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FICHA TÉCNICA Edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro) Título: Ver o Olhar Autora: Paula de Brito Lourenço Capa: Jorge Rodrigues Arranjo de Capa: Patrícia Andrade Paginação: Nuno Almeida 1ª Edição Lisboa, Abril, 2014 ISBN: 978-989-8678-57-7 Depósito Legal: 371761/14 © Paula de Brito Lourenço PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO:

Av. Roma nº11 1º Dtº 1000-261 Lisboa www.sitiodolivro.pt

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ra uma vez... Quero começar o meu conto com era uma vez... É a frase que me leva à meninice, onde tudo era possível, porque havia um livro inteirinho para escrever... Agrada-me a ideia do vazio com a possibilidade de preencher como me dá na real gana. Depois das primeiras páginas escritas, há muita coisa que é difícil de mudar, e com o virar da página vem o comodismo... Esse, sim, é o grande inimigo da mudança. Quando digo Era uma vez... Sinto um grande braço a abraçar-me a barriga, a puxar-me para trás com tanta força, que quase sinto o vento no rosto... é a força da recordação. Assim, começo: Era uma vez uma mulher... chamada Ana Rita, com 38 anos, solteira e bancária. Profissionalmente procurava o sucesso sem nunca o achar, porque não conhecia o caminho, esse penoso trilho que é o trabalho. Sempre era mais fácil acreditar nas crendices de quem nasce com a estrela é que tem sorte, só assim se será alguém. Não tinha força suficiente para fazer a sua boa sorte e lutar, para se satisfazer profissionalmente. Estudar e aproveitar o tempo a instruir-se para, finalmente, ser uma mulher satisfeita. Estávamos no ano de 2006 e Ana Rita era o retrato da sociedade feminina da época. Cabelo loiro, pintado, muito curto. Perdia um tempo indescritível a despenteá-lo. Sim, despenteá-lo, era essa a ordem que ditava a moda. Não saía de casa sem maquilhagem, pouca, diga-se em abono da ver7

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dade. Muito magra, porque passava muita, muita fome para emagrecer... Ou muito gorda, muito gorda, porque comia caixas de bombons numa só noite de solidão. De estatura baixa, usava uns saltos muito altos para compensar. Aliás, tudo na vida desta mulher era para compensar, quase nada estava como ela queria... só estava bem onde não estava e assim, nunca estava no lugar certo. Os olhos amendoados, esverdeados, traziam lá do fundo um raio de esperança... Vivia sozinha há dez anos e tinha um namorado há tanto tempo que perdera a conta. Chamava-se Tiago. Alimentava o namoro como uma criança, porque só ele tinha a capacidade de a fazer sentir-se bem, porque sentia-o feliz. Sentia-se segura porque sabia que sempre que se separavam, ele regressava melhor. Jurava a pés juntos que não queria casar... no entanto, não compreendia o porquê do constante sonho que a perseguia: Entrava na Igreja, pelo braço de um homem estranho, vestida de noiva e sorria... Sorria tanto no sonho que chegava a pensar que teria emprestado o seu corpo a outra alma... não parecia ela, mas era... Enfim, era tudo muito confuso. Tinha uma certeza: queria ser mãe. Mas já há alguns anos que tentava engravidar, mas sem sucesso. Claro que seria uma gravidez só dela... o Tiago não era visto nem achado... porque ela era uma mulher independente! Ana Rita recordava o início do namoro. Ainda Tiago estava na faculdade quando ela o acompanhara a uma festa. Logo que acabaram de entrar, ele «colara-se» a uma rapariga loira, que não era muito bonita, mas era vistosa. O raio da rapariga fazia com que todos a olhassem, desde homens a mulheres. Ana sentia-se tão pequenina… eram todos mais velhos do que ela, não conhecia ninguém e o Tiago abandonara-a completamente. Encostara-se a um candeeiro de pé e rezava para que a confundissem com o mesmo. Sentia-se tão mal vestida, sentia-se tão mal em todos os aspectos. 8

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De repente, um rapaz, o Filipe, aproximara-se com um copo na mão. Falara-lhe como se há muito se conhecessem: – Não bebes nada? – Não, obrigada. A verdade é que lhe apetecia beber qualquer coisa, mas tinha medo de mostrar as mãos trémulas. Então, ele continuou. – Não estás a estudar Direito? – Não, não. Sou amiga do Tiago. – Ah... sei quem é. Temos algumas cadeiras juntos. Eu sou de Lisboa e estou cá há dois meses. Ainda me ando a ambientar... Ana Rita sentiu-se mais segura. Afinal Filipe também se sentia deslocado. Havia qualquer coisa naquele rapaz que lhe transmitia segurança e ela, na inocência da idade, não conhecia aquele sentimento. Quando somos jovens, a amizade é muitas vezes confundida com o amor. – Se não estivesses com o Tiago... convidava-te para irmos a algum lado... – Não seja por isso, achas que estou com o Tiago? Onde é que ele está? Ana Rita espreitava os bolsos das calças de ganga... ironizando. Se estivesse com o namorado, ele estaria junto dela e não estaria babando junto de uma loira exibicionista. Dava Graças a Deus por poder sair daquela festa e, sem que o Tiago sentisse a sua falta, saíram. Como Filipe não conhecia a cidade do Porto, ela levou-a para a Foz do Douro e tomaram um café numa esplanada junto ao mar. Ana Rita já nem se sentia nervosa e, curiosamente, até se sentia bonita. Filipe fazia sentir-se especial, e estava a dar-lhe um certo gozo ter deixado o Tiago na festa, sem o avisar. Como o rapaz se sentia sozinho, convidou-a para jantar. Vivia num apartamento que partilhava com um colega, no centro da cidade. Ela 9

