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Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade - PPGCOM/UFPE | 1

ANO I | Nº. 1

Jornalismo e cidadania

Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade | PPGCOM/UFPE

Impeachment

O “apocalipse” do jornalismo

Poder Plural

Patrimonialismo na política

No Balanço da Rede

Portais ou currais?

E mais...


JORNALISMO E CIDADANIA | 2

Expediente Editor Geral | Heitor Rocha professor PPGCOM/UFPE Editoração Gráfica | Ivo Henrique Dantas doutorando PPGCOM/UFPE Articulistas | PROSA REAL Alexandre Zarate Maciel doutorando PPGCOM/UFPE MÍDIA ALTERNATIVA Xenya Bucchioni doutoranda PPGCOM/UFPE NO BALANÇO DA REDE Ivo Henrique Dantas doutorando PPGCOM/UFPE JORNALISMO E POLÍTICA Laís Ferreira mestranda PPGCOM/UFPE JORNALISMO AMBIENTAL Robério Daniel da Silva Coutinho mestre em Comunicação UFPE

Arte da Capa: Designed by Freepik.com

Colaboradores | Marcos Costa Lima Pós-Graduação em Ciência Política/UFPE Túlio Velho Barreto Fundação Joaquim Nabuco Gustavo Ferreira da Costa Lima Pós-Graduação em Sociologia/UFPB Luiz Lorenzo Núcleo de Rádios e TV Universitárias/UFPE Bolsista e Aluno Voluntário | Lucyanna Maria de Souza Melo Yago de Oliveira Mendes Graduandos de Jornalismo UFPE

Índice Editorial

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Prosa Real

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Mídia Alternativa

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No Balanço da Rede

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Jornalismo e Política

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Jornalismo Ambiental

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Poder Plural

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JORNALISMO INDEPENDENTE Karolina Calado doutoranda PPGCOM/UFPE

Na Tela da TV

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Comunicação Pública

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MÍDIA FORA DO ARMÁRIO Rui Caeiro mestre em Comunicação UFPE

Jornalismo Independente

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Mídia Fora do Armário

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Mude o Canal

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Rádio e Cidadania

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Referências Bibliográficas

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PODER PLURAL Rakel de Castro doutoranda PPGCOM/UFPE e UBI NA TELA DA TV Mariana Banja mestranda PPGCOM/UFPE COMUNICAÇÃO PÚBLICA Ana Paula Lucena doutoranda PPGCOM/UFPE

MUDE O CANAL Ticianne Perdigão doutoranda PPGCOM/UFPE RÁDIO E CIDADANIA Karoline Fernandes mestre em Comunicação UFPE

Edição Nº 1 Recife-Pernambuco, Julho 2016


Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade - PPGCOM/UFPE | 3

Editorial

Revista Jornalismo e Cidadania Por Heitor Rocha

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stamos convictos de que a intolerância, as discriminações e violências que vêm se agravando nos últimos tempos em nossa sociedade são consequências do recrudescimento da crise estrutural de sentido, alimentada pela comunicação sistematicamente distorcida produzida pela cobertura cotidiana da grande mídia - inclusive dos grandes portais da internet -, como estratégia de dominação da estrutura de poder que controla os aparelhos de estado e as grandes corporações do mercado, monopolizando com suas fontes oficiais o processo de formação de sentidos e identidades. Com este entendimento, a REVISTA JORNALISMO E CIDADANIA se apresenta como espaço de luta pela inclusão dos cidadãos dos movimentos sociais, estudantes, artistas, professores, intelectuais e todos aqueles indivíduos sem voz que constituem a periferia silenciada pela ordem institucional imposta pelo sistema elitista vigente. Portanto, a REVISTA JORNALISMO E CIDADANIA pretende se constituir no meio através do qual a pessoa, seja mulher, homem, negro, índio, pardo, amarelo, branco, adolescente, jovem ou velho, nordestino, nortista ou da periferia dos grandes centros urbanos do sudeste brasileiro – ou mesmo do 1º mundo no hemisfério norte -, de qualquer orientação religiosa, mesmo aqueles excomungados da Igreja Católica por terem o casamento desfeito, e aqueles de orientação sexual, identidade e expressão de gênero que não se enquadrem no padrão cis-heterossexual, possa discutir a sua realidade no mundo e afirmar que a sua vida faz sentido e deve ser respeitada. Este é o valor das pessoas no mundo da vida que não pode ser colonizado pelo sistema das elites que monopolizam quase completamente a política e o mercado, pretendendo reduzir o ser humano a uma coisa, uma mercadoria com um valor de troca, um preço, definido pela “lógica” de mercado para usurpar a legitimidade que só o voto dos cidadãos pode oferecer colocando no seu lugar a nota que as grandes agências do capital financeiro internacional atribuem ao nosso país para continuar a “sangria” instalada no Brasil há mais de 500 anos. Assim, a REVISTA JORNALISMO E CIDADANIA se coloca como uma possibilidade para a inclusão de todos os indivíduos da periferia no processo de construção social da realidade, contribuindo para a conquista de gradativos patamares de direitos humanos, sociais e ambientais, na perspectiva de superação das discriminações, estigmatizações e violências simbólicas que infeli-

citam parcelas majoritárias de nossa população. Neste contexto, esta iniciativa extensionista da Universidade pretende contribuir para a inclusão social no processo comunicativo de definição dos sentidos e identidades que orientam os cidadãos na constituição cotidiana da ordem institucional, sintonizada com a convocação de Boaventura de Souza Santos para que a ciência busque uma interação educativa com a população para elevar o senso comum a um nível de discernimento com consistente fundamentação teórica que lhe possibilite resolver melhor os seus problemas. E neste processo de esclarecimento se constitui etapa necessária a desconstrução dos mecanismos simbólicos de dominação naturalizados pelo discurso hegemônico para desmerecer os grupos considerados subalternos, por critérios de gênero, classe social, etnia, local de nascimento, orientação religiosa, artística e sexual, idade, etc. Para que isso possa acontecer, devemos mobilizar todas as pessoas que possam participar deste debate para reconstruir discursivamente no idioma pública da mídia – começando com meios alternativos como a REVISTA JORNALISMO E CIDADANIA - sentidos, identidades e representações sociais, buscando formar opinião pública consistente e vontade política suficiente para gerar um poder comunicativo com natureza material capaz de obrigar os legisladores a elaborarem leis progressistas como a Afonso Arinos e Maria da Penha, ou a rejeitarem outras como a PEC 37 que pretendia proibir o Ministério Público a investigar casos de corrução, como aconteceu nos movimentos populares de rua em 2013. Desta maneira, se não conseguimos a mudança social simplesmente por considerá-la justa, por outro lado, é preciso difundir a consciência de que, quando os movimentos sociais, estudantes, professores, artistas, intelectuais e demais indivíduos da periferia se mobilizam para reivindicar mais sentido e legitimidade na ordem institucional, podemos conquistar uma vida menos ameaça por conflitos e violências, num mundo em que sejam respeitados, de forma cada vez mais radicalmente democrática, a alteridade e o direito de todos à diversidade. Heitor Costa Lima da Rocha, Editor Geral da Revista Jornalismo e Cidadania, é professor do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.


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Prosa Real

Livro-reportagem, jornalismo e contexto Por Alexandre Zarate Maciel “Jornalismo Best-seller: o livro-reportagem no Brasil contemporâneo” procedeu a análise de discurso sobre os 18 livros-reportagem nacionais e estrangeiros mais vendidos no período de 1966 a 2004. O autor desta coluna está desenvolvendo uma tese no programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE, indo a campo entrevistar os principais autores e editores de livros-reportagem no Brasil e buscando entender suas impressões a respeito de formas de produção, mercado editorial, leitor imaginado e questões éticas.

Autor do mês: Leonencio Nossa Fonte: Divulgação

Fonte: Divulgação

Jornalismo em livro: fenômeno merece mais atenção

“Malala: a menina que queria ir para a escola” (Companhia das Letras, 2015)

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mbora com presença garantida nas livrarias, feiras literárias e prêmios como o Jabuti e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o livro-reportagem é um fenômeno do jornalismo que ainda desperta pouca atenção dos estudos acadêmicos. O marco inicial, no Brasil, coube ao professor Edvaldo Pereira Lima, da USP, em 1991, com tese transformada em livro, “Páginas Ampliadas: livro reportagem como extensão do jornalismo” (editora Manole, 2009). Edvaldo aponta um importante quadro conceitual, diferencia o modo de produção do livro em relação ao jornalismo tradicional, porém sem ir a campo ou entrevistar os autores. Sérgio Vilas Boas, também da USP, analisou o conteúdo de algumas biografias brasileiras, como “O anjo pornográfico, a vida de Nelson Rodrigues”, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 1992), apontando certos vícios e virtudes de seus autores. Sua tese se transformou no livro “Biografismo: Reflexões sobre a escrita da vida” (editora da Unesp, 2014). No campo de Letras, o trabalho de Antônio Heriberto Catalão Jr., a tese de doutorado defendida na Unesp,

Leonercio Nossa: indo além da temática política

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uem vê Leonencio Nossa nos corredores do Congresso Nacional ou Palácio do Planalto, na condição de repórter da editoria de Política da sucursal do jornal O Estado de S.Paulo, em Brasília, pode pressupor que sua vida de escritor de livros-reportagem seja restrita a esse universo fechado e, muitas vezes, claustrofóbico. Mas, na verdade, os quatro livros que este autor nascido em Vitória, no Espírito Santo produziu até agora revelam um jornalista aten-


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to às realidades dos rincões mais recônditos do Brasil, com seus conflitos humanos e um cotidiano marcado pelo silenciamento. Já desde a sua primeira obra, ainda no campo da política, “Viagens com o presidente: dois repórteres no encalço de Lula do Planalto ao exterior” (editora Record, 2006), elaborada em parceria com o colega do jornal Folha de S. Paulo, Eduardo Scolese, Leonencio se propôs a relatar os bastidores das inúmeras excursões do então presidente em primeiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva, de minúsculas e pobres cidades do interior do Nordeste a países da África. Mas foi a partir de “Homens Invisíveis” (editora Record, 2007) que Leonencio Nossa aperfeiçoou a sua vocação de observar realidades pouco desveladas. A obra é resultado de uma penosa expedição de três meses e meio pelo território dos indígenas desconhecidos da Amazônia. O autor relata não só o trabalho de sertanistas para mapear e proteger essas áreas, quanto a relação entre eles e os indígenas já aculturados que acompanharam a viagem.

Em “O Rio: uma viagem pela alma do Amazonas” (editora Record, 2010), traçou um roteiro minucioso com o fotógrafo Celso Júnior e, em oito viagens, conseguiu fazer todo o percurso das nascentes do rio Amazonas, em Arequipa, no Peru, até onde suas águas se encontram com o Atlântico, na Floresta Amazônica. No caminho, encontrou não só povoados pouco mencionados e pessoas humildes, mas também grandes poetas e escritores que amam e têm o rio como tema. Já em “Mata!: o major Curió e as guerrilhas no Araguaia” (Companhia das Letras, 2012), Leonencio Nossa ajudou a trazer à tona os fatos históricos ainda nebulosos envolvendo a Guerrilha do Araguaia e foi além, descrevendo todo o cenário de conflitos de terra e violência que sempre fez parte da região. Leonencio acredita que essa experiência fora dos corredores do poder ajuda muito a entender o que está por trás do discurso muitas vezes demagógico proferido pelos políticos no aconchego do ar-condicionado em Brasília.

Livro-reportagem, TCC e prêmios

tora elaborou seu projeto de final de curso costurando as histórias dolorosas daqueles que vivem intensos conflitos nessas regiões. Em 2014, quem levou o prêmio foi Aline de Sousa Moura, da Universidade Federal do Ceará, com o livro “Auri, a anfitriã: memórias do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa”. Como o titulo sugere, a obra se coloca na perspectiva do imaginário das detentas do único presídio feminino no Ceará. A grande inovação estilística das autoras, Aline Moura e Bárbara Almeida, é que o livro é narrado em primeira pessoa por Auri, que, dentro das lógicas da prisão, mantém uma série de colegas como “protegidas”. Demonstrando como o Expocom também referencia instituições que não estão nos grandes centros, Pernambuco, representado pela Faculdade do Vale do Ipojuca, também já venceu o prêmio, em 2011, com o trabalho de Alessandra Costa Rodrigues, “Remando contra a maré: o caso da Favela Bonança”. A então estudante de jornalismo mergulhou no cotidiano da comunidade periférica da Vila Bonança, em Caruaru, procurando histórias de superação e ressocialização. Elaborar um livro-reportagem como trabalho de fim de curso é uma chance dos futuros profissionais de jornalismo darem forma a histórias humanas muitas vezes pouco narradas e também saírem transformados dessa experiência.

