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O ÚLTIMO OLEIRO

RÓMULO DUQUE


FOTOS Autor Com os contributos. O fiar - Ângela Berlinde Púcaros - António Carneiro Forno - M. Prudêncio Arquivo Fotográfico Museu Olaria de Barcelos Trabalhos campo Felgar Manuel Marinho Macedo Correia - 1986 Imagens F1 F2 F3 F4 F5 F6 F-7 F8 F9 F10 F11 F12 F13 F14 F15 F16 F17 F 18 F 19 F 20 F 21 F23 F 24 F 25

FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO: António Rómulo Pinto Duque TÍTULO: O Último Oleiro AUTOR: Rómulo Duque REVISÃO / FOMATAÇÃO: António Rómulo Pinto Duque IMAGENS DA CAPA: António Rómulo Pinto Duque CAPA: Nuno Ferreira 1.ª EDIÇÃO LISBOA, 2011 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Agapex ISBN: 978-989-97341-0-4 DEPÓSITO LEGAL: 328001/11

© António Rómulo Pinto Duque PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO

Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


Aos meus amores...

Os amores que insistem em não me largarem, e eu deixo... Tão fortes que por vezes conseguem florir em dias de pouco sol, mesmo depois das frias e longas noites de geada... E estão ali! (...) Porque um dia os semeei com o ”pensamento”, e ainda resistem, para os continuar a ver no meu jardim... Os meus amores... Rómulo Duque


O ÚLTIMO OLEIRO

EM FELGAR


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I Do adro da capela de Santa Bárbara, há muitos anos edificada em cima de um monte de escórias por mineiros e ferreiros dos quais é padroeira, podia ver-se tudo. Com a escadaria principal virada para o largo do Olmo - nome que ficou pela existência, na altura, dessa velha árvore, em que a largura do tronco, já com grande buraco devido ao desgaste natural, servia para abrigar um homem em dias de chuva. Do adro podia ver-se tudo, e, assim, se

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tornou um dos locais mais frequentados por novos e velhos, com estes a procurar os degraus da escadaria para descansar nas noites quentes, ficando sentados num degrau com os cotovelos assentes no outro superior, e as pernas esticadas em busca da melhor posição para se falar de tudo e de todos os assuntos da aldeia. Dos mais novos, alguns jogavam á

cabra cega e ao esconde-esconde, outros saltavam o muro, vencendo a largura das escadas que davam para o quelho, também

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utilizado para ver se o gado não saía dos lameiros; se nada de anormal existia quando da altura das medas de cereal deixadas no prado, ou também para ver algumas desgraças nas redondezas - incêndios ou outros, como o rebentamento da casa do pirotécnico, que destruiu por completo os paióis, ceifando a vida aos trabalhadores que lá se encontravam e que, em tempos, tinham recebido medalhas pelo excelente fogo-de-artifício produzido. Sendo um dos pontos mais altos do lugar, no meio das rudes casas da aldeia, o acesso à capela é feito pela escadaria subindo os degraus que levam a um patamar, para daí subir mais outros tantos e alcançar o adro.

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Do cimo do muro que rodeia o espaço da capela, com os olhos postos em direcção ao Carvalhal e à serra do Reboredo, avista-se, ao longe, a casa do oleiro, as amendoeiras e alguma vinha; para o lado esquerdo o cabeço da Mua - fonte de água da freguesia - a grande

Serra agora toda despida da sua floresta após ter sido consumida por diversos fogos. Restam alguns pinhos ao fundo, pequenos arbustos e as grandes rochas de minério de ferro (hematite) que nem o lume desfaz...

