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Todo o conteúdo desse número pode ser acessado na webpage: http://www.alpendre.arq.br ou no Facebook da Revista Alpendre. Alem disso, a versão também está disponível para Ipad

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!"#$%&'('"$)%&'*+"#)"'*+$'+,-+$' [AUDIOVISUAL] [Uninverso | Marcos de Brito ] [TEORIA] [Sobre programas e necessidades | Fernando Freitas Fuão] [Conduzindo Cegos | Elida Tessler] [ENTREVISTA] [Cinema de rua: micronarrativas urbanas | Mariana Biork] [ENSAIO VISUAL] [Cristiano Mascaró]

[PROJETOS]

[Edifício Muro | Henrique Meixão Ramos] [Praça em fios | Laís Dalto] [Afeto Desmedido |Yoná Brandão] [OLHARES] [Exposição fotográfica | Alunos dos cursos de Arquitetura e Comunicação Social] [ARTIGO] [O devir molecular

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da partícula: uma navegação espacial pela Construção Nebulosa |Maria Júlia Barbieri] [DROPS] [Seis Pílulas para olhos moribundos]


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Por Maria Júlia Barbieri

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As pessoas de Fernando Pessoa servem de inspiração para o segundo número da Revista Alpendre, Pessoa, nos brinda, por meio de Caeiro, com sutilezas em forma de versos. Nesses versos, moram provocações que muito se distanciam do tempo em que foram escritas. Elas encontraram abrigo nos dias de hoje. Caeiro nos provoca dizendo: “Pensar é estar doente dos olhos”. Nos apropriamos então, dos olhos doentes de Fernando Pessoa para exercitar outras formas de ver e olhar o mundo em que vivemos. Esse olho moribundo, é antes um olho que procura reter os

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momentos e seus afetos como se fossem as últimas imagens possíveis de se gravar nas retinas cansadas de um poeta. Poeta este que encantou o mundo com belas imagens criadas com letras cadenciadas. O conteúdo desse número, traz como tema central, a provocação de Caeiro e seus desdobramentos sobre diversas áreas como a arquitetura, a fotografia, o cinema, a filosofia e a literatura.


[POEMA] [O guardador de rebanhos | Alberto Caeiro]

[4]

[AUDIOVISUAL] [Uninverso | Marcos de Brito ]

[5]

[ARTIGO] [O devir molecular da partícula: uma navegação espacial pela Blur Building | Maria Júlia Barbieri]

[6]

[DROPS] [ENSAIO VISUAL] [Cristiano Mascaró] [TEORIA] [Conduzindo Cegos|Elida Tessler]

[10] [14] [23]

[PROJETO] [O afeto desmedido|Yoná Brandão]

[27]

[DROPS]

[32]

[AUDIOVISUAL] [Cinema de Rua: microdocumentários urbanos]

[33]

[ENTREVISTA] [Cinema de Rua/Alpendre]

[35]

[OLHARES] [Exposição fotográfica|Pensar é estar doente dos olhos]

[37]

[TEORIA] [Sobre programas e necessidades|Fernando Freitas Fuão] [DROPS]

[47] [50]

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O Guardador de Rebanhos Alberto Caieiro 1911-1912 II O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás… E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem… Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras… Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo… Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender… O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar… Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar…

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Por André Teruya Eichemberg

extremamente sutil e criativo que

do corpo e da percepção, talvez

Tudo é uma inversão, ou melhor,

Brito nos coloca: a de um corpo

por estarmos docilizados demais

somos

que

como

um

espelho

de

dança

sempre

atrasado,

nos

mostrou

Michel

representações complexas que

sempre em desajuste. A água, as

Foucault, ao tratar sobre um

criamos, que complicamos a cada

roupas, o rosto, tudo sobe, tudo

corpo que não aguenta mais a

gesto, a cada afeto. Uninverso, de

tende ao céu, mas o que fica

gravidade nem as forças e afetos

Marcos deBrito, nos transporta

evidente

ao

do cotidiano. Não seria tanto uma

para uma paisagem onírica no

descontrole

que

busca pelo controle e por um

cotidiano de um personagem às

simplesmente existem. A singular

sentido, pois seria mais fácil

avessas. No filme nos parece,

e

a

rotacionar a câmera, mas antes,

num primeiro momento, que o

existência

seus

de se deixar levar por forças que

que

de

modos de vida nos faz emergir à

nos atravessam, que nos fazem

gravidade ou algo parecido, mas

condição contemporânea, a de

perceber

trata-se

não saber mais quais os limites

existência.

comanda de

é

a um

falta

jogo

é

poética

essa de

intenção forças

leitura da

cidade

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sobre e

outras

formas

de


O devir molecular da partícula

+ +

Uma navegação espacial pela Construção Nebulosa

Este artigo é parte integrante da dissertação de mestrado initulada: “Arquitetura inatual como arquitetura da diferença – uma comunicação de afetos e durações” defendida pela Prof. M.Sc. Maria Júlia Barbieri, no Programa de Pós Graduação em Comunicação Midiática da FAAC-UNESP.

A linha se define como um devirespaço elementar da arquitetura; o qual faz precipitar os afetos implicados em sua construção. É possível sentir que as linhas físicas do traço arquitetônico se entrelaçam com as linhas existenciais presentes no corpo. Quando a linha se faz criar a partir do movimento de uma partícula, de certa forma, ela territorializa essa partícula como uma impressão, uma marca ou afecção. No entanto, esse processo não é algo definitivo, a linha, que territorializa uma partícula, passa a ser uma nova entidade dotada de poder de afeto, podendo novamente se desterritorializar. A partir de desterritorialização e reterritorialização, novas linhas

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podem emergir entre os planos de modo a esboçar cartografias. Esse deslizar entre territórios é o que permite ao corpo variar entre dissolverse ou coagular-se. Parte-se agora em busca de um devirespaço, que vai além da linha, a dissolvendo ou a desterritorializando de forma a retornar a um universo de partículas sensíveis. O devir-espaço da linha se converte num novo devir, o devir-molecular da partícula. No entanto, esse outro devir que surge não exclui o anterior, e sim, o carrega nele, se aprofunda em seu interior e o faz transmutar. Se antes a linha carregava a potência afetiva na forma da afecção, agora a partícula carrega a potência dos afetos


em trânsito. A afecção é marca corpórea, tem o poder de fixar um estado no corpo e imprimir uma presença permanente do encontro entre o espaço e o indivíduo; já o puro afeto pertence a um universo temporal que devém uma afecção, numa duração que transita livremente sem se fixar. A partícula agora é a linha que se dissolve num devir-molecular. “Devir é, a partir das formas que se têm, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos.[...] Esse princípio de aproximação é inteiramente particular,e não introduz analogia alguma. Ele indica o mais rigorosamente possível uma zona de vizinhança ou de co-presença de uma partícula quando entra nessa zona.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.64)

Essa zona de vizinhança, onde perpassam livremente os devires moleculares, tem uma natureza de indefinição e indecidibilidade. Nesse plano sempre se está em vias de, tal como o afeto que precede uma afecção. Volta-se a condição primária daquilo que define um corpo, ou seja, relações de velocidade e lentidão. O devirmolecular está, por assim dizer, para além do corpo, conformando um território imanente de partículas em movimento; nesse sentido, fala-se de um corpo dissolvido ou um corpo sem órgãos sempre em vias de se transmutar. Esse plano de consistência é conformado por processos que operam, num nível molecular, relações entre elementos não formados. Um plano que não fixa, não desenvolve signo algum, não delimita corpos, não atribui nomes. Como o cavaleiro da fé que vive no

puro movimento, faz de todo o mundo um devir, perde seu nome e seu corpo se tornando clandestino e invisível. Segundo Deleuze: “Aqui não há absolutamente formas e desenvolvimento de formas; nem sujeitos e formações de sujeitos. Não há nem estrutura nem gênese.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.55) Nesse plano não se fala mais em evolução e sim em involução “onde a forma não pára de ser dissolvida para liberar tempos e velocidades” (DELEUZE & GUATTARI, 2002 p.56); não se fala mais em subjetividade individuada, mas sim em hecceidades. “Há um modo de individuação muito diferente daquele de uma pessoa ou sujeito, uma coisa ou substância. Nós lhe reservamos o nome de hecceidade. Uma estação, um inverno, um verão, uma hora, uma data têm uma individualidade perfeita, à qual não falta nada, embora ela não se confunda com a individualidade de uma coisa ou um sujeito. São hecceidades no sentido de que tudo aí é relação de movimento e de repouso entre moléculas ou partículas, poder de afetar e ser afetado.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.47)