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aceitou, com a condição de poder retribuir o jantar na sua casa. Explicou-lhe que vivia com a Avó paterna, que não tinha pais. O rapaz mostrou o seu lado emotivo, era uma pena, porque para ele os pais eram todo o seu mundo. Enquanto faziam o jantar, riram, ouviram música, dançaram e rodopiaram, até que Ana Rita ficou tonta e deixou-se cair no sofá. Filipe sentou-se ao seu lado e fez-lhe um miminho no rosto. Ela estava tão carente que consentiu e aproximou os lábios junto dos dele e beijaramse apaixonadamente. Porém o beijo do Tiago amargava o de Filipe. Ela um pouco tonta, pela bebida e pela dança, levantou-se num impulso. Ele apressou-se a pedir-lhe desculpa. – Não volta a acontecer, desculpa, eu não me quero envolver com ninguém no Porto. Tenho os estudos... – E tens alguém em Lisboa? – perguntou Ana Rita, alterando a voz, para apanhá-lo desprevenido, exigindo a verdade. – Sim, é verdade. Tenho uma namorada. Não quero confusões. Ana Rita sentiu-se ridícula. Ele era um rapaz tão bonito, alto, corpo atlético, moreno, cabelo negro encaracolado dando-lhe um ar de surfista. Ele nunca se interessaria por ela. – Que raio de maneira de viver... quem me dera ter vivido na época dos meus pais. Agora esta mania de fazerem a separação do sexo e do amor. Nunca se sabe se querem só sexo, se esperam que chegue o amor... se querem ficar, se querem namorar. Se querem compromisso, se querem só curtir... Talvez por ser educada pela Avó, tinha muita dificuldade em se adaptar a esta mentalidade, mas sabia que tinha de fazer parte desta sociedade, porque era a sua geração. Saiu apressada do apartamento do Filipe, mas o rapaz não se fez de rogado e, no dia seguinte, telefonou-lhe, confirmando o jantar na casa dela. 10

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Respondeu-lhe que sim, não fosse ele pensar que estaria a dar grande importância ao beijo. Pediu à Avó para caprichar no jantar, não sendo com sacrifício que ela o fez, pois não simpatizava com a amizade colorida da neta com o Tiago. Na hora marcada, lá chegou o Filipe com uma caixa de bombons, os quais entregou à Avó, D. Glória, agradecendo o jantar. O serão foi passado a recordar a infância da Ana Rita, o rapaz a lembrar a saudade da comida da mãe, do abraço do pai, das diabruras do irmão mais novo do que ele, com apenas dezoito meses... No final da noite, Filipe encostou-se à porta, estendeu-lhe a mão e assim ficou alguns segundos, acariciando-a. A rapariga olhava os lábios carnudos, os quais lhe apetecia morder... mas, de novo, vinha à memória o Tiago. Além do mais, o Filipe tinha namorada, não podia esquecer-se. Beijou-o no rosto, abrindo a porta da rua. Nas escadas estava Tiago, sentado, com o rosto encaixado entre os joelhos. Os dois entreolharam-se, admirados. – Por cá? – disse-lhe Ana Rita com a voz de quem triunfara. O rapaz levantou-se e, sem esconder o ciúme que o consumia, gritou: – Não perdeste tempo, oh palhaço! Filipe não respondeu, desceu as escadas calmamente, desviando-se do Tiago. Este, ainda mais zangado, agarrou-lhe o braço: –Então, não respondes, palhaço? – Não entendo porque é que me chamas palhaço. Sinceramente não me ofende, mas não sou palhaço, não estou a fingir nada. Tu é que pareces estar a representar. Se queres namorar com a Ana Rita, porque é que não lhe pedes para namorar? – Mas ela é minha namorada. – É? Então porque é que te metes com todas as miúdas que te passam pela frente? 11