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Com o grande pinhal que, em tempos cobria a serra, a única falha que se notava então era o corte originado pelo traçado da linha do caminho-de-ferro, que, por vezes, só se distinguia quando da passagem do comboio com as suas carruagens de passageiros e de mercadorias, que vinham e iam para o Porto, puxadas pelas locomotivas a vapor, cujo fumo deixava um tamanho rasto à passagem, que se avistava mesmo sem ser preciso subir à capela. Hoje, quem ali subir e olhar na mesma direcção, não irá notar qualquer clareira devido ao crescimento de grandes pinhos no

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centro dos carris e às giestas que tudo envolvem. Um matagal esconde a linha e só uma visita ao local a permite descortinar. Sem o cheiro da altura, o cheiro a óleo queimado misturado com o da resina do pinhal, dificilmente se imagina o trânsito de outrora que obrigava os trabalhadores da manutenção a lubrificar e a apertar, com frequência, os parafusos na linha, dos quais apenas resta um ou outro, aqui e acolá, e depois de retirada a terra que os cobre. Pequenos pregos cravados nas travessas que ligam os carris, com datas gravadas, indicando o ano da sua substituição, 67, 58, e tantas outras tão longínquas, que nos trazem à memória os dias da nossa infância. 16


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Baixando de novo a vista em direcção à casa do oleiro, mas agora ligeiramente mais próximo do adro da capela, deixando as amendoeiras e as vinhas, lá está o prado, a grande área de pasto que servia para alimentar o gado quando este andava lá por cima. Nos meses de Verão, quem ali subisse, via quantidades de medas de trigo, de centeio e de cevada à espera da altura das malhadas, que eram tão duras para quem nelas trabalhava, 17


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mas que ficavam como momentos únicos para as crianças no gozo das férias grandes. Só apetecia pedir que o Outono chegasse lá para a Primavera…

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II As malhadas... Estendia-se o cereal no chão com as mangueiras (como lhes chamavam, dois paus mais ou menos com o mesmo comprimento ligados com um pedaço de couro para poderem girar) a deslocar-se no ar e batendo nas espigas estendidas, a decrua. Não era tarefa fácil, e só quem via alguns menos experientes levarem com uma mangueira na cabeça ao deslocarem-na no ar, se apercebia de 19


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que era necessário fazê-la girar por cima das cabeças de modo a estas baterem no cereal, evitando uma paulada com o próprio pau. Com toda aquela azáfama, sob o calor abrasador de Julho a fazer jus ao ditado “oito meses de Inverno, quatro de inferno”, no descampado do prado, as únicas sombras existentes eram as das próprias medas do cereal e as da palha à espera de ser guardada no palheiro. Só elas tinham altura suficiente para fazer uma boa sombra para o descanso e para a merenda.

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Encostado ao monte de palha estava o farnel e uma ou duas cântaras de barro cheias de água, tapadas com uma tampa de cortiça com um pauzinho ao centro para se poder pegar. Quando era preciso saciar a sede, a água era o néctar precioso, como se a sede fosse de dias ou como se tivesse acabado de subir a encosta do rio Sabor ao final da tarde! Fresquinha como só aquelas cântaras o conseguiam, a água era uma mistura de fresco com cheiro a terra molhada, dando a sensação de se ter a nascente nas mãos. Ao pegar numa cântara 21


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havia sempre quem exclamasse: “Cuidado! Pega-lhe por baixo”, não fosse ficar com a asa na mão. Ao mesmo tempo, havia sempre alguém que dizia, sem grande preocupação: “Quem fez esta, faz mais! Estamos aqui perto do oleiro; se andássemos lá para trás do Cabeço, era pior... Olha! Passa-me aí a cântara que também estou com sede!” Pega na vasilha pela asa, esquecendo-se de colocar a mão por baixo, e quando a vê cair ao chão num ápice, ouve alguém dizer: “Estão a ver? Se há mais falavas, há mais tempo isto acontecia! Até parece que as paredes têm ouvidos; não se pode dizer nada de mal que logo acontece.”

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Para acalmar o sucedido, um dos homens disse: “Pronto, deixa lá, não te aflijas! Enquanto nós descansamos, vai num instante ao tio António comprar outra cântara que seja como esta que se quebrou, que fazia a água bem fresca.”

