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ANO 10 - NO 110 - 28 DE JUNHO DE 2018 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


FOTO: LEONARDO MERÇON

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EXPEDIENTE

Araçari-de-bico-branco Pteroglossus aracari Instituto Terra

Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Fernanda Mann e Luciana Morais

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com

MÍDIAS DIGITAIS Bruno Frade

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

EDITORIA DE ARTE André Firmino

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda.

DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

COLUNISTAS (*) Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza REVISÃO Gustavo Abreu

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte - MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br

CAPA Ilustração: Rodolfo Nogueira

EDIÇÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

(*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico

souecologico ecologico

/revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com

2,24 tCO2e Maio de 2018


A gestão da Cemig está mais eficiente. Ela cortou gastos desnecessários para investir no que realmente interessa. Leonardo Luiz Rocha Engenheiro da Cemig em Belo Horizonte

DIÁLOGO E PLANEJAMENTO

É assim que estamos construindo uma nova Cemig. A Cemig reduziu os dividendos pagos aos acionistas ao mínimo permitido. Com isso, a empresa está aumentando o seu caixa para investir em obras e projetos que beneficiam os consumidores. Com investimentos de R$ 2,7 bilhões, a Cemig entregou 32 mil obras que estavam atrasadas, beneficiando a população de todas as regiões do estado.

cemig.com.br


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ÍNDICE

CAPA Minas Gerais e o Brasil foram berço da mais duradoura linhagem de dinossauros que já habitou o planeta Terra. Saiba mais na seção “Ecológico nas Escolas”.

Pág.

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PÁGINAS VERDES

MARIA LUCIA FATTORELLI, COORDENADORA DA AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA, FALA SOBRE O COMPROMETIMENTO DAS EMPRESAS COM A QUESTÃO AMBIENTAL

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MINERAÇÃO

CAMINHADA ATÉ O PICO DE BH REACENDE O MOVIMENTO AMBIENTALISTA CONTRA A ATIVIDADE PREDATÓRIA NA SERRA DO CURRAL, SÍMBOLO NATURAL DA CAPITAL MINEIRA

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E mais... CARTAS DOS LEITORES 08 IMAGEM DO MÊS 09 CARTA DO EDITOR 10 ECONECTADO 12 GENTE ECOLÓGICA 14 RECURSOS HÍDRICOS 26 AVIAÇÃO 36 ESTADO DE ALERTA 39 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS 41 AGRONEGÓCIO 48 EMPRESA & MEIO AMBIENTE 50

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OS MAIORES CRIMES AMBIENTAIS DO BRASIL (4) NA QUARTA REPORTAGEM DA SÉRIE “O AMBIENTALISTA”, O DESMATAMENTO DA AMAZÔNIA E O PAPEL DOS ÍNDIOS COMO PROTETORES DA FLORESTA

O VIÉS MÉDICO NA LITERATURA DE GUIMARÃES ROSA (VI) 55 GESTÃO & TI 59 MEMÓRIA ILUMINADA 60 NATUREZA MEDICINAL 66


Aqui a natureza cuida de sua saúde! Nossa linha de chás possui cerca de 100 tipos diferentes de plantas medicinais, com produção orgânica ou coletadas diretamente na natureza, dentro dos princípios de manejo sustentável. Venha conhecer nosso trabalho!

Ervanaria Marcos Guião

ervanariamarcosguiao

www.ervanariamarcosguiao.com Rua da Esperança, 410 – São Gonçalo do Rio das Pedras – MG - CEP: 39153-000 - (38) 9.8823-6119


CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

homem, com seu egoísmo, vem destruindo as coisas belas que Deus criou. Só podemos contemplar as geleiras por meio de fotos! É lamentável viver nesse mundo atual. Que Deus nos perdoe por sermos ignorantes e incapazes de obedecer ao Criador.” Irandir Xavier, via Google+ OMEMÓRIA ILUMINADA – DEMÓSTENES ROMANO FILHO “Muito interessante essa nova reflexão do Demóstenes sobre a água. Já havia lido um dos livros anteriores dele, ‘Gente cuidando das águas’, e sempre acreditei que, assim como devemos evoluir como seres fraternos, também temos de cuidar da natureza.” Natália Lima, por e-mail OMATÉRIA DA CAPA - “A MORTE NO CAMPO” Série “O Ambientalista” investiga correlação de autoextermínios no campo com o uso de agrotóxicos na produção de fumo “Muito triste! A questão dos agrotóxicos deve ser debatida e revista. A população tem que cair em cima dos governantes. Sei que deve ter muita coisa envolvida.” Maria Albuquerque, via Facebook

OENCARTE ESPECIAL (V) - O VIÉS MÉDICO NA LITERATURA DE GUIMARÃES ROSA O olhar do escritor e médico mineiro sobre os casos de varíola no interior do Estado “Inacreditável como Guimarães Rosa era um ser humano diferenciado. Como médico, praticamente foi um dos visionários no Brasil a entender que o atendimento humanizado de pacientes é importante para o tratamento e a cura. Como escritor, ouso dizer que a sua escrita genial provavelmente ainda livra muita gente das enfermidades literárias, muito comuns hoje, época em que obras de youtubers e outros que são base de filmes de super-heróis inundam o mercado.” Marco Oliveira Fagundes, por e-mail

OECOLÓGICO NAS ESCOLAS - ICEBERGS Texto aborda características e importância dos fragmentos de geleiras para a manutenção do clima global “Como o mundo está vendo dia após dia, o EU LEIO “A Ecológico é o tipo de revista que a gente lê do início ao fim sem parar. Os conteúdos são envolventes, abordam temas polêmicos e exaltam a sustentabilidade. Falar de meio ambiente é coisa séria e pensar no futuro das próximas gerações é o que de fato a revista se propõe mostrar a nós leitores, disseminando conhecimento e conscientizando as pessoas de que é possível construir um mundo mais sustentável e muito melhor.” Heitor Zagnoli, jornalista

08 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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FA L E C O N O S C O Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

OSOU ECOLÓGICO O DESAMOR SOCIAL RONDA O ATLÉTICO Construção da Arena do Galo, em BH “Temos de saber separar bem as coisas. Sou atleticano doente e nosso time realmente merece um estádio para chamar de seu. Mas isso tem de ser feito de forma responsável. Não ouvir a comunidade? Não plantar árvores ou suprimir áreas verdes? Isso é um absurdo. Como é que depois as pessoas terão a consciência de torcer para um time em um lugar que não fez um gol de placa quando foi construído?” Cláudio Moreira, por e-mail


1 IMAGEM DO MÊS

O REGISTRO INÉDITO foi captado pelo ESO, no Deserto do Atacama, Chile

ESO/A. MÜLLER, MPIA

NOVO PLANETA Cientistas conseguiram registrar pela primeira vez na história o nascimento de um planeta. As imagens foram capturadas pelo telescópio mais potente já desenvolvido - o Very Large Telescope -, do Observatório Europeu do Sul (ESO), que está localizado no Deserto do Atacama, no Chile. Batizado de PDS 70b, o planeta recém-formado (que na verdade é o círculo dourado à direita) emergiu da sombra de uma jovem estrela (ao centro). Segundo pesquisadores do Instituto Max Planck, o planeta tem massa mais pesada que Júpiter e as suas temperaturas excedem 1.000ºC. O PDS 70b, na imagem envolto na nuvem de poeira e gás que circunda a estrela, está localizado a três bilhões de quilômetros do sol.

JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O09


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CARTA DO EDITOR HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

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o belíssimo livro “O Brasil dos Dinossauros”, que inspira esta edição da Ecológico, seus autores – o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli e o paleoartista Rodolfo Nogueira – nos recontam o que aconteceu com a vida na Terra, há 66 milhões de anos, após a colisão de um cometa que pôs fim à maioria dos dinossauros e crocodilos. Por outro lado, os estudiosos alegam que foi justamente a extinção desses grandes predadores que permitiu aos mamíferos, em particular, sair da escuridão de seus esconderijos para se multiplicarem tal como os ecossistemas também regenerados que conhecemos hoje – e continuamos predando, agora, sem dó nem piedade, tal como dinossauros humanos. Inteligentes, mas tão violentos quanto insustentáveis. O texto que descreve o impacto sideral revela como o nosso mundo ficou em chamas. E como o Brasil e Minas, em particular, também tiveram os seus dinossauros, antes de arderem no fogo global: “Nuvens de rocha incandescente e gás carbônico, terremotos, tsunamis, chuvas de meteoritos e incêndios florestais representaram apenas o começo do inferno que levou à morte imediata bilhões de plantas e animais no final do período Cretáceo”. “A superfície terrestre ardeu em chamas durante semanas seguintes ao impacto do cometa. Mas a vaporização das rochas no local provocou um novo pulso de aerossóis de enxofre, dando origem a chuvas ácidas que destruíram as plantas, o solo e as águas oceânicas. A fuligem dos incêndios e do vulcanismo somou-se aos milhões de toneladas de poeira levantadas pelo impacto. Elas logo se espalharam pela atmosfera em intermináveis e violentas tempestades, bloqueando a luz solar durante os meses seguintes.” “Sem energia, a fotossíntese cessou nas plantas sobreviventes sobre os continentes e nos oceanos, desmoronando a já comprometida cadeira alimentar. A vida morria de fome pela falta da luz e do calor do sol, a atmosfera e as águas oceânicas esfriaram, desorganizando as correntes marinhas, os ventos e os ciclos da vida.” Os autores concluem: “E a poeira se precipitou, deixando a luz solar gradualmente aquecer mais uma vez a superfície do planeta, finalizando um inverno que perdurava há cerca de 30 anos. No entanto, a elevada quantidade de gás carbônico (CO2) trouxe novamente as altas temperaturas para a atmosfera, e estas perdu10 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

FOTO: ECOLÓGICO

SOMOS TODOS DINOSSAUROS?

RAFAEL: curiosidade e fascínio pelos dinos

raram por milhares de anos. Era a sétima extinção em massa enfrentada pela vida multicelular. Diversas linhagens de dinossauros desapareceram abruptamente das rochas. E com eles, 75% das espécies em todo o mundo”. Caro leitor: você vê nisso alguma semelhança ou mera coincidência com o quê, não de maneira sideral, mas global, predatória e suicida, estamos fazendo e assistindo acontecer a extinção da vida, incluindo a espécie humana, em todo o planeta? Isso talvez explique o sucesso de público do filme Jurassic World – Reino Ameaçado, em cartaz nos cinemas do mundo. E também o fascínio que os dinossauros ainda exercem, principalmente sobre as crianças, como o meu neto Rafael, que estampa este editorial. Será que, lá no fundo, somos todos dinossauros? É o que a Revista Ecológico aborda, pedagogicamente, nesta edição. Tal como a memória iluminada e sustentável de Eliezer Batista. A dívida ecológica levantada por Maria Lucia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, em Páginas Verdes. E o novo grito de alerta dos ambientalistas contra a destruição do símbolo natural da capital dos mineiros: “Mexeu com a Serra do Curral, mexeu comigo!”. Boa leitura. Até a próxima lua cheia! O


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ECONECTADO

ECO LINKS

NA REDE

“Nenhum mamífero marinho foi extinto em águas norte-americanas desde que a Lei de Proteção aos Mamíferos Marinhos foi promulgada há 45 anos. Mas os membros do Congresso norte-americano que são contrários à vida selvagem ainda ameaçam destrui-lo. O Natural Resources Defense Council - The Earth’s Best Defense (Conselho de Defesa dos Recursos Naturais - A melhor Defesa da Terra) não deixará isso acontecer. Nossa equipe de oceanos trabalha duro para proteger e ajudar essas espécies importantes a se recuperarem para evitar a ameaça de outras.” @leonardodicaprio - Leonardo DiCaprio, ator e ativista ambiental

SISS-GEO Você já imaginou encontrar um mico na sua cozinha? Ou abrir a porta e se deparar com uma cobra? Calma! As novas tecnologias podem ajudar você a identificar os animais que aparecem perto de sua casa. Com o crescimento urbano desordenado, inúmeros impactos são causados no meio ambiente e principalmente no hábitat de várias espécies. Pensando nisso, a Fundação Oswaldo Cruz desenvolveu o app SISSGeo, plataforma que propicia registrar os animais por meio de fotos. Após o clique, é possível cadastrar tipo, aparência e comportamento. Depois o sistema realiza o armazenamento dessas informações utilizando a geolocalização. Em seguida, os dados são encaminhados e analisados por uma equipe de pesquisadores. No caso de animais doentes, a ferramenta é uma aliada! Ela pode auxiliar na identificação de possíveis vírus, como o da Febre Amarela, e consequentemente alertar órgãos públicos responsáveis. O aplicativo está disponível no Google Play Store. Para baixá-lo, pesquise “SISS-Geo” ou acesse o link goo.gl/BmkSHh. MENOS 1 LIXO! A ativista ambiental e defensora da ONU no Programa Mares Limpos no Brasil, Fernanda Cortez, é idealizadora da plataforma de educação ambiental Menos 1 Lixo. Tudo começou em 2014 quando ela assistiu ao documentário Trashed: para onde vai nosso lixo, a partir desse momento surgiu um novo olhar sobre o futuro! Inicialmente era um projeto pessoal, em que Fernanda contava quantos copos descartáveis conseguia economizar. Com o tempo, foi inspirando outras pessoas a adotarem gestos simples que fazem a diferença. De lá para cá, o movimento Salvando o planeta 1 copinho por vez já atraiu mais de 180 mil seguidores nas redes sociais. Saiba mais sobre o projeto e conheça exemplos inspiradores em www.menos1lixo.com.br.

MAIS ACESSADA “Como um sapo em água fervente, os humanos tendem a tornar normal o que é chocante e ultrajante: violência, racismo, misoginia, hipocrisia, abuso, corrupção, ganância, desonestidade, crueldade, intimidação, superficialidade. O flagrante desrespeito pela Terra, pela nossa atmosfera, resiliência e os fundamentos essenciais necessários para a sobrevivência.” Link Facebook: goo.gl/5E3HgXl Daryl Hannah, atriz e ambientalista 12 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

FOTO: MARCOS GUIÃO

O texto Lágrimas-de-NossaSenhora, do jornalista Marcos Guião, publicado na coluna “Natureza Medicinal”, foi a matéria mais lida em junho no site da Ecológico. O texto mostrou os benefícios da planta para tratamento urinário, inchaço e queimação nas pernas. Para ler o conteúdo na íntegra, acesse: goo.gl/BNBaAT.

CONTA-DE-LÁGRIMA

Coix lacryma-jobi L.


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GENTE ECOLÓGICA “O contato com a natureza me revigora.” RENATA VASCONCELLOS, jornalista

“A água é o veículo da natureza.”

“Aqueles que lutam contra o dragão durante muito tempo acabam se tornando o dragão.”

FOTO: DIVULGAÇÃO

FRIEDRICH NIETZSCHE, filósofo alemão

“A ciência explica a natureza e cria novos mundos que não percebemos com nossos sentidos.” MARCELO GLEISER, físico e escritor

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“A corrupção no Brasil não fica restrita à esfera política. Ela prejudica, sim, a preservação do nosso ambiente.” FERNANDO GABEIRA, jornalista e escritor

FOTO: FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM / ABR

FOTO: REPRODUÇÃO

LEONARDO DA VINCI, cientista, pintor e engenheiro italiano


FOTO: RICARDO BARBOSA / ALMG

FERNANDA MACHADO, diretora de Fomento à Indústria Criativa da Codemge, na 22ª edição do Minas Trend

Diretor de Mobilização Social e Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica e integrante do Conselho Editorial da Revista Ecológico, o ambientalista foi convidado, mais uma vez, para ser secretário Estadual de Meio Ambiente de São Paulo. O último convite partiu do governador Márcio França. Para quem já deu sua contribuição no governo Franco Montoro (1983/1987) e foi demitido na gestão Orestes Quércia (1987/1991), a recusa agora é coerente: “Como aceitar? Eu sou ONG!” - tem respondido Mantovani aos seus pares. Para quem não sabe, o nosso conselheiro foi co-fundador da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (ANAMMA), em Belo Horizonte, há 30 anos.

FOTO: STUDIO D

DAL MARCONDES

“É muito mais barato, economicamente, manter uma floresta de pé do que derrubá-la ou queimá-la.” PAULO MOUTINHO, pesquisador sênior do Ipam Amazônia

O fundador do site Envolverde e parceiro de longa data da Revista Ecológico é um dos finalistas do Prêmio Comunique-se na categoria Sustentabilidade. Com uma longa trajetória no jornalismo ambiental, Dal tem passagens em grandes veículos de comunicação do país e na ONU. O jornalista também comemora, este ano, os 20 anos de atividades da Envolverde como uma das principais plataformas digitais ambientais do país.

JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O15

FOTO: MARCELO TRAD

MARIO MANTOVANI

RUBENS MENIN, fundador e presidente do Conselho de Administração da MRV, vencedor do prêmio "Empreendedor Global do Ano" da Ernst & Young

“Cada R$ 1 colocado no setor da moda movimenta, em média, R$ 1,69 em setores diversos. Somente nos últimos quatro anos, os investimentos geraram R$ 7,3 milhões na economia mineira.”

CRESCENDO

FOTO: REPRODUÇÃO

FOTO: DIVULGAÇÃO

“A questão ecológica tornou-se importante na equação do mercado imobiliário. Há dois anos, fomos pioneiros em lançar prédios 100% com energia solar fotovoltaica. A rapidez com que esta energia limpa está entrando no mundo globalizado é um negócio maluco.”