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Ana Rita interrompeu: – Ei, ei, ei! Calminha, eu estou aqui. Esqueceram-se que eu estou aqui? Sou pequenina, mas ainda me vêem, não? Tiago, não sejas parvo, nós não somos namorados. Curtimos, nada mais. Não é assim que costumas dizer? O rapaz ficou um pouco embaraçado... – Ok, mas curtimos com respeito. Tu abandonaste-me numa festa e trazes este gajo para jantar em tua casa? – Eu saí da festa... tu viste-me a sair? Tu estavas comigo nessa festa? Ontem, depois da festa porque é que não me procuraste? Hoje, porque é que só me procuras à noite? Só agora é que sentiste a minha falta? O Filipe foi distanciando-se do casal, a passos curtos… já longe gritou: – Eu quero ser o padrinho... vejam se se entendem. Ana Rita sentou-se na escada de pedra e Tiago acompanhou-a. Ficaram em silêncio durante algum tempo. O rapaz começou, lentamente, a encostar o seu joelho no joelho dela. Olhou-a e sorriu. – Estou com ciúmes. Ambos deram uma gargalhada. – Queres namorar comigo? – perguntou-lhe Ana Rita. – Estava a ver que não perguntavas – respondeu-lhe Tiago, sorrindo. Beijaram-se longamente. A partir desse momento, nunca mais deixaram de partilhar a vida. Apesar de terem passado mais de quinze anos, Ana Rita nunca esqueceu o Filipe e, às vezes, dava consigo a pensar que seria bom reencontrá-lo ou, se calhar, era melhor não... tinha medo que lhe despertasse sentimentos que não conhecia. Lembrava-o como um perfume de um ramo de flores agrestes e uma caixa de naftalina. Ele simbolizou a sua coragem em mexer na sua relação, mas deixou-a comodamente no seu passado. Num misto de mulher independente e de mulher dependente de 12

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uma família, tentava acompanhar os tempos... a sociedade dos solitários. A sociedade das depressões. A sociedade das doenças mentais, da competitividade, do consumo desenfreado. Onde não se olha a meios para ter a tal qualidade de vida, a qualidade que o dinheiro dá, só essa...onde as pessoas se endividam para comprar um carro, um computador, um telemóvel ou para passarem férias no Brasil. Onde as pessoas comem «comida de plástico» porque não têm tempo para cozinhar, não têm paciência, não têm gosto... e depois de tanto correrem, adoecem... adoecem mentalmente e ficam deprimidos, porque não conseguem enxergar a vida real, porque passaram horas a ver telenovelas, onde todos os brasileiros têm um bolo, diariamente, ao pequeno-almoço. Lêem revistas onde todas as mulheres são loiras, com longos cabelos, onde todas são magras, onde todas vestem as roupas xpto. As luzes, as festas, as músicas e o brilho que, no final da noite não passam da escuridão, onde não há nada. Onde, para esquecer o mundo vazio, oco, podre de esquemas e de miséria humana, se servem de um copo de uísque ou fumam um charro. Onde não há um amigo em quem confiar porque, do outro lado, há sempre uma segunda intenção... Ana Rita vivia no mesmo prédio há já dez anos e não sabia o nome da mulher que vivia ao lado. Cruzavam-se, cumprimentavam-se e, como estranhas que eram, partilhavam apenas a mesma morada e o mesmo número da porta do prédio. Ana Rita sentia-se muito «normal» quando saía de casa a correr e entrava no carro, conduzia a grande velocidade... e tudo sem necessidade. Comia de pé, comprava comida pré-cozinhada, enviava e-mails, em vez de telefonar aos amigos... Não tinha tempo para apreciar o pequeno-almoço sentada, para ouvir as notícias do dia e reflectir por si. Não conseguia desfrutar da viagem até ao emprego. Não tinha tempo de conhecer e, se calhar, de 13

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ajudar o colega de trabalho. Não tinha tempo de ter o prazer de cozinhar, de inventar um prato novo, não tinha tempo de ouvir uma voz familiar... Não tinha tempo... não tinha tempo para viver. Mas, afinal, o que estaria aqui, neste planeta, a fazer? Mais uma vez, apressada, como não podia deixar de ser, entrou na casa da Avó Glória e dirigiu-se ao roupeiro do quarto grande. Tantas vezes ali tinha entrado e sempre ouvia a voz doce da D. Glória: Olá, querida, vens visitar a tua avó? Linda menina. Contudo, agora, o silêncio era tanto que lhe queimava os ouvidos. Conseguia ouvir o engolir da sua própria saliva. Era tão estranho e era tão doloroso... Já várias vezes lhe ocorrera que chegaria o dia em que só a ela lhe competia a dura tarefa... mas, pensava sempre que seria um dia... um dia... nunca o Hoje, nunca o Amanhã. Mesmo com o decorrer da doença da Avó, sempre teve esperança que ela ultrapassaria o sofrimento, que não passaria apenas de uma fase. Uma fase longa, mas que chegaria ao fim. Nunca este fim... mas um fim feliz. Até tinha pensado em levá-la a Tenerife, para ambas passarem umas férias bem merecidas, depois do sofrimento. Não esperava que o sofrimento tivesse este fim: a morte. Ali estava a caixa de papelão branco, onde a Avó guardava a roupa para o seu próprio funeral. Passou as mãos sobre o vestido de seda preta, mimando-o como se de uma relíquia se tratasse. Estava perfumado com uma colónia fresca. Curiosamente, não era o perfume habitual que a Avó usava. Talvez ela quisesse apresentar-se a Deus com um aroma novo, ou não queria que a reconhecessem naquele corpo inerte – realmente seria doloroso e confuso despedir-se do seu corpo perfumado a vida. Cada situação merece uma roupa adequada e porque não um perfume adequado? 14

