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| dezembro de 2017 |

pi primeira impressão

QUAL É O SEU PECADO?


Editorial

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Pecado é não pecar

m meados de ag osto, quando fizemos a última reunião de pauta da edição 48 da Primeira Impressão, tudo parecia estar resolvido. Os 22 repórteres escreveriam sobre os sete pecados capitais. Como de praxe, a temática da

publicação gerou uma série de discussões e, naquele final de noite, os professores editores e o diagramador Marcelo Garcia também ficaram intrig ados com o tema. Durante uma rápida conversa, começamos a pensar nos pecados de hoje e a listar novos tópicos. MAINARA TORCHETO

Atualmente, pecado é não estar conectado, é viver com a violência, é não cuidar do próprio corpo e não ser aceito pela sociedade. Dentro do nosso devaneio, descobrimos que pecamos muito e vivemos cercados de pecados – e que nem todos podem ser considerados ruins! A partir dessa conversa, lançamos para a turma um novo desafio: fazer uma revista que mostrasse uma visão contemporânea por meio de sete novos conceitos: adoração, dependência, hedonismo, insustentabilidade, perfeição, preconceito e violência. Para nossa surpresa, surgiram reportagens sob o ponto de vista do pecador ou de quem convive sem problemas com alguma questão polêmica. Há histórias interessantes, algumas de grande impacto, como a de Cléo, vítima da brutalidade do ex-marido que a esfaqueou. Há também uma lista de mulheres empoderadas que não têm vergonha de mostrar o corpo nas nudes enviadas por celular, que aceitam a obesidade ou querem ser drag queen. O que é certo nessas duas dezenas de histórias: descobrimos que o pecado é subjetivo, e sua definição evolui com o tempo. Portanto, somos todos pecadores. Qual o seu pecado? Anelise Zanoni Professora editora de texto Flávio Dutra Professor editor de fotografia

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IGOR MALLMANN

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JULHO/2017


ÍNDICE preconceito 7

Sex shops

10 Drag queen 14 Prazer feminino 18 Não à maternidade

hedonismo 51 Cine privê 54 Viagem 58 Vida de monja

dependência 63 Redes sociais 66 Distúrbios alimentares

PERFEIÇÃO

70 Dependência química

x Reeducação alimentar 23 x Gordofobia 26

ADORAÇÃO

x Nudes 30

75 Inseminação artificial

34 Terceira idade

78 Colecionadores

violência

insustentabilidade

39 Violência obstétrica

83 Reciclagem

42 Mulheres agredidas

86 Compulsão por compras

46 Transporte público

90 Consumo consciente

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VANESSA SOUZA

o t i e c n o c e r P

Significado: qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. Sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio. Intolerância.

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esmo nos dias de hoje, o preconceito é um atitude muito viva. Por isso, não poderia ficar de fora da revista. Nesta edição você vai conhecer histórias de mulheres que ultrapassaram esta barreira e hoje amam o próprio corpo, vivem a sexualidade com muito mais liberdade e prazer. Elas se libertaram dos olhares atravessados, decidiram ser drag queens e, sim, mandam nudes. Há também quem cresceu praticamente dentro de uma sex shop – e nunca viu problema nisso!


Minha vida na sex shop Durante 19 anos convivi com uma loja de produtos eróticos da família Por Eduardo Zanotti fotos de Artur Colombo

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minha história com uma sex shop começa em 1998, dois anos após meu nascimento. Naquele ano, meu pai, o dono da loja, havia sido demitido do banco Meridional d e v i d o à p r iva t i z a ç ã o. Como precisava sustentar a família, composta por uma esposa e dois filhos, uma menina e um menino, meu pai fez sociedade com um parente e abriu a sex shop. A partir daí, começou a minha re-

lação com a loja da família. Nos primeiros anos do comércio, não tenho muitas lembranças de como era visitar meu pai enquanto ele trabalhava. Só começo a ter recordações quando já tinha uns cinco ou seis anos, mais ou menos lá pelo ano de 2002. Recordo que a primeira sala que meu pai alugou para a loja era grande, mais ou menos do tamanho de uma sala de aula de condições normais. Tinha paredes cheias de mercadoria, prateleiras que pareciam não ter fim e um balcão onde o pai ficava. Também havia um sofá que, às vezes, ele P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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sentava para dar uma descansada e uma pequena televisão, que dava a visão da rua e mostrava quem estava tocando o interfone. Quando minha irmã nasceu, em 1993, minha mãe largou o emprego de secretária para se dedicar à filha, porque ela não achou economicamente viável pagar alguém para cuidar da minha irmã. Mas quando eu já tinha uns cinco anos e a minha irmã uns oito, teve uma época em que a minha mãe começou a ir para loja ajudar o pai e nós ficávamos em casa com uma babá. Nos finais de semana, quando a babá ganhava uma folga, minha mãe nos levava para a loja, para não parar de trabalhar e não deixar os filhos sozinhos em casa. A gente sempre levava um brinquedo, uma distração, um livrinho de colorir para não ficar incomodando ou até mesmo atrapalhar no trabalho. Mesmo com pouca idade, eu olhava para as prateleiras da loja, cheias de vibradores, VHS de filmes eróticos e roupas íntimas, mas nunca me despertou nenhum interesse, sempre achei normal, nunca mexi em nada, e duvido que se tentasse meus pais iriam permitir. Não perguntava o que era ou para o que servia. Quando cheguei na idade de começar a entender já não tinha mais “graça”. Na verdade, nunca me importei com isso ou algo relacionado ao assunto. Quando eu e minha irmã íamos para a loja, tínhamos que obedecer a duas regras “mortais”: nunca fazer bagunça dentro da sala e quando chegava cliente, a gente tinha que sair imediatamente, antes de ele entrar. Quando a gente saía, ficava no corredor do prédio da loja, e era ali que a bagunça era feita. A gente entrava nas salas que estavam vazias corríamos, pulávamos e gritavamos. Fazíamos Apesar de conviver com a loja desde muito pequeno, eu só fui trabalhar lá aos 21 anos, para ajudar meu pai

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a festa com a companhia da nossa mãe, que saía junto com a gente e cuidava de nós. Depois desse período que a mãe ficou na loja, ela decidiu ficar só em casa e, com isso, as visitas ficaram cada vez menos constantes. Agora, indo cada vez menos lá, a curiosidade, tanto minha quanto a da minha irmã e a importância que dávamos ao que o nosso pai vendia também diminuía. E, quando visitávamos, a nossa mãe nos levava para passear no centro de Novo Hamburgo, onde fica a loja do pai. Chegava lá bem cedo, andávamos pelo shopping, ia no cinema, em lojas de brinquedo, de roupas, tomava sor vete e brincava o dia todo. Para mim e para a minha irmã, ir na loja do pai significava isso, era passear e se divertir, nem ficávamos dentro da sex shop nem sabíamos o que era uma, a gente achava que era apenas um nome.

fase escolar

Minha vida escolar sempre foi tranquila, meus professores e colegas, do Ensino Fundamental, nunca souberam que a gente tinha uma sex shop, até mesmo porque nunca achei necessário contar. Uma vez, eu tive um trabalho em que eu tinha que falar no

que os meus pais trabalhavam. Meus colegas falavam que seus pais trabalhavam numa escola, outros no campo, um ou outro era advogado. Eu falei que o meu pai tinha uma loja e minha mãe era dona de casa. Fiquei com vergonha de falar que era uma sex shop? Não, como eu disse antes, eu pensava que esse era o nome da loja, só fui descobrir que se chamava Sexy Art quando tinha uns 13 ou 14 anos, e se alguém tivesse perguntado o que o meu pai vendia eu teria dito. Só fui contar que era uma sex shop quando eu já estava no Ensino Médio, quando um grupo de amigos me perguntou e a reação deles foi de surpresa, espanto, alguns até tentaram fazer piadas. Como nunca dei bola para isso, simplesmente nunca foi adiante. Na faculdade, com um grupo de colegas mais maduros e adultos, também ficaram surpresos. Afinal, eu entendo que não é todo mundo que tem uma sex shop e não é todo dia que se conhece alguém que tenha uma, mas levaram na boa.

Eu atrás do balcão

Só fui para atrás do balcão da loja com 21 anos, quando meu pai precisou que eu o ajudasse. Naquele tempo que eu trabalhei na loja, minha avó ficou internada no hospital e eu revezava com o meu pai para ficar na loja. Enquanto eu trabalhava, ele ficava no hospital. Minhas funções eram colocar a placa na entrada, abrir a loja, ligar a máquina de cartão e esperar os clientes chegarem. Um dia, antes de eu começar a trabalhar, meu pai me deu um intensivo de como funcionava a loja, como cada coisa funcionava, como vender, como tratar o cliente. “Mano, (forma como meu pai me chama, apelido dado a mim pela minha irmã), trabalhar na loja é bem simples, quando você ver que o cliente não sabe muito bem o que quer, você vai mostrar o que temos no balcão. Se você ver que ele não está muito à vontade, tenta descontrair, mas não força a barra. E o mais importante, receba todos com um ‘bom dia, seja bem-vindo e sempre agradeça pela visita, independente se comprarem alguma coisa ou não”. Pela primeira vez na vida eu tive curiosidade


SEX SHOPS PELO RS Conheça as cidades que têm sex shop e o número de lojas: Caxias .......................................................4 Pelotas .....................................................4 Novo Hamburgo .......................................2 São Leopoldo ............................................2 Porto Alegre .............................................2 Rio Grande ...............................................2 Santa Maria ..............................................2 Passo Fundo .............................................2 Canoas ......................................................1

para o que servia cada produto da loja. Meu pai teve paciência para me explicar a função de cada cosmético e de como se usa os produtos, para que eu pudesse ensinar ao cliente. Também me passou a instrução dos preços das mercadorias, mas caso o cliente pedisse eu podia dar um desconto e me ensinou o cálculo que eu tinha que fazer. O tempo que eu fiquei trabalhando na loja foi uma experiência muito interessante, aprendi coisas novas como tratar e me relacionar com as pessoas, perder um pouco da timidez. Conversei com pessoas que nunca imaginei

que conversaria. Achei que ficaria nervoso ou até mesmo encabulado atrás do balcão, mas foi muito tranquilo. Pessoas entravam na loja procurando pelo meu pai e eu consegui substituir ele muito bem. Cheguei até ser elogiado por um cliente. Por um breve momento, eu consegui vivenciar aquilo que o meu pai passa todos os dias há dezenove anos, e voltava para casa com o mesmo brilho nos olhos que ele volta por gostar de mais do que faz. Pesquisando sobre sex shop, descobri que não há muitas lojas que trabalham apenas com esse tipo de comércio e segundo, Rogério Mendes, representante comercial da fábrica Adão e Eva, de São Paulo, no Rio Grande do Sul as lojas de produtos eróticos estão divididas em dois. Tem as que só vendem esses produtos e as que são misturadas com lojas de lingerie. As de sex shop correspondem a 30% desse comércio, enquanto as de lingerie com sex shop corresponde a 70%. Mesmo com esse número desproporcional, a maioria das lojas de lingerie não se dizem com sex shop, é ape-

nas um cantinho da loja que trabalha com isso, a empresa mesmo trabalha com lingerie. “Eu relutei muito para entrar nesse meio, eu também tinha preconceito, e não sabia como trabalhar com isso. Entrei numa sociedade e meu sócio não pôde cumprir com a parte dele do capital, acabei então ficando sozinho e tinha que recuperar o dinheiro investido e acabei ficando. Foi muito bom ter acontecido isso, de entrar nesse comércio, pois eu gosto muito de trabalhar com comércio, atrás do balcão e gosto muito de interagir e conversar com as pessoas”, afirma Luís Carlos Santos da Silva, comerciante dono de sex shop.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Escrever é sempre difícil, não se sabe por onde começar, o que contar. Claro para algumas pessoas é fácil, algumas têm mais facilidade do que outras. Acredito que o mais difícil desse processo todo foi contar a minha história, lembrar coisas e conseguir repassá-las de forma que coubesse no texto. O interessante foi que conheci melhor uma coisa que eu sempre ignorei, que foi crescer tendo como fonte de renda familiar uma sex shop, além de saber melhor como funciona esse comércio, as ideias erradas que se passam em suas cabeças. Porém, pareceu mais interessante contar o ponto de vista de um filho do dono de sex shop, mostrar como foi crescer visitando o pai no trabalho e como isso não influenciou na sua formação e crescimento.

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A drag queen Linda Vonka esconde um segredo entre as pernas

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O ser mulher que incomoda Por mais que sejam amadas, nem todas as mulheres são aprovadas no mundo drag queen

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xiste um processo muito popular entre as drag queens. Trata-se da técnica para esconder a genitália masculina, conhecida como “aquendar a neca”. Cuidadosamente, esconde-se os testículos na cavidade logo acima do saco escrotal. O pênis é puxado para trás, no meio das pernas. Para segurar tudo, pode-se usar uma fita adesiva, apesar de ser um método perigoso. Três camadas de calcinha garantem menos sofrimento e mais segurança. Esse é um processo pelo qual Patrícia Pedrozo não precisa passar. Ela é uma mulher. O camarim fica ao fundo, passando pela cozinha, onde pizzas e batatas fritas são feitas rapidamente para atender os mais de 40 clientes presentes naquela noite. O quarto de aproximadamente quatro metros quadrados guarda perucas, vestidos e uma geladeira inquieta com refrigerantes e morangos. A primeira mala é aberta e um emaranhado de tule surge. Patty, como gosta de ser chamada, rapidamente o desmembra, tornando visível a enorme saia. O conjunto de corpete e saia turquesa enchem os olhos de quem o vê. A parte inferior imita uma flor, na qual cada pétala tem pequenos detalhes de brilho em suas bordas. Esse é um look especial – além de ser uma referência icônica, foi feito por ela e Vitz. “Dá um orgulho, né? Saber que tudo isso foi feito do zero”, diz Patty, deslumbrada. É ne-

Por DYESSICA ABADI. fotos de Helen Appelt

cessário certa delicadeza bruta para prender a coroa à peruca loira. O resultado final de toda a produção arranca de Patty pequenas palminhas e um largo sorriso. Hoje à noite, ela será a responsável por ajudar Victor Gyurkovitz, impersonator da Vitz Vika, sua amiga drag queen, na troca de sete looks para a apresentação do musical Wicked. Sentindo-se totalmente confortável naquele ambiente, Patty anda de um lado ao outro sem hesitação, conhece quase todos – onde ela passa, as pessoas a chamam. Uma buzina alerta que o número vai começar. O nervosismo é tanto que ela corre com a câmera em mãos para a frente do palco. A primeira apresentação começa. Quando os lábios cansam, sorri com os olhos. Patty é uma rainha que não precisa de coroas. São cerca de quatro horas para transformar-se numa verdadeira drag queen. O rosto de pele avermelhada e os cabelos escuros dão lugar a uma poderosa ruiva com maquiagem colorida. Montando-se há aproximadamente um ano, Patrícia constrói aos poucos o conceito de Linda Vonka - nome batizado pela amiga Eva King. “Eu nunca consegui colocar um nome na minha drag. E aí a Eva me perguntou um monte de coisas que eu gostava e influências: Linda de Angelina Jolie, pois ela me inspira; Von, porque ela me acha parecida com a Kate VonDean; e o Ka de King”, explica. Pode-se dizer que os encontros mais determinantes da vida de Patty foram em banheiros de balada.

O primeiro foi permeado por um certo “climão”, quando, ao entrar rapidamente para usar o toalete, foi criticada por não falar com as artistas que estavam ali: Isis James-Preston e Sarah Vika. Entre encontros e desencontros, Patty estabeleceu uma forte amizade com elas e outras drag queens: Gabi, Eva e Vitz. Posteriormente, em outra balada, entrou no banheiro e uma drag em especial lhe chamou a atenção. Ingrid Carstens foi a primeira mulher que conheceu, que fazia essa arte. A surpresa pela descoberta não foi contida: “Eu fiquei chocada. Como assim? Pode? Porque ninguém me disse que mulher podia ser drag. Depois, eu vi a Laize (Scholten) e também fiquei encantada por ela”. O incentivo para se montar veio dos meninos. Foram várias as tentativas de convencer Patty, mas ela ainda demonstrava-se relutante. Talvez a timidez a impedisse de se expor dessa maneira. O tom de voz calmo e suave não escondem a personalidade introvertida. Parabéns de aniversários são evitados pelo receio de ser o centro das atenções. Ao mesmo tempo em que Patty evita olhares, Linda aprendeu a conduzir uma conversa com qualquer pessoa. “É meio que uma máscara para eu fazer o que eu não faço como Patricia, para ter coragem de falar com uma pessoa, dançar uma música, me soltar mais”, reflete. A paixão por brilhos e glamour sempre existiu. Aos 32 anos, ela ainda brinca com barbies - nos momentos em que não é uma boneca viva. Há um ano, a página oficial no Facebook do Rupaul’s Drag Race, reality show norte americano de drag queens, publicou uma matéria sobre as barbies que Patrícia transforma em verdadeiras queens. Cada detalhe dos looks das drag queens do reality show são meticulosamente recriados nas bonecas: desde um vestido cheio de câmeras, até um piercing no lábio inferior. Os inimigos de Patrícia que se cuidem! Se você for antipático ou mal-educado com ela, poderá arcar com as consequências ganhando um presente. “Eu conheci a Yara Sofia e ela foi extremamente grossa. Pensei: ‘vou quebrar essa bixa, vou fazer um presente para ela’. Resolvi fazer a barbie e levar para ela no Meet and Greet. Eu até me senti mal de não ter feito uma boneca para a Tatianna na época, porque ela foi P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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muito mais querida”, relata. Desse momento em diante, Patty começou a fazer mais bonecas para outras queens e criou uma conta no Instagram para postar as fotos, o Drag my Barbie. “Achei que não tinha o mínimo de talento para fazê-las, mas há um ano acabei tendo reconhecimento através do Facebook oficial do Rupaul”, orgulha-se. Durante a adolescência, era a menina que mais usava maquiagem entre as colegas, sendo reconhecida como “praticamente” uma drag queen. Entretanto, apenas em dezembro de 2017 houve a primeira montação: “para conseguir ver diferença entre a Patrícia e a drag, eu tive que recorrer a várias coisas, tipo um cabelo bem diferente e usar lentes de contato. Os meninos falam: a Eva chega com o cílio; a Sarah, com a unha. Cada um tem seu momento. O momento da Linda é quando ela chega com a lente de contato. Aí eu sinto que não sou mais a Patrícia”, explica. A cada transformação, Patty aprende mais sobre maquiagem, looks, penteados e, principalmente, si mesma. As sardinhas que adotou para a drag combinam com a sua doçura. O seu instinto protetor sempre foi responsável por determinar suas lutas: “Sempre tive um “gaydar”, então, como eu sofria por ser gorda e eles sofriam por ser gays, eu sempre procurava um colega e ficava amiga”. Usando um vestido colorido de paêtes, peruca ruiva e maquiagem básica, Patty prestigiou seus amigos durante a Parada Gay de Porto Alegre deste ano. No entanto, ao chegar no evento, os primeiros comentários que ouviu foram “ridícula” e “nossa, é uma mulher”, em tom de depreciação. O ato que celebra a diversidade e a inclusão, teve impacto oposto à mulher. “Eu acho que a arte independe do sexo, ou do que tu tem no meio da perna. Drag é uma arte e eu continuo fazendo drag pra enfrentar essas pessoas. Não é porque elas não querem que eu faça que eu vou abandonar minha paixão”, brada. O termo “apropriação cultural” é um dos mais reclamados atualmente. Trata-se de elementos específicos de uma cultura que são adotados por um grupo cultural diferente. Entretanto, não há correspondência histórica e cultural para fazer um argumento desses. Para Dieison Marconi, doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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(PPGCOM) da UFRGS, com foco em cinema e estudos queer, não há correspondência histórica e cultural para esse argumento: “Qualquer pessoa, independente da orientação sexual ou identidade de gênero, pode fazer drag. Historicamente a arte drag está ligada a realização artística e pessoal de homens gays, travestis e mulheres transexuais, geralmente como modo de expressar sua sexualidade e suas identificações de gênero, sobre como os artifícios constituídos como femininos adquirem outros significados libertários em corpos que foram nomeados como masculinos e que carregam o estigma da homossexualidade ou da transexualidade”. Contudo, algumas pessoas tendem a invalidar a arte de mulheres drags. Patrícia é administradora da página Queens From Brazil, no Instagram. Com 11,4 mil seguidores, alguns dos comentários da página perpetuam o ódio contra a mulher. “Quando eu posto alguma foto de uma drag mulher, às vezes tem comentários preconceituosos, apenas por aquela artista ser uma mulher”, diz. Um corpo ideal cultural, com peitos voluptuosos, cintura pequena e “bundão”. Essa é a imagem de uma mulher adotada culturalmente. Cada drag possui diferentes modos de se expressar: algumas buscam apresentar essa concepção de feminilidade hegemônica. “O interessante é que uma drag que se apresenta dessa maneira revela não apenas a artificialidade do sexo/

gênero, como também coloca em cheque o fracasso dessas expectativas compulsórias do que seria uma mulher ideal”, salienta Marconi. Em complemento, ele explica que: “A potência pedagógica e artística da drag queen está no fato de escancarar que aquelas identidades (homem/ mulher) que julgamos ser tão naturais e originais são, na verdade, tão construídas, performativas e não originais quanto a sua própria imitação (a drag)... A drag não tenta esconder a genealogia do gênero, ao contrário, há uma busca por acentuá-la, revelando esses mecanismos históricos, culturais e artificiais que nos constituem como homens e mulheres”. Por mais que Ingrid e Laize fossem uma inspiração para Patty, era visível o preconceito existente no meio: “Eu acredito que, se eu continuar fazendo a minha drag, por mais que eu ouça que eu tô ridícula, eu vou estar lutando por aquilo que eu acredito”. Sua família divide-se quando o assunto é a sua arte: enquanto o pai a encara com orgulho, a mãe desvia o olhar - acha a maquiagem exagerada. “Ela sempre foi meio maluca, saia toda de preto, toda de gótica. Agora ela tá colorida, parece que tá melhorando”, relembra o pai, entre risadas. Ele também é o responsável pelo número de seguidores do Queens from Brazil estar aumentando: “O mais engraçado é que meu pai indica o Instagram para os clientes dele na loja. Por outro lado, minha mãe nunca nem curtiu

as fotos das minhas primeiras montações… Já me magoou mais, mas hoje em dia eu nem ligo”, explica Patty. Nelson Fonseca, 69 anos, e Mirian Pedrozo, 59 anos, têm quatro filhos - sendo Patrícia a única mulher. O irmão mais novo, Nelson Fonseca Júnior, 26 anos, apoia a paixão da irmã. Entretanto, os mais velhos não a compreendem. “Meu pai é super mente aberta, mas meus irmãos mais velhos tem bastante preconceito. Me olham torto, não entendem, sabe”, lamenta. “Eu tive bastante fases: fui rockeira, fui gótica, fui reggaeira, mas nunca me encaixei tanto quanto agora. Me sinto bem, me sinto ok, faço o que eu tenho vontade e falo o que sinto que devo falar”, observa Patty. Todas são rainhas e, mesmo sendo a única mulher cisgênero no meio dos homens, ela não é vista como diferente do grupo. É através da amizade e do apoio dos seus amigos, amigas e pai, que Patrícia segue aprendendo e vivendo com Linda Vonka. Diferentemente de algumas pessoas, ela acredita que apenas suas crenças determinam suas lutas - e não a sua genitália.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Certa vez Oscar Wilde disse que “a arte começa onde a imitação acaba”. O ato de transformar o rosto em uma pintura, o corpo em escultura e uma apresentação em show não podem ser apenas imitação. A Patrícia é inspiração, pois teve a coragem e disposição de fazer tudo aquilo que eu mais admiro numa pessoa. É revigorante conhecer alguém que também luta pelos direitos das mulheres em qualquer âmbito da sociedade - lugar de mulher é onde ela quiser. A doçura e o vigor da Patty fazem lembrar que não é com intolerância que problemas como discriminação são resolvidos. Se tu acreditas que todo mundo é igual, por que tu não podes lutar por esse direito ao lado dos teus amigos e familiares? Respeito e empatia são básicos para o desenvolvimento da nossa sociedade. Como ela mesma disse: essa não é uma luta de uma pessoa só, quanto mais pessoas apoiarem a diversidade existente no seu próximo, a sociedade terá que aceitar a pluralidade. Afinal, quão chato seria o mundo se fossemos todos iguais? Viva e permita-se viver! Viva a diversidade, ao brilho e ao glamour. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Gozar sem culpa Preconceito e tabu do prazer feminino ainda repercutem em uma sociedade que se diz evoluída Por mariana artioli. fotos de vanessa souza

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s neurônios se acumulam em g rande número, passando a secretar substâncias ativadoras de certas regiões, reconhecidas como o centro das sensações de prazer. Essas ativações aceleram também uma bomba: o coração. Até que, no prelúdio do esgotamento físico e da exaustão dos neurônios, outra região cerebral contra-ataca com uma descarga de endorfinas, para acabar com a festa, e com o risco de pane cerebral: o desprazer. Nos pequenos espaços entre os neurônios, endorfinas com forte efeito calmante vão se misturar às substâncias excitantes liberadas pelas zonas de prazer. Assim, por alguns instantes, tanto as áreas de prazer como a do desprazer entram no curto-circuito e mandam faíscas para outras partes do sistema nervoso. O resultado de toda essa química? O orgasmo. Há quem se contorça por inteiro, involuntariamente, até o cérebro se pôr em ordem. É a reação física mais bonita do prazer. O que resta é o relaxamento provocado pelas endorfinas, que, depois de serem descarregadas em alta dosagem no

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cérebro, terminam se espalhando pelos músculos, arrastadas pela corrente sanguínea. A médica Joana*, 66 anos, define o orgasmo como algo extremamente prazeroso, mas difícil de explicar para alguém que ainda não o tenha sentido. “Uma definição seria o ‘pico’ de um estímulo sexual progressivo, que busca um nível cada vez maior de desejo e prazer, até que se termine num extravasamento desse prazer para uma satisfação inexplicável, terminando numa sensação de bem estar enorme e tranquilização”, relata.