A Mata Atlântica não chegou ao fim . Já plantamos mais de 40 milhões de árvores nativas em 9 estados. Isso é só o começo.

Acesse , plante e continue essa história . SOSMA.ORG.BR


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PÁGINAS VERDES

“Somos credores da

dívida ecológica” Bia Fonte Nova

FOTO: DIVULGAÇÃO

redacao@revistaecologico.com.br

MARIA LUCIA FATTORELLI: “Riquezas naturais estão sendo exploradas como se não tivessem valor algum”

Qual é o conceito de dívida ecológica? Esse tema ainda é abordado de forma incipiente no mundo todo e, aqui no Brasil, está praticamente na estaca zero. Nem mesmo o seu conceito tem sido corretamente estabelecido. Nas raras fontes disponíveis sobre o tema, a dívida ecológica tem sido definida como um débito dos países do Norte para com os do Hemisfério Sul, devido à exploração de matérias-primas nos últimos cinco séculos, provocando danos ambientais. Entendemos 18 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

O

Brasil ainda engatinha quando o assunto é divulgar o conceito e avançar nos estudos voltados para o cálculo da dívida ecológica. Para a belo-horizontina Maria Lucia Fattorelli, coordenadora nacional da organização Auditoria Cidadã da Dívida e integrante das comissões de auditoria da dívida pública do Equador e da Grécia, os responsáveis pela exploração predatória das riquezas naturais e geração de danos ambientais e sociais irreparáveis envolvem, principalmente, empresas transnacionais e instituições financeiras que viabilizam a comercialização das matérias-primas com lucros exorbitantes e ocultos, por meio do uso de paraísos fiscais.

Em busca de formas para calcular e cobrar a fatura pelos impactos – ambientais e sociais – causados por empreendimentos de diferentes setores, tais como a mineração e a construção de usinas hidrelétricas, Belo Horizonte sediará, no próximo dia 19 de julho, o 1º Encontro Mineiro sobre Dívida Ecológica. “Vamos reunir pessoas interessadas no tema para ampliar o conceito de dívida ecológica e trazê-lo para mais próximo da nossa realidade. O fato desse importante encontro acontecer na capital mineira é emblemático, considerando sobretudo as impressionantes ameaças do setor minerário à Serra do Curral”, afirma a especialista. É o que você confere, a seguir.

que há muito que avançar.

meio do uso de paraísos fiscais. Portanto, estamos dando os primeiros passos.

Em que aspectos temos de avançar? Os atores responsáveis pela exploração predatória das riquezas naturais e a geração de danos ambientais e sociais irreparáveis não envolvem simplesmente os países do Norte. Mas, principalmente, as empresas transnacionais e instituições financeiras que viabilizam a comercialização das matérias-primas com lucros exorbitantes e ocultos, por

A realização do 1o Encontro Mineiro sobre Dívida Ecológica, em Belo Horizonte, no próximo dia 19 de julho, é uma forma de contribuir para a difusão desse conceito? Sem dúvida. Vamos reunir pessoas interessadas no tema para ampliar o conceito de dívida ecológica e trazê-lo para mais próximo da nossa realidade. O fato desse importante encontro acon-


M A R I A LU C I A FAT TO R E L L I Coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida

FOTO: ANTÔNIO CRUZ / ABR

"Cenas do Rio Doce morto e do soterramento de Bento Rodrigues nunca sairão de nossa memória. Dezenove pessoas morreram e inúmeras espécies foram dizimadas." tecer na capital mineira é emblemático, considerando sobretudo as impressionantes ameaças do setor minerário à Serra do Curral. Tanto devido às inescrupulosas atividades de mineração como aos interesses imobiliários especulativos, que estão sendo beneficiados por recente sentença judicial que, imprecisa, abre espaço para avanços sobre a área da Serra do Curral, permitindo a urbanização da área.

considerar vários outros fatores. Entre eles: o estabelecimento do preço dos minerais de forma arbitrária no exterior. O montante dos danos que têm sido provocado historicamente, tendo em vista o “valor” das riquezas espoliadas, da vegetação suprimida, dos rios contaminados e até assassinados. Além do uso indiscriminado da água; dos animais extintos, enfim, todo o conjunto desses reflexos na natureza.

Como, então, tratar esse tema de forma integral? Em razão do conjunto de atores que produzem a dívida ecológica, e levando-se também em conta a sua larga abrangência, que vai muito além da insaciável pilhagem das riquezas naturais, com a substituição de serras e montanhas por ameaçadoras represas de rejeitos, é preciso ainda

Existe algum critério para se calcular essa dívida e cobrá-la? Não se trata de precificar os bens da natureza, colocar preço em um rio ou em uma jazida de nióbio, por exemplo. Por outro lado, as riquezas naturais têm sim, o seu valor, pelos serviços ambientais prestados a toda a humanidade. É muito importante distinguir a noção de “preço” e “valor”.

Na prática, as riquezas naturais estão sendo exploradas como se não tivessem valor algum. São vendidas pelos preços estabelecidos nas bolsas de Londres ou Chicago, de acordo com um critério do qual não participamos da definição, ficando o lucro da exploração somente para as grandes empresas transnacionais. Não se vê a receita decorrente das riquezas minerais nos orçamentos públicos dos entes federados no Brasil. Ela é invisível. E nós ficamos apenas com o dano ambiental e a contaminação das pessoas que trabalham na extração e da comunidade local. A ideia é juntar especialistas que já se dedicam aos estudos sobre valoração ambiental, a fim de que estabeleçam critérios e metodologias para que possamos calcular essa fatura e cobra-la. Assim, sairemos da condição de vítimas

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O19


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PÁGINAS VERDES que apenas lamentam os danos sofridos para a de credores que exigem a reparação ecológica. Como avalia o comprometimento do empresariado brasileiro com a questão ambiental? Somos um país maduro? Não. Pelo contrário. Estamos atrasadíssimos, apesar da importância que a nossa Constituição dá ao tema, dedicando a ele o Capítulo VI e estabelecendo, no Artigo 225 que: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Poderia citar algum avanço real e prático? Embora tenham havido tentativas de avanço na legislação há anos, como é o caso da Lei 6.938/81, que instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente, os investimentos nos órgãos de fiscalização são continuamente contingenciados. Muitos estão sendo extintos ou literalmente fracionados e desmontados. É o caso do Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), cuja estrutura de Estado não pode ser comparada à da Agência Nacional de Mineração (ANM) criada para, teoricamente, substitui-lo. Inúmeros absurdos gritantes comprovam o nosso atraso com a questão ambiental no Brasil. A que situações ou absurdos se refere? À construção da Usina de Belo Monte, por exemplo, que interrompeu o curso do Rio Xingu, no belíssimo local denominado Volta Grande. Justamente nesse leito

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QUEM É

ELA

Graduada em Administração e Ciências Contábeis, Maria Lucia Fattorelli tem MBA em Administração Tributária. Auditora fiscal da Receita Federal do Brasil de 1982 a 2010, integrou a Comissão de Auditoria Integral da Dívida Pública do Equador (junho/2007 a setembro/2008), e o Comitê da Verdade sobre a Dívida Pública da Grécia (abril a junho/2015). Atuou, ainda, como assessora técnica da CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados, em Brasília (setembro/2009 a maio/2010). É palestrante e autora do livro Auditoria Cidadã da Dívida: Experiências e Métodos (Inove Gráfica e Editora, 2013).

seco do rio, a estrangeira Belo Sun Mining Corporation tem explorado grandes quantidades de ouro da melhor qualidade, conforme ela mesma se “gaba” em seu site (www.belosun.com). Isso às custas de gravíssimos impactos ambientais e sociais. Aquela obra, feita às pressas e passando por cima de embargos do Ministério Público, Ibama e outros órgãos, colocou os interesses empresariais nacionais e estrangeiros acima de tudo. Atingiu também comunidades indígenas... Exatamente. Belo Monte devastou parte da floresta amazônica, afetando o Rio Xingu e suas ilhas. A série A devastação do Xingu em imagens, da ONG Instituto Socioambiental, evidencia em fotos a violação do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade de pessoas atingidas pela construção da usina. O que poderia se caracterizar, inclusive, como um ato de terrorismo,

conforme mencionei em meu artigo (https://goo.gl/cV9RJP). O aprofundamento dos estudos sobre essa dívida ecológica poderá envolver todos os atingidos por esses escândalos. Qual a sua opinião sobre o setor de mineração no Brasil e, em especial, sobre o acidente e desdobramentos da atuação da Samarco, desde novembro de 2015? Creio que aquelas cenas do Rio Doce morto, com quantidades enormes de cardumes agonizando, o desespero dos povos Krenak, dos pescadores e moradores das centenas de localidades atingidas nunca sairão de nossa memória. Fotos de satélite, tiradas antes e depois do ocorrido, mostram outra perspectiva visual do imenso dano ambiental e patrimonial provocado: soterramento da maior parte das propriedades de Bento Rodrigues por toneladas de rejeitos da mineração depredatória e inescrupulosa. Dezenove pessoas morreram e inúmeras espécies do Rio Doce foram dizimadas. Só em 2014, o faturamento bruto divulgado pela Samarco foi de R$ 7,6 bilhões. Houve negligência nesse caso? É evidente que houve, diante principalmente do imenso volume de rejeitos acumulados, capazes de soterrar um distrito e alagar dezenas de outros, matar um rio inteiro, dizimar espécies, e se espalhar ao longo de dois estados até alcançar o Oceano Atlântico, que também foi afetado. Esse caso é emblemático e pode ser escolhido como prioritário para o grupo de estudos que será formado a partir do encontro sobre dívida ecológica que será realizado em Belo Horizonte. Afinal, ainda convivemos com a ameaça de


M A R I A LU C I A FAT TO R E L L I FOTO: AGÊNCIA BRASIL

Coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida

"A construção da Usina de Belo Monte interrompeu o curso do Rio Xingu, no belíssimo local denominado Volta Grande."

outras barragens se romperem em Minas. E no contexto da água: o Brasil tem também uma dívida ecológica hídrica? Sim. Em março, Brasília (DF) também sediou o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama), que contou com a participação de mais de 7 mil pessoas e 450 organizações socioambientais nacionais e internacionais. Ao final, aprovamos uma carta, denunciando a transformação dos bens naturais em mercadoria, por meio de processos de privatização, precificação e financerização. Embora o Brasil detenha a maior reserva de água do mundo, inúmeras comunidades não têm acesso à água potável nem tratamento de esgoto. As notícias e campanhas sobre a crise hídrica focam na necessidade de educar as pessoas a economizar água na

hora de escovar os dentes, tomar banho, lavar roupa, etc. Porém, estudos indicam que a cada 100 litros de água, as famílias consomem apenas 4%; indústrias e mineração gastam 12%, e o agronegócio cerca de 72%. E mais: essa é uma média que, evidentemente, não leva em consideração o fato de o trágico acidente de Mariana ter consumido um rio inteiro! Sem dúvida, esse também será um tema fundamental para o estudo da dívida ecológica. É otimista em relação ao futuro comum da humanidade no planeta? Se olharmos o nível de desrespeito com que a natureza tem sido tratada, frente a tantos abusos que envolvem a exploração predatória de seus recursos; contaminação por agentes químicos usados na mineração e acumulação de rejeitos; polui-

PROGRAME-SE!

O 10 Encontro Mineiro sobre Dívida Ecológica, em BH, será realizado em 19 de julho, das 8h às 17h, no Auditório da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado (AFFEMG), Rua Sergipe, 893 – Savassi. Informações e inscrições: contato@ecoavis.org.br

ção das indústrias; uso abusivo de agrotóxicos; fatores que provocam o aquecimento global etc., ficaremos de fato alarmados. Continuamos caminhando a passos largos para o comprometimento da vida em quase todo o planeta. Apesar disso... É claro que sou otimista. Se não fosse e não tivesse a certeza de que é possível recuperar o que tem sido feito de modo errado, especialmente em relação às nossas finanças, que têm relação direta com a dívida ecológica, como mencionou o Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Si’, não dedicaria minha vida a esse trabalho voluntário à frente da Auditoria Cidadã da Dívida. Quanto mais pessoas se envolverem e se dedicarem à prática da cidadania ativa, mais rápida será a mudança de rumos. Nascemos em um dos países mais ricos e belos do planeta. Não podemos continuar vivendo no avesso do país que poderíamos ter. A realidade de abundância que existe no Brasil não combina com o cenário de escassez a que temos sido submetidos. Vai depender, sobretudo, do engajamento de muitas pessoas. Espero que acordemos a tempo! O SAIBA MAIS www.auditoriacidada.org.br facebook.com/auditoriacidada.pagina JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O21


1 DEBATE

OS CAMINHANTES entre o Pico de BH e a Mineração Empabra: o clamor ecológico contra a mineração insustentável

NEM TODA MINERAÇÃO

SERÁ PERMITIDA Caminhada até o Pico de BH reacende o movimento ambientalista contra a atividade predatória na Serra do Curral, símbolo natural da capital mineira

E

ste novo grito de alerta ecoou das vozes de 300 belo-horizontinos, entre ambientalistas, políticos e cidadãos, no segundo domingo de junho, encerrando a Semana Mundial do Meio Ambiente. Convocados por diversas ONGs socioambientais, eles se dividiram em duas trilhas até chegar ao cume da Serra do Curral, cuja base próxima já se acha carcomida por velhas e novas minerações. Lá, a 1.390 metros de altitude, 22 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

muitos desses caminhantes testemunharam, pela primeira vez, o tamanho das erosões e novas frentes minerais. Não apenas em Belo Horizonte. Mas também do outro lado da serra, no município abaixo de Nova Lima, onde uma natureza de beleza estonteante está em vias de ser degradada por um novo projeto de mineração em processo de licenciamento ambiental. COPA DA INSENSATEZ Em sua edição 108, publicada em

agosto de 2017, dentro da série de reportagens A Serra pede Paz, sob o título A nova Regra do Jogo, a Revista Ecológico mostrou esse novo projeto. Trata-se do Complexo Minerário Serra do Taquaril (CMST), da Construtora Cowan, que, de um lado, traz a inovação tecnológica de minerar a seco, sem gerar rejeitos. E, de outro, traz uma dor verde: a devastação, para ser implantado, de 150 hectares de florestas milagrosamente intactas até hoje. Ou seja, uma


FOTO: FERNANDA MANN

área verde natural equivalente a 150 campos de futebol será eliminada. Se os governos municipal e estadual permitirem o desmatamento de toda a área requerida, advertiram os caminhantes, essa terá sido uma outra copa: “A copa da insensatez”. O projeto da Cowan pretende minerar a partir do limite que já foi, um dia, a Mina de Águas Claras, da ex-Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), atual Vale, agora rumo ao o município de Sabará. Leia-se no prolongamento da Reserva Natural do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Jambreiro, da Vale, a maior reserva de Mata Atlântica atualmente preservada em toda a Região Metropolitana de Belo Horizonte. DE VOLTA À EMPABRA Do alto do Pico até os parques da Baleia e Mangabeiras, de volta a BH, os caminhantes avistaram outra vez, e sem maquiagem, a tragédia em curso da Empresa

de Mineração Pau Branco (Empabra), igualmente reportada pela Ecológico em julho de 2017, na sua edição 99, no texto intitulado O Perigo mora ao Lado. Em sua defesa, a mineradora afirmou, na época, ter licença tanto do Estado quanto do munícipio para minerar o que ainda era possível de passivos ambientais de outras minerações egressas. E, pari passu, também ir recuperando a paisagem afetada da Serra, sem ultrapassar os limites de proteção dos referidos parques. Já para os ambientalistas que também acompanharam uma visita ao local, semanas antes da caminhada, como convidados da Câmara Municipal de BH, a Empabra não cumpre integralmente as duas coisas. A todo vapor, ela minera várias cavas da Serra, além do legalmente permitido via Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado com o Ministério Público. E recupera sim, mas de maneira mínima, a passos de tartaruga, o que já foi degradado no passado ou o que ela própria também destrói atualmente. Tamanho conflito, questionado e protestado in loco pelo vereador Gilson Reis, ocorre na área da antiga Granja Corumi,

ELES DISSERAM “Aqui, antes, havia muitas nascentes descendo da serra. Hoje só tem uma. Não podemos deixar que isso continue assim, chegou a hora de nos unirmos. Veja a mineração: já está aos pés da serra.” José Vanderli, voluntário do Movimento pela Preservação da Serra do Curral

“A Serra do Curral está para Belo Horizonte como a Amazônia para o Brasil. Somos capazes de defender a Amazônia, que está na nossa bandeira, inclusive. Não podemos ter desenvolvimento a todo custo, como acontece na mineração.” Luciana Maria, advogada

“O desmatamento agressor e a falta de esclarecimento por parte do poder público sobre a legalidade desses empreendimentos são hoje as principais ameaças que encontramos na serra.” Alexandre Ribeiro, presidente do Movimento Paz na Serra

no Bairro Taquaril, região Leste de BH e divisa com Sabará. A prova cabal disso foi dada no último dia 28 de junho. Uma vistoria técnica, feita por representantes da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), confirmou que a Empabra descumpriu mesmo o limite da extração de minério previsto em autorização oficial inicial. Foi como o jornal “Estado de Minas” documentou e publicou, no dia seguinte: “Enquanto o governo estadual sustenta que a autorização da Secretaria MuniJUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O23


cipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) previa a retirada de 1,5 tonelada de material para ser comercializado, no relatório entregue à Semad, a mineração admitiu movimentação de 5,88 toneladas de minério”. Isso mostra que a Empabra omitiu uma quantidade de minério autorizada para extração quatro vezes maior do que havia informado à PBH, pontua o órgão ambiental do Estado. E não parou aí. A Semad ainda destacou quatro cláusulas descumpridas do TAC, três delas relacionadas às questões socioeconômicas. Outra diz respeito à não instalação de lavador de rodas nos caminhões que fazem o transporte de minério e descarta danos ambientais ao Parque Estadual da Baleia. Por meio de nota, a Empabra disse que “está ciente do relatório da vistoria e já está providenciando a documentação solicitada pela Semad”. COMUNICAÇÃO ÁRIDA Um ano antes, na histórica Sabará, mais precisamente na noite gélida do dia 18, sexta-feira de maio, a Construtora Cowan compareceu à audiência pública 24 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

FOTO: ALAIR VIEIRA / ALMG

1 DEBATE

MARCUS POLIGNANO: “Mexeu com a Serra, mexeu comigo” para informar e explicar sobre o seu Projeto CMST, na continuidade sul da Serra do Curral. Baseada majoritariamente em mostrar dados técnicos (número de empregos e resultados financeiros) e não no que poderia fazer (em termos de compensação ambiental e proteção ambiental), a empresa levou uma espécie de “surra” das autoridades e ambientalistas presentes. O mesmo vereador Gilson Reis perguntou ao microfone: “Vocês acham que a população do Rio

FOTOS: FERNANDA MANN

A "CASCA" DE SERRA que sobrou e a área da Empabra ainda não recuperada, na divisa com o Parque das Mangabeiras

GILSON REIS: “Os cariocas deixariam minerar o Pão de Açúcar?” de Janeiro iria permitir minerar no Pão de Açúcar ou no Cristo Redentor, no Alto do Corcovado?”. Ao que completou Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), exibindo fotos exuberantes da Serra do Curral, com paisagens intactas que poucas pessoas ali presentes jamais imaginariam ainda existirem: “O nosso lema agora será este: mexeu com a Serra, mexeu comigo!”.