A

opção pela modalidade livro-reportagem no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de uma formação universitária em Jornalismo oferece a possibilidade ao estudante de exercitar, em profundidade, as técnicas jornalísticas da entrevista, descrição de ambientes, investigação do passado histórico recente, além de formatos narrativos inovadores. Uma simples pesquisa sobre os livros-reportagens vencedores nessa modalidade do prêmio Expocom nacional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom) em edições anuais recentes demonstra como esse formato de projeto experimental permite a abordagem de temas que não encontram tanto espaço na imprensa tradicional. E mais: pode garantir aos seus autores a publicação de um livro-reportagem logo no início de suas carreiras. O livro vencedor de 2015, por exemplo, “Estamos aqui: histórias das vítimas do conflito no leste africano”, da então acadêmica da Universidade de Brasília, Jéssica Paula Prego, extrapolou as fronteiras brasileiras. A partir de uma viagem de dois meses pela Etiópia, Sudão do Sul e Uganda, a au-

Elaborada pelo professor do curso de Jornalismo da UFMA, campus de Imperatriz, Alexandre Zarate Maciel, que está cursando o doutorado em Comunicação na UFPE, a coluna Prosa Real vai trazer, todos os meses, uma perspectiva dos estudos acadêmicos sobre a área do livro-reportagem e também um olhar sobre o mercado editorial para esse tipo de produto, seus principais autores, títulos e a visão do leitor.


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Mídia Alternativa Jornalismo de oposição e resistência Por Xenya Bucchioni

Fonte: Daniel Apolinário

A luta contra a discriminação das mulheres negras é um tema presente na vida da Neusa Maria Pereira há 36 anos. Jornalista e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), Neusa integrou essa pauta ao jornalismo desde cedo, ainda na época da faculdade, quando decidiu levar um texto de sua autoria ao grupo responsável pelo jornal alternativo Versus, editado na capital paulista. Publicado sob o título “Em defesa da dignidade das mulheres negras em uma sociedade racista” o artigo trazia outros temperos ao clássico pensamento de esquerda. Gênero, raça e classe, combinados ao enfoque na mulher negra, deram voz e vez aos parágrafos escritos pela jornalista: “A mulher negra pertence a uma das minorias raciais mais cruelmente vitimadas pelos castigos da divisão da sociedade em classe. Esta divisão é a maior responsável pela campanha da difamação sofrida pela mulher negra, considerada pelos representantes desta sociedade de classes como objeto sexual de consumo. Há muito que nós, afro-brasileiros, estamos lutando para apagar esta mancha original e sair do lugar onde nos colocaram”. Com o artigo, nascia a seção Afro-Latino-América dedicada a contar e registrar a história e a memória do Brasil negro. Nesta entrevista à coluna Mídia Alternativa, Neusa compartilha um pouco dessa trajetória.

Na década de 1970, você passou de estudante à recém formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero enquanto o país vivia uma ditadura. Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua vida naquele momento e a chegada no jornal alternativo Versus. Em 1977, quando cheguei no Versus, estava formada há dois anos. Eu tinha sido foca na Folha de S. Paulo e àquilo me marcou muito. Lembro de sair para reportagens com alguns jornalistas considerados “top” para ver como era o jornalismo e, também,

de ter conhecido o Claudio Abramo. Acontece que sempre precisei trabalhar, meu pai era funcionário público e minha mãe tinha morrido. Eu morava com a minha avó e não tinha como continuar na Folha trabalhando de graça. Precisei sair. Com ajuda das amigas de faculdade, arrumei um trabalho no Diário Popular que, depois, virou o Diário de S. Paulo. Fiquei lá um tempo, mas quando descobriram que eu ainda estava na faculdade fui mandada embora [à época, o estágio era proibido por lei]. Depois, fui trabalhar na revisão do Diário do Comércio apenas meio período, pela manhã. Nessa época, os jornais que eu mais lia eram a Folha e o Jornal da Tarde, que, para mim, era o máximo, uma revolução em termos de conteúdo, fotografia e redação. Sempre gostei de escrever muito, levava muita “cacetada” para seguir o “quem, como, onde”, então eu adorava o Jornal da Tarde porque ele parecia um livro e adorava os textos do Marcão [do jornalista Marcos Faerman, um dos fundadores de Versus]. O Marcão pegava um assunto e desdobrava em várias facetas, sacava a personalidade do entrevistado, era outra coisa. Cheguei a conclusão que fui parar no Versus por causa do Jornal da Tarde. Existiam muitos jornais de esquerda, mas nessa linha mais literária com um olhar sobre a cultura só o Versus. Então eu resolvi ir até lá. Fiz um texto falando sobre a discriminação da mulher negra e fui. Onde mais eu conseguiria publicar esse texto? Em lugar nenhum. [risos]. E como foi a receptividade ao texto? Você teve alguma dificuldade no alinhamento com as ideias e a linguagem proposta pelo Versus?


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Mostrei o texto para o Matico [ex-editor de Versus], ele olhou e disse que ia submeter aos outros editores para ver se era compatível com o jornal. Passaram uns dias, eu voltei, eles gostaram e aí eu fui ficando. Eu ia lá toda tarde para ver o que eles estavam discutindo, como se relacionavam, ficava acompanhando até para decidir se eu devia ficar porque a redação era um reduto muito masculino. Só eu e a Rosa Gauditano, que era fotógrafa, ficávamos mais tempo por lá. Depois soube que o Marcão já achava que era o momento de trazer a questão dos negros para dentro do jornal. Ele e outro amigo meu, o Oswaldo Camargo, também do Jornal da Tarde, tinham conversado sobre isso inicialmente com a ideia de abrir espaço no Jornal da Tarde. Eu cheguei nessa coincidência e fui a primeira negra no Versus, fiquei circulando e fui entendo as minhas falhas intelectuais e de construção de texto. Quando entrei, vi que não sabia nada de jornalismo. O conteúdo da faculdade era fora da realidade e de direita. Era ditadura, então não tinha discussão política e cultural. Eu lia, escrevia e os professores achavam maravilhoso. Aí fui para o jornal e vi que não escrevia nada [gargalhadas]. Eu aprendi no Versus. Foi lá que tive uma base de leitura, principalmente sobre a vertente de discussão racial, e entrei em contato com Frantz Fanon, Samora Machel, Angela Davis, Richard Wright, Agostinho Neto. Ainda pensando na tal linguagem jornalística, como você a percebia naquele momento? Havia semelhanças com o que vemos hoje? O discurso da objetividade já existia. Na faculdade, lembro de exercícios para encontrar nos textos literários “o que, quem, quando, onde e porquê” [referência à regra do lead, geralmente utilizada no primeiro parágrafo dos textos jornalísticos]. E faziam a gente reescrever. Como o Versus era um jornal muito politizado, intelectualizado, informativo e jornalístico, a gente misturava todos esses ingredientes. Para mim, era jornalismo literário o que fazíamos. Retomando a questão negra, como foi a formação da seção Afro-Latino-América? Eles perguntaram se eu tinha outros amigos jornalistas negros e nos deram as quatro últimas páginas. Então eu chamei o Hamilton Bernardes Cardoso, que eu conhecia da rua, de outros eventos, e o Jamu Minka, que era da USP e a coisa foi acontecendo. Em princípio o Hamilton não queria ir, achava que os brancos não iriam dar espaço para a gente fazer o que queria, mas ele era muito aberto e aceitou. Aí virou ídolo dentro do Versus. O pessoal

não conhecia nada de negritude, não sabia nada do que estava acontecendo no mundo negro. A gente era mais presente nessa questão, éramos discriminados e diferenciados por já sermos de esquerda. E porquê de esquerda? Porque a direita nos discriminava. Devido ao preconceito não tinha muito jornal para trabalhar, a gente sofria até porque o jornalismo é uma profissão elitista, mexe com a escrita, a fala, o pensar. No imaginário do branco, o negro não sabe fazer isso, não tem credibilidade. Até hoje não vemos negros fazendo comentário político para falar sobre o que está acontecendo na Grécia ou no Brasil. Mesmo quando é para falar do próprio negro ainda chamam muitos antropólogos, sociólogos brancos e de direita. Salvo raras exceções se vê o contrário. Como era a dinâmica do grupo que tocava a seção dentro do jornal? Tinha muito para falar, contar e aprender. Mesmo que quiséssemos meter o bedelho na outra parte do jornal não dava tempo. Era bastante leitura para fazer um bom trabalho. Não tinha paternalismo nenhum, as páginas da Afro-Latina-América tinham que estar à altura do Versus. Nós escolhíamos as pautas e discutíamos junto com eles para ver se alinhava com o resto, e acabávamos não palpitando no resto porque a gente estava mais interessado em mostrar o nosso trabalho, o que estava sendo feito nas periferias, os nossos textos, os escritores angolanos, moçambicanos, a revolução cubana. Era muita coisa para pensar, colocar no jornal e discutir. Eu lia muito sobre o movimento negro [norte] americano para conhecer e ver como eles agiam frente ao racismo. Li Martin Luther King, Malcom X, James Baldwin e ficava dosando como adaptar esses pensamentos nas nossas matérias. Era complicado porque, acima de tudo, o texto tinha que estar bem escrito. Além de jornalista, a gente era militante tanto que foi dentro do Versus que surgiu o Movimento Negro Unificado. E tinha que ser, fazer o trabalho de conscientizar a comunidade negra sem estar longe dela porque ela que te alimenta, entende? Escrita pela jornalista Xenya Bucchioni, doutoranda em Comunicação na UFPE e fundadora do Mezclador, estúdio de cultura contemporânea desenhado para realizar projetos de impacto social, a coluna Mídia Alternativa aborda a produção jornalística feita à margem dos veículos tradicionais. Mensalmente, o espaço apresentará um raio-x das publicações alternativas marcantes na história do jornalismo e do país, além de entrevistas e debates.


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No Balanço da Rede Jornalismo em tempos conectados Por Ivo Henrique Dantas

Portas de entrada ou currais para o usuário?

