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ANO V - Nº 188

FEIRA DE SANTANA-BAHIA, SEGUNDA-FEIRA, 30 DE JULHO DE 2018

Casa de Passagem para artistas itinerantes será primeira do Nordeste Ísis Moraes Realizar o sonho do pai cordelista, cantador, repentista. Sabiá Laranjeiras partiu em 2005, mas deixou para o filho, o produtor cultural, escritor e também cordelista Olliver Brasil, não só suas lições de vida e seu legado artístico, mas o desejo de ajudar o próximo e de difundir a cultura popular. O renomado artista tinha o desejo de construir um albergue, para hospedar os que, com poucos recursos e sem nenhum apoio, viajam pelo país para alegrar a rotina dos cidadãos comuns e subtraí-los do automatismo cotidiano. A morte precoce não permitiu que Sabiá iniciasse a construção do espaço, mas Olliver diz que o pai chegou a acolher dezenas de artistas na casa onde morava. “Meu pai teve a ideia de criar o albergue em 2003. Planejava construí-lo em um terreno dentro do sítio onde vivia. Desenhou a planta e chegou a fazer a demarcação do local onde ergueria a sede, mas, por falta de incentivo, teve que parar. No entanto, já vinha pondo em prática um embrião do projeto, albergando, na própria casa, mais de 40 artistas populares, oriundos de vários estados do Nordeste. Após a sua morte, o projeto ficou parado por dez anos, até que resolvi retomá-lo, em 2015”, lembra. Para concretizar o sonho do pai, Olliver Brasil e a esposa, Enny Olliver, venderam a casa onde moravam, compraram um terreno, localizado no Conjunto José Ronaldo de Carvalho, em Feira de Santana, e deram início à construção da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras, que será a primeira instituição do Nordeste a abrigar artistas itinerantes. “Em 2015, entrei em contato com a viúva dele, para saber se ela ainda tinha a planta e, felizmente, ela a havia guardado. Após conseguir esse desenho, renasceu toda a vontade de tomar conta do projeto, até por ser o único filho dele, dos nove, que é cordelista e cantador. Então, para mim, é uma honra dar sequência a essa ideia. Estamos seguindo o

projeto à risca”, ressalta. A iniciativa foi a forma que Olliver encontrou de não apenas perpetuar a memória do pai, mas de pôr em prática o traço mais valioso de sua personalidade: a capacidade de se solidarizar com as dificuldades e os sofrimentos dos outros. “Meu pai era um ‘Irmão Dulço’ (risos). Ele queria abraçar o mundo. Não aguentava ver uma pessoa na rua, precisando de ajuda, que se aproximava para perguntar o que era mais urgente. E se ele não pudesse fazer, tentava conseguir ajuda com algum amigo. Nem conhecia a pessoa, mas se solidarizava. E eu acabei herdando essa missão”, conta o produtor, que também tem por hábito abrigar os artistas que vêm de fora em sua residência particular. Segundo Olliver Brasil, o que movia o pai era o mesmo sentimento que o motiva: o amor, pelo ser humano, em primeiro lugar; e pela cultura popular, tão viva, mas ainda tão institucionalmente desvalorizada em Feira de Santana. “Essa cidade é um turbilhão. Está em ebulição constante. Por aqui passa gente de todas as partes do país, especialmente do Nordeste. É muito comum artistas da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará virem para cá, tangidos pela expectativa de que, aqui, é possível levantar uma grana fazendo trabalho de rua. E, de fato, é, porque o pessoal daqui acolhe. No entanto, essas pessoas não têm onde pernoitar sem gastar muito. Então, o camarada vem de fora, faz um trabalho lindo, mas acaba gastando mais da metade do que ganhou só com hospedagem e alimentação. A viagem quase não compensa”, lamenta. Sentindo na própria pele as dificuldades de se fazer arte sem qualquer apoio, já que também realiza trabalhos de rua, Olliver diz que uma experiência foi definitiva para impulsioná-lo a tocar o projeto sonhado por Sabiá. “Em 2013, fui a Montes Claros, em Minas Gerais, realizar um trabalho e tive o prazer de ser hospedado pelo artista e amigo Carlos Renier Azevedo, que tem um projeto bem parecido lá. Ele

