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EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA ANO 5 - Nº 60 - 21 DE AGOSTO DE 2013 - R$ 9,80 - Toda lua cheia

www.revistaecologico.com.br

AMOR DE FOTÓGRAFO

ANO 5 - Nº 60 - 21 DE AGOSTO 2013


Somente o nosso contato com a natureza, com algo maior, é capaz de nos reensinar o amor ao planeta e a nós mesmos Hugo Werneck

Prepare a sua inscrição e indicação 15 de julho a 04 de outubro de 2013

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Realização

Do pioneirismo de Azevedo Antunes...

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IV Prêmio

Vem aí...

O Oscar da Ecologia 2013

...ao engajamento de Paul Mc Cartney!

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EXPEDIENTE

MARCELO PRATES

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Em toda Lua Cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck CONSELHO EDITORIAL Ângelo Machado, Antônio Claret de Oliveira, Célio Valle, Evandro Xavier, Fábio Feldman, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Maurício Martins, Mário Mantovani, Nestor Sant’Anna, Paulo Maciel Júnior, Pátricia Boson, Roberto Messias Franco, Ronaldo Gusmão, Sérgio Myssior, Vitor Feitosa e Willer Pos DIRETOR GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com EDITORA ASSISTENTE Maria Teresa Leal mariateresa@souecologico.com

GRUPO

REPORTAGEM Andréa Zenóbio Gunneng (Correspondente Internacional), Cristiane Mendonça, Fernanda Mann, Luciana Morais e Vinícius Carvalho

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CAPA Foto: Yanm Arthus-Bertrand

MARKETING E ASSINATURA marketing@revistaecologico.com.br

EDITORIA DE ARTE André Firmino andre@souecologico.com Marcos Takamatsu marcos@souecologico.com Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com

IMPRESSÃO Log & Print

REVISÃO Gustavo Abreu DEPARTAMENTO COMERCIAL José Lopes joselopes@souecologico.com Sarah Caldeira sarah@souecologico.com Silmara Belinelo silmara@souecologico.com

PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda ecologico@souecologico.com REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br VERSÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

Selo SFC REVISTA NEUTRA EM CARBONO www.prima.org.br

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Você faz tudo para ajudar a salvar o meio ambiente. E sabe quem também faz parte dele? As pessoas. Por isso, seja você também um doador de sangue e ajude a salvar a vida de milhares de brasileiros que, assim como a Bianca, precisam receber sangue. Coloque o assunto em pauta e leve essa mensagem para junto das causas sociais. O seu apoio vai aumentar a conscientização da população sobre a importância de tornar a doação de sangue um hábito e mostrar as pessoas que, seja para quem for, o importante mesmo é ser doador. Entre nessa com a gente. Participe da campanha e ajude o Ministério da Saúde a aumentar o número de doações de sangue em nosso país. Faça o download das peças da campanha no www.saude.gov.br e divulgue também.   Para sugestões e novas propostas de parceria, envie um e-mail pra gente: parcerias@saude.gov.br

Seja para quem for, seja doador.

Procure o Hemocentro mais próximo.

Bianca Prescovia, 15 anos. Tem leucemia e precisa de doação de sangue.

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ÍNDICE

ESPECIAL YANN ARTHUS-BERTRAND

AS IMAGENS IMPACTANTES, DO FOTÓGRAFO QUE SE TORNOU AMBIENTALISTA, APÓS VER A TERRA DO CÉU.

18 Páginas Verdes ENTREVISTA COM O PROMOTOR CARLOS EDUARDO FERREIRA REVELA OS DESAFIOS AMBIENTAIS ENFRENTADOS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO

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Memória Iluminada DOM PEDRO II, O IMPERADOR QUE AMAVA O BRASIL

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Polêmica CAPIVARAS DA LAGOA DA PAMPULHA DIVIDEM OPINIÃO: DEVEM FICAR OU NÃO?

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Mobilização Social EXPEDIÇÃO PELO RIO PARACATU, MAIOR AFLUENTE DO SÃO FRANCISCO, TRAÇA DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES DO CURSO D’ÁGUA

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Págs.

42-46-108 E mais... 10 CARTA DOS LEITORES 12 CARTA DO EDITOR 16 SOU ECOLÓGICO 22 GENTE ECOLÓGICA 30 ECONECTADO 32 CÉU DE BRASÍLIA 34 ECONOTAS 38 ESTADO DE ALERTA 40 CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL 48 ECO CONSTRUÇÃO 54 RECURSOS HÍDRICOS 62 PRESERVAÇÃO AMBIENTAL 68 FAUNA 72 MARKETING 76 GESTÃO & TI 78 OLHAR EXTERIOR 80 TABAGISMO 82 GASTRONOMIA SUSTENTÁVEL 86 CRIATIVIDADE 92 FAÇA VOCÊ MESMO 94 VOCÊ SABIA? 96 NATUREZA MEDICINAL 98 OLHAR POÉTICO 100 CONVERSAMENTOS 114 IMAGEM DO MÊS

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IMAGEM DO MÊS

Muita gente, muito calor! “Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais...” A canção infantil ilustra bem a imagem de dezenas de chineses se espremendo na mesma piscina do parque aquático em Suining, na província de Sichuan, sudoeste da China. O motivo? Uma onda de calor que atingiu várias províncias no final de julho. E a previsão não está boa para os chineses. Segundo a agência de meteorologia do país, o calor intenso ainda vai se alastrar pelas regiões leste e central e pode chegar a 41 graus. Desconforto de sobra para um país com 1,3 bilhão de habitantes!

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China Daily China Daily Information Corp - CDIC- Reuters

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Job: 25161 -- Empresa: Ogilvy RJ -- Arquivo: 25161-ANR Ecologico-20x27-21-08-13_pag001.pdf

Registro: 127926 -- Data: 14:42:28 02/08/2013


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FA L E C O N O S C O

CARTA DOS LEITORES

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

China até aqui. E as do Marcos Guião. Ele conhece o texto ‘Consulta na Roça’, de João Batista de Paula? Está nos dois principais livros de Hermes de Paula. Ele vai delirar. E, finalmente, o ‘Olhar Poético’, de Antônio Barreto. Encerrando, adoro que a revista saia nas luas cheias. Quando vi isso, soube que existem bruxos ou magos na equipe. Por isso a revista é... magia pura!” VIRGÍNIA ABREU, Montes Claros/MG l NA LUTA “Parabenizo a Revista ECOLÓGICO pela beleza e conteúdo! Ela é ferramenta essencial na missão ecológica. Participo da direção da ONG Associação de Proteção Ambiental Ouro Preto (APAOP), e os textos nos ajudam na luta! Eu recebia a revista como vereador de Ouro Preto que fui até dezembro do ano passado. Perdi a eleição, mas falo que fui promovido de vereador a cidadão.” FLÁVIO ANDRADE, Ouro Preto/MG

l CÂNCER “Poucas vezes vi uma abordagem tão simples, profunda e natural sobre o câncer, como esta pontuada pelo dr. Roberto Fonseca, à frente da Oncomed. Ele tem razão, o que acontece conosco é a resposta ao que fazemos à natureza, ao planeta e a nós mesmos.” MIRIAM GAETANI, BH/MG l IHR oncológico “Em meio a tantas queixas e solicitações de saúde ‘Padrão Fifa’, acredito que este hospital dará à BH, esta qualidade. O lugar é maravilhoso! O antigo Instituto Hilton Rocha (IHR) por si só será uma referência de um local abençoado pelos grandes feitos na área da oftalmologia. E um hospital especializado em oncologia, com tudo de mais moderno em pesquisas, estudos, assistência e tratamento ao paciente oncológico será de grande valia para nossa cidade. Parabéns, Oncomed e Dr. Amândio! Que Deus cubra de bênçãos este novo caminho do IHR.” NEUSA SARAIVA, BH/MG

“Muito bom! É o aproveitamento daquela enorme construção, com um fim mais do que nobre!” Amilton Rosa, pelo Facebook l CUMPRIMENTOS

“O que mais me encanta nesta revista são as crônicas, os textos com um cunho pessoal, como o ‘De volta a Beagá’, de Andréa Zenóbio. Eu entrei no coração dela. Viajei morrendo de medo...desde a

l PÁGINAS VERDES “O ex-ministro José Carlos Carvalho é sem dúvida um dos maiores nomes brasileiros com relação às questões ambientais. Parabéns pela sua entrevista.” FERNANDO BENÍCIO, pelo Facebook l abatedouro ecológico “Gostaria de agradecer à Revista ECOLÓGICO e dizer o quanto estamos honrados em sermos notícia de uma questão tão importante, em uma mídia com essa grandiosidade!” THALES COSTA, Secretário Municipal de Desenvolvimento Sustentável de Congonhas/MG

“Fantástico todo este processo, aguardo o funcionamento em breve. Sabemos que na região será o primeiro matadouro público com esta modernidade.” MARIA IMACULADA, Congonhas/MG. “O certo mesmo é acabar com os abatedouros!” SONI MARANHÃO, pelo Facebook l Parece madeira, mas não é! “É esse o taco que quero na minha casa!” FILIPE MENDES, pelo Facebook

“A matéria sobre a ecomadeira ficou excelente! Parabéns!” GABRIELA BORGES, BH/MG. l Conversamentos “Bacaníssimo o texto do nosso querido professor de

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PRÊMIO IBEF DE SUSTENTABILIDADE 2013 TROFÉU ECOSOFIA - CATEGORIA VALORIZAÇÃO

O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças realizou no dia 30 de julho de 2013, no Jockey Club do Rio de Janeiro, a 3ª edição do Prêmio IBEF de Sustentabilidade. O evento, que este ano teve 82 cases inscritos em 5 categorias, é uma parceria entre o instituto, a Petrobras, Sebrae, Deloitte e Oi, com o intuito de contemplar as empresas que se destacam pela adoção de práticas sustentáveis em seus produtos e atividades. E é com muita satisfação que a Reserva Real celebra a vitória das recém-lançadas Biovillas na categoria VALORIZAÇÃO, orgulhando a todos os envolvidos neste projeto.

A vocês, o nosso muito obrigado!

Os bons tempos voltaram.

31 3228-8000 www.biovillas.com


CARTA DOS LEITORES

Filosofia Alfeu Trancoso” ADRIANO FERNANDES, pelo Facebook. l Natureza Medicinal “Ótimos texto e informação sobre o açafrão!” CÁSSIA MIRANDA, pelo Facebook

“Amei suas palavras sobre a lima-de-bico, Marcos Guião. Quando comprei meu terreno foi uma das primeiras plantas que plantei por aqui, pois queria muito sentir o cheiro da minha infância. Ela sempre tem muitos frutos, partilho com muita gente.” SELIA PINHEIRO, Brasília/DF l Gestão & TI

“Roberto, parabéns pelo artigo Tecnologia e Pobreza! Temos que usar a tecnologia para melhorar a vida das pessoas!” OSVALDO FILHO, pelo Twitter l Saúde e informação “Em agosto, as cestas de produtos Vista Alegre foram acompanhadas de um exemplar da Revista Ecológico, a mais respeitada publicação sobre sustentabilidade na mídia impressa brasileira. Apoiamos, divulgamos e incentivamos atitudes sustentáveis, pois o futuro promissor depende do presente consciente!” PROJETO VISTA ALEGRE, BH/MG

l Sugestão de pauta “Tenho a sorte e o privilégio de ter nascido e morar em Congonhas. Trabalho numa empresa de solução ambiental, onde acompanho as mudanças na legislação e no modo de pensar. Também percebo os avanços nas políticas que dizem respeito ao meio ambiente, mas ainda falta muito para conquistar! Gostaria de ver uma matéria sobre a poluição do ar em minha região e como isso tem afetado a saúde da população.” ANTONIO SOARES, Congonhas/MG

EU ASSINO “Sou professora da Faculdade ASA de Brumadinho e leciono a disciplina Gestão Ambiental. Os assuntos abordados pela Revista ECOLÓGICO muito têm contribuído para enriquecer minhas aulas. A publicação trata de assuntos atuais e relevantes na formação de cidadãos preocupados com a qualidade de nosso planeta!”

ARQUIVO PESSOAL

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FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

SILVANA SILVA MAIA - auxiliar de enfermagem

1 Humor que amda

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fonte: Charge extraída do livro “Água Mole em Pedra Dura – o Humor nas Páginas do Ambiente Hoje”, da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA).

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Nova Lima, a melhor cidade de Minas para se viver. A qualidade de vida não para de crescer em Nova Lima. Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDHM divulgado pela ONU/ PNUD neste ano, Nova Lima ficou em 1º lugar em toda Minas Gerais. Em muito pouco tempo, o município deu um salto na classificação de “médio desenvolvimento humano” para “muito alto desenvolvimento humano”. Isso quer dizer que, com os investimentos da Prefeitura, os moradores estão vivendo cada vez melhor, a cidade não para de gerar novas oportunidades e o desenvolvimento está crescendo como nunca e para todos. Em Nova Lima é assim: a gente faz, você participa e o futuro acontece.

www.novalima.mg.gov.br • facebook.com/prefeituradenovalima

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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

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uardem esta referência: Yann Arthus-Bertrand, autor de “Home” e “A Terra vista do Céu”. A história de vida pessoal e profissional desse repórter-fotográfico francês, retratada de maneira especial nesta edição, é uma narrativa de amor real, de atitude e cidadania planetária. Uma história, primeiro, de amor ao planeta, ao que resta da natureza ainda pulsante. E segundo, nesta ordem ecológica mesmo – na ótica de Copérnico –, de amor a todos nós, seres humanos, cuja maioria não tem ideia nem oportunidade de ver e defender a beleza com que o universo nos premiou, como nos ensinou Hugo Werneck. Ver as fotos desse ecologista espacial, tiradas ao longo de 20 anos, é como se estivéssemos ouvindo Geraldo Azevedo cantar “Dona da Minha Cabeça”. A gente pensa na Terra, “e toda a paixão recomeça, ela é bonita, é demais!”. Seu violão continua e a letra vai sendo reinventada: “dona do meu coração, quero tanto lhe ver viver. Quero saciar minha esperança, milhões de vezes, milhões de vezes”. E não apenas até daqui a 130 anos, como os cientistas informaram ao Yann, a Terra não aguentará mais o que estamos fazendo de feio com ela. Agora são todos os Geraldos, Yanns e ambientalistas improvisando um novo refrão: “Na força dessa beleza é que nós sentimos firmeza e paz. Por isso, nunca desapareça, nunca nos degrade também, nós não a degradaremos jamais. Nós dizemos a ela, como eu digo ao meu amor, e ela não acredita: é bonita demais! Ela é bonita, é bonita!..”

Puxa vida! Seria tão bom que essa fosse a única verdade. Não é. É apenas a realidade boa, inspiração geraldiana. A realidade ruim, a condição humana, Yann também nos mostra, e você vai conferir, caro leitor, é de doer o coração. Mas, como diria Drummond, ainda temos um cão chamado esperança. E outros companheiros de Yann, de mãos dadas nesta edição. A rotina avassaladora dos promotores de justiça que abraçam a causa ambiental. Os jardins que sobem nos telhados. Uma expedição também chamada esperança nas águas do Paracatu, o maior afluente do Velho Chico. Os empresários mineiros dando as mãos aos ambientalistas para despoluírem e salvarem o Rio das Velhas. As capivaras que pedem para ficar na Pampulha e os patosmergulhões que fogem da extinção. Um artista que faz abajures dos troncos de árvores mortas no sul da Bahia. O jardim das minorias no sudoeste da China. A vergonha que ainda temos de ser honesto, segundo Rui Barbosa. E a memória iluminada de Dom Pedro II, o imperador que amava o Brasil. Tal como Yann Arthus-Bertrand ama o planeta, ama sua beleza e nos remete, talvez, à última chance de agradecermos por isso e fazermos alguma coisa. O tempo humano urge, e sua paciência não é cósmica. É terrestre... Boa leitura! Até à próxima Lua Cheia, quando setembro vier.

YANN ARTHUS BERTRAND

VOCÊ É BONITA, BONITA DEMAIS!

NATUREZA BELA DEMAIS Ipê-roxo ou Pau d'arco na montanha de Kaw, Guiana

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O SISTEMA FIEMG TRABALHA PARA DESENVOLVER A INDÚSTRIA E PARA MELHORAR A SUA VIDA. Você sabe o que é o Sistema FIEMG? O Sistema FIEMG é uma organização privada, ou seja, é como se ele fosse uma grande empresa formada por mais cinco empresas. O SESI, o SENAI, a FIEMG, o CIEMG e o IEL. Todas elas trabalham juntas para desenvolver a indústria e apoiar os empresários. E também para melhorar a sua vida. Quer saber mais? Acesse www.fiemg.com.br.

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PÁGINAS VERDES

“Nossa rotina é

avassaladora” Vinícius Carvalho

redacao@revistaecologico.com.br

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oordenador-Geral das Promotorias de Justiça por Bacias Hidrográficas e do Núcleo de Negociação de Conflitos Ambientais do Ministério Público de Minas Gerais, o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto tem, diante de si, desafios do tamanho do estado. Em entrevista exclusiva à ECOLÓGICO, ele destaca as principais irregularidades ambientais enfrentadas pelo MP, alerta para a possível flexibilização da lei florestal de Minas e aponta caminhos para a diminuição dos conflitos envolvendo o licenciamento ambiental no estado. Quais são as irregularidades mais comuns enfrentadas pelo Ministério Público na área ambiental? É difícil falar em particularidades. É tanto o descumprimento da legislação e tamanha a despreocupação ambiental que a rotina de um promotor de defesa do meio ambiente é avassaladora. São milhões de inquéritos, apurando desde fatos mais simples, como pequenas supressões de vegetação, até grandes empreendimentos causadores de significativos impactos. É impossível fugir do necessário controle da atividade minerária e das atividades agrosilvopastoris, que também têm alto poder impactante, sobretudo pela flexibilização das nossas leis florestais.

VINICIUS CARVALHO

Como assim? Além da alteração prejudicial do Código Florestal Federal, vivemos um momento de alteração na lei estadual de modo a trazer, ainda mais, flexibilidade para a política florestal estadual. O projeto de lei ainda está em fase de discussão, mas todas as questões polêmicas, vetadas pela presidente Dilma, estão sendo reativadas em Minas. É o

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Carlos Eduardo “Os órgãos ambientais devem dar um recado rigoroso aos empreendedores, de que são necessários estudos mais sérios.”

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Car los E d u ardo F erreira

Coordenador-Geral das Promotorias de Justiça

caso da permissão de supressão compromete a análise de viabi- maneira correta. Outra preocupapor utilidade pública. Outro pro- lidade determinado empreendi- ção nossa é o pós-licenciamento. blema grave está na implantação mento como um todo e de seus O que acontece hoje? Determinae efetivação das nossas Unidades impactos cumulativos. Não dá da atividade recebe uma licença de Conservação (UCs). Verifica- para você ter uma licença de ope- de operação, mas não é fiscalimos que muitas UCs estaduais – ração para determinada operação zada. Só depois de quatro anos áreas com o regime jurídico mais casada com outro estudo já pron- revalida essa licença e apresenta protetivo – ou não estão implan- to para ampliar em 10, 15 vezes algum tipo de estudo. Mais do tadas ou estão implantadas sem mais a produção licenciada. que a licença propriamente conplano de manejo. Isso acaba gecedida, é importante o aparelharando os chamados mento do estado para parques de papel, que o acompanhamento e só levam ao conflito. monitoramento destas Conflitos com proprieatividades. tários limítrofes que não são devidamente Há muitas críticas indenizados, conflitos ao MP quanto à com a comunidade judicialização que recebe o parque e dos processos de conflitos que colocam licenciamento. São em questão a legalidaprocedentes? de de empreendimenVejo com muita preotos que estão implecupação o Ministério mentados nas zonas Público sendo colode amortecimento. cado como o vilão do Plano de Fechamento de Mina processo de licenciaProjetos conceituais e executivos em diversos estados mento. Não se pode E com relação à brasileiros, atendendo a todos os requisitos estabelecidos mineração? reduzir o papel do MP pela legislação, com padrão internacional de qualidade. Um grande avanço a equívocos cometidos foi a entrada do Mipor alguns promotores www.sete-sta.com.br nistério Público no de maneira isolada. Conselho Estadual Não se pode também de Política Ambiental atribuir a judicializa(Copam). No início, ção do processo ao houve grande rejeição quanto à Este fracionamento MP quando o problema é de esnossa participação, mas isso trou- é uma estratégia similar truturação do poder público na xe mais segurança jurídica para o à utilizada pelos grandes realização do licenciamento. Esse processo de licenciamento. Nosso desmatadores? problema vai continuar e crescer grande objetivo, neste sentido, é Exatamente. É o que era permitido se o órgão que concede a licença atuar antes da licença prévia, de pelas Autorizações Ambientais de não se estruturar. Mas é preciso forma a colocar as questões mais Funcionamento, que foram com- deixar claro que nossa atuação, importantes ainda no início do batidas por uma ação civil pública hoje, é voltada para a resolução processo. E o que a gente verifi- do MP. É necessário que os órgãos extrajudicial. Apenas de 6% a 7% ca na prática? O fracionamento ambientais deem um recado mui- dos inquéritos instaurados são ledas atividades de mineração para to rigoroso ao empreendedor, de vados ao poder judiciário, o que facilitar a liberação das licenças. que é necessário um estudo sério, demonstra que a grande maioria Isso trouxe estudos de impacto completo e com a identificação é resolvida, antes, por meio de reambiental limitados e em disso- dos reais impactos das suas ativi- comendações, termos de ajustanância com os planos de apro- dades. Ninguém aqui quer ser con- mento de conduta e outros instruveitamento econômico dos em- trário ao empreendimento A, B ou mentos extrajudiciais. Quando há preendimentos. Vemos isso com C. A gente quer ações adequadas judicialização, nossas ações são grande preocupação, porque se para a tomada de decisão de uma fundamentadas em ilegalidades.

