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Somente o nosso contato com a natureza, com algo maior, é capaz de nos reensinar o amor ao planeta e a nós mesmos Hugo Werneck

Prepare a sua inscrição e indicação

Realização

Do pioneirismo de Azevedo Antunes...


IV Prêmio

Vem aí...

O Oscar da Ecologia 2013

...ao engajamento de Paul Mc Cartney!


MARCELO PRATES

1 EXPEDIENTE

Em toda Lua Cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck CONSELHO EDITORIAL Angelo Machado, Antônio Claret de Oliveira, Célio Valle, Evandro Xavier, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Maurício Martins, Nestor Sant’Anna, Paulo Maciel Júnior, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pós. DIRETOR GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Ana Elizabeth Diniz, Andréa Zenóbio Gunneng (Correspondente Internacional), Cristiane Mendonça, Fernanda Mann, Luciana Morais Maria Teresa Leal e Vinícius Carvalho CAPA Foto: Fernanda Mann / Arte: Sanakan

EDITORIA DE ARTE André Firmino

IMPRESSÃO Rona Editora

andre@souecologico.com

PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda

Marcos Takamatsu marcos@souecologico.com

ecologico@souecologico.com

Sanakan Firmino

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte MG - CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755

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REVISÃO Gustavo Abreu DEPARTAMENTO COMERCIAL José Lopes de Medeiros

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A Revista Ecológico utiliza papéis Suzano para a sua impressão. Isto garante que a matéria-prima florestal provenha de um manejo econômico, social e ambientalmente sustentável.

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Revista Ecológico

SSou Ecológico

REVISTA NEUTRA EM CARBONO www.prima.org.br


1 ÍNDICE REVITALIZAÇÃO DO ANTIGO INSTITUTO HILTON ROCHA Proposta de transformar o local num hospital de referência para o câncer, inclui projeto arquitetônico que integra o prédio à paisagem da Serra do Curral e revitaliza o entorno Pág 42

PÁGINAS VERDES

E mais...

Cláudia Pires: o debate da ética frente à secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Nova Lima

● IMAGEM DO MÊS 10

Pág 16

● CARTAS DOS LEITORES 12 ● CARTA DO EDITOR 14 ● SOU ECOLÓGICO 22 ● GENTE ECOLÓGICA 26

INTERNACIONAL Um em cada três habitantes do planeta pode ser lançado à extrema pobreza em 2050 Pág 68

● ECONECTADO 28 ● CÉU DE BRASÍLIA 30 ● ECO CONSTRUÇÃO 32 ● ESTADO DE ALERTA 38 ● ÁGUA 2013 60

FERNANDA MANN

● DESASTRES AMBIENTAIS 76

MEMÓRIA AMBIENTAL A última reportagem da série sobre Apolo Heringer, o criador do Projeto Manuelzão Pág 82

● GESTÃO E TI 80 ● PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS 92 ● CIDADANIA 94 ● SUSTENTABILIDADE 96 ● PERFIL: PAULO BRANT 98 ● OLHAR EXTERIOR 104 ● VOCÊ SABIA? 106

MEMÓRIA ILUMINADA São Francisco de Assis: o homem que amou os pobres e a natureza Pág 112

● NATUREZA MEDICINAL 108 ● OLHAR POÉTICO 110 ● ENSAIO ARTÍSTICO 118 ● CONVERSAMENTOS 122


1 0 0 % DA N AT U R E Z A P R EC I SA D E ÁG UA . A CBMM COLABORA RECICLANDO 95% DA ÁGUA USADA EM SEU PROCESSO PRODUTIVO.

A CBMM tem um grande respeito pela natureza e principalmente pela água que utiliza. Localizada em Araxá, a companhia recircula hoje 95% da água usada em seus processos de produção. Investindo continuamente em tecnologia e controle de qualidade, a CBMM espera alcançar a marca de 98% nos próximos dois anos. Esse é um compromisso com o meio ambiente e com o futuro. CBMM. Aqui tem nióbio.

cbmm.com.br


1 I M AG E M D O M Ê S

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Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

DIVULGAÇAÕ WIRES

SEM CASA Imagine a aflição de quem, ao voltar para a casa, percebe que tudo foi destruído? A tristeza de perder um lar traz sofrimento não só para as pessoas, como também para os animais. Na foto, um coala desolado ao perceber que seu habitat havia sido completamente destruído. A imagem, que comoveu internautas em todo mundo, revela o que está acontecendo na floresta de Nova Gales do Sul, na Austrália, assolada por uma madeireira local.


1 CARTAS DOS LEITORES emociono, seja com a beleza e poesia de seu texto ou com os bons exemplos das pessoas. Seja com a revolta frente à injustiça ou o descaso com o meio ambiente. Desta vez, fiquei indignada com o que li sobre o ‘Rio Madeira em fúria’ e chorei muito. Me senti impotente! Mas, sobre o estádio do Mineirão, que está aqui perto, será que não podemos fazer algo? “ DANIELA A. PASSOS ORIO MADEIRA EM FÚRIA “A destruição está apenas começando!” CHRISTA THRUM, pelo Facebook OCumprimentos “Agradeço o apoio e valiosa contribuição da Revista ECOLÓGICO na veiculação da campanha nacional ‘Conte até 10. Paz. Essa é a atitude’. Com toda certeza, essa parceria vem confirmar o papel e a responsabilidade das instituições públicas e privadas no processo educativo e ainda produzir a mobilização social necessária para o desdobramento de ações pela não-violência.” CARLOS ANDRÉ MARIANI BITTENCOURT, procurador-geral de justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais.

OGRANDE

MANUELZÃO “Manuelzão: grande mesmo!” ADRIANA SILVA, pelo Facebook “Grande ideia ter o Manuelzão na capa!” SOLONI VIANA, pelo Facebook “Manuelzão: Puro. Tudo de verdadeiro!” SILVIA MAIA, pelo Facebook “Eu conheci o Manuelzão quando estive em Cordisburgo. Foi emocionante!” ELIZABETH LEAL, Rio de Janeiro. OPÁGINAS VERDES

– SAMYRA CRESPO “Marquei presença no Seminário ‘Em que mundo vamos viver?’que a Samyra Crespo estava presente e foi realmente fantástico!” PATRICIA FRANÇA, pelo Facebook OEMOÇÃO

“Toda vez que leio a ECOLÓGICO sempre me

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OAGRADECIMENTO “Mais uma vez, o meu agradecimento pela enorme atenção e gentileza em atender ao meu pedido de receber a edição 53 da Revista ECOLÓGICO com a capa da Marylin Monroe.” RUBENS WINITSKWOSKI de Munique, Alemanha OARARINHA “A imagem divulgada na reportagem pertence à espécie Anodorhynchus hyacinthinus, também conhecida como “Arara azul grande”, considerada pela IUCN como uma espécie em perigo de extinção. A reportagem em si refere-se à ararinhaazul (Cyanopsitta spixii). Ou seja, o texto se refere à uma espécie, mas a imagem é de outra arara.” LÍVIA DENILLI DE ARAÚJO OENSAIO FOTOGRÁFICO SERRA DO ESPINHAÇO “Agradeço a todos pela cooperação em divulgar o nosso trabalho, brindando-nos com esta bela matéria. Abraço fraterno!” MIGUEL ANDRADE, pelo Facebook

“Já comprei o meu livro ‘Serra do Espinhaço’! Maravilhoso! Parabéns aos autores Miguel Andrade e Sérgio Augusto Domingues! ” JAQUELYNE MONIZE, Santa Bárbara/MG


“Toda essa história se passou na fazenda de meus pais. A senhora citada, “Raimunda”, é minha mãe, e sou um dos filhos que crescido naquele lugar, também guarda boas lembranças e histórias do tempo em que era criança. Hoje já sou moço, crescido, formado em Comunicação Social, moro em Belo Horizonte, mas nunca deixei minhas raízes nem o lugar que foi o cenário dessa história. Gostaria de receber mais textos, reportagens e artigos sobre esse fascinante guerreiro, Apolo Heringer, e suas maravilhosas paisagens do Rio Cipó.” MARCELLO MATTOS, Belo Horizonte “Interessante! Minha saudosa mãe é citada na reportagem. Infelizmente um bandido invadiu nossa fazenda e tirou a vida dela.” ROSE MATOS, pelo site ONATUREZA MEDICINAL “Estou usando a lima-de-bico e estou maravilhada. Todos os dias chupo uma!” SUELY AMARAL

“Eu tenho um pé de Crajiru e constantemente o pessoal vem em casa pegar folhas e galhos para tratamento de inflamações. Ele cura insônia, é um milagroso remédio para pedra nos rins e

outras coisas. A planta é realmente de um poder extraordinário! Tenho para meu uso, mas se alguém se interessar vou começar a fazer algumas mudas”. ROBERTO OSCAR, Teófilo Otoni/MG ERRATAS ● Na matéria "Escrevendo um novo capítulo verde", da edição 56, página 38, o nome correto do engenheiro civil do Parque Avenida é Tullio Magni. ● A matéria “Ora doce, ora amargo”, da edição 56, página 70, foi publicada com o nome errado da repórter. Na verdade, a jornalista responsável pela matéria é Virgínia Fonseca. ● Na seção Sou Ecológico, da edição 56, página 22, a nota sobre “O Mineirão do Saara – A revolta dos professores”, na verdade trata-se de um trabalho coordenado pela professora de geografia Andrea Regina Mello Fonseca, da Escola Estadual Madre Carmelita. A educadora desenvolve com oito turmas um projeto de áreas verdes e fiação subterrânea, em que um dos temas tratados foi a matéria sobre o “Mineirão do Saara” publicado na edição 54 da ECOLÓGICO. Os mais de 200 comentários publicados no Blog do Hiram foram feitos pelos alunos, e não pelos mestres, como foi informado.

EU ASSINO “Eu assino a Revista ECOLÓGICO por considerar que ela está atualizada com a questão ambiental de nosso Estado. É a única revista que percebo dá maior atenção para os nossos problemas”.

ARQUIVO PESSOAL

Edição 55 OPESCARIA NO RIO CIPÓ “Lendo este texto eu descobri que esta história faz parte de minha vida e família, pois a pessoa que é citada na fazenda Cela Grande é minha tia, que infelizmente não está mais entre nós. Meus pais ainda moram às margens do Rio Cipó, onde meu pai é irmão de Raimunda. Este realmente é um lugar maravilho e, graças a Deus, bem preservado. Hoje moro na Bahia, mas vou lá todos os anos descansar e aproveitar tudo que este lugar proporciona. Conheço cada curva deste rio.” JÂNIO, Bahia

MARIA JOSÉ HONORATO

FALE CONOSCO Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 13


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CARTA DO EDITOR HIRAM FIRMINO hiram@souecologico.com

A verdade e o azeite

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Q ECOLÓGICO/ABRIL DE 2013

de. É ambientalmente correto? Se for mais amigável, respeitar e até melhorar o meio ambiente, a flora e a fauna à sua volta, por que não? É só perguntar para a Natureza. E se além de especializado em tratamento de câncer, o novo hospital ainda manter a oftalmologia filantrópica (“por amor à humanidade”, segundo o Aurélio) que o dr. Hilton Rocha praticava para a população? Isso é mais justo socialmente, ao invés de deixar aquela carcomida instituição ao abandono? Se forem três “sim”, é permitir. Caso contrário, é radicalizar. Voltar ao tombamento original da Serra e, democraticamente e sem exceção, pedir para que todos os demais “corpos estranhos”, além do Hilton Rocha, saiam da mesma paisagem invadida: todas as torres de TV e rádios, várias ruas, casas e mansões vizinhas, do outro lado da avenida. ACS / MEDICINA DA UFMG

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m mais um Dia Mundial do Meio Ambiente, é ecológico lembrarmos a máxima da verdade e o azeite que nossas professoras nos ensinaram no primário. Diziam elas: “A verdade é como o azeite, sempre fica à tona da água”. E fica mesmo, tal como o feliz conceito de sustentabilidade que parece ter vindo para dirimir as nossas dúvidas, julgamentos e condenações apressadas. O que apregoa, afinal, essa tal sustentabilidade, uma das 10 palavras mais acessadas atualmente na rede mundial de computadores? A resposta é simples, tal como um anúncio da Oi. E todo ambientalista, empresário, governante, político e cidadão do mundo que se preze já incorporou: é tudo aquilo que é ‘economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente mais justo”. Nada mais do que isso. A sua aplicação também é simples e pragmática. Peguemos uma discussão local, que é igual à qualquer tema global, dentro da ideia do macro estar no micro e vice-versa. Essa discussão é a que envolve o Grupo Oncomed, matéria de capa desta edição. Sua proposta, a ser debatida na Câmara Municipal, é ampliar e readequar o antigo e hoje abandonado Instituto Hilton Rocha, no sopé protegido da Serra do Curral – cartão-postal natural de BH - como um novo e mais ecológico hospital para tratamento de câncer para a população mineira. O que fazer, como julgar, responder não ou sim, contra ou a favor a este projeto, se a vizinhança do Bairro das Mangabeiras, onde o hospital pretende funcionar, está levantando uma série de preocupações? É só pegar os três pilares básicos da sustentabilidade e aplicá-los. O novo empreendimento é economicamente viável? Claro, o investimento nele já respon-

ISSO É SUSTENTÁVEL? Melhor é a gente agradecer pelo muito que sobrou daquela maravilha montanhosa e nos somar a uma solução harmoniosa homem-natureza que ajude a preservá-la mais ainda, daqui pra frente e para sempre. Agradecer muito por mais este Dia Mundial do Meio Ambiente. Agradecer muitíssimo pela qualidade de vida que temos comparada com a dos países africanos, de onde viemos, onde um em cada seis habitantes ainda dorme com fome, todas as noites, em meio a um feio horizonte, como a ECOLÓGICO mostra nesta sua Edição Especial comemorativa à data mais esperançosa da humanidade. Salve-nos Hilton, salve-nos Jorge, salve-nos Nhá Chica! – aqui representados, você também vai ler, na memória iluminada de São Francisco de Assis, Boa leitura! Até a lua cheia de junho.


PÁGINAS VERDES

“O MEU DEBATE É O DA ÉTICA” Luciana Morais redacao@revistaecologico.com.br

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etentor das últimas e essenciais áreas de Mata Atlântica ainda preservadas na Região Metropolitana, o município de Nova Lima também é estratégico para Belo Horizonte, pois abriga nascentes responsáveis por 65% da água potável que abastece a capital. Vítima da inércia de administrações passadas, que favoreceram a especulação imobiliária – e seus consequentes impactos sobre o trânsito e os sistemas de esgotamento sanitário –, a cidade tem nas mãos, com o seu atual governo, a chance de mudar para melhor o seu futuro, aprimorando leis e regulando de forma efetiva e ordenada o seu crescimento. E para isso conta com uma colaboradora de peso: a nova secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano, a arquiteta e urbanista Cláudia Pires. Com ampla experiência em sua área de atuação, Cláudia é reconhecida – por colegas de profissão, ambientalistas e representantes de associações comunitárias – como uma das mais ferrenhas defensoras da expansão urbana verdadeiramente responsável e sustentável. Firme em suas colocações, ela já ‘calou’ muitos interlocutores em audiências públicas e reuniões onde eram tratados assuntos

JULIANA ROCHA

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CLÁUDIA PIRES: “SE SENTIR QUE ALGUMA AÇÃO OU CONDUTA DE GOVERNO FERE MEUS PRINCÍPIOS E VALORES ÉTICOS, EU ME EXONERAREI.”

polêmicos e caros a BH, como a verticalização do entorno da Lagoa da Pampulha e do sopé da Serra do Curral, na divisa com a sua Nova Lima natal. Determinada, ela promete total coerência com seus valores e princípios. “Não estou aqui para avalizar qualquer ação decorrente de uma política de governo que não esteja alinhada ou não respeite aquilo em que, eticamente, acredito. Não faço um debate por estar deste ou daquele lado: o meu debate é sempre um debate ético. Se sentir que alguma ação ou conduta de governo fere meus princípios e valores éticos, eu deixarei o cargo.” Confira: Como e quando surgiu o convite para assumir este cargo? ● O prefeito Cássio Magnani Júnior (PMDB) e a vice-prefeita Fátima Aguiar (PT) têm como um dos carros-chefes de seu governo o atendimento da questão habitacional no município. Sempre atuei profissionalmente na área de planejamento urbano e habitação e conheço o Cássio desde 1990. Naquela época, ainda como estudante de arquitetura, participei da aprovação da Lei Orgânica de Nova Lima e, ao longo de todos esses anos, mantive um conta-


C L ÁUDI A PI RES

QUEM É ELA

Cláudia Pires, 44 anos, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo nas Faculdades Metodistas Integradas Izabela Hendrix. É especialista em Urbanismo (UFMG) e em Planejamento do Espaço Arquitetônico e Didática do Ensino Superior (PUC-Minas). Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Geociências da UFMG, atualmente está concluindo o doutorado em Planejamento Urbano e Regional na USP. Atuou em vários projetos de grande porte também relacionados ao Planejamento Urbano e Regional dentro e fora de Minas. É professora do MBA-Fumec de Desenvolvimento Sustentável e do curso de Arquitetura da Unileste. É conselheira do IAB-MG, tendo sido sua presidente por três gestões e ainda o representa no Conselho Municipal de Política Urbana (Compur), Conselho Estadual de Desenvolvimento Regional e Política Urbana (Conedru) e na Câmara da Indústria da Construção Civil da FIEMG. É membro do Grupo de Trabalho (GT) Architecture and Child da União Internacional de Arquitetos (UIA). É Conselheira Federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do (CAU-BR). to histórico com a cidade, tanto como presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG), quanto como empresária e consultora do setor. Em 2006, tive a oportunidade de trabalhar com a Fátima em vários projetos, quando fui assessora da então secretária de Habitação de Nova Lima, Ana Schmidt. Portanto, quando me convidaram para assumir o cargo, fiquei muito honrada, porque sei que fui um nome de consenso entre os dois. Você se filiou a algum partido político? ● Não. Uma das condições que negociei para aceitar o cargo foi não ter de me filiar a nenhuma legenda.

ROBERTO MURTA

SECRETÁRIA DE HABITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO URBANO DE NOVA LIMA (MG)

“PRECISAMOS DEFINIR COMO A CIDADE VAI CONTINUAR CRESCENDO, PRESERVANDO SUAS MATAS, NASCENTES E VALES.”

Você nasceu em Nova Lima. Qual a sua relação com ela? ● Morei aqui até me casar. Em 2006, quando me separei, fiz o fluxo migratório às avessas: fui morar em BH, onde continuo até hoje. Foi mais cômodo e barato, já que um dos grandes problemas de Nova Lima, que persiste até hoje, é o custo do aluguel e dos imóveis, sempre muito caros. Minha família é toda daqui e já fiz inúmeros trabalhos profissionais e acadêmicos com temas relativos à cidade e à sua história. Sempre exerci meu papel de cidadã, porque gosto e tenho orgulho desta cidade. Tanto que fico irritadíssima quando se referem a ela como uma cidade-dormitório: não é.

Temos uma história rica, ligada ao Ciclo do Ouro e à mineração, e também importância estratégica para toda a Grande BH, graças à preservação de matas e nascentes essenciais ao equilíbrio hídrico e ambiental de toda essa região. Também prestei assessoria técnica e defendi as causas da cidade em vários momentos da minha vida, porque acredito que tenho um compromisso cívico com ela. Você sempre criticou abertamente as prefeituras, em especial pela falta de compromisso com o crescimento urbano ordenado e sustentável. É famosa por falas contundentes – tecnicamente

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 ECOLÓGICO/MAIO DE 2013 Q 17


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PÁGINAS VERDES

muito bem embasadas –, e já ‘calou’ inúmeros interlocutores em audiências públicas e reuniões. Agora que está do outro lado vai manter essa mesma postura combativa? ● Estou nesse governo porque acredito que haverá mudanças. Não estou aqui para avalizar qualquer ação decorrente de uma política que não esteja alinhada ou não respeite aquilo em que, eticamente, acredito. Não faço um debate por estar deste ou daquele lado: o meu debate é sempre um debate ético. Sou uma pessoa que conhece muito bem a área em que atua; sou uma urbanista comprometida com a sociedade; sou professora e também exerço um papel importante no mercado, por meio da minha empresa. E, felizmente, o que sempre pontuo e seguirá norteando minha trajetória pessoal e profissional é o meu posicionamento ético, independentemente da situação. Não fui delegada pelo atual prefeito para referendar políticas, mas para melhorar o que vinha sendo feito e, se necessário, romper com antigos paradigmas. Se sentir que alguma ação ou conduta de governo fere meus princípios e valores éticos, eu deixarei o cargo. Isso é uma prerrogativa para mim. O debate político-partidário é ideológico por excelência, mas tem limites; e esses limites são aqueles que não atingem os meus princípios éticos. Não haverá surpresa, defenderei o que sempre defendi, colocando o interesse comunitário em primeiro lugar. Quando se faz e defende o que é certo, não existe lado: o que vale é a busca do bem comum. Qual tem sido a linha de atuação da sua pasta? Como espera contribuir com a atual gestão? ● Acredito que tenho importan-

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Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

tes contrições a dar. Felizmente, me orgulho de ter sido a primeira profissional que se propôs a estudar e debater democraticamente o crescimento de Nova Lima, em meu mestrado de Geografia, na UFMG. Como desdobramento da minha tese de mestrado, criamos um grupo de trabalho que discutiu a dinâmica de expansão do Eixo Sul da Grande BH. E isso, num momento em que a cidade passava por uma grande transformação, com o fechamento de antigas minas, como Morro Velho, e a abertura de novas, como Tamanduá e Capão Xavier. E a discussão sobre o papel das áreas descomissionadas pela mineração na expansão imobiliária do Vetor Sul foi essencial. Portanto, considero que tenho experiência, conhecimento e, com eles, a chance de ajudar a prefeitura a resolver um dos passivos ambientais mais sérios deixados pela mineração: a incapacidade de atender a população de baixa renda na produção habitacional e na oferta de moradias de qualidade. Como a concentração fundiária sempre foi exclusiva das mineradoras, com o descomissionamento de suas terras e a venda para o mercado imobiliário, praticamente não sobraram terrenos – e imóveis construídos – com custo compatível com o da população de menor renda, descendente e herdeira, em grande parte, de escravos que trabalharam nas minas e da população operária que fez a riqueza da cidade até o século passado. Como garantir que essa população se mantenha na cidade – em moradias dignas e seguras –, diante de um mercado declaradamente voltado para a criação de condomínios fechados e edifícios destinados ao público ‘AA’, de alto luxo?

● Nosso primeiro passo será investir maciçamente na produção habitacional, por meio da construção de moradias de qualidade, compatíveis com as características físicas e ambientais da cidade, e localizadas em áreas centrais, com acesso a total infraestrutura, e não nas periferias, como muitas prefeituras costumam fazer. A habitação é carro-chefe da atual gestão, e o prefeito me deu autonomia para agir. Pretendo fazer isso me valendo da minha experiência profissional e amparada nas ideias que defendo. Durante muito tempo, fui assídua frequentadora dos meios jornalísticos, defendendo o crescimento responsável e, principalmente, a mobilização/participação comunitária. Estou trazendo esses mesmos valores para a secretaria. Minha proposta é fazer tudo de forma democrática, participativa e transparente. Tanto que criamos um Fórum Permanente de Habitação. Como esse fórum foi constituído e vai atuar? ● Congrega lideranças da sociedade civil que serão nossas parceiras. A meta é promover 11 fóruns regionais, em toda a cidade, discutindo e buscando sugestões de melhorias e soluções compartilhadas para incrementar a produção habitacional. Defendo, ainda, a aplicação de instrumento do Estatuto da Cidade, lei federal que prevê ferramentas e arranjos destinados a democratizar o uso da terra. Um exemplo são as operações urbanas consorciadas: intervenções e medidas coordenadas pela municipalidade, com a participação dos proprietários de terrenos, moradores, usuários e investidores privados, destinadas a promover transformações urbanísticas, estruturais e melhorias sociais. O foco é beneficiar,


C L ÁUDIA PIRES MARCOS TAKAMATSU

SECRETÁRIA DE HABITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO URBANO DE NOVA LIMA (MG)

CLÁUDIA PIRES: “NOVA LIMA NÃO É UMA CIDADE-DORMITÓRIO. TEMOS UMA HISTÓRIA RICA”.

principalmente, moradores que ganham até seis salários mínimos, contemplados nas faixas de renda I e II do Programa Minha Casa, Minha Vida. Os investidores e representantes do setor imobiliário também participarão desses debates? ● Sim. E aparticipação deles é essencial. O primeiro debate público que promovemos foi com o segmento imobiliário, que tem de se sentir motivado a investir na cidade, mas, acima de tudo, conhecer as regras e se comprometer a ser parceiro, a respeitar as exigências impostas pelo município. Propusemos, inclusive, a criação de uma comissão permanente de acompanhamento, incluindo representantes do setor, para que possamos discutir e planejar o desenvolvimento e o crescimento de Nova Lima por meio da habitação, fortalecendo toda a cadeia local da construção civil. Queremos também investir no pequeno construtor da cidade para que

possamos resolver um dos gargalos ligados à habitação: a existência de mais de 14 mil imóveis que necessitam de melhorias e reformas. Temos, ainda, o desafio de regularizar a situação fundiária de 50% do total de domicílios locais. Nos últimos anos, a imagem da prefeitura de Nova Lima ficou bastante arranhada, diante de sua inércia e negligência em relação à necessidade, dentre outras, de regular a expansão imobiliária e minimizar seus consequentes impactos. A Lei de Uso e Ocupação do Solo foi acintosamente flexibilizada, favorecendo a verticalização de construções. Acredita que essa página será virada? Qual é o seu posicionamento em relação a essas questões? ● Considero o viés da gestão anterior equivocado. A defesa que faço, como nova-limense, é que os interesses do município estejam acima dos de BH. Defendo a ‘Grande Nova Lima’ e não a Gran-

de BH. Temos de traçar uma estratégia municipal e definir, com clareza, de que forma a cidade vai continuar crescendo com qualidade, preservando suas matas, nascente, fundos de vale, sua rica e delicada paisagem urbana. Não podemos nos dar ao luxo de perder, como ocorreu recentemente, parte das visadas da Serra do Curral, simplesmente porque o mercado imobiliário de BH aceita fazer qualquer coisa na minha cidade. O Plano Diretor de Nova Lima peca no que diz respeito ao uso e ocupação do solo, mas essa não é, definitivamente, uma particularidade nossa. A maioria dos planos municipais escorrega nesse quesito. Na prática, não é fácil nem simples compatibilizar os interesses de todos os setores envolvidos, de forma a melhorar a relação/equilíbrio entre as construções e as áreas naturais, ainda mais com um parcelamento de solo baseado na divisão do território em lotes. O ideal é avançarmos, buscando novos arranjos urbanos que permitam, por exem-

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PÁGINAS VERDES

plo, preservar mais áreas verdes e obter contrapartidas mais efetivas por parte dos empreendedores. O poder público não pode ficar cativo deste ou daquele setor, precisa servir à sociedade como um todo. Quando o assunto é sustentabilidade, não vale o discurso, mas a prática. A prefeitura deve ter regras claras, autoridade e autonomia para negar uma licença, caso um empreendimento seja lesivo ao meio ambiente e ao seu patrimônio histórico-cultural. Está convicta, então, de que o atual prefeito tem um compromisso diferenciado? ● Com certeza. Conversei abertamente com ele sobre uma série

de questões. E aceitei o cargo com o compromisso de que faremos a revisão do Plano Diretor com leitura e debates comunitários, criando bases sólidas para preservarmos nossas matas, rios e nascentes. A ideia é elaborar e fazer cumprir um plano realmente sustentável, tanto do ponto de vista da conservação ambiental quanto do crescimento econômico, e que também nos permita superar as desigualdades hoje existentes no acesso à terra. O Cássio é dinâmico, faz um mandato de continuidade, mas tenho certeza de que quebrará vários paradigmas passados. Ele quer valorizar a prata da casa e preservar o que Nova Lima tem de melhor. Na posse do Conselho

ARQUIVO PESSOAL

POR ADRIANA

Quase no fim da entrevista, a secretária Cláudia Pires revelou que a decisão de aceitar o cargo não foi fácil e muito menos tomada à revelia de sua família. Ela perdeu uma irmã, em novembro passado, e dedica a nova função à memória dela: “Relutei muito. Mas, incentivada por parentes e amigos, que apelaram até mesmo para o lado sentimental, lembrando que, por ser da cidade, tinha de fazer algo por ela, decidi aceitar. E tomei essa decisão em homenagem à minha irmã, Adriana Pires. Três dias antes

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de morrer, ela me pediu que aceitasse e prometi que o faria. Dedico esse cargo à alma dela.” “Felizmente, fui muito bem-educada. Minha família é maravilhosa, tive uma infância feliz e pais excelentes, que me deram todas as noções de valores de que preciso. Amo minha família e se fizer algo errado, terei muita vergonha de encarar meu pai e minha mãe. Tenho um voto de confiança deles, dos meus amigos e quero que todos continuem me admirando, assim como os admiro.”

Municipal de Desenvolvimento Ambiental (Codema), ele deixou claro que o executivo vai trabalhar em parceria com a sociedade civil. O Codema, do qual também faço parte, será a porta de entrada para todas essas discussões. Que marca pretende deixar com a sua gestão? ● Quero zerar o déficit habitacional e mostrar que é possível instituir um planejamento comunitário, ouvindo a população. Nossa ideia é criar os Planos de Bairro, para que a comunidade se organize e decida, junto com a Prefeitura, quais são as prioridades e os investimentos essenciais em cada um deles. Esta é uma Secretaria de Habitação e de Desenvolvimento Urbano; e entendo desenvolvimento urbano como um desenvolvimento socioambiental em seu sentido mais amplo, alicerçado num planejamento sólido, transparente e bem-feito. Pretendo, ainda, implantar o serviço de assistência técnica, assegurando às famílias de baixa renda assistência gratuita para projetos e construção de moradias. Estamos implantando também o Fórum Mirim de Habitação, para levar a alunos de escolas locais a educação para o ambiente construído. Essas são algumas das bandeiras que defendi a vida inteira, em especial enquanto estive à frente do IAB-MG. Estou confiante e otimista. Afinal, temos todas as condições de avançar e de continuar ofertando água, áreas verdes e paisagens naturais incríveis. Podemos sim fazer a diferença – pois ‘somos ricos’ em termos do PIB per capita – temos 82 mil habitantes, 400 milhões de orçamento e condições de consolidar uma política diferenciada e democrática de distribuição de renda e, principalmente, de urbanização.


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SOU ECOLÓGICO

SAI KLABIN, ENTRA PEDRO

A

pós 22 anos de pioneirismo, história e dedicação exemplar, o empresário Roberto Klabin deixou a presidência da Fundação SOS Mata Atlântica, uma das ONGs mais combativas e emblemáticas do país, com reconhecimento e atuação internacional. Seu substituto é Pedro Passos, que respondia pela vice-presidência da organização e copreside o Conselho de Administração da Natura. Ele foi empossado durante cerimônia concorrida no Porão das Artes – Bienal no Parque Ibirapuera, na capital paulista, prestigiada pelo governador Geraldo Alckmin, com a presença de 400 convidados entre ambientalistas, empresários e autoridades. A instituição, que antes contava com um vice-presidente, agora terá quatro. E passará a funcionar com três áreas específicas – floresta, ambiente urbano e mar – sempre tendo como base a área de influência do bioma Mata Atlântica, que lhe dá nome e razão de ser. Para floresta, foi escalado Olympio Pereira, presidente do Credit Suisse no Brasil. O empresário de telecomunicações Roberto Oliveira de Lima, ex-presidente da Vivo, será o vice da área de ambiente urbano. Já Klabin, que continua no Conselho da Fundação, responderá pela área de mar.

FOTOS: ZEROLUX/SOS MATA ATLÂNTICA

VIDA SEM LUTA NÃO É VIDA “O que mais chama a atenção na SOS Mata Atlântica é que buscamos tirar as pessoas da zona de conforto. E conseguimos. Nossa vida é breve, e precisamos fazer o melhor possível. Afinal, vida sem luta não é vida.” Roberto Klabin A NOSSA CAUSA É O BRASIL “Nós somos uma organização inovadora, criativa e inspiradora. Aqui não se trabalha com desenvolvimento ou conservação; mas sim, com as duas juntas. A causa da SOS Mata Atlântica é o Brasil.” Pedro Passos

GERALDO ALCKMIN:“NA VIDA, NÃO BASTA VIVER”.

COMO ANASTASIA

COM MÁRIO MANTOVANI AO CENTRO: HISTÓRIA, LUTA E PRESTÍGIO

22 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

A exemplo do governador Antonio Anastasia, em Minas, que sempre prestigia os eventos do setor e tem contato permanente com a Frente das ONGs Ambientalistas do Estado, Alckmin também deixou o seu recado: “A SOS é uma das maiores organizações da sociedade civil brasileira, que luta por seus objetivos e combate aqueles contrários à sua causa. Na vida, não basta viver, é preciso conviver e participar” – disse ele, ao anunciar a meta de sua administração de aumentar até 20% a cobertura vegetal do Estado de São Paulo até 2020.


A gestão ambiental da V & M do BRASIL, empresa do Grupo Vallourec, é focada na sustentabilidade. Por isso, 100% do carvão vegetal usado na produção da Usina Barreiro vem de florestas plantadas. E até 2020, todo o Grupo planeja reduzir em 20% o consumo de energia e gás. Tudo isso mostra que a V & M do BRASIL trabalha pensando nas futuras gerações. Faça a sua parte. Economizar água e energia, separar o lixo e diminuir o uso de embalagens são atitudes que podem salvar o planeta.


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SOU ECOLÓGICO

MÁRCIO LACERDA: TRAZENDO E PARTICIPANDO DO ICLEI EM BH... BRENO PATARO

Na capital mineira, o prefeito Marcio Lacerda continua com um desafio politico-eleitoral descomunal, que é nomear um novo e competente titular não somente para comandar, mas principalmente para “resgatar” a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA). Sua primeira aposta técnica , a engenheira ambiental Carla Vasconcelos, de sua preferência pessoal e indicada pelo Projeto Manuelzão, pediu demissão por motivos de saúde, após ter passado por uma delicada operação nas cordas vocais. Já a maioria dos ambientalistas, que apoiou as duas candidaturas de Lacerda à prefeitura de BH, desconfia que houve outra motivação, psicológica e de foro íntimo: o tamanho da encrenca e desafio que a pasta acumula. Ou seja, seu desmonte e abandono técnico-institucional desde a gestão do PT na prefeitura, quando foi anexada e esvaziada politicamente como mais um apêndice obediente da super Secretaria Municipal de Política Urbana e Meio Ambiente, na contramão do desenvolvimento sustentável.

FERNANDA MANN

LACERDA, A ESPERANÇA (2)

A MAIS ABANDONADA Por isso mesmo, a SMMA também passou nas mãos de vários e descontinuados ocupantes nos últimos anos. Daí a autoestima hoje baixíssima de seus funcionários, programa e projetos mais relutantes. A reesperança em Lacerda prestigiar sua secretaria verde e a história do movimento ambientalista mineiro, advém de duas atitudes pontuais: a participação ímpar que ele teve à frente do Congresso Mundial de Governos Locais para a Sustentabilidade (ICLEI´2012), apelidada de a “A RIO + 20 das Cidades”, quando se empenhou pessoalmente e conseguiu sediar o encontro, pela primeira vez em uma cidade latino-americana. E quando representou a Frente dos Prefeitos comprometidos com a sustentabilidade na RIO + 20.

A MAIS QUERIDA No fundo, a expectativa dos ambientalistas vai além da SMMA atual. Eles sugerem que Lacerda faça o mesmo que o Estado fez, quando reuniu todos os órgãos afins e criou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e... Desenvolvimento Sustentável! Deu grandeza à causa. Tal como o Kalil fez de maneira corajosa, merecida e brilhante no Atlético, com a contratação de Ronaldinho Gaúcho, o desafio do prefeito é apostar numa nova ou novo R10 para salvar a mais querida e militante de suas secretarias.

...REPRESENTANDO A FRENTE DE PREFEITOS NA RIO + 20: REESPERANÇA

MAMÃES FUTURAS Mais um Dia das Mães passou e nem tudo está perdido para que nós, enquanto crianças, possamos compreendê-las e presenteá-las melhor, com um comportamento menos impetuoso, egoísta e desecológico. Aos 12 anos de idade, a escritora estreante Bárbara Muniz juntou-se à ilustradora Leonora Weissmann, de 31, e lançou um livro instigante na área da literatura infantil: “Indo ao futuro para entender as mães”. Essa viagem imaginária realmente acontece. E quando voltam à realidade presente, a compreensão da diferença de idade é outra. Vale a pena conferir. Mais informações: editora@scriptum.com.br 24 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


REMY STEINEGGER

1GENTE ECOLÓGICA

“Eu não sou santa. Eu rezo e Deus, pelos merecimentos de sua Divina Mãe Santíssima, me atende.”

THE NATIONAL GALLERY / LONDON

FRANCISCA DE PAULA DE JESUS, BEATA NHÁ CHICA

“Que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal.”

“A vida está cheia de desafios. Os que devem nos dar medo são os que podemos enfrentar e controlar. ” ANGELINA JOLIE, ATRIZ , AO ANUNCIAR QUE RETIROU OS SEIOS PARA PREVENIR TUMOR NAS MAMAS

“Um crescimento com qualidade somente será sustentável, ao longo dos anos, se tiver origem no trabalho de pessoas de valor, compromissadas e apaixonadas.”

“A solidão não existe para uma pessoa que escuta a si mesma.” CÉLIO DE CASTRO, MÉDICO, EX-PREFEITO DE BH

26 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

ÁTILA SIMÕES, ADMINISTRADOR, NOVO REITOR DO CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA

ISABELA CARRARI

POLLYANNA ASSIS

SÃO JORGE DA CAPADÓCIA


MARCOS HERMES

ALTAIR URBANO

CRESCENDO

“Ela me faz ter certeza de que posso voar.” PAUL MCCARTNEY, EM “MY VALENTINE”, DEDICADA À NANCY SHEVELL, SUA ATUAL MULHER E MUSA INSPIRADORA

THAILA AYALA

DIVULGAÇÃO

A atriz, mais do que apreciar as novidades da São Paulo Fashion Week, também fez o seu protesto ambiental: “Não uso pele e sou contra quem usa”. Com essa frase, ela fez coro à campanha “No fur”, que significa “Nada de pele” em inglês, pelo fim da matança de animais na indústria da moda.

“Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Nossa Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela vive e coexiste conosco.” MINGUANDO

REPRODUÇÃO

TONY DURAN

LEONARDO BOFF, FILÓSOFO.

BEYONCÉ

"Nosso foco é sermos parte de uma solução para as grandes questões de saúde do século 21, como a obesidade infantil.” MARCO SIMÕES, VICE-PRESIDENTE DA COCA-COLA AO ANUNCIAR QUE A EMPRESA NÃO MAIS FARÁ PUBLICIDADE PARA CRIANÇAS DE ATÉ 12 ANOS

“Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.” NELSON RODRIGUES, ESCRITOR

Já a artista americana foi arduamente criticada durante apresentação na final do Super Bowl nos Estados Unidos. Vestida com uma roupa que usava pele de três animais diferentes, entre eles a cobra píton, espécie ameaçada de extinção, a cantora entrou na lista de celebridades não-ecológicas.

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 27


REPÓRTER ECOLÓGICO ANDRÉ FIRMINO

redacao@revistaecologico.com.br

RODOLFO FERNANDES

E C T AdD O 1 E C O NCristiane Mendonça

Twittando O“Uma aula de luta pelos direitos dos povos. Todo dia é dia de índio!” @mariomantovani Mário Montovani, ambientalista

“O recado de @billmckibben é bem claro: é melhor se organizar contra a indústria do petróleo do que trocar as lâmpadas da sua casa” @gufalei – Gustavo Faleiros, jornalista ambiental

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“Os 12 últimos anos estão entre os 13 mais quentes já registrados” @alexmansur Alexandre Mansur, editor do Blog do Planeta O

“Belo Monte conclui 30% das obras e Altamira vai virando um lixão” @elisnice - Elis Araújo, pesquisadora assistente do Imazon

MÃE NATUREZA O diretor do Instituto Atitude Sustentável (IAS), Rodolfo Fernandes, fotografou um belo momento materno no zoológico de Belo Horizonte.

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O “Dinamarca em 2020, daqui 7 anos, terá 50% da energia baseada no vento Upcycle: novo livro de McDonough e Braungart” @abramovay – Ricardo Abramovay, professor

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“Enquanto todas as nossas fichas vão para o pré-sal, cresce no mundo campanhas pelo ‘desinvestimento’ em petróleo” @fmei7777 - Fernando Meirelles, cineasta

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“Santana do Riacho cobra preservação do Rio Cipó. União para preservar!” @CaicoGontijo - Caíco Gontijo

OS CANARINHOS VOLTARAM Vítimas da caça predatória, os canarinhos resistem e voltam a dar o ar da graça em Baependi/MG. O clique foi do designer gráfico André Firmino. O

Quer ser também um Repórter Ecológico? Basta enviar foto sobre algum tema ambiental para redacao@revistaecologico.com.br com nome completo e colocar no assunto “Repórter Ecológico”. Sua fotografia pode ser publicada!

ECO MÍDIAS

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Produtos sustentáveis Dar opções ecológicas para que você se torne um consumidor sustentável. Essa é uma das propostas da loja Rio Eco Consciente. A empresa oferece, desde 2010, produtos variados baseados em princípios de sustentabilidade. Todas as peças têm uma pegada ecológica, que vai desde a reciclagem ao reaproveitamento de resíduos diversos e inusitados, tais como escamas de peixes, madeira, chifres bovinos e lonas. São roupas, acessórios, artigos de decoração e brindes conhecidos pelo termo ecofriendly, ou seja, aliados aos princípios ecológicos. Saiba mais: www.rioecoconsciente.com O

28 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

ECO PROMOÇÃO Quer ganhar o livro “COMO SE FAZ UM BISPO” do jornalista J.D.Vidal? Basta curtir nossa página no Facebook www.facebook.com/souecologico e acessar a aba PROMOÇÃO. O sorteio será realizado dia 20 de junho; e o resultado, divulgado nas nossas mídias sociais.

REPRODUÇÃO

ECO LINKS

SOM DA NATUREZA Que tal despertar todos os dias pela manhã com o canto dos grilos? Ou, quem sabe, naqueles momentos de estresse ouvir o som de uma cachoeira? Se a princípio ter um contato mais próximo com a natureza é algo distante da realidade, você pode, ao menos, trazer os sons dela. É o que propõe o aplicativo gratuito para celulares android “Tons e sons da natureza”, encontro na loja virtual de apps GooglePlay. Você pode ter no aparelho sons do vento, dos rios e de pássaros personalizados para o despertador para toques ou chamadas de outros aplicativos. Confira: www. play.google.com O


PARQUE AVENIDA. MAIS VIDA NO SEU TRABALHO.

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IMAGINE UM PROJETO DE ALTA QUALIDADE AMBIENTAL: Ă&#x;8WLOL]D¤ RGHYLGURVFRPPHOKRUGHVHPSHQKR

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IMAGINE UM DIA COM MAIS VIDA NO SEU TRABALHO: Ă&#x;/RMDVHVDODVFRPYDJDVGHJDUDJHPH HVWDFLRQDPHQWRURWDWLYRSDUDYLVLWDQWHV Ă&#x;(VSD¤RJDVWURQÂąPLFR3UD¤DGHDOLPHQWD¤ R Ă&#x;3UD¤DGHFRQYLY§QFLDFRPSDLVDJLVPRPLUDQWH HHVSHOKRGĂ˜ÂžJXDHPP2.

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PERSPECTIVA ILUSTRADA DA FACHADA

A Incorporação Imobiliåria encontra-se registrada sob o nº R9 – matrícula 126601, no 1º Ofício de Registro de Imóveis de Belo Horizonte/MG. O projeto encontra-se aprovado na Prefeitura de Belo Horizonte sob o número do alvarå 2012/25.166. Projeto sujeito a alteraçþes. Incorporadora: Thuban Empreendimento Imobiliårio Ltda. Material ilustrativo, sujeito a alteração. Por se tratar de material LPSUHVVRDVLPDJHQVSRGHUmRQmRUHWUDWDU¿HOPHQWHDVFRUHVWH[WXUDVEULOKRVHUHÀH[RVQDWXUDLVGRVHOHPHQWRVUHSUHVHQWDGRV$YHJHWDomRTXHFRPS}HRSDLVDJLVPRUHWUDWDGRQDVSHUVSHFWLYDVp meramente ilustrativa e apresenta o porte adulto de referência. Na entrega do empreendimento, essa vegetação poderå apresentar diferenças de tamanho e porte, mas de acordo com o projeto de SDLVDJLVPR$HPSUHVDQmRJDUDQWHUHQWDELOLGDGHGHORFDomRRXRXWUDHVSpFLHGHEHQHItFLRHFRQ{PLFRGHFRUUHQWHGDDTXLVLomRGRLPyYHO2HPSUHHQGLPHQWRHQFRQWUDVHFHUWL¿FDGRQRVLVWHPD$TXD na fase programa.


CÉU DE BRASÍLIA VINÍCIUS CARVALHO redacao@revistaecologico.com.br

OCUPAÇÃO EM BELO MONTE Cerca de 200 indígenas ocuparam o principal canteiro de obras da Usina de Belo Monte no município de Vitória do Xingu, no Pará. Eles reivindicam a regulamentação da consulta prévia e a suspensão das obras e estudos relacionados às barragens nos Rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. Participaram indígenas das etnias mundurucu, juruna, caiapó, xipaya, kuruaya, asurini, parakanã e arara.

INFRAÇÕES AMBIENTAIS A capital de Rondônia, Porto Velho, é a campeã nacional de embargos referentes a infrações ambientais. De acordo com levantamento do site O Eco, o município acumula 1.020 embargos expedidos pelo Ibama, seguido de Novo Progresso (PA), com 719 registros, e Brasília (DF), com 642. No total, são 42.592 registros de áreas embargadas em todo o país.

MAIS PROTEÇÃO Ambientalistas foram ao Congresso cobrar a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que inclua o Cerrado e a Caatinga na lista do patrimônio nacional. Pela Constituição, apenas a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal mato-grossense e a zona costeira integram a lista, que assegura mais rigor na fiscalização. A proposta foi aprovada no Senado, mas ainda precisa passar por votação no plenário da Câmara.

30 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA O desmatamento e a degradação de florestas na Amazônia atingiram uma área de quase 175 quilômetros quadrados (km2) nos meses de março e abril deste ano. O levantamento foi divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). No mesmo período de 2012, o sistema detectou desmatamento de 292 km2 – quase o dobro da área identificada este ano. Mato Grosso continuou liderando a devastação, com 83,57 km2 de florestas derrubadas.

MADEIRA CERTIFICADA O Brasil produz 600 mil m3 de madeira certificada por ano na Amazônia, cerca de 4% da produção. Esse volume, ainda modesto, pode saltar para 1 milhão de m3, o que representaria 6% a 7% da soma total. A previsão faz parte de estudo sobre as dimensões do mercado de madeira certificada no país, elaborado pelo Imaflora.

CANA NA AMAZÔNIA Está na Comissão de Meio Ambiente do Senado projeto que prevê a expansão do plantio de cana em áreas desmatadas e de Cerrado na Amazônia Legal. Ao defender a aprovação, o relator da proposta, senador Acir Gurgacz (PDT-RO), mencionou “a necessidade de 6,7 milhões de hectares de terras adicionais, em relação ao ano de 2008, para atendimento das demandas futuras de etanol e açúcar até 2017”. Entidades ambientalistas contestam a medida.


Os secretários de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, Carlos Niedersberg, e de Porto Alegre, Luiz Fernando Záchia, foram presos em operação deflagrada pela Polícia Federal. Outras 16 pessoas também foram detidas, incluindo o ex-secretário estadual de Meio Ambiente Berfran Rosado. Eles são acusados de atuar em órgãos de controle ambiental estaduais e municipais para obter ou conceder, ilegalmente, licenças ambientais e autorizações para exploração mineral.

OSVALDO GAGO

ANTÔNIO PAZ / PALÁCIO PIRATINI

ITAMAR AGUIAR / PALÁCIO PIRATINI

CAMILA DOMINGUES / PALÁCIO PIRATINI

CONTRAVENÇÃO AMBIENTAL

INCÊNDIOS FLORESTAIS O Ministério do Meio Ambiente decretou estado de emergência ambiental em 19 estados e no Distrito Federal. A declaração, preventiva, agiliza a contratação temporária de brigadistas para o controle de focos de incêndio. Ao todo, 2.520 brigadistas poderão ser contratados por até seis meses.


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ECO CONSTRUÇÃO CRISTIANE SILVEIRA DE LACERDA (*) redacao@revistaecologico.com.br

Na caverna

ATUAL

O relacionamento passional entre dois entes tão próximos

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m sua primeira fase, homem e natureza se encontram. Nas cavernas, as cavidades rochosas serviam de proteção, o meio externo era a ameaça do desconhecido. A natureza acolhe, protege e, ao mesmo tempo, assusta, oprime. O aproveitamento dos materiais e dos recursos disponíveis era uma questão de sobrevivência, aprender a lidar com o que havia disponível era a única alternativa. Do mesmo modo, o mesmo ambiente possibilitava a vida e fornecia ao homem água e alimentos, sol e lar. Compreender a posição da entrada do sol e o caminho dos ventos nas habitações, assim como suas locações, contribuía para a saúde e maior longevidade dos habitantes. A necessidade e a perseverança trouxeram o aprimoramento das técnicas: o fogo, as ferramentas, o cultivo do solo, a barragem das águas, o adestramento dos animais e a dança das forças. As distâncias foram sendo reduzidas, o controle sobre o ambiente aumentava, e a supremacia crescia vertiginosamente. A tecnologia toma conta das indústrias, máquinas, equipamentos e explosivos. Nos transformamos num um planeta de resíduos dispostos de forma irregular: carros, pistas e viadutos com seus engarrafamentos e buzinas por todos os lados. O homem finalmente vence a natureza e aprisiona a rebelde em pequenos jardins e parques, com espécies, cuidadosamente, selecionadas. O distanciamento começa a trazer as águas mais sujas e revoltosas, os alimentos cada dia mais belos e contaminados por venenos, animais escravizados pelo consumo voraz e desperdícios. Salve-nos cidades sustentáveis enquanto ainda há tempo. Que sustentabilidade desejamos? Como amar em equilíbrio, abrindo mão desta autodestruição?

32 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

Somos atraídos pelo fogo que nos arde a alma. E, ao mesmo tempo, a ternura toca os corações. Bombardeados diariamente pela necessidade de consumo que nos é imposta, nos sentimos pequenos e impotentes. E, ao mesmo tempo, sabemos que quem está em risco não é o planeta terra, somos todos nós. Construção sustentável, essas duas palavras formam uma contradição que remete ao início deste artigo, a máxima da sustentabilidade é não construir. Não consumir mais recursos. O RETROFIT, palavra que significa reformar com estratégias de redução no consumo de água e energia e ainda atenção aos materiais selecionados e cuidados para o máximo aproveitamento dos recursos disponíveis, pode ser uma medida inteligente nesta relação que desejamos que seja de amor. Encontrar-nos, então, é despoluir as águas, o solo e o ar que respiramos; homem e natureza precisam disso. E, singelamente, compreender como o sol entra pela nossa janela. Ele é o maior bactericida, não inventado pelo homem, mas disponível em abundância para o consumo desenfreado pelos habitantes da nossa mãe terra. O melhor drink, a melhor bebida do planeta não é o champanhe, é a nossa água que cai do céu e que podemos armazená-la e utilizá-la para os mais diversos fins. Tomemos juízo, e voltemos à nossa generosa Mãe Natureza. Não às cavernas, de forma alguma. Façamos uso da inteligência, da tecnologia, das experiências vividas, da atenção ao bom senso para reescrevermos esta bela história de amor, com muitos desencontros, mas com um final, esperamos, feliz! Que possamos ter 365 dias do ano para comemorarmos o Meio Ambiente. Ainda estamos embuidos nele.

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Nosso Futuro

CONSTRUTIVO E SUSTENTÁVEL

SEGUNDO A ONU, ATÉ O FINAL DESTE SÉCULO, 95% DA HUMANIDADE ESTARÁ MORANDO NAS CIDADES. SERÁ, PORTANTO, NO MEIO URBANO QUE TODOS NÓS TEREMOS DE CONSEGUIR QUALIDADE DE VIDA. SERMOS SUSTENTÁVEIS, NO TRABALHO, NOS TRANSPORTES, NO NOSSO ESTILO DE VIVER. É POR ESTAS RAZÕES QUE, COM FOCO ESCLARECEDOR, JÁ A PARTIR DESTA EDIÇÃO, A REVISTA ECOLÓGICO IRÁ ABORDAR PERMANENTEMENTE O TEMA DA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL.

O O QUE É MELHOR PARA A NATUREZA E O MEIO AMBIENTE QUE NOS RESTAM? OHORIZONTALIZAR A OCUPAÇÃO DOS POUCOS ESPAÇOS URBANOS QUE EXISTEM? OVERTICALIZÁR, SOB A ÓTICA DE UMA NOVA E ECOLÓGICA CONCEPÇÃO CONSTRUTIVA QUE CONVERSE MAIS CONOSCO, COM O SOL, O VENTO E UMA MELHOR VISÃO DE MUNDO?

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DIVULGAÇÃO

“E singelamente compreender como o sol entra pela nossa janela, o maior bactericida existente, não inventado pelo homem, mas disponível em abundância para o consumo”

ECOTELHADO Os telhados verdes possuem diversas características que contribuem para a sustentabilidade dos ambientes, inclusive para as certificações de sustentabilidade construtiva LEED, AQUA e PROCEL EDIFICA. O conforto acústico é garantido através do isolamento feito pela biomassa da vegetação. O benefício térmico advém da redução de até 7 graus na temperatura interna das edificações. Outra contribuição importante é a melhoria do microclima local, o telhado verde tornou-se fundamental para empresas e pessoas que procuram ganhos de qualidade de vida e a redução dos efeitos do aquecimento global nas grandes cidades. Atenção, entretanto, deve ser dada ao dimensionamento correto das lajes e coberturas, devido à sobrecarga estimada em 60 quilos por metro quadrado.

COMISSIONAMENTO DOS SISTEMAS – PRÉ-REQUISITO PARA OS EMPREENDIMENTOS CERTIFICADOS

ARQUIVO PESSOAL

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NOVA SEDE DA VALE EM NOVA LIMA RECEBE O CERTIFICADO LEED

É pré-requisito da Certificação LEED e da Certificação AQUA que seja feita a contratação de um especialista em Comissionamento. Mas o que é o Comissionamento? Comissionamento é o processo de garantia THIAGO PORTES da qualidade das instalações de uma edificação, que tem como objetivo assegurar, por meio de verificação e documentação, que os sistemas, subsistemas e equipamentos foram instalados e funcionam de acordo com a documentação de projeto, condições de desempenho e necessidades operacionais e de manutenção. Cuidados necessários são tomados para que não ocorra a perda de performance entre o projetado e o realizado. O escopo de trabalho compreende: O Comissionamento básico e avançado focado em processos de certificação para edificações sustentáveis; O Consultoria de eficiência energética conforme a Norma ASHRAE 90.1; O Modelagem e simulações termo-energéticas (Energy Plus); O Definição e acompanhamento do “processo de transferência de custódia” – operação assistida e treinamento. A COMIS, representada pelo seu diretor Thiago Portes, profissional credenciado pelo LEED – LEED AP (Accredited Professional), um dos poucos em Minas Gerais com a titulação, e com vários contratos no Brasil é uma das experientes empresas no setor. SAIBA MAIS www.comis.com.br

34 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

O primeiro empreendimento Certificado pelo LEED em Minas Gerais foi a nova sede da VALE localizada em Nova Lima. A obra realizada pela W TORRE recebeu a certificação LEED NC (Nova Construção) na versão 2008 do Referencial Americano. Em fase de conclusão também aguardam o certificado de construção sustentável - LEED o Novo Mineirão e o Edifício da FORLUZ ambos em Belo Horizonte. Importante lembrar que a certificação não garante a perfeição aos empreendimentos, mas sim que eles atenderam aos critérios mínimos estabelecidos de sustentabilidade estabelecidos nos referenciais técnicos para a categoria de certificação almejada, o que demonstra grande avanço no setor da construção.

(*) Diretora da EcoConstruct Brazil – www.ecoconstruct.com.br Professora Coordenadora do MBA Edifícios Sustentáveis: Projeto e Performance da Universidade FUMEC.


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1 A RT I G O

EFEITO DOMINÓ Movimento sincrônico e contínuo remete a pensar nas múltiplas conexões e interligações que dão suporte à vida na natureza e na sociedade Susana Feichas* redacao@revistaecologico.com.br

sido a estruturação e análise de dados sobre o uso de bens naturais, a identificação de aspectos e impactos ambientais, informações sobre os processos produtivos e a força de trabalho. Os efeitos mais visíveis são a busca de fontes alternativas de energia e insumos, o desenvolvimento de tecnologias menos poluentes, a implantação de processos de reciclagem, a diminuição de uso de recursos com a consequente diminuição de poluição, maior atenção a segurança e equidade no ambiente de trabalho. Educação ambiental Pode-se ainda citar instrumentos de mercado como ICMS Verde ou Ecológico, cobrança pelo uso da água, taxas de poluição, títulos intercambiáveis, compensações ambientais e instrumentos de conscientização, como as ações de educação ambiental. No entanto, ainda nos deparamos com o problema de crescimento demográfico da população humana e aumento do consumo, seja pela maior longevidade e acesso ao mercado de um número maior de pessoas. Buscamos garantir o bem-estar para nós e as gerações futuras, mas os bens naturais não se expandem na mesma proporção de nossas necessidades. O efeito dominó da consciência está estabelecido. Hoje temos conhecimentos sobre inúmeros problemas que causamos

como a poluição atmosférica, emissões de gases efeito estufa, destruição da camada de ozônio, escassez qualitativa de água, contaminação de solo, distribuição desigual de recursos e oportunidades, miséria e pobreza. Mas temos ainda dificuldade de olhar para um território e interligar os problemas, pois os interesses dos diferentes atores sociais provocam resistências e retardam ações. Não precisamos ir muito longe para imaginar o efeito dominó advindo da recuperação de nascentes, mata ciliar e margens de rio, reflorestamento de espécies nativas destinadas a recuperação da biodiversidade, reflorestamentos para fins produtivos, produção agroecológica de alimentos, busca de maior eficiência ambiental no uso dos bens naturais. O efeito dominó advindo de uma revisão do consumismo que predomina em nossa sociedade. A natureza tem seguido seu rumo num processo ininterrupto de mudança dinâmica ao longo de milhões de anos, independentemente de nós, seres humanos. No entanto, participamos ativamente desses processos. Que efeito dominó queremos legar para nossos filhos, netos e bisnetos? O da destruição ou da reconstrução da natureza? *Coordenadora executiva do MBA em Gestão do Ambiente e Sustentabilidade da FGV/IBS SHUTERSTOCK

A

s peças retangulares alinhadas simetricamente desmoronam, uma a uma, com um simples toque do dedo na primeira. Esse movimento sincrônico e contínuo remete a pensar nas múltiplas conexões e interligações que dão suporte à vida na natureza e na sociedade. Conexões que ficaram perdidas pela predominância do pensamento cartesiano e afastamento do convívio do ser humano com a natureza. Há 40 anos acontecia a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, na Suécia. A partir dali, tomamos consciência dos problemas ambientais provocados pelo nosso modo de vida e, desde então, medidas têm sido adotadas no sentido de maximizar o uso dos recursos naturais e minimizar a poluição e seus efeitos. O estabelecimento de padrões de poluição e efluentes veio acompanhado dos processos de avaliação de impactos, zoneamento ambiental e dos termos de ajustamento de conduta, indicando aos empreendimentos o mínimo permitido, em que condições uma atividade produtiva pode ser implantada e que ajustes se fazem necessários. A esses mecanismos regulatórios de comando e controle aliaram-se os instrumentos voluntários, como sistemas de gestão ambiental, programas de produção mais limpa, certificações, relatórios de responsabilidade social. O mérito desses instrumentos tem


1 ARTIGO

Como anda a sustentabilidade

NA CONSTRUÇÃO? Lucas Amaral Lauriano * redacao@revistaecologico.com.br

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Núcleo Petrobras de Sustentabilidade, por meio de seu Centro de Desenvolvimento da Sustentabilidade na Construção (CDSC), realizou em 2012 a primeira edição da pesquisa Estágio da Sustentabilidade das Empresas Brasileiras, estudo que contou com a participação de 172 empresas de todas as regiões do País. Compreendendo que a incorporação da sustentabilidade pode acontecer de forma diferente nos diversos setores da economia, o CDSC produziu também uma avaliação complementar, ao analisar o estágio da sustentabilidade do setor da construção brasileiro. Este complemento contou com a participação de 56 empresas da construção. O objetivo da pesquisa foi o de avaliar em qual estágio de sustentabilidade as empresas do setor da construção se encontram. A análise envolveu sete aspectos da

gestão para a sustentabilidade: liderança; relacionamento com stakeholders; transparência; capacidade de resposta; conceito de sustentabilidade; estrutura e intenção estratégica. Os resultados indicam que as empresas do setor começam a agir em prol da sustentabilidade, mas em um nível ainda muito voltado para o ganho de credibilidade e reputação. A avaliação mostra também que há uma dissociação entre a percepção da sustentabilidade para os negócios e sua aplicação no sistema de gestão das empresas brasileiras. Se, por um lado, as empresas já entendem a sustentabilidade e seus diversos aspectos, por outro lado, elas não compreendem como incorporá-la em seus sistemas de gestão. De fato, 91% das empresas do setor concordam que muitas organizações promovem a sustentabilidade, mas não estão realmente comprometidas com a questão.

Os resultados do complemento do setor da construção são bastante parecidos com os resultados da pesquisa nacional. Porém, os dados demonstram que o setor apresenta porcentagens menores em algumas questões que envolvem mensuração de resultados e transparência. Para se ter uma ideia, apenas 27% das empresas do setor afirmam medir os impactos sociais de suas iniciativas sociais realizadas, enquanto na pesquisa nacional essa porcentagem sobe para 45%. Situação similar é observada para mensuração do impacto de iniciativas socioambientais para os negócios. Ainda este ano, será realizada a segunda edição da pesquisa, com o objetivo de acompanhar a evolução da gestão empresarial para a sustentabilidade no País e no setor. * Pesquisador da Fundação Dom Cabral


MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br KCONNORS

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ESTADO DE ALERTA

SALVEM

as florestas!

P

rezados leitores, o Governo enviou à Assem- reunião, acreditando que, pela importância da lei, a bleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) o comunidade científica, ambientalistas e setores ecoProjeto de Lei (PL) nº 3915 que modifica a Lei nômicos privados seriam convocados a participar da 14.309/02, conhecida como Lei Florestal de Minas, para sua construção e seriam realizadas audiências púadequá-la ao Código Florestal, Lei 12651/12, aprovado blicas em todo o Estado. Que Minas daria um show pelo Congresso. Ambientalistas e diversas instituições de democracia! Obviamente, a lei não pode atender e pessoas de projeção no país que se mobilizaram em somente aspectos ambientais. A fabricação de veícurelação à mesma, consideram que ela foi um grande los, roupas, sapatos, remédios, casas, etc., depende dos retrocesso em diversos pontos e elaborada, discutida e recursos naturais e, portanto, não há como dizer simaprovada sob regência de interesses econômicos priva- plesmente: “Sou contra mineração, agricultura, consdos e com apoio do poder público, é claro! trução de estradas, fábricas e barragens”. E, por isso, Nosso primeiro susto por aqui foi o a proteção e regulação do uso susten“É preciso dizer fato de o PL não ter sido discutido com a tável dos recursos naturais são imporsociedade, e sabemos que o Governo cetodos os dias: não tantes! Então, por que tanta pressa? deu às pressões da bancada ruralista na E é preciso dizer todos os dias: não precisamos mais precisamos mais desmatar! Dos pouALMG, que tem pressa em mudar a lei mineira. Ele está na Comissão de Meio cos ambientes naturais que nos restadesmatar!” Ambiente. E, em reunião realizada em ram, boa parte já sofre diversos graus 18 de abril, ficou claro: fomos informados de que a so- de degradação, e temos centenas de espécies, animais e ciedade teria cinco dias para apresentar propostas. Um vegetais, ameaçadas de extinção. E assim, caro leitor, codeputado disse que o Governo demorou demais a enviá- meça mais uma, provavelmente inglória, luta em defesa -lo. Um representante da Federação da Agricultura e Pe- do que restaram em Minas da Mata Atlântica, Cerrado, cuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) disse que os Mata Seca, campos naturais, nascentes, rios e lagos; e do produtores rurais estão parados, porque o Instituto Esta- direito à sobrevivência da onça-pintada, tamanduádual de Florestas (IEF) não libera nada. Como plantar e -bandeira, araras e papagaios. De todos aqueles que criar gado não é proibido no Estado, e o desmatamento não falam a língua humana, como diz Célio Valle. continua acontecendo, deduzimos que estão insatisfeiÉ mesmo lamentável que tão boa oportunidade de tos com as poucas restrições restantes à ocupação de áre- envolver a sociedade na discussão do futuro seja imas que ainda guardam características naturais. possibilitada pela miopia e tratoramento daqueles O governador atendendo solicitação de setores da que detêm o poder político e econômico no Estado! sociedade, interessados no PL, conseguiu prorrogar o (*) Superintendente-executiva da Associação prazo para duas semanas, o que nos permitiu anaMineira de Defesa do Meio Ambiente (Amda) lisar melhor a proposta. Mas confesso que fomos à

38 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


Utilizamos apenas 15% deste anúncio para dizer que, cada vez mais, o respeito ao meio ambiente ganha espaço no nosso dia a dia. A AngloGold Ashanti trabalha para tornar seus processos produtivos cada vez mais eficientes e sustentáveis. Por isso, investe em vários projetos de redução de consumo, tratamento de resíduos, reabilitação e criação de novas áreas de preservação. Só em Minas Gerais, reabilitamos 317 hectares de áreas mineradas nos últimos anos. O equivalente a 327 campos de futebol. Cuidar do futuro do planeta também faz parte do nosso trabalho diário. Esse é o caminho para construirmos um lugar cada dia melhor de se viver.

5 de junho. Dia Mundial do Meio Ambiente. anglogoldashanti.com.br 0800 7271 500


ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

Ao mestre, com SUSTENTABILIDADE Reaproveitamento do abandonado prédio do Instituto Hilton Rocha, no sopé da Serra do Curral, reacende a máxima da sustentabilidade na capital mineira

DIVULGAÇÃO

Hiram Firmino e Maria Teresa Leal redacao@revistaecologico.com.br

MAQUETE DO GRUPO ONCOMED PARA O IHR EM DISCUSÃO


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Ou ser transformado, de maneira sustentável e ainda mantendo a oftalmologia social de Hilton Rocha, em um novo hospital, tal como pretende o Grupo Oncomed, que adquiriu suas antigas instalações. E agora pretende torná-lo o primeiro centro oncológico de tratamento, diagnóstico e prevenção contra o câncer de Minas Gerais, recolocando BH como referência nacional em saúde. Esta é a discussão, que a Revista ECOLÓGICO aborda e defende com relevância nesta edição, desde que as medidas socioambientais compensatórias propostas se realizem de fato. E avancem ainda mais, além da remediação legal, por amor à serra, à toda sua natureza, como Hugo Werneck, companheiro de Ângelo Machado e Célio Valle, pregava de maneira pioneira e equilibrada. Uma edição comemorativa a mais um “Dia Mundial do Meio Ambiente” onde todos nós - incluindo todas as serras, hospitais, médicos, pacientes e vizinhos HILTON ROCHA: VISIONÁRIO E HUMANISTA - estamos no mesmo barco. E precisamos sobreviver de maneira sustentável, amorosa, saudável e humanitária como os mestres Marina e Hilton nos ensinaram. A proposta maior e em curso pela Administração Marcio Lacerda para a Serra do Curral é a mesma sonhada pelos ambientalistas, com ventos positivos vindo também da vizinha Administração Cássio Magnani: unir todas as áreas verdes da Região Sul de BH (parques municipais da Baleia, Mangabeiras, Serra do Curral e Fort Lauderdale) às áreas preservadas de Nova Lima (parques estaduais do Jambreiro, Mutuca e Rola-Moça), em um grande e circundante corredor ecológico. Acompanhe! ACS / MEDICINA DA UFMG

“N

ão nos cabe mais discutir o que se deve ou não fazer com a natureza e o meio ambiente que nos restam; mas como fazê-lo de maneira sustentável, pensando maior e nas gerações futuras”. A receita é atual e traz a assinatura da ex-seringueira e ex-senadora Marina Silva, eleita pela Revista Time uma das 50 personalidades globais capazes de influenciar a maneira de pensar da humanidade e mudar o seu futuro cada vez mais sombrio sobre o planeta. O prognóstico acima foi dado durante a gestão de Marina, enquanto revolucionária ministra do Meio Ambiente no Governo Lula. Essa sua maneira de pensar fez evoluir a história da luta ambiental brasileira, ao propor uma discussão mais ecológica para todo e qualquer novo dilema entre desenvolver e preservar ao mesmo tempo. É o caso em discussão, que está às vésperas de receber o seu prognóstico pela Câmara Municipal de BH, sobre o futuro pretendido pelo Grupo Oncomed das instalações abandonadas do Instituto Hilton Rocha, no sopé da tombada Serra do Curral, eleita democraticamente como o “cartão-postal natural” mais belo, emblemático e querido da capital mineira. Que futuro é esse, que evoca a memória do mais famoso oftalmologista, visionário e humanista (que o professor Hilton foi)? São três as possibilidades reais. Continuar o invasivo “elefante branco” que se tornou o hospital que ele construiu e entrou em decadência após a sua morte, em 1993. E acha-se desativado e abandonado desde 2009, acrescido de vários “puxadinhos” e cicatrizes no solo a horrorizarem a lindíssima paisagem local. Ser demolido e reintegrar-se como uma nova área verde, de apenas 30 mil m2, aos 6.000.000 de m2 de natureza já preservada que compõem o Complexo Ambiental da Serra do Curral.

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 43


SERGIO MORAES / REUTERS

ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

O DÉFICIT ATUAL DE OFERTA E ATENDIMENTO HOSPITALAR À POPULAÇÃO DA CAPITAL CHEGA A QUASE SEIS MIL LEITOS: DESECOLOGIA SOCIAL

O caos na saúde A solução para a sobrecarga hospitalar, em Belo Horizonte, depende da liberação de 12 projetos parados na prefeitura

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saúde na capital mineira pede socorro. Hospitais lotados, carência de leitos e obras que não saem do papel são alguns problemas que compõem um quadro caótico. Enquanto pacientes sofrem nas filas, importantes projetos de ampliação do

44 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

parque hospitalar estão no limbo. Ao todo, 26 projetos de aumento de unidades já existentes e de construção de novos prédios, que somariam um total de 2800 leitos, estão parados. Para piorar, nos últimos 20 anos foram desativados 13 hospitais, aumentando a so-

brecarga nas 68 unidades restantes, sendo 17 públicas e 41 privadas e filantrópicas, de acordo com a Associação Hospitalar de Minas Gerais (AHMG). Para a coordenadora da Comissão Técnica de Infraestrutura e Meio Ambiente da AHMG, Renata


PERDA DE VAGAS Um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) aponta que Minas é o terceiro estado brasileiro que mais perdeu vagas de internação do Sistema Único de Saúde (SUS) entre outubro de 2005 e junho de 2012. No total, 5.177 leitos da rede pública foram desativados. O reflexo é a migração de pacientes para a capital em busca de atendimento. Além da demanda local, diariamente, cerca de 6.300 moradores do interior de Minas buscam o difícil atendimento na rede ambulatorial de Belo Horizonte. Para o presidente do Conselho Regional de Medicina, João Batista Gomes Soares, um agravante é o desaparelhamento das cidades periféricas. “Quando pacientes do interior migram para BH, as unidades não comportam”, ressalta. A procura por leitos provenientes de outras regiões do Estado chega a 40%, agravando a superlotação do parque hospitalar local. Com o inchaço, a taxa de ocupação média dos hospitais está entre 93 e 96%, ultrapassando o limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é entre 75 e 85%. Sem falar que a super-

ARQUIVO PESSOAL

RENATA MIARI: "FALTAM LEITOS"

ARQUIVO CRMMG

Miari, faltam leitos tanto da rede particular quanto do SUS (Sistema Único de Saúde). Por isso, é importante ampliar a infraestrutura de atendimento. Hoje, a capital e região metropolitana contam com apenas 9.605 vagas de internação para uma população de 6,1 milhões de habitantes. Levando-se em consideração a portaria 1101/GM do Ministério da Saúde, que prevê entre 2,5 a 3 leitos por mil habitantes, deveriam existir 15.363 ofertas de vagas na cidade. Ou seja, o déficit chega a quase seis mil leitos.

JOÃO BATISTA: "LOTAÇÃO DESUMANA"

lotação de setores de urgência e emergência faz com que o índice chegue a 100%. A falta de infraestrutura da rede pública somada ao aumento do poder aquisitivo das classes C e D fez ainda com que pacientes do SUS migrassem para a saúde suplementar sem que esta estivesse preparada para atender a demanda. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), nos últimos 5 anos, houve um aumento de 10% dos beneficiários dos planos de saúde,

chegando a 57% da população de BH, o que corresponde a 1,4 milhão de segurados. Os desdobramentos da deficiência do setor são velhos conhecidos: demora no atendimento; aumento do risco de complicações; dificuldade de internação e deterioração física das edificações. ACERTOS NA LEI Uma das saídas para a sobrecarga é a expansão e reestruturação do parque hospitalar existente. Em abril deste ano, a prefeitura enviou à Câmara um projeto que altera a Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano, permitindo a construção de hospitais e a ampliação de unidades de saúde já existentes. O projeto de lei (PL 239), que até o fechamento desta edição não havia sido votado em 1º e 2º turnos, aumenta o percentual construtivo de hospitais para coeficiente 5. Isso significa, por exemplo, que, se o terreno tiver mil metros quadrados, poderá construir 5 mil metros quadrados. A proposta, no entanto, veda esse aumento em Zonas de Proteção 1 e 2 e Zonas de Proteção Ambiental (ZPAM), nas quais se enquadra o caso do antigo IHR. De qualquer forma, o diretor e cancerologista do Grupo Oncomed, Amândio Fernandes, aguarda a aprovação do projeto que beneficiará a população como um todo. Além disso, ele tem expectativa de que, uma vez aprovada, a nova lei também comporte uma emenda que permita a ampliação de hospitais que já funcionam em Zonas de Proteção Ambiental, claro, com limites, de altimetria. “Não se trata de verticalizar. Nossas adequações serão horizontais e a ampliação ultrapassará pouco mais do coeficiente 1”, ressalta.

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 45


ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

Solução sustentável Proposta é aproveitar os espaços desativados do antigo hospital para ampliação do número de leitos

46 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

CAROL REIS

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A PROPOSTA É NÃO VERTICALIZAR AS ANTIGAS E ATUAIS INSTALAÇÕES DO IHR

Conselho Superior da Sociedade Brasileira de Cancerologia. Vale ressaltar que o novo Hilton Rocha não terá atendimento de urgência e pronto-socorro. Por isso, não haverá barulho nos períodos de pico. Outra vantagem, pontuada por ele, é que o hospital, funcionando 24 horas, contribui para a segurança da região e atende à comunidade vizinha, com benefícios para o bairro.

DIVULGAÇÃO

lém da falta de estrutura física para suprir toda a demanda por atendimento, BH carece de espaço nas regiões centrais para erguer novas edificações. “A média de idade dos hospitais em funcionamento é de 47 anos. Muitos ultrapassam 60. A maioria está localizada em áreas centrais da cidade, onde não existem mais espaços para expansão dos prédios originais”, afirma Renata Miari, da Associação Hospitalar de MG. Já o presidente da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), Lincoln Lopes Ferreira, lembra que paralelo à ausência de arcabouço legal e de incentivo para novas iniciativas, ocorre a degradação dos hospitais existentes. Segundo ele, o aproveitamento de estruturas obsoletas torna-se uma solução sustentável, exequível e eficaz. Esse é o caso do antigo prédio do Hospital Hilton Rocha, subutilizado desde 2009. Com vistas a suprir parte do gargalo que a saúde enfrenta, o grupo Oncomed propõe transformar o edifício do Instituto, localizado no Mangabeiras, região sul da cidade, em um Centro de Referência e Tratamento do Câncer. Os registros da Secretaria Estadual de Saúde apontam que, diariamente, 3.500 pacientes vêm à cidade em busca de atendimento especializado, como os tratamentos oncológicos. “A capital é o principal polo de prestação de serviços nas áreas de Medicina de alta complexidade do Estado”, justifica Roberto Porto Fonseca, diretor do Grupo e presidente do

PROJETO SUSTENTÁVEL “Não haverá verticalização”, afirma o arquiteto responsável pelo projeto, Flávio Carsalade, pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. O edifício atual foi erguido há 40 anos, é ultrapassado, produz cicatrizes na serra e destoa da paisagem por sua cor e formas. Além disso, o prédio perdeu sua característica original e ganhou vários “puxadinhos”. “Nossa intenção é requalificar o hospital e, ao mesmo tempo, a Serra do Curral e o entorno”, esclarece o arquiteto. Carsalade garante que o projeto está fundamentado nos conceitos da sustentabilidade e das edificações verdes, buscando o equilíbrio

LINCOLN LOPES: SUPRIR A DEMANDA


DIVULGAÇÃO

O NOVO PROJETO: READEQUAÇÃO HORIZONTAL AO PERFIL DA SERRA

SELO VERDE Por seguir os conceitos dos Green Buildings (Edificações Verdes), o hospital projetado da Oncomed está a um passo de conquistar o certificado LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Emitido em mais de 130 países, o selo é considerado a principal certificação de construção sustentável para os empreendimentos do Brasil. O LEED foi criado no país em 2007 e é representado oficialmente

Isso, de acordo com ele, é um primeiro passo para a implantação de um corredor ecológico no sopé de toda a Serra do Curral. AMPLIAÇÃO HORIZONTAL Para melhor conseguir os efeitos estéticos de harmonização e

FLÁVIO CARSALADE: “READEQUAÇÃO ECOLÓGICA”

ARQUIVO PESSOAL

com o meio ambiente, a flora local e minimização de gastos energéticos. Outra meta é incrementar o potencial de absorção e reserva das águas da chuva. “Vamos diminuir a presença do prédio e aumentar a visibilidade da serra. O uso de jardins para tratamento dos pavimentos e de materiais naturais para revestimento do edifício vai reaproximá-lo da natureza. Além disso, serão plantadas espécies nativas do cerrado mineiro no entorno das edificações e nos terraços-jardins, além de espécies em extinção”, explica Carsalade.

pelo GBC Brasil, Conselho de Construção Sustentável. Atualmente, existem 40 empreendimentos brasileiros atestados com o selo. Entre eles hospitais, escolas, laboratórios de saúde, supermercados e prédios comerciais. Segundo o autor do projeto arquitetônico, Flávio Carsalade, a ideia é que o pedido de certificação, que deve ser realizado por meio da Plataforma LEED Online, seja feito na etapa do projeto e durante a obra. A proposta da Oncomed é estabelecer o equilíbrio com o meio ambiente, recuperar a flora local, e implantar um sistema para reuso de água pluvial, com minimização de gastos energéticos e outros.

criação de novas áreas verdes, o projeto propõe a ampliação horizontal do edifício. O objetivo é compensar as demolições dos vários anexos e barracões que sobem a encosta da serra e obturar as crateras e agressões feitas. E para evitar que os automóveis ocupem as ruas do bairro, o projeto de ampliação prevê ainda um estacionamento no subsolo. “A intenção é diminuir o impacto do trânsito local, trazer mais comodidade para os pacientes e manter o silêncio característico do bairro”, acrescenta o arquiteto.

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FOTOS FERNANDA MANN

ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

Entenda o caso Situação atual do Hilton Rocha: “puxados” e barracos subindo a serra

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ta Flávio Carsalade que presidiu o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/MG), o IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico) e foi secretário municipal de Administração Urbana da Regional Pampulha da Prefeitura de Belo Horizonte, além de membro do Conselho Deliberativo do PaARQUIVO ONCOMED

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médico Amândio Fernandes, um dos diretores da Oncomed, lembra que o grupo venceu o leilão do prédio do Instituto Hilton Rocha em 2009. Antes, eles pesquisaram vários locais da cidade, na expectativa de encontrar um lugar onde pudessem instalar um grande hospital de referência do câncer. Enfim, constataram que não havia área disponível e adequada na capital mineira capaz de comportar a empreitada. “Quando ficamos sabendo do leilão do prédio do HR, voltamos a ter esperanças de concretizar nosso hospital”, rememora o diretor. Batido o martelo, a Oncomed contratou o arquiteto e urbanis-

trimônio Cultural. Ele respondeu que só aceitaria o trabalho se vislumbrasse, nele, a possibilidade de requalificar a área que pertence à uma Zona de Proteção Ambiental. De acordo com Carsalade, o prédio do jeito que está é um “corpo estranho” à Serra. “Foi aí que percebemos que o projeto daria certo, porque estávamos falando a mesma língua”, relata Fernandes. A Lei 9959, de 2010, de Uso e Ocupação do Solo do município de Belo Horizonte, ampara a Oncomed na utilização daquela área para construção do hospital, uma vez que regulamenta um novo parcelamento de uso e ocupação de áreas na cidade, desde que se-

AMÂNDIO FERNANDES: "A ESPERANÇA É CONCRETA E NÃO SE TRATA DE VERTICALIZAR"

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11 de junho de 2013 Auditório Juscelino Kubitschek Cidade Administrativa Tancredo Neves Av. Rodovia Prefeito Américo Gianetti, S/N Belo Horizonte - MG

Mais informações: [31] 3274 3200 pmga@ubq.org.br www.pmga.org.br

“The next 20 years”

chancela


ARQUIVO ONCOMED

ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

A HISTÓRIA EM DADOS 2011 Após estudos, é anunciado o projeto que transformará o prédio em um Centro de Tratamento e Prevenção ao Câncer, referência para o estado. A previsão para a inauguração é até a Copa de 2014.

2005 ROBERTO FONSECA: "O BENEFÍCIO PARA A POPULAÇÃO É INCONTESTÁVEL"

jam de interesse social. Nesse sentido, Roberto Fonseca, também diretor da Oncomed, disse estar tranquilo, haja vista a necessidade premente de um hospital de grande porte em BH, que reúna os melhores equipamentos e profissionais na prevenção e tratamento dos mais variados tipos de câncer. “O benefício para a população, do ponto de vista da saúde, é incontestável. Mas queremos estendê-lo também ao meio ambiente, revitalizando e cuidando daquela área, que é um dos principais cartões-postais da cidade”. O projeto do novo hospital já passou por várias etapas e foi aprovado com louvor pelo Iphan, pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, além de ter sido sabatinado pelo Ministério Público, que não encontrou qualquer irregularidade. O problema é que, em 2011, um Projeto de Lei encaminhado pelo prefeito Marcio Lacerda, foi retirado da pauta na Câmara Municipal e o prazo para apreciação do Legislativo expirou. Resultado: a lei beneficiou apenas a rede hoteleira, ficando a maioria dos hospitais impedida de realizar seus projetos de expansão.

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2012 O projeto de lei no. 1692/11 que permitiria a ampliação de hospitais e a oferta de leitos ganha uma emenda restritiva, prejudicando o projeto atual.

2009 Depois de quatro anos, o leilão, finalmente, acontece e o terreno e o prédio são arrematados pelo grupo Oncomed.

Após mais de 10 anos de abandono e decadência, o prédio entra na lista de bens a serem leiloados a fim de saldar dívidas trabalhistas.

1993 Depois do auge do Instituto nos anos 80, Hilton Rocha morre e, devido a um desentendimento entre os diretores do hospital, é necessária a intervenção do Ministério Público.

1974 O dr. Hilton Rocha, renomado oftalmologista mineiro, compra o terreno onde funcionará o hospital e a fundação idealizados por ele. O Instituto Hilton Rocha se torna uma referência nacional no tratamento da visão e o prédio, um marco para a cidade. Na época, havia poucas construções no local e o prédio era avistado de vários pontos da cidade.

Agora, o PL (239/13) voltou à Câmara, só que com alterações. A nova versão, que permite construção e ampliação de hospitais, não traz nenhum impedimento à instalação e funcionamento do novo hospital no antigo Hilton

Rocha, porém, limita as ampliações que beneficiariam a região da Serra do Curral.

SAIBA MAIS: www.oncomedbh.com.br

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ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

A SITUAÇÃO DO ATUAL E DESATIVADO IHR: PUXADOS E BARRACOS NO SOPÉ DA SERRA

Mitos e verdades As preocupações da comunidade e os esclarecimentos da Oncomed

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A verticalização do novo hospital causará grande impacto para a paisagem da região. O novo projeto arquitetônico prevê a utilização da estrutura do antigo prédio sem acréscimo de pavimentos acima dos existentes, integrando-o à paisagem. Ou seja, não haverá verticalização.

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Trará mais prejuízos ambientais à Serra do Curral já degradada pela mineração. O novo prédio é benéfico ao meio ambiente, uma vez que tem características que o harmonizam com a paisagem da Serra. Além disso, será um hospital com selo verde que irá recuperar a área vegetal perdida e incrementará o potencial de absorção e reserva de águas das chuvas.

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O novo hospital vai prejudicar o trânsito local nas ruas vizinhas e dificultar o aces-

52 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

so ao Parque das Mangabeiras. Ele não contará com unidades de pronto-socorro, portanto não haverá fluxo de ambulâncias na região, nem ruídos de sirene e fluxos intensos, em respeito à vizinhança. O projeto de ampliação prevê a construção de 300 vagas de estacionamento nos subsolos que atenderão a funcionários e familiares.

a expectativa é de que a ocupação e o fluxo do novo hospital afugentem a presença de pessoas mal intencionadas, atualmente atraídas pelo abandono do entorno. Hoje, o bairro Mangabeiras vem sendo alvo de ações de bandidos, justamente por ser escuro e pouco movimentado. A nova instituição médica trará movimento e segurança 24h para a população local.

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Atrairá para o bairro Mangabeiras ambulantes e flanelinhas, além de marginais. A frequência atual da região, atraída pelo atendimento público do SUS realizado na Fundação Hilton Rocha, e também pelo Parque das Mangabeiras, Praça do Papa, imediações da Praça Israel e pista de caminhada, pouco será alterada. Não se trata de uma fábrica ou escola, com concentração de pessoas em determinados horários. Além disso,

Existe vinculação de uso da oftalmologia e o Hilton Rocha deve continuar sendo um hospital oftalmológico, nada mais que isso. O local continuará prestando atendimento à população através da Fundação Hilton Rocha, localizada e preservada no prédio ao fundo. O novo hospital também realizará atendimento oftalmológico e terá tratamento oncológico e cardiovasular. A oftalmologia se modernizou e, hoje, aten-


FOTOS: DIVULGAÇÃO

E A PROPOSTA ATUAL DE AMPLIAÇÃO HORIZONTAL E REQUALIFICAÇÃO AMBIENTAL, REINTEGRANDO À NATUREZA

de procedimentos os mais complexos em clínicas pela cidade, sendo esta uma das razões para o esvaziamento do antigo Instituto Hilton Rocha que, por ser superdimensionado para a nova realidade da especialidade, ficou abandonado durante anos.

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A Oncomed justifica o desejo de transformar o antigo Instituto de Olhos Hilton Rocha em hospital de múltiplas atividades, o que é proibido em áreas preferencialmente residenciais. A Lei do Uso e Ocupação do Solo de Belo Horizonte - 9959/10 garante o direito de funcionamento de hospital naquela área. E a proposta em discussão é transformar um hospital abandonado, com estrutura física obsoleta e que agride o meio ambiente, em um centro de prevenção e tratamento do câncer, promovendo a adequação da edificação para as novas atividades e valorizando a sustentabilidade ambiental ao seu redor.

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Ao consultar o Ministério Público Estadual, em 2011, sobre a legalidade da pretensão,

a Associação dos Moradores constatou que a encosta foi tombada por lei federal em 1960 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), proibindo edificações no local. Em qualquer área tombada por um órgão público específico, a lei determina que mudanças podem ser realizadas nesta área desde que sejam aprovadas pelo órgão que regulamenta o tombamento. Em 2012, o Iphan informou ter recebido projeto de adaptação do imóvel, cujas intervenções foram consideradas adequadas, inclusive, à necessidade de redução do impacto paisagístico na Serra do Curral. O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município (CDPCM0-MG) também aprovou as intervenções propostas pela Oncomed no antigo hospital Hilton Rocha. O Ministério Público (MPMG) fez cuidadoso estudo, por meio de consulta, a diversos outros órgãos e, em 30 de janeiro de 2012, por sua Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, comunicou o arquivamento do referido procedimento. Atualmente, está em tramitação na Câmara

Municipal o Projeto de Lei 239 que permite a ampliação dos hospitais, exceto nas áreas de preservação ambiental (ZP1, ZP2 e Zpam). A expectativa é de que o PL ganhe emendas que permitam a ampliação das instituições, desde que as mesmas já existam nas referidas áreas.

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O novo hospital se tornará inimigo da comunidade vizinha. Como se verifica em diversas capitais e grandes centros do mundo, a presença de hospitais especializados em áreas residenciais é perfeitamente compatível, benéfica e harmoniosa. A proposta da Oncomed é criar uma relação aliada e amigável com a vizinhança, não apenas na sua assistência diária, como também na questão física, já tendo proposto, inclusive, a recuperação paisagística de toda a serra, ao longo da avenida desde a entrada do Parque das Mangabeiras até a Praça Israel, além da instalação de equipamentos médicos-esportivos para uso da comunidade, preferencialmente de terceira idade.

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 53


FERNANDA MANN

ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

COERÊNCIA À VISTA: PELO TOMBAMENTO ORIGINAL, NÃO APENAS AS TORRES NA SERRA, COMO VÁRIAS RUAS E CASAS DO MANGABEIRAS, VIZINHAS AO IHR, TERIAM DE SER DEMOLIDAS

Recomendações verdes Relatório da Fundação Biodiversitas confirma que novo hospital pode requalificar a Serra do Curral

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ara averiguar os possíveis impactos do projeto do Hospital da Oncomed no sopé do cartão-postal natural de BH, a Fundação Biodiversitas, referência científica internacional, realizou um minucioso estudo do seu complexo paisagístico e sua vinculação com a implantação do centro oncológico proposto. Uma equipe de especialistas considerou a organização espacial e os valores simbólicos da região, a transformação da sua paisagem

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natural e sociocultural, o tombamento federal, as diretrizes de proteção e a história de implantação do antigo hospital Hilton Rocha há 40 anos, bem como a ocupação do bairro Mangabeiras. Entre vários outros itens, o parecer concluiu que a nova proposta “poderá melhorar a paisagem do ponto de vista estético e promover a requalificação benéfica desse espaço para a comunidade da capital”. E que, “quanto à riqueza, diversidade e composição da flo-

ra, na área do empreendimento, o impacto gerado por sua presença será positivo, desde que a área seja recuperada com espécies nativas da vegetação original”, já prevista. No que se refere ao impacto sobre a fauna, o estudo acrescenta que não se pode isolar o efeito já ocorrido pela implantação do hospital, do contexto urbano em que se encontra, que reflete também a ocupação urbana do Mangabeiras ao longo dos anos. “A reativação do hospital, se adi-


ALTERNATIVA VÁLIDA Ao longo de oito páginas de descrições científicas, com 36 considerações e 19 conclusões, o parecer técnico final da Biodiversitas observa que, ‘idealmente’, a área de tombamento da Serra do Curral, “por todos os valores nela representados, deveria ter sido resguardada de quaisquer usos que ferissem os propósitos que determinaram a sua proteção, os quais incluem não apenas o Hospital Hilton Rocha”. Mas “também as diversas ocupações que tomaram lugar na serra ao longo da história da capital (e dos municípios vizinhos) e que resultaram em ameaças à sua integridade biológica, física, aos benefícios intangíveis e aos serviços decorrentes deste ecossistema”. Considera mais o documento: “A demolição do atual hospital, a recuperação da área e a sua reintegração à paisagem montanhosa pode ser uma alternati-

“Por ser restrita, a atividade hospitalar é a que menos impacta a biodiversidade da serra” GIL LEONARDI / SECOM MG

cionadas de medidas que promova a recuperação e o incremento dos ambientes naturais vizinhos à construção, poderá favorecer a proteção das espécies silvestres aí existentes”. A afirmação é do próprio diretor-presidente da Fundação Biodiversitas, o biólogo, professor e escritor Ângelo Machado, indicado e vencedor por unanimidade do II Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza, “O Oscar da Ecologia” 2011, na Categoria “Personalidade Ambiental”. Segundo ele, o novo hospital proposto “constitui a atividade menos impactante no contexto urbano-ecológico da região, por possuir área de implantação restrita, se comparado aos demais usos.”

ANGELO MACHADO, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS

va válida, desde que inserida em uma gestão ambiental global da Serra do Curral”. Isso “inclue a demolição e/ou desativação dos demais usos antrópicos implantados dentro dos limites da área de tombamento, tais como as torres e antenas presentes do alto da Serra, as edificações e as áreas de mineração”. Recomenda que o Grupo Oncomed “assuma compromisso e responsabilidade com a conservação do patrimônio do qual estará usufruindo, independentemente das alterações ambientais

decorrentes dos diversos usos na região”. Isto significa, textualmente, “ir além do cumprimento das obrigações previstas em lei, promovendo iniciativas que impliquem em melhorias da qualidade ambiental”. Bem como faz a seguinte recomendação: “Que implante um programa de recuperação da vegetação nativa na faixa entre a Avenida José do Patrocínio e a encosta da serra entre os parques municipais das Mangabeiras e Serra do Curral, em toda a extensão que separa as duas Unidades de Conservação (UCs)”. E que “fomente a implantação de um corredor ecológico que contemple toda a extensão da serra, entre o Taquaril e Mineração Lagoa Seca, criando conexões biológicas entre as UCs, presentes nesse território, as quais trarão benefícios para a biodiversidade regional como um todo”. O documento acrescenta “que se estude a possibilidade de reservar espaço para desenvolvimento de programação visual voltada para a valorização, conscientização e sensibilização sobre o patrimônio cultural encerrado na geografia do cartão-postal natural da capital, contando a sua história, podendo ser denominado Museu Oncomed da Serra do Curral”. Levando em conta ainda “a possibilidade de incorporar a Serra do Curral na identidade do futuro hospital”. E, por último, que a Oncomed considere como sua missão “a proteção à vida, seja dos pacientes dentro do hospital, seja da flora e da fauna no seu entorno”.

LEIA O DOCUMENTO NA INTEGRA: http://goo.gl/CY9cn

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 55


REPRODUÇÃO

ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

HILTON ROCHA LADEADO POR MAGALHÃES PINTO E FERNANDO VELOSO

O Mestre in memorian

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e estivesse vivo, Hilton Rocha estaria completando 102 anos. Ele faleceu aos 81 anos, exatamente um ano depois da ECO 92, no Rio de Janeiro. Foi um visionário, um homem à frente de seu tempo e, sobretudo, um apaixonado pelo ofício da medicina, da pesquisa e dos avanços científicos. Nasceu em 23 de dezembro de 1911 na ecológica Cambuquira, no Sul de Minas. Formou-se na UFMG em 1933. Dois anos depois, já era professor-assistente da instituição. Em 1942, defendeu a tese “O Ângulo da Câmara Anterior” e passou a ser o mais jovem catedrático do país, aos 31 anos. Hilton Rocha também foi responsável por revolucionar a residência médica no Brasil. Com base no modelo utilizado nos Estados Unidos, idealizou uma especialização em Oftalmologia, que exigia dedicação em tempo integral durante dois anos, com o cuidado de dividir a especiali-

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dade em estrabismo, glaucoma e lentes de contato. Sempre trabalhando muito, liderou a equipe que fez o primeiro transplante de córnea do Brasil e aperfeiçoou a técnica que permite aproveitar uma mesma córnea em dois pacientes. Na década de 1970, junto com outros colegas médicos, Christiano Barsante, Emyr Soares e Paulo Galvão, criou o Instituto Hilton Rocha que tornou-se o maior hospital oftalmológico do país. Pela excelência no atendimento e dos profissionais que lá trabalhavam, logo se tornou referência nacional e internacional no atendimento oftalmológico. À frente do Instituto, Hilton Rocha consolidou seu apoio aos deficientes visuais, ao fundar a revista “Braille” que focava assuntos de interesse desse grupo de pessoas. Além disso, implantou o projeto “Livro Falado” que consistia na conversão para fitas cassete de livros culturais e didáticos. Mas,

segundo seu filho Ricardo Rocha, o “Projeto Urbi” era o que seu pai mais estimava. Consistia num ônibus com o interior adaptado para ser um completo consultório oftalmológico. Com uma seleta equipe de oftalmologistas, o veículo saía quinzenalmente pelo interior de Minas atendendo até mil pessoas, por empreitada, entre homens, mulheres, crianças e idosos, que não tinham condições de tratar suas enfermidades. Exames feitos, elas também recebiam óculos gratuitamente. Agora, o Instituto e a Fundação que levaram seu nome por tantos anos, ganham um projeto arquitetônico e paisagístico arrojado integrando-o, definitivamente à paisagem da Serra do Curral. Por uma dessas inexplicáveis coincidências da vida, o nome Hilton vem do anglo-saxão e significa “aquele que vem da montanha”. E, pelo visto, também fica e abençoa. Como uma “rocha” que seu sobrenome, naturalmente, sugere.

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O futuro do planeta está em nossas mãos.

A Assembleia de Minas trabalha pela qualidade de vida de todos os mineiros. Por isso, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável promove debates, estudos e projetos voltados para o correto gerenciamento dos recursos hídricos, visando ao melhor tratamento da água, ao desenvolvimento sustentável e à justiça social. Um dos exemplos do nosso trabalho é a Lei Estadual 14.309, que protege as nascentes do Estado. É hora de parar de falar e começar a preservar. Não só hoje, mas todos os dias do ano.

www.almg.gov.br @assembleiamg Assista à TV Assembleia


ESPECIAL ABANDONAR OU REVITALIZAR?

Sem verticalização e com acréscimo compensatório (vide ilustração), a ampliação trará mais benefícios à comunidade, segundo a Oncomed: OCriação de áreas ajardinadas; OMelhores efeitos estéticos de harmonização com a serra; OMais vagas de estacionamento interno para evitar que os automóveis ocupem as vias públicas; OCompensação das demolições dos vários “puxadinhos” e “barracões” que sobem e enfeiam a encosta da Serra; OObturação das crateras e agressões ao relevo da Serra, hoje existentes; OSuperação da obsolescência do prédio antigo, tornando-o ambientalmente mais adequado; ONão se beneficiará do coeficiente 5, proposto pelo projeto de lei em tramitação na CMBH, e utilizando apenas o coeficiente 1 para que sejam feitas intervenções, tornando o novo hospital mais harmonioso e benéfico para o meio ambiente e para a sociedade; OO hospital ganhará, em suas dependências, um Museu da Serra do Curral.

DIVULGAÇÃO

AMPLIAÇÃO SUSTENTÁVEL: COMPROMISSO MÉDICO

OSer implantado sem o projeto de ampliação, caso ocorra

lentidão na alteração da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Um substitutivo pode permitir que os hospitais tenham maior potencial construtivo; OEm dimensões mais reduzidas, a proposta do novo hospital terá que manter o mesmo conceito arquitetônico do anterior, com aproveitamento das estruturas existentes e uso de materiais que harmonizem o prédio com o paredão da Serra do Curral. Permanecerão também as propostas de preservação e recuperação do entorno da edificação antiga e os mesmos serviços de ponta em oncologia, além de atendimento cardiológico e oftalmológico; ONo entanto, o número de leitos será reduzido de 220 para 145, o que não é interessante para uma cidade tão carente de leitos hospitalares. Não haverá o mesmo número de vagas de estacionamento, e a linearidade proposta anteriormente ficará comprometida, uma vez que a área construída não mais poderá ser integrada num mesmo bloco horizontal. Locais como memorial, auditório, mudário e espaço ecológico seriam suprimidos. Com a palavra, a Câmara Municipal!

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FERNANDA MANN

SEM AMPLIAÇÃO: PIOR CENÁRIO


Assinatura dos Decretos de Monumentos Naturais. Nova Lima cada vez mais verde. Neste ano, Nova Lima terá um motivo muito especial para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente: a Prefeitura vai assinar os decretos que instituem quatro import rtan ante tess Un U idades e de Conservaçã ç o Ambiental: a Serra do Souza (em frente ao Po Post sto o da Pol olíc ícia ia Rod odov oviá iári ria – MG-030), a Ser erra da Calçada (na BR-0 BR -040 40), ) o Morro do Pi Pires em Macacos e o Morro do Elefante. Po Porq rque ue gar aran anti tirr a pr prot oteç eção ão e a pre rese serv se rvaç rv ação aç ão ão do patrimônio natural é promover o dessen envo v lv lvim imento eco conô nô nômi ômi mico c e sus co uste tent ntáv tável el para ara a no noss ssa a ci cida dade da dad de. de.

APOIO:

Morro do Elefante

Morro do Pires

Serra da Calçada

Serra do Souza


SHUTTERSTOCK

ÁGUA 2013

PRESENTE E FUTURO NAS MÃOS DE TODOS NÓS Ano Internacional de Cooperação pela Água coloca na pauta global o desafio de proteger e melhorar a qualidade desse recurso vital e estratégico à vida Luciana Morais redacao@revistaecologico.com.br

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leito pela ONU o Ano Internacional de Cooperação pela Água, 2013 confirma perspectivas animadoras em relação a ações destinadas à conservação e partilha desse recurso finito e vital. O objetivo da iniciativa é aumentar a conscientização, tanto no po-

60 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

tencial para a maior cooperação, quanto no que se refere aos desafios da gestão da água, em função do aumento da demanda, dificuldades de acesso e deficiências nos seus sistemas de abastecimento e distribuição. Apesar de todos saberem que a água potável, limpa

e adequada, é indispensável à sobrevivência de todos os organismos e funcionamento dos ecossistemas, comunidades e economias, a qualidade dela no mundo está a cada dia mais comprometida, em consequência do crescimento das populações humanas, da ex-


DIFICULDADES DE ACESSO E DEFICIÊNCIAS NOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO E DISTRIBUIÇÃO SÃO DESAFIOS DA GESTÃO DA ÁGUA

dando importantes contribuições para fomentar essa rede de cooperação proposta pela ONU. O primeiro passo foi dado ainda em 2009, com a criação do Hidroex, sediado em Frutal, no Triângulo Mineiro e o seu reconhecimento como Centro de Categoria II do Programa Hidrológico Internacional (PHI) da Unesco. “Nosso objetivo é, fundamentalmente, criar cooperação e solidariedade em água. É a partir da cooperação que chegaremos ao verdadeiro desenvolvimento econômico e social, ambientalmente sustentável, numa perspectiva de ajuda mútua entre

OCTÁVIO ELÍSIO: “O ESTADO JÁ DÁ CONTRIBUIÇÕES PARA FOMENTAR A REDE DE COOPERAÇÃO PROPOSTA PELA ONU”

ALEXANDRE MAGRINELI DOS REIS

ÁGUAS E RIOS DE MINAS Conhecida como a ‘Caixa d’Água do Brasil’, graças à abundância de suas águas e rios como o São Francisco, Minas Gerais tem papel de destaque nesse ano de celebração planetária. Presidente da Fundação Centro Internacional de Educação, Capacitação e Pesquisa Aplicada em Água (Hidroex), o professor Octávio Elísio Alves de Brito, destaca que o Estado já está

FÁBIO POZZEBOM-AGÊNCIA BRASIL

pansão das atividades agrícolas e industriais e das mudanças climáticas que ameaçam alterar o ciclo hidrológico global. Para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), braço da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável pela coordenação desse ano temático, o maior desafio na seara mundial dos recursos hídricos é a transformação de obrigações assumidas em ações concretas, que devem ser implementadas em benefício das pessoas, dos ecossistemas e da biosfera como um todo. A cooperação pela água pode assumir muitas formas, desde a parceria através de fronteiras, para o manejo de aquíferos subterrâneos e de bacias fluviais compartilhadas, até o intercâmbio de dados científicos ou a parceria em uma vila rural, para a construção de um poço, por exemplo. Para a entidade, é preciso criar oportunidades de cooperação na gestão da água entre todas as partes interessadas, bem como aprimorar a compreensão dos desafios e benefícios dessa colaboração, são tarefas que podem ajudar na construção do respeito, do entendimento e da confiança mútuos entre os países. Tais iniciativas também contribuem para a promoção da paz, da segurança e do crescimento econômico sustentável.

vizinhos, nações fronteiriças, regiões, municípios e pessoas que vivem numa mesma bacia hidrográfica, numa mesma cidade.” Nesse contexto, afirma o professor, a criação de uma nova mentalidade em relação ao cuidado com a água é essencial. “Estamos acostumados a ver a água como abundante, e mudar esse comportamento, pensar estrategicamente a água como um pilar essencial na busca da sustentabilidade e na construção da paz, requer uma mudança urgente e necessária.” Para Brito, essa transição somente se dará por meio da educação, entendida não apenas como transmissão de conhecimento, mas, sobretudo, como um passaporte para a adoção de novos hábitos. “A educação é o grande instrumento de conscientização para a mudança de comportamentos e a formação de uma cidadania consciente.”

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 61


DIVULGAÇÃO / HIDROEX

ÁGUA 2013

O POLO HIDROEX DE REVITALIZAÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO VAI APOIAR PROJETOS JÁ INICIADOS: DESDE A JUSANTE DO RESERVATÓRIO DE TRÊS MARIAS ATÉ MANGA, NA DIVISA COM A BAHIA

62 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

ganhando corpo em nível regional. O Polo Hidroex de Revitalização do Rio São Francisco, em parceria com a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), vai apoiar projetos já iniciados, que abrangem o trecho da bacia, desde a jusante do reservatório de Três Marias até o município de Manga, na divisa com a Bahia. A ideia é ampliar a atuação nos próximos anos. No nível global, a meta é fo-

mentar a troca de experiências com os demais integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que reúnem Angola, Cabo Verde, GuinéBissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, na África; Timor Leste, na Ásia; além de Brasil e Portugal. “Queremos compartilhar ensinamentos e experiências. Essa ponte de mão dupla é que cria o espaço da cooperação e das parcerias vitoriosas em água.”

FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM / AGÊNCIA BRASIL

ATIVIDADES PRÁTICAS Sintonizado com esse compromisso, a Fundação atua em várias frentes, inclusive diretamente nas escolas. Por meio da capacitação de professores, está levando conhecimento diferenciado a alunos da rede pública e contribuindo para que conheçam melhor a realidade à sua volta e se tornem multiplicadores de novos conceitos. Em Frutal, atividades práticas e oficinas incentivam os estudantes a conhecerem e entenderem a situação do Ribeirão Frutal, cuja água eles bebem, e está em muitos trechos deteriorado pelo lixo, pelo desmatamento e pela ocupação irregular. “Experiências como essa, que também estão em andamento em Uberaba e, em breve, serão estendidas a municípios do Baixo Rio Grande, são a chave para transformar a mentalidade das crianças, fazendo com que ampliem a sua visão de mundo”, afirma. Amparadas na máxima do agir localmente e pensar globalmente, as iniciativas também estão


SANEAMENTO É GARGALO as indústrias devem intensificar o As questões ligadas ao déficit de desenvolvimento de tecnologias saneamento no Brasil também e de produtos que favoreçam a merecem atenção especial neste proteção dos recursos hídricos e a ano dedicado à cooperação pela reutilização de água. Se bem aproágua. Para o gestor da Unidade veitado, este Ano Internacional de de Negócios da Mizumo, Giova- Cooperação poderá ser muito útil ni Toledo - referência nacional para a adoção de medidas efetivas, em sistemas pré-fabricados para destinadas à ampliação dos servitratamento de esgoto sanitário –, ços de saneamento básico e incenainda é longo o caminho para que tivo ao uso racional da água. A hora a sociedade atue em favor da pre- é agora!”, pondera. servação dos recursos hídricos, nos níveis ideais de atendimento às necessidades futuras e atuais da humanidade. “De um entendimento geral da sociedade quanto aos fatores envolvidos, dependerá a superação dos desafios que se desenham atualmente: poluição, desperdício, falta de tratamento de esgoto, uso racional dos recursos hídricos, criação de políticas eficientes Conhecer os aspectos ambientais de captação, distribuido território para direcionar o ção, armazenamento desenvolvimento sustentável. e abastecimento de água”, relata. www.sete-sta.com.br No âmbito público, defende Toledo, é essencial haver um compromisso com A PARCELA DE CADA CIDADÃO políticas de saneamento que pro- A todos nós, cidadãos comuns, movam investimentos nos servi- moradores de grandes e pequenas ços de ampliação do acesso à água cidades, também cabe uma parcetratada e ao esgotamento sanitário. la de cooperação para o sucesso Conforme dados divulgados em dessa rede global em prol da água. 2011 pelo Instituto Brasileiro de Pesquisador do Laboratório de Geografia e Estatística (IBGE), mais Instalações Prediais e Saneamende 70% dos municípios brasileiros to, do Instituto de Pesquisas Tecnão têm projetos estruturados nológicas (IPT), de São Paulo, nessas áreas. “A universalização Luciano Zanella sugere algumas desses serviços é um grande e ur- medidas simples – e relativamengente desafio no Brasil. São neces- te baratas – para redução do dessários esforços coletivos no sentido perdício, manejo racional e reuso de garantir às pessoas o acesso a da água. Entre elas, ele destaca o serviços básicos. Paralelamente, investimento em equipamentos

Avaliação Ambiental Estratégica

economizadores, como o arejador, acessório usado em torneiras com a função de misturar ar à água, dando a sensação de maior volume, mantendo assim o conforto do usuário e economizando água. Para Zanella, outra medida positiva já aplicada no Brasil é o uso de bacias sanitárias em tamanho padrão, de 6,8 litros. Elas são consideradas de baixo volume de descarga, se comparadas a modelos antigos, que consumiam até 15 litros em apenas uma descarga, após o uso do vaso sanitário. As válvulas de descarga dupla também são viáveis para instalação doméstica, liberando volumes diferenciados de água para dejetos líquidos e sólidos. Outro costume que não está diretamente ligado à economia de água tratada, mas que pode contribuir sobremaneira para a melhoria do manejo das águas urbanas é a manutenção de áreas permeáveis em quintais e terrenos residenciais. “Em qualquer cidade grande, é comum as pessoas colocarem piso e impermeabilizar todo o quintal. Obviamente, há locais em que essa prática deve ser evitada, como próximo a encostas e em terrenos instáveis.” Como isso, esclarece o pesquisador, o morador ‘desencadeia’ duas situações bastante comuns nos centros urbanos. A primeira é a redução da quantidade de água que infiltra no subsolo, alterando uma parte importante do ciclo natural da água. A segunda: quem impermeabiliza

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 63


ÁGUA 2013

FIQUE POR DENTRO

O Ao contrário do que se acredita, a

BRASIL SEM ESGOTOS: É ESSENCIAL HAVER UM COMPROMISSO COM POLÍTICAS DE SANEAMENTO QUE PROMOVAM O ACESSO, DE TODA A POPULAÇÃO, À ÁGUA TRATADA E AO ESGOTAMENTO SANITÁRIO

quintais e áreas que poderiam, por exemplo, ser gramadas, colabora para o aumento do volume de água que escoa para fora da casa, favorecendo a formação de pontos de alagamentos e a ocorrência de enchentes. ÁGUA DA CHUVA Em relação à instalação de sistemas para captação de água da chuva – que pode substituir a tratada na irrigação de jardins; lavagens de pisos, de veículos e de fachadas e na descarga do vaso sanitário – Zanella, que também é doutor em engenharia civil em saneamento e ambiente pela Unicamp, prega cautela. “Os gastos com energia elétrica, manutenção de bombas, de filtros e reservatórios devem ser previstos; bem como testes para verificação da qualidade da água obtida. Não dá para se aventurar a coletar água da chuva de forma, digamos, arte-

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sanal. Um dos maiores riscos é o surgimento de focos de dengue. É fundamental considerar as características da construção e respeitar alguns critérios de engenharia, para que se tenha um projeto eficiente, econômico e ambientalmente vantajoso”, conclui. CIDADE DAS ÁGUAS A ideia de um centro de educação para as águas em Minas Gerais se deu a partir 2001, com a iniciativa e ações do deputado Narcio Rodrigues, hoje secretário de Estado de Ciência Tecnologia e Ensino Superior. A Cidade das Águas-Hidroex, em Frutal, criada pelo governo de Minas, com o apoio do governo Federal, buscou parcerias com instituições de ensino e pesquisa em água e formou o Condomínio Temático em Água. É um complexo de instituições nacionais e internacionais de ensino, pesquisa e desenvolvimento em gestão de recursos

cooperação é mais frequente do que o conflito pela água. Prova disso são programas como o Projeto de Compartilhamento de Benefícios Socioeconômicos da Iniciativa da Bacia do Nilo, no Egito; o acordo entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para a conservação e proteção do Aquífero Guarani; o programa de manejo da Bacia do Rio Mekong, no Sudeste Asiático, ou o recente tratado entre Moldávia e Ucrânia para a conservação e desenvolvimento sustentável da Bacia do Rio Dniester, na Europa Oriental. O Questões de cooperação pela água também foram tema do Dia Mundial da Água, comemorado no último dia 22 de março. Outros grandes eventos que marcarão esse ano temático são: Semana Mundial da Água, em Estocolmo, na Suécia, de 1º a 6 de setembro; uma conferência sobre cooperação pela água em Dushanbe, no Tajiquistão, também em setembro, e a Cúpula da Água, em Budapeste, na Hungria, dias 10 e 11 de outubro. SAIBA MAIS: http://goo.gl/RNt8B http://www.hidroex.mg.gov.br

hídricos, todas juntas trabalhando para a preservação da água. Com previsão de término em 20 meses, estão em construção laboratórios, alojamentos, biblioteca e o Centro de Educação a Distância. O projeto é assinado por Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e consultor da ONU para assuntos de urbanismo, que articula, em um corredor ecológico, a Cidade das Águas com a cidade de Frutal e cria um espaço de ligação, encontro e convivência com a comunidade.


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ÁGUA 2013

DUAS PERGUNTAS PARA...

Blanca Jiménez-Cisneros, diretora da Divisão de Ciências da Água e secretária do Programa Hidrológico Internacional (PHI) da Unesco

COMO EXATAMENTE ESSA COOPERAÇÃO PELA ÁGUA SE DARÁ OU FOI PLANEJADA? Em dezembro de 2010, a Assembleia Geral da ONU declarou 2013 como o Ano Internacional de Cooperação pela Água. A proposta apresentada por um grupo de países foi iniciada pelo Tajiquistão, país sem acesso ao mar e cujas fontes de água têm origem em nações vizinhas. A Unesco foi convidada a liderar esse ano comemorativo em razão de sua atuação interdisciplinar, que se adapta perfeitamente bem à natureza intrinsecamente transversal da água, que não conhece fronteiras políticas nem limites disciplinares. O sucesso do Ano Internacional de Cooperação pela Água/Dia Mundial da Água e seu legado dependerão do envolvimento de todos. As agências-membro da ONU-Água e seus inúmeros parceiros terão a tarefa de catalisar as ações, além de apoiar e unir esforços em todo o mundo para: divulgar a mensagem da campanha, organizar eventos que ajudem a difundir suas mensagens-chave – uma conferência, exposição ou workshop sobre cooperação em água em sua comunidade, por exemplo –; bem como compartilhar histórias de sucesso ou estudos de caso sobre cooperação em água.

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QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS RESULTADOS ESPERADOS, TANTO NO BRASIL, QUANTO EM OUTROS PAÍSES? O gerenciamento de sistemas de água requer o envolvimento de múltiplos atores – desde usuários, profissionais, gestores e especialistas de várias disciplinas até legisladores e tomadores de decisão. Portanto, especialmente em um país de rápido desenvolvimento como o Brasil, a cooperação pela água entre os diferentes grupos sociais e setores econômicos, governos regionais, presentes e futuras gerações, é crucial não apenas para assegurar seu uso sustentável e igualitário, mas também para criar e manter relações de paz entre as pessoas e todos os envolvidos de modo geral. A expectativa é que este Ano Internacional melhore a compreensão geral

66 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

AMC

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BIANCA JUMENEZ: “O SUCESSO DA DATA DEPENDE DO ENVOLVIMENTO DE TODOS”

dessas interações e promova métodos, meios e esforços para integrar todos os interesses e perspectivas, fomentando, entre outros aspectos, a inovação, a construção da confiança coletiva e a tomada de decisões que beneficiem a todos. Especificamente do Brasil, gostaria de citar dois exemplos de cooperação que estamos destacando durante este ano, como histórias de sucesso de cooperação em água. O primeiro é o acordo entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, na partilha e gestão do Aquífero Guarani. O segundo é o HIDROEX, em Frutal, Minas Gerais, centro que conduz em todo o Brasil, sob a chancela da Unesco, um esforço interdisciplinar voltado para a educação em água e destinado a atingir todos os setores, promovendo também a cooperação científica internacional.


A Brennand Cimentos, com a grande contribuição de seus colaboradores, promove ações culturais, sociais e ambientais junto às comunidades no entorno de suas fábricas e investe na preservação do meio ambiente e dos recursos naturais, cooperando para um futuro melhor através do desenvolvimento sustentável. É esse compromisso socioambiental e o respeito ao cliente que move o trabalho da Brennand Cimentos, como na fábrica de Sete Lagoas, que, em maio de 2013, completa dois anos de operação. www.brennandcimentos.com.br | faleconosco@brennandcimentos.com.br | CAC: 0800 201 0021

Luiz Ângelo

MANUTENÇÃO MECÂNICA

Luana Scalabrini MEIO AMBIENTE

Carlos Avelar

INFRAESTRUTURA


OSWALDO RIVAS-REUTERS

1I N T E R N AC I O N A L

O PLANETA NA ENCRUZILHADA Se não enfrentarmos os desafios ambientais mais urgentes, um em cada três habitantes do planeta pode ser lançado à extrema pobreza em 2050 Vinícius Carvalho redacao@revistaecologico.com.br

22% no sul da Ásia e de 24% na África Subsaariana, que reúne os países mais suscetíveis à desertificação ao sul do deserto do Saara. Na América Latina, seriam 150 milhões de pessoas na miséria, sobretudo em virtude da proliferação de eventos climáticos críticos - enchentes e secas - e de tempestades e furacões na América Central. “As previsões sugerem que o continuado insucesso

MIKE BLAKE / REUTERS

bientais. A conclusão é do Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, que faz um alerta: os pobres são quem menos contribui para o aquecimento global, mas serão os principais atingidos pelas mudanças climáticas. No cenário mais grave, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) global diminuiria 15% em 2050, chegando a uma redução de

CONTRASTE MUNDIAL: OBESIDADE EM OFERTA E ESCASSEZ EM CURSO

JASON LEE / REUTERS

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aso se confirmem as piores perspectivas do aquecimento global, as catástrofes ambientais lançariam 2,7 bilhões de pessoas na pobreza extrema até 2050. Desse total, 1,9 bilhão seriam pessoas diretamente afetadas pela degradação, enquanto 800 milhões seriam gente impossibilitada de sair da miséria por causa das calamidades am-


DILEMA Nos últimos 40 anos, os países listados entre os 25% inferiores nas classificações do IDH melhoraram o seu desempenho total em 82%, o dobro da média global. Se o ritmo de melhoria se mantivesse nos próximos 40 anos, a maioria dos países alcançaria, até 2050, níveis de IDH iguais ou superiores aos atualmente conseguidos pelos 25% no topo das classificações do IDH. O problema, avisa a ONU, é a expansão da degradação ambiental que acompanha esta melhoria. Segundo a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, 15 de 24 serviços ambientais considerados essenciais para a continuidade da vida humana estão em declínio. Estes incluem o fornecimento de água doce, a produção da pesca marinha, a regulação de desastres naturais e a capacidade dos ecossistemas agrícolas de controlar pragas. Como os mais pobres dependem de forma mais imediata destes serviços e não têm como pagar por alternativas, acabam sendo as principais vítimas. E o que é mais grave: sem serem os principais geradores das mudanças climáticas. Uma pessoa que vive num país de IDH muito elevado, por exemplo, é responsável hoje por mais do que o quádruplo das emissões de dióxido de carbono de uma pessoa num país com IDH médio - e cerca de 30 vezes mais emissões do que alguém que vive num país com um IDH baixo. Ou seja, os países pobres são os que menos contribuíram para as alterações climáticas globais, mas sofrerão mais com a perda de precipitação e o aumento na sua variabilidade, com repercussões na produção agrícola e nos meios de subsistência.

JB ECOLÓGICO

na redução dos riscos ambientais graves e das crescentes desigualdades ameaça abrandar décadas de progresso sustentado da maioria pobre da população mundial - e até inverter a convergência global do desenvolvimento humano”, destaca o documento.

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 69


1I N T E R N AC I O N A L

Refugiados ambientais

AUMENTO NO NÍVEL DOS MARES Uma subida de meio metro no nível do mar até 2050 inundaria quase um milhão de quilômetros quadrados, uma área equivalente à de França e Itália juntas. Isso afetaria cerca de 170 milhões de pessoas, sobretudo nos países com IDH mais elevado e nos pequenos Estados insulares em vias de desenvolvimento. A ONU alerta, contudo, que os países mais ricos teriam recursos e a tecnologia para reduzir o risco de perdas, como faz hoje a Holanda. Países insulares com uma elevação média baixa, como Tuvalu, Kiribati e as Ilhas Marshall também seriam obrigados a deslocar toda sua população.

70 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

JAYANTA DEY / REUTERS

DAVID MASSEY / THE GAINESVILLE SUN

O mundo já conta com cerca de 25 milhões de refugiados ambientais. A redução drástica da biodiversidade, inundações, tempestades, desgaste dos solos e desertificação, provocam mais migrações do que todos os distúrbios políticos e sociais juntos. Eis os principais riscos, segundo o relatório da ONU:

EVENTOS CLIMÁTICOS CRÍTICOS Somente em 2011, 14,9 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas devido a desastres naturais, sobretudo furacões e enchentes. Nas últimas duas décadas, o número de desastres naturais também dobrou, passando de 200 para 400. Segundo estudos científicos elaborados pelo Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), é o que se espera com o agravamento do aquecimento global: mais chuvas torrenciais e concentradas em curto espaço de tempo e maior frequência de dias secos consecutivos decorrentes do aumento na frequência de veranicos. Como não têm recursos para se adaptar às mudanças, os mais pobres seriam obrigados a abandonar suas casas.


JOE PENNEY / REUTERS

NASA

O Planeta Fome em curso: segundo a Universidade das Nações Unidas (UNU), até 2050, seremos150 milhões de refugiados ambientais no mundo

CONFLITOS ARMADOS DECORRENTES DA DEGRADAÇÃO Com menor disponibilidade de recursos naturais, a ONU também prevê mais conflitos em torno do controle da água e de terras agricultáveis. É o que já corre, por exemplo, no Mali - país localizado no coração da África Ocidental. Mais de 80% da população rural depende da agricultura de subsistência e da criação de animais. Diante do avanço da desertificação e da flutuação de preços das matérias -primas, ocorreu um golpe de estado em 2012 e milhares de pessoas tiveram de abandonar suas casas devido ao conflito. O Mali é o 175º colocado entre 187 países avaliados pelo IDH e 69% da população vive abaixo da linha de pobreza.

AMEAÇAS AMBIENTAIS CRÔNICAS As alterações climáticas não são a única ameaça ambiental. O desflorestamento e a exploração do solo e das vias navegáveis podem ameaçar os meios de subsistência a longo prazo, a disponibilidade de água doce e recursos renováveis essenciais para alimentar milhões de pessoas, como a pesca. Um dos riscos mais iminentes é a desertificação. As terras áridas abrigam cerca de um terço da população mundial e mostram-se particularmente vulneráveis, sobretudo na África Subsaariana, região mais pobre do mundo.

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1I N T E R N AC I O N A L

A fome hoje Quantas pessoas passam fome no mundo hoje e onde a maioria delas vive? Quais são os efeitos da desnutrição e o que fazer para ajudar? Confira dez fatos essenciais para entender por que acabar com a fome é um dos desafios mais urgentes do planeta:

Embora o número de pessoas com fome tenha aumentado, na comparação com o percentual da população mundial, a fome na verdade caiu de 37% da população em 1969 para pouco mais de 16% da população em 2010.

A fome é o número um na lista dos 10 maiores riscos para a saúde. Ela mata mais pessoas anualmente do que AIDS, malária e tuberculose juntas.

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Os primeiros 1.000 dias da vida de uma criança, desde a gravidez até os dois anos de idade, são a janela crítica para combater a desnutrição. Uma dieta adequada neste período pode protegê-las contra o nanismo mental e físico, duas consequências da desnutrição.

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Aproximadamente 925 milhões de pessoas no mundo não comem o suficiente para serem consideradas saudáveis. Isso significa que uma em cada sete pessoas no planeta vai para a cama com fome todas as noites.

Bem mais que a metade dos famintos do mundo – cerca de 578 milhões de pessoas – vivem na Ásia e na região do Pacífico. A África responde por pouco mais de um quarto da população com fome do mundo. (Fonte: FAO).

5 Um terço das mortes entre crianças menores de cinco anos de idade nos países em desenvolvimento está ligado à desnutrição.

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Custa apenas 25 centavos de dólar por dia alimentar uma criança com todas as vitaminas e os nutrientes de que ela precisa para crescer saudável.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Mães desnutridas muitas vezes dão à luz bebês abaixo do peso. Essas crianças têm 20% mais probabilidade de morrer antes dos cinco anos de idade. Cerca de 17 milhões de crianças nascem abaixo do peso a cada ano.

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Em 2050, as alterações climáticas e os padrões climáticos irregulares levarão mais de 24 milhões de crianças à fome. Quase metade dessas crianças vive na África Subsaariana.

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Conforme anunciado na Rio+20, estão sendo definidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Serão princípios orientadores de sustentabilidade a serem perseguidos por todos os estados membros das Nações Unidas a partir de 2015, incluindo metas e resultados esperados em áreas críticas como água, saneamento, florestas, biodiversidade e combate à pobreza. Este mês, um time de 80 especialistas convidados pela ONU apresentou o primeiro rascunho. São dez grandes objetivos que podem evitar a tragédia se devidamente implementados. As metas que cada país deve cumprir serão especificadas ao longo deste ano. Confira a lista:

1. Fim da pobreza extrema e da fome; 2. Alcançar o desenvolvimento global; 3. Garantir aprendizado eficaz às crianças e jovens;

4. Alcançar a igualdade de gênero,

10 A grande maioria da população subnutrida - 907 milhões - vive nos países em desenvolvimento. Desses, 65% estão concentrados em apenas sete países: Índia, China, República Democrática do Congo, Bangladesh, Indonésia, Paquistão e Etiópia

inclusão social e direitos humanos;

5. Alcançar o bem-estar e garantir a saúde em todas as idades;

6. Melhorar os sistemas agrícolas e aumentar a prosperidade rural; 7. Capacitar as cidades, tornando-as inclusivas, produtivas e resistentes; 8. Controlar as mudanças climáticas e garantir energia limpa a todos;

9. Assegurar serviços ambientais, biodiversidade e bom gerenciamento dos recursos naturais;

10. Transformar a governança para o desenvolvimento sustentável.

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 73


REPRODUÇÃO

1 D E S A S T R ES AMBI EN TAI S

HÁ MAIS DE 20 ANOS ESPECIALISTAS ALERTAM: AS PESSOAS MAIS VULNERÁVEIS SÃO AS MAIS AFETADAS PELOS IMPACTOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

OS MAIS POBRES SÃO OS MAIS

VULNERÁVEIS Valéria Flores redacao@revistaecologico.com.br

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umento dos alimentos afeta mais a baixa renda (Rio de Janeiro)”, “Produtores de derivados do leite enfrentam problemas com a seca (Pernambuco)”, “Mudanças climáticas e o aumento das chuvas prejudicam a produção de verduras e legumes e fazem os preços subirem no atacado (São Paulo)”, “Mais de 129 mil pessoas em Manaus vivem em situação de extrema pobreza (Amazonas)”. Essas são manchetes de jornais brasileiros veiculadas neste ano. Dia a dia, noticia-se o que os especialistas no assunto

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vêm alertando há mais de 20 anos: as pessoas mais vulneráveis são as mais afetadas pelos impactos das mudanças no clima. Em Minas Gerais, a situação não é diferente. Todos os anos, pipocam na mídia, notícias sobre a seca, desabamentos, enchentes e alagamentos, castigando agricultores, pecuaristas e comunidades de baixa renda nos municípios mineiros. Cada evento extremo atinge, geralmente de forma mais grave, as populações e regiões mais pobres, sejam rurais ou urbanas. “Quando a temperatura au-

menta, os agricultores familiares, que têm menos condições do que os grandes produtores, terão problemas com suas produções, com mudanças no calendário de colheita e possíveis alterações no modo de produção, podendo causar estados de insegurança alimentar”, confirma a secretária executiva da Rede Nacional de Mobilização Social (Coep), Gleyse Peiter, sobre as populações rurais em situação de vulnerabilidade. Peiter explica que também as populações urbanas sofrem quando passam por eventos climáticos


“O clima está mudando em uma velocidade que não se vê há alguns milhões de anos: 100 vezes mais rápida do que quando a Terra começou a sair da última glaciação, 20 mil anos atrás, até atingir o equilíbrio climático recente, 12 mil anos atrás.” CARLOS NOBRE, cientista

A ADAPTAÇÃO AOS IMPACTOS AMBIENTAIS É UM DOS CAMINHOS PARA DIMINUR OS DANOS ÀS POPULAÇÕES VULNERÁVEIS

Em termos de políticas públicas, para fortalecer as populações de baixa renda e torná-las menos vulneráveis às mudanças no clima, a secretária executiva do Coep indica um caminho. “Uma solução é a inclusão, na discussão para elaboração das políticas, das questões associadas aos impactos das mudanças climáticas nas pessoas, ou seja, os impactos humanos das mudanças climáticas podem acontecer de modo

GLEYSE PEITER: “LIDAR COM AS CAUSAS E NÃO APENAS COM AS CONSEQUÊNCIAS”

REPRODUÇÃO

LIDAR COM AS CAUSAS E a situação pode ficar ainda pior. É que a incidência dos fenômenos climáticos, registrados em todo o mundo, deve se tornar cada vez mais comum. Estima-se, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que até 2050 entre 25 milhões e 1 bilhão de pessoas sofram com as consequências das modificações no clima. Diante desse quadro, o Coep, que coordena o Grupo de Trabalho (GT) Mudanças Climáticas, Pobreza e Desigualdades, no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC), acredita na adaptação aos impactos das mudanças climáticas como um dos caminhos para diminuir os danos às populações vulneráveis. “Adaptação significa que os sistemas sociais, econômicos e ambientais de uma determinada região devem ser ajustados de modo a diminuir a vulnerabilidade às mudanças ou variabilidade climática. A adaptação deve ser entendida como uma forma de lidar com as causas do problema e não apenas com as consequências. Ela é fundamental para diminuir a vulnerabilidade social às mudanças climáticas”, disse Peiter.

SHUTTERSTOCK

extremos. “Moradores de um local próximo a um rio que tenha enchentes terão suas casas prejudicadas, estarão sujeitos a mais vetores de doenças, terão dificuldade de locomoção e de recuperação dos prejuízos financeiros, entre outras situações”, relata.

transversal, afetando diferentes setores de governo”. Essa e outras sugestões estão no documento Subsídios para a Elaboração do Plano Nacional de Adaptação aos Impactos Humanos das Mudanças Climáticas, entregue nas mãos da presidenta Dilma Rousseff, no ano passado, em reunião do FBMC. O documento foi elaborado a partir da estruturação de dez grupos de trabalho temáticos - redução de riscos de desastres; desenvolvimento agrário; desenvolvimento social; educação; saúde; segurança hídrica; meio ambiente; segurança alimentar e nutricional; trabalho e desenvolvimento urbano - que, a partir de um roteiro comum, apresentaram suas propostas, sistematizadas posteriormente pelo Grupo Coordenador do GT.

2 ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 77


1 D E S A S T R ES AMBI EN TAI S

As mudanças climáticas que atingem o planeta por causa do aquecimento da atmosfera serão detalhadas no próximo relatório parcial do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que será divulgado este ano. O anúncio foi feito no Rio de Janeiro, durante a 7ª Conferência e Assembleia Geral da Rede Global de Academias de Ciências. O secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, Carlos Nobre, não quis adiantar o conteúdo, mas frisou que as informações trazidas nos primeiros documentos, que apontavam para um aumento na temperatura do planeta, pela queima de combustíveis fósseis por ação do homem, foram confirmadas. “As evidências são avassaladoras. O clima está mudando em uma velocidade que a Terra não vê há alguns milhões de anos, 50 ou 100 vezes mais rápida do que quando a Terra começou a sair da última glaciação, 20 mil anos atrás, até ela atingir o equilíbrio climático recente, 12 mil anos atrás”, dispara Nobre. É necessário investir em ações de mitigação e adaptação às alterações do clima e na prevenção aos desastres é uma necessidade, aponta o relatório Indicador de Risco Climático Global 2013, da organização alemã Germanwatch. De acordo com o documento, em 2011, mais de mil pessoas morreram no Brasil por conta de

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ELZA FIÚZA / ABR

“AS EVIDÊNCIAS SÃO AVASSALADORAS”

CARLOS NOBRE AO LADO DA MINISTRA DO MEIO AMBIENTE, IZABELLA TEIXEIRA: “AS INFORMAÇÕES SOBRE AUMENTO NA TEMPERATURA DO PLANETA FORAM CONFIRMADAS”

eventos climáticos extremos e as tragédias custaram aos cofres do país cerca de US$ 4,7 bilhões. O relatório traz ainda as 10 nações que mais sofreram com eventos climáticos extremos no último ano, e o Brasil ocupa a sexta colocação no ranking. Para a geógrafa Ana Paula Varanda, pesquisadora do Laboratório Herbert de Souza - Tecnologia e Cidadania, e uma das autoras da pesquisa Políticas Públicas e Iniciativas da Sociedade Civil de Prevenção e Resposta a Situações de Desastres Climáticos, o envolvimento dos moradores das áreas de risco é fundamental para a organização dos sistemas de prevenção e resposta a situações de desastres. “Em geral, as estratégias adotadas no funcionamento

dos sistemas de defesa civil são direcionadas para a atuação em casos de emergências, não compreendendo o planejamento de ações estruturantes, a médio e longo prazos. Neste sentido, seria importante a atuação conjunta com os órgãos estaduais e municipais responsáveis pela realização de mapeamentos e monitoramentos de áreas de risco, gestão de recursos hídricos, políticas habitacionais, meio ambiente, saneamento, saúde, educação etc. Também são escassas as ações voltadas para o estabelecimento de interfaces entre os sistemas de prevenção e políticas públicas que promovam a redução de vulnerabilidades socioeconômicas dos moradores que residem em áreas de risco”, disse.


ENVOLVER A POPULAÇÃO A geóloga ressalta que a criação de Núcleos Comunitários de Defesa Civil (Nudecs), a partir da política Nacional de Proteção e Defesa Civil, instituída em 2007, foi progressivamente sendo adotada e incorporada aos sistemas municipais de proteção e defesa civil. A ideia central era envolver moradores e organizações atuantes nas localidades consideradas de risco na adoção de medidas de monitoramento, educação ambiental e estratégias de desocupação de áreas. Mais da metade dos municípios mencionaram a implantação de Nudecs como estratégia para o envolvimento dos moradores das áreas de risco. “No entanto, percebe-se a necessidade de ações que promovam articulações entre as medidas adotadas na gestão do risco e o

FIQUE POR DENTRO

O IPCC foi criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e reúne milhares de cientistas de diversos países. Já foram publicados quatro relatórios. A divulgação completa do quinto, incluindo os trabalhos dos grupos 2 e 3, deverá ocorrer em 2014.

desenvolvimento de iniciativas que incidam sobre as causas que geram as situações de exposição ao risco. Há também a aquisição de radares meteorológicos, a instalação de sirenes em comunidades localizadas em áreas de risco, envio de SMS aos moradores desses locais”, observa. Para ela, a pesquisa identificou

avanços nos investimentos feitos em sistemas de monitoramento e alerta, com a compra de equipamentos e modernização nas ferramentas de comunicação com as áreas afetadas. Contudo, observamos uma baixa atuação, por parte dos órgãos de defesa civil consultados, na montagem de equipes, programas e ações direcionadas à estruturação de sistemas de respostas à ocorrência de desastres. Além disso, é fundamental avançar na disponibilização de abrigos temporários para as populações das áreas de risco”, alertou.

SAIBA MAIS: As 193 iniciativas inovadoras estão disponíveis no site www.coepbrasil.org.br/projetosdeadaptacao

Amda Há 34 anos trabalhando pela preservação do meio ambiente. Parabéns a todos que fazem parte desta história!

www.amda.org.br


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GESTÃO EMPRESARIAL & TI ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

NÃO É MAGIA, É TECNOLOGIA! Um mundo só de máquinas não precisa ser sustentável

80 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

contrar aquilo que as máquinas não podem ensinar. Se eu fosse médico, queria ser um médico novo e curar os males que máquinas não pudessem curar. Se eu fosse político, ia pensar que o povo, já esquecido, muito em breve, pudesse decidir ele mesmo, em votação instantânea, a sua vontade. Pelo menos é o que eu teria obrigação de desejar. Escrevo para alertar: um mundo só de máquinas não precisa ser sustentável. Pode quase morrer ou morrer inteiro. Só faz sentido a ciência que engrandece o espírito humano, e esta ciência está aí para transformar as nossas vidas da maneira que deixarmos que sejam transformadas. No passo em que andamos, vamos poder quase tudo e isso nos assusta, mas não devia. Fomos nós, com a ajuda de Deus, que criamos a ciência. Não é magia, é tecnologia! (*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente de Sustentabilidade da Sucesu-MG e presidente do Comitê para a Democratização da Informática – CDI e diretor da Arbórea Instituto

TECH NOTES z Um pouco sobre a morte da morte www.seuhistory.com/programas/vida-eterna.html z O fim dos tablets www.blogiphone. com.br/?p=9013

REPRODUÇÃO

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enhoras e senhores: fiquem tranquilos, porque inventarão a vida eterna e, em breve, não morreremos mais. Será preciso ficar vivo até lá, mas isso é detalhe. Para os incrédulos, um passeiozinho pelo Google em busca de termos como “imortalidade” vai ser uma surpresa com data marcada: 2045! Pirou o nosso cronista, dirão; por isso, farei previsões menos bombásticas. Ninguém se surpreenderá se eu disser que máquinas de padrão desktop, as torrinhas para os mais íntimos, acabarão. Encontra-se para comprar, aqui e ali, de forma residual. Mas e os notebooks? Faça passeio igual nos buscadores e você encontrará o mesmo resultado. Há quem preveja seu uso para dois, outros para cinco anos e: c’est fini! Nada de novo não, é? Então procura aí: “o fim dos tablets”. A pescaria é mais rala, mas você vai descobrir que o CEO da Blackberry, quem sabe desesperado com seu próprio fim anunciado, previu o fim dos tablets. Teremos óculos? Teremos conexão direta ao cérebro? Só Deus sabe, mas enquanto eu fico torcendo para que seja ele a decidir, vale uma reflexão. Em um mundo onde a biônica avança tão rapidamente, uma invenção emerge com mais impacto que as outras: a invenção do novo homem. Nós, que já somos a versão 2.0 desta máquina de viver, vamos assistir a transformações que nunca imaginamos. Se dominarmos a morte sem a ajuda da transcendência, teremos que entender Deus de uma forma diversa, e torço para que não ousemos matá-lo. Se pudermos programar nossos cérebros, a educação será transformada e não precisaremos aprender. Com ela, também a indústria do turismo, porque não precisaremos viajar. Bastará implantar nossas memórias e teremos ido, sem nunca ir, aos lugares dos nossos sonhos. Que papel estará reservado a este novo homem? Para sermos verdadeiras criações divinas, ainda precisaremos sentir. Leia-se: fazer música, poesia, contar histórias, encantar as pessoas, amar! Quantas vezes me surpreendo com o futuro no presente, encontrando, logo ali no botequim da esquina, tecnologias que não imaginei ver. Queria não acreditar que o mundo mudasse tão rápido, queria que não fosse assim, mas se eu fosse professor ia correr para ser um professor novo e en-

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FERNANDA MANN

ME MÓ R I A A MB I E N TAL

APOLO HERINGER LISBOA, UM DOS FUNDADORES DO PT: DA DESILUSÃO POLÍTICA À SUBVERSÃO APARTIDÁRIA E MAIOR DA ECOLOGIA

XX O ECOLÓGICO | MAIO DE 2013


DA LUTA ARMADA

À LUTA AMADA O nascimento (político) do ambientalista que se juntou ao personagem real de Guimarães Rosa para criar um projeto de vida ao Rio das Velhas Hiram Firmino redacao@revistaecologico.com.br

“Isso mexeu muito comigo. Eu associava as cenas dos trabalhadores rurais com a epopeia do povo hebreu no Egito. Associava os faraós com os nossos coronéis latifundiários e, depois, com os generais da ditadura militar. Aprendi na Bíblia a ver que as questões políticas e religiosas eram inseparáveis. Foi isso que me levou, mais tarde, à militância política. A querer ser Dom Quixote e mudar o mundo”. Até os 12 anos, ele viveu em Lavras, no sul de Minas, para onde foi completar o ginasial no Instituto Gama, o mesmo colégio americano e internato em que seu pai havia estudado. E, aos 14, mudou-se novamente para a capital, para viver junto da avó e das tias; e no Colégio Municipal da Lagoinha, terminar o científico. Mais que isso, acompanhando novamente seu pai, pastor

MANUELZÃO: LEMBRANÇA, HOMENAGEM E IMAGEM DO PROJETO

GERMANO NETO

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e origem humilde, Apolo Heringer Lisboa nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1943, onde viveu até os seis anos. Seus pais (a mãe de origem alemã e o pai agrônomo, funcionário do Ministério da Agricultura) tiveram outros 11 filhos, além de dois adotados. Até os oito anos, ele viveu primeiramente em Belo Horizonte e depois em Manhuaçu, na Zona da Mata mineira. Foi acompanhar o trabalho de seu pai fitossanitarista, mais conhecido como “médico das plantas”, transferido para ajudar no combate à broca do café, que infestava e quebrava a economia da região. Uma região já devastada, sem mais a exuberante Mata Atlântica; mas, sim, com os morros pelados invadidos e erodidos até os topos pelos cafezais. Dos 10 aos 11 anos, ele mudouse com a família para o norte de Minas, onde seu pai, Abdênago Lisboa, por determinação do Ministério da Agricultura, construiu a Escola Agrícola Federal de Salinas. Foi também onde o futuro médico viveu. De onde Apolo trouxe a realidade político-social do nordeste brasileiro, retratada pelos ícones do Cinema Novo, como Glauber Rocha, mas também a geografia do semiárido, da caatinga e do cerrado para “dentro de si”:

da Igreja Presbisteriana (protestante), em pregações pelos bairros e igrejas. Até em penitenciárias, Apolo o ajudava distribuindo e explicando a Bíblia, a qual leu cinco vezes, tornando-se um especialista no assunto e conferencista precoce. Isso explica o seu jeito messiânico de ser e falar até hoje. O tempo passou. Ao invés de pastor, Apolo queria ser médico. “Eu achava que sendo médico, poderia ajudar o povo pobre. Que médico é quem cuida da saúde da população.” Passou no vestibular para Medicina na UFMG, e sua vida mudou radicalmente. Nessa época, morava no São Lucas, onde era mais conhecido como “verdureiro do bairro”. Era visto também como o “catador de esterco” dos cavalos que se reuniam no Ponto das Carroças, na Praça do Quartel de Santa Efigênia, na Avenida do Contorno onde, nessa época, as ruas eram cobertas de paralelepípedos, que jazem hoje sob o asfalto. Essa experiência verde - esterco e verdura, verdura e esterco - durou até 1963, quando ele se formou e teve início o paparico da família pelo filho então ilustre. O auge da comemoração ocorreu em um bar-restaurante dentro do Edifício Maleta, antro dos jornalistas e intelectuais mineiros, com

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 83


ME MÓ R I A A MB I E N TAL

‘‘Eu associava as cenas dos trabalhadores rurais com a epopeia do povo hebreu no Egito. Os faraós com os generais da ditadura militar’’ Ver aquela realidade me comprovou o caráter, a divisão padrão da sociedade em ricos e pobres. E me perguntava: como pode uma sociedade cristã ter um comportamento assim tão anticristão? Nem nas igrejas esse paradoxo era mencionado. Passei a questionar a prática do cristianismo, do elitismo que se reproduzia também ali, na faculdade. Fiz manifesto, tornei-me visado e recriminado até na Igreja Presbiteriana.” Ele continuou na sua desconfiança: “Eu é que seria o anticristo? O argumento deles para me dissuadirem da solidariedade humana era sempre o mesmo, citando Jesus: ´Os pobres sempre os tereis convosco!´ e que ‘A salvação seria pela fé, não pelas boas obras’.” FOTOS: REPODUÇÃO

uma pizza brotinho: “foi o maior presente que eu podia ganhar na época, e ainda agradeço. Hoje em dia, as pessoas ganham carro zero e não ficam satisfeitas”. Dois anos antes, em 1961, a renúncia de Jânio Quadros tinha abalado os seus seguidores, incluindo o jovem estudante de Medicina. Apolo também tinha votado no “homem da vassoura”, por achar que o moralismo que ele pregara salvaria o país. “Foi quando eu conheci, pela primeira vez, a verdadeira relação esquerda-direita. Passei a ver que o moralismo não bastava. Que o Brasil estava dentro de uma economia mundial e que nós éramos explorados igualmente pelo grande capital internacional.” Nessa continuação do colonialismo, ele viu e se desiludiu mais. Havia abraçado a Medicina disposto a ajudar o país ficar melhor, com o coração aberto e com a Bíblia nas mãos. E isso não seria fácil. “Comecei a frequentar o Hospital das Clínicas, a Santa Casa de Misericórdia, e vi os pacientes ali paupérrimos, com barrigas d´água, esquistossomose e tantas outras doenças que não deveriam existir mais. O pessoal sem leitos, pelos corredores. Pais de família já velhos aos 40 anos de idade.

APOLO COM O PAI ABDÊNAGO NA AV. AFONSO PENA, EM 1957; E COMO O TERRORISTA “RICARDO”, NOS ANOS DE CHUMBO, PROCURADO PELA POLÍCIA

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Logo veio o golpe militar de 64, em primeiro de abril. Apolo já era vice-presidente do Diretório Acadêmico (DA) da Faculdade de Medicina da UFMG. E virou presidente em plena crise. Coordenou a resistência contra os militares. Um mês e pouco depois, foi preso em casa. A partir daí, sua vida foi ter alta, fazer passeata e ser preso de novo. Três vezes, até 1968. Conheceu os 12 RI e o DOPS, em BH. A Penitenciária Agrícola de Neves. Depois Juiz de Fora e Brasília. Ainda estudante e membro da Polop (Organização Revolucionária Marxista-Leninista Política Operária), depois da COLINA, ele dedicava todo o seu tempo a tudo que aparecia. Mais tarde, ajudou a fundar a VAR Palmares e ainda uma dissidência dela, já no Rio de Janeiro. Também fundou a “Nova Polop”, que monopolizou a esquerda no Brasil para o Partido Comunista. Polop e PC eram sinônimos até o último ter sido considerado incompetente na resistência contra o golpe. No dia oito de dezembro de 1967, ano de sua formatura, dois meses após o martírio do “colega” Ernesto Che Guevara, na Bolívia, Apolo recebeu a homenagem de “Destaque Estudantil” por decisão do Diretório Central dos Estudantes (DCE). E aproveitou a ocasião pública, realizada no (espaço hoje chamado de) Minascentro, lotado, para dedicar ao seu líder político o próprio diploma de médico. Na motivação, o fato de Che Guevara ter lutado contra a “lepra do capitalismo”, representada pelas ditaduras na América Latina: “foi um gesto que me custou caro e uma nova prisão meses depois. Como podia eu, na época, homenagear um guerrilheiro? Che dividia a sociedade. Para nós, um herói. Para outros, um assassino!” ele recorda. A notícia dessa homenagem


ARQUIVO PESSOAL

subversiva saiu até na Rádio Havana. Primeiro resultado: Apolo foi preso e transferido, novamente, para a Brasília. Até o ministro da Guerra (“esqueci o nome do general que estava de plantão”) quis conhecê-lo pessoalmente, em 1968. Segundo resultado: ele saiu pela porta da frente. Foi libertado com um habeas corpus pedido por Sobral Pinto, em nome da União Nacional dos Estudantes (UNE), da qual se tornara vice-presidente. Em 1969, com os seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional número 5, todas as portas da liberdade lhe foram fechadas. Desta vez, de maneira beligerante. Fugido, foi viver miseravelmente na baixada fluminense, entre Duque de Caxias e São João do Meriti, sede militante do Esquadrão da Morte, onde conheceu a dor e tristeza de ser clandestino. Como, por outro lado, teve aulas ao vivo de cidadania e solidariedade, ou da falta delas. “Convivi com a pobreza, a prostituição e a violência extrema. Só tinha um fogão jacaré de uma boca pra fazer comida. Cheirava querosene.” Dos 24 aos 29 anos, vivendo assim, era acusado de ser um dos “terroristas” mais procurados do país. E sabedor, sem poder ligar para ela, que sua mãe, todos os dias, lia os jornais para checar se seu nome estava na lista dos novos mortos pelo regime. O exílio só aconteceu em 1973, em meio à guerra do Vietnã, com os americanos lançando bombas de napalm na geografia natural e humana dos vietcongs. Nessa época, ele já tinha emagrecido 22 quilos. Pesava 64, um esqueleto humano teimoso. Mudando de disfarce e identidade, e com o nome “esquentado” de Davi, com o qual conseguia alugar imóveis (“aparelhos”) para morar, ele conseguiu se refugiar primeiro no

APOLO COM LULA EM SALINAS (MG): "CONTRA A LEPRA DO CAPITALISMO"

Chile e na Argentina, depois na Argélia, França e Bélgica. A volta ao Brasil, 12 anos depois, só foi possível com a anistia política, em agosto de 1979. E ele encontrou outro Brasil, mudado e irreconhecível, sem qualquer referência, mas com o seu passado político. Diante disso, precisou de vários outros anos para reencontrar-se também consigo mesmo. Esse encontro começou nas roças do norte e nordeste de Minas. Nas bacias do Jequitinhonha e Mucuri. E, depois, no Rio das Velhas. Até que isso acontecesse, já nos dois primeiros anos seguintes, Apolo aderiu novamente ao movimento estudantil, tornando-se um dos

fundadores do Partido dos Trabalhadores, ao lado de Lula, e foi ser supervisor de internato rural em Teófilo Otoni. Foram mais seis anos naquela região. Ele havia feito concurso e passado na Faculdade de Medicina da UFMG como professor de Medicina Preventiva, na disciplina de Saúde Coletiva. Foi quando começou a construir a sua autocrítica psíquica e política; uma análise profunda e fundamental, após sair do PT. E esse seu desencanto, ele descobriu, não se limitava apenas ao PT. “Foi um repúdio ao modus operandi igual ao de outros partidos, no poder ou fora dele.” Sua saída do partido do companheiro Lula aconteceu num

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 85


A ERA DA GRAÇA Conforme a ECOLÓGICO reportou em sua edição anterior, a “Era da Graça” como Apolo se refere à sua conversão à causa ambiental e fez nascer o Projeto Manuelzão, começou primeiro com as formigas. Foi quando para não morrer de frustração e falta de ideologia, e assim poder sobreviver financeiramente, caiu do céu um convite para ele pesquisar e escrever um livro, na forma de uma novela regional sobre um pitoresco fato econômico ocorrido na região. Intitulado “Escândalo no Arraial das Formigas”, como era o antigo nome da cidade de Montes Claros, no Norte de Minas, esta ocupação o fez sair da inércia causada pela depressão, distrair-se de suas ideias suicidas. E o fato de o livro ter sido incluído depois na seleção das melhores obras publicadas no Brasil, com inserção até no “Book of the year” da Enciclopédia Britânica, em 1989, fez com que ele recuperasse a autoestima perdida: “Eu vi que, no fundo do meu vazio, ainda tinha algum valor”. Com o Manuelzão, sua vida

86 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

OUTRA CAPA DO LIVRO QUE O FÊZ DESCOBRIR QUE “AINDA TINHA ALGUM VALOR”

mudou: “Eu estava muito mal. A saída do PT havia me jogado lá embaixo, com as baterias arriadas, sem condições de pegarem carga na tomada. Continuava com medo, achando que ia suici-

dar”. Foi quando da podridão nasceu a semente de seu novo ‘self’, do seu renascimento, agora ecológico: “Eu consegui me transformar em mim mesmo. E o que me ajudou foi lembrar de um mesmo pensamento que tinha quando tive de deixar o país para viver na clandestinidade. Que só de viver, isto já é um ato revolucionário.” Os anos oitenta chegavam ao fim. Médico novamente, Apolo assumira a supervisão do internato rural da Faculdade de Medicina da UFMG em Três Marias, distrito de Andrequicé (MG), na porta do sertão mineiro. Foi ali, na Fazenda Cilga, perto das margens do Velho Chico, que ele conheceu outro velho, este humano e cheio de sabedoria: o vaqueiro Manuelzão, companheiro e guia real de Guimarães Rosa, autor REPODUÇÃO

processo até 1987. Apolo saiu chocado, quieto, sem fazer alarde. Não avisou ninguém. Isolou-se do mundo e das pessoas durante quase três anos. Até conseguir se organizar e organizar sua nova vida: “ao invés da depressão, da ideia permanente de suicídio fruto da minha inadequação como ser político tradicional, eu consegui me transformar em mim mesmo. Nascido e criado em uma família protestante, descobri que eu apenas tinha mudado de religião. Que antes eu queria morrer como Jesus Cristo, depois como Che Guevara. Mesmo mudando a doutrina, no fundo, o pensamento religioso era o mesmo na minha vida”.

REPODUÇÃO

ME MÓ R I A A MB I E N TAL


FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

CRIADOR, CRIATURA E OS PRIMEIROS ADEPTOS NA FAMOSA FOTO DE LANÇAMENTO OFICIAL DO PROJETO MANUELZÃO, EM JANEIRO DE 1997,NA FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG: LEMBRANÇA MEMORÁVEL E ATUANTE

de “Grande Sertão: Veredas”. “Foi amor à primeira vista. O Manuelzão começou a me contar casos, tomando uma cachacinha, comendo um galo velho que tinha mandado fazer... Eu não queria nem tinha como ir embora, tamanho o meu fascínio, o mesmo que Rosa deve ter tido por ele. Fiquei fascinado por sua elegância, vivência e memória, detalhe por detalhe que tinha da natureza e de tudo à sua volta.” A partir de então, os encontros dos dois se repetiram. Apolo passou a trazê-lo também na capital mineira, uma vez para ser padrinho de um de seus filhos, tamanha a amizade que os uniu. Outras, para tratamento médico. No dia sete de janeiro de 1997, o carismático personagem em carne e osso de Guimarães Rosa saiu na memorável foto oficial de fundação do

projeto que levava o seu nome, na sede da Faculdade de Medicina da UFMG, na capital mineira. COMO ISSO FOI POSSÍVEL? “Eu havia sido direto no assunto, do jeito que ele gostava de conversar. Disse que o nosso movimento precisava do seu carisma, da sua imagem para a causa, que era des-

COM A ESPOSA LÚCIA E O FILHO SAMUEL, APADRINHADO POR MANUELZÃO: NOVA FAMÍLIA

poluir e trazer os peixes de volta ao Rio das Velhas. Que o mote era esse. Se conseguíssemos, um dia, limpar as águas e trazê-los de volta, isso mudaria a mentalidade, a concepção errônea que as pessoas da cidade têm de seus rios, da verdadeira qualidade de vida e da saúde pública. Seria fazer uma revolução mesmo. A gente precisa mudar não só a realidade do Velhas, mas mudar o mundo. Então podem contar comigo, eu vou sair com vocês, ele respondeu de pronto.” Palavra dada, palavra cumprida, enquanto a vida o permitiu. Manuelzão passou a vir a BH, e frequentar as reuniões onde elas acontecessem, em todo lugar que o convidavam para legitimar a causa e o movimento. A primeira e memorável reunião aconteceu no auditório do CREA -MG, durante audiência pública

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 87


ME MÓ R I A A MB I E N TAL

“Antes eu queria morrer como Jesus Cristo e Che Guevara. Hoje eu vejo que ser revolucionário é estar vivo e lutar pela vida” É assim que Apolo despede desse seu amigo, companheiro e rosto continuado do movimento, que já completa 16 anos de existência e teimosia ecológica. Um projeto que se transformou em ambiental e vê a cidade como um ecossistema humano por excelência: “Hoje não estamos sozinhos nem temos que lamentar sua falta. Mas continuar nossa luta, mais ainda agradecidos, em sua homenagem. Não esquecermos, como ele, Guevara e Jesus nos ensinaram, cada um a seu modo, que o fato de continuarmos vivos num planeta ainda vivo, e podermos trazer vida de novo aos nossos

rios, já é revolucionário. Temos de aproveitar esse momento e oportunidade fantástica que é recriar o mundo à imagem e semelhança do que queremos e devemos ser. Esta fé em nossa racionalidade é um sentimento legítimo, pois o mundo tem sentido. Não é culpa dele ainda termos o pensamento tão curto. É aquilo que faz a gente trabalhar, casar, ter filhos, se comprometer com a nossa família e a família humana, com a biodiversidade planetária que nos resta. Que ainda vale a pena ser honesto e defender a vida, em todas as suas formas, mesmo sem termos certeza do que e do porquê estamos. Essa fé é legítima.”

VEJA MAIS: Confira a série de reportagens no link abaixo: Pescaria no Rio Cipó http://goo.gl/uiw6j O nascimento (filósofico) do Projeto Manuelzão http://goo.gl/H8EX8

WELLINGTON PEDRO

LEANDRO DURÃES

para a fundação do Comitê da Bacia do Velhas. Vieram outras. Mas o sertão falou mais alto que a urbanidade da capital. Infelizmente ele morreu poucos meses depois. Seu corpo foi velado, com todas as honras e coincidência do destino, na mesma Faculdade de Medicina da UFMG, onde Rosa foi diplomado médico. Coisas da vida. Numa mesma faculdade que, de um lado, trabalha com a doença; e de outra, que sedia o projeto que tem o seu nome, mas trabalha com a saúde. A bandeira que o movimento carrega até hoje, de combater a poluição e tornar o meio ambiente saudável novamente. A frase bíblica que diz “Nenhuma folha seca que cai no chão do planeta está fora dos planos de Deus” parece ter acompanhado também o corpo do Manuelzão. Ele foi enterrado em Andrequicé, sua terra natal, onde a parceria com os ambientalistas teve início. Olha a coincidência ou destino de novo. Perto de um lugar chamado Saúde, hoje Dom Silvério, na Zona da Mata, onde o projeto nasceu.

DESPACHANDO COM O EX-GOVERNADOR AÉCIO NEVES, E DEPOIS, COM O GOVERNADOR ANASTASIA E O PREFEITO MARCIO LACERDA, ANTES DE FAZÊ-LOS MERGULHAR LITERALMENTE COM ELE NO RIO DAS VELHAS 88 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


ME MÓ R I A A MB I E N TAL

RETRATOS DA FÉ

FOTOS: ACERVO PROJETO MANUELZÃO

Dos pequenos afluentes do Velhas até o Velho Chico, passando por municípios e comunidades ribeirinhas, a capacidade de mobilização social do Projeto Manuelzão tornou-se uma conquista da sociedade.

BARQUEADA EM DIREÇÃO À FOZ DO RIO DAS VELHAS 90 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


RETRATOS DO DESAFIO

KEVIN P

Prorrogada de 2012 para 2104, a meta do projeto que tem a parceria do Governo, através da Copasa, ainda encontra muita poluição e falta de saúde pra trazer os peixes e a população da bacia de volta ao Rio das Velhas

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 91


DIVULGAÇÃO

INFORME PUBLICITÁRIO

VÍTOR, GILBERTO E VINÍCIUS: FAMÍLIA UNIDA NA ADMINISTRAÇÃO DA EMPRESA, HOJE SUSTENTÁVEL E MODELO PARA O SETOR

PGM SISTEMAS

Empresa pioneira na minigeração de energia solar no país VALÉRIA FLORES redacao@revistaecologico.com.br

A

PGM Sistemas é exemplo de inovação tecnológica. Desde 2012, a empresa investe na geração de energia limpa, renovável e recomendada por especialistas em práticas sustentáveis. No telhado do prédio de três andares de sua sede, em Uberlândia (MG), foram instaladas 28 placas captadoras de energia solar, LQIUDHVWUXWXUD VXÀFLHQWH SDUD DWHQGHU a 80% das necessidades energéticas da empresa. A prática é considerada pioneira por dois motivos: o sistema de energia fotovoltaica é uma novidade no setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) do país e, além disso, está ligado à rede de transmissão da concessionária local (Cemig).

Hoje, a PGM Sistemas comerciali]DDSURGXomRH[FHGHQWH´1RVÀQDLV de semana, quando nosso consumo é zero, cada quilowatt-hora gerado é vendido à Cemig. Somos uma minigeradora de energia”, festeja o diretor administrativo da PGM, Vítor Arantes Moura. Diante da preocupação de não gerar impactos ambientais, ele informa que optou por não armazenar o excedente em baterias. Em função do uso da tecnologia solar, a empresa EXVFDDHÀFLrQFLDHQHUJpWLFDHSURPRve o consumo consciente da energia por seus 60 colaboradores, sem desperdícios em todo o prédio. O uso da energia solar já rendeu uma economia de R$ 1.200 por mês

para a empresa. “Antes gastávamos mais de R$ 1.500 mil por mês com a conta de energia, hoje o valor não passa de R$ 300”, garante Vítor, que administra a empresa ao lado do pai, Gilberto Santos de Moura, e do irmão, Vinícius Arantes Moura. Com a implantação do sistema de energia solar, a PGM Sistemas decidiu se inscrever na segunda edição do Prêmio Sebrae MG de Práticas Sustentáveis 2012. “Obtivemos muita divulgação e nos tornamos referência para outras empresas”, avalia Vítor. Por intermédio da premiação, empresas mineiras mostram que sabem ser lucrativas de forma sustentável. Elas investem em ações


RESPONSABILIDADE SOCIAL A PGM Sistemas também investe em outras ações voltadas para a prática da cidadania. Ela incentiva a economia de água entre os colaboradores; capacita engenheiros para disseminar a tecnologia de geração de energia fotovoltaica; oferece cursos de informática para as comunidades de baixa renda; doa computadores usados para escolas e creches. A empresa ainda promove coleta seletiva de resíduos e cursos de capacitação em informática para a comunidade. A empresa cresceu 25% em 2012. “A meta para este ano é aumentar faturamento, estrutura e clientela em 30%”. No mercado há 20 anos, possui cerca de 1,2 mil clientes. Seu foco é o desenvolvimento e a customização de softwares verdes para pequenos e médios empreendimentos: lojas de autopeças, materiais de construção, produtos agropecuários, bares e restaurantes, confecções, etc. O objetivo é automatizá-los com os programas mais modernos que existem, preparando-as para supeUDURVQRYRVGHVDÀRVLPSRVWRVSHOD economia globalizada. Além da Cemig, que compra parte da geração excedente, outro parceiro do projeto é a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), responsável por monitorar os resultados divulgados no site da PGM, onde qualquer pessoa pode acompanhar, em tempo real, a produção de energia.

SAIBA MAIS: http://www.pgm.com.br

COMO TUDO COMEÇOU A ideia de implantar o sistema de energia fotovoltaica nasceu com o fundador da PGM Sistemas, Gilberto Santos de Moura, advogado, analista de sistemas e um grande defensor das práticas sustentáveis. O objetivo era fazer a empresa ser ambientalmente responsável e servir de inspiração para outras organizações. Após uma reforma no prédio-sede, um espaço foi reservado para a instalação do sistema, que Gilberto conheceu durante viagem à Europa. “Inicialmente, não consegui mão de obra para a instalação. Anos depois, conheci uma pessoa com doutorado no assunto e conseguiu colocar em prática”, afirmou ele. O pioneirismo tornou o valor de instalação do sistema elevado. Após estudos, o investimento foi de R$ 90 mil. As placas foram importadas dos Estados Unidos e os dois conversores, que transformam a energia solar em elétrica, foram comprados na Noruega. Iniciadas em janeiro de 2012, as obras foram concluídas em novembro do mesmo ano. “A expectativa é de que o retorno do investimento aconteça em nove anos”, calcula o empresário.

FIQUE POR DENTRO Eficiência Energética (EE) é uma grande aliada dos pequenos negócios, ajudando-os a se tornarem mais competitivos. Seus resultados não abrangem apenas a redução de consumo de energia elétrica e economia na conta de luz. A EE pode aprimorar a qualidade dos produtos e serviços das empresas, seus processos operacionais e produtividade, além de melhorar a imagem e a reputação ou proporcionar mais conforto em lojas, escritórios e fábricas.

DIVULGAÇÃO

que não agridem o meio ambiente, evitam desperdícios, estimulam a reciclagem, apoiam a comunidade local, e ainda conseguem bons resultados nos negócios.

APÓS REFORMAS, O PRÉDIO-SEDE RECEBEU 28 PLACAS CAPTADORAS DE ENERGIA SOLAR


1 C I D A D A NI A

MOISES SILVA

DONA NOEMI: RECEITA DE FELICIDADE

A ESPERANÇA PREMIADA O espírito comunitário se fez presente, mais uma vez, na festa de cidadania da TV Globo Minas Hiram Firmino redacao@revistaecologico.com.br

94 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

soas, a partir dos quatro meses de idade “até a idade que tenho”, promovendo a sua capacitação profissional e inclusão social. Eleito pelo voto popular entre quatro outros finalistas, na categoria Cidadania, José Pio deixou seu exemplo de humildade e solidariedade humana. Mesmo com a idade avançada e precisando ser amparado, ele percorre padarias do bairro Riacho das Pedras, onde mora, para MOISES SILVA

O

cidadão aposentado de Contagem, José Pio de Resende, de 87 anos, e a educadora, artesã e professora Noemi Macedo Gontijo, fundadora e ainda dirigente, aos 90 anos, do Salão do Encontro, em Betim, ambos na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foram os grandes vencedores do Prêmio Bom Exemplo´2013 (*), entregue mês passado, no auditório da TV Globo Minas, na capital mineira. Eleita “A Personalidade do Ano”, dona Dona Noemi: roubando a cena, como é mais conhecida e, mineiramente não gosta de aparecer, emocionou a plateia presente à cerimônia. Foi quando, com poucas palavras, ela revelou para a plateia seu segredo de trabalho e realização permanente: “O que me faz feliz é fazer e ver as outras pessoas felizes” – disse ela, referindo-se à instituição que atende 1.400 pes-

recolher pães velhos e distribuí-los à população carente. Filho de pai vicentino, ele também encantou a plateia com sua simplicidade e sabedoria: “Ajudar o próximo é prazer. Sempre que precisei de ajuda, ninguém me negou. Enquanto Deus me der vida, vou continuar fazendo este meu trabalho”. Prestigiada por políticos, empresários e artistas – incluindo os profissionais da casa –, a última edição do Prêmio Bom Exemplo ganhou uma espécie de logomarca, sugerida pelo vice-presidente da Sempre Editora, Luiz Tito: “Diante de tantos e crescentes exemplos reais, a cada ano - apontou o jornalista - é um prêmio à esperança”.

(*)A premiação tem a parceria da Fiemg, Fundação Dom Cabral e Sempre Editora (Jornal O Tempo). Para saber mais: www.premiobomexemplo.com.br JOSÉ PIO: CIDADÃO SOLIDÁRIO


MOISES SILVA

“As pessoas que fazem o bem são otimistas e têm fé na vida. Que Deus as abençoe” MARCELO MATTE, DIRETOR DA TV GLOBO MINAS E ORGANIZADOR DO EVENTO

AGENCIA MINAS

AGENCIA MINAS

OS VENCEDORES

1- CATEGORIA CIÊNCIA

FUNDAÇÃO HEMOMINAS 2 - CULTURA 1

2 JÚNIA GUIMARÃES CIOFFI GUALTER NAVES

3 - ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO

GRUPO COLETIVO FAMÍLIA DE RUA MOISES SILVA

COLETIVO FAMÍLIA DE RUA JOSÉ FERNANDO COURA 4 - EDUCAÇÃO

PROJETO MANUELZÃO 5 - ESPORTES 3

4

6 - INOVAÇÃO

PROJETO NOISINHO

MOISES SILVA

PROCÓPIO DE CASTRO E APOLO HERINGER MOISES SILVA

FERNANDO COURA

MOISES SILVA

RICARDO PACHECO

7 - MEIO AMBIENTE

FAZENDA ENGENHO D’ÁGUA 5

6 RICARDO PACHECO

7 ÉRIKA FOUREAUX

HELTON AGUIAR

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 95


CELSO SANTA ROSA

1 S U S T E N TABI L I DAD E

PARQUE DAS MANGABEIRAS, ONDE ANTES EXISTIA UMA MINERAÇÃO: RECUPERAÇÃO AMBIENTAL E A MAIOR ÁREA VERDE HOJE DE BH ABERTA AO PÚBLICO

A MINERAÇÃO PREMIADA Homenageado do Ibram e Sindextra mostra o Parque das Mangabeiras como símbolo da sustentabilidade do setor

E

leito por unanimidade dos jurados do PRÊMIO BOM EXEMPLO’ 2013, na Categoria “Economia e Desenvolvimento”, o engenheiro de Minas, José Fernando Coura, não se fez de rogado. Presidente do Sindicato da Indústria Mineral de Minas Gerais e do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), além de vice-presidente da Fiemg, ele não apenas estendeu a homenagem para todo o setor minerário responsável do país, como exibiu uma foto panorâmica da Serra do Curral, mais particularmente

96 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

do Parque das Mangabeiras, para focar duas realidades sustentáveis hoje inegáveis na capital mineira : que num passado recente, ali existia uma mineração de ferro, chamada Ferrobel, operada pela própria prefeitura. E que hoje, graças à consciência ecológica da população e à tecnologia da engenharia ambiental, aliada à responsabilidade social do setor, se tornou a maior e mais preservada área verde de BH: “É esse setor, o da mineração sustentável, que está sendo homenageado aqui, através da minha pes-

soa” – Coura agradeceu, lembrando que o próprio Manuelzão, personagem real da obra de Guimarães Rosa que dá nome ao Projeto da UFMG de Revitalização do Rio das Velhas, capitaneado pelo ambientalista Apolo Heringer Lisboa, também homenageado na cerimônia, é seu conterrâneo e aliado da causa ambiental. Manuelzão também nasceu em Saúde, o antigo nome do hoje município de Dom Silvério, na Zona da Mata: “Já peguei muito ensinamento ecológico, tomando pinga, com ele” – brincou.


GUALTER NAVES

FERNANDO COURA E FAMÍLIA, LADEADO PELO PRESIDENTE DA CNI, ROBSON BRAGA, E PELO AMBIENTALISTA ÂNGELO MACHADO, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS: RECONHECIMENTO

nalista, meio desenvolventista. Sempre pensou grande. Quando completou 17 anos e nos falou que iria mudar para fazer Engenharia de Minas em Ouro Preto, a gente perguntou por que ele não preferia se formar em outros tipos de engenharia mais em voga, com mais tradição e garantia de

empregos naquela época. Sabe o que respondeu? Que o futuro do Brasil estava na mineração”. Dona Margarida ainda completou: “Quando as pessoas me conhecem, dizem: ‘Agora sei por quem o Coura puxou’. Ele me puxou mesmo. A culpada disso tudo sou eu”. GUALTER NAVES

“A CULPADA SOU EU” Essa declaração, que faz alusão ao “Esse cara sou eu” de Roberto Carlos, foi dada pela própria mãe do homenageado, Margarida Martins Coura, de 81 anos e uma energia, simpatia e entusiasmo incomuns: “O Fernando sempre foi assim, meio nacioIBRAM SUSTENTÁVEL

Aqui, algumas das atividades desenvolvidas pelo Ibram para a economia verde RECURSOS HÍDRICOS Programa de gestão e participação em 12 Comitês de Bacia, tanto de rios de domínio estadual quanto da União, em dois conselhos estaduais ( Minas e Pará). A entidade também é membro titular do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. SAÚDE & SEGURANÇA Programa Especial de Segurança e Saúde Ocupacional para atender às necessidades das empresas na busca pela redução do número de acidentes ocupacionais, incentivando a sustentabilidade do setor. Ele atua de forma permanente, com o intuito de minimizar os riscos à Saúde e Segurança das pessoas nas atividades de mineração. MUDANÇAS CLIMÁTICAS Realização do 1º Inventário de Gases de Efeito Estufa do Setor Mineral dentro do esforço global ao combate às mudanças do clima, que mapeou as emissões de GEE e identificou o setor como baixo emissor.

GESTÃO DE SEGURANÇA Programa de melhoria na gestão de segurança das barragens de rejeitos, para conservar e reduzir os impactos socioambientais e econômicos decorrentes de acidentes. E contribuição na construção de políticas públicas específicas, como a Política Nacional de Segurança de Barragens. IBRAM AMAZÔNIA Visão, participação em discussões e estratégia de ações em prol da sustentabilidade do setor nos estados do Norte como a nova fronteira mineral do país, a partir da implantação de um escritório regional em Belém (PA). INVENTÁRIO DE PRÁTICAS Desenvolvimento de inventário sobre as práticas de gestão de sustentabilidade no setor, com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano. A finalidade é identificar como o setor evoluiu nos últimos 20 anos, tendo como linha de corte a ECO/92 e a RIO+20.

DONA MARGARIDA: ASSUMINDO A MATERNIDADE


1 P E R F I L : PA U L O

BRANT

PRESIDENTE DA CENIBRA (CELULOSE NIPO-BRASILEIRA S/A)

“O belo é

TRANSFORMADOR” Cíntia Melo redacao@revistaecologico.com.br

RODRIGO ZEFERINO

BRUNO KELLY

M

ineiro de Diamantina (MG), Paulo Brant é formado em Engenharia Civil, pela UFMG, e em Economia, pela PUC Minas. Foi secretário estadual de Cultura por quase dois anos (2008-2010) e secretário-adjunto de Indústria e Comércio. Irmão do compositor Fernando Brant, ele é conselheiro do Museu Clube da Esquina e já ocupou o cargo de diretor-superintendente do Banco de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais (BD MG). Em entrevista à Revista ECOLÓGICO, o atual diretor-presidente da Cenibra fala sobre a experiência que vive hoje no setor privado. “Passei longos anos enxergando a indústria – ora sob a ótica mais teórica e conceitual na universidade, ora sob a perspectiva governamental, na formulação e implantação de políticas, ou na visão de um banco financiador de projetos industriais. Agora, não! Vivo a realidade da indústria mineira e brasileira por dentro, visceralmente.” Mas sem perder o sonho e o deslumbramento, é o que você confere aqui. REVISTA ECOLÓGICO: Como analisa os dois anos e meio à frente da Cenibra? ● Paulo Brant: Muito ricos em todos os aspectos. Do ponto de vista profissional, é minha primeira experiência no setor industrial privado. Como dizia Belchior, em “Como nossos pais”: “viver é melhor que sonhar”. Tenho tentado aprender o mais que posso. No âmbito pessoal, tem sido fascinante pertencer a uma organização ética e saudável, plena de pessoas inteligentes, competentes e amigas. A Cenibra está implantando um programa de modernização das atividades florestais. A ideia é mecanizar 100% sua colheita florestal? ● Sim. A ideia é essa, calcada na sustentabilidade da empresa. A colheita mecanizada, além de ser ambientalmente mais saudável, gera empregos de melhor qualidade e, sobretudo, é muito mais eficiente do que a colheita convencional. Com esse projeto estamos vencendo talvez o nosso maior desafio. Pelo fato de as nossoas áreas florestais serem montanhosas, (afinal somos orgulhosamente uma empresa de Minas), diferentemente das demais empresas do setor, cerca de 35 % de nossa colheita ainda é realizada com as técnicas convencionais. Essa é uma desvantagem competitiva enorme, que está sendo supe-

PAULO BRANT, VENCEDOR DO “OSCAR DA ECOLOGIA” NA CATEGORIA DESTAQUE ESPECIAL DO III PRÊMIO HUGO WERNECK: “O MUNDO SERÁ MELHOR!”


ALFEU TRANCOSO

rada com inovação tecnológica e a engenhosidade e criatividade de nossos funcionários. Significa que estamos preparando a empresa para o futuro. Qual será o valor investido? ● Do ponto de vista estritamente financeiro, o investimento no primeiro momento, apenas na aquisição de máquinas, é de aproximadamente R$ 50 milhões. Há em paralelo, uma grande mobilização interna para operar a transformação, em termos de recrutamento e treinamento de operadores, segurança, mudança no modelo gerencial, etc. E quanto ao plantio? A Cenibra absorve a mão de obra local onde atua? ● A Cenibra preferencialmente sempre busca absorver mão de obra nas comunidades onde atua. A atividade de plantio ainda é terceirizada, porém, dentro do mesmo projeto de modernização das atividades florestais, será internalizada a partir desta data, acarretando a contratação de cerca de 3.000 novos funcionários para a empresa. Qual a aposta futura das empresas? ● Saber fazer ainda não é o bastante. É condição necessária, sim, mas não o suficiente. Nesse nosso admirável mundo novo penso que é preciso ainda mais. E aqui temos de entrar mesmo que superficialmente em uma dimensão mais sutil e menos tangível da realidade das empresas. Entendo que a força e a vitalidade das organizações empresariais são a resultante da qualidade de seus relacionamentos, no sentido amplo, com seus funcionários, seus clientes e fornecedores, com as comunidades em que atuam, com os governos, com a natureza. Numa palavra, com todo o seu ambiente, tomado aqui na sua acepção plena.

“Estamos rodeados de muitas coisas e pessoas belas” É preciso ir além? ● Sim. Num mundo cada vez mais complexo, a ordem não se alcança apenas com a força da disciplina, do controle e da hierarquia, por mais importantes que sejam. É preciso mais! É preciso a força da vontade, do engajamento, da cooperação. Além de saber fazer, querer fazer. Isso tudo tem a ver com a cultura da empresa, capaz de mobilizar a cooperação voluntária de todos os seus stakeholders (público estratégico envolvido), e isto não é possível senão com os fundamentos de valores como a ética, a confiança e o compromisso com a verdade. O senhor disse que devemos encantar as pessoas com exemplos positivos, como foi o trabalho de quatro anos do compositor Tavinho Moura

sobre a fauna da Pampulha. O belo é uma boa ferramenta pedagógica? ● O belo é transformador. E tomo o belo aqui em uma conotação larga, não apenas a beleza que nos fascina nas artes, mas também a beleza contida em um gesto fraterno e humanista, em uma atitude digna. O enfrentamento dos diversos problemas complexos que nos afligem enquanto sociedade: desmatamento, trânsito, violência e muitos outros mais, exigem sim a denúncia corajosa, a fiscalização e o cumprimento rigoroso da lei, mas isso é muito pouco. A transformação efetiva da sociedade só ocorrerá por meio do envolvimento voluntário das pessoas. Qual é o caminho? ● É mister que explicitemos as virtudes, a beleza. Lendo o livro do

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ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 99


1 P E R F I L : PA U L O

BRANT

PRESIDENTE DA CENIBRA (CELULOSE NIPO-BRASILEIRA S/A)

Tavinho Moura, por exemplo, qualquer pessoa normal se encanta e se apaixona pela beleza dos pássaros e se torna um ambientalista convicto e apaixonado. Gosto muito de um filósofo francês, André Sponville, que diz: “Não confio na moral que apenas aponta os males e apenas denuncia. É a moral dos tristes, uma triste moral.” Estamos rodeados de muitas coisas e pessoas belas. Cabem poesia e ecologia humana também no mundo empresarial hoje? ● Sem dúvida. Neste mundo, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não habita apenas a competição. É claro que a competição é uma força vital. É ela quem induz à transformação e gera os avanços e o progresso. Mas hoje, mais do que nunca, nele vive também a cooperação, em todos os níveis. As empresas saudáveis, e não apenas rentáveis, competem e cooperam. Não há aqui nenhuma contradição. Como afirmei, a qualidade de uma empresa vincula-se diretamente à qualidade de suas relações. Pressupõe valores, princípios e ética. Quais os principais desafios das empresas no caminho da sustentabilidade ? ● É importante em primeiro lugar precisar um pouco mais o conceito de sustentabilidade. Esse conceito riquíssimo tem sofrido no tempo um pouco do que poderíamos chamar de “erosão semântica”. Há muita confusão em torno do seu real significado. O significado mais profundo da sustentabilidade tem a ver com a expansão econômica e a geração crescente de riqueza por parte das empresas, fundamental para aumentar a qualidade de vida material das pessoas, que se fazem acompanhar da melhoria contínua do ambiente em que se inserem. Tomo ambiente aqui, mais uma vez

100 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

“A transformação efetiva da sociedade só ocorrerá por meio do envolvimento voluntário das pessoas.” no sentido mais largo, incluindo os funcionários, os clientes e fornecedores, as comunidades, o ambiente institucional e cultural, e, naturalmente, o meio ambiente. Crescer sim, mas melhorando sempre. Há muitos entraves? ● Os desafios são enormes e de duas ordens: de um lado, o desafio econômico, que tem a ver com a eficiência, com a competitividade, e nos remete aos requisitos de gente qualificada, tecnologia, gestão competente. A empresa precisa viver e seu oxigênio é sua rentabilidade. De outro, um desafio mais sutil e complexo: trata-se de trabalhar a cultura empresarial, seus valores, atitudes e hábitos, de forma a ter sempre introjetado na veia da organização o princípio essencial de que os fins não justificam os meios. E de que em cada ação, a cada gesto, de cada funcionário, é preciso que esteja sempre presente a busca permanente da eficiência e o respeito à natureza que nos permeia e rodeia. Ser sustentável agrega valor à empresa? ● Sem dúvida. É cada vez mais evidente para a sociedade, que o crescimento econômico isoladamente considerado é potencialmente gerador de contradições e conflitos sociais, ambientais e até econômicos. Nas empresas isso também é um fato a ser considerado.

De que forma? ● A gestão empresarial sustentável potencializa em muito o valor econômico da empresa, ao harmonizar os seus múltiplos relacionamentos com seus stakeholders. Para mim, assim como as pessoas, as empresas são elas próprias e suas relações. Não tenho nenhuma dúvida em afirmar que os projetos efetivamente sustentáveis são os mais rentáveis a médio e longo prazo. Na Cenibra estamos começando a implantar o conceito conhecido como Gestão Integrada de Território, que parte de uma visão sistêmica da sustentabilidade e que, sobretudo, incorpora a variável cultural como conciliadora e harmonizadora das dimensões ambiental, econômica e social. Temos muita esperança de que vamos evoluir bastante. É mais difícil trabalhar a sustentabilidade na esfera pública? Há vantagens, nesse sentido, na esfera privada? ● Penso que é sempre difícil, nas duas esferas. Na esfera privada, de um lado há uma maior flexibilidade nas decisões. Porém, há um agravante, a imperiosidade do lucro. Sem o lucro as empresas morrem. Para que o lucro seja admirável, sustentável, há que se melhorar sempre, ser sempre mais eficiente. Este o grande e fascinante desafio! Que recado deixaria ao leitor da Revista ECOLÓGICO? ● Rodeados que estamos de muitas mazelas, muita violência, desonestidade e muita mentira, não nos esqueçamos de que ainda há, em torno de nós, em muito maior quantidade, muita beleza, muita verdade e muita virtude. Sem deixarmos de ser vigilantes com o mal, exaltemos o bom e o belo. O mundo será melhor!


Em que

MUNDO VOCÊ quer VIVER

?

Evite as sacolas DESCARTÁVEIS.

Leve a sua RETORNÁVEL!

Nossa homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente


1 A RT I G O

CERTIFICAÇÃO

SELA VERDE

Garantir de qualidade do animal e melhoria ambiental da propriedade Tiago Maciel Peixoto e Yash Rocha Maciel * redacao@revistaecologico.com.br

D

iante da intensa e fatigante luta por visibilidade, competitividade e êxito no cenário econômico nacional, figura a eqüinocultura. Atividade que em 2009 apresentou marcas significativas quanto à exportação de animais, atingindo algo em torno de US$ 27,4 milhões. Esta receita é superior a de produtos como café torrado e cachaça, que têm uma divulgação bem mais ampla e consolidada fora do país de acordo com dados do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Inserido neste universo de cifras que, muitas vezes, não se apresenta tão auspicioso, encontra-se o cavalo Mangalarga Marchador. Animal secular, oriundo de nossas terras, e que, devido a caracterís-

102 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

ticas como a docilidade, a inteligência, o temperamento, a resistência e o cavalgar cômodo, vem, a cada dia, conquistando mais adeptos e simpatizantes. Como qualquer outra atividade econômica, a criação de eqüinos está sujeita a balança de fluxo comercial, onde impera a lei de oferta e demanda. O mercado consumidor se posiciona, a cada dia, mais seleto, exigindo que os produtos tenham, como diferencial, a origem comprovada e o processo de produção sustentável.

Bem estar dos animais É neste contexto, e de forma pioneira, que se encaixa a Certificação Equestre proposta pelo projeto Sela Verde. Nascido da parceria entre a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM), e as ONGs Biotrópicos e Conservação Internacional Brasil, o Sela Verde embasa-se nos principios da sustentabilidade buscando o equilíbrio entre os intereses: o respeito pela conservação da natureza e o bem estar dos animais, a preocupação com a cidadania e a agregação de valor. A certificação se destina aos criadores da raça Mangalarga Marchador, associados à ABCCMM, que buscam a adequação de seu sistema produtivo. É importante salientar que a certificação também se designa ao comprador que, ao adquirir um animal de um haras certificado, tem a garantia de um produto cujo proceso de produção minimiza as falhas do mercado. Sabemos que a certificação criteriosa de produtos e atividades é a melhor maneira de garantir a padronização da qualidade. Utilizando como base os produtos agrícolas, os itens certificados po-


"A equinocultura teve receita superior a de produtos como café torrado e cachaça" dem agregar de 10 a 20 % ao valor do bem produzido (Fundação Getúlio Vargas, Maio de 2010). Além dos ganhos econômicos alcançados pelos criadores, a garantia do padrão de qualidade instituída pelo Sela Verde, proporcionará uma melhora significativa na qualidade de vida do cavalo e possibilitará uma construção biológica (ou crescimento). Além disso, entre os adeptos do selo, será criado um “mercado verde”, com pro-

dutos ecologicamente corretos, socialmente justos e economicamente viáveis. Nesse cenário, os haras certificados poderão abrir um novo modelo na organização do mercado que envolve o cavalo Margalarga Marchador. Benefícios Assim, o consumidor, apaixonado pela criação deste animal, passará a realizar suas compras e vendas de cavalos originários de criatórios certificados, garantindo os seguintes benefícios: O Divulgação diferenciada do seu cavalo, pela maior aceitação e fluidez dos produtos certificados nos meios de comunicação; O A prática de preços melhores dos animais; O Consultoria aos proprietários sobre as tarefas a serem cumpridas para que o criatório atenda aos pa-

drões ambientais de bem estar animal e de responsabilidade social, exigidos pelo selo. Desta maneira, além do ganho na qualidade do cavalo, um dos objetivos principais do selo será cumprido com o ganho ambiental da propriedade e a melhoria do convívio social. Uma das metas da ABCCMM é criar incentivos para os criatórios adeptos do Sela Verde. Muito além do viés de mercado, é importante ressaltar que o processo certificatório cabe ao criador que, com uma visão mais ampla, não prioriza apenas os ganhos econômicos possíveis de se obter com a raça. Mas valoriza a formação de um ambiente harmônico, com funcionários e colaboradores satisfeitos e animais saudáveis, naturais e longevos.

(*) Especialistas em Desenvolvimento Sustentável e integrantes do Corpo Técnico da Biotrópicos

 ECOLÓGICO/MAIO DE 2013 O

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ANDRÉA ZENÓBIO GUNNENG (*) De WuTaiShan, China redacao@revistaecologico.com.br MARCOS SANTOS/USP IMAGENS

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OLHAR EXTERIOR

WUTAISHAN É UM DOS LUGARES MAIS SAGRADOS DO BUDISMO EM TODA A CHINA

HONRANDO A SABEDORIA

D

esta vez éramos dez amigas de sete países (Alemanha, Brasil, China, Estados Unidos, França, Singapura e Suíça). Além de explorarmos as montanhas ao redor de Pequim toda quarta-feira – estratégia de sobrevivência em uma megalópole poluída de 21 milhões de habitantes – uma vez por ano programamos uma viagem de uma semana para alguma província da China. A nossa meta aqui, mais do que subir e descer montanhas, explorar vales e atravessar terraços de arroz e campos de plantação de chá, é ter um contato mais de perto com as comunidades que vivem no campo; com as diversas minorias chinesas; e com a história cultural e religiosa que cada templo budista chinês preserva. Esse ano, o destino escolhido foi Monte Wutai (em chinês, WuTaiShan ou Qingliang Shan), considerada uma das quatro montanhas sagradas pelo budismo chinês, a 260 quilômetros de Pequim. Acredita-se que cada uma dessas montanhas abriga um dos quatro grandes ‘Bodhisattvas’, entidades budistas com perfeito conhecimento e capazes de atingir o nirvana, mas que decidi-

104 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

ram, por um ato de compaixão, adiar essa prática para que pudessem reduzir o sofrimento dos seres humanos. WuTaiShan abriga o Bodhisattva da sabedoria, conhecido como Manjusri ou Wénsh (ᮽ⇀) em chinês. Em sua mão direita, Manjusri carrega uma espada, para atacar a ignorância humana, apresentando em sua mão esquerda a solução para tal: um livro. Acredita-se que esse Bodhisattva se manifesta frequentemente em WuTaiShan na forma de peregrinos, monges e, principalmente, como nuvens de cinco cores. Localizado na província nordeste de Shanxi, WuTaiShan – que literalmente significa Montanha de Cinco Platôs – fica a uma altitude de 3.058 metros e abriga 53 monastérios sagrados, reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 2009. Seu nome refere-se à topografia incomum de cinco picos redondos (Norte, Sul, Leste, Oeste e Central), cada um abrigando um monastério. O pico do Norte, chamado de Beitai Ding ou Yedou Feng, é o mais alto deles e também o mais elevado de todo o Nordeste da China. Claro que foi esse pico o escolhido para uma de nossas aventuras!


“E o que se ganha com sabedoria? Respondeu o monge: ‘Nós temos acesso a nós mesmos. Adquirimos a habilidade de fazer mudanças internas ao entendermos que os mecanismos para mudar estão dentro de nós, ao nosso alcance”

Cameron Tukapua, autora do livro “Desabrochando CAÇA A TEMPLOS Dizem que se um dia o governo chinês atender ao cla- – Transformando-se com o Planeta Terra” (em inglês, mor internacional para libertar o Tibete e fizer as pa- Opening Up – Transforming with the Earth), “ressenzes com Dalai Lama, WuTaiShan será o local escolhido timento é tomar veneno e esperar que o outro morra”. No ato de levantar-se, com as mãos unidas, tocapara assinar o tratado. Isso porque aquela montanha sagrada, localizada em um parque nacional, tem sido -se a testa, para dirigir sua intenção de cultivar uma durante milhares de anos o caminho de peregrinação mente limpa; seus lábios, para promover uma comupara chineses, tibetanos, mongóis e manchus (pessoas nicação honesta e clara; e seu coração, para fortalecer originárias da Manchúria e que formaram a última esta parte do nosso ser que sabe o que é importante para nós e o que precisamos para viver uma vida audinastia imperial da China, 1644-1912). Esse multiculturalismo é expresso pela diversida- têntica. Repete-se esse movimento três vezes. E o que se ganha com de de templos, que cosabedoria? Respondeu existem lado a lado, de o monge: “Nós temos maneira pacífica. Peacesso a nós mesmos. las ruas de WuTaiShan Adquirimos a habilidaé possível encontrar de de fazer mudanças monges representantes internas ao entenderde cada um desses pomos que os mecanisvos, cada um com suas mos para mudar estão vestimentas típicas, videntro de nós, ao nosso sitando os templos sem alcance”. qualquer discriminaAo que Cameron ção. O mesmo fizemos completou: “E mudannós, numa verdadeira ça é o que sustenta a caça a templos. OEXECUÇÃO DE SERVIÇOS DE TOPOGRAFIA vida. A vida está semSão lindos, coloridos, OEXECUÇÃO DE PROJETOS DE INFRA ESTRUTURA URBANA pre procurando meios ricos em pinturas, esculOCONSULTORIA AMBIENTAL de mudar e nos transturas e imagens. Aliás, OGERENCIAMENTO E FISCALIZAÇÃO DE OBRA formar”. WuTaiShan abriga os É como sucessivamais antigos prédios de mente nos lembra Damadeira da China, que Av. Nossa Senhora do Carmo n°1890 - sala 407 - Sion - Cep 30320-000 lai Lama em suas falas sobreviveram desde a Telefax (31)-2551 5138 - Belo Horizonte - MG em relação às mudandinastia Tang, 618/907. ças climáticas: uma peAli, os peregrinos acendem velas, queimam incensos, se prostram para as quena mudança de atitude, um ajustamento mínimo quatro direções cardinais e lançam para o universo de nossas prioridades, uma leve abertura para uma perspectiva de vida mais ampla, um pequeno olhar seus pedidos. sobre o que é melhor para todos, ao invés do que apenas me atende pessoalmente; tudo isso contribui, APRENDENDO A HONRAR Em um dos templos, enquanto contemplava a ima- numa escala pessoal, para promover uma mudança gem de Manjusri, um monge aproximou-se e se ofe- de atitude global. São minúsculas mudanças em uma receu para me ensinar como honrar a “sabedoria”. mente aqui e em um coração ali que, somadas, culDiante de cada escultura, há sempre um pequeno minarão numa drástica redução dos gases de efeito tablado com uma almofada inevitavelmente (sen- estufa responsáveis pelo aquecimento do planeta. Que Manjusri ilumine nossas mentes e corações! do chinesa) muito colorida, para amortecer o ato de ajoelhar. No movimento de ajoelhar, encosta-se a testa na almofada e se abre as mãos, como a entregar seus fados (mágoas) e libertar-se de suas próprias (*) Escritora, Psicanalista e Consultora opressões. Um parêntesis: como diz minha amiga Internacional de Comunicação ECOLÓGICO /MAIODE 2013 Q 105


1V O C Ê

SABIA?

FILHOS DA TERRA Fernanda Mann redacao@revistaecologico.com.br

POR QUE 5 DE JUNHO? A preocupação com a saúde planetária tem como marco inicial a Conferência de Estocolmo, realizada em 1972. O evento da Organização das Nações Unidas, ONU, consagrou a primeira tomada de atitude global para organizar as relações entre o homem e a natureza. Desde então, o quinto dia de junho tornou-se o Dia Mundial do Meio Ambiente, data em que se propõe a reflexão sobre como agimos diante da nossa mãe Terra. Este ano, a ONU reforça a campanha contra o desperdício de alimentos frente à absurda quantia de 1,3 bilhão de tone-

lada de comida jogada fora anualmente. A atitude de todos faz a diferença, e sua ação pode fazer parte do esforço global do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA. Saiba como registrá-la no site www.unep. org/portuguese/wed/activities/register/ e, se precisar de ideias e sugestões sobre como participar, acesse www.unep.org/ portuguese/wed/WEDpack/. Só depende de nós! E para comprovar que é possível, a ECOLÓGICO traz exemplos de comunidades humanas que, em pleno século XXI, vivem em total comunhão com a natureza.

POVOS ISOLADOS

REPRODUÇÃO

desses povos. “Uma imagem vale mais do que mil palavras”, e o futuro dessas tribos independe delas próprias. Elas são a lembrança viva de que é possível viver de outra forma. GLEISON MIRANDA / FUNAI

Em 50 anos metade das florestas tropicais do planeta foi devastada. Cerca de 100 espécies desses territórios são extintas diariamente, muitas ainda desconhecidas. Além de animais e plantas, culturas humanas têm sido exterminadas sem que se tenha notícia. É extraordinário pensar que em pleno século XXI, ainda existam povos que vivem isolados do resto da humanidade. E existem! Estima-se que o Brasil abrigue cerca de 70 tribos isoladas, cerca de 2/3 do total mundial. José Carlos Meirelles, membro do Departamento de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio, FUNAI, registra imagens aéreas de evidências da presença


É o caso da tribo Piaroa da Venezuela. A partir dos cinco anos de idade as crianças sabem exatamente onde encontrar fartura de proteína. Assim como os adultos, elas saem para caçar e uma boa pedida são as tarântulas Golias, a maior aranha do mundo. Deve-se ter cuidado com as presas e os pelos que elas jogam no agressor. Mas com técnica para capturá-la, é uma refeição muito apreciada. A receita das tarântulas recomenda servi-las torradas. Todos os pelos devem ser chamuscados pelo fogo, para não tocarem a garganta. Quando estão “no ponto” para serem servidas elas começam a chiar, soltando um barulho, como um assobio, que é o ar escapando pelas juntas. Uma pitada de pimenta e é só degustar.

E HÁ OS QUE AMAM O QUE CAÇAM Poucos povos vivem tão intimamente com os animais como os Awá-guajás da Amazônia, criadores obsessivos de bichos de estimação. Assim como os Matis, caçar macacos é vital há sobrevivência dos Awá, fornecendo cerca de metade de sua proteína. Mas essa relação proporciona mais do que alimento. Eles não só comem, mas também amam os macacos. Se uma mãe é capturada, os filhotes são acolhidos. Quase todas as famílias Awá têm primatas. O carinho é tanto que para muitas mulheres amamentar macacos é mero meio natural de ajudar um órfão necessitado. Eles acreditam que os macacos são mais humanos do que animais. E não são mesmo? E não somos animais também? Uma boa reflexão...

HUMAN PLANET / TIMOTHY ALLEN

OUTROS FAZEM A FEIRA NO SOLO...

REPRODUÇÃO

Os Matis, índios brasileiros, habitam as florestas tropicais. Caçadores habilidosos, eles aplicam toxina de sapo na corrente sanguínea para purificar o corpo. Explicam que isso os deixa fortes e ágeis para capturar os animais fujões. Também pingam substâncias de plantas nocivas nos olhos para aguçar os sentidos e concentrar a mente na caça. Identificar a presa na mata densa é tão difícil que utilizam a audição para localizá-la, além de imitarem perfeitamente os sons de algumas delas, como das dez espécies de macacos encontradas nas florestas onde moram. Isso aproxima os animais, mas ainda é necessária grande habilidade para acertá-los no alto, na copa das árvores, com um dardo envenenado, que é lançado pelo forte sopro na zarabatana. Uma vez que a presa é atingida, até que o veneno faça efeito, é preciso correr atrás dela para identificar o local onde desabou no solo. E aí sim! Uma refeição saudável, orgânica e atlética, com a aprovação da natureza!

REPRODUÇÃO

NÃO HÁ SUPERMERCADOS, MAS SIM RICAS ÁRVORES


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NATUREZA MEDICINAL MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

LOBO-LOBÔ, A GOMA DO SERTÃO

A

MARCOS GUIÃO

utilização do Lobo-lobô (Persea rufotomentosa), também conhecido como Quilombo, nas comunidades do Alto do Vale do Jequitinhonha, teve início com os ciclos do ouro e diamante na região de Diamantina. O garimpo, como atividade principal da época, aproveitava-se dos escravos para garantir êxito da empreitada, e essa mão de obra barata era alimentada principalmente com os recursos naturais locais. E é aí que entraram para a cozinha ingredientes encontrados com fartura na região para dar sustança aos trabalhadores. Acredito que um dos principais pratos seria o angu, que contracenava com o Ora-pró-nobis, os brotos de Samambaia, o Quiabo-da-lapa e também o Lobo-lobô. O último tem nome meio afrancesado e penso que alguns dos naturalistas que passaram por aqui, como Saint Hilaire, talvez tenham influenciado na sua adoção. As populações tradicionais, principalmente as comunidades negras, utilizaram e ainda utilizam o Lobo-lo-

bô na culinária quando a demanda é “engrossar o caldo”, seja do feijão, da sopa rala ou do frango ao molho pardo. Adicionado quando o prato está no estágio final de preparação, rapidamente ele mostra sua capacidade de dar maior consistência a água do cozimento, agindo de maneira muito semelhante à famosa “Maizena”. Esse recurso ainda é usado por algumas cozinheiras da região e tem gente que vem de longe só para saborear um “Frango ao Molho Pardo com Lobo-lobô”. Desde o ano de 2010 tenho participado ativamente de uma iniciativa de produção de incensos naturais a partir dos recursos vegetais dessa região. Uma das primeiras demandas foi a de conseguir identificar uma planta que promovesse a aglutinação dos muitos pós que formam a massa, mas esta planta não poderia interferir no aroma e nem na queima completa da vareta. A lembrança do Lobo-lobô foi imediata. Ele é atóxico, medra em profusão no alto da Serra do Espinhaço, além de regenerar facilmente quando submetido a uma poda drástica. Depois de alguns experimentos para determinar a quantidade a ser utilizada, não tivemos mais dúvida de que ele faria parte da fórmula básica da massa dos incensos. O ritual de sua coleta e preparo é simples. Basta dar uma chegada ali na serra com um facão afiado, cortar alguns de seus longos e finos galhos, raspando e desprezando a casca de fora, que é bem fina e seca. A entrecasca verdinha que fica logo abaixo se solta facilmente da madeira quando machucada, e é ela que vai para o sol até ficar bem sequinha. Em seguida são levadas ao pilão para tomar um bocado de pancada, se transformando num pó bem fino, que deve ser guardado num pote hermeticamente fechado. Daí tá pronto. Pode-se usá-lo no dia a dia da cozinha ou no preparo da massa de seu incenso. Como é que se faz incenso? Ah, isso é uma prosa longa, que na próxima lua cheia conto para vocês. Inté! SAIBA MAIS: www.naturezadosertao.com.br (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.

PLANTA ENCONTRADA NAS ALTITUDES DO CERRADO ENGROSSA O CALDO NA COZINHA


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OLHAR POÉTICO ANTONIO BARRETO redacao@revistaecologico.com.br

PALAVRAS PRA QUE TE QUERO H pal Há alav avra av as qu que e pe perd rdem rd em e m a perrna na num m aci cide dent de nte e gr g am amat atic at ical ic al.. al Há pallav Há avra vrra as qu que ni ning guém en ente end n e: e: por orqu q e o mu mund ndo va vai ai mu muit ito it to mall. Há á palla av vra ras qu ue di dize ize zem tu tudo d ape do pena nass nu num uma ma só pa pala avr vra. (E E pal alav a ra as qu que e nã não ão di dize dize zem m na nad da qu da, da q an ndo d as coisa as esttão ão soz ozin inha h s)). Umas Um as nom as omei eiam am m ver erda erda ade es, que e na verd dade ad nem ad m ex exiiste em. m m. Ou O utr tras ass moram orram nos os liv ivro ros qu ro ros que ni ning ngué ué ém fic ficou sab ab a ben end do. do A gu Al guma mas vi v ve vem m na na pel e e da daqu daqu quel ele el es que e mud dam de e pe pele le.. le Milh Mi har ares es:: jo jogadas fo orra a (no o lixo xo se semâ mâ m ânt ntic ico ic o do d s di dias a ).. P ucas,, no ent Po n an anto to, se sal av va am na na alm ma do do hom mem mor orre orre rend end do. Allgu guma m s mo ma morr orr rrem em no be erç rço. o. Out utra as vã v o sobr brev eviv iv iven ven e do do... Pala Pa lavrrass que ue mud udam am tudo ud do: o: qua uand ndo nd do tu tudo tud do est stav ava p av pe erd r id do. P la Pa l vr vra a qu q e nã ão tte e quero dur urra a:: ped e ra ra,, fe errrro, o, co on ncr cret cret eto. Palavra qu q e te que uero mol ole: e:: lei e eite t , me ela ado do, io iogurt gu urte rtte. e. P lla Pa avr vra a qu ue te que uero ue ro ma ro ag gra: ra a: e esspe peto, to an to nte tena na, pa pali lito li o. P la Pa avr vra a qu q e te te que ero o gor orda da: fo forn rno, fartu ura a, fo orn rnid do. o Palavr Pala Pa vra aq qu ue n nã ão te t que uero ro suj uja: a esg a: goto, o, lod do, o, pollít ític iicca. a Pala Pa lavr la vra q vr qu ue nã n o te te que u ro o em g gu uerra errra r : ód ódio io, có c le lera ra, ra r iva iv va. P lavra Pa a qu q e só ó te q qu uer ero o do doce doce ce: a am mor or, m me elanc la an nccia ia, a me mel. Pa P a vr alavr vra a que só te eq qu ue erro ro a azzul ul: occea eano no o, pi pisc issccin ina a,, céu u. Pa P ala lavr vra qu que só s te qu quer ero er ov ve erd de: gra ama ma, fo folh llh ha, relva ado. do. do Pa P ala lavr vra qu vr que nã n o te quero uerro ue o prre esa: g grrad de, pris risã ri são, sol olid id dão ão. Pala Pa lavr vra qu vra que ue só só te qu quero erro li e liv vrre: e: ave ve, ga garçça, a, amp m lidão o.. o Pala Pa lavra aq qu ue só ó te quer ero amando ando an o: pe pele e, b be eij ijo jo, o, pai a xão o.. o Palavras Pal Pa la ass com om vel elo locid idade: ade: ad e: ráp pid ido, o, lé ép pid ido o, alb lba attroz. a

SXC

Pala Pa lavra vra qu vr ue nã ão te te id tem idade: idad ad de: e: sau audad dade, sa da aud dad a e e... sauda da ade de.

110 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


A informação que forma e transforma o seu ponto de vista. Os fatos que formam e deformam a realidade. As características que engrandecem e apequenam a política e a vida empresarial. As noticias que todo mundo quer ver e que muitos não gostariam de ver publicadas. As atitudes e as pråticas sustentåveis e insustentåveis para o meio ambiente.

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R$ 5,00 Ano 3 | No 32 | Junho/2012

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A direção da Usiminas se orgulhava de ter sofrido uma única greve em seus 50 anos. Mas a siderúrgica era dona de tudo. AtÊ da sede do Sindicato dos Metalúrgicos

A FARSA

da paz social

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1 MEMÓRIA ILUMINADA


SÃO FRANCISCO DE ASSIS Ecologista, protetor dos animais e do meio ambiente Alexandre Salum

Q

uando o novo papa, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, anunciou que adotaria o nome Francisco, o mundo inteiro deduziu que era em homenagem a São Francisco de Assis, um dos santos mais populares e queridos da Igreja Católica. E era. São Francisco enxergava muito à frente de seu tempo. Ecologista na sua adoração pela natureza, anticonsumista pela simplicidade, defensor da liberdade de espírito, da alegria e da vida comunitária. Além disso, foi um feminista de primeira hora na relação com Santa Clara e a ordem das clarissas. Francesco di Pietro di Bernardone, filho de ricos comerciantes nasceu na cidade italiana de Assis, em cinco de julho de 1182. Visionário, mudou não só o conceito de santidade e devoção, mas a atitude da Igreja e dos leigos na virada do século XII para o século XIII. Segundo o biógrafo Jacques Le Gooff, “São Francisco foi, principalmente, produto de três fenômenos histórico-sociais italianos: a luta de classes, a ascensão dos leigos e o progresso da economia monetária”. Teve uma juventude agitada e brilhante, nas festas em sua cidade era o vencedor em todos os torneios que participava. Entre os 22 e 24 anos, iniciou a sua lenta conversão para a religião. Neste período, lutou em defesa de Assis e ficou preso um ano em Perugia. POBREZA Enfermo, começou a ter sonhos os e visões e quando voltou à terra natal foi morar ar sozinho em uma gruta perto de Assis. Dá tudo o que possui e passa a desprezar o dinheiro. Vaii a Roma em peregrinação onde pede esmolas, em frente a catedral de São o Pedro. Envergonhado com o novo estilo de vida de Francisco, seu pai, i, Pedro Bernardone, foi queixar-se e ao bispo de Assis e, diante dele, oresse denou a seu filho que devolvesse

o dinheiro gasto com os pobres. Tirando a roupa, Francisco disse a frase que ficou famosa “Doravante não direi mais pai Bernardone, mas Pai nosso que estás no céu...” Renunciando à herança da família, passou a viver na extrema pobreza. E alguns amigos o seguiram. Surgia aí a ordem franciscana. Em 1210, o papa Inocêncio III aprova a ordem, que tinha em seus objetivos a pobreza e a humildade. Dois anos mais tarde, uma jovem de Assis, Clara, também o segue e nasce a ordem das clarissas, a segunda ordem franciscana. O número de adeptos aumenta e rapidamente chega a cinco mil. IRMÃO DO UNIVERSO Francisco passa a se dedicar a recuperar igrejas destruídas como a de São Damião e outras em ruínas. Reunia seus companheiros para oferecer a sua obediência ao papa e pregar o evangelho em todo o mundo, ainda que tivesse que sofrer muito. O amor de Francisco tem um profundo sentido universal. Ele irmanou-se com o universo, “tornou-se o irmão do sol, da água, das estrelas, das aves e dos animais”. Foi em 1224 que Francisco recebeu os estigmas de Jesus crucificado em seu próprio corpo. Dois anos depois, numa choupana junto à Porciúncula, perto de Assis, no dia três de outub o de 1226, 6, São Francisco pede aos irmãos tubro que o dispam e o coloquem nu no chão, sobre a terra. Rec Recitando o Salmo 142, que os irmãos acomp acompanhavam lentamente, São Francisco mor morre cantando. Dois anos depois, foi canoni canonizado pela Igreja Católica. É o santo pat patrono dos animais e do meio ambien ambiente. O escritor Dante Alighieri disse que Francisco foi “uma luz que b brilhou sobre o mundo”. A ECO ECOLÓGICO selecionou alguns pe pensamentos de São Francisco de Assis. Abaixo, o seu famoso “C “Cântico ao Irmão Sol”.

2 ECOLÓGICO /MAIODE 2013 Q 113


1 MEMÓRIA ILUMINADA “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

AMOR

● “A tristeza não existe. Quando estamos tristes, é porque a felicidade voltou a despistar-nos naquele longo caminho atrás dela.” ● “A cortesia é irmã da caridade, que apaga o ódio e fomenta o Amor.” ● “Como é que os homens podem amar uns aos outros se não amam o Amor?”

PERFEIÇÃO

● “Ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro, e ninguém é totalmente destituído de valores, que não possa ensinar algo ao seu irmão.”

PAZ

● “Senhor fazei de mim um instrumento de vossa paz.”

IGUALDADE

● “Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final.”

SABEDORIA

● “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

RIQUEZA

● “A riqueza não se mede pela quantidade de bens que possuímos, mas no número de amigos verdadeiros e de pessoas que nos amam.” ● “Não vos esforceis pelas honras do mundo, mas honrai o Senhor.” ● “Quem a tudo renuncia, tudo receberá.”

VERDADE

● “Caminha nas sombras o que teme a luz e seus reflexos sobre a verdade.” ● “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.” ● “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras.”

114 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

DEUS

● “E se por esse motivo tiver de suportar perseguições da parte de alguém, que então o ame ainda mais por amor de Deus.” ● “Nada existe desprezado no amor de Deus, que espera de nós a compreensão, e ainda nos dá meios de compreender. Vede a bondade de Deus na eternidade!” ● “O que temer? Nada. A quem temer? Ninguém. Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtêm três grandes privilégios: onipotência sem poder; embriaguez sem vinho e vida sem morte.” ● “Vamos confiar mais em Deus e obedecer às Suas magnânimas leis. Se trabalharmos em favor do Bem, esse Bem virá ao nosso encontro, essa é a Lei.”

ANIMAIS

● “Porque os anjos têm asas como as aves. Porque os homens têm pelos como os bichos. E todos nós temos alma como Deus!” ● “Não te envergonhes se, às vezes, os animais estejam mais próximos de ti do que pessoas. Eles também são teus irmãos.” ● “Todas as coisas da criação são filhos do Pai e irmãos do homem... Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito a ser protegida.”


SANAKAN

CÂNTICO AO IRMÃO SOL, OU CÂNTICO DAS CRIATURAS Altíssimo, onipotente e bom Senhor, a ti subam os louvores, a glória e a honra e todas as bênçãos! A ti somente, Altíssimo, eles são devidos, e nenhum homem é sequer digno de dizer teu nome. Louvado sejas, Senhor meu, junto com todas tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que é o dia e nos dá a luz em teu nome. Pois ele é belo e radioso com grande esplendor, e é teu símbolo, Altíssimo. Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã lua e as estrelas, as quais formaste claras, preciosas e belas. Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão vento, e pelo ar, pelas nuvens e o céu claro, e por todos os tempos, pelos quais dás às tuas criaturas sustento. Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. NA VISTA INTERNA DA IGREJA DA PAMPULHA, SÃO FRANCISCO TAMBÉM FOI A INSPIRAÇÃO DO PINTOR CÂNDIDO PORTINARI

SANTOS

● “É, pois uma grande vergonha para nós, outros servos de Deus, terem os santos praticados tais obras e nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar os que eles fizeram.”

Louvado sejas, Senhor meu, pelo irmão fogo, por cujo meio a noite alumias, ele que é formoso e alegre e robusto e forte. Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas.

FELICIDADE

Louvado sejas, Senhor meu, por aqueles que perdoam por amor a ti e suportam enfermidades e atribulações.

SER HUMANO

Benditos aqueles que sustentam a paz, pois serão por ti, Altíssimo, coroados.

● “Enche-se de felicidade, aquele que vê, sem inveja, a felicidade dos outros.”

● “Um ser humano vale o que ele é aos olhos de Deus e nada mais.”

ORAÇÃO

● “Irmão Antônio, tu tens muito estudo, mas jamais te esqueças da oração.”

EVANGELHO

● “E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho.” (Testamento de São Francisco - 1226)

Louvado sejas, Senhor meu, por nossa irmã, a morte corpórea, da qual nenhum homem vivo pode fugir. Pobres dos que morrem em pecado mortal! e benditos quem a morte encontrar conformes à tua santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal. Louvai todos vós e bendizei o meu Senhor, e dailhe graças, e o servi com grande humildade!

REPRODUÇÃO

● “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras.” ● “Somente eternas são as coisas do Bem, a função caritativa e as leis que o Evangelho nos revela.” FONTES Enciclopédia Britannica www.wikipedia/saofrancisco www.ofs.org.br ECOLÓGICO /MAIODE 2013 Q 115


EVELYN ZAYDEN

1 E N S A I O ARTÍ STI CO : SER R A DA C ALÇ ADA

Uma conquista

NATURAL Fruto do dossiê que levou ao tombamento da Serra da Calçada, livro ilustra território que acaba de conquistar sua preservação

A

promessa do prefeito de Nova Lima, Cássio Magnani, frente a oito mil pessoas reunidas mês passado no “Abraço à Serra da Moeda”, de criar o Monumento Natural da Serra da Calçada, será cumprida neste cinco de junho, “Dia Mundial do Meio Ambiente”. No evento que acontecerá em frente à barreira policial da

118 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013

FOTOS ILANA LANSKY

Fernanda Mann redacao@revistaecologico.com.br

MG-30, serão criados os Monumentos de Proteção Ambiental para a Serra da Calçada, Serra do Souza, Morro do Pires e Morro do Elefante. Diante da importância desse acontecimento, a ECOLÓGICO colore suas páginas com as ilustrações que contam a história e revelam as características desses territórios únicos. Elas foram retiradas do

MARIO VALE E EVELYN ZAYDEN, ILUSTRADORES E MORADORES DA SERRA DA CALÇADA


MARIO VALE

EM FAVOR DE SUA PRESERVAÇÃO, MORADORES E FREQUENTADORES DA REGIÃO REALIZARAM O VITORIOSO ABRAÇO NA SERRA DA CALÇADA

livro “Serra da Calçada: Patrimônio Cultural e Natural da Minas Gerais”, escrito com base no dossiê que levou ao tombamento da área em 2008, com ilustrações de Evelyn A. Zayden e Mario Vale. Inserida na porção norte da Serra da Moeda, que, por sua vez, faz parte da Serra do Espinhaço, a Serra da Calçada está localizada no Quadrilátero Ferrífero, uma das áreas de maior concentração de minério de ferro do mundo. Esta característica está evidente na história de ocupação e exploração local traçada desde o final do século XVIII. Seus 3.800 hectares, limitados pela a BR 040, o bairro Casa Branca, o Jardim Canadá e alguns condomínios, englobam pluralidade de ambientes naturais, abrigando mananciais de abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Sua vegetação é típica da Mata Atlântica e do Cerrado, considerados hotspots, ou seja, prioritários para a conservação da biodiversidade do planeta. Evelyn Zajdenwerg, arte-educadora, arteterapeuta e ilustradora, mora há 18 anos no Retiro das Pedras, condomínio vizinho da Serra. Criada no Rio de Janeiro, ela se encantou pelo mar de montanhas e cachoeiras de Minas e acabou ficando por aqui. “A Serra

é a praia de BH. As pessoas vêm caminhar, observar a natureza e andar de bicicleta. Proponho que o nosso quadrilátero ferrífero também seja visto como o quadrilátero aquífero, a partir de agora. Um nome que não se sobrepõe à vida”, fala, emocionada. Mario Vale, desenhista e cartunista do jornal Hoje em Dia e autor de vários livros infantis, mora ainda há mais tempo no condomínio, 25 anos, e completa: “estamos situados num lugar que é fonte de mil preciosidades ecológicas. É um privilégio morar na área, que é minha inspiração constante. A água que nasce aqui alimenta boa parte da população de BH e isso tem que ser levado em conta.” A publicação está à venda no site da Associação pela Recuperação e Conservação em Defesa da Serra da Calçada, ARCA-AMASERRA e, além das ilustrações, traz fotografias da região e toda sua história. Confira!

SAIBA MAIS: www.arcaamaserra.org

ECOLÓGICO /MAIO DE 2013 Q 119


1 ENSAIO ARTÍSTICO

TODA SEMANA A SERRA RECEBE CENTENAS DE PESSOAS QUE VÊM EM BUSCA DE LAZER COM AMIGOS E FAMÍLIA

JÁ FOI CONSTATADA NA REGIÃO A PRESENÇA DE PELO MENOS 134 ESPÉCIES DE ABELHAS, 59 DE BESOUROS, 4 DE PEIXES, 34 DE ANFÍBIOS, 8 DE RÉPTEIS, 156 DE AVES E 26 DE MAMÍFEROS

70 QQ ECOLÓGICO/JANEIRO ECOLÓGICO/ABRIL DEDE2013 2013 120 100 ECOLÓGICO/MAIO ECOLÓGICO/MARÇO


IMAGENS: EVELYN ZAYDEN

MAR DE MONTANHAS, ALÉM DE RICA BIODIVERSIDADE, ABRIGA IMPORTANTE COMPLEXO HÍDRICO

EXUBERANTES, EXUBERANTES, OS OS CAMPOS CAMPOS RUPESTRES RUPESTRES REVELAM REVELAM SUAS SUAS CORES CORES

VESTÍGIO HISTÓRICO E ARQUEOLÓGICO, O “FORTE DE BRUMADINHO”, SERVIA DE PROTEÇÃO PARA O OURO EXTRAÍDO NAS LAVRAS AO SEU REDOR NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XVIII


1

CONVERSAMENTOS ALFEU TRANCOSO (*) redacao@revistaecologico.com.br

O SOBERANO BEM

H

á uma corrente filosófica que vem desde Aristóteles, passou por Epicuro, Spinoza e Ernst Bloch - no século passado- até finalmente chegar à atualidade, com Luc Ferry e Sponville, que vê a felicidade como o bem supremo. De certo modo, o budismo também se encaixa nessa linha de pensamento. E esse soberano bem pode ser atingido nessa vida. Aristóteles o definia como eudemonismo, o motor de todas as nossas motivações. O alcance dessa existência feliz é o objetivo maior do homem virtuoso e, portanto, sábio. O aprazível seria assim a manifestação positiva mais intensa dessa experiência de viver. Ela se dá no sentimento de integração gratificante com o mundo, o que expande nossa capacidade de criar e de se manifestar. A alegria é a expressão primeira dessa felicidade de ser. Ser agradecimento, participação e comemoração. Com essa vivência podemos sentir que nossos amores (natureza, coisas e pessoas) são partes perenes de nossa mensagem afetiva. É por meio desses amores que podemos tranquilamente saborear o caráter jubiloso do existir a despeito das seduções do negativo. É por sermos seletivos que um ato de alegria se transforma em sabedoria e discernimento. É preciso lembrar também que os sentimentos de generosidade, admiração e compaixão são condutas que refletem a força da nossa amorosidade.

SANJA GJENERO

Quem ama volta Precisamos saber que tudo o que é precioso é muito raro e difícil de atingir, porque demanda sacrifício, persistência, esforço e zelo. Urge desenvolver esses valores que habitam todo ser humano. É com eles que

vencemos as dificuldades corriqueiras e os sofrimentos inevitáveis do cotidiano. Já o amor é a condição primeira para fazer da nossa existência um acontecimento feliz. Sabemos que a característica ímpar de todo amor é querer ser repetido constantemente. Quem ama retorna eternamente ao seio do objeto amado, sejam pessoas ou lugares. Não abandonamos nunca esses momentos que nos proporcionam uma euforia deliciosa com o agradável. Quem ama encontra sempre, volta sempre. É o eterno retorno que Nietzsche tanto falava. Por isso, devemos sorver com prazer desmedido todas as gotas do instante luminoso que forma esse ato de alegria maior. O mundo não é bom nem mau. Ele é tudo o que acontece. Flui de modo contínuo iindependentemente da nossa vontade. Já o meu mundo sim, ele é real e posso fazê-lo alegre ou triste. Para isso, temos nossa liberdade - a capacidade de escolher o melhor ou o mais justo. Mas o amor à natureza sendo como a primeira condição para gostar de nós e, consequentemente, dos outros. Descobrir que somos seres especiais em meio ao fervilhamento inquietante da vida. Descobrir que nos amamos e que, portanto, somos amáveis. O amor também coloca essa decisão definitiva: quem ama se ama, porque quem ama sem ser amado não se ama. A partir daí, a ampulheta da existência nos mostra que estamos postos e expostos às consequências das nossas escolhas afetivas. O caminho da alegria, esse gozo que sentimos no mais íntimo do nosso sozinho, passa a ser uma opção preferencial e definitiva. Essa opção nos mostra que é possível atingir uma vida feliz por meio do agradável e, assim, justificar a direção luminosa do nosso caminhar.

(*) Ambientalista e professor de Filosofia da PUC Minas. 122 Q ECOLÓGICO/MAIO DE 2013


Foto: Roberto Murta.

Ouriço-cacheiro. Símbolo da Mata do Jambreiro.

Preservar e proteger os lares de milhares de espécies é contribuir para um futuro melhor. A Vale mantém atualmente importantes reservas ambientais em Minas Gerais. Isso, porque sabemos que a fauna e a flora não são apenas paisagens do nosso Estado, mas riquezas importantes para nós e para as próximas gerações. Além de nos encher de orgulho, cuidar desses patrimônios reafirma o nosso compromisso com o futuro do planeta. Preservação ambiental. Se é importante para Minas, é importante para a Vale. 5 de Junho. Dia Mundial do Meio Ambiente.


RESPONSABILIDADE AMBIENTAL. Quando fazemos a diferença, os resultados aparecem. Pela décima vez consecutiva estamos no Índice Dow Jones, que mede a responsabilidade das empresas com relação ao meio ambiente. Conquistamos o Gold Class, a mais alta classificação desse índice, alcançada por apenas três empresas do setor de mineração. Sabemos da nossa grande responsabilidade com a natureza, por isso trabalhamos alinhados com projetos de reflorestamento, cuidados com a água, preservação de espécies e muito mais. Somos a Anglo American e temos certeza de que é possível fazer mineração de um jeito diferente. 5 de junho. Dia Mundial do Meio Ambiente.

Revista Ecológico - Edição 57  

Acaba de chegar a Revista ECOLÓGICO, edição comemorativa ao Dia Mundial do Meio Ambiente. Confira as principais matérias: Abandonar ou revi...

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