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O рoęȶą ȵą ƒímbrіą

Ɲorberto

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√ale Ƈardoso

O рoęȶą ȵą ƒímbrіą

(Projecto Marginalia I)

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FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: Vírgula TÍTULO: O рoęȶą ȵą ƒímbrіą AUTOR: Norberto do Vale Cardoso PAGINAÇÃO: Norberto do Vale Cardoso CAPA: Patrícia Andrade 1.ª EDIÇÃO Lisboa, Maio 2013 ISBN: 978-989-8413-92-5 DEPÓSITO LEGAL: 358883/13 © Norberto do Vale Cardoso PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO Sítio do Livro, Lda. Av. de Roma n.º 11 – 1.º Dt.º | 1000-261 Lisboa www.sitiodolivro.pt

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O рoęȶą ȵą ƒímbrіą

«Homens duros, que descestes vivos à mansão de Hades, homens de dupla morte! Pois os outros só morrem uma vez.» (Homero, Odisseia, Canto XII)

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O рoęȶą ȵą ƒímbrіą

Nona

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«Há homens que nascem póstumos.» (Friedrich Nietzsche, prólogo a O Anticristo)

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O рoęȶą ȵą ƒímbrіą

1. A vida é tecida de teses e proémios até à nona lua É nela que eu teço um corte para com o mundo

Não sei o que é a vida nem mesmo a minha, nem quando ela começou a ganhar forma

Se me perguntassem sobre o dia em que nasci, dir-lhes-ia que não o saberei antes que pereça e que não sei a não ser isso mesmo, que nasci naquele momento entre o nascer e o falecer e, nesse entremeio, o fio da vida, que não enjeito, não deixou de se urdir

A vida tece-se destas insignificâncias E destas ambivalências Entre a criação e a descriação

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2. Dizem que o inferno tem margens, mas não são margens, são dobras da mesma substância, do mesmo tecido, dobras que entidades desconhecidas entreteceram com as sobras das vidas de que se alimentam os homens com duplas vidas

2.1. Numa das suas vidas, o poeta recolhe entre as coisas mortificadas os materiais de que ser há-de fazer Homem, porque o que o poeta quer ser não é poeta, mas um espécime completo da sua espécie

Ora as coisas mortificadas surgem nas fímbrias e o poeta recolhe-as minuciosamente, sabendo que, nesta sua colecta, deve cair no fossado, lugar ou condição da sua defesa e também da sua morte O poeta, para exercer o seu ofício, coloca os sapatos (já assinalando desgaste)

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ligados pelos atacadores sobre os seus ombros, pois as extremidades do seu corpo são bastante mais sensíveis e as coisas usadas menos apreensíveis

Ele sabe que quando morrer poupará espaço e - sage que é - tem também noção que os seus ombros, no fim da vida, acusarão o desgaste dos lugares por onde passou e das coisas mortificadas que soube anotar

Para que há-de querer afinal um poeta gastar os sapatos dentro do lugar onde as coisas se desvanecem?

2.2. Vivo nas margens dos rios, alimentando-me das fronhas dos pobres peixes Com as entranhas dos bichos faço colares e compotas livros e anotações marginais

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2.3. Perduro através da loucura numa cabana de pescadores para morrer à beira-mar um pouco mais distante das faldas da serra onde nasci

Não é fácil: A sandice sela o seu cunho como a montaria pelo bosque

Doravante os termos da vida (e suas fases terminais) serão outros, talvez mais audazes ou tenazes, pois sabemos que, dentre os homens, não sobrevivem necessariamente os mais isomórficos Mas é difícil: A vida das margens é como uma cela onde os loucos e os pagãos vivem desconhecendo-se

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2.4. Sei que me sustento das flores que sucumbem, dos cactos que se incrustam nos dedos e que, da varanda para o rio, passo a ser outra pessoa e digo-me a cada cacto dragar dragar dragar

13 e a cada linha em que me sustenho

preencher espaços por sedar porque as flores têm as suas fraldas e os seus termos próprios escritos nos códigos térreos


2.5. Sou um ser subjacente, ainda uterino, fadado ao fardo A vida é como um colchão que precisa de ser substituído de tempos a tempos, acumulando ácaros, unhas, pêlos e restos de peles, um livro invadido por bactérias que vivem nas suas margens tentando travar a guerra da durabilidade Sou um ser oblíquo, passageiro vertebrado de incontáveis sonhos 14 Sou um ser do submundo uma orla por soerguer

3. O acto de “escrever” é um pouco como aqueloutro de ver a chuva a cair (que podes fazer se não vê-la, incessantemente livre, no seu movimento eterno)



O Poeta na Fímbria