o voto nas
12 – Segundo a ativista Safia El Aaddam, impulsionadora da campanha, em suas plataformas: “Por el derecho a voto de las personas migrantes e hijas de inmigrantes. Con el hashtag #votaresunderechoy el #tecedomivoto logramos votar más de 2.000 personas gracias a votos cedidos”. Informações em: https://votaresunderecho.es/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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eleições municipais está previsto para estrangeiros cujos países de nascimento tenham acordo de reciprocidade ou que sejam da União Europeia). Entretanto, apesar de sua militância política, a iniciativa de cedência de voto não deu certo para a entrevistada, que só pode participar nas eleições municipais em Barcelona. Podemos identificar, ainda, como tática na apropriação das plataformas digitais associadas ao ativismo migrante, a articulação em rede de movimentos e a promoção de ações coordenadas, algumas a partir de uso de hashtags associadas a campanhas de impacto no contexto espanhol, como a #RegularizaciónYa13. Cinco entrevistados participaram da campanha promovida por uma rede de movimentos migrantes, destacando a importância da aproximação dos coletivos em torno a pautas comuns, como o direito à documentação como garantia básica ou como “direito a ter direitos”, como se posicionam as organizações migrantes e a perspectiva da autonomia das migrações. Definindo-se como um movimento auto organizado migrante e antirracista que reúne pessoas e organizações de todo o estado Espanhol, propôs uma Iniciativa Legislativa Popular, que solicita ao governo a regularização de cerca de meio milhão de pessoas e que conta com o apoio de mais de 700 mil assinaturas. Como primeira vitória, conseguiram que seja aprovado no congresso espanhol que a iniciativa entre na discussão parlamentar, o que deve ocorrer ao longo de 2024, demarcando uma conquista importante do ativismo migrante. A organização em rede é destacada como uma tática importante para auto organização dos trabalhadores migrantes do ramo do delivery, precarizados diante das lógicas das plataformas nas quais estão submetidos. Isto foi compartilhado no relato do entrevistado 2, o que se dá tanto em termos de redes de apoio entre os próprios trabalhadores para questões cotidianas do trabalho, quanto com relação aos sindicatos e organizações dos trabalhadores, em consonância com o que aponta Grohmann (2022), por exemplo, sobre o papel central de mídias sociais para comunicação e organização do trabalho, e a articulação entre cooperativas de entregadores. Esta tática aparece como uma alternativa para a atuação de migrantes russos espalhados pelo mundo,
conforme narrou o entrevistado 1, para quem a associação Rusos Livres España integra uma rede de movimento civil, com conexão entre diferentes organizações, marcada por uma comunicação em grupos fechados no Telegram para promover ações coordenadas em diferentes países. A articulação em rede é central também para o projeto AlgoRace14, que tem como objetivo promover investigação, formação e incidência política sobre manutenção de regimes de racismo que atravessam as estruturas de sistemas de inteligência artificial e de plataformas digitais em geral. Segundo Youssef Ouled (entrevistado 6), coordenador do projeto, a proposta é fazer uma aproximação com a sociedade civil sobre o uso e implantação de sistemas algorítmicos e de inteligência artificial em todos os âmbitos da vida, especialmente aqueles com mais impacto para pessoas migrantes e racializadas, como os sistemas que operam no âmbito judicial, policial e fronteiriço no contexto espanhol. “Buscamos dar respuesta a una problemática existente: cómo los sistemas de IA afianzan la desigualdad, la discriminación y la criminalización racial. Es decir, cómo estos sistemas incorporan y amplifican el racismo estructural”. Para isto, realizam jornadas, oficinas, pesquisas com equipes multidisciplinares, publicam informes e guias e estabelecem alianças com outras organizações da sociedade civil espanhola e europeia, de modo a ampliar investigações, implementar ações e discutir questões de regulação sobre IA. Neste cenário, surge, por exemplo, a IA Ciudadana15, coalizão de organizações que trabalham para defender os direitos humanos no contexto das tecnologias digitais. Embora não seja possível aprofundar neste artigo, as ações promovidas pelo AlgoRace, como iniciativa pioneira no contexto espanhol, revelam práticas ativistas de caráter tático, em nossa perspectiva, que dão conta de promover uma mediação entre organizações migrantes e antirracistas (há mais tempo empenhadas na luta por direitos migratórios) com organizações ligadas à problemática dos direitos digitais, com destaque para atuação em relação à regulação europeia sobre inteligência artificial16: “Por sí ya es deficitaria esta ley que ha salido, si no fuera por la coalición internacional que ha estado ahí, y otras organizaciones han estado mucho más que
13 – Mais informações sobre o movimento em: https://regularizacionya.com/ 14 – Site do projeto AlgoRace: www.algorace.org 15 – https://iaciudadana.org/ 16 – A Lei de Inteligência Artificial foi aprovada pelo Parlamento Europeu em março de 2024. Informações em: https://es.euronews. com/next/2024/03/18/reaccion-a-la-ley-de-inteligencia-artificial-de-la-ue-los-expertos-coincide-en-que-que-la14
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nosotros, habría sido mucho peor”. Assim, no contexto de AlgoRace, cujo slogan é “(des)racializando la inteligencia artificial”, as ações implicam em questionar o senso comum a respeito da não neutralidade das tecnologias e avançar em termos de proteção e de direitos. “Lo de desracializando la IA es como una utopía porque quitar esta óptica racial es quitar el racismo – o poner el foco en ello. Ningún sistema de IA, de algoritmos, de digitalización se construye desde la neutralidad porque no vivimos en un contexto neutral”, como os ativistas e movimentos migrantes há muito denunciam, ao que podemos perceber por nossa aproximação exploratória a este contexto.
Considerações finais O presente artigo integra pesquisa maior e levanta questões que certamente não se encerram aqui. Ao aproximar a perspectiva da tecnopolítica com o contexto de práticas ativistas empreendidas diante das desigualdades vividas por populações migrantes, buscamos evidenciar as múltiplas formas de agência e resistência daqueles que, excluídos de muitos direitos, são sujeitos políticos que reivindicam um redimensionamento da própria noção de cidadania como dinâmica de reconhecimento e participação no mundo em que vivemos. Ao voltar a atenção para usos de tecnologias por ativistas migrantes, percebemos a necessidade de posicionamento e de articulação em um cenário de múltiplas exclusões: por um lado com relação à falta de acesso a direitos sociais, civis e políticos, por outro, em razão das assimetrias presentes nas lógicas das plataformas digitais. Este cenário leva ao que temos observado com relação à interseccionalidade nas lutas migrantes, bem como na articulação em rede de coletivos e organizações em torno de demandas centrais, como o direito à regularização de status jurídico, acesso a trabalho e moradia dignos, luta antirracista, pelos direitos das mulheres e de pessoas LGBTI+, denúncia de violência policial e de violações de direitos humanos, entre outras. Para articular essas demandas, as práticas ativistas empreendidas pelos sujeitos migrantes são cada vez mais articuladas de
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maneira integrada entre ambiências digitais e contextos presenciais – como a perspectiva tecnopolítica indica em relação a outros movimentos sociais –, com apropriação de diversas mídias para promover, gestionar e empreender ações coletivas, como campanhas, formações, organização de redes de apoio, pesquisas, incidências políticas junto aos setores responsáveis, entre outras. Quanto à apropriação de plataformas digitais para o ativismo, há consenso entre os migrantes entrevistados sobre as limitações para as agendas e ações propostas, relacionadas, sobretudo, com a observação de censura e bloqueio de conta de ativistas, diminuição do alcance de publicações, dificuldade de ampliar as redes de contato para além das próprias organizações ativistas, preocupação com vigilância de dados sensíveis e críticas em relação à opacidade algorítmica. Ainda assim, os entrevistados percebem a necessidade de manter o uso de plataformas proprietárias como forma de marcar uma posição política e propor ações de resistência desde dentro dessas estruturas. Foi o que identificamos com relação aos usos táticos destas plataformas digitais, centrados em aspectos como a combinação ou adaptação ao uso das plataformas conforme tipo de ação, busca de alternativas diante de censuras, promoção de campanhas conjuntas, preferência por plataformas consideradas menos tóxicas ou mais seguras, articulação em rede entre coletivos, bem como mediação entre organizações migrantes e antirracistas com organizações de defesa dos direitos humanos no contexto das tecnologias digitais, o que se destaca especialmente no caso do projeto AlgoRace. Por fim, a complexidade de práticas ativistas observada indica a capacidade de agência migrante, diante de um cenário de pequenos avanços (a exemplo da proposta de projeto de lei criado pelo movimento #RegularizaciónYa) e de retrocessos (com a aprovação do novo pacto de migração e refúgio europeu e as consequências crescentes do racismo algorítmico no cotidiano migrante). Enquanto movimento social dinâmico, as migrações também são protagonistas de um longo caminho de lutas contra opressões históricas e estruturais, que ganham outras dinâmicas nas plataformas digitais.
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revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):18-30 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.03
“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube “Memories I did not know I had”: the aestheticization of nostalgia in lofi hip hop videos on YouTube Débora Gauziski[*]
deboragauziski@gmail.com
RESUMO O artigo discute a estetização da nostalgia na audiovisualidade dos vídeos de lofi hip hop no YouTube, a partir de uma análise exploratória dos aspectos presentes em suas sonoridades, visualidades e interações no campo de comentários. O método adotado no estudo é a netnografia (Amaral et al, 2008; Kozinets, 2014). Na primeira parte do trabalho, é realizada uma revisão bibliográfica sobre o tema da nostalgia (Ballam-Cross, 2021; Boym, 2001; 2017; Goulart Ribeiro, 2018; Löwy e Sayre, 1993; Niemeyer, 2018; Pickering e Keightley, 2006). Em seguida, é apresentado um levantamento, produzido a partir do YouTube Data Tools, dos canais e vídeos mais populares do gênero, e dos comentários no vídeo mais assistido da plataforma. Os resultados apontam que o imaginário nostálgico do lofi hip hop é construído através da exploração proposital da “tecnostalgia” (Niemeyer, 2018) pelos produtores, que envolve uma ambiência lofi e o acionamento de elementos da cultura pop dos anos 1990 e 2000, e dos comentários, nos quais os usuários compartilham relatos e memórias pessoais, evocados pelos sons e imagens.
ABSTRACT The paper discusses the aestheticization of nostalgia in the audiovisuality of lofi hip hop videos on YouTube, based on a exploratory analysis of the aspects present in their sounds, visuals and interactions in the comments field. The method used in the study is the netnography (Amaral et al, 2008; Kozinets, 2014). In the first part of the work, a bibliographical review on the topic of nostalgia is carried out (Ballam-Cross, 2021; Boym, 2001; 2017; Goulart Ribeiro, 2018; Löwy e Sayre, 1993; Niemeyer, 2018; Pickering e Keightley, 2006). Next, a survey, produced on YouTube Data, presents the most popular channels and videos of the genre, and the comments on the most watched video on the platform. The results indicate that the nostalgic imaginary of lofi hip hop is constructed through the purposeful exploration of “technostalgia” (Niemeyer, 2018) by its producers, which involves a lofi ambience and references to elements of pop culture from the 1990s and 2000s, and the comments, in which users share personal stories and memories, evoked by the sounds and images.
Palavras-chave: Lofi hip hop; nostalgia; música; pandemia; YouTube.
Keywords: Lofi hip hop; nostalgia; music; pandemic; YouTube.
Universidade Federal Fluminense (UFF). Rua Professor Marcos Waldemar de Freitas Reis, s/nº, Bloco J (Novo IACS) - São Domingos - Niterói/RJ. [*]
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
Introdução
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urante o período de isolamento social (2020-2021), me chamou a atenção a grande quantidade de vídeos musicais no YouTube que tinham a proposta de serem “escutas de fundo”, construindo diferentes ambiências a partir de suas sonoridades e visualidades. Ao explorar os conteúdos disponíveis na plataforma, guiada em parte pelas suas recomendações algorítmicas, me deparei com diversos gêneros, subgêneros e experimentações sônicas essencialmente instrumentais – como dark ambient, vaporwave, mallsoft, synthwave, lofi hip hop, entre outros – que pareciam ter a característica em comum de serem reproduzidos pelos usuários do YouTube durante a realização de atividades, como estudar, trabalhar, jogar videogame, dormir ou relaxar. Vale mencionar que muitos vídeos haviam sido postados bem antes da pandemia, já que o surgimento dessas manifestações musicais remete às décadas de 2000 e 2010, mas estavam sendo recomendados pela plataforma naquele momento. Sabemos que escutar música durante a execução de atividades não é algo incomum e nem exclusivo desses gêneros e subgêneros em particular. Inclusive, esse tema foi discutido por Tia DeNora na obra Music in everyday life (2000), na qual a autora explora os diferentes usos e relações estabelecidos pelas ouvintes entrevistadas1 por ela com a música e o som. A música, para DeNora, atua como uma “tecnologia do self”, apropriada pelos indivíduos como um recurso para a constituição de si mesmos e de seu ambiente social – nos níveis psicológico, fisiológico e emocional. O que me intrigou foi o fato de existir um universo musical no YouTube dedicado a tarefas que demandam foco (Gauziski, 2024), como a escrita ou leitura de um texto. No campo de comentários dos vídeos, os usuários incluíam sugestões de como essas
músicas deveriam ser escutadas para criar um ambiente aconchegante, introspectivo e/ou fantasioso. No caso dos vídeos de lofi hip hop, que serão enfocados neste trabalho, diversas matérias em portais jornalísticos (Breve, 2021; Oliveira, 2021) à época destacavam o seu uso para estudo e “produtividade”, em especial por conta do título da transmissão (live stream) mais conhecida do canal Lofi Girl, “beats to relax/study to” (batidas para relaxar/estudar)2. As batidas lentas (entre 60 e 95 bpm) e melodias calmas, repetitivas e levemente melancólicas dos lofi beats proporcionam a construção de uma ambiência propícia para a concentração do ouvinte. No entanto, esse enfoque da imprensa a respeito do gênero acabou contribuindo para sua generalização como “música de trabalho e estudo” no senso comum. Outra temática que me despertou interesse nos comentários dos vídeos mencionados foi a da nostalgia sentida por esses ouvintes ao consumirem os vídeos dos gêneros e subgêneros mencionados anteriormente, que parecia ser evocada por um certo imaginário lofi (Conter, 2016) – ou seja, de “baixa fidelidade” – partilhado por essas expressões musicais, perceptível tanto em suas sonoridades quanto em suas “audiovisualidades” (Gutmann, 2021)3. Segundo o YouTube Culture & Trends Report (2022)4, relatório oficial da empresa, 82% dos jovens da geração Z haviam buscado conteúdos na plataforma para se sentirem nostálgicos em 20215. Percebi então que, para além de minha percepção pessoal ao ler os comentários, havia realmente uma tendência de consumo relacionado à nostalgia naquele período6. Apesar de a nostalgia não ser um fenômeno contemporâneo, durante a pandemia diversos indivíduos buscaram conforto em produtos culturais do passado, como filmes exibidos em cinemas drive-in e programas de TV antigos (Johnson, 2020), para conseguirem lidar
1 – É importante reforçar que a autora entrevistou apenas “mulheres de diferentes grupos de idade em áreas metropolitanas e pequenas cidades dos Estados Unidos e Reino Unido” (DeNora, 2000, p. xi, tradução minha). 2 – Disponível em: <https://tinyurl.com/yc6cfjwa>. Acesso em: 28/03/24. 3 – Os vídeos de lofi hip hop podem ser considerados como “audiovisual em rede”, ou seja, uma “forma audioverbovisual (trama de imagens, sons e textos) que se articula em rede pelas ambiências digitais, entrelaçando plataformas, corpos e sujeitos em expressões comunicacionais diversas numa dinâmica de produção, circulação e consumo em fluxo” (Gutmann, 2021, p. 12). 4 – Disponível em: <https://www.youtube.com/trends/report/2022/>. Acesso em: 28/03/24. 5 – A pesquisa sempre apresenta os dados do ano anterior. 6 – Outra pesquisa interessante é o relatório Culture Next 2021, produzido pelo Spotify, que apontava que os millenials – pessoas nascidas entre a década de 1980 e o final dos anos 1990 – ouviram “playlists nostálgicas” para relaxar durante a pandemia. No Brasil, entre março de 2020 e de 2021, houve um aumento de 45% da escuta de hits dos anos 1980 e em 13% de baladas dos anos 1970. Disponível em: <https://culturenext.byspotify.com/pt-BR>. Acesso em: 20/03/24. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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com o período de isolamento social. Jacks et al (2020) apontam que as reprises de telenovelas foram um alento para muitas pessoas nessa época, pois funcionavam como uma espécie de “arquivo de nossa memória afetiva”. De acordo com Svetlana Boym (2001), momentos históricos de mudanças radicais (como guerras e catástrofes) tendem a acentuar sentimentos nostálgicos. A partir desses apontamentos, o artigo tem a proposta de analisar como a nostalgia se manifesta através da sonoridade e visualidade dos vídeos de lofi hip hop no YouTube (instância da produção) e dos comentários deixados pelos seus ouvintes/consumidores (recepção). Até o momento, não se verificam muitos estudos acadêmicos a respeito do lofi hip hop. Em português, destaco os trabalhos de Santa Rosa e Janotti (2019) e Landarini (2023). Em língua inglesa, as obras de Winston e Saywood (2019), Wang (2020), Porfírio (2021) e Neal (2022). Vale ainda a menção a Ballam-Cross (2021), apesar de não enfocar especificamente o gênero. O método adotado neste estudo foi a netnografia, a partir da qual se observou as dinâmicas sociais articuladas na rede de vídeos relacionados ao gênero musical, levando em consideração que esta é um “recorte comunicacional [...] e não a comunidade em si” (Amaral et al, 2008, p. 39). Ressalto que atuei como uma observadora, não interagindo com os outros usuários no campo de comentários. Como explica Kozinets (2014, p. 126), a qualidade etnográfica de uma pesquisa não está necessariamente na participação direta do pesquisador na comunidade estudada, já que a abordagem pode ser “pragmática-interacionista”, na qual “cada postagem interativa é uma ação social, um desempenho comunicativo que pode ser concebido como um ‘jogo de linguagem’”. Além dos conteúdos textuais, este tipo de análise “deve incluir os aspectos gráficos, visuais, de áudio e audiovisuais dos dados da comunidade online” (Kozinets, 2014, p. 127). Na primeira parte do trabalho, apresento uma revisão bibliográfica sobre o tema da nostalgia a partir de uma articulação entre referenciais clássicos (Boym, 2001; Löwy e Sayre, 1993; Halbwachs, 1990) e contemporâneos, que aproximam o debate do consumo midiático (Niemeyer, 2018; Goulart Ribeiro, 2018; Pickering e Keightley, 2006) e musical (Reynolds, 2011; Ballam-
-Cross, 2021; Winston e Saywood, 2019). Em seguida, elaboro um levantamento dos canais e vídeos de lofi hip hop mais populares (com mais visualizações) no YouTube, elencando alguns dos elementos presentes em sua audiovisualidade musical. Para a coleta dos dados na plataforma, utilizei a ferramenta YouTube Data Tools7, que permite que as informações sobre os vídeos sejam baixadas, catalogadas em uma planilha e filtradas por ano, quantidade de curtidas, entre outros aspectos. No caso dos comentários, o corpus foi restrito ao ano de 2020, o primeiro ano da pandemia de Covid-198.
Nostalgia: uma breve revisão de literatura A etimologia do termo “nostalgia” deriva do grego – nostos (“casa”) + algos (“saudade” ou “dor”) – e foi cunhado pelo médico suíço Johannes Hofer em 1688. Conforme descreve Svetlana Boym (2001), a definição proposta por Hofer remetia à sensação de tristeza relacionada ao desejo de retorno à terra natal. Considerada como uma patologia pela medicina da época, os sintomas da nostalgia eram confundidos com os da tuberculose (Boym, 2001, p. 11), e, dentre suas vítimas, estavam principalmente soldados e marinheiros alocados em países distantes e camponeses que haviam migrado das zonas rurais para as cidades. Ela só desaparece do vocabulário médico no final do século XIX, e seu sentido metafórico de perda ou saudade de um lugar ou tempo torna-se dominante no senso comum (Pickering e Keightley, 2006, p. 922). A transição para a modernidade trouxe consigo novos valores relacionados ao modo de vida urbano, com seus hiperestímulos (Simmel, 1973), sensação de aceleração do tempo e condições de trabalho impactadas pela progressiva industrialização. Parte dos indivíduos modernos sentia-se saudosa em relação à estabilidade que o passado parecia oferecer, com seu aparente senso de continuidade, coesão social e tradição (Boym, 2001, p. 17). Para Boym, a nostalgia, nesse caso, é “o luto pela impossibilidade do retorno mítico, pela perda de um mundo encantado com fronteiras e valores claros” (2001, p. 8)9. Michael Löwy e Robert Sayre (1993) identificam
7 – Disponível em: <https://ytdt.digitalmethods.net/>. Acesso em: 29/03/24. 8 – De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pandemia teve início em 11 de março de 2020 e terminou em 5 de maio de 2023. 9 – Tradução minha. 20
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
a nostalgia como um sentimento ligado a uma visão de mundo romântica. De acordo com os autores, o romantismo foi um movimento antimoderno, uma reação tanto ao racionalismo proposto pelos ideais iluministas quanto às transformações culturais, econômicas e sociais em curso no período. A nostalgia vinha a reboque da ideia de um progresso hegemônico e definitivo, uma das bases ideológicas do sistema capitalista, que mirava seu olhar ao futuro, rejeitando o passado. Löwy e Sayre propõem que ela pode ser evocada por diversos espectros políticos – inclusive pela extrema-direita, como é o caso do romantismo fascista. Esse desejo reacionário de retorno ao passado relaciona-se ao conceito de “nostalgia restauradora”, proposto por Boym (2017). Ao contrário do trauma, que é “uma ferida aberta e uma dor que não passa, um ‘passado’ que insiste em não passar”, a nostalgia manifesta-se como “uma melancolia que, paradoxalmente, se sente com algum prazer” (Freixo et al., 2017, p. 139). Michael Pickering e Emily Keightley (2006) explicam que ela se relaciona tanto ao indivíduo (sensação de perda de um passado idealizado) quanto à coletividade (percepção pública de um determinado período ou fato histórico). Individualmente, uma pessoa pode se sentir nostálgica em relação a certo acontecimento vivido por ela junto a outras pessoas no passado – como a lembrança de um momento em família. Com base no pensamento de Maurice Halbwachs (1990), entende-se que mesmo a memória individual possui uma dimensão coletiva, conectando-se aos imaginários, práticas e vivências dos grupos sociais dos quais o indivíduo participa. Nesse sentido, a memória, diferentemente da história, está em constante transformação, pois possui “um elo vivido no eterno presente” (Nora, 1984, p. 9). Importante mencionar que muitas das experiências coletivas são vivenciadas através das mídias e dos meios de comunicação. Especialmente após o desenvolvimento e popularização da internet, a dimensão coletiva se expandiu ainda mais, assumindo um caráter transnacional e ubíquo, já que é possível o compartilhamento de informações e o engajamento em debates com outras pessoas independentemente de sua localização espaço-temporal. No ambiente acadêmico, a discussão sobre a memória ganha força nos anos 1980 e 1990, em especial com os estudos de Pierre Nora e Michael Polak. Na mesma época, como aponta Ana Paula Goulart Ribeiro (2018), a nostalgia se torna objeto de análise nas ciências sociais. Os autores dessa primeira geração – Fred Davis, Fredric Jameson e Linda Hutcheon – estudavam o tema em relação à cultura da mídia. Já as pesquisas desenvolvidas após os revista Fronteiras - estudos midiáticos
anos 2000, por autores como Katharina Niemeyer, Amy Holdsworth, Christine Sprengler, Gary Cross, e Linda Beail e Lilly Goren, partem da ideia de que o “gesto nostálgico” pode assumir sentidos variados e ambíguos: Pode-se fazer de uma forma romântica e pouco problematizadora, mas também com uma intenção crítica, não só em relação ao passado propriamente dito, mas ao que dele permanece no presente. Pode-se exprimir melancolia e saudosismo, mas também positividade e alegria. Pode representar alienação e escapismo, mas também pode proporcionar uma experiência rica e reflexiva. Pode se esgotar na imediatez do consumo ou sedimentar algum tipo de conhecimento. (Goulart Ribeiro, 2018, p. 3, grifos meus). Katharina Niemeyer (2018, p. 31) também realiza um levantamento do estado da arte do campo dos “estudos da nostalgia” contemporâneos. Segundo a autora, os trabalhos de Scanlan (2004) e Pickering e Keightley (2006), nos estudos culturais e sociologia, respectivamente, propuseram “um chamado para repensar o lugar da nostalgia”. Ela sinaliza que é em meados de 2010 que a relação entre nostalgia, mídia e comunicação começa a ser pensada de forma mais consistente. Niemeyer propõe que a nostalgia pode ser amplificada e desencadeada pelo “acúmulo e o aumento da disponibilidade de imagens, textos e sons do passado” (p. 34). A pesquisadora denomina como “tecnostalgia” aquela que é acionada por tecnologias e dispositivos midiáticos, abrangendo também “rituais, lugares e modo de vida que faziam parte dela” (p. 37). No imaginário coletivo, a nostalgia é frequentemente associada aos objetos e práticas analógicas, como o colecionismo de discos de vinil (Gauziski, 2013), por exemplo. Todavia, Niemeyer reforça o lugar do digital nesse processo: Muitas vezes rejeitamos a ideia de que objetos digitais são agentes sensoriais, que eles estão no mesmo nível ou têm o mesmo valor simbólico que objetos que podemos tocar fisicamente. E, no entanto, o sentimento nostálgico também pode ser expresso por objetos que nunca estiveram presentes para nós em sua forma analógica. Eles são ‘ícones digitais’ que nos transportam para um espaço social e um tempo no passado, compartilhados com amigos ou familiares. É, portanto, ‘nossa’ história pessoal ou institucioVol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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nal que está vinculada a esse objeto ‘digital’. Em outras palavras, são rituais e histórias que transformam esses objetos digitais em agentes. Um videogame antigo ou GIF animado pode, portanto, ter o mesmo potencial nostálgico de um carro dos anos 20 ou de um cassete VHS.” (Niemeyer, 2018, p. 38, grifos meus). Os artefatos – sejam eles analógicos ou digitais – funcionam como pontos de ancoragem para nossas memórias. Na citação acima, Niemeyer aponta que não precisamos ter um contato físico direto com os objetos para que a nostalgia seja acionada ou construída: a relação que temos com eles pode ser indireta, mediada pelos meios de comunicação. Essa proposição da autora se conecta com o estudo de Paul Ballam-Cross (2021) a respeito do chillwave, synthwave e vaporwave, subgêneros musicais nascidos na cultura digital. O autor propõe que as sonoridades e imagens das décadas de 1980 e 1990 evocadas (e imaginadas) por eles são uma forma de “nostalgia reconstruída”: “Os ouvintes abraçam coletivamente as reinterpretações [...] dessas épocas, muitas vezes confiando, em parte, em suas próprias memórias, mas, em última análise, criando algo que é simultaneamente nostálgico e novo” (Ballam-Cross, p. 72)10. A partir de referenciais da Psicologia, o autor afirma que geralmente as músicas que despertam nostalgia no ouvinte fazem parte de seu repertório. Ou seja, esse processo tende a acontecer com objetos familiares ao sujeito. Mas como explicar a nostalgia evocada por uma música que nunca foi escutada antes? Ballam-Cross refencia o estudo de Russo (2014) sobre o revival do rock psicodélico nos anos 2000 por bandas como Tame Impala, que “resgatam” uma sonoridade característica da década de 1960. Pessoas jovens, que não viveram aquela cena musical diretamente, diziam se sentir nostálgicas em relação àquele período histórico ao escutar essas canções. Segundo Russo (in Ballam-Cross, 2014, p. 2-3), a explicação para isso se dá pelo acesso que temos às “representações altamente mediadas de nossa memória coletiva do passado”11. Para Simon Reynolds (2011), o acesso facilitado aos arquivos do passado, proporcionado pela internet e
as tecnologias digitais, foi um dos motivos para a intensificação da exploração da nostalgia na música pop na primeira década do século XXI, com seus revivals, remakes e relançamentos. A diferença entre aquele momento e outros períodos históricos – como o Renascimento, que se inspirava em referências do classicismo greco-romano, e o movimento gótico, nas da era medieval – é a sua obsessão pelos “artefatos culturais de seu próprio passado imediato” (p. xiii)12, dando a sensação de um eterno déjà vu. O autor tem um olhar crítico a respeito do tema, alegando que o pop deveria ser sobre a juventude e o presente, não sobre o passado. Por fim, cabe a menção ao caráter terapêutico e lúdico do fenômeno, que Boym (2001; 2017) chama de “nostalgia reflexiva”, contrária à “nostalgia reparadora”. Aquela consiste em “viver o tempo fora do tempo e de aproveitar o presente fugaz” (Boym, 2017, p. 159). Esse lado positivo da nostalgia também é abordado por Niemeyer (2018, p. 39-40), quando diz que ela nos possibilita “ser alegres e criativos, além de ser uma forma individual e coletiva de aliviar a dor do espaço, do tempo e da perda pessoal. Torna possível confrontar a irreversibilidade do tempo, nossa finitude e [...] permite que os seres humanos se (re-) conectem uns com os outros”.
Explorando os canais e vídeos de lofi hip hop no YouTube A partir de um levantamento realizado no YouTube Data Tools em 29 de março de 2024, produzi um ranking dos canais de lofi hip hop mais relevantes no YouTube (fig. 1). A tabela foi organizada utilizando o número de visualizações dos canais como parâmetro (do maior para o menor). Percebe-se que a ordenação também coincidiu com a quantidade de inscritos, à exceção do canal Lofi Fruits, que possui menos inscrições do que the bootleg boy 2 e Ambition, porém tem mais visualizações do que ambos. Esse caso em específico indica que não é apenas o número de inscritos de um canal que revela sua relevância no YouTube. O canal Lofi Girl conta com mais inscritos do que os outros cinco seguintes somados, revelando um
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
Figura 1. Levantamento dos seis canais de lofi hip hop mais relevantes no YouTube. Figure 1. Survey of the six most relevant lofi hip hop channels on YouTube. Fonte: Acervo da autora (dados coletados no YouTube Data Tools no dia 29 mar. 2024).
diferencial em relação aos demais. Um detalhe perceptível é que ele também tem muito menos vídeos postados (146) que os outros da lista, já que muitos conteúdos dele foram apagados no ano de 2023. O Lofi Girl foi destaque no relatório do YouTube de 2021, que se referia à sua “mascote” – a menina com fones de ouvido – como “um símbolo de uma experiência compartilhada e proximidade digital”13. Até 2021, o canal se chamava Chilled Cow, mas passou por um rebranding – alterando seu nome e identidade visual – após a popularidade da personagem. De acordo com dados do Social Blade14, o Lofi Girl é atualmente o quarto
maior canal da França, seu país de origem, e consta na posição 142 na categoria “música” no YouTube. Outro dado interessante é que o canal mais antigo da lista é o Chillhop Music e, o mais recente, Lofi Fruits, cujos primeiros vídeos foram postados em janeiro de 2013 e janeiro de 2020, respectivamente. As primeiras postagens dos demais canais são: Lofi Girl (março de 2015), the bootleg boy 2 (maio de 2015), the bootleg boy (março de 2016) e Ambition (janeiro de 2017). Apesar do consumo do gênero ter aumentado exponencialmente durante a pandemia, apenas um dos seis canais mais populares do gênero (Lofi Fruits) foi criado nesse período.