Anos e anos de culpa

O exercício da sexualidade e do prazer é algo complexo e que envolve a prática dos genitais, experiências de aproximação e transmissão de sensações. Provoca ainda hábitos adquiridos, atitudes e, sobretudo, significados socialmente aprendidos, relacionados com a história de vida de cada indivíduo e sua maneira de internalizar as normas sociais. No entanto, a cultura e a sociedade exercem um papel profundamente modelador da atividade sexual. Elas podem interferir negativa ou positivamente no desempenho erótico das pessoas, principalmente na mulher, por meio da repressão disseminada durante séculos e as informações de várias interpretações que prevalecem na sociedade. Dentre as impressões, existem as três instituições que sempre deixam a marca de seus ensinamentos: a família, a religião e a escola. Segunda a sexóloga e ginecologista obstétrica Sandra Scalco, a mulher deveria entrar no cenário sexual porque quer ter prazer. “A mulher não entra em um cenário sexual com desejo instantâneo. Ela precisa ser estimulada. Se ela é bem estimulada, seja com um toque, o falar no ouvido, um beijo, um carinho, que vai de fora para dentro, não direto na genitália, ela vai se excitando muito”, explica. Sandra esclarece que menos

de 10 % das mulheres conseguem chegar ao orgasmo todas as vezes que transam. Olhando esse número, é desanimador pensar que algo tão divertido, empoderado e libertador é vivenciado por uma porcentagem tão baixa de mulheres. Segundo a médica, 10 a 20% das mulheres nunca têm orgasmo, praticamente de jeito nenhum, nem mesmo se tocando sozinha, uma técnica considerada mais fácil. “A masturbação tecnicamente seria mais fácil, mas a maioria das mulheres, entre 70 e 80% vai dizer que tem orgasmo menos da metade das vezes que transa. Então, se uma mulher sabe gozar, por que ela não goza sempre? Por que às vezes ela entra numa relação só para constar e acaba não tendo o prazer, sendo que ela sabe como obter esse prazer.” Para a sexóloga, a mulher fica constrangida de se comunicar com o(a) parceiro(a) sobre o que gosta e de como gosta, mas quando há intimidade e troca de experiências, o sexo e o prazer fluem.

Mina, te toca!

A masturbação é uma técnica infalível para autoconhecimento, e também uma forma mais fácil e rápida da mulher obter prazer e atingir o orgasmo. É uma vazão sexual


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única e não apenas uma substituta do sexo, pois é mais comum a mulher chegar ao orgasmo pelo estímulo do clitóris do que pela penetração. Pode-se usar brinquedos sexuais, como o vibrador e o dildo, mas a maioria usa somente a ferramenta mais básica e mágica: a mão. Além de ser algo simples e totalmente normal, é cientificamente comprovado que a masturbação é benéfica de várias maneiras. Melhora o humor, a pele, o sono e a vida sexual. Também alivia dores menstruais e fortalece o sistema imunológico. O tabu ainda é muito forte em relação à essa prática. A masturbação não deve ser vista como algo “sujo” e proibido, merece ser reconhecida como algo divertido, interessante e prazeroso. É uma comunicação da mulher com ela mesma, uma relação íntima e empoderadora.

julgamento ainda persiste

A maioria das mulheres sofre uma forte repressão da sociedade quando a questão é a sua vida sexual. Curiosamente, o preconceito e as críticas não são exclusivamente dos homens. A reprovação acontece, em sua maioria, de opiniões femininas. A geógrafa Aline Rosa, 47 anos, admite que já transou no primeiro encontro. “Já transei e muitas vezes fui criticada, principalmente por mulheres”, assume. A busca por um relaxamento e satisfação mental que se pode conseguir com uma transa, é uma tarefa que causa ansiedade social nas mulheres. O medo da repressão é o que trava na hora de ter uma liberdade sexual e suprir a vontade de se divertir, pois a mulher é socialmente induzida a pensar no sexo como algo emocional e não divertido. No entanto, apesar das diversas mudanças sofridas no desenvolvimento da sexualidade feminina (e sua educação sexual), percebe-se que o

que ainda prevalece são formas veladas de independência, e a busca pelo pleno desempenho e prazer sexual ainda parece estar muito longe de se concretizar. O comportamento social da mulher foi moldado por meio de padrões, definições de papéis que deveriam representar e se submeter. Esses papéis referem-se à maneira como a sociedade introduz a mulher do modo de sentir, pensar e agir, passando a viver em conformidade com este conceito. O processo de aprendizagem social ocorre durante toda a vida e não pode ser apagado da noite para o dia. Para a estudante de Turismo Vitória Severo, 18 anos, o sexo e o prazer são necessários em sua vida. “Creio que o prazer ainda é algo que não é tão explorado no universo feminino, principalmente em relacionamentos héteros, no qual o prazer da menina é sempre colocado em segundo plano e o do menino é prioridade. Quando o prazer máximo dele é alcançado, não há mais motivo para continuar o sexo. Acho que esse é o pensamento fundamental que deve ser derrubado”, desabafa.

UM POUCO DE MITOLOGIA

Na mitologia grega, Hedonê é a deusa do prazer. Mexe diretamente com a ligação corpo-espírito dos seres humanos. A filosofia epicurista a define como fruto da união da paixão com a alma, sendo um dos seres mais charmosos de toda a existência. Por meio de uma analogia, criou-se o termo hedonismo (culto ao prazer), sendo que Hedonê significa, literalmente, “prazer” em grego arcaico. Portanto, a importância da sexualidade feminina existe há mais tempo do que imaginávamos. Sendo assim, não há nada de vergonhoso em uma mulher ser sexualmente livre. (*) O nome foi trocado à pedido da entrevistada

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Não achei que fosse ser tão difícil, mas penso que esse era o desafio da pauta. Fazer mulheres falarem sobre suas vidas sexuais, prazer e masturbação não foi uma tarefa fácil. Encontrei dificuldades até mesmo em conversas com amigas e familiares. É um tabu que ainda percorre o universo feminino e causa um desconforto involuntário. O pensamento de que as pessoas fossem ler essa reportagem e pré-julgar os relatos, foi o que fez fontes recusarem e desistirem de falar. Vergonha é uma emoção comum, mas para as mulheres ela engloba muito mais do que apenas desonra. É um sentimento de ultraje. Uma mulher envergonhada traz uma bomba dentro de si prestes a explodir, ou em lágrimas ou em pensamentos perversos. Para o sexo, são necessários pelo menos dois corpos, sendo algo íntimo e compartilhado. Para obter o prazer sexual, basta se tocar, ser criativo, se concentrar em fantasias e deixar a imaginação fluir. O orgasmo é algo surreal, uma sensação dimensional e uma prática indispensável para autoconhecimento. Quem se toca, se conhece. Quem se conhece sabe o que quer. E aí, minhas amigas e amigos, é que a mágica acontece. Não devemos julgar a mina que gosta de transar e que busca se satisfazer. Assim como não devemos sentir culpa por causa de uma falsa ideologia e uma ilusória moralidade. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Um desejo que Mulheres ainda enfrentam críticas e cobranças por não ambicionarem a maternidade Por PAOLA OLIVEIRA fotos de Alessandra Vaz e PAOLA OLIVEIRA

Já nem sei há quanto tempo nossa vida é uma vida só e nada mais/ Nossos dias vão passando, e você sempre deixando tudo pra depois/ Todo dia a gente ama, mas você não quer deixar nascer o fruto desse amor/ Não entende que é preciso ter alguém em nossa vida seja como for/ Você diz que me adora, que tudo nessa vida sou eu/ Então eu quero ver você esperando um filho meu/ Pare de tomar a pílula/ Porque ela não deixa o nosso filho nascer?

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ssim como na popular música do cantor Odair José, lançada em 1973, muitas mulheres se sentem cobradas em relação à maternidade. Por isso, aquelas que não querem ou decidiram não ter filhos são pressionadas, até criticadas, e sofrem preconceito quando o assunto é abordado. “Hoje conseguimos tornar mais visível e mais claro que as mulheres podem ter projetos de vida que não tenham como âncora a maternidade”, explica a professora de graduação e pós-graduação em Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Fernanda Hampe Picon. “Porém, mesmo com a percepção de que é possível outros referenciais para que ela possa se construir como mulher, sempre vai ter que responder à questão da maternidade. Há um jogo de culpa que se constrói quando se expõe esse projeto social tão determinado”, avalia. Do mesmo modo, a doutora em Psicologia Social e professora do curso de Ciências Sociais da Unisinos Marília Veríssimo Veronese aponta que não ter o desejo de reproduzir é quase uma afronta ao papel que foi historicamente atribuído à mulher e que é tido no P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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não é de todas ALESSANDRA VAZ

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FOTOS PAOLA OLIVEIRA

Lisiane, 46 anos, decidiu priorizar os estudos e a liberdade

imaginário coletivo. Ela observa que há duas razões centrais para a diminuição do desejo pela maternidade: a ênfase na vida profissional e o aumento das opções que a mulher passou a ter para desfrutar da vida e de si mesma como indivíduo. “Houve uma redução expressiva nas taxas de natalidade, especialmente nas classes médias, e isso está ligado ao tempo que é preciso dedicar para ter uma formação, uma carreira e dar conta de compromissos vinculados à profissão. Hoje, também, com o aumento das opções, a mulher quer usufruir de uma vida mais livre, e nisso vislumbra que a maternidade vai prender. Realmente, se não tem um suporte muito grande, prende mesmo”, explica. Contrariando expectativas, o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2010, apontou que 14% das mulheres não tinham planos de engravidar, e que a média de filhos caiu de 6,1 para 1,9 nos últimos 50 anos. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, em 2014, 38,4% das brasileiras entre 15 e 49 anos não eram mães.

Estar fora do padrão não assusta

Aos 28 anos, Bárbara Kendzierski, de Canoas, tem certeza que não quer ter filhos. Formada em Ciências Políticas, ela atua como representante comercial, mas foi na academia que encontrou uma paixão. “Fiquei muito tempo obsoleta comigo. Consegui me enquadrar em algo que gosto, que faço por mim, então é meu momento de me realizar”, conta. De cabelos curtos e corpo musculoso, vestindo roupa de treino, diz que reage de forma tranquila quando ouve alguma crítica ou comentários de que ainda vai mudar de ideia. “Sempre tive na cabeça que ter filho é um padrão, e que tudo que foge disso vai ser criticado. As pessoas vão dizer que é um absurdo, que é só uma fase. Como nunca fui uma pessoa que gosta de andar dentro dos limites de um padrão, já estou acostumada a tudo que vem de forma oposta ao que faço”, comenta ela, que sempre P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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quando toca no assunto percebe o ar de espanto das pessoas. “Levo na boa, busco não ficar discutindo porque sei que não vai mudar a cabeça dos outros, assim como não vai mudar a minha”, diverte-se. Nem sempre foi tão fácil assumir esta decisão. Ela conta que os pais hoje aceitam bem, mas anos atrás sempre davam um jeito de contornar o assunto: “Falava que não sabia, até porque era muito nova. É difícil dizer que não quer”. Hoje, Bárbara é noiva de um fisiculturista que já tem um filho e fez vasectomia, o que coincidiu com sua vontade de não ser mãe: “A pressão da sociedade é muito grande quanto a isso, mas sinto que não vim com esse instinto materno para o mundo”. Segundo ela, a relação com o enteado é ótima: “É diferente, porque não é meu filho. As pessoas acham que não querer ser mãe significa não gostar de criança, mas eu adoro”. Quanto mais pensa no assunto, mais Bárbara considera que a decisão de não ter filhos é acertada e que se sente completa como mulher assim. Além de planejar competir como fisiculturista ao lado do noivo e conseguir viajar mais, pretende fazer faculdade de Fisioterapia. “A mulher abre mão de muitas coisas. Creio que fazem isso de bom grado, mas não tem como negar que estão deixando de realizar outros

sonhos e desejos por causa disso”, avalia. Para Bárbara, a decisão de ser mãe é complicada e muito séria. “É algo que precisa ser muito pensado. Não pode ter só porque acha que é lindo e bonitinho”, pontua.

Mudança de prioridades

Até os 23 anos, Lisiane Koling queria ter uma produção independente. “Nunca achei que era obrigada a casar para ter um filho”, conta. Com o passar do tempo, porém, outras prioridades apareceram, e a vontade de viajar, trabalhar e estudar fez com mudasse de ideia: “Para ter um filho precisaria ter uma situação financeira bem resolvida. Criança dá trabalho e um custo muito grande”. Ela voltou para a faculdade aos 28 anos para se formar em Educação Física. Hoje, com 46 anos, a professora não se vê com um filho: “Aqui em casa está todo mundo acostumado. Meus pais aceitam e lidam muito bem com essa decisão. Coloquei minha vida em primeiro lugar. Tenho sobrinhos, amo eles, e adoro crianças, mas não abro mão da minha liberdade”. Moradora de Triunfo, Lisiane aponta que a pressão pela maternidade, por se encaixar nos padrões, é muito mais forte no interior. “Sempre ouvi que eu devia ter algum problema, ou que era gay, ou ainda que ia ser uma solteirona recalcada”, conta. Ela diz que o preconceito persiste, mas não


Bárbara, 28 anos, acredita que a mulher abre mão de outros sonhos e desejos para ter um filho

a incomoda: “Nunca deixei a opinião dos outros tomar conta da minha cabeça, sou bem resolvida”. Nem mesmo hoje Lisiane se sente preparada para ter uma criança: “Teria que mudar toda a minha rotina e não me vejo fazendo isso. Acho que ainda não tenho idade para ser mãe”, brinca. Aos namorados, sempre deixou claro a sua intenção. “Vamos mudando com a vida, o trabalho, com os estudos, vivendo e conhecendo outras coisas. O leque de opções se abre, nos dá uma visão muito maior das várias escolhas que temos para fazer. Se tivesse um filho, acho que teria fechado um pouco esse leque”, reflete.

Uma escolha, não um dever

A professora Fernanda Hampe Picon conta que escreveu um artigo sobre a boneca Little Mommy, da Mattel, que pretende ensinar às meninas os cuidados necessários com um bebê e tem como slogan “Por trás de cada pequena, há uma grande mãe”: “O texto reflete sobre como ainda regulamos o ser mulher pela maternidade, como esse tipo de conceito incide sobre nossa infância e como vamos produzindo os gêneros e subjetivando esses campos de força quando ensina algo assim”. Diante de todos esses discursos, da romantização e obrigatoriedade a respeito da maternidade, a mulher que não pensa nisso como algo

que vai realizá-la tanto pode sentir culpa, se sentir menos mulher ou ceder ao imperativo. “Se me dizem o tempo inteiro que é um projeto necessário para me sentir sujeito, muitas vezes levamos a cabo sem uma autenticidade no campo do desejo”, observa a professora. Outro apontamento da especialista é de que é falsa a ideia de que uma criança não atrapalha outros projetos: “Ela vai requerer de ti um investimento amoroso, libidinal e uma demanda afetiva que vai te levar a precisar fazer escolhas”. Em contraste ao esperado da mulher pela sociedade, muitas vezes o mercado de trabalho percebe como algo negativo a mulher ter filhos. “Ela tem que se movimentar nesse mundo de pressões e opressões, muitas vezes contraditórios entre si”, aponta a professora Marília Veríssimo Veronese. Ela explica que, quando uma mulher tem um filho, não está fazendo um ato somente individual, mas também reproduzindo a força de trabalho, uma próxima geração que vai produzir para o mercado de trabalho e conduzir a sociedade. A professora acredita que a legislação que pune como um crime aborto nas primeiras semanas de gestação reflete o imaginário social que ainda coloca a maternidade como um dever da mulher, e não como uma escolha: “Na hora em que ela precisa

de suporte para viver a maternidade de uma forma mais completa e cuidadosa, não tem suporte do Estado ou do empregador. Ora seu corpo pertence ao Estado, ora o fruto do seu corpo é de responsabilidade exclusiva dela”. Marília também observa que, se a mulher engravida sem desejar, não tem a opção do aborto legal e seguro. “A vida da mulher, que é uma cidadã constituída de um país, vale menos que uma promessa de vida de um embrião, que ainda não é uma vida constituída, não é um cidadão, não é uma pessoa, mas algumas células”, esclarece. Para acabar com o impasse, a professora acredita que a mídia precisa ter um papel mais educativo, veicular a mulher como um ser de direitos e que pode ter suas próprias escolhas, sendo a maternidade uma delas. “A mulher é um ser completo em si mesmo, que não precisa de nenhum outro ser para dar validade a sua vida”, conclui.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Como uma mulher que não pretende ser mãe, foi muito fácil conversar com aquelas que nutrem o mesmo sentimento e sentem a mesma pressão. É sempre muito bom conversar com mulheres que não têm medo de expressar suas perspectivas e defendem escolhas com bom humor, mas também com determinação. Nem todas conseguem. A crítica é sempre muito forte, o que leva algumas mulheres a deixarem suas vontades de lado e a ceder ao imperativo social, o que pode resultar em insatisfação pessoal. As entrevistas com especialistas ajudaram a compreender melhor que o preconceito enfrentado pelas mulheres que não desejam a maternidade é apenas mais um dos vários aspectos da misoginia social. Também ficou claro que em um momento como o qual vivemos - em que grupos se organizam para tirar direitos principalmente das minorias simbólicas, das quais as mulheres historicamente fazem partem - é preciso cada vez mais se afirmar, resistir e, principalmente, escolher com muito cuidado em quem votamos para legislar e representar nossas ideias. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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MARIA CAROLINA DE MELO

o ã ç i e f r e P

Significado: valorização que se atribui à própria aparência ou outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros.

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m um cenário em que as redes sociais ajudam a disseminar o culto ao corpo perfeito, a “chuva de likes” é ansiosamente aguardada após a postagem de selfies ou de fotos de corpo inteiro. E, para manter-se dentro dos padrões, a obsessão por alimentação saudável pode se tornar uma doença. Mas nem sempre a vaidade é ruim: também pode estar relacionada à valorização do próprio eu.


Fazendo um favor para seu instrutor, Ramon segurou dois alteres. Ao cansar, soube que era exatamente o peso perdido

Saindo da zona de conforto Duas histórias diferentes unidas pela conquista de uma saúde melhor mostram que reeducação alimentar e atividade física fazem a diferença Por Bolívar Gomes. fotos de KARINA VERONA

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saúde une as histórias de Ramon Tedesco, 29 anos, e Paulo Muniz, 32 anos, ambos de Santo Antônio da Patrulha, distante 83,2 km de Porto Alegre. Eles largaram uma vida sedentária para enfrentar uma mudança de hábitos na alimentação e na rotina para serem mais saudáveis. Após várias tentativas para emagrecer na adolescência, na última delas Ramon Tedesco, advogado de 29 anos, conseguiu uma mudar práticas e passar de 130 quilos em 2009 para 80, que mantém até hoje como seu peso ideal. Uma melhoria não apenas na saúde, mas na autoestima. Com o olhar demonstrando a felicidade com a forma física atual, ele conta que sua infância teve uma série de complicações de saúde por um problema crônico de garganta. Os fortes remédios lhe tiravam a fome, o que causou anemia. “Tu me colocarias no meio de crianças da minha e idade e saberias que eu não era igual a elas”, diz Tedesco. A partir dos “sete, oito anos”, medicamentos homeopáticos lhe deram a força que faltava, mas o aumento de peso começou a ser cada vez mais frequente. Com a adolescência veio a vergonha. Escondia-se com o constante aumento de peso, influenciando até na escolha do unifor me escolar. “A camisa tinha que ir até o joelho. Não queria que me vissem”, conta o advogado sinalizando o cumprimento da roupa. Entre tentativas frustradas, chegou a usar calças tamanho 56. Ele afirma ter sofrido bulling quando criança, mas acredita que seja algo quase que sem maldade. “Eu não gostava quando ficava violento. Quando a pessoa diferente das outras vira o alvo”, afirmou. Tedesco ainda diz ser pior quando é algo ‘velado”, que ocorre quando mais velho. “Tu chegas ao lugar e as pessoas começam a cochichar”, conta ele P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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sobre esse tipo de situação. Em 2009 veio a tentativa derradeira. “Eu me dei uma última chance”, confessou. Nos preparativos, uma negociação com a nutricionista. Assustado com os “cortes”, entrou em um jogo de argumentação para manter a sua “cervejinha”. “Eu iria fazer tudo isso, só que eu continuaria a beber cerveja”, contrapôs. A médica concordou desde que fosse apenas um dia no final de semana. Além da autoestima, a saúde foi considerada. Ele conta que tem um histórico familiar de diabetes e doenças ligadas à alimentação e aos exercícios físicos. Entretanto, admite o maior sentimento que lhe fez sair da zona de conforto. “O adolescente não vai pensar na saúde. Vai pensar que chega no verão e não tem conforto”, exemplificou. Amante dos belos pratos de comida, chegou a hora da reeducação alimentar. Entretanto, a rotina da sua família permaneceu a mesma. Mais um desafio. “Tinha um prato de massa, mas eu comia aquela cenoura”, conta o advogado.

Em 2011 chegou aos 90 kg e largou o acompanhamento nutricional. Saiu a nutricionista e entrou o instrutor de academia. Na Boa Forma, em Santo Antônio, perdeu mais 20 kg em um ano e chegou ao peso mínimo: 70 kg. Após atingir a marca precisava encontrar o peso ideal. Com treino, aumentou para 80 kg, número que mantém por se sentir bem com ele mesmo. Uma lamentação de Ramon é a falta de um acompanhamento psicológico enquanto emagrecia. “Tu emagreces, mas por muito tempo ainda se enxerga com o corpo de antes”, pondera. Apesar de tudo, Tedesco pensa que estar acima do peso hoje seria pior do que naquela época, pelas redes sociais. “Poucos estão interessados em saúde. A pessoa tá interessada em ter um corpo bonito para inflar o eg o”, contesta.

Momento Impactante

Certa vez seu instrutor pediu para Ramon carregar dois halteres – ferramenta para colocar peso nos equipamentos de academia. Tedesco carregou

Após perder o pai por cirrose hepática, Paulo iniciou uma reeducação alimentar e passou a praticar atividades físicas regularmente


os objetos e ficou ao lado do Altair, o instrutor. Ao demorar com os halteres nos braços, cansou-se e largou os pesos. Para o espanto do advogado, Altair riu. O instr utor perguntou se tinha compreendido o que havia acontecido: Ramon estava segurando 60 kg. Exatamente a quantia que havia perdido após a reeducação alimentar e os treinos. A história de Ramon Tedesco foi valorizada pela academia Boa Forma. Em um evento de aniversário, ele contou sua história como for ma de incentivo às pessoas e terem uma vida mais saudável.

Pela prevenção

Diferente de Ramon, Paulo Muniz, 32 anos, esteve apenas seis quilos acima do peso ideal. Entretanto, o falecimento de seu pai, em setembro de 2016, por cirrose hepática fez com que ele e seus irmãos fizessem exames preventivos. “Eu acabei tendo gordura acumulada no fígado. Poderia evoluir também”, conta ele. Muniz tinha uma vida tranquila até então, mas a situação fami-

liar fez ele e seus irmãos ligarem o alerta. Em dezembro do mesmo ano, os resultados dos exames lhe fizeram começar uma reeducação alimentar e a frequentar a academia regularmente. Mesmo assim, seus exames continuaram variando até maio de 2017. Começou a regrar a alimentação. Comida a cada três horas para lhe energizar, ainda que houvesse dias que esse controle não ocorreu. “Alguns dias eu chegava na academia e me dava uma tontura”, confessa”. Aí entraram os ajustes da nutricionista reorganizando seu cardápio para que ele pudesse compensar a diminuição de energia por comer menos e se exercitar mais. Diferente de Ramon, literalmente trocou a cervejinha pela água mineral. “Vai muito pelo psicológico, força de vontade”, contou em tom descontraído que continuou saindo em festas nor malmente. “Não tive problema em dizer não”. Diferente das baladas, as “comilanças” foram evitadas nos primeiros meses, por poder interferir na reeducação alimentar que necessitava de toda uma readequação do seu cotidiano. Algum exagero poderia colocar em risco os avanços conquistados até então. A mudança incluiu a academia na lista de compromissos semanais, acompanhados pelo futebol. “Só esteira não dá, os 40 minutos demoram para passar. Já o futebol tu quase nem vê quando termina”, brinca o patrulhense. O resultado foi positivo. A gordura no fígado está controlada, mas cuidados são contínuos. Mais do que isso ele mostra satisfação e pretende continuar com a hipertrofia. “Definir o corpo um pouco mais também”, acrescenta. Assim como seu pai seus irmãos têm excesso de peso, mas também estão entrando em dietas orientadas para que possam precaver qualquer problema. Paulo também acredita que se a doença de seu pai fosse descoberta em tempo, o desfecho des-

sa história seria diferente. Questionado se vai continuar com os treinos independentemente dos seus exames continuares regulares, ele confirma. “Vida melhorou bastante, tanto da parte estética quanto no serviço. Tenho mais iniciativa, empolg ação”, justifica.

Destaque para a comida

A nutricionista Fabiane Oliveira (CRN 2-7575) explica que quanto mais variado for o cardápio melhor para a saúde. “Não existe alimento que seja vilão ou mocinho e sim os excessos que devem ser corrigidos”, conta ela. “Quanto menos processado um alimento maior o seu teor de nutrientes”, salientando a importância das comidas naturais. Outro aspecto que ela chamou a atenção é a paciência, já que uma reeducação completa não será obtida “em uma semana”. Ela afirma que uma alimentação mais completa gera mais disposição, melhora do sono, melhora na absorção e digestão dos alimentos entre outros benefícios.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Não é apenas o “oito ou 80”que precisa ser mostrado. No cotidiano, inúmeras pessoas estão tentando mudar hábitos visando uma saúde e qualidade de vida melhor. A motivação pode partir de um ponto de vista estético, mas também pode se tornar um aprendizado. O “empurrãozinho” pode ser um susto, mas depois acaba revelando-se um bem-estar. Sentir-se bem pode ser uma lição. Ramon não se via bem e chegou ao ponto de tentar várias vezes o emagrecimento. Naquela que seria a última chance os resultados vieram e, quanto mais avançava, mais vontade surgia. Já a história do Paulo mostra que a perda do próprio pai pode estar salvando a vida dele e de seus irmãos. Descobrir estas histórias que não são “extremas”, como a de um ex-obeso que poderia ter se tornado um fisiculturista, foi um desafio. Espero que o leitor possa enxergar a si próprio ou a algum conhecido e veja que não é necessário ser magro ou ter um corpo definido para ser feliz, mas que sua saúde lhe permita ser do jeito que bem entender. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Liberta teu corpo, guria O ato de aprisionar-se em padrões de beleza pode ser um pecado contra si mesma Por AMANDA BÜNEKER. fotos de Igor Mallmann

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É na dança que Shana encontrou empoderamento pessoal

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reflexo no espelho não busca seguir um padrão. Enquanto a mulher dança, seus movimentos ganham novas dimensões e o corpo se liberta. Não há motivo para se esconder. Por que acobertar o que é belo? O sorriso se escancara, e a dançarina do ventre mostra todo o talento adquirido desde os 14 anos, quando iniciou o contato com a dança. Nesse momento, é visível que Shana Ignácio não é somente um número de manequim, muitas vezes, esquecido. Ela é, sim, uma mulher gorda. Gorda e empoderada. No delicado estúdio ecoa a contagem do compasso “um, dois, três, quatro… girou”. A coreografia exige treinamento e concentração, mas o ritmo ainda é livre e expressivo. É uma ação de consciência corporal. Assim como enxergar a si próprio. Esse é o segredo da notável alegria que Shana, 32 anos, carrega consigo. É o ato de se descobrir, de olhar no espelho e se achar bonita, de vislumbrar os pontos positivos em si. Essa é a batalha de mulheres que procuram diariamente o empoderamento do corpo gordo. Pelo direito de ter curvas, barriga. De mostrar, conviver, amar e principalmente combater preconceitos instituídos por séculos na sociedade, que hoje ainda impõe tipos de beleza aceitáveis, contudo, surreais.