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E uma das mulheres encaminha-se por um dos carreiros de pó e pedra miúda, onde se notam ainda os vincos deixados pelos rodados dos carros de bois quando da acarreja do cereal, mais um motivo de distracção para as crianças que com ela seguiam. Na mão levavam um pau seco apanhado do chão, cuja ponta arrastavam pelo trilho do rodado, alterando a linha deixada pelas rodas e chegando, sem dar conta, ao cancelo que dava entrada da vinha em frente à casa do oleiro. “Ó tia Maria! Ó tio António!... Querem ver que não estão. Às tantas foram fazer alguma feira...”, grita a mulher que fora em busca da cântara. Ouve-se o zurrar do burro vindo do palheiro ao lado da casa: se o jumento está em

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casa, eles também lá devem estar... E chama mais uma vez: “Ó tio António!...” “Quem é, que entre!”, responde o tio António, vindo do lado da casa de moer o barro. “Sou eu, a Augusta! Pensei que não estava!...” “Ah!... Não, estávamos a descansar. Hoje levantámo-nos cedo e já fomos aos barrais buscar uma carga de barro, que está ali estendida naquela fraga para moer na atafona, por isso não ouvia chamar... Então o que queres? “Precisava de uma meia cântara. Partiu-se-me agora uma das que eu tinha ali no prado...”

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“Escolhe aí, estão em cima dos talhões grandes e dos alguidares.” “Não estou a vê-las... Ah! Estão aqui, não as via. Só tem estas? Já nem dá para escolher muito...” “Só... estou a preparar as coisas para fazer mais umas poucas. Como vês, o monte de peças já não é o que era noutros tempos; começo a ver que já ninguém compra estas coisas, agora anda tudo a comprar os alumínios e os plásticos, que começaram a invadir as casas de todas as aldeias em redor, e

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não é só por aqui... As únicas peças que se mantêm e que ainda vou fazendo, são as cântaras, porque muita gente não consegue beber água por peças de plástico, e tu sabes que não dá nem o mesmo sabor nem a mesma frescura do nosso barro! Olha, se não fosse isso, já nem as fazia.” “Lá isso é verdade... Mas, se a minha cântara fosse de alumínio ou de plástico, não teria que lhe comprar outra...”

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Estava o Sol avermelhado a esconder-se por detrás dos últimos montes que se viam a olho nu, quando alguém passou por uma das pequenas ruas com uma máquina com o reboque carregado de fardos de palha. Coisas motorizadas destes tempos, fazendo um ruído ensurdecedor, afastando-me das memórias de outros tempos.

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III Na verdade, não passou muito tempo desde que o forno da louça deixou de fumegar, nem desde que o oleiro passava com o jumento carregado de sacos de barro para moer. Os tempos estavam a mudar... O casal, já com alguma idade, não pensava em retomar o trabalho mas mantinha a oficina sempre funcional: o forno arranjado, a atafona pronta a moer. Sendo o Felgar terra de oleiros, este era o último oleiro que restava de tantos outros, quase

todos

descendentes

das

mesmas

famílias, que chegaram a ser sete ou oito 31


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dedicadas ao barro: tínhamos o tio Canário, o Pardal, o Albano, o Catalão, os Caralinda, o Patrocínio e o tio Roberto, pai do Manuel e do tio António, o último a dar continuidade ao fabrico de louça e no qual termina também a tradição na freguesia.

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Numa das noites de luar observadas do alto da capela de Santa Bárbara, e não se vendo ao fundo nem a casa do oleiro, nem as vinhas ou o prado, um grupo de jovens faz serão. Sem as engenhocas dos dias de hoje, está em aberto todo o tipo de conversa. Um dos temas é recordar as tradições e os costumes da nossa terra e vem à conversa o oleiro e o facto de não existir ninguém interessado em seguir o ofício. “Vocês já repararam que o único que trabalha no barro ainda é o tio António e, pelo que ouvi, parece que não tem feito qualquer peça nos últimos anos, e nem sei se não acabou de vez com a roda... E o tio Patrocínio já há muito que não pega no barro...”