13 – Tradução minha. 14 – Disponível em: <https://socialblade.com/youtube/channel/UCSJ4gkVC6NrvII8umztf0Ow>. Acesso em: 30/03/24. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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Figura 2. Pesquisa pelo termo “lofi hip hop” no Google Trends (jan. 2015-mar. 2024). Figure 2. Search for the term “lofi hip hop” on Google Trends (Jan. 2015-Mar. 2024). Fonte: Google Trends(*).
Como revela o gráfico gerado no Google Trends (fig. 2), o pico histórico de popularidade do termo “lofi hip hop” ocorreu em fevereiro de 2020, um mês antes do anúncio da pandemia pela OMS. As buscas por ele começam a subir a partir de 201615, embora haja três momentos anteriores a este ano em que o termo aparece no histórico (março de 2008, dezembro de 2012 e março de 2015), de forma ainda pouco relevante. Vejamos agora um levantamento dos seis vídeos mais populares (com mais visualizações) do gênero no YouTube (fig. 3). Podemos perceber que duas transmissões (1º e 5º lugares) e um vídeo (2º lugar) do canal Lofi Girl integram a lista acima, o que reforça o seu lugar de importância em relação ao consumo de lofi hip hop na plataforma. Curiosamente, o terceiro vídeo com mais visualizações – C H I L L V I B E S | Chill & aesthetic music playlist – foi publicado por um canal (EYM) que não consta entre os mais populares do gênero musical. Na lista dos canais mais relevantes, que pode ser observada parcialmente na fig. 1, ele não estava entre os 190 relacionados. Embora tenha 185 mil inscritos e 78.049.260 visualizações, esses valores são muito inferiores aos dos seis primeiros da tabela. Outro ponto é que EYM não se define como um canal de lofi hip hop, mas sim de “chill beats”. Esse pode ser um dos motivos pelos quais o YouTube Data Tools não o identificou como um dos canais mais relevantes. Postado em 2017, antes da “viralização” do gênero, a própria
sonoridade das músicas que integram o vídeo mencionado difere bastante das transmissões e vídeos de lofi hip hop mais populares atualmente, assemelhando-se mais à estética do hip hop instrumental dos anos 1990 e da primeira geração do próprio lofi hip hop nos anos 2000 – como as composições do DJ e produtor japonês Nujabes, que é considerado um dos fundadores do gênero. Comparado aos outros vídeos do levantamento, as músicas neste são mais animadas (com um instrumental menos melancólico) e têm a batida mais acelerada, um indício de possíveis transformações estéticas do gênero ao longo do tempo. Na comunidade (subreddit) “LofiHipHop” na plataforma Reddit, encontramos algumas postagens da década de 2010 nas quais os usuários compartilham suas percepções sobre o caráter experimental e “não-comercial” do gênero naquele momento. Atualmente, os novos beatmakers são muito criticados pelos ouvintes, artistas e produtores mais antigos por grande parte deles produzirem suas músicas a partir de packs (de batidas e instrumentais prontos para serem usados) e plugins que simulam um som “degradado”, comprados em sites na internet (Neal, 2022; Landarini, 2023). Uma das características sônicas do lofi hip hop atual é a emulação de uma baixa fidelidade a partir da inserção proposital de ruídos e “imperfeições” da materialidade analógica (“chiado” da reprodução do vinil, som de fitas cassete “mastigadas”, distorções etc.) nas músicas, que são produzidas digitalmente. Referências a gadgets ligados ao consumo musical
15 – Conforme explicado pelo Google News Iniciative, quando as pesquisas são feitas por pouquíssimas pessoas, representando um baixo volume, elas aparecem como “0”, já que “o Trends somente analisa os dados para termos populares”. Disponível em: <https://newsinitiative.withgoogle.com/pt-br/resources/trainings/google-trends-understanding-the-data/>. Acesso em: 06/04/24. (*) Disponível em: <https://trends.google.com.br/>. 24
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
Figura 3. Os seis vídeos relacionados ao termo “lofi hip hop” com mais visualizações no YouTube(*) (**). Figure 3. Six vídeos related to the term “lofi hip hop” with the most views on YouTube. Fonte: Acervo da autora (dados coletados no YouTube Data Tools no dia 30 mar. 2024).
(*) Links dos vídeos da imagem: [1] <https://tinyurl.com/mr3df228>; [2] <https://tinyurl.com/29ayaxbx>; [3] <https://tinyurl. com/3w3nh3de>; [4] <https://tinyurl.com/nh55xx6k>; [5] <https://tinyurl.com/y6un8z5v>; [6] <https://tinyurl.com/4rh3arpf>. Acesso em: 30/03/24. (**) O quarto vídeo elencado pelo YouTube Data Tools como o mais popular relacionado ao termo “lofi hip hop” foi desconsiderado por não ter as características sônicas do gênero e se definir como “trap & bass” e “trapanese”. Disponível em: <https:// tinyurl.com/mr2yksj9>. Acesso em: 30/03/24. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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(como toca-discos, discman, walkman, iPods e fones de ouvido vintage16) aparecem ilustrados nas imagens das capas e animações exibidas ao fundo dos vídeos. Outro aspecto visual notável no nicho do lofi hip hop são as mascotes dos canais: Lofi Girl, Chillhop Music e Lofi Fruits17, por exemplo, são representados por uma menina com fones de ouvido, um guaxinim e uma fatia de melancia, que figuram em todos os vídeos. Na maior parte dos conteúdos, esses personagens estão sozinhos e aparentam certa melancolia e solitude18 em suas expressões e gestos. A menina do Lofi Girl sempre tem a companhia de seu gato nos vídeos, mas não de outros “humanos”. Recentemente, o canal lançou um novo personagem (Lofi Boy), porém ele e a “menina lofi” ainda não se encontraram19. Já o guaxinim do Chillhop Music costuma estar sozinho nos vídeos, mas seus amigos animais (um tucano, uma coelha e um urso antropomorfizados) o acompanham em alguns deles. O mesmo acontece com a fatia de melancia do Lofi Fruits, representada tanto solitária (e, em alguns dos vídeos, depressiva) quanto na companhia de outros pedaços da fruta. Os personagens presentes em Lofi Girl e Chillhop Music são comercializados na forma de produtos (animais de pelúcia, chaveiros, entre outros itens) nas lojas dos canais20. O terceiro vídeo com mais visualizações na fig. 3 tem uma animação em looping do personagem Homer Simpson dirigindo seu carro, com uma expressão facial (olhos semicerrados) que pode ser de cansaço ou do efeito de substâncias psicodélicas21. O uso de imagens e vídeos da cultura pop é comum, porém canais maiores têm investido em ilustrações e animações originais, também por uma questão de direitos autorais. Até 2021, o canal
Lofi Girl utilizava um GIF de Shizuku, protagonista do anime Sussurros do coração (1995), em sua live stream mais famosa, que foi derrubada em 2022 por conta de problemas de copyright com o Studio Ghibli (Melrose et al, 2024). Nos canais Lofi Fruits e the bootleg boy 2, ainda encontramos diversas referências a personagens de programas de TV, animes, videogames e quadrinhos – como Dragon Ball22, Pokémon23, Mario Kart24, Garfield25, Bob Esponja26, Hora de Aventura27, para citar alguns. Algo muito curioso é que personagens de conhecidos desenhos animados costumam ser representados fumando maconha no canal the bootleg boy 2. No contexto estadunidense, o programa de TV Adult Swim teve um papel importante na disseminação do lofi hip hop nos anos 2000. Como discutido por Fintoni (2020), ao longo do intervalo comercial, eram reproduzidos clipes animados com poucos segundos de duração (“bumpers”), que tocavam músicas de artistas do gênero, como Nujabes e J Dilla. Além disso, diversos animes, como Cowboy Bebop (1998), integravam a programação. Outro ponto é que o produtor japonês Nujabes, além de ser um dos idealizadores da sonoridade do gênero ao mesclar samples de jazz com as batidas do hip hop, também compôs a trilha sonora do anime Samurai Champloo (2004) – inclusive, uma imagem inspirada no anime (a silhueta do personagem Mugen observando o pôr do sol) é exibida ao fundo do vídeo 4 na fig. 3. Isso explica parcialmente as menções à cultura pop japonesa nos vídeos de lofi hip hop, que podem ser nostálgicas para os fãs millenials que as consumiam durante a infância (mas não explica diretamente o apelo para a geração Z).
16 – Na fig. 3, nota-se que os personagens escutam música com fones de ouvido nas lives 1, 5 e 6 e no vídeo 2. 17 – Esses três canais, dentre os seis presentes na figura 1, são os que têm um enfoque maior na narrativa transmídia, que é construída através de várias plataformas, para além do YouTube (Instagram, X (antigo Twitter), Spotify, Deezer, Discord, Reddit etc.). 18 – Alegria de se estar sozinho e aproveitar a própria companhia. 19 – No vídeo “Snowman”, postado no canal em dezembro de 2023, os personagens passam um pelo outro em uma rua, mas não percebem. Disponível em: <https://tinyurl.com/38ka64ut>. Acesso em: 07/04/24. 20 – Disponível em: <https://lofigirlshop.com/> e <https://shop.chillhop.com/>. Acesso em: 07/04/24. 21 – Nos comentários, alguns usuários relatam o uso de maconha enquanto escutam a playlist do vídeo. 22 – Disponível em: <https://tinyurl.com/mpunvzdj>. Acesso em: 11/04/24. 23 – Disponível em: <https://tinyurl.com/8tb2rmtd>. Acesso em: 11/04/24. 24 – Disponível em: <https://tinyurl.com/mvcj7phz>. Acesso em: 11/04/24. 25 – Disponível em: <https://tinyurl.com/3wu4rr2h>. Acesso em: 11/04/24. 26 – Disponível em: <https://tinyurl.com/5n93y6t7>. Acesso em: 11/04/24. 27 – Disponível em: <https://tinyurl.com/2kj2tetu>. Acesso em: 11/04/24. 26
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
O campo de comentários do YouTube como território de compartilhamento de sentidos A seção de comentários nos vídeos do YouTube é um território rico para a exploração de sentidos associados ao consumo musical. Nela, as escutas individuais se tornam coletivas, pois os usuários compartilham suas percepções e interagem uns com os outros (curtidas e respostas), formando uma espécie de comunidade de ouvintes. Por uma questão de delimitação de corpus, a coleta se restringiu apenas aos comentários postados em 2020 (primeiro ano de pandemia) no vídeo “1 A.M Study Session [lofi hip hop/chill beats]” (canal Lofi Girl), o segundo mais popular de lofi hip hop no YouTube, presente no levantamento da fig. 3. Como não é possível coletar os comentários das transmissões (live streams) com o YouTube Data Tools, apenas dos vídeos publicados, o primeiro resultado do levantamento (“lofi hip hop radio - beats to relax/ study to”) foi desconsiderado. Além disso, as interações presentes nas transmissões são mais efêmeras, possuindo uma função mais fática do que expressiva, por isso não ofereceriam insights tão relevantes para a pesquisa. Mesmo fazendo esse recorte, me deparei com um número muito grande de comentários (60.371), por isso optei por pesquisar por termos específicos (“nostalgia”, “memory” e “memories”). Apenas nove comentários mencionavam explicitamente o termo “nostalgia”. Por sua vez, “memories” aparecia em 27 deles, e “memory” em nove. Isso foi uma surpresa, pois eu esperava encontrar um número muito maior de comentários que contivessem essas palavras. A seguir, relaciono aqueles que considerei mais relevantes, a partir de chaves temáticas. Eles foram traduzidos do inglês para o português.
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NOSTALGIA DA INFÂNCIA Comentário 1: “Estou tentando fazer a lição de casa, mas essa música está despertando tantas lembranças de infância, e agora só quero chorar com a nostalgia”. Comentário 2: “[...] Tenho pavor do futuro, mas quando ouço essa música ele não parece tão ruim. Tenho algumas lembranças da minha infância, mas são muito vagas. [...] As pessoas criam as melhores lembranças quando são jovens”. Comentário 3: “[...] a vida parecia tão simples e revista Fronteiras - estudos midiáticos
fácil porque éramos tão jovens e livres de estresse, sem nos importarmos com o que os outros pensavam e a única coisa que nos fazia chorar constantemente eram cebolas e [...] não ter chocolate na geladeira. Eu amaria voltar, [...] criar mais memórias e é assim que essa música me faz sentir”. ACIONAMENTO INTENCIONAL DA NOSTALGIA Comentário 4: “Costumava me divertir com essas músicas quase todas as noites enquanto fazia meu dever de casa. Agora só as ouço por nostalgia lol”. USO TERAPÊUTICO DA ESCUTA MUSICAL Comentário 5: “Neste sábado, faz um ano que perdi minha mãe Anett devido a um acidente. Ela era um anjo, de apenas 54 anos, cuidava de tantas pessoas, família, animais de estimação e filhos adotivos. Esses dias trazem de volta as lembranças horríveis do ano passado e me fazem sentir sua ausência tão intensa. Essa música e a seção de comentários estão me acalmando e ajudando a ganhar forças, para lidar com minha perda e tristeza. Obrigado!”. NOSTALGIA SEM MOTIVO IDENTIFICÁVEL Comentário 6: “Esse vídeo me dá nostalgia por absolutamente nenhum motivo”. INCERTEZA E ESQUECIMENTO DE MEMÓRIAS Comentário 7: “[...] Às vezes, quando estou apenas fazendo alguma coisa, tenho uma lembrança aleatória e parece que ela já aconteceu milhares de vezes. Nenhum momento pode durar para sempre através das memórias, elas desaparecem e se misturam a todo o resto. Pedaços e peças se espalham. Mas quando você encontra ou se lembra de um pedaço da memória despedaçada, tudo volta à tona como uma enxurrada, ou como um ímã juntando tudo”. MEMÓRIAS EVOCADAS PELA ESCUTA Comentário 8: “Isso traz de volta tantas memórias!! Estava escutando essa playlist em Nova York no início deste ano...” Comentário 9: “Aquela primeira música traz de volta memórias que eu não sabia que tinha. Me faz querer chorar”. Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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Comentário 10: “Tive que pular todas as músicas boas para me manter focado (porque quando encontro uma música boa, ela me faz lembrar de lembranças muito tranquilas), então acabei escolhendo outro vídeo :( mas voltei para assistir mais tarde :)”. NOSTALGIA NA/DA PANDEMIA28 Comentário 11: “Obrigada por essa mensagem. O lockdown trouxe de volta algumas memórias perturbadoras e dolorosas. Ver seus comentários me dá esperança de que eu vou passar por isso :)”. Comentário 12: “Isso me dá nostalgia das aulas online”. Comentário 13: “As provas passaram... Agora isso [a música] está me dando nostalgia das provas nessa quarentena. Lol”. Comentário 14: “As provas acabaram... Agora essa música me dá nostalgia dos dias que eu ficava acordado até 2 da manhã estudando com essa música”. DeNora (2000, p. 65) aponta que ao escutamos música acontece uma pré-ativação de uma rede de associações, trazendo de volta “ondas de emoção, a especificidade de um tempo, um evento, um relacionamento”29. A música nos ajuda a “lembrar quem éramos num certo tempo”30, sendo um importante recurso para a construção de nossa subjetividade (DeNora, 2000, p. 57). Lembranças são reconstruções de experiências passadas no tempo presente, já que a memória não é um processo estanque, envolvendo inclusive uma certa dose de imaginação, fantasia e até mesmo de esquecimento31. Sendo assim, o processo mnemônico não ocorre de forma linear, como percebido no relato do comentário 7, reproduzido anteriormente. Também é interessante observar nos comentários 6 e 9
que a pessoa que sente a nostalgia não necessariamente consegue entender ou verbalizar porque a sentiu. A nostalgia da infância, que costuma afetar muitos indivíduos (Moran, 2002)32, foi manifestada nos comentários 1, 2 e 3. Nos excertos de comentários acima, é possível perceber que a escuta do lofi hip hop também foi utilizada de forma terapêutica pelos ouvintes, a exemplo dos comentários 2 (para enfrentar a ansiedade), 5 (para lidar com o luto de um familiar), 1033 (para promover a concentração) e 11 (para manter a positividade durante o lockdown). Os comentários 1 e 9 mencionam a vontade de chorar ao escutar as músicas, por conta de sua sonoridade melancólica. Em geral, associamos a escuta do gênero a espaços privados, como os quartos, muito representados, inclusive, no cenário das animações dos vídeos (Landarini, 2023), mas o comentário 8 faz menção à escuta durante uma viagem e não para criar uma ambiência propícia ao trabalho ou estudo. O comentário 10, por sua vez, menciona que a escuta da música – que era “boa” e fazia o usuário ter “lembranças muito tranquilas” – foi disruptiva para a concentração, logo ele teve que sair do vídeo e voltar depois para ouvir com calma. Alguns usuários também relataram se sentirem nostálgicos em relação a momentos específicos da pandemia (12, 13 e 14). É ainda mais curioso esses comentários terem sido publicados ainda em 2020, o primeiro ano “pandêmico”. À época, por conta do confinamento, muitas pessoas relataram a sensação de alteração em sua percepção do tempo (Biernath, 2022). Embora pareça contraditório, já que aquele foi um período trágico da história recente, venho percebendo esse tipo de relato – a respeito da saudade de momentos específicos da pandemia – em alguns vídeos de lofi hip hop, inclusive nos mais recentes.
Considerações finais A partir de uma análise exploratória dos canais de lofi hip hop mais populares no YouTube, o presente
28 – O mesmo usuário postou os comentários 13 e 14. 29 – Tradução minha. 30 – Tradução minha. 31 – O esquecimento é uma dimensão fundamental para o bom funcionamento da memória. Sobre esse tema, vale a leitura do conto “Funes, o memorioso”, de Jorge Luís Borges (1997). O personagem Funes relembra os mínimos detalhes de tudo o tempo inteiro, algo que torna sua vida impossível de ser vivida plenamente no presente. 32 – Isso também dependerá do quão estável e tranquila foi a vivência da infância. 33 – Neste comentário, o ouvinte explica que saiu do vídeo para conseguir se concentrar, pois as lembranças durante a escuta das músicas “boas” eram uma distração para o estudo. No entanto, o objetivo inicial era utilizá-lo para construir uma ambiência para o foco. 28
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“Memórias que eu não sabia que tinha”: a estetização da nostalgia em vídeos de lofi hip hop no YouTube
artigo buscou compreender a estetização da nostalgia nos vídeos relacionados ao gênero, identificando os aspectos presentes em suas sonoridades, visualidades e interações no campo de comentários. Uma das conclusões do trabalho é que os ouvintes de lofi hip hop se engajam em torno de um passado ficcional, imaginado coletivamente a partir de referências midiáticas fragmentadas (Winston e Saywood, 2019) na audiovisualidade dos conteúdos disponíveis na plataforma. As sonoridades e os elementos visuais relacionados ao gênero remetem a um imaginário lofi, uma “tecnostalgia”, nas palavras de Niemeyer (2018). Uma fatia grande dos consumidores dos lofi beats é composta por gerações mais jovens, que provavelmente não tiveram um contato tão direto com a materialidade das tecnologias analógicas representadas e remediadas esteticamente nos vídeos (por exemplo, discos de vinil, fitas cassete e VHS). As representações digitais desses objetos, no entanto, também são capazes de produzir um efeito nostálgico (tanto ao referenciar artefatos do passado midiático quanto em si mesmas). Conforme discutido anteriormente, no nicho do lofi hip hop no YouTube há também muitas alusões a elementos da cultura pop massiva dos anos 1990 e 2000, que fizeram parte da infância e adolescência de parte de seus consumidores, como personagens de animes e desenhos animados e às trilhas sonoras de animações japonesas – vide que Nujabes, um dos principais precursores do lofi hip hop, foi compositor de uma. Inclusive, na melodia de muitas composições contemporâneas do gênero, nota-se o timbre do instrumento musical koto, espécie de cítara tradicional japonesa.
Durante a escuta musical na plataforma, os usuários costumam prestar atenção nas animações e imagens exibidas ao fundo dos vídeos e tecer comentários a seu respeito. Neste artigo, a partir do vídeo selecionado para análise, dei enfoque apenas aos comentários que abordavam as temáticas da memória e da nostalgia no primeiro ano de pandemia – e, para minha surpresa, poucos mencionavam explicitamente esses termos. Diversos deles apontavam que, na animação de fundo, a personagem Lofi Girl estava acessando o Spotify (ou seja, procrastinando ao invés de estudar) ou comentavam os detalhes do cenário (e o desejo de terem um ambiente parecido em suas casas). Outras temáticas que apareceram foram produtividade no trabalho ou estudo, dicas de estudo e reforços positivos. Um ponto que chama atenção é que os relatos e percepções compartilhados nos vídeos de lofi hip hop costumam ter um caráter bastante pessoal, em tom de desabafo, funcionando como uma espécie de terapia coletiva. É comum os usuários elogiarem essas interações presentes no campo de comentários, percebido por eles como um ambiente positivo. Por fim, em futuras incursões no tema, pretendo incluir mais vídeos e um volume maior de comentários na análise, a fim de identificar novas camadas de sentidos – inclusive os não-explícitos – presentes nas redes de produção e consumo do lofi hip hop no YouTube. Essa ampliação do corpus possibilitará expandir a compreensão das temáticas e dos elementos associados à sua escuta, verificando as transformações que apresentam no decorrer do tempo.
Referências AMARAL, A.; NATAL, G.; VIANA, L. 2008. Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital. Famecos, 13 (20): 34-40. BALLAM-CROSS, P. 2021. Reconstructed Nostalgia: Aesthetic Commonalities and Self Soothing in Chillwave, Synthwave, and Vaporwave. Journal of Popular Music Studies, 33 (1): 70-93. BIERNATH, A. 2022. Pesquisa mostra como a pandemia de covid alterou nossa percepção do tempo. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-61221868>. Acesso em: 14/04/24. BORGES, J. 1997. Funes, o memorioso. In: BORGES, J. Ficções. São Paulo, Editora Globo, p. 109-117. BOYM, S. 2001. The future of nostalgia. New York, Basic Books, 404 p. revista Fronteiras - estudos midiáticos
__________. Mal-estar na nostalgia. 2017. História da historiografia, Ouro Preto, 10 (23): 153-165. BREVE, G. 2021. Conheça o Lo-fi, gênero musical que ajuda a ter foco para estudos e trabalho. Disponível em: <https:// gizmodo.uol.com.br/conheca-o-lo-fi-genero-musical-que-ajuda-a-ter-foco-para-estudos-trabalho-e-sexo/>. Acesso em: 30/03/24. CONTER, M. 2016. LO-FI: música pop em baixa definição. Curitiba, Appris, 320 p. DeNORA, T. 2000. Music in everyday life. Cambridge, Cambridge University Press, 181 p. FINTONI, L. 2020. Bedroom Beats & B-sides: Instrumental hip hop & electronic music at the turn of the century. England, Velocity Press, 388 p. Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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revista Fronteiras - estudos midiáticos
revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):31-43 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.04
Plataformização do telejornalismo: uma análise sobre os procedimentos adotados na cobertura da TV Globo na invasão dos poderes em Brasília (2023) Platformization of television journalism: an analysis of the procedures adopted in TV Globo’s coverage of the invasion of government buildings in Brasília (2023) Carolina Dantas de Figueiredo[*] carolina.figueiredo@ufpe.br
Adriano Austeclínio Pádua dos Santos[*] adriano.padua@ufpe.br
RESUMO Neste artigo, discutimos como a plataformização da televisão reconfigurou a produção das notícias com novas estratégias e tensão com a mediação algorítmica das redes sociais online. Para isso, tomamos por base a cobertura da TV Globo sobre a invasão dos poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. Como método realizamos o estudo exploratório e coleta manual das informações no sistema midiático da TV Globo e nas contas do Fantástico e Jornal Nacional no Twitter e no Instagram. Analisamos os dados com base nos estudos sobre a reformulação da TV e nos Estudos de Plataformas. Os resultados apontam para um processo marcado por crise no controle dos conteúdos e de comercialização das notícias.
ABSTRACT This study explores the platformization of TV news and the evolving distribution strategies of news on platforms like online social networks. To achieve this objective, we analyze TV Globo’s coverage of the attack on Brazil’s federal government buildings in Brasília on January 8, 2023. The methodology is based on an exploratory study and involves the manual extraction of information from TV Globo’s digital platforms, as well as the Instagram accounts of the TV news programs Fantástico and Jornal Nacional. We analyze the data in light of existing research on changes in TV news distribution and Platform Studies. The results indicate that the platformization of TV news is characterized by challenges in content control and the commercialization of news.
Palavras-chave: Plataformização; telejornalismo; redes sociais online.
Keywords: Platformization; television journalism; online social networks.
[*]
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Av. da Arquitetura, s/nº - Cidade Universitária - Recife/PE. 31
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revista Fronteiras - estudos midiáticos
Carolina Dantas de Figueiredo, Adriano Austeclínio Pádua dos Santos
Introdução
A
plataformização do jornalismo implica na reconfiguração de processos comunicacionais de produção, seleção e distribuição de notícias marcada, na perspectiva da cultura digital, pela centralidade das redes sociais online na geração, circulação e comercialização da informação e pela mobilização das empresas de jornalismo de usufruir dessas plataformas como estratégias para alcançar o público, produzir visibilidade e aumentar as receitas com publicidade. Simultaneamente, a interseção entre a indústria jornalística e o ecossistema de plataformas aciona processos de tensão e disputa por controle de conteúdos, geração de receita com publicidade e independência jornalística. Essas instabilidades incidem nas estratégias institucionais de distribuição das notícias das empresas de comunicação de forma a moldar sistemas midiáticos multiplataforma próprios. Este artigo foca na análise e compreensão desses processos que envolvem a plataformização do jornalismo e trata empiricamente da cobertura sobre os ataques à sede dos três poderes em Brasília nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023 feita pelo Fantástico e Jornal Nacional da TV Globo nos canais próprios da emissora (radiodifusão tradicional e online) assim como do Twitter e do Instagram oficiais desses programas. O movimento inicial para este estudo é apresentar e compreender como operam os processos de plataformização das notícias e de reconfiguração da televisão da emissão linear para a distribuição multiplataforma. Em seguida, focamos na caracterização da cobertura multiplataforma da TV Globo, pela perspectiva do Fantástico e Jornal Nacional e a entrega de conteúdos nas contas do Twitter e Instagram desses programas. Como abordagem metodológica, adotamos duas frentes de trabalho com foco nos conteúdos jornalísticos sobre a invasão dos poderes em Brasília e dentro do recorte empírico do estudo definido entre os dias 8 e 9 de janeiro de 2023. As referidas datas foram escolhidas considerando o dia das invasões, o domingo, 8 de janeiro, e a segunda-feira, dia 9, o primeiro dia após o acontecimento com apresentação do Jornal Nacional. Na primeira etapa, realizamos um estudo exploratório do sistema midiático da TV Globo, pela observação sistemática do fluxo multiplataforma dos conteúdos jornalísticos centrada nos programas Fantástico e Jornal Nacional. Desse modo, coletamos manualmente as informações sobre a distribuição das reportagens desses programas. Verificamos a lógica de entrega desses conteúdos entre a emissão linear, a transmissão na plataforma Globoplay e a publicação dos conteúdos nas páginas do Fantástico 32
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e Jornal Nacional no portal de notícias G1. Verificamos uma dinâmica de distribuição nessas plataformas que se estabelece quase que simultaneamente por se tratar de um acontecimento de grande repercussão com cobertura ao vivo. Cabe destacar que esta fórmula adotada pela emissora vem gerando resultados em detrimento da deriva da audiência para as mídias digitais. Em maio de 2024, ao fazer a cobertura ao vivo da tragédia climática no estado do Rio Grande do Sul, o Jornal Nacional atingiu 66 milhões de brasileiros (Pavão, 2024). Na segunda etapa do trabalho, coletamos manualmente as informações das publicações sobre a invasão dos poderes efetuadas nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023 nas contas do Fantástico e do Jornal Nacional no Instagram e no Twitter. Na coleta, extraímos dados sobre formato (vídeo, imagem, texto), modos de exploração das funcionalidades dessas plataformas e número de interações obtido por cada postagem sobre o assunto. Consideramos para análise, as postagens com o maior número de interações levando em conta (para o estudo) somente aquelas sobre os ataques em Brasília. De posse das informações, caracterizamos os modos de exploração dessas plataformas pela TV Globo no âmbito dos programas analisados. Dentro desse contexto, o estudo constata que a interrelação entre a produção jornalística da TV Globo através do Fantástico e do Jornal Nacional na cobertura dos ataques em Brasília tensiona o ecossistema das plataformas de mídias sociais ao ponto de realizar uma entrega mínima de conteúdos para sobrepor o próprio sistema midiático da emissora à lógica dessas plataformas. Esses processos operam pela redução do conteúdo televisivo nas publicações do Twitter e Instagram, pela ausência da exploração de hiperlinks como estratégia para direcionar o usuário às plataformas da emissora e por não existir a vinculação de anúncios publicitários nas contas do Fantástico e do Jornal Nacional nessas plataformas. Identificou-se assim regimes de resistência da TV Globo ao processo de plataformização caracterizados pela centralidade da transmissão e distribuição jornalística nas próprias plataformas da empresa e anulando a agência da mediação algorítmica das redes sociais online sobre as circulação e visibilidade das notícias da emissora. A análise e o estudo da plataformização do (tele) jornalismo envolve a investigação da complexidade desse processo marcado pelos esforços das plataformas de mídias sociais em se tornarem os nós centrais na produção, circulação e mercantilização de notícias (Van Dijck et al, 2018). Ao mesmo tempo, é preciso compreender que a lógica das plataformas permite impulsionar as práticas das empresas de revista Fronteiras - estudos midiáticos
Plataformização do telejornalismo: uma análise sobre os procedimentos adotados na cobertura da TV Globo na invasão dos poderes em Brasília (2023)
mídia, mas também pode comprometer a geração de receitas, a política editorial e a independência jornalística. Isso se verifica pelo potencial da plataformização do jornalismo de dominar os investimentos em publicidade e pelo papel dos algoritmos na distribuição de notícias (Bucher, 2018; Diakopoulos, 2018). A agência dos algoritmos implementou o jornalismo baseado em métricas das plataformas, pautando as decisões editoriais e, de modo simultâneo, controlando a circulação e a visibilidade dos conteúdos baseada em critérios ocultos, controversos e estruturados por princípios políticos ou organizacionais específicos (Gillespie, 2014) em um processo pelo qual as novas indústrias de mídia fornecem e classificam a cultura (Gillespie, 2016).