Um, dois, três, ame-se

Os familiares a chamam de gordinha, para “não traumatizar”. Os pais, de “gorda”, para impactar. Os professores dizem que talvez seria melhor perder uns quilinhos. É preciso ser magra como as modelos da capa de revista. Esbelta como a filha da vizinha. Dar o exemplo de uma família saudável e de boa criação. Assim, muitas crianças crescem sendo compelidas a se encaixar em um padrão. Essa foi uma realidade próxima nas vidas de Taina Hessler dos Santos e Fabiane Niewierowska Mattos. Algo que fez com que ambas enfrentassem diversas barreiras ao longo dos anos, principalmente na adolescência e juventude. Foram períodos de depressão, baixa autoestima e problemas em relações afetivas. Uma busca por se tornar invisível em um mundo que as julgava. Como comentou Taina, todos a viam como algo, não alguém, que não era bem aceito pela sociedade. Um dos primeiros e mais difíceis passos, nesses casos, é aceitar-se como gorda, sem a ânsia de fugir dessa palavra. Ela não é uma ofensa e muito menos algo negativo. Em algum momento, pode ter soado dessa forma, pode ter sido entoada com o objetivo de ferir, porém, essa não é sua essência. “É muito mais que um adjetivo, é um substantivo, um viver, um ser”, diz Taina, que hoje, aos 24 anos, é graduada em Jornalismo e utiliza o termo gorda como parte de sua identidade e luta. “Assumir essa palavra como sendo minha é um ato de resistência”, complementa.

Quatro, cinco, seis, Desfaça-se de mitos

Intolerância contra pessoas gordas: isso tem um nome e uma origem. O termo gordofobia, que atualmente é bastante comentado em redes sociais e coletivos, expõe diversas formas de preconceito. Desde as mais sutis, como a famosa frase “mas teu rosto é tão lindo, por que não emagrece?,” ou o grande mito de que todo gordo é sedentário e tem problemas de saúde, até os mais graves, no qual pessoas perdem seus empregos P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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ou são assediadas por serem consideradas “acima do peso”. Nesse momento você se pergunta, “de onde surgiram esses pré-conceitos?”. Isso é o que alguns estudos da sociologia buscam responder. Segundo Taina, que realiza pesquisas na área, a gênese deste pensamento é judaico-cristã, quando antigamente eram cultuados os extensos jejuns, que traziam leveza corporal e, portanto, aproximavam os indivíduos a Deus. A ação de regime também se embasa em um dos sete pecados, a gula. Dessa forma, o descontrole perante a comida era considerado uma forma de pecado, concluindo-se que aqueles que possuíssem corpos gordos seriam praticantes desta forma de pecado. Assim, chegamos a outro grande mito, de que o corpo gordo provém de um descontrole alimentar. Sendo que vários outros fatores são comprovados cientificamente. Como falta de sono, condições econômicas, herança genética, desequilíbrio hormonal e medicamentos. Nos últimos anos, uma grande influência de padrões de aparência surge da moda e da mídia, como o movimento do heroin chic da década de 1990, no qual mulheres de porte anoréxico estamparam as revistas de moda e outdoors de publicidade. Ou mais atualmente a popularização do estilo de vida fitness ou algo conhecido como higiomania, que seria quando a preocupação com a saúde se torna excessiva e enfocada

na idolatria do corpo. Novamente um padrão de comportamento e beleza é reproduzido, todavia, é um padrão irreal e inacessível a muitos brasileiros. Como a bailarina Shana Ignácio argumenta, estamos em um país onde a principal alimentação é arroz e feijão, rico em carboidrato, além de boa parte da população não ter poder aquisitivo para seguir uma dieta balanceada. Por isso ela mesmo questiona, “será que nós estamos fora do padrão? Ou seríamos nós o real padrão da sociedade?”

Sete, oito, nove, Permita-se

“Tu vais ficar em casa? Tu não vais ver o sol? Ver pessoas novas? Tem que viver, tem que ser feliz”, diz Fabiane Niewierowska, logo após contar o evento que deu novos ares à vida. Memória que fez com que ela trocasse de posição e falasse num pulo “deixa eu te contar a minha história agora”. Era carnaval. Os planos para o verão de 2015 estavam bombando. Clima perfeito, aquele calorão, nada melhor que festejar na praia. Fabí tinha uma caravana organizada entre amigas com destino marcado, Garopaba, em Santa Catarina. Mas havia um lugar sobrando. Ela arriscou e convidou o rapaz simpático com quem estava conversando via aplicativo. Seria uma boa oportunidade para conhecê-lo pessoalmente. Mas, espera um pouco, uma insegurança surgiu em


Fabiane abandonou inseguranças e foi em busca do amor próprio

sua mente. E se ele não prestasse atenção nela, e sim nas amigas dela, que são mais magras, com mais bunda e silicone? Afinal de contas, ela era a mais gorda do grupo. Quer saber, é carnaval, ela pensou, “eu posso ficar com qualquer um”. A viagem até lá foi um caos, por diversos problemas mecânicos no transporte, porém todos chegaram ao destino. O local era lindo, e a brisa convidativa chamava a todos para a praia. Entretanto, de repente, bateu o medo em Fabí, vergonha de tirar a bata e ficar de biquini. Mas por quê? Estava na hora de se permitir ser feliz e foi isso que ela fez. E foi ao ignorar o famoso preconceito do “corpo de praia” e se possibilitar que ela se descobriu, e ainda garantiu o rapaz, com quem hoje está noiva. “Conselho: tem um corpo, vá à praia”, destaca Fabiane, que aos 32 anos, após experiências em concursos de beleza e miss plus size, coordena a empresa Top Model Plus Size RS com mais duas sócias, que de forma pioneira realiza um concurso de mesmo nome, com o objetivo de alavancar e introduzir as modelos do manequim 46 ao 60 no mundo da moda.

Dez, onze, doze, Empodere-se

Shana surge com toda cor e sensualidade. É a professora de dança do ventre bonitona, mas “outro tipo de bonitona”, como ela mesmo diz. Desde pequena, ela sempre foi gorda, mas isso nunca a impediu de fazer o que queria, de vestir o que queria e ao se olhar no espelho, enxergar algo lindo. “Porque as pessoas se incomodam com o meu corpo, mas eu não” ela diz sem rodeios, com segurança e tranquilidade, pois nunca procurou absorver os julgamentos externos. Ela é uma jovem sorridente, que coleciona experiências por onde passa. O mundo da modelagem se torna um novo adicional para coleção, e uma nova forma de empoderamento. Era algo que sempre esteve lá dentro dela, mas só agora se expressa e diz “Olha Shana, um novo horizonte”. É uma oportunidade de entender mais sobre o universo plus size e de ter voz para ajudar outras mulheres, para que elas se sintam acolhidas neste movimento. Pois uma mulher gorda empoderada abre caminho para várias outras.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Para mim, a convivência com a palavra gorda sempre foi complicada, talvez por influência familiar ou do próprio contexto social. Contudo, nos últimos anos, conhecendo mulheres maravilhosas e empoderadas, percebi que essa definição não é nada de se ter vergonha ou necessidade de fugir. Mas, infelizmente, não é isso o que boa parte da sociedade transmite, algo que pode ser notado pelas diversas formas de gordofobia que ocorrem diariamente. Dessa forma, busquei explorar em minha reportagem a força e maestria das mulheres gordas, que se empoderam independente do padrão que uma sociedade vá lhe exigir. E posso dizer que só alegrias tive nessa produção. Foram mulheres que muito me inspiraram e me levaram a refletir sobre muitos assuntos, incluindo sobre mim mesma, como mulher, como visualizamos nosso corpo e como essa visualização, com influências externas, muitas vezes nos suprime. Foi lindo participar desse movimento diário de empoderar a si mesma e consequentemente a todas. Foi um texto que me deu orgulho de escrever e que espero, mesmo que minimamente, ajude a todas a se libertarem de inseguranças e amarem a si mesma. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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O despir que P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Emily Schwan vê o nu como uma forma de empoderamento feminino

Nudes são rotineiros na era digital, mas podem causar problemas quando a foto não para no receptor CORRETO Por EDUARDA MORAES fotos de Maria Carolina de Melo

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ma foto, dois olhares. Um clique envia para uma pess o a . O u t r o, para 1.681. Dois corpos distintos, duas almas em relutância. Uma liberta-se, outra entra em mar tírio. A nudez feminina causa diferentes reações de percepção na sociedade. Preconceito, acusações, julgamentos e violência. Contrapõem aceitação, elogio, empoderamento e apoio. Emily Schwan e Valentina Cortez* compartilham histórias parecidas que tomam rumos opostos quando publicadas nas redes.

Vingança que corta a alma

oprime

“Em setembro de 2013, fui vítima de pornografia de vingança. A gente teve uma conversa pelo Skype e ele tirou um print. Eu não estava pelada, eu estava trocando de blusa, só aparece eu levantando a camiseta”. Uma imagem não autorizada, que pouco mostra o corpo, e o rosto, desmoronou o mundo de Valentina em alguns minutos. O menino com quem se relacionava enviou a foto para outro, que postou no Facebook. Quando uma amiga mandou o link dizendo, “Respira, depois abre”, ela descobriu a violação da sua privacidade e direitos. Desespero, choro e desorientação foram as primeiras reações relatadas pela voz trêmula e acelerada da jovem, que hoje tem 19 anos. O medo de decepcionar os pais a fez manter segredo, mas não por muito tempo. Quando revelado, estava instaurado o abalo familiar. Sem entender, nem conversar com a filha, a mãe preferiu julgá-la. O pai registrou boletim de ocorrência na delegacia e entrou na justiça. O trabalho de recreacionista


em um salão de festas também não existia mais. Afinal, “poderia afetar a imagem do local”. Valentina voltou para a casa levando consigo as palavras da ex-chefe, “não sei qual foram os teus motivos, não sei se tu já trabalhou com isso, mas não podemos mais ficar contigo”. Na escola, o pesadelo seguia. “Se eu sentava na frente, todos os meus colegas sentavam atrás. Se eu sentava atrás, todos sentavam na frente”. A intervenção da supervisora pedagógica foi direta: disse dispor de psicólogos caso necessário, mas sobre os colegas foi enfática: “evite falar no assunto, dê um tempo a eles”. Valentina parou de frequentar a escola. Sem a família, os amigos, o trabalho e a escola, ela já não saía mais de casa. O tormento parecia não ter fim, e a solução que via era assustadora. Tomando medicamento para a ansiedade, acrescentou alguns comprimidos a mais, resultando em uma lavagem intestinal que denunciava P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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a tentativa de suicídio. Para esquecer a pressão psicológica, Valentina passou a automutilar-se. “Quando eu via o sangue escorrendo, me concentrava na dor física e conseguia esquecer”. As sessões de análise e a reaproximação de uma amiga ajudaram-na a superar, com pequenos progressos e muita força de vontade. “Hoje eu conheci uma pessoa que me ama, que gosta de mim. Mesmo sabendo de tudo, não ligou para as coisas que as pessoas falam”. O auto perdão levou tempo, mas hoje Valentina entende que foi a vítima de um crime. E, embora tenha sido demitida, novamente, após cinco anos, devido à mesma foto, segue firme e com a certeza de saber quem é, e com a esperança de um mundo em que mulheres não só tenham os mesmos direitos, mas sejam tratadas como iguais pelos homens.

O nu sem vergonha

Na pouca experiência de vida que os 22 anos de Emily lhe permitiram dispor, nem tudo foi ameno e gracioso. No entanto, leveza, descontração e alegria são características facilmente percebidas ao passar algum tempo com a estudante Relações Públicas. Ela começa a recontar sua relação com a exposição do corpo relembrando de uma foto capturada enquanto dormia nua. Por sorte, a imagem não passou por muitos smartphones até chegar a um primo próximo. Intimidado pelo parente e com medo das represálias de um

processo judicial, o autor da foto parou o compartilhamento. Após algumas semanas, Emily tranquilizou-se. Falando de um momento delicado, ela não demonstra apreensão ou angústia, diz já ter superado e não se preocupar. Em maio deste ano, decidiu olhar para si mesma, fotografada em novos enquadramentos. Na sua conta do Instagram, cuidadosamente organizada em tons de cinza, publicou um desabafo. “Pela primeira vez, eu me despi na frente de um homem e consegui tirar mais do que a roupa do meu corpo. Naquele momento, eu tirei o medo, a vergonha e também vi todos os meus ‘defeitos’ irem junto. Foi arte do início ao fim”. Empolga-se ao relembrar o momento em que encontrou o fotógrafo Giovani Benetti, profissional por trás de seu ensaio sensual. A vontade de passar pela experiência sempre existiu, mas a oportunidade apareceu quando viu as fotos de uma amiga, que indicou o fotógrafo.


IMPRESSÕES DE REPÓRTER Uma curiosidade despertada ao rolar meu feed do Instagram levou-me à pauta do nu feminino. Quando se é jovem e completamente inserido nos meios digitais, é impossível não se deparar com os famosos nudes. “Você manda se quer”, dizem os resolvidos. Na verdade, não é tão simples assim. Se você manda, não é considerada uma “mulher digna”. Se não manda, é “engessada”, não tem a mente aberta. Qualquer que seja a sua escolha, sempre terá um julgamento. As consequências desses julgamentos, proferidos sem qualquer responsabilidade, podem ser muito sérias. Por isso resolvi contar a história de uma menina que muito sofreu com o preconceito de uma sociedade fria, injusta e indiferente. Para deixar claro que o nu é natural, conto a história da Emily que usou o corpo como forma de empoderamento, fazendo com que as pessoas no entorno a aceitem e admirem, independentemente das escolhas. A experiência de realizar a reportagem, não só como jornalista, mas também como mulher, foi gratificante e engrandecedora.

Um elogio ao trabalho de Giovani resultou em uma reposta inesperada: estou fazendo um novo portfólio e se você aceitar participar posso fazer suas fotos. O cenário seria a casa do fotógrafo, o que fez o medo aparecer. “Será que eu confio no cara?”. Para solucionar o problema, a estudante e uma amiga elaboraram um plano que, hoje, a faz rir. A cada meia hora, Emily deveria mandar um WhatsApp, caso não enviasse, a receptora chamaria socorro. Mas tudo ocorreu bem. Com o auxílio visual das fotos, narrou as cenas e assinalou as imagens, mostrando o que por vezes era a expressão insegura, a força na mão que mantinha o equilíbrio da poltrona ou a evolução das primeiras para as últimas imagens. “O melhor é que nada disso é tão glamoroso quanto parece”. Com o iPhone prata em mãos, mostra as fotos amadoras publicadas antes e depois do ensaio, contando as distintas reações de seus seguidores. A primeira foto, pouco reveladora, causou maior espanto. Com tom de sarcasmo, leu os comentários surpresos e debochados, mas nenhum de caráter ofensivo ou violento. Passados os estranhamentos iniciais, os comentários positivos começaram a surgir. As fotos do ensaio colecionaram expressões como “pisa menos”, “que tiro”, “maravilhosa” e “linda”. Sobre a experiência, ela não tem dúvidas para responder. “É uma coisa que transforma as pessoas, é pra ti

mesmo, para sentir que tu podes ser diferente, que pode ser desejada, que tu é linda. Empodera as mulheres, todo mundo deveria fazer”.

Pornografia de Vingança e preconceito

A feminista Sonia Latgé, que contribui na criação do Projetos de Lei sobre misoginia e pornografia de vingança, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, explica o novo o termo que refere-se à veiculação não autorizada de imagens íntimas. “A pessoa tem um relacionamento. Depois que termina, o parceiro usa fotos sem qualquer autorização, para humilhar o outro”. Embora as maiores vítimas sejam mulheres, homens também podem sofrer a ação. A ONG SaferNet, que recebe e encaminha denúncias de crimes virtuais registrou no ano passado, 301 casos de imagens intimadas expostas sem consentimento. Demostrando uma baixa

de 6,5% aos anos anteriores. Sonia coloca que a desigualdade de gênero, resultante de uma sociedade patriarcal, é o principal motivo pelo preconceito ao nu feminino. “É muito duro enfrentar a hipocrisia da sociedade, mas quando a menina faz isso e se mostra segura, sua atitude acaba se afirmando. Já a menina que tem sua nudez “vazada”, contra sua vontade, é fragilizada quando não pode enfrentar essa agressão”. Infelizmente, ainda não há uma lei que penalize quem divulga fotos íntimas sem consentimento. O Marco da Internet prevê a penalização do site ou portal hospedeiro, e a Lei Carolina Dickmann aborda, apenas, o roubo de dados de computadores. Contudo, Valentina, Emily e Sonia seguem esperando por uma sociedade mais igualitária e menos preconceituosa. (*) O nome foi alterado para preservar a identidade da entrevistada P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Edelvira cuida do corpo e da mente para envelhecer com qualidade de vida

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A beleza do envelhecer Idosas descobrem na vaidade e na autoestima estímulo para se manterEM ativas e envelhecerEM melhor

Por PALOMA GRIESANG. fotos de Mainara Torcheto

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squeça as ideias pré-fabricadas que você tem sobre idosos. Não pense na senhorinha de coque, xale, fazendo crochê em uma cadeira de balanço. Edelvira Carvalho é bem diferente: nada do que ela chama de “roupa de gente velha” e não tem paciência para aulas de tricô. Ela escolheu envelhecer de outra forma. Aos 74 anos ela é ativa, gosta de estar na moda e anda sempre bem vestida e maquiada. Ficar em casa? Nem pensar. Comodidade não é com ela. Se ela se considera vaidosa? Sim. “Para eu estar mal arrumada, só se estiver na roça. Até se eu quero ir no mercado, eu me arrumo. Não é para chamar atenção, eu sempre fui assim”, destaca. Cuidar do corpo também é rotina. Três vezes por semana vai à academia e cuida a alimentação. Não é só vaidade, é questão de saúde. “É para ter uma vida mais longa. Para ficar mais ativo, porque se você fica parado, só piora”, avalia. Ela ainda se revela apaixonada pela caminhada, natação e dança. “Já cansei de dançar sexta, sábado e domingo. É coisa que eu amo, faz muito bem”, afirma. Durante a semana, ela passeia com as filhas, netas e amigas. No fim de semana sempre há uma baile para dançar. Para ela, não são 74 anos. São menos. “Eu não me sinto como uma senhora. Me sinto melhor do que nos meus 50 anos”, afirma.

De princesa a rainha

Aos 15 anos Lucena Konrath foi eleita Princesa da Primavera. Na época, era desconhecida e não conseguiu votos suficientes para ser soberana. Em 2017, 62 anos depois ela recebe a coroa de rainha. Eleita a Soberana da Melhor Idade de Teutônia, representante dos 15 grupos de terceira idade da cidade. “No momento que foi lido o resultado, chegou a emoção. Não podia mais nem respirar, mesmo com as lágrimas correndo, eu sorria. Eu não podia acreditar, eu estava feliz, porque era um sonho”, relembra. Hoje representa não só a beleza da terceira idade, mas grupos cada vez mais ativos e com vontade de viver. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Hoje, aos 77 anos, ela se considera vaidosa, afirma ter herdado isso da mãe. “Minha mãe sempre se sentia jovem, queria se apresentar bem e estar arrumada. Isso se traz de berço, esse dom de querer estar arrumada, cuidar do corpo. Não é um alto glamour, mas uma coisa que a gente gosta”, afirma.

O peso de envelhecer

Edelvira e Lucena são duas dentre os milhões de brasileiros idosos. De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população idosa do Brasil cresceu nos últimos 10 anos. O estudo “Síntese de Indicadores Sociais (SIS): uma análise das condições de vida da população brasileira 2016”, revela que a projeção de idosos com 60 anos ou mais passou de 9,8% (2005) para 14,3% (2015). Outra pesquisa do IBGE aponta um aumento da população idosa com mais de 80 anos, que na projeção de 2016 era de 3,5 milhões de pessoas e até 2060 pode chegar a mais de 19 milhões de pessoas. Ativas e vaidosas, elas encontraram uma forma de enfrentar algo P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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que todos teremos que passar, mas que nem sempre se está preparado: envelhecer. Segundo a mestre em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS Alessandra Brod, o processo de envelhecimento pode ser difícil para muitas pessoas. “Em nossa sociedade é difícil as pessoas aceitarem as limitações e transformações que este processo provoca. Seja a nível social, cognitivo, afetivo e motor. A essência da pessoa permanece com ela no seu envelhecer, mas pode acontecer algum evento que de uma hora para outra modifica tudo”, explica. Conseguir envelhecer sem nenhum tipo de ocorrência é algo praticamente impossível. “O estilo de vida que adotamos, com excessos de estresse, acarreta problemas no envelhecer. Muitas doenças e limitações corporais vêm da forma como no nosso dia a dia cuidamos do nosso bem estar social, afetivo e corporal. Além de todas as doenças hereditárias que passam de geração em geração”, avalia. Conforme a professora, no processo de envelhecimento, a principal dificuldade é a aceitação de que não conseguimos mais fazer tudo como jovens,

precisando de apoio dos outros. “O importante ao envelhecermos é descobrir no nosso dia-a-dia o que ainda conseguimos fazer bem para nos preservarmos dos eventos ruins”, reforça.

A alegria de envelhecer

Algumas vezes, o processo de envelhecimento pode machucar a autoimagem, que é a confiança em si mesmo. “Ao envelhecermos esta autoestima é abalada pelo preconceito social, que considera o jovem, bonito, viril, como fundamental”, explica Alessandra Brod. Por isso, é importante valorizar a alegria. Manter-se bem por dentro é o grande segredo. “A pessoa que envelhece deve manter o gosto por aprender coisas novas, o máximo de amigos e se sentir bem com tudo que faz. Cuidar da aparência física pode ser um auxiliar na manutenção da autoestima, mas não deve ser o objetivo principal, pois sabe-se que a beleza é relativa. A pessoa que consegue manter o bom humor e o alto astral se torna bonita pelo seu carisma”, esclarece Alessandra.

A convivência com os outros

Edelvira adora conhecer novas pessoas e fazer amigos. Na família fica evidente como a forma que escolheu envelhecer reflete na relação com as pessoas. As novas gerações enxergam em Edelvira um espelho. A neta de 15 anos chega a pegar as roupas da avó emprestada. Ela destaca a importância de conviver com pessoas ativas e alegres. “Se tu conviver com pessoas muito para baixo, tu vai se afundar também”, pontua. Alessandra também destaca a importância das relações


Lucena representa a beleza e a vontade de viver dos grupos de idosos da cidade gaúcha de Teutônia

para melhor envelhecer. “Dialogar com os jovens da importância de sua história de vida e conhecimentos que possui”, sugere. Lucena acredita que os grupos de terceira idade têm sido fundamental para mantê-los ativos. “Sem os grupos, eles estariam sentados em casa ao invés de sair, se divertir, fazer novas amizades”, afirma. Ela lembra da felicidade que os idosos de todas as idades esbanjam nos bailes, compartilhando com os amigos. “Isso valoriza muito o idoso, para ele se sentir mais bonito e alegre”, afirma. Para Lucena, esta mudança nos hábitos tem feito com que idosos cada vez se cuidem mais, tanto em questões de beleza, quanto de saúde.

Uma terceira idade cada vez mais ativa

A população de idosos tem buscando envelhecer com mais qualidade de vida. Para Alessandra, isso é um reflexo da maneira como o tema tem avançado em pesquisas, proposições da sociedade e preocupação da gestão pública. Porém, acredita que ainda é preciso avançar através de políticas públicas e do apoio fami-

liar. “Manter um envelhecimento ativo pode ser fundamental para a manutenção da qualidade de vida. Além de poder auxiliar na prevenção e no controle de doenças degenerativas e cognitivas, por exemplo o diabetes, as cardiopatias e o Alzheimer”, pontua. Edelvira esbanjando vitalidade e felicidade deixa alguns conselhos aos idosos. “Nunca ficar em casa sentado. Tem que sair, arrumar amizades. Fazer algum tipo de esporte. Fazer alguma viagem se puder. Fazer alguma coisa, senão a gente para no tempo”, aconselha. Lucena também busca contagiar outros idosos. Reúne as vizinhas em sua casa e pede para a filha fazer sessão de beleza entre as amigas. Além disso, em suas visitas aos grupos da terceira idade ela palestra falando sobre seu título e incentiva os colegas a cuidarem de si, se mantendo ativos. Edelvira e Lucena já passaram dos 70, mas ambas afirmam se sentir mais novas, isso porque mantém a vitalidade investindo em si. A vaidade é apenas o reflexo externo da uma imensa alegria de viver e ser feliz. Afinal, está é a beleza de envelhecer.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER A decisão de investir em uma pauta sobre a terceira idade tinha um objetivo para mim: sair do “mundo universitário”. Presos nos nossos círculos de amizade composto por jovens, esquecemos daqueles que vivem há mais tempo do que nós. Nos julgamos tão sábios com nossos 20 e tantos anos, que não damos ouvidos e nem voz a quem já passou dos 60. Eu queria ouvi-las e saber o que pensavam sobre autoestima. Fui surpreendida. Primeiramente com a capacidade delas de serem amáveis. Sem me conhecer me receberam de braços abertos e chimarrão prontinho em suas casas. Em segundo lugar com o fato de que, apesar de vaidosas, elas não se preocupavam com coisas tão fúteis. Elas se arrumavam e se cuidavam para se sentir bem com elas mesmas refletindo a alegria de dentro. Com meus 23 anos, me senti envergonhada porque senhoras com mais de 70 eram três vezes mais ativas e dispostas a viver do que eu. Ah como temos a aprender com essa geração. Aprender a ser gentil e menos julgador. Não apenas com os outros, mas consigo mesmo. Quero chegar aos 70 assim como Edelvira e Lucena. Nosso encontro me fez ter mais vontade de me aceitar, de ser melhor para mim e para os outros. Quero chegar lá vendo a beleza que há em cada fase da vida, inclusive no envelhecer. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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TAINAH GIL

a i c n ê l o i V

Significado: é o conjunto de ações que infringem a lei e a ordem pública nos centros urbanos e metrópoles.

S

abendo do impacto negativo que a violência tem na sociedade, decidimos transformá-la em pecado. Nesta edição, nossos repórteres produziram matérias que trazem histórias de quem já passou por violência nos transportes públicos e relatos de mulheres que sobreviveram à violência doméstica e obstétrica. As reportagens nos inspiram a dar um basta à violência!