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“Também com aquela idade, tanto um como o outro já não devem estar para esses trabalhos. Acho bem! Com tanta modernice quem é que compra tais peças? Só para o museu!...” “Se virmos bem, olha que até é possível ter algum rendimento; as peças não se usam mas podem servir para decoração. Mesmo não tendo utilidade doméstica, podem continuar a fabricar-se como artesanato decorativo com o traço dos modelos originais da região.” “Acho que com esta conversa podemos começar a fazer alguma coisa por este ofício! Vou já falar com o carpinteiro para ver se me faz uma roda de oleiro para colocar no baixo de casa.

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Pode ser que algum dos mais novos se entusiasme...” “Bô… não estou a ver estes jovens a seguir estas tradições; basta olhar para nós: também já todos seguimos outras profissões, uns professores,

outros

técnicos

de

novos

ofícios...” “Isso é verdade.” “Antes que me esqueça, agora ao ouvir-te, dizias... bô!... Sabes que nós por aqui dizemos muito o bô... E por causa do bô, uma altura no Porto, alguém pergunta a um amigo meu... ‘Ó Armando, sabes que lá na tua terra, vocês dizem muito o bô...’ E ele repentinamente responde: ‘Bô! Nunca tal ouvi!’”

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“Essa é muito boa, e não podia ser melhor para acabar a conversa desta noite. Vamos andando que já se faz tarde. Mas quanto às tradições que falávamos, é uma pena terem terminado, como esta do barro, a da olaria, a da telha… os teares e os ferreiros que aqui havia, e também os carpinteiros que faziam os pipos, e as barcas para poderem atravessar o rio Sabor para Silhades...” “Acho que sim. Vamos pôr mãos à obra.” “Esperem! Tenho uma história nova para vos contar”, exclama Manuel. “Tem a ver com a forma de estar na vida e com aquela máxima de ‘ninguém dar nada a ninguém’ tudo se paga.

Quando

apareceram

por

aqui

as

bibliotecas itinerantes, naquelas carrinhas

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Citroen com a frente em bico, que mais pareciam feitas de cartão canelado, um dos mais velhos da freguesia abordou o homem que se encontrava no interior da carrinha a arrumar os livros nas estantes, e perguntou: ‘O senhor o que é que vende?’ Ao que o outro responde: ‘Não vendo nada meu caro senhor. Trago livros para todos lerem...’ ‘Ah sim… e quanto se paga para poder ler um livro?’ ‘Nada. O senhor leva o livro, lê, e quando eu cá voltar, vem e pode trocar por outro’. ‘Muito bem. Mas diz você que não pago nada’… ‘É isso mesmo!’, responde o senhor da biblioteca. ‘Bem, se assim é, vou então levar um livro...’. O homem da aldeia passou algumas das noites a ler o dito livro à luz do caldeiro, pois não existia a eléctrica de hoje. Quando chega o dia 38


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da visita à aldeia da biblioteca itinerante, lá vai o senhor trocar o livro, agora com algum conhecimento e à-vontade com o bibliotecário. Depois de alguma conversa e sem uma resposta satisfatória em relação ao não se pagar nada pelo livro, insiste na questão e volta a perguntar: ‘Ouça lá! Tenho pensado no que me disse e ainda não entendi bem... Afinal quem é o dono destes livros?’ E responde o bibliotecário: ‘Já que insiste vou dizer-lhe: o dono destes livros é uma fundação que foi criada por um senhor chamado Gulbenkian que fez fortuna com o negócio do petróleo.’ ‘Não diga mais nada amigo, não diga mais nada. Já entendi tudo! Queira saber que eu para ler o diabo do livro gastei, por noite, meio

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litro de petróleo!... Logo vi, o ditado bate certo. Nunca ouviu dizer que ninguém dá nada a ninguém?’ Com histórias destas, que é muito boa, ficávamos aqui toda a noite!