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e, por um lado, no início da web, os portais tinham a função de direcionar a navegação do usuário, hoje, a necessidade de manter os usuários em seus domínios acaba por talhar a utilização das potencialidades próprias do webjornalismo, inclusive com a indicação de links para dentro do próprio portal, ignorando, muitas vezes, links externos. Em seu manifesto “Morte aos Portais”, Lemos (2000) classifica os portais como currais que aprisionam o leitor. Para ele, embora tenham a missão de apontar os conteúdos ditos importantes, os portais acabam retirando a possibilidade da livre navegação pelo universo virtual. Assim, apesar da possibilidade dada de navegar em outros mundos – possibilidade incluída inclusive na conotação do termo ‘portal’ –, o que acontece não é a abertura ao imprevisível, mas o fechamento no mesmo, na repetição e segurança da certeza. Diante da afirmação de Lemos, cabe refletirmos sobre a formação dos portais brasileiros para entendermos de que forma esse processo acabou por gerar “currais” ao invés de propriamente portas de entrada para o universo online. Até por ser um formato originado ainda na Web 1.0 – apesar de ter evoluído com a inclusão de novas ferramentas de interatividade, por exemplo, – os portais representam uma época da história da mídia classificada

por Ramonet (2012) como “mídias-sol”. Esse tipo de mídia se encontra no centro do sistema de transmissão, determinando a “gravitação universal da comunicação e da informação em torno delas” (RAMONET, 2012, p. 27). No início da internet em seu formato World Wide Web (www) os usuários pagavam altos valores para ter acesso à rede. Através dos provedores de acesso, na época, discado, os usuários tinham acesso a todo o conteúdo online. Todavia, principalmente antes do surgimento do Google, o maior problema era navegar. Encontrar o que se procurava não era tão simples quanto atualmente. Assim, surgiram os primeiros portais. Normalmente ligados a empresas do ramo tecnológico e de telefonia. Ainda no início da década de 1990, a America Online (AOL) foi um dos primeiros provedores de acesso. O termo ‘portal’ vem do fato de que esses sites eram o meio de entrada para o ambiente online. Sem ter uma boa oferta de buscadores, o usuário se via navegando através dos endereços associados ao provedor de acesso. Com a evolução da internet, as empresas de comunicação também passaram a observar com mais atenção a possibilidade de oferecer serviços para seus usuários. Mas esse passo não foi dado da noite para o dia. Durante a Web 1.0, os principais jornais brasileiros começaram a dar os primeiros passos online com a simples transposição dos conteúdos de suas edições impressas. Assim como ocorreu com o rádio e a televisão, os primeiros movimentos do jornalismo na inter-


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net estavam baseados nas formas utilizadas em outros meios. Essa transposição consistia na simples divulgação online do conteúdo publicado – e concebido originalmente para outras mídias. Dessa forma, surgiram os primeiros sites de notícias. Muitas das grandes empresas de mídia aproveitaram o momento de êxtase causado pela expansão da internet para expandir sua área de atuação. Apareceram, assim, os primeiros portais jornalísticos. Neles, a informação adquire um papel central na arquitetura do site. Grandes conglomerados de empresas de mídia aproveitaram o modelo para dar mais destaque e integração aos variados veículos de seus sistemas. “Jornais, rádios e emissoras de TV começaram a migrar para um único endereço na internet todos os seus conteúdos. A maioria oferece material mais aprofundado que aquele disponibilizado nos veículos tradicionais” (SANTOS, 2002, p. 40). Apesar de não ser fácil a distinção, por também serem sites, os portais de notícias devem ser distinguidos dos sites noticiosos. Silva Jr. (2000) aponta três fatores de diferenciação entre esses tipos. 1 - agregação de serviços, não necessariamente relacionados ao conteúdo jornalístico; 2 - a inter-relação estabelecida com sites de conteúdos diversos, no sentido de fornecimento de informações jornalísticas, como a disponibilização de notícias produzidas por agências (Nesse ponto podemos incluir várias das parcerias realizadas com revistas, sites segmentados); 3 - a convergência, em alguns casos, do serviço de provedor de acesso e conteúdo. No Brasil, destacam-se dois portais como marcos históricos. O primeiro, em 1996, Universo Online (UOL), que até hoje é um dos principais portais nacionais, surgiu de uma iniciativa do Grupo Folha e fornecia acesso pago para seus assinantes. O IG (sigla para Internet Group), na virada do ano 2000, foi criado com a intenção de oferecer um provedor de internet de forma gratuita para o brasileiro. Na época de seu lançamento, IG era vendido ao público como sendo a abreviação de Internet Grátis. Importante perceber que, enquanto o UOL era de uma empresa midiática, proprietária do Jornal Folha de S. Paulo, o IG surgiu de um grupo que não tinha ligação com a imprensa tradicional. Porém, aos poucos, a noção de que o conteúdo era essencial para manter o usuário conectado ao portal (SANTOS, 2002) levou o grupo a investir cada vez mais no projeto do jornal online Último Segundo, que passou, com o tempo, a ter uma redação estruturada para oferecer conteúdo jornalístico exclusivo para o meio. Influenciado diretamente pela história dos portais no Brasil, que se desenvolveram, em sua maioria, através do oferecimento de conteúdos jornalísticos, o IG passou a disputar a liderança da audiência com a UOL, alternando sistematicamente a primeira posição

no ranking dos portais nacionais. Por necessitar de uma variedade maior de conteúdos, inclusive jornalísticos, para satisfazer as expectativas de usuários – e, consequentemente, dos anunciantes – os portais noticiosos acabaram formando grandes redações no início de sua trajetória no final da década de 1990. Até mesmo pela crença, à época, de que os negócios de empresas ligadas ao universo online iriam ter um grande crescimento (uma das razões da “bolha .Com” discutida anteriormente) as primeiras experiências de portais brasileiros contavam com “profissionais com altos salários, aumento de equipes” (PRADO, 2011, p. 31). Todavia, não demorou muito para que, com o estouro da bolha, a realidade chegasse também às redações, que “foram ficando mais enxutas, com cortes significativos de profissionais, principalmente os que possuíam salários altos, [...] que foram substituídos por jornalistas ganhando bem menos” (PRADO, 2011, p. 31). Dessa forma, por já possuírem uma certa experiência na construção de notícias em ‘tempo real’, pela natureza de seus serviços, as agências de notícias acabaram por dominar o noticiário dos principais portais de notícias brasileiros (FERRARI, 2003). Essa estrutura da organização jornalística dos portais não é uma exclusividade brasileira. Kim e Shoemaker (2007) argumentam que os portais da Coréia do Sul acabam tendo que “re-mediar” conteúdos, mais até do que criar. Pode-se dizer que os portais têm dupla função empresarial. Por um lado oferecem conteúdo amplo para seus usuários – seja por meio de seus conteúdos próprios ou pela re-mediação – e, por outro, pelo fato de conseguir manter os internautas sob seus domínios. Ao oferecer notícias, serviços e conteúdos de parceiros, a permanência do internauta acaba aumentando o valor dos anúncios. Observando essas características dos portais, fica claro que o fato de agirem como currais decorre principalmente de dois aspectos. Primeiramente, os portais são - em sua maioria - projetos de cunho empresarial. Ora, desse modo, o lucro acaba por ser responsável por determinar um percentual considerável das práticas jornalísiticas. Dentre elas, cabe destacar as redações enxutas e a necessidade de manter o leitor dentro do endereço. Assim, as potencialdiades acabam sendo tolhidas em nome de políticas de geração de lucros. Escrita pelo jornalista Ivo Henrique Dantas, doutorando em Comunicação na UFPE, a coluna No Balanço da Rede aborda o cenário das mídias digitais, com foco no debate acerca dos impactos na produção jornalística voltada para o meio online e o papel do webjornalismo na construção social da realidade.


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Jornalismo e Política Uma relação polêmica e paradoxal Fonte: Montagem

Por Laís Ferreira

O impeachment e o “apocalipse do jornalismo”

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termo apocalipse vem de uma palavra grega que significa exposição ou revelação, e relaciona-se aos escritos antigos, nomeando uma passagem da bíblia que se destina a revelar questões sobre o fim do mundo. Pode ainda significar obra ou discurso obscuro, aterrorizante. Independente do sentido escolhido, o uso desse termo para qualificar o status do jornalismo brasileiro no que se refere à cobertura do impeachment denota o quão obscuro é seu comportamento e o quanto de revelação ele nos traz sobre o entrelaçamento da mídia com o poder político e econômico. O jornalista Mario Vitor Santos, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 18 de maio, sob o título O apocalipse do jornalismo, afirma que os “veículos de mídia cederam ao populismo que inflama os ódios de classe e leva o país a vivenciar mais um golpe contra as instituições”. Não é à toa que jornalistas, estudiosos e até leitores mais atentos falam em partidarismo dos veículos de mídia na cobertura sobre o impeachment. A expressão golpe midiático ganha corpo ao refletirmos sobre a legitimidade desse processo construída pela mídia a

partir da elaboração de sentidos favoráveis a tal manobra casuística junto à opinião pública. Em editorial publicado em janeiro no site da Carta Capital, o jornalista Mino Carta já criticava o posicionamento dos meios de comunicação: “Falta o respeito à verdade factual e tudo é servido sob forma de acusação em falas e textos elaborados com transparente má-fé. Na sua forma e conteúdo, a mídia nativa age como um partido político” (Carta capital, 2016). Em acréscimo à fala de Carta, diríamos que a mídia agiu como um partido da coalizão oposicionista. Diferentemente dos veículos brasileiros, a mídia internacional acendeu os holofotes para questões que vão além da votação do processo na Câmara dos Deputados, e em alguns momentos mudou seus discursos sobre o impeachment: “Se inicialmente a imprensa internacional acompanhava a ode aos protestos pró-impeachment criada pelos grandes conglomerados da imprensa nacional, houve uma meia-volta significativa”, escreveu a jornalista Camila Nóbrega, integrante do coletivo Intervozes. A mudança de tom da cobertura brasileira se deu após Michel Temer assumir o posto de presidente interino, devido ao afastamento de Dilma Roussef durante o processo de impeachment. Mesmo com diversas denúncias advindas de delações premiadas que tiveram como alvo ministros do governo do peemedebista, o Jornal Nacional, da TV Globo, preservou o nome de Temer nas matérias que abordavam tal temática. Vale


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lembrar que esse mesmo jornal relacionou o nome de Dilma nas coberturas que fez sobre as investigações da operação Lava-Jato cujo investigado não era a presidenta, mas o ex-presidente Lula.

Um retorno a 1950?

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jornalista e ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Brasil, Franklin Martins, em seu livro Jornalismo Político (Editora Contexto, 2005, p. 13), fez um levantamento desse segmento jornalístico, afirmando que “hoje em dia, a maior preocupação da cobertura é informar o leitor, e não convencê-lo a adotar determinadas ideias”. Para embasar tal afirmação, Martins fez uma comparação entre as manchetes dos principais jornais brasileiros em 1950 e nos anos 2000, e como resultado certifica que no século XX os jornais “entraram em campanha” e em 2002 a imprensa “cobriu a campanha”. Ele segue sua narrativa afirmando que, algumas décadas atrás, os jornais tinham uma posição quase partidária no tocante à cobertura política, com uma narrativa resultante de texto jornalístico acrescido de opinião, e que nos dias atuais “a grande imprensa, de modo geral, tem a preocupação de separar nitidamente a informação da opinião na cobertura política” (MARTINS, 2005, p. 17). Quatorze anos após as eleições que serviram de corpus para a análise de Martins, é possível afirmar que esse contraste entre as coberturas não se apresenta em 2016. É certo que o objeto aqui analisado não se trata de uma corrida eleitoral direta, mas de um processo posterior à eleição presidencial de 2014 que postergou o clima de rivalidade, contribuindo para a segregação instaurada no momento das urnas e construindo uma espécie de terceiro turno das eleições disputado entre coxinhas e petralhas. Ao olhar as coberturas dos principais veículos de comunicação acerca do impeachment e seu contexto, o leitor/espectador mais atento perceberá que a separação entre informação e opinião é, em sua maioria, inexistente. A mídia transformou-se em cabo eleitoral de um projeto de governo que não obteve êxito na última eleição presidencial, elaborando narrativas tendenciosas que exacerbavam questões negativas para o então governo de Dilma e camuflavam as mesmas questões que diziam respeito à oposição. O papel da mídia também foi determinante para as manifestações de rua que pediam a destituição do governo do PT, funcionando como uma espécie de panfleto de propaganda, cujo enredo começou a ser elaborado dias antes dos protestos, e teve seu ápice nas várias transmissões ao vivo durante a programação e nas fotos de capa dos

jornais impressos, que ressoaram o “caráter pacífico” das mobilizações e o seu incansável combate à “corrupção do governo de Dilma”. Essa modalização discursiva é uma clara estratégia de defesa de interesses particulares, e joga ao relento os princípios do fazer jornalístico. Vale ressaltar que a presença de várias fontes ou mesmo a veiculação de uma matéria favorável ao governo ou desfavorável à oposição, não classificam a cobertura midiática desse processo como isenta de interesses ou neutra. A presença dessas estratégias que denotam um certo grau de imparcialidade podem, na prática, não significar o que pretendem. O teórico Denis McQuail, citado em texto de Robert Hackett, sugere algumas manifestações de parcialidade, dentre as quais elenca “a utilização tendenciosa de factos e comentários, sem qualquer declaração explícita de favoritismo; o uso de linguagem que dá outra cor a um relato de outro modo factual e transmitindo um implícito mas claro juízo de valor” (MCQUAIL apud HACKETT, 1999, p.104), entre outras. Esses juízos de valor são materializados na escolha das fontes, das imagens, das manchetes, que compõem narrativas capazes de impulsionar determinadas versões de um mesmo fato, como nas capas de jornais que ilustram esse texto. A narrativa contada pela mídia, com raríssimas exceções, nos encaminha para a mesma versão da história. Esse modo de fazer jornalismo, que alguns estudiosos afirmam ser o “ápice da especulação e da falta de profissionalismo” (TORRES, 2016), expressa o lado mais sombrio e, ao mesmo tempo, poderoso dos veículos de comunicação. A mídia, que tem como um de seus princípios ser instrumento de informação, levando conhecimento e contribuindo para a diversificação de conceitos, e, consequentemente, para a ampliação do debate público acerca de determinada questão, está andando na contramão. Passados 66 anos, a tecnologia contribuiu para a modificação da vida política e das formas de participação social e é uma importante aliada na produção e veiculação da notícia. Entretanto, apesar de toda mudança de linguagem, o jornalismo político brasileiro, no que se refere a muitos aspectos da cobertura do impeachment, parece ter regredido à década de 50. Escrita pela jornalista Laís Ferreira, mestranda em comunicação pela UFPE, a coluna Jornalismo e Política em Pauta irá abordar questões relacionadas a esses dois campos, analisando seus comportamentos e debatendo fatos do contexto político sob a ótica da comunicação.