Ser mãe dói Na hora do parto, a violência obstétrica ameaça o direito das mulheres sobre os próprios corpos

Alex Hockett / Unsplash

Por Fernanda Bierhals

“F

oi todo um procedimento padrão, independente das minhas preferências”, declara Tamires Gomes a respeito do dia mais feliz de sua vida. “Minha médica foi muito gentil durante todo o período da gestação. Mas tem coisas que eu gostaria de ter sido questionada, outras que expressei bem que não queria; mas não foram respeitadas”, completa a jornalista, ao lembrar de 16 de setembro de 2015, dia em que nasceu sua filha, Rosa.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo e divulgada em 2010, mostra que uma a cada quatro mulheres são vítimas de algum tipo de violência obstétrica. O número, correspondente a 25% das mulheres gestantes, aponta para vítimas de procedimentos e cortes desnecessários, uso da força física, além de agressão verbal e psicológica. “Os médicos usam o fato de

que eles têm conhecimento técnico e por isso eles dizem o que é necessário. Então é uma batalha quase perdida”, tenta justificar Tamires. A mãe de Rosa, que desde o início da gestação quis o parto normal, conta que o desafio começou na hora de escolher um bom profissional de obstetrícia. Principalmente por meio dos planos de saúde, é difícil encontrar obstetras dispostos a realizar partos normais. Isso porP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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que a cirurgia cesariana proporciona praticidade, com o parto de hora marcada, baixa probabilidade de complicações médicas e sem demora. No caso de Tamires, a médica aceitou realizar o parto normal, mas cobrou a taxa de disponibilidade. Mil e quinhentos reais com nota fiscal. Precinho camarada de apenas mil, caso não fosse necessário emitir o documento. “Acho impressionante”, satiriza Tamires. “Uma pessoa que faz obstetrícia na faculdade não foi informada de que ela vai fazer parto, e que parto não tem hora para acontecer?” questiona. A cobrança da taxa é ilegal e os planos de saúde pedem para a prática seja denunciada. Porém, no caso de uma mãe que busca o parto ao invés de uma cirurgia, as mãos ficam atadas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o segundo país com maior índice de partos realizados por cesárea. Aqui, 55,4% dos bebês nascem através desse procedimento. O primeiro lugar do ranking pertence à República Dominicana, onde a taxa ultrapassa os 56%. O índice relaciona o volume populacional com o número de gestantes e partos realizados, tanto na rede privada quanto pública. “Os batimentos da milha filha estavam dando uma desacelerada, então a médica disse que devíamos acelerar o parto”, relata Tamires. Apesar de ela ter expressado diversas vezes que não queria episiotomia - um procedimento onde é feita uma incisão na região do períneo para facilitar a passagem do feto - mesmo assim foi realizada. “Eu lembro vagamente de uma enfermeira fazendo uma manobra em que ela pressionava minha barriga para acelerar e ajudar a expulsão do bebê. Que eu saiba, isso é até proibido. Mas foi feito”, conta a jornalista a respeito dos procedimentos dentro da sala de parto. O movimento da enfermeira é chamado Manobra de Kristeller, autorizada no Brasil mas proibida em diversos países justamente pelo perigo que apresenta às mães no trabalho de parto.

A quem pertence esses corpos?

Para milhares de mulheres, não há nada de errado com o relato de Tamires. Parto não é fácil, mas a experiência vale a pena. O que acontece, porém, é que existe em uma série de violações de direitos básicos que acabam ocorrendo no atendimento às gestantes, desde o acompanhamento pré-natal até o momento do nascimento. O termo violência obstétrica é utilizado para designar diferentes tipos de omissões, agressões e abusos aos quais as gestantes são submetidas. Lara Werner é idealizadora do Observatório Brasileiro de Violência Obstétrica, projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alocado na Escola de Enfermagem de Saúde Coletiva da universidade desde 2016. O órgão, sediado em Porto Alegre, integra uma rede internacional de observatórios desse tipo de violência, que atualmente conta com nove países. A iniciativa de estruturar um órgão nesse formato de observatório nasceu na Argentina, em 2015. Na época, uma organização chamada Las Cassildas conquistou, junto ao Conselho Nacional das Mulheres, a validação para utilizar os dados de violência obstétrica, obtidos através da internet, como oficiais. Dessa forma, o espaço para a discussão e pesquisa do assunto foram ampliados. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Dos nove países que integram a rede internacional de observatórios de violência obstétrica, a maioria é sul americana. O próprio termo, que designa diferentes tipos de agressão, é uma conquista das mulheres latino americanas. Foi acatado oficialmente pela primeira vez na Venezuela, que em 2007 incluiu a expressão à lei orgânica do país. “A partir do momento que a gente nomeia uma forma de violência, a gente consegue ter dispositivos de enfrentamento”, defende Lara. A pesquisadora destaca que os objetivos do Observatório da Violência Obstétrica no Brasil são a elaboração de pesquisas referentes ao tema, bem como a disseminação e a mediação de informações. Ou seja, a tradução de termos técnicos e científicos para uma linguagem acessível para que, a partir disso, seja possível fazer diferentes tipos de enfrentamento e prevenção. O desafio para o Observatório e para a maioria das mulheres é o entendimento do que é, de fato, violência. É necessário ressaltar que ela se apresenta não só no aspecto físico ou na omissão e negligência de profissionais da saúde. A violência também está presente na perspectiva verbal (deboches, xingamentos, comentários preconceituosos ou vexatórios), e na perspectiva psicológica, como a culpabilização da mulher por algum sintoma, ameaças e coerção para realização de determinados procedimentos. A principal ferramenta de combate e enfrentamento da violência obstétrica é a informação. Além disso, a vigilância e o controle dos procedimentos junto a instâncias como o Ministério da Saúde. É o que defende Ricardo Herbert Jones, médico obstetra. Segundo ele, é difícil falar sobre as agressões porque elas estão diluídas dentro das instituições de saúde. “A violência obstétrica já está tão banalizada que fica escondida no que a gente chama de rotinas ou protocolos médicos, que na verdade são rituais repetidos e padronizados”, declara o especialista. Como defensor do parto natural e humanizado, Jones é uma espécie de ativista e figura pública para tratar do tema. O obstetra, que realizou mais de 2 mil partos, já apareceu diversas vezes na mídia relatando uma perseguição dos órgãos que fiscalizam práticas médicas. Em 2016, Jones teve o registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Ele é acusado de imperícia, imprudência e negligência em um parto humanizado que realizou na casa da paciente, em 2010. Na ocasião, a criança nasceu e foi levada para o hospital para procedimentos de saúde, mas veio a óbito no dia seguinte. O Edital de Execução de Sanção Disciplinar emitido pelo Conselho Regional de Medicina do


Patricia Prudente / Unsplash

Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), em novembro do ano passado, diz que “comete o delito ético o médico que atender parto em local e condições inadequadas, colocando em risco a saúde e a vida da parturiente e do concepto”. Além do debate político a respeito das formas de parir e da autonomia da mulher sobre o próprio corpo, o caso de Jones ainda gira em torno do partograma: uma documentação que registra a evolução da gestação. O médico afirma ter anotado todas as informações sobre seus pacientes, mas a documentação não teria sido aceita pelo CFM. Apesar da atual condição, onde não pode exercer a obstetrícia, Jones continua um entusiasta do parto normal ou natural. O especialista informa que esse tipo de agressão acontece de forma sutil, quando o médico estabelece poder sobre uma paciente e acaba produzindo algum tipo de opressão aos direitos que são básicos e fundamentais. “Um das características básicas da violência obstétrica é a incapacidade de oferecer todas os direitos, impedindo que a paciente faça as escolhas informadas e ponderadas a respeito do que quer no parto”, declara Jones. Então a violência já começa ali, quando a mulher não é informada de todas as possibilidades ou procedimentos pelos quais podem passar. “Quando a paciente enfrenta algum procedimento, como colocar soro de rotina, ficar na posição adequada para o médico, quando é obrigada a fazer raspagem de pelos, quando recebe enema glicerinado”, exemplifica Jones. A chance de que ocorra uma morte em decorrência da violência obstétrica é rara, dada à evolução da atenção ao parto no Brasil e no mundo. Porém, existem consequências como a insatisfação do pós operatório do procedimento cesariana, hemorragias e fraturas causadas pela manobra Kristeller e até repercussões que afetam o psicológico das pacientes. “A gente tem visto, com frequência espantosa, as repercussões psicológicas, afetivas, emocionais e sexuais da violência obstétrica sobre as mulheres que passam por esse tipo de processo”, observa Jones. Segundo o médico, a questão afetiva precisa de atenção pois o estabelecimento de vínculo entre a mãe e bebê pode ser afetado nesse processo de violência. Além disso, algumas mulheres também apresentam complexos semelhantes às vítimas de abuso sexual: “Elas se silenciam, ficam quietas, não contam para ninguém e guardam a dor pelo desrespeito e pela violência às quais foram submetidas”, relata o especialista. Que mulher é vítima da sociedade, não é novidade. A luta contra a opressão e a violência é diária. “Meu corpo, minhas regras” Aditya Romansa / Unsplash

- uma frase determinista, amplamente utilizada por movimentos de correntes feministas - é uma afirmação que deve valer integralmente em todo o período de vida da mulher. E o parto não pode passar ao largo dessas reivindicações. Atualmente, existe uma série de sites e páginas nas quais mães, obstetrizes e especialistas falam sobre os diferentes procedimentos de parto - natural, normal, cesárea. O importante é discutir possibilidades, garantindo a saúde da mãe e do concepto, sem abrir mãos dos direitos básicos de escolha que a paciente têm. O pré-natal é imprescindível. O acompanhamento médico é fundamentalmente necessário durante a gravidez. O que não podemos deixar que aconteça é que os direitos da mulher continuem sendo negligenciados ou atendidos por qualquer tipo de entidade que se coloca acima de nós. Por isso, mulher, se informe. A tua gestação é um período singular. São muitas dúvidas, muitos medos e muitas incertezas. Mas não se acanhe. Sempre questione seu médico e não vá para casa com dúvidas ou receios. Converse com outras mães - vocês são o maior apoio uma da outra. Se necessário, procure redes e órgãos que possam dar assistência em impasses jurídicos. Saiba que tens o poder de escolha e o utilize. E, se em algum momento se sentir ameaçada, coagida, agredida ou violentada, denuncie. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é possível formalizar queixas junto à ouvidoria do município ou no próprio setor dos hospitais. Se estiver utilizando plano de saúde, entre em contato com o serviço de atendimento ao cliente e denuncie. O parto é um momento mágico, uma experiência que não pode ser resumida à dor e violência. Compartilhe informações, oriente mulheres da tua geração ou da próxima. Acredite, vale o incômodo. Nós por nós, sempre.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Algum tempo atrás, era tabu. Há pouco tempo atrás, era vulgar. Mas hoje, abrir espaço para mulheres falarem sobre seus próprios corpos, é necessário. Saber do descaso com que tratam as parturientes na maioria das instituições de saúde no Brasil - onde o procedimento de parto é protocolar - me faz pensar no quão estagnados estamos na conquista dos Direitos Humanos da mulher. Apesar dos avanços na medicina, é preciso respeitar a liberdade de escolha do indivíduo. Sem isso, não existe nada além de opressão. Eu, que nem penso em ter filhos, me desespero ao saber que na hora do parto meu corpo não é meu. Que os corpos das minhas familiares, amigas, conhecidas não são delas. Nos relatos dessa matéria, pude identificar que esse tipo de agressão é praticamente normalizada na nossa sociedade, onde todas nós somos vítimas, de alguma forma. Na esperança de proporcionar algum tipo de reflexão acerca da opressão das mulheres, cito a escritora e ativista Audre Lorde: “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Uma mulher em busca de fortalecimento após tentativa de assassinato pelo ex-marido, Cléo exige justiça Por JOÃO ROSA. fotos de FERNANDA SALLA

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m vento forte rondava as ruas sombreadas pelas árvores do Centro Histórico de Porto Alegre, até que Cléo Márcia Alves, 30 anos, resolveu contar sua história e o porquê de estar acolhida na Ocupação Mulheres Mirabal. O casarão imponente azul acinzentado, localizado em uma rua que já teve muitas denominações é atualmente o território mais seguro para muitas mulheres do Rio Grande do Sul. O espaço que fica na Rua Duque de Caxias, número 380, acolhe mulheres vítimas de agressões psicológicas e físicas cometidas por namorados, maridos ou parceiros. Negra e mãe de cinco filhos, Cléo é uma das diversas vítimas. Ela terminava o banho e sinaliza-

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va para Nat (como é chamada a Natália Jobim) que estava quase pronta. Os cabelos estavam úmidos e cheirosos. O aroma do creme rondava seus cachos e ficou ainda mais intenso na medida que houve a aproximação na hora de ajudá-la a descer as escadas da Mirabal. Com jaqueta jeans, saia preta até a canela e uma meia branca intrigante em um dos pés, Cléo esperava pronta no segundo andar, onde fica seu quarto. Sentada em uma cadeira de rodinhas com estofado verde, dessas de escritório que giram e que podem ser ajustadas tanto para cima quanto para baixo, ela deu um singelo e educado “oi”, com um sorrisinho para quebrar o famoso gelo. “Agora tu vai entender por que ela foi a escolhida para falar”, é o que dizia Nat, já pela segunda vez. A primeira tinha sido ainda

no térreo, enquanto Cléo se preparava para a conversa. Ela precisou ser carregada até o andar de baixo, pois não tinha condições físicas de caminhar. Após a cadeira ser trazida para baixo com a ajuda da filha Anne, 12 anos, começou-se um zig-zag devido às rodinhas tortas e brincadeiras do tipo “tem carteira (de habilitação) para levá-la, Nat?” Cléo, enfim, chega à Sala do Acolhimento, espaço na Mirabal destinado à conversas, debates e pequenas atividades culturais.

A meia branca no pé volta a intrigar

“Conhecia ele há 10 anos e há três eu casei. No começo ele era uma pessoa normal, bebia, mas não a ponto de me agredir. Com o passar do tempo, começaram as agressões. De martelo, facão, já me tocou um espelho. Foram diversas agressões durante estes anos”, lembra Cléo com os olhos voltados para baixo. Repentinamente ela muda a expressão e passa a adotar um tom mais sério e firme. “No dia 13 de agosto, último Dia dos Pais, ele tentou me matar”, revela a auxiliar de serviços gerais do Hospital Conceição, na zona norte da Capital. “Me deu três facadas na perna e, no momento, estou impossibilitada de caminhar.” De acordo com


a mulher, “ele criou uma neurose e fixação” e se ela não ficasse com ele “não ficaria com ninguém”. Com tom de voz mais baixo, ela começa a comentar que há dois anos começou a perceber que as coisas já não eram como antes. Não deixava ela usar uma roupa mais curta, não podia sair e, se demorasse, era “porque já estava com outro”. “Pra mim era sempre mais difícil, porque quando ele me deu as facadas, eles (filhos) estavam tudo do meu lado. A Anne viu, ela tava segurando o braço dele enquanto fincava a faca. O meu outro filho de nove anos ficou lavado de sangue. A minha filha de sete desmaiou”, comenta com os olhos constantemente olhando a esmo. A auxiliar de serviços gerais do Hospital Conceição, na zona norte de Porto Alegre, tem uma casa própria no bairro Lomba do

Pinheiro, zona leste da Capital. Na maioria dos tapas, socos e chutes, seus filhos estavam presentes e viviam as corriqueiras agressões vindas do homem de 26 anos, que atualmente está preso no Presídio Central de Porto Alegre. “Meus filhos me viram diversas vezes apanhando, sangrando.” Na maioria das vezes, após as violências, o homem saía de casa e retornava alguns dias depois, agindo de maneira despretensiosa. “Ele simplesmente ia embora e voltava dois ou três dias depois como se nada tivesse acontecido.” Cléo foi acolhida no dia 8 de setembro, há pouco menos de uma semana da entrevista. Ela não tem ideia de quando sairá da ocupação. Noutra oportunidade, cerca de 20 dias antes da tentativa de homicídio, ela já tinha sido acolhida pela Mirabal, porém, acabou retornando para casa. “Eu me arrependo amargamente de ter voltado pra casa. Eu tenho esse sentimento comigo.” Na ocasião, ela participou de uma audiência na qual o juiz à concedeu o direito de ficar em sua casa. “Ele bebia, fumava, cheirava... a pessoa drogada se transforma, né?.” Na noite anterior à agressão, ele estava sob efeito das drogas e a agrediu verbalmente. Na manhã seguinte, retornou ao local e cometeu o crime, que poderia ter encerrado a passagem de Cléo em vida.

Se não fosse Anne, uma das filhas que observou o padrasto se aproximando com a faca, Cléo poderia ter sido morta na própria casa, no próprio quarto. “Quem viu ele chegar para cima de mim foi minha filha. Tava na cama, de costas, arrumando eles e ela deu um grito e me joguei para trás. Comecei a chutá-lo, foi quando pegou minhas pernas. Ele ia me matar na frente dos meus filhos e ia me deixar lá. Ele foi lá para me matar.“

“Fui morta para o posto”

A meia branca foi tirada do pé esquerdo. Um corte profundo na parte de cima ainda estava em processo de cicatrização. “Fiz duas cirurgias no pé. A primeira não deu certo e aí fui para a mesa para tirar a perna, do joelho para baixo”, conta

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ela, que começa a puxar a Cléo mostra ela teria que remover um pedaço da perna. saia para cima, deixando à as marcas da “Foi horrível receber a notícia, tanto que mostra meia dúzia cicatrizes violência que eles me davam remédio e eu só chorava. Nesem formatos de costuras, sofreu do ex- ses dias, não sabia dos meus filhos. Só sabia com cortes que devem so- marido em que eles tinham ficado com uma vizinha”, mar 20 centímetros cada. agosto conta com a cabeça se mexendo de um lado “Fui morta para o posto, para outro, com muita tristeza no olhar. tinha desmaiado no carro. QuanNa segunda cirurgia, Alfredo, o médico que ela do fui para lá, eles costuraram os faz questão de lembrar o nome, falou que “na ciêntrês buracos onde foram as faca- cia não custa tentar”. O cirurgião retirou uma veia das. Me deixaram na salinha de do peito para bombear sangue no pé de Cléo. Deu espera. Quando cheguei no Cristo certo. Passado uns dias, retornou a mesma psicóloga (hospital), fiz um exame e viram e a avisou que não precisaria mais amputar uma das que tinha pego na veia, só que já pernas e que apenas uma bota ortopédica bastaria tinham costurado ela no posto. nas próximas semanas. “Fiquei bem depressiva no Também não podia ser operada hospital. Nos primeiros dias que vim para cá não imediatamente porque tinha comido dormia. O pior é meu pé, porque não sinto-o. Meus e meu estômago tava cheio. Tive dedos também não. Só formigueiro, de cãibra.” que ficar quatro horas esperando Indagada sobre o agressor, ela acredita que o hoe foi o que prejudicou mais a per- mem, preso desde agosto no Presídio Central de na”, diz a mulher que constante- Porto Alegre, não permanecerá encarcerado por muimente olha para suas marcas. to tempo. Em tom de ironia, ela solta que “a justiça Na hora que Cléo foi para a mesa do nosso país é ótima” além de desejar que “ele fide cirurgia, uma autorização tinha que uns anos preso para pagar o que ele fez.” que ser dada, pois ela corria o risco de não sobreviver à emergencial Uma casa para as mulheres operação. Como ela estava incomu- se fortalecerem nicável com seus parentes, os médiNa maioria das vezes, uma agressão psicológica cos tiveram de entrar no sistema do acaba machucando mais que um tapa, que um chute hospital a fim de conseguir a ficha da ou que um soco. Em diversos casos, mulheres saem irmã de criação da vítima para então de suas casas desesperadamente atrás de um abrigo entrar em contato via telefone. para ficarem longe de seus respectivos agressores. “Quando ela veio, já tinha entra- Muitas são mães e totalmente vulneráveis à sociedo pra sala de cirurgia. Fiquei quase dade machista que as cercam desde os primórdios. duas horas com a veia sangrando”. Elas precisam de cuidado, carinho e atenção. Passando a primeira cirurgia sem suNo Brasil, a cada cinco minutos uma mulher é cesso, veio uma psicóloga avisá-la que agredida, segundo o Mapa da Violência 2012. O país P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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é ainda o quinto colocado em um ranking global de assassinato de mulheres, perdendo apenas para nações como El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia, segundo pesquisas da Organização das Nações Unidas. Já a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, conhecida como ONU Mulheres, revela que a cada 90 minutos uma pessoa do sexo feminino morre vítima de violência masculina em solo brasileiro. O Lar Dom Bosco, orfanato que funcionou por mais de duas décadas outrora coordenado pela Congregação Salesiana, deu lugar à Ocupação Mulheres Mirabal no dia 25 de novembro de 2016, data que marca o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher. Naquela noite, cerca de 100 mulheres adentraram o prédio a fim de fugir da violência vivida dentro de seus lares. O Movimento Olga Benário, administrador da Ocupação, escolheu o nome Mirabal por conta das irmãs que carregavam o sobrenome. Minerva, Pátria e Maria Teresa foram assassinadas em uma emboscada enquanto visitavam seus respectivos maridos durante a Ditadura Militar na República Dominicana, comandada por Rafael Truijillo, em 1960. Após terem sido torturadas


pelo governo, foram arremessadas de um penhasco dentro de um carro a fim de simular um acidente. Os dois objetivos da casa, segundo a coordenadora Natália Jobim, são acolher e abrigar mulheres que estão em situação de violência, principalmente a doméstica, além de preparar essas pessoas para uma nova vida em sociedade. “Essa casa é para as mulheres se fortalecerem. Por mais que elas fiquem neste espaço fechado por algum tempo por conta do agressor, elas encontram paredes, quartos e banheiros para ter o básico, que é pra elas ter um espaço onde elas não vão estar apanhando, para poder dormir e viver a vida”, declara Nat, como é chamada pelas acolhidas. Questionada se já existe algum local para as mulheres da Mirabal serem direcionadas caso ocorra uma futura reintegração de posse da Brigada Militar, Luciana Artus Schneider, Dirigente do Núcleo de Defesa Agrária e Moradia da Defensoria Pública do Estado, informou que “não” e que o “município de Porto Alegre dispõe de apenas uma casa para acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica, na qual possui apenas 11 vagas e está lotada.” Quanto a posição da Defensoria referente à Mirabal, Luciana salienta que “o serviço desempe-

nhado na Ocupação é essencial e importantíssimo” e que o poder público tem “apoiado o movimento no sentido da indicação de um imóvel para a instalação da casa de acolhimento”, revela. Em tom crítico, a defensora finaliza que “o Estado deve adotar políticas públicas sérias e eficientes, com a abertura de mais vagas para o acolhimento das vítimas e de seus filhos”, além de que “deve haver um investimento grande em educação em direitos, pois só assim poderá se diminuir os índices de violência.” Por outro lado, Cléozinha, como é chamada a mulher que teve a mãe morta pelo próprio pai, mas que sobreviveu a mais um ato criminoso contra mulheres no país, ainda não tem previsão de saída da Ocupação. Está no seguro, encostada pelo INSS. Ela revela que a ideia é ficar na Mirabal até se estruturar e ter condição de cuidar dos filhos sozinha. “Vou ficar por um tempo indeterminado. Se Deus me deixou viva para passar por tudo isso é porque a luta tem que continuar”. A acolhida pela Mirabal ainda finaliza com um alerta para as mulheres vítimas de todo e qualquer tipo de agressão: “No primeiro instante que a pessoa te desrespeitou, tu já não deve mais ficar com ela.”

A Ocupação Mirabal acolhe, desde novembro de 2016, mulheres vítimas de agressões

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Após diversas tratativas de contato, consegui agendar entrevista com a Cléo. Foi difícil porque o assunto é extremamente delicado. Mas confesso que não esperava tamanha história. Chegando na Mirabal, me deparo com uma situação um tanto quanto inesperada. Tive, com a ajuda da coordenadora do local, Natália Jobim, que pegar a vítima nos braços e ajudá-la a descer as escadas da casa. Em meio a estes primeiros segundos de contato, senti o que viria nos próximos instantes. O clima era pesadíssimo. Após percorrer os cômodos da casa com Cléo sentada numa simples cadeira de rodinhas de escritório, chegamos até a sala destinada à conversas e atividades. Em meio aos cerca de 40 minutos de relato, a história da mulher de apenas 30 anos me tocou profundamente. Semanas depois, retornei à Ocupação e a levei roupas da minha namorada que eu tinha prometido, além de notar os avanços das cicatrizes nas pernas e no pé esquerdo. Nas duas oportunidades, além de sentir o recente trauma com um misto de carisma, percebi que ela estava muito melhor do que antes. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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A rotina de med

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Do trem aos veículos de aplicativos, é difícil encontrar quem ainda não foi assaltado ou não tem medo de andar neles Por Jaime zanatta fotos de tainah gil

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ma ar ma na cabeça no meio da madrugada. Foi assim que Elisandro Ronei, 45 anos, se deparou com um assaltante dentro do seu carro. Motorista de aplicativos como o Uber e o 99 Pop, ele trabalhava na Vila Nova, em Porto Alegre, quando foi mais uma vítima da violência. Toda a ação do bandido aconteceu em uma madrugada de sábado para o domingo. “Estava trabalhando e recebi um chamado de uma passageira chamada Tânia, na Rua Serafim de Moraes Martins. Fui até o local e veio um homem, que disse que uma amiga havia acionado a corrida pelo aplicativo”, conta Elisandro. Durante o trajeto que tinha como destino a Avenida Eduardo Prado, Elisandro relata que o passageiro pediu para fazer uma parada em uma residência. “Não consegui ver o que ele pegou, mas acredito que tenha sido uma arma e drogas”. No destino final, o criminoso anunciou o assalto. “Ele colocou a arma na minha cabeça e começou a pedir o carro, celular e dinheiro. Entreguei o celular para ver se ele se acalmava. Não satisfeito, ele saiu do banco de trás e tentou passar para o do carona, mas como ele saiu do veículo, acabei arrancando e ele caiu na rua”, relata.

do no transporte P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Outros crimes na direção

O assalto não foi o único sofrido por Elisandro. Há pouco mais de um ano como motorista de aplicativos de transportes, ele já passou por tentativas e furtos. Um dos assaltos frustrados foi próximo à rodoviária de Porto Alegre. Enquanto esperava por algum ‘chamado’, o motorista saiu do carro e foi comprar uma água. “Na volta, fui abordado por dois meninos, que fiquei em dúvida se eram maiores de 18 anos. Os dois com a arma em punho começaram a correr em volta do carro me pedindo a chave. Dei um soco em um e não entreguei a chave”, conta. O motorista não é o único condutor do Uber e de outros aplicativos que sofre com a falta de segurança. Até o dia 23 de setembro, dados do setor de investigações da Polícia Civil, mostraram que, desde janeiro, oito motoristas particulares foram mortos na Região Metropolitana de Porto Alegre. Dois em Alvorada, cinco em Porto Alegre e um em Viamão. Desses casos, cinco já foram P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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apontados como latrocínio, que é o roubo seguido de morte. Mas, não é só esse tipo de violência no transporte que assusta os passageiros pela região. Deslocar-se de ônibus e trem também é perigoso. Com o objetivo de aumentar a renda pessoal, a aposentada Maria Pereira resolveu trabalhar de cuidadora de idosos. Para exercer a função, ela precisa se deslocar entre as cidades da Região Metropolitana. Como não tem carro, ela utiliza ônibus e trem. Normalmente, ela sai de casa antes das 7h, no bairro Guajuviras, em Canoas. Caminha cerca de 500 metros até um ponto de parada na Avenida Boqueirão. Há cerca de dois anos ela foi assaltada por dois criminosos que ainda a ameaçaram. “Eu estava na parada e não tinha nem clareado o dia. Eles chegaram numa moto e anunciaram o assalto. Levaram a bolsa e o celular”, conta. M a s, a l é m d o s o b j e t o s pessoais, a aposentada ainda foi agredida pelos criminosos. “Como tomei um susto

e acabei gritando pedindo socorro, um deles me deu um tapa no rosto”, relembra. Desde então, a sensação de insegurança de Maria aumentou. Ela sente medo até de andar na rua. “Evito estar fora de casa a noite. Meus filhos me cobram, mas mesmo vindo de carro acabo ficando com medo”. Mesmo não sendo vítima de novos crimes, às vezes, a cuidadora escuta relatos de vizinhos que foram assaltados em paradas ou dentro dos coletivos. “Minha vizinha me contou que um homem assaltou ela em Porto Alegre, dentro do ônibus e levou o celular”.

