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FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: Norberto do Vale Loureiro Teixeira Cardoso TÍTULO: Poemas escritos em folhas de papel brilhante AUTOR: Norberto Do Vale Cardoso REVISÃO / FOMATAÇÃO: Norberto do Vale Loureiro Teixeira Cardoso CAPA: SitiodoLivro.pt 1.ª EDIÇÃO LISBOA, 2011 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Agapex ISBN: 978-989-20-2521-6 DEPÓSITO LEGAL: 329631/11 © Norberto Do Vale Cardoso PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


Para a Nani, mulher que me faz brilhar, e que dรก luz aos meus filhos.

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{Primeiro DOLO} O espírito move a massa

“O verdadeiro problema da linguagem: como vergá-la, moldá-la, como fazer dela a nossa liberdade, como reconquistar as suas nascentes envenenadas, como dominar o rio das palavras (...). A mais dura das lutas, a mais inevitável das derrotas. A mim ninguém me vai eleger para nada. Não tenho base de apoio, não tenho eleitorado: só a batalha com as palavras.” (Salman Rushdie)

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des/armamento Estou-me a despojar de ti, pois que no teu olhar reside o que não encontro, as ilíadas, que remanescem entre miríades que carrego nas palavras corcundas submetidas à massa atómica, ao peso que não pesa o que do teu corpo se suaviza; o que no teu corpo há de fome; o que no teu corpo se me perde.

Quanto não daria pelos teus olhos se não fossem os meus dorsos. Mas eu só tenho massa, ossos,

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nada mais.

Sรฃo eles, aliรกs, o meu escudo REBRILHANTE.

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Subsidência

Posse: dentes podres e sedimentos. Dentes, não refulgentes Dentes em que, dos escombros, tão-só raízes, arrancadas as corolas das minhas performances acidentais.

Por isso eu estou aqui apenas a calcinar em dissenso de pose não natural (ou tão natural quanto a dos poetas quando as palavras qualquer coisa entre os dentes)

Possuo apenas grãos de restos que não são já qualquer tença

Esta é a minha subsidência: a sedição das horas laminadas para invocar a minha existência, a sedimentação de que subsisto, 11


o sudário das horas da agonia impropensa.

Assim, o obituário descreve:

Posse do espécime à data em que foi encontrado morto (subsidência) «por detrás de mim por debaixo de mim qualquer coisa» como sorrisos de dulcineias sorrisos fundidos de que as estrelas brilham

quando o que o poeta (se o fosse) tinha de ser, era outra coisa, não a aporia do tempo inútil

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O deserto de Takla Makan

Eu sou só grãos de areia desde que desci as escadas da casa de areia

À minha volta tudo era a erosão nuclear inexistência de versos e de folhas

Percebi - para mal de mim que sou dos isótopos que rareiam assim como assim as areias e os cardos que piso volteiam e se amarelecem até se tornarem num areal onde do corpo só cabem os glóbulos

Olhando à volta eu via que não era Narciso, a areia do deserto não me mentia, não me deixava mentir,

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fazia-me capaz de me não ver na face que não era a minha:

- Tinha perdido ainda sem ter nascido a minha geração na massa de que as energias sisíficas se carregam: isótopos dos livros que sonhava em escrever

Das escadas das escadas tudo erodido: nem mesmo as escadas, nem dáctilos, nem deuses providenciais

Não me apaixonei pelo que vi: nem a minha sombra, só alucinação de um rei brilhante

Ali entra-se e não se sai: nem escadas nem areia 14


nem casa [nada]

s贸 o que eu era:

essa / isotopia / do / deserto

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Venda

Ouve: eu não quero arpoar os teus escolhos “não há para mim mais violência do que escrever contra mim”

(Eu sei: investiam cetáceos)

Escuta: tenho uma venda não siso palavras de emplastro no lixo da cozinha

Eu sei: eu sou uma mancha, sapos e monstros que emplasmam em registos biográficos reverberantes que agravo

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e que cavalgo e que combato (atenta) numa falange de palavras num loco de sĂ­labas esta batalha em que repouso necessariamente antes que me digas que partiste para dentro de mim

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A vida das prensas

Tenho a vida das prensas (o meu ofício é o das máquinas de café), o prelo lacrado, os orifícios do nada.

Não devia ter levantado a mesa (quando decidi voltar-me de costas para ela e a escrever contra eu). Os anjos comeram as minhas migalhas e em Cnossos o toureiro soltou-se na arena, não entendendo que língua era aquela que falava.

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PORTA-FALSA

No meu caixão a porta-falsa estava cheia de quê? (riam-se robertos)

porquanto que falto de Briseida as monções das suas cavidades não me permitem prover de portas-falsas que ponham cobro aos retornos, essa obsidiante emanação dos afectos

(Peço-te, lacra a porta com a fita vermelha-negra da máquina de dedilhar,)

Transporta-me, que a minha idade já não se angula em certos sítios 19


e a cada noite o meu sol a minha pedra se torna em energia em fragmentos de outra luz, para reencontrar em cada noite e em cada dia a porta-falsa do seu caix達o

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alfabeto

As minhas janelas não são minhas, são lágrimas de lustre, nem vidros têm, nem telas nem pós

Que importa então?,

Se eu não sei as letras nem as palavras me pertencem, nem os espelhos trabalham para o que foram feitos, nem a vida ganha os contornos da sua singularidade!