OPINIÃO

“A MINERAÇÃO DO FUTURO SERÁ SUSTENTÁVEL” “A mineração é um setor muito importante para Minas, mas não há mais espaço para empresas poluidoras e degradadoras. É cada vez mais certo que a mineração do futuro é aquela que tem uma vocação para sustentabilidade. Fomos à Holanda para garantir que as empresas mineiras tenham as tecnologias mais modernas de segurança de barragens. O poder público tem que incentivar tecnologias alternativas para dispor rejeitos. Também fomos à China, onde o teor de ferro do minério é muito baixo e eles produzem muito rejeito. Então, tiveram que pensar em alternativas à formação de barragem e avançaram muito no uso de produtos da construção civil, como tijolos, bloquetes, asfalto e cimento feitos com rejeitos de mineração. Lá, deparamos com um cenário muito positivo para ser implantado em Minas, que é a união da mineração com a construção civil. Todos os setores ficaram interessados nessa mudança de postura.”

GERMANO VIEIRA, secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas, ao jornal Hoje em Dia

FOTO: SANAKAN

O que mais incomodou os ambientalistas foi o fato de a empresa apenas mostrar uma fase de implantação. E não o projeto completo a ser licenciado, facilitando assim a aprovação final pelos órgãos ambientais. Ou seja, em números: ela já conseguiu autorização do Instituto Estadual de Florestas (IEF) para devastar uma área parcial de 30 hectares de campos de altitude e Mata Atlântica. Enquanto o projeto total da CMST prevê autorização para 150 hectares, cinco vezes mais, no costado até hoje preservado da Serra do Curral em Nova Lima. Movidos por essa revolta, os ambientalistas combinaram subir até o Pico de BH no último domingo da Semana Mundial do Meio Ambiente. E, doravante, nomear a serra maior dos mineiros como “nossa”. Da humanidade. O


1 RECURSOS HÍDRICOS

FOTO: REPRODUÇÃO

SIMBOLISMO HÍDRICO: o Córrego dos Carrapatos está para Nova Lima como o Arrudas para BH e o Tietê para São Paulo

O SEGUNDO SONHO DO

REGO DOS CARRAPATOS Quase duas décadas depois, Nova Lima e Copasa refazem a promessa de despoluir o mais emblemático parque natural da Grande Belo Horizonte

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ticas “banquetas” que os ingleses construíram há mais de 100 anos para, por gravidade, levar água à antiga Mineração Morro Velho, hoje AngloGold Ashanti.

Foi ele também que relembrou o mesmo sonho, hoje coletivo, de recuperar ambientalmente o Ribeirão dos Carrapatos, que ainda corre moribundo e triste em boa FOTOS: FABRÍCIO ARAÚJO

F

oi emocionante. Na manhã ensolarada do dia 10 de junho, encerrando as festividades da “Semana Mundial do Meio Ambiente”, a Corporação Musical União Operária - tradicional banda do município metropolitano com mais Mata Atlântica e nascentes preservadas - tocou um dobrado de mexer, literalmente, com os corações. Executou vários hits do cancioneiro popular que emocionaram, em particular, a ponto de perder a voz, o médico Ricardo Salgado, ex-secretário municipal de Saúde e de Meio Ambiente, ao longo de 12 anos. Coube a ele, já com 73 anos, a preservação histórica das poé-

Vitor Penido e Rômulo Thomaz: compromisso refeito


Ricardo Salgado e Danilo Vieira: dois secretários e uma missão... FOTO: ECOLÓGICO

parte do atual parque natural mais querido pela população local, onde antes era mais um lixão público, na entrada da cidade. A comoção do médico que virou ambientalista, homenageado durante a cerimônia, não foi à-toa. Ao lado de Vitor Penido, prefeito pela sexta vez do município, Salgado assistiu à mesma assinatura, 18 anos depois, de um protocolo de intenções semelhante entre a prefeitura municipal e a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Copasa), prometendo tratar e despoluir até 2020 as mesmas águas que hoje degradam os dois tesouros hídricos: o rego (abreviação de córrego) e o ribeirão de mesmo nome. Os carrapatos quase não existem mais ali, graças ao crescimento e a transformação das antigas e infestadas pastagens em florestas de Mata Atlântica recuperadas, que hoje dão sombra, umidade e afastam esses insetos. Natural do município e também signatário do primeiro convênio assinado em vão, na virada do século, Penido disse se tratar agora de uma questão de honra, tanto da Copasa quanto da própria prefeitura. A mesma e solitária bandeira levantada pelo seu ex-secretário e criador do parque: “Agora, é uma questão de coração, de gratidão e amor mesmo à nossa cidade e população”, disse o prefeito. Por parte do diretor de Operação Metropolitana da Copasa, Rômulo Thomaz Perilli, conhecido por sua empolgação e comprometimento com a causa hídrica, o sentimento confesso foi o mesmo. Ele garantiu que, desta vez, o Estado vai projetar e implantar uma Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) a montante do parque, retirando todo e qualquer lançamento poluente nos seus cursos d’água. A nova previsão é isso acontecer até o ano 2021.

... despoluir o Rego e o Ribeirão, símbolo maior de Nova Lima A principal fonte de poluição são os condomínios de classe média e alta a jusante do parque, que ainda não usam fossas sépticas. A segunda fonte de tristeza social são alguns bairros (grande parte deles clandestinos) mais próximos e vizinhos às margens de ambos os córregos que cortam o parque, cujo lançamento criminoso é feito direto neles. Antes da cerimônia, a Revista Ecológico percorreu o trajeto entre a entrada do parque e o

seu encontro com esses bairros, seguindo a trilha das banquetas, menos de um quilômetro acima. Dá vontade de chorar, tamanha a contradição e insensata degradação, em meio a árvores gigantescas. Vários moradores antigos acompanharam a reportagem, com a mesma tristeza. Muitos deles lembraram a infância bucólica que já tiveram em suas vidas, nadando, brincando e pescando com seus pais naquelas águas.

JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O27


1 RECURSOS HÍDRICOS Para a maioria descrente deles, essa conversa de despoluição é antiga e politiqueira. Para o atual prefeito, que também é presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig), agora é uma certeza que vem do coração. Tal como enfatizou seu atual secretário municipal de Meio Ambiente, Danilo Vieira Júnior, 67% do extenso município de Nova Lima ainda é verde e hídrico graças à mineração, por se tratar de suas propriedades, via concessão da União, que são protegidas por força de lei: “Não fosse a ação fiscalizadora das mineradoras, que, no caso do Quadrilátero Ferrífero do Estado, geralmente ocupam e mineram 3% do território natural, mas preservam 5% dele na forma de Unidades de Conservação (UCs), certamente o poder público sozinho não teria condições de preservar tanta natureza que se conseguiu salvar e manter intacta até hoje no município, apesar da pressão imobiliária. E são essas mesmas empresas que

nos ajudarão agora, não apenas nesta nova oportunidade de despoluirmos o parque como, maior ainda a missão, salvarmos as 800 nascentes d’água que ainda temos jorrando limpas e também abastecendo, sobremaneira, a população da capital.” Vieira citou nominalmente a Vale e a AngloGold Ashanti (ex-Mineração Morro Velho), cujos representantes estavam presentes na cerimônia, responsáveis e mantenedoras de significativas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs): “O nosso Rego dos Carrapatos não é só um parque. Ele é um santuário, uma paixão novalimense. Despolui-lo é um dever, uma declaração de amor social à cidade e à sua gente”. Entre as personalidades homenageadas, o ex-ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, confidenciou ao prefeito Vitor Penido, a importância estratégica dos administradores públicos se envolverem parceiramente e, sem preconceito, com os ambientalistas. E não mais ainda vê-los, erroneamente, como inimi-

gos do progresso: “Essa é a nossa sorte e a sorte futura desse parque. Os idealistas não têm tempo para ser pessimistas. Onde há uma vontade política há um caminho. E ele recomeça aqui, reunindo os mesmos atores.” Como recordou com a voz embargada e os olhos marejados, o médico e ambientalista Ricardo Salgado, quase duas décadas antes o local onde ocorreu a renovada promessa de saneamento já foi palco de quatro tentativas de invasões: “Não foi fácil. Só para sonharmos com a criação do parque, na época, a prefeitura teve de retirar mais de 100 caminhões-caçamba de lixo jogado pela própria população”. “Isso é mágico”, acrescentou: “É o que faz reviver a nossa esperança. Se Nova York (EUA), uma das cidades mais ricas do planeta, levou 40 anos para criar o seu Central Park, nós temos de acreditar que, um dia, o nosso parque estará 100% limpo e aberto à visitação, contemplação e lazer da população. Será uma glória para todo mundo”. O

FOTO: FABRÍCIO ARAÚJO

FOTO: DIVULGAÇÃO

DEZOITO anos atrás, as mesmas banda e autoridades se reuniram em promessa no Parque dos Carrapatos: apenas uma fotografia na parede? 28 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018


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OS MAIORES CRIMES AMBIENTAIS DO BRASIL (4)

26 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2018

A SAGA AMAZÔNICA DO

DESMATAMENTO

NO QUARTO EPISÓDIO DE “O AMBIENTALISTA”, NEYLOR AARÃO MOSTRA O PAPEL DOS ÍNDIOS COMO OLHEIROS DA MAIOR FLORESTA TROPICAL DO PLANETA, CUJO DESMATE GERA MAIS CO2 QUE O TOTAL DE CARROS EM CIRCULAÇÃO NO BRASIL

30 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018


Neylor Aarão redacao@revistaecologico.com.br

pal era ocupar a Amazônia para não a perder, e isso foi feito da pior forma possível, de maneira predatória. Na época, não se pensava quais seriam as atividades que poderiam ser desenvolvidas em harmonia com a riqueza natural da região”, afirma. SUPOSTO DESENVOLVIMENTO Em anos de devastação, cada árvore que tomba escreve uma história, “paga” o preço do suposto desenvolvimento. Para Avelino, o Brasil só começou a repensar a ocupação da Amazônia a partir da ECO-92, realizada no Rio de Janeiro. Começava ali, a criação de um novo arcabouço, de um novo conjunto de leis que tornaram o desmatamento mais difícil, graças a regras mais rigorosas e, principalmente, à sua criminalização. O pecuarista Gastão Filho foi um dos que chegou à Amazônia atraído pelas facilidades de crédito, benefícios e incentivos fiscais. “Havia muito também de idealismo, uma certa poesia de que estávamos participando da última aventura do mundo.” O desafio de desbravar e colonizar a região também moveu os interesses do pecuarista. Hoje, cerca de dois terços da área desmatada na Amazônia é ocupada pela pecuária e pastos. “Os conceitos eram completamente diferentes daqueles que temos hoje. Antes, imperava o integrar para não entregar. Quanto mais derrubasse, mais você era dono da área. Só depois começou a se a falar em preservação.” Os conflitos e enfrentamentos por posse de terras também dominavam a região, relembra Gastão. “Teve muito conflito, com mortes

FOTOS: REPRODUÇÃO

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desmatamento é uma preocupação mundial. Não se justifica mais promover o desmate em nenhuma situação, muito menos para agricultura ou pecuária, uma vez que hoje há inúmeros outros meios de assegurar a produtividade e a eficiência nesses setores. Eu decidi investigar por que o desmatamento na Amazônia ainda mantém índices de crescimento tão alarmantes. Viajei até Paragominas, no Pará, cidade que ficou conhecida por enfrentar e combater o desmatamento, depois de liderar, por anos, a lista dos municípios com maior número de assassinatos no Brasil. Um dos meus primeiros entrevistados na cidade foi o engenheiro agrônomo Murilo Villela Zancaner. O pai dele, médico formado em São Paulo, chegou a Paragominas como colonizador. “Veio para abrir uma fazenda. Não tinha nada aqui em termos de estrada, médico ou condição. Era tudo floresta. Eles desmatavam, queimavam e plantavam capim. Aí, começava a pecuária.” O processo de colonização da Amazônia ficou muito conhecido pelo slogan “integrar para não entregar”. Para entender a relação desse lema como o desmatamento na região, decidi procurar o Ministério Público Federal. O procurador da República Daniel César Avelino lembra que o incentivo à ocupação da Amazônia remonta à época da ditadura militar no Brasil, quando muitos recebiam incentivos financeiros para se estabelecer na região. “Era oferecido financiamento em bancos públicos para você abrir a floresta. A questão princi-

"Estamos condenando todos os nossos descendentes à extinção. Teremos desertificação e uma série de catástrofes no mundo inteiro por causa do aquecimento global.” LUCIANO EVARISTO, diretor de Proteção Ambiental do Ibama

por tentativa de invasão de áreas. Tanto que Paragominas ganhou o apelido de ‘Paragobalas’.” MODELO DE EFICIÊNCIA Na fazenda do pecuarista Mauro Lúcio, considerada modelo na eficiência de criação de gado, procurei entender como conseguiam produzir seis vezes mais do que em uma propriedade centrada em prática extensivista e com derrubada de floresta. “Meu avô desmatou Mata Atlântica; meu pai, Floresta Amazônica... Na época deles, isso era sinônimo de desenvolvimento, não faziam isso por maldade. Eu

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O31


OS MAIORES CRIMES AMBIENTAIS DO BRASIL (4)

PARAGOMINAS: passado de devastação fez surgir uma nova realidade ambiental

também desmatei quando cheguei aqui, não tinha sentimento ambiental de que estava fazendo algo errado.” Em razão da exploração inadequada dos recursos da floresta, a situação na região se tornou caótica. Mauro Lúcio lembra que, no começo dos anos 1980, imperava a pecuária de baixíssima rentabilidade e produtividade, com as fazendas atingindo altos níveis de degradação. “O desmate começou com a pecuária extensiva. A madeira veio depois. Sua valorização ‘explodiu’ por volta de 1986, permanecendo até a década de 1990.” Pesquisador-sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Paulo Barreto salienta que, na década de 1990, bastava montar uma serraria simples para ter um lucro líquido de US$ 250 mil/ano. Considerando o câmbio atual, o montante equivaleria a cerca de R$ 1 milhão/ano. “Era uma renda líquida fantástica, por isso, milhares de serrarias se instalaram na Amazônia naquela época.” “A floresta é assaltada e mal32 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

tratada por grileiros apoiados em pistoleiros, na ação do crime. Isso sem contar o garimpo, principalmente no Oeste do Pará, atividade que também atrai a prostituição, o tráfico de drogas e criminosos fugidos da Justiça. Estão todos lá nos garimpos, onde também há trabalho escravo”, afirma o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano de Menezes Evaristo. Segundo ele, tanto o garimpo quanto o desmatamento e toda a ocupação criminosa de terras que ocorre na região têm consequências gravíssimas para a população, que também sofre com a ausência do poder público. “Desmatar rende mais do que traficar cocaína, atividade que não recebe a devida atenção do Estado brasileiro. Uma árvore de mogno é derrubada e vendida por R$ 20. O atravessador pega essa mesma árvore e vende cada metro cúbico por R$ 1.200.” Prefeito de Paragominas, Paulo Tocantins reconhece que cerca de 20 anos atrás, a cidade era conhecida como a ‘capital’ da

pistolagem, da devastação e da prostituição: “Paragominas simbolizava tudo o que era ruim no Pará. Com o declínio da indústria madeireira, em meados dos anos 1990, começamos a nos perguntar o que seria da nossa cidade sem essa atividade. Só tínhamos dois caminhos: ir embora ou reassumir a política da cidade e fazer algo diferente”. A ineficiência no combate ao desmatamento e a ausência de fiscalização efetiva seguem estrangulando a região. A situação só não é pior graças à presença dos índios. “Os melhores olheiros do Ibama na Amazônia são os índios. Hoje, dos 800 brigadistas que temos, 600 são indígenas. Eles deveriam ser remunerados por isso. Afinal, índio não vive de espelhinho, de colarzinho não. Eles me passam informações é por WhatsApp, querem manter a floresta em pé. Lidar com os índios requer mudança de mentalidade. Eles têm de ser tratados como parceiros”, salienta o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo.