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C ar los E d u ardo F erreira

Coordenador-Geral das Promotorias de Justiça

DIVULGAÇÃO

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PÁGINAS VERDES

Nós não submetemos ao poder judiciário a análise de viabilidade ambiental do empreendimento. Não estamos transformando o poder judiciário em órgão licenciador, e esse é um ponto que precisa ser devidamente esclarecido. E como reduzir a judicialização? Não posso dizer que o MP vai diminuir as ações. O que precisa diminuir são as ilegalidades, e isso se faz com maior controle e estruturação dos órgãos ambientais, com a melhoria dos estudos apresentados pelos empreendedores e com a modernização do sistema de fiscalização e monitoramento. O MP criou um núcleo de resolução de conflitos no fim de 2012. Em que medida ele facilita esse diálogo? Nosso objetivo é justamente esse, especialmente para os grandes e complexos casos de conflitos ambientais. É preciso dizer, entretanto, que em nenhum momento esse núcleo será um espaço de flexibilzação na aplicação das leis. Atualmente, temos 30 casos, dos quais apenas 5% foram judicializados. E já temos, só de medidas compensatórias, quase R$ 70 milhões de retorno para a área ambiental assegurados nesse espaço. Queremos buscar as soluções de maneira eficiente, célere e adequada. E quais as principais dificuldades quanto ao licenciamento? Quando a gente fala em desenvolvimento sustentável, é muito fácil dizer de maneira abstrata e doutrinária que ele é a compatibilização da atividade econômica e da preservação ambiental. Mas fazer isso na prática é um grande desafio, sobretudo porque não verificamos,

IMPASSE Dilma vetou questões importantes do Código Florestal que estão sendo reativadas em Minas

ainda, a utilização de todos os instrumentos de gestão previstos pela Política Nacional de Meio Ambiente desde 1981. Isso cria a visão equivocada de que o licenciamento é o lugar para essa compatibilização, quando, na verdade, já deveríamos ter outros instrumentos, como o Zoneamento Ecológico e Econômico, a Avaliação Ambiental Integrada e a Avaliação Ambiental Estratégica. Ainda existe um caminho muito longo para que tenhamos os instrumentos necessários para a plena realização do desenvolvimento sustentável. Quais são hoje as autocríticas que o MP se faz na área ambiental? Autocrítica a gente faz todo dia. Uma das coisas que verificamos é a

necessidade de uma atuação mais homogênea do Ministério Público para não se permitir que em determinada comarca um promotor tenha um posicionamento diferente de uma comarca vizinha, ou que um empreendimento similar tenha um tratamento mais ou menos rigoroso dependendo de onde esteja. Hoje, o Centro de Apoio aos Promotores do Estado já emite essas recomendações. Também entendemos que é preciso melhorar a resolução extrajudicial, e este é um caminho que estamos buscando. Agora, não se pode ter a ideia equivocada de que você pode negociar com o meio ambiente. Quando a gente fala em resolução, falamos de um direito difuso pertencente a toda a sociedade, e é assim que ele precisa ser tratado. 

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SOU ECOLÓGICO

FERNANDA MANN

SOLUÇÃO À VISTA

O QUE UM PULMÃO VERDE NÃO FAZ!

O prefeito de Nova Lima e o de BH, umbilicalmente unidos pelo pulmão verde, como vem sendo chamado o Complexo Ambiental da Serra do Curral, ainda bastante preservado na forma de Unidades de Conservação (UCs), encontraram-se recentemente para discutir soluções para a mobilidade urbana. Marcio Lacerda anunciou o projeto de expansão do metrô da capital que contempla uma estação até o BH Shopping, a ser executada no início do ano que vem. E parabenizou o município vizinho pela indicação da ONU como o de maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) de Minas:“Vim até aqui aprender um pouquinho”. Cassinho Magnani, por sua vez, falou do projeto de uma Via Expressa, interligando as duas cidades para desafogar o trânsito no Vetor Sul. “É necessário e urgente buscarmos soluções conjuntas para esse problema, inclusive para que possamos continuar crescendo de forma sustentável”- pontuou. Vem coisa boa por aí!

Para marcar os 150 anos de atuação e sua consolidação como uma das mais importantes instituições de ensino, pesquisa e extensão na área de Ciências Agrárias e Ambientais, a Universidade de Lavras (UFLA) irá realizar e sediar, de primeiro a quatro de setembro, o I Simpósio Internacional de Biodiversidade – SINBIO´2013. O evento fará parte da programação da Semana de Ciência, Cultura e Arte. À frente do evento, o reitor José Scolforo (foto), um dos mais respeitados engenheiros florestais do país.

DIVULGAÇÃO

WELLINGTON OLIVEIRA

Entre as várias razões levantadas para retirar as capivaras da orla da Lagoa da Pampulha, uma delas, a de preservar os jardins idealizados por Burle Marx em frente ao Museu de Arte Moderna, é de doer. Isso porque a prefeitura reluta em adotar a solução mais simples e econômica: cercar e proteger os jardins destes roedores, como está acontecendo provisoriamente. Motivo alegado: o paisagismo ali é tombado pelo patrimônio. Ué? E os anos a fio, sem capivaras, que eles ficaram abandonados e órgãos oficiais nem ligaram pra isso?

www.ufla.br/sinbio www.facebook.com/sinbioufla

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Acesse o blog do Hiram:

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CIDADÃO DE MINAS

SAUDADES DELES!

A conhecida arrogância humana, lato sensu, significa alguém atribuir para si toda a capacidade e legitimidade de fazer ou resolver algo. Segundo o Aurélio, “altivez, soberba, orgulho”. Que o diga o governador do Rio, Sérgio Cabral, que colhe os frutos dessa desecologia comportamental. E fez inaugurar uma onda de protestos contra outros políticos, condenados pela opinião pública. Tudo por não se mirarem na simplicidade e humildade do Papa Francisco, como JK e Tancredo Neves já sabiam e praticavam desde os tempos mais eclesiásticos.

TOMAZ SILVA / ABR

hiramfirmino.blogspot.com

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SOU ECOLÓGICO

TURISMO RELIGIOSO E DEMOCRÁTICO

Impressionante o “périplo multidiversificado” de Anastasia. Em plena efervescência do corte de orçamento e pastas que impôs ao Estado e deu exemplo para o país, ele subiu a Serra da Piedade e, na companhia do arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira e do secretário de Turismo, Agostinho Patrus, fez dois anúncios históricos. O primeiro foi liberar mais R$ 2 milhões para a restauração do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, a Padroeira de Minas. O segundo, sinalizar o projeto de ligação do Caminho Religioso da Estrada Real (CRER) até Aparecida do Norte, em São Paulo, passando pela terra de Nhá Chica (Baependi).

UNIÃO Dom Walmor e Anastasia, juntos, na mesma fé

COMPOSTELA MINEIRA Tudo perfeito para também termos o nosso Caminho de Compostela. Quem mais aposta nesta esperança é Marcelo Faria Pereira, prefeito de Baependi, para quem esse sonho real tem de ser sonhado junto. Ele aposta na sensibilidade do governador, que é devoto da Santa dos Pobres, Nhá Chica, e esteve presente à missa de sua beatificação (olhe a coincidência, tamanha conspiração divina!). E pode, com isso, incluir o Sul de Minas nesta peregrinação de futuro real para a explosão socio-econômica do nosso turismo religioso. Nossas senhoras da Piedade e Aparecida, mais Nhá Chica, a Santa de Baependi, juntas.

MARCELO Aposta no caminho das três santas juntas

VIVA FICUS

A Revista ECOLÓGICO recebeu a visita da diretora técnica da Associação das Caminhantes da Estrada Real (ACER), a artista plástica e pedagoga Ivone Diniz (foto). Ela adiantou, com exclusividade, que até o final de agosto, todo o percurso do Caminho Novo, aberto no Século XVII pelos bandeirantes de Paraty a Ouro Preto, terá sido atingido. Entidade sem fins lucrativos, a ACER reúne 70 mulheres caminhantes, que percorrem a Estrada Real e seu entorno, promovendo o turismo sustentável. A entidade também abraça o Projeto “Árvore é Vida”, registrado na ONU, idealizado pela International Federation of Business and Professional Womem (BPW) e presente em 90 países. A meta ecológica, com apoio do governo e dos empresários, aliada à ajuda das prefeituras, é alcançar o plantio de um milhão de árvores ao longo das estradas de Minas.

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Acesse o blog do Hiram:

hiramfirmino.blogspot.com

FICUS VIVE

O prefeito Marcio Lacerda tem uma chance de ouro para reverter as críticas à administração municipal alimentadas pelos gigantescos ficus que vêm morrendo de velhice e atacados pela praga da mosca branca na capital mineira. A receita é simples e já foi implementada com sucesso, por ele mesmo, durante as obras viárias para a Copa das Confederações, o que lhe valeu o “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade ´2011”: plantar três novas mudas para cada árvore adulta morta ou condenada.

VIVA FICUS

Lugar pra plantar e vê-las crescerem, em toda a sua majestade, sem causar qualquer conflito com a fiação, carros e pedestres, é o que não falta: a chamada Linha Verde, que liga o centro de BH ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, não tem nada de verde. Só grama e algumas palmeiras, tipo “paisagismo à Miami”, que não dão frutos nem atraem os passarinhos. Muito menos proporcionam sombra e um clima mais ameno aos motoristas e funcionários da Cidade Administrativa, ali engarrafados diariamente.

POLÊMICA Nas mãos de Marcio Lacerda, a solução

OSCAR DA ECOLOGIA’ 2013

A nossa arte também s e f a r á p r e s e n t e.

Rachel Rabello (31) 9788-9355 - haraceramica@gmail.com

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w ww.c emig.c om.br

Nos últimos 10 anos, a Cemig, uma empresa do Governo de Minas, vem diversificando sua área de atuação. Pensando no futuro, investiu em energias renováveis, como a solar e a eólica, em programas de eficiência energética, na distribuição de gás natural, nas telecomunicações e em soluções em TI. Hoje, a Cemig é o maior grupo integrado de energia do Brasil. Um grupo de alcance global, com acionistas em mais de 40 países e há 13 anos no Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Presente em 23 estados brasileiros, no Chile e no dia a dia de 30 milhões de consumidores. E o mais importante, presente na vida e no orgulho de quem mais precisa: com a isenção do imposto estadual, a Cemig e o Governo de Minas garantem a tarifa reduzida para metade das famílias mineiras – número recorde no Brasil. Porque, para a Cemig, crescer não é só ficar maior. Crescer é aproximar.

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gente ecolÓgica

“Inventar é imaginar o que ninguém pensou; é acreditar no que ninguém jurou; é arriscar o que ninguém ousou; é realizar o que ninguém tentou. Inventar é transcender."

Mateus Baranowski

George C. Beresford

Santos dumont, inventor

“Construir, de forma sustentável, é criar uma solução para um espaço, dimensionando os impactos gerados."

“Algumas pessoas procuram os padres; outras, a poesia; eu, os meus amigos." Virginia Woolf, poeta

reprodução

ELIANA PIMENTEL, vice-diretora geral do Grupo EPO ao jornal Minas Marca

“Jornalismo é substrato. Publicidade é adjetivo. Relações Públicas é o verbo."

“Transportai um punhado de terra todos os dias e farás uma montanha.”

“As folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes."

jb ecológico

Lélio Fabiano, jornalista

Manoel de Barros, poeta

CONFÚCIO, filósofo chinês 28  ecológico | AGOSTO DE 2013

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“Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça."

reprodução

MÁrio Quintana, poeta

MarCio laCerda

“Nos municípios onde há extração mineral, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), baseado nos pilares renda, saúde e educação, é mais elevado."

“Um leitor vive mil vidas antes de morrer, o homem que nunca lê, vive apenas uma."

daVid sHankBone

riCardo VesCoVi, diretor-presidente da Samarco e presidente do conselho Diretor do ibram

george r.r. Martin, escritor americano

alBerto José saluM, presidente do Sicepot-Mg

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fernando Coura

luciana Morais

“O enfraquecimento do setor produtivo é um dos maiores danos ao crescimento do país e ao bemestar social. Empresas sólidas são a melhor forma de melhorar a distribuição de renda.”

ele foi considerado por 26 secretários municipais de Meio ambiente de capitais brasileiras, integrantes do fórum nacional (cB-7), como um dos “prefeitos mais participativos do país”. isso, desde o último congresso Mundial dos governos locais para a sustentabilidade (iclei´2012), que contou com a presença de outros administradores públicos de 64 países, que ele anfitrionou, junto à rio+20

o também presidente do instituto Brasileiro de Mineração (ibram) foi reeleito outra vez, por unanimidade, para um novo mandato à frente do sindicato das indústrias de Minas gerais (sindiextra). na proposta da nova diretoria, o compromisso mantido de se buscar a “mineração sustentável”.

antonio cruZ-aBr

a presidenta deu duas boas notícias para os mineiros. a primeira é que parte das obras do anel rodoviário, trecho de acidentes constantes em BH, deverá começar entre maio e junho do ano que vem. dilma também previu datas para início de obras em 11 trechos licitados para duplicação da Br-381, batizada de “a rodovia da Morte”.

antonio cruZ-aBr

dilMa rousseff

diVulgação iBraM

jB ecológico

CresCendo

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ECONECTADO

CRISTIANE MENDONÇA

ECO PROMOÇÃO

TWITTANDO

Que tal ganhar uma caneca e um caderno personalizados do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”? Basta curtir a página no Facebook www. facebook.com/premiohugowerneck e seguir as instruções da aba “promoção”.

 “Ensino básico e médio vem sendo paulatinamente tomado por escolas privadas, ao passo em que a rede pública é sucateada e desmantelada” @efraimneto – Efraim Neto, jornalista.  “No Brasil, multidões reivindicam o

bem estar que não têm, enquanto nos países ricos, a luta é para manter o que já têm. (sic)” @MarcioPochmann - Marcio Pochmann, economista.

 “País desenvolvido não é

 “Lembrem-se:

governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão!” @freibetto – Frei Betto, escritor.

ROSE BRASIL / ABR

onde pobre tem carro, mas onde rico usa transporte público. #sabedoriapopular” @monica_nunes – Mônica Nunes, jornalista.

 “O futuro da Terra, como um planeta pequeno e limitado, depende de nossa capacidade de desenvolver ou não uma espiritualidade ecológica.” @rubinhogurgel - Rubinho Gurgel, ambientalista.  “Mas será possível que o Brasil

resolva ressuscitar o carvão quando os EUA começam a enterrá-lo?” @claudioangelo - Cláudio Angelo, jornalista. bonita sobre a aprendizagem é que ninguém pode tirar isso de você.” @ giseleofficial Gisele Bündchen, modelo.

 “Estou de retorno a casa, e lhes

asseguro, que a minha alegria é muito maior que o meu cansaço!” @Pontifex_pt - Papa Francisco.

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ECO LINKS FLORESTAS NO GOOGLE

Se o Google Street View foi bom para o ambiente urbano, imagina o mesmo projeto para regiões de matas e florestas? Foi o que idealizou uma parceria entre o Google e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Chamado de Park View, o projeto vai possibilitar ao cidadão fazer um turismo virtual pelas reservas e parques nacionais por meio de um programa de computador. Com um movimento no mouse ou um toque na tela do celular, o internauta poderá passear por trilhas, florestas, rios, cachoeiras e demais atrativos de 30 unidades de conservação.

BELEZA NATURAL Park View possibilita turismo

DENUNCIE UM LIXÃO!

A empresa de tecnologia WiseWaste desenvolveu um aplicativo que permite que o usuário denuncie lixões clandestinos. Batizado de “Lixarada”, o app é gratuito e está disponível, até o momento, para celulares com IOS, o sistema operacional da Apple. Com o celular, a pessoa pode tirar uma foto do lixo que pretende denunciar, além de poder fazer uma descrição da área e marcá-la num sistema de geolocalização. Baixe o aplicativo no site www.wisewaste.com.br/lixarada

REPÓRTER ECOLÓGICO YANGUAS

 “A coisa

Fique atento, pois até novembro serão sorteados brindes incríveis do Oscar da Ecologia! Em tempo, as inscrições para o prêmio já estão abertas e podem ser feitas no www.premiohugowerneck.com.br

LEONARDO PALLOTTA

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A bióloga Elizabeth Bruno Lobo mora no Rio de Janeiro, capital, e já se viu envolvida em várias questões ambientais. A última é uma luta que, segundo ela, ainda não foi vencida! Lobo conta que diversas hastes plásticas, entre elas cotonetes, são jogadas nos emissários submarinos da praia de Ipanema. O material descartado, muitas vezes pelos vasos sanitários, retorna à orla da praia em dias de ressaca. Em uma semana de coleta, já foram contados oito mil cotonetes. “Necessitamos de hastes biodegradáveis e uma instituição para colocar o guiso no pescoço do gato!”, reforçou a bióloga que já salvou árvores da rua onde mora e aves, como fragatas e atobas, comuns no Rio.

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CÉU DE BRASÍLIA VINÍCIUS Carvalho

Bate-boca I

Após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgar que o desmatamento na Amazônia Legal quase quintuplicou em maio de 2013, levantamento feito pelo Imazon revela que a situação na região continuou crítica em junho. O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) da instituição detectou a devastação de 184 km² de floresta na Amazônia Legal, um aumento de 437% em relação ao mesmo período do ano passado. O Pará foi responsável por 42% do desmatamento detectado, seguido pelo estado do Amazonas (32%).

Cadastro Ambiental I

O prazo para inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) deve começar a contar no segundo semestre. O CAR é considerado um dos pontos-chave do novo Código Florestal. Pela norma, todas as propriedades rurais do país terão um ano, prorrogável por mais um, para cadastrar informações sobre localização do imóvel, presença de vegetação nativa, produção consolidada, reserva legal e Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Cadastro Ambiental II

A partir da inscrição no CAR, os proprietários poderão também aderir a programas de regularização ambiental nos estados e, com isso, ter suspensas infrações por eventuais passivos ambientais. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 5,2 milhões de imóveis rurais no país devem se inscrever no sistema.

Bate-Boca II

De acordo com o ICMBio, o forte aumento da produção de grãos nos últimos 16 anos contraria os dados apresentados por Kátia Abreu (foto). A diretoria do ICMBio acrescenta, ainda, que “todas as atividades econômicas dependem da disponibilidade de água de boa qualidade, a qual está relacionada diretamente ao percentual de cobertura vegetal de uma bacia hidrográfica”, e que os 75 milhões de hectares de áreas protegidas “prestam inestimáveis serviços ecossistêmicos, com valor incalculável para o equilíbrio do clima e da conservação da biodiversidade”.

WENDERSON ARAÚJO

Desmatamento na Amazônia

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) criticou dados apresentados pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu. Segundo ela, o país corre risco de reduzir em 48,8 milhões de hectares a área de produção agrícola, entre 2011 e 2018, caso sejam mantidas as médias de demarcação de terras indígenas e de unidades de conservação ambiental dos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula.

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Nosso Futuro

CoNstrutivo e susteNtável

Segundo a onu, até o final deSte Século, 95% da humanidade eStará morando naS cidadeS. Será, portanto, no meio urbano que todoS nóS teremoS de conSeguir qualidade de vida. SermoS SuStentáveiS, no trabalho, noS tranSporteS, no noSSo eStilo de viver. é por eStaS razõeS que, com foco eSclarecedor, já a partir deSta edição, a reviSta ecológico irá abordar permanentemente o tema da conStrução SuStentável. l o que é melhor para a natureza e o meio ambiente que noS reStam? l horizontalizar a ocupação doS poucoS eSpaçoS urbanoS que exiStem? l verticalizár, Sob a ótica de uma nova e ecológica concepção conStrutiva que converSe maiS conoSco, com o Sol, o vento e uma melhor viSão de mundo?

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CÉU DE BRASÍLIA VINÍCIUS Carvalho

Bate-boca I

Após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgar que o desmatamento na Amazônia Legal quase quintuplicou em maio de 2013, levantamento feito pelo Imazon revela que a situação na região continuou crítica em junho. O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) da instituição detectou a devastação de 184 km² de floresta na Amazônia Legal, um aumento de 437% em relação ao mesmo período do ano passado. O Pará foi responsável por 42% do desmatamento detectado, seguido pelo estado do Amazonas (32%).

Cadastro Ambiental I

O prazo para inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) deve começar a contar no segundo semestre. O CAR é considerado um dos pontos-chave do novo Código Florestal. Pela norma, todas as propriedades rurais do país terão um ano, prorrogável por mais um, para cadastrar informações sobre localização do imóvel, presença de vegetação nativa, produção consolidada, reserva legal e Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Cadastro Ambiental II

A partir da inscrição no CAR, os proprietários poderão também aderir a programas de regularização ambiental nos estados e, com isso, ter suspensas infrações por eventuais passivos ambientais. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 5,2 milhões de imóveis rurais no País devem se inscrever no sistema.

Bate-Boca II

De acordo com o ICMBio, o forte aumento da produção de grãos nos últimos 16 anos contraria os dados apresentados por Kátia Abreu (foto). A diretoria do ICMBio acrescenta, ainda, que “todas as atividades econômicas dependem da disponibilidade de água de boa qualidade, a qual está relacionada diretamente ao percentual de cobertura vegetal de uma bacia hidrográfica”, e que os 75 milhões de hectares de áreas protegidas “prestam inestimáveis serviços ecossistêmicos, com valor incalculável para o equilíbrio do clima e da conservação da biodiversidade”.

WENDERSON ARAÚJO

Desmatamento na Amazônia

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) criticou dados apresentados pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu. Segundo ela, o país corre risco de reduzir em 48,8 milhões de hectares a área de produção agrícola, entre 2011 e 2018, caso sejam mantidas as médias de demarcação de terras indígenas e de unidades de conservação ambiental dos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula.

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TRANSFORMAR NOSSA PAIXÃO NA PAIXÃO DOS OUTROS: ISSO É CONFIANÇA, ISSO É SER VALLOUREC.

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ECONOTAS

CRISTIANE MENDONÇA redacao@revistaecologico.com.br

O transporte ferroviário de carga emite menos CO2 que o rodoviário. A comprovação foi feita por um estudo da empresa VLI, especializada em logística, que analisou os dados entre o Terminal Integrador Araguari, no Triângulo Mineiro, e o complexo portuário de Tubarão, no Espírito Santo. Segundo o estudo, no caso dos trens, a emissão de CO2 na atmosfera para a mesma quantidade de carga transportada por caminhões tem redução de 38%. Isso quer dizer que, enquanto os veículos rodoviários expelem 60 milhões de quilos de CO2 por mês, nas rodovias entre o Triângulo Mineiro e o litoral capixaba, o transporte ferroviário, com o mesmo volume carregado, emite apenas 37 milhões de quilo desse gás. São 23 milhões de quilos a menos de substância nociva ao meio ambiente por mês. O uso do transporte ferroviário também contribui para redução de acidentes e do número de caminhões nas estradas, já que 300 locomotivas transportam o equivalente ao que seriam carregados por 8,1 mil caminhões.

WESLEY SOUZA

• DE TREM É MELHOR!