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Encostou-o ao rosto e, sem conseguir conter o grito que há tanto calava, gritou, gritou como se o seu mundo tivesse desmoronado. A morte não era o fim, mas sim o princípio do sofrimento. Junto estava o lenço de renda fina, para lhe cobrir o rosto, mas também havia um envelope amarelado, talvez pelo tempo: Para a minha neta, Ana Rita. Nervosa, abriu-o e leu: Querida neta, Se estás a ler esta carta, é sinal de que aqui não estou... Espero que a data de hoje seja daqui a muitos e muitos anos... porque eu gosto de viver. Começo a pensar que não faço a mínima ideia como vou morrer, em que dia, a que horas... será que vou ter tempo de deixar tudo organizado? Casa limpa, contas saldadas, abraços distribuídos... Se calhar não te beijei as vezes que gostaria, porque, por mim, estaria sempre a beijar-te a todo o momento. Amo-te muito, minha neta. Sei que também te sou querida e que corro o risco de deixares de me amar – não estarei cá para ver. Tudo o que fiz foi por amor: é assim que as pessoas justificam os actos, muitas vezes, pouco dignos. Eu não justifico, apenas narro, porque não me agrada a ideia de partir e de ninguém me ter conhecido. Deixo-te, no cofre, cuja chave está na última gaveta da cómoda do meu quarto, um livrinho. Não sei se é um livrinho, se calhar é um amontoado de folhas que narram a minha vida. Quero que alguém me conheça. Só quem eu amei de verdade deve conhecer-me. 15

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Só me entrego a quem eu amo. Comecei a escrever há pouco tempo sobre a minha vida. Não quero correr o risco de que alguém o leia, senão tu. Quanto mais tarde o fizer, menos hipóteses existem, no entanto, tenho receio de partir e de não conseguir acabar. Por isso, neste momento, gozo de perfeita saúde, e já o escrevi. Querida, vive a vida da melhor maneira possível. Nos momentos de desespero, lembra-te que amanhã é um novo dia; a vida tem muitas fases. Nem sempre é boa e nem sempre é má. Quando estiveres feliz, aproveita da melhor maneira e pensa que, no dia seguinte, as coisas podem ser diferentes. Não te posso pedir perdão, não me arrependo do que fiz. Se te causei algum mal, foi porque me limitei a viver e a procurar a felicidade. Serás sempre muito amada. Tua avó Glória. Minha querida Avó, sempre foi uma Santa... que mal me poderá ter causado?, pensou Ana Rita.

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II

O funeral da avó Glória

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na Rita fixava o olhar no aquecedor, eléctrico, encostado à parede de pedra. Será que está desligado? Com toda a certeza, caso contrário não estaria tanto frio. Levantou-se com as pernas trémulas e, surpreendentemente, o aquecedor estava ligado: no máximo da temperatura. Voltou a sentar-se, baixou o rosto e fixou os olhos nas mãos. Arrependo-me de não usar hidratante nas mãos... estão secas... meu Deus que vergonha! Estou preocupada com as mãos, enquanto o corpo da minha Avó, dentro de algumas horas, vai descer à terra... Suspirou e começou a olhar para as paredes da casa mortuária. Era natural que estivesse tanto frio, pois tudo era de pedra. Talvez seja de propósito, para sentirmos o frio do cadáver ou, se calhar, para o conservar. Era impressionante como não conseguia ter um pensamento com nexo. Por respeito à Avó, tinha que se esforçar e começou a pensar nos bons momentos que passaram juntas: Quando a Avó se sentava no velho sofá de napa, de cor preta e bordô, com toda a paciência deixava-se pentear até adormecer... deixava-a pintar-lhe os lábios, tirar o buço com creme depilatório... estavam tardes inteiras nesta brincadeira de cliente e cabeleireira. No final da tarde, a Avó tinha que ir lavar a cara e, muitas vezes, o cabelo, que estava empestado de laca ou completamente despenteado. 17

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Ai! Que dor no peito, que aperto... não conseguia conter as lágrimas. Isto sim é velar o corpo. Não é contar anedotas, em voz baixa, soltar gargalhadas ou ser tão egoísta, preocupada com o aquecedor, pensava ela, enquanto ouvia em sussurro as anedotas que os netos das amigas da Avó contavam: Falaram-me de uma vidente muito boa, lá fui todo entusiasmado, mas nem sequer entrei. Não é que quando bati à porta a vidente perguntou: Quem é? Esforçava-se para ignorar as conversas à sua volta e tentava recordar a Avó em vida. A Avó era uma pessoa muito estimada, a prova estava na quantidade de flores que rodeavam o caixão: dezenas de ramos de flores, palmas, coroas... e ela pensava: Tanto dinheiro em flores... Lá estou eu a ter pensamentos horríveis. Que bom, a Avó gostava muito de flores, mas o cheiro já enjoa, sinto-me nauseada... A casa mortuária estava repleta de pessoas, nem todas se vestem de preto, há muitas com calças de ganga e os homens nem sequer usam gravata. Ana Rita estava esmeradamente vestida: saia e casaco, blusa de seda, meias e sapatos fechados, tudo em preto. Não num preto qualquer, era um preto muito negro, retinto, como se costumava dizer. Era a vontade da Avó. Estava com a consciência tranquila, pois tinha conseguido que a sua última morada fosse na Foz do Douro, no Porto. Ali tinha nascido. Tinha sido baptizada e casado naquela igreja (S. João Baptista). Expressara, sempre que podia, o seu desejo de ficar naquela terra. 18