Violência nos trens

A ação dos criminosos não está só nos ônibus, mas também no Trensurb. Nos últimos meses, eles têm cometido arrastões nas composições. Eles embarcam em estações e anunciam o crime. Pegam todos os pertences dos usuários, entre uma plataforma e outra. Desembarcam e na maioria das vezes não agridem os passageiros. Mas não é só de furtos e roubos que a violência no transporte se caracteriza. O assédio também está presente nos ônibus, trens e até mesmo nos veículos que fazem viagens pelos aplicativos. Usuária do Trensurb, uma cabeleireira, que prefere manter a identidade no anonimato, relata que já teve problemas com um homem em uma das composições. “Ele começou a me encochar e por estar lotado eu achei que era normal. Ao descer, ele me mostrou a calça que estava com uma mancha e me entregou um bilhete com o número de telefone. Denunciei”.


Queda nos números

Quem utiliza o transporte coletivo de Esteio anda nos veículos com uma sensação maior de segurança. Em um dos maiores municípios da Região Metropolitana, o número de assaltos nos ônibus reduziu em 2017. Conforme dados divulgados pela Brigada Militar, entre janeiro e julho de 2016, foram registrados 16 assaltos a coletivos. Este ano, dez casos chegaram às delegacias. Para o 34º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento em Esteio, chama a atenção o mês de julho. Foram três assaltos. Cada um em um dia e em bairros diferentes. No trabalho de prevenção, o tenente-coronel que comanda o 34º BPM José Nilo Corrêa Alves aposta em uma parceria entre os policias e as empresas que realizam o transporte, para que os criminosos sejam identificados. “As concessionárias nos cedem as imagens das câmeras de seguranças e por meio delas, identificamos os criminosos e muitas vezes prendemos os autores”, relata. Em contrapartida, em outras cidades da Região Metropolitana, a ação dos criminosos também é alta e assus-

tadora. Conforme dados do Sindicato dos Motoristas e Cobradores, todas as cidades apresentam ocorrências. As mais perigosas são Cachoeirinha e Gravataí. Nos últimos meses, foram mais de 130 assaltos. Na sequência, aparecem Viamão, Alvorada e Canoas. A última, com menos de 20 casos.

Combate aos criminosos

A Polícia Civil criou uma força-tarefa em Porto Alegre e na Região Metropolitana, para combater o crescimento dos índices de assaltos no transporte coletivo. O grupo foi montado em março de 2016. Dados divulgados pelo órgão mostram que só em agosto de 2017 foram 139 assaltos a ônibus na Capital. Na comparação entre o primeiro semestre deste ano com o do ano passado, houve uma redução de 27% nas ocorrências. Entre janeiro e julho foram 1.458 casos, contra 2.041 de 2016. O delegado Alencar Carraro, que é um dos integrantes da força tarefa, aponta que os crimes ocorrem em todas as regiões de Porto Alegre. A ação e o objetivo dos criminosos são quase sempre os mesmos. “Eles embarcam nos coleti-

vos com mais de 20 passageiros, passam a roleta e anunciam o assalto. Levam todos os pertences dos usuários, mas o principal foco é o celular”, ressalta. Com a mesma ideia que já funciona na solução de casos em Esteio, o delegado acredita que a presença das câmeras de segurança dos coletivos vai assustar os criminosos, diminuir e até ajudar na identificação dos criminosos. “Elas inibem e podem ajudar na queda dos números desse tipo de crime”, relata.

Trabalhadores inseguros

Não são só os passageiros que sofrem com a ação dos criminosos e com a falta de segurança. Quem trabalha como motorista e cobrador enfrenta o medo. Por insegurança, um dos cobradores de uma das linhas de maior movimento de Porto Alegre, a T4, prefere não ser identificado. Ele já foi assaltado algumas vezes, trabalha no trajeto que, por anos, foi considerado o mais perigoso da Capital. “Eles entravam no ônibus com facas, armas e faziam a limpa na gaveta e nos pertences dos passageiros e da tripulação. Não poupavam ninguém”, conta.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Conviver com a sensação de insegurança já virou rotina para todos. É difícil não escutar alguém falando que já foi assaltado na rua, dentro do ônibus, trem e que também já foi assediado. Ao longo da reportagem, acompanhei relatos de pessoas que são alvos dos criminosos dentro dos ambientes que circulo. Complicado não ter que conviver com medo, depois de acompanhar os relatos do Elisandro que é motorista do Uber e da Maria que é cuidadora de idosos. Ela, por exemplo, foi agredida por criminosos antes das 7h, em uma das paradas mais movimentadas da Boqueirão, em Canoas. Ele, que trabalha a maioria das vezes na madrugada e que é o horário onde muitos de nós utilizamos o Uber, principalmente no final de semana, foi assaltado e teve uma arma na cabeça. Até mesmo os arrastões no Trensurb assustam, nós universitários, que dependemos dele para ir e voltar a da faculdade. O que pode começar a tranquilizar quem utiliza o transporte público são as ações que as policias estão fazendo na Região Metropolitana para inibir os criminosos. Como usuário de todos os serviços citados na reportagem é impossível não sentir a sensação de medo aumentar diariamente.

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VANESSA PULS

o m s i n o d e H O

Significado: dedicação ao prazer como estilo de vida. Determinação do prazer como bem supremo. bservando o ritmo de vida que as pessoas levam, na maioria das vezes muito acelerado e sob estresse, dar uma pausa para aproveitar a vida pode ser considerado um pecado. A verdade é que nossos dias passam rápidos demais e podemos, sim, conviver com o prazer e fazer tudo de forma mais lenta. Por isso, trouxemos histórias de quem decidiu deixar o ritmo frenético de lado e dedicar-se somente àquilo que lhe dá satisfação.


Uma tarde em um cinema diferente Durante um sábado frequentei um cine privê, marginalizado perante ao público, mas ainda atraente para muitos homens

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Por Anderson Huber. fotos de lidiane menezes

ra um sábado clássico para os padrões porto-alegrenses do mês de setembro: chuva forte, algumas pessoas perambulando nas calçadas, movimento de carros consideravelmente baixo ao longo da Avenida Júlio de Castilhos, que em dias de semana serve de escoamento para a saída da Capital. Tendo em vista tal situação já se pode desenhar um cenário melancólico para qualquer que seja a atividade a ser desenvolvida naquelas ruas. Mas não é este o pensamento de quem procura entretenimento sexual. Seja por meio do clássico bordel, onde empregam jovens mulheres para satisfazer prazeres masculinos, ou até mesmo o moderno contato via WhathsApp, no qual em poucos minutos pode-se conseguir o que deseja pelo valor pelo qual está disposto a pagar. O que mais importa é conseguir fazer o que se deseja. Em meio às opções, ainda há aquela que é considerada umas das mais clássicas e ao mesmo tempo anacrônica: o cine privê. Na Júlio de Castilhos, coração da cidade, há duas opções deste tipo de ambiente. Eu me propus a visitar as dependências de um deles, a fim de presenciar e, posteriormente, narrar os fatos ali ocorridos. Logo na portaria, localizada na Avenida Júlio de Castilhos, próximo à Rua Carlos Chagas recolhi meu guarda-chuva, que se fazia necessário na alagada Porto Alegre. Verifiquei o preço do ingresso: R$ 10 para ficar o tempo que bem entendesse lá dentro.

Ao passar a catraca de entrada, questiono se posso deixar por ali o meu companheiro de chuva. Recebo resposta negativa. Sigo sem hesitar as escadas que ligam a entrada com a sala de cinema, sem antes observar os filmes pornográficos, para a exibição nas estantes do local. Também escuto, ainda que de relance o rádio que o porteiro escutava. Era o jogo entre Internacional x Figueirense, válido pelo Campeonato Brasileiro da série B. O Inter ganhava de 1 a 0, gol de William Pottker. Era só o que eu pude identificar antes de adentrar o salão principal. Ao entrar me deparo com um ambiente escuro, propositalmente hostil e com algumas pessoas acomodadas nas aproximadamente cem poltronas em couro que tinham ali, sendo elas em sua maioria bem conservadas. Dou uma olhada pelos corredores, para identificar um lugar “confortável” para sentar, sem antes pensar em atrapalhar o prazer alheio… Me acomodo em uma poltrona do meio pra trás, na ponta da fileira.

No telão roda um filme carregado de intensidade e violência, no cunho sexual da expressão. Acompanho tranquilamente o andamento do longa metragem, como quem estava apenas assistindo a mais um dos programas que passam na TV brasileira aos sábados. Eis que, de repente, surge alguém sentando ao meu lado, a uma poltrona de diferença. Permaneço como quem nada observou, pois não estava ali procurando o que aquela pessoa provavelmente estivesse a fim de me propor. Percebendo minha indiferença, avança uma poltrona ao lado, estando agora rente ao meu lado, separados pelo encosto do cômodo. Sendo assim não pude deixar de perceber e demonstrar que percebi sua presença. Era uma transexual de aparência envelhecida, talvez pelo rigor que a vida tenha lhe empregado. Sou chamado de querido. Ela acaricia meu braço direito. Questiona se gostaria de algum dos seus serviços: sexo oral, o qual poderia ser realizado ali mesmo, sem maioP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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res cerimônias e descrições. Questiono o valor, a título de mera curiosidade. Ouço como resposta: “É R$ 20, fico o tempo que quiser fazendo o serviço”. Perguntado se gostaria de aceitar a proposta, de pronto hesito e lhe dou uma resposta negativa. Mas afirmo que gostaria de ficar conversando com ela. Não houve restrições quanto a minha contra-proposta, desde que eu P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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exercesse o pagamento integral do “programa”. Então assim fechamos negócio, e entre os gemidos oriundos de ocupantes de outras poltronas e urros da atriz pornô no telão, começamos a conversar. Pergunto-lhe logo de cara o seu nome e idade, ela me responde “Maria*” sem hesitar. Entretanto, ao falar sobre a idade, titubeou, estava diminuindo uns 15 anos, mas escolheu por confessar a idade verdadeira (ou pelo menos creio eu que seja). Ainda sobre seu nome, pergunto se é o nome “oficial” ou nome de “guerra”.A resposta que recebo é a de que o nome informado era o “oficial”. Sendo assim, seguimos a conversa.

O ambiente que me encontrava não era hostil por mera casualidade. Além de um odor de hormônios a pleno vapor exalando por todo o canto, não é proibido fumar cigarro no local, o que causa uma mistura nada combinativa e nem agradável. Pergunto para Maria* (nome meramente fictício) quanto tempo faz que a prostituição era sua atividade profissional. Ouço como resposta “três anos. Comecei


cente dos tempos em que tinham shows de sexo ao vivo. Curioso, pergunto se não havia mais tal espetáculo, ela me responde que pararam há uns dois anos, devido à queda no número de frequentadores do cine. Voltando aos assuntos tratados anteriormente, quis saber o que levou Maria a escolher a prostituição como alternativa. O motivo que a levou a procurar na prostituição uma fonte de renda é o fato de sofrer preconceito em entrevistas de emprego, devido a sua questão de gênero sexual. Por mais que entenda e concorde que este não é o meio de sustento mais “digno” de se ter, Maria diz que sente orgulho do que faz, pois, de acordo com ela, “não está roubando nem matando, está fazendo trabalho de maneira digna”. Ciente dos riscos, ela afirma que não realiza nenhum tipo de serviço sem o uso de preservativo, justamente por não ter contraído nenhum tipo de Doença Sexualmente Transmissível. Nas paredes da sala a tinta está descascando, visivelmente sem reparos há alguns anos. O chão do corredor é escorregadio, tanto que em dado momento um dos visitantes derrapou. Caiu de leve, sem meias voltas levantou-se e foi em direção a um corredor escuro, instigante. Deixei de lado a conversa, paguei os R$ 20 reais acordados e agradeci pelas informações. Fui em direção ao corredor escuro, que, de antemão, prenunciava ser algo ainda mais hostil do que a sala de cinema. Ao chegar há um banheiro, em péssimas condições de higiene, mas o suficiente para quem necessitava “aliviar o aperto”. Depois do insalubre banheiro, há um ambiente totalmente escuro, destinado ao sexo explicito, pleno de todas suas atribuições. Observei por alguns instantes o que se passava através da porta de entrada. Ambiente totalmente escuro destinado ao sexo, o que na linguagem popular é conhecido como “dark room”. Depois de ter conhecido o que poderia, pego meu guarda-chuva e vou embora. Na porta de saída me dirigi à mesma catraca pela qual havia entrado. Porém, fui indicado a sair por uma porta ao lado. Ainda como um último relance auditivo, percebo que a partida do Inter estava no final. Não consegui identificar o placar, mas pelo entusiasmo do narrador o êxito da vitória era alcançado pelo colorado até aquele momento.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER para me sustentar, tinha ficado desempregada e precisava pagar as contas”, afirma. O horário de trabalho dela é na parte da tarde, pois além do baixo movimento que há de manhã, a renda mensal ainda conta com a remuneração vinda do salão de beleza, onde trabalha há alguns anos. Enquanto conduzo a nossa conversa, o filme termina, mas ninguém faz menção de levan-

tar e ir embora, pois estavam recebendo o sexo oral que desejavam. Ao passo de que tudo ia ocorrendo de maneira natural por ali, a sequência do filme também ocorria desta forma. Quando voltei meu olhar para o telão, percebi que o mesmo ficava em cima de um palco, com um sofá. Questionei a garota que conversava comigo do que se tratava, ela me respondeu que o sofá é remanes-

Realizar esta pauta foi uma tarefa um tanto quanto complicada, até mais do que eu imaginava. Enfrentar o desafio de conhecer um local no mínimo diferente, visto por muitas pessoas como algo problemático de se existir. O cine privê se mostrou pra mim como um lugar onde prazeres são saciados, os fetiches mais exóticos que se pode imaginar. Conhecer, tentar entender e narrar as histórias que observei se colocou de maneira que testou minhas reais capacidades textuais. Além disso, desmistificar as ideias que se têm sobre o local (ou confirmá-las) me pareceu ser outro desafio interessante de se fazer. Enfim, atuar como repórter na essência que a expressão define e ir atrás das informações me fez entender um pouco mais do que se trata essa profissão a qual escolhi. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Viajar se tornou a prioridade na vida de Marcos Vinícius, que sai em busca das melhores sensações a cada novo destino

A busca pela fel é prioridad P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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licidade de

o “ter” passa a ser menos importante quando a necessidade de ser feliz é a primeira opção

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Por Manoela Petry. fotos de Vanessa Puls

m um dia normal de trabalho, em 2013, Clarice Silva dos Santos, conhecida carinhosamente como Clara, recebeu a ligação do seu médico ginecologista solicitando que fosse conversar sobre o resultado de um dos exames de rotina. O diagnóstico, um câncer maligno no útero, já em metástase (se espalhando pelo órgão reprodutor), a fez perguntar a sí mesma: “O que eu fiz até aqui, quem eu sou, eu sou uma pessoa feliz?” Jornalista graduada pela Unisinos, licenciada em Letras, pós-graduada em História e doutora em Sociologia, Clara trabalhava na época no Ministério da Saúde e viajava pelo Brasil inteiro como assessora de comunicação. Porém, nem toda sua formação e experiência a prepararam para receber com menos impacto a notícia da doença. “De uma hora pra outra, hora mesmo, minutos, na verdade, você deixa de ter uma vida normal e passa a administrar a perspectiva de que vai morrer. É punk!”, conta. E se, mesmo pronta e determinada a encarar o tratamento ortomolecular e a cirurgia de retirada do útero, Clara tivesse alguns meses ou pouco mais de um ano de vida, o que ela faria com o tempo que restasse? A resposta, mesmo em meio a tantas mudanças e conturbações, era fácil: viajar! Não tinha dúvidas de que queria viajar, uma das coisas que mais gosta, que mais a realiza e a faz feliz. Buscar pela felicidade foi mais do que uma prioridade, foi o que transformou a vida da jornalista. Ela percebeu que ser feliz poderia ser muito mais do que ela pensava que era até então e começou a esquematizar um projeto sobre felicidade. “Caso me curasse do câncer, eu faria tudo diferente, deixaria de herança para meus sobrinhos uma mensagem, uma pegada, não só coisas materiais.” Estudos, pesquisas e análise dos mais diversos materiais sobre felicidade fizeram parte do início do projeto de Clara. Depois da teoria, a prática: o marco inicial da viagem foi Osório, cidade de onde saiu, de ônibus, com menos de R$ 1mil na conta. Desde quando se jogou no mundo, em 2016, já visitou nove países, todos da América do Sul. Em cada lugar que chega, Clara vai em busca de pessoas que possam lhe falar sobre a tal felicidade. O resultado dessas entrevistas será um documentário e também um livro, produzidos pela jornalista. “Eu acho que felicidade deveria ser prioridade nas vidas de todos. Além desse sentimento, a viagem me proporciona uma das coisas que mais busco na vida, desde criança, que é o conhecimento, um conhecimento que não tem como ser ensinado no meio acadêmico. A oportunidade de conhecer outras culturas, respeitar as diferenças, poder me colocar no lugar do outro, não tem preço!” Segundo Clara, a felicidade passou a ser sua meta diária. Embora nem sempre seja possível alcançáP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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-la, em todos os dias, está aberta a ela. A jornalista destaca que existe muita “venda” de felicidade, na publicidade e marketing, atrelada ao consumo, ao ter. Na estrada, ela tem aprendido muito sobre o desapego. Viajando apenas com o necessário, ela percebe que não são as roupas ou acessórios da moda que proporcionam sensações ou bons sentimentos.

A profissão de viajante

“Momentânea”. Assim, Marcos Vinícius Prestes, agente de viagem, define a vida. Cheia de pequenos instantes, que passam rápido e que podem ter consequências igualmente ligeiras ou permanentes, para Marcos, ela pode ser definida pelos prazeres, liberdades e felicidades, encontrados cada vez que um avião decola e o leva para um novo destino, ao encontro de novas sensações. Apaixonado pelas experiências oferecidas nas viagens, o agente defende a busca constante pelo que lhe faz bem. Para ele, ficar trabalhando ou fazendo algo que não gera boas sensações, é colocar a vida no lixo. “A melhor coisa é ter liberdade, ir e vir a qualquer momento, sem impedimentos. Nascemos assim e é uma necessidade natural buscar por isso”, diz. De acordo com o agente, as experiências são as coisas que ninguém jamais poderá tirar das pessoas e que as tornam melhores. “Viajar proporciona isso, esse sentimento de prazer que invade o corpo. E o melhor, não dura apenas um momento: pré-viagem, durante e após... as memórias de momentos tão felizes nos faz levar a vida um pouco mais leve e com boas vibrações!” Como Vinícius, os brasileiros têm buscado viajar cada vez mais. Segundo a Confederação Nacional de Turismo, em cinco anos, houve o crescimento de mais de 65% no número de brasileiros que realizaram

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viagens dentro do país. Conforme uma pesquisa do site Booking, viajar deixa as pessoas mais felizes do que grandes acontecimentos, como ter filhos ou casar. O levantamento feito com 17 mil pessoas de todo o mundo mostrou que viajar é essencial para ser feliz. De acordo com a pesquisa, as pessoas consideram planejar e viajar de férias mais essencial para conquistar a felicidade do que grandes eventos da vida, como o dia do nosso próprio casamento, um encontro romântico, conseguir um novo emprego ou ter um filho. Além disso, 77% das pessoas dizem sair de férias no momento exato em que precisam de uma dose de ânimo e prazer. “O mais bacana é poder ver o modo de viver das pessoas em diferentes lugares do mundo, poder provar comidas de diferentes, gostos e modos de preparo, ter essas experiências que no meu lar e conforto não tenho”, defende Vinícius.

viagem como estilo de vida

Embora considerada uma prática positiva e gratificante, em alguns casos, a viagem não é bem vista pelas pessoas. Preguiçosos, desleixados, “nem aí pra vida” são alguns dos

adjetivos que recebem pessoas que colocam as experiências longe de casa como prioridade. Bruna Peixoto e Luiz Jaeger percebem esse preconceito. Os dois largaram emprego, casa, família e amigos para viajar e ir em busca da tão sonhada felicidade. “Existe um certo preconceito com pessoas que deixam seus empregos tradicionais, se direcionando para outros, que tragam muito mais prazer e experiências de vida”. Nas transformações e aprendizados da estrada, o casal encontrou o que faltava na vida que levavam. “A viagem te ensina a cada dia. Primeiro, ensina a ter humildade, já que estamos constantemente precisando de ajuda, seja para pegar água, pedir uma informação ou conseguir um lugar seguro para dormir”, explica Bruna. Além disso, ensina a não ter preconceitos, que o mundo é muito mais seguro do que se pode imaginar, que tudo passa e que as conexões com as pessoas são muito valiosas. “Viajar nos proporciona alegria de estarmos vivos, de desfrutar da natureza, nos mostra como o mundo é bonito e como as pessoas são generosas”, completam. Todas as boas sensações proporcionadas hoje, a cada dia, pelas aventuras do casal são as priori-


dades de sua vida. Para Para Bruna e Luiz, O casal já conheceu eles, com mudanças cons- é hora de rever diversos países da América tantes, de desejos, con- conceitos e evitar Latina. Em uma Kombi, vicções e ideais, investir o que fere passaram oito meses na em si mesmo agora é ga- a felicidade estrada, visitando Uruguai, rantir a felicidade para o Argentina e Chile. “A atrafuturo também. Não que para isso ção pelo desconhecido é intensa. seja necessário deixar o emprego e Sempre brincamos que o melhor sumir para uma ilha deserta. Mas supermercado é aquele que não ir em busca de novas sensações, sabemos onde estão os produtos”, mudar e estar em movimento. brinca, Bruna. Segundo eles, a vida O casal afirma que é hora de re- em movimento os permite desfrutar ver conceitos e evitar tudo que possa de coisas muito simples e que desferir sua felicidade. Para eles, este pertam sentimentos incríveis. sentimento está diretamente ligado Bruna e Luiz completam: “Se ao prazer, ao amor, às sensações, ao você está deixando para desfrutar que está dentro de cada um, é um da sua felicidade apenas na aposenestado de espírito, e não o que se faz tadoria, cuidado, pois as mudanças ou se tem. “Cada um deve por obri- na nossa vida são constantes, suas gação se questionar e encontrar a ideias podem mudar, a política pode sua felicidade”, destaca Bruna. mudar, você pode nem estar vivo. Para Luiz e Bruna, a liberdade Invista em você mesmo agora, não sentida na viagem e a necessidade é necessário deixar seu emprego, de vivê-la sempre foi um sentimento mas faça algo diferente, algo que muito presente, desde a infância. realmente te faça feliz. PergunteSegundo Luiz, o encantamento por -se o que quer da vida. Se está viajar surgiu ainda em casa, ouvindo feliz neste momento. Se a resposas aventuras dos seus pais, que cole- ta não for convincente, não tenha cionavam histórias e fotos de diver- dúvida. Mude, se reinvente, a vida sas viagens, inspiração para o filho. está passando, e passa rápido. Não “Sempre tive a vontade de ver de per- tenha medo da mudança e de buscar to os lugares que passaram”. pela pura e plena felicidade!”

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Trabalhar para ter dinheiro, para ter roupas melhores, para ter conforto, para ter mais de tudo que o dinheiro é capaz de comprar. Porém, não para ser mais feliz. Embora seja bem clichê dizer que isso é algo que não se compra, ser feliz, para muitas pessoas, ainda está diretamente ligado ao que se tem. Conhecer histórias de pessoas que simplesmente deixaram tudo de material para trás e foram em busca apenas do bem-estar e do encontro pessoal é inspirador. Seja pelo motivo que for, por uma doença, pelo sonho profissional ou para buscar quem se é e novas razões para viver, sentir mais e novas sensações de prazer e alegria precisa mesmo ser nossa prioridade diária. Ser feliz é um estado de espírito, vem de dentro e não das coisas que estão ao nosso redor. Buscar tudo isso precisa ser um objetivo! E a vida vai valer a pena.

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De dentista à monja Andréia deixou para trás a ODONTOLOGIA para se tornar monja e viver uma vida mais simples e com menos conforto

A

Por ERIC MACHADO. fotos de Tuhana Pinheiro

ndréia Socorro de Lima é uma monja budista respeitada que reside no templo budista Khadro Ling, em Três Coroas. Poucas pessoas a conhecem pelo nome de batismo. Hoje os que vivem à sua volta a conhecem por Lama Sherab Drolma. O nome, na verdade, é um título dado a ela ao alcançar o patamar de professora dentro do Budismo Vajrayana. Lama vem do tibetano e significa Mãe Elevada, de forma que quem atinge esse título é visto como uma pessoa que guia seus discípulos como se fossem filhos e os leva à elevação. Mas Sherab, mesmo com todo esse conhecimento, segue um estilo de vida simples e com poucos confortos. No primeiro momento em que a Lama apareceu para a entrevista, todos as definições de monge budista foram atualizadas. Ela entra na sala vestindo calça jeans, camiseta e um casaco. Chovia e fazia frio naquela tarde, por isso as roupas mais pesadas. Quando a vemos pela primeira vez, não imaginamos que aquela mulher é uma monja, mas no jeito de falar é perceptível a leveza e calma na sua voz. É interessante como pessoas que usam da meditação para se elevar, mudam seu modo de falar. Parece que há sempre um autocontrole que inveja a muitos. Enquanto a chuva caía na janela ao seu lado, a Lama começou a contar sua história, de uma mulher com um promissor consultório de odontologia em Belo Horizonte, para a vida monástica na serra do Rio Grande do Sul.