Plataformização das notícias e a nova TV A penetração de infraestruturas, processos econômicos e estruturas governamentais de plataformas em diferentes setores econômicos e esferas da vida configuram a plataformização, de acordo com Poell, Nieborg e Van Dijck (2019). No campo do jornalismo, esses processos provocaram mudanças radicais ao desarticular a hegemonia e centralidade das notícias do domínio das empresas de comunicação e estabelecer uma tensão entre a produção jornalística e o ecossistema das plataformas digitais (Van Dijck et al, 2018). Essa tensão se constituiu principalmente, conforme Van Dijck et al (2018), pelo poder das plataformas de gerar uma ruptura no controle dos conteúdos jornalísticos e pelo potencial delas de minar a capacidade das empresas jornalísticas de gerar receita publicitária. A perda do controle sobre os conteúdos ocorre pelo deslocamento de um modelo tradicional de distribuição para processos de circulação e visibilidade de conteúdos baseados em sistemas de busca e na ação de algoritmos projetados para calcular o que está em alta e o que é tendência (Gillespie, 2018). No caso da televisão, como apontam Carlón e Fechine (2014), o veículo se viu afetado em seu processo de programação por novos modos de recepção e passou a fazer parte de um sistema integrado com a internet, perdendo a hegemonia cultural para as plataformas, mas ao mesmo tempo sendo central como programadora da vida social. Considerando todos esses processos, o jornalismo saiu de uma lógica de distribuição de massa com controle total da informação para processos de disrupção e transformação (Bruns, 2018) baseados na plataformização das notícias. A indústria do jornalismo, como aponta Bruns (2018), sofreu uma disrupção e crise a partir dos anos de revista Fronteiras - estudos midiáticos
1990 ao ser afetada pelo crescimento da internet, pelas mídias sociais e os conteúdos gerados pelos usuários. Ao final dessa década, a distribuição de notícias e os modelos de receita foram impactados, de acordo com Van Dijck et al (2018), pelo surgimento de mecanismos de busca, agregadores de notícias e sites de anúncios classificados. Com isso, começa nesse período, uma história de separação, recombinação de conteúdos de notícias, audiências e publicidade, estabelecendo uma nova lógica midiática de seleção, produção e distribuição das notícias baseada na integração entre o modelo tradicional e as plataformas digitais. Com essa integração forçada a indústria do jornalismo não teve como manter a sua hegemonia habitual na esfera pública (Bruns, 2018), impactada principalmente pela desagregação da cadeira conteúdo-público-publicidade. Os serviços de busca online como o Google, o principal deles, fizeram, conforme Pasquale (2015), incursões profundas na esfera da influência cultural, econômica e política dominando por completo um campo antes comandado pela televisão, estações de rádio e jornais. No âmbito da plataformização de notícias, esse processo foi moldado a partir do domínio de agregadores de notícias e buscadores online. De acordo com Van Dijck et al (2018), agregadores como Google news, coletam, sem ter custos de produção, conteúdos jornalísticos de diversas fontes como jornais online, blogs e podcasts, alimentando seus bancos de dados a partir do trabalho de terceiros e efetuando a curadoria de notícias antes atribuída às empresas jornalísticas. Já no campo da publicidade, buscadores como o próprio Google se estabeleceram, segundo os autores, numa posição dominante sobre a publicidade online, reduzindo a capacidade das organizações de notícias de gerar receita publicitária. Em 2015, cinco empresas de tecnologia, incluindo Facebook, Google, Yahoo e Twitter, obtiveram 65% da receita dos anúncios digitais nos Estados Unidos (Pew Research Center, 2016) em detrimento das empresas jornalísticas. O impacto mais profundo nesse contexto de reconfiguração da mídia tradicional integrada com as plataformas digitais foi provocado pelas redes sociais online ao ocuparem a centralidade do nosso cotidiano (D’Andréa, 2017) e estabelecerem um ecossistema de mídia em conexão com esquema inovador de produção e distribuição de conteúdo (Van Dijck, 2013). As empresas de comunicação tiveram que criar suas contas nessas plataformas para distribuir conteúdos e alcançar o público. Essa reconfiguração provocou mudanças substanciais sendo a principal delas a fragmentação das notícias caracterizada, segundo Van Dijck et al (2018), por um mix de conteúdos não somente de notícias das principais organizações jornaVol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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Carolina Dantas de Figueiredo, Adriano Austeclínio Pádua dos Santos
lísticas, mas também de uma ampla variedade de fontes incluindo usuários e produtores de desinformação. Nesse aspecto das disputas informacionais a partir de variadas fontes, surgiram, desde os anos 2000, como operadores de jornalismo cidadão, além de propagandistas e demagogos (Bruns, 2018). Conforme D’Andrea (2020), as práticas e negócios do jornalismo se transformaram por meio das interfaces tecnocomerciais com as plataformas, numa relação marcada por variados momentos de aproximação e de tensão com as plataformas. O Twitter (rebatizado como X) e o Facebook foram as plataformas principais para a distribuição de notícias na fase de migração da indústria jornalística para os ambientes digitais, sendo o Twitter usado mais amplamente por sua infraestrutura mais dinâmica de interação, com mensagens curtas (Bruns, 2018). Ao serem distribuídos através da publicação em redes sociais online, os conteúdos jornalísticos são submetidos à lógica dessas plataformas (Van Dijck e Poell, 2013) e sofrem a ação dos mecanismos de governança com padrões de operacionalidade com base nas políticas da plataforma, codificados nos Termos de Serviço, Termos de Uso e Diretrizes para Desenvolvedores (Nieborg e Poell, 2018). Assim, o material publicado pelas empresas de comunicação é submetido a sistemas de gerenciamento de conteúdo com protocolos técnicos e protocolos sociais com regras implícitas ou explícitas para gerenciar as atividades do usuário proibindo nudez, violência e discriminação (Van Dijck, 2013). O impacto das normas de governança das plataformas de mídia sociais na indústria do jornalismo está relacionado, principalmente, à normatização unificada do gerenciamento dos conteúdos de notícias. Segundo Nieborg e Poell (2018), as políticas globais das plataformas não consideram os valores históricos, culturais e políticos que são centrais no processo de produção de notícias. Ao mesmo tempo, os conteúdos das empresas jornalísticas são afetados pela mediação algorítmica e a agência dos usuários (Gillespie, 2014) e processos de moderação das plataformas usados para remover conteúdos ofensivos ou ilegais, proteger um usuário de outro ou um grupo de seus antagonistas. Com base nessa dinâmica, as notícias que circulam e ganham visibilidade nas redes sociais online formam um conjunto informacional que, de acordo com Van Dijck et al (2018), é mais heterogêneo e fortuito, contendo notícias das empresas jornalísticas junto com uma ampla variedade de outras fontes. D’Andrea (2020), cita a decisão do jornal Folha de São Paulo de não atualizar seus perfis no Facebook após diminuição no alcance de postagens de páginas (2018) como situações controversas que revelam as oscilantes relações de poder entre 34
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instituições jornalísticas e as plataformas online. Dentro desse contexto, a agência dos algoritmos sobre as notícias das empresas de comunicação funciona como um editor nas redes sociais online (Diakopoulos, 2018) assumindo o controle sobre circulação e visibilidade desses conteúdos à revelia da indústria jornalística. Isso ocorre, de acordo com Gillespie (2014), porque os algoritmos são uma lógica central que controla os fluxos de informação, gerenciando como a informação é percebida pelos usuários. A lógica algorítmica, conforme o autor, funciona de forma automatizada a partir do uso de dados utilizando critérios enviesados e incompreensíveis de avaliação de conteúdo para determinar o que é mais discutido, como no caso do Trending Topics do Twitter. Assim, as organizações produtoras de notícias têm pouco controle sobre o contexto específico em que os usuários acessam e consomem conteúdos jornalísticos. A lógica algorítmica das plataformas de mídias sociais também reconfigurou o modelo de seleção, produção e distribuição de notícias pelas empresas que passaram a tomar por base as métricas de interação sobre os conteúdos jornalísticos para definir os assuntos a serem divulgados. Com isso, como apontam Van Dijck et al (2018), a produção e distribuição de notícias mudou de um modelo centrado na autonomia editorial dos jornalistas para um modelo baseado em interesses e atividades do usuário. Essa mudança nos critérios de noticiabilidade e valores notícias (Traquina, 2005) a partir da plataformização das notícias resultou na alteração do modelo de gatekeeping pelo qual os jornalistas não só aceitam ou rejeitam os assuntos, como também processam e modificam os que são aceitos (Kunczik, 2001). Considerando a ação dos usuários como produtores de informação online, Bruns (2009) propôs o termo gatewatching em substituição ao gatekeeping para caracterizar as atividades dos jornalistas integradas com a internet, monitorando a circulação de informações online para o uso das informações na produção de notícias. Ao modificar os modelos operacionais de produção e distribuição de notícias, a plataformização do jornalismo no campo da indústria da televisão obrigou as empresas a implementar modelos de distribuição de conteúdo audiovisual em conexões de plataformas digitais. Essa reconfiguração instalou, conforme Carlón (2014), a crise da programação caracterizada pelo consumo dos programas separados da instância da emissão tradicional com o acesso através de outros dispositivos e sem assistir no mesmo momento da transmissão. A mudança nas práticas de consumo do público a partir das redes sociais online também é apontada como fator crucial revista Fronteiras - estudos midiáticos
Plataformização do telejornalismo: uma análise sobre os procedimentos adotados na cobertura da TV Globo na invasão dos poderes em Brasília (2023)
para a transformação da televisão, já que o espectador tem um grande poder de ver o que deseja e quando deseja (Carlón, 2104). Bruns (2008) confirma esse potencial do público na relação com os novos modelos de distribuição da indústria televisiva, já que os usuários de plataformas digitais são cada vez mais ativos no acesso, avaliação, compartilhamento e redistribuição de conteúdos. Desse contexto, decorre uma nova fase da história televisiva, a fase do desaparecimento da televisão como meio de difusão de massa de um para muitos (Scolari, 2014) marcada, conforme esse autor, pela chegada de novas telas com difusão constante da televisão em dispositivos móveis, gerando novas práticas de produção e consumo. A mudança nos dispositivos midiáticos e no comportamento do público sobre o acesso e consumo de conteúdos centrados em plataformas online foi definitiva para a plataformização da televisão. Com os novos modos de recepção, ocorreu a fragmentação da audiência (Scolari, 2014) da televisão marcada pelo consumo dos programas das emissoras em telas que se multiplicam e cada um pode escolher o que ver (Carlón, 2014). A forma de ver televisão se expandiu e tornou-se não linear com o acesso através de outros dispositivos midiáticos como computadores ou celulares conectados à internet e, principalmente, na intersecção entre conteúdos televisivos e as redes sociais online. Nesse contexto, a plataformização, de acordo com Van Dijck et al (2018), transforma a precisão e abrangência das notícias de um valor público para um valor pessoal devido a personalização de conteúdo nas plataformas. Essa personalização não pode ser atribuída, conforme os autores, somente a algoritmos ou preferências e práticas do usuário, mas resulta de uma dimensão maior comporta pela interação entre plataformas, usuários e empresas jornalísticas.
A cobertura multiplataforma dos ataques de 8/1 na Globo A implementação do sistema midiático multiplataforma do Grupo Globo teve início no ano 2000, com o lançamento do portal Globo.com1. Os investimentos no modelo de transmissão webcasting se expandiram
em novembro de 2015, quando a emissora lançou a sua plataforma de vídeo on demand (VOD, sigla em inglês), a Globoplay2. A distribuição de conteúdos jornalísticos e de entretenimento amplia o alcance a partir do consumo online dos conteúdos e acesso a partir de dispositivos conectados à Internet. Em seguida, a TV Globo implementou o perfil da empresa e de seus programas nas plataformas de mídias sociais3. A partir dessas mudanças, o modelo da cobertura jornalística se reconfigurou, sendo realizado de forma integrada entre a transmissão linear e as plataformas online da emissora. Em 2022, a emissora ocupou o primeiro lugar entre as principais empresas do setor de mídia e publicação no Brasil com base na receita líquida igual a 15.119 milhões, cinco vezes mais que a segunda colocada, a Record, com 3.189 milhões4. Para caracterizar a cobertura multiplataforma da TV Globo dos ataques de 8 de janeiro às sedes dos três poderes em Brasília, realizamos a coleta manual de informações em duas frentes. A primeira no sistema midiático da emissora com a extração dos dados sobre o fluxo da informação jornalística dos programas Fantástico e Jornal Nacional. Efetuamos a observação sistemática das notícias na dinâmica entre a emissão linear, a transmissão na plataforma Globoplay e a entrega de conteúdos no portal de notícias G1. No segundo procedimento, coletamos manualmente as publicações realizadas nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023 nas contas desses programas no Twitter e no Instagram considerando o formato, os modos de exploração das funcionalidades dessas plataformas e o número de interações em torno das postagens. Na tarde do domingo, 8 de janeiro de 2023, dia dos ataques à sede dos três poderes em Brasília, a TV Globo interrompeu o filme da sessão “Campeões de Bilheteria” e transmitiu dois boletins informativos sobre a invasão dos prédios dos três poderes em Brasília. A transmissão foi feita do estúdio do Fantástico com a apresentadora Poliana Abrita. O primeiro boletim veiculado por volta das 16h20m e com duração de 55 segundos, teve o formato de uma chamada para assistir à cobertura sobre os ataques em Brasília no Fantástico e apresentando detalhes do que estava acontecendo. No segundo boletim, divulgado por volta das 17h, perto do início do programa Domingão com Huck, a jornalista apresentou novas
1 – https://historia.globo.com/historia-grupo-globo/ 2 – https://historia.globo.com/historia-grupo-globo/2015-2024/noticia/2015-lancamento-do-globoplay.ghtml 3 – https://memoriaglobo.globo.com/jornalismo/ 4 – https://www.statista.com/statistics/814591/brazil-media-publishing-leading-companies-net-revenue/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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Carolina Dantas de Figueiredo, Adriano Austeclínio Pádua dos Santos
informações sobre as invasões ao Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal através de uma entrada ao vivo direto da capital federal com a repórter Isabela Camargo, apresentando os detalhes dos ataques com imagens dos atos e informando sobre o posicionamento das autoridades. O conteúdo dos boletins se expandiu da transmissão convencional para as contas do Fantástico no Twitter e no Instagram com publicação quase que simultânea com a emissão pela televisão. Pouco antes do final do filme da tarde de domingo, a transmissão ao vivo dos ataques que estava sendo realizada pelo canal por assinatura Globo News passou a integrar a programação da TV Globo, interrompendo a programação e cancelando a edição do programa Domingão com Huck que teria duração de três horas. A cobertura simultânea na TV aberta e fechada se integrou ao sistema de distribuição multiplataforma da empresa com a transmissão tradicional da TV se expandindo para as plataformas digitais de entrega de conteúdos centradas nas interfaces do aplicativo Globoplay de video on demand (VOD, sigla em inglês), no portal de notícias G1 e nas contas oficiais do Fantástico e do Jornal Nacional nas redes sociais online. Na plataforma Globoplay, a transmissão ao vivo dos ataques foi acessada através da opção do menu “Agora na TV” para acesso e consumo do mesmo conteúdo da emissão convencional televisiva. No portal de notícias da emissora, o G1, os conteúdos sobre os ataques em Brasília foram entregues em reportagens multimídia com inserção de texto, vídeo e imagens sobre os atos com a mesma estratégia de trazer após o título e o subtítulo da reportagem um vídeo sobre o assunto produzido pela equipe do portal. De modo simultâneo à cobertura nacional, houve o incremento da produção de conteúdos sobre os ataques no portal através das redações em todos os estados com reportagens acionando ligações entre pessoas e autoridades das regiões com os atos terroristas. Primeira iniciativa de conteúdo jornalístico da Globo concebida em 2006 para o jornalismo digital, o G1 acionou também na cobertura dos ataques em Brasília o recurso de inserir vídeos com trechos da programação da TV Globo. De modo simultâneo a essas estratégias, a transmissão ao vivo das invasões à sede dos poderes em Brasília também estava agregada ao G1 com acesso pela interface da Globo News que faz parte do
portal. Ao mesmo tempo, a cobertura no portal se ampliou pela dinâmica de produção de conteúdos nas páginas dos seis telejornais da emissora, principalmente pela equipe do Fantástico no domingo, 8 de janeiro, e do Jornal Nacional na segunda, dia 9. Os conteúdos nessas interfaces são disponibilizados de forma gradativa com o acesso às reportagens após a transmissão linear pela televisão. No âmbito das redes sociais, as estratégias usadas foram conduzidas em sintonia com o agendamento jornalístico da cobertura dos ataques numa interseção entre a transmissão linear e as publicações no Twitter e no Instagram. Essa dinâmica se verifica nas contas do Fantástico e do Jornal Nacional nessas plataformas a começar pela tarde do domingo, 8 de janeiro de 2023. Os conteúdos publicados, em sua maioria, são os mesmos transmitidos da forma convencional pela emissora. As estratégias da equipe do Fantástico se iniciam por volta das 16h do domingo e se estendem até o final do programa com um total de 4 publicações no Twitter e 7 postagens no Instagram. A primeira publicação no Twitter5 foi às 16h28m do domingo na conta @showdavida com o vídeo de 55 segundos de duração no qual a jornalista Poliana Abrita informa sobre os ataques à sede dos três poderes em Brasília, apresentando as informações e convocando os seguidores para conferir a cobertura completa no Fantástico. A publicação alcançou, no momento da coleta, um total de 104 mil visualizações, 1378 curtidas, 35 comentários e 125 compartilhamentos. O mesmo conteúdo foi publicado na conta do programa no Instagram6, mas nenhum deles possui link para direcionar os usuários às outras plataformas da emissora como o portal de notícias G1 ou Globoplay. A mudança entre um conteúdo e outro são os textos da chamada no Twitter e da legenda no Instagram, numa adequação do trabalho jornalístico às funcionalidades dessas plataformas. No Instagram, o vídeo obteve 653.031 visualizações, 64.977 curtidas e 6911 comentários. Cerca de trinta minutos após a primeira publicação, uma nova postagem é feita na conta do Fantástico no Twitter inserindo o mesmo conteúdo da chamada transmitida pela emissão tradicional. No vídeo com 2 minutos e 56 segundos de duração7, a jornalista Poliana Abrita apresenta mais informações sobre os ataques e chama a repórter Isabela Camargo direto de Brasília informando detalhes sobre a invasão das sedes dos três poderes. A postagem alcançou
5 – https://twitter.com/showdavida/status/1612169387552952320 6 – https://www.instagram.com/p/CnKoQL8MK-h/ 7 – https://twitter.com/showdavida/status/1612176345089605633 36
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42 mil visualizações, 780 curtidas, 7 comentários e 51 compartilhamentos. No início da noite do domingo, 8 de janeiro, a equipe do Fantástico publicou no Twitter, às 18h05m, um vídeo de 5 minutos e 57 segundos de duração com o texto da chamada “Lula decreta intervenção federal no DF. Acompanhe a cobertura completa no Fantástico.” O conteúdo mostra a entrevista coletiva do presidente sobre a intervenção e obteve 51.800 visualizações, 1250 curtidas, 12 comentários e 104 compartilhamentos. Às 19h29m do domingo, uma hora antes do início do programa, foi publicado no Twitter parte do vídeo feito pelo repórter Marcos Lozekam8 mostrando a destruição provocada pelos ataques na sede do Supremo Tribunal Federal. Com duração de 44 segundos, o conteúdo obteve 80.800 visualizações, 1.155 curtidas, 23 comentários e 209 compartilhamentos. Uma nova publicação na conta do Twitter do programa foi feita exatamente no horário do início do Fantástico, às 20h30m do domingo, 8 de janeiro de 2023, como é feito regularmente quando a atração se inicia com a foto da apresentadora Poliana Abrita no estúdio e com o seguinte texto da chamada na plataforma: “O Fantástico está no ar.” Minutos depois, a quarta e última publicação na conta do programa no Twitter foi feita às 20h36m da noite do domingo com a postagem de um vídeo com 2 minutos e 56 segundos de duração extraído da transmissão convencional. O conteúdo é a chamada de abertura do programa construída com um texto no qual se verifica uma análise dos ataques em determinados trechos, apontando os atos praticados em Brasília como “um desrespeito flagrante à Constituição, aos três poderes da república e ao processo eleitoral que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva para o seu terceiro mandato presidencial” e criticando as autoridades públicas dos Distrito Federal que “não agiram preventivamente.”A publicação alcançou 126.800 visualizações, 3.384 curtidas, 93 comentários e 542 compartilhamentos. De forma simultânea às publicações no Twitter, conteúdos com recorte específico para redes sociais online foram publicados na conta do Fantástico no Instagram no domingo, dia 8 de janeiro de 2023. Das oito postagens realizadas nesta data, quatro são o mesmo conteúdo publicado no Twitter do programa e praticamente no mesmo horário, mas numa ordem diferente. A primeira publicação é o vídeo de 55 segundos9 com as primeiras
informações dos ataques publicado por volta das 16h do domingo, tanto no Instagram quanto no Twitter, no qual Poliana Abrita apresenta o que está acontecendo e chama os usuários para acompanhar a cobertura no Fantástico. O número de interações dos usuários com os conteúdos no Instagram se apresenta maior do que no Twitter. Esse primeiro vídeo obteve 653 mil visualizações. Na segunda publicação, o assunto é o mesmo publicado no Twitter sobre a decreto do presidente Lula de intervenção federal no Distrito Federal, mas em vez de vídeo, a postagem no Instagram é uma foto com machete em cima da imagem e texto na legenda, alcançando 14.696 curtidas e 1215 comentários. A terceira publicação do domingo10 é um conteúdo em vídeo divulgado em conjunto com a Globo News que mostra a depredação do prédio do Supremo Tribunal Federal causada pelos ataques, obtendo 22 mil curtidas e 2544 comentários. Na quarta publicação11, o conteúdo é o mesmo do Twitter com vídeo do repórter Marcos Lozekam mostrando a destruição promovida pelos golpistas na sede do Supremo Tribunal Federal. Esse conteúdo obteve 170 mil visualizações e 1055 comentários. Com a chegada do horário do programa, é inserida no Instagram uma postagem com foto da apresentadora Poliana Abrita no estúdio informando que “o Fantástico está no ar”, sendo a mesma publicada no Twitter. Com o mesmo vídeo publicado no Twitter, a sexta postagem realizada no Instagram é a chamada de abertura do programa com duração de 2 minutos e 56 segundos que alcançou 118 mil visualizações e 1294 comentários. Na sétima publicação, um vídeo recortado do programa se inicia com a chamada da jornalista para mostrar imagens inéditas da invasão e da prisão dos golpistas, alcançando 84.901 visualizações. A oitava e última publicação é o vídeo do encerramento do Fantástico do domingo, 8 de janeiro de 2023, com texto construído como uma espécie de editorial, defendendo uma punição rigorosa para os bolsonaristas invasores e obteve 128 mil visualizações no Instagram do programa. Iniciada nas redes sociais online, notadamente o Twitter e Instagram, a cobertura jornalística dos ataques à sede dos três poderes em Brasília no âmbito do Fantástico ampliou a duração do programa no domingo, 8 de janeiro de 2023 de duas horas para duas horas e quarenta e sete minutos. Do conjunto de reportagens apresentadas
8 – https://twitter.com/showdavida/status/1612214854005448704 9 – https://www.instagram.com/p/CnKoQL8MK-h/ 10 – https://www.instagram.com/p/CnK6v3vqTcc 11 – https://www.instagram.com/p/CnK-1I6LMoe/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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nessa data, apenas três não tratavam dos ataques em Brasília. O percurso do fluxo informacional do programa no sistema multiplataforma da emissora ocorre de forma simultânea na transmissão linear pela televisão e online no Globoplay para acesso através de players na interface do Fantástico. Os conteúdos são disponibilizados também na página do programa no portal G1 após a exibição, organizados por data e por reportagens contidas no programa. O conjunto de funcionalidades online inclui também recursos para as ações interativas dos usuários como comentar e compartilhar os conteúdos em redes sociais online gerando uma expansão espontânea. A cobertura jornalística da invasão e destruição da sede dos três poderes em Brasília se expandiu incorporada por todos os telejornais da TV Globo, a partir da segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2023. No âmbito do Jornal Nacional, principal jornalístico da emissora e telejornal mais visto do país, a integração com o caso foi iniciada ainda no domingo, dia 8, nas contas do programa no Instagram com cinco publicações nessa data. A estratégia usou da apropriação dos conteúdos do Fantástico e da Globonews para se integrar ao caso na plataforma. Desse modo, a primeira publicação do Jornal Nacional no Instagram12 é o vídeo da chamada do Fantástico sobre os ataques, o primeiro conteúdo do domingo transmitido durante a tarde pela emissão linear e publicado nas redes sociais online do programa. Na conta do JN, esse conteúdo obteve 301 mil visualizações. A segunda publicação no Instagram13 também foi um vídeo do Fantástico, o segundo divulgado durante a programação do domingo, com 2 minutos e 56 segundos, apresentando mais detalhes dos ataques em Brasília com a apresentadora Poliana Abrita chamando a repórter Isabela Camargo direto de Brasília. A publicação obteve 128 mil visualizações na conta do Jornal Nacional cuja tática de republicar conteúdos das contas do Fantástico se repetiu nas publicações seguintes. O terceiro conteúdo14 é uma repostagem da publicação do Fantástico sobre o decreto de intervenção federal no Distrito Federal realizado pelo
presidente Lula e o quarto republica o vídeo com o repórter Marcos Lozekam mostrando a destruição causada pelos ataques na sede do Supremo Tribunal Federal. Esse conteúdo obteve 101 mil visualizações e 4.563 curtidas. A estratégia de publicações sobre o caso no Instagram do Jornal Nacional durante o domingo, dia 8, se encerra com a repostagem do conteúdo da Globonews15 sobre o afastamento do governador do Distrito Federal alcançando 8.328 curtidas e 766 comentários. Essa dinâmica muda a partir da segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2023, um dia após os ataques. No Twitter, a entrega de conteúdos aconteceu através de oito publicações com três delas sobre a invasão da sede dos três poderes em Brasília, uma outra já corriqueira feita diariamente com a fotos dos apresentadores e o texto “O #JN está no ar” e outras quatro sobre a estreia do novo formato e cenário da previsão do tempo. Na primeira postagem no Twitter16 sobre os ataques, às 16h27m, a apresentadora Renata Vasconcelos aborda o dia seguinte aos atentados terroristas e informações do Ministro da Justiça Flávio Dino. A segunda publicação17 sobre o assunto é realiza já durante a noite, às 19h e 31m, com vídeo de 42 segundos com a jornalista destacando as reações aos atentados e convocando os usuários para conferir a cobertura no Jornal Nacional. Por fim, às 20h e 35m da segunda, dia 9 de janeiro, foi publicado um vídeo com um minuto e dezesseis segundos18 apresentando a escalada de abertura do telejornal com destaque somente para os ataques à sede dos três poderes em Brasília. No Instagram, a dinâmica de publicações na segunda-feira, dia 9, é composta por seis conteúdos a começar pela repostagem de publicação da equipe do Jornal Hoje19 na mesma plataforma com foto e manchete sobre a detenção de mais de 1200 golpistas na sede da superintendência da Política Federal no Distrito Federal. O conteúdo obteve 5.790 curtidas e 465 comentários. Após essa postagem, a entrega de conteúdos foi realizada a partir da noite do dia 9 com a segunda publicação sendo um conteúdo publicado todos os dias com a foto dos apresentadores e o texto
12 – https://www.instagram.com/p/CnKqEBJuSom/ 13 – https://www.instagram.com/p/CnKtSB7rwX2/ 14 – https://www.instagram.com/p/CnLHdO0M2Sj/ 15 – https://www.instagram.com/p/CnLhZDUNwHQ/ 16 – https://twitter.com/jornalnacional/status/1612531595344510978 17 – https://twitter.com/jornalnacional/status/1612577918722383874 18 – https://twitter.com/jornalnacional/status/1612594027890675715 19 – https://www.instagram.com/p/CnMp1-FOqcO/ 38
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“O #JN está no ar.” Os ataques voltam a ser destaque na terceira publicação com vídeo contendo a chamada de abertura do telejornal20 toda centrada nas invasões em Brasília e legenda: “O #JornalNacional está começando.” Esse conteúdo alcançou 261 visualizações, 29.102 curtidas e 1.385 comentários. A quarta publicação21 da segunda, dia 9, no Instagram do Jornal Nacional apresenta um vídeo sobre a conivência da polícia militar com os invasores e texto da legenda sobre a continuidade da atuação dos três poderes após os ataques. A postagem obteve 110 mil visualizações, 6.559 curtidas e 484 comentários. A estratégia com a quinta publicação no Instagram22 do telejornal foi mostrar a destruição causada pelos bolsonaristas e os prejuízos materiais deixados pelos ataques através de um vídeo com apenas um trecho da reportagem sobre o tema exibida no JN. Com esse conteúdo, as interações dos usuários somaram 86 mil visualizações, 4.535 curtidas e 411 comentários. A esse vídeo, seguiu-se a última postagem do dia 9 no Instagram do Jornal Nacional com uma foto dos invasores dentro do plenário da câmara e caixa de texto inserida no canto superior da imagem sobre a identificação dos golpistas facilitada pelas publicações deles nas redes sociais online. O número de interações chegou a 7.376 curtidas e 543 comentários. Essas táticas de entrega de conteúdos ocuparam a zona de interseção entre as redes sociais online e a transmissão linear do Jornal Nacional na segunda-feira, dia 9 de janeiro, cuja cobertura jornalística dos ataques à sede dos três poderes em Brasília ocupou quase que a totalidade do tempo de uma hora de treze minutos da edição do telejornal nessa data. Apenas uma reportagem fora das temáticas dos ataques, a da morte do ex-jogador de futebol Roberto Dinamite, fez parte do programa. O acesso e consumo dos conteúdos do Jornal Nacional ocorre através do sistema midiático que mescla a transmissão tradicional da TV Globo com as plataformas digitais de entrega de conteúdos, centradas em seu portal de notícias G1 e nas interfaces do aplicativo Globoplay de video on demand. No G1, o telejornal se expande na página do programa, formando um banco das edições. No Globoplay pela transmissão simultânea com a televisão e por uma interface exclusiva do JN para acesso a todas as edições, trechos e produções especiais. Ao investir nessas estratégias institucionais, a TV Globo também abriu espaço para
interações do público com os conteúdos do seu principal telejornal com possibilidade para compartilhar e incorporar os conteúdos disponibilizados no Globoplay e comentar e compartilhar as reportagens do portal G1.