FOTOS: REPRODUÇÃO

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A origem de todo o mal Ainda que a passos lentos, algumas mudanças e avanços vão se consolidando. Um exemplo é a própria dinâmica do mercado, exigindo que serrarias com atuação na Amazônia atestem a regularidade e a adequada origem das madeiras vendidas. “Do contrário, pode ocorrer o efeito dominó e haver retaliação na empresa compradora”, explica o presidente do Sindicato das Indústrias de Serrarias de Paragominas (Sindiserpa), Fábio Alves dos Santos. Trata-se, sobretudo, de uma questão de sobrevivência. Afinal, quem não se adequa não sobrevive ao mercado. “Você corre o risco de perder seu patrimônio, de responder a processo. Não vale a pena arriscar.” Questionado sobre o que acontece, caso fiscais cheguem a uma serraria e encontrem madeira ilegal em pátios, Santos afirma que a empresa é imediatamente boqueada no sistema de controle. “Além disso, as madeiras irregulares são apreendidas e, até se adequar, a empresa vai ser multada. Com isso, algumas podem nem voltar mais a funcionar. Depende da gravidade da situação.” O responsável por desmatamento ilegal pode ser responsabilizado de três formas. Quem esclarece as formas de punição é o coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do Ibama, Jair Schmitt. A primeira é administrativamente, cujo papel cabe ao Ibama e aos demais órgãos de meio ambiente. A segunda é criminalmente, ou seja, por meio de medidas punitivas determinadas pela Justiça, envolvendo ainda investigação da polícia e do Ministério Públi-

do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em tempo real. Quando identificamos alguma área desmatada, as equipes de campo entram em ação para conter o avanço do desmatamento, apreendem equipamentos, embargam área e tomam outras medidas punitivas”, frisa Schmitt.

"Não sei de tema que hoje mais exulte a imaginação dos moços que desenvolver a Amazônia. Nem sei o que mais possa unir, nesta hora, os brasileiros de todas as idades." Discurso do então presidente da República, Emílio Médici, em outubro de 1970, durante Reunião Extraordinária da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), em Manaus

co. Por fim, vem a punição na esfera civil, geralmente por meio de ação judicial imposta para reparação de danos. “Nossa primeira linha de trabalho são as operações em campo, a partir de alertas de desmatamento que recebemos, gerados pelo sistema de monitoramento

NOVO ALIADO Criado pela Lei 12.651/2012, o Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um registro eletrônico obrigatório para todos os imóveis rurais. A partir dele, vem sendo formada uma base de dados estratégica para o controle, monitoramento e combate ao desmatamento das florestas e demais formas de vegetação nativa do Brasil. Na Amazônia, o CAR tem se mostrado um importante aliado, auxiliando na fiscalização, sobretudo do ponto de vista do desmatamento destinado à abertura de áreas pela agricultura e pela pecuária. “Antes de comprar o gado, somos obrigados a verificar sua origem. Consultamos o CAR da fazenda fornecedora, para saber se ele é produzido a partir de área desmatada. Se houver desmatamento na fazenda de origem, não posso comprar o gado. O sistema bloqueia e a gente pode ser multado”, explica o engenheiro agrônomo Murilo Villela Zancaner. Questionado se há formas de burlar o sistema de controle associado ao CAR, Zancaner é direto. “Jeito tem. Sabemos de fazendeiros que usam o CAR de outra fazenda... Mas, agora, estamos com um sistema de rastreamento por satélite, que identifica o caminhão e a fazenda onde ele será

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O33


OS MAIORES CRIMES AMBIENTAIS DO BRASIL (4)

carregado, tudo para evitar fraudes ou conflitos.” O avanço no controle, assegurando pelas possibilidades oferecidas pelo rastreamento por satélite, é ressaltado pelo diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo. “Dá para comprar imagens com até um metro de resolução, mapear toda a área degradada e fazer o nosso trabalho sem sair daqui, sem tomar um tiro. Fica até mais barato do que acionar o helicóptero do Ibama e destacar agentes para a operação. A tecnologia do satélite está aí, ao nosso alcance. Estamos muito perto de contar bois no solo.” Eu sobrevoei Paragominas acompanhado por um fazendeiro local. O que vi lá de cima reforça o que apontam os dados mais recentes: o desmatamento no Brasil continua em ritmo acelerado. Uma realidade preocupante, pois já provado que o desequilíbrio da Amazônia se reflete num desequilíbrio em escala global. DINÂMICA REGIONAL De acordo com o pesquisador-sênior do Instituto Imazon, Paulo Barreto, o desmatamento agrava a mudança do clima e tende a afetar a dinâmica regional, levando à seca. Hoje, um terço das emissões de CO2 (gás carbônico) do Brasil estão ligadas ao desmatamento e à mudança no uso e ocupação do solo. “O desmate da Amazônia gera mais CO2 que o total de carros em circulação no país”, compara. A questão que segue sem resposta é por que a floresta continua sendo desmatada. Mesmo havendo conhecimento, fiscalização, tecnologia e acesso à informação. Para o pecuarista Mauro Lúcio, parte da resposta está na cultura do brasileiro. “Queremos ganhar muito num tempo curto e o desmatamento 34 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

ENTENDA MELHOR FOTO: REPRODUÇÃO

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O Conforme divulgados pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia caiu 16% entre agosto de 2016 e julho de 2017. No mesmo período do ano anterior (de agosto de 2015 a julho de 2016), a perda de florestas no bioma havia aumentado em relação ao ano anterior. O Apesar da queda, a área desmatada foi de 6.624 quilômetros quadrados, a maior parte no Pará (2.413 km²) e no Mato Grosso (1.341 km²). Entre agosto de 2015 e julho de 2016, o desmatamento totalizou 7.893 km². O A maioria das áreas desmatadas fica em terras privadas (61%), além de assentamentos (15%) e terras indígenas (2%). O Além de Pará e Mato Grosso, a região da Amazônia Legal é composta por Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Fonte: MMA/Agência Brasil

dá esse retorno: as pessoas conseguem ganhar dinheiro muito rápido. Precisamos de mecanismos para conter o desmate desenfreado. Proteger e valorizar as áreas que já estão abertas, fazendo com que realmente produzam.” Outro caminho viável, pontua Luciano Evaristo, do Ibama, é enxergar a verdadeira vocação da Amazônia e criar um modelo de desenvolvimento próprio para esse bioma, mantendo a floresta em pé. “Se não buscarmos esse caminho, condenaremos todos os nossos descendentes à extinção. Teremos desertificação e uma série de catástrofes no mundo inteiro, por causa do aquecimento global. Preservar a floresta em pé

é um grande negócio para o Brasil e para o mundo.” O NA PRÓXIMA EDIÇÃO, o dilema da demarcação de terras indígenas na Amazônia.

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1 AVIAÇÃO

INFRAERO, 45 ANOS. PAMPULHA,

O SONHO QUE NÃO ACABA Sob o comando do mineiro Antonio Claret de Oliveira, Infraero completa 45 anos com a esperança de trazer de volta o Aeroporto da Pampulha

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FOTO: DIVULGAÇÃO INFRAERO

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s últimos dois anos foram de muito trabalho para a Infraero, empresa pública nacional que se encontra entre as três maiores operadoras aeroportuárias do mundo e, desde 1973, comanda 54 aeroportos espalhados pelo Brasil. Com a implantação da política de concessão de grandes aeroportos, a estatal havia perdido 53% de suas receitas. E ainda precisou arcar com investimentos para ampliar e modernizar alguns de seus terminais. O resultado disso foi uma série de prejuízos que a deixaram numa situação delicada por cerca de quatro anos consecutivos. Foi diante desse cenário que Antonio Claret assumiu a presidência, há exatos dois anos. Um novo e grande desafio para quem havia trabalhado a vida inteira na iniciativa privada. O desafio foi aceito. E não demorou muito para que algumas de suas iniciativas corajosas passassem a merecer destaques positivos como, por exemplo, a redução de custos com os programas de demissão voluntária. Isso ajudou a empresa a sair de um patamar de 14 mil funcionários para os atuais oito mil. Outro exemplo foi a reestruturação, inclusive, da alta gestão administrativa da empresa, com o corte de 213 cargos e funções de chefia, enxugamento das funções de assessoramento e a extinção de três diretorias, além da desativação de sete centros de suporte, corte de contratos com empresas

ANTONIO CLARET, na homenagem à Infraero: nível máximo de governança entre as demais estatais brasileiras

de transporte particular e corte de funções comissionadas. Tudo isso, sem contar os estudos para a revisão do modelo estratégico do setor, visando ao aumento da sua competitividade operacional e financeira. Com alguma dessas medidas, até então inéditas, a Infraero conseguiu melhorar significativamente seu resultado operacional, tendo ultrapassado todas as metas estabelecidas.

O BOLO E A CEREJA “Saimos de um resultado negativo em 2016, de R$ 120,6 milhões, para o positivo, em 2017, de R$ 501,1 milhões. Soma-se a isso o resultado comercial, que ficou acima de R$ 1,2 bilhão. A expectativa para 2018 continua na mesma direção. A nossa meta é fecharmos o ano com R$ 472 milhões positivos”, afirma Claret. Logo que tomou posse, ele e sua equipe fizeram um diagnósti-


FOTO: RODRIGO LIMA

O AEROPORTO que leva o nome do poeta maior do Brasil: à espera da retomada consorciada de voos

co detalhado de como a empresa e suas consultorias funcionavam, incluindo outras prestações de serviços. “Graças a isso, já com um prognóstico em mãos, pudemos implantar um tipo de planejamento que começasse a nos garantir autossustentabilidade financeira. Saber o que acontece nas melhores e mais rentáveis empresas de gestão aeroportuária internacional e buscar, assim,

o benchmarking à altura.” Esta é a explicação de a Infraero ostentar, atualmente, a sua emergente condição de terceira maior operadora do mundo. “Precisamos garantir que, graças a uma rede de aeroportos altamente rentáveis, o Brasil tenha condições de dar sustentabilidade financeira àqueles terminais menores, de modo que também sejam autossuficientes no futuro.”

Uma das maiores batalhas que o executivo teve de enfrentar foi a remoção do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, mesmo sendo o segundo terminal mais movimentado do país, do plano de privatização do governo: “A Infraero pode ser uma empresa viável sem Congonhas”, contemporiza Claret. “Mas é a cereja do bolo para qualquer investidor interessado.”

Nas Asas da Panair? “Saudade dói”, como cantava Elis Regina na canção “Conversando no Bar”, de Fernando Brant e Milton Nascimento. Saudade não dói quando ela vira realidade novamente. É o caso de Belo Horizonte, mais precisamente do memorável Aeroporto da Pampulha, que continua nos planos da Infraero de voltar a operá-lo ainda este ano, em consórcio plenamente possível com a BH Air Port. Em lugar algum no mundo da aviação há a notícia de que um só

aeroporto (Internacional de Confins, nosso caso) é melhor que dois. A volta de voos de grande porte no Aeroporto da Pampulha continua suspensa por uma liminar do Tribunal de Contas da União. A decisão, lembra o presidente da Infraero, foi tomada no final de janeiro e tem efeito até que o mérito da representação, que pede a revogação definitiva da portaria pró-reabertura do terminal, seja julgado pela corte. Antonio Claret lembra que o esvaziamento do tráfego aéreo

na Pampulha gerou um prejuízo líquido de R$ 29,8 milhões para a Infraero, em 2016. Em 2005, o terminal “mais querido pela população mineira” batia recordes de movimentação de passageiros, com mais de três milhões de embarques e desembarques. Onze anos depois, esse número caiu para 300 mil: “A nossa estimativa é que, com a retomada dos voos, haja um aumento de R$ 22 milhões por ano nas receitas. Já a previsão de lucro é de R$ 3 milhões anuais. Ou seja, o ou-

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O37


tro nome desse desafio se chama justiça social e sustentabilidade econômico-financeira. Com Confins e Pampulha atuando de maneira complementar, todos nós podemos ganhar e melhorar. E não apenas um terminal”. Segundo ele, a volta das operações no Aeroporto da Pampulha seria um grande passo para o desenvolvimento tanto do estado quanto o da capital: “Dois aeroportos em pleno funcionamento resgataria para muito mais e melhor o que a Pampulha já foi em prestação de serviços, conforto e mobilidade, e em nada prejudicaria Confins”. Pelo contrário, na opinião de Claret, a ampliação da exploração do terminal da capital, ancorado como opção e melhor atendimento aos passageiros regionais do Estado, terá um papel complementar ao aeroporto de grande porte. “Confins possui maior capacidade para operar como um hub de conexões. Ele atende a demanda doméstica e internacional, atraindo passageiros além da Região Metropolitana de BH, devido à sua alta conectividade e capacidade operacional superior. Daí não termos dúvidas em nossa avaliação. O Aeroporto da Pampulha está preparado para acompanhar o crescimento da Infraero.

XX OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

FOTO: DIVULGAÇÃO INFRAERO

1 AVIAÇÃO

A RETOMADA de voos na Pampulha faz parte do imaginário do belo-horizontino

Ele é de fundamental e estratégica importância para os mineiros e belo-horizontinos que somos.” COMPETÊNCIA NÃO FALTA Em maio último, lembrou o presidente da estatal, a empresa alcançou o nível máximo no Indicador de Governança das Estatais (IG-Sest), que demonstra o nível de qualidade administrativa-operacional. Ele varia de quatro, menor resultado, ao nível um, de melhor resultado. Na avaliação anterior, a Infraero obteve o nível três. Foram mais de 35 ações implantadas de novembro de 2017 a fevereiro de 2018 para que a empresa conseguisse, enfim, a maior evolução entre todas as demais estatais avaliadas, resultando este seu “destaque” atual.

Diante desse novo cenário, a Infraero confirma a busca incansável por mais benchmarkings internacionais e parceiros privados, de modo a encontrar uma saída sustentável para o setor: “Nosso objetivo maior, como uma nova Infraero, é sermos um braço público dentro do propósito de garantirmos a integração nacional por meio do subsídio cruzado. Uma nova empresa, sólida, respeitada e de fundamental importância para interiorização do desenvolvimento sustentável e integrado de todas as localidades em que haja um aeroporto nosso” – concluiu Claret. O

SAIBA MAIS www.infraero.org.br


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ESTADO DE ALERTA MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

ANDORINHA SÓ NÃO FAZ VERÃO

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julgar pela fala do superintendente de De- dade então atrapalhava? senvolvimento Social e Ambiental da SeNo frigir dos ovos, e sob a ótica de melhoria da cretaria de Estado de Agricultura, Pecuária qualidade ambiental do Estado, objetivo princie Abastecimento (Seapa), Rodrigo Carvalho, e do pal em meu entendimento, do Sisema, o único secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento fato citado foi a redução em 58% do índice de Sustentável do Estado, Germano Vieira, na au- derrubada de Mata Atlântica no Estado, divulgadiência pública realizada em 08 de junho, na Se- do pela Fundação SOS Mata Atlântica, que segunmana Mundial do Meio Ambiente, Minas Gerais do ele foi decorrência direta de fiscalização. Mas vai “muito bem obrigado” na área ambiental. Tão continuamos como vice-campeões. Lembrando sempre que a Semad sozinha não bem que não precisamos nos preocupar. Não que o secretário tenha dito impertinências. faz política ambiental, a audiência deixou muiPelo contrário, sua fala foi povoada por exemplos tas lacunas, como ausência e fragilidade de educação ambiental nas escolas de iniciativas positivas em curpúblicas; na proteção da fauso no Sistema Estadual de Meio “Uma das primeiras na silvestre contra o atropeAmbiente (Sisema), como os avanços no uso de meios eleações do atual governo foi lamento e o tráfico e nas políticas de proteção da água; trônicos para licenciamento e aprovar lei que excluiu a redução anual do número fiscalização, melhorias na estrutura do Sisema, acabar com sociedade do licenciamento de brigadistas contratados pelo PrevIncêndio, “zero” o passivo de processos de licende empreendimentos regularização fundiária de ciamento e dar agilidade maior das classes 3 e 4, que unidades de conservação, ao atendimento à iniciativa privada. Elogiável, mas condicio- abrangem a grande maioria leis contra o meio ambiente aprovadas pela Assembleia nantes não cumpridas é passidos potencialmente Legislativa de Minas Gerais, vo também e, sobre isso, se há poluidores.” inclusive por iniciativa do dados, não foram informados. governo. “Zero” iniciativas de Citou o Programa de Fiscalipolíticas públicas de estímuzação Preventiva na Indústria que, segundo ele, resultou na saída de centenas de lo a “indústrias verdes” e... paro por aqui, porque empresas da clandestinidade. Mas não informou a lista é grande. O coroamento fica por conta do a relação entre sair da clandestinidade e melhorar sequestro dos recursos da Semad que o secretáa qualidade ambiental. Anunciou que o programa rio não mencionou. O representante da Seapa, Rodrigo Carvalho será estendido à agricultura, mas o Cadastro Ambiental Rural (CAR) previsto na Lei Florestal, con- Fernandes, proclamou a abundância e a pujança siderado a única ferramenta capaz de alcançar do setor agropecuário, que conduz com maestria êxitos na adequação ambiental de propriedades o binômio produção/sustentabilidade e que, apesar de críticas injustas, não existe dicotomia enrurais, caminha a passos de tartaruga doente. Em sua fala, destacou muito a simplificação do tre a produção agropecuária e a proteção do meio licenciamento ambiental. Mas, uma das primei- ambiente. Não deu para perguntar se estava se ras ações do atual governo foi aprovar lei que ex- referindo ao Brasil. O cluiu a sociedade do licenciamento de empreendimento das classes 3 e 4, que abrangem a grande (*) Superintendente-executiva da maioria dos potencialmente poluidores. A socieAssociação Mineira de Defesa do Ambiente.