Sendo assim, é a pura experiência, no âmbito da duração, que pode revelar essa essência imanente de uma realidade em movimento. E o afeto, enquanto o trânsito entre um e outro estado do corpo, é aquilo que habita essa fronteira. O devirmolecular coloca o espaço e o corpo num território de fluidez, no qual se torna impossível dizer quando um começa e outro acaba. Esse aspecto fluido do espaço já foi tratado por Marcos Novak no que ele chamou: arquitetura líquida. Para Novak, a arquitetura líquida lida com uma fluidez que a contemporaneidade confere ao próprio espaço, dessa forma, ele propõe uma trans-arquitetura (ou

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arquitetura transmissiva), ampliando ainda mais essa idéia, propõe uma arquitetura de contágio, onde o tempo contamina o espaço de forma a conferir-lhe uma outra natureza. “A transmissão da arquitetura e do espaço público altera todas as condições familiares da arquitetura e urbanismo. tudo de uma vez, teoria, prática e educação são confrontadas com questões que não tem precedentes considerados dentro da disciplina, necessitando que nos direcionemos para outro lugar para nos guiarmos. [...] Aprendendo a partir de softwares, substituindo Aprendendo em Las Vegas, a Bauhaus, ou Vitruvius: a disciplina de substituir todas as constantes por variáveis, necessariamente por uma boa engenharia de software, conduz diretamente a idéia de arquitetura líquida. Arquitetura líquida, em troca, conduz para a reproblematização do tempo como um elemento ativo da arquitetura na escala de um evento cognitivo e musical, e não só no evento histórico político ou econômico.” (NOVAK, 1996) Aprofunda-se essa discussão a fim de tratar a liquidez, a qual Novak se refere, não apenas no âmbito da emergência tecnológica, mas também nos desdobramentos que ela provoca sobre a relação entre corpo e espaço. Neste sentido, a liquidez passa a operar como um devir-molecular que envolve contaminação e proliferação de afetos. Esse tempo, enquanto elemento ativo na arquitetura, ganha a propriedade da duração uma vez que envolve o espaço e o corpo num mesmo devir. E de acordo com Bergson: “Para quem se instala no devir, a duração aparece como a própria vida das coisas, como a realidade fundamental.” (BERGSON, 2005 p.343)


A partir desses aspectos, inicia-se um percurso através das hecceidades e involuções que se revelam na Blur Building, obra de Diller & Scofidio para a Expo 2002 na Suíça. A “Construção Nebulosa” desses arquitetos permite ao corpo imergir num devir-molecular por excelência, onde todas as formas se desfazem e se dissolvem numa névoa de puro branco, tal como a linha branca que se desenhou no céu quando uma mulher descobriu seu devir-Deus.

A miragem nebulosa Suíça, Yverdon -01:00 , 46°47' N 06°39' E O lugar é amplo e iluminado. Por entre algumas árvores, pode se avistar a superfície fluída de um lago que cintila à luz do sol. O movimento calmo de suas águas ressoa em cristais sonoros um marulho cósmico. Com o vento, esses cristais se precipitam em cores fugidias, como quando a chuva traz consigo um espectro que multiplica a luz branca do sol num arco-íris que cruza o céu. Diziam alguns antepassados que no seu fim existiria um pote de ouro. Aproximo-me da margem e sigo uma curva sinuosa que encerra a linha tênue entre a liquidez da água e a solidez da terra. Que substância é essa que se diferencia entre solidez e liquidez? Qual é o impulso que agrega essas partículas ora sólidas como pedra, ora líquidas como água, ora suaves como as dobras de minha pele, ora leves como o ar que agora penetra pelos meus poros numa brisa leve? Lembro-me dos travelings de Tarkovski que conduzem o olhar a desvendar essa materialidade latente, ou ainda, trazem a impressão de que é esse encontro entre os olhos e a superfície que precipita as moléculas de uma natureza imanente. Ele cria por meio da duração das coisas um acesso ao universo molecular da imagem.

corpo habite essa fronteira. Que ele próprio oscile entre a liquidez da água e a solidez da terra. Inclino meu corpo em direção a água e meu reflexo se faz por entre as ondas mínimas que vêm e vão. Uma molécula de Narciso ressurge dos mitos a afogar minha própria imagem que se desfaz quando uma gota de orvalho cai sobre a água criando ondas circulares. Já não sei do que sou feito. Água, terra ou cristais sonoros. Caminho pela margem do lago e posso avistar muito longe uma nuvem que paira sobre a água. Ela parece ter desviado seu curso no céu em busca de um descanso por sobre as ondas. O vento a faz deixar um rastro branco que quando toca a água se desfaz. Penso de novo nesses limiares da materialidade que fazem a nuvem oscilar entre a liquidez e a condensação. Talvez nessa fronteira estejam todos os segredos do mundo. Mas, eles todos povoam o universo do imperceptível. Parece-me que essa grande nuvem que desceu ao lago confidencia-lhe seus segredos mais íntimos. No entanto, a distância que se interpõe entre mim e a nuvem não me deixa ouvi-los. Sinto que preciso buscar essa percepção molecular. Tornar-me por apenas alguns segundos líquido como a água e denso como a nuvem. Apesar das asas que

A idéia de margem reverbera em meus pensamentos num impulso quase delirante de desejar que meu próprio

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poderiam me fazer voar, continuo andando ao longo da margem do grande lago. Sinto que a descoberta está próxima. Lembro-me dos céus nos quadros renascentistas que faziam da luz que atravessa as nuvens ecos de Deus sobre os homens. Lembro-me também de um poema em prosa de Baudelaire que dizia: “Um porto é uma estância encantadora para um espírito cansado das lutas da vida. A vastidão do céu, a arquitetura móvel das nuvens, as tonalidades variáveis do mar, a cintilação dos faróis, são um prisma admiravelmente adequado para entreter os olhos sem nunca os aborrecer. As formas esguias dos navios, de enxárcia complicada, aos quais a ondulação transmite oscilações harmoniosas, servem para manter no espírito o gosto pelo ritmo e pela beleza. E, aliás, existe sobretudo uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para quem já não tem curiosidade ou ambição, ao contemplar, inclinado no miradouro ou debruçado junto ao molhe, todos os movimentos dos que partem e dos que regressam, dos que ainda têm a força de querer, o desejo de viajar ou de enriquecer.”1

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Percebo então, que habito esse porto de Baudelaire. Cada vez mais cavaleiro da fé, agora com um devir-anjo, posso executar essas viagens imóveis e transmutar meu próprio corpo em lago, nuvem e sol. Sinto que devo me entregar ao sabor do vento que agora revolve meus cabelos da mesma forma que revolve o lago em ondas. O vento faz a grande nuvem oscilar sua forma. Lembro-me da infância distante em algum lugar sublime onde eu olhava o movimento das nuvens no céu e tentava decifrar suas formas. Ora cavalos, ora anjos, ora apenas uma massa sem forma. Também ficava horas admirando-as nas longas viagens de carro e pensando que as nuvens formam ondas no céu, como um reflexo do grande mar azul onde as ondas de Virgínia Woolf vem e vão,

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trazendo e levando seus pensamentos. Quando mais me aproximo da nuvem mais ela me traz a impressão de uma miragem. Penso então que a arquitetura móvel das nuvens é uma arquitetura de miragem, que encanta os olhos, enfeitiça e hipnotiza. As miragens escondem sempre um mistério o qual apenas os olhos podem compartilhá-lo, contemplá-lo de longe e à espreita. Elas são feitas das mesmas moléculas de silêncio que preenchem uma pausa secular. Sua presença sublime congela a paisagem. O universo físico se detém. Um afeto estático se conforma esfacelando as horas, silenciando as ondas, retendo no céu um sol eclíptico, impedindo o vento, cessando o movimento das minúsculas gotas que caíam das folhas fazendo flutuar aquelas que se encontravam no meio do caminho. Um tempo morto. A grande miragem nebulosa parece atender o meu desejo de vivenciá-la em sua plenitude. Entendo então que