Acervo pessoal do artista

“Nosso desejo é que a Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras seja uma casa de amigos para muitos artistas”, diz o produtor cultural Olliver Brasil acolhe tudo quanto é artista que passa pela cidade. E isso me emocionou muito. Foi uma peça fundamental nesse processo de reavivamento do sonho do meu pai. Quero dar sequência ao desejo dele, para que os artistas populares tenham mais oportunidades de ganhar o pão de cada dia, porque artista de rua sofre pra caramba”, constata. PERSISTÊNCIA Sem apoio governamental e sem incentivo de empresas privadas, até o momento, Olliver enfatiza que não tem sido fácil conseguir recursos para dar continuidade à construção, mas espera não precisar parar outra vez. “Começamos a levantar a sede em 2015, mas ainda falta muito. Inicialmente, construímos parte da residência, mas foi preciso dar uma parada, por falta de recursos. Ficamos um ano sem movimentar a obra. E, agora, retomamos o levante. A construção está 2,6 metros de altura. Isso com recursos próprios. Nossa expectativa, se tudo der certo, é fazer, já em agosto, nossa primeira virada cultural na área da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras. Estou construindo agora os dois primeiros compartimentos de quatros, que serão divididos em dois salões para

dormitórios, mais uma área para aulas e o escritório”, comenta, lembrando que ainda está tentando registrar a instituição, para obter o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) como Associação, processo demorado e difícil, em função da burocracia, mas essencial para a captação de recursos. O artista e produtor cultural diz que pensou em inscrever o projeto em algum edital de cultura, mas não conseguiu encontrar nada direcionado a esse tipo de iniciativa. A dificuldade não o fez desanimar. Ao contrário, instigou-o a utilizar uma das mais poderosas ferramentas contemporâneas a favor de seu sonho. “Usamos as redes sociais para agregar esforços. E cada vez mais pessoas estão nos apoiando. Amigos de São Paulo, Paraíba e de outros estados, além de artistas que já foram albergados por nós, estão se solidarizando e contribuindo como podem. Agora, eles inventaram uma vaquinha virtual. Mas tudo é muito difícil. Em dois meses, conseguimos apenas duas doações. No entanto, esse apoio nos dá forças para manter o foco. Nossa necessidade é gritante. É uma luta imensa, mas o sonho não pode parar. Vou buscar realizá-lo a vida toda”, afirma.

Olliver Brasil espera que os poderes públicos e a iniciativa privada também abracem o projeto, devido à importância dele para a perpetuação da cultura popular, tão fundamental no processo de formação de Feira de Santana e do próprio país. “Feira é uma mãe para os artistas populares, mas uma mãe que abraça na chuva, em função, justamente, dessa falta de apoio governamental. É preciso um olhar mais sensível para esse segmento. A arte popular está agonizando, mas não vai morrer. Enquanto tiver um artista de rua, ela vai sobreviver. Pode ser que a duras penas, mas não vai deixar de respirar jamais. Se os gestores, de todas as instâncias, tiverem um mínimo olhar possível, essa triste realidade pode mudar. Tantos milhões permanecem ociosos ou são mal investidos, então por que não apoiar projetos que tantos benefícios podem trazer para a população?”, questiona. Ele reconhece que parte da culpa é dos próprios artistas, que não apresentam projetos. “É preciso fazer nossa mea culpa. Não desenvolvemos projetos. E é importante uma maior conscientização por parte dos artistas populares. Digo por mim também. Tenho 12 livros e 64 cordéis publicados e meu material

é todo artesanal, desde o começo. A mesma coisa com os 30 CDs que gravei. Fiz tudo do meu bolso. Nunca procurei patrocinador. É um diferencial do meu trabalho, mas, ao mesmo tempo, me prejudica muito. Sei que outros artistas também trabalham assim, então também somos culpados. Precisamos buscar recursos, porque eles existem. Mas temos que apresentar projetos. Essa deficiência de editais voltados à cultura popular decorre disso também, não é apenas descaso governamental”, pondera. VACA MECÂNICA Um grande diferencial da Casa de Passagem Sabiá Laranjeiras é ir além do suporte aos artistas populares. Olliver e Enny também desejam dar ao projeto um importante foco social. “Nossa ideia é agregar também um trabalho de assistência a crianças em estado de desnutrição. Apelidamos esse projeto de Vaca Mecânica, porque visa a distribuição de leite de soja, pão integral e multimistura. Aparentemente, Feira de Santana não tem esse problema, mas tem sim. E ele é grave e complexo, porque, muitas vezes, está relacionado à maneira como uma pessoa se alimenta, e não necessariamente à fome. Às vezes, a