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No 58


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - DINOSSAUROS BRASILEIROS

Austroposeidon magnificus, encontrado próximo a Presidente Prudente (SP): o maior dinossauro da pré-história brasileira

Austroposeidon, gigante herbívoro que viveu há cerca de 70 milhões de anos, e Uberabatitan, encontrado em Uberaba, no Triângulo Mineiro, estão entre os maiores dinossauros das cerca de 40 espécies conhecidas em terras brasileiras Luciana Morais redacao@revistaecologico.com.br

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s mais de 500 anos da história do Brasil representam apenas uma fração de tempo em comparação aos bilhões de anos que as terras onde o país está hoje localizado têm registrado em suas rochas. Entre as incríveis criaturas que aqui viveram estão os dinossauros, cujos fósseis revelam que as terras brasileiras foram o berço da mais diversificada e duradoura linhagem de vertebrados terrestres que já habitou a Terra. Conhecer a pré-história do Brasil é como abrir uma enorme janela para o passado profundo, o que nos permite vislumbrar e compreender quem somos e o que vemos hoje – nas paisagens, nas

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formas de vida e nos recursos naturais –, além de como se deu essa evolução e a direção que ela tende a seguir rumo ao futuro. Todo o território brasileiro e boa parte dos patrimônios geológicos aqui existentes foram construídos ao longo do imenso tempo geológico. Entre as muitas riquezas naturais herdadas da pré-história vale citar as reservas de minérios, petróleo, gás e a terra roxa (tipo de solo); o Aquífero Guarani (que se estende por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e Alter do Chão (no Pará), duas das maiores reservas de água doce do mundo, além da ameaçada e biodiversa Floresta Amazônica. Com mais de 8,5 milhões de km2, o território brasileiro já passou por

Sítio fossilífero: região da superfície terrestre onde rochas aparentes guardam grandes quantidades de fósseis animais ou vegetais.

Tetrápode: superclasse de vertebrados composta por animais de quatro membros dotados de dígitos. Atualmente, inclui os anfíbios, os mamíferos e os répteis.


gigantescas transformações naturais, acolhendo desde os mais antigos registros de vida, tais como bactérias com mais de 2 bilhões de anos de idade até a grande diversidade atual. Entre esses dois extremos, a vida atravessou momentos de grandes extinções em massa, extensos vulcanismos e inevitáveis choques de asteroides.

ILUSTRAÇÕES: RODOLFO NOGUEIRA

EVOLUÇÃO DA VIDA Até o início da Era Mesozoica, há cerca de 250 milhões de anos, a Terra era habitada por uma enorme variedade de animais e de plantas, a grande maioria já extinta, importantes relíquias da era anterior desde a evolução da vida multicelular. Em seguida, num intervalo de 30 milhões de anos, de pequenos répteis sobreviventes da grande extinção, a evolução deu vida aos primeiros dinossauros. Vários desses animais habitaram o Brasil, desde os pequeninos e mais antigos conhecidos, como o Pampadromeus e o Saturnalia, que viveram há 230 milhões de anos, até titanossauros gigantescos, como o Austroposeidon n e o Uberabatitan, cerca de 70 milhões de anos atrás. Em sítios pré-históricos espalhados por todo o Brasil foram encontrados vestígios de pelo menos 40 espécies de dinossauros, incluindo algumas conhecidas somente pelas pegadas que deixa-

ram, dentes ou restos de esqueletos bastante incompletos. Enquanto em salas de cinema de todo o país está sendo exibido o quinto filme da série de ficção Jurassic Park (“Jurassic World: Reino Ameaçado”), no segmento da literatura especializada o Brasil ainda comemora o lançamento de um dos mais primorosos registros de espécies reais aqui descobertas. Trata-se do livro O Brasil dos Dinossauros, lançado no fim do ano passado, pela Editora Marte. Resultado de cinco anos de estudos e desenvolvimento de ilustrações, a obra traz belíssimas representações de 25 das 40 espécies nomeadas no Brasil, mapeando desde o nascimento das primeiras linhagens ancestrais dos dinossauros até sua extinção, há 66 milhões de anos. Os autores são dois dos maiores experts em paleontologia no mundo. O professor Luiz Eduardo Anelli, doutor em Geociências pela USP e pós-doutor pela Unesp; e Rodolfo Nogueira, paleoartista mineiro internacionalmente premiado. Conheça, a seguir, os principais sítios paleontológicos e geológicos, cujos vestígios ajudam a entender como eram os ambientes e como viviam algumas espécies de dinossauros, no tempo em que esses cicerones da pré-história andaram pelas terras brasileiras.

Tapuiasaurus macedoi, encontrado em Coração de Jesus, no Norte de Minas: uma das maiores descobertas já ocorridas no país

FIQUE POR DENTRO

OA Era dos Dinossauros perdurou por cerca de 160 milhões de anos: de 231 a 66 milhões de anos atrás. Como dinossauros sobreviventes, as aves deram continuidade a essa era até os dias atuais. Elas derivaram de dinossauros miniaturizados que passaram a usar as penas para o voo, além de duas funções originais que eram: manter o corpo aquecido e ficar bonito ou bonita na época do acasalamento. ODinossauro significa “lagarto terrível”. Tecnicamente, no entanto, dinossauros, assim como crocodilos, não são lagartos crescidos. No espesso tronco filogenético dos Saurópsidos (répteis), lagartos e cobras têm parentesco distante com os dinossauros. OAs linhagens que deram origem aos lagartos e dinossauros divergiram do ancestral comum Sáurio, há cerca de 260 milhões de anos. De uma delas, a dos Arcossauromorfos, somente 30 milhões de anos mais tarde nasceram os primeiros dinossauros. Da outra, a dos Lepidossauromorfos, nasceram os Squamata (lagartos e cobras), 60 milhões de anos depois. Ou seja: lagartos e dinossauros estão separados por ao menos 60 milhões de anos de evolução. OAssim como os calçados usados pelos humanos deixariam marcas distintas em sedimentos umedecidos, diferentes tipos de dinossauros podem ser identificados pela forma das pegadas que deixaram, indicando se eram grandes ou pequenos, carnívoros ou herbívoros e se caminhavam ou corriam. Essas marcas e pegadas de suas atividades, chamadas de icnofósseis, podem ser encontradas no calçamento de diversas cidades do interior paulista, tais como Araraquara e São Carlos.

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O43


ILUSTRAÇÃO: RODOLFO NOGUEIRA

1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - DINOSSAUROS BRASILEIROS

Pampadromaeus barberenai, que viveu há 230 milhões de anos, encontrado próximo de Agudo (RS)

O MAGNÍFICO ACHADO No tempo do “Magnífico terremoto do Sul”, o Austroposeidon magnificus, encontrado próximo a Presidente Prudente (SP), samambaias e musgos colonizavam a superfície. Sem sementes, flores ou tronco, as samambaias sobreviveram a grandes eventos de extinção em massa porque desenvolveram, ao longo de sua evolução, um sofisticado sistema de transporte de fluidos, com vasos (xilema) versáteis e diversificados, permitindo lidar melhor com a escassez de água. O Austroposeidon foi o maior dinossauro da pré-história brasileira. Viveu há cerca de 70 milhões de anos e media 25 m. Ele pertence ao grupo dos titanossauros, os maiores e mais comuns dinossauros que viveram no Brasil, durante o fim do período Cretáceo. RICO NORDESTE No Nordeste brasileiro, na região conhecida como Formação Pedra de Fogo, que ocupa terras do Piauí e Maranhão, 44 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

Único Parque Geológico Nacional, o Geopark Araripe fica no Ceará. Reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é composto por nove sítios paleontológicos, distribuídos por seis municípios foram encontrados fósseis do Prionosuchus plummeri, que tinha 9 m de comprimento e viveu há 270 milhões de anos. Com focinho alongado, ele ocupava o mesmo nicho hoje ‘controlado’ pelos grandes crocodilos, devorando tubarões de água doce, peixes e outros anfíbios em rios e lagos do passado. Não era um dinossauro, mas foi o maior anfíbio que o mundo conheceu. A RODOVIA DOS DINOS O principal acesso entre Porto Alegre e Agudo (RS) é pela BR287. Com cerca de 370 quilô-

metros, ela corta quase todo o estado gaúcho, passando por importantes sítios paleontológicos, sendo conhecida como Paleorrota. É berço do Sacisaurus agudoensis, que media cerca de 1,5 m e viveu há 230 milhões de anos. Um dos atrativos locais é o Geomonumento Morro Agudo, com seus 429 metros de altitude, região onde foram encontrados esqueletos de alguns dos mais antigos dinossauros no mundo. SANTA MARIA Nesta cidade gaúcha foram encontrados restos de vegetais e de diversos animais do período Triássico (200 a 250 milhões de anos atrás). Lá estão o Museu Vicente Pallotti e o Museu Educativo Gama D’Eça/UFSM, onde podem ser vistos esqueletos de animais pré-históricos brasileiros, entre eles um dinossauro que homenageia o Carnaval brasileiro, o Saturnalia tupiniquin, que media 2 m e tinha uma longa crista óssea na lateral do seu úmero, feição exclusiva dos dinossauros.


VALE DOS DINOSSAUROS É um parque aberto à visitação em Sousa, na Paraíba, onde dezenas de pegadas fossilizadas de dinossauros podem ser observadas. No leito do Rio das Pedras encontra-se a mais expressiva concentração de icnofósseis (marcas e pegadas) desses animais da América Latina. Os rastros têm tamanhos que variam entre 5 cm e 40 cm. Uma das trilhas com esses rastros tem mais de 40 m em linha reta. Em Sousa viveu, há 125 milhões de anos, o Terópode abelissaurídeo, carnívoro predador que media 9 m. ÚNICO GEOPARK Fica no Ceará o único Parque Geológico Nacional, o Geopark Araripe. Reconhecido

como Patrimônio da Humanidade, é composto por nove sítios paleontológicos distribuídos por seis municípios da região do Cariri: Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. O Irritator challengeri, espécie de dinossauro pescador, habitou a região. Media 8m e tinha focinho semelhante ao dos crocodilos. Hoje dominada pelo clima semiárido, a Chapada do Araripe abrigou, há 115 milhões de anos, um imenso lago em contato com águas marinhas.

os dinossauros evoluíram durante os milhões de anos em que ocuparam a região. Lá, no município de Itapecuru Mirim, foram descobertos os fósseis do Amazonsaurus maranhensis. Essa espécie viveu há 100 milhões de anos e media 12m. No Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, em São Luís, pode ser vista uma cópia fiel da cabeça do Carcharodontosauros, com 1,7 m de largura por 1,5 m de altura. Dentes de animais dessa espécie, tão grandes ou até maiores que o T. Rex, foram encontrados na Ilha do Cajual.

MARANHÃO O Maranhão é um imenso depósito de fósseis do período Cretáceo. Os estudos sobre eles ajudam a compreender como

FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Livro: ‘O Brasil dos Dinossauros’, Editora Marte. Supervisão de conteúdo: Luiz Eduardo Anelli. www.martebrasil.com.br

corporal equivalente à de 25 cavalos. Para se ter uma ideia de seu tamanho, cerca de 300 toneladas de rocha tiveram de ser removidas para que o es-

queleto do Uberabatitan pudesse ser coletado. Trata-se do maior dinossauro, ao lado do Austroposeidon, já encontrado no Brasil.

Coração de Jesus, pequeno município norte-mineiro, tem grande importância para a paleontologia. Lá foi encontrado o crânio completo e outras partes do esqueleto do Tapuiasaurus macedoi, que viveu há 120 milhões de anos e media 13 metros. É uma das maiores descobertas já ocorridas no território brasileiro. Isso porque das quase 50 espécies de titanossauros conhecidas no mundo, apenas três, vindas de regiões distantes e de idades mais recentes, tinham o crânio completamente preservado. No distrito de Peirópolis, em Uberaba, o Museu dos Dinossauros (foto) guarda esqueletos do titanoussauro Uberabatitan ribeiroi, gigante herbívoro com massa

FOTO: EDMUNDO GOMIDE - UFTM

Minas em destaque

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O45


FOTO: REPRODUÇÃO

TRÊS PERGUNTAS PARA...

LUIZ EDUARDO ANELLI Paleontólogo, escritor, mestre e doutor em paleontologia pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP)

Uma vida mais justa Como contribuir para que os professores conheçam e ensinem sobre a pré-história do Brasil nas escolas? Defendo o ensino de toda a pré-história desde os mais antigos registros de vida até a distribuição global da fauna atual. Foi durante esse período que tudo o que temos hoje nasceu e evoluiu, incluindo animais e plantas, a atmosfera que preserva a vida, os continentes e oceanos. A pré-história nos dá a chance de integrar quase toda a ciência que temos, como a geologia, a física, a biologia, a astronomia etc. Nossa pré-história é um grande bem que temos, mas ainda não fazemos uso dele, como fazem muitos países que priorizaram e dão valor à educação. É o conhecimento da pré-história que nos ensina como chegamos até aqui e como podemos viver uma vida mais justa com tudo o que a Terra tem para nos dar. Os dinossauros são geralmente mostrados como animais violentos e cruéis. O senhor já afirmou que essa associação é equivocada. Como procura corrigir essa “distorção” em seus trabalhos? Os animais perseguiam, matavam e fugiam como fazem todos os animais de hoje. O que parece, no entanto, é que temos certa predileção por atitudes e cenários violentos. Mas os dinossauros, assim como os animais de hoje, faziam muito mais do que isso: namoravam, cuidavam dos

Nós apoiamos essa ideia! 46 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

filhotes, migravam, construíam ninhos e abrigos. Tinham anatomia variadíssima, cores, penas e, finalmente, aprenderam a voar, dando origem às aves que estão por aí até hoje. Procuro corrigir essa distorção publicando livros e outras produções que mostram diferentes facetas dos dinossauros. Tão maravilhosos como os próprios dinossauros são os lugares para onde eles nos levam na nossa préhistória, em tempos de grandes desertos, imensos vulcanismos, nascimento e morte de oceanos e supercontinentes. O senhor tem novos projetos ou pesquisas em andamento? Novas descobertas virão no ritmo das pesquisas no Brasil. Temos excelentes paleontólogos trabalhando em várias regiões. Novos dinossauros e novas informações sobre os já existentes aparecerão sempre, é só acompanhar. Tenho um projeto de pesquisa realizado por um aluno de doutorado, Gustavo Prado, que está buscando células e elementos químicos em penas fossilizadas de 110 milhões de anos. Os resultados ajudarão a determinar as cores das penas e, consequentemente, das aves e dos dinossauros que viveram no Brasil durante o período Cretáceo. Outra aluna, Gabriela Araújo, está desenvolvendo um kit de réplicas de fósseis desse mesmo período, preservados na região da Chapada do Araripe (CE). Esse kit poderá ser usado nas escolas para ensinar sobre a nossa pré-história às crianças. O


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FOTO: REPRODUÇÃO

1 AGRONEGÓCIO

O EVENTO apresentou diversas alternativas sustentáveis de uso eficiente de água na agropecuária

CONEXÃO VITAL

“V Seminário Ambiental” da Faemg aponta a urgência da agropecuária sustentável, com melhor conservação e uso de recursos naturais

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ealizado na sede da entidade em BH, na lua cheia de junho, o V Seminário Ambiental da Faemg reuniu especialistas de várias partes do país para debater o tema “Água: Conexão entre Meio Ambiente e Produção Sustentável”. Na pauta estavam desafios, oportunidades, técnicas e inovações do setor, visando à conservação da água – o bem mais valioso hoje em todo o planeta – e o planejamento integrado dos recursos hídricos às soluções tecnológicas para a irrigação. Além de iniciativas positivas, que vêm se consolidando positivamente, como a Agricultura de Baixo Carbono, do “ABC do Cerrado”, e o modelo Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF).

48 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

Qual a importância de tantas frentes assim, em busca da sustentabilidade hídrica tanto na floresta quanto no campo e nas cidades, justamente o tema da IX edição do Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza deste ano? O presidente do Sistema Faemg, Roberto Simões, foi cirúrgico na abertura do seminário: “Precisamos fomentar o debate e a formação de referencial técnico sério e de massa crítica. Temos, à nossa frente, o desafio de garantir a alimentação de nove bilhões de pessoas neste planeta, de forma correta e sustentável. Esse equilíbrio só será possível se pudermos contar com a ciência, a inovação e a tecnologia, através de sistemas e

processos cada vez mais verdes e eficientes e sustentáveis”. Ele citou também a importância de reunir argumentos científicos para combater a disseminação de informações equivocadas: “O agronegócio sofre agressões infundadas a todo o tempo, por incompreensão e desconhecimento da sociedade sobre a realidade do setor. Até por interesses internacionais em desestabilizar a competitividade agrícola brasileira, somos também colocados frequentemente em xeque perante as questões ambientais”. VISÃO DE FUTURO Segundo demonstrou Abílio Rodrigues Pacheco, pesquisador da Secretaria de Inovação e Negócios da Embrapa, o Sistema


PEGADA HÍDRICA Ao abordar a gestão da água na pecuária leiteira, o consultor e especialista João Luiz dos Santos

FOTO: PAULO MÁRCIO

Integração, Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF) tem sido considerado, por estudiosos do setor, o sistema de produção que irá vigorar no futuro. Por meio dele, será possível garantir que a terra produza mais e, o mais importante, com sustentabilidade econômica, ambiental e social. São vários os benefícios, ele apontou: “Do ponto de vista ecológico, garante a fixação do carbono no solo, há o favorecimento da amenização de temperatura, o aumento da umidade e a velocidade do vento que seca o pasto”. Já do ponto financeiro, viabiliza a otimização do uso da área agrícola, possibilitando a produção consorciada de diferentes cadeias. “Além disso, a diversificação da produção sustentável também favorece o produtor rural, na medida em que permite maior estabilidade às variações do mercado. Os resultados positivos” – concluiu Pacheco – “são a maior justificativa do sistema, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico”.