Telejornalismo e redes sociais online em tensão na cobertura dos ataques de 8/1 A zona de interseção entre o sistema midiático multiplataforma da TV Globo e as redes sociais online apresenta uma tensão constante entre a emissora e as empresas de tecnologia. Isso se verifica pelas estratégias adotadas de entrega de conteúdos em plataformas como o Instagram e o Twitter caracterizada pela resistência à plataformização dos seus conteúdos jornalísti9cos nessas mídias sociais. Os processos de inserção dos conteúdos, como observado na cobertura dos ataques à sede dos três poderes em Brasília, se estabeleceram de modo a priorizar a publicação de chamadas e trechos da produção jornalística sem publicar o conteúdo completo. Essas táticas demonstram a decisão da TV Globo de coibir que a produção de notícias da empresa seja moldada para acatar a governança e modelo de negócios das plataformas. A adoção desse posicionamento indica a articulação da empresa de privilegiar o próprio sistema midiático de distribuição multiplataforma como infraestrutura central para produção jornalística e geração de receitas de publicidade. Processos de distribuição de notícias nas mídias sociais online pela TV Globo de forma completa atingiria a hegemonia da sua produção jornalística. Do controle editorial e de distribuição pela emissora, os conteúdos jornalísticos estariam no controle da mediação algorítmica que, a partir da operacionalização dos dados, podem assumir a tomada de decisão editorial quanto aos temas a focar e reconfigurar a apresentação dos conteúdos (Van Dijck et al, 2018) em plataformas como Instagram e Twitter. Esse papel dos algoritmos como uma espécie de editor de notícias para estabelecer qual assunto deve ser destacado funciona, conforme Gillespie (2016), através de métricas para identificar e destacar o que é relevante para um usuário especificamente ou identificar determinado conteúdo ou tópicos que geram mais atividade, em um determinado
20 – https://www.instagram.com/p/CnNpH4kAU4E/ 21 – https://www.instagram.com/p/CnNwN1lLEZ3/ 22 – https://www.instagram.com/p/CnN0qeQNxbd/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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momento e entre um determinado grupo de usuários. Esse movimento extrapola os mecanismos da materialidade técnica dos algoritmos e revela o poder de curadoria dos algoritmos de mídia social sobre as notícias porque, como atesta Busher (2018), algoritmos são como dispositivos políticos por realizarem decisões de ordenar e distribuir, além de ter a capacidade de produzir novas realidades. Considerando que os algoritmos do que é tendência calculam a atividade atual de cada postagem, combinando popularidade, novidade e atualidade (Gillespie, 2016) em uma plataforma como o Twitter, nem todas as cinco publicações sobre os ataques em Brasília na conta do Fantástico no domingo, dia 8 de janeiro de 2023, tiveram relevância na dimensão algorítmica da plataforma. A postagem com maior número de interações foi o vídeo de 2 minutos e 56 segundos publicado às 20h e 36m com a abertura do programa abordando exclusivamente a cobertura dos atos terroristas em Brasília. O conteúdo obteve um total de 130 mil interações, sendo 126 mil de visualizações se inserindo na dimensão dos critérios dos algoritmos de tendência como a quantidade de usuários que estão favoritando uma determinada imagem e ainda a valorização da novidade relacionando com eventos reais que estão acontecendo agora (Gillespie, 2016). Essa correspondência não foi o suficiente para alçar a publicação à lista dos assuntos mais comentados na noite do domingo, 8 de janeiro de 2023, no Twitter, mas deve ter alguma relação com o aparecimento do nome Globo no trending da plataforma a partir das 22h da noite desse domingo. No Instagram do Fantástico, verifica-se o maior conjunto de práticas interativas do público em torno da primeira das sete publicações do domingo, dia 8 de janeiro, sobre os ataques à sede dos poderes em Brasília. O vídeo com 55 segundos, publicado durante a tarde, com as primeiras informações da invasão na capital federal obteve 653 mil visualizações, 64.981 curtidas e 6.911 comentários. Essas interações se constituíram como elementos puramente técnicos de implementação da dinâmica de visibilidade do conteúdo num entrelaçamento multidimensional entre algoritmos postos em prática e as táticas dos usuários que fazem face a eles (Gillespie, 2014). Ao mesmo tempo, ao acionar a circulação e visibilidade desse conteúdo, a mediação algorítmica molda e faz emergir a realidade através dessas interações numa espécie de poder de classificação específica do algoritmo (Bucher, 2012). Nesse contexto, a percepção da realidade sobre os ataques em Brasília operada pelos algoritmos privilegia a mediação jornalística da TV Globo baseada no processo de enquadramento do acontecimento caracterizado, conforme 40
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Correia (2011), pela seleção de aspectos da realidade percebida e construindo mensagens relacionadas entre si de modo a promoverem uma interpretação específica. De modo simultâneo, a relevância do interesse público sobre a invasão da sede dos três poderes em Brasília não está alinhada com os mecanismos da mediação algorítmica porque o algoritmo como um editor poderoso e as pessoas que o controlam não operam de acordo com os mesmos princípios e ética profissional da imprensa independente (Bucher, 2018). Outros fatores se somam a essa perspectiva como o fato de os critérios dos algoritmos serem enviesados para favorecer os provedores comercial ou politicamente (Gillespie, 2014) e o poder das plataformas ser amplo a ponto de moderar o discurso e ditar as condições sob as quais as empresas jornalísticas disseminam conteúdo (Diakopoulos, 2019). Assim, o maior número de interações dentre todas as publicações do Jornal Nacional, no Twitter e Instagram, registrado em torno do vídeo com a chamada de abertura do programa sobre os ataques em Brasília não representa a certeza de relevância na dimensão geral no ambiente dessas plataformas. O conteúdo foi publicado na segunda-feira, 9 de janeiro de 2023, no Twitter alcançando 43 mil visualizações, 1.068 curtidas, 27 comentários e 110 compartilhamentos, e no Instagram onde obteve 261 mil visualizações, 29.102 curtidas e 1.385 comentários. Com base nos critérios da mediação algorítmica para circulação e visibilidade de publicações em redes sociais online, a ação dos algoritmos sobre conteúdos jornalísticos anula os processos de ética, seleção e editoração da notícia baseados na política editorial dos veículos de comunicação, no profissionalismo jornalístico e principalmente nos critérios de noticiabilidade. Correia (2011) apresenta doze critérios pelos quais a noticiabilidade é reconhecida, entre eles o caráter inesperado e a significância do acontecimento que terá mais impacto quanto maior for a proximidade cultural com a audiência e ter de ser relevante. São dimensões operadas por atores humanos nas redações que desaparecem no ambiente das redes sociais online. Ao governar o acesso e consumo da informação online a partir de requisitos meramente sociotécnicos, o sistema de algoritmos das mídias sociais desempenham, conforme Diakopoulos (2019), um papel fundamental na forma como as pessoas desenvolvem diversos pontos de vista sobre questões socialmente relevantes, atuando, segundo o autor, não apenas como gatekeepers algorítmicos, mas também servindo para enquadrar questões e definir agendas. Dessa forma, as empresas de jornalismo, de acordo com Van Dijck, Poell e Wall (2018), têm pouco controle sobre o contexto específico no qual revista Fronteiras - estudos midiáticos
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os usuários se deparam com os conteúdos jornalísticos publicados em plataformas, nem podem garantir que recebam uma oferta de notícias justa e abrangente. Essa perda de controle sobre circulação, acesso e consumo das notícias em redes sociais online aponta para as táticas da TV Globo de centralizar os seus processos de produção, distribuição e comercialização do jornalismo em seu próprio sistema midiático multiplaforma. Trata-se da plataformização da emissora implementada e gerenciada pela própria empresa, ao mesmo tempo em que reconhece a onipresença das mídias sociais e estabelece uma dinâmica própria de exploração de modo a não comprometer sua autonomia sobre os conteúdos jornalísticos. Essa resistência pode ser caracterizada pelo posicionamento da emissora de não explorar as funcionalidades das redes sociais online nos processos de inserção de conteúdos no Instagram e no Twitter. Isso se comprova pela ausência de hiperlinks nas publicações a fim de direcionar o usuário ao sistema midiático multiplataforma da emissora para consumo de determinado conteúdo. Das cinco publicações sobre os ataques à sede dos poderes em Brasília no Twitter do Fantástico, nenhuma contém hiperlinks para levar o usuário à plataforma Globoplay ou a página do programa no portal de notícias G1. No Instagram, a inserção de hiperlinks no texto da legenda das publicações não funciona, mas o recurso de informar ao usuário que ele pode acessar mais informações clicando no link contido na biografia da conta é uma estratégia de direcionamento. Do total de sete postagens na conta do Fantástico no Instagram sobre os ataques em Brasília, nenhuma convocava os usuários a acessar mais informações através de hiperlink na plataforma. Para Van Dijck, Poell e Wall (2018), a inserção e circulação de links no ecossistema da plataforma é estratégia de mercantilização para editores ao direcionar o público para o site dos veículos onde são veiculados anúncios, induzindo os usuários a se inscrever para como assinante ou fazer uma doação. No âmbito das publicações do Jornal Nacional sobre os ataques em Brasília no Twitter e no Instagram, apenas uma postagem no Instagram do programa, na segunda-feira, dia 9 de janeiro, adota a inserção de link. O recurso aparece na legenda da postagem em vídeo sobre a inércia da Polícia Militar do Distrito Federal diante dos atos de invasão e destruição da sede dos três poderes. Com a inserção dessa forma, o redirecionamento dos usuários não funciona ao clicar no endereço eletrônico, uma vez que no Instagram links só ficam ativos se inseridos na biografia ou no stories. Ao optar por essa forma de redirecionamento, é preciso informar na legenda da revista Fronteiras - estudos midiáticos
publicação onde está o link para o acesso do usuário. O posicionamento da emissora em explorar de forma acanhada o potencial dessas plataformas se reflete também pela ausência ou pouco uso de hashtags no Twitter. Das cinco publicações sobre os atos golpistas na conta do Fantástico nessa plataforma, nenhuma utiliza hashtags. Já as publicações do Jornal Nacional no Twitter inserem duas hashtags nas publicações derivadas do nome do telejornal: #JN e #JornalNacional. Para Gillespie (2014), quando se usa hashtags busca-se fazer parte de uma conversa na plataforma e se redesenha uma publicação para ser melhor reconhecida e distribuída pelo algoritmo de busca do Twitter. Além da falta de exploração desses recursos e de não entregar seu conteúdo a plataformas, a TV Globo também não conecta o que publica em redes sociais como Instagram e Twitter a anúncios. De todas as publicações sobre os atos golpistas em Brasília nessas mídias sociais, nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023, nenhuma estava associada a algum anúncio da emissora. O que se verifica é o gerenciamento das suas operações comerciais totalmente centrado nas suas próprias plataformas como a Globoplay e o portal G1, além da transmissão linear. Como nas plataformas os anúncios podem ser exibidos em todos os sites que atraem usuários, o custo para atingir os usuários por meio da publicidade caiu constantemente e a relação conteúdo-público-publicidade gera muito menos receita (Van Dijck et al, 2018) do que no próprio sistema da empresa de comunicação. Outro problema é que os anúncios associados a determinados conteúdos jornalísticos podem acabar sendo inviabilizados pela mediação algorítmica porque, de acordo com Diakopoulos (2019), os assuntos considerados sensíveis como aqueles relacionados a questões de saúde ou educação sexual podem deixar de ser priorizados pelo algoritmo. Nesse contexto, como aponta Bucher (2018), a internet acabou gerando uma crise econômica no jornalismo nos últimos anos, uma vez que a maior parte das receitas de publicidade digital vão para as empresas de tecnologia como Google e Facebook. Assim, as estratégias da TV Globo de distribuição de notícias sobre os ataques em Brasília centradas no próprio sistema midiático multiplataforma da emissora e a dinâmica de publicação de conteúdos jornalísticos do Fantástico e do Jornal Nacional no Twitter e Instagram compõem um processo comunicacional em constante tensão com as redes sociais online. Os vínculos estabelecidos entre o produto midiático e as postagens das equipes em conexões com essas plataformas online reconfiguram o modelo de telejornalismo, mas engendram um processo diferenciado em relação ao domínio das plataformas de Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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explorar a produção jornalística da emissora através de recursos de compartilhamento, algoritmos e redes de anúncios. Em vez de uma plataformização dos conteúdos jornalísticos baseada na produção, circulação e monetização de notícias por meio do ecossistema de plataforma, a TV Globo faz parte das empresas de comunicação que comandam a distribuição algorítmica num processo que, conforme Diakopoulos (2019), usa canais digitais próprios como aplicativos e páginas da web, moldando ativamente algoritmos e fluxos de trabalho para a distribuição de notícias de maneiras que reflitam valores editoriais mais tradicionalmente reconhecíveis.
Considerações finais Constituída em meio a uma cultura digital de acesso e consumo de conteúdos em dinâmica multiplataforma já consolidada, a plataformização do (tele)jornalismo apresenta uma constante tensão entre as empresas de comunicação e as plataformas de mídias sociais. Questões relativas a uma disputa entre esses dois polos se estabelecem envolvendo principalmente a geração de receitas publicitárias. O problema consiste na entrega de conteúdos para as plataformas favorecendo a monetização das notícias para as empresas de tecnologia e a perda de controle desses conteúdos para a mediação algorítmica em conexões de mídias sociais online, comprometendo a política editorial e a independência jornalística da indústria de comunicação. Nesse sentido, a combinação dessas forças midiáticas na contemporaneidade implica numa disputa pelo o exercício do controle editorial e econômico com exemplos do rompimento da lógica da
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plataformização de notícias como o da TV Globo. Ao ter a sua hegemonia ameaçada por essa lógica, novos concorrentes e pelo próprio público dotado do potencial de produção de informação nas plataformas, empresas como a TV Globo criaram e investiram em sistemas midiáticos multiplataforma próprios para distribuição de conteúdos jornalísticos e geração de receitas com publicidade. Apesar dessa resistência, a centralidade das mídias sociais online no processo informacional das pessoas, obrigou a indústria do jornalismo a criar mecanismos de participação nesse ecossistema midiático. A dinâmica comunicacional do jornalismo da TV Globo baseada em conexões nas mídias sociais se constitui de modo a não interferir decisivamente no sistema de distribuição de informações jornalísticas dentro do seu próprio sistema midiático. Dentro desse contexto, os processos comunicacionais do Fantástico e do Jornal Nacional no âmbito do Twitter e do Instagram se desenvolvem priorizando conteúdos em sua maioria no formato das chamadas dos telejornais ou trechos de reportagens no sentido de convocar o público a acessar e consumir a informação no sistema midiático multiplataforma da própria TV Globo. Isso é verificado a partir da análise das publicações sobre os ataques à sede dos três poderes em Brasília realizadas nas contas do Fantástico e do Jornal Nacional no Twitter e Instagram nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023. Os resultados apontam para a reflexão sobre como a relação das empresas de comunicação com o ecossistema de plataformas de mídias sociais é demarcada por tensão, crise de autonomia e instabilidade. Ao mesmo tempo, implica perceber como essa relação comunicacional no contexto da cultura digital coexiste com as rotinas e estratégias de distribuição jornalística na atualidade.
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revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):44-58 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.05
Representação da inteligência artificial pela mídia: análise do discurso e do conteúdo de uma cobertura noticiosa em língua inglesa Media representation of artificial intelligence: discourse and content analysis of an english-language news coverage Frederico Reis Pacheco[*] frpacheco@id.uff.br
RESUMO Este estudo examina a representação da inteligência artificial (IA) pela mídia de língua inglesa, concentrando-se em um evento específico: a criação de um dialeto próprio por sistemas de IA do Facebook Inc. em 2017. Usando análise de conteúdo e análise de discurso, este estudo examina artigos jornalísticos para entender como a mídia aborda tópicos técnicos complexos relacionados à IA e se há uma tendência ao sensacionalismo. A hipótese central é que a grande mídia geralmente não faz uma análise aprofundada dos eventos técnicos de IA, optando, em vez disso, por uma cobertura sensacionalista. A análise revelou uma tendência à cobertura sensacionalista de eventos relacionados à IA, frequentemente sem uma análise técnica aprofundada, com prevalência de narrativas especulativas. Esse padrão de cobertura, mais voltado para atrair o público por meio do sensacionalismo, pode influenciar negativamente a compreensão do público sobre a inteligência artificial e suas implicações, destacando a necessidade de uma abordagem mais responsável e informativa por parte dos jornalistas.
ABSTRACT This study examines the representation of artificial intelligence in English-language media, focusing on a specific event: the creation of a unique dialect by Facebook Inc.’s artificial intelligence (AI) systems in 2017. Using content analysis and discourse analysis, this study examines journalistic articles to understand how the media approaches complex technical topics related to AI and whether there is a tendency toward sensationalism. The central hypothesis is that mainstream media often lack in-depth analysis of technical AI events, opting instead for sensationalist coverage. The analysis revealed a tendency to sensationalize AI-related events, often lacking in-depth technical analysis. A prevalence of sensationalist and speculative narratives was identified. This pattern of coverage, more focused on attracting audiences through sensationalism, may negatively influence public understanding of artificial intelligence and its implications, highlighting the need for a more responsible and informative approach by journalists.
Palavras-chave: Cobertura midiática; inteligência artificial; análise do discurso; sensacionalismo na mídia; tecnologia e comunicação.
Keywords: Media coverage; artificial intelligence; discourse analysis; media sensationalism; technology and communication.
[*]
Universidade Federal Fluminense (UFF). Campus do Gragoatá, Bloco J - Niterói/RJ. 44
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Representação da inteligência artificial pela mídia: análise do discurso e do conteúdo de uma cobertura noticiosa em língua inglesa
Introdução
O
rápido avanço da inteligência artificial (IA) nos últimos anos tornou-se um marco transformador na ciência da computação, com impactos diretos e indiretos em diversos campos, como medicina, engenharia e comunicação (Hepp, 2020; Pacheco, 2023) - este último sendo o foco deste trabalho. O objeto deste estudo é a cobertura midiática da criação, em 2017, de um dialeto específico pelos sistemas de IA da holding corporativa Facebook Inc. (atualmente conhecida como Meta Platforms Inc.), que emergiu como um exemplo fascinante das capacidades da pesquisa em IA e atraiu grande interesse midiático. A motivação para este estudo foi compreender como a grande mídia se posiciona em relação a questões de IA e avaliar como ela cobre questões mais técnicas que requerem algum conhecimento do campo. Para isso, conduzimos uma análise de conteúdo (AC) e análise do discurso (AD) dos artigos jornalísticos publicados na época do evento mencionado. O momento deste estudo, alguns anos após o evento, justifica-se pela importância que o tema ganhou após a incorporação de ferramentas como ChatGPT e outras semelhantes na vida cotidiana das pessoas. Em menos de um ano desde seu lançamento aberto, modelos de IA como ChatGPT já estão causando mudanças significativas em vários campos, desde a educação até as artes (Smith, 2022). Portanto, é importante estudar o comportamento da mídia agora que o tema está se tornando onipresente. A hipótese central de pesquisa é que a grande mídia carece da capacidade de conduzir uma boa análise dos fatos técnicos no campo da IA e, devido à pressa de publicar a notícia, bem como à pressão para atrair mais espectadores, acaba por espetacularizar (Debord, 1992) eventos no campo. Para avaliar essa hipótese, escolhemos um evento relevante que atraiu a atenção da mídia antes da febre sobre o tema - proporcionando assim mais tempo para que a mídia consultasse especialistas e aprofundasse o tema abordado. A avaliação foi realizada utilizando AC e AD por meio de uma combinação de ferramentas automatizadas e avaliação humana individual. Este artigo está rigorosamente organizado em seções que visam fornecer uma compreensão abrangente e aprofundada do fenômeno estudado. A jornada começa com a “Metodologia”, onde as abordagens metodológicas e ferramentas analíticas utilizadas são explicadas. Em seguida, o “Referencial Teórico” estabelece o contexto acadêmico e teórico e prepara o terreno para a análise revista Fronteiras - estudos midiáticos
empírica, abrangendo tanto as teorias de comunicação e mídia quanto o conhecimento básico sobre IA para entender o fato coberto pela mídia. O núcleo do artigo, com a “Análise de Caso” e a “Análise da Cobertura Midiática”, oferece um exame detalhado do fenômeno. Finalmente, a seção “Conclusões” resume os principais achados, discute suas implicações teóricas e práticas e destaca oportunidades para pesquisas futuras. Cada seção é projetada para ser autossuficiente em sua explicação e integrada ao argumento geral do artigo, proporcionando uma narrativa coesa e informativa que faz uma contribuição significativa ao campo dos estudos de comunicação e IA.
Metodologia Conforme sugerido por Yin (2009), um evento específico foi escolhido para avaliar a cobertura midiática sobre o mesmo. Esta abordagem permite o estudo de fenômenos contemporâneos em seu contexto real, especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claras. Devido à complexidade e singularidade do caso, este estudo adota uma abordagem qualitativa (Denzin & Lincoln, 2005). Selecionamos um evento de IA anterior ao lançamento do ChatGPT para avaliar o posicionamento da mídia sobre o assunto sem qualquer influência do marketing corporativo ou do senso comum criado pelo uso generalizado que se seguiu ao lançamento da versão gratuita da ferramenta ChatGPT. O discurso jornalístico não é apenas uma representação direta dos eventos, mas também uma construção que é influenciada por vários fatores, como as palavras escolhidas, o tom e a estrutura narrativa. A análise do discurso (AD) e a análise de conteúdo (AC) são ferramentas valiosas para desconstruir esses elementos e compreender como o discurso jornalístico molda a percepção pública de um problema. AD, enraizada em campos como linguística, sociologia e estudos culturais, fornece uma lente para examinar como a linguagem constrói a realidade social (Fairclough, 1995; Van Dijk, 1993). O jornalismo, como uma forma de discurso, informa e molda a opinião pública. A seleção de vocabulário, a apresentação dos fatos, a repetição de palavras e o tom utilizado podem impactar grandemente a compreensão pública de uma questão específica (Entman, 1993) e moldar perspectivas sociais de um domínio específico. Uma abordagem amplamente utilizada é a Análise Crítica do Discurso (ACD), popularizada por Norman Fairclough. ACD examina não apenas o texto, mas também o contexto social e cultural no qual ele está inVol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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serido. Essa abordagem permite uma compreensão mais profunda das estruturas de poder e ideologia que podem influenciar a maneira como uma questão é reportada (Fairclough, 1995). Outra abordagem valiosa é a análise de enquadramento, que se concentra em como eventos são apresentados dentro de um campo de significado particular (Goffman, 1974; Entman, 1993). O método usado neste artigo inclui um exame de palavras-chave, metáforas e outras figuras de linguagem que ajudam a definir como o público percebe o tema em questão. A seção de análise de conteúdo (AC) utilizou métricas quantitativas para contar a frequência de palavras ou frases específicas. No entanto, abordagens qualitativas podem oferecer insights mais profundos sobre significado e contexto (Krippendorff, 2004; Neuendorf, 2016). A combinação de ambas as abordagens permitiu uma análise mais completa. Este estudo segue uma abordagem metodológica rigorosa que considera tanto o texto quanto o contexto. Ele emprega métodos como análise crítica do discurso e análise de enquadramento para desvendar as camadas complexas de significado e intenção embutidas no discurso jornalístico. Os dados foram analisados usando técnicas de análise de conteúdo e interpretados de acordo com os métodos indicados. O referencial teórico estabelece a literatura que serve como base para a análise. As ferramentas são baseadas nas contribuições de estudiosos como Fairclough, Van Dijk e Entman, que sugerem uma combinação de métodos quantitativos e qualitativos para fornecer uma visão abrangente da midiatização do tema da inteligência artificial. A literatura selecionada serve para posicionar nosso estudo no campo dos estudos de comunicação e mediatização, para identificar lacunas e explicar a necessidade deste estudo. O corpus do nosso estudo consistiu em 17 notícias publicadas pela mídia de língua inglesa na época do incidente, a fim de avaliar a midiatização deste caso particular no campo da IA. Os artigos foram coletados digitalmente dos sites dos respectivos meios de comunicação, com base em sua relevância em termos de alcance e indexação, visando representar precisamente os principais meios de comunicação que podem influenciar a opinião pública e a percepção. Esta foi a razão pela qual o número de histórias incluídas foi de 17 (ponto de corte a partir do qual a indexação e a distribuição caíam consideravelmente). Para garantir esta representatividade, selecionamos apenas meios de comunicação com amplo alcance, excluindo artigos acadêmicos, comentários de especialistas independentes, histórias com acesso restrito 46
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(não público) e quaisquer erratas ou republicações. A escolha deste corpus como objeto do nosso trabalho, tendo a língua inglesa como filtro, se deu em função de seu maior alcance e relevância, além de direcionar nossa análise para as matérias originalmente produzidas, e não suas traduções ou adaptações para outros idiomas como o português. Para manter este cuidado, limitamos o período de tempo às publicações entre junho e setembro de 2017. E também excluímos quaisquer conteúdos republicados de outros veículos ou de agências de notícias. Dentro de nossa amostra, 47% das histórias originaram-se de veículos dos EUA, enquanto 35% vieram de veículos do Reino Unido. Nosso corpus analisado compreendeu tanto meios de comunicação horizontais, como BBC News e Forbes, quanto meios de comunicação verticais, como Wired e Yahoo! Finance, que são especializados em tópicos específicos. Ferramentas de software como Voyant, Power BI e um pacote AD em Python foram usados para realizar a análise de dados quantitativa das notícias em inglês selecionadas sobre o evento. Além disso, uma análise de conteúdo qualitativa foi manualmente conduzida com o apoio do software Atlas.ti, agrupando e classificando as matérias a partir de seu título e de seu conteúdo, seguindo o método proposto por Krippendorff (2004). A análise foi guiada pelas teorias de comunicação identificadas neste artigo. O pesquisador analisou os títulos e o conteúdo das histórias, considerando as teorias mencionadas. Para garantir a validade e a confiabilidade do estudo, foi adotada a triangulação de dados usando múltiplas fontes de evidência, verificadas tanto por software quanto por humanos. Adicionalmente, um protocolo de análise de discurso midiático foi seguido para possibilitar a replicação e verificação do estudo (Yin, 2009). Todos os dados utilizados são públicos e sem qualquer informação pessoal, baseando-se apenas em dados secundários - artigos publicados em mídia de acesso aberto - garantindo, assim, a conformidade com todas as diretrizes éticas sugeridas por Guillemin e Gillam (2004) e dispensando submissão ao comitê de ética em pesquisa.
Referencial teórico A cobertura midiática tem consequências sociais ao definir o entendimento comum dos fatos relatados e ao influenciar as opiniões sobre um tema, quando há um alinhamento entre os veículos de mídia. A partir deste caso real escolhido, é possível observar como a grande mídia se posiciona sobre temas técnicos de revista Fronteiras - estudos midiáticos
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IA, para melhor compreender coberturas de eventos futuros, como a introdução de modelos gerativos como ChatGPT, o uso de ferramentas de IA por governos e corporações, e como as pessoas reagirão a partir de tal posição da mídia. O primeiro passo foi buscar autores que pudessem nos ajudar a formar um sólido referencial teórico a partir do qual fosse possível avaliar corretamente o corpus de material jornalístico coletado. Teorias como a do agendamento ou agenda setting (McCombs & Shaw, 1972) e midiatização (Hjarvard, 2008; Hepp, 2013) são cruciais para entendermos o que aconteceu na situação que estamos analisando. Essas teorias clássicas podem fornecer a estrutura necessária para compreendermos a escolha de palavras, o desenvolvimento das manchetes etc. Também precisamos considerar como essas narrativas jornalísticas, baseadas na confiança estabelecida com os leitores e sua imagem de credibilidade na apresentação de fatos, podem ter um impacto significativo nas atitudes, crenças e comportamentos dos indivíduos, afetando a construção de narrativas e sua circulação (Braga, 2017). No caso da teoria do agendamento, o foco é em como a mídia estabelece sua “agenda” pública, destacando certos problemas em detrimento de outros. Isso não apenas direciona a atenção do público para certas questões, mas também influencia a importância que as pessoas atribuem a elas. No contexto da análise de notícias, entender agendas nos ajuda a desvendar os efeitos da frequência e proeminência com que certas questões ou certas perspectivas são apresentadas. A teoria da midiatização vai além, examinando como a mídia não apenas define a agenda, mas também estrutura as próprias instituições sociais e práticas culturais. A midiatização sugere que a mídia se tornou tão pervasiva que suas lógicas e imperativos passam a ser incorporados nas estruturas sociais, políticas e até individuais, definindo adequações nestes para favorecer a visibilidade na mídia. Em relação ao jornalismo, isso significa que não apenas os temas, mas também as formas e os métodos jornalísticos têm um impacto substancial na forma como a realidade é construída e compreendida. Neste cenário, as notícias não são apenas transmissores de informações. Elas são atores ativos no campo social, contribuindo para a formação de opiniões e atitudes, muitas vezes reforçando estruturas de poder existentes ou, em alguns casos, desafiando-as. A confiança estabelecida entre a mídia e seu público reforça esse poder, tornando uma análise crítica e contextualizada de como o jornalismo funciona em diferentes cenários crucial. revista Fronteiras - estudos midiáticos
Portanto, para uma compreensão holística de qualquer situação analisada, é imperativo que essas teorias sejam aplicadas juntas, permitindo uma visão mais matizada das múltiplas forças em jogo. Por meio dessa lente teórica, podemos descobrir não apenas o que é dito, mas também o que é deixado de fora e como essas escolhas editoriais afetam a construção social da realidade.