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Ana Rita tinha conseguido concretizar um dos seus pedidos. A Avó Glória tinha nascido em 1924 e foi naquela terra que se fez mulher. Costumava dizer: O lugar mais bonito do mundo, só eu o conheço, vive no meu coração. Está no meu imaginário, cheio de cores, de cheiros e com um paladar adocicado. Próximo do meu coração está a minha Foz do Douro. A Igreja de São João Baptista é digna de visita. Estilo Barroco, de planta longitudinal, com uma única nave, com seis capelas colaterais, capela-mor, todas com retábulos de talha dourada. Na fachada, a imagem de São João Baptista e nos nichos laterais, as imagens de São Bento e Santa Escolástica. No século XVII começaram a fazer obras de restauro no Forte de São João da Foz e tiveram que encerrar o funcionamento da Igreja Matriz, que se situava dentro deste Forte. Por esta razão, a Foz do Douro ficou sem igreja, causando a necessidade de se construir uma nova. Após a doação de uns palácios, pelo Deão da Casa do Cabido do Porto, Jerónimo de Noronha de Távora Leme Cernache, mais concretamente no ano de 1640, iniciou-se a sua adaptação a uma igreja. Foi uma obra extremamente demorada, começando em 1709 e terminando em 1727. Construíram-se, entre 1713 e 1715, os retábulos do Bom Sucesso, do Senhor Jesus, da Senhora do Rosário, da Santa Gertrudes e respectivas imagens. A construção da abóbada, das torres, do frontispício, do remate do arco sobre a capela-mor e o pátio, em frente, estiveram concluídos em 1733. O retábulo da capela-mor esteve a cargo, no ano seguinte, dos mestres 19

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Manuel da Rocha e Manuel da Costa Andrade. O desenho foi de Miguel Francisco Silva. Os retábulos da Igreja de Santo Ildefonso e da Igreja de São Francisco também estiveram a cargo deste mestre desenhador. A Avó Glória tinha uma adoração por aquela igreja e costumava dizer: Foi aqui que, de joelhos, falei com Ele... tantas vezes me ajoelhei a suplicar... A suplicar o quê, Avó? Sei lá filha, pedia o que na altura precisava... Apesar de não viver na Foz Do Douro há muitos anos, todas as semanas procurava palmilhar aquelas ruas. Visitava o corpo do Santo Abade Moura. Certo dia disse: Ana Rita, vou contar-te a história deste Santo. Sabias que a minha mãe conheceu-o pessoalmente? Que interessante conhecer um Santo em Vida, rematava a pequena Ana Rita, enquanto a Avó se sentava no banco do jardim, nas traseiras do cemitério, onde o corpo do Santo se encontrava depositado. Santinho Abade Moura não nasceu na Foz do Douro. Era de Gondomar, da Freguesia de S. Pedro da Cova. De seu nome José, teve uma infância normal, para a época, tendo sido criado no meio rural. O sofrimento chegou cedo à sua vida, pois com apenas sete anos ficou órfão de pai. A mãe vivia com as dificuldades inerentes a uma viúva, até que resolveu contrair matrimónio com o seu cunhado, padrinho de José e irmão do falecido marido. 20

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O nosso país passava pelo Liberalismo. Aparecia o Brasil como a terra das oportunidades. Basta abanar uma árvore... que a pataca cai, dizia o povo. Então, José, com doze ou treze anos de idade tentou a sua sorte, rumando ao Brasil, acompanhado por um tio. Poucos meses se aguentou longe de Portugal, com a intenção de ficar rico, decididamente esta não era a sua missão na vida. Desde muito pequeno que se mostrara um aluno dedicado, estudioso e muito bem comportado. Ainda de tenra idade o seu objectivo era claro: a vida eclesiástica. Entretanto, o Padre Alexandre de S. Tomás Pereira, Abade da Foz do Douro, faleceu. Então, Abade Moura foi nomeado pároco da freguesia em 1873. A Foz do Douro, uma pequena povoação, principalmente de pescadores, tornava-se um centro cultural na época balnear. Devido às suas praias, muitas personalidades a procuravam para férias, para tratamentos de saúde... Abade Moura mostrara a sua personalidade: enérgico, amável, um excelente orador, um espírito brilhante que cativara toda a população. Em 1887, depois de celebrar a missa na Capela da Nosso Senhora da Ajuda, em Lordelo, sentiu-se mal… uma constipação rapidamente se transformou numa pneumonia dupla... Com um pequeno crucifixo nas mãos, a rezar, ficou com a boca semi-aberta. A morte tinha interrompido a palavra e assim ficou, com a vida interrompida, com apenas quarenta oito anos. O povo chamalhe: «Padre Santo». Em 1924, no ano em que eu nasci, fizeram-se umas obras no cemitério e, para surpresa de alguns, descobriu-se que o seu corpo estava intacto, relatava, com voz doce, a Avó Glória. Entretanto, já fora submetido à prova da cal, mas o corpo nunca se decompôs, ficando encerrado numa urna de cristal. Ficas a saber, Ana Rita, que uma das minhas preces foi para que 21