SEGUNDO Roberto Simões, o desafio é equilibrar produção agrícola e preservação ambiental para alimentar nove bilhões de pessoas destacou que toda a água utilizada na produção agropecuária volta, de alguma forma, ao meio ambiente. “Em alguns produtos, podemos dizer que a água está ali, embutida, como nas frutas. Mas, no caso da produção de leite ou de carne, mais de 90% da água utilizada no processo produtivo volta à natureza. O que temos de saber é se a velocida-

de com que estamos captando a água para uso e depois devolvendo-a para o meio ambiente, muitas vezes sem tipo algum de tratamento, não é maior que a velocidade que a natureza precisa para nos devolver essa água novamente limpa”, alertou. O SAIBA MAIS www.faemg.org.br


1 EMPRESA & MEIO AMBIENTE TÉCNICO da Cemig monitora módulo fotovoltaico em campo: tecnologia e inovação em destaque

FOTOS: DIVULGAÇÃO/CEMIG

DE OLHO NAS ALTERNATIVAS

ENERGÉTICAS Cemig e Governo de Minas Gerais mapeiam fontes renováveis no estado, tendo a inovação como aliada para potencializar a produção de energia limpa no Brasil Cristiana Andrade redacao@revistaecologico.com.br

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Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) vem investindo, nos últimos anos, em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) com foco em potenciais fontes renováveis de energia no Estado. Desse trabalho, resultaram três documentos que mapearam as áreas mais promissoras em resíduos de biomassa, energia eólica e energia solar. O Atlas de Biomassa de Minas Gerais, o mais recente deles, finalizado em 2017, apontou

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11 fontes de biomassa com potencial de gerar energia. O projeto foi desenvolvido pela Cemig, em parceria com a empresa Novas Opções Energéticas (NOE), Governo de Minas Gerais e o Programa de P&D da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com copatrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). O levantamento indicou que a riqueza da biomassa em Minas está na soja (palha), milho

(resíduos), café (casca), cana-de-açúcar (bagaço e vinhaça), efluentes líquidos de bovinos, suínos e aves, bem como resíduos urbanos, efluentes líquidos domésticos e resíduos de madeira em tora. E, para cada um desses itens, há diversas opções de tecnologias (como fermentação, pirólise, gaseificação, combustão e biodigestão, entre outras) para que sejam usados como fonte de energia. Para se ter ideia das possibilidades da geração de


energia a partir da biomassa, a potência estimada é de 20,97 milhões de MWh/ano. Considerando que o consumo médio de uma residência na área de concessão da Cemig é de 150 kWh/mês, a potência de energia disponível com base de biomassa alimentaria cerca de 11 milhões de consumidores. Vale ressaltar que o mapeamento trabalha com o máximo potencial teórico. “Quando falamos em fontes alternativas renováveis de energia, estamos sempre olhando para o futuro. Além desses mapeamentos que desenvolvemos, a Cemig produziu mais de 600 projetos de PD&I, dos quais cerca de 10% abordam diretamente tecnologias baseadas em fontes renováveis”, comenta o gerente do projeto, Cláudio Homero da Silva. Engenheiro de Tecnologia e Normalização da Cemig, da Superintendência de Tecnologia, Inovação e Eficiência Energé-

tica, Homero explica que, além de movimentar uma extensa cadeia de insumos e produtos, contribuindo significativamente para a economia de Minas, a biomassa também tem importância do ponto de vista energético e ambiental. “Transformar os resíduos que seriam descartados em fonte de energia limpa é oportunidade interessante no desenvolvimento de negócios. E o mais interessante é que esses resultados técnico-científicos estão disponíveis para toda a sociedade. Qualquer um pode acessá-los”, acrescenta. NOVAS POSSIBILIDADES O Atlas de Biomassa em Minas Gerais contém mais de 50 mapas; um livro de 378 páginas, com conteúdo técnico sobre todo o desenvolvimento do projeto; um mapa de parede, que sintetiza os resultados alcançados; e um aplicativo para celular

FIQUE POR DENTRO

O A Cemig produz anualmente

um estudo, o Balanço Energético do Estado de Minas Gerais (Beemg), cujos resultados evidenciaram que o Estado, nos últimos anos, se mostrou mais renovável que o Brasil como um todo em termos energéticos. O Beemg 2015 apontou que Minas tinha 52,5% de fontes renováveis de energia, contra 41,8% do Brasil e 12,8% do mundo. OEsse é um estudo que subsidia a companhia, avaliando todas as suas fontes energéticas (potencial de produção, gastos reais, demandas), comparando-as com a realidade nacional e a de outros locais no mundo. Dessa forma, consegue fazer o planejamento de seus investimentos e negócios em médio e longo prazos.

POTENCIAL TOTAL MÉDIO DE ENERGIA DE BIOMASSA EM MINAS GERAIS

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por meio do qual é possível acessar o potencial de resíduos, por fonte, para todas as cidades mineiras. Há inclusive uma opção que permite ao usuário calcular o potencial dos resíduos de sua propriedade ou de uma situação hipotética. O Atlas também cria novas oportunidades de geração de empregos e renda para os mineiros, ao identificar potenciais negócios na área de energia. Para o presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos, o Atlas da Biomassa é um documento muito importante, sobretudo do ponto de vista da inovação, pois apontou novas possibilidades de uso dos resíduos da produção de cana-de-açúcar. Segundo ele, a biomassa da cana já vem sendo usada há anos no Estado como fonte alternativa de energia. Depois de retirado o caldo para a produção de açúcar e etanol, do seu bagaço é gerada energia elétrica para esta mesma produção. Ou seja, as usinas são autossustentáveis, gerando sua própria energia (chamada bioeletricidade) e co-

A BIOMASSA da cana-de-açúcar já é usada há anos como fonte alternativa e sustentável para a geração de energia em Minas

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mercializando o excedente. “O Atlas apontou novas possibilidades. Indicou a capacidade total no Estado em gerar bioeletricidade, uma energia disponível de 3,8 milhões de MWh – hoje a produção é de 2,6 milhões de MWh. Isso significa que ainda há potencial para gerarmos 1,2 milhão de MWh. Além disso, das 34 usinas que produzem etanol e açúcar em Minas, 22, além de usarem energia na sua produção, comercializam o excedente. As 12 restantes ainda não fazem essa comercialização para o sistema de energia elétrica. Então, temos aí outro potencial”, comenta. Na visão do presidente da Siamig, a diversificação de fontes energéticas é estratégica para o estado. E o Atlas da Biomassa é um item que faltava para mostrar à sociedade a capacidade de inovação presente no setor energético. “A safra da cana se estende de abril a novembro/dezembro. Em junho de 2017, a bioeletricidade foi responsável por 15,5% de toda energia elétrica de Minas.

FOTOS: DIVULGAÇÃO / SIAMIG

1 EMPRESA & MEIO AMBIENTE

MÁRIO CAMPOS: “O Atlas da Biomassa é um item que faltava para mostrar à sociedade a capacidade de inovação presente no setor energético”

A média anual gira em torno de 7%, que vem da biomassa da cana-de-açúcar. Na entressafra (dezembro a março), temos uma pequena produção. Mas é importante destacar essa participação da energia gerada a partir da biomassa, que é forte, e avançar em novas tecnologias e soluções”, pontua. A vinhaça, considerada um resíduo da cana, é outra potencialidade apontada pelos estudos da Cemig. Composta de matéria orgânica e água, vem sendo usada como fertilizante natural no campo, graças ao seu alto teor de potássio. “Se usada com um biodigestor, a vinhaça pode ser transformada em energia também, produzindo um gás. Atualmente, esse sistema é explorado por uma única usina em São Paulo, mas Minas tem grande capacidade para fazer o mesmo e produzir mais 2 milhões de MWh”, acrescenta Mário Campos. Outra vantagem do uso de resíduos da cana como fonte de energia é que, do ponto de vista ambiental, nada se perderia no processo, sendo todo o resíduo reaproveitado.


Entre os projetos desenvolvidos a partir dos mapeamentos da Cemig, dois chamam a atenção pelo grau de inovação e inclusão de tecnologia social no seu escopo. Previsto para ser inaugurado em 2019, o Veredas Sol e Lares Desenvolvimento Econômico e Social no Semiárido Mineiro, fica na Pequena Central Hidroelétrica (PCH) Santa Marta, em Grão Mogol, no Norte do Estado. Criada a partir de indicação do Atlas Solarimétrico, terá painéis instalados sobre a barragem da usina hidrelétrica: será uma planta solar flutuante. De acordo com Kelson Dias de Oliveira, gerente do projeto da PCH Santa Marta, o painel solar terá potência de entrega a 1.200 residências no Norte de Minas, beneficiando mais de 4 mil pessoas, que vivem em 21 municípios atingidos por barragens nas microrregiões de Almenara, Araçuaí, Grão Mogol e Salinas. Além de serem beneficiadas com a redução de tarifa, as famílias desses municípios serão envolvidas socialmente no projeto, atuando como construtoras do planejamento, execução e avaliação da planta fotovoltaica instalada. Os moradores definirão ainda as prioridades de acesso à energia gerada, debatendo sobre limites e potencialidades da geração distribuída e compartilhada, uso racional e eficiente da energia. O objetivo é envolver os beneficiários por meio de capacitações, diálogo e educação popular. “A ideia é produzir uma experiência concreta de benefício econômico em curto prazo, bem como projeções de investimentos em longo prazo, contribuindo com políticas públicas para o setor elétrico

FOTO: DIVULGAÇÃO / CEMIG

Ineditismo e tecnologia social

PCH SANTA MARTA: serão instaladas células fotovoltaicas com potência total de 1,2 MWp (megawatt-pico) no espelho d’água do seu reservatório, que tem uma área equivalente a 72 campos de futebol

fotovoltaico e híbrido, a partir de tecnologias sociais que possam promover desenvolvimento socioeconômico do semiárido mineiro. Outro foco é a busca de soluções para as questões de baixo índice de desenvolvimento econômico regional das usinas hidrelétricas, permitindo a projeção de futuros investimentos, a partir do reconhecimento dos arranjos locais”, explica Kelson. NOVAS POSSIBILIDADES Outro projeto inédito e de destaque é a inauguração da primeira usina fotovoltaica de armazenagem de energia do Brasil, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, com capacidade de 1 MW. Foram investidos R$ 22,7 milhões, sendo R$ 17,5 milhões aplicados pela Cemig e R$ 5,2 milhões pela Alsol Energias Renováveis,

empresa do Grupo Algar. A usina é composta por 1.152 placas solares, com potencial de geração de aproximadamente 480 mil kWh/ano, energia suficiente para atender pelo menos 250 residências, com consumo médio de 150 kWh/ mês, por um ano. Além desse protótipo, serão instalados, ainda, outros seis armazenadores de energia em parceria com a Universidade Federal da Paraíba e o Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Antes desse projeto, todas as usinas desta modalidade em funcionamento no Brasil forneciam energia para a rede apenas durante o dia, suspendendo o fornecimento no momento em que o sistema é mais demandado. Com a nova usina, essa lógica é invertida, já que ela mescla o envio da energia para a rede e o armazenamento ao longo do dia JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O53


com a presença do sol. A partir das 18h, a tecnologia permite que seja injetado na rede seu potencial de 1 MW por até três horas. Segundo Thiago de Azevedo Camargo, diretor de Relações Institucionais e Comunicação da Cemig, as pesquisas de potencialidades energéticas de fontes renováveis buscam identificar as possibilidades naturais de cada região de Minas. “Essa é uma tendência inevitável, que já vem ocorrendo em outros países: armazenar energia no sistema e acionar a quantidade estocada se houver necessidade”, sintetiza o diretor.

FOTO: DIVULGAÇÃO ALSOL

1 EMPRESA & MEIO AMBIENTE

COM CAPACIDADE de armazenamento de 1 MW, a primeira usina fotovoltaica do país foi inaugurada pela Cemig e pelo Governo de Minas, em Uberlândia, no dia 15 de maio último

Transformando pesquisa em negócio Com tanta riqueza de dados e possibilidades em mãos, como a Cemig planeja estrategicamente transformar as potencialidades em negócios de desenvolvimento sustentável para Minas e as comunidades nas quais os projetos poderiam estar inseridos? Quem responde é Márcio Eli Moreira de Souza, engenheiro de Tecnologia e Normalização da Efficientia (empresa do grupo Cemig, especializada em eficiência energética e geração distribuída). De acordo com ele, os mapeamentos dos potenciais energéticos em biomassa, energia solar e eólica não foram desenvolvidos para que a companhia legislasse em causa própria. “Pelo contrário, são documentos públicos, disponíveis para toda a sociedade, inclusive para empresas da iniciativa privada interessadas em investir nos insumos energéticos que Minas tem.” Recentemente, foi encerrada uma chamada pública destinada a empresas e iniciativas de 54 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

GERAÇÃO DISTRIBUÍDA O Trata-se de uma modernização do setor elétrico e prevê a construção de uma rede inteligente de energia elétrica em larga escala (Smart Grid). Esse movimento vem sendo implementado no Brasil pelas concessionárias de energia elétrica. OConsiste em criar alternativas de produção de energia, de bases sustentáveis e renováveis. Integra o conceito de geração distribuída a implantação de sistemas solares individuais (em residências e edifícios comerciais, ou seja, cada um gerando sua própria energia sustentável), além de inúmeras iniciativas, tais como os sistemas de armazenamento de energia; os veículos elétricos; as construções sustentáveis que usam ventilação natural, tetos verdes e luz solar, por exemplo, e outros aproveitamentos possíveis. O No Brasil, ainda são poucos os sistemas de geração distribuída, se comparado a países como Japão e China, que estão à frente nesse tipo de tecnologia no mundo. No entanto, iniciativas já estão em curso, mostrando também a vocação de Minas para a inovação.

desenvolvimento de projetos de geração distribuída para energias renováveis. A ideia é desenvolver fazendas solares no Estado, com limite de potência máxima de 5 MW. Geralmente, esses empreendimentos ocupam área de 18 hectares, com capacidade de alimentar cerca de 5 mil residências. “Nosso propósito é formar par-

cerias, aproximando pessoas e empresas interessadas em explorar o segmento de geração distribuída”, esclarece Souza. O SAIBA MAIS www.cemig.com.br Para informações sobre as alternativas energéticas da Cemig, acesse o link goo.gl/sdB5FZ.