De Andréia para Lama

Nascida na cidade de Macapá, no Amapá, Andréia morou muito tempo em Belo Horizonte devido à formação em Odontologia, e lá conheceu o budismo. Foi apresentada por um amigo psicólogo, em um momento de sua vida que se sentia perdida e foi aconselhada a procurar alguma prática espiritual. O psicólogo convidou, em 1992, Chagdud Tulku Rinpoche, um grande mestre do budismo vajrayana, para ir a Belo Horizonte falar sobre ensinamentos P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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budistas. “Quando conheci Rinpoche, despertou em mim uma vontade dessa prática espiritual que eu não pensava que existia mais”, conta Lama Sherab. A partir daquele momento, ela e um grupo de amigos decidiram seguir com a prática de meditação sob a orientação de Rinpoche. Dois anos depois, formada em Odontologia e com um consultório estabilizado em Belo Horizonte, foi convidada por Rinpoche, que estava decidido a se mudar para o Brasil, a ser sua tradutora, assistente pessoal e administradora das atividades do templo que seria construído em Três Coroas. Naquele momento, decidiu mudar completamente de vida. Fechou o consultório e veio para o Rio Grande do Sul. Até pensava em abrir o consultório novamente no Estado, mas o budismo tomou tempo integral do seu mundo. Vindo para cá, ela não sabia o que a esperava, nem seu mestre sabia. O futuro era incerto demais. Mesmo assim, para Sherab, valia a pena deixar tudo para trás e seguir o mestre. Após alguns anos, o templo e a ideia do local foram ganhando forma. Aos poucos, diversas pessoas que conheceram o budismo em Três Coroas e também pessoas de fora começaram a pedir permissão para morar no templo. Assim foi se formando a comunidade que existe hoje. Lama Sherab explica que lá vivem hoje cerca de 33 pessoas, praticando todos os dias, durante toda a manhã e toda noite, o budismo vajrayana. Ela brinca ainda que cada morador de lá é casado com 33 pessoas, pois todos trabalham juntos, comem juntos e fazem suas atividades juntos. Isso cria uma ligação muito forte entre todos que lá vivem.

A dúvida

A vida monástica não é nem um pouco fácil. No início, Lama Sherab teve vontade de desistir e voltar para casa. Sua mãe, durante os primeiros cinco anos, entrava em contato quase todo dia pedindo para que desistisse “daquela loucura” e voltasse para sua antiga vida considerada normal. Mesmo com os pedidos e as dúvidas que apareciam no caminho Sherab nunca desistiu.


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“Tiveram duas ou três vezes que eu pensei em desistir. Por outro lado, quando cheguei aqui e, principalmente, tendo o Rinpoche como professor, tinha algo dentro de mim que dizia: encontrei o que eu estava procurando a vida inteira”. Ser Lama também carrega uma grande responsabilidade. No budismo há uma enorme quantidade de ensinamentos, então deve-se ter muito cuidado ao passá-los, pois as pessoas podem entender de uma forma deturpada. “Aquele ditado de faça o que eu digo, não faça o que eu faço não funciona aqui. Então você tem que dar e ser o exemplo”, ressalta a Lama. Ela ainda conta que não queria ser uma Lama devido à grande responsabilidade, mas hoje todos os seus seguidores não veem outra pessoa os guiando além dela. Hoje, após ter deixado toda uma vida para trás, não sente falta do que passou. Depois do primeiro ano, ela se encontrou e decidiu que nunca mais iria embora de lá.

Restrições do budismo

No budismo praticado por Lama Sherab não existem proibições sobre o que se pode fazer ou o que se pode ou não ingerir. Dessa forma, todos são ensinados da mesma forma e depende apenas de cada um como usar esse aprendizado. Ela explica que no budismo a primeira prática que se tem é o treinamento de não prejudicar os outros. Para isso deve-se aprender a domar emoções ruins. O álcool, por exemplo, acaba liberando essas emoções e dessa forma não há como controlar e isso pode causar algum mal a

outras pessoas. Por isso deve-se ter cuidado sobre isso, principalmente o de não prejudicar, não praticar a desvirtude e usar das nossas capacidades para ajudar os outros. Quando o assunto é comida também não existem proibições. Alguns praticantes seguem hábitos específicos. Comer carne não é algo considerado errado, mesmo que se faça o voto de não matar. Lama afirma que hoje existem muitos praticantes do budismo que, devido à forma como os animais são abatidos e levando em consideração o voto de não fazer mal às criaturas vivas, não ingerem carne. Ela mesmo fez esse voto, Lama ainda ressalta que no budismo toda a vida é igual, desde uma vaca até uma alface, por exemplo. Em uma coisa todos concordam, uma vida simples é a chave para uma vida mais plena. Hoje o estilo minimalista é seguido não apenas por monges, mas por diversas pessoas que estão largando uma vida de consumo para algo muito mais simples. Segundo o colaborador do site Minimus Life, Wagner Travassos, “o minimalismo é muito mais do que um estilo de vida ou uma preferência estética. É uma ferramenta que pode ajudar a todos aqueles que estiverem dispostos a se livrar dos excessos em favor de se concentrarem no que é importante para encontrar a felicidade, realização pessoal e, principalmente, liberdade.” O movimento minimalista, que veio em primeira instância da arte, hoje é uma maneira de viver que está mudando a vida das pessoas como a monja Andréia.

A essência dA RELIGIÃO

Buscar a iluminação completa é o objetivo principal para os budistas e o motivo de tanta devoção. Esta iluminação é algo que está dentro de nós, apenas esperando ser revelada. Para isso, precisamos nos livrar de todas as emoções ruins, podemos até mesmo compará-las com os pecados capitais como a raiva, o orgulho, a inveja é o ciúme. Interessante afirmar que essa é uma batalha diária, que todos devem enfrentar. Nem mesmo Lama Sherab, com toda sua prática e conhecimento consegue escapar. Todos nós combatemos esses pensamentos negativos, mas o que realmente importa é o que fazemos com eles e como decidimos evitá-los.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Às vezes é difícil a produção de uma reportagem desse porte. Muitas coisas começam a dar errado e você começa a duvidar se dará certo ou não. Mas quando a pessoa que você quer entrevistar responde e aceita, o mundo parece ganhar cor de novo. Encontrar uma pessoa tão elevada como Lama Sherab e poder conversar com ela, é algo que só o jornalismo pode proporcionar, isso me anima a cada dia mais. Ela, com todo seu conhecimento e humildade, nos acolheu e foi tão gentil que possibilitou que esse texto se tornasse possível. Ao final da entrevista tivemos a oportunidade de fotografar lugares lindos no templo em que ninguém poderia fazer, isso foi uma oportunidade incrível que tenho certeza que foram muito bem aproveitadas. A verdade é que o jornalismo, como qualquer outra profissão, tem seus momentos de dificuldades e dúvidas. Mas ver o produto final traz uma realização incrível que só ocasiões como essa, trazem para quem fez parte desse trabalho árduo. No final, com fé e muito trabalho, tudo vai se tornando possível. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Rafaela Trajano

a i c n ê d n e p e D N

Significado: estado ou qualidade de ser dependente. Subordinação, sujeição a vários fatores, seja emocional ou de substâncias químicas.

esta edição, trazemos exemplos de pessoas que precisam de algo para serem felizes ou que superaram de alguma forma a dependência. Encontramos dependentes de compras e uma organização que ajuda pessoas a se livrarem do incômodo. Encontramos pessoas aficionadas por likes nas redes sociais e também uma organização que livra pessoas da dependência.


Quantas curtidas você tem? Recente problema da sociedade moderna, o uso excessivo das redes sociais não pode ser considerado dependência, segundo especialistas Por HENRIQUE BERGMANN. fotos de Camila Tempas

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C

om os avanços de tecnologias e o uso cada vez mais popular e democrático da internet, as redes sociais já tomam importante parte do tempo da maioria das pessoas, que dividem suas vidas pessoais com o Twitter, Facebook, Instagram, por exemplo. O que alguns podem chamar apenas de passatempo, outros irão chamar de vício ou dependência. No Brasil, segundo dados de pesquisa das empresas We Are Social e Hootsuite, conseguidos através do estudo Digital I 2017 Global Overview, o país tem hoje 139.1 milhões de usuários de internet. Desses 139 milhões, 122 milhões são usuários de redes sociais e 60% utilizam o Facebook todos os dias. Conforme números disponibilizados pelo próprio Instagram, o país é a segunda nação com mais usuários do aplicativo de compartilhamento de fotos no mundo, com um total de 35 milhões. A pátria dos brasileiros também é o local onde mais são usadas ferramentas de socialização. Segundo pesquisa Futuro Digital em Foco Brasil 2015, passamos, em média de minutos por visita, 21.2 minutos, sendo 650 horas por mês em redes sociais. O uso gasto em redes sociais é tão grande que site para compra e venda de curtidas e seguidores já é facilmente encontrada pela internet. Com tais números e dados, a internet e, principalmente, as redes sociais fazem parte importante da grande maioria das pessoas no mundo e no Brasil. João Vitor Comin (20 anos), estudante de Engenharia Mecânica, contou um pouco sobre a sua relação com as redes sociais: “Uso diariamente, diversas vezes durante o dia e acho necessário atualmente (redes sociais). Acho-me muito dependente. Quando faço uma postagem, dependendo de qual, e não recebo muitas curtidas fico um pouco decepcionado. Carlos Eduardo Pereira, 21 anos, estudante de Matemática, também se declara dependente das P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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mídias sociais: “Sempre fico surpreso quando recebo muitos likes, feliz e tal. Mas não fico incomodado quando não recebo muitas curtidas ou comentários”, afirma. Com tantos usuários interagindo diariamente e constantemente com as ferramentas que a internet possibilita, fazendo com que o uso excessivo interfira em seus cotidianos, aumenta a oferta para tratamento desse tema. Cada vez mais, grupos de psicólogos tentam ajudar cientificamente pessoas que se consideram “viciadas em

internet e mídias sociais” a entender melhor o impacto dessas tecnologias no nosso cotidiano. Como é o caso do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas, (Geat) que estuda como a internet influencia na saúde física e mental das pessoas. Além de projetos, palestras, artigos e pesquisas sobre o tema o Geat gerencia um site que disponibiliza novidades em relação ao uso de internet e redes sociais e como deve ser tratado esse problema da sociedade contemporânea. De acordo com a Psicóloga Especialista em Psicoterapia de Orientação Analítica pelo CELG e em Psicoterapia de Infância e Adolescência pelo CEAPIA, Aline Restano Membra do GEAT. O uso excessivo não é considerada uma


e psicológicos dos cidadãos. “As redes ajudam pessoas com dificuldade de socialização a acharem seus pares, seus iguais. Ajudam na aceitação própria, de identificação, mesmo que essas relações sejam feitas apenas online”, salientou. Aline Restano também lembrou como as midias contribuem para resolver outros problemas psicológicos das pessoas, como por exemplo, com formação de grupos de ajuda para meninas com bulimia, grupos para quem sofre de depressão, entre outras. Além de Restano, para esclarecer o assunto, o psicólogo especialista Dr. Rodrigo Meazzi afirma que só podemos considerar algo como vício quando de alguma forma o uso atrapalhe a vida do indivíduo de alguma forma, fazendo com que não seja vivenciada de maneira normal. “Se o indivíduo conseguir trabalhar no dia seguinte, levar uma vida normal, não se pode considerar como vício.”, completa. E termina ressaltando: “as redes sociais, assim como qualquer outra tecnologia, podem ajudar ou atrapalhar. A ciência ou a tecnologia não possuem ética”.

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de pendência como as outras, por exemplo as drogas ilícitas, álcool ou remédios. “O termo correto é uso problemático, quando uso intenso de algo causa prejuízo na vida de alguém. Mas não pode ser comparado a dependências químicas.”, disse Restano. A psicóloga Aline explica que os maiores pacientes desses tipos de caso são adolescentes, levados, na maioria das vezes, a se tratarem pelos próprios pais. “O problema causados pelas redes (sociais) tende a aparecer mais nas meninas, que muitas vezes não enxergam o hábito exagerado como um problema”, concluiu. Restano também explicou como as curtidas e comentários são um dos principais pontos do motivo desse problema, já que cria um sentido de

gratificação nas pessoas. “As ferramentas sociais da internet expressam o ser humano. Elas reforçam de como gostamos de mostrar o nosso melhor “lado”, compartilhar coisas boas. O problema são pessoas que utilizam o que é compartilhado nelas como a verdade absoluta”, disse. Mas Aline conclui lembrando de como as mídias sociais podem ser usadas para impactar de forma positiva nas vidas das pessoas. De como ela, pode ser utilizada para resolver outros problemas sociais

Como primeira impressão da matéria, eu poderia dizer que a escolha da pauta foi algo feito sem dificuldades. O assunto sobre uso de redes sociais e internet já me interessava, então a ideia que daria origem a matéria surgiu naturalmente. A execução da matéria que fugiu um pouco do meu pensamento inicial. A parte de falar com especialistas no assunto foi proveitoso para a matéria, para esclarecer questões sobre o uso excessivo de internet e mídias sociais, mas a ideia de conversar com alguém declaradamente “dependente” ou “viciado” como exemplo, que seria a base para a minha matéria, não foi possível de ser realizada. Não consegui achar alguém que realmente tivesse passado por algo parecido, principalmente por tratamento para resolver a “dependência”. Por isso tive que mudar o rumo da minha matéria. Obviamente o resultado final não foi o que eu planejava ou esperava da pauta. Gostaria de ter contado a história de alguém que tivesse passado por esse problema, não apenas falar sobre a parte científica do assunto. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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O perigo da vida Muitas pessoas buscam uma alimentação equilibrada, mas a pressa de encontrar dietas prontas na internet ou em revistas, sem acompanhamento profissional, pode trazer graves problemas para a saúde Por LURDINHA MATOS fotos de RAFAELA TRAJANO

“E

u lembro que todo domingo eu tinha pesadelos com comida. Acordava assustada porque tinha comido demais”. O relato da estudante de Nutrição Anna Julia Moll, 21 anos, relembra o período da vida em que ela passava mal só de pensar em comer na casa do avô paterno. A jovem teve ortorexia, um distúrbio alimentar muitas vezes confundido com anorexia, que pode trazer graves problemas à saúde. Anna Júlia tinha apenas 14 anos quando passou a se preocupar com a alimentação. Na época com 86kg, a estudante buscava melhorar a saúde e auxiliar a mãe que havia passado por uma cirurgia bariátrica. “Comecei a fazer academia e dieta junto com a minha mãe, tudo sem acompanhamento médico”, conta. O depoimento da jovem indica que uma alimentação saudável também pode se tornar um problema. A ortorexia nervosa não é um distúrbio reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, mas os sintomas são detectados em algumas pessoas obcecadas por uma alimentação “pura”. O termo orthorexia surgiu do grego orthos (correto) oxeris (apetite) e foi criado pelo médico e professor americano Steven Bratman na década de 90. No livro Health Food Junkies

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saudável demais

Anna Júlia se inspirava em musas das redes sociais para manter o “corpo perfeito”

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(Viciados em Alimentos Saudáveis, tradução livre) o médico aborda os sintomas da ortorexia, muito parecidos com os da anorexia mas que ficam mascarados sob o pretexto da alimentação saudável. O doutor Izidoro de Hiroki Flumignan, professor do Curso de Especialização em Transtornos Alimentares da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, esclarece que a codificação de um transtorno ocorre após anos de análises médicas. “Periodicamente a OMS, através do Código Internacional de Doenças (CID), revisa seus critérios e inclui ou exclui variadas patologias, mas isto não impede um diagnóstico e acompanhamento”, pondera. O professor considera que, apesar de não atrapalhar no diagnóstico, é importante caracterizar o distúrbio nas organizações da saúde. “O termo cunhado pelo Dr. Bratman é aceito pelos profissionais da área, porém é importante reforçar a característica epidemiológica do transtorno e seu impacto na saúde”, completa

Perda de peso

A busca pela saúde tornou-se uma obsessão. Em pouco mais de um ano, Anna Julia perdeu 36kg. A mudança brusca na alimentação e a grande perda de peso começaram a refletir na saúde da jovem. “Eu parei de menstruar, me sentia fraca e não conseguia fazer quase nada”, lembra. Naquela época, Anna Julia, já com 16 anos, passou a seguir referências de saúde no Instagram. Os “marombas fitness”, como ela chama, passaram a regrar a vida e a alimentação da moça. “Eu me interessei, vi aqueles corpos bonitos e eu não queria mais ser magra porque todo mundo me criticava pelo meu peso”. O doutor Flumignan aponta que, mais importante do que buscar acompanhamento nutricional, o ortoréxico precisa de acompanhamento psicológico. “Ele dificilmente percebe seu próprio sofrimento, pois se disfarça nos P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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méritos de ser excessivamente atencioso com a saúde”.

Preocupação com o espelho

Anna Júlia começou a sonhar com os “corpos perfeitos” que via no aplicativo Instagram. Passava mais de três horas por dia na academia, limitava a alimentação ao extremo e não comia nada que não fosse preparado por ela mesma ou com a sua supervisão. “Hoje eu entendo que nunca vou ter aquele corpo, meu quadril é mais largo e minhas coxas são mais grossas, eu não tenho aquele biotipo, nunca vou ser tão magra”, pondera.

A consciência que a jovem tem atualmente hoje, porém, não fazia parte da sua rotina na época. Anna carregava os lanches, evitava comer fora de casa e quando precisava sair com a família, se alimentava antes. “Em um jantar de dia dos namorados, com um grupo de amigos, fomos em uma pizzaria. Todos foram comer pizza enquanto eu fui para o buffet de saladas”, relembra. Anna Julia considera que deixou de aproveitar a adolescência por causa da obsessão. Ela evitava sair para não beber e quebrar a rotina de alimentação. “Eu li que beber dá barriga e eu não queria ter barriga. Também se eu bebesse, depois


eu teria que comer alguma coisa e eu não queria isso”, diz. A jovem não se importava com a implicância dos amigos por ela comer “alpiste”. Para Anna Júlia, eles estavam errados em “comer porcaria”. “Na minha cabeça isso não atrapalhava, eu estava certa em me alimentar de forma saudável, eles que estavam errados em querer comer besteira”. Para manter o foco, Anna Júlia passou a inventar doenças, assim conseguia permanecer na dieta. “Eu inventei que tinha diabetes, aí pensava que não podia comer doces se não passaria mal”.

Problemas reais

Por causa das restrições alimentares que se impôs, a jovem adquiriu intolerância à lactose. Ela lia em revistas e na internet que lactose causava inchaço e cortou o alimento da dieta por mais de um ano. “Hoje eu não posso sair de casa sem o meu remédio da intolerância, e isso é porque eu cortei tudo da minha alimentação”. Todas as decisões de Anna Julia foram tomadas sem acompanhamento médico. Quando sentia qualquer sintoma estranho, ela lia e pesquisava na internet para resolver sozinha. “Eu lia que a magreza podia interromper a menstruação, então eu achava que era normal e não me preocupava”. O que mais afeta um ortoréxico, segundo o professor Flumignan é a questão do sofrimento psíquico. “Ele passa a maior parte do tempo

no pensamento compulsivo de comer correto e isso causa distorções da auto crítica e depreciação de quem não segue os mesmos padrões, com forte repercussão nos relacionamentos interpessoais”, completa.

Mudanças de atitude

Foi apenas quando conheceu o namorado que Anna Julia resolveu mudar de atitude. Para não parecer “chata ou fútil”, a estudante passou a tentar se alimentar melhor para não causar estranhamento. “Eu pensava, se vamos no cinema e ele quiser dividir a pipoca como eu não vou dividir? Não posso ser assim senão ele não vai querer nada comigo” relembra. O grande divisor de águas foi no dia que conheceu os sogros. “Eles marcaram um churrasco e eu pensei: Como não vou comer maionese e pão de alho? Não posso fazer essa desfeita”. “Em casos mais graves, além das restrições alimentares, o indivíduo inclui o uso de super vitaminas, hormônios e outros aditivos para conferir uma ‘super saúde’, isso ameaça a saúde do paciente”, diz o professor. Por este motivo é importante que haja um diagnóstico seguido de acompanhamento médico.

Controle permanente

Até hoje Anna Julia se culpa pelo que come. Por isso, ela considera que não está curada da ortorexia. Ela não faz acompanhamento específico, mas conta que conversa com a sua psicóloga de vez em quando. “Eu me culpo até hoje e preciso controlar isso. Eu penso: por que não posso comer um doce sem colocar a culpa na TPM? Eu posso comer um doce só porque eu quero, então preciso me policiar para comer sem culpa”. A jovem estuda Nutrição justamente porque gosta da busca por uma vida saudável, porém com responsabilidade. Ela considera que o distúrbio ser ligado a uma alimentação saudável “mascara o problema” e dificulta um diagnóstico. O assunto ainda é considerado um tabu. O doutor Flumignan completa ressaltando a importância de abordar o tema. “Esclarecer a ortorexia é o caminho para o equilíbrio”, finaliza.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER O assunto foi complicado de abordar. Tive dificuldade de encontrar especialistas dispostos a falar sobre a ortorexia. Insisti. Depois de conversar com a Anna Júlia tive mais certeza de que queria continuar com a pauta. Eu mesma, com amigas do trabalho, já recorri a receitinhas para perder alguns quilos. À primeira vista, isso pode parecer uma atitude inocente, mas acredito que sempre devemos abordar esses assuntos que tenham pouco (ou nenhum) espaço na mídia. Algumas pessoas riram quando eu disse que queria abordar o ponto negativo de “uma alimentação saudável”. Eu parecia “louca” por querer questionar “bons hábitos” e senti como seria difícil para um ortoréxico perceber o perigo de perder o controle sobre a própria saúde. Nesse processo eu tenho que agradecer muito a minha fotógrafa Rafaela, que desde a proposta da pauta me apoiou e auxiliou não só na busca de fontes, como também manteve meu ânimo a cada negativa que eu recebia nessas tentativas. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Por um futuro independente e livre Projeto realiza diversas atividades na tentativa de prevenir a dependência química

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Por Kalleb França. fotos de stephany franco

m par de chinelos simples, todo cor-de-rosa. A parte de trás dos calcanhares um pouco encardida por conta das brincadeiras no pátio com algumas partes de chão batido, outras com gramado ou calçamento de concreto. A roupa singela e inadequada diante do tempo nublado e com um pouco de vento gelado que fazia em Viamão mostrava a simplicidade da dona dos calcanhares, uma menina de, no máximo, 12 anos. Com olhar profundo e silencioso, era mais uma das 42 crianças que estavam na sede da Associação Beth-Shalom. O termo hebraico, quando traduzido para o português, quer dizer “casa da paz”. Essa paz que não é encontrada nos lares afetados pela dependência química é a busca dessas crianças e adolescentes que acham nos voluntários do Beth-Shalon os abraços, sorrisos, conselhos e disciplina que lhes são transmitidos todas as quintas-feiras e sábados. “Em função da realidade financeira da associação, entendemos que é pouco, mas não ficamos de braços cruzados e fazemos pelo menos o que é possível”, diz pastor Athos André dos Santos França, 35 anos. As crianças que usufruem do que a associação oferece são da periferia da cidade de Viamão. Segundo o pastor Roberto Andrade, o fundador da associação que começou em 1995, muitos são filhos de traficantes e de usuários de drogas. São atendidos meninos e meninas que não têm uma referência que lhes mostre outro caminho. Para muitos, eles são fruto do ambiente onde cresceram. Para a maioria dos voluntários, a grande virtude do projeto é fazer deles cidadãos capazes de modificar o meio em que vivem. Essa é a grande motivação dos voluntários: fazer com que essas crianças

e adolescentes se tornem agentes transformadores da triste realidade em que se encontram.

A realidade da dependência química

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), lançados pela fundação Abrinq no começo de 2017, estima-se que cerca de 17,3 milhões de crianças e pré-adolescentes entre 6 a 14 anos de idade vivam em situação de vulnerabilidade social. O que corresponde a aproximadamente 40% da população nesta faixa etária. Destes, 5,8 milhões vivem em extrema pobreza. Boa parte deles são vítimas da dependência química. Em muitos casos, a exposição ao mundo do tráfico de drogas é tão grande. Que para a maioria destas crianças o que lhes resta é participar, como consumidor, ou como agente do tráfico de drogas ou ambos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a dependência química como um transtorno mental e um problema social. A realidade que se vê nas ruas todos os dias reflete esse entendimento Com a visão de mudar este quadro, nasceu em 1995, na cidade de Barra do Ribeiro, Região Metropo-

litana de Porto Alegre a associação Beth-Shalom. O foco inicial era o tratamento de dependentes químicos. E assim foi durante mais de dez anos. “Depois de algum tempo, o governo estadual fez uma série de exigências, e entendemos que seria muito custoso continuar, pois não temos fins lucrativos. Por conta disso, ajustamos nossa visão, para prevenir ao invés de ter que remediar”, conta Pastor Roberto Andrade com olhar firme e com tom calmo. “Começamos uma escolinha de futebol para corresponder mais na parte esportiva dessa meninada”, diz Niles Kahel, pastor ex-goleiro das categorias de base do Grêmio. Esse sonho foi realizado em novembro de 2008 no momento em que a associação já tinha aulas de reforço escolar em turno inverso. A escolinha de futebol começou com Niles e com o ex-zagueiro do Internacional Ronaldo Alves. Com o objetivo de dar às crianças um futuro melhor, existem outros projetos que vão além do esporte. “Temos que cuidar para não sermos assistencialistas. Precisamos dar destino para essas crianças”, afirma o médico e pastor Hudson Taylor. Ele é o presidente da Primeira Igreja Batista BrasileiP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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ra de Porto Alegre, mais conhecida como Brasa, que foi quem idealizou o projeto desde o seu início. Neste ano, mais uma conquista foi celebrada na busca por tirar essas crianças e adolescentes do contato com o mundo das drogas. Vinte adolescentes foram incluídos no programa Menor Aprendiz pela empresa Sodexo, e passaram a receber uma bolsa de R$600 e vale-transporte. Eles são gratos ao projeto. “Temos uma reunião por mês com todas as famílias para ter um feedback daquilo que se passa nas escolas e dentro de casa”, conta Niles. Ele ainda afirma que há uma parceria com os conselhos municipais da região e com a parte de assistência social para que através deles se tenha acesso a essas crianças e adolescentes de uma forma mais objetiva. “Há envolvimento com a comunidade. Alguns deles vão à igreja, outros, não, mas a comunidade de um modo geral busca se envolver com o projeto”, afirma o pastor Niles Kahel e revela também que já receberam durante dois anos verbas municipais, porém neste ano não houve uma renovação, mesmo assim o projeto não parou.