devo também silenciar o corpo e o pensamento, como os budas tibetanos em suas horas de meditação. Todo o universo retido num instante de miragem. A mais pura hecceidade. “Uma hecceidade não é separável da neblina ou da bruma que dependem de uma zona molecular, de um espaço corpuscular.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.64) A única coisa que se move nesse instante estático é a nuvem, como se revelasse, apenas a mim, os limiares que a transportam de um devir molecular a outro. Só ela pode quebrar o silêncio num ruído infra-sonoro que chega até mim fazendo vibrar dobra por dobra toda a superfície do meu corpo. É uma música de nuvem que viaja através da paisagem, passa atravessando qualquer materialidade presente. Preenche com um som de neblina cada cavidade, cada espaço entre as partículas as impedindo de se mover. Há ainda um outro ruído, que ao contrário desse, não tem a nuvem como fonte sonora, não parte dela dissolvendo-se pela paisagem. Faz o caminho inverso, como se a nuvem o atraísse para si, atravessa tudo em direção a ela. Quando toca a superfície da água vibra líquido e coagula. É o som da força que faz a nuvem se recriar incessantemente, é o som do transporte molecular que faz as partículas líquidas da água se transmutarem numa densidade branca e nebulosa. Só então entendo que o que alimenta essa nuvem é o próprio lago, é dele que ela tira as partículas de sua construção. Sinto desejo de penetrá-la, mas temo que a miragem desapareça assim que eu me mova. Mas se não o fizer nunca saberei o segredo que guarda a morada dos anjos, o afeto da chuva, a potência do raio que se dobra em um trovão. Fecho os olhos tentando reter na memória uma última imagem daquela miragem nebulosa na paisagem estática. Dou um primeiro passo e tudo se move também. As gotas continuam seu curso em direção ao chão, as folhas ressoam com o vento, as ondas se enrolam novamente e o eclipse se desfaz. Mas a miragem não se esvai. Ela me espera e me convida preenchendo o céu numa aurora boreal que faz a superfície celeste variar entre rosas, roxos e verdes. Duas passarelas suspensas desenham um caminho em direção a nuvem. Inicio uma caminhada em direção a ela e conforme avanço por sobre o lago sinto um leve entorpecimento dos sentidos que anunciam ao corpo a proximidade da descoberta. Levito. Cápsula do vento. Leve, tão leve como a espuma que se desfaz no fim das ondas ou como a bolha de sabão que, antes de explodir no ar, reflete as cores do arco-íris. Algumas borboletas amarelas se precipitam num vôo simples conduzindo meus passos. E a brisa traz consigo aquelas pequenas flores que se desmancham quando a gente sopra. Sinto um cheiro doce de primavera. Quando vou me aproximando do fim da passarela uma garoa fina começa por molhar minha pele até me impregnar por inteiro. A névoa se projeta sobre mim tomando meu corpo para si. Estou dentro. Denso muito denso e branco muito branco: “É como penetrar uma massa nebulosa, referências visuais e acústicas são apagadas deixando apenas a “densidade branca” e o “ruído branco” do esborrifar dos pequenos aspersores. Como penetrar um espaço, penetrar a Nuvem é como andar dentro de um meio habitável, disforme, sem limites, sem cor, sem profundidade, sem escala, sem massa sem superfície e sem dimensão.” (DILLER, 2005 p.16)

Vem-me a mente a cegueira de Saramago2, leitosa e branca, densa como a nuvem. A miragem de antes, que só era possível aos olhos, faz a visão adormecer. Não posso enxergar mais nada. Sinto-me parte de tudo que me rodeia e posso sentir que

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“Ensaio sobre a cegueira um romance de José Saramago, publicado em 1995 e traduzido para diversas línguas. Saramago recebeu o prémio Nobel de literatura pelo conjunto da sua obra. Ensaio sobre a cegueira é um dos seus romances mais famosos, juntamente com Todos os nomes e O Evangelho segundo Jesus Cristo. O romance conta a história de uma praga de cegueira, inexplicável e incurável, que começa num homem sentado no trânsito e, lentamente, se espalha pelo país. À medida que os afectados pela epidemia são colocados em quarentena, em condições desumanas, e os serviços civis começam a falhar, a história segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afectada pela doença que cega todos os outros.” Retirado da enciclopédia eletrônica Wikipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w iki/Ensaio_sobre_a_cegueir a> . acessado em 28

2 é

jun.2006


qualquer movimento meu desencadeia um movimento que vai molécula por molécula afetando tudo. Percebo que um devir-molecular pede um outro corpo, que até então eu não conhecia, um corpo sem órgãos, que nada reconhece e em nada se transforma senão em puro movimento. Renúncia dos sentidos. Esse espaço não obedece qualquer lógica material ou estrutural, os olhos que adormecem já não podem mais medir, identificar, localizar ou representar. E que outra natureza teria a arquitetura das nuvens? Lembro-me de ler alguma coisa sobre isso: “A perspectiva só conhece as coisas que pode reduzir a seus termos, que ocupam um lugar, cujo contorno pode ser definido por suas linhas. Mas o céu não ocupa um lugar, não tem medidas. As nuvens são ‘corpos sem superfície’, sem forma precisa, cujos limites se interpenetram. Escapando graças à fluidez de sua matéria, ao regime perspectivo, as nuvens criam um espaço volumoso, saturado.” (PEIXOTO, 1993 p.250)

Tudo nesse lugar é molecular, são moléculas espaciais, são moléculas sonoras, são moléculas corpóreas. Todas estranhamente conectadas por puro afeto. No entanto, nessa nuvem, esses afetos não se diferenciam, não trazem em si qualquer definição até que a força de uma linha os atravesse e os transforme em afecção: os precipite em gotas de chuva, em pedras de gelo ou raios de tempestade. Lembro-me de algumas palavras de Deleuze: “[...] mas o próprio imperceptível torna-se necessariamente percebido, ao mesmo tempo em que a percepção torna-se necessariamente molecular: chegar a buracos, microintervalos entre as matérias, cores e sons, onde se precipitam as linhas de fuga, linhas de mundo, linhas de transparência e secção.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.76)

Para além do corpo e dos sentidos sinto as minhas forças moleculares habitarem cada partícula dessa nuvem. Agora sim posso atingir a plenitude da dissolução. Corpo expandido. Toda a paisagem de fora, as ondas, o vento e o céu está em mim, pois eu mesmo sou feito de nuvem. Imóvel ali dentro, posso ser mais do que nunca cavaleiro da fé, clandestino e imóvel. Tenho pele de dobras transparentes e dobras de paisagens invisíveis. Corpo sem órgãos. Puras relações de velocidade e lentidão. Espinosa e o puro afeto. Bergson e a realidade em movimento. Segredos que se revelam. Como as nuvens nas pinturas renascentistas eu mesmo sou um eco de Deus sobre os homens. Sou feito de uma arquitetura de atmosfera. Tão rápido quanto os ventos que sopram as correntes marítimas, tão vulnerável quanto as estações do ano. Efêmero. Hecceidades em forma de nuvem, chuva ou granizo. Afeto de tempestade, furacão. E no fim de tudo uma liquidez volátil daquilo que sublima. Éter. Não quero mais voltar a ser. Já não me lembro de nada, pois os fios invisíveis de minha memória são os fios de uma memória de todas as coisas. A cegueira branca e leitosa não me incomoda mais, não sinto sede ou fome. Pois me alimento daquilo que sou feito. Bebo meu próprio corpo. Mais uma vaga lembrança da miragem. Daquilo que pode ser desvelado aos olhos que miram à paisagem. A etimologia decifra tudo: miragem, mirar. Do latim mirare: admirar-se, contemplar, digno de admiração, e do mesmo radical mira-culum: feito extraordinário que vai contra as leis da natureza; maravilha. Milagre. Para onde vou agora? Não sei. Tudo que sei e que por alguma hecceidade pude ser um eco de Deus. Devir? Miragem? Nuvem? Milagre?

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGSON, Henri. A Evolução Criadora. São Paulo: Matins Fontes, 2005. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível. Volume IV. Rio de Janeiro: Ed.34, 2004. DILLER, Elizabeth. Blur Building Yverdon-les-Bains, Swiss Expo. 02. Helft, 2005. NOVAK, Marcos. Transmitting Architecture: The Transphysical City. Novembro, 1996. Disponível em: <http://www.ctheory.net/articles.aspx?id=76>. Acessado em mar. 2006. PEIXOTO, Nelson Brissac . Paisagens urbanas. Editora Senac. São Paulo, 1996.