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Jornalismo Ambiental Sociedade, natureza e mudanças climáticas Por Robério Daniel da Silva Coutinho

Fonte: Divulgação

Notícia: vozes e versões sobre a mudança do clima

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sociedade moderna mudou muito em comparação à época pré-capitalista quando o jornalismo conseguiu modificar o sistema político monárquico através da força comunicativa da esfera pública em favor da integração social (HARBEMAS, 1984). Hoje, todas as esferas da sociedade, a exemplo da econômica, da política e da educacional, estão profundamente relacionadas com a mídia que tem cada vez mais poder (THOMPSON, 1995). E, guardadas as devidas proporções e complexidades, tanto da imprensa quanto da sociedade onde a própria imprensa está inserida, o jornalismo continua sendo a esfera central e estratégica da sociedade que pode contribuir no fortalecimento da democracia e da cidadania. Porém, apenas quando a representação noticiosa da realidade social (notícia) contribui de forma qualificada na formação de uma opinião

e vontade públicas representativas do conjunto da sociedade. A qualidade pode ser verificada a partir das funções sociais do jornalismo. Uma delas é a “seleção de um tema e a sua colocação no centro da atenção pública” (ALSINA, 2009, p. 192). Esta etapa da produção noticiosa precisa atender aos interesses da sociedade com maior alcance e interesse social, em destaque à periferia da estrutura de poder (HALL et al, 1999). A escolha do tema é relevante pois “o não dito tem tanta força quando o dito” (LAGO e BENETTI, 2007 p. 115). Isto porque, como retrata o Teorema de Thomas, tudo que não se acredita real (quando não é dito), mesmo que seja real, deixa de produzir consequências reais, articulando um jogo ideológico de simulação (do que não existe) e dissimulação (do que efetivamente existe). A ideologia aqui abordada se refere ao emprego (a prática) de formas simbólicas (notícia) para criar e reproduzir relações de dominação (THOMPSON, 1995). E a palavra (notícia) é ideológica por excelência (BAKHTIN, 2006). Eis a relevância material (na vida real) e consequências de dar visibilidade ou não a um tema na notícia. Porém, a seleção do tema não é capaz de direcionar universalmente o público a pensar conforme a abordagem da notícia. Mas isto não abstrai a centralidade e o poder estratégico da representação noticiosa da realidade social na influência na formação dos sentidos do público sobre os ocorridos descritos por ela jornalisticamente, agendando tal discussão do público. A seleção das fontes e suas versões publicizadas na notícia são outros elementos que podem conferir a qualidade pública da comunicação. E é fundamental porque “Jornalistas e fontes formam um círculo hermenêutico cujo entendimento tem por missão a articulação de interesses comuns” (SANTOS, 1997, p. 169) para serem difundidos ao público, auxiliando, quando possui maior “diversidade de vozes e versões” de atores e grupos sociais (HERMAN, 1999), para que este público interprete e escolha as opções postas diante da realidade vivida. Esta “diversidade” é que garante visibilidade social do tema abordado (e do problema representado) a partir da perspectiva posta pela(s) fonte(s) jornalística(s) com as suas versões. Evidencia-se então que a diversidade dos atores e grupos distintos da sociedade e suas versões selecionadas na notícia é um relevante critério analítico para aferir a qualidade comunicativa. Por outro lado, negar na notícia tais vozes e versões plurais interessadas/envolvidas com o tema seleciona-


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do criam, por sua vez, barreiras comunicacionais (“o não dito”) postas à visibilidade pública e política sobre a questão. Portanto, marginalizar (limitar ou excluir) esta diversidade produz um efeito social que pode limitar na formação da opinião e da vontade da esfera pública sobre a abordagem posta, contrariando a função social jornalística. Dentro de todo contexto, é válida socialmente a premissa de Coutinho (2014) quando aponta que urge representar noticiosamente na realidade social a mudança climática (MC). O fenômeno é considerado pela ONU o problema maior e mais difícil e urgente da atualidade no mundo (PNUD, 2007). É assim considerado porque seus problemas e desafios são políticos e materiais, amplificados diante do hegemônico modelo economicista do ‘desenvolvimento’ humano. Os seus impactos ameaçam setores socioeconômicos e biofísicos do planeta (PBMC, 2012), já descritos na edição anterior da Revista, com maior ameaça sobre os pobres. Portanto, reveste-se sobre o tema da MC relevância jornalística que demanda a seleção noticiosa de modo frequente e amplo, com vasta visibilidade às plurais vozes/versões sociais.

‘Comunicação sistematicamente distorcida’ da mudança do clima

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qualidade da notícia sobre a mudança do clima (MC), tema com vários problemas socioambientais, econômicos e políticos do mundo, carece de ser objeto a ser perseguido pelo jornalismo, a fim de atender sua função social ao dar visibilidade pública a tal tema ‘urgente, maior e mais difícil no planeta’ (ONU). Sem isso, amplia-se a invisibilidade pública e política do tema e de seus problemas e demandas sociais por respostas, auxiliando na manutenção e no aumento desta problemática. Somente selecionando o tema e os atores e grupos plurais da sociedade envolvidos com tais problemas ligados à questão, a notícia contribui neste processo de constituição de sentido social, auxiliando nesta visibilidade necessária. Mas, aos deixá-los invisíveis na notícia, deixam-se também os seus problemas e respostas específicas. Ao final deste processo de significação social por meio da notícia, estes invisíveis são marginalizados também das deliberações públicas e políticas da sociedade, condição esta que Carvalho (2011) ao estudar os média e a mudança climática classifica este mecanismo como a constituição simbólica e material de grande problema socioambiental, pois imobiliza respostas necessárias. Todavia, a pluralidade de temas e os interesses dos diversos grupos da esfera pública sobre eles são reais e pressionam a agenda jornalística e a qualidade do que é publicado, com efeito cotidiano na (in)visibilidade social

desses assuntos e as vozes/versões que precisam ser problematizadas publicamente em busca de respostas políticas. Portanto, o habitual processo técnico jornalístico da seleção diária de pautas, fontes e versões para a construção da notícia, que ocorre de modo sutil e sofisticado (ALSINA, 2009), carece de se mais problematizado. Ao analisar de forma crítica a prática profissional da construção da notícia, observa-se um mecanismo engenhoso que funciona como tipos especiais de ‘barreiras de visibilidade comunicacional’, porque, através do critério da seleção técnica, limitam de forma sistemática temas e marginalizam específicas vozes/versões sociais da notícia, distorcendo a comunicação (HABERMAS, 1997). A consequência deste tipo de comunicação acaba por deixar a margem tais problemas das deliberações públicas e políticas da sociedade, haja vista que o “não dito”, limita a percepção e problematização da sociedade e assim as respostas políticas sobre o tema. Por analogia, barreiras podem ser vistas ainda quando o tema é pautado, mas de forma descontextualizada (distante da vida cotidiana) e reducionista (totalizam parte do problema). Nas pautas sobre a MC, por exemplo, verifica-se a sistemática exclusão e marginalização dos problemas socioeconômicos e biofísicos vinculados e ainda desatrelados do aspecto sócio-histórico, ambiental, político, econômico e etc. Observa-se a sistemática exclusão e limitação também das vozes/versões sociais não hegemônicas, suas implicações, estratégias, ações e leis para a mitigação e adaptação diante do problema. A comunicação sistematicamente distorcida reduz a possibilidade do entendimento qualificado das pessoas sobre a questão, contribuindo para marginalizar a identificação social da gravidade do problema para a vida da própria sociedade, o que, consequentemente, reduz-se as exigências das populações para saná-lo. Sem opinião ‘pública qualificada’, reduz-se a exigência de atitudes também qualificadas do Estado para enfrentar politicamente os desafios quando identificados, problematizados e dramatizados pela sociedade. Os jovens brasileiros, por exemplo, não reconhecem a tamanha gravidade da MC (IPEA, 2013). Com isso, reduzem-se as chances para adoção de leis e ações de mitigação e adaptação para reduzir os problemas. Este espaço apresenta abordagens críticas e interdisciplinares mensais relativas à produção da representação noticiosa da realidade social (jornalismo) sobre as Mudanças Climáticas e a sua influência na constituição do sentido social sobre a questão. Escrito pelo jornalista Robério Coutinho, mestre em Comunicação pela UFPE com formação básica em Meteorologia pelo INPE/CPTEC, que foi assessor de imprensa do Laboratório de Meteorologia de PE, bolsista pesquisador da Rede Brasileira de Mudança Climática e é autor de livros sobre o temática.


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Poder Plural

Política contemporânea e Internet Fonte: Carol Carvalho

Por Rakel de Castro

Patrimonialismo na política: A Casa-Grande agora é religiosa

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iz Gilberto Freyre, em seu célebre Casa-Grande & Senzala (2003), que a colonização do Brasil se deu de maneira aristocrática mais do que em qualquer outra parte da América. Mesmo o português se antecipando aos demais povos europeus na questão da burguesia, quando esta chega precocemente ao Brasil sofre um retrocesso influenciado em boa parte pelas condições físicas da terra e da cultura dos nativos; e povo colonizador experimenta junto ao colonizado características fortes do feudalismo em pleno século XVI, revivido principalmente através dos métodos aristocráticos. Freyre (2003, p. 267) vai além e afirma: “Aristocrático, patriarcal e escravocrata”. Devido às grandes extensões das terras brasileiras, o colonizador

teve mais posse sobre terras e sobre o número de homens escravizados aqui do que em qualquer outro lugar da América. E para exemplificar parte desse processo, o autor pernambucano relata como o poder da igreja bem presente nas terras lusas foi ressignificado nas terras brasilis, transformando-se no poder dos Senhores de Engenho. Dessa forma, a expressão popular “vá se queixar ao bispo”, hoje assumindo um caráter mais irônico, teria origem na tradição portuguesa que conferia às instituições eclesiásticas, um prestígio maior até que às civis. Esgotando-se todos os apelos à polícia, ao governo e/ou à justiça, sobreviviam ainda, como se em última instância, a antiga ideia do poder de Deus, materializado no poder da igreja. Já no Brasil, conforme Gilberto Freyre (2003), esse prestígio não seria tão grande e não teria tanta força. As condições de colonização criadas pelo sistema político das capitanias hereditárias e mantidas pelo sistema econômico das Sesmarias e grande lavoura (condições francamente feudais), acentuavam de superior aos governantes e à justiça del Rei o furto à vigilância ou à ação da justiça pelos grandes proprietários de engenho; e não pelas catedrais e pelos mosteiros. Criminoso ou escravo fugido que se apadrinhasse com um senhor de engenho livrava-se na certa das iras da justiça ou da polícia. Mesmo que passasse preso diante da Casa-Grande bastava gritar: “– Valha-me, seu coronel Fulano”, e agarrar-se à porteira ou a um dos moirões da cerca. Semelhante aos outros tempos idos, em Portugal, nos quais, refugiando-se à sombra da igreja, o criminoso conseguiria escapar do rigor da justiça del Rei. Entretanto, parece que o Estado brasileiro ou voltou a viver à sombra do poder da igreja que fazia lógica na Portugal de outrora, ou isso sempre esteve latente nas terras de cá e explodiu em sua melhor performance, apesar da laicidade estatal prevista na Constituição Federal de 1988, quando dos últimos acontecimentos da crise política que assolou o Brasil (desde as eleições presidenciais de 2014, mas que tomou proporções muito maiores neste ano de 2016, quando da aceitabilidade do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef pela Câmara Federal). Antes da última eleição de Eduardo Cunha para deputado federal (em 2014); antes, portanto, do