ENCARTE ESPECIAL (VI)

O VIÉS MÉDICO NA LITERATURA DE

Guimarães Rosa


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ENCARTE ESPECIAL (VI)

Ofidismo Eugênio Goulart redacao@revistaecologico.com.br

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ofidismo, ou acidente ofídico, é a inoculação de veneno por cobras peçonhentas em seres humanos. No Brasil, os acidentes mais comuns são com cobras do gênero Botropus (principalmente jararaca, jararacuçu e urutu), do gênero Crotalus (cascavel), e do gênero Lachesis (surucucu). Sem dúvida, pela vivência de médico em Itaguara e por ter assistido a vários casos de pacientes atacados por cobras venenosas, certamente alguns resultando em óbito, os acidentes ofídicos são repetidas vezes citados por Guimarães Rosa. O que devia incomodar bastante ao doutor João era que os soros antiofídicos já estavam disponíveis desde o início dos anos de 1900, e, portanto, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Todavia, além da distribuição ainda precária da medicação para pequenas cidades, havia o preconceito da população em relação ao seu uso, que ainda era uma novidade para muitos. Funcionariam de verdade? E era sabido que, com alguma frequência, causavam reações colaterais graves; até a morte poderia advir da aplicação do soro, mesmo que isso fosse um evento raro. diferenças quadro clínico proSão cl Sã São cclássicas ássi ás s ca as a ass d iffer e en e çça as d do oq uadr uadr ua d o cl lín í icco pr pro ovocado pelas oss ac acidentes v vo oca cado do p ella e ass jjararacas, arrar a arac acas ass, de de llonge onge on g o ge cid i en ente tess ma mais i is ffr frequentes req eque uent nte ess n no o no nosso n ossso me m meio, i , e a cascavel, io ca asccav vell, de e lonlon on-ge os ge os mais ma m ais i fatais. fa atta aiis. s O veneno ven e e en no da d jjararaca a ar ar aracca te arac ttem em e ef efeito feiito t predominantemente local portanto, pr p re red ed dom min inan nte teme ent n e llo oca al e, e p orta or tant ta n o, o o garroteagar arro ote teamento membro acometido m me en ent ntto d do o m em e mbrro ac acom om met etid ido id o necrose dos iintensificará in ntte ens nsifi ficca ará áan eccro e rose ed os ttecidos, te eci cido d s, s, cchegando he h ega g nd ndo a ampurresultar re esu ullttar ar em em a am mpu pu--

em caráter de urgência, informação que poderá levar, infelizmente, algumas décadas para se difundir por toda a população. No livro Magma, em um trecho do poema Boiada, escrito pouco após Rosa ter deixado Itaguara, há referência à morte por picada de urutu em um jovem no “eito”, ou seja, no trabalho de capina:

tações. tta açõ ções ess. Po Porr outro outr ou tro tr o lado, lado la d , o venedo v ne ve eefeito no o da da cascavel casc ca scav sc avel av ell ttem em e fe eit io principalmente pr p rin ncipa ciipa alm lmen nte t ssistêmico, isstê êmi mico co,, e o garco g rga rro roteamento o ote tte eam ame en ntto o pode pod de ser se er útil. ú il út i . No N entanto, enttan anto to o, é recomenre eco om me end da dado ado do a atualmente tua tu allme ent n e qu que, e,, p por or v via ia d ia das as d as dúvidas, ú id úv idas as,, nu as n nunca n a se nc de d deve ev ve eg garrotear, arrrro a ote tear ar, e si ssim m pr p procurar o urar oc urar ur ar p por or ssocorro or ocor oc orro or ro m ro médico éd dic ico o

rro”. ro ”. Muitas Mui uita as vezes ve eze es estava e esta sta ava a associada asssoccia iad da a aftosa, à fe ffebre ebr brre a af fto t sa s , atualmente qu que ue at atua tua alm l e en nte e foi debelada ffo oi de ebe b la lada da a com com ma aplicação a ap l ca li açã ç o de e vacina. vac acin i a a.. A pe p pest peste estte bo bovi bovina vina vi n era era a uma uma m

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- “Ó João Nanico, porque canta assim?... Tem aumentado seu gado miúdo?...” - “Gabarro e peste mataram tudo...” - “Está pensando será na crioula?...” - “Fugiu, que tempo, foi pra Bahia, por esse mundão de Deus...” - “Está lembrando então do seu filho?...” - “Morreu no eito, já faz um ano, picado de urutu...” Gabarro era uma doença comum em bovinos, que provocava inflamação nos pés do animal. O quadro provocava a destruição dos tecidos e acabava por matar o portador da enfermidade. Devido ao seu caráter progressivo, cunhou-se uma expressão no interior mineiro, para se referir a um menino glutão: me eni n no o g lutã lu utã ão: o: ““Ele E e co El ccome me m e mais mai a s que q e um qu m gabargab aba arr-


infecção exclusiva de animais, portanto não passava para o homem, mas podia exterminar todo um rebanho. Atualmente está em vias de extinção em todo o mundo, graças ao esforço internacional implementado há várias décadas. No primeiro conto do livro Sagarana - O burrinho pedrês - em sua primeira página, uma referência ao valente quadrúpede, surpreendentemente, o herói da história:

no livro, resultou na morte de um jagunço: Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela, a rastejo no capim e nas folhas caídas, nem chegava a quatro palmos - e com poder de acabar - e o Gregoriano morreu, em pobres horas.

No conto Bicho Mau, do livro Estas Estórias, todo o enredo se desenvolve em torno de uma picada de cascavel em um fazendeiro, “seo” Quinquim. Inicialmente, foi escrito para o livro Sagarana, tendo sido Trouxera, um dia, do pasto - coisa muito rara essa deixado por Rosa para publicação posterior. Talvez raça de cobras - uma jararacuçu, pendurada do fo- essa decisão deva-se à crítica feita por Graciliano cinho, como uma linda tromba negra com diagonais Ramos, que escreveu que na primeira versão o texamarelas, da qual não morreu porque a lua era boa e to tinha “passagens que me sugeriam propaganda de soro antiofídico”. Em carta o benzedor acudiu pronto. ao amigo João Condé, datada Ainda no Sagarana, no con"O que devia incomodar de 1946, Guimarães Rosa, proto São Marcos, o moço de fora, bastante ao doutor João era vavelmente por não querer esarrogante em relação aos costutender a polêmica, deu outra mes daquela ignorante vila no que os soros antiofídicos explicação para postergar a pufim do mundo onde vivia, desjá estavam disponíveis blicação do conto Bicho Mau: preza, mas não tanto, as simpatias contra mordida de cobras, desde o início dos anos de Deixou de figurar no “Sagaraao passear pelos matos: 1900, e, portanto, muitas na”, porque não tem parentesco mortes poderiam ter sido profundo com as nove histórias [...] trazia comigo uma fórdeste, com as quais se amadrimula gráfica: treze consoantes evitadas. Todavia, além da nhara, apenas, por pertencer à alternadas com treze pontos, distribuição ainda precária mesma época e à mesma zona. traslado feito em meia-noite de sexta-feira da Paixão, que da medicação para pequenas Seu sentido é outro. Ficou guarpara outro livro de novegarantia invulnerabilidade a cidades, havia o preconceito dada las, já concebido, e que, daqui a picadas de ofídios: mesmo de da população em relação ao alguns anos, talvez seja escrito. uma cascavel em jejum, pisada No texto, é usada a palavra na ladeira da antecauda, ou de seu uso, que ainda era uma “boicininga”, como é conheuma jararaca-papuda, a correr novidade para muitos." cida popularmente a cascavel mato em caça urgente. Dou séem algumas regiões. Vários deriio que que não nã ão mandara m nd ma darra confeccioconf co nffeccci cio orio ttalhes a são descritos com precisão científica, inclun r com na co om o papelucho p pe pa p luch lu ucho ch ho o escapulário esca es ca apu p lá ári rio o em baeta bae aeta a vermever erme mee- ta nar iv as “escamas carenadas”, “a ausência de pálpesive lha, lha,, porque por orqu qu ue isso issso seria ser e ia a humilhante; hum mil i ha h nt nte; e usava-o e; usa ava v -o o dobrado, dob o ra r do do,, si bras”, o chocalho, “qual o sacolejar de feijões numa a ccarteira. arte ar teeir teir i a. a S e eele, em l , po le oré r m, n ão om ven e tu ura ari ria a ja ja-- br na Sem porém, não mee av aventuraria vagem seca” e a desarticulação da mandíbula no v va m is ma i sob sob ob os os cipós c pó ci p s ou o entre enttree as as moitas. moit mo ittas as.. mais momento do bote: m o parágrafo parág arág ar gra afo anterior, ant nter e io er i r, r mais mai aiss uma u a informação um i fo in form r aç rm açã ão técão téc é No Era só um ser linear, elementarmente reduzido, conica ni ca, de conhecimento ca con nhe h ci cime ment me n o de nt e poucos pou ouco co os cidadãos ciida adã dãos os urbanos: urb r an a os o : nica, lado a mole ao chão, tortuoso e intenso; enorob obra brra as p pe eço onh hen ntas ta as ge g era ralm lmen lm e te t ttêm êm m a ccauda au auda uda d e m la ass ccobras peçonhentas geralmente em me, com metro e sessenta do extremo das “pon “p on nta t de de lápis”, lá ápiis” s , ao contrário con ontr ttrrár á io io das dass não não ã venenosas, ven enen e os en o as a , m “ponta narinas a à última das peças farfalhantes que apresentam a re ap r se s nt na am m o final fina n l do do corpo co orrpo rpo p afunilado affu uni n la lado do o de de forma f rm fo ma n que do chocalho. Era uma boicininga - a sergrrad grad a at ativ iv va. a. Assim, Ass ssim im,, têm tê êm significado sign si gn nifi ifica c d do o iimportante, m orrta mp t n ntte, e os os mé é- do gradativa. mépe pente. [...] Tanto, que está quieta. Mas, dico di co os sabem sabem sa bem disso be d ss di sso o e também t mb ta m ém é os os moradores mora mo rado d re do ress de áreas áre eas a dicos ru ura rais is,, as p is alav al av vrra as “n ““na na la lladeira de eirra da d a ntte n eccau auda da a”, ”d a ci ita a- see olhada muito, parece retroceder, vai rurais, palavras antecauda”, da citarrecuando, fugindo, em duração e exre a cascavel. cas a ca ave el. l da tensão, se a gente não resistir adianGran Gr a de d Sertão: Ser ertão: tã ão: o Veredas, Ver e ed das a , Riobaldo R ob Ri obal alldo do relata rel elat atta te No Grande tta-se a para o trágico fácies. Onde, por ma ais de de uma um ma vez ve ez ac a iden id en nte es of o fíd í i- ta mais acidentes ofídienquanto, a boca era punctiforme, c s, co s, principalmente pri r nccip pal alme ment me n e o mais nt ma ais en cos, rridiculamente d pequena, só um furo, co omu m m deles, d le de les, s, com com a ri comum mínimo, para dar saída à língua, j ra ja ara aca, ca a, e que, que, m jararaca,

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ENCARTE ESPECIAL (VI) onde parecia ter-se refugiado toda pulsação vital; em seguida tomava o jeito da miniatura de uma boca de peixe; e, no entanto, no relâmpago de picar, essa boca iria escancarar-se, num esgar, desmandibulada imensa [...] No mesmo conto “Bicho mau”, segue o diálogo tenso entre a esposa de “seo” Quinquim e a família, relutante em procurar por auxílio médico, já que o curandeiro benzia à distância com reza brava, mas, para que ela tivesse valia, o paciente não podia receber qualquer outro tipo de medicamento:

cobra, formara-se uma zona escura. - Dói, Quincas? - ...Nos braços, na barriga da perna, no corpo quase todo... A nuca está dura, estou ficando todo duro, o corpo todo dormente... este lado de cá está esquecido. E a goela está começando a doer também... Acende a luz, Pai! A resposta saíra a custo, com grande esforço de lábios e língua. Seo Quinquim mal podia movimentar a cabeça. E suas pálpebras estavam muito caídas. - A luz está acesa, Quincas. Olha o lampião, aqui...

- Ele melhorou? Disse que quer me ver?... E o médiMais um detalhe médico pode ser identificaco? Já foram chamar o doutor?... - e do no texto anterior. Ao contrário Virgínia avançara para o cunhado, da picada de jararaca, que deixa "O veneno da segurava-lhe os braços, agarrava-o, o local extremamente dolorido, a jararaca tem efeito perfuração pelas presas da cascaseus olhos eram para doer nele. - Já foi recado p’ra o Jerônimo predominantemente vel não deixa muitos sintomas e Benzedor, que cura... - Dona Calu sinais locais. local e, portanto, o quis explicar, sua mansidão era exApós várias horas de hesitação, o garroteamento do trema, aguda. pai do rapaz ofendido pela cobra, - Mas, e o médico, também?... É membro acometido orientado pelo curandeiro, destrói preciso ir chamar, ligeiro, buscar refinalmente as ampolas do soro: intensificará a curso de farmácia, remédios! Anda, Odórico, o que é que você está espe- necrose dos tecidos, São só estes vidrinhos, garrafinhas, rando?!... do farmacêutico. Oi! Quebrou sem chegando a resultar custo, na mão da gente, os caquinhos - O Jerônimo cura, mas a gente não em amputações." pode dar remédio de farmácia, mide vidro cortam, está dando sannha filha... - Dona Calu cruzava as gue... Faz mal não. Ainda tem mais mãos, ao peito. três, iguais. A gente joga na parede. Era só uma agüi- Não, pelo amor de Deus!... Curandeiro não sabe nha, só, espirrou longe... nada, é homem ignorante. É preciso é de ir, já, chaO final dessa história é a morte do jovem fazenmar o doutor... deiro. A riqueza de detalhes do conto “Bicho mau” indica, seguramente, que não foi um caso fictício. A evolução do quadro clínico no acidente crotáli- Não poderiam sair apenas da mente de uma pesco é descrita com precisão médica no conto “Bicho soa tantas minúcias, conflitos e dramas, do início mau”. O paciente apresenta dor muscular generali- ao final do enredo. A dura realidade de sua vida na zada, rigidez, sudorese, sonolência, alterações visu- zona rural de Minas Gerais nos anos de 1930, repleais e ptose palpebral (queda das pálpebras) devido ta de sucessos, mas também de fracassos, deve ter ao comprometimento neurológico, e, por fim, insu- influenciado as decisões que Guimarães Rosa toficiência renal aguda. Também é feita referência à maria logo a seguir. O crendice popular em relação à influência negativa das mulheres em um acidente ofídico. Assim Rosa PRÓXIMA EDIÇÃO: o olhar médico de Guimarães Rosa descreve um diálogo entre o pai e o filho doente: sobre as doenças psiquiátricas que acometiam os cidadãos do interior de Minas.

E cá embaixo, estirado no catre, prostrado, com suor copioso no peito e tremor por todo o corpo, seo Quinquim gemia, fazendo força para não invocar, nem em pensamento, a lembrança e o nome da mulher. Sentado aos pés do catre, Nhô de Barros descobria a perna maltratada, para a examinar. Não inflamara, quase. Só, ao redor do sinal das presas da

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APOIO CULTURAL:


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GESTÃO & TI ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

7X1 C

ontra fatos não há argumentos: o dia em que a tecnologia mudou a resistência sobre a justiça no futebol chegou! Mudou porque... não resolveu! Neste país, chamado United Nations Of Fifa (“Nações Unidas da Fifa”), muita coisa errada ainda anda debaixo do sol... Depois do jogo da França 2 x 1 Austrália, o primeiro da Copa do Mundo de 2018 em que, oficial e repetidamente, a tecnologia decidiu lances, a função do árbitro de futebol foi reinventada e, com ela, o esporte ficou mais eletrizante de se ver. Mas lá fomos nós, de novo! Brasileiro estraga tudo, até a tal da vídeo-arbitragem (VAR). Foi justamente no primeiro jogo do Brasil contra a Suíça que a tecnologia foi enxovalhada e só não xingaram a mãe dela porque mãe não tem. Nem demorou para que as redes sociais dissessem: isso não serve para nada! Reação comum dos ludistas de plantão, desejosos que o mundo pare, sem saber como. Resultado? Ninguém lembrou do detalhe: tudo operado por homens... Então vamos explicar: é preciso ler as regras e entender se elas estão claras e se elas podem ser aplicadas sem a ajuda da tecnologia. Tipo assim: “Se o jogador estiver com a intenção de pular e for tocado é falta. Se estiver com a intenção, mas acabar desistindo de pular, então não é falta”. Daí decorre um corolário: “Ao analisar se o atleta está com a intenção de pular, o juiz deve analisar a flexão de suas pernas. Se elas estiverem a mais de 150 graus, dois segundos antes do lance e se seu rosto denotar tranquilidade, ele não vai pular. Se for o contrário, ele vai pular!” Não dá para interpretar isso! É o elogio da imprecisão. Das várias vezes em que a VAR foi usada na Copa, na maioria nenhum jogador reclamou e ela ajudou de verdade, produzindo um espetáculo mais justo. Em outros casos, não funcionou, transformando o erro no futebol em ação de bando, aquele mooonte de juízes, confortavelmente instalados no ar-condicionado. As regras são malfeitas? Claro! Alguém vai dizer que não tem jeito de fazer regra bem-feita para um esporte de contato! É injusto mesmo! Para de re59 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

clamar, Roberto, vai jogar vôlei! O certo é que esta foi a Copa em que o astro principal foi a tecnologia, marca que, querendo inovar, denuncia que o esporte mais amado do mundo é o esporte da imprecisão e da injustiça. Afinal, ainda somos nós que fazemos as regras! Ainda são os deuses malditos da Fifa e de congressos corruptos em todo o mundo que as fazem e dizem que não podem mudá-las, porque não dá para mudar a constituição do futebol nem de países o tempo todo. E todo mundo alegremente concorda, dizendo que a regra é clara ou que está escrito na Constituição de 1988. Fazer o quê? Parte de nossa humanidade, penso, será corrigir regras mais depressa para corrigir injustiças mais depressa. A Fifa é só um laboratório. Só ficamos indignados porque, incapazes de vencer a supostamente fraca Suíça de goleada, melhor dizer que empatamos pela interpretação dos juízes. Mas há coisas piores. Incapazes de criar um país justo, não adianta ficar indignado com o Supremo, com o presidente e o Congresso. Teremos que jogar com eles e, apesar deles, até que a tecnologia os desmascare, jogando do nosso lado, se Deus quiser! Por hora, nesse jogo em que tudo indica que, mesmo com tecnologia, gols de mão vão continuar a ser atribuídos a Ele mesmo, Deus, convenhamos que continuaremos a perder de 7 x 1! O

TECH NOTES

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1. Relembre os ludistas goo.gl/K15Eha

2. Será possível que juízes de futebol sejam substituídos por AI? goo.gl/Cj1Gme

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(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.