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WE FEEL FINE [http://www.wefeelfine.org]

DROPS

Por Mariana Biork

Seis Pilulas para olhos moribundos

Criado por Jonathan Harris e Sep Kamvar, o 'We Feel Fine'

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é um projeto de arte coletivo, que coleta e registra

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sentimentos humanos de um grande número de blogs, se interessando por frases com comessem com “I feel” ou “I am feeling” (“eu sinto” ou “eu estou sentindo” em tradução livre). Com uma interface lúdica, de grande poesia visual, que ao mesmo tempo oferece, através da interatividade, a interferência do espectador, cada ponto na tela representa o sentimento de uma pessoa e cada cor representa um tipo se sentimento diferente, tais como “feliz”, “triste”, etc. Nas palavras do co-criador Sep Kamvar “O projeto nos fez ver que as pessoas são muito mais parecidas do que diferentes, emocionalmente”. We Feel Fine é uma surpreendente experiência de como podemos entender nós, seres humanos, através dos meios de comunicação digitais contemporâneos.

100

METROS

DE

EXISTÊNCIA

[www.simonhoegsberg.com/we_are_all_gonna_die/slider.html]

Por Mariana Biork Ao longo de 20 dias, o fotografo dinamarquês Simon Hoegsberg fotografou as pessoas que passavam sempre a partir do mesmo ponto de observação, uma ponte ferroviária da estação Warschauer Starsse - em Berlim, durante o Verão de 2007. Simon capturou fotografias de um total de 178 pessoas em situações cotidianas, onde

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nem sempre percebiam estar sendo fotografadas. O

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resultado é uma grande fotografia com 100 metros de comprimento, onde é impossível não se deixar levar pela humanidade, afeto e espontaneidade de simples pessoas, que como nós, um dia vão morrer.

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Por Maria Júlia Barbieri Cristiano Mascaro é um dos principais fotógrafos de arquitetura do Brasil. Possuidor de um olhar singular sobre a cidade, Mascaró habita a fronteira imprecisa entre a luz e a sombra, revelando ao espectador belas imagens. Se “pensar é estar doente dos olhos”, Mascaró pensa com suas lentes precisas e nos faz sentir por breves momentos, congelados em suas fotografias, os afetos do mundo.

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CONDUZINDO

CEGOS

Algumas parábolas e outras incontinências do visual

+sobre o fotógrafo Evgen Bavcar por Elida Tessler Elida Tessler é artista plástica e professora doutora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de PósGraduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS

Texto cedido gentilmente pela autora.

http://elidatessler.com

Evgen Bavcar é uma daquelas pessoas que espera suas visitas com a porta aberta, desde que, é evidente, o encontro tenha sido marcado com antecedência. 0 visitante é que deve manejar bem os botões do código de entrada do prédio, passar pelo pátio interno, entrar finalmente no edifício, seguindo por corredores escuros e escadas em espiral. Um bom ritual de passagem, diria J.L.Borges, para quem a mitologia também foi excelente companheira, em seu lento processo de perda da visão. É ele quem nos diz que “imagens não passam de incontinências do visual”. Mas para quem conhece os ensaios e relatos de Walter Benjamin, sabe que este caminho

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bem que o interessaria, pois trata-se realmente de um mundo de passagens, onde luz e sombra fazem jogo permanente. Chegando ao segundo andar, somos subitamente lançados em uma área externa, um corredor sem teto nem paredes laterais, algo como uma ponte, de onde se pode avistar os avessos dos edifícios vizinhos. Mais uma vez, nossos amigos filósofos, incluindo obrigatoriamente Platão, acompanham-nos nesta jornada, onde o ato de ver e não ver abrem questões: a luz cega? As marcas do tempo, em múltiplas manchas e escorrimentos nas paredes, são desenhos incontinentes? 0 que pode querer dizer uma sombra,


quando a materialidade do mundo real impõe-se permanentemente? Nosso anfitrião espera-nos em seu apartamento, todavia há distância entre a porta e o lugar onde ele se encontra. Ele domina seus espaços. Nós não. Ele conduz: “por aqui, por favor, sente-se e fique à vontade.” Neste momento, são outros os nossos desejos, sendo que um deles é de que o tempo dê trégua, oferecendo assim uma chance para que a conversa se estabeleça sem pressa. Não quero delinear aqui nenhuma analogia leviana, porém a obviedade obriga a esclarecer a inversão de posições. Ali, em sua casa, nós é que somos os cegos, e suemos conduzidos em seu universo obscuro, pleno de objetos em aparente desordem, com pequenos espelhos espalhados por todos os lados, e o braille a nos dizer que a linguagem tem sempre um outro código possível, em infinitos suportes. Para Evgen Bavcar, fotografia é sobretudo uma escritura feita com a luz. Em seu trabalho, podemos perceber o quanto o verbo e a imagem entrelaçam-se oferecendo-nos, em estranha narrativa, suas memórias de eterna noite, onde sonho e realidade não têm mais nenhuma necessidade de distinção. Ao invés de fotógrafo, Bavcar desejaria ser chamado de “escritor da luz”. Em uma entrevista, certa vez declarou: “Eu tento fazer surgir objetos, imagens, a partir de um berço de trevas”.(1) Definindose como artista conceitual, afirma partir de uma pré-imagem, concebida em pensamento, antes de torná-la realidade visível. Desde meu encontro com ele, sinto-me então mais atenta aos preconceitos, mas sobretudo tomada por uma grande curiosidade a respeito da insistência dos artistas plásticos em indicar relações entre a cegueira e as artes visuais. Vejamos o que propuseram alguns deles e suas relações possíveis com as proposições de Bavcar.Louise Bourgeois apresenta, em 1949, um trabalho intitulado “Cegos conduzindo cegos”. Trata-se de uma escultura em madeira pintada, com dimensões de 171, 5 x 163, 5 x 41,5 cm. 0 que me chama a atenção desde a primeira mirada, é a necessidade de conjunção, de ligamento estrutural de quatorze bastões colocados em posição vertical, unidos entretanto por uma prancha horizontal, onde mais três ripas repousam (cegos cansados da caminhada insegura?). A polaridade longilínea entre as posições não é a única a nos inquietar. As madeiras foram pintadas em duas cores: vermelho e preto. Os bastões foram colocados lado a lado, formando pares (pernas?). A escultura, pela sua dimensão e material utilizado, deve ter um peso considerável. Mas há leveza nesta estrutura, tanto que ela caminha, às cegas. Pois quando a artista vem a comentar a sua obra, encontramos algumas palavras-chave como deslocamento, lacunas, movimento. Ela não toma o seu trabalho como escultura exposta em uma galeria. Ela se apropria do espaço de exposição como parte integrante de seu trabalho. 0 chão da galeria é o sob onde pisam os seus cegos. 0 espectador caminhará entre eles que têm, como se pode observar, dimensões humanas. Ela faz alusão, em seus depoimentos, que “Cegos conduzindo cegos” se refere aos homens velhos que a conduzem para o precipício. Diz também que o espectador deixa de ser um mero observador se puder colaborar: “0 deslocamento, a transformação de uma pessoa que é passiva, deprimida por uma crise de consciência, numa pessoa que se torna subitamente ativa - é a passagem da morte para a vida por meio do ato criativo.”(2) Durante as suas noites de insônia, Bourgeois também escreve e desenha em qualquer papel que encontre. 0 desenho cego faz parte da formação de todo artista e da produção de muitos que, para mim, são referências importantes, como Cy Tombly, por exemplo, que tinha como

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1

CARON, M. & TESSLER, E. “Uma câmara escura atrás de outra câmara escura”, Revista Porto Arte, no 17, v 9, Porto Alegre, Instituto de Artes UFRGS, 1990, p. 94

2

BOURGEOIS, L. Destruição do Pai, Reconstrução do Pai, São Paulo, Cosac &Naify, 2000 p. 105


método acordar-se no mão da nois e desenhar na penumbra de seu atelier. O filósofo francês Jacques Derrida nos oferece um amplo panorama de obras e de artistas que se interessaram pelo tema da cegueira. Configurou, assim, em 1990, uma belíssima exposição de desenhos e gravuras, todos oriundos das coleções do Louvre, e a chamou “Memórias de cegos - auto-retrato e outras ruínas”(3) . Ele nos diz, em seus textos do catálogo, aquilo que já sabemos: toda obra é um autoretrato. Mas para nossa surpresa, há também ali depoimentos que ultrapassam o grau de intimidade da relação entre escritor e leitor, quando ele deixa de lado a análise das obras ou a justificação de suas escolhas, para nos contar de seu método de produção de textos, quase sempre às cegas. Também em noites de insônia, na escuridão, as notas são tomadas em pequenos pedaços de papel, em uma quase-guaratuja, difícil de ser decifrada posteriormente.

3

DERRIDA, Jacques. Mémoires d’aveugles L’auto-portrait et autres ruines. Paris, Réunion des Musées Nationaux, 1990.