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ele fosse o teu Anjo da Guarda, concluía a Avó Glória. De tantas vezes repetir a história do Santo Abade Moura, tinha-a decorado, mas as palavras saíam sempre carregadas de emoção. Ana Rita recordava a Avó quando ambas saíam para comprar fruta. Iam no carro eléctrico, o número 17, até à Ribeira. Os olhos percorriam o Rio Douro, olhavam a outra margem, as roupas estendidas nas janelas, como se de adornos se tratassem. As caminhadas pela Foz Velha, nas ruas estreitas em paralelo e as casas térreas com pátios onde as crianças ainda podiam brincar, substituíam a televisão e o computador dos nossos tempos. Que saudades! Faleceu com 82 anos. A idade ainda não era muita... sussurrava com um suspiro. Sentiu uma mão quente nas costas e levantou a cabeça. Tratava-se de uma mão enrugada pelo tempo, morena, queimada pelo sol, unhas tortas, talvez roídas... era uma velha, vizinha da Avó materna, a D. Estrela. A Avó materna, D. Estrela, tinha falecido há mais de dois anos. A sua morte causara pouca mossa a Ana Rita... não convivia com ela, nem gostaria de ter convivido. Ao contrário da Avó Glória, a Avó materna, D. Estrela, era uma mulher amarga, calada... e o sorriso... que engraçado... Ana Rita nem se lembrava de a ver sorrir. Se calhar até tinha um sorriso bonito! Mas não se lembrava. Toda a vida a conheceu a vestir roupas negras, muito negras. Usava o cabelo apanhado com um puxo, dir-se-ia que nunca teria ido ao cabeleireiro. O cabelo era tão branco que parecia neve. Era gorda, apesar de quase não comer, dizia que a responsável era a «tiróide». Era exactamente o contrário da Avó Glória. Nunca tinha visto a Avó sem batom. Era alta, magra, sempre com a pele muito cuidada, o cabelo sempre pintado num castanho mel, bem curto. Sorria com muita facilidade. Estava constantemente à procura de uma desculpa para soltar uma gargalhada. A Avó Glória era tão doce e a Avó Estrela, tão rude. 22

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De novo, sem conseguir conter as lágrimas, soluçou e cumprimentou a mulher que ali estava de pé. Não a conhecia muito bem. Lembrava-se vagamente de a ver na casa da Avó materna, mas estava muito diferente. Estava magra e com um ar cansado. – D. Amélia, obrigada por ter vindo – disse-lhe Ana Rita. – Em respeito à tua Avó Estrela. Ela gostava muito de ti e nesta hora, esteja onde estiver, deve ficar contente por te apoiar. Não ficaste sozinha no mundo... tens-me sempre... a tua Avó partiu há dois anos, e desde essa data não há dia que não a chore. E começou a chorar, abraçando Ana Rita. Foi a rapariga que a consolou, pensando no absurdo da situação, chorando uma Avó, há dois anos falecida, e mimando uma vizinha, nesta hora em que precisava tanto de colo. Ali ficaram de mãos dadas, trocando carinhos. O tempo foi passando tão lentamente que parecia queimar de tão angustiante. Ana Rita resolveu fazer conversa para vencer o tempo. – A senhora era muito amiga da minha Avó Estrela. – A sua Avó era uma santa. A menina foi criada com a D. Glória, Deus a tenha, mas não desfazendo... a sua Avó Estrela era uma santa. Deve estar a sofrer muito com a sua perda, mas pense que estão ambas em paz, a pedir ao Senhor por si. Sim, devem de estar, – confirmou Ana Rita. Devo muito à D. Estrela, era uma mulher tão boa... com ela não havia fome nem más palavras... não era dada às gargalhadas sem juízo... muito riso pouco siso. Ali ficou a D. Amélia quase a profanar o corpo da Avó Glória... enaltecendo a Avó Estrela. Ana Rita estava surpreendida... como pôde viver uma vida sem conhecer a sua Avó paterna? Ouvia, atenta, a descrição de uma santa. Não conseguia esquecer a carta da Avó Glória, e a curiosidade estava a deixá-la nervosa. 23