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Feira de Santana-Bahia, segunda-feira, 30 de julho de 2018 Acervo pessoal do artista

Quadrúpede Kleidir Ramil

O cordelista, cantador e repentista Sabiá Laranjeiras deixou um legado de amor pela cultura popular e pelo próximo, missão que o filho tenta continuar, sem ajuda institucional, até o momento, através da concretização do projeto sonhado por ele

criança até tem o que comer, mas não é bem nutrida, por causa da baixa qualidade da alimentação”, observa. Ele explica que o bairro onde a Associação será instalada é muito carente em diversos aspectos e que o problema da desnutrição é muito frequente. “No processo de triagem, já iniciado, encontramos 50 famílias com crianças de zero a oito anos em estado grave de desnutrição. Há meninos de oito anos com menos de 16 quilos. São famílias muito carentes, com pais desempregados, às vezes com pai ausente. Então, diante dessa realidade, minha esposa decidiu colocar em prática esse desejo de ajudar os mais necessitados, que nasceu a partir de um socorro pessoal”, conta. Olliver salienta que, em 1998, ele e a esposa viveram um grande drama familiar, em função de um problema de saúde que acometeu seu filho recém-nascido, levando-o a um estado crítico de desnutrição. “Ele ficou 60 dias sendo alimentado por meio de uma seringa, após o período de internação, que durou 40 dias. Foi um verdadeiro pesadelo. E, na época, tomamos conhecimento da existência de um complexo vitamínico feito pela Pastoral da Criança, que era a multimistura, uma farinha elaborada com 14 tipos de raízes e sementes, muito nutritiva. Uma nutricionista nos ensinou a preparar também o leite de soja, alimento bastante rico em nutrientes. Isso salvou a vida do nosso bebê, que hoje é um rapaz forte e saudável. Mas o vimos quase morto. Foi então que minha esposa botou na cabeça que um dia iria fazer esses alimentos para distribuir em bairros carentes. A oportunidade chegou. E acredito que essa união de projetos será muito benéfica para quem

mais precisa”, vislumbra. O lado social da iniciativa tem despertado o interesse da vizinhança. Cientes da importância de ambos os projetos, eles vêm ajudando o casal a tocá-los adiante. “Os vizinhos sentem-se movidos a ajudar. Quando compramos o terreno, o acesso até ele não existia. Escolhemos um lugar bem distanciado, pela questão do valor. E foi com a ajuda dos moradores que construímos cerca de 80 metros de rua, até a entrada do terreno. Foi uma iniciativa muito legal da população, que também será beneficiada com oficinas e outros eventos artísticos, aos quais terão acesso”, relata. MANUTENÇÃO Com relação à manutenção da Casa de Passagem, Olliver explica que a ideia é não gerar qualquer tipo de custo para os artistas. “Nada é mais gratificante do que ser acolhido por um amigo. É isso que queremos proporcionar. Nosso desejo é que a Casa Sabiá Laranjeiras seja uma casa de amigos para muitos artistas”, anseia. Por visar apenas a difusão cultural e a ajuda social, o apoio do empresariado, da sociedade e das entidades governamentais são tão imprescindíveis para essa iniciativa, na opinião de Carlos Renier, que também desenvolve um trabalho social com crianças e adolescentes em situação de risco. “Projetos como esse precisam de parcerias, tanto públicas quanto privadas, porque, além de ajudarem a preservar a cultura e a memória, dão uma grande contribuição social, que pode, inclusive, desdobrar-se em cursos profissionalizantes, como os que estamos tentando implantar em Minas. Olliver é meu amigo e meu mestre. Ele me acolheu em sua casa, em duas opor-