• MEIAS RECICLADAS

CAIO DURAN /AGÊNCIA NEWS

Sabe aquela sua meia usada? Pois é, ela também tem valor! A Puket, empresa especializada na produção têxtil, lançou o projeto “Meias do Bem”. O objetivo é transformar meias velhas em cobertores para doá-los a moradores de rua. Para se ter uma ideia, 40 pares de meias usadas são suficientes para confeccionar um cobertor de casal. A iniciativa, inaugurada em julho, oferece 120 pontos de coleta espalhados pelo Brasil. A expectativa é que sejam doados 50 mil pares de meias ao longo de todo o inverno, período em que vigorará o projeto. Junto com cada cobertor, também será doado um par de meias novas. SAIBA MAIS

www.meiasdobem.com.br

O Projeto de Lei 1161/2007, que proíbe a produção e importação de lâmpadas incandescentes entre 61 e 100 watts, entrou em vigor em julho. Porém, lojas que ainda possuam as unidades em estoque podem comercializá-las até dezembro deste ano. As lâmpadas incandescentes deverão ser substituídas pelas fluorescentes compactas (LFCs), halógenas, ou mesmo as de LED. De acordo com estimativa da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), no estado deve haver cerca de 16 milhões de lâmpadas de 60 watts. Como essas lâmpadas devem ser substituídas pelas fluorescentes comuns de 15 watts, temos uma redução de 45 watts por unidade, proporcionando uma redução de 720 MW na área de concessão da empresa. Em um mês, a economia de energia poderia representar um montante de 72 GWh, que seria suficiente para atender uma cidade de 600 mil habitantes, do porte de Uberlândia ou Contagem (MG).

REPRODUÇÃO

• ADEUS INCANDESCENTES!

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TRANSFORMAR NOSSA DIVERSIDADE NA DIVERSIDADE DOS OUTROS: ISSO É CONFIANÇA, ISSO É SER VALLOUREC.

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estado de alerta Maria dalce ricas (*) redacao@revistaecologico.com.br

PRIORIDADE Projeto Caminhos de Minas, do governo estadual, segue pavimentando estradas de norte a sul

Marasmo Ambiental Governo omite regularização de terras em Unidades de Conservação

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onsiderando as eleições do ano que vem, o governo mineiro tem menos de um ano para sair do marasmo ambiental que caracteriza Minas Gerais. Mas é difícil acreditar que, nesse prazo, seja possível mudar a situação. A regularização de terras nas Unidades de Conservação (UCs) que acontecia em passos de tartaruga, nos governos anteriores, estacionou no atual. Um dos resultados está aí: a bancada ruralista, com apoio da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), quer aprovar artigo na Lei Florestal que extingue restrições a atividades econômicas em parques enquanto as terras não forem desapropriadas. Há parques criados há mais de 30 anos cujas terras ainda não foram desapropriadas. A documentação deles é um problema objetivo e, sem dúvida grave, que muito dificulta o processo de regularização fundiária. Mas nem de longe explica tanto descaso para proteger o tão pouco que temos de parque e estações ecológicas. Se assim fosse, o poder público não criaria distritos industriais pelo Estado afora, não abriria estradas, não implantaria projetos de assentamento, não construiria barragens e nem linhas de transmissão, porque todas essas atividades pressupõem desapropriações. A verdadeira explicação é o desinteresse e até obstáculo

dentro do governo em relação às UCs. E não me refiro somente à morosidade e deficiência estrutural da Semad/IEF, que, além de contar com poucos técnicos, depende ainda de outros órgãos da administração pública para promover a regularização fundiária. O governo sequestrou os recursos da compensação, sem dar satisfação a ninguém. Mas não parou o projeto Caminhos de Minas, continuidade do Pró-Acesso, que segue pavimentando estradas pelo Estado afora. Descontado o licenciamento ambiental “pró-forma” e os impactos ambientais causados pelas intervenções do DER e suas empreiteiras, não há dúvida da importância do projeto para a qualidade de vida de muitas populações. Mas proteger a biodiversidade, a água e o solo é ainda mais importante, porque significa garantir a nossa qualidade da vida no futuro. E a gente sempre torce e deseja que o governo pense e aja assim. Inclusive porque as UCs são de sua responsabilidade. Sabemos que o governador tem de considerar interesses de todos os segmentos da sociedade para administrar, mas nenhum ambientalista pretende que Minas Gerais volte a ser uma grande floresta. Querer a proteção do que restou não é um pleito que contrarie esse princípio.  (*) Superintendente executiva da Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente (Amda)

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

‘‘Eu vi a

TERRA MUDAR’’ Hiram Firmino e Fernanda Mann redacao@revistaecologico.com.br

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m cinco de junho de 2009, durante as comemorações de mais um “Dia Mundial do Meio Ambiente”, ele sensibilizou a opinião pública internacional. Foi quando lançou seu primeiro e deslumbrante longametragem intitulado “Home”, do inglês “Casa” e do grego “Oikós”, nomes diferentes do único planeta com vida que conhecemos em todo o sistema solar. O produto distribuído, gratuitamente, pela internet, traz imagens aéreas belíssimas que falam e comovem mais do que um milhão de palavras. Elas mostram, sem retoques ou direcionamentos, o quanto o ser humano já modificou o ambiente terrestre nos últimos 50 anos. Uma modificação mais impactante que em todos os 200 mil anos somados de suas gerações anteriores. Como também revelam a beleza estonteante da natureza ferida, que se extingue – e extinção é para sempre! Esse fotógrafo é Yann Arthus -Bertrand que, um ano depois da RIO + 20, apresenta em Belo Horizonte até o dia primeiro de setembro, e depois em São Paulo, o roteiro de sua última exposição internacional também transformada em livro: “A Terra Vista do Céu – 20 anos de Retratos do Planeta”.

YANN EM AÇÃO “O impacto do homem é visto do céu”

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A TERRA

VISTA DO CÉU

Na capital mineira, trazido graças ao patrocínio da Vallourec e copatrocínio da Lafarge, com apoio da Embaixada da França no Brasil, do Governo de Minas e da Prefeitura Municipal, Yann, como qualquer cidadão, pode contemplar 130 de suas fotografias reproduzidas em pôsteres gigantes, instalados criativamente ao longo do gradil do Parque Municipal, desde a esquina da Rua da Bahia até o Palácio das Artes, em plena Avenida Afonso Pena, no coração pulsante da população belo-horizontina. “Já fiz essa exposição em mais de 80 países, mas nunca como aqui, onde até as pessoas dentro dos ônibus podem vê-la!” – disse ele, referindo-se à plateia que se forma dentro de coletivos e carros que passam, em câmara lenta, pela principal via de acesso ao centro de BH. A Revista ECOLÓGICO reproduz aqui, na forma de entrevista, partes de seu próprio testemunho “Eu vi a Terra mudar” exposto ao lado das fotos, acrescidas do que ele declarou aos jornalistas e, depois no Automóvel Clube de Minas Gerais, aos convidados que o aplaudiram – por sua simplicidade em particular – no lançamento esperançoso de sua última obra. Confira! A QUE CONCLUSÃO O SENHOR CHEGOU, COM ESSAS FOTOS TIRADAS AO LONGO DE 20 ANOS? Que o planeta é muito mais bonito do que eu imaginava. Desde que comecei a olhá-lo, realmente, ele não parou de me surpreender por seu esplendor. Essa beleza, que descobri com o meu trabalho fotográfico, transfor-

Espero que, ao observar essas fotos impactantes, o público também se deixe transformar pela beleza do mundo, como eu fui transformado em ecologista

mou-me. Foi ela que fez de mim um ecologista. Essa exposição em BH é muito especial, pois foi com a ECO/92, Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável ocorrida no Rio, que dei início a este meu trabalho. Voltar ao Brasil é a oportunidade de fazer um balanço. Durante essas duas décadas em que passei fotografando a Terra, eu a vi mudar. Pois, o impacto do homem é visto do céu. E durante minhas viagens e pesquisas, constatei que todos os especialistas e cientistas que encontrei compartilhavam a mesma preocupação. O que minhas fotos revelam, eles dizem o mesmo com números, e esses números são verdadeiramente assustadores. O SENHOR PODE CITAR ALGUNS EXEMPLOS? O PIB mundial aumentou em 75%, atingindo 63 trilhões de dólares, mas ainda há um bilhão de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. As emissões de CO2

aumentaram em 36% e atingem 30 bilhões de toneladas por ano. A banquisa ártica diminuiu em 35%. Mas as energias renováveis progridem a uma velocidade astronômica: o uso da energia solar cresceu 30.000%. As florestas mundiais perderam quase 300 milhões de hectares, ou seja, quase 13 milhões de hectares por ano. Mas atualmente quase 6% das florestas são certificadas – e hoje, 13% das terras emersas são protegidas. O número de pessoas que têm acesso a fontes aprimoradas de água potável, a partir de um fornecimento por canalizações ou por poços protegidos, aumentou em mais de dois bilhões. Mas 37% da população mundial ainda não têm acesso a um sistema de saneamento de qualidade. Por volta de um bilhão de homens e mulheres sofrem de desnutrição, enquanto o mesmo número sofre de obesidade. Uma espécie de vertebrado, em cada cinco, corre risco de extinção. Em 20 anos, os sinais alarmantes se multiplicam. ISSO QUER DIZER... Que a partir de agora, cada um de nós, eu e você, devemos assumir as consequências disso. Com minhas fotografias e a Fundação GoodPlanet, tento sensibilizar o maior número de pessoas sobre a importância do desenvolvimento sustentável. Espero que, ao observar essas fotos, as mais fortes que tirei em 20 anos, as pessoas também deixem se transformar pela beleza do mundo como eu fui transformado, e que também tenham o desejo de contribuir para a preservação do planeta. Todo mundo pode fazer alguma coisa. Cabe a cada pessoa descobrir o quê.

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AGOSTO DE 2013 | ECOLÓGICO  41

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

YANN POR ELE MESMO Nascido em 1946, Yann Arthus-Bertrand sempre foi fascinado pela natureza. Aos 20 anos, mudou-se para a França para dirigir uma reserva natural. Aos 30, viajou para o Quênia acompanhado de sua esposa Anne, com quem realizou um estudo sobre o comportamento de uma família de leões na reserva Masai Mara. Durante três anos, começou a usar a câmara fotográfica para registrar suas observações e complementar suas anotações. Para ganhar a vida, também trabalhou como piloto de avião. Foi nesse período que Yann descobriu o mundo visto do céu e passou a dedicar-se à fotografia aérea, que o permitiu descobrir uma nova realidade sobre os territórios fotografados e seus recursos. E assim se revelou sua vocação: testemunhar através da imagem a beleza da Terra - e também o impacto do homem sobre o planeta. Essa aventura deu origem ao seu primeiro livro, “Lions”, de 1981. Ainda na década de 1980, Yann se tornou fotógrafo de grandes reportagens, trabalhando para revistas como National Geographic, Géo, Life, Paris Match e Fígaro Magazine. Pouco a pouco, lançou-se em trabalhos mais pessoais, sobretudo na relação homem/animal, dando origem aos livros “Bestiaux” e “Chevaux”. Em 1991, fundou Altitude, a primeira agência de fotografia aérea do mundo. Durante a RIO-92, ele iniciou um grande projeto fotográfico para o ano 2000 sobre o estado do mundo e de seus habitantes: “A Terra vista do céu”. Desde então, o livro tornou-se um sucesso internacional, com mais de três milhões de exemplares vendidos. A exposição homônima já foi apresentada em uma centena de países e

E DE QUEM AINDA DETÉM O PODER POLÍTICO E ECONÔMICO, TANTO DE CONTINUAR DEGRADANDO O PLANETA COMO DE TENTAR SALVÁ-LO, O QUE ESPERA? Nada. Minhas exposições não têm este direcionamento. Não serão os políticos nem os economistas e empresários que salvarão o mundo, a sua natureza, o seu meio ambiente e a humanidade. Quem ainda tem possibilidade de salvar toda essa beleza e milagre

vista por cerca de 200 milhões de pessoas. Enfatizando seu compromisso com a causa ambiental, Yann criou a ONG Fundação GoodPlanet. Desde 2005, ela se dedica à educação ambiental, assim como à luta contra as mudanças climáticas e suas consequências. Na fundação, ele desenvolve o projeto “6 milhões de Outros”. Seu princípio é simples: ir ao encontro dos habitantes do planeta e reunir seus testemunhos. Até hoje, foram filmados mais de sete mil testemunhos. Do pescador brasileiro à lojista chinesa, do artista alemão ao agricultor afegão, todos responderam ao mesmo questionário sobre seus medos e sonhos, experiências e esperanças: 40 questões essenciais para a descoberta sobre o que nos separa e o que nos une. Atualmente, Yann é mais reconhecido como militante ecologista do que como fotógrafo. Em 2009, esse engajamento o levou a ser nomeado “Embaixador da Boa Vontade”, do Programa das Nações Unidades pelo Meio Ambiente (Pnuma). Em 2011, ele dirigiu dois pequenos filmes para a ONU, um sobre florestas, outro sobre desertificação. Neste mesmo ano, ele criou a Hope Production, empresa sem fins lucrativos voltada para a produção de documentários. No momento desenvolve dois documentários para o canal France Télévision: um sobre a água e sua distribuição, para o Forum Mundial da Água; e outro sobre a importância dos oceanos. “Planète Océan” teve estreia mundial na RIO + 20.

de vida planetária que degradamos, sou eu e você, cada um de nós, indistintamente, e juntos ao mesmo tempo. Seremos nós, enquanto cidadãos comuns, mas com consciência local e de mundo, que poderemos mudar essa história. Falo da história deste planeta que caminha para um final triste, cujo prazo para o esgotamento vital, segundo os cientistas, é de só mais 130 anos. COMO ESSA MUDANÇA SE DARÁ

EM TÃO POUCO TEMPO? Por meio de uma revolução espiritual, que já se esboça no inconsciente coletivo da humanidade atual. Uma revolução religiosa, não no seu sentido estrito. Mas de uma amorosidade e conscientização profundas nunca ocorridas antes, com um novo, coletivo e apaixonado olhar pela beleza que ainda existe na natureza. De valorizarmos, cada vez mais, o milagre cósmico da vida e sentirmos o planeta de maneira solidária. 

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A TERRA

VISTA DO CÉU

CORAÇÃO DE VOH EM 1990, NOVA CALEDÔNIA, FRANÇA Floresta semiterrestre e semiaquática desenvolve-se nos solos lodosos tropicais expostos às alternâncias de marés. Constituídas por plantas capazes de viver em solos salgados, ela reveste quase ¼ dos litorais e cobre cerca de 15 milhões de hectares no mundo. Esse meio frágil recua diante da excessiva exploração de recursos, da expansão agrícola e urbana, do desenvolvimento das criações de camarões e da poluição. Contudo, o manguezal ainda é indispensável à fauna marinha e ao equilíbrio do litoral, assim como à economia local. A Nova Caledônia, conjunto de ilhas do Pacífico, conta com 200 km² de um manguezal bastante baixo, mas muito denso, principalmente na costa oeste da GrandeTerre, ilha mais importante do arquipélago neocaledônio. No interior das terras, onde a água marinha só penetra no momento das grandes marés, a vegetação cede lugar a extensões nuas e salgadas chamadas tanne, como perto da localidade de Voh, onde a natureza desenhou essa clareira em forma de coração estilizado.

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

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COMOÇÃO Como na canção de Chico, as pessoas pararam para ver e ouvir a pulsação ameaçada da Terra

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A TERRA FOTOS ADÃO SOUZA

VISTA DO CÉU

INEDITISMO As 130 fotos foram expostas diuturnamente ao longo do gradil do Parque Municipal de BH

O DIA EM QUE A

AVENIDA PAROU D

ezesseis de julho, terçafeira comum, uma lua já crescente riscando a beleza do horizonte, na capital dos mineiros. Era para ser assim, mais um dia normal, de pôr de sol, engarrafamento e as pessoas apressadas, loucas para voltar pra casa. Não foi. A pé, de carro ou de dentro de ônibus, um contigente humano, poucas vezes visto, parou para ver o novo trabalho de Yann Arthus-Bertrand, afixado ao longo do gradil do Parque Municipal, na avenida mais tumultuada de BH:

130 imagens de grandes dimensões, um registro de 20 anos de sua retratação do planeta. As pessoas pararam para admirar a beleza e, ao mesmo tempo, pensar sobre a fragilidade do nosso planeta. Esta é a proposta maior do trabalho de Yann: fazer as pessoas comuns e pouco informadas refletirem sobre o estado do mundo 20 anos depois de o Rio de Janeiro ter sediado a ECO/92, a maior conferência com o maior número de estadistas e cientistas já realizada na história da huma-

nidade. Esse o propósito de sua última exposição itinerante mundo afora: contribuir de forma lúdica e crítica no debate em curso do desenvolvimento sustentável. E tornar-se um instrumento valioso de educação ambiental envolvendo as escolas.

SAIBA MAIS

Todas as fotos, informações e material educativo da exposição estão no site www.terravistadoceu.com

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

FOTOS ADÃO SOUZA

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CONSTATAÇÃO ECOLÓGICA Vera Bernardes, Marcio Lacerda e Yann Arthus – Bertrand observam barco em ruínas encalhado no Aral (Cazaquistão), que já foi o quarto mais volumoso mar interior do planeta, onde as pessoas viviam da pesca

JB ECOLÓGICO

FIQUE POR DENTRO

INFLUENCIADO POR SEBASTIÃO SALGADO Aos 67 anos, Yann é dos mais renomados fotógrafos e documentaristas ambientais contemporâneos. Seu próximo passo é dedicar-se a outro longametragem: Human, sobre a sustentabilidade ou não do ser humano na geografia política e social de 40 paises. Sempre brincalhão, ironiza: “não sou formado em nada, sou autodidata, mudei 14 vezes de escola”. Ele se diz detalhista ao extremo e fã de seu colega Sebastião Salgado. “Fui muito influenciado por sua obra que muito me ajudou a mostrar tanto a beleza do planeta como o impacto que causamos sobre ele.” 46  ECOLÓGICO | AGOSTO DE 2013

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ELOGIO Yann, Vera, Anastasia e Manoel Bernardes, cônsul da França em BH. “É um privilégio receber esta exposição fotográfica e ambientalista” – disse o governador

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A TERRA

VISTA DO CÉU

REGISTRO A Terra Vista no Automóvel Clube fez reunir autoridades francesas e mineiras em torno da sustentabilidade do planeta

A NOITE EM QUE BH

SE EMOCIONOU A

té o prefeito de BH, Marcio Lacerda, chegar à avenida, Yann continuava uma pessoa comum em meio às pessoas extasiadas. Vestido, com simplicidade, a única coisa que o diferenciava era a sua inseparável e potente máquina fotográfica nas mãos. E seu francês, traduzido simultaneamente, diante dos repórteres e das câmaras de televisão. Quando a noite caiu, ele atravessou a avenida até o prédio do Automóvel Clube de

Minas Gerais, diametralmente oposto, onde o governador Antonio Augusto Anastasia, o esperava para também receber seu livro autografado, em meio aos convidados ilustres. Os discursos e depoimentos se enfileiraram, também, de uma maneira simples e emotiva, como ele. A secretária estadual de Cultura, Eliane Parreira, conclamou como uma ambientalista companheira dele: “espero, Yann, que essas suas imagens

possam impactar todos os que as virem, instigando o pensamento crítico para a urgente necessidade de zelar pelo planeta”. Na hora de agradecer, e de forma lacônica, o fotógrafo repetiu a grandeza de sua simplicidade: “J’aime la planète et je vous aime” (Eu amo o planeta e amo vocês).  VEJA MAIS

Ensaio fotográfico da exposição “A Terra Vista do Céu” na página 108

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1 Construção Sustentável

pRAÇA RAUL SOARES, EM BH A cidade tal como é e da maneira que poderia ficar com eco telhados...

O verde subiu

no telhado

Vegetação na parte de cima das casas enfeita, refresca e melhora o clima Cristiane Mendonça

redacao@revistaecologico.com.br

V

er casas ou edifícios com telhados de gramas e flores não é um cenário comum em Belo Horizonte, mas é prática apoiada pelo setor de construção como iniciativa sustentável e ecológica. As vantagens em relação às coberturas tradicionais são inúmeras. Além de ser, em média, 8% mais barato, o telhado verde ou eco telhado, como também é chamado, diminui a temperatura ambiente da casa em até sete graus, e

em dias frios, mantém o ambiente aquecido. Funciona como bom isolante acústico, é considerado pelos especialistas uma “ilha verde” que melhora o microclima da região onde é empregado; e, ainda, ajuda a evitar alagamentos, já que a absorção pelo solo do eco telhado torna o fluxo da água da chuva mais lento. A técnica de aplicação é simples e pode ser feita tanto em lajes descobertas como em lu-

gares que já foram cobertos por telhados coloniais ou de alumínio. Porém, o trabalho de uma empresa especializada é fundamental, já que a demanda exige infraestrutura adequada. Segundo o engenheiro civil, Romário Elias de Carvalho, “existem 16 tipos de telhados verdes, cujas especificidades variam de acordo com as necessidades das estruturas”. O engenheiro relata que o processo é feito por etapas, sendo

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FOTOS GOOGLE EARTH / ARTE :SANAKAN

que a primeira é a impermeabilização da laje para evitar mofos e vazamentos. Os outros passos são as instalações de camadas com materiais distintos. “A primeira é uma lona de polietileno de alta densidade. Em cima dela, uma placa alveolar responsável pela reserva da água que alimentará a vegetação. Na terceira parte, é colocada uma membrana retentora de nutrientes, que não deixa o substrato se perder, nem descer pela tubulação. E, por último, são colocados, o substrato e a vegetação. Em casos de lajes inclinadas é utilizado um módulo para conter as camadas”, resume. Não há manutenção preventiva, e sim corretiva, quando algo cai em cima do local, por exemplo. Romário não recomenda o plantio de jardins, pois segundo o profissional, “o uso de arbustos e plantas ornamentais exigem um

ERIK CHRISTENSEN

...temperatura mais amena e melhor vazão da água da chuva seriam alguns dos benefícios colhidos

TRADIÇÃO verde Na Dinamarca, as casas cobertas com vegetação é um costume desde a Idade Média AGOSTO DE 2013 | ecológico  49

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FERNANDA MANN

1 Construção Sustentável Saiba mais Benefícios dos telhados vivos l Redução no nível de ruídos nas cidades.

EM OBRAS Na casa ecológica de Guilherme, a ideia é, no futuro, também fazer um jardim no eco telhado

número maior de manutenções e subidas ao telhado”. Casa verde Apesar da restrição relatada pelo engenheiro, existem profissionais e empresas especializadas no paisagismo de telhados. E muitos clientes interessados em deixar as coberturas mais coloridas. É o caso do administrador de empresa, Guilherme Augusto da Silva. A casa dele, localizada no bairro Planalto, está em obras e o eco telhado já está coberto com grama. O objetivo do administrador é ainda avivar a cobertura da casa com flores e outras espécies de plantas. Casado e pai de dois filhos, Silva conta que está construindo uma casa toda ecológica por dois motivos: “pelo meio ambiente e pelo custo-benefício, já que a longo prazo todo investimento é revertido em economia”. O administrador investiu não só no telhado verde, mas também em um sistema de captação de água de chuva e no uso de luzes fotovoltaicas (que captam a energia solar) na área externa da casa. A obra sustentável, que tem 800m² e três andares, deixa Silva orgulhoso. “A minha casa está ficando diferente, e várias

pessoas estão me procurando por isso”, relata. Outra residência que também chama a atenção da vizinhança é a da arquiteta Hosanna Rodrigues. Moradora de um condomínio em Nova Lima (MG), ela tem o telhado verde em casa há seis meses. “Todo mundo me para e pergunta o que é que tem em cima da minha casa!”, conta bem -humorada. Outro diferencial em relação aos vizinhos é que ela percebe que quase todos têm arcondicionado em casa e ela não. “O telhado verde deixa a casa tão fresquinha que eu não preciso ter o aparelho!” A experiência bem-sucedida também é ferramenta de trabalho já que a arquiteta oferece aos clientes a opção do telhado ecológico. Os benefícios, segundo ela, não são apenas para o morador da casa, mas até para quem vive no entorno. “O telhado verde é uma solução muito ecológica, absorve a água da chuva de forma mais devagar e faz com que ela também chegue mais devagar à rede pluvial da cidade.” Na prática, isso significa que quanto mais casas, edifícios e comércios utilizarem eco telhado, melhor para a cidade que terá uma “ajuda” para diminuir a vazão da água.

l Diminuição das ilhas de calor é outro ganho apresentado. A temperatura diurna dos telhados convencionais pode chegar a 65ºC no verão. Já os telhados com cobertura vegetal atuam como isolantes térmicos, assim, as temperaturas sofrem apenas pequenas mudanças, o que gera uma diminuição de custo para aquecer ou resfriar os ambientes abaixo deles. l Outro fator interessante, contemplados os devidos cálculos, é que os telhados ecológicos são habitáveis, já que recuperam um espaço que seria normalmente inacessível. Na falta de espaço, podemos usufruir do jardim e da horta no telhado. Cuidados para o bom funcionamento l O cálculo estrutural faz-se necessário, pois embora o sistema seja considerado leve, ele gera uma sobrecarga na estrutura. l Geralmente são aplicados em telhados planos com inclinação de aproximadamente de cinco graus, a fim de permitir o escoamento não muito rápido da água. l Deve-se dar preferência a plantas locais mais resistentes à chuva e à estiagem e que exijam pouca rega e poda. l Plantas de porte baixo e crescimento lento também podem facilitar a manutenção, que é parecida com a de um jardim comum. FONTE: Cristiane Silveira de Lacerda, engenheira civil.