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então vice-presidente da República assumir interinamente a Presidência da República, Michel Temer (que compartilha a mesma filiação partidária do então deputado: PMDB), entregou as missões difíceis pelas quais o Brasil deveria passar à fé de Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara Federal e atualmente afastado da função pública porque responde como réu do Supremo Tribunal Federal à processos que o acusam de corrupção e lavagem de dinheiro). Isso aconteceu em um encontro de Michel Temer enquanto vice-presidente com religiosos da Assembleia de Deus (igreja evangélica frequentada por Eduardo Cunha). “Eu vou dar uma palavra, mais um testemunho – por ele autorizado – em relação ao deputado Eduardo Cunha. É absolutamente verdadeiro tudo aquilo que ele disse, e por isso eu disse que as suas palavras são críveis, são acreditáveis. E eu tenho em Eduardo Cunha um auxílio extraordinário na Câmara Federal, ninguém desconhece, como o bispo Manoel Ferreira salientou, as suas qualidades. Se você quiser dar uma tarefa das mais complicadas para o deputado Eduardo Cunha, ele as simplifica, porque trabalha muito, porque certa e seguramente também quando ele se manifesta também está presente a sua fé, e a fé é o que mobiliza as pessoas. Então, as tarefas difíceis eu entrego, como entregava, ao deputado Eduardo Cunha, de modo que eu fico muito feliz em saber que toda a comunidade aqui acaba por apoiá-lo e sabe-se que levará ao Congresso Nacional uma figura que adequadamente representa toda esta fé que emana desta igreja e desta assembleia”. Michel Temer dá através de seu discurso o exemplo mais cabal de patrimonialismo, do personalismo e da plasticidade (HOLANDA, 1997; SOUZA, 2000): da não superação das relações familiares quando transpostas para as relações públicas; de tomar o que é patrimônio público (a representatividade estatal do povo brasileiro: o papel de Vice-Presidente) como se fosse patrimônio privado (entregar as tarefas enquanto Vice-Presidente à profissão de fé e, portanto, particular, de Eduardo Cunha). Neste caso, ele em sua função pública conta com o apoio extraordinário de um deputado na Câmara Federal. Até aí tudo bem. O que torna a relação confusa é ele devolver esse apoio em um discurso dentro de uma igreja quando o papel que ele exerceria enquanto representante do Estado brasileiro deveria ser laico. O duvidoso está na tentativa de capitalizar a profissão de fé das pessoas (manifestação íntima, privada) em voto durante uma campanha eleitoral (manifestação pública). Não obstante, o patrimonialismo foi pensado teoricamente em seus primeiros ensaios por Max Weber (1999; 1982) dentro das relações patriarcais. Não seria então estapafúrdia a ideia de se con-

siderar um Estado Brasileiro que ainda não superou as relações feudais da época da colonização: as relações aristocraticamente patriarcais. O que antes se unia à aristocracia e à escravidão para legitimar o poder dos senhores de engenhos, hoje veste uma nova roupagem, mas tão antiga quanto à primeira. As relações patriarcais, quando transpostas para a política, toma a verbalização de patrimonialismo, para Weber (1982). E, no contexto atual, isso parece sim ser uma retomada da legitimação do poder da igreja. Somem-se a este exemplo, na Constituição Federal de 1988, a ainda presença da criminalização do aborto, o conceito não inclusivo de “família” diante das novas demandas e formatos que a palavra em si carrega e o veto à distribuição de quites educacionais sobre igualdade de gêneros nas escolas. Ações estas viraram pautas do dia algumas vezes na Câmara dos Deputados Federais, sendo requeridas e debatidas suas mudanças. Entretanto, todos estes temas foram amplamente defendidos por setores religiosos que ocupam boa parte das cadeiras legislativas do Congresso Nacional, para que continuassem do mesmo jeito que estavam. Mesmo diante do forte apelo público manifestado especialmente na internet e contrário às decisões conservadoras, setores religiosos da bancada federal, munidos da fé em Deus, defenderam que o aborto continua sendo crime, “porque a vida só Deus pode dar e tirar”, “a vida que a mulher carrega em seu útero não seria dela”; desconsiderando assim os índices de mortes de mulheres que abortavam em clínicas clandestinas, os índices de saúde pública de outros países em que o aborto já é legalizado e a liberdade de escolha da mulher sobre seu próprio corpo. Poder-se-ia mesmo afirmar que na atual conjuntura política do Brasil, o patrimonialismo é também essencialmente religioso. Os donos da Casa-Grande, os senhores de engenhos agora respondem por outras alcunhas e denominações: as religiosas. E estes continuam tendo uma espécie de poder que se sobrepõe ou pelo menos é um fortemente influenciador dos rigores da lei da esfera civil. Escrita pela jornalista Rakel de Castro, doutoranda em Comunicação pela UFPE e em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior (UBI) / Portugal, a coluna Poder Plural aborda a análise política e sua relação com a internet feita à margem dos veículos tradicionais. Mensalmente, o espaço apresentará um Raio-X de temas debatidos no Brasil e/ou no mundo que se coadunem as questões de Participação política em sociedades democráticas e as novas formatações políticas no Brasil e no mundo.


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Na Tela da TV

Jornalismo, linguagem e representação social Fonte:Pixabay

Por Mariana Banja

O prazer de agradar aos deuses com sangue e o telejornalismo

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ecido começar esta coluna recorrendo ao significado da palavra sensacionalista, afinal a ideia neste mês é refletirmos um pouco sobre o universo comum entre o sensacionalismo, a violência e o espetáculo no telejornalismo. Por ironia, ao colocar no Google o verbete, recebo como primeiro resultado de busca o site Sensacionalista: um jornal isento de verdade. Para os que não sabem, o endereço é um sítio de humor, fundado em 2009. Oferece basicamente comicidade em formato de notícias, o que eles próprios chamam por “notícias fictícias”. Somente no Facebook, o produto possui cerca de 2,8 milhões de seguidores, um pouco menos que a presidente afastada do cargo, Dilma Rousseff, o que comprova a expressividade da audiência. Nota à parte, volto para a minha busca e adiciono ao termo ‘sensacionalista’ o nome ‘dicionário’. Como resposta, tenho os seguintes significados: caráter ou qualidade de sensacional; tendência a divulgar notícias exageradas ou que causem sensação; doutrina ou teoria de que todas as ideias são derivadas unicamente da sensação ou percepções dos sentidos. Aqui, abro outra janela para saber o que é sensacional e descubro que é aquilo que causa sensação, normalmente associada a uma surpresa positiva. Fala-se do maravilhoso, extraordinário, espetacular.

Se o sensacional é aquilo que causa sensação, o que seriam então as notícias sensacionalistas e o que elas buscam enquanto efeito de sentido? No campo de jornalismo, há uma série de definições sobre o que elas seriam. Na definição de Jaime Carlos Patias, “o jornalismo sensacionalista extrai do fato, da notícia, a sua carga emotiva e apelativa e a enaltece”. É uma espécie de notícia dentro da notícia. Ora, se as notícias por si só o são por possuírem intrinsecamente valor para tal, preenchendo aquilo que Traquina fala por critérios de noticiabilidade, por que razão haveriam ainda de ser sensacionais? Estamos diante da redundância de dupla força que explora o consumo pelo impacto, grotesco e imediato. Importante dizer que, antes de ter ganho os mais diversos meios de comunicação, o gênero sensacionalista surgiu na impressa escrita, desde os primórdios desta. De acordo com a história do jornalismo, é possível encontrar registro de folhetins sensacionalistas na Europa, exatamente no momento em que a impressão se difundia, com o advento da prensa. Especificamente com relação à televisão, o sensacionalismo tem relação direta com a expansão dos grandes conglomerados econômicos que incorporam também grupos de comunicação, nos Estados Unidos, na década de 80, do século passado. No Brasil, em linhas gerais, os programas seguem a forma precursora norte-americana. Segundo Patias, no fim da década de 1960, “um estilo de programa que retratava a miséria humana, conflitos familiares, histórias policialescas, prostitutas, homossexuais e mendigos começou a fazer muito sucesso”. O autor diz que há um tripé para o sensacionalismo: sexo, esporte e violência.


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A violência na tela da TV

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acques Wainberg, no livro Mídia e terror, apresenta dados interessantes sobre o espaço que a violência ocupa na televisão. “Já nos Estados Unidos estimativas afirmam que uma criança vê na televisão 3.000 atos de violência todos os anos (em especial assassinatos, agressões, tortura, assaltos e roubos). Nos anos de 1950, somente 15% da programação do horário nobre era violenta. Na metade da década de 1990 o percentual aumentou para 80%, e, curiosamente, os programas infantis eram mais violentos que o destinado ao público adulto (6 atos violentos por hora no horário nobre contra 26 no horário infantil de sábado e domingo). Antes de chegar ao ensino médio (high school) uma criança típica norte-americana terá assistido 100.000 atos de violência na televisão, 8.000 dos quais assassinatos”. Ainda de acordo com ele, “os assassinatos possuem ingredientes que são irresistíveis ao paladar da pauta jornalística, sempre sedenta de drama e emoção”. Em seu trabalho, relatou estudo que falava de fatores de noticiabilidade adicionais – os próprios valores-notícias que influíram na decisão de se incluir histórias violentas no noticiário. Entre eles, estavam aquelas em que havia bons personagens, este estando relacionado ao número alto de vítimas, à utilização de armas, à realização do crime no lugar do trabalho, ao fato de o crime ser inter-racial etc.

A narrativa sensacionalista

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omo preconiza os estudos em telejornalismo, o jornal na TV com perfil sensacionalista tem características específicas. “Um pouco de sensacionalismo pode até aparecer no telejornal sério, mas o gênero tem características que lhe são peculiares: o estilo, a linguagem chocante, o apelo emocional, a forma, a busca do fait divers, a duração das reportagens, o uso da teledramaturgia, da ficção… essas características são marcas que identificam sobremaneira o gênero popularesco”, diz Patias. Um dos aspectos mais explorados neste tipo de narrativa é o tempo em que os fatos são expostos. Ainda que o tempo presente seja o tempo da maioria das notícias no jornalismo, sobretudo pela ideia que este passa de atualidade e recenticidade, o telejornal sensacionalista usa e abusa dessa forma. Imagens são narradas do palco pelo apresentador, repórteres falam ao vivo do local dos acontecimentos, há helicópteros equipados com câmeras filmando o momento. Patias afirma que “o ritmo acelerado no recebimento e processamento de informações, em tempo real, em linha direta com os fatos, dá pouca margem para que o telespectador compreenda os acontecimentos. Mesmo

quando a ação transmitida é passada com relação ao presente do telespectador, ela é narrada como se tudo estivesse ocorrendo naquele momento”. Uma outra característica do gênero sensacionalista é descrever os crimes com riqueza de detalhes. São exploradas a repetição, seja do fato, de imagens, de entrevistas e, até mesmo, de comentários, que normalmente antecipam sentenças, as quais seriam apenas cabíveis ao poder judiciário. No texto sobre assassinatos, há, por exemplo, o interesse na fala do autor do crime.