tunidades. Tenho certeza que fará um bom trabalho. Essa iniciativa vai ajudar todo o entorno. Então, é fundamental o apoio institucionalizado, porque, às vezes, só o espaço físico é pouco. É necessário levar o projeto às comunidades e criar polos difusores. Estou disposto a ajudar também. Estou esperando o CNPJ sair, para fazer mais por esse projeto importantíssimo”, garante. Algumas parcerias já estão sendo buscadas. Os mercados locais, por exemplo, já garantiram apoio através do fornecimento de suprimentos, segundo Olliver Brasil. “Os comerciantes do bairro prometeram ajudar com a alimentação, mas, futuramente, espero que consigamos outros patrocínios. Também vamos realizar exposições e vendas de livros, cordéis, CDs e de outros materiais doados pelos artistas. Esse recurso será para ajudar na manutenção da Casa”, almeja. De acordo com o artista, qualquer ajuda é bem-vinda. “Quem quiser ajudar o projeto (pessoas físicas ou jurídicas) pode fazer doações em dinheiro ou em materiais de construção, inclusive aterro, que é uma das nossas necessidades, nesse momento. Nosso contato via WhatsApp é (75) 99866-0753. Também mantemos o blog umseremmovimento.blogspot.com e a página Sertão Brasileiro, no Facebook, que já tem 274 mil seguidores. Além disso, é possível entrar em contato conosco através do perfil Olliver Brasil Poeta, também no Facebook. Se tudo der certo e conseguirmos mais apoio, iniciaremos o trabalho de albergar artistas já a partir de janeiro de 2019”, espera o produtor, para quem Sabiá era e continuará sendo “poesia viva circulando nas ruas de Feira de Santana”.

Há anos meus filhos insistiam com a ideia de termos um cachorro. Minha posição sempre foi clara: “Se entrar um animal nessa casa, eu saio”. Não é que eu não goste de animais, eu adoro. O problema é que não tenho tempo pra cuidar e filhos, você sabe como é. No início, tomam conta, saem pra passear, dão banho, comida. Com o tempo, abandonam as funções e aí... sobra pra quem? Pois bem. Certo dia, meus filhos resolveram testar minha intransigência, para saber se eu estava falando a verdade ou tudo não passava de um blefe. Foi assim. Fui chamado à sala, onde, me disseram, haveria uma surpresa. Não era meu aniversário, nem Dia dos Pais. Fiquei intrigado. O que será? Dei de cara com um filhote de Golden Retriever lindo, que sorriu pra mim como se eu fosse um pacote de ração. A coisa mais fofa do mundo. Confesso que contribuiu para minha simpatia instantânea o fato de o bichinho estar vestindo a camisa do Sport Club Internacional. Foi um golpe baixo dos moleques, apelar para meus sentimentos mais profundos. Mas numa hora dessas, eles são capazes de tudo. Claro que não saí de casa e, portanto, minha palavra caiu em descrédito. Desceu vários degraus na escala de valor, de autoridade, de algum respeito que eu ainda tinha no ambiente familiar. Cada vez mais estou me tornando um inútil dentro de casa, coisa que só não acontece definitivamente porque alguém tem que pagar as contas. Inclusive as do cachorro. Sim, porque esses bichinhos não comem resto de comida nem usam sabão grosso pra tomar banho. O xampu dele é mais caro do que o meu e o preço da ração desequilibrou completamente o orçamento doméstico. E mais: veterinário, vacinas, comprimidos, biscoitinhos, osso de plástico,

cama, tapete, coleira, spray pode-não-pode e até uma bolsa pra carregar a criança, quer dizer, o animal. Que eu carinhosamente comecei a chamar de Quadrúpede. Aí começou a fase predador. É a natureza do bicho, ele precisa se manifestar como os da sua raça. Estraçalhou um sofá da sala e a chaise long do quarto do meu filho, uma relíquia de família. Um carregador de laptop, um casaco de veludo e vários calçados. Dois ou três livros, um bolo de aniversário e o conjunto de cadeiras da sala de jantar. E ainda tem, é claro, aquela triste realidade para quem se aventura a criar um animal doméstico: ele faz cocô e xixi. E não sabe usar o banheiro. Minha esperança é que, no futuro, com o avanço da engenharia genética, resolvam esse problema. Por enquanto, neste início de século XXI, ainda temos que lidar com essa situação. E os filhos, você sabe, gostam do bônus, mas não querem o ônus. Um dia desabafei: “isso não é um Tamagochi!!! Alguém tem que limpar as porcarias desse cachorro!”. No acordo que tínhamos feito, eles seriam responsáveis pelo Quadrúpede. Inclusive, imaginei que seria um bom exercício de amadurecimento, uma forma de irem assumindo compromissos, entendendo o sentido da palavra responsabilidade. No primeiro fim de semana, minha filha decidiu viajar e o moleque queria ir a uma festa. Olharam pra mim e eu citei aquela antiga canção: “Nem Pensar!”. Minha mulher se apresentou como voluntária. Mãe é sempre cúmplice, por mais que os filhos aprontem. É da natureza feminina. Se assaltarem um banco, ela vai até encontrar uma justificativa. Pois bem, o Quadrúpede foi crescendo e ainda não tinha um nome oficial. Estava na hora de escolher. Fiz questão de participar, pois a experiência anterior tinha sido traumática: um pastor-alemão, fêmea, que minha mulher se apressou em batizar de Greta Garbo, para que, no futuro, eu não tentasse colocar como nome de uma filha. Puro ciúme. Não sei de onde ela tirou isso. Alguns amigos começa-