Outros países Na Escandinávia, região localizada ao norte da Europa, plantar jardins no telhado é uma prática comum desde a Idade Média. Existe até uma premiação para os melhores projetos de telhado verde nos países da Dinamarca, Noruega e Suécia, chamada de Prêmio Green Roof. 

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ECO CONSTRUÇÃO

CRisTiAnE silVEiRA DE lACERDA (*) redacao@revistaecologico.com.br

TElHADOs ViVOs,

resPiro Para as cidades

O

Os Jardins Suspensos da Babilônia foram construídos pelo rei Nabucodonosor para alegrar sua amada esposa, a rainha Amyitis

BATKyA

telhado verde é uma técnica construtiva antiga. Sua história vem desde os míticos Jardins Suspensos da Babilônia, localizados no lado leste do Eufrates, hoje região central do Iraque moderno. Relatos indicam que os Jardins Suspensos foram construídos pelo rei Nabucodonosor, para alegrar a sua amada esposa, a Rainha Amyitis, que sentia saudades das montanhas verdejantes de sua terra natal. O geógrafo grego Strabo, que descreveu os jardins no primeiro século antes da nossa era, escreveu: “Eles consistem de terraços superpostos, erguidos sobre pilares em forma de cubo. Estes pilares são ocos e preenchidos com terra para que ali sejam plantadas as árvores de maior porte. Os pilares e terraços são construídos de tijolos cozidos e asfalto. A subida até o andar mais elevado era feita por escadas, e na lateral, estavam os motores de água, que sem cessar levavam a água do rio Eufrates até os jardins”. Chegava-se a eles por uma escada de mármore. Também chamados de Jardins Suspensos de Semiramis, foram construídos no século VI a.C., no sul da Mesopotâmia, na Babilônia. Os terraços foram construídos um em cima do outro e eram irrigados pela água bombeada do rio Eufrates. Nesses terraços, estavam plantadas árvores, flores tropicais e alamedas de altas palmeiras. De exuberante beleza, este foi considerado uma das Sete Maravilhas da Antiguidade. Sobre os atuais telhados verdes (ou vivos), se não cuidarmos com irrigação adequada, seleção de espécies vegetais mais adaptadas ao local, e manutenção periódica, deixaremos de colher os bons frutos da iniciativa. Esta pode ser também uma horta orgânica, como a realizada por um restaurante de comida natural em São Paulo.

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reprodução

PAVIMENTO QUE ABSORVE A POLUIÇÃO na holanda O portal EcoD publicou, recentemente, a informação sobre um pavimento tratado com dióxido de titânio polvilhado no concreto, chamado pavimento fotocatalítico, que reduz o dióxido de carbono no ambiente em até 45%. Testes já estão sendo realizados pelos cientistas da Universidade de Tecnologia da Eindhoven, na zona urbana da cidade de Hengelo, no leste da Holanda, segundo fontes da BBC. A ideia é desenvolver uma substância especial que poderia ser aplicada em estradas para ajudar a reduzir as concentrações elevadas de gases poluentes lançados na atmosfera. O preço, entretanto, é o entrave, sendo até 50% mais alto que uma pista comum. Os defensores justificam o investimento a fim de mitigar as mortes prematuras provocadas por problemas decorrentes da poluição do ar das cidades; sendo, evidentemente, mais barato investir no pavimento do que em atendimentos hospitalares causados pela poluição.

movimento 90 graus

ENERGIA FOTOVOLTAICA

Jardins verticais Proposta para a Rua Augusta em São Paulo

O MOVIMENTO 90 GRAUS EM SÃO PAULO Batizado de Movimento 90 Graus, devido ao ângulo da parede, o projeto que está sendo implantando na Rua Augusta, visa transformar fachadas de lojas em jardins verticais, usando suas paredes externas. Transformar o cinza em verde, mitigar a poluição, e aumentar a beleza urbana, esses são alguns dos benefícios esperados pelos seus idealizadores: a organização Augusta ComVida e o LAB SP, do Instituto Escola São Paulo. Segundo Guil Blanche, diretor Executivo do Movimento 90º, os jardins amenizam o barulho dos carros e diminuem as temperaturas. Mas, segundo ele, o benefício maior é em relação à poluição, o jardim consegue diminuir em 60% a quantidade de partículas inaláveis. As cidades se ressentem de uma falta de política ambiental, sentem a carência de verde. Qualquer pessoa pode plantar uma árvore, ou cultivar um jardim. A melhoria da qualidade de vida torna a cidade mais humana e, claro, muito mais bela, agradável e feliz. Confira o vídeo do Projeto 90 Graus: http://vimeo.com/63615442

A Universidade FUMEC está equipada com uma Usina Fotovoltaica, projetada e construída pelo corpo técnico da instituição (professores, funcionários, alunos e instalada por empresa terceirizada). O sistema é constituído de 24 módulos fotovoltaicos com potência nominal de 130W, ou 3,2kW no total. Isso equivale dizer que essa usina, diariamente, sob 8 horas de sol, coloca na rede interna da FUMEC o equivalente a uma energia de 25,6kWh, o que gera uma considerável economia na conta de energia. É importante destacar também que a usina está ligada à internet e é possível acompanhar a produção de energia em tempo real, por meio do IP: “189.37.131.52”. Ao Paulo Coutinho, consultor em projetos sustentáveis no Rio de Janeiro, que nos escreveu dizendo que está trabalhando na montagem de um projeto de minigeração de energia, utilizando placas fotovoltaicas para um pequeno shopping, indicamos Virgílio Medeiros, professor da Universidade FUMEC, do Curso de Engenharia Bioenergética. Detalhes e informações: medeiros@fumec.br

(*) Diretora da EcoConstruct Brazil www.ecoconstruct.com.br | Coordenadora do MBA Edifícios Sustentáveis (FUMEC). AGOSTO DE 2013 | ecológico  53

fotos: 1. Felipe gombossy 2.3. Reprodução

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OSMAR FREIRE

1 mundo empresarial

história e parceria Emerson de Almeida, Dom Serafim, Wagner Veloso e Pedro Passos

CARVALHOS

Fundação Dom Cabral comemora 37 anos de atuação consolidada e comprometida com a gestão empresarial Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

D

e raiz pré-romana, segundo o dicionário Aurélio, Carvalho é a designação comum a várias árvores ornamentais da família das Fagáceas, de rápido crescimento, que preferem lugares frescos, margens de rios e lagoas. Madeira de cerne firme, de lei, preferida na construção em geral. Foi assim, usando esta metáfora que, no último dia nove, lua nova de agosto, à beira da Lagoa dos Ingleses, em Nova Lima, na Grande BH, Emerson de Almeida e Wagner Veloso comemoraram os 37 anos de existência da Fundação Dom Cabral (FDC). Autor do livro “Plantando Carvalhos – Fundamentos da Empresa Relevante”, o fundador, e já há dois anos presidente da Diretoria Estatutária, comparou a história da FDC à firmeza e outras características deste tipo de árvore: “Como essa madeira de raízes profundas, aquele sonho lá atrás começado com Dom Serafim, de nos especializarmos em gestão empresarial, para sermos úteis e relevantes à sociedade, hoje se solidificou. Já

estamos presentes em 314 países. E o processo de transformação e renovação dessa nossa missão, a cada dia, com novos e tantos parceiros, não para” - disse Emerson, ressaltando a presença de Pedro Passos, um dos fundadores da Natura, hoje, a empresa mais admirada do país. Parabéns a todos que, como ele, fazem parte desta conquista” – agradeceu Emerson. Wagner Veloso, atual presidente

FOTOS: CARLOS OLÍMPIA

À LUZ DOS

da FDC, há 11 anos, partilhando este mesmo sonho, também fez referência aos 37 “carvalhos de vida já plantados, regados, crescidos e bonitos” na história da instituição: “Já temos nossos troncos, raízes e galhos atuando hoje nas principais capitais brasileiras e em várias partes do mundo, além das nossas montanhas. Através, e em rede com nossos associados, temos orgulho de sermos, cada vez mais, uma empresa brasileira útil à comunidade. Somos gratos por podermos contribuir na formação de uma sociedade melhor e sustentável” – enfatizou o dirigente da “Melhor Escola de Negócios” da América Latina, segundo ranking do Financial Times. O evento reuniu professores e colaboradores no Campus Aloysio Faria, durante almoço de confraternização ao som de músicos amadores da instituição (foto). 

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1 mObIlIZAÇÃO SOCIAl

RIO PARACATU A EXPEDIÇÃO DA ESPERAnÇA O maior afluente do São Francisco ainda é gigante e maravilhoso Fernanda mann

redacao@revistaecologico.com.br

S

ob o comando do experiente Norberto Antônio dos Santos, pescador, piloteiro e conhecedor profundo do Rio Paracatu, cerca de 40 pessoas partiram por suas águas. Era 31 de maio, e só agora saiu seu relatório que a ECOLÓGICO divulga com exclusividade. Por dois dias, 220 km foram percorridos, num total de 20 horas de navegação. A expedição pelo Paracatu cumpriu seu objeti-

vo, traçando por todo o percurso um diagnóstico visual das condições do curso d’água. Os quinze barcos partiram do Rio Escuro no município de Vazante, no noroeste de Minas. O primeiro destino foi Brasilândia de Minas, na mesma região. No outro dia, seguiram viagem até o destino final, São Romão, às margens do Rio São Francisco, no Norte de Minas. Participaram

da missão, membros do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Paracatu, técnicos do IGAM, vice-prefeitos de municípios da bacia do Paracatu, professores, biólogos, geólogos, o deputado estadual Almir Paracatu, um fotógrafo e um cinegrafista. Focados na observação, encontraram, além de grande beleza cênica, problemas que exigem soluções urgentes.

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FOTOS EVANDRO RODNEY

SAIbA mAIS O RIO Paracatu se encontra quase, totalmente, dentro de Minas Gerais, com pequenas áreas de topo adentrando Goiás e o Distrito Federal. Mais caudaloso afluente do Rio São Francisco, possui uns 300 quilômetros navegáveis, desde a sua foz até o extinto Porto Buriti. A partir desse ponto, encontramse cerca de dez corredeiras e diversas cachoeiras. “Paracatu”, do tupi-guarani quer dizer “rio bom”. Sua bacia encontra-se sobre o bioma Cerrado, tendo como tipos de vegetação: Veredas, Cerradões, Campos Cerrados e Parque de Cerrado. Também estão presentes na sub-bacia, ecossistemas de mata fluvial ciliar e mata seca.

DESAFIO O "Rio Bom" da Bacia Hidrográfica do São Francisco revela-se aos 40 navegantes que foram estudar suas águas

VEREDAS E nASCEnTES O Rio Paracatu contribui com 26% da água do São Francisco, sendo seu maior afluente. Equivale a 8% do território de toda a bacia e, mesmo assim, não possui estudos significativos. É o que afirma o presidente da ONG Movimento Verde e vice-presidente do CBH do Rio Paracatu, Antônio Eustáquio Vieira, conhecido como Tonhão. Existem estudos técnicos sobre a dimensão, localização, características e qualidade de suas águas, mas que não são suficientes para um empenho maior por sua preservação. À primeira vista, parece ser um rio em bom estado, mas em conversa com pescadores da região sobre a quantidade de peixes, ficou claro que houve redução expressiva. Um dos motivos é o desaparecimento das lagoas marginais, que

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foram drenadas por agricultores. As lagoas são utilizadas tanto para irrigar as plantações, quanto para cultivo nelas próprias, já que são áreas ricas em nutrientes. “Um dos impactos, por conta disso, é o uso de agrotóxico, contaminando o curso d’água. Mas, o principal efeito nocivo é a perda de sua função na reprodução dos peixes”, explica

Tonhão. Essas áreas, que, antes serviam como “berçários”, quando extintas, não permitem que os peixes completem seu ciclo de vida. Outra questão é a quantidade de águas. A primeira impressão é que há abundância. Mas um olhar mais atento revela a existência de apenas uma fina camada encobrindo os bancos de areia. Esses,

TOnHÃO Ambientalista, conhecedor e defensor do rio

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1 mobiliZAÇÃO social

VIDA A fauna aquática e terrestre e a flora dependem da qualidade das águas do rio

inclusive, existem por, praticamente, toda a extensão do rio. É o que relata Tonhão. “Mesmo no período pós-chuvas, a navegação não foi fácil. Supõe-se que esses bancos sejam fruto da diminuição das enchentes e regularização do fluxo d’água, após a construção da barragem de Queimados para a geração de energia hidroelétrica. Isso faz com que o rio perca força para levar os sedimentos curso abaixo", explica. O fato de as águas estarem diminuindo tão rapidamente, logo após o período chuvoso, indica que as nascentes e veredas não estão sustentando a bacia. Segundo Tonhão, o rio Paracatu perdeu 25% de sua vazão, nos últimos cinquenta anos. Isso ocorre porque as nascentes e veredas não estão cumprindo sua função de alimentá-lo. “Quando chove, ele enche, mas, com poucos dias, está com seu nível baixo novamente." ÁREAS DE RECARGA Além delas, existem áreas de recarga do aquífero. São regiões

cujo solo favorecem a infiltração da chuva. É assim que as nascentes e veredas são abastecidas e, delas, a água segue para o rio. “O fato dessas áreas terem sido dizimadas, em grande escala, pela agricultura e pecuária, matou as nascentes. Quando chove, a água bate, lava tudo o que está na região e carrega para o rio. Por isso, ele está assoreado”, justifica o presidente da Movimento Verde. Não existe um mapeamento destas áreas de recarga. Elas são muito específicas. Devido ao solo e à vegetação existente, agem como uma “esponja”, que infiltra a água, recarregando o lençol freático de onde segue para as nascentes. Outra questão são as dragas que extraem areia do fundo do Paracatu. Segundo Tonhão, a priori, elas atuam de maneira mais adequada, uma vez que não foi observado nenhum retorno de água para o leito do rio, o que causa erosão nas margens. No entanto, estavam desligadas no momento em que a expedição passou, por conta de um feriado. “Entende-

mos que esta atuação criteriosa, se deve aos licenciamentos ambientais que orientam para estes procedimentos”, salienta. DESAFIOS Na região do município de Paracatu, principalmente na margem esquerda do rio, há uma grande quantidade de ranchos que invadem a Área de Preservação Permanente. Isso causa impactos com a queda de barrancos e construções de ancoradouros e embarcadouros. É verdade que, em geral, podese destacar uma exuberante mata ciliar (vegetação ribeirinha) por toda sua extensão. No entanto, essa constitui uma faixa muito estreita, que não contempla as dimensões necessárias à saúde do rio. Tonhão explica que um cuidado relevante relaciona-se à gestão dos solos na bacia. Principalmente, as estradas rurais que, segundo ele, contribuem para mais de 70% da morte dos corpos d’água. Todas essas questões, somadas às barragens e a outras intervenções, diminuem a vazão do rio

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FOTOS EVANDRO RODNEY

APRENDIZADO Expedicionários param para observar e fotografar a paisagem

e a força com que ele chega ao oceano. Assim, o São Francisco, que recebe as águas do Paracatu, chega com menor pressão ao oceano Atlântico. “Dizem que o Velho Chico, quando descoberto por Américo Vespúcio, em 1500, abastecia as embarcações com água doce, quatro quilômetros depois da foz. Hoje é o mar que invade o rio. Para se ter uma ideia, existe um peixe que vivia nesta área de encontro onde a água é meio doce, meio salobra, mas tem sido pescado há cerca de 150 quilômetros dentro do São Francisco”, conta Tonhão. REVITALIZAÇÃO Ainda assim, Tonhão que é biólogo e já desceu o Paracatu sete vezes, acredita que, se houver espaço para um diálogo com a sociedade, a situação será descomplicada. “Revitalizar é fazer com que os corpos d’água que abastecem o rio voltem a ter seu papel biológico natural, e isso depende da atuação das comunidades e do governo." A expedição vai gerar uma revis-

ta informativa e um documentário que serão distribuídos por todas as escolas da região da bacia. As reuniões do CBH Paracatu são itinerantes e, por cada lugar que passam, exibem fotos do rio para receber alunos e moradores que serão convidados a conhecê-lo sob nova perspectiva. O Parlamento do Rio A analista ambiental do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, (Igam) Sônia de Souza Lima, também presente na expedição, concorda que o mais importante é mobilizar a população. Para ela, um dos pontos altos da expedição foi o fato de os novos conselheiros do CBH terem participado. “O Comitê é o parlamento do rio. Agora eles o conhecem para defendê-lo”. Sônia conta que os piloteiros dos 15 barcos, que participaram da descida, são pescadores e estão mobilizados pela causa. “A gestão dos recursos hídricos deve ser participativa e descentralizada. Muitos moradores já são ativistas. Em Três Marias, por exemplo, eles

Saiba mais

LAGOAS MARGINAIS, A ALMA DO RIO Quando os peixes põem os ovos na água e os fecundados eclodem em pequenas larvas, estas procuram as lagoas marginais. Ali, onde o ambiente é mais calmo e a temperatura ideal, encontram fartura de alimentos e se desenvolvem até que venha a próxima chuva. As águas costumam cair um ano depois e os peixes, já grandinhos, são levados pela enchente de volta ao rio, onde dão continuidade ao ciclo. Uma ideia interessante para proteção desse espaço vital, que alimenta e dá vida aos cursos d’água, seria criar Áreas de Preservação Permanente, onde as lagoas marginais ficassem preservadas. Já existem casos de sucesso, de iniciativas parecidas, como o Projeto Recifes Costeiros, que, em parceria com pescadores e a comunidade local, protegem as áreas onde existem muitos recifes e corais. Assim como as lagoas marginais, estes são locais de reprodução essenciais à manutenção da fauna aquática. Segundo Tonhão, a ideia é criar um projeto dentro do rio Paracatu, onde há mais lagoas preservadas, resguardando-as da pesca, da agricultura e da pecuária. Ele afirma que muitos produtores e moradores se mostraram favoráveis ao projeto e prontos a colaborar. “Falta, agora, um passo concreto do IBAMA em nos apoiar e aí, sim, firmarmos um pacto entre os pescadores e produtores, para que a área fique intocada”, explica.

se reúnem em mutirões de limpeza do rio, o que mostra consciência e empenho. Deveríamos fazer o mesmo em toda sua bacia. Para ela, o potencial turístico do rio e da região é uma boa ferramenta para sua preservação. Afinal, ela descreve: “o Paracatu ainda é gigante e maravilhoso”.  AGOSOTO DE 2013 | ecológico  59

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divulgação semad mg

1 RECURSOS HÍDRICOS

Revitalização O propósito da iniciativa é recuperar a biodiversidade do Rio das Velhas

Indústria adere à

Meta 2014 Fiemg e Manuelzão se unem pela revitalização do Rio das Velhas, incentivando empresas a identificar e tratar seus efluentes Bia Fonte Nova

redacao@revistaecologico.com.br

O

esforço pela revitalização do maior e mais poluído afluente da Bacia Hidrográfica do São Francisco em Minas acaba de ganhar um importante reforço. Até dezembro do ano que vem, 1,2 mil indústrias estarão unidas no nobre propósito de devolver vida e biodiversidade ao Rio das Velhas, cuja bacia se estende por 51 municípios mineiros. A

iniciativa partiu da Federação das Indústrias (Fiemg) e do Serviço Social da Indústria (Sesi), por meio do Programa Minas Sustentável, que passou a integrar, deste 1º de agosto, a Meta 2014, projeto estratégico do governo estadual. Na sede da Fiemg, o presidente da entidade, Olavo Machado Junior, e o idealizador do Projeto Manuelzão, o professor e

ambientalista Apolo Heringer Lisboa, assinaram um termo de cooperação para formalizar a nova parceria. O foco da atuação será a gestão da água, de resíduos e de efluentes, buscando soluções que gerem economia e receita para as empresas. A união das duas entidades visa à melhoria da qualidade hídrica e ecológica nas sub-bacias dos ribeirões

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Com 801 quilômetros de extensão, o Rio das Velhas nasce em Ouro Preto e depois toda poluição de BH e Contagem, trazida pelo Arrudas, deságua no Velho Chico no distrito de Barra do Guaicuí, município de Várzea da Palma. A população da Bacia é estimada em 4,4 milhões de habitantes. Criado em 2010 pela Fiemg, o Programa Minas Sustentável busca estimular modelos produtivos mais responsáveis e promover o desenvolvimento sustentável da indústria mineira. SAIBA mais: www.fiemg.com.br www.manuelzao.ufmg.br

Itabirito, Arrudas, Onça, da Mata, Jequitibá, Água Suja, Caeté-Sabará e Jaboticatubas. Por meio do Minas Sustentável, serão desenvolvidas ações em conjunto com as indústrias, contribuindo para a melhoria da qualidade das águas do Velhas e, em contrapartida, também preparando as empresas para as futuras adequações que serão exigidas pela legislação ambiental. “O rejeito é desperdício, ou seja, prejuízo para o empresário. Vamos trabalhar pelo tratamento e reuso da água pelas empresas, para que elas sejam mais rentáveis e competitivas”, afirmou Olavo. A Fiemg também vai oferecer um diagnóstico socioambiental gratuito às indústrias da região, assim como promover atividades de capacitação e visitas técnicas aos empreendedores, incentivando a redução do consumo e o reuso de água em seus processos, bem como o tratamento e a correta disposição de efluentes líquidos e resíduos. O investimento total será de R$ 1,5 milhão.

centro da poluição na bacia e se estende da foz do Rio Itabirito, que banha os municípios de Itabirito e Rio Acima, até o Ribeirão Jequitibá, que se estende por Funilândia, Jequitibá, Prudente de Moraes e Sete Lagoas. As ações nesse trecho da Bacia envolvem obras de saneamento, educação socioambiental, mobilização e participação social, incentivando a mudança de comportamentos e de atitudes da população. Apesar de ocupar apenas 10% da área territorial da Bacia do Velhas, a RMBH é a principal responsável pela sua degradação, devido à sua elevada densidade demográfica, processo de urbanização e atividades industriais. Ao esgoto doméstico e lixo descartado às margens do Rio das Velhas e de seus afluentes também se misturam resíduos de indústrias têxteis, de alimentos e mineradoras, além de óleos, graxas, soluções de baterias energéticas; tintas e diversos produtos químicos provenientes de postos de gasolina, lava-jatos e oficinas mecânicas, entre outros.  sebastião jacinto jr.

fique por dentro

LUTA conjunta Apolo Heringer destacou a importância da ação conjunta com a iniciativa privada, o que demonstra o amadurecimento da sociedade em sua luta pela conservação dos recursos hídricos. “A aproximação para a resolução de problemas comuns vai ajudar empresas, principalmente as micro e pequenas, a ter gestão ambiental, uma dificuldade real enfrentada por elas, que têm equipes reduzidas e estão sufocadas pelas altas taxas de impostos. O Manuelzão não tem poder para recuperar o rio sozinho, e ninguém aguenta mais a poluição”, ponderou. A proposta de revitalização do Rio das Velhas nasceu em 2003, após uma expedição realizada pelo Projeto Manuelzão. A iniciativa, então denominada Meta 2010, foi renovada e abraçada quatro anos depois pelo governo de Minas, que já investiu cerca de R$ 1,2 bilhão e mantém vivo o compromisso de navegar, pescar e nadar no rio, em sua passagem pela Região Metropolitana de BH. Esse trecho é considerado o epi-

parceria Olavo e Apolo Heringer durante assinatura do termo de cooperação AGOSTO DE 2013 | ecológico  61

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1 Polêmica

proposta Cerca de 150 capivaras devem ser removidas da Lagoa da Pampulha ao custo de R$ 350 mil: solução?