Teorias da comunicação Entender o jornalismo como um mecanismo de comunicação é fundamental para qualquer estudo sobre como as notícias são construídas e como influenciam a percepção pública. Diversas teorias de comunicação fornecem quadros analíticos para esse entendimento. Esta seção examina algumas das teorias mais influentes que têm aplicações diretas no campo do jornalismo, particularmente a teoria de agenda setting e a teoria do gatekeeping, fornecendo assim um contexto teórico para a análise do discurso jornalístico. A teoria do agendamento, desenvolvida inicialmente por Maxwell McCombs e Donald Shaw nos anos 1970, postula que a mídia não apenas diz às pessoas o que pensar, mas também sobre o que pensar (McCombs & Shaw, 1972). Em outras palavras, a mídia define a agenda pública, enfatizando certas questões em detrimento de outras. No contexto do jornalismo, essa teoria ajuda a entender como certas questões são priorizadas e como esse foco pode moldar a percepção pública e a discussão política. A teoria do gatekeeping, popularizada por Kurt Lewin e posteriormente expandida por outros, como David Manning White, foca no processo pelo qual as informações são selecionadas para publicação (Lewin, 1947; White, 1950). Os gatekeepers, muitas vezes editores ou produtores, decidem quais informações passam pelos “portões dos jornais” para alcançar o público. Esta teoria é crucial para entender o papel da mídia na formação da opinião pública, bem como as forças políticas e econômicas que podem influenciar essas decisões. Além disso, a “Espiral do Silêncio” de Elisabeth Noelle-Neumann contribui para o entendimento do impacto do jornalismo através de suas decisões editoriais. A Espiral do Silêncio examina como opiniões que são percebidas como minoritárias são frequentemente silenciadas na mídia (Noelle-Neumann, 1974). O jornalismo não é uma entidade isolada, mas um sistema de comunicação complexo que é moldado e influenciado por várias teorias e práticas. Entender esse sistema complexo é fundamental para qualquer análise crítica do jornalismo Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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e é o que nos fornece um contexto teórico robusto para analisar o discurso em notícias neste trabalho.
Inteligência Artificial (IA) Para garantir um melhor entendimento das capacidades e limitações da IA, é importante traçar uma genealogia simplificada de sua pesquisa. É crucial evitar o “hype de marketing” e os “achismos” que atualmente dominam as conversas sobre o assunto. A IA é um conjunto complexo e diversificado de modelos estatísticos e tecnologias de dados que simulam funções cognitivas humanas, como aprendizado e resolução de problemas, por meio de algoritmos e modelos de computador. Esta tecnologia está revolucionando várias indústrias, incluindo a comunicação. Ela possui uma ampla gama de aplicações, desde a disseminação de informações até o direcionamento de publicidade (Matz et al., 2017). O campo da IA não é novo. A pesquisa em IA tem raízes que remontam aos anos 1940, com os primeiros artigos teóricos delineando seus conceitos iniciais. Em 1955, o termo “inteligência artificial” foi oficialmente cunhado por John McCarthy, um professor de matemática do Dartmouth College. A trajetória do campo não foi linear, oscilando entre períodos de financiamento intenso e interesse a períodos de ceticismo e investimento reduzido (Russell & Norvig, 2016). Em 1997, o supercomputador Deep Blue da IBM derrotou Garry Kasparov, o campeão mundial de xadrez, marcando um marco significativo no poder da IA para tarefas altamente específicas e matemáticas (Campbell et al., 2002). Após esse período, a IA mudou seu foco de habilidades computacionais quantitativas para tarefas mais qualitativas, tentando simular o processo de raciocínio humano. As máquinas não são mais programadas com regras e sequências específicas. Em vez disso, são treinadas com grandes quantidades de dados, permitindo que os algoritmos aprendam a melhor maneira de executar tarefas específicas autonomamente. A IA pode ser entendida como um ecossistema tecnológico complexo que permite que sistemas de computador realizem tarefas além da simples computação lógica. Isso inclui visão computacional, processamento de linguagem natural, análise de dados e aprendizado de máquina (James et al., 2013). O Aprendizado de Máquina ou Machine Learning é atualmente uma das técnicas mais proeminentes usadas para esse tipo de treinamento. Ele pode ser dividido em várias técnicas especializadas, como redes neurais, aprendizado profundo (LeCun et al., 48
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2017), aprendizado supervisionado e não supervisionado, e aprendizado por reforço (James et al., 2013). Cada uma dessas técnicas possui suas próprias aplicações e vantagens, e é possível combinar algumas delas dependendo do problema específico a ser abordado. Para ilustrar uma forma simples de aprendizado de máquina, considere o exemplo de uma IA treinada para identificar imagens de bicicletas. A estância de IA é alimentada com milhares de imagens de bicicletas e imagens de outras coisas corretamente classificadas e, através do feedback no aprendizado supervisionado (Fig. 1), desenvolve seu próprio conjunto de regras ou ‘sua própria lógica’ para identificar o que é e o que não é uma bicicleta em qualquer imagem futura não-classificada. Este método também é aplicável a domínios mais complexos, como a análise de textos legais ou científicos. A única ressalva é que esse aprendizado resulta em um algoritmo autônomo, e não há regras explícitas que possam ser compreendidas por humanos e/ou verificadas quanto à sua conformidade. Em 2017, o programa Libratus de inteligência artificial da Carnegie Mellon alcançou outro marco significativo ao vencer um torneio mundial de pôquer contra jogadores humanos profissionais (Brown & Sandholm, 2017). Este feito é particularmente notável porque o pôquer não é inerentemente linear ou matemático, já que envolve fatores tipicamente humanos como o blefe. O algoritmo precisou entender o comportamento de seus oponentes para adaptar seu jogo e antecipar a possibilidade de cada um deles estar blefando ou não. O triunfo do computador no torneio demonstrou sua capacidade de trabalhar com informações incompletas, tomar decisões sem conhecimento das cartas dos outros e até aprender o momento certo de ele mesmo blefar, tendo mais chances de enganar os competidores. O avanço rápido do campo recentemente pode ser parcialmente atribuído ao avanço nas pesquisas sobre Big Data e Processamento em Nuvem (McAfee et al., 2012). Agora é possível acumular e processar grandes quantidades de dados para treinar algoritmos e prever cenários para tomada de decisões em tempo real. A equipe FAIR da holding Facebook Inc. conduziu um experimento usando técnicas de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLM) e uma vasta base de dados de negociações reais entre pessoas para treinar um modelo de Transformer Generativo Pré-treinado (GPT). O modelo simula diálogos realistas usando linguagem comum em inglês, emulando técnicas de negociação humanas (Vaswani et al., 2017). Em contraste com os modelos anteriores de aprendizado supervisionado (ver fig. 1), a pesquisa da FAIR aplicou técnicas de Aprendizado por Reforço, no qual a IA aprende a partir de um grande revista Fronteiras - estudos midiáticos
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Figura 1. Modelo Conceitual de Aprendizado de Máquina Supervisionado. Figure 1. Conceptual Model of Supervised Machine Learning. Fonte: Pacheco, 2023, p. 123 Source: Pacheco, 2023, p. 123
banco de dados de exemplos reais não classificados – sem rótulos, sem supervisão e sem feedbacks humanos.
Midiatização da sociedade A midiatização pode ser entendida como um processo que envolve a incorporação da mídia em todas as esferas da sociedade, resultando na mídia se tornando um componente fundamental do funcionamento da sociedade e das relações sociais (Hjarvard, 2008, 2014). Este fenômeno tem um impacto significativo em várias formas de comunicação, incluindo a informação urbana, a arte urbana, a expressão urbana e o entretenimento, que, por sua vez, moldam a formação de identidades, valores e opiniões (Braga, 2006). Além disso, o processo de midiatização desempenha um papel crucial na forma como políticos, artistas urbanos e figuras públicas se expressam, pois buscam maior visibilidade na mídia, levando-os a criar discursos e formas de arte que seguem a lógica da mídia1 e favorecem a sua distribuição midiática. Em um segundo momento – com a intensificação dos canais digitais e a incorporação de algoritmos na distribuição de notícias – nos vemos diante de um cenário de “midiatização profunda” que permeia e remodela todas as
esferas da vida social, política e até pessoal (Couldry & Hepp, 2017). No jornalismo, isso significa que as notícias não são apenas um relato de eventos, mas participam ativamente na construção da realidade social e política, de forma rápida e onipresente, através de dispositivos digitais móveis. A midiatização profunda também sugere que a lógica da mídia se infiltra em outras instituições, influenciando, por exemplo, como os políticos falam e mesmo o que é considerado “notícia” (Hepp et al., 2018). Paralelamente, a “plataformização” refere-se ao crescente domínio das plataformas tecnológicas, como redes sociais e motores de busca, na disseminação de notícias e informações (Nieborg & Poell, 2018). Isso está mudando fundamentalmente o ecossistema de notícias, já que os algoritmos dessas plataformas agora desempenham o papel de gatekeepers, influenciando o que é visto e compartilhado. Este fenômeno levanta questões éticas e democráticas à medida que essas empresas privadas ganham poder desproporcional sobre o fluxo de informações (Napoli, 2015). Neste contexto de midiatização profunda e plataformização, fenômenos como o clickbait e as fake news emergem como estratégias para ganhar atenção em uma economia de atenção saturada. Fake news são histórias
1 – Segundo Hjarvard (2008, p. 113), o termo ‘lógica da mídia’ refere-se ao modus operandi institucional e tecnológico da mídia, incluindo as maneiras pelas quais distribui recursos materiais e simbólicos, operando por meio de regras formais e informais. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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fabricadas que se passam por jornalismo legítimo com o objetivo de enganar o público (Allcott & Gentzkow, 2017), em contraste com o clickbait que se refere ao uso de manchetes sensacionalistas ou enganosas para atrair cliques (Blom & Hansen, 2015), mesmo que o conteúdo interno da matéria seja preciso, ou então quando a matéria não está relacionada ao apelo espetacularizado pela chamada (Debord, 1992). Ambos os fenômenos são impulsionados pela busca de audiência e monetização através da publicidade, tendo implicações sérias para a qualidade do discurso público e da democracia, embora em escalas diferentes.
Análise de caso: contextualizando o que aconteceu O objeto deste estudo é a cobertura midiática de um fenômeno intrigante que ocorreu em 2017, durante uma fase do experimento conduzido pela equipe conhecida como Facebook AI Research (FAIR) para aprender a melhor maneira de treinar IA para negociações entre humanos e sistemas automatizados. Inicialmente, duas instâncias de IA – nomeadas Alice e Bob pelos pesquisadores – foram treinadas usando modelos de Processamento de Linguagem Natural (NLP) em inglês moderno. A primeira fase envolveu o treinamento em um grande conjunto de dados (dataset) de negociações naturais entre duas pessoas2 para capacitar Alice e Bob a imitar o comportamento humano durante as negociações (Lewis et al., 2017). A publicação oficial dos pesquisadores (Lewis et al., 2017) delineia a abordagem metodológica. O objetivo era avaliar o uso potencial do método de aprendizagem de ponta a ponta, que treina agentes de IA para tarefas específicas sem intervenção humana. Ao contrário do aprendizado supervisionado (ver Fig. 1), este modelo não requer classificação ou rotulagem inicial por qualquer humano. As inteligências receberam transcrições de negociações, incluindo seus resultados, e aprenderam com esses dados. Após o treinamento inicial, iniciou-se uma fase de reforço, na qual Alice e Bob negociaram um com o outro, cada um tentando maximizar seu ganho individual. Eles estavam aprimorando seu aprendizado para, posteriormente, serem testados em negociações com seres humanos reais. O uso de chatbots programados para simular conversas humanas neste experimento de IA tornou-se um tema de intenso interesse público e debate acadêmico, com cobertura
midiática significativa. Embora tenha sido amplamente noticiado na mídia que as máquinas foram desligadas devido ao “perigo” associado à nova linguagem, o experimento foi na verdade interrompido porque não era mais viável observar técnicas de negociação quando as IAs usavam sua própria linguagem. O experimento foi posteriormente retomado com uma nova regra que exigia que as instâncias de IA usassem inglês padrão com construção gramatical completa como sua forma única de comunicação. Durante o experimento descrito em Lewis et al. (2017), técnicas de reforço que dependiam de recompensas foram usadas para aprimorar as habilidades de tomada de decisão de Alice e Bob. As instâncias de IA interagiram exclusivamente uma com a outra por meio de uma interface de chat, sem quaisquer fontes externas de informação. Essa abordagem permitiu que eles refinassem a eficácia de suas técnicas com base nos resultados reais das negociações. Este caso ganhou notoriedade quando os engenheiros descobriram que Alice e Bob haviam desenvolvido seu próprio dialeto durante a fase de reforço. Embora o dialeto fosse baseado no inglês, inicialmente era incompreensível para os humanos. Isso dificultou a capacidade dos pesquisadores de avaliar o processo e tornou-o inútil para negociação com humanos, que era o objetivo final do experimento. Seguindo os protocolos de pesquisa, a fase de teste foi interrompida e os resultados foram invalidados. Os pesquisadores concluíram que o estudo deveria ser reiniciado, treinando novamente as instâncias de IA, com a adição de regras impondo o uso da estrutura do inglês americano natural para sua comunicação. Para entender o evento destacado pela mídia, é crucial realizar uma análise abrangente considerando o treinamento de modelos de IA e os protocolos de pesquisa aplicados. O processo de aprendizado por reforço envolve a busca constante de maneiras de otimizar o modelo. Isso pode incluir maximizar a pontuação de recompensa, reduzir o tempo necessário à negociação ou reduzir o consumo de energia dispendido, com o objetivo final de alcançar maior eficácia e eficiência. Durante a segunda fase do experimento, as entidades de IA estavam aprendendo como aumentar a produtividade e receber mais recompensas com base nos resultados. Elas tinham a capacidade, por exemplo, de decidir se continuavam com uma negociação ou a abandonavam prematuramente para já iniciar outra negociação com maior chance de sucesso, para assim acumular mais pontos em um mesmo intervalo de tempo. Alice e Bob então perceberam que simplificar sua estrutura de comunicação poderia eco-
2 – Foi utilizado sempre o mesmo formato de negociação de múltiplos itens (DeVault et al. in Lewis et al., 2017), em que dois agentes recebem a mesma coleção de itens - que possuem valores distintos para cada agente - e são instruídos a dividi-los. 50
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Figura 2. Transcrição da comunicação entre instâncias de IA. Figure 2. Transcript of communication between the AI instances. Fonte: Lewis et al., 2017, dataset de reforço. Source: Lewis et al., 2017, reinforcement dataset.
nomizar tempo, permitindo-lhes concluir mais negócios – e acumular mais pontos – no mesmo período de tempo. As modificações linguísticas melhoraram a eficiência operacional, aceleraram a comunicação e reduziram o consumo de recursos para processamento de linguagem. Alice e Bob determinaram que simplificar o idioma inglês durante as negociações aumentaria a sua eficácia. Esse fenômeno pode ser facilmente compreendido a partir de uma perspectiva computacional, com base nessas premissas de aprendizado de máquina.
Análise da cobertura midiática Duas abordagens foram adotadas para avaliar como a mídia reportou este incidente específico: primeiro, a cobertura midiática foi examinada através das lentes das teorias de midiatização e comunicação; segundo, foi realizada uma análise de conteúdo e análise do discurso nos artigos de notícias. O objetivo era identificar a perspectiva da mídia sobre o assunto da inovação na pesquisa de IA, observando a posição tomada, a escolha de palavras, o nível de cobertura e o tom de voz empregado. Apresentamos a
seguir os resultados mais pertinentes destas análises. O corpus analisado consistia em 10.545 palavras e 64.369 caracteres, incluindo artigos e manchetes. Essas palavras foram distribuídas por 313 parágrafos em 17 artigos de grandes meios de comunicação. A densidade vocabular3 total foi de 0,355 e a diversidade lexical4 foi de 4,93. As matérias tiveram um comprimento médio de sentença de 17,8 palavras e uma média de 34 sentenças cada. Devido à complexidade do assunto, os artigos receberam pontuações baixas nos testes de Facilidade de Leitura Flesch (52,29) e Nível de Leitura Flesch-Kincaid (10,7), indicando que podem ser difíceis para leitores com uma educação abaixo da equivalência ao penúltimo ano do ensino médio brasileiro (11º ano no sistema educacional norte-americano).
Cronologia da cobertura midiática Em 14 de junho de 2017, a equipe FAIR que conduzia o experimento publicou publicamente um paper detalhando sua pesquisa e, no dia seguinte, o veículo de mídia The Atlantic foi
3 – Essa métrica indica a proporção de palavras únicas em relação ao número total de palavras, sugerindo uma variedade moderada de vocabulário usado nos artigos avaliados. 4 – Essa métrica indica a relação de palavras diferentes para um mesmo significado, refletindo a variedade de vocabulário usado no texto (um valor mais alto indica um uso mais diversificado do vocabulário). revista Fronteiras - estudos midiáticos
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o primeiro a noticiar sobre o experimento. No entanto, é notável que o assunto experimentou um aumento de popularidade apenas seis semanas depois, atraindo mais atenção de uma audiência mais ampla e provocando uma cobertura adicional pela mídia. De fato, mais da metade (53%) dos artigos mais significativos coletados em nosso trabalho foram publicados pela primeira vez em 31 de julho ou 1º de agosto de 2017. Isso já sugere que a mídia pode ter tido uma motivação oportunista, potencialmente levando a uma tendência de publicar conteúdo de forma rápida e superficial para atrair cliques. A decisão de encerrar o experimento foi devido à falta de interesse dos pesquisadores no caminho que Bob e Alice estavam desenvolvendo, e não por quaisquer riscos percebidos. Portanto, com uma breve consulta a fontes conhecedoras sobre IA ou sobre pesquisa aplicada, os veículos poderiam cobrir o assunto de forma precisa e objetiva, sem sensacionalismo. No entanto, parece que muitos jornalistas e editores priorizaram a geração de histórias que capitalizassem o hype e conquistassem mais cliques, em vez de manter a objetividade. Isso é corroborado por uma análise
das publicações originais ao longo do tempo (ver fig. 3). A Figura 3 ilustra que os primeiros artigos de notícias foram publicados logo após o lançamento do relatório e estavam mais focados em reportar as notícias. Mais de um mês após o evento, as primeiras notícias com manchetes sensacionalistas atraíram um público maior, motivando outros editores a seguir o mesmo caminho imediatamente. Grande parte do conteúdo de notícias sensacionalistas e especulativas foi publicada em 31 de julho e 1º de agosto. Predominantemente, utilizaram-se de sensacionalismo para atrair um público maior, mesmo que isso pudesse desinformar os leitores. O conteúdo analisado confirma essa percepção, como mostrado nas seções seguintes.
Análise de conteúdo discursivo As principais notícias variaram em termos de objetividade, ângulos cobertos e profundidade da cobertura. O artigo de notícias mais longo compreendia 1.715 palavras, enquanto o mais curto compreendia 238 palavras. “Pesqui-
Figura 3. Tipo de artigos de notícias na amostra por data de publicação original. Figure 3. Type of news articles in the sample by date of original publication. Fonte: elaborado pelo autor. Source: prepared by the author.
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sadores”, “robôs”, “IA”, “Facebook” e “linguagem” foram as palavras mais frequentemente empregadas nessas notícias. “IA” foi encontrada em 165 instâncias, “Facebook” em 126 instâncias, “linguagem” em 120 instâncias, “bots” em 102 instâncias e “pesquisadores” em 65 instâncias. Quantos aos temas centrais das matérias, é possível destacar: desenvolvimento de linguagem autônoma por IA; autonomia tecnológica; processo de treino e adaptação; comunicação entre IAs. As estratégias discursivas mais recorrentes que foram aplicadas pelos jornalistas foram: personificação da IA; enquadramento narrativo quase ficcional; especulação sobre desdobramentos negativos. Em menor quantidade, encontramos ainda temas como: a cobertura do evento por outros veículos; implicações da autonomia da IA; aspectos técnicos do treinamento de máquinas. O como estratégias discursivas menos frequentes: uso de linguagem técnica e especializada; comparação com comportamentos humanos; contraste de perspectivas. Como se pode observar há um certo contraste entre este grupo menor e aquele grupo mais frequente.
A análise realizada sugere que os artigos abordam o desenvolvimento da IA de uma maneira que oscila entre o fascínio tecnológico e a preocupação ética. Há uma forte ênfase na linguagem e comunicação autônoma da IA, com diferentes interpretações sobre o significado e as implicações desse fenômeno.As estratégias discursivas variam de técnicas a narrativas envolventes, alternando entre uma precisão científica e uma acessibilidade para leitores leigos. Ideologicamente, os textos refletem uma gama de posturas, desde a frequente preocupação com o controle e a ética da IA até uma visão mais otimista e menos frequente sobre as potencialidades futuras dessa tecnologia – esta última presente em apenas um terço das matérias analisadas. Indo além do texto, pôde-se observar a utilização de diversos recursos adicionais para ampliar a dramaticidade narrativa e atrair mais a atenção dos leitores, visando o compartilhamento das matérias. A notícia publicada pelo The Standard (2017), por exemplo, incluía a imagem de uma cena do filme Exterminador do Futuro, enquadrando um robô assassino do futuro que era alimentado por IA. Estes recursos adicionais parecem ter a
Figura 4. Distribuição das palavras mais frequentes nos artigos de notícias. Figure 4. Distribution of the most frequent words in news articles. Fonte: elaborado pelo autor. Source: prepared by the author.
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Figura 5. Nuvem de palavras das 255 palavras mais usadas nos artigos de notícias. Figure 5. Word cloud of the 255 most used words in news articles. Fonte: elaborado pelo autor. Source: prepared by the author.
intenção de aumentar a dramaticidade narrativa além dos elementos textuais. No entanto, elas influenciam significativamente a forma como os leitores assimilam as narrativas e, portanto, como o conhecimento social sobre IA é construído.
Análise das manchetes Ainda mais expressiva é a análise apenas dos títulos das matérias: foram 169 palavras, 956 caracteres e uma densidade vocabular bastante alta de 0,556 – o que mostra que os diferentes veículos utilizaram predominantemente as mesmas palavras para suas manchetes – com uma média de 10 palavras por título. Pelos índices de leitura e
complexidade, os títulos se mostraram mais acessíveis ao entendimento pelas pessoas comuns (21,5% mais acessíveis ao público geral, de acordo com o Flesch-Kincaid Grade Level) do que os textos completos das notícias. Chama a atenção a grande frequência do termo “shut down” nos títulos, o que dá um peso adicional à notícia como sendo algo imprevisto, de repente, urgente. Também merece destaque a presença de termos não-usuais e exageradamente fortes como “creepy”, “kill”, “take over”, “pulls plug” e “put cork”, que tendem ao sensacionalismo – nos levando a crer que estas palavras foram intencionalmente escolhidas como estratégia de clickbait5 que apelam a gatilhos mentais, como o medo de perder
5 – Tipo de conteúdo digital criado com o objetivo de gerar receita publicitária através de mais visualizações, frequentemente comprometendo a qualidade e a precisão da informação. Nesta estratégia, é normal os veículos utilizarem títulos sensacionalistas e imagens visualmente impactantes para maximizar o número de cliques na matéria e fomentar o compartilhamento desta em grupos e redes sociais. 54
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Figura 6. Nuvem de palavras para os termos utilizados nas manchetes. Figure 6. Word cloud for the terms used in the headlines. Fonte: elaborado pelo autor. Source: prepared by the author.
e o senso de urgência (Blom & Hansen, 2015). Essa hipótese é corroborada por uma investigação mais detalhada, que mostrou que mesmo histórias com conteúdo equilibrado ou correto tendiam a usar títulos mais sensacionalistas para atuar como clickbait. Isso ocorreu em 36% da amostra, como no caso da história da BBC News (2017) publicada em 1º de agosto, que possui conteúdo muito bem analisado e comentado – discutindo tanto o caso quanto sua própria midiatização – porém, também apelou para um título chocante que se inicia por “The ‘creepy Facebook AI’ story”. É digno de nota que os títulos desempenham um papel crucial, já que muitos leitores apenas os leem sem examinar o texto (Boczkowski & Papacharissi, 2018). Além disso, a complexidade técnica do artigo completo pode confundir os não especialistas, levando-os a depender inteiramente do título para entender a ideia principal. revista Fronteiras - estudos midiáticos
Tabela 1. Contagem de títulos por tipo. Table 1. Count of titles by type. Fonte: elaborado pelo autor. Source: prepared by the author.
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Conclusões A análise dos dados e a observação dos padrões de cobertura da grande mídia do evento selecionado confirmam a hipótese central deste estudo: há uma tendência significativa por parte da grande mídia de espetacularizar eventos relacionados à inteligência artificial (IA) e também de simplificar ou distorcer informações técnicas em prol de um apelo mais sensacionalista e uma busca intensa por cliques e audiência. Este comportamento da mídia, longe de ser isolado, reflete uma tendência mais ampla na cobertura de temas tecnológicos e inovadores, onde a profundidade e a precisão técnica são frequentemente sacrificadas em prol do impacto imediato, velocidade de publicação e acessibilidade para leitores leigos. Os resultados deste estudo sugerem que a cobertura da mídia sobre IA tende a enfatizar aspectos dramáticos ou controversos, em detrimento de uma análise mais equilibrada e informada. Essa ênfase em aspectos dramáticos pode influenciar significativamente a formação da opinião pública, especialmente num momento em que a IA está se tornando cada vez mais relevante em diversas esferas da vida cotidiana. A representação sensacionalista da IA pela mídia pode criar uma percepção negativa, medo e desconfiança desta tecnologia, ignorando suas potenciais contribuições positivas para a sociedade. Este é um momento particularmente crítico para definição da opinião pública sobre a IA e ainda mais para o letramento das pessoas no uso correto de ferramentas de inteligência artificial. Como qualquer ferramenta, a IA pode ser usada para o bem ou para o mal; pode ser usada corretamente ou de formas equivocadas. O que dependerá da fluência das pessoas em compreender e interagir com estas tecnologias, reconhecendo suas capacidades e limitações. A fluência digital e a compreensão da IA se tornam, portanto, habilidades essenciais na era moderna, não apenas para profissionais de tecnologia, mas para o público em geral. A mídia, ao adotar uma abordagem mais equilibrada e informativa, pode desempenhar um papel crucial na promoção desse letramento em IA, equipando os indivíduos com o conhecimento necessário para fazer escolhas informadas e responsáveis. Os jornalistas precisam assumir esta responsabilidade, pesquisar melhor sobre o tema, buscar fontes com conhecimento técnico, apresentar os fatos com frieza e produzir notícias que orientem ao invés de assustar. É essencial que os jornalistas assumam uma postura mais informada, buscando fontes técnicas e apresentando os fatos com objetividade, em vez de recorrer ao sensacionalismo. A responsabilidade da mídia em educar e 56
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informar o público sobre a IA é particularmente crítica agora, dada a crescente centralidade dessa tecnologia em muitas áreas, da economia à educação e arte. Uma abordagem mais imparcial e instruída por parte da mídia pode não apenas melhorar a compreensão pública da IA, mas também encorajar um uso mais consciente e ético desta tecnologia. A mídia pode elucidar as complexidades desta tecnologia, refutar equívocos e destacar tanto as oportunidades genuínas quanto os perigos potenciais, exemplificando aplicações favoráveis e as consequências negativas do mau uso da IA. Em última análise, a forma como a IA é retratada e discutida na mídia terá um impacto significativo na adoção, aceitação e uso dessas tecnologias emergentes pela sociedade. Enquanto evitar a simplificação e o sensacionalismo é necessário, é igualmente essencial para a mídia tornar esses temas compreensíveis e relevantes para o público geral. A chave para alcançar um equilíbrio é consultar especialistas e usar uma linguagem que seja informativa e acessível, mantendo a precisão técnica. Para pesquisas futuras, há uma oportunidade de expandir esta análise além do contexto anglo-saxão, examinando a cobertura midiática da inteligência artificial em diferentes idiomas e contextos culturais. Este enfoque permitiria uma compreensão mais abrangente e diversificada de como a IA é percebida e retratada em diferentes regiões do mundo. Compreender as diferenças culturais e linguísticas na reportagem sobre IA pode revelar variações significativas em termos de abordagem jornalística, interpretação tecnológica e impacto social. Analisar essas diferenças pode identificar tendências globais ou disparidades regionais nas narrativas sobre IA, proporcionando insights valiosos sobre a universalidade ou particularidade dessas narrativas. Além disso, realizar uma análise longitudinal da cobertura sobre IA ao longo do tempo poderia fornecer uma visão histórica sobre como a percepção e o entendimento da IA têm se transformado, refletindo avanços tecnológicos e mudanças nas atitudes sociais. Esta análise poderia iluminar tendências emergentes, mudanças no uso da linguagem e na abordagem jornalística. Adicionalmente, um estudo de recepção sobre as respostas do público à cobertura midiática sobre IA é um campo crucial de pesquisa. Estudar as percepções e atitudes do público em relação às tecnologias emergentes pode destacar o papel da mídia como formadora de opinião. Dados valiosos podem ser extraídos das interações nas redes sociais, seções de comentários de artigos online e pesquisas de opinião pública para avaliar a influência das representações midiáticas da IA no entendimento e atitudes do público revista Fronteiras - estudos midiáticos
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em relação a essa tecnologia. Estudos complementares podem descobrir conexões entre a cobertura midiática e aspectos como a alfabetização digital do público geral, preocupações éticas, perspectivas e aceitação da inteligência artificial. Os insights obtidos desses dados poderiam ser fundamentais no desenvolvimento de estratégias de comunicação práticas e eficazes sobre IA para organizações midiáticas, formuladores de políticas e educadores. Em conclusão, este estudo contribui significativamente para o entendimento da interação entre tecnologia e mídia. Ele destaca a necessidade de uma cobertura midiática responsável e bem-informada sobre temas complexos e inovadores, como a inteligência artificial.
A pesquisa confirma a hipótese central de que a grande mídia tende a sensacionalizar a cobertura sobre IA. O texto promove reflexões mais profundas sobre o impacto das práticas jornalísticas na conscientização pública sobre inovações tecnológicas e a importância de oferecer uma cobertura que equilibre acessibilidade com precisão técnica. A mídia não apenas informa o público, mas também molda sua compreensão e aceitação de novas tecnologias, desempenhando um papel vital na sociedade. A pesquisa destaca o impacto significativo da mídia e sugere um foco contínuo em informações corretas, ética, alfabetização tecnológica, literacia sobre novas tecnologias e responsabilidade na reportagem sobre inovações emergentes.