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Estava ansiosa para ler o seu «livrinho», como ela própria apelidara. Entretanto, a D. Amélia continuava a relatar, chorosa: – Foi ela quem salvou o meu casamento. O meu marido tinha muito mau feitio. Sempre que chegava a casa ralhava, porque o tapete da entrada estava torto ou porque não havia cerveja fresca ou porque o jantar estava pronto e era cedo para jantar. Ele entrava a gritar e ali ficávamos horas à desgarrada, sem percebermos quem gritava mais alto. Já pensávamos no divórcio... quando desabafei com a D. Estrela. Ela olhou-me com a doçura de quem faz o bem e disse-me: Dentro de nós existem os diabinhos e os anjinhos. Os diabinhos querem que discutamos e que sejamos infelizes, já os anjinhos querem a paz e a felicidade. Quando ele entrar em casa a discutir, não respondas. Finge que tens a boca cheia de água. Pensa que os diabinhos não podem vencer. Na hora do jantar, sentados calmamente à mesa, com a voz doce dos anjinhos dá-lhe a resposta que achares justa. – Assim o fiz. – Certo dia, o meu marido entrou em casa e logo se pôs a ralhar, porque o jantar não estava pronto. Olhei para o chão e não respondi. Ele olhou-me e calou-se. Enquanto jantávamos, disse-lhe com a voz dos anjos: Hoje atraseime a chegar a casa, porque houve um acidente e estive uma hora parada numa fila de trânsito. Ainda me doem as pernas de fazer ponto de embraiagem. Ele olhou-me e disse: Descansa, eu ponho a loiça na máquina de lavar. – Sorriu e, a partir daquele dia, sempre que ele ralhava, eu «enchia a boca de água» e mais tarde falava do assunto, com a voz de anjo. Quando ele me irritava muito... pensava sempre que eu era mais forte do que os diabinhos e que não ia estragar o meu dia com discussões. O meu marido mudou completamente... nunca mais foi agressivo. Tudo graças à sua Avó Estrela. 24

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– Sim, é verdade, nós colhemos aquilo que semeamos. Senão plantarmos discórdia e más palavras, receberemos a compreensão e a doçura – finalizou a Ana Rita. Contudo, como se não a ouvisse, a mulher continuou a relatar os milagres da Avó Estrela. – A menina conheceu a D. Giorgina? A que vive na casa da esquina? A sorte dela foi a sua Avó. A mulher andava sempre aos caídos. O desespero era tanto que começou a beber. A casa metia nojo com tanto lixo, mas a D. Estrela fez dela uma mulher. Um dia, entrou pela casa adentro e disse-lhe: hoje venho ajudar-te a arrumar. – Limpou-lhe a casa toda. Pegou num grande saco preto e encheu -o com tudo o que era lixo e que estava espalhado pela casa. Depois, pegou em toda a loiça, mergulhou-a numa grande bacia com lixívia e pôs as roupas a lavar. Limpou os poucos móveis e aspirou a casa toda de uma ponta à outra. Encheu um balde com água a ferver e passou o chão todo com a esfregona. Era já tarde quando terminaram. D. Estrela sentou-se numa cadeira, com um papel e uma caneta. Ordenou-lhe que dissesse o que iria fazer de jantar para o marido, durante toda a semana. Depois acompanhou-a às compras no supermercado. Prometeu ir visitá-la todos os dias e ajudá-la a tratar da casa e a cozinhar, mas com a condição de que, de manhã, deveria levantar-se às 9h00, tomar banho e tomar o pequeno-almoço. Depois deveria arejar o quarto, fazer a cama, limpar o pó e aspirar. Todos os dias deveria lavar a casa-de-banho. Nunca deveria deixar amontoar loiça ou roupa para lavar. Cozinhar o que estava estipulado. Se ela cumprisse esta meia dúzia de regras, D. Estrela prometia ajudá-la e rogar a Deus por ela. A fama de Santa já corria na rua e, para ter a sua bênção, D. Giorgina cumpria, escrupulosamente, as regras. Toda a sua vida melhorou. 25

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Ana Rita acenava com a cabeça. De nada adiantava dizer que a D. Estrela, sua Avó, era apenas uma mulher sábia. – A fome que ela não matou? Todos os domingos fazia uma feijoada e todos aqueles emigrantes, coitados, que viviam em quartos alugados, sem família, juntavam-se... e assim tinham um grande almoço de domingo. Mas, a Avó não tinha posses para fazer almoços de domingo para estranhos? – reflectia Ana Rita. D. Amélia continuava: – Quer saber como ela fazia? Eu digo-lhe. Fazia rissóis de carne e croquetes e levava-os ao talho do bairro para que o carniceiro os vendesse. Com o dinheiro da venda, o homem dava-lhe a carne para a feijoada e a carne picada para os rissóis. Ela lá fazia mais uns tantos e lá trazia as carnes. – Ah! Em troca do trabalho de fazer os rissóis... Na verdade, a Avó sempre teve mão para a cozinha, mas dispor do seu dom para a comunidade, sem fins lucrativos, nunca lhe tinha passado pela cabeça. D. Amélia continuava a relatar os feitos da sua santa. – Foi ela quem salvou o filho do Sr. Pompeu, é verdade, sim senhor. Calou-se e olhou para Ana Rita tentando adivinhar se a rapariga continuava interessada nos feitos, e como quem cala consente, ela lá continuou: – O rapaz andava com umas ideias estranhas, dizia que ouvia vozes, que queria matar o pai: tentações do demónio. Porém, a D. Estre26