Fica, Capivara!

Ativistas constituem grupo contrário à remoção de até 150 animais da orla da Pampulha, um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte Vinícius Carvalho

redacao@revistaecologico.com.br

A

prefeitura de Belo Horizonte prevê para setembro o início dos trabalhos da empresa responsável pelo manejo das capivaras na orla da Lagoa da Pampulha. Devem ser removidos até 150 animais - 90% do total - a um custo de R$ 350 mil. Os 10% restantes ficarão na Pampulha e serão monitorados pela empresa vencedora da licitação. “O número de capivaras cresceu de maneira vertiginosa.

Vamos agir preventivamente e evitar riscos para a população”, diz o vice-prefeito e secretário municipal de meio ambiente, Délio Malheiros. A iniciativa é contestada por ambientalistas contrários à proposta, que formaram um grupo de trabalho para tentar debelar a remoção. Uma das principais críticas, segundo o grupo, é a falta de consulta pública sobre a melhor forma de realizar o

manejo. “A prefeitura alega três problemas principais: o risco de doenças, danos ao patrimônio e transtornos à população. Nenhum deles se sustenta”, argumenta o biólogo Leandro Guimarães, cuja pesquisa reúne estratégias de contenção das capivaras em projetos de recomposição de mata ciliar na bacia do Rio das Velhas, de onde vêm os animais. A Ecológico ouviu os dois lados.

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FOTOS FERNANDA MANN

ENTENDA o caso Conheça os argumentos de quem é contra e a favor da remoção de 90% das capivaras l ESTRATÉGIA

O que diz quem é a favor: A remoção das capivaras é a melhor estratégia. Para assegurar o bem -estar dos animais, a melhor forma de manejo será validada em conjunto com a Fundação Zoobotânica e o Ibama. Dos 170 animais, cerca de 10% serão mantidos no local e monitorados de forma permanente pela empresa vencedora da licitação. O que diz quem é contra: A prefeitura deveria realizar consulta pública antes de determinar o destino das capivaras. Além de ser um procedimento caro, há dúvida com relação ao destino dos animais. Em outra remoção do tipo, realizada em 2011, as capivaras removidas não foram abatidas, mas serviram de matriz de reprodução para filhotes que foram sacrificados e tiveram a carne comercializada. l PATRIMÔNIO

O que diz quem é a favor: As capivaras estão se alimentando dos jardins restaurados de Burle Marx. A descaracterização ameaça o reconhecimento do Conjunto Arquitetônico da Pampulha como patrimônio cultural da humanidade, cuja candidatura é avaliada pela Unesco. A recuperação já custou R$ 4 milhões até aqui. O que diz quem é contra: O cercamento dos jardins é medida suficiente para preservar os jardins de Burle Marx. Outra opção seria atrair os animais para outras áreas da orla a partir da plantação do capim de batatais. Estudos já realizados ao longo da bacia do Rio das Velhas mostram que este capim é o prato preferido dos roedores. Onde está plantado, é até oito

proteção Cerca instalada no Museu de Arte da Pampulha já impede a entrada dos animais: porquê não mantê-la?

vezes mais procurado pelas capivaras que outras espécies vegetais.

fique por dentro

l FEBRE MACULOSA

O que diz quem é a favor: A presença dos animais amplia o risco de contaminação por febre maculosa, transmitida pelo carrapato -estrela, frequentemente encontrado nas capivaras. O que diz quem é contra: O mesmo carrapato que transmite a febre maculosa parasita tanto capivaras como cachorros, aves, gatos e outros animais presentes na orla. Se o problema é este - ou seja, o risco de transmissão da febre maculosa -, as capivaras não seriam as principais ameaças. l DESCONTENTAMENTO

O que diz quem é a favor: As capivaras ampliam os riscos de atropelamento e incomodam os moradores da Pampulha, que começam a ter seus jardins comprometidos. A ação é preventiva. O que diz quem é contra: A prefeitura não apresenta dados que

As capivaras Mamíferos nativos da América do Sul, elas vivem em grupos que vão de 10 a 20 indivíduos, compostos por um macho dominante, várias fêmeas e filhotes e alguns machos subordinados. O animal atinge a maturidade sexual ao pesar cerca de 40 kg, geralmente por volta de 1,5 ano. O período de gestação é de 130 dias, podendo levar a ninhadas de até oito filhotes por ano. Elas requerem um mosaico de ambientes, incluindo um corpo d’água para locomoção, fuga de predadores e cópula; pastagens para alimentação; e uma área florestada para abrigo e reprodução.

comprovem a insatisfação. Pelo contrário, uma pesquisa realizada por alunos do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG com frequentadores da Pampulha mostra que 95% dos entrevistados são a favor da permanência das capivaras na orla.  AGOSTO DE 2013 | ecológico  63

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1 PRESERVAÇÃO

risco de extinção Espécie arisca e rara que, há poucos anos, era encontrada em abundância no Brasil, Argentina e Paraguai

LÁ VÊM OS PATOS Terra Brasilis, da luta contra a extinção do pato-mergulhão ao compartilhamento de saberes por uma biblioteca verde e digital Fernanda Mann

redacao@revistaecologico.com.br

O

pato-mergulhão, ave de longa crista na cabeça e pescoço de cor negra, é uma espécie-chave, já que ocorre apenas em rios de águas transparentes e limpas, indicando a boa qualidade ambiental do ecossistema. Diante disso e de sua iminente ameaça de extinção, o animal tornou-se alvo de uma das principais ações do Instituto Terra Brasilis: o projeto “Pato Mergulhão”. Quando o Terra Brasilis começou a revisão do Plano de Manejo do Parque Nacional da Serra da Canastra, há 12 anos, existiam algumas informações sobre a ocorrência da espécie na região. O pato, entre

as dez espécies de aves aquáticas mais ameaçadas no mundo, motivou a criação do programa, que, atualmente, é o maior e o mais antigo do Instituto. O curioso animal, Mergus octosetaceus, é uma espécie arisca e rara que, há poucos anos, era encontrada no Brasil, Argentina e Paraguai. Mas, há algumas décadas, só é vista em terras brasileiras e, mesmo assim, em regiões específicas. Existiam registros históricos de sua presença do Paraná até São Paulo, mas, atualmente, só é encontrada em três regiões: dentro e no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas; no

Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás; e no Parque Estadual do Jalapão, em Tocantins. No início da pesquisa feita pelo Instituto, o pato era pouco conhecido. Apenas um ninho havia sido registrado na Argentina, descoberto em 1951. Na Serra da Canastra, o animal era encontrado ao longo do rio São Francisco, em seis territórios, definidos como as parcelas no curso d'água, onde um casal se alimenta, repousa e acompanha seus filhotes. Geralmente, a dupla ocupa de cinco a dez quilômetros. CONHECER PARA PROTEGER A primeira ação do projeto foi pro-

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FOTOS ADRIANO GAMBARIN

CASAL FIEL Maio é época de reprodução do pato-mergulhão, quando se formam os casais que continuam juntos por toda a vida

curar novas ocorrências, o que proporcionou contato com a comunidade e uma noção do quanto conheciam sobre a espécie. Foram feitas buscas com botes e caminhadas, por mais de 400 quilômetros. Os pesquisadores distribuíram fichas para que os moradores locais fornecessem dados sobre ninhos e animais encontrados. Com isso, o número de indivíduos conhecidos tornou-se dez vezes maior, somando 60 territórios registrados. Calcula-se que, hoje, existam, no mínimo, 120 patos. O conhecimento sobre o comportamento da espécie também avançou. É sabido que os casais ficam juntos por toda a vida e utilizam um mesmo ninho, durante as várias ninhadas. Diante disso, o próximo passo é experimentar as caixas-ninho, feitas de madeira, com uma abertura. Elas são depositadas na beira do rio, onde a postura dos ovos é feita. A expectativa é que os bichos adotem as caixas e, com isso, haja um aumento da população. “Trata-se

“A sustentabilidade é almejada, inclusive pelas empresas, mas tem que ser entendida dentro das suas limitações de alcance Sônia Rigueira

de um teste que começou no ano passado, mas como foram distribuídas muito próximas ao período de reprodução, não houve tempo das caixas se integrarem ao ambiente. Nos últimos anos, também foram feitas marcações com anilhas e utilizados radiotransmissores, sempre evitando o estresse do animal”, explica Lívia Lins, coordenadora do projeto. Segundo ela, a fase é de busca por novas informações sobre o comportamento das aves, por exemplo, no período da chuva que torna a água turva, ou para

onde vão os filhotes depois que crescem. Isso ajudará a traçar seu padrão de dispersão. “Já acompanhamos um filhote que nasceu em um rio e reproduziu em outro, a mais de 20 km de distância. Essa informação é determinante para a conservação da espécie e fortalece a proteção do meio ambiente e da biodiversidade como um todo”, ressalta. EIXOS SUSTENTÁVEIS O projeto abrange três grandes eixos: o fomento do conhecimento a respeito desta espécie que habita o Cerrado e a Mata Atlântica; a educação ambiental, dentro e fora das comunidades, a partir de peças teatrais, palestras e material de divulgação; e o trabalho de conscientização, junto ao produtor rural, o que também ajuda na recuperação de áreas degradadas. “A ameaça da espécie está diretamente ligada à degradação de seu meio ambiente. Sua conservação depende da sensibilização das pessoas, e nós trabalhamos muito

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JAIRO ABUD

1 PRESERVAÇÃO

FERNANDA MANN

ECOTECA O Parque Nacional da Serra da Canastra é uma das UCs que possuem plano de manejo disponível na biblioteca digital

DEDICAÇÃO Sônia Rigueira, Sônia Carlos e Lívia Lins

o orgulho delas em abrigar uma espécie tão rara. Além disso, se existe pato-mergulhão na região é porque ainda há rios de água limpa, o que é fundamental para a comunidade”. Hoje, completa Lívia, qualquer pessoa em São Roque de Minas sabe reconhecer o pato-mergulhão e as condições necessárias para sua sobrevivência. Mas a prática de preservação das nascentes e matas ciliares é mais difícil de ser alcançada, pois exige mudanças em costumes enraizados através de gerações. Os próprios produtores percebem que as águas de muitos dos rios onde nadavam quando crianças, hoje, não passam de seus tornozelos. “Práticas costumeiras como deixar o pasto

ir até a margem das águas ou deixar que o gado entre, culminam no pisoteio de ninhos, desbarranco e assoreamento. Sabemos que a mudança é um trabalho de longo prazo, mas já temos alguns resultados”, conta, otimista. A BIBLIOTECA SEM PAREDES Se informação é ponto de partida para a mudança, o mais recente projeto - Ecoteca Digital - vem diretamente ao encontro desse fim. Sua grande vantagem é não ter limites geográficos, atingindo diversos estados e almejando novas fronteiras na América Latina. “Por que não?”, indaga Sônia Carlos, criadora e coordenadora da iniciativa. Ela percebeu que muitos gestores e agentes que trabalham com áreas

protegidas, como os gerentes de Unidade de Conservação, tinham dificuldade em achar bibliografias interessantes. A Ecoteca Digital veio suprir esta carência. A iniciativa é uma ferramenta útil também às instituições acadêmicas. “A ideia é abrir o leque. Assim, nos aproximamos de nossa atividade fim, que é a conservação do patrimônio natural”, explica Sônia. A biblioteca é de fácil acesso, conta com 1.364 volumes, entre livros, artigos e cartilhas, e os dowloads são gratuitos. São 14 "estantes" divididas em diversos temas. Todo primeiro dia útil do mês são acrescentados cerca de 60 novos títulos. Não existe nenhuma biblioteca sobre meio ambiente comparável no Brasil. Mais um ponto positivo que rendeu ao projeto o Prêmio de Gestão Ambiental pela ONG Zeladoria do Planeta, na categoria "inovação". O INSTITUTO A ONG Instituto Terra Brasilis, fundada por uma bióloga, um geógrafo e um sociólogo, comemora 15 anos. Uma jornada que inclui mais de 50 projetos. Além do "Pato Mergulhão", desenvolve outros três importantes programas: o de “Exposições Ambientais”, que tem um viés na área de comunicação e educação ambiental; o “Programa de Proteção e Combate a Incêndio” e o caçula e inovador “Ecoteca Digital”. Sônia Rigueira, presidente da instituição, conta que o objetivo inicial do Terra Brasilis era constituir um currículo que abrangesse trabalhos com princípios éticos, responsabilidade, qualidade e fundamentos técnico científicos. “Quem vive com essa dinâmica de buscar apoio a projetos sérios, de qualidade e, preferencialmente, de longo prazo, tem um desafio diferente, mas muito estimulante”, ressalta.  Saiba mais

www.terrabrasilis.org.br

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1 FAUNA

monitoramento Papagaio equipado com anilha e microchip para rastreamento feito por biólogos e veterinários do Ibama

De volta pra casa Papagaios, vítimas do tráfico, são devolvidos à natureza pelo Ibama Maria Teresa Leal

redacao@revistaecologico.com.br

T

rinta papagaios ganharam, recentemente, a liberdade em área previamente cadastrada pelo Ibama, em Pedro Leopoldo, região metropolitana de Belo Horizonte. Achou pouco? Mas não é. Para conseguir o feito, biólogos, veterinários, estudantes e voluntários trabalharam, intensamente, durante cerca de um ano. As aves estavam na sede do órgão recuperando-se de maus tratos sofridos pelo tráfico de animais e integram o Programa de Revigoramento e Monitoramento de Papagaios Verdadeiros (Amazona aestiva) em área de Cerrado ou, simplesmente, Projeto Voar. A iniciativa é uma parceria do Ibama com a ONG Instituto de Pesquisa e Conservação Waita,

Fundação Boticário, Instituto Estadual de Florestas (IEF), Laboratório de Doenças das Aves da UFMG, Laboratórios TECSA e ADN. A bióloga do IEF e coordenadora do Projeto Voar, Alice Lopes, explica que as aves apreendidas pela Polícia Militar do Meio Ambiente ou entregues voluntariamente na sede do Ibama vão para o Centro de Triagem de Animais Silvestres, Cetas. Lá, passam por exames físicos, clínicos, químicos e parasitológicos. Ao final de um tempo - que pode ser de seis meses a um ano, dependendo das condições em que se encontram os animais -, eles são levados para um viveiro de aclimatação numa área de soltura, devidamente cadastrada pelo Ibama.

A bióloga explica que as aves passam por treinamentos de voo e alimentar, e metade é submetida também a exercícios anti-predação. “Elas foram colocadas em contato com uma jaguatirica e um gavião taxidermizados (empalhados), que são dois de seus principais predadores, além de serem treinadas também contra o ser humano. A intenção é ensiná-las a defender-se no caso de um ataque real”, informa Alice, acrescentando que esse treinamento foi, inclusive, tema de uma pesquisa de mestrado de uma aluna da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Ao final dessa etapa, os papagaios considerados aptos participam da chamada “soltura branda ou suave”.

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De volta pras montanhas Ibama assina acordo para gestão compartilhada da fauna

BANQUETE Ave na “Área de Soltura”

ACORDO Presidente do Ibama, Volney Zanardi, e o secretário Adriano Magalhães durante assinatura da cooperação

tiva para que os governos possam se estruturar a fim de assumir integralmente a gestão da fauna. Continuaremos com ações relacionadas à fauna, entre elas aquelas envolvendo a coibição do tráfico de animais”, explicou Zanardi Júnior. Segundo o superintendente do

IBAMA em Minas Gerais, Evandro Xavier Gomes, foi estabelecido um plano de trabalho para a transição das atividades. “O corpo técnico do IBAMA/MG é altamente capacitado e detém um conhecimento específico burilado em anos de experiência no trato das questões de fauna.”

FOTOS ALICE LOPEs

Lá é feita a abertura dos portões dos viveiros para que o animal saia quando quiser. Por precaução, foram colocados comedouros, com alimentação suplementar. Com o passar do tempo, os papagaios aprendem a se alimentar sozinhos. “Já presenciamos vários se virando na nova morada e, até mesmo, já formando casais, distanciando-se cada vez mais da área de soltura e alimentando-se de espécies da natureza”, relata Magda Rocha, bióloga do Waita. Ainda, por ao menos um ano, técnicos do Instituto vão acompanhar a readaptação desses animais. Segundo o analista ambiental Daniel Vilela, do Ibama, as aves estão sendo monitoradas pelo sistema de rádio telemetria. Ou seja,

JANICE DRUMOND / ASCOM SISEMA

O

Presidente do IBAMA, Volney Zanardi Júnior, assinou, no último dia 5, Dia Mundial do Meio Ambiente, em Belo Horizonte (MG), Acordo de Cooperação Técnica para a gestão compartilhada da fauna no estado de Minas Gerais. Esse é o primeiro passo para que o Governo Federal repasse para Minas Gerais a responsabilidade pela gestão da fauna, de acordo com as determinações da Lei Complementar 140/2011, que descentraliza a gestão ambiental ao prever a cooperação da União, Estados e municípios nestas ações. Para o presidente do IBAMA, o acordo vem em momento oportuno. “Minas Gerais é o sétimo estado a firmar esse tipo de acordo, trabalhando nessa perspectiva de cooperação com o Governo Federal. Tudo será feito de forma grada-

REAPRENDIZADO Papagaio arrisca um voo tímido, próximo ao viveiro

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ALICE LOPEs

1 FAUNA

BANQUETE Ave se delicia com as frutas colocadas no comedouro na “área de soltura”

soas duvidam que seja possível fazer a readaptação à natureza desse tipo de ave por sua característica de ser “muito ligada ao ser humano”. Além disso, elas são muito visadas pelos contrabandistas pela rara habilidade da fala. Muitas aprendem até a latir e cantar o hino do Galo, do Cruzeiro... “É a espécie mais traficada em todo Brasil, uma ave divertida que encanta adultos e crianças”, pontua a bióloga. Para se ter uma ideia, um exemplar no mercado negro, chega a custar até mil reais. Mas Alice lembra que é, exataSUZIANE FONSECA

elas foram equipadas com um colar radiotransmissor para serem localizadas na mata. Os técnicos fazem a busca por um receptor de rádio, que indica a localização exata. A expectativa dos técnicos é que estes novos indivíduos contribuam para o revigoramento populacional da espécie na região, que sofre muito com a retirada de filhotes dos ninhos todos os anos. Vinte por cento dos animais, estão equipados com os rádios que emitem o sinal VHS. Além disso, todos foram microchipados e marcados com anilhas e tinta atóxica. Vale tudo, para vigiar os bichinhos... Os participantes do projeto usam também binóculo e máquina fotográfica! Iniciativa inédita Wander Mesquita, presidente do Waita ressalta que essa é a primeira vez que se realiza uma “soltura monitorada de papagaios” em Minas Gerais, o que representa “um super avanço”. Muitas pes-

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mente, essa atratividade que fomenta o tráfico e ameaça a espécie, causando um desequilíbrio ecológico. “As pessoas precisam ter mais consciência e pensar duas vezes antes de adquiri-la”, alerta. Em Juiz de Fora, o Cetas recebe cerca de 2.500 animais por ano, sendo 95% aves, e em Belo Horizonte, o mesmo órgão recebe, em média, 10.800 animais por ano. Por falar nisso, quem encontrar uma ave ou qualquer outro animal da fauna silvestre e quiser entregá -lo ao Ibama, deve levá-lo à sede do órgão que fica na (Av. do Contorno, 8121, Cidade Jardim), sem risco de multa ou sanções. A expectativa de Alice e sua equipe é que iniciativas como a do Projeto Voar possam ser replicadas e as metodologias aprimoradas para que outras espécies possam voltar em segurança para a natureza. Outros objetivos são estabelecer a população em cativeiro e em vida livre em suas áreas de ocorrência. 