A notícia como espetáculo

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s notícias sensacionalistas, sobretudo as da TV, se incluem no rol daquilo que Guy Debord falou em sua teoria sobre a sociedade do espetáculo. Para o autor, a imprensa vem a colaborar para o triunfo dessa forma de sociedade [espetacular] quando não esclarece e não aprofunda aspectos sobre a dinâmica e o funcionamento social. A lógica do espetáculo, baseada na imagem e na aparência, simplifica os discursos, constribuindo de forma negativa para a construção social da realidade. Segundo Fábio Cardoso Marques, em artigo no livro Comunicação e Sociedade do Espetáculo, “tais fenômenos desvalorizam a função mediadora e reflexiva da imprensa, estabelecendo uma tendência de relação imediata dos fatos com o público leitor, transformando o discurso jornalístico de produtor de pensamento e reflexão em discurso puramente ideológico”. Patias diz que “o espetáculo de violência produzido pelos telejornais sensacionalistas vinculados a uma sociedade em permanente crise (violência crescente e enfraquecimento das instituições) leva os cidadãos a consumir o conteúdo do programa (soluções ilusórias) sem nunca se resolver a crise”. Sem dúvida, o modus operandi do mercado de notícias, que se utiliza de uma linguagem do espetáculo, distancia-se da qualidade e do cidadão e aproxima-se do prazer de agradar aos deuses com o sangue dos tiranos, como diria Sêneca. “Quando o jornalismo emociona mais do que informa, embora seja legítimo que as narrativas de TV comportem a emoção e despertem sentimentos, tem-se aí um problema ético, que é a negação da sua função de promover o debate das idéias no espaço público”, diz Eugênio Bucci, no texto de Patias. Mariana Banja é jornalista diplomada pela Universidade Católica de Pernambuco e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco. Assina a seção Jornalismo, Linguagem e Representação Social cujo objetivo é observar, analisar e refletir sobre as narrativas telejornalísticas.


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Comunicação Pública Informação, diálogo e participação Fonte: Divulgação

Por Ana Paula Lucena

Empresa Brasil de Comunicação (EBC) no alvo dos desmantelos de Michel Temer

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urante algumas décadas, no século passado, os movimentos pelas causas sociais, no Brasil, empenhavam-se muito mais nos esforços de conscientizar e empoderar a população do que nos dias atuais. Com o passar dos anos, vem predominando, ainda que timidamente, a atividade tornar público, que ‘parece’ ser suficiente para os que aspiram mudanças na sociedade, com a participação do povo. Mas, desde já, defendemos que se esta condição fosse satisfatória não estávamos assistindo a uma apatia social diante dos desmontes cometidos pelo presidente interino - Michel Temer - quando o assunto versa a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O verbete mais apropriado para o cabo de guerra entre Temer e as instituições, que defendem a Comunicação Pública, é depredação de tudo e de qualquer legado dos governos petistas. Ora, já iniciando as questões sobre o cerne do artigo, perguntamos: quantos sabem da existência da EBC e que deve ser comandada pela sociedade? O saber, puro e simplesmente, desvinculado da educação conscientizadora, é suficiente para o povo defender os seus bens públicos? O povo brasileiro entende quais podem ser as implicações caso a EBC deixe de ser uma empresa pública? Pelo visto, nem mesmo o nível mínimo do conhecimento sobre o órgão EBC é de domínio público. Portanto, caro leitor, primeiramente, devemos iniciar nosso percurso dissertativo esclarecendo que no capítulo V Da Comunicação Social, o artigo 223 da Constituição Federal do Brasil (1988) “observa o princípio da complementaridade dos sistemas pri-

vado, público e estatal” (BRASIL, Art. 223, p. 127). A Carta Magna não explica os conceitos de cada sistema, gerando confusão de propósitos e papéis. Tentaremos elucidar cada sistema, nos próximos parágrafos. O sistema privado abrange as empresas de radiodifusão que recebem concessão pública (outorgas, que tem validade de 15 anos) do Estado, para prestarem, ou melhor, deveriam prestar um serviço público galgado na educação, entretenimento e cultura. Porém, isso não acontece na prática porque os empresários do ramo vêm se firmando (com o apoio de vários presidentes) como sistema comercial, atendendo predominantemente aos seus próprios interesses lucrativos. Ou seja, o interesse da sociedade passa bem longe. Segundo Eugênio Bucci (2008, p. 259), o sistema privado “(...) representa, não cabe dúvidas: trata-se daquele que é propriedade de particulares, que tem por objetivo o lucro, e, por fonte de receita, a publicidade”. Quanto ao sistema estatal, trata-se de órgão de radiodifusão sob a gestão do Estado. Isso, portanto, não significa dizer que deve estar subordinado ao próprio ponto de vista ou aos interesses políticos do Presidente da República, tão pouco pode se posicionar como proprietário das organizações estatais. Acreditamos serem canais do Estado com responsabilidade primeira de informar e tornar acessível os assuntos de interesse público ao cidadão. Além de também veicular conteúdos relacionados à educação e à cultura. Para Bucci (2008), os meios estatais são públicos e devem ser entendidos como uma subcategoria do público. Com o intuito de ampliar as reflexões, Mariana Martins (2014) e Scorsim (2008) reconhecem que as definições existentes acerca do sistema público de radiodifusão se confunde conceitualmente com o estatal. Mas, diante dessa realidade é possível compreender sua natureza desvinculada do Estado e do Mercado, regida por regras públicas e detentora de


Fonte: Brasil 247

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um conselho – maior parte composta por membros da sociedade civil – para garantir os interesses da nação. Assim, entendemos ser um sistema garantidor de visões plurais, cuja preocupação é afiançar a democracia, devendo “(...) ter sua existência assegurada pelas leis vigentes, inclusive quanto à sua forma de financiamento” (UóNESCO, 2012, p. 14). Apesar das distinções, o pesquisador Venício Lima (2011) argumenta que os sistemas confluem num só ponto, ou seja, atendem os interesses do cidadão. Lima acrescenta que há diferença entre os três sistemas quando identificamos por quem são controladas, se pelo Estado, pela iniciativa privada ou pelo público. A partir deste breve esclarecimento conceitual sobre os sistemas, é possível apreender o papel político-social da EBC porque está fundamentada na comunicação pública e trabalha para garantir: a) o acesso à informação, partindo de várias fontes; b) produção e programação de conteúdos com foco educativo, artístico, cultural, científico e informativo; e c) participação da sociedade civil na condução dos princípios, que regem este tipo de sistema. Assim sendo, uma vez consciente dessas incumbências, entendemos a ameaça que a EBC pode representar para um governo golpista e avesso à comunicação como direito humano e à expressão plural. Por isso, Michel Temer e seus aliados almejam, primeiro, desmontá-la arbitrariamente brincando de dança das cadeiras (quem fica e quem sai). Depois, na sequência lógica, mudar as regras do jogo para servir aos interesses do governo. E, por último, o tiro de misericórdia contra a democracia, exterminar a EBC. O intento de destruição começou quando Michel Temer afastou ilegalmente e arbitrariamente o diretor-presidente da EBC, Ricardo Melo, do seu mandato legítimo de quatro anos. Melo só conseguiu retornar ao cargo por força de liminar do supremo

tribunal federal. Diante desse episódio, é preciso abrir os olhos para o que realmente está em jogo. Pois, o monopólio da mídia não quer de jeito algum romper com a estrutura do pensamento único, bem diferente das instituições que oferecem espaços com vozes plurais contrapondo a ideologia padrão. O jornalismo da EBC, por exemplo, tem feito esse papel em defesa da democracia ampla. Essa posição, portanto, incomoda os planos do governo temporário e os interesses comerciais dos magnatas das telecomunicações. O esforço para manter os canais públicos deve ser uma prioridade para e pela democracia. Deste modo, precisamos entender o seu papel na formação da cidadania e do enriquecimento crítico a partir de visões múltiplas. Por outro lado, a própria EBC precisa pautar, mais constantemente, sobre o movimento pela democratização da comunicação e discutir os chavões criados pela grande mídia comercial, quando esta propaga serem os canais públicos instrumentos de governos populistas. Para ilustrar, retornemos ao ano de 2007 período que a TV Brasil foi criada e apelidada, pelos jornalões, de “TV do Lula” ou “Lula News”. Essas investidas não deixam de ser movimentos a favor do esvaziamento de consciências e sentidos. São ideologias, nem tão novas, reelaboradas em frases-roupagens do cotidiano para nos convencer, que, em sendo sistema público, está a serviço do governo vigente. Necessitamos agir para evitar a desconstrução da democracia levando mais à sério a alternativa da educação política. Comecemos agora, hoje. Um bom início pode ser dialogar sobre comunicação pública com o seu filho, filha, para que entenda, desde sempre, que o pensamento plural é combustível contra o despotismo. A coluna Comunicação Pública é assinada por Ana Paula Lucena, professora da Faculdade Senac Pernambuco, membro do FOPECOM, e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco. A coluna é um espaço que aborda como os órgãos públicos vêm se comunicando com a sociedade, procurando refletir sobre suas políticas, estratégias e ferramentas de comunicação utilizadas.


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Jornalismo Independente Jornalismo e financiamento coletivo Fonte: Ddpavumba em FreeDigitalPhotosnet

Por Karolina Calado

Caminhando em território de gigantes

“A

alma do negócio é você” – esse trecho da música “Propaganda”, da Nação Zumbi, nunca foi tão pertinente para revelar a forma como as grandes corporações do meio online, a exemplo do Google e Facebook, veem os usuários de seus serviços na Rede Mundial de Computadores. Os lucros dessas empresas são exorbitantes em relação ao tipo de trabalho que exercem. Elas atuam apenas no universo virtual, sem custo com matéria-prima concreta como é

caso de outras organizações da área como Apple e Microsoft. Para se ter uma ideia, só no final de 2015, os números mostraram que a receita trimestral do Facebook ultrapassou os US$ 5 bilhões. Mas como essas empresas lucram na internet? A resposta é simples: com a informação que circula na rede, resultado do trabalho coletivo das pessoas. Segundo a BBC, o Facebook consegue ganhar dinheiro com a publicidade social, a partir de três pilares: publicidade dirigida, anúncios interativos e anúncios contextuais (aqueles que mostram o perfil e a característica dos usuários). Já o Google, segundo site mais acessado do mundo, o qual possui prerrogativa para nos permitir visualizar apenas o que deseja, de acordo com seus critérios hierárquicos


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de busca, oferece oportunidade de visualização prioritária aos anunciantes por meio da publicidade contextual, ou seja, quando as pessoas procuram por algum serviço, encontram primeiro os que foram pagos ao Google. Quem nunca buscou por algum serviço no Google e viu aqueles anúncios específicos no topo da página? E ao entrar em seu e-mail, visualizou inúmeras propagandas relacionadas ao assunto de sua busca? Pois bem, esse é um cenário preocupante já que há desigualdade de visibilidade e lucro numa rede desenvolvida pelo esforço de todos. O pesquisador espanhol Antonio Lafuente deixa claro que um dos aspectos importantes a ser levado em consideração quando se fala no compartilhamento de riquezas na rede é justamente a distribuição das oportunidades. O autor traz a reflexão do procomún, um conceito que “busca expressar mediante um término nuevo uma ideia “muy” antigua: que algunos bienes pertenecen a todos y que em conjunto forman una comunidade de recursos que deve ser activamente protegida y gestionada”. É realmente problemático pensar que se pode lançar mão de esforços coletivos, lucrar sobre o trabalho do outro e incentivar os indivíduos a continuar produzindo, ao vender ideais de interação, democracia e globalização. Portanto, torna-se urgente o debate sobre a governança na Internet e a distribuição de bens coletivos. Ao evidenciar, resumidamente, as peculiaridades do panorama de atuação dos gigantes do meio online, é importante citarmos também as alternativas que têm crescido de modo paralelo ao sistema de oligopólio vigente. Pessoas do mundo inteiro têm agregado esforços coletivos para criar propostas no intuito de se ajudar em termos de serviços, a exemplo de hospedagem coletiva como o couchsurfing; em termos de criação de produtos online com código aberto; ou mesmo na construção de conteúdo jornalístico, seja blog personalizado sobre temas específicos, sejam conteúdos diversos. Mediante tais constatações, o sentido de comunidades virtuais de Pierre Lévy, nas quais os indivíduos se agrupam por objetivos em comum nunca foi tão pertinentes para se observar o movimento atual das pessoas no ciberespaço. No jornalismo, em especial, tem surgido boas alternativas como as já citadas na edição anterior dessa revista. Nesta edição, gostaríamos de falar sobre o caso da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, que lança projetos no Catarse e suas metas são sempre ultrapassadas. Tal fato nos indica que as pessoas estão dispostas a investir no conteúdo em que acreditam. Mas o que faz