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la não teve com tateias, passava tardes a ouvi-lo, passava tardes a olhá -lo. E não é que o rapaz procurou um psiquiatra, esteve internado alguns meses, e ela sempre o foi visitar? Depois de sair do hospital, foi ela quem fez com que ele fosse trabalhar para a loja de desporto. Ele lá está, todo feliz. Diz que não pode deixar de tomar a medicação, mas se a tomar é um homem normal. – Às vezes basta olharmos em redor, ter tempo para ouvir os outros... para fazer milagres. D. Amélia encolheu os ombros como se não ouvisse. Para ela, D. Estrela era Santa, e até conseguia vê-la à noite, não sabia bem se enquanto dormia, ou se enquanto estava acordada... No velório da Avó Glória passou a ouvir-se histórias da vida da Avó Estrela. Ana Rita estava exausta e muito confusa. Tinha muita vontade de ir a casa da Avó, mas sabia que iria sofrer... Era a única familiar e, por isso, tinha que ter coragem para encarar a morte, o vazio. O mais doloroso não é o acto da morte, da ruptura. O que dói é o dia-a-dia, o fim da rotina de há anos, a falta do pormenor, das pequenas coisas que nunca se deram valor, porque sempre lá estiveram. O tempo traz a dor da morte, vai trazendo a saudade e depois, conforme traz, leva, nublando a lembrança e, por fim, fica a recordação. Cai uma lágrima de quando em quando. Ana Rita sabia que tinha muito para sofrer, mas em memória da Avó, tinha que ser forte, tinha que ter coragem. Ela, que tanto tinha sofrido, tantas partidas a vida lhe pregara, e mesmo assim era uma senhora doce, nunca permitindo que as amarguras da vida a tornassem amarga. Ganhou coragem e entrou em casa da Avó. 27

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A gargalhada da Avó Glória estava estampada na casa. Sem ela, a casa estava fria, vazia e entristecida. Era muito doloroso percorrer aqueles corredores, olhar os porta-retratos, retractando uma vida, uma felicidade que agora não existia. Ana Rita aguardava pela abertura do testamento para tomar medidas práticas. Enquanto isso, todos os dias atravessava a cidade para abrir as janelas: a casa da Avó precisava de arejar. Tinha contactado uma empresa de limpezas que, para além de esvaziar o frigorífico e de o desligar, tinha empacotado e etiquetado todos os adornos expostos. Esta medida tornava a casa ainda mais fria, muito impessoal. Afinal, as casas não são só paredes, móveis e algumas fotos... sem estes pormenores são todas iguais, umas maiores, outras mais pequenas, umas mais velhas e outras mais novas. As casas são um pouco de nós. A disposição dos móveis tem o nosso cunho pessoal, a cor da parede, o candeeiro do tecto, o chão, a carpete, as cortinas, os adornos, os quadros, a foto exposta... acabam por ser o nosso retrato. É a nossa opção, é um pouco de nós. Se despirmos a casa, apenas sobra um corpo nu, expondo todas as gorduras, todas as estrias... Era assim a casa da Avó: cheia de estrias, cheia de recantos com humidade, paredes negras... a casa sem maquilhagem, sem memória, sem recordações... Que dor tão forte, a de pensar que um dia a casa ficaria assim, sem carácter, sem personalidade, a aguardar o próximo proprietário, a próxima alma. Recordou a carta que a Avó lhe deixara, junto com a roupa destinada para o enterro, onde mencionava a existência do livrinho, guardado no cofre. 28

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Durante todo o velório não pensara no livrinho, queria despedir-se da última pessoa com quem partilhava o mesmo sangue. Sofria tanto com a morte da Avó, mas também se revoltava contra si, chorava por ela, tinha pena de si, tinha medo da vida sem a protecção da avó. Este sentimento de egoísmo fazia sentir-se mal, mas era mais forte do que ela. Tinha o Tiago, mas ele era apenas um namorado... hoje era, amanhã poderia não ser... mas a avó seria sempre dela. Teria sempre o mesmo sangue a correr-lhe nas veias. Se um dia fico doente, se um dia fico desempregada? O que vai ser de mim? Não tenho ninguém a quem recorrer. Se o namoro com o Tiago termina, como vão ser os meus natais? Os meus dias de aniversário? Não terei ninguém para cantar-me os parabéns. Sofria pela morte da Avó, mas sofria mais pela falta que ela lhe iria fazer, pelo medo de encarar a vida sozinha. Na verdade, quando choramos pela morte de alguém... as lágrimas são mais por nós do que por quem partiu. O que vai ser de mim agora? Ouve-se muito nos velórios. Ana Rita, para se sentir mais próxima da Avó, resolveu procurar o livrinho.

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