evandro xavier Experiência caseira

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1 marketing

minimalismo Artista representou ‘cenas familiares’, fiel ao seu estilo inspirado na literatura de cordel e nas rendas do Ceará

nOS tapumes da cidade Artista plástico compõe painel sobre “família” para obra de construtoras Maria Teresa Leal

arquivo pessoal

redacao@revistaecologico.com.br

patrícia freitas Iniciativa inovadora

Q

uem passar pela Rua dos Otoni, entre Maranhão e Grão Pará, no bairro Funcionários, vai se surpreender com a beleza das representações em tinta acrílica, vinílica e serigráfica num painel de madeira de cerca de 11 metros. A pintura, do artista piauiense Rogério Fernandes, enfeita o tapume de uma obra das empresas Somattos e Patrimar Engenharia e é a primeira intervenção do projeto “Tapume com Arte” da Fundação Municipal de Cultura (FMC). Sob um fundo laranja, Rogério Fernandes escolheu o tema “família” para ilustrar os tapumes. As cenas interligadas mostram si-

tuações de convívio de uma família tradicional (pai, mãe e dois filhos), divertindo-se, conversando ou passeando pela cidade. Para compor as pinturas, o artista usou técnica mista, alternando pincéis e sprays nas cores preta, branca e prata. “Gosto de desenhos bem minimalistas e com grafismos, mas sem muita poluição”, explica. Além de pintor, Fernandes é muralista, ilustrador, cenógrafo, escultor e designer. De origem nordestina, mas morando há 15 anos em Belo Horizonte, ele se inspira nas rendas de Fortaleza, nos crochês do Maranhão e nos cordéis de Pernambuco. Estudou gravura na Escola Guignard e na

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incentivo à arte Carlos Henrique Bicalho, diretor de Patrimônio da FMC, conta que

nathália turcheti

UFMG e possui especialização na Central Saint Martins, de Londres, e na Fundação Memória Gráfica de Minas Gerais. Além disso, tem, em seu currículo, participações em mostras de Viena, Lisboa, Madri, Buenos Aires e Miami. Quando recebeu o convite para inaugurar o projeto “Tapume com Arte”, Fernandes topou na hora. Feliz e honrado, ele disse não haver “galeria de arte melhor do que a rua. Minha meta sempre foi ajudar a democratizar o acesso aos meus trabalhos e aos dos meus colegas de profissão”, sentencia. Durante os dois dias em que compôs o mural na Rua dos Otoni, o artista não se incomodou com a presença dos curiosos. “Já estou acostumado. Acho bom saber que as pessoas se interessam e querem saber, em detalhes, como é feito um mural desse tamanho”, comentou. Fernandes espera que sua pintura desperte nas pessoas sentimentos, como afetividade, amizade e harmonia . Ele torce para que, em breve, toda a cidade esteja salpicada de painéis do mesmo tipo, mas com diferentes estilos, cores e formas. Segundo a coordenadora de marketing da Somattos Engenharia, Patrícia Freitas, a iniciativa é importante e inovadora, pois atende ao interesse dos empreendedores, privilegiando o visual da cidade. Primeira empresa a concluir o processo de aprovação, de acordo com as normas do projeto, a Somattos/Patrimar tem como proposta trazer para a cidade um painel colorido, alegre e familiar. “O Rogério é um artista engajado e envolvido em vários projetos, sentimos a empolgação dele em participar do Tapume com Arte, o que possibilitou essa parceria perfeita”, afirma Patrícia.

ao vivo A pintura de Fernandes foi feita sob olhares de uma plateia curiosa

a intenção é incentivar a produção artística no ambiente urbano, transformando os usuais tapumes de construções em painéis que funcionem como suporte para obras de artes visuais. As intervenções poderão contemplar diversas técnicas, como grafite, fotografia, pintura e plotagem. Ao final, o conjunto de obras deve ser reunido numa grande mostra. Bicalho conta que a ideia ganhou corpo com o aumento das obras civis na cidade e a inevitável integração do tapume à paisagem do morador de Belo Horizonte. “Eles permanecem na cidade durante o tempo de duração da obra, reforma ou demolição e, na maioria das vezes, não recebem nenhum tratamento estético. Agora isso vai mudar.” Os artistas interessados em ter suas obras expostas devem cadas-

trar seus portfólios na Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura. Na sequência, os empreendedores que quiserem participar do projeto são apresentados a esse banco de dados para escolherem o artista de preferência. Os formulários de inscrição podem ser consultados / acessados / preenchidos no site: bhfazcultura.pbh.gov.br; e as normas foram publicadas no Diário Oficial do Município (DOM) do último dia 3 de julho. A implementação do projeto “Tapume com Arte” tem como base o Decreto Municipal nº 15.155, de 26 de fevereiro de 2013, que trata da possibilidade de instalação de publicidade nos tapumes de construções, desde que o empreendedor destine uma área de, no mínimo 50%, para a veiculação de obras de arte.  AGOSTO DE 2013 | ecológico  75

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GESTÃO & TI

ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

LIBERDADE DIGITAL

- Computador, eu estou com fome?

A

gente, às vezes, esquece a causa que nos move. os homens de tecnologia têm a missão de guardar e Saímos pela rua em movimentos que querem proteger, se forem de bem. mudar o mundo e tudo se confunde em nossa E não era algo novo. O primeiro homem falou dela cabeça. Gente de toda idade e cartazes de toda cor e e o último também falará, porque, sem ela, a vida credo, todos pedindo, de formas diferentes, só para não faz sentido. sermos felizes. Falo da liberdade, agora transmutada em liberdaEntão, no meio do burburinho, a gente acorda e se de digital. pergunta: que parte a minha nesse bolo? Que causa a Não creio que a tenhamos. Eu, homem de tecnominha no meio de tantas causas? logia, não posso dormir tranquiProtestar dá trabalho. Estive lá e, lo sendo vigiado e tendo minhas Inclusão digital é causa ideias censuradas na internet. Eu, enquanto caminhava por quilômetros, fiquei pensando na causa despara os burgos podres pai, empresário e cidadão, não te que sou eu, um ser digital que ignorar o delicado limite e distantes, como diria posso quer ser sustentável. da internet, oscilando entre insTancredo Neves Minha causa podia continuar trumento de controle dos povos e a ser aquela de incluir as gentes única esperança de sua libertação. que não falam com computadores, um misturado de Se ninguém fizer nada, achando que os governos medo, respeito e falta de dinheiro. Mas, fazer o quê? estão fazendo, vou acordar um dia, ligar o smartphoAs Casas Bahia trataram de resolver este problema nos ne e perguntar a ele sobre o que tenho que fazer. grandes centros, vendendo máquinas em quarenta Temo que ele não fale de reuniões. e nunca-que-termina vezes e as operadoras pingam Temo que não fale de compromissos. centavos todos os dias por uma internet odiosa de tão Temo que ele responda, com sua voz fleumática e lenta, mas que quase todo mundo tem. um toque de humor: Concluí que agora a inclusão digital é causa para _ Você está com fome. os burgos podres e distantes, como diria Tancredo Neste dia eu terei deixado de ser humano. Neves, e urge trabalharmos por ela, levar bits a quem não tem. Mas não pode ser minha maior causa, até (*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente de Sustentabilidade porque é obrigação do governo e, nessa matéria, mida Sucesu-MG e presidente do Comitê para a Democratização da Informática – CDI e diretor da Arbórea Instituto nha causa deve ser cobrar! Eu também falei de inovação social, usar tecnologia para mudar a vida das pessoas de forma barata e sustentável. Causa porreta, causa que me anima. Estudo cuidadosamente, trabalho nela e, quanto mais trabalho, mais parece faltar alguma coisa. Fui remoer ideia de novo. Agora acho que posso ter encontrado. Andando em passeatas, conversando com amigos e inimigos,  Um relatório sobre a Liberdade Digital no Brasil fui aprender que há uma coisa que não pode faltar www.artigo19.org/?p=1514 para que todas as outras floresçam. Algo que, se nos tirarem, é como tirar nosso ar. Algo que, se controla Uma ONG para a Liberdade Digital rem em nós, nada do que pensarmos vai fazer sentiwww.digitalliberty.net/ do, porque não serão nossos pensamentos!  Um seminário sobre a liberdade na era digital Eu tropecei naquela coisa que você, quando naswww.youtube.com/watch?v=gIqpWq7omFg ce um filho, lista entre as bençãos maiores de Deus, feito saúde e feito paz. Algo que, agora eu entendi,

TECH NOTES

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olhar exterior

Andréa Zenóbio Gunneng (*) De Yunnan, China

Sustentabilidade As 3,7 mil camadas de terraços de arroz são um exemplo de convivência sustentável em meio à natureza

No jardim das minorias

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epois de cinco dias dirigindo pelas super modernas vias expressas que cortam a China, de norte a sul, cobrindo uma distância de mais de 2,8 mil quilômetros (tema desta coluna na edição passada), chegamos ao nosso destino final, a cidade de Kunming, capital da província de Yunnan. Durante duas semanas, iríamos explorar essa província, localizada no sudoeste da China, dividindo fronteiras com o Viet-

nã, Laos, Tailândia e Burma. Além de congregar a maior parte das minorias étnicas da China e suas características culturais únicas, Yunnan é considerada um dos ‘berços da humanidade’, já que ali foi descoberto o ‘Yunmou’, fóssil da espécie extinta Homo Erectus de mais de 1,7 milhão de anos. Mas, antes, nos demos um dia ‘de folga’, para compartilhar a vida comunitária ao longo do lago principal de Kunming. Seja

uma vila de algumas dezenas de pessoas ou uma megalópole de milhões de habitantes, o senso de comunidade dos chineses é o mesmo. Ao final de cada tarde, eles se reúnem em um parque, praça ou qualquer espaço público disponível para dançar, jogar peteca com os pés, praticar algum esporte, tocar um instrumento, brincar com as crianças. Todos os dias, os chineses reservam algumas horas de lazer, para celebrar

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a vida e estar juntos. Exatamente o senso comunitário apontado pelos cientistas sociais como fonte de felicidade e que, nós, do Ocidente, perdemos há muitos anos, com a nossa insistência em preservar nossa privacidade. Energia restabelecida, nos instalamos novamente atrás do volante e fomos dar um giro pelo jardim cultivado pelas mais de 30 minorias étnicas chinesas nas terras vermelhas de Yunnan. Nosso primeiro destino: os terraços de arroz de mais de 1,3 mil anos, no município de Yuanyang, que há dois meses foi incluído na lista de Patrimônio Cultural Mundial da UNESCO, elevando para 45 o número de sites chineses, perdendo agora apenas para a Itália. Sabe aquelas fotos paradisíacas de terraços de arroz publicadas na Revista National Geographic? Foi exatamente aquilo que vimos; uma das maravilhas do mundo. Tanto quanto os olhos podem alcançar, as mais de 3,7 mil camadas de terraços de arroz, localizadas no sudoeste do Rio Vermelho pelas etnias indígenas Hani, Yi, Miao, Yao, Dai, Zhuang e Han, cobrem 160 mil hectares de montanhas, da base até seus topos. E não são só os terraços. É o ecossistema como um todo, reunindo florestas, aldeias e rios, que se apresenta como um espetáculo da natureza. De fato, os terraços de arroz de Yuanyang são um exemplo de convivência sustentável entre o homem e a natureza e entre as próprias diversidades culturais. Depois de assistirmos maravilhados ao dançar das nuvens pelos terraços; em estado de graça, nos lançamos novamente pelas estradas, agora, em direção às três Cidades Antigas – Dali, Lijiang

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” FOTOS ANDRÉA ZENÓBIO

Todos os dias, os chineses reservam algumas “horas de lazer para celebrar a vida e estar juntos

Yunnan O maior encontro de minorias étnicas da China

(também Patrimônio Cultural da Humanidade) e Shangri-la – que um dia formaram o Circuito de Chá da estrada a cavalo que ligava Yunnan ao Tibet. Os templos budistas, as mesquitas mulçumanas, as igrejas católicas coexistindo ‘harmoniosamente’ em Yunnan – cada um em seu quintal – são um retrato da convivência entre os grupos étnicos que, em seus trajes típicos e coloridos, povoam Yunnan, preservando suas línguas, costumes, tradições, festivais e estilos de vida. E que juntos, vêm transformando, há milhares de anos, cada milímetro de terra disponível – seja nos campos ou nas montanhas mais íngremes – em um campo agrícola. Yunnan é, definitivamente, o jardim da minoria étnica da China!  Saiba mais

Acompanhe a nossa viagem pela China no blog nilsandrea.wordpress.com (*) Escritora, psicanalista e consultora internacional de Comunicação

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1 Tabagismo

l Vres da nicotina

Programa do Governo Federal ajuda famílias que trabalham com cultivo do fumo a se livrarem da dependência química e econômica do tabaco camila Fróis

redacao@revistaecologico.com.br

T

odos os anos, cinco milhões de pessoas ao redor do mundo morrem de doenças ligadas ao tabagismo, um número alarmante que figura em diversas campanhas internacionais. O que, talvez, soe como novidade é que, não só o consumo, mas também o plantio do tabaco pode provocar doenças e até a morte, em casos extremos por intoxicação pelo simples manuseio da folha de fumo. O “mal da folha verde”, como ficou conhecida a enfermidade, é um tipo de intoxicação aguda causada pela absorção dérmica da nicotina. Recentemente, o tema foi alvo de um estudo da Fundação Fiocruz, que reconhece casos da doença no Brasil. Desde 2007, porém, a Secretaria de Vigilância em Saúde já havia realizado investigações epidemiológicas com o

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objetivo de confirmar a ocorrência do ‘mal da folha verde’, que, em geral, causa náusea, vômito, fraqueza, tontura e cefaleia. Segundo os estudos da Fiocruz, 77% dos agricultores acometidos pela doença nunca fumaram. Além da questão da saúde, a cultura do tabaco (ou fumicultura) amarga uma lista de problemas econômicos, sociais e ambientais relacionados à sua produção e comercialização, sem mencionar o consumo, que é considerado um problema de saúde pública mundial. Ainda assim, muitas vezes, o fumo é a única alternativa de renda para famílias agricultoras, sobretudo na região sul do País, que concentra 95% da produção no Brasil (maior exportador de fumo no mundo). Só no estado de Santa Catarina, 55 mil famílias vivem da cultura do tabaco.

inToXicação Folha de tabaco pode causar intoxicação dérmica, quando úmida

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FOTOS FERNANDO ANGEOLETTO

Folhas secas A secagem do fumo nas estufas exige que os trabalhadores acordem e regulem a temperatura de duas em duas horas

Exploração econômica Por longas décadas, difundiuse pelo meio rural brasileiro a noção de que cultivar fumo geraria riquezas, emprego e desenvolvimento. O modelo de produção integrada, criado pela Souza Cruz há mais de 90 anos, chegou em uma época em que, tanto o crédito rural, quanto as oportunidades de produção e geração de renda, eram escassos. Com isso, os produtores ficavam seduzidos com a opção de cultivar o tabaco com a garantia de venda de 100% da produção. Hoje, o Departamento de Estudos Sócio-econômicos Rurais (DESER) questiona os ditos benefícios promovidos pela indústria fumageira com pesquisas que relacionam o cultivo do tabaco à pobreza. O problema maior é que a indústria da

fumicultura cria uma relação de dependência da qual os produtores não conseguem se livrar porque estão sempre endividados, pagando juros de empréstimos que fazem com a própria indústria pra comprar insumos caros exigidos na produção. Segundo a agrônoma Christianne Belinzoni, mestre em Ciências Agrárias, que desenvolveu sua pesquisa de mestrado sobre a situação da produção de fumo em Santa Catarina, “existe uma superexploração dos agricultores pela indústria do tabaco com implicações negativas, como as condições desumanas de trabalho e insalubridade que envolve crianças, jovens e idosos”. A dissertação também destaca a grande quantidade de agrotóxicos utilizada no fumo, que impõe riscos à

TROCA ECOLÓGICA Gilmar Cognacco substituiu 160 mil pés de fumo por hortaliças RevEco_Ago13_TABAGISMO (LIVRES DA NICOTINA)_O_R_C.indd 2

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AGOSTO JULHO DE DE2013 2013||ecológico ecológico XX 81

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1 TabaGISMO

MUDANÇA Na propriedade de Leo Manrich, a transição do fumo para agroecologia está sendo feita aos poucos

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agrotóxico e aderir aos princípios da agroecologia, que favorece a recuperação dos solos e nascentes das propriedades. Ao todo, são cerca de 60 projetos no País que estimulam e auxiliam na transição da fumicultura para diversas outras atividades agropastoris, propiciando aos produtores mais qualidade de vida, mais lucros e menos riscos. Adeus fumicultura Um produtor que celebra a melhoria da qualidade de vida é Gilmar Cognacco, do município de Leoberto Leal (SC), que há seis anos substituiu o cultivo de 160 mil pés de fumo por um FOTOS FERNANDO ANGEOLETTO

saúde dos lavradores, somados ao mal da folha verde. Além disso, os pesticidas têm um custo alto que, juntamente com outros insumos e equipamentos exigidos, consomem até 70% de tudo que os agricultores recebem da indústria. Em pesquisa realizada pelo DESER com mais de 1.128 produtores de tabaco, 73% afirmaram que, se dependesse deles e suas famílias, deixariam de produzir fumo, sendo que 24% deles alegaram como motivo as doenças causadas pelo cultivo. Por isso, desde 2003, o Governo Federal tem implementado, por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco. Beatriz, que é consultora do programa, explica que, na prática, a ideia é ensinar, com parcerias locais, como plantar outras culturas, o que plantar, como vender e para quem, dependendo de cada região. Além disso, o programa estimula os produtores a eliminar o uso de

sistema ecológico altamente diversificado. Em sua propriedade, mescla uva, hortaliças e verduras que servem também para o consumo da família. “Quando trabalhava com fumo, só de entrar na lavoura eu já sentia enjoo, tremedeira e dor de cabeça e tinha que tomar remédio. Meus filhos que me ajudavam também passavam mal, mas eu era o que mais sofria”, conta. Para o processo de transição do fumo para o cultivo de alimentos orgânicos, o agricultor contou com o apoio da CEPAGRO, ONG parceira do Programa de Diversificação que atua no estado. Segundo o técnico Marcelo Faria, o trabalho da organização é orientar os produtores locais sobre alternativas de cultivo, técnicas de produção e comercialização de alimentos orgânicos. Com isso, os agricultores economizam em fertilizantes, agrotóxicos e conseguem agregar valor à sua produção. Uma questão importante é o estímulo à certificação orgânica participativa para que

JAIR SCHEIDT substituiu 100% da plantação de fumo por alimentos

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FERNANDO ANGEOLETTO

1 TabaGISMO

MAIS RENDA Vender alimentos na feira de Brusque fez o rendimento de Gilmar aumentar

os produtos livres de agrotóxicos possam ser vendidos em feiras, supermercados ou mesmo para o governo. Hoje, o ex-produtor de tabaco Gilmar vende seus alimentos na feira de Brusque e aumentou os rendimentos, convencendo o filho Geovani a ficar no campo. Com o ganho em saúde, a melhor qualidade dos solos e o aumento dos rendimentos, os produtores acabam conseguindo inspirar também seus vizinhos a abandonarem o tabaco. O próprio Geovani, que vai se casar este ano, pretende estimular o sogro, que é fumicultor, a mudar para o lado da agroecologia. Ao todo, são 30 mil famílias que participam do programa de diversificação em todo o Brasil. No estado de Santa Catarina, além das feiras livres, hoje os produtores que já conseguiram abandonar o fumo têm uma nova opção para comercializarem seus produtos: um box de produtos orgânicos inaugurado recentemente pela Rede Ecovida no Ceasa da Grande Flo-

A OMS contra o tabaco O Programa de Diversificação em Áreas de Cultivo de Tabaco surgiu a partir de um tratado internacional adotado em maio de 2003 por membros da Organização Mundial da Saúde (OMS), depois de três anos de árduas negociações e forte pressão dos fabricantes de cigarros. Na época, os 192 países-membros foram unânimes e se uniram para declarar guerra ao cigarro, no que diz respeito ao controle da publicidade, a venda de produtos do tabaco a crianças e adolescentes, o comércio ilícito, e o uso de cigarro em lugares públicos. Além disso, foi consenso a necessidade de criar políticas que estimulassem a substituição do cultivo do fumo por outras culturas economicamente viáveis. Esse último item inspirou a criação dos projetos de diversificação no Brasil, que permitem que os produtores se livrem da dependência, não química, mas econômica do tabaco. Dessa forma, fortalecemse os agricultores e a famigerada indústria fumageira é enfraquecida. Na época, a OMS divulgou um comunicado alertando que o tabagismo é a segunda causa de mortes no mundo, sendo responsável pelo óbito de um adulto em cada dez. “É o único produto legal que causa a morte da metade de seus usuários regulares. Isso significa que de 1,3 bilhão de fumantes no mundo, 650 milhões vão morrer prematuramente por causa do cigarro, caso algo não seja feito”, alertava o texto. Para combater o mau prenúncio, o Brasil saiu na frente e já conseguiu vencer boas batalhas contra a publicidade e a favor de políticas restritivas do consumo.

rianópolis. O box é só uma das conquistas dessa associação de agricultores que, trabalhando com parcerias, resolveu também o problema do transporte e da distribuição dos alimentos.

Com isso, a Rede aproxima produtores e consumidores, oferece alimentos saudáveis a preços justos e gera alternativas de diversificação produtiva para famílias fumicultoras.

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1 gAStRoNoMiA SUSteNtÁVel

BoA PARA

A SAÚDe

e o PlANetA Técnicas e conceitos difundidos vão além do aproveitamento integral de alimentos, valorizando o uso de produtos regionais, a economia de energia elétrica nas cozinhas e o planejamento do que se compra luciana Morais

redacao@revistaecologico.com.br

C

ombate ao desperdício, variação de sabores e a certeza de que a gastronomia pode fazer muito pela nossa saúde e também pelo equilíbrio do planeta. É amparada nesses conceitos e inspirada na alquimia de cores, texturas e sabores que a chef Paula Labaki, de São Paulo, pratica e difunde, há tempos, técnicas de uma cozinha sustentável e também sofisticada, capaz de agradar aos mais exigentes paladares. Nos cursos que ministra e no seu buffet que acumula 15 anos de experiências de forno e fogão, Paula comprova: a gastronomia susten-

tável, centrada no uso de verduras, legumes e hortaliças frescos e de outros tantos ingredientes da rica culinária brasileira, nada tem de alternativa ou ‘riponga’. Pelo contrário. A ideia é mostrar que o aproveitamento integral dos alimentos pode ser um dos pilares de uma comida gourmet, natural e totalmente cosmopolita. Algo que pode e deve ser praticado tanto em grande escala, nos restaurantes e cozinhas profissionais, quanto no ambiente doméstico. Algumas práticas simples, como o reaproveitamento de cascas e raízes de alimentos, en-

tre eles cebola e alho-poró para a preparação de fundos (caldos que servem de base para molhos), podem ser replicadas em qualquer cozinha, sem muita complicação, acrescentando sabores incríveis aos pratos. “A comida faz uma comunicação entre as pessoas. O pintor tem seus quadros; o poeta, suas poesias; e o cozinheiro, seus pratos. É através da comida que nos expressamos. Tenho paixão pelo que faço”, afirma a chef. BoM SeNSo De acordo com Paula, não se trata de criar ou reinventar técnicas

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“Como se não bastasse a perda de alimentos na hora do plantio, da colheita, da embalagem, do transporte e da venda nos supermercados e hortifrútis, ainda temos desperdício dentro das cozinhas. Isso sem considerar a economia que se faz, quando se aproveita partes de um alimento pelo qual você já pagou, ou seja, não se trata de um gasto extra, mas, apenas de usar melhor e, ao máximo, o que já está na sua cozinha ou na sua geladeira”, pondera.