os leitores darem credibilidade ao tipo de jornalismo da “Pública”? Supomos que seja o cuidado com que os repórteres lidam com as temáticas plurais, envolvendo um número maior de fontes e um aprofundamento do tema a partir da busca de dados e de histórias pessoais. A Pública é apenas um exemplo dentre tantos outros, nessas estratégias jornalísticas a partir do financiamento coletivo, o processo democrático aí incutido se inicia na proposição de pautas por qualquer usuário, no financiamento de sites, de reportagens, de projetos e na escolha daqueles que serão financiados pelo grupo. Há um engajamento por parte dos usuários em relação às causas ou temáticas envolvidas, de modo que eles se tornam os próprios divulgadores, comentam as reportagens e entram em contato com os sites a fim de saberem como se realiza uma doação em dinheiro. Nessa nova cadeia, é possível já se perceber a independência em relação à audiência, pois a preocupação é com a causa, a exemplo de uma denúncia a ser investigada ou uma questão que mereça ser refletida pela sociedade. Para a “Pública”, o importante é que as matérias sejam difundidas, não importando onde. Ela incentiva seus leitores a divulgarem suas reportagens em seus sites, blogs e páginas pessoais no Facebook. Isso quebra com a lógica da pageview, ou seja, da monetização a partir dos clicks nas páginas. A “Pública” funciona por outra lógica e envolve seus leitores na produção de pautas. Seu funcionamento se torna mais participativo, a partir do momento em que distribui bolsas em dinheiro para jornalistas desenvolverem suas reportagens sobre determinadas temáticas: “Criança e Água”, acerca da relevância da água na vida da criança; e “Judiciário”, buscando investigar a justiça brasileira. Após a experiência contada sobre a Agência Pública, podemos tecer algumas considerações sobre o novo cenário: primeiro, apesar de sabermos da potência dos sistemas das grandes corporações midiáticas, as quais envolvem também redes sociais, sabemos que há brechas para se desenvolver o caráter emancipador do jornalismo independente e de sua audiência. Segundo, a distribuição de riquezas do meio online está longe de ser o modelo que almejamos, mas dentro desse universo, é possível pensar em propostas que beneficiem a todos, seja trocando esforços financeiros por esforços conteudísticos, seja envolvendo esforços para divulgação ou fornecendo informações diversas em troca dos esforços para promover um melhor jornalismo. Karolina Calado é doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Nesta coluna, proponho uma discussão acerca das questões que envolvem a economia política dos meios de comunicação, especialmente a partir da internet e dos modelos de financiamento coletivo.


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Mídia Fora do Armário Jornalismo e construções identitárias Por Rui Caeiro Fonte: PixaBay

do jornal, cerca de 70% das publicações não mencionam (ou se o fazem, é timidamente) esse dado, considerando o acontecimento como um ato de terrorismo com origem no extremismo muçulmano; b) algumas das fontes que dão sustentação a essa nomeação majoritária são o FBI, o Vaticano e chefes (ou candidatos) de Estados e Governos – aqueles que sublinham as características específicas das vítimas são internautas, familiares do autor do tiroteio e a própria comunidade LGBT (para além da já citada ONU); c) as notícias com referência direta à comunidade atacada (a LGBT, latina, precisamos) fazem-no, quase exclusivamente, de forma personalizada, descontextualizada, apontando o foco da dor como exterior ao ‘ocidente’ (“o mundo árabe-muçulmano”, como podemos ler na notícia de 13 de junho, intitulada: “Os homossexuais são um dos objetivos do Estado Islâmico), algo insólito, inédito, o distante repentinamente perto, trágico.

Usam a tragédia para se promover Quando o terror diário se torna midiático

Q

uase uma semana após o massacre de Orlando, registrado numa boate voltada ao público LGBT, foi no dia 17 de junho que pudemos ler – na versão online do Jornal do Commercio – que o crime aconteceu em razão da orientação sexual das vítimas. A consideração era do Conselho de Segurança da ONU. Apesar de, no dia seguinte à tragédia, o mesmo jornal ter noticiado o rejubilo da Rádio Al-Bayan (vinculada ao Estado Islâmico, grupo com que, supostamente, o atirador se identificava) pelo assassinato e ferimento de mais de 100 ‘sodomitas’ (termo utilizado para classificar homossexuais como anormais), essa ‘nuance’ foi quase totalmente invisibilizada pela cobertura jornalística da tragédia. Observemos alguns dados interessantes para pensar como esse fenômeno, que perpetua violências, se manifesta no jornal pernambucano com maior número de exemplares pagos em circulação (informação divulgada pela Associação Nacional de Jornais, ano 2015): a) procurando por Orlando no motor de busca

O

subtítulo foi retirado de uma mensagem publicada no twitter por Marco Feliciano, e reproduzida no JC, nacional e internacionalmente conhecido pelas suas declarações homofóbicas e racistas (entre outros). O posicionamento do deputado é de frisar, tanto pelo conteúdo como pela não ambiguidade, distanciando-se assim de outros e outras, que, mesmo sendo conhecidos pela sua conivência (seja pela ação ou não ação) com as violências diárias cometidas contra pessoas LGBT (em todo o globo, seja em maior ou menor escala de gravidade), insistiram em mostrar-se solidários/as com “o povo americano” e contra qualquer tipo de terrorismo. Essa postura, simultanemante solidária e combativa, é, contudo, focalizada, quase exclusivamente, no Outro, no extremista radical que comete atos suicidas, pelo que, em verdade, serve como justificativa para a promoção do medo e tentativa de desresponsabilização pelos crimes contra pessoas que, no espaço público e privado, não necessitam sair de seus civilizados países ocidentais para experimentar o medo de, a qualquer momento, serem miradas como alvos a abater, principalmente quando de forma mais audível e visível rejeitam essas construções sociais, historicamente comparti-


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lhadas, que apelidamos de homo-lesbo-bi-transfobia. A abstração da dor, sua deslegitimação ou apropriação, apontando-a como comum a toda a humanidade, ignorando que resulta das hierarquias de valorizações sociais (tendo em conta marcadores como geografia, classe social ou raça, entre outros, e não apenas sexualidade e gênero), é ela mesma fonte de dor, de tentativas de silenciamento e invisibilização, promovendo a demissão de pensar as diferenças como construídas, e constituintes, diariamente, na concretude da vida, portanto, imprescindiveis para reconhecer privilégios e lutar por maior justiça social. O jornalismo, pela posição central que ocupa na sociedade, ao contribuir para a definição das realidades, vozes, acontecimentos, enquadramentos e interpretações a serem tornadas públicas e discutidas, não deve ser esquecido nesta crítica. É importante sublinhar que a noção de imparcialidade, legitimidora de uma prática profissional que rejeita a sua influência ativa sobre o mundo (afinal, o jornalismo apenas estaria a ecoar as vozes de outros sujeitos, esses sim responsáveis únicos pelas ideologias tornadas visíveis), funciona, principalmente, como modelo de ação, normalizando (portanto, tornando mais rápida, automática e acrítica) a profissão, ao mesmo tempo que levanta uma barreira defensiva face a eventuais críticas de distorção ou apagamento de informação. Assim, a construção midiática do terrorismo (religioso e cultural, portanto, bandeira [inter]nacionalista e raramente reconhecendo suas especificidades, incompatível com essa universalidade de “somos todos americanos”) como exterior ao mundo ocidental é construida, “imparcialmente”, com a insistente publicação de notícias relacionadas ao controle de fronteiras (e sujeitos), quase nunca apontadando as motivações LGBTfóbicas, cultivadas por um sistema de pensamento que é comum a ocidente e oriente, cristianismo e islamismo. O peso dessas duas leituras é também condicionado pelas pessoas escutadas e identificadas com cada uma delas: à primeira, sujeitos e organismos com alto indice de autoridade e valor social (face às posições sociais que ocupam), à segunda, a generalização de sujeitos dispersos (os internautas, grupos LGBT, os familiares do atirador), servindo portanto como ilustração de uma (fraca) alternativa de interpretações. Rejeitar uma posição crítica face a estas construções discursivas (não apenas das fontes, mas do jornalismo – como este se relaciona e constrói com elas) é não apenas parcial e cúmplice com uma visão de mundo que criminaliza e invisibiliza realidades e identidades, como irresponsável com o comprometimento democrático que sustenta a legimitidade desses sistemas políticos.

Apropriação e distorção de vidas e lutas

P

ara concluir, reproduzimos uma fala (tradução livre) que, não encontrando espaço na grande mídia, no facebook foi compartilhada inúmeras vezes, dando conta da instrumentalização de vidas e lutas que são desapropriadas e manejadas sem pudor: “Somos espancadas até a morte com punhos e botas, garrafas e tubos de chumbo. Somos baleadas, esfaqueadas e mutiladas. Somos estupradas até à morte como punição. Somos queimadas vivas, famílias têm vergonha de reivindicar nossos corpos, igrejas recusam-nos o enterro. Somos estranguladas e enfiadas debaixo do colchão do motel. Somos […] abandonadas para, sozinhas, morrermos lentamente. América [Brasil], tens feito tudo isso enquanto nos chamas, a nós!, de predadoras, acusando-nos, a nós!, de perversão. Você chama nossos corpos e nossas famílias de antinatural e legisla contra sua segurança. América [Brasil], seus políticos têm fraturado nossos ossos sob a sola de seus sapatos […]. Como você se atreve, América [Brasil], a utilizar nosso sofrimento e nossos cadáveres como escudo para atacar 1,6 bilhão de pessoas? Como se atreve a fingir que, de repente, apenas hoje, você se importa com nossa segurança enquanto não faz nada sobre a ganância irresponsável de fabricantes de armas, não faz nada sobre as pessoas no poder que nos ridicularizam e incentivam o medo de nós? Como você se atreve, América [Brasil], a tentar cooptar o medo com que eu vivo a cada dia da minha vida cada ameaça, cada ataque, cada insulto que me tem sido gritado, […] cada vez que eu tive que ouvir como Dobson [Bolsonaro] disse que a minha queerness [bichice] deve ser espanacada até me ser arrancada […]? Como se atreve a tentar tirar esse medo que VOCÊ incutiu em mim e a reorientá-lo para a SUA guerra? América [Brasil], você tem estado em guerra comigo desde antes de eu nascer. Eu não sou sua carne para canhão. Você não está realmente com raiva em meu nome e você não tem o direito de distorcer a minha angústia para alimentar ainda mais ódio e ainda mais morte. Então pegue de volta seus pensamentos e orações. Elas não vão ajudar-me, mas talvez a [o] ajudem a perceber que todo esse tempo nós estivemos morrendo e você nunca se importou.” Assinada pelo jornalista Rui Caeiro, mestre em Comunicação pela UFPE, a coluna ambiciona instigar reflexões que se debrucem sobre as relações que se estabelecem entre produção midiática/jornalística e a construção e vivência de identidades consideradas abjetas em nossa sociedade. O foco será em sexualidade e gênero.


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Mude o Canal

Sensacionalismo e exploração de acontecimentos

Fonte: Divulgação

Por Ticianne Perdigão

Vale tudo?

A

televisão se constitui em um dos principais canais de entretenimento utilizados pela população. A ausência de políticas públicas voltadas para a cultura e lazer acentua esta relevância. Segundo dados do Informe de acompanhamento de mercado da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), em 2011, 64,5% do conteúdo veiculado pelas 05 emissoras com maior audiência no Brasil é de entretenimento. Neste cenário pergunta-se: as televisões com sinal aberto podem veicular tudo que elas desejam? É possível, por exemplo, uma televisão formar sua grade de programação somente por programas de entretenimento como de auditórios, novelas e filmes? A resposta é não. Pelo menos teoricamente. Isto porque o

Regulamento dos Serviços de Radiodifusão (Decreto 52.795, de 1963), principal e mais completa referência de normas de conteúdo no Brasil, obriga, por exemplo, as emissoras a destinarem um mínimo de 5% do horário de sua programação diária à transmissão de notícias; limitar ao máximo de 25% do horário da sua programação diária à comerciais e reservar 5 horas semanais para a transmissão de programas educacionais. A razão principal maior desta obrigação se dá porque tais canais são considerados no texto da Constituição Federal de 1988 (art. 21, XII, a)5 como um serviço público. Segundo Vera de Oliveira Nusdeo Lopes (1997, p.19-20), as duas principais razões que identificam a atividade da radiodifusão como um serviço público é a escassez do espectro eletromagnético e a sua importância no mundo contemporâneo na divulgação das informações, acontecimentos, opiniões etc.