4

CARON, M. & TESSLER, E , op. cit p. 93

E Bruegel? Peter Bruegel, artista flamengo, é bastante reconhecido por suas pinturas que retratam um cotidiano de aldeias rurais e universo medieval, em pleno florescimento renascentista. Ali encontraremos o real e o fantástico, pleno de ironia e imagens oníricas. É dele a “Parábola dos Cegos” (1568), uma de suas obras mais conhecidas, A ela, fui remetida graças a Louise Bourgeás. Bruegel tem a necessidade de dizer algo acerca da crueldade da época ame à cegueira e à doença em geral. Ele incorpora ao tema a sua própria mensagem sob forma de parábola: quando os cegos são conduzidos por cegos todos caem no abismo. Tudo é diagonal nesta pintura. Nosso olhar cal em vertigem pás não há uma sustentação horizontal, não há verticais suficientes que sirvam de anteparo. Há, como em L. Bourgeios, os bastões, desta vez não como pernas mas como bengalas mesmo. Há também o sentido de ajuntamento, de necessidade de estar enganchado um no outro. Por vezes, uma bengala serve a dois cegos desde que um deles coloque sua mão sobre o ombro daquele que está a sua Vente. Repare: um cego 0 caiu no precipício Tudo mais é movimento em descendência. Creio que ele está próximo de Antoine Coypel e de seus estudos sobre o cego. É dele a pintura “Cristo curando os cegos de jerico” (1684), onde os homens não procuram uma coisa ou outra e sim uma mão segura. Eles imploram uma promessa de visão mas há quem pergunte: “um cego pode conduzir um outro cego? Não cairão em um buraco?” Mas quem são os cegos? Evgen Bavcar com suas fotografias e reflexões situa bem esta questão. Ele declara ser cego como os astrônomos dizendo: ‘eles apenas olham de maneira indireta. 0 que é que eles podem ver com seus próprios olhos?”. Bavcar nos fala da pequena extensão do olhar humano em relação as máquinas, e acrescenta: “É uma espécie de telescópio que eu utilizo para ver as estrelas, Todo mundo se utiliza do olhar do outro só que sobre outros planos sem se dar conta sempre. E como nunca pode se ver com os próprios olhos, somos todos um pouco cegos. Nós nos olhamos sempre com o olhar do outro, mesmo que seja aquele do espelho.”(4)

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Há muitos artistas que nos propõem espelhos. Cildo Meireles, por exemplo, nos oferece um Espelho Cego (1970). Nesta obra está colocada a questão do olhar pelo tocar, pelo tateamento, pela presença da mão como o olho do cego. Um espelho sem imagem. Vemos, porém, uma imagem digital (literalmente falando) feita com o dedo. Uma identidade legítima, contudo perdida para sempre, em multiplicidade de sobreposições como uma singular modelagem. Uma obra que somente os cegos podem realmente ver. O espelho é um objeto caro a Evgen Bavcar, que tem o hábito de usar um como broche na lapela, a fim de que seus interlocutores possam encontrar o retorno de seu olhar ao conversar com ele. Pois como um cego poderia fazê-lo melhor? Na casa do fotógrafo, encontramos espelhos dos mais diferentes formatos, colocados em vários locais não muito habituais. Na parede, em alturas diversas, nas prateleiras de livros, na cabeceira da cama. Neste último local, também podemos ver uma ou duas bonecas, com o rosto de borracha voltado para a parede. Afirma que somente ele, em sua intimidade absoluta, pode “ver” os olhos delas. Detalhes de sua maneira de viver que nos indicam que o seu pensamento está muito mais além do de um fotógrafo cego, como é geralmente classificado pelos que o conhecem a partir da mídia. Os espelhos também o ajudam a fazer com que seu interlocutor assuma um outro ponto de vista. Esther Woerdehoff (5) nos faz conhecer um fato elucidativo: um dia, uma senhora manifestou seu desejo de ser fotografada por Bavcar. Por quê alguém se preocuparia em se fazer bela para ser mirada por um homem que não vê? Bavcar então lhe pede que se aproxime de um dos inumeráveis espelhos de seu apartamento, se olhe e se enquadre ali. Pede também que o pegue pelas mãos, o conduzindo para diante da imagem. “Mostre-me a mulher que você reconhece no espelho!”. É a sua última demanda. Entre o “olhe-me” provocativo da mulher que se oferece como modelo e o “olha-te” irônico do fotógrafo, encontramos a justa medida das implicações contidas no complexo enredo de nossa perplexidade preconceituosa. Para Bavcar, o espelho captura tudo o que se dissipa nas sombras do nada. Por esta razão seu trabalho é como de todo artista sensível aos pontos cegos do olhar que acreditamos possuir. Suas imagens luminosas revelam, portanto, a escuridão de nossos olhares dogmáticos.

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5

WOERDEHOFF, E. “Evgen Bavcar: um portrait” in: BAVCAR, E. Inaccessible étoile. Un voyage dans le temps, Berne, Editions Benteli, 1996


TFG

O afeto desmedido '''''''''''''''e?[Sx':KQOUPS':UPSTP[g'

+ +

Trabalho final de graduação . 2012 . arquitetura

Ela nasceu pra mim, porque já de alguns anos a vinha sondando Eu não devia sair de mim que ainda se fazia cedo, mas já se dizia clara Percorri-a o quanto pude ou pelo que quis, mas como de contabilizar o afeto que tive Fui questionar, revidar, agredir de porquês e até quanto ia Foi.

Desde o início dava pra sentir a imensidão da arquitetura, tão sincronizada a arte, e sendo assim, legitimamente guiada pelas mãos e critérios de um de nós. Sempre pensei nela como uma forma de desenvolver algum sentimento ou crítica para o receptor desta obra de arte - o ser - e o exercício, pra mim, sempre se valeu dessas premissas. Mas, me questionando sobre a arquitetura atual e essa conseqüente receptividade, notei um precipício absurdo onde ninguém a recebe, muito menos reflete. Dispensou a pureza obrigada de razões e porque?

Mais.

Adormeceu os lápis afinados e as danças afiadas e porque?

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Abraçou da chuva e tirou o chão e porque? Quero chuva Quero chão, não ilusão Ataquei, como procurando nela e em mim um motivo que se valesse de muito sentir e só o que fiz foi guiar, domesticar alguns corpos pelas coisas que acredito. E não é só isso que a gente faz? Levar até as últimas certas críticas que passam ao léu pelas nossas cabeças? Tola eu de acreditar que para todos uma parede torta traria emoção, amplidão ou redenção. O afeto puro não ocorre para todos da mesma forma, mas depende exclusivamente desta ligação. E vale lembrar que ainda existem aqueles que nem tentam propor o sentimento, destes a arquitetura foge. Já de princípio, aliei a arquitetura a sentimentos, coisas humanas, não que ela seja um corpo, porque arquitetura é puro afeto. Ela não surge de quatro paredes como eu já pensei, na verdade ela nasce, sobrevive e se recicla através de potências produzidas pelo nosso encontro. Penso nela como o Sol,

outro. Flanando... Só assim pra diagnosticar, viver, tocar, chorar da delícia que é uma casa de avó, um pontilhão, a calçada e rua esburacada. Santo de casa num faz milagre só porque Dentro de casa não se faz milagre, arquitetos descalços, etc. - é a máxima da arquitetura e confirma o afeto, o apelo por este encontro. Os projetos sempre se basearam do meu inconformismo nas pessoas por não praticarem o entendimento de arte, assimilação do lugar em que vivem, experimentações corporais, essas coisas que somos loucos por fazer e só funcionam em termos. Hoje, viver num lugar salubre, diluir o espaço privado, noções de volumetria e funcionalidade, já estão estratificados em cada um de nós, e nem precisa arquitetar pra isso, este é fato, consumado. Esses elementos são como os pincéis para Van Gogh, O afeto é o encontro dos dedos com as cores, A potência das pinceladas sobre a tela, As paisagens, além do que se vê

"Eu sinto o sol sobre mim", ou então, "um raio de sol pousa sobre você": é uma afecção do seu corpo. O que é uma afecção do seu corpo? Não o sol, mas a ação do sol ou o efeito do sol sobre você. Em outros termos, um efeito, ou a ação que um corpo produz sobre

E deste ponto final . A arquitetura é maltratada, pois, não pertence somente ao estado de potência, aliás, ela deve ser concreta, permanente, eterna. Eu acredito que é justamente nessa lei, que o limite entre a arte e a arquitetura, racha. Foi daí que surgiu a tentativa de encarar a arquitetura como arte, de abrandar este apelo ao produto final, a valia pelo toque já que

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ensinaram a nos certezas apenas.