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ram a chamar o pequeno mamífero de Soja, uma referência à nossa família de vegetarianos. Vetei. Muita sibilância. Além de curto e direto, nome de cachorro tem que ser musical. Começaram a surgir as listas. Nomes extravagantes, como Neymar, Cão, Uésley, Bagavaguita, Jorge Afonso... Resolvemos estabelecer critérios. Chegamos a um consenso de que o nome deveria homenagear as artes brasileiras, ter uma certa altivez, carregar o sobrenome da família adotiva – no caso, nós – e da família biológica, do avô paterno Fender. Depois de muita conversa, chegou-se então ao nome de Dom José Pancetti Fender de Virgiliis Ramil, vulgo Zé. Gostei da decisão. O título honorífico traz certa pompa e ressalta o caráter de nossa nobreza familiar. Nobreza, no sentido figurado. Ao mesmo tempo, o apelido Zé não podia ser mais adequado. É, tipo assim, um vira lata, um cachorro de rua, como a música popular praticada por certos membros da família. Além de Quadrúpede, Zé tem sido chamado também por outros apelidos carinhosos como Zé Ruela, Bundão, Bicho Peludo, Momoso e Zezim. Recentemente, ganhou até mesmo um nome espiritual: Zé Zen. Em relação a mim, não se preocupe, estou sobrevivendo. E, não espalha, feliz da vida. Divulgação

*Kledir Ramil é cantor e compositor. Forma com seu irmão, desde 1980, a dupla Kleiton & Kledir. Como escritor, estreou em 2004, com o livro Tipo Assim. Posteriormente, lançou O Pai Invisível, Crônicas para ler na escola e Viagem a Par ou Ímpar (Editora Objetiva).

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Feira de Santana-Bahia, segunda-feira, 30 de julho de 2018

Mário Cravo:

um dos mais importantes escultores vivos do mundo

Reprodução

Valdomiro Santana

Aos 95 anos, o renomado artista plástico Mário Cravo continua produzindo, mas parte de sua obra está se degradando, por falta de manutenção pelos órgãos públicos computação gráfica. É também “barroco”, termo que, em sua visão estética, não designa o conceito de um estilo de época, mas concerne ao que lhe é subjetivo. E, por temperamento, mais dionisíaco do que apolíneo. A escultu-

Antonio Conselheiro. Mario Cravo Júnior. Madeira pintada. 386 x 192 x 105 cm, 1955

Este é o reconhecimento de estudiosos, críticos, artistas em geral e público dos quatro continentes onde já foi exposta sua obra, que, no Brasil e em vários países, integra acervos de museus como, entre os mais ricos e célebres, o de Arte Moderna de Nova Iorque e o Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. Carybé assim o descreveu, quando se conheceram: “O homem parecia um possesso: pedra, madeira, mármore, ferro, chumbo e cobre se transformavam em suas mãos; e essa vitalidade, essa força e alegria de trabalho nos contagiava”. Em 2017, ele comemorou 70 anos de exposições, aos 94 de idade. No dia 13 de abril de 2018, completou 95. Do trio que deu projeção mundial à Bahia — Jorge Amado, na literatura; Glauber Rocha, no cinema; e ele, na escultura –, só ele está vivo. Em seus 80 anos, em 2003, fiz uma reportagem-perfil para o jornal da Jornada Internacional de Cinema, organizada por Guido Araújo, e entrevistei-o para a Revista de Cultura da Bahia. Travesso, irreverente, brincalhão, afável. De raciocínio rápido e com frases volta e meia recheadas de palavrões. Contou “momentos mágicos” de sua formação, guardados na memória, desde a paixão da infância, a astronomia, até descobrir-se escultor. O contato com o barro do rio Itapicuru, a íntima convivência com o povo. “Sou um experimentalista”, denominou-se. Sua inquietação o levou a manipular os mais distintos materiais plásticos, os já há muito conhecidos, inclusive sucatas, além de fibras e resinas sintéticas. Familiarizar-se com cada um deles, para, “no corpo a corpo, ver o que vai sair”... Aprendeu e usa