A mim, que me analfabeto a cada redacção e que não sei sequer o que comi ontem, 21


nem a memória das coisas me sustenta.

Como se eu não fora nada. Como se eu descera até ao mais recôndito lugar para onde caem os homens despojados de obra e de flores e de botões, e de onde só regressam os bichos - os que são capazes de perseverar, de perseverar através da morte, de perseverar pelo centro da morte, pelo ânus e pela vulva dessa mulher alfabetizada de orgásticas relíquias.

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Canto

Há linhas de ferro dentro desta escrita

A minha história começa pelos ocasos. Hora da morte: 00:00 declarou o abutre, esvoando, na certidão de óbito. E as linhas viciadas viram-se do avesso, ao lado em que as figuras e as fábulas principiam a sua luz. Há um cântico com as cores do petróleo no meu mar:

as palavras são-me caras a mim que não sou nada, um sem-dinheiro

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entontecido pela chuva, quando o preço da corrida escorre nos vidros do óvulo

São linhas de ferro Sentimentos de ferro no meio de verbos que intento moldar.

Mais vale sonhar a olhar pelos buracos do ânus da agulha da lua desfavorecida Mais vale adormecer a contar palha, a extorquir o remanescente de nós mesmos.

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Farol Antes do verso o farol Elevando-se junto às marés

De quê ou de quem tem medo?, achas que de ti?

Minha alcova Meu prurido

(Mas fui eu quem os matei, aos poemas reciclados) Quem espera por mim em Társis não são os velhos ensombrados sob os chapéus, não as carpideiras, nem mesmo as flores (mudadas que foram as suas corolas pelo sol invertido sobre as montanhas), 25


mas aquele que não fia nem chora, que se senta à espera, que não morre sem que eu volte, que não morre sem que eu morra,

porque antes do verso, o farol da dura-máter das palavras

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Poemas que queriam matar dentro de mim Já escolhi o meu dia para morrer, e, sabes, ainda eu não tinha nascido e já tinham comprado o meu silêncio a troco de nada, se a vida é nada. O meu silêncio tem, na boca, um sabor a metal.

Nasci de verso Não fosse o mundo procurar-me Era isso que eu tinha a dizer

O papel brilhante descera à cova, vinha do teu túmulo

as falanges amortalhadas de se auto-ciliciarem no acto de folhear as folhas das páginas da minha vida

Pressinto figuras e seus filamentos as máculas transidas

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sem ponto sem nó No umbral vivissecam-se as falanges cujo sangue negro emula com os meus olhos cheios de anos e animosos.

Peço que se desafrontem, preciso do seu liame para poder voltar às folhas e folheá-las atirando-as às sibilas dos ventos

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Sedimentos

Achas que eu era capaz de te prometer um poema? (uma ilha), o que quer que fosse que se prometesse quer quisesse quer não?, se os meus víveres são pomos são gelo são sedimentos sobrepostos, o que resta do que quero dizer:

do meu berço de madeira vi a luz da lua

era uma espécie de nexo entre mim e a sua luz, não a Lua que Galileu via, nem a lua dos poetas, mas a lua dos micrósporos, 29


que me anexa de mim desde que nasci, predeterminando os meus percursos e processos, como se houvera entre nós o mesmo nexo que o texto manifesta consigo mesmo, quando a verdade é outra, a verdade é que o nexo entre nós é o do poeta para com a história da língua, para com os tropos, para com os sentidos, para com os sedimentos de toda uma vida.

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Coto Os mortos ganham lugar dentro de nós Acomodam-se e brilham mais do que nós mesmos Arrancámos todos os cartazes colados nos postes e nas paredes das ruas de Hamelin, Censurámos todos os exemplares dos jornais Assassinámos o redactor e o carteiro e assaltámos o comboio para que se apagassem os rastos da geração dada por extinta

Ora eu não tinha flauta, não tinha canto, não era ave nem instrumento, apenas um jacto que fazia parte da minha própria natureza por detrás da montanha cultivando o gosto do retiro e da formação informe do sulco do pergaminho

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da esferográfica com o seu coto da descriação contra mim, até deixar de ser (a cada lunação de cada lavra) o menino perdido da geração dos mortos

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Disforias

Não é preciso dizer que a cidade desfaleceu à minha frente e que as palavras são um eco, menos do que isso desvanecem-se, apagam-se e que desde então o que está escrito ali? os meus sentimentos são cada vez mais acidentais (tivera eu cidade ou classe), mas o que eu quero é andar para trás fazer o inverso das linhas como se não vira - como vejo cada vez mais sombras 33


cada vez mais riscos a cada disforia dos vultos

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Poemas escritos em folhas de papel Brilhante