Um dia tenso

“Ah ‘sor’, acabaram com o futebol”, diz um garoto saindo do ginásio de esportes com os braços abertos e ofegante como quem tinha corrido uma maratona. “Algum motivo houve, não é mesmo? ”, questiona o pastor Roberto Andrade em tom de voz amigável. Em seguida, todos os garotos juntamente com o professor de futebol Leonardo Santos, foram para a capela e Ronaldo Alves, ex-zagueiro do Internacional de Porto Alegre e hoje um dos responsáveis pelo projeto, se dirigiu para lá. Em poucos minutos, um a um dos que estavam jogando futebol foram passando com olhar de decepção. Estava claro que algo de errado havia ocorrido. Mais de dez guris, que foram da euforia de um jogo de futebol à tristeza em poucos minutos, passaram com bonés e cabelos descoloridos e foram para uma conversa de cerca de 20 minutos. Como em um passe de mágica, saíram de lá felizes sorridentes, e brincando um com o outro. A hora mais esperada do dia, às 18h, se aproximava era a vez do lanche. “Para muitos deles, é a única refeição do dia, e eles não estão voltando lá para pegar mais para eles e sim para seus irmãos menores que estão em casa”, diz Roberto, com semblante entristecido por não conseguir atender mais do que consegue. Aos poucos, a fila foi se formando, P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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antes de qualquer coisa. Sem que ninguém falasse nada, um deles gritou: “Calma gente, vamos agradecer antes de entrar pra comer”. Imediatamente, todos baixaram as cabeças, tiraram o boné, fizeram um silêncio quase fúnebre. Enquanto isso, um menino que aparentava 11 anos fez uma oração em voz alta agradecendo o dia e a refeição. Dentro do refeitório, um ambiente muito parecido com o que se encontra nas escolas, mesas baixas, cadeiras pequenas, dois ou três professores servindo a refeição. O dia era de “totósinho”, uma espécie de pãozinho com salsicha. Para beber, suco, café ou leite. De tamanhos e idades variadas, as crianças iam achegando à mesa. Com olhar de alegria e felicidade, cada um se dirigia para o seu lugar com o lanche na mão. “Está vendo aquele ali? apontou o pastor Roberto para um garoto

de 15 anos, de boné, com a mochila caída sobre as costas e as calças quase abaixo dos joelhos, falante e áspero.. “Já matriculamos ele na escola quatro ou cinco vezes, aí ele é expulso. Vamos lá, conversamos com outra escola e com os pais matriculamos ele de novo. Uma coisa é certa: Jamais desistimos de nenhum deles”, diz Roberto com olhar de esperança. “Muitas vezes não conhecemos a história desses adolescentes, mas esse ali”, diz Roberto apontando para o mesmo menino. “Teve o pai morto por uma facção criminosa na cadeia e é estimulado pelo tio, a traficar nas escolas por onde passa e nós estamos aqui para tentar, de alguma forma, impedir isso”, fala com a certeza de quem está fazendo algo para impedir que a dependência química vença mais essa batalha em meio a uma guerra que afeta de foram direta o elo mais fraco.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Meu pai foi resgatado em 1974 por um projeto voltado para o combate à dependência química. Não fosse a “Movimento Jovens Livres de Goiânia”, provavelmente nem ele nem eu meus três irmãos estaríamos aqui. Além de todo contexto de pobreza em todos os aspectos imagináveis no qual meu pai, Sérgio Ferreira de França, viveu, ele se envolveu com entorpecentes aos 10 anos com a desculpa de amenizar a fome. Quando adolescente, meu pai já era viciado em drogas, das mais leves às mais pesadas, e, como andarilho, tinha seu futuro traçado. Viver na rua preso à dependência. Essa ida ao Beth-Shalom foi um encontro com meu passado e com as histórias contadas pelo meu pai de quando ele era criança. Ali eu vi muitos “Sérgios”, muitos meninos e meninas que ali estava somente por um pedaço de pão com salsicha, algo que meu pai sempre relatou: “Eu queria ter tido acesso a algo diferente, mas na minha época não existia. Pobre vivia em lugar de pobre e não tinha acesso a nada. Eu era invisível.” Entendi ali a importância que cada gesto tem para uma criança que vive nesta situação. Aqui posso falar, emocionado, que foi uma reportagem gostosa de fazer, a qual tive contato com os sentimentos mais remotos e contar que o Beth-Shalon foi uma idealização do meu pai em 1995, ele não atua mais lá desde 1996 e diz que: “Eu fui um instrumento para ajudar essas pessoas, hoje elas encontraram seu destino assim como eu”. Meu pai se tornou um grande cidadão, de caráter e boa índole. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Marcelo Wieczorek

o ã ç a r o d A

Significado: adesão cega a um sistema ou doutrina, dedicação excessiva a alguém ou algo. Paixão.

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ensemos no atual momento em que nossa sociedade vive. A adoração é política, religiosa, esportiva. É Gre-Nal. Por isso, nesta edição, mostramos diferentes tipos de paixões. A primeira delas é pela Medicina, que por meio de técnicas de reprodução, ajudou a trazer bebês ao mundo. Há também aqueles que guardam amor especial às coleções de personagens.


Um dedo de Deus e outro da medicina Álvaro Luís dos Santos Gonçalves foi o primeiro bebê a nascer em 1989 por técnicas de reprodução assistida no Rio Grande do Sul Por Victor Dias Thiesen. fotos de Helen Appelt

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“V

ocê não pode engravidar”. Ainda hoje, muitas mulheres ouvem essa frase. A infertilidade gera reações diversas. Muitas que desejam ter filhos não recorrem ao tratamento médico por desconhecerem técnicas de reprodução assistida ou até mesmo por acharem conflitante com a religião que praticam. Agora imagine ouvir isso em 1985: “Saí do consultório sem esperança, a médica disse que não havia possibilidade de eu ter filhos”, conta a técnica em enfermagem Iara Gonçalves, 54 anos. Ela sofria de endometriose, patologia que a impedia de engravidar. Só que ela e seu parceiro à época, o empresário João Luís dos Santos, ainda não conheciam Álvaro Petracco, médico ginecologista, doutor em Ciências da Saúde e especialista em reprodução humana. Da colaboração médica, em 1989, nasceu Álvaro Luís Gonçalves dos Santos, o primeiro bebê de laboratório do Rio Grande do Sul. Vestindo bermudas e camiseta, o rapaz demonstra bom humor e simpatia. Estava à vontade, acompanhado da mãe e da namorada Nicolle, dentista de 27 anos. Alvinho, como Iara o chama há 28 anos, não se desconcerta com a ignorância de quem pergunta se ele é normal. Ao contrário, responde com ironia matreira: “Eu sou perfeito”, e sorri. Álvaro Luís deve o primeiro nome ao médico, e o segundo, ao pai, José Luís. E para aqueles que desconhecem os métodos de reprodução em laboratório e arriscam uma piadinha preconceituosa ou outra sobre sua origem, a mãe e a namorada emendam: “É a cara do pai”. Álvaro nasceu na quarta tentativa de fecundação do casal, após quatro anos do primeiro contato com o Dr. Petracco. A batalha para engravidar, no entanto, começou antes disso. João Luís Gomes dos Santos sofria com obstrução dos tubos pelos quais os espermatozóides percorrem, mas foi curado a partir de

um procedimento médico. Mesmo depois de ter o problema resolvido, a criança desejada não chegava. Iara desconfiou e foi à ginecologista, quando teve seu infortuno diagnóstico: endometriose e a impossibilidade de ter filhos. Ironicamente, engravidar é a melhor solução para a doença. Tanto é que cinco anos depois de ter o Alvinho, Iara engravidou novamente, dessa vez por vias naturais, de Gabriela. Isso porque durante a gravidez a mulher produz grande quantidade do hormônio progesterona que auxilia na cura da endometriose. Tanto que derivados desse hormônio, - os progestágenos -, são utilizados no seu tratamento. Dr. Petracco enfatiza que a reprodução humana tem uma efetividade muito baixa, em torno de 20% em uma relação sexual entre um casal jovem. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a infertilidade atinja entre 10% a 15% dos casais. Após um ano de tentativas sem sucesso é recomendado que se consulte profissionais da área. Se a infertilidade for diagnosticada e os companheiros optarem pela medicina reprodutiva, o custo por um ciclo de fertilização gira em torno dos R$10 mil.

Primeiro bebê de proveta do RS

Para quebrar o gelo, o bem-humorado Álvaro Luís ostenta

Álvaro Luís nasceu em 1989, depois de sua mãe, Iara, submeterse à técnica de reprodução assistida

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a alcunha com orgulho. “Sou o primeiro bebê de proveta do Rio Grande do Sul”. Na verdade, ele é o primeiro do Sul do país. Longe de vangloriar-se, utiliza a frase para evitar constrangimentos ao interlocutor e deixar claro sua gênese sem necessidade de uma longa explicação. A família nunca o viu como tabu: desde pequeno tem conhecimento do fato. Para os parentes e amigos, a maneira que Álvaro foi concebido é motivo de euforia. Tanto é que seu antigo chefe quis gravar um vídeo do rapaz para candidatá-lo ao Big Brother Brasil depois de ter descoberto. É notável a tranquilidade e disposição que Alvinho tem ao falar sobre a maneira como foi parar no ventre da mãe. Um episódio quando ainda era estudante do Fundamental no Colégio Marquês do Herval, em Osório, demonstra isso. O diretor da instituição foi até a sala em que Álvaro estudava para dar algum comunicado. Deu bom dia e disse seu nome. Do fundo da sala, com timing digno de um experiente comediante, a criança emendou um “Bom dia! Meu nome é Álvaro Luís Gonçalves e eu sou o primeiro bebê de proveta do Rio Grande do Sul”. Segundo Álvaro, a frase já fez parte de seu repertório para conquistar gurias, “até conhecer ela”, diz ele se referindo à namorada. Alvinho deixava como foto de perfil no Facebook de perfil no Facebook a mesma da matéria da Zero Hora sobre os 25 anos do primeiro bebê de laboratório do Estado. O jornal cobriu alguns momentos deste marcante fato na história recente do RS. Como, por exemplo, o nascimento de Álvaro no dia 24 de fevereiro de 1989: a capa de ZH estampa, de ponta a ponta, a foto dele nos braços de Iara no leito ao lado de seu pai. A manchete diz: “Nasce o primeiro bebê gaúcho de laboratório” Por “ser de laboratório” houve também situações embaraçosas, evidentemente. Quando Iara passeava com o pequeno Alvinho em Tramandaí nos anos de 1990, percebia olhares curiosos e convivia com alguns comentários constrangedores. Certa vez, quando estava no supermercado com o bebê, uma conhecida se aproximou e exclamou com perplexidade: “Mas ele é igual a todo mundo!”. Ela, indignada com a observação, respondeu ironica-


O médico Álvaro Petracco já ajudou mais de 4 mil bebês a virem ao mundo

mente: “Não! Debaixo do gorro têm duas anteninhas”. A pessoa nunca mais a perturbou.

PODER da medicina

A inglesa Louise Brown nasceu em 1978 e foi o primeiro bebê concebido por reprodução assistida. Desde então, a opinião pública dividiu-se entre apoiadores e aqueles que desaprovam técnicas de laboratório para engravidar. Esse último grupo, não raro, justifica que ‘por não ser natural, não é de Deus’. De fato, “se consegue burlar a natureza”, como diz o Dr. Petracco. No entanto, a questão se esses meios constituem ou não um pecado, é tema de discussão. O doutor em Teologia Moral Pe. Vicente Immig observa que “dentro do conjunto de procedimentos que são realizados temos que ver quais são os que ferem a questão da ética dentro do seu conjunto”. Em 2008, a Congregação Para a Doutrina da Fé, órgão da Igreja Católica, lançou o documento chamado “Instrução Dignitas Personae – Sobre algumas questões de bioética”, na qual trata do assunto. A introdução diz que o texto pretende ser “uma palavra de encora-

jamento e de confiança em favor de uma perspectiva cultural que vê a ciência como precioso serviço ao bem integral da vida e da dignidade de cada ser humano”. No corpo, a instrução condena eticamente as práticas que desagregam a procriação do contexto integralmente pessoal do ato conjugal. Álvaro que nasceu 11 anos após Louise e não tem nada a ver com a discussão, explica para si mesmo de forma singela sobre o modo como foi concebido: “Um dedinho de Deus e outro da medicina”. Hoje, aos 28 anos, Alvinho é bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-RS, mora em Porto Alegre e trabalha como Oficial Legislativo na Câmara Municipal de Novo Hamburgo. Filhos? Sim. “Ainda mais se fosse com o Dr. Petracco”, brinca.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER A primeira pessoa com quem conversamos foi Álvaro Luís. Não sabíamos ele responderia, afinal não é claro se o assunto‘bebês de laboratório’é ou não um tabu. Pois bem, ele estava muito disposto a falar e isso foi impressionante. É muito legal também o modo natural que a família do rapaz trata o assunto com ele desde pequeno. A posição da Igreja Católica foi expressada com bastante cautela. Religiões em geral pretendem o melhor para a dignidade humana e se preocupam sobre a forma como essa mensagem vai ser tratada na mídia. Da parte médica, marcou a descoberta sobre as poucas chances de se engravidar “naturalmente”. Entre ciência e religião, são muitos pontos de confronto, sobretudo éticos. No entanto, é interessante notar que uma não anual a outra: ambas têm por objetivo o desenvolvimento da vida. É por aí que começa o diálogo. De resto, não seria possível realizar esta reportagem sem a sensibilidade feminina da fotógrafa. Hellen acompanhou as entrevistas e fez perguntas imprescindíveis que não passariam pela cabeça deste repórter. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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De peça em peça, a prateleira enche o espaço Colecionar é uma forma de materializar a adoração por algo e demonstrar fanatismo Por Verônica Luize. fotos de Marcelo Wieczorek

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m quarto com prateleiras de madeiras perfeitamente limpas. Janela entreaberta para não entrar sol, pois é prejudicial e pode desbotar os itens de tamanha estima. O fanatismo por heróis e tudo que há no meio nerd pode facilmente ser encontrado no quarto de paredes amarelas em que Fernando Dorneles, 29 anos, mantém suas coleções de action figure (bonecos em miniatura). O lugar é um santuário de nerdices e referências, “o local de tranquilidade”, como o próprio Fernando se refere. Há livros, quadrinhos, videogame. O que mais chama atenção, entretanto, são os mais de 100 bonecos. Todos perfeitamente alinhados, limpos e conservados. Periodicamente são limpos com panos macios, para não arranhar a pintura e nem deixar o boneco feio. O pó não é o pior inimigo. Crianças são ameaças maiores. A

atração da gravidade pelo chão, então! É um romance quase abusivo. Para Rodrigo Zietlow, 20 anos, programador que coleciona mangás (quadrinhos japoneses lidos da esquerda para a direita), o espaço é mais simples. São duas estantes no quarto. É um quarto normal, paredes pintadas de azul, cama, roupeiro e as estantes cheias de histórias, organizadas e perfeitamente limpas. Começou a coleção no final de 2015 e hoje já tem mais de 380 volumes. Para ele, o pior inimigo é o sol, pois desbota as capas. Caso apareçam crianças na casa, é só fechar a porta do quarto e está resolvido. Ninguém vai tentar abrir os saquinhos herméticos em que os mangás se encontram e nada de ruim vai acontecer. Enquanto isso, Lucas Tubiello, programador de software, tem cerca de 50 itens somente da franquia Star Wars, que, na opinião dele, é a melhor já feita. Todos bem conservados e guardados no quarto, lugar que é só dele, pois mora com os pais e isso torna mais difícil exibir a coleção.


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Mais vale um item embalado que dois estragados

VERÔNICA LUIZE

Cada colecionador tem um modo de organizar sua coleção. Fernando tem alguns itens na embalagem original por conter peças pequenas que podem ser perdidas ou quebradas facilmente. Os bonecos maiores e mais caros ficam do meio da prateleira para dentro, mais perto da parede, para não ter risco de cair. Rodrigo se esmera nesse quesito. Ele tem cada volume de mangá dentro de um saquinho plástico hermético. Quando compra um novo item, ele abre. Lê. Curte a história, absorve as lições nela e o embala para colocar na estante. Isso garante organização e integridade da coleção. Às vezes, compra um gibi que não é muito atraente e, por causa desses pequenos cuidados, ele consegue revender tranquilamente pelo preço que pagou. Admite que somente percebeu a necessidade de cuidado quando comprou Claymore - item de maior estima da coleção. “Virei uma página muito rápido, na emoção pelo que tinha na outra página e quando vi tinha rasgado um pedacinho da folha”, conta com um tom de arrependimento. Ambos têm um relevante ponto em comum em suas coleções: o valor gasto para tê-las. Fernando já gastou cerca de R$ 20mil, apenas nos figures e Rodrigo se aproxima dos R$ 6mil somente com os mangás. “Eu sei que poderia comprar outras coisas com esse dinheiro, um computador melhor, por exemplo”, diz Rodrigo, se autocriticando - mas eu sempre vou preferir os mangás”. Em um único gibi ele gastou R$80 e afirma que a história valeu cada centavo, incluindo o valor do frete. Fernando diz que poderia gastar em outras coisas,

mas acha tão bonito ficar olhando para sua coleção, admirando os detalhes e o “ar que dão ao local”. Mesmo a edição especial e rara da Mulher Maravilha, que custou R$ 800, valeu o gasto; nem havia chegado ainda, mas já tinha um lugar reservado na estante, esperando-a. No caso de Lucas, muitos dos itens foram ganhos de presentes, e o mais caro é um jogo que custou R$500. Jogos da franquia são mantidos na embalagem original, “mexidos” periodicamente para que não sejam danificados pela umidade. Os livros são arrumados em ordem cronológica e os jogos são todos utilizados assim que comprados. São o xodó do dono, os pertences que “vão junto pro túmulo”.

Cada coleção na sua prateleira

Rodrigo mantém os mangás lacrados em sacos herméticos

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Os exemplares de Akira, Ghost in the Shell e Log Horinzon são volumes únicos que formam, juntos, uma coleção e estão na estante de Rodrigo, mas isso não os torna mais especiais. Entretan-

to, os “queridinhos” que não se “empresta, não se dá ou se vende” são Claymore, Ghost in the Shell e Bem Vindos a NHK. O motivo de estar nessa categoria é simples: as histórias são legais e especiais para o dono. Mas ainda há muitos mangás a ser adquiridos, inclusive uma edição especial japonesa de Tsugumomo, um mangá tão desejado que faria Rodrigo aprender o idioma apenas para lê-lo. Power Girl é uma personagem da DC Comics. Durante o cenário Pré-Crise e ela foi a versão da Terra 2 para Supergirl e prima de Superman; a descrição é mais que suficiente para que essa menina de plástico ocupe o lugar de favorita na coleção de Fernando. Mesmo assim, a garota poderosa não ocupa todo seu coração; ele vive um amor platônico por Jason - Sexta-Feira 13 - e Batman, peças únicas e raras, que no momento são apenas sonhos de consumo. Lucas também quer comprar outros bonecos para fazer companhia ao seu Darth Vander


Lucas mostra orgulhoso os mais de 50 itens da franquia Star Wars

e seu Stormtrooper, alguns da nova saga e alguns dos antigos filmes, mas tudo depende do preço se encaixar no seu bolso.

De nerd e de fanático todo mundo tem um pouco

Se fosse possível pegar todos os colecionadores do mundo e perguntar o porquê de colecionar, teríamos respostas bem parecidas com a de Fernando: “Porque é algo que eu gosto e desde criança quis ter, mas não tinha condições de ter por ser criança.” O fanatismo é visto como algo negativo por outras pessoas. Sempre tem quem diga que o dinheiro e o tempo que foram gastos com o que se gosta podiam ser empregados em coisas “úteis”. Tem o outro lado ainda, de quem admira e gostaria de ter uma coleção também, como alguns amigos de Rodrigo. Não podem justamente por não ter dinheiro para gastar, pois precisam comprar coisas “aceitáveis”. No caso do Lucas, ele tem o apoio da família e dos amigos que o incentivam e também lhe

dão alguns itens de presente. “Fanatismo nem sempre é algo ruim. Ser fã proporciona um sentimento de bem-estar e de pertencimento, por fazer parte de um grupo de pessoas que gosta da mesma coisa” afirma Christian Ordoque, historiador e mestre em Comunicação. Para ele, colecionar é uma forma de juntar material responsável por algo bom, de algum momento ou lugar, um modo de manter viva a memória a respeito daquilo. “Coleção não é acumulação. É guardar com carinho objetos que têm significado pessoal.” conclui Christian. O nerd, por muito tempo, foi visto como um ser antissocial e inadequado à sociedade: o recluso e excluído. Contudo, sempre se destacaram por gostar de “coisas incomuns”, gostar de um nicho específico de coisas “que já adoravam na infância e na juventude” e, com a vida adulta, puderam adquirir seus objetos de paixão. Christian comenta que uma coleção não “focada”, que tem muitos objetos diferentes, pode facilmente

perder o controle e tornar-se acumulação. Porém, o fanatismo “é que faz alguém gostar mais de uma coisa que de outra” e que garante o status de coleção. Ser fanático deixou de ser pecado há bastante tempo e virou uma forma de expressão. Como Christian rebate, “gostar da Marvel ou da DC Comics faz pertencer a um grupo, gera uma aproximação entre pessoas. Fanatismo é um movimento de ser fã.”

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Foi difícil fazer essa pauta. Quis ousar e tentar sair do mesmo de sempre e fazer algo interessante. Porém, lidar com pessoas e fazê-las se abrir, mostrar um sentimento incompreendido foi a parte mais difícil deste trabalho. Falei com dezenas de pessoas sobre suas coleções, muitas tinham vergonha de mostrá-las porque eram infantis ou tinham tanta estima que não queriam que alguém desconhecido chegasse perto. Em contrapartida, é maravilhoso quando as pessoas te deixam fazer parte de algo muito pessoal delas. Abrem suas casas e corações para mostrar e te fazer entender o porquê de elas fazerem o que fazem, ter o que tem e serem como são. Acredito que as pessoas têm por hábito chamar de fanático outras pessoas que simplesmente gostam de algo, eu mesma fui chamada inúmeras vezes de fanática, principalmente na adolescência. Entretanto, todos somos fanáticos por algo: time, tradições, objetos, personagem, ídolos ou qualquer outra coisa. Todos nós colecionamos aquilo que gostamos. E não há nada de errado nisso. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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VICTÓRIA LIMA

e d a d i l i b a t n e t s u s n I D Significado: qualidade ou condição do que é insustentável, do que não se pode sustentar, manter.

e acordo com uma análise feita pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil produz uma quantidade de lixo muito parecida à de países desenvolvidos, mas descarta como países pobres. Um exemplo disso é o envio de lixo para depósitos a céu aberto e a pouca reciclagem. Mas encontramos exemplos de sustentabilidade: feiras que vendem roupas usadas e projetos que ajudam a proteger o ambiente.


Entre vidros e corações em pedaços A rotina de uma associação familiar de reciclagem Por Arthur Menezes. fotos de helen appelt

D

uas pessoas felizes. Estiveram juntas em diversos m o m e n t o s. Foram, provavelmente, um casal. Mas algo deu errado. Deve ter dado errado. É um exercício imaginar o que pode ter acontecido para alguém jogar um álbum interinho de fotos fora. Josiane Muniz da Silva, que atualmente ocupa a mesa de número 5 da Associação de Reciclagem Santa Rita (Arsari), já se pegou folheando a vida de desconhecidos inúmeras vezes. Ela tem os olhos vivos, bem abertos, atentos a tudo. Com Há dez anos ninguém estatura média, fica na entra ou sai da equipe. altura ideal para, em esEntre os associados da cala industrial, separar Arsari, todo mundo veste a camisa (ou o os objetos que encontra avental) de verdade conforme a qualidade de reciclagem, que já são 30. Faz isso só de olho, automaticamente, como se fosse uma máquina. Bagagem que os mais de dez anos no trabalho lhe dão - sem lhe tirar a capacidade de admirar o singelo. A mulher deve beirar os 30, mas ainda tem sorriso de criança. É o primeiro rosto que pode ser observado por quem passa pela porta do pavilhão principal e se depara com a estrutura por dentro, lotada de pilhas enormes de coisas que foram jogadas fora. Assim como Josiane, todos os outros 27 integrantes dessa organização de trabalhadores já encontraram artefatos inusitados em meio ao lixo considerado comum - inclusive P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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dinheiro. Lixo, aliás, da Arsari orienta o estacionamento dos Sarará (camisa vermelha) tem mais do que colegas é uma palavra utilicaminhões, o descarregamento da carga e associados, tem uma zada sem pudor na qualquer outra função que apareça. família – literalmente – rotina de trabalho A história de Sarará se confunde com trabalhando ao seu lado da organização que a da associação. O senhor de 72 anos se constitui na Aveconta com satisfação como o local se nida Henrique Closs, 3637, no Bair- constituiu. Sorridente, apresenta com facilidade os dois ro Santa Tecla, em Gravataí. dentes que ainda mantém na parte frontal da boca. Josi, como é conhecida, repara Mas se a felicidade fica evidente nos gestos dele, a vida nas imagens encontradas em meio de batalhas também se mostra na pele, nas linhas de a tantos outros objetos que passam expressão do rosto e na forma de contar inclusive as por suas mãos, em menos de um se- vitórias. Em frases distintas, é capaz de dizer que “Deus gundo. “É uma coisa que me chama jogou um manto sobre nós”, referindo-se ao fato de a atenção. Penso naquilo que moti- nenhum dos trabalhadores apresentarem qualquer tipo vou a pessoa a jogar fora”, justifica. de problema de saúde, mas afirmar que a melhora nas Há algo de romântico no encontro condições se deu apesar de “nada ter caído do céu”. inusitado da história de dois descoNascido em Santa Catarina, veio ao Rio Grande nhecidos com aqueles olhos. Isso do Sul aos sete anos. A família, da qual era o terceiro tudo ocorre ao som dos louvores filho, de um casal que teve sete ao total, peregrinou por que saem das caixas de som posicio- alguns municípios daqui. Entre a infância e a juventude, nadas ao lado da pilha de lixo. trabalhou “em granja e cortando grama, era só o que tinha”. Depois de passar por muita coisa, ele acredita Sarará e Arsari: Histórias que durante a década de 1970, não sabe ao certo a data, que se confundem conheceu o lixo e não saiu mais. Depois de Porto Alegre, A tudo observa, com o olhar passou por Tramandaí e Capão da Canoa, para só então blasé que só os felinos têm, o gato chegar ao antigo aterro sanitário e, em 1998, mobilizar um Salomão. Ele parece reinar sobre os grupo e garantir que o trabalho e a negociação fossem tonéis. Também com certa condição feitos em conjunto. Assim, nascia a associação. real no ambiente, transita pelas meO trabalho se deu de maneira “rudimentar” até 2003. sas e prensas o Sarará. Registrado Foi nesse período em que, graças a negociações com a como Gelson da Silva, ele ajuda a iniciativa privada e o setor público, o trabalho se sofisticou, todos incessantemente. Depois de mas o valor recebido pelos trabalhadores diminuiu. “Mas décadas no ofício, é capaz de ex- em 2012, a Prefeitura passou a reconhecer de maneira plicar didaticamente qualquer parte mais efetiva a importância da coleta seletiva. Com os do processo. Assim, o Presidente subsídios que passaram a ser destinados à prática, nossas P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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condições de trabalho melhoraram, assim como a nossa estrutura no geral”, garante o Presidente da Arsari, em um tom de fala que quase não é o mesmo do restante do tempo, quando ele é só o Sarará. O avanço a que se refere está materializado diante de seus olhos. O antigo pavilhão recebeu algumas melhorias e, atualmente, acomoda com mais conforto os trabalhadores. Um novo espaço foi construído ao lado direito, apenas para a descarga dos caminhões, e outro atrás, preparado para a descarga e com mais duas mesas de triagem. Desde então, também foram comprados dois caminhões, uma Kombi e uma prensa nova. “O repasse de R$ 20 mil mensais dado pela Prefeitura foi fundamental. Esse valor sempre é utilizado apenas para investimento dessa ordem, não para salários”, garante. Dessa forma, a estrutura atual fica assim: cinco mesas estão perfiladas na altura do portão - a mesa 5, da Josi e de sua colega Inajara, é a primeira no sentido de quem vem da entrada principal. Elas ficam a uns dois metros do chão, onde há mais duas mesas e duas prensas. Em cada posição de trabalho, uma dupla na labuta. E lá atrás outras duas mesas amparam quatro trabalhadores, que permanecem ao som