ra, para Mário, só adquire grandeza específica quando respira livre nos espaços abertos, sob o sol e sob a chuva. Pois é esse artista extraordinário, a quem a Bahia e o Brasil tanto devem, que, nos últimos

anos, vem vivendo um período triste. É vergonhoso, por falta de manutenção e preservação pelos órgãos públicos, o estado em que se encontra o Espaço Mário Cravo, com centenas de esculturas estáveis e móveis, no Parque de Pituaçu, lado próximo à orla marítima de Salvador. Entretanto é lá, em seu ateliê-oficina, que ele continua trabalhando. Resiste. Porque a arte, como diz Gilles Deleuze, é a única coisa que resiste à morte, à opressão, à servidão, à vergonha. Reprodução

*Valdomiro Santana é psicólogo, jornalista, escritor, mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e editor da Uefs Editora.

Exumação Lúcio Autran Quando ouvi os ecos da FLIP, e só os ecos, não sou lá muito festeiro, percebi alguma estridência na volta de um martelar por uma “literatura política”, mas não dei importância, imaginei serem ecos da ebulição das ruas. Pensei que talvez uns e outros, mais exibidos, estariam querendo “surfar” nas ondas espontâneas que se formavam, outros me pareceram sinceros, e como todos, com dificuldades de entender o que se passa, eu inclusive. Entretanto, quando li, no caderno Prosa e Verso, de O Globo – essa prosa entre amigos –, a matéria sobre aqueles dias de Paraty, notei que se voltava, e a sério, a discutir a antiquíssima questão “arte política”, ou melhor, engajada, pois política toda manifestação de arte é, ainda que, involuntariamente, agora mal disfarçada de “politicamente correta”. Veio-me, então, à boca o pequeno travo que essa velha discussão sempre me causou, e que imaginava morta e enterrada. Mas não é que tentavam exumar o velho esqueleto? Com qual intuito? Afinal, o que vem a ser “arte política”? Ainda assim, a li, como leio qualquer matéria num sábado ocioso. Contudo me deparei com coisas como um comentário, entre outros, que dizia: “a arte pela arte não me diz nada”... Que frase tão comoventemente antiga! Só faltou falar em “torres de marfim”! Então o processo de exumação era à vera? Voltáramos ao início do século XX? Ou à década de 1960? Que magnífica viagem no tempo... Ora, então vamos lá, acompanhar a onda retrô: afinal, o que é “ser político em arte”? Quando um poema, um romance ou um quadro esfacela catarticamente as defesas do leitor, trazendo desconforto para sua poltrona, expondo seus lodos, sua escuridão, seus abismos, não estará sendo essencialmente político? Aristóteles, em sua Poética, já sabia disso. E Schiller, embora um pouco dife-