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revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):59-71 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.06
A comunicação silenciosa do Google sobre o PL 2630/2020: midiatização discursiva contra a regulamentação de difusão da informação na ambiência digital Google’s silent communication about 2630/20 Bill: discursive mediatization against the regulation of information dissemination in the digital environment Karen de Paula Santos[*] - karenps@id.uff.br Patrícia Gonçalves Saldanha[*] - patriciasaldanha@id.uff.br RESUMO “Como o PL 2630 pode piorar a sua internet” é o título de uma das peças de branded content produzida e veiculada pelo Google em 2023, no panorama midiatizado de discussão sociopolítica do Projeto de Lei (PL) 2630/20. Neste contexto, o artigo tem o objetivo de compreender se/como a circulação do discurso, aparentemente sem pretensão financeira, aliado ao monopólio de poder e domínio tecnológico, poderia constituir, de maneira silenciosa, subterfúgios para a legitimação dos interesses de mercado da corporação. Procurou-se identificar os efeitos de sentido presentes na campanha de comunicação publicitária contra o Projeto de Lei, a partir da análise discursiva – com base na Linha Francesa – do anúncio sobre o PL das Fake News, inserido na página inicial do site de buscas. Notou-se que, ao articular dinâmicas de produção e circulação de conteúdos relacionados à temática da regulamentação, houve uso de estratégias textuais características da desinformação, além da circunscrição do PL em uma Formação Discursiva que pressupõe subserviência legislativa aos interesses dos conglomerados empresariais.
ABSTRACT How 2630 Bill can make your internet worse (“Como o PL 2630 pode piorar a sua internet”) is the title of one of the branded content advertisements produced and broadcast by Google in 2023, in the media landscape of the socio-political discussion of 2630/20 Bill (PL 2630/20). In this context, the article aims to understand if/how the circulation of discourse, apparently without financial pretension, combined with the monopoly of power and technological dominance, could silently constitute subterfuges for the legitimization of the corporation’s market interests. The aim was to identify the effects of meaning present in the advertising campaign against the Bill, based on a discursive analysis – based on the French Line – of the ad about the Fake News Bill inserted on the search engine’s homepage. It became clear that, in articulating the dynamics of production and circulation of content related to the issue of regulation, there was use of textual strategies characteristic of disinformation, as well as the circumscription of the Bill in a Discursive Formation that presupposes legislative subservience to the interests of business conglomerates.
Palavras-chave: Midiatização; Google; Projeto de Lei (PL) 2630; Discurso hegemônico e silencioso; Branded content.
Keywords: Mediatization; Google; 2630 Bill; Hegemonic and silent discourse; Branded content.
[*]
Universidade Federal Fluminense (UFF). R. Prof. Lara Vilela, 126 - São Domingos - Niterói (RJ). 59
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Karen de Paula Santos, Patrícia Gonçalves Saldanha
Introdução
66%
é o percentual aproximado da população mundial que possui acesso à internet (ONU, 2022). 20% é a fatia do mercado global em propriedade de cinco companhias do setor tecnológico1 (Ventura, 2023). As estatísticas refletem a relevância da tecnologia e da conexão à web no cenário contemporâneo, seja pelo crescente acesso em todo mundo ou pela alta lucratividade do segmento. Alphabet (Google), Microsoft, Apple, Meta (Facebook) e Amazon formam, juntas, o grupo denominado Big Five, alcunha recebida por apresentarem grande destaque na conjuntura internacional. Localizadas principalmente no Vale do Silício, polo tecnológico dos Estados Unidos, as cinco corporações constituíram monopólios no ramo tecnológico, diversificando sua atuação em dezenas de marcas e ofertas de produtos (Cardoso; Garcia, 2022). O amplo quebra-cabeças organizacional é complexificado pelas alterações nas nomenclaturas de agrupamentos empresariais responsáveis por marcas subsidiárias, as holdings. Tal modificação ocorreu com o Facebook, cujo título passou a ser Meta, e a corporação Google, convertida em Alphabet. A fim de uma associação direta ao objeto de pesquisa, utilizaremos a denominação da subsidiária Google, para indicar a totalidade do conglomerado. A estruturação financeira das multinacionais no âmbito da midiatização, conforme aponta Muniz Sodré (2002, 2014), está relacionada às esferas da comunicação/ informação. Para o autor, a expansão de tais corporações, acompanhada da influência nas áreas político-econômicas e no desenvolvimento de redes eletrônicas, cria uma aproximação progressiva entre a indústria tecnológica e a área informacional (Sodré, 2002, p. 17-18) – característica que nos referimos, neste artigo, como “tecnomercadológica”. O processo descrito por Sodré transforma, gradativamente, o sentido pleno da comunicação, que abarca sua dimensão social e comunitária, em um recurso instrumentalizado para a transmissão de informações e operação de capital simbólico, de modo que “hoje, em pleno segundo milênio e, em meio à intensificação do capitalismo global, desvela-se plenamente a natureza financeira da informação” (2014, p. 61). A mídia assume papel estratégico no modelo capitalista moderno, possibilitando a manutenção de lógicas de produção e consumo, sobretudo pela pu-
blicidade. Para o autor, o aparato midiático é formado pela “diversidade dos dispositivos de informação que lutam pela hegemonia das representações das classes dirigentes e pela organização das relações sociais no âmbito do mercado” (2014, p. 281). Assim, mídia, tecnologia e ideologia caminham juntas neste cenário. Teoricamente, a ideologia é considerada uma concepção ampla, com diversas abordagens entre pesquisadores, sendo atrelada às relações de poder e à manutenção da hegemonia. Artur Perrusi (2015, p. 418) descreve a noção de ideologia desenvolvida por Gramsci como “instrumento privilegiado para a classe dominante assegurar a coesão social”, além de um modo de tomada de consciência coletiva pelas classes não dominantes (Perrusi, 2015, p. 418). Como será visto adiante, a conjuntura na qual as matrizes ideológicas se entrelaçam aos recursos tecnoinformativos possui profunda convergência com o fenômeno de midiatização. Dessa forma, as práticas publicitárias, enquanto elementos comunicativos, acompanham o fluxo midiatizado, adaptando seus formatos às mudanças dos hábitos sociais e reconfigurando-se conforme as possibilidades que a tecnologia permite. No âmbito da circulação, nota-se capilaridade no alcance dos anúncios por meio da coleta de dados on-line e da hipersegmentação de públicos nas plataformas digitais. Já na etapa da produção, observa-se uma tendência na qual as características comerciais dos conteúdos são suprimidas, de modo que a sinalização das marcas é deliberadamente reduzida, comprometendo a identificação dos sujeitos sobre o que é ou não um anúncio. A partir deste panorama inicial, no qual a publicidade se apresenta de forma silenciosa no contexto financeirizado da midiatização, o discurso das marcas passa a ser legitimado por uma estratégia que envolve poder econômico, alta penetração das tecnologias à cotidianidade e diversificação dos modelos e formatos de publicidade. Observa-se uma espécie de “agenda-setting da publicidade, que não só hierarquiza ‘pautas’ comerciais, mas também quaisquer informações que sejam de interesse das corporações” (Autor, 2020, p. 22). Ora, se o crescente fenômeno ocorre nos mais diversos segmentos de mercado, a ideia é entender como o processo de atravessamento ideológico se daria em um conglomerado como o Google – que possui, em média, 401.7 milhões de usuários ativos mensalmente, considerando apenas uma de suas marcas, o Youtube (Chee, 2023). Assinalamos que este artigo é um dos desdobra-
1 – Dado publicado em janeiro de 2023, de acordo com o índice financeiro S&P 500, que mensura o capital das 500 maiores empresas no mercado de ações dos Estados Unidos. 60
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A comunicação silenciosa do Google sobre o PL 2630/2020: midiatização discursiva contra a regulamentação de difusão da informação na ambiência digital
mentos de um estudo acerca de estratégias publicitárias que se mesclam “às características de formatos e narrativas do cotidiano” e, assim, “oculta deliberadamente elementos que poderiam evidenciar seus aspectos comerciais, atuando, portanto, nos limiares do que é considerada uma comunicação ética” (Autor, 2020, p. 22). Nesta trajetória de investigação, observou-se que as mutações financeiras, tecnológicas e comunicacionais, que corroboram a mecânica da sociedade midiatizada, não foram acompanhadas por aprimoramentos na legislação brasileira ou pelo investimento em educação com competência crítica da mídia. Tal defasagem se tornou evidente na pandemia de Covid-19 e durante as eleições brasileiras de 2022. Assim, atualizamos o escopo de pesquisa, abordando, como objeto de estudo, as dinâmicas discursivas do conglomerado de tecnologia Google durante a tramitação do Projeto de Lei 2630/20, em 2023. Partimos da hipótese de que a potencial estrutura de domínio mercadológico da companhia aliada à publicidade silenciosa legitima os interesses ideológicos da corporação. Por fim, para a composição metodológica do artigo, utilizamos a pesquisa exploratória e revisão bibliográfica, para investigar a articulação “tecnomercadológica” no cenário contemporâneo. Ademais, buscamos identificar os efeitos de sentido presentes na campanha contra o PL, promovida pela corporação, a partir da Análise do Discurso de Linha Francesa da peça em branded content “Como o PL 2630 pode piorar a sua internet”.
O discurso “tecnomercadológico” na consolidação da sociedade midiatizada Parcela significativa dos sujeitos têm seu cotidiano atravessado por aplicativos e dispositivos eletrônicos provenientes de conglomerados multinacionais. Diferente do que ocorria em um passado recente – quando tais objetos podiam significar, explicitamente, capitais simbólicos de diferenciação entre seus consumidores – a atual distinção em suas novas versões acontece de forma menos explícita e mais dissimulada. Nota-se a consolidação de uma lógica de mercado que alimenta subjetivamente a sensação de inclusão do cidadão comum em diferentes esferas, através de novas maneiras de consumo e atuação na vida habitual. Trata-se de um processo que começa no ambiente virtual e tem ou não continuidade na vida física, a partir de uma práxis de isolamento que individualiza o revista Fronteiras - estudos midiáticos
interagente, estimulando-o a produzir através do trabalho irremunerado, despertando-lhe uma impressão de pertencimento. Falamos aqui de uma letargia que distrai, sob forma de diversão ou aquisição de informação, para inviabilizar “o espírito coletivo como iniciativa eficaz de resistência ao estágio de apatia que impulsiona os indivíduos a consumirem desenfreadamente, com nível zero de reflexão.” (Autor, 2022a, p. 160). Vale ressaltar que não é apenas do consumo de serviços ou mercadorias – sejam elas materiais e/ou imateriais –, mas do consumo da própria lógica que passa a compor a rotina do indivíduo, levando-o a operar no trabalho imaterial que gera riqueza para as estruturas de poder dominantes na midiatização. Um “processo de difusão, atravessamento e impacto dos sentidos produzidos pela mídia nos espaços de sociabilidade contemporâneos” (Autor, 2022b, p. 83) e sustentado pelas inovações da comunicação publicitária. Faz parte da engrenagem “tecnomercadológica” da sociedade naturalizar narrativas que, ao mesmo tempo, contribuem com o esvaziamento do senso crítico sobre as novas práticas de consumo e embasam uma lógica predominante na atualidade. Aquela que incentiva a produção de riqueza imaterial, como, por exemplo, os conteúdos digitais, que circulam na vida cotidiana e disseminam discursos de maneira capilarizada, através de recursos tecnológicos. Trata-se da plataformização, uma nova forma de organização econômica que conta com a estrutura do maquinário de base material concreta e que tem foco na privatização da “renda financeira como alavanca de captura do ‘comum’ produzido pelo trabalho imaterial” (Dardot; Laval, 2017, p. 201). Em suma, ao se deslocarem de suas estruturas analógicas para as digitais, alguns objetos passaram a atuar de uma nova forma na vida ordinária. Saíram da condição de utensílios corriqueiros que faziam parte do dia a dia de seus donos e, paulatinamente, absorveram os sujeitos para o trabalho gratuito. Enquanto têm a sensação de que estão se divertindo ou se educando, estão produzindo e, simultaneamente, consumindo conteúdos que, ao circularem, tornam o sistema financeiro mais robusto. Um dos pontos cruciais que facilitou este processo foi a popularização dos dispositivos móveis, comercializados em larga escala para diferentes culturas, etnias e classes sociais, como é o caso dos smartphones e assistentes virtuais que crescem exponencialmente em números de usuários. Sodré descreve tal cenário ao afirmar que “em casa, no trabalho ou no lazer, o indivíduo é instado por esse novo espaço público tecnicamente ampliado – mas também fragmentado pela diversidade dos dispoVol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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sitivos comunicacionais – a integrar-se como um novo cidadão ‘mercantil’” (Sodré, 2006, p. 166-167). Conforme introduzido anteriormente, monopólios do setor de tecnologia estão ligados à circulação dos dados em rede e a uma nova forma abstrata de capital circulante, como meio de atuação em seus negócios. Desse modo, “os acordos de interconexão da internet não originam apenas um tráfico de mensagens, mas principalmente de dinheiro” (Sodré, 2014, p. 61). A expressiva quantidade de informações que transitam pelas redes e por meio dos aparatos sociotécnicos é acompanhada por centenas de milhões de indivíduos que utilizam os serviços das companhias. A estrutura do Google, que compõe o objeto de estudo deste trabalho, contabiliza, mensalmente, os seguintes números de usuários em média: 401.7 milhões no YouTube, 332 milhões na Pesquisa Google, 278.6 milhões no Google Maps, 274.6 milhões no Google Play e 74.9 milhões na área Google Shopping (Chee, 2023). As estimativas provêm de relatório divulgado pela companhia à comissão da União Europeia, em fevereiro de 2023 (Chee, 2023). Considerando todo o conglomerado Google/Alphabet, há diversas subsidiárias atreladas, isto é, diferentes empresas que possuem suas respectivas marcas e serviços. Na figura 1 (próxima página), trazemos um compilado dos empreendimentos junto a uma breve descrição das suas áreas de atividade em 2023. A diversidade das marcas, como é possível observar na figura 1, demonstra a presença segmentada e expandida da companhia em contextos sociais distintos. Desse modo, o grupo empresarial não só domina o mercado de tecnologia, mas também constrói um modelo de negócios no qual sua atuação incide no ramo da biotecnologia farmacêutica, automobilismo, setor financeiro e agronegócio. Em linhas gerais, uma quantidade elevada de novos dados on-line atrai mais sujeitos para as plataformas digitais, em uma relação direta com a midiatização – enquanto processo social que “equaliza os sentidos pela dispersão cognitiva e reforça a superficialidade dos aspectos relacional e mecanicista, limitando o entendimento da comunicação ao eixo técnico, próprio do paradigma funcionalista norte-americano” (Baiense et al., 2022, p. 18). Tais sujeitos, por sua vez, além de potenciais consumidores diretos de merca-
dorias digitais das Big Techs, também constituem um vasto público ao qual são direcionadas às comunicações. Vale reforçar, então, o entendimento de que a plataformização da economia configura um deslocamento das grandes corporações que atuavam no espaço físico para o virtual, que podem funcionar em rede e são estruturados pela logicidade que conta com uma dinâmica de fabricação escalável, com estrutura discursiva palatável e narrativa que atenda à linguagem de fácil entendimento para os públicos-alvo que pretende atingir.” (Informação verbal, 2022)2. Com largo alcance obtido por quem gerencia essas ações, como é o caso específico do Google, “estamos lidando com um modelo de propagação de conteúdo, com um suporte algorítmico que conecta ilimitados participantes em lucrativas interações” (Informação verbal, 2022). Logo, o alcance das plataformas aliado aos sistemas tecnológicos e à estrutura midiática dos conglomerados tecnológicos possibilita a formação do que Sodré define como “hegemonia de sentido”, uma “instância de conformação do consenso” (Sodré, p. 2015, p. 144). Esta formação se articula na vivência política do cotidiano, a exemplo do que investigamos aqui: a reverberação, por parte do Google, de discursos contrários a uma proposta legislativa que alteraria as dinâmicas de mercado na ambiência on-line. O Projeto de Lei 2630/20, também conhecido como PL das fake news, é um conjunto de normas que visa o “combate à disseminação de conteúdo falso nas redes sociais” (Agência Câmara de Notícias, 2020). A medida tem autoria de Alessandro Vieira, Senador do partido político Movimento Democrático Brasileiro (MDB)3 de Sergipe. Com a proposta de uma Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, o tema gerou controvérsia entre diversos setores da sociedade, sendo interpretado por grupos como solução para as problemáticas de desinformação e crimes virtuais, mas também associado por outrem como uma iniciativa que conduziria à censura (Agência Câmara de Notícias, 2020). Após alterações no texto original, neste momento, o PL aborda, dentre outras questões, o encaminhamento em massa de mensagens, novas iniciativas para a identificação de contas
2 – Trecho da palestra “Midiatização enquanto estratégia de difusão para o fortalecimento da Economia de Plataforma” proferida por Autor, em 7 de setembro de 2022, na abertura do GP de Publicidade e Propaganda do 45º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 3 – A sigla em questão se refere à filiação que o Senador exerce durante a redação deste artigo. No momento da proposição do PL, o parlamentar integrava o partido Cidadania. 62
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Figura 1. Relação de empresas vinculadas ao Google/Alphabet em 2023. Figure 1. List of companies linked to Google/Alphabet in 2023. Fonte: (Cuofano, 2023). Produção nossa.
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falsas e/ou automatizadas, padronização de tratativa em casos de violação de direitos e sinalização da publicidade. Além disso, contempla a remuneração de veículos de comunicação com materiais autorais – ponto reivindicado pelos jornalistas –, a imunidade sobre os conteúdos de parlamentares4 – aspecto de grande discussão social –, criação de um Conselho de Transparência com “representantes do poder público, da sociedade civil, da academia e do setor privado” (Agência Câmara de Notícias, 2020) e normatização da atuação de companhias proprietárias das mídias sociais no Brasil. A proposta imputa maior responsabilidade às Big Techs, seguindo um movimento semelhante ao adotado pela Comissão Europeia, que tem debatido e promovido ações sobre o impacto dos conglomerados de tecnologia e mídia5. O PL 2630/20 argumenta sobre a importância do envio periódico de relatórios, investimento em iniciativas de prevenção e combate a crimes virtuais, repasse de remuneração por conteúdos e penalização das empresas em caso de descumprimento das medidas. Diante das eventuais mudanças, companhias que atuam no segmento on-line se posicionaram de modo contrário ao texto do projeto.6 Com o andamento do pleito nas instâncias legislativas, as críticas se tornaram mais contundentes, mesclando convicções de caráter corporativo com um discurso esteticamente jornalístico. De acordo com relatório divulgado pelo Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (NetLab UFRJ), Google, Meta e Spotify são algumas das empresas que produziram ou veicularam propagandas de teor antagônico à medida, “de forma opaca e burlando seus próprios termos de uso” (NetLab, 2023, p. 2). A partir desta estratégia, um dos formatos adotados para a publicização desta comunicação foi o branded content, como será visto a seguir.
Uma análise do branded content: “Como o PL 2630 pode piorar sua internet” Em estudo publicado pelo NetLab – UFRJ, com enfoque nas estratégias de oposição ao PL 2630/20 pro-
movidas por grupos empresariais, mapeou-se que, dentre outros fatores, as publicidades correlatas não foram categorizadas como temas sensíveis ou de teor político, em inconformidade com as normas internas das plataformas (NetLab, 2023, p. 2). Anúncios contrários ao Projeto de Lei, promovidos pelo Google, foram veiculados no aplicativo de músicas Spotify, nos serviços da Meta – Instagram e Facebook – e até mesmo em seu próprio serviço, o Google Ads, em discordância dos termos de uso dos sites. De acordo com o relatório, o Spotify “não permite publicidade de temas políticos, proibindo anúncios sobre referendos, votações e propostas legislativas, judiciais e políticas” (NetLab, 2023, p. 2); no entanto, em contradição com suas diretrizes, o conteúdo foi aprovado e veiculado aos usuários da plataforma. Dentre as roupagens utilizadas na campanha do Google, um dos recursos com maior visibilidade pôde ser observado na inserção de links em destaque na página principal do site de buscas. A tela padrão, caracterizada por poucos elementos e uma grande área de respiro, foi acrescida de frases7 em evidência, que, ao serem pressionadas, direcionavam para os respectivos textos/propagandas acerca da temática. Nesta seção, analisaremos o conteúdo “Como o PL 2630 pode piorar a sua internet”, exibido em destaque na página inicial do site de buscas (Figura 2, na próxima página). Por meio do levantamento bibliográfico trazido até aqui junto à Análise do Discurso de Linha Francesa do texto que compõe a peça publicitária, examinaremos o modo como a articulação de um tema social – de profundo interesse comercial do Google – é realizado através de estratégias para a validação de uma perspectiva hegemônica da empresa. Tendo em vista o recorte de estudo, destacamos que esta pesquisa não tem como enfoque validar ou refutar todos os termos do Projeto de Lei 2630/20, bem como não pretende esmiuçar a totalidade de anúncios divulgados pelo Google sobre o PL. Considera-se usual que o debate público evoque aspectos contrários ou favo-
4 – No capítulo VIII, artigo 33 do Projeto de Lei, o direito à imunidade material parlamentar é estendido às esferas das mídias sociais e aplicativos de mensagens (Silva, 2023, p. 91). 5 – A comissão da União Europeia participou da criação de uma regulamentação denominada “Digital Services Act (DSA)” - Ação de Serviços Digitais (Tradução nossa). Entre outras propostas, a normatização requer gerenciamento de riscos e auditorias externas em companhias com número superior a 45 milhões de usuários, como Google, Meta, X (Twitter) e TikTok (Chee, 2023). 6 – Google, Meta, X (Twitter) e Mercado Livre assinaram carta alegando que a alteração legislativa representaria “uma potencial ameaça para a internet livre, democrática e aberta” (Google Brasil, 2022). 7 – Os enunciados “O PL das fake news pode piorar sua internet” e “O PL das fake news pode aumentar a confusão sobre o que é verdade ou mentira no Brasil” foram incluídos, em momentos distintos, como elementos da homepage. 64
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Figura 2. Página inicial do Google com o link do editorial e trecho inicial do conteúdo. Figure 2. Google homepage with editorial link and initial part of the content. Fonte: Produção nossa.8
ráveis nos mais diversos setores da sociedade; no entanto, a questão motriz é a abordagem realizada pela empresa de tecnologia. O cerne desta análise é o “como”.8 Introduzindo a metodologia utilizada, a Análise do Discurso de Linha Francesa (AD) foi definida como instrumento desta pesquisa por promover uma verificação privilegiada dos discursos, considerando como estes estão circunscritos em um contexto sociológico, psicológico e linguístico. Conforme prevê o método, serão elencados enunciados do corpus, denominados Sequências Discursivas, para a estruturação da análise e a compreensão da Formação Discursiva
(FD) e da Formação Ideológica (FId) fundantes. Compreende-se como Formação Discursiva o efeito de sentido produzido sobre um elemento do discurso alicerçado em uma matriz ideológica; “ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada – determina o que pode e deve ser dito” (Orlandi, 2001, p. 43). A ideologia, conforme discorre Eni Orlandi, é um constituinte inconsciente da leitura dos discursos, funcionando como um mecanismo de naturalização do viés interpretativo (2001, p. 46). É através do componente ideológico que a relação “palavra/coisa” se estabelece (Orlandi, 2001,
8 – À esquerda, página inicial Google.com com o link do editorial. Acesso em: 2 maio 2023. Ao lado direito, captura de tela de trecho do conteúdo (Lacerda, 2023). Acesso em: 29 jul. 2023. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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p. 95), por meio de esquecimentos e “apagamentos” das relações entre linguagem e história, que fazem soar como se os sentidos vigentes fossem os únicos possíveis. Acerca da classificação do conteúdo, o texto criado pela companhia constitui um formato de branded content, produzido pela própria marca a fim de promover seu posicionamento. De acordo com Daniele Castro Alves (2016), a tipificação pode unir características informativas, jornalísticas, de entretenimento, entre tantas outras roupagens de apresentação, que visam despertar interesse e envolvimento dos sujeitos (p. 14). A pesquisadora ainda destaca o papel estratégico do branded content na criação de experiências e conexões emocionais com o público (p. 7). É relevante destacar que a publicação não é autoidentificada como peça publicitária. No entanto, a responsabilidade pela produção é atribuída ao Google de modo objetivo, por meio do campo de autoria, do endereço da web no qual está inserido (blog.google) e da conjugação em terceira pessoa em determinados trechos. Enquanto este trabalho é redigido, os links já não estão realçados na página principal Google.com, por decisão judicial, porém seguem ativos no blog oficial da empresa no Brasil. Estabelecendo, como ponto de partida, uma análise geral do corpus, nota-se diagramação e organização visual semelhantes a uma matéria jornalística, apresentando título, nome do autor e linha fina9 como elementos de um conteúdo informativo. Tal abordagem desloca a compreensão do texto, transitando entre o posicionamento particular de uma corporação inserida no mercado sobre o qual escreve e a interpretação da informação divulgada como instrumento prioritariamente em favor da sociedade civil – assim como seria o jornalismo em sua concepção deontológica. De acordo com documento10 divulgado em 2023 pela agência de marketing We are social e o serviço de monitoramento de mídia Meltwater, a procura por informação ocupa o primeiro lugar entre as principais motivações de acesso à internet, representando 57,8% de preferência da população mundial (We are social; Meltwater, 2023). No mesmo ranking, a prioridade por se manter atualizado sobre notícias e eventos atuais ocupou a terceira colocação, alcançando 50,9% (2023). A pesquisa buscou traçar um panorama global, reunindo estatísticas sobre os hábitos de usuários com idade entre 16 e 64 anos. Assim, além de uma ferramenta que pode operar
através de memória discursiva relacionada à responsabilidade informacional, a utilização de uma abordagem aparentemente noticiosa também se mostra estratégica em relação aos hábitos de consumo na internet. O formato obteve visibilidade tão expressiva que a propaganda da empresa foi replicada, em moldes de matéria jornalística, por portais regionais, como “Tribuna do Sertão” (2023), “TO Notícias” (2023) e “O Bê-á-bá do Sertão” (2023) (Figura 3, na próxima página). Publicado em 27 de abril de 2023 e assinado por Marcelo Lacerda, “Diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas do Google Brasil” (Lacerda, 2023), o branded content teve como objetivo apresentar o Projeto de Lei a partir da perspectiva da companhia e estimular que os leitores entrassem em contato com os parlamentares, solicitando mudanças nos aspectos apontados pelo Google: “Fale com o seu deputado ou deputada e nos ajude a chamar a atenção para os potenciais impactos do PL 2630 com a hashtag #MaisDebatePL2630” (Lacerda, 2023).
Sequências Discursivas No que tange às condições de produção, o período no qual o discurso foi elaborado envolveu a tramitação do Projeto de Lei no Congresso Nacional Brasileiro, anteriormente à votação na Câmara dos Deputados. O cenário de polarização política, acentuado nas eleições de 2022, também integra o contexto temporal, tendo em vista a divergência já existente entre os cidadãos sobre temas relacionados à desinformação e normatização no ambiente digital. Já a autoria do texto é atribuída ao representante de uma companhia que será financeiramente afetada por alterações na publicidade digital (NetLab, 2023). Na primeira Sequência Discursiva (SD1) a ser analisada, temos a frase: Além de estar em desacordo com a forma como outros países estão lidando com essas questões, temos sérias preocupações de que o PL 2630 mude a internet que você conhece para pior e limite a inovação, a liberdade de expressão e a geração de oportunidades econômicas para todos os brasileiros (Lacerda, 2023).
9 – Linha fina: Comum em artigos de jornais e revistas, trata-se de um pequeno trecho abaixo do título que, geralmente, complementa a mensagem inicial. 10 – O relatório, assinado pelas companhias We are social e Meltwater, reúne informações de diversas fontes, sendo esta estatística referenciada ao instituto de pesquisas de mercado GWI, especializado no segmento digital. 66
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Figura 3. Capturas de tela da replicação do branded content em portais regionais. Figure 3. Screenshots of branded content replication in regional portals. Fonte: Produção nossa.