Labaki Cozinha sustentável

A comida faz uma comunicação entre as pessoas. É, através dela que nos expressamos rança alimentar. Portanto, afirma Paula, a gastronomia sustentável é, acima de tudo, sinônimo de bom senso; de respeito com quem produz e de economia para quem pratica, na medida em que alivia a pressão sobre o nosso bolso e sobre os sistemas de produção de alimentos. HENRIQUE PERON

mirabolantes. “Minha cozinha é sustentável, porque estamos o tempo todo em busca do máximo aproveitamento dos alimentos e da geração da menor taxa de lixo possível. Mas, principalmente, porque, a cada dia, procuramos avançar. Reciclamos aquilo que não tem como ser reaproveitado, empregamos pessoas que moram perto e, aos poucos, estamos fomentando uma rede de parceiros que vêm até nossa porta recolher restos orgânicos (para fazer compostagem) e de produtores que nos entregam alimentos produzidos aqui na região. São pequenos passos que se somam e dão vida a um novo caminhar, a novos modos de vida.” Num planeta de contrastes, onde quase 1 bilhão de pessoas passa fome, enquanto o percentual de obesos e o desperdício de comida aumentam, a defesa de uma gastronomia mais responsável e econômica faz todo sentido. No Brasil, conforme dados da Embrapa, o desperdício de alimentos chega a quase 40% da produção, enquanto em 35% dos lares brasileiros as famílias vivem em situação de insegu-

sofisticação Salada feita com casca de laranja, broto de bambú e ervas finas

CELEBRIDADES Paula Labaki conta que sua memória gustativa remente à infância e à adolescência vividas na fazenda da família, na região da Serra da Bocaina (SP). Desde então, ela acumula experiências que já levaram seus pratos aos camarins de celebridades internacionais e nacionais. Entre os que já provaram (e aprovaram) seu tempero estão o maestro e violonista holandês André Rieu, os músicos da banda britânica Iron Maiden, o cantor espanhol Julio Iglesias, as estrelas do Cirque du Soleil, além dos cantores brasileiros Paula Toller e Nando Reis. “Cresci na fazenda e, desde cedo, aprendi com minha mãe a valorizar e experimentar diferentes sabores e combinações. Infelizmente, ainda se joga muitos alimentos fora, todos os dias, nas cozinhas profissionais e na maioria das casas. Por comodismo e desconhecimento, a cultura do desperdício ainda impera. Temos que mudar essa realidade. Partes importantes e, de alto paladar, como raízes e caules, hoje desperdiçados, podem ser o caviar de amanhã”, alerta. Para Paula, comer e cozinhar de forma mais econômica – e consciente – também representam um salto e tanto para a melhoria da qualidade de vida. “Se não temos como evitar o frenesi provocado pelo desenvolvimen-

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1 GASTRONOMIA SUSTENTÁVEL

truque Cláudia Porto ensina a fazer açúcares e sais aromatizados com casacas de limão, laranja e cebola

AÇÚCARES E SAIS Em Belo Horizonte, a professora Claudia Porto Leal se destaca quando o assunto é acrescentar novos sabores ao paladar dos mineiros. Formada em Arquitetura e com mestrado em Meio Ambiente, ela está no ramo de gastronomia desde os anos 1970. Atualmente, é professora do curso superior de Tecnologia em Gastronomia da Faculdade SENAC, um dos mais conceituados do Brasil, e também ministra aulas na Cozinha Experimental do Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR), no bairro Es-

planada, e em outras entidades. “Quando se fala em gastronomia sustentável, a maior parte das informações ainda está ligada ao aproveitamento integral de alimentos: bolo de cascas, omelete de talos, sucos de folhas, etc. Mas, ela é muito mais que isso. Envolve outras vertentes e hábitos, entre eles o reuso e a reciclagem de embalagens. Mesmo quem não é atendido pelos serviços de coleta seletiva pode separar melhor os resíduos. É impressionante o número de pessoas que vivem do nosso lixo. Temos de superar a cultura do descartável”, avalia.

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FOTOS FERNANDA MANN

to tecnológico e o ritmo de vida alucinante que a maioria das pessoas tem nas grandes cidades, o segredo é amadurecer e mudar aquilo que ainda pode ser redirecionado, melhorando, por exemplo, a qualidade e o valor nutricional da nossa alimentação.

Uma das especialidades de Claudia são os açúcares e sais aromatizados, feitos com cascas de frutas cítricas, como laranja e limão; e também com partes não aproveitadas de outros alimentos, como cebola e alho, que são, tradicionalmente, descartadas nas lixeiras de restaurantes e cozinhas domésticas. Ela prepara quase 100 combinações. Quem prova se impressiona com os sabores e aromas. “No caso dos cítricos, reaproveito a parte verde ou amarela da casca externa, que tem de ser muito bem lavada e higienizada. Depois, seco no desidratador ou em forno em baixa temperatura e, em seguida, bato no liquidificador com sal grosso ou açúcar cristal. Que tal experimentar sal de limão no filé de peixe grelhado no azeite? Ou um bolo que, em vez de açúcar comum, leve açúcar de laranja?”

Cláudia Porto Especialista em sabores

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De acordo com Claudia, além do sabor diferenciado e delicioso, a casca da laranja ainda é rica em óleo essencial de laranja, um poderoso calmante. Já o óleo essencial de limão, presente na casca, é um reconhecido emagrecedor. A opção pelo uso do sal grosso também se justifica. “O sal fino e o grosso têm praticamente a mesma quantidade de sódio. A diferença é que o grosso salga o dobro, tendo 83 oligoelementos a mais, o que lhe garante maior sabor e qualidades nutricionais. Então, uso a metade do que usaria de sal fino, reduzindo assim a ingestão de sódio”, detalha. O cheiro e sabor do sal de cebola criado por ela também têm feito milagres e quebrado tabus. Ela cita o exemplo de uma fábrica de salgados para a qual presta

consultoria. Lá, são descascados diariamente 20 quilos de cebola, gerando, em média, um quilo e meio de cascas, que costumavam seguir direto para o lixo. “Agora, elas são lavadas, reaproveitadas e se transformam em sal de cebola. É uma vitória. Consegui fazer com que as cozinheiras deixassem de usar aqueles temperos convencionais em cubos, pois descobriram que o sal de cebola, além de não ter químicos e conservantes, dá muito mais sabor e perfume às receitas.” LUZ DO SOL Como arquiteta, Claudia também dá dicas para tornar o ambiente da cozinha mais sustentável e confortável. Uma delas é ficar atento à economia de energia elétrica, trocando freezers e geladeiras antigos por modelos

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mais novos, que tenham selo de eficiência energética. Além de fazer pequenas mudanças, como substituir, quando possível, telhas convencionais pelas de vidro, aproveitando a luz do sol e reduzindo os gastos com lâmpadas artificiais, o que inclusive muda a avaliação estética do cozinheiro sobre o prato. O mesmo vale para embalagens de vidro que, em casa, podem ser higienizadas e reutilizadas para organizar melhor a cozinha e guardar temperos e condimentos. “Desde que as tampas de metal sejam substituídas por novas ou protegidas por plásticos. Um toque a mais de delicadeza e charme pode ser acrescentado com o uso de plásticos decorados com bolinhas, listrado ou xadrez, enfeitando e alegrando ainda mais a cozinha”, conclui.

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FERNANDA MANN

1 GASTRONOMIA SUSTENTÁVEL fique por dentro l A criatividade é ingrediente essencial na cozinha. Pense no que você, sua família e amigos gostam de comer: ouse, inove e teste novas combinações. l O aproveitamento de talos, raízes, cascas e caules vale para tanto para os alimentos orgânicos quanto para os cultivados de forma tradicional. Basta higienizálos o melhor possível, usando soluções próprias, vendidas em supermercados e hortifrútis.

aprendizagem A estagiária Jeniffer Marciano ensina nova receita aos alunos

Planejamento

contra o desperdício

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s interessados em cursos de capacitação e oficinas de aproveitamento integral de alimentos podem procurar a Cozinha Experimental do CMRR, em Belo Horizonte, que iniciou suas atividades em 2008 e já capacitou mais de 3.500 alunos. Entre os participantes, a maioria é mulher, principalmente, donas de casa e aposentadas. “Mas temos também um grande número de estudantes de nutrição e de áreas ligadas ao meio ambiente. Oferecemos, ainda, uma colônia de férias voltada para os alunos das escolas públicas, de sete a 14 anos, realizada em julho e janeiro”, informa a estagiária de Nutrição, Jeniffer Marciano. A cada oficina é preparada uma receita nova, aproveitando todas as partes dos alimentos, como folhas, talos, sementes e cascas. “Na maioria das vezes, essas partes têm muito mais nutrientes do que a polpa. É o caso da laranja, cuja casca tem cinco vezes mais

fibras e 40 vezes mais cálcio. Já casca de melancia tem quatro vezes mais potássio do que a polpa. Quase todas as cascas e sementes podem ser consumidas, como a casca e a semente do chuchu, do mamão e da melancia. Para fazer bolo de cenoura e de laranja, por exemplo, também não é necessário retirar as cascas”, orienta. Em geral, os participantes são movidos pela busca de uma alimentação mais adequada e saudável. “A curiosidade em relação às receitas também é grande, já que não é comum aproveitar os alimentos dessa maneira. Outra oficina que atrai bastante gente é a de sabão caseiro, feito com óleo de cozinha usado. Como é uma receita diferente e o sabão fica pronto na hora, cria-se bastante expectativa entre os alunos.” Outra dica valiosa no combate ao desperdício, frisa Jeniffer, é o planejamento. “O ideal é programar o cardápio da semana e comprar somente aquilo que iremos

l Gastronomia sustentável não tem nada a ver com vegetarianismo. Receitas sustentáveis podem e devem ser preparadas com carne. Vale, inclusive, aproveitar ossos para a preparação de molhos e caldos. l O curso de Tecnologia em Gastronomia da Faculdade SENAC é oferecido em BH e tem duração de dois anos. A próxima turma do curso de auxiliar de cozinha do Projeto Chefs do Amanhã, do CMRR, terá início em setembro, com 20 vagas. ENTENDA A DIFERENÇA SOBRA: produto ou alimento que foi manipulado e/ou preparado, mas que não foi levado para consumo. RESTO: é tudo aquilo que, uma vez levado à mesa, entra em contato com microrganismos da saliva, com o ar, a poeira etc., e não pode ser doado; além de outros restos recicláveis não orgânicos.

consumir. A escolha de produtos de boa qualidade também conta muito. Os vegetais têm de estar íntegros e firmes, com cores brilhantes. Vale apostar ainda nos produtos da safra, que geralmente estão mais baratos, bonitos e ainda têm qualidade nutricional melhor, com menos agrotóxicos.”  Saiba mais

www.mg.senac.br www.cmrr.mg.gov.br www.lenalabaki.com.br

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Pousada Orat贸rio 20,5 x 27,5.indd 1

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1 CRIATIVIDADE

IDEIA ILUMINADA Cabides, ferros retorcidos e pedaços de madeira viram charmosos abajures Fernanda Mann

redacao@revistaecologico.com.br

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ode ser na cabeceira, na escrivaninha, na mesa do trabalho ou na da sala de estar. O importante é que traga luz e aconchego ao ambiente. Diante de tantas possibilidades, uma ideia nova sobre coisas velhas motivou o artista e designer Mauricio Gontijo a iluminar ambientes de forma criativa e sustentável. Construindo e restaurando os mais diversos materiais recicláveis, ele cria suas coleções de abajures. Uma iniciativa que ajuda a mudar o mundo e transformou sua vida. Engenheiro elétrico, ele se diverte ao dizer que o ofício atual é

o que ficou de sua formação. Antes, trabalhou 20 anos na área de moda, em grandes confecções de BH. O trabalho de criação, no entanto, o acompanha, até hoje, no novo caminho. Ele conta que, certa vez, no Rio de Janeiro, esteve no leilão do Hotel Glória e foi lá que tudo começou. “Ali surgiu a ideia. Comprei várias peças e construí os primeiros abajures. Sempre fui admirador fanático desse objeto de decoração.” A partir daí, a criação só cresceu e se diversificou. Hoje, a produção completa quase seis anos e centenas de abajures. Mas cada peça é

única e tem o toque de Mauricio em todos os detalhes. Ele já usou madeira, metal, plástico, abajures antigos, tudo quanto é tipo de material. Diz que todos são bem-vindos. Certa vez, sua empregada chegou em casa com um cabideiro que achou na rua e perguntou: “isso aqui vira alguma coisa?”. Não só uma, mas duas coisas. “Dois abajures maravilhosos”, ressalta ele. A situação acontece com frequência. Amigos e conhecidos veem objetos interessantes em suas viagens e se lembram de Mauricio, que os transforma com louvor. Ele coleciona objetos por todos os lu-

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gares em que passa, em diversas cidades, passeios e visitas. Está sempre atento, com seu olhar garimpeiro, vendo em cada objeto a possibilidade de uma nova criação. “Vou construindo a peça aos poucos e observando bem o jeito dela, acrescentando e modificando, até conseguir o que quero”, explica. Cada material tem sua história e abre possibilidades para um novo estilo, sempre guiado pela criatividade. Mauricio mostra suas peças com entusiasmo e vai narrando: “esses materiais, por exemplo, coletei no rio, junto ao mangue, em Santo André, na Bahia. São pedaços de madeira soltos, que ficam muito bonitos quando secos. Eu vou descobrindo. Pode ser um detalhe da natureza ou uma peça garimpada em antiquários e feiras de arte.” Ele reconstitui, faz a base, a cúpula e pronto! O mineiro, nascido em Pirapora, no Norte de Minas, na beira do rio São Francisco, e criado em Montes Claros, não se esquece do

ARTE ENGAJADA Mauricio Gontijo no seu ateliê luminoso

valor da natureza, que agrega ao seu trabalho. E completa ressaltando sua satisfação em cuidar do meio ambiente. “Acho que a questão da ecologia e da sustentabilidade, tão faladas hoje, passam muito por essa história do reaproveitamento. Não precisamos consumir tantas coisas e viver descartando as ‘antigas’. Isso é um grande engano”. Segundo Mauricio, esse trabalho mudou sua vida para melhor. Sente-se muito mais feliz, fazendo o que gosta. E, sobretudo, orgulha-

se ao ver o brilho nos olhos de seus clientes diante das peças prontas! Saber que pode tornar o ambiente de casa mais aconchegante com peças reutilizadas, antigas e novas é o diferencial que move a alma deste artista. 

SAIBA MAIS

Os abajures são vendidos no ateliê - Tel. (31) 8787-6193, pelo facebook e em duas lojas: na Bazzar, que fica no shopping 5ª Avenida, e na loja Pé Palito, de móveis vintage, localizada no bairro Prado

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wikimedia

1 Faça você mesmo

REAPROVEITAMENTO Cascas de frutas, verduras e restos de alimentos também podem ser reciclados

Transforme o lixo orgânico

em adubo

Técnica simples pode ser feita até em pequenos ambientes

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abe aquelas sobras da cozinha de quando se prepara uma refeição? Muito melhor que jogá-las no lixo comum, é dar a elas uma destinação ecológica conhecida como compostagem, técnica que transforma resíduos em adubos para jardins e hortas. Na prática, a compostagem nada mais é que a degradação da matéria orgânica por micro-organismos. No método podem ser

utilizados restos orgânicos como folhas, cascas de verduras, frutas, ovos e serragem. Restos de comida também são bem-vindos, mas cuidado com alimentos de origem animal, tais como carnes, pois podem atrair pragas. Segundo o biólogo Carlos Eduardo Cereto: “é possível fazer composteira em casa, mas também existem empresas especializadas nesse tipo de serviço. As duas for-

mas podem ser utilizadas. O importante é que, além do destino correto dado para o lixo, o adubo produzido pode ser usado em hortas e jardins”. Cereto também acrescenta que: “o uso de adubo orgânico conserva as propriedades naturais do solo aumentando a vida útil do terreno. Ao contrário do adubo químico que desgasta o solo mais rapidamente e causa vários problemas de produtividade”.

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Como fazer: É necessário um recipiente de, no mínimo, um metro cúbico para se fazer uma composteira doméstica. Em caso de espaços menores. como apartamentos, a compostagem pode ser feita em caixas. Ao contrário do que muitos pensam, na compostagem não é indicado colocar terra, as camadas são feitas de lixo orgânico e outra de serragem ou folhas secas. O tempo de putrefação depende do tipo de lixo e pode demorar de 9 a 16 semanas para decomposição total do lixo orgânico, que, em forma de adubo, pode ser usado em hortas e jardins. Mas, deve ser evitado em hortas, caso exista na compostagem dejetos de animais.

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CANTEIRO DE COMPOSTAGEM O tempo de decomposição depende do tipo de lixo e pode levar de 9 a 16 semanas

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Quem tem espaço com chão de terra no quintal pode separar um canteiro para fazer a compostagem. Quem não tem, pode improvisar usando um recipiente grande, lembrando de fazer alguns furos laterais para a saída de ar.

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Os resíduos podem ser colocados em camadas e não precisam ser separados por tipo, mas é interessante colocar em camadas alternadas de resíduos (cascas de frutas, legumes, ovos e outros), com camadas de folhas, palha, serragem ou mesmo terra. Para acelerar a decomposição e evitar o aparecimento de moscas, recomenda-se cobrir tudo com uma lona.

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Regar o conteúdo de dois em dois dias e revirar o recipiente com alguma ferramenta de jardim é importante para arejar o material em decomposição. No caso da composteira feita no chão, ela deve ter mais ou menos 60 cm de altura e um metro de largura. A cada 15 dias, é importante virar

ADUBO O resultado final é uma terra marrom, rica em nutrientes e sem mau cheiro

o monte, revolvendo os materiais para facilitar a decomposicão. Em razão da ação de bactérias e fungos, o monte pode esquentar em até 60 graus, por isso devemos molhar de vez em quando, para diminuir a temperatura e manter a umidade, porém sem encharcar.

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Após algumas semanas, o material adquire uma coloração marrom escura, semelhante a

FONTE. SETOR RECICLAGEM

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cor do pó de café. Dá para perceber que o composto está pronto quando não se percebe mais um "cheiro ruim" e sim um "cheiro de terra", além disso, a aparência é bem homogênea e a temperatura fica igual a do ambiente.

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Depois de pronto, o composto orgânico já pode ser misturado à terra do jardim, da horta e dos vasos.  AGOSTO DE 2013 | ecológico  95

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aleXaNdre Wild

SocieDADe coMPleXA

AFiNAl, QUeM VAi SeR A RAiNHA?

Em certas épocas do ano, geralmente no início da estação chuvosa, milhares de fêmeas e machos alados saem dos seus ninhos e realizam o voo nupcial. Milhares de indivíduos se reúnem e realizam a cópula em pleno ar. Assim que fecundada, a fêmea retorna à superfície, perde as asas e busca um refúgio para seu ninho. O macho, coitado, morre! E aí está a rainha, que não manda nem desmanda em nada, pois no formigueiro cada qual sabe de sua função. Ela recebe este nome por ser genitora do grupo, “mãe de todos”, que produz ovos constantemente, por anos, até que a colônia alcance seu estado maduro. Neste momento, a rainha passa a pôr ovos dos quais nascem machos e fêmeas alados, prontos para um novo ciclo. E o que determina se uma formiga vai ser operária ou fêmea alada é a quantidade de comida que ela recebe, ainda na fase larval. As operárias têm alimentação normal e as fêmeas aladas, uma superalimentação. Elas também são o que comem!

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Quem vê a pequenez das formigas, talvez não desconfie da complexidade de sua organização social. Para conhecê-las melhor, o estimado biólogo, especialista em formigas, Edward O. Milson, criou em 1970, a sociobiologia, um campo científico que estuda as sociedades dos insetos. Hoje, sabemos que, as formigas contam com 14 mil espécies e vivem em colônias onde cada indivíduo tem sua função. A população é dividida em castas, organizadas em torno da rainha. Ela dá à luz e transmite os genes a todos os integrantes da colônia. As operárias não acasalam, logo não reproduzem. São responsáveis pela sobrevivência do formigueiro, cuidando do alimento e dos ovos da rainha.

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BOAS DE SERVIÇO

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Talvez, por isso, são chamadas trabalhadoras. Não bastasse construírem ninhos de enorme extensão, os formigueiros são verdadeiros projetos arquitetônicos. Equipados, por exemplo, com sistemas de ventilação que removem o dióxido de carbono do seu interior e elevam o oxigênio. Contam, também, com centenas de quilômetros de coletores que drenam os resíduos produzidos, em câmaras especiais, e sistema de transporte, que inclui uma faixa de trânsito para velocidade maior. Fantástico!

AGRICULTURA FAMILIAR

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Sabe quando passa aquela linha de formigas carregando folhinhas? Elas estão levando o material para o cultivo de suas “plantações”. As folhas são depositadas em câmaras especialmente construídas dentro do formigueiro. Ali, são cultivados fungos que servem de alimento. Mas, não basta depositar a folha ali. Seu crescimento requer planejamento e dedicação: a câmara deve ser adequada; as folhas rigorosamente selecionadas; os resíduos, removidos para evitar contaminações; e formigas operárias ainda “semeiam” as folhas com os esporos do fungo.

Criações

GUERRILHEIRAS QUE FAZEM ESCRAVOS

As formigas são os únicos animais, além dos humanos, que se planejam e coordenam para a guerra em batalhões contra os adversários. Elas fazem guerra para conquistar territórios e recursos alimentares de outras colônias. Às vezes, quando derrotam o oponente, os sobreviventes são capturados e mantidos como escravos. As formigas descobriram que inimigos derrotados podem ser úteis, podendo ser poupados e colocados para trabalhar para o bem da colônia. É mole?!

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Além de agricultoras, as formigas podem ser criadoras. Algumas espécies são capazes de domesticar pulgões e agem como verdadeiras pastoras, protegendo-os dos predadores e fartando-se do fluido adocicado que eles produzem. Para coletar o esta iguaria dos pulgões, as formigas apertam seus abdomens, de onde sai parte do suco da planta digerida. O fluido nutritivo é compartilhado por toda colônia.

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NATUREZA MEDICINAL marcos guião (*) redacao@revistaecologico.com.br

“ que Cura” O Cheiro do Capim

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MARCOS GUIÃO

om a chegada do inverno, os campos cerradeiros deram de secar, mostrando, em meio à macega, suas flores azuis, carmins, amarelas, violáceas e brancas de uma alvura discomparada. Pois foi nesse tempo soprador, quando o vento arriba as sais e seca o capim, que fui ver e ouvir a sabedoria de Maria do Céu em seu canto de moradia. Encravada no meio do sertão, a casa simples, envarandada, acolhe todos amorosamente. Assim que a porteira chiou, a cachorrada deu sinal e Maria do Céu saiu da cozinha estampando no rosto um sorriso. Com os braços abertos, que me rodeou acolhedoramente. Enquanto demos de colocar as notícias em dia, ela, generosamente, deitou na mesa guloseimas e quitandas acompanhadas de um café coado na horinha. Esparramado na cadeira ao lado do fogão a lenha, atentei para a figura esguia da anfitriã, com sua cabeleira prateada e olhar compassivo. Num tardou a prosa caminhar pro lado de fora da casa, onde a seca

iniciava presença e dava necessidade de reparo. Mas da boca de Maria, não se ouve queixas e sim palavras de gratidão por cada movimento da vida. Ela deu de falar das belezuras deste tempo e acabamos ganhando o mundo de fora na buscação dos cachos florais do Capim São José, (Cymbopogon densiflorum). Num dilatou muito e se demos com várias touceiras logo alinzinho, beirando um carrasco pedregoso de terra ruim. Suas varas finas enfeitadas de flores e sementes no final do pendão eram colhidas com desenvoltura por ela, enquanto discorria sobre sua serventia e aplicação. Munido de um saco, fui acomodando os cachos e ouvindo: - Deusde menina, nesse tempo nóis colhe essa lindeza de pranta. Ela tem uma doçura de cheiro que entra devagarinho no nariz da gente... num é coisa de muito não, só cadinho que vai encantando aos tiquim. Carece de apertar ela nas mão para sentir mais de com força. Notras roças chama ele de Capim Nagô e inté de Capim Encana Osso. Nos tempos de minha mãe, sempre tinha uns cacho dele dentro de casa, pois quando caia a chuva e montava o trovejo, ela jogava um bocado desses pendão no fogo. Sem tardança, os raios diminuía e o céu se acarmava... Ainda não consegui comprovar essa informação, mas descobri que o chá de seu pendão floral também acalma e induz ao sono, alem de cuidar das afecções catarrais, as tosses rebeldes e a rouquidão. Quando o caso é de contusão ou pancada, os banhos e compressas no local atingido aliviam as dores e recuperam os tecidos lesionados. Favorece ainda a função renal, diminuindo as águas do corpo e desinchando os pés. Por aqui, os fiéis o levam para a Procissão de Ramos em busca de bênçãos e proteção, mas devido a sua origem africana também é utilizado nos rituais da umbanda. O perfume de seus cachos, atualmente, é aplicado na preparação de um incenso encantador. Inté a próxima lua!  Saiba mais

w​ww.natu​reza​dose​rtao​.com​.br (*) Jor­na­lis­ta e consultor em plantas medicinais

PERFUME O Capim São José tem cheiro doce e é usado para fazer incenso

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olhar poético Antonio Barreto

JOGAI POR NÓS, SENHOR! (Oração do torcedor que sofre, mas vence!)

l Senhor, eu que só como o pão que o diabo amassa, que só bebo água com veneno e fumaça, que só levo chumbo e bala de borracha, que já pago imposto do próprio oxigênio, que respiro desgraça com gás lacrimogêneo (em suas mãos me entrego)... E de coração aberto, ajoelhado, confesso: sou torcedor-sofredor, mas sofro calado. Yes, I C.A.M. Sou Cock, sou Crazy! Sou Galo, sou doido! Já gastei até o meu último trocado pra ver se esse time dá algum resultado e no final da rodada seja classificado... Porém, se necessário, Senhor, eu Vos faço outro sacrifício: nunca mais espero que alguém me repasse o dinheiro perdido (remédio e farmácia). E o salário comido de imposto e trapaça. Sou voto vencido, batido de pronto. Mas passado do ponto, rebato o meu ponto de camelô na praça, arranhado de gato, correndo igual lebre, roendo desgrama e tremendo de febre, perrengue de dengue, mas ficando de pé, molengo de banda, ou machão-jacaré, pregado no chão e fugindo da raia, nadando na terra... ou morrendo na praia. Vos peço, Senhor: um pouquinho de sucesso. E que esse time-em-tormento, com tal sofrimento, se torne feroz, atacante e veloz! Escutai minha voz, Senhor! E JOGAI POR NÓS!

l Fazei com que o goleiro do meu time continue sempre em seu dedicado regime. E nunca mais degluta nas suas redes aqueles perus assados, aquelas farofas de frango. E se transforme, da noite para o dia, num homem-de-borracha. Ou num orangotango! E JOGAI POR NÓS! l Fazei com que os beques do meu time nunca mais pensem na grana, naquelas meninas e naquelas canjebrinas. E se transformem, da noite para o dia, em quatro muralhas da China! E JOGAI POR NÓS! l Fazei com que os volantes do meu time não voltem nunca mais a passear na grama quais caranguejos mancos, de marcha a ré. E se transformem, da noite para o dia, em carregadores de piano, com a bola no pé! E JOGAI POR NÓS! l Fazei com que os atacantes do meu time não chutem mais, e de graça, nossa esperança pra fora. Ela não acabou! Transformai-os, Senhor, da noite para o dia, em maestros de uma ópera: a Ópera do Gol! E JOGAI POR NÓS! l Finalmente, Senhor, eu Vos peço, um milagre aritmético: pelas minhas cicatrizes! Quero vencer o jogo, o campeonato. Quero dias felizes! Para isso, ajoelhado, imploro: iluminai com seu halo a matemática rococó da cabeçaminhocuçu dos cartolas e dos juízes! Que eu ainda quero cantar de Galo, Senhor! Mas não esse cantar minhococó, ou esse piu-piu discreto de pinto-sem-lixo! Eu quero o luxo, Senhor, de um torcedor raçudo, porém correto, de competição. E direto e reto ribombar no estádio repleto os gritos do meu coração: SOU CAMPEÃO! SOU CAMPEÃO! SOU CAMPEÃO!  BRUNO CANTINI

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os felizes sofredores: Ronald Claver, Vivina de Assis Viana, Antonieta Cunha e Ronaldo Guimarães, galodoidos que nem eu. À memória do amigo Roberto Drummond, que mudava a direção do vento quando o Galo entrava em campo. Para São Vitor, guardião e anjo-da-guarda-mor, voador e pegador de pênalti! E para todos os torcedores do Clube Atlético Mineiro, que na noite de 24 de julho de 2013 se sagraram Campeões da Copa Libertadores da América!

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Eu passo, mas o Brasil continua 102  ecológico | AGOSTO DE 2013

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DOM Pedro II o imperador que amava o Brasil Paulo Coutinho

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vida e seu legado de realizações é o maior testemunho deste afeto que contribuiu para a formação da nossa identidade nacional. Em 1840, aos 15 anos, aceitou assumir o poder e, para isto, teve a sua maioridade decretada. Sua ascensão foi decisiva para impedir que o país se partisse em vários como na América hispânica. No seu reinado, o país venceu a luta contra a escravidão que, segundo ele, era “uma terrível maldição sobre qualquer nação, mas ela deve, e irá, desaparecer entre nós”. Entretanto, apesar da grandiosidade destes feitos, garantir a unidade nacional e libertar o país da mancha da escravidão não foram suas únicas realizações. Na verdade, Pedro II, com a força do poder moderador, buscou engajar o Brasil num processo civilizatório com forte cunho humanitário, criando os alicerces de uma nação independente, onde a conduta ética, a honestidade e a liberdade de expressão fossem os valores mais respeitados. Na base deste processo, estavam ainda a promoção da educação e da cultura, o incentivo à modernização industrial e à inovação tecnológica, a estabilidade política e o respeito à cidadania.

e não envergonhava a nação F. DIAZ

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om Pedro II foi imperador do Brasil por quase 50 anos. Seu legado permanece apagado para a maioria do povo brasileiro. Conhecer o reinado de Pedro II é fundamental para entender porque somos um país com dimensões continentais, unido com todas as suas diversidades regionais. O que hoje nos parece natural foi conseguido com o suor de muitos, a liderança e o exemplo de amor à pátria de um homem que encarnou a missão de construir o Brasil como um Estado nacional independente. D. Pedro foi deposto pelo golpe republicano de 1889 e recebeu ordens de deixar o país em 24 horas. Entregou com serenidade sua posição, dizendo: “Pois, se tudo está perdido, haja calma. Eu não tenho medo do infortúnio”. O imperador, simpático à ideia republicana, enxergou o fim do regime monárquico e não desejou lutar por ele, mesmo sendo querido pelo povo. Aceitou o fato e, na companhia da família real, partiu para o exílio sem um tostão, passando a viver na Europa com a ajuda de amigos. Pedro II professou seu amor pelo Brasil ao longo de toda a

Em 1914, seria de Rui Barbosa (foto), o mais famoso discurso em homenagem a Dom Pedro II: “A falta de justiça, srs. senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação. [...] De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

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memória iluminada DOM PEDRO II

Não é por acaso que essa mesma República escorrega fragorosamente na hora de compor a nova bandeira do país. Embora mantendo o verde e o amarelo, os republicanos incluíram nela o círculo azul estrelado com o lema positivista, “Amor por princípio e Ordem por base, Progresso por fim”, suprimindo a palavra Amor! Ora, por que o amor à pátria tinha que ser retirado? A nascente república, que acabara de expulsar do país o Imperador que tanto amava o Brasil, não consegue assumir seu projeto político. Deixamos de ser o “Império do Brazil” e passamos a ser os “Estados Unidos do Brasil”. As excelentes obras de José Murilo Carvalho (D. Pedro II), Lilia Moritz Schwarcz (As Barbas do Imperador), Mary del Priori (Condessa de Barral), Roderick Barman (Imperador Cidadão) publicadas, recentemente, traçam um quadro realista e aprofundado da vida de D. Pedro II . O leitor interessado irá encontrar nestas leituras toda a trajetória do imperador, pública e pessoal. Nosso intuito é, justamente, estimulá-las, com a certeza de que contribuirão para que as novas gerações possam se orgulhar da pátria onde nasceram. Quem assistiu ao filme “Lincoln” viu o presidente norte-americano retratado como símbolo de uma nação que lutou e venceu sua divisão e a escravidão. Lincoln está merecidamente no pedestal dos heróis americanos; ele faz parte da identidade dos EUA. D.Pedro II, contemporâneo dele, foi propositalmente esquecido e mesmo seu corpo só foi autorizado a regressar ao solo natal em 1921, 30 anos depois de sua morte em Paris. Hoje, o desafio do Brasil é caminhar para o novo paradigma civilizatório da sustentabilidade, vencer a corrupção e a injustiça e

ANDRÉ SILVESTRE

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indagação histórica Por que o amor por princípio e à pátria foi retirado da bandeira republicana?

cultura Abraham Lincoln lendo para seu filho Tad. Ao contrário de Dom Pedro II, ele foi valorizado por seu povo

reencontrar sua identidade para cumprir sua missão no cenário das nações planetárias. Mais de cem anos depois de seu reinado, D.Pedro II continua sendo uma fonte de inspiração para todos os brasileiros e uma lição

viva de que o país pode sonhar com um futuro de justiça, paz e prosperidade. Urge conhecê-lo! D. Pedro II e a educação O monarca nutria um profundo interesse pelas questões relacio-

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IMAGENS: REPRODUÇÃO

nadas à educação, especialmente a educação pública. Na última Fala do Trono, de 3 de maio de 1889, retomou a questão sob o viés institucional, propondo a criação do Sistema Nacional de Instrução. Além disso, são várias as falas em que se envolve com a questão, como ressalta Lilia Moritz Schwarcz. Liberdade de imprensa Pedro II apresentava-se nas reuniões ministeriais sempre mais informado que os ministros. Sabia de tudo o que se passava por meio da imprensa, da qual era intransigente defensor. Esta mesma imprensa, muitas vezes, o criticou duramente em artigos e charges. Mas o imperador dizia que “a imprensa combate a imprensa” e via nisso uma forma de estar sempre bem informado. Patrono das artes e das ciências “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências”, comentou o imperador em seu diário pessoal em 1862. Ele encontrou nos livros um refúgio para a sua posição. Sua habilidade para relembrar trechos que havia lido no passado era notável. Mas os interesses de Pedro II eram diversos e incluíam ainda antropologia, geografia, geologia, medicina, direito, filosofia, pintura,

escultura, teatro, música, química, poesia e tecnologia. Sua paixão por linguística o levou a estudar novas línguas. Ele era capaz de falar e escrever em latim, francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, grego, árabe, hebraico, sânscrito, chinês, provençal e tupi. Além disso, tornou-se o primeiro brasileiro fotógrafo quando adquiriu uma câmera de daguerreótipo. Criou um laboratório fotográfico em São Cristóvão. Também construiu um observatório astronômico no Paço. A erudição do imperador surpreendeu Friedrich Nietzsche quando ambos se conheceram. Victor Hugo falou dele: “Senhor, és um grande cidadão, és o neto de Marco Aurélio”, e Alexandre Herculano o chamou de um “príncipe cuja opinião geral o considera como o primeiro de sua era graças à sua mente dotada para as ciências e a cultura”. Tornou-se membro da Royal Society, da Academia de Ciências da Rússia, das Reais Academias de Ciências e Artes da Bélgica e da Sociedade Geográfica Americana. Em 1875, foi eleito membro da Académie des Sciences Francesa, uma honra dada anteriormente a somente dois outros chefes de estado: Pedro, o Grande e Napoleão Bonaparte.

WEST LICHT

história mineral A Escola de Minas, em Ouro Preto, fundada a pedido de D. Pedro II. E sua lembrança no cartão-postal do Museu das Minas e do Metal, da MMX Mineração, em BH

daguerreótipo Modelo de câmera utilizada por D. Pedro, o primeiro fotógrafo brasileiro

O REFLORESTADOR DA TIJUCA Em 1860, o Governo Imperial propôs um “Plano Geral de Abastecimento d’Água” e nomeou uma comissão para sua elaboração. Em 1861, o Imperador D. Pedro II nomeou o major Manuel Gomes Archer como “Administrador da Floresta da Tijuca”, dando início à restauração florestal, plantando 80 mil mudas de espécies variadas de árvores, nativas e exóticas. Em 1868, uma nova seca atingiu o Rio de Janeiro e tornou-se urgente a captação de mananciais que ainda não haviam sido utilizados no alto da Tijuca (rio Cachoeira), no Andaraí Grande (Joana) e no Jardim Botânico (rio Macacos e afluentes). Em 1877, Gastão de Escragnolle assumiu o posto de “Administrador da Floresta da Tijuca” e continuou

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memória iluminada DOM PEDRO II

Halley Pacheco de Oliveira

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Floresta da tijuca Biodiversidade restabelecida, a partir de 1862, com a decisão real e plantio de 95 mil novas árvores

a tarefa de replantio das árvores. Dedicava sua gestão à tarefa de tornar a Floresta da Tijuca acessível a seus visitantes, transformando-a num lugar de lazer e recreação. Contou com a ajuda do naturalista e paisagista francês Auguste Glaziou e abriu estradas, parques, belvederes, chafarizes, trilhas, pontes e lagos artificiais. Estima-se que a Floresta da Tijuca foi restabelecida entre 1862 e 1887, com cerca de 95 mil mudas de plantas. A BATALHA DO REFLORESTAMENTO Petrópolis ainda não era a cidade de balneário usada pela elite da corte para fugir do verão e das doenças e epidemias da estação. Desde D. Pedro I, a família imperial veraneava na floresta. A capital não contava com rede de esgoto, e os dejetos eram jogados no meio das ruas estreitas. Um recanto, como a Floresta da Tijuca, era praticamente uma imposição sanitária. “Todo mundo que era importante tinha casa lá e ninguém queria sair. O replantio ocorreu em uma área na qual estavam 90% do

PIB do Brasil na época. D. Pedro II comprou a briga, e o Visconde de Bom Retiro fez a costura política”, conta Cunha de Menezes. Para dar o exemplo, o próprio Visconde de Bom Retiro e sua família tiveram as terras desapropriadas. O Barão de Mauá, o Barão de Itamaraty, o Conde de Bonfim e o doutor Cochrane (um dos principais empresários da corte) tinham propriedades por lá. O Visconde de Bom Retiro foi bem-sucedido em quebrar resistências ao propor que, além de ajudar a preservar os mananciais e a regular o clima, a floresta regenerada poderia ser uma área de lazer – em consonância com o que acontecia nas principais cidades do mundo. É por isso que, hoje, graças ao espírito ecológico de Dom Pedro II, Petrópolis é verde e o Rio de Janeiro ostenta o título de “cidade brasileira que abriga a maior área florestal” no Brasil. O Imperador-professor Pedro II logo percebeu que tinha a oportunidade para utili-

zar o conhecimento que havia acumulado para o benefício do Brasil. O imperador considerava que a educação tinha uma importância nacional. “Se eu não fosse imperador, gostaria de ser um professor. Não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as jovens mentes e preparar os homens de amanhã.” Assim, também contribuiu para criar um sentimento de identidade brasileira. Seu reino viu a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro para promover pesquisa e preservação nas ciências históricas, geográficas, culturais e sociais. A Imperial Academia de Música e Ópera Nacional e o Colégio Pedro II também foram fundados, o último servindo como modelo para escolas por todo o Brasil. A Imperial Escola de Belas Artes, estabelecida por seu pai, recebeu maior apoio e fortalecimento. Além disso, Pedro II providenciou bolsas de estudo para brasileiros frequentarem universidades, escolas de arte e conservatórios musicais na Europa.

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Palavras Imperiais

l escravidão “A emancipação dos escravos, consequência necessária da abolição do tráfico [negreiro], não é senão uma questão de forma e oportunidade. Quando as circunstâncias penosas [referiase à Guerra do Paraguai] em que se encontra o país o permitirem, o Governo Brasileiro considerará objeto de primeira importância a realização daquilo que o espírito do Cristianismo, há muito, reclama do mundo civilizado.”

l amor “Tenho espírito justiceiro e entendo que o amor deve seguir estes graus de preferência: Deus, humanidade, pátria, família e indivíduo.” l política “A política não é para mim senão o duro cumprimento do dever.” “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, a ocupar posição política. Preferiria ser presidente da República ou ministro à imperador.” “É preciso trabalhar e vejo que não se fala, quase senão, em política que é, as mais das vezes, guerra entre interesses individuais.” “Jurei a Constituição, mas ainda que não a jurasse, seria ela, para mim, uma segunda religião.”

REGISTRO A última fotografia, no Brasil, da família imperial em 1889

l dinheiro “Nada devo, e quando contraio uma dívida cuido logo de pagá-la. A escrituração das minhas despesas pode ser examinada. Não ajunto dinheiro.” l justiça “A primeira necessidade da magistratura é a responsabilidade eficaz, e que enquanto alguns magistrados não forem para a cadeia, como, por exemplo, certos prevaricadores do Supremo Tribunal de Justiça, não se conseguiria esse fim.” l bíblia “Eu amo a Bíblia, eu leio-a todos os dias e, quanto mais a leio tanto mais a amo. Há

alguns que não gostam da Bíblia. Eu não os entendo, não compreendo tais pessoas, mas, eu a amo, amo a sua simplicidade e amo as suas repetições e reiterações da verdade. Como disse, eu leio-a e gosto dela cada vez mais.” l brasil “No Brasil há duas posições invejáveis: senador e professor do Colégio Pedro II.” l crenças “Todas as crenças podem ser admitidas, desde que sejam sinceras.” “Não é a república que vem, é o império que vai.” “Eu passo, mas o Brasil continua.”  AGOSTO DE 2013 | ecológico  107

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

YANN ARTHUS - BERTRAND

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A TERRA

VISTA DO CÉU

A CONDIÇÃO

HUMANA Fernanda Mann

redacao@revistaecologico.com.br

A

ALEXANDRE MOTA

s imagens de Yann abrangem de maneira extraordinária a complexidade de nosso planeta. Remetem à fauna e à flora; à riqueza e à pobreza; ao belo e à deploração dos recursos naturais. Passar por suas 130 imagens dispostas na exposição faz refletir sobre o quão pequenos somos em nossas realidades individuais, diante de um mundo tão vasto, colorido, cheio de formas, texturas e lugares inimagináveis. Quantos estilos de vida, quantas realidades e desafios estamos dispostos a enfrentar para vermos a Terra mudar de maneira sustentável? A ECOLÓGICO selecionou aqui algumas de suas fotos que mais falam da realidade humana no planeta. Reflita! SAIBA MAIS

www.terravistadoceu.com

DEPÓSITO DE LIXO DE MBEUBEUSS, NO BAIRRO DE MALIKA EM DACAR, SENEGAL Dacar, capital do Senegal, não é poupada pelo lixo. Para inúmeros países, a gestão do lixo ainda é um grande problema. Estocar, destruir e reciclar o lixo são as soluções mais comuns. Mbeubeuss, um depósito de lixo aberto em 1968, cobre 100ha; cerca de 1300 toneladas de lixo são derramadas aí diariamente. Um tesouro para os “catadores”, homens e mulheres cujo trabalho consiste em recuperar o que podem de plástico e metal nesta montanha de lixo. Essa tarefa difícil e cansativa é desvalorizada socialmente. Sem falar nos riscos, como a exposição aos metais pesados, como o zinco e o chumbo, ou ainda os germes patogênicos como os da salmonela. O fechamento e reabilitação do depósito de lixo de Mbeubeuss foram anunciados. O local deverá ser transformado numa central de valorização do biogás. Está previsto que os catadores recebam uma indenização e que sejam acompanhados em projetos de reinserção social.

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

FOTOS YANN ARTHUS - BERTRAND

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JANGADA DE MADEIRA E SEU REMADOR NO RIO CONGO EM DIREÇÃO A BRAZZAVILLE, CONGO As estradas são raras na África Central, e as que são mantidas e utilizáveis, ainda mais. É por isso que o rio Congo, segundo do mundo em vazão e segundo da África em comprimento (4.700 km), permite aos homens e suas mercadorias se deslocarem numa parte grande do seu curso e dos seus afluentes. Drenando o segundo maciço florestal tropical do planeta e situado sobre a linha do Equador, o curso d’água oferece também a vantagem de ser navegável o ano todo. É o meio mais prático para o transporte de madeira e algumas se transformam em jangadas para o transporte de passageiros e mercadorias. Pessoas se amontoam em barcaças empurradas por automotores que podem passar de 1000