rentemente, também: “A jurisdição do palco começa onde finda o domínio das leis profanas. (...) quando nenhuma religião mais encontrar fé e cessar de existir qualquer lei, ainda então Medeia nos fará estremecer, descendo cambaleante as escadas do palácio, depois de ter consumado o infanticídio. Sempre que Lady Macbeth, essa medonha notívaga, lavar as suas mãos, clamando por todas as substâncias aromáticas da Arábia, a fim de eliminar o mau odor do assassinato, um horror salutar comoverá a humanidade, e à socapa, cada qual bendirá a sua boa consciência (...)”. (A Teoria da Tragédia). Lindo, não? Gostaria imensamente que me respondessem: o que é mais eficaz, do ponto de vista político – sim, político –, desconsiderando, momentaneamente, que político, repita-se, todas as manifestações artísticas o são? O chatíssimo A Mãe, de Gorki, ou termos surrupiado nosso conforto, e quase reconhecer que matar uma terrível velha usurária e esconder seu corpo num armário poderia ser justificável, fazendo-nos descobrir em nós o assassino que nunca nos supuséramos (Crime e Castigo, de Dostoievski)? E, responda rápido, para não ficarmos apenas no romance russo: entre qualquer subliteratura “politicamente correta” e a ambiguidade hermafrodita do herói, em Diadorim, ou mesmo não sabermos se a terceira margem do rio é a morte ou a loucura (conclusão inapropriável, logo, por cada um de nós e nossas fraquezas – circunstâncias ortegueanas – livremente apropriada), o que é mais efetivamente transformador? Se subverte até nosso território mais desconhecido, claro que ficará inalcançável para supostas “forças do poder”. Simples assim. Não estou dizendo que não exista uma arte “política” (no sentido que querem emprestar ao termo) de qualidade, Os Comedores de Batatas, de Van Gogh, confirma isso, mas As Meninas, de Velásquez, também é virulentamente político, embora isso não seja per-

ceptível numa primeira mirada, e longe, muito longe de “engajado”. O problema é estético. Sem isso, será melhor fazer outra coisa, quem sabe um discurso? Uma boa causa não salva um mau poema. E bem sei que a frase é antiga, mas fazer o quê? O assunto também é. Aliás, o melhor Maiakovski é lírico (Lili Brik), ou quando disse que o poeta deveria preceder o tempo na fantasia, de modo a fazer de um dia um século. Mais lírico, improvável, mais revolucionário? Inútil... O problema da literatura, e de qualquer outra forma de arte, “engajada” ou “politicamente correta” (prefiro chamá-la funcionalista), é que acaba falando para o próprio umbigo e para os umbigos circundantes, que concordarão, ou não, a depender da camisa que vestem. Sua única utilidade (não era isso que pretendiam?) é aplacar a culpa de quem a produz. Ou servir de ponte para ditaduras que acabarão por encarcerar aqueles que a ajudaram a encastelar-se, ou, não sei se pior, empobrecer, eis que medíocres, aquele processo que se afigurava rico. Ora, querem fazer literatura política? Simples: façam boa literatura! Reprodução

* Natural do Rio de Janeiro, Lúcio Autran é formado em Arquitetura e em Direito. Poeta, escritor e ensaísta, tem diversos livros publicados, dentre eles: O Piloto Anônimo (Global Editora, 1985); Um Nome (Editora Taurus/Timbre, 1987); Centro (Livraria Editora Francisco Alves, 1999); Fragmentos do Sonho e Outros Ciclos Menores (Editora Bookess, 2012); Fragmentos de um Exílio Voluntário (Editora Bookess, 2016); e A árvore Polegata, Poesias (Editora Bookess, 2013).


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Feira de Santana-Bahia, segunda-feira, 30 de julho de 2018

Fotos: Ísis Moraes

é verdade: os peixes não fecham os olhos mas afogam de memória a solidão do mar (no fundo todo mar é negro feito de água sal e solidão) eu fecho os olhos até para o inimigo e sinto no vento da noite a aspereza de um canto (há um beco antigo e escuro em que continuo morrendo há décadas) a cidade velha em que habito há de um dia mergulhar no mar esse negro mar repleto de olhos abertos (Carlos Moreira)

* Carlos Moreira é poeta e compositor. Tem poemas publicados na Revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); Revista Germina; Revista Expressões; e Revista Blecaute. É autor de roteiros poéticos para filmes, com Jurandir Costa e Fernanda Kopanakis, entre eles os premiados Nada é Longe e Quilombage. Esteve à frente do grupo Klan, de performance poética, e dos grupos musicais Odisseia e Caixa de Silêncio. É parceiro também dos músicos Júlio Rangel e André Maria, no projeto Idílio Moderno. Tem diversos livros publicados, a exemplo de Corpo aberto, pela Editora Patuá; Evangelho Segundo Ninguém e Duas Palavras, pela Edufro; Tetralogia do Nada, pelo Clube dos Autores; e, recentemente, Cardume, pela Editora Valer. Publicou também Viagem de Cores e Sonhos, comemorando uma década de Festcineamazônia.

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