No início da SD1, a empresa realiza uma afirmação categórica de que outros países possuem abordagens distintas sobre como lidar com as questões contemporâneas da internet. O trecho é baseado em um argumento de autoridade comparativo, no entanto, não especifica quais seriam as nações mencionadas ou elucida o modo alternativo da tratativa legislativa, sem ancorar a asserção à materialidade factual. Em seguida, são citadas, ainda sem aprofundamento, “sérias preocupações”, acerca das consequências da proposta, traçando um cenário no qual se “limite a inovação, a liberdade de expressão e a geração de oportunidades econômicas para todos os brasileiros” (Lacerda, 2023). Desta forma, é feita a introdução dos pontos centrais que serão desdobrados no decorrer do texto, e o posicionamento institucional prioritariamente negativo em relação ao PL é delineado no discurso. Na segunda Sequência Discursiva (SD 2) do corpus, lemos que: O PL 2630 vai acabar favorecendo quem produz desinformação ao limitar a aplicação pelas plata-
formas de suas políticas e termos de uso, inclusive para determinadas contas de interesse público, e ao “blindar” a remoção de conteúdo produzido por “qualquer empresa constituída no Brasil para fins jornalísticos”. Na prática, já que o texto não faz distinção entre os diferentes produtores de notícias, seríamos obrigados a manter em nossos produtos conteúdos problemáticos criados por empresas que se apresentam como jornalísticas, mas são especializadas na produção de informações enganosas (Lacerda, 2023). Neste segmento, o conteúdo é conduzido a uma sucessão de causalidades que excedem, em muito, os termos abordados na proposta legislativa. Ao afirmar que haverá benefício dos produtores de conteúdos falsos a partir da impossibilidade de exclusão dos materiais, o texto orienta a uma interpretação errônea do Art. 32, Capítulo VII no Projeto de Lei11, que versa sobre o pagamento de direitos autorais sobre publicações jornalísticas on-line em plata-
11 – Baseado em documento legislativo (Silva, 2023) oficializado em 27 de abril de 2023, mesmo dia da publicação do branded content assinado pelo Google. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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formas como o Google, X (Twitter) e Meta, por exemplo. A título de complementação sobre o artigo 32, jornalistas solicitam que o projeto contemple diretamente os profissionais da área e responsáveis pela criação dos conteúdos, de modo que também participem, de forma transparente, da remuneração direcionada aos veículos de imprensa. Tal demanda social provém de conselhos jornalísticos e não foi abordada no editorial aqui analisado. O PL 2630/20 direciona o papel de remuneradoras às plataformas – sem que haja oneração dos usuários finais –, estabelecendo condições para que materiais da imprensa não sejam excluídos por “má fé” dos provedores, que poderiam visar a isenção do pagamento aos veículos, como lê-se em: “O provedor não poderá promover a remoção de conteúdos jornalísticos disponibilizados com intuito de se eximir da obrigação de que trata este artigo” (Silva, 2023, p. 89). No trecho, “seríamos obrigados a manter em nossos produtos conteúdos problemáticos” (Lacerda, 2023), o editorial do Google posiciona a companhia como uma instituição cativa e impotente, que estaria obrigada a manter matérias jornalísticas danosas à sociedade. No entanto, ainda no Art. 32, o Projeto de Lei acrescenta que há exceções, “ressalvados os casos previstos nesta Lei, ou mediante ordem judicial específica” (Silva, 2023, p. 89), como poderia ocorrer em episódios de desinformação e outras transgressões virtuais. Ao declarar que o PL impossibilita “a remoção de conteúdo produzido por ‘qualquer empresa constituída no Brasil para fins jornalísticos’ ” (Lacerda, 2023) e afirmar, simultaneamente, “já que o texto não faz distinção entre os diferentes produtores de notícias” (Lacerda, 2023), a propaganda do Google desconsidera que o texto proposto apresenta delimitações e se aplica apenas à “pessoa jurídica, mesmo individual, constituída há pelo menos 24 (vinte e quatro) meses, que produza conteúdo jornalístico original de forma regular, organizada, profissionalmente e que mantenha endereço físico e editor responsável no Brasil” (Silva, 2023, p. 88-89). Na menção “contas de interesse público”, na SD2, há pistas de uma indicação à temática de imunidade parlamentar, mencionada anteriormente neste trabalho, no entanto, não aprofunda, questiona detalhadamente ou especifica que realmente se trata do Capítulo VIII - “Da Atuação do Poder Público” (Silva, 2023, p. 89). É importante ressaltar que, no decorrer de todo o editorial, não há menção à numeração dos artigos ou citação direta a trechos do documento legislativo, para que o público tenha contato com o documento original 68
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e possa realizar sua própria decodificação. Assim, a interpretação expressa no editorial é integralmente associada aos critérios que o Google considera como adequados e, consequentemente, permeada pela matriz ideológica da companhia. Assim, há escassez de fontes evidenciadas, conduzindo o discurso à superficialidade. Tal característica torna a análise mais complexa, pois o conteúdo examinado não contém correlação nominal entre as críticas apresentadas e os trechos do Projeto de Lei aos quais se referem. Na terceira Sequência Discursiva (SD3) é apresentado o texto: O PL 2630 também diz que apenas empresas com representação local podem anunciar em plataformas digitais no Brasil, impedindo que muitas companhias estrangeiras promovam seus produtos e serviços para brasileiros. [...] Em tempos de comércio globalizado, acreditamos que esse tipo de regra vai contra os princípios da livre concorrência, isola o Brasil no mercado internacional e limita as escolhas do consumidor brasileiro (Lacerda, 2023). Antes de adentrarmos na análise da SD3, é relevante a compreensão do panorama de negócios voltados à publicidade digital. Conforme discorremos neste estudo, tal dinâmica viabiliza e sustenta o processo de midiatização, muitas vezes naturalizando o conteúdo comercial em roupagens que dificultam a percepção que estamos tratando de uma tática publicitária. De acordo com relatório do NetLab UFRJ (2023, p. 9), os anúncios on-line somaram R$ 32,4 bilhões em investimentos no Brasil, alcançando o dobro do montante da divulgação off-line (NetLab, 2023, p. 9). Ao segmentar o público e permitir que se possa anunciar com valores menores, em relação aos formatos tradicionais, o formato é economicamente positivo e estratégico para microempreendedores e empresas de menor porte. Não obstante, devido à escassez de atualizações sobre as normas de propaganda on-line, conteúdos socialmente danosos podem ser anunciados por instituições do exterior, sem que haja um correspondente jurídico no Brasil para que se responda legalmente. Conforme artigo da Agência Câmara de Notícias, em novo texto do PL 2630/20, “representação local” já não significa a presença de sede em território brasileiro, mas sim “obrigação de manterem representante legal no Brasil” (2021). A medida busca maior responsabilização dos anunciantes, tendo em vista episódios nos quais há crimes contra o consumidor – como proparevista Fronteiras - estudos midiáticos
A comunicação silenciosa do Google sobre o PL 2630/2020: midiatização discursiva contra a regulamentação de difusão da informação na ambiência digital
ganda enganosa – ou contra a sociedade – como pedofilia e formação de organizações criminosas. A SD 3 associa o teor da norma à restrição da livre concorrência, isolamento do mercado brasileiro no exterior e cerceamento de escolhas do cidadão brasileiro, utilizando linhas discursivas apoiadas em temor e receio, que já figuram como preocupações ao imaginário da população. Além disso, não menciona a importância da proposição na perspectiva de combate a crimes no ambiente virtual, argumentando como companhia que obtém ganhos por meio de publicidade digital. Contemplando a análise aqui exposta, observa-se que, a partir do branded content, o Projeto de Lei 2630 é inscrito em uma Formação Discursiva na qual normas legislativas devem atender às demandas e interesses dos conglomerados empresariais. Com base na análise aqui conduzida e considerando que os aspectos negativos levantados no texto estão necessariamente relacionados a impactos financeiros ou judiciais ao negócio do Google, pode-se compreender que quaisquer ações passíveis de impacto em seu modelo de negócio serão avaliadas como improcedentes e prejudiciais na perspectiva da Big Tech. Tal Formação Discursiva está relacionada à Formação Ideológica neoliberal, movimento econômico de reinvenção do liberalismo clássico do século XIX, que estabelece, como pilar central, a concepção de Estado mínimo, de modo que o mercado seja definido como estruturador dos aspectos econômicos e sociais (cf. Pires; Reis, 1999). Uma das propostas de maior controvérsia no PL, por exemplo, é a imunidade parlamentar no ambiente digital, aspecto que não é aprofundado como tópico de debate no texto em análise. A ausência de posicionamento diante de aspectos decisivos à sociedade nos indica que a ampla articulação de materiais do Google sobre o PL 2630/20 não possui relação apenas com o impacto na área tecnológica e o desejo de informar, mas, principalmente, tem interface com as eventuais reconfigurações que a companhia precisaria realizar com a normatização. A inferência parece evidente, porém é relevante destacá-la, a fim de desvelar os pilares motivadores de um investimento de R$ 2 milhões em anúncios da empresa contra o Projeto de Lei (E.M. Minas - Redação, 2023). Além disso, no decorrer do editorial, não foram identificados quaisquer trechos nos quais o Google assume o compromisso de melhorar seus serviços em relação ao modelo de atuação em vigor. Frases como “O Google trabalha todos os dias para oferecer aos brasileiros informações e produtos confiáveis [...]” (Lacerda, 2023) e “[...] no YouTube ou na Busca do Google, que já têm revista Fronteiras - estudos midiáticos
mecanismos de denúncia disponíveis para usuários [...]” (Lacerda, 2023) trazem ao discurso a ideia de alta eficácia já alcançada. Conduz-se a um efeito de sentido no qual a companhia ocupa posição de baixa necessidade de mudança, desconsiderando tópicos de segurança de dados e utilização dos algoritmos, dentre os quais a empresa não opera de modo efetivo, a exemplo do potencial viés discriminatório na tecnologia vinculada ao Google para detecção de discursos de ódio (cf. SAP et al., 2019). A exposição de opiniões divergentes no campo público é fulcral, sobretudo em temas de relevância nacional e alterações legislativas. Este é um dos pilares democráticos, que prevê a discussão social de forma transparente e horizontalizada, sendo atrelada ao princípio constitucional da Publicidade como instrumento da Administração Pública. No entanto, na análise do branded content, o que justifica a abordagem errônea sobre termos do Projeto de Lei de maneira tão contrária à informação responsável? Sabe-se que a utilização de exagero e de discursos alarmantes é uma das características dos textos com teor de desinformação, o que nos conduz a um contrassenso acerca do objetivo do editorial. Ao mesmo tempo em que publiciza, favoravelmente, seus produtos e serviços, promovendo a marca, o Google atribui ao PL 2630 características e resultados posicionados como preponderantemente negativos, sem menção objetiva aos benefícios sociais de uma legislação eficaz. Desse modo, há um desequilíbrio entre as informações apresentadas. Conforme afirmam Alves e Maciel (2020), via de regra, as fake news encontram seu motor não no desejo de negar a verdade, mas sim na vontade de vencer a disputa a qualquer preço, mesmo que para isso seja preciso falsear a realidade. As pessoas deixam de se perguntar se a notícia é verdadeira ou falsa (p. 153). Ao demonstrar apenas a perspectiva particular na interpretação do Projeto de Lei e, ainda assim, posicionar seu conteúdo como informativo, o discurso do Google desfavorece o debate social, maximizando a polarização e a visão maniqueísta acerca do tema, que nada contribuem para a construção conjunta de uma legislação responsável.
Conclusões O percurso estabelecido neste estudo nos permitiu compreender o enredamento comunicacional contemporâneo, compreendendo que mídia, tecnologia e ideologia Vol. 26 Nº 2 - julho/dezembro 2024
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Karen de Paula Santos, Patrícia Gonçalves Saldanha
são instâncias que se articulam na formação dos discursos sociais. A concentração de poder, principalmente através de aquisições e fusões de companhias, acarreta não só na monopolização de mercado, mas também na massificação e ampla capilaridade de uma mesma “hegemonia de sentido” (Sodré, 2015). Observa-se que o desenvolvimento de uma estratégia multifacetada de silenciamentos publicitários (Autor, 2020) está relacionada à institucionalização de domínio do mercado através da concentração de poder, no qual efeitos de sentido são ancorados às dinâmicas naturalizadas de domínio da produção e circulação de informações. O contexto, intimamente relacionado ao fenômeno da midiatização, apresenta variadas possibilidades para que tal processo se desdobre, conforme observado na atuação do Google. Foi possível notar que a algoritmização e o uso de mecanismos tecnológicos, assim como as estratégias de produção e circulação do formato de branded content analisado, configuram potencial estrutura de domínio de mercado que permite a legitimação da matriz ideológica da corporação. Ao se posicionar contra os termos do Projeto de Lei 2630/20, o conglomerado articulou seus próprios mecanismos “tecnomercadológicos” – a exemplo do corpus “Como o PL 2630 pode piorar sua internet”, que teve seu link exibido em destaque na página oficial do site de buscas – junto a recursos econômicos através do investimento em anúncios digitais. Em relação às inferências da Análise de Discurso de Linha francesa, pôde-se observar que o editorial direciona à persuasão, e não ao conhecimento dos prós e contras da medida legislativa para o debate social, contestando objetivamen-
te apenas pontos de impacto à atuação da empresa. No corpus, foram observadas marcas linguísticas e estratégias próprias de narrativas de sensacionalismo e desinformação, como a repetição, por três vezes, do efeito de sentido de piora da internet e as interpretações dissonantes em relação ao conteúdo original da proposta legislativa. Além disso, a ausência dos artigos citados no texto e a inexistência da transcrição de trechos originais do PL conduzem preponderantemente à perspectiva veiculada pelo Google, restringindo a interpretação dos sujeitos. Notou-se a legitimação da matriz ideológica do neoliberalismo, na qual o PL 2630/20 ocupa uma Formação Discursiva em que normas legislativas devem atender às demandas e interesses dos conglomerados empresariais. Em convergência com os resultados do artigo, temos a fala de Autor (2022a; 2022b), que assinala o papel estratégico da publicidade em meio às dinâmicas de plataformização, entendida como estrutura básica para midiatizar interesses financeiros do mercado internacional. Para a autora, a propaganda isola o sujeito e afeta a subjetividade, “não só em benefício da aceitação de seus objetivos comerciais, mas visando a absorção dos ideais incutidos nas representações dos produtos e serviços que são publicizados” (2018, p. 6). Por fim, ressaltamos a premência de um olhar social atento à conduta ética das companhias que, comumente, fortalecem mecanismos de normatização transparentes e justos. Ao mesmo tempo, é imprescindível o papel da leitura crítica da mídia diante do cenário aqui apresentado, a fim de que os sujeitos alcancem outras decodificações para além dos discursos hegemônicos.
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revista Fronteiras – estudos midiáticos 26(2):72-86 julho/dezembro 2024 Unisinos – doi: 10.4013/fem.2024.262.07
Uma análise dos memes sobre vacinação de covid-19 em redes sociais on-line An analysis of covid-19 vaccination memes on online social networks Tiago Franklin Rodrigues Lucena[*] - tfrlucena2@uem.br Lara Beatriz Natalie Arantes[*] - ra106969@uem.br Graça Penha Nascimento Rossetto[*] - gpnrossetto@uem.br RESUMO A discussão em torno da vacinação contra covid-19 tomou grandes proporções no debate político e de saúde pública no Brasil e no mundo. Dentre os conteúdos que circularam nas redes sociais online contra ou a favor da vacina, foram identificados os chamados memes (imagens, texto, audiovisual ou híbridas) que representam ações e reações dos usuários sobre diversas situações e em sua maioria com tom cômico. Esta pesquisa de caráter qualitativo teve por objetivo analisar memes sobre vacinação no ambiente on-line, coletados durante os meses de dezembro de 2021 a janeiro de 2022. Após aplicar critérios de seleção e exclusão em 41 memes coletados, 6 foram submetidos à análise visual e de conteúdo, sendo categorizados quanto à temática e tipo de meme. Foi-se identificado uma forte presença do humor - principalmente do auto-humor, quando a finalidade é rir de si próprio; além dos memes do tipo macro, que consistem em imagens somadas a texto, a favor da vacinação e de crítica às informações divulgadas por grupos antivacinas e falas do ex-presidente Jair Bolsonaro. Confirmou-se que os memes se configuram como peças de posição política e, em um cenário de crise sanitária cercada por incertezas, funcionaram como mecanismo de enfrentamento ao surgimento ou agravamento de doenças como ansiedade e depressão.
ABSTRACT The discussion about COVID-19 vaccination has taken on significant proportions in the political and public health debate in Brazil and worldwide. Among the content that circulated on online social networks against or in favor of the vaccine, so-called memes (images, text, audiovisual or hybrid) were identified. These memes represent users’ actions and reactions in various situations, often with a humorous tone. This qualitative research aimed to analyze memes about vaccination in the online environment, collected during the months of December 2021 to January 2022. After applying selection and exclusion criteria to 41 collected memes, six were subjected to visual and content analysis, categorized by theme and meme type. A strong presence of humor was identified, particularly self-humor, where the purpose is to laugh at oneself. Macro memes, consisting of images accompanied by text, were identified, expressing support for vaccination and criticism of information disseminated by anti-vaccine groups and statements made by ex-President Jair Bolsonaro. It was confirmed that memes serve as pieces of political positioning and, in a scenario of a health crisis surrounded by uncertainties, they functioned as coping mechanisms against the emergence or worsening of conditions such as anxiety and depression.
Palavras-chave: cultural digital; memes; vacinas; covid-19.
Keywords: digital cultural; memes; vaccines; COVID-19.
[*]
Universidade Estadual de Maringá (UEM). Av. Colombo, 5790 - Jd. Universitário - Maringá (PR). 72
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Uma análise dos memes sobre vacinação de covid-19 em redes sociais on-line
Introdução
O
maior tempo de interação e exposição de usuários nas redes sociais on-line (RSO) durante a pandemia de covid-19 (2020-2023) condicionou o surgimento de uma infodemia – “epidemia informacional” (Cinelli et al., 2020). Atendendo às recomendações de isolamento e distanciamento social, pessoas ao redor do mundo ficaram mais expostas a conteúdos on-line com informações conflitantes sobre a pandemia, que dividiam a atenção com campanhas oficiais de saúde, entrevistas e falas de especialistas. O cenário de medo e incertezas que advinha no momento de crise foi comparável aos momentos vividos em guerras ou de grandes atentados terroristas (Pulos, 2020). Mas no ciberespaço, também circulavam imagens cômicas sobre a situação (charges ou tirinhas), sendo algumas delas criadas pelos próprios usuários. Muitos deles se valeram de figuras prontas e/ou editadas, rápida e facilmente divulgadas, criando os chamados memes1. O termo que teve sua origem ligada a pesquisas da Biologia, passou a significar conteúdos que são replicados ou viralizados principalmente nas RSOs (Neiva, 2013). Na tentativa de diferenciar os conceitos viu-se nascer palavras como digital memes ou internet memes (Shifman, 2014). Os memes da internet foram objetos de estudos em diversas áreas do conhecimento (Kozlova; Lukianenko; Germanchuk, 2021; Yoon, 2016). No Brasil, destacam-se as pesquisas lideradas por Viktor Chagas que analisa memes políticos como fenômenos do mundo digital (Chagas e Silva, 2021). Não tardou para que o tema recebesse atenção do campo da saúde pública e coletiva (MoyaSalazar; Chicoma-Flores; Contreras-Pulache, 2022). Sobre memes e saúde, muitas pesquisas foram realizadas considerando avaliar a presença dos memes sobre situações chave da pandemia de covid-19 (Geniole et al., 2022; Pulos, 2020). Desde então, foram analisados memes que circularam em diferentes redes sociais (AlRawi et al., 2021; Basch et al., 2021) e desdobramentos de estudos que analisam figurinhas (stickers) em aplicativos sobre o tema (Moya-Salazar et al., 2021). Recuero e Soares (2022) e Coelho e Tondato (2021) focaram
nos memes sobre a covid-19 no contexto brasileiro. Como se sabe, a produção desse conteúdo acompanhou toda a pandemia, incluindo o processo de vacinação. Artigos específicos sobre memes relacionados à vacinação da covid-19 são poucos. Uma revisão de 2021 não havia encontrado nenhum (Moya-Salazar et al., 2021). Desde então, surgiram algumas poucas publicações com diferentes abordagens. Silva Costa e Cavalcanti de Alburquerque (2021) analisaram memes criados por estudantes de biologia sobre covid-19, alguns sobre vacinação. Menezes et al. (2023) também usaram memes em material educativo. Aguiar (2023) estudou memes do perfil da prefeitura de Santa Maria-RS sobre vacinação em uma RSO. Oliveira, Couto e Porto (2023) analisaram memes de secretarias de saúde, concluindo que contestavam o negacionismo científico. Dias de Faria, Silva Nascimento e Pereira Barbosa (2021) mencionaram a música “Vacina Butantan” nas campanhas, um meme do tipo sonoro. Muniz Sampaio e Dilamar Araujo (2021) analisaram memes com jacarés relacionados ao discurso do ex-presidente Bolsonaro. Considerando a diversidade de propostas, metodologias e as lacunas por elas apresentadas, este artigo visa analisar os memes sobre as vacinas para covid-19, considerando seu papel na expressão de posicionamentos e opiniões e críticas sobre governos e vacinas.
Metodologia Neste trabalho desenvolvemos uma pesquisa exploratória de caráter qualitativo empregando análise de conteúdo (Bardin, 2009) em memes da internet. Embora mais amplamente aplicado a conteúdos do tipo textual, a autora destaca que os domínios possíveis da aplicação da análise de conteúdo podem compreender os códigos e suportes “icônicos” como (sinais, grafismo, imagens, fotografias, filmes) – como é o meme. Para a coleta dos memes, a pesquisa considerou a busca na ferramenta “Google Imagens” (sem filtros quanto à resolução ou ao tipo da imagem) usando os seguintes termos em português: “meme”, “vacinação”, “covid-19”, “pandemia” e “quarentena” durante seis dias numa janela temporal de 01 dezembro de 2021 a 31 de
1 – A primeira definição do termo “meme” surge no mundo pré-web, a partir dos estudos do biólogo neo-darwinista Richard Dawkins (2007), que estabeleceu uma analogia entre os memes e os genes. Ele considerou os memes como estruturas vivas que habitam o cérebro humano, dada a sua capacidade de imitação rápida e replicação instantânea. Memes são, em suas palavras, “unidades de transmissão cultural” ou “unidades de imitação” (Dawkins, 2007). revista Fronteiras - estudos midiáticos
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janeiro de 20222. Também se aplicou estratégia de busca utilizando hashtags com os mesmos termos nas RSOs Instagram e X (antigo Twitter), utilizando o perfil de três pesquisadoras ligadas ao Grupo de Pesquisa de Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá. Os memes que remeteram ao tema3 foram salvos em formato jpg (download) e os repetidos foram excluídos.
muitas vezes em figuras públicas. Por fim, os memes de ação popular são aqueles com uma atitude coletiva, como por exemplo: um indivíduo posa para uma fotografia imitando uma ação ou situação que se popularizou em determinado contexto, mas replicado em outro.
Organização dos dados, categorização e classificação quanto ao tipo de conteúdo
Quanto ao tipo dos memes, considera-se que ele é uma peça de comunicação com diversos tipos de conteúdo e que por isso é de difícil mapeamento (Shifman, 2013). Assim, nove gêneros distintos foram apresentados por Shifman (2014): 1) Reaction Photoshops; 2) Photo Fads; 3) Flash Mob, 4) Lypsync, 5) Mishead lyrics, 6) Recut Trailers, 7) LOLcats, 8) Stock Character Macros e, 9) Rage Comics4. Após a leitura da descrição, podemos perceber que alguns desses gêneros se referem a memes de cunho audiovisual (Flash mobs, lipsync, misheard lyrics, recut trailers), logo atendendo ao critério de inclusão de analisar somente memes de imagem estática, restaram os gêneros que serão descritos a seguir: Os gêneros LOLcats e Stock Character Macros se enquadram no tipo de meme chamado “Image Macro”, definido por Shifman (2014). São memes compostos por fotografia e texto inserido em software de edição. Além disso, observamos memes que não se enquadram nesses gêneros, categorizando-os como “imagem macro outra”.
Os memes foram identificados por dois autores quanto ao tema abordado e tipo, e distribuídos em sub-pastas que foram criadas após uma visualização panorâmica dos temas e relacionados aos principais eventos da vacinação durante a pandemia com o auxílio de uma linha do tempo. A análise de conteúdo empregada foi a do tipo categorial, quando se toma em consideração a totalidade de um “texto” (no caso imagem do meme), passando-a pelo “crivo da classificação e do recenseamento, segundo a frequência de presença (ou de ausência) de itens de sentido” (Bardin, 2009, p. 43). Assim, após a identificação dos conteúdos expostos em cada um dos memes selecionados, eles foram classificados em seis categorias temáticas diferentes nominadas no item 3.1. Sobre a capacidade do meme em pautar um determinado assunto e visão de mundo, vale lembrar que quanto ao conteúdo, podemos classificá-los em três distintas dimensões: a) memes persuasivos, b) memes de ação popular e c) memes de discussão pública (Shifman, 2014). Memes persuasivos incorporam aqueles com um discurso de convencimento e são elaborados de forma estratégica para demonstrar apoio a causas ou pode apresentar críticas a situações. Os memes de discussão pública criticam comportamentos ou ações, focando
Quanto ao tipo/gênero do meme
Critérios de inclusão e seleção Reconhecendo que os memes da internet são conteúdos multimodais (imagem, vídeo, animação) (Milner, 2016), analisamos apenas memes estáticos (imagens), com boa resolução e legibilidade. A seleção foi feita por dois autores do artigo, excluindo conteúdos audiovisuais e/ou sonoros. Após notar a predominância dos memes do tipo macro,
2 – Os dias que houve as consultas foram (sextas-feiras): 03/12, 10/12, 17/12, 14/01, 21/01 e 28/01. Não foram realizadas consultas nas sextas dos dias (24/12, 31/12 e 07/01/2022). O motivo para realizar essa consulta em cada semana se deu após um pré-teste em dias seguidos e os resultados apresentados pela busca foram os mesmos do dia anterior. 3 – Lembra-se que alguns usuários acrescentam hashtags nas legendas em publicações diversas para amplificar uma postagem, mesmo que não fale diretamente sobre o tema sugerido pela hashtag. Isso foi verificado durante o processo de coleta, quando a hashtag “covid-19” foi utilizada em conteúdos diversos que fugiam do foco do projeto. 4 – a) Reaction Photoshops: consistem em imagens manipuladas em software de edição em que se recorta uma determinada situação (ex: pessoa e paisagem) e a coloca em diferentes cenários e momentos; b) Photo Fads: consistem em fotografias planejadas (não manipuladas), onde as pessoas reproduzem em diversos locais uma pose; c) LOLcats: são fotografias de gatos sobrepostas por textos curtos (imagens macro); d) Stock Character Macros: memes de imagens macro onde o “personagem de estoque” é posicionado ao centro com um fundo gráfico multicolorido e texto sobreposto; e) Rage Comics: são formados por um grupo de personagens ilustrados onde cada um expressa um estado de humor. 74
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Uma análise dos memes sobre vacinação de covid-19 em redes sociais on-line
optamos por analisar apenas esse tipo. A análise foi realizada logo após a coleta, dada a necessidade de familiaridade com o contexto, já que esses memes têm uma essência de “piada interna” da cultura digital (Shifman, 2014).
Resultados A Categorização quanto ao conteúdo do meme Sobre memes e vacinação de covid-19, identificou-se seis categorias temáticas: a) expectativa para a vacina, incluindo ansiedade e comportamentos durante a vacinação (Ex.: reserva de local na fila); b) reações contra/a favor da vacina, com discursos governamentais e de grupos antivacina (Ex.: “virar jacaré” após imunização); c) campanha de vacinação, destacando benefícios de forma descontraída; d) diferenças entre vacinas disponíveis no Brasil e seus efeitos; e) preocupação com novas variantes do vírus; f) memes sobre vacinação infantil e opiniões dos pais. Um total de 41 memes sobre vacinação foram coletados. Destes, 13 (31%) tratavam da expectativa para a vacina, 8 (19%) das reações contra/a favor, 4 (10%) sobre uma potencial campanha de vacinação, 8 (19%) das diferenças entre elas, 5 (12%) das novas variantes e 3 (8%) da vacinação infantil. Quanto ao gênero, os memes foram assim dis-
expectativa para a vacina reações contra/a favor campanha de vacinação diferenças entre as vacinas novas variantes
Reaction Photoshops
2
Photo Fads
1
tribuídos: 3 para Reaction Photoshops, 1 para Photo Fads, 0 para LOLcats, 10 para Stock Character Macros, 0 para Rage Comics e 25 para Imagens Macro Geral (que não são enquadradas como Stock nem LOLcats). Dentre eles, 2 apresentam especificidades que não se conseguiu classificar em nenhuma das categorias propostas por Shifman (2014) (ver tabela 1). Aplicando os critérios de inclusão: memes estáticos (imagens) e do gênero macro, cada um dos seis memes selecionados para a análise contemplava um dos temas/categorias abordados. Todos os selecionados foram categorizados como memes de discussão pública (ver figura 1 na próxima página).
Discussão A pandemia de covid-19 foi a primeira a coexistir simultaneamente com a era digital e, consequentemente, com os memes da internet. Como era de se esperar, a Internet se transformou em palco para a discussão sobre o tema e para a circulação de campanhas contra e a favor das medidas preventivas, pro e contra as vacinas (Johnson et al., 2020). Nessa infodemia, os memes foram largamente utilizados e se constituíram em objetos de interesse para o campo da comunicação em saúde e saúde coletiva (Eysenbach, 2020). Inicialmente acreditávamos que os memes poderiam funcionar como campanhas não oficiais para a vacinação, inclinando usuários para uma atitude a favor dos imunizan-
LOLcats
Imagens Macro Stock Character Macros
Outras
2
7
1 2
6 1
3
5
1
4 3
1
vacinação infantil
Rage Comics
Não identificada
1 1
Tabela 1. Distribuição dos memes quanto aos gêneros
Tabela 01 – Distribuição dos quantoofaos gêneros (Fonte: autores) / Distribution Tablememes 1. Distribution memes according to genres Fonte: autores of memes according to genres (Source: authors) Source: authors
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Figura 1. Memes selecionados para a análise Figure 1. Selected memes for the analysis 76
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Uma análise dos memes sobre vacinação de covid-19 em redes sociais on-line
tes e cobrando que outras pessoas o fizessem. Esse aspecto pôde ser observado nos memes analisados, confirmando que eles reforçam e complementam de maneira descontraída os ideais defendidos por quem idealiza, cria e o compartilha (Bayerl e Stoynov, 2016; Shifman, 2013). Uma vez que consistem em mídias capazes de revelar os posicionamentos políticos do usuário, os memes analisados se mostraram como uma voz dissonante de muitas ações e discursos de autoridades políticas na época, e confrontavam discursos antivacina ou de hesitação a se tomar a vacina. A atitude de apoiar a vacina através do compartilhamento de memes pode influenciar comportamentos, conforme evidenciado em estudos citados a seguir. Em uma pesquisa liderada pelo Meta/Facebook, usuários que indicaram ter votado nas eleições dos EUA motivaram mais pessoas de suas redes a votarem. Isso mostra como a exposição a conteúdos online pode afetar comportamentos offline (Bond et al., 2012). Estudos também revelaram que usuários das redes sociais tendem a adotar comportamentos e emoções de suas redes de conhecidos (Guillory et al., 2014). Pesquisas recentes sugerem que memes pró-vacinação aumentam a intenção das pessoas de se vacinarem contra a covid-19 (Geniole et al., 2022). Os autores destacam que isso pode ter acontecido por uma série de fatores e elencam teorias de comparação, identidade social e de comportamento para explicar o fenômeno. No entanto, a exposição a conteúdos anti-vacinação também pode influenciar decisões (Jolley e Douglas, 2014). A análise individual dos memes selecionados a seguir visa problematizar o conteúdo e o contexto das discussões sobre vacinas no Brasil, selecionamos um meme em cada categoria temática para exemplificar como o tema atravessou diferentes momentos do processo de vacinação da população.