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IV Roda feita e assente como antigamente, com o espigão em cima de uma pedra de xisto com uma pequena cavidade. O veio prende numa travessa de madeira com uma corda e, dois dias mais tarde, sai a primeira peça toda deformada

de

tanto

gasta

pelas

mãos

inexperientes dos rapazes. “Já viram como é difícil? Uma peça de barro deste tamanho ficar como um copinho de bagaço todo torto!

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É preciso muito saber para fazer peças como o tio Manuel ou o tio António!” Passam alguns dias e, não sendo preciso marcar qualquer reunião como seria regra nestas organizações de agora, uma das tardes acontece o encontro ocasional com o tio António. “Nem de propósito, tenho uma coisa para lhe mostrar, se não for tirar-lhe muito do seu tempo. Quero mostrar-lhe uma roda que mandei fazer ao seu sobrinho, para me dizer de sua opinião!” “Bem… tens aqui uma roda, sim senhor... O meu sobrinho sempre teve jeito para fazer estes trabalhos; começou ainda garoto na carpintaria mas não quis continuar a vida no barro como o pai dele...Mas diz-me cá: o que

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te deu para fazeres estas coisas? Só os irmãos do teu avô é que se dedicaram a isto... E agora vens tu... Falta aqui um pedaço de barro!” Tanto da roda como da ideia, não estava à esperava de melhor elogio. E a alegria que se lhe estampou na cara ao ver alguém interessarse pelo ofício que ele tinha abandonado já há alguns anos? “O que te deu, para fazeres estas coisas!”, exclama. “Só te falta aqui um pedaço de barro e vias já se a roda está centrada... Olha estas coisas do barro não são fáceis. Como nos dias de hoje não dá para manter a família, como tu sabes nem os meus filhos quiseram continuar. O mais velho ainda fez alguma coisa e tinha jeito para a arte; o outro, nunca ligou muito;

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está agora a fazer mais alguma coisa de barro desde que veio lá de fora, ao que parece para se entreter, e nem aqui no Felgar ficou, está lá para a Vila...” E logo adianto: “Claro que não estou a pensar dedicar-me a este trabalho. Achei por bem trazer aos mais novos as lides deste ofício, para não esquecerem uma das principais profissões de outros tempos.” “Sim senhor, acho boa ideia, e se precisares de alguma ajuda, passa lá por casa que ainda tenho tudo montado e podemos fazer algumas peças para tu veres”, responde o tio António. Palavras caídas do céu, que eu esperava. Ao que respondo: “Seria uma boa ajuda. Se não for maçada para si, lá estarei...” 44


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Mas antes de sair, o velho oleiro, vira-se e diz: “Ah! Já me esquecia… o barro que tenho não é muito, pois o pouco que faço, dois sacos tem me dado para dois anos...” “Esse não é o problema. Agora não necessita de ir com o burro aos barrais buscar o barro, podemos ir de carro a qualquer hora. Já não é preciso perder um dia como antigamente para fazer uma carga de barro. Fica marcado: amanhã, depois de vir do trabalho, ao fim da tarde, vamos lá baixo, carregamos o carro de barro e passamos depois pelo cabeço para apanhar o restante...” “Fica combinado.”

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V À hora marcada segue-se em direcção aos barrais, local de recolha de barro dos oleiros de Felgar (não sei se daí vem o nome “barrais”). Ao fundo fica o rio Sabor, o calor continua a apertar, e o único barulho, depois de parado o motor do carro, é o do zumbido das cigarras. No meio do vale coberto pelo olival, junto a uma das oliveiras, aponta-se o local certo para a recolha do barro.

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Diz o mestre: “Deixa cá ver o melhor sítio... Olha, cava aqui. Tira esta camada de terra seca por cima, agora vai arrancando aí por debaixo, com o ferro e o pico.” E do buraco saem nacos de terra seca, que mais parecem pedra; para os menos entendidos não passa disso mesmo. Os sacos cheios... “Por agora chegam. Vamos andando para podermos ainda ir encher mais algum saco ao

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