da 104 FM, piadas e conversas altas. Sarará é capaz de contar as histórias de cada um deles. Até porque a maioria tem algum grau de parentesco com ele próprio. “Tenho cinco filhos trabalhando aqui”, ao que conta nos dedos, nominando cada um deles - Inajara está entre eles -, e se dá conta de que são seis, na verdade. “Tinha esquecido de alguém”, brinca, aos risos. Além disso, é casado com a secretária da associação, a Fátima. Josi é sua enteada. E também trabalha no local a sua neta, a Luana. O trabalho tem ainda mais dois motoristas, que dirigem dois caminhões. Em cada um, segue um trabalhador para coletar os resíduos. Tem ainda o Jair, que assim como o Sarará ajuda a fazer tudo. E os postos de trabalho, em alguns casos, mudam. O material é coletado e jogado dentro do caminhão, que descarrega perto de alguma das mesas. Nelas, é feita a triagem - com a separação das 30 qualidades por tonéis. Dos tonéis, para a prensa. Depois, organiza-se tudo e o processo é encerrado. Tudo isso resulta em uma venda mensal de R$ 36 mil. É daí que vem o vencimento dos trabalhadores, uma quantia dividida igualmente entre todos eles. A remuneração, que tem chegado a uma média de R$ 1,6 mil a R$ 1,8 mil não é feita em carteira assinada, mas tem o desconto de INSS - e vem acompanhada de uma cesta básica. Esse é o produto de uma carga horária cumprida de segunda à sexta-feira, das 8h30 às 17h, com uma hora e meia de almoço e intervalos para o café - feitos na cozinha, um anexo construído no segundo andar. Ao final do dia, os trabalhadores embarcam em suas locomoções para ir para casa. O pátio, que tem vários carros e motos, fica vazio. Os que moram mais perto voltam com condução própria. Os que vão mais longe, contam com a Kombi da associação, que entrega na frente de casa. O local fica protegido, há alarmes. Mas Sarará passa por lá nos finais de semana para receber caminhões e dar uma conferida. Ao falar de futuro, Luana, que chegou a dançar uma música de Wesley Safadão em dado momento, é enfática. “Aqui, não teve crise. E a tendência é só melhorar. A produção de lixo só aumenta. Nosso trabalho vai ser cada vez mais necessário. Vai dar para viver disso muito tempo ainda”, conclui, antes de rumar para o rádio para aumentar o volume. Josiane continua folheando com cuidado as fotos. Tem duas luvas em cada mão, uma camada extra de proteção para quem se depara, não raro, com cacos de vidro e estilhaços de lâmpada. Ao fim e ao cabo, não há glamour na rotina das 28 pessoas que fazem o trabalho sujo, deixando a cidade, essa sim, bem mais limpa. Mas se não há no lixo um romance, até porque, segundo Josi, é possível que o desconhecido da foto tenha traído a mulher que posa ao seu lado, há esperança e fé. Josi faz votos de que os corações dos dois desconhecidos também se reciclem.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Fui conhecer o funcionamento da reciclagem sem ter muita noção do que encontraria. Tentei ir desarmado de conceitos previamente estabelecidos. Acho que consegui. Conheci um lugar de labuta, basicamente um espaço de trabalho braçal como qualquer outro, muito parecido com os pavilhões de indústria que já tinha frequentado. Enquanto uns produzem embalagens, outros separam resíduos. No fim das contas, não há glamour no que aquelas pessoas fazem. Mas, a despeito do que se possa pensar, também não há lá uma rotina infernal, que projete nos trabalhadores algo muito pior do que em qualquer outro ambiente fabril. Aquilo é a realidade, nua e crua. Há muitas discussões possíveis em relação à relevância do trabalho deles, da organização horizontal que aplicam, enfim, de tudo o que vivem, mas o que mais me interessa ainda é o singelo. É bom saber que as fotos de um casal desconhecido ainda tocam as pessoas - na situação que for.


Viciada em blusinhas P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Compulsão por Compras pode acompanhar ansiedade e depressão, e precisa de tratamentos específicos Por Thais Montin fotos de Lianna Kunst

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runa* mexe o café, a colher apertada entre dedos com unhas perfeitamente pintadas de vermelho. Quem a vê à meia luz - longos cabelos loiros e roupas de marca - não imagina o problema da jovem. As extensas faturas de cartão de crédito e variadas contas de loja e o nome no SPC, que tanta dor de cabeça dá. O motivo muitos julgariam como fútil, mas é uma compulsão como qualquer outra: ela é viciada em comprar roupas. “Acho que se eu entro no Renner aquelas portas apitam na hora”, diz, brincando. A estudante de Administração, aos 26 anos, afirma ter dívidas extensas em lojas que ela nem consegue contar nos dedos. “Nem minha mãe sabe disso, na verdade. Quando estou muito desesperada peço um dinheirinho para o meu avô, mas ele também não

sabe do problema. Na verdade, eu nunca abri isso para quase ninguém”, desabafa, incomodada com a própria história. “Tenho três guarda-roupas lotados. Já não tenho mais onde enfiar tanta coisa. Mas eu continuo comprando, né. Sempre tem alguma coisa pra comprar”, admite, relutante. Quando questionada sobre qual acredita ser a causa do vício, Bruna para, pensativa. “Eu nem sei muito bem. Acho que todo mundo quer estar na moda, andar bonita, ser bem aceita. Acho que é isso. Na verdade, nunca parei muito pra pensar no motivo”, revela. “Só que cada tristeza que P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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eu tenho, vou lá e compro algo. Ano passado, quando fui demitida do meu outro estágio, gastei mais de R$700 numa tarde. Faz com que eu me sinta um pouco melhor, sabe?”, reflete. Bruna sofre, de acordo com a psiquiatra Yara Netto, de um distúrbio chamado Compra Compulsiva (CC), antes conhecida como oneomania. Embora muitos talvez se identifiquem com o relato, é bastante difícil saber a quantidade de pessoas que realmente se encaixam na definição do distúrbio. Isso porque nem todo paciente acaba em uma clínica, e só procuram ajuda mesmo quando começam a entrar em depressão por conta das dívidas. “Uma pessoa com o distúrbio tem uma rotina de compras bem diferente de uma pessoa normal. Alguém que compra uma blusa, por exemplo, e a utiliza por meses, até anos, pois sabe que ela custou seu dinheiro. Quem faz compras compulsivas não sente essa necessidade de uso, essa felicidade mais duradoura. Ela passa logo P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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após o ato o que acaba até mesmo com a vontade de usar o produto comprado. Muitas vezes ele acaba guardado e esquecido”, explica Yara. Para a psiquiatra, a CC se assemelha ao que faz as pessoas se viciarem em drogas. “A compra passa a ser uma fuga momentânea da realidade, como o uso de substâncias entorpecentes. Aquele prazer, a euforia, logo acabam, o que faz com que eles recorram às compras novamente. Quem tem dinheiro sofre menos, obviamente. Quem não tem acaba se endividando, e aí que começa a pior parte do problema”, enfatiza a médica.

Indústria da moda é uma das culpadas

Para a psiquiatra, o que se vê é que o aumento do consumismo e os estímulos cada vez mais cedo podem levar ao comportamento. “Temos nos transformado cada vez mais em consumidores, sem individualidade. Somos alvo, somos público. Precisamos ter antes de ser. Desde pequenos, somos tentados por propagandas que nos despertam o querer. E com a moda não é diferente”, opina. Bruna diz que segue diversas influenciadoras, blogueiras e revistas de moda nas redes sociais. “Estou sempre vendo algo novo, e acabo querendo comprar. Com essa onda de choker, eu acho que já devo ter mais de 50. O pior é que algumas são até iguais”, declara. “Eu gosto muito de seguir a Vogue, a Elle, ficar de olho nas ten-

dências. O problema é que tudo o que sai nas revistas acaba sendo meio caro, aí fica bem mais fácil de se endividar. Mas é o preço que se paga para andar sempre na moda, né?”, questiona a jovem, como se em dúvida das próprias decisões. De acordo com a consultoria Euromonitor, em 10 anos, o faturamento da indústria da moda quadruplicou, chegando a R$140 bilhões em 2013. Naquela época, o mercado brasileiro passou do 14° para o 8º lugar entre os maiores consumidores de roupas e acessórios do mundo - prestes a ultrapassar a Itália, mãe de marcas consagradas como Prada, Pucci e Gucci. Marcas brasileiras têm crescido; um exemplo é a Riachuelo, que fatura hoje 62% a mais que há cinco anos. Por serem considerados bens duráveis, o avanço da moda não se dá tão rapidamente. Entretanto, de acordo com o IBGE, a cada degrau que sobem na escala social, os consumidores dobram a parcela do orçamento dedi-


OS sintomas De acordo com Yara, alguns dos principais sintomas observados em pacientes de CC são: l Euforia, felicidade e bem estar extremo

cada ao vestuário. “Nas classes D e E, quase todo o dinheiro é gasto em necessidades básicas, como moradia e alimentação. Sobram apenas R$40 por mês para roupas e acessórios. Quem passa para a classe C gasta, em média, R$97. Na classe B, R$202. E, na classe A, R$455 por mês”, aponta a pesquisa. Outras categorias não têm a mesma característica: o setor da moda é o maior beneficiado a medida que o brasileiro enriquece e ascende na escalada das faixas sociais. E quem mais ajuda nessa expansão são as mulheres. A entrada de 11 milhões delas no mercado de trabalho na última década impulsionou a indústria fashion no Brasil como nunca antes.

Como sair dessa?

Bruna explica que, às vezes, se vê em um beco sem saída. “Quanto mais triste eu fico com a minha situação, mais vontade de comprar eu tenho. Isso me frustra muito”, desabafa. “Já fiz vários tratamentos, mas sempre

acabo desistindo. Não tenho paciência para a terapia, acabo parando antes da hora e voltando a fazer as mesmas coisas, a ter exatamente os mesmos hábitos de antes”, revela. A jovem tenta parar por conta própria, pelo menos até pagar as dívidas maiores. “Tenho três cartões estourados. Já fui no Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON) para negociar, mas mesmo assim vou precisar pedir dinheiro emprestado para quitar tudo”, expõe. Yara conta que o vício quase sempre se manifesta junto a outras doenças psicológicas, como a depressão e a ansiedade. A compulsão ainda pode ser sinal do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). “O paciente bipolar pode ser levado a desenvolver as chamadas manias. Aí entram várias coisas: vício em drogas, bebidas, sexo, compras… O que marca é o excesso e a falta de controle que eles têm sobre as próprias atitudes. E isso tudo só se cura com terapia e tratamentos específicos”. O primeiro passo para melhorar é tomar consciência do problema - assim como qualquer outro distúrbio. “É importante que a família e os amigos acompanhem e fiquem de olho em sinais. Se a pessoa chegar ao ponto de começar a pedir dinheiro emprestado, pode ser que ela já esteja com dívidas enormes”, comenta a médica. O tratamento envolve terapia, medicamentos e pode levar até cinco anos. “O mais demorado é o acompanhamento, pois é necessário se certificar de que o distúrbio está controlado e o paciente já pode levar uma vida normal”.

durante o ato de compra l Gastar três vezes ou mais o que se ganha mensalmente com roupas l Endividamento constante l Fazer compras sem questionamento, apenas na impulsividade, sem necessidade real do produto l Raiva e irritação excessivas quando não se consegue comprar o que deseja; l Possui produtos duplicados (mais de dois vestidos iguais de cores diferentes, por exemplo); l Hábito de pedir dinheiro emprestado aos amigos, familiares e fazer empréstimos em bancos l Ter causado problemas familiares devido ao comportamento l Sentir tristeza, angústia e arrependimento logo depois de finalizar a compra l Não usar efetivamente a maioria dos objetos comprados

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Conversar com a Bruna foi tocar em uma ferida própria. Há anos venho me dizendo que preciso parar de gastar e dar um jeito na vida, fazer uma poupança, ser menos consumista e todo esse tipo de coisa. Falar sobre a compulsão por compras (CC) me fez perceber que o problema é muito maior que um ou dois boletos. Dever para as lojas causou tanta vergonha na minha entrevistada que foi uma luta fazer com que ela permitesse o uso de seu primeiro nome na reportagem. Fotos? Nem pensar. Alguém poderia reconhecê-la. Aí, vi que esse distúrbio afeta muito mais que o bolso: ele afeta a confiança das pessoas e mina o amor próprio. É como se o descontrole da doença fizesse com que elas prefiram se encolher no anonimato. É preciso falar sobre isso, como qualquer outro distúrbio. Trazer o tema à tona é o que ajuda a fazer com que as pessoas vejam a Compulsão por Compras com menos preconceito. Além de andar junto com a ansiedade e a depressão, essa doença pode afetar qualquer um, em qualquer momento da vida. Por que não destruir o tabu? P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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O lado ético da moda P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Na contramão do consumismo: a trend da vez é ser consciente Por Laura Pavessi fotos de Victória Lima

co fashion. Moda sustentável. Moda ética. Consumo consciente. Em plena Era do Consumo, nem sempre estamos em contato com tais conceitos. No entanto, é possível que você já tenha aderido a essas causas mesmo sem saber. Ou que elas estejam mais próximas do que você imagina. Ao passo que a globalização e a tecnologia avançaram, o acesso à informação também se expandiu. Hoje, mais pessoas têm acesso a informações de moda e podem ultrapassar as barreiras do consumo passivo e tornarem-se trendsetters. A internet e as redes sociais se tornaram uma plataforma na qual a informação de moda circula de uma forma muito menos linear e mais democrática, resultando em um cenário em que o streestyle serve cada vez mais de inspiração para as coleções das maiores grifes da moda mundial e em que essas tendências acabam também ganhando releituras e influenciando a moda disponível a baixo custo pelas redes de fast fashion. Mas a disponibilidade de informações também coloca os consumidores a par de denúncias sobre as práticas das marcas que eles consomem. Se antes da virada do século os escândalos de grandes empresas da indústria de vestuário já repercutiam e inspiravam importantes discussões sobre os impactos do consumo frenético de roupas e calçados, hoje descobrir se uma marca esteve envolvida em crimes como a utilização de trabalho escravo ou infantil e também em crimes ambientais demora apenas alguns cliques. Inúmeros documentários, web séries, reportagens e até reality shows estão ao acesso de todos e trazem relatos sobre fábricas em países como a China, Camboja ou Índia, onde crianças e adultos trabalham exaustivamente até 14 horas por dia sob péssimas condições em troca de uma remuneração inferior a US$ 3 por dia. Como esquecer do famoso pedido de socorro enviado numa etiqueta de roupa? Ou do desabamento do prédio que abrigava uma fábrica em péssimas condições, que matou quase mil pessoas em Bangladesh? Sabendo de tudo isso, é fácil entender por que, ano após ano, surgem novas marcas ou coleções Primeira edição de marcas já consolidadas no merda Feira Cabide reuniu expositores cado, com a proposta de aliar o apelo estético com o apelo ético. com desapegos, Para Marina Seibert Cezar, promarcas locais, fessora do curso de Moda da Univermúsica, bebidas e flash tattoos sidade Feevale, existe atualmente um anseio por tornar o ato de consumir um exercício responsável e cidadão, e é isso que possibilita o sucesso de marcas com tal proposta. “Hoje, nos interessa a história que algum produto traz consigo, como, por exemplo, se tal marca prioriza materiais com baixo impacto ambiental, ou se ocorre uma remuneração justa entre seus envolvidos no desenvolvimento, se a mão de obra é local, enfim, há uma preocupação legítima que transcende o valor de marca”, explica. “É importante lembrar que essa perspectiva é um comportamento ainda vanguardista, já que vivemos num contexto no qual é o consumismo que ainda prevalece, uma vez que em nossa cultura os produtos são relacionados com status”. A internet tem papel essencial em potencializar esse movimento. Na web, existem hoje iniciativas como o app Moda Livre, que avalia ações tomadas pelas gigantes do setor para evitar que peças sejam P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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produzidas por mão de obra escrava e indica marcas envolvidas em casos do gênero, possibilitando assim uma forma de consumo mais consciente. É online também que são organizadas as diversas feiras que ocor rem periodicamente em várias cidades do Brasil. Só na Região Metropolitana de Porto Alegre é possível citar diversos nomes: Brick de Desapegos, Me Gusta, Balaio, Grand Bazaar e Desapego das Minas, entre outras. Esses eventos são organizados e divulgados em redes sociais como o Facebook e costumam aliar moda, música, decoração e gastronomia. Uns tem como foco as marcas autorais, outros recebem os cabides de lojas e brechós. Muitas pessoas acabam entrando em contato com a moda sustentável através deles, graças ao espaço que criam para que, individualmente ou em um grupo de amigos, pessoas possam expor roupas e calçaP RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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dos usados e vende-las por preços muito atrativos, especialmente em tempos de crise.

De Cabide em Cabide

Nem o tempo chuvoso espantou o público, que circulava curioso pelas araras distribuídas no Art & Tattoo Bar, localizado na Cidade Baixa, durante todo o dia 16 de setembro, quando aconteceu a Cabide. Entre os expositores, estava Stephanie Bueno, veterana das feiras de desapegos: desde que entrou em contato pela internet com a proposta desses eventos, participou de vários e estava até com data marcada para o próximo, no fim de semana seguinte, no Brechó de Desapegos, em edição no Vila Flores. Stephanie trazia calçados, acessórios e roupas que, segundo ela, estavam sobrando no guarda-roupa. No mesmo ambiente, não muito distante estavam a Bruna Osório e a Amanda Moreira, duas colegas de design de moda que decidiram expor juntas. Pela primeira vez nesse tipo de evento, elas contam que trouxeram peças próprias e de outros amigos, além das necessaires artesanais feitas por Bruna. Para ela, essa é uma oportunidade para experimentar com a criação de produtos próprios, e os planos são de expandir a produção e fabricar também bolsas. Entre os vários expositores de desapegos, nota-se uma ampla variedade de preços e marcas dis-

poníveis, tudo em bom estado e muita coisa de bom gosto. Além disso, na Cabide o público encontrou drinks, comidinhas, flash tattoos e também algumas lojas e marcas que tem exposição fixa na casa. Aline Rodrigues, uma das organizadoras, conta que a ideia de fazer o evento surgiu quando ela e outras amigas começaram a ter incompatibilidades com as datas de outras feiras, então decidiram fazer a delas. Para a

FIQUE DE OLHO Se inspirou? Segue uma listinha com marcas que aderem a propostas éticas e sustentáveis da região para acompanhar: Ada, Amuleto de Pano, Apoena, Aurora, Carina Brendler, Capim Lab, Clau, Colibrii, Contextura, Côté, Devaneio, Dressper, Elef Shoes, Envido, Green is Great, Humanus, Insecta Shoes, Justa Trama, Matiz, Nume, PP Acessórios, Preza, Salty, Sueka, The Blue Crafters, Urban Flowers, Valeria Sá e Vuelo.


criada e os espaços abertos para locação. Victor ressalta que todo esse esforço em busca de construir uma rede de colaboração entre marcas e projetos é essencial para quem empreende com a proposta de um consumo mais ético. E o maior desafio para essas novas empresas é fazer com que o mesmo ideal chegue a todos os setores da indústria e do mercado: “A realidade das marcas que surgem com esse viés é que elas estão um pouco sozinhas no sistema. A indústria ainda está se adaptando à produção em baixa escala com alto nível de qualidade. Por isso é um desafio para essas marcas criar uma cadeia produtiva eficiente. Se não há uma rede de distribuição, lojas que priorizem esse tipo de marca, confecções, malharias e estamparias que também tenham essa proposta, acaba se tornando um diálogo que se restringe apenas à sua ideia e ao consumidor final”, opina. O e-commerce da marca existe há dois anos. A estratégia inicial foi fazer-se presente nos espaços físicos, estabelecendo conexões com lojas e participando das feiras, o que resultou em muita mídia espontânea para a Humanus. “Ao mesmo tempo em que a internet permite que se atinja outros públicos, ela também é um meio muito competitivo. Pra gente, por exemplo, é complicado competir com quem vende camiseta de informação pop a R$ 15. As ferramentas de publicidade nas redes sociais também são as mesmas que a gente já conhece há décadas e seguem aquela regra de que quem investir verba mais vai aparecer mais”, conta Victor. Sobre o slow fashion como um mercado em expansão, ele acredita que as marcas que souberem apostar em uma identidade própria, trazendo outras propostas, sejam elas estéticas ou culturais, para complementar os valores éticos defendidos, serão as com maiores chances de se destacar. divulgação, elas contaram com promoções e impulsionamentos no Facebook. “É bacana criar esses espaços para as pessoas que querem fugir do fast fashion ou consumir marcas locais. Aqui a gente cria conexões e possibilita a troca de muita coisa legal que simplesmente estava sem uso para outra pessoa”, reforça Aline.

Moda e cultura

Em um cantinho simples mas muito simpático do Vila Flores, no bairro Floresta, máquinas de costura e moldes dividem espaço com computadores, araras com vários tipos de roupas expostas e um estoque organizado no capricho em quase toda a extensão de uma parede. É ali que funciona o atelier criativo e o showroom da Humanus, e de onde a equipe comanda, também, a loja virtual da marca. Na Grade Porto Alegre existem hoje dezenas de marcas autorais de moda com uma proposta sustentável

ou voltadas para uma forma de consumo mais consciente. Como explica Victor Geuer, um dos sócios, a intenção da Humanus é ir além disso. Mesmo apostando nas bandeiras da moda ética e nos valores humanistas, defendendo o uso de mão de obra local e matérias-primas como o algodão orgânico e tecidos feitos com pet reciclados, a Humanus traz em cada uma das suas peças um convite para a reflexão através da poesia e da filosofia, fazendo da moda um difusor cultural. Há sete anos no mercado, a Humanus esteve presente em diversas feiras de rua que ocorrem até hoje, em algumas delas participando das reuniões de organização, e também teve contato com os projetos de economia criativa que ganharam espaço na Capital nos últimos anos. É o caso do envolvimento com o complexo Vila Flores, endereço da marca há dois anos, que começou já quando a associação cultural foi

IMPRESSÕES DE REPÓRTER Desde pequena sempre adorei a transformação que as roupas representam. Como um pedaço de tecido pode tomar a forma da segunda pele de alguém, pele essa que escolhemos e na qual tentamos imprimir aquilo que acreditamos ser – um elo entre a imagem que temos de nós mesmos e aquela que o resto do mundo vê. Mesmo na adolescência, visitar uma loja de tecidos era muito mais emocionante do que bater perna de loja em loja. Nos últimos anos, acompanhei pela Internet o surgimento de diversas marcas locais e de outros Estados que traziam, entre outras propostas, a de remunerar de forma justa e ética todos os seus colaboradores. Pra mim, mais do que uma tag extra para servir de destaque nas buscas do Google, a moda ética se aproxima daquele lado da moda pelo qual sempre tive interesse: o da proximidade com a vizinha costureira, da felicidade de vestir algo feito com carinho e capricho, e de ter uma peça favorita que faça parte de momentos especiais através de muitos anos. Escolhi esse tema pois queria conhecer iniciativas e pessoas com essa mesma visão, de que a moda pode e deve celebrar mais expressão e pertencimento, e menos dor e exclusão. Como repórter, acredito que esses relatos provam que uma relação mais saudável com o consumo é possível, e que ela pode ser parte da construção de uma relação mais saudável com nós mesmos. P RI M E IRA I M P R E S S Ã O

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Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Endereço: avenida Unisinos, 950. São Leopoldo, RS Cep: 93022-750. Telefone: (51) 3591.1122 Internet: www.unisinos.br. ADMINISTRAÇÃO REITOR: Marcelo Fernandes de Aquino VICE-REITOR: José Ivo Follmann PRÓ-REITOR ACADÊMICO: Pedro Gilberto Gomes PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro DIRETOR DA UNIDADE DE GRADUAÇÃO: Gustavo Borba Gerente dos Cursos de GRADUAÇÃO: Paula Campagnolo COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO: Edelberto Behs

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REDAÇÃO

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Orientação

Anelise Zanoni (aneliseza@unisinos.br) - Redação Flávio Dutra (flavdutra@unisinos.br) - Fotografia

Reportagem

Atividades Acadêmicas: Redação Experimental em Revista / Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial Amanda Büneker, Anderson Huber, Arthur Menezes, Bolívar Gomes, Dyessica Abadi, Eduarda Moraes, Eduardo Zanotti, Eric Machado, Fernanda Bierhals, Henrique Bergmann, Jaime Zanatta, João Rosa, Kalleb França, Laura Pavessi, Lurdinha Matos, Manoela Petry, Mariana Artioli, Paloma Griesang, Paola Oliveira, Thais Montin, Verônica Luize e Victor Dias Thiesen MonitorA: Jéssica Zang

Fotografia

Atividades Acadêmicas: Projeto Experimental em Fotografia Afonso de Lima, Alessandra Vaz, Artur Colombo, Camila Tempas, Diego Alan de Mello, Fernanda Salla, Helen Appelt, Igor Mallmann, Karina Verona, Lianna Kunst, Lidiane Menezes, Mainara Torcheto, Marcelo Wieczorek, Maria Carolina de Melo, Rafaela Trajano, Stephany Franco, Tainah Gil, Tuhana Pinheiro, Vanessa Puls, Vanessa Souza e Victória Lima MonitorA: Mainara Torcheto Foto de capa: Helen Appelt

ARTE E PUBLICIDADE

Agência Experimental de Comunicação (Agexcom) COORDENADORA-GERAL: Cybeli Moraes

Editoração

PROJETO GRÁFICO E SUPERVISÃO TÉCNICA: Marcelo Garcia DIAGRAMAÇÃO: Marcelo Garcia e Nathalia Haubert

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ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA: Vanessa Cardoso SUPERVISÃO TÉCNICA: Robert Thieme ATENDIMENTO: Manuela Massochin Página 2 (Rádio Unisinos FM) Direção de arte E ARTE FINALIZAÇÃO: Gabriel Marin Página 95 (Agexcom) Direção de arte E ARTE-FINALIZAÇÃO: Jorge Eduardo Tavares Redação: Isadora Salines contra-capa (Mescla) Direção de arte E ARTE-FINALIZAÇÃO: Renan Bonarrigo

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Primeira Impressão 48  

Revista experimental produzida por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (campus São Leopoldo). Edição 48. Dezembro de 2017.

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Revista experimental produzida por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos (campus São Leopoldo). Edição 48. Dezembro de 2017.

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