Meme 1: UBS e expectativa para a vacina O primeiro meme, pertencente à categoria macro, é uma montagem na qual ao fundo se vê a fotografia de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e, na sua frente, pessoas na fila de espera da vacinação. Entre as pessoas que esperam e que foram editadas, vemos a me-
nina Rayssa, conhecida pelo vídeo fazendo a “pose de maloqueira”5, meme de 2020, acompanhada do bordão “trava na beleza”, frase dita pelo seu irmão que fingia ser um fotógrafo. Após a viralização, o vídeo ganhou diversas versões caracterizando-o também como um meme do tipo reaction photoshop (Shifman, 2014), uma vez que a foto da menina foi recortada e sobreposta a diferentes cenários, como este da UBS no meme 1. Do lado direito de Rayssa, há o recorte da jovem Carol Souza, conhecida pelo meme “invi invisível”6. Trata-se de um vídeo em que sua irmã afirma estar comemorando um ano de namoro e a garota pergunta: “que namoro? Com o invi?” e em seguida, a irmã replica: “que invi?” e ela responde debochadamente: “invisível?”. O meme circulou nas RSO em 2020 principalmente pela expressão facial de Carol. O meme 1 é então uma edição com a soma de outros memes, um representante da cultura da remixagem e de práticas próprias dos conteúdos que circulam nas RSO (Lemos, 2005). Como fenômenos próprios da cibercultura, memes são recombinados, mensagens iteradas que são compartilhadas rapidamente por membros de uma cultura digital participativa com a intenção de continuar um tema/conversa (Wiggins e Bowers, 2015). Nesse meme, a diversidade e a coletividade do ato de se vacinar está representada na própria composição memética. Além de personagens que se transformaram em memes, o Meme 1 também incorpora práticas de edição de imagem que são comuns ao gênero: uso de fotografias provenientes de bancos de imagens (fila de pessoas aleatórias retirada de um desses sites), foto da UBS provavelmente coletada em buscadores de imagens7 e a construção de um imaginário do que é ser brasileiro. Essa composição permite a leitura que a vacinação foi um evento oportuno para uma festa com churrasco e com a presença de vendedores de “espetinhos” - um tipo de comércio informal em muitas cidades brasileiras. Todos os indivíduos mostrados na figura passaram por uma edição extra para inserção de máscara de proteção contra a Covid-19 no rosto (pois não estão portando as máscaras nas imagens/memes originais). O sentido do humor desse meme está na representação de comportamentos e estereótipos da população. Mesmo que não haja uma identificação direta do usuário com o que
5 – Que consiste na inclinação do corpo para frente, os dedos indicador e médio apontados para baixo e a boca fazendo um biquinho https://museudememes.com.br/collection/pose-de-maloqueira 6 – Vídeo original> https://www.youtube.com/watch?v=SYJXLE0HV1k&ab_channel=LC7 7 – Provavelmente a imagem foi retirada do seguinte site “Novo Posto de Saúde de Furnas será inaugurado no dia 17 de abril”: https://www.surubimnews.com.br/novo-posto-de-saude-de-furnas-sera-inaugurado-no-dia-17-de-abril/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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está sendo retratado, consegue-se compreender que o meme representa uma atitude positiva para a vacinação. A imagem destaca o local da vacinação, a UBS, presente em todo o território e ambiente já conhecido por outras campanhas de vacinação8. A UBS cumpriu o papel integrante e visível de uma rede de assistência em saúde criada e incorporada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e o local confirmou seu status de “porta de entrada” ao sistema de saúde. No início da pandemia, alguns veículos de comunicação apresentaram desconfianças quanto à capacidade do sistema (SUS) em lidar com o problema e comparações com outros países foram tecidas (Gonçalves et al., 2022). Antes disso, já se via, em diversos momentos, que o sistema de teve um enquadramento noticioso que o colocou constantemente associado às falhas, má gestão ou enquadrado como ineficiente pela mídia (Silvae Rasera, 2013). Mas diante de conflitos gerados pelo governo federal9, da demissão e trocas de ministros da saúde (três no primeiro ano da pandemia), viu-se que embora a ideia de “SUS como problema” tenha continuado presente em diversos veículos, esse sentido não foi confirmado em matérias de um veículo de comunicação (Rangel-S et al., 2022). Pelo contrário, foi destacada “uma crítica ao subfinanciamento que restringe a atuação do sistema” (p.606). Foi nesse momento que a imagem da UBS como “porta do SUS” ganhou visibilidade em falas de autoridades que afirmavam a capacidade do país em vacinar a população e da capilaridade do sistema. Sua presença no meme recupera essa memória e, naquela ocasião, a ida ao “postinho” foi desejada. Assim, o meme dialoga com a construção do sentido do SUS como uma rede capaz de atender a demanda e o desejo de se estar na UBS para se vacinar.
Meme 2: Jacarés e reações contra/a favor da vacina Trata-se de um tweet (RSO: X/Twitter) com quatro imagens e um texto em que se pergunta: “Após a vacinação, qual jacaré você escolheria? ” A imagem mostra quatro opções: Zé Jacaré, do Pica Pau; Cuca, do Sítio do Pica Pau Amarelo; e “o Jacaré”, do É o Tchan”10. Os memes que relacionavam o réptil com a vacina surgiram após a declaração dada pelo então presidente, Jair Bolsonaro, em um evento na cidade de Porto Seguro - BA, em dezembro de 2020: “Lá no contrato da Pfizer, está bem claro: nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu”11. Sobre o comportamento do presidente e como isso pode ter afetado os índices de vacinação, o artigo de Peixoto, Leal e Marques (2023) já havia indicado que a posição política de um líder impacta na aceitação de uma população e em seu comportamento de saúde (mais ou menos saudável). Os autores demonstraram que mantendo as características sociodemográficas da população e a estrutura do SUS, o grau de “bolsonarismo” nos municípios brasileiros (medidas pelo total de votação que o candidato recebeu no primeiro turno em 2022) impactou negativamente em todas as taxas de cobertura vacinal, especialmente na terceira dose (de reforço). Após a fala do ex-presidente, usuários que eram a favor da vacina começaram a circular memes que ironizavam o discurso e passaram a ressignificar a fala como uma expressão de ignorância, revertendo assim o jacaré em um símbolo para o incentivo à vacinação. Ou seja, a mobilização pelo humor não se deu apenas como demonstração
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8 – Os locais e localização da vacinação foram divulgados extensivamente em algumas chamadas de jornais locais, filas para a vacinação de covid-19 nesses e em outros espaços foram imagens comuns na mídia. Embora bastante díspares em sua distribuição geográfica, as UBS possuem uma arquitetura padronizada e é mais ou menos similar em diversas cidades brasileiras. 9 – O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL) foi um dos únicos entre os chefes de Estado da América do Sul e do Grupo dos 20 a declarar não ter a intenção de se vacinar (Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/09/20/bolsonaro-e-unico-dos-presidentesdo-g20-sem-vacina-na-assembleia-geral-da-onu.ghtml) e impôs sigilo de 100 anos na sua carteira de situação vacinal. Além de atacar com frequência os avanços da ciência em relação à pandemia (fonte: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/ artigo-na-lancet-escancara-ataques-a-ciencia-do-governo-bolsonaro-na-pandemia-de-covid-19.shtml). Ele trouxe à tona informações incorretas, não cumpria as recomendações de prevenção da Organização Mundial da Saúde e ainda induzir o público a seguir suas próprias orientações (Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-10-20/bolsonaro-e-lider-e-porta-voz-das-fake-news-no-pais-dizrelatorio-final-da-cpi-da-pandemia.html) 10 – A primeira e a terceira são do personagem Zé Jacaré, do desenho animado Pica Pau (Woody Woodpecker, produzido por Walter Lantz); a segunda é da personagem Cuca, popularizada pelo escritor Monteiro Lobato em seus livros e pela versão do programa de televisão infantil Sítio do Pica Pau Amarelo, produzido e exibido em 2001, pela TV Globo; já na última, vemos o ator e ex-dançarino Edson Cardoso – “o Jacaré”, afamado pelo grupo de axé “É o tchan” na década de 90. 11 – https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57605681 78
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de esperteza do usuário que o criou, como nos lembrou Werneck (2020), mas nesse caso o humor esteve associado à circulação da crítica. De fato, uma grande quantidade de memes expressou críticas ao governo na pessoa do presidente Bolsonaro: que foi considerado “o vírus do Ipiranga”. Sobre a fala do jacaré, desconhece-se até o momento memes de grupos políticos favoráveis ao governo Bolsonaro que tenham adotado o jacaré como algo pejorativo. A fala do governo e sua memeficação também reconhece a estratégia de Bolsonaro que consiste em soltar frases polêmicas e, assim, virar notícia. Viktor Chagas (2021) identificou que o humor não é exclusivo às críticas ao ex-governo, mas já havia assumido papel fundamental na vitória do ex-presidente nas primeiras eleições, quando ainda candidato se aproveitou da sua participação em programas de auditório e humorísticos. Naquela oportunidade, continua o autor, Bolsonaro construiu uma aura de político folclórico que garantiu a ele um passe livre para não só proferir ofensas e ideias de caráter antidemocráticas. Mas a fala rapidamente foi transformada em deboche por parte da população on-line, compreendendo que estávamos vivendo num período de agitação social e crise, quando justamente há uma intensificação do compartilhamento de memes. Como nos lembra Chagas (2021) estudar os memes é “compreender, em algum sentido, os reflexos da conjuntura política nas redes”. Sabe-se que alguns artigos que analisaram memes que tinham como tema as reações do corpo à vacina, classificaram eles como sendo negativos para as campanhas oficiais de vacinação (Basch et al., 2021), ou seja, memes que falam da reação as vacinas foram entendidos pelos autores como contribuidores para uma atitude de “hesitação em tomar a vacina”12. No entanto, no contexto de circulação do meme de jacaré no Brasil, essa associação direta não pode ser feita. Vimos que a atitude associada ao compartilhamento desse meme, e os comentários a ele vinculados, demonstravam apoio à vacinação – como algo desejado e a ser comemorado. Se distanciar do grupo que é contrário a vacinação e ao “bolsonarismo” pode ter contribuído que mais pessoas buscassem replicar o conteúdo e irem a se vacinar (Geniole et al., 2022). O humor que emergiu da presença do Jacaré fez com que esse animal, durante as fases de vacinação de covid, se
transformasse em um símbolo da luta contra o governo. Nas RSOs vimos pessoas indo se vacinar com fantasias, gestos ou camisas com imagem do animal, tornando o meme do jacaré um meme de ação popular. Também foi verificado filtros no Instagram, figurinhas e a o uso mais frequente dos emojis de jacaré nos ambientes on-line. Esse “efeito jacaré” provê insights sobre os eventos políticos e sociais e são meios para o compartilhamento público de opiniões e informações sérias (Al Zidjaly, 2017; Huntington, 2013). No artigo “Revenge by Photoshop”, Bayerl e Stoynov (2016) perceberam que os memes se tornaram armas políticas e de protesto nas mãos dos cidadãos ao atuarem como espécie de denúncia contra medidas questionáveis de autoridades. Foi essa característica que se pôde observar no meme 2, uma ação conectiva baseada numa mobilização de compartilhamentos personalizados de conteúdos nas RSOs, quando pessoas também passam a ser influenciadas pelas redes que mantêm laços (Bennett e Segerberg, 2012). Esse aspecto político e de engajamento pôde ser percebido com mais intensidade no meme 3, que analisaremos a seguir.
Meme 3: Butantan e campanha de vacinação O terceiro meme selecionado trata-se de uma imagem manipulada bastante utilizada em contextos de demonstração de apoio a alguma causa ou pessoa. A imagem original sem edições se refere a uma publicação realizada no Twitter em 2016 pela influenciadora Arii, conhecida na plataforma Musica.ly, que postou uma sequência de quatro fotos suas em diferentes poses, sendo uma dessas a que passou a ser remixada e viralizou na internet como “fangirl meme” em 201613. Na versão do meme selecionado, os usuários repetem a imagem alterando os elementos que são adicionados na fotografia: pôsteres na parede, logos e marcas nas roupas e acessórios são editados como se fossem de fato personalizados de acordo com o tema de defesa do meme. Neste caso, ela exerce o papel de “fã” ou “torcedora” do SUS e do Instituto Butantan, responsável no Brasil pela fabricação da vacina Coronavac. O humor surge da defesa institucional em um debate político entre o governador de São Paulo, João Doria, e o
12 – Por hesitação em se vacinar MacDonald (2015) define como o “atraso em aceitar ou se recusar a tomar a vacina mesmo com a disponibilidade dela nos serviços de vacinação”. 13 – https://museudememes.com.br/collection/menina-fa revista Fronteiras - estudos midiáticos
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governo federal14. A Coronavac enfrentou rejeição internacional e nacional devido à sua origem chinesa, associada a teorias conspiratórias sobre a criação do vírus (Recuero e Soares, 2022). Reações xenofóbicas foram disseminadas (Coelho e Tondato, 2021), e o próprio presidente da república se manifestou contra a Coronavac em seu perfil do X/Twitter em tom pejorativo como “a vacina chinesa de João Dória” (Monari e Sacramento, 2021). Um estudo recente analisou publicações no X/ Twitter, destacando que usuários frequentemente associavam a China e a parceria com farmacêuticas chinesas à ineficácia e baixa qualidade da Coronavac (Recuero e Soares, 2022). Outro estudo mostrou a presença do termo “vírus chinês” em manchetes de jornais, reforçando essa associação (Gonçalves et al., 2022). Assim, o meme da “garota fã” sobre a vacina do Butantan serviu como instrumento de influência para aumentar a adesão à vacina e apoiar o instituto que vinha rejeitado em alguns discursos. Além disso, outros memes, como o remix da música “Bum Bum Tam Tam” de MC Fioti, intitulado “Vacina Butantan”15, foram usados para promover a vacinação em diferentes plataformas, incluindo perfis institucionais (Dias de Faria; Silva Nascimento; Pereira Barbosa, 2021). Os memes que defenderam a instituição e denunciaram as ações problemáticas de autoridades, podem ser considerados como memes de protesto (Bayerl; Stoynov, 2016). Estes são agentes responsáveis pela democratização do ativismo on-line, promovem a aproximação dos cidadãos à política e a desmistificação da ideia hierárquica de vigilância dentro do sistema, uma vez que os indivíduos se tornam testemunhas ao produzir e compartilhar esses conteúdos como forma de protestos na internet. Em diversos casos esses memes passam a corrigir o desequilíbrio presente nas relações de poder do Estado. Os memes digitais têm potencial para formar e expressar opiniões políticas além de proporcionar diálogos e debates públicos a respeito de temas socialmente relevantes. Tendo isso em vista, é possível dizer que esses conteúdos - estando diretamente relacionados ou não com temas políticos - proporcionam uma participação mais irrestrita e efetiva da população, principalmente quando
o meme dispõe de uma flexibilidade de referência que permite a ampliação de seu significado. Ou seja, no ato de compartilhar o usuário pode acrescentar sua consideração sobre o assunto de acordo com a interpretação pessoal, inclusive se estiver discordando do posicionamento indicado no meme, já que o contexto em que ele é reproduzido, mesmo que difira do original, também gera impacto na produção de sentido (Pulos, 2020). Portanto, o meme 3 foi capaz não somente de demonstrar apoio ao Instituto Butantan e de se posicionar favoravelmente à vacina quando compartilhado, mas também de influenciar politicamente usuários que possam ser contra a vacinação ou ter algum tipo de insegurança em relação à Coronavac em decorrência das desinformações disseminadas. Assim, numa escala maior, a defesa do Butantan também simbolizou a defesa da ciência e das instituições de pesquisa brasileiras.
Meme 4: as reações (in)desejadas e diferenças entre vacinas O meme 4 é composto por uma sequência de duas imagens diferentes, cada uma sobreposta com texto que aponta uma comparação da forma como as vacinas agem no organismo. A primeira, retirada de um banco de imagens, consiste em um cenário escolar aparentemente estrangeiro onde uma professora e crianças estão alegres simulando a realização de atividades didático-pedagógicas, somada ao texto: “Coronavac treinando o sistema imunológico”. Já a segunda imagem trata-se de uma cena do filme “Tropa de Elite” (2007) em que o personagem do capitão da polícia militar, interpretado por Wagner Moura, segura pela gola da farda um dos policiais - chamado de “aspirante”, que está participando do processo de treinamento para assumir o cargo do capitão, substituindo-o no BOPE (Batalhão de Operações Especiais). Na imagem descrita: “Astrazeneca treinando o sistema imunológico”, simbolizando uma reação mais “violenta” da vacina elaborada em parceria com a Oxford comparada ao comportamento agressivo do personagem
14 – https://www.dw.com/pt-br/butantan-diz-que-ataques-de-bolsonaro-%C3%A0-china-afetam-vacinas/a-57450911 15 – A parceria do artista com o Instituto Butantan surgiu não apenas da semelhança entre os nomes, mas também da ideia de unir dois elementos brasileiros: o funk, que representa culturalmente grande parte da população, e a vacina, que estava sendo produzida no país. O videoclipe da paródia soma mais de 14 milhões de visualizações e quase 1 milhão de curtidas na plataforma do youtube (dados de agosto de 2022). 80
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em questão que busca ensinar o outro policial16. É possível compreender que o sentido de humor se dá pelo contraste exagerado entre as duas imagens, que retratam treinamentos e técnicas “educacionais” totalmente distintas. A comparação simboliza, suspostamente, os efeitos mais comuns relatados pela população imunizada com duas marcas de vacinas. Apesar das reações serem bastante imprevisíveis, visto que cada corpo pode reagir de forma diferente às vacinas, essa impressão se justificou pelos comentários que emergiam nas RSOs e pelo tipo de tecnologia empregada pelas diferentes vacinas. Por mais que esse tipo de meme possa parecer inicialmente desencorajador a vacinação por apresentar a reação da vacina e, desta forma, ser classificado por Basch et al. (2021) como “desestimulante”, percebemos uma atitude favorável à vacinação e que coloca esse meme como sendo similar ao meme 2 em suas intenções. Galhardi et al. (2022) destaca que a crença de que as vacinas de covid-19 não tinham sido suficientemente estudadas, tendo em vista seu rápido desenvolvimento, foi “um dos fatores associados à hesitação vacinal, ao que se acrescentam a desconfiança quanto à origem da vacina e fatores políticos-ideológicos” (p.1851). Naquele contexto, diversas vacinas estavam disponíveis e diferentes grupos em diversas cidades experimentaram a vacinação com diferentes marcas (Pfizer, Astrazeneca/Oxford, CoronaVac/Butantan e Janssen). Não é de se espantar que a experiência coletiva e simultânea dentro de um mesmo grupo de vacinação geraria comparações quanto às reações das diferentes marcas e tecnologias dos imunizantes17. Houve por um momento pessoas que gostariam de escolher qual vacina tomar, num fenômeno que ficou conhecido como “sommelier de vacina”18 nas RSOs. O comportamento de rir da reação “agressiva” de uma das vacinas, antes de um desestímulo à vacinação, pode representar uma confirmação de que o usuário foi vacinado e está sentindo os efeitos colaterais da resposta do corpo a esse evento. O ato de encarar com humor a si mesmo sofrendo as reações remete a um comportamento notável desde o início da pandemia, com a chegada do vírus da Covid-19 no país, quando usuários produziam
memes que zombavam de mais uma crise chegando até nós, como se não estivéssemos com problemas o suficiente (Werneck, 2020). Esses memes que declaram a reação individual a cada vacina lembra que os memes são auto-reflexivos e trazem a relação de identificação entre os internautas além da comicidade (Kariko e Anasih, 2019). No novo contexto essa reação a vacina, tida como negativa em outro tempo, foi encarada como algo positivo e isso se deve também, porque diferentes das outras, a vacina da covid-19 foi aguardada ansiosamente como um dos recursos mais efetivos para o controle da pandemia, quando se via um aumento dos números de casos e mortes, representando, portanto, uma esperança. Outro aspecto interessante do meme 4, é que ele confronta na imagem duas realidades que parecem ser diferentes: ambiente escolar estrangeiro x ambiente de rua brasileiro. O meme faz sentido para aqueles que assistiram ao filme e reconhecem a truculência policial no nosso país. Isso reforça que a análise do meme deve levar em consideração o aspecto cultural de sua criação/ circulação, ou seja, é importante destacar com Shifman (2014) e Gal; Shifman; Kampf (2016), que um meme não se define sozinho. A estrutura do meme é composta por três dimensões culturais facilmente replicáveis: o conteúdo, a forma e a posição. Conteúdos já replicados de outras fontes estão sujeitos à imitação e/ou transformação no espaço on-line por meio de diversos usuários, tornando os memes exemplos de uma cultura da remixagem e da participação (Leiser, 2022). Ou seja, a análise deste meme deve considerar um olhar conjuntivo, colocando-o no contexto e momento em que foi criado e circulado (Dimitrov et al., 2021). Os memes constroem seu significado numa ecologia de mídias que o circulam, fazem por vezes menções a frases ditas, a outros memes, ou a conteúdos divulgados nos veículos tradicionais (como é o caso do filme Tropa de Elite). São, assim, itens que se articulam e não peças isoladas. Por fim, cabe lembrar que a identidade brasileira nos memes é largamente atravessada por um humor muito peculiar, “que faz uso intenso de motes autodepreciativos, como se risse da própria desgraça” (Lunardi
16 – Nessa cena em contexto, há um intuito de intimar o participante devido a sua conduta imprudente durante uma dinâmica na qual corria risco de ser baleado. 17 – No momento da circulação deste meme, havia no Brasil milhares de pessoas que estavam sendo vacinadas e não era raro ler nas RSO relatos de usuários sentindo os sintomas da vacina, muitas delas comemorando a vacinação mesmo sob os efeitos colaterais. Em algumas postagens, pessoas se mostravam desconfiadas se realmente haviam sido vacinadas, pois não sentiam “nada” e preferiam o “tratamento de choque” mostrado por outros usuários que comparavam as reações. 18 – https://www.cnnbrasil.com.br/saude/mais-de-70-das-cidades-brasileiras-registram-casos-de-sommelier-de-vacina/ revista Fronteiras - estudos midiáticos
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e Burgess, 2020). Essa autoironia foi identificada como um elemento característico dos memes brasileiros por outros pesquisadores, e os memes se apresentam como “genuinamente brasileiros porque são paradoxais e complexos, como a nossa cultura. Quando rimos do Brasil é como se, ao mesmo tempo, a gente sentisse vergonha e orgulho de ser brasileiro” (Canofre, 2017).
Meme 5: novas variantes O meme 5 apresenta a mesma configuração do meme 4: duas imagens diferentes com textos sobrepostos. Na primeira foto, observa-se um cavaleiro medieval usando uma armadura, segurando uma espada em posição de defesa, com a frase “eu vacinado com 2 doses”. Na imagem abaixo, o mesmo personagem está sendo atingido por uma flecha em uma fresta que possibilita a respiração, contendo a frase “a variante delta”. Essa segunda imagem faz referência ao fato de não estarmos totalmente seguros e isentos de contaminação mesmo com o esquema vacinal completo. Após buscas pela origem das imagens, encontramos a fonte no site Know Your Meme19. O meme é nomeado como “Medieval Knight with Arrow In Eye Slot” (Cavaleiro medieval com flecha na abertura dos olhos) e é bastante utilizado nas configurações de imagem macro, para representar situações de risco e azar mesmo quando o indivíduo se sente protegido. Trata-se originalmente de uma imagem de estoque que foi editada passando a ser base dos memes. Levando em consideração que o meme 5, dentre os selecionados, é o primeiro que retrata um cenário onde a população já teve acesso a duas doses da vacina, identifica-se que a mensagem principal parte para outro caminho de interpretação – o de cuidado mesmo após vacinado. Neste caso, o meme busca humorizar uma situação de preocupação que atingiu muitos brasileiros: as novas variantes do vírus. O tom do meme foca no alerta para que os usuários sigam adotando comportamentos cautelosos após a vacinação pois ela não garante proteção total contra as novas variantes do coronavírus. Assim como nos memes anteriormente analisados, este também trata com comicidade um contexto de aflição diante de uma possível nova onda de contaminações.
Uma pesquisa na época mostrou que muitos usuários de RSOs que adquiriram ou agravaram seus quadros de ansiedade e depressão durante a pandemia consumiam memes frequentemente como mecanismo de defesa frente a esses distúrbios. As pessoas ficaram mais estressadas, ansiosas, sentiram medo, pânico e apresentaram uma queda na qualidade de vida e saúde mental (Fofana et al., 2020). Foi nesse momento que um estudo chegou à conclusão que os memes foram capazes de auxiliar indivíduos como potenciais mecanismos de enfreamentos para os medos e sintomas leves ou severos de ansiedade e depressão na época (Akram et al., 2021). Por fim, Marta Dynel (2021) mostrou que nesses contextos os memes podem ser encarados como “dark humour” - um tipo de humor que é criado ou inspirado em graves eventos, incluindo morte e doença. Estudos que analisaram o comportamento humano diante do uso de RSO e do consumo de conteúdos como esses memes apontam que a maior parte dos usuários prezou pelo humor. Por meio de representações cômicas de eventos indesejados e suas possíveis reações, as pessoas se tornam capazes de encarar suas dificuldades de maneira mais leve (Kariko e Anasih, 2019).
Meme 6: (hesitação) na vacinação infantil O meme 6 se configura de forma dividida, com duas imagens diferentes, porém neste os textos não estão sobrepostos, embora estejam relacionados dando sentido à escolha. A primeira imagem contém a captura de uma cena do filme “Bird box” (2018), na qual a protagonista Sandra Bullock aparece com uma venda nos olhos20. Ao lado, o texto diz “Não vou vacinar meu filho. Tenho medo dos efeitos da vacina”, uma associação de que essas mães estão mais preocupadas com os efeitos da vacina para não vacinar seus filhos, mas “cegas” quanto a realidade. Enquanto isso, na imagem abaixo, uma fotografia caseira de alimentos industrializados voltados para o público infantil vem acompanhada do texto “A lancheira da criança na escola todos os dias”, indicando uma provável contra-
19 – Criado em 2012 por um usuário do site DevianArt - comunidade online de artistas que compartilham seus trabalhos digitais e que também atuam como curadores dessas obras. Trata-se de uma plataforma que funciona como espécie de catálogo desses conteúdos, documentando tanto imagens quanto vídeos e frases que viralizaram na internet e se tornaram memes 20 – No sentido do meme, os olhos vendados é um signo que ilustra a decisão de se negar a enxergar a realidade, mesmo que este não seja o contexto da cena, fato que permite às pessoas que não assistiram ou não sabem do que se trata “Bird box” a mesma compreensão da mensagem que a imagem quer transmitir. 82
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dição de negligenciar a saúde das crianças ao introduzir alimentos ultraprocessados que são prejudiciais. Nesse meme vemos uma assinatura: “dicaspediatria”. A assinatura do Instagram é a de um perfil de um profissional médico responsável pela postagem (perfil voltado à pediatria)21. Foi o único meme com marca e assinatura de um profissional da saúde o que dá a ele um caráter ainda de mais adesão e de incentivo aos pais a vacinarem seus filhos que conhecem o perfil, ou que venham a ser atendidos por esse profissional. Sobre os memes criados no contexto da pandemia, Pulos (2020) introduz uma categoria da comunicação e do discurso chamada “memes de crise”, que consistem em conteúdos produzidos com o intuito de repassar informações disponibilizadas pelos atores da pandemia. Esses atores incluem os cidadãos, políticos, jornalistas, profissionais da saúde e da ciência, atores que colaboram para a participação coletiva no debate público, seja em tom de sarcasmo, brincadeira ou mesmo com seriedade. Esse tipo de meme se distingue dos demais na maneira como cumpre o seu papel devido à particularidade da situação em que é idealizado, isto é, por ser criado durante um momento único da história, enquanto memes comuns podem surgir de qualquer acontecimento típico do cotidiano. Desta forma, o meme quando desintegrado para análise possibilita a percepção de diferentes posicionamentos, opiniões e ações a respeito da pandemia da Covid-19, além de ser uma ferramenta capaz de agregar ao discurso público um conteúdo que os meios convencionais não conseguem. A partir dos memes de crise, os usuários das RSOs dissertam sobre suas considerações em relação à experiência de vivenciar a pandemia da Covid-19 e somado a isso, novos parâmetros e concepções socioculturais são criados e comentados por meio desses conteúdos (Pulos, 2020). No caso do meme selecionado, o comentário é como uma resposta crítica ao negacionismo presente no discurso de muitos pais que optaram por não levar os filhos para se vacinar, mas por outro lado, parecem negligenciar a saúde das crianças em outras áreas. Entre as novas perspectivas que surgiram no decorrer da crise do coronavírus, o movimento antivacina foi uma das mais marcantes, levando em consideração que antes desse período os grupos contra a vacinação não eram tão solidificados e não tinham tanta visibilidade. Posto isso, o debate público e a expressão de opiniões políticas que os memes promovem podem ser mecanismos para combater a desinformação que cerca
os princípios antivacina, visto que do mesmo modo que as Fake News possuem um amplo alcance, os memes também são capazes de se espalhar rapidamente.
Conclusão Os memes analisados destacaram a Internet como um espaço de debate público, expondo diversas perspectivas políticas e sociais. Todos foram categorizados como memes de discussão pública, com os de 2, 3 e 6 subcategorizados como memes de protesto (Bayerl e Stoynov, 2016), denunciando, de maneira informal, ações problemáticas de autoridades. No entanto, as categorias propostas por Shifman (2014), idealizadas há uma década, revelaram-se limitadas. Os memes são peças dinâmicas e se diversificaram em categorias que não se encaixam mais nas criadas pela autora. Todos os memes analisados se mostraram como peças com atitudes favoráveis à vacinação. Isso talvez se explique pelo contexto político do momento, quando mesmo com as reações do corpo à vacina, consideradas por alguns autores como memes contrários à vacinação, tenham sido interpretados por nós, em diálogo com outros autores, como favoráveis à vacinação, num tipo de meme de humor e do rir de si mesmo. Novos recortes e a busca por memes em grupos fechados (ex: WhatsApp, grupos no Facebook) poderiam ter provido exemplos contrários à vacinação. A busca se valendo da ferramenta do Google Imagens e não a busca direta em contas em RSOs pode ter enviesado os dados coletados. Estudos comparativos sobre memes de vacinação da covid-19 entre países podem revelar percepções contrastantes, uma vez que vimos que elesestiveram fortemente ligados à agenda política e jornalística nacional. A seleção manual de memes foi uma limitação, dada a dificuldade de coleta automática, que diferente de Emojis, não possuem códigos (como os emojis ou stickers) ou não necessariamente são associados a hashtags. Porém, desconhecemos pesquisas que empregaram algum método computacional em larga escala para identificar, coletar e analisar memes. Por fim, a metodologia de análise de conteúdo foi utilizada, mas outras abordagens, como análise do discurso e semiótica, poderiam enriquecer a discussão e oferecer novos insights.
21 – Segundo a descrição do perfil na rede social Instagram em outubro de 2023: “Criador(a) de conteúdo digital. Dr. Kairon Caproni. CRM 54083/RQE 40495 Membro da SBP. Pós Graduado Emergência Pediátrica Albert Einstein. revista Fronteiras - estudos midiáticos
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