Quis um desmedida

circo

nutrirmos

de

de

alegria

Que me rodopiasse E assim viveria alegre, toda de mim E você? Quero um desmedidos

de

encontros

Que rodopia, se quer E que alegre ou triste não viveria Viver emos

Claro que a construção formal também traz vantagem das outras artes, afinal, somos mais intimamente ligados ao “receptor” e suas intenções, sonhos; ou deveríamos. A validade está então, em permear entre estes espaços virtuais que não nos conectam apenas, mas todos, numa rede de experimentações. Confio na arte. Ainda acredito na arquitetura. Através da arte podemos atentar os corpos a respostas nunca antes questionadas, ao desejo de se livrar da docilização a partir destes encontros. A diferença e a vantagem da arquitetura também está aí, não só no apontamento das questões, mas na contigüidade das ações. O que falta é humildade de promover espaços que se resolvem além de nossas mãos, este é o limite.


Veio que a arte aliada até poderia ser um veículo, um caminho mais tênue para um “buraco mais em baixo”, mais sugerido do que imposto, desde que atravessado por várias potências, por mim, por todos.

Uma perguntava muito Outra só de responder ou quietar Mas se uma é outra

O corpo dócil era como uma ferida mal curada que eu só fazia cutucar. Investiguei Espinosa, para conferir

Fico com todas E comigo, outra.

E que era o afeto E que eu era feto Que era eu, afeto

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Como um ser pode tomar outro no seu mundo, mas conservando ou respeitando as relações e o mundo próprios?

Pra alcançar o corpo Livre-se dele A anunciação mora no acaso E na recusa, na repulsa E engole

O inconformismo vira amor ao se colocar por fora. A transversalização aliou o que eu pedia ao que me cegava. A arte enfim, marchou na direção que devia e eu agora já não precisava propor sentimento pra ninguém, porque era um. A tradução disso é que eu obedeci ao meu desejo que não era parte de mim, apenas. Fiz de mim uma experimentação, que logo saiu e espacializou para um lugar de experimentação. Não fui eu quem pedi e calculei, fui encontro e desejo. Disso surgiu o Atol, que até poderia ser prótese se ele se resolvesse pra mim, mas pra que esse jogo de lá e cá? O Atol é puramente experimental, tanto pelo que ele abriga ou dissemina, a função é conseqüência, diferença ou repetição.

Trata-se de uma formação produzida da união de vários organismos que aglomeram e constituem um novo ecossistema para contribuir tanto interna quanto externamente. Ambiente que protege e desenvolve novas espécies através das bordas que

se fortalecem deste movimento. Abrigo e berçário de novas cabeças. Trabalhamos para acolher e disseminar criações, para fazer da arte um instrumento diário de expressão da vida. Vem de lá a mistura de obra e conteúdo, gente e consciência, experiência e inovação, prontas e integralmente acessíveis a todos. Clamamos pelo bem estar coletivo e que só através dele compreenderemos nosso papel. O atol se comprometerá a fortalecer estas potências e construir uma nova validade para si através do outro... De todos. Vivemos pela legítima sustentabilidade, pela graça do antigo no novo, reagindo por apelo e apego ambiental. Novos artifícios não precisam emergir para provar que o maior mecanismo somos nós, a verdadeira matéria-prima. Juntos, somos capazes de reciclar; mas especialmente de reabilitar todos os encontros. Nós mediaremos a matériaprima com a verdadeira arte da vida, nasce o Atol!.

centro cultural, a potência é maior, mas como promovê-lo por dentro e fora?

1. Atol é um centro cultural localizado na cidade de Votuporanga, fundado no ano de 2011 em paralelo e conseqüência do trabalho de conclusão de curso.

A causa, a incitação das relações possíveis através desta imersão guia-se pelo desejo que pode até ser inicialmente único, mas só se conclui pelo coletivo. Ela desmancha a barreira dos veículos/órgãos de transmissão do desejo para o encontro com o corpo que se dá tanto pela sensação intrauterina quanto extracorpórea. Pode tudo.

A melhor experiência foi perceber que o corpo não se mostra através do apelo, da busca inquietante, ele surge brando e de mil outras formas que se ligam e se aliam a nós. O mecanismo é simples, agora. Reuni as potências porque queria ver além, novamente. Ainda tentava me nutrir de arquitetura e relevâncias. Porque o Atol pra mim não é um

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As perguntas voltaram mais vivas do que nunca, agora muito bem direcionadas porque já sabia de um corpo e do meu. Busquei mecanismo de revelação de um nós, o estado de corpo, e de desejo que promovesse interação sem unir necessariamente, organismos (como na velha vida). O entendimento é particular, o inconformismo é único, mas a conseqüência é gloriosa e pública. Já que o organismo é veículo, o resultado era através dele e não por um elemento exterior. Houve o choque, queda, susto, engasgo, espasmo, espirro, contágio, abalo, sopro, tropeço, no buraco, que é furo, vala, cova, toca. Foi justamente do limite entre um organismo e uma arquitetura que essa promoção era bobagem pois não precisaria mais de duas espécies para revirar o órgão, mas, do corpo.


Sendo assim, o buraco surge de um lugar para se expressar e expandir em qualquer outro, o lugar é o mesmo veículo de transmissão que nosso órgãos, necessários para entrar no estado de corpo. Fiz um corte dentro do Atol mas ele quis se esticar até o mar, pela mesma ansiedade de se livrar das baias. Tracei então o avesso do Atol, percorrendo planícies em todo o hemisfério e por dentro inclusive, até encontrar outro lugar, as ilhas Maurício. Percorremos juntos Tubuai, Chile, Argentina, Paraguai, Brasil, Namíbia, botswana, África do Sul, Mozambique,Madagascar, Austrália, Nova Caledônia, Tonga. Groenlândia, Franz Josef, Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão, Emirados Árabes, Oman, Seicheles, Antártida. E entendi portanto, que eu poderia passar dias a desenhar um novo buraco, capaz de se virtualizar de 7 bilhões de maneiras diferentes de gente, e de bicho? E de planta? ... Assim como um ponto no globo, deveria derivar a geometria do buraco desse mesmo veículo transmissor, dessa inesgotável fonte de medidas e noções que é o órgão. Fui ao Homem de Vitruvio, ao Eixo de Excelência e ao Modulor sentado e colorido de Le Corbusier para confirmar, mais uma vez, que a desmedida do afeto se dá pela descontrução do próprio espaço. Então, desmedi o órgão para enfim, dimensionar a potência do afeto. 0,43, 1,13, 2,16, 4,32, , , , , E enfim, de fim mesmo, desmedi tudo que pude, para concluir que o buraco não serve apenas para experimentação do afeto, ele, é, puro afeto, pura potência. Ao nos encontrarmos, trocaremos 7 bilhões de experiências sim, mas ainda não é isso. Nós, diagnosticaremos o que somos e o que vivemos de mundo e de sonhos através dessa arquitetura. Arquitetura e corpo estão conectados, ambos transformam, e colam. Corpo é arquitetura e arquitetura é, de uma vez por todas, corpo.

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LEARN

SOMETHING

EVERYDAY

DROPS

[www.learnsomethingeveryday.co.uk]

Seis Pilulas para olhos moribundos

Por Mariana Biork

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Qual animal tem os maiores olhos do mundo? Qual o primeiro esporte a ser jogado na lua ? Quem vive mais, canhotos ou destros ?

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Partindo do conceito de que há sempre algo a aprender, um grupo de designers ingleses tiverem uma ideia inusitada : criar um site exclusivamente para curiosidades. Criado em Agosto de 2009 pelo estúdio de design Young, o site coloca curiosidades todos os dias dos mais diferentes assuntos. Com artes simples, frases curtas e de fácil entendimento, o LSED ganhou fãs por todo mundo. Uma legião de seguidores que os acompanhavam todos os dias a procura de algum conhecimento, seja ela útil ou não. A ideia deu tão certo que foram criadas camisetas, livro e até aplicativo para iPhone. Infelizmente, o site fez sua ultima postagem no dia 31 de Agosto, deixando saudades para os sedentos por informação, e uma duvida, será que as curiosidades do mundo acabaram ?