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Sobre a primeira razão, o acesso aberto das televisões está relacionado ao princípio da universalização do serviço público, que prevê a sua prestação para o maior número de pessoas possíveis sem qualquer discriminação. Para garantir o acesso universal, o Estado concede a emissoras um canal no espectro eletromagnético. No entanto, esse espectro é limita-

do. Essa escassez obriga o Estado a administrar o seu uso, criando regras para que um número reduzido de pessoas utilize e o distribua de maneira aberta a toda população. Já a segunda justificativa trazida pela autora quer dizer que o Estado reconheceu o caráter imprescindível de difusão de informações que tais veículos exercem na sociedade atual (THOMPSON, 2009, p. 72). A informação é uma necessidade vital para a sociedade. É através dela que a sociedade pode se organizar socialmente, expressar suas ideias e conhecer seus direitos. Vale lembrar que a Constituição Federal de 1988 também protege o direito à informação (art. XIV). Neste âmbito, é direito da sociedade ser bem informada, de forma ampla e diversa passa necessariamente pela Imprensa. Inclusive, algumas constituições, a exemplo da do Equador, Espanha e Nicarágua, escre-

vem em seu texto constitucional a obrigatoriedade de transmissão de informações oportunas, verdadeiras e imparciais com o objetivo de resguardar o direito à informação dos telespectadores. Tal especificidade não é encontrada na nossa Constituição. No nosso caso, a Constituição cuidou em (art. 221, II) orientar que a programação televisiva deve priorizar o conteúdo com finalidade educativas, artísticas, culturais e informativa. Outras importantes diretrizes relacionadas a organização da programação televisiva brasileira são encontradas na Constituição, à exemplo da necessidade de regionalização do conteúdo, da promoção do conteúdo nacional e do estímulo à produção independente. No entanto, elas não são fiscalizadas pelo Governo e nem cumpridas pelas emissoras. Além da Constituição Federal de 1988, o Código Brasileiro de Telecomunicação e o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão consistem no principal aparato legal da televisão aberta do País. Este último, por exemplo, foi aprovado em 1963, 13 anos após a primeira transmissão televisiva do Brasil. Para Laurindo Leal (2000, p. 158), a obrigatoriedade legal de regras de programação televisiva surgiram quando a tevê já estava consolidada como o mais importante instrumento da indústria cultural brasileira. Além disso, a adoção do modelo comercial de televisão desde sua consecução, em 1950, e a distribuição de concessões sem o conhecimento da população fez com que o telespectador nunca percebesse o seu caráter público e a necessidade, por isso, de uma transmissão de conteúdo dentro de padrões legais mínimos exigidos. O fato é que o exercício da radiodifusão no país nunca foi condizente com a lei. Antes mesmo da chegada da televisão ao país, a primeira mostra de orientação de padrões de conteúdo foi dada para o rádio, no Decreto 20.047/31. O documento descreveu a radiodifusão como serviço de interesse nacional com finalidade educativa. Segundo Salvadori (2010), a intenção de finalidade educativa foi frustrada. Analisando as rádios ao longo das décadas de 30 e 40, a autora indica que apesar de todos os esforços legais no sentido do controle da progra¬mação radiofônica, uma distância cada vez maior era construída entre um certo ideal educativo e o cotidiano das emissoras de rádio, repleto de programas de auditório, de humor, de calouros (SALVADORI, 2010, 182). Na televisão o quadro se repete até hoje, como dizia Millôr Fernandes “O Brasil ainda tem um enorme passado pela frente”. Ticianne Perdigão é formada em Direito e em Jornalismo. Tem mestrado em Direito mas agora curso Doutorado em Comunicação Social. Essa ambiguidade acadêmica fez com que temas como Liberdade de Expressão e Regulação da Mídia fossem seu foco de estudo.


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Rádio e Cidadania

As relações entre notícia e entretenimento no radiojornalismo Por Karoline Fernandes Fonte: PWC 2015

esse mesmo panorama.

O Rádio no Tempo das Telas

E

mbora o rádio ocupe um lugar central na sociedade brasileira, ainda são poucos os espaços de produção de conhecimento que tem o veículo como objeto de estudo ou de debate. Na comunidade jornalística, por exemplo, os mais baixos salários da categoria ainda estão destinados aos profissionais do meio radiofônico, se comparados às outras mídias tradicionais (televisão e jornal impresso). Na academia, seguramente, o volume de produção intelectual que reserva do tema rádio como objeto de estudo no âmbito da Comunicação, é bem menor com relação aos outros meios de comunicação. A preferência do rádio como uma das mídias mais consumidas pelos brasileiros não é recente. Nos anos 1980, a pesquisadora Gisela Ortriwano (1985), em sua obra clássica “A Informação no Rádio: os grupos de poder a determinação de conteúdos” já dava conta de que o Brasil era, na época, o segundo país do mundo em número de emissoras, atrás apenas dos Estados Unidos. Nos anos 2000, Nair Prata (2009) também constatou

“O Brasil ocupa o segundo lugar mundial em número de emissoras de rádio: são 6.218, soma inferior apenas à dos Estados Unidos, que tem mais de 12 mil estações. Estima-se que 45% das emissoras de rádio no país estejam nas mãos de políticos. O rádio hertziano no Brasil, já que é uma concessão do poder público, está intimamente ligado ao poder, o que não acontece (pelo menos ainda) na webrádio” (PRATA, 2009). Em 2015, a consultoria Price Water House Cooper divulgou a 17ª Pesquisa de Entretenimento e Mídia, que faz uma projeção de investimentos para os anos de 2016 até 2020. Para o estudo, foram analisados dados de 53 países sobre o segmento, incluindo a mídia rádio. Entre os principais insights da publicação: a) Até 2020, anunciantes terão investido U$$ 0,5 bilhões em publicidade nas emissoras de rádios tradicionais – um crescimento de 3,3% ao ano; b) O rádio é a segunda mídia mais consumida do Brasil, atrás apenas da televisão. c)A popularidade dos serviços de streaming de música passam agora, pela primeira vez, a representar uma ameaça. Entre os serviços de streaming de música mais populares no Brasil estão a Deezer. Em 2013, o número de usuários globais já era de 26 milhões de usuários, sendo que 3 milhões deles eram assinantes dos planos pagos (R$ 14,90 mensais, que dão a possibilidade de ouvir as músicas mesmo sem conexão com a internet). Em 2015, o Deezer lançou seu catálogo de podcasts no mercado brasileiro, junto com 20 mil novos programas produzidos por parceiros internacionais e nacionais, entre eles, a Rádio CBN. Com a novidade, a empresa passou a oferecer um total de 40 mil programas e novas fun-


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ções para podcasts, como modo offline, criação de playlists e compartilhamento em redes sociais. Os novos áudios estão disponíveis para o plano gratuito da plataforma, em celulares Android, iPhone e na web. Em entrevista para o portal Tech Tudo, o diretor de conteúdo da Deezer, Alexander Holland, comenta que a oferta atende a uma demanda dos usuários, que buscam mais do que música. “Eles querem se entreter, se informar e descobrir novos conteúdos que tenham a ver com suas preferências”, completa Holland. Para isso a plataforma ganhou 17 novos parceiros produtores de conteúdo na Europa, Brasil e México. A reportagem citada também aborda que a expansão de podcasts acompanha um aumento de parceiros da plataforma, que incluem os brasileiros Braincast, Jovem Pan, CBN, Matando Robôs Gigantes e outros. Embora o hábito de se ouvir podcasts ainda não tenha se popularizado aqui no Brasil, a facilidade para produzir esse tipo de material é muito grande. Softwares que podem ser obtidos gratuitamente, tais como o Audacity, permitem uma facilidade nunca antes vista em termos de produção de conteúdo. Os tutoriais compartilhados na internet tornam a atividade ainda mais simples. O que está faltando para alavancar o consumo dos podcasts então? Penso que a junção de dois fatores pode auxiliar nesse processo: repertório de qualidade e uma reeducação do consumidor. Estamos na Sociedade da Informação, onde o consumidor tem uma necessidade constante de se informar – e divertir ao mesmo tempo.

E quanto às webrádios, qual o cenário?

U

ma pesquisa realizada pela TargetSpot e pela Parks Associates (2012), representa o primeiro estudo sobre a eficácia da propaganda de rádio na Internet (2012/EUA). Entre os principais insights: a)Os usuários que ouvem webradios são duas vezes mais suscetíveis a clicar em um anúncio on-line, quando comparado a um usuário normal de internet; b)A utilização de webradios em uma campanha publicitária pode aumentar o recall em até 2,3%; c)O recall de anúncios de rádio convencional (FM e AM) tem um aumento significativo na taxa de resposta (3,5%), quando combinado com o uso da webradio;

d)Os consumidores estão mais propensos a interagir em um anúncio de rádio convencional se for um ouvinte de webradios; e)Em muitos casos, os anúncios de webradios, quando combinados com a transmissão convencional, faz com que a campanha seja lembrada duas vezes mais. No Brasil a audiência do rádio herztiano é medida pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), que leva em conta três fatores: audiência, cobertura e tempo médio. Na internet se fala em número de acessos. A audiência na internet também é medida pelo Ibope, mas em parceria com a empresa norteamericana NetRatings. Nesse caso, um software instalado no computador faz o registro dos hábitos do usuário. (PRATA, 2009). Segundo Kimura (2006) apud Prata (2009), cerca de 5.500 pessoas participam da amostra da pesquisa e são colhidas aleatoriamente. A representatividade de casa estado brasileiro segue a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em troca da participação na pesquisa, as pessoas ganham pontos, que são convertidos em brindes. No entanto, ainda não é traçado um ranking geral da audiência das emissoras de rádio para a web. Em um momento em que ressurge o debate em torno da democratização da comunicação no Brasil, cabe nesta seção destacar que a webrádio pode ser configurada como parte desse novo modelo e uma ferramenta bastante eficaz do tocante ao direito à comunicação. Atualmente, com a disponibilidade de softwares gratuitos na rede (como já citado anteriormente), que permitem produzir, locutar e transmitir gratuitamente, o aumento do número de webrádios disponíveis pode ser um indicativo desse cenário. Servidores gratuitos de streaming, tais como o Listen 2 my Radio3, que permite que até cinco mil ouvintes acessem o conteúdo (em áudio ou vídeo) escolhido pelo produtor /podcaster ao mesmo tempo. Pelo exposto aqui, tudo leva a crer que estamos captando um momento histórico riquíssimo que está em transformação, que está começando a alterar radicalmente o panorama do consumo de áudio também entre nós, colocando em questão hábitos e conceitos estabelecidos, e inaugurando novos gêneros e formatos do rádio no “tempo das telas”. Karoline Fernandes é jornalista, mestre em comunicação pela UFPE, repórter da Rede TV! e apresentadora do podcast O Grito FM. Assina a seção Rádio Antena (pode ser esse nome?), que discute os novos formatos e gêneros radiofônicos na contemporaneidade.


JORNALISMO E CIDADANIA | 28

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JORNALISMO E CIDADANIA | 30

ANO I | Nº. 1

Jornalismo e cidadania

Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade | PPGCOM/UFPE

Editorial

|3

Prosa Real

|4

Mídia Alternativa

|6

No Balanço da Rede

|8

Jornalismo e Política

| 10

Jornalismo Ambiental

| 12

Poder Plural

| 14

Na Tela da TV

| 16

Comunicação Pública

| 18

Jornalismo Independente

| 20

Mídia Fora do Armário

| 22

Mude o Canal

| 24

Rádio e Cidadania

| 26 | 28

Jornalismo e Cidadania Nº1/2016  

Jornalismo e Cidadania Nº1/2016

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