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MEMÓRIA ILUMINADA

O PENSAMENTO SUSTENTÁVEL DE

Eliezer Batista Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

ELIEZER Batista: "O ser humano é capaz de ser engenheiro de seu próprio futuro"

60 OECOLÓGICO | JUNHO DE 2018

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o belíssimo e garimpeiro livro “Conversas com Eliezer”, o fundador, ex-presidente e “pai” da mineradora Vale se revela como uma lição de humildade. Um exemplo de tenacidade e perseverança na vida, no amor ao próximo e na esperança férrea no Brasil. Natural de Nova Era (MG) e pai de sete filhos, após ter levado a mineração brasileira, leia-se Projeto Carajás, à excelência mundial, quando não estava no Rio de Janeiro, “aconselhando” o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que também ajudou a criar, ou dando aulas de logística ainda na Vale, Eliezer Batista se refugiava na sua reserva ecológica em Pedra Azul, no Espírito Santo. É ali que, desde que tinha a companhia de sua mulher Jutta, ele reunia e cultivava quatro das suas grandes outras paixões na vida, além da mineração: família, literatura, música e botânica. É onde, em torno deste ambiente familiar, ele ergueu seu santuário às letras e à natureza. Era a sua Alexandria particular, com mais de 200 livros e publicações sobre botânica, seu hobby preferido. O que explicava seu amor mineral ao desenvolvimento socioeconômico, mas sem destruir a natureza. Sem destruir, principalmente, a flora, a fauna e o ser humano. Um recado, antigo, hoje moderníssimo que, sem alarde, como convém ao seu estilo mineiro e reservado, ele sempre nos deu. Eliezer se encantou no dia 18 deste mês, aos 94 anos, no Hospital Samaritano, Zona Sul do Rio de Janeiro. Relembre conosco suas mensagens:


OENGENHARIA E POESIA “A engenharia sempre me remeteu a uma só palavra: realização. Eu rimava engenharia com poesia. Ser engenheiro era ser poeta.”

“O poeta faz da soma de seus versos sua obra; o construtor faz da soma de suas obras o seu verso. O engenheiro é o poeta do concreto.” “Foi esse o espírito que procurei disseminar na Vale. Naquele momento, estávamos escrevendo a grande obra de nossas vidas. Estávamos erguendo a Notre Dame da logística e da extração mineral. E tínhamos consciência disso.” “Ao contrário do poeta, um solitário na dor e no ofício, o engenheiro é uma espécie que vive em grupo. Sozinho, o homem apenas reza; acompanhado, constrói sua própria igreja.”

ODIAS MEDIEVAIS “Colocar a Vale do Rio Doce de pé não foi apenas um desafio da engenharia; por vezes, era um trabalho para Fernão Dias Paes Leme, Bartolomeu Bueno da Silva e Cia. Como bandeirantes, precisávamos nos embrenhar por vegetações fechadas, hostis ao avanço do homem.”

“Eram dias medievais. Morávamos todos dentro de vagões, no meio da linha. Ficávamos dias no meio do mato, sem banho, bebendo água suja. Até macaco pegava malária.” OCOMUNISTA “A Revolução Militar não tardaria a bater na minha porta. Minha saída da Vale estava selada. Para os militares, eu era um comunista de carteirinha com retrato do tovarishtsu Lênin na parede.”

“Aos olhos do novo regime, a participação no governo de João Goulart e o prosaico fato de eu ser fluente em russo já eram por si só suficientes para me tingir de vermelho da cabeça aos pés.” “A maneira como administrava a Vale também ajudou a alimentar a pecha de comunista que me foi imputada pelos militares.” “Desde que entrei na Vale, não só acompanhei de perto como senti na pele os efeitos das difíceis condições de trabalho. Ficávamos dias no meio do mato, distantes de qualquer sinal de civilização.” “Ao assumir a presidência da companhia, elegi como prioridade dar o máximo possível de

FOTO: REPRODUÇÃO

“O ser humano é capaz de ser engenheiro de seu próprio futuro.”

"SERRA PELADA poderia ter sido o passaporte da Vale para o top five do setor, não fosse um dos maiores crimes de lesa-pátria da história. Todos os responsáveis por aquela extração desordenada mereciam um tribunal de Nuremberg. Aquilo foi o genocídio de uma das maiores riquezas naturais do mundo. Aquela reluzente extensão de terra hipnotizou diversas autoridades. Vários políticos tinham o seu barranquinho naquele dourado pedaço de céu."

segurança e conforto aos funcionários e seus familiares. Construímos habitação, escolas, hospitais e áreas de lazer. Não fazia isso apenas para ser magnânimo. Havia um interesse corporativo por trás de todas estas ações.” “Qualquer trabalhador que vê sua família vivendo com dignidade produz mais e melhor. Desta maneira, criamos o surrado, porém indispensável, conceito de vestir a camisa.” OGRANDE FAMÍLIA “A Vale era uma grande família. Esse espírito não surgiu da noite para o dia. Foi fruto de um enorme sacrifício coletivo. Cada um dos funcionários sabia que estava gerando riquezas não apenas para o acionista controlador, no caso o governo, mas também para o Brasil, principalmente, para si próprio.”

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JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O61


MEMÓRIA ILUMINADA – ELIEZER BATISTA “Não estávamos construindo um botequim, mas uma catedral.”

FOTO: REPRODUÇÃO

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OCALVÁRIO “Acompanhei a trajetória dos mais humildes trabalhadores que, com seu esforço, conseguiram fazer de seus filhos médicos, advogados ou engenheiros. Isso sempre foi um dos meus maiores orgulhos. Mas, para os militares, na época preocupação social era coisa de comunista. Fiquei marcado por causa de todo esse trabalho. Eu era um vampiro socialista no educandário do Rio Doce. Meu destino provável eram as masmorras. Fiquei aguardando a hora da prisão.”

“Antes de sair da Vale, tive muitas subidas ao calvário. Sofri pressões por todos os lados. As lideranças sindicais de outras áreas queriam minha pele. Consideravam-me um traidor.” “Em 1963, haviam estourado mais de mil greves no país. No entanto, nunca houve um caso de paralisação na Vale, o que reputo ao forte espírito familiar que reinava dentro da empresa. Os demais sindicatos, porém, viam esse fato com indignação.” “Por defender com firmeza os direitos dos empregados, o que fazia pensando na saúde da companhia, acabei taxado de comunista no golpe de 1964.” OPOLÍTICA “A esquerda e a direita são separadas por suas visões e unidas por sua cegueira. Assim conta a história do Brasil.”

“Nunca fui de me afeiçoar à política. Essa prática dos homens que, como dizia Voltaire, muitas vezes tem sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do espírito.” OAPRENDIZAGEM “O saber é a soma da oportunidade com a necessidade e o desempenho. Admitir a ignorância é o primeiro passo da sabedoria.” OAUTO-ESTIMA “Somos um povo com sérios problemas de autoestima, sempre fadado a ser uma nota de rodapé nas páginas da história. Desde que entrei na Vale, busquei galvanizar a ideia de que nem eu e nem meus colegas éramos inferiores a ninguém.”

“Falta de conhecimento não é atestado de incompetência, mas apenas conseqüência de um

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"UMA VEZ cruzei o Atlântico ao lado de Salvador Dali. Era um voo muito ruim de Nova York para Madri. Dali tinha um medo danado de avião e, para completar, o tempo estava tenebroso. Tanto eu quanto ele nos entregamos ao copo, o único remédio contra temores aéreos. Começamos a conversar e, após meia dúzia de palavras e goles - já estávamos nos chamando de Dom Batista para lá, e Dom Salvador pra cá. Lá pelo quinto copo de uísque, não me contive: "Dom Salvador, vamos esquecer esse voo ruim. Quero aproveitar para lhe fazer uma pergunta. Confesso, francamente, que não consigo entender os seus quadros". Ele respondeu: "No te preocupes, Dom Batista. Tampoco yo!". Próximo a chegar a Madri, quando já parecíamos amigos desde a infância, perguntei a ele: "Dom Salvador, por quê você usa esses bigodes cantantes?". "Eso, Dom Batista, és para pasar despercibido!"


conjunto de variáveis, como dificuldade de acesso e limitações de ordem financeira.” OSUSTENTABILIDADE “Além da contínua preocupação em gerar valor para a companhia, já praticávamos o modelo de desenvolvimento sustentável muito antes de o conceito encontrar sua formulação.”

“Em muitas regiões, a companhia foi o único agente promotor de desenvolvimento social, econômico e ambiental. Até então, muitos dos nossos trabalhadores viviam em condições quase miseráveis, sem saneamento, hospital e escola.” ONEGÓCIOS “Quando um negócio não é bom para todas as partes, não é business, é monkey business.” OOPORTUNIDADES “O homem não tropeça nas oportunidades apenas pela engenharia do acaso. Oportunidade, já dizia Francis Bacon, é algo que não se encontra; cria-se.”

“Onde muitos só conseguiam ver pontilhados, uma ponte e um rio, Monet enxergava a vida. Onde muitos veem apenas um porto ou um navio, nós sempre vislumbramos educação, saúde, saneamento, infraestrutura, energia, desenvolvimento e riqueza para o Brasil.” OHUMILDADE “Apenas os homens que jamais construíram obra alguma não têm o direito de se copiar. Sempre tive humildade de abrir mão dos projetos inexequíveis e orgulho de repetir minhas ideias e ações mais bem-sucedidas.”

“Só as pedras não mudam de opinião.” OIDENTIDADE “Eu não era nem o vermelho que os militares imaginavam e nem o anjo caído representante do diabólico império que a esquerda fantasiava. Mas, depois de 11 anos de incontáveis travessuras no exterior e exílio do fog europeu, havia me tornado um personagem nublado, que pouco se expunha ao sol tropical. Na própria Vale, àquela altura, muitos sabiam o que eu era. Poucos sabiam quem eu era. O que, aliás, nunca me desagradou.” OFAMÍLIA “Jutta e eu tínhamos os mesmos hobbies. O maior

"DURANTE TODA A VIDA, eu fui apenas engenheiro, nada mais. Jutta foi mãe, mulher e companheira; foi forte, foi brasileira, a pedra mais preciosa que conheci."

deles, a botânica. Ao construirmos a reserva ambiental de Pedra Azul, Jutta e eu levantamos o nosso próprio templo.” “Ter filhos é chegar ao céu; ter netos é tocar a mão de Deus. Ser avô representa o momento mais divino da vida de um homem. Os netos são os filhos elevados ao exponencial.” “Torço para que meus netos proporcionem a seus pais a mesma alegria que meus filhos me trouxeram. Há duas grandes satisfações na vida de um homem. São elas: deixar uma grande obra e ter filhos que o superem, no caráter, na vida e nas realizações.” OANGÚSTIA “A obra inacabada é a angústia suprema do engenheiro.” OCARAJÁS “Carajás foi uma dessas realizações que valem por uma vida. Além de um grande passo para a mineração e a economia brasileiras, o projeto mostrou como o planejamento pode se sobrepor à descrença e ao risco de fracasso.” JUNHO DE 2018 | ECOLÓGICO O63


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MEMĂ“RIA ILUMINADA – ELIEZER BATISTA “CarajĂĄs foi a vitĂłria de um Brasil grande sobre um Brasil que insiste em ser minĂşsculo. É uma prova incontestĂĄvel de que Deus nĂŁo sĂł nasceu no Brasil, como tambĂŠm permitiu que parcela majoritĂĄria da riqueza natural fosse brasileira.â€? “CarajĂĄs carrega um grande mĂŠrito. O empreendimento inaugurou uma nova mentalidade no paĂ­s. As componentes econĂ´micas tiveram o mesmo peso das ambientais e sociais. PoderĂ­amos ter enfiado os operĂĄrios em umas cafuas miserĂĄveis, como se fazia antigamente. NĂŁo precisĂĄvamos ter nos preocupado com a educação nem preservar as condiçþes ambientais locais. EconomizarĂ­amos alguns milhares de dĂłlares, uma ninharia diante da grandeza do projeto, e criarĂ­amos um favelĂŁo.â€? OMEIO AMBIENTE “Naquela ĂŠpoca, ninguĂŠm se preocupava com protecionismo ambiental. Quem falasse em conservação era colocado em uma camisa-de-força. Sempre fui interessado nas chamadas ciĂŞncias da natureza, talvez por esse encantamento, eu diria atĂŠ paixĂŁo, pela botânica

e todo o seu universo de interesses.â€? “Para a sorte da espĂŠcie humana, o pensamento evoluiu a ponto de tornar disseminada a compreensĂŁo do porque ‘verde, que te quero verde.â€? “O caso da ĂĄgua ĂŠ um dos mais ilustrativos. O Brasil ĂŠ riquĂ­ssimo nesse recurso. É dono de uma das maiores reservas do planeta, mas nĂŁo a gerencia de modo racional. A ĂĄgua industrial no Brasil ĂŠ a mais cara do mundo. Existem alguns estados da federação que, se forem atingidos por uma seca de maior duração, terĂŁo problemas inclusive de ĂĄgua potĂĄvel.â€? “Uma outra variĂĄvel que nĂŁo podemos perder de vista ĂŠ a nossa biodiversidade, praticamente subutilizada e muitas vezes maltratada. Saber como arrancar o fruto do pĂŠ tambĂŠm ĂŠ um fator de sustentabilidade.â€? A Alemanha ĂŠ paupĂŠrrima em biodiversidade; vive de inteligĂŞncia. Por quĂŞ o Brasil, abençoado pela prĂłpria natureza, nĂŁo pode conjugar esses dois fatores?â€? O

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NATUREZA MEDICINAL MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

FAVEIRO-DE-WILSON

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FAVEIRO-DE-WILSON

Dimorphandra wilsonii

FOTO: MARCOS GUIÃO

título de “PROCURA-SE” do cartaz colocado na entrada de uma lanchonete na beira da estrada de imediato me chamou a atenção. Seria uma pegadinha de faroeste? Mas levei só uns segundinhos para tomar tento de que a fotografia de uma bela árvore dava identidade ao foragido com riqueza de detalhes, enquanto disponibilizava os contatos para quem se desse com a criatura: o faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii). Sua quase total extinção se deve ao avanço da fronteira agropecuária Cerrado adentro a partir dos anos 1970, trazendo consigo a aplicação sistemática do fogo, a implementação de pastagens em lugar da mata nativa e as derrubadas para carvoejamento do Cerrado na região. Daí a coisa complicou pro faveiro.

Pensei cá comigo que pra quem anda por esse mundão de Deus caçando planta, era só uma questão de tempo pra se dá com pelo menos um exemplar. Fiquei curioso em saber quem era esse “Wilson”, que dava nome a uma planta tão rara e acabei por levantar a seguinte história. “Seu” Wilson Nascimento era mateiro do Horto de Paraopeba, hoje Floresta Nacional de Paraopeba. Ele sempre acompanhava os pesquisadores que por ali passavam devido ao muito conhecimento que tinha das plantas da região e, nos idos de 1968, topou com um faveiro diferentado dos que já conhecia. Avisou a Carlos Rizzini, botânico dos bão que tava trabalhando por lá na época e, depois dele analisar detalhadamente a planta, verificou ser uma nova espécie ainda sem identificação. No ano seguinte, publicou a descrição da planta e, como o seu Wilson havia falecido recentemente, resolveu homenageá-lo dando-lhe o nome de faveiro-de-Wilson e complementou o tributo ao nomear em latim a nova espécie de Dimorphandra wilsonii. Há alguns anos, eis que numa caminhada na região de Florestal, dei-me com ela. Nos inícios, fiquei de retaguarda, desconfiado com encontro tão especial em dia tão comum, na berola de uma pocilga que empesteava os ares de tudo por ali. Fotografei o tal e cacei jeito de fazer contato com o pesquisador Fernando Fernandes lá da Fundação Zoo-Botânica pra dar sentido do encontrado. Demorou mais de ano pra receber lá num dia a confirmação de que o encontrado era ele mesmo. Fiquei feliz, mas já tinha passado tanta água na ponte que num dei muita ligança. Seguindo a lida da vida, há poucos dias tava noutro trabalho de campo pertim de Pará de Minas e inté me alembrei dessa história. Lá no fundo, brotou a esperança de reencontrar tão procurada árvore. Pois num é que a coisa se deu? No exato dia de aniversário, presente grande que a natureza trouxe e me entregou no colo. Confesso que desta vez fiquei maravilhado com a beleza e imponência do faveiro-de-Wilson, que teve sua identidade comprovada poucos dias depois e agora tô levando uma muda dele lá pra casa. Quem quiser ver um, aparece lá. Inté a próxima lua! O (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


O SUL DE MINAS ABRIGA MUITAS HISTÓRIAS! CONHEÇA UMA DELAS, A CAVALO! Localizada no sul de Minas, Cruzília pertence ao Caminho Velho da Estrada Real. É conhecida por ser o berço da raça dos cavalos Mangalarga Marchador, suas fazendas centenárias e pelas famosas fábricas de queijos e móveis.

FAZENDA DA ROSETA A CRUZÍLIA- O BERÇO DA RAÇA MANGALARGA MARCHADOR Um passeio suave, no compasso ágil de marchas batida ou picada na companhia dos cavalos. Em 1812, iniciou-se uma raça com personalidade doce, suave, porém forte. Vidas que se encontraram e se cruzaram dando origem aos cavalos Mangalarga Marchador. Fato que se deu na Fazenda Campo Alegre em Cruzília, cujo proprietário era Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, responsável pela formação da raça. Para ilustrar com primor esta passagem da história, uma apeada e café com prosa no Museu Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, situado em Cruzília. Nesta viagem não há um lugar ou destino prá se chegar. Há mais que isso! Um acontecimento, um encontro às origens de uma Paixão cujo nome é: Mangalarga Marchador!

FOTO: RICARDO MELO

Uma paixão que nos move e nos faz cavalgar em tempo, como nos velhos tempos.

Informações detalhadas e programação: www.fazendadaroseta.com.br (35) 9 9709 6696


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O mundo traz ăĈŵáǂōŵǧ A WayCarbon, ůĈŵŬōŵżáŵǧ

Revista Ecológico - Edição 110  

Confira a Revista Ecológico Ed. 110 > Capa: Minas Gerais e o Brasil foram berço da mais duradoura linhagem de dinossauros que já habitou o p...

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