THE BURNING HOUSE [www.theburninghouse.com]

Por Mariana Biork

O projeto chamado The Burning House foi criado pelo fotógrafo Holden Robert. A pergunta que ele faz é: “Se sua casa estivesse queimando, o que levaria com você?”. Assim, as pessoas enviam para o fotógrafo suas imagens ilustrando os itens e um texto com a lista de todos eles. A ideia pode parecer um pouco sombria, mas nos faz refletir no que é realmente importante ao nosso redor. É um exercício interessante e que revela muito sobre as nossas prioridades. Se fossemos confrontados com um incêndio na nossa casa e tivéssemos que salvar apenas os objetos que nos são mais valiosos, que escolhas faríamos? Como ele mesmo colocou no blog em uma tradução livre “é um conflito entre o que é prático, valioso e emocional”.

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desenhar, as cores e sons desenvolvem-se como numa sinfonia sem fim, o tempo ganha novas conotações, outras possibilidades. No mundo mágico criado por Fábio Nikolaus e Kico Santos, um simples estacionamento de shopping vira um espetáculo de luzes e sons. O céu ganha novas cores, as ruas, sempre tão movimentadas, viram enormes palcos do cotidiano. Cada enquadramento, cada movimento de câmera apresenta essa

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potência da vida em nosso cotidiano, ganhando novas releituras e visões. Há de certa forma, um elogio à vida e seus personagens, uma aproximação afetiva de situações, objetos e seres da cidade com o nosso próprio pensar. Foi inspirado nessa beleza tão comum, porém tão despercebida a olhos desatentos, que a dupla de amigos criou o Cinema de Rua – pequeninos e instigantes objetos audiovisuais batizados também de Microdocumentários


urbanos, breves narrativas na metrópole. Trabalhando a anos na Prompt, os cineastas queriam ir além, em que pudessem desenvolver algo autoral, exibindo seus olhares e ideias. Considerados pelos mesmos como “caçadores de imagens comuns”, os amigos não tiveram dificuldades em encontrar mais pessoas que topassem essa empreitada. Sillas Gama, Jones Gama, Ricardo Tadashi e Beta Augusto completam o time que, com uma câmera na mão, criaram um diário audiovisual da cidade de São Paulo, com o projeto de 30 filmes em um mês, iniciado em Fevereiro de 2010. Nas palavras dos autores, o desafio foi criado para ser “uma forma de fazer a gente se lançar às ruas e produzir a todo custo”. O grupo capta a beleza do cotidiano sem medo de experimentar linguagens e narrativas. “A cidade nos bombardeia o tempo todo com uma quantidade imensa de informações. O que passamos a fazer foi começar a olhar as coisas que a cidade oferece”, diz os autores. O projeto de 30 filmes em um mês, já acabou. Mas os cineastas garantem: ainda há muito o que ver e produzir na maior metrópole do país. Ainda há muita beleza escondida entre sua gente e seus lugares mais inusitados.

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Alpendre: Gostaria de fazer algumas perguntas básicas a respeito do blog para a apresentação do trabalho. Como surgiu a idéia dos curtas, em que ano, de quem foi a iniciativa, como vocês trabalham, como escolhem os temas dos vídeos, suas inspirações e afins. Cinema de Rua: Tudo começou com um gavião empoleirado na antena de um prédio vizinho. AL: O que chamou a atenção de vocês nesta cena ? O que fez este pássaro se tornar o começo de tudo ? CR: Aquele gavião pousado na antena do prédio vizinho nos chamou a atenção por ser uma cena inusitada. Neste dia chovia forte e a ave parecia não se importar. Neste momento decidimos pegar a câmera e começar a filmar o gavião e aquela chuva torrencial que caia sobre os telhados das casas. Foi neste momento que percebemos uma beleza e uma poesia incrível que captávamos com a lente da câmera. Logo o material filmado entrou na ilha de edição e com uma trilha sonora se tornou um filme muito bonito que partiu de uma imagem comum do cotidiano. Percebemos que em nosso dia a dia e as paisagens urbanas tinham muito a

nos oferecer, só parar para olhar.

precisávamos

AL: O personagem principal de seus vídeos é a cidade de São Paulo. Suas belezas, seus problemas, sua gente.. Tudo visto com um olhar curioso, de alguém que vê a um passo à frente. Como vocês explicariam essa relação que criaram com a cidade ? CR: A cidade nos bombardeia o tempo todo com uma quantidade imensa de informação. Coisas pelas quais passamos todos os dias, vemos mas não olhamos. O que passamos a fazer foi começar a olhar as coisas que a cidade oferece a qualquer um que estiver disposto a sair da rotina viciante do dia a dia e reparar no chão que pisa e pelos prédios que passam. AL: E como acham que a cidade os vêem ? CR: Somos como caçadores de imagens comuns. Andamos o tempo todo atentos ao que está a nossa volta, filmamos e retornamos com esse olhar para o público que vive na cidade e não a vê. AL: Sem estratégias,

orçamentos, sem sem preparativos.

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Apenas uma câmera na mão e a vontade de fazer cinema. O que move essa paixão ? CR: Fomos encantados pelas novas tecnologias e pela facilidade de se expor um trabalho desse tipo ao público. A internet nos abriu portas e nos permitiu alcançar um grande número de espectadores mesmo sem grandes investimentos. É claro que para fazer um trabalho maior pretendemos recorrer aos meios tradicionais da produção de cinema no Brasil, mas enquanto isso, vamos treinando o nosso olhar e exercitando técnicas. Mas o melhor de tudo mesmo é ser livre para fazer e filmar o que quiser. AL: Foi esta paixão que os levaram a fazer 30 filmes em um mês. Como foi essa experiência ? CR: Percebemos que nunca conseguíamos fazer nada se ficássemos esperando um tempo livre, então criamos esta maratona de 30 filmes, assumimos o compromisso e corremos atrás para conseguir cumprir com propósito. Foi uma experiência incrível porque todos os dias tinha que ter um filme pronto para


colocar no ar. Então passamos a olhar tudo na cidade de forma diferente, tínhamos que extrair filmes do nosso cotidiano, ida e volta ao trabalho do almoço de tudo. Com certeza aprendemos muito com isso e passamos a ver coisas que jamais havíamos reparado antes. Um excelente exercício.

sempre fizemos, e participar de festivais. Já temos algumas ideias para roteiro, mas prematuras ainda, estamos conciliando este projeto com o nosso trabalho do dia a dia que não para. Enquanto isso as pequenas produções para o blog continuam, porém com um intervalo um pouco maior entre um filme e outro.

AL: Os brasileiros, em geral, não são acostumados com esse conceito de cinema. Apenas a poucos anos os curtas e documentários vêem sendo inseridos no repertório nacional. Qual a opinião de vocês a respeito disto ? Falta incentivo das entidades ou interesse da população?

obrigado pelo interesse Fábio e Kico. Cinema de Rua

CR: Eu acho que falta um pouco de incentivo sim, este mercado é bastante fechado, principalmente para novos diretores. Porém hoje em dia os recursos para a produção audiovisual estão cada vez mais acessíveis, e um grande número de pessoas estão passando a produzir, mesmo de forma independente. Assim novos diretores estão começando a aparecer com propostas novas no mercado. Esta abertura está trazendo uma nova safra de documentários e cinema cada vez mais interessantes e criativos. Talvez por esse motivo o interesse da população vem crescendo por esses tipos de filmes. AL: Qual a relação entre o projeto e o público ? Qual o grau de envolvimento das pessoas com os vídeos ? CR: As pessoas estão sempre muito presentes nos nossos filmes, elas estão dentro e fora da obra. Elas sugerem, comentam e participam, mesmo que indiretamente. A cidade é feita de pessoas, então nossos filmes são sobre elas, sobre a vida que levam e seu dia a dia. AL: O mercado de curtas metragem vem crescendo e se expandindo, principalmente em território internacional. Vocês tem planos, para, futuramente, explorarem o campo internacional de cinema ? CR: Infelizmente parece que um filme nacional ganha mais visibilidade aqui no Brasil depois que foi premiado em algum festival internacional, e felizmente existem vários festivais internacionais que estão em busca de novas produções. Acho que este é um caminho que nos interessa bastante e pretendemos sim explorar esta vertente. AL: O que podemos esperar do Cinema de Rua ? Quais os próximos projetos ? CR: Pretendemos realizar um curta-metragem de fcção e com isso buscar algum patrocínio para o projecto ou até mesmo produzir de forma independente como

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Autor: Gabriel Ferrari Nyari

Exposição de imagens fotográficas realizadas pelos alunos dos cursos de Comunicação Social e Arquitetura e Urbanismo sobre o tema Pensar é estar doente dos olhos.

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Autora: Marciana de Souza Nunes

Autora: Melina Maria de Souza Batista

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Autora: Amanda Paula Peres Sparapan

Autor: Eder JosĂŠ Fraioli Junior

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Autora: Ana Paula Matsushita Garcia

Autor: Elvis Renato dos Santos

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Autor: Douglas

Autor: Felipe Chiuchi Gonรงalves

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Autora: Fernanda Amorim Azevedo

Autor: Gustavo Henrique Nogueira

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Autora: Joyce Karla Ferreira Caris

Autor: Lohan Damiao Zigart

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Autora: Nayara Delamura

Autora: NĂ­via Cristina Lemos

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Autor: Rafael Williams Moraes

Autor: Robson Vieira de Carvalho

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Autor: Vagner Vicente Pereira

Autor: Vinicius Belmiro Escobar

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Sobre Programas e Necessidades

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Prof. Dr. Fernando Freitas Fuão. UFRGS.

Este artigo foi cedido gentilmente pelo Prof. Dr. Fernando Freitas Fuão, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. http://www.fernandofuao.arq. br

Os programas que o sistema produz são imbecilizantes. Ele opera através de programas e programações cujo objetivo é tornar o mundo inercial, repetitivo, igual, entorpecido. Homens criam programas e esses atuam diretamente sobre eles. Programas acabam gerando programas. Quando o arquiteto deixa de operar sobre os programas, abdica da possibilidade de atuar sobre o mundo. Ao priorizar a forma, acredita modelar, construir o mundo. Mas está só atuando na superfície do problema e não em sua essência.

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O mito do arquiteto é o de criador, e isto lhe corresponde também o de programador. Atua sobre a essência, no DNA do espaço. O arquiteto deve desprogramar a programação fornecida pelo sistema. O que é o sistema? É tudo aquilo que está na volta e te escraviza, entorpece, e na maioria das vezes é difícil de reconhecer graças a sua invisibilidade que opera com desejos e adições (vícios). O sistema produz e incorpora


programas que lhe são úteis. Entretanto alguns programas são tão eficientes, opostos, que jamais são incorporados pelo sistema. São rejeitados e se situam a margem. São constantemente lavados pela águas do esquecimento, e pouco se sabe deles. Programas são estruturas complexas do pensamento, operam com palavras, ideias e obviamente com necessidades. Programa de necessidades. Estão na ordem do desejo, produzem-se também ao acaso. Programas são resultado de uma visão sobre o mundo. Uma idealização que necessita organizar-se, constituir-se em programa, por mais simples que seja, para concretizar-se enquanto construção. Programas produzem novas dimensões, organizações, estruturas, fluxos. Os programas produzidos ou incorporados pelo sistema promovem a utilização irreflexiva de seus programas, como se fosse um jogo de peças prédeterminadas a serem encaixadas. Todo programa é lúdico. Resta saber contra quem você joga. O objetivo do sistema é produzir exércitos de arquitetos prontos a operarem seus programas. Programas não são exclusividade das máquinas.

Muito antes delas existirem, os programas já existiam. Vide Igreja Católicas, as seitas religiosas, Os Meninos de Deus. As pessoas acreditam que o mundo se circunscreve dentro do universo do programa. E este universo é limitado, mas as pessoas não sabem. Programas fazem lavagem cerebral em maior ou menor grau. Entretanto existem programas que combatem programas. São os desprogramadores.O objetivo do sistema é a permanência, e quando algo muda, trata de incorporá-lo como programa, numa nova versão aparentemente mais completa, mas completamente mais redundante. Os homens logo tratam de se adaptar e atualizar-se para essa nova versão, esse é o fluxo da novidade, da velocidade, do entorpecimento. Programa é projeto. Um envio. Um projétil com endereço e alvo certo. Sempre se destinam para alguém. O projeto é essencialmente programa no seu interior. Estrutura do pensamento. Programar é planejar, dispor previamente os elementos do evento, do empreendimento. O programa é mais importante que a forma gerada por esse programa. Programa sempre implica

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escolha, o isso ou aquilo, ou nem isso ou nem aquilo, ou ainda o isso e aquilo e aquele outro. E tudo o mais. O arquiteto que só pensa em forma ou função está condenado a ser escravo da própria modelagem estabelecida pelo sistema. Basta olhar na volta os tipos dos arquitetos que se tornam vitimas de suas crenças, com seus gêneros, seus ares, seus estilos, detalhes, sua afetação, sua roupa, seus trejeitos, vítimas de sua própria moda. O programa é revolucionário enquanto invenção, quando visa desestruturar o sistema, reconvertê-lo, mas só até o momento em que não é institucionalizado, incorporado pelo sistema. Institucionalização de programas quer dizer mercadoria, produto que beneficia as empresas e todos que se atravessam vendendo essa droga, esse lixo. É cópia sobre cópia, afirmação de uma falsa igualdade, é a falácia da democracia expresso na infinidade de escolhas que o programa propicia. O papel do arquiteto não só deve ser o de criar novos programas para relacionar com os antigos, mas também de operar e sabotar antigos


programas. Há programas para formação, para criação de arquitetos, veja-se as Faculdades e Escolas de Arquitetura, com seus programas de formação acadêmicos, mofados e embolorados. Mas os que ali estão algumas vezes reacionam. O sistema quer arquitetos programados, ou seja: que não se percebam enquanto programas. Por isso o ensino esteve sobre a tutela da Igreja por muitos séculos. A percepção da existência de “ser programa” faz parte de sua desprogramação. Entretanto isso não evita de operar com programas, gerando novos programas. Programar é estabelecer destinos. Viver a fatalidade. O Programa quando se torna programa se representa, formaliza, formata, edita, instrumentaliza, e aí o podemos reconhecer como tal. Acredita-se que Novos Programas devam gerar novos comportamentos, novos pensamentos, devam reinventar o mundo. A tendência do mundo é organizarse segundo programas, ou seja, estabelecer as regras do jogo, as regras do sistema, desde as coisas macros até as mais microscópicas, invisíveis. A programação do mundo não é algo recente, é tão antigo quanto o próprio homem. Entretanto com a informatização revelou-se com mais intensidade, e passou a desempenhar um papel importante

nas relações humanas. O que são programas? Programas são jogos de combinação com elementos claros e distintos. O jogo é uma atividade que tem um fim em si mesma. Programas são elaborados por funcionários, como disse Vilém Flusser. Estar programado é estar na programação, em dia com o sistema, atualizado, up to date. O que caracteriza um Programa é o mito da riqueza de suas possibilidades quase infinita. Não só os arquitetos, mas todos que se servem deles deveriam manipular os programas, em seu sentido destrutivo, olhar para dentro deles afim, usá-los para outros fins diferentes daqueles que foram programados, brincar com eles. Não jogar o jogo dos programas, não brincar com ele, mas buscar o lance novo, esgotar o programa fornecido questionálo, ignorá-lo, repropor, transformar em brincadeira. Uma programação para arquiteto dura em média cinco anos, mas pode levar mais tempo em alguns casos. Os mais capazes, as vezes, são os mais programáveis. Graças a essa modelagem, infelizmente, ele acredita que conhece e domina o processo, mas ao desconhecer o valor dos dados iniciais ele é totalmente dominado por ele. Ele se torna programa. Arquitetos programam não só volumes no espaço, lugares, lares, mas, sobretudo modos de vidas, e conseqüentemente vidas. O arquiteto é o primeiro funcionário do sistema, pois ele tem acesso a programação, ele é programador, o mais ingênuo e o mais temível ao mesmo tempo.

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MATERIAL WORLD

DROPS

[www.materialworld.com]

Seis Pilulas para olhos moribundos

Por Mariana Biork

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Projeto do fotógrafo David Welch intitulado Material Word, que fotografou pilhas e pilhas de diferentes objetos que segundo o próprio David são uma crítica a acumulação e consumismo no mundo. Com conceitos marxistas, as fotografias falam de materialidade e tem como objetivo incentivar o debate sobre o consumo e as formas pelas

quais

nos

sentimos

compelidos

a

consumir.

THE THOUGHT PROJECT Por Mariana Biork Mais um projeto do dinamarquês Simon Hoegsberg. Durante 3 meses, o fotógrafo parou 150 pessoas nas ruas de Londres e perguntou: “o que você está pensando ?” . É uma reflexão instigante e no mínimo criativa de como histórias comuns e honestas podem '

nos comover ao longo do dia, nos levando a

e)sK')s[WhsO' !U[`KZOg' ' '

outras dimensões do pensamento. Segundo as palavras do próprio Simon “Um projeto sobre os pensamentos que temos quando andamos sozinhos na rua”.

DROPS 50


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Revista Alpendre #2  

Pensar é estar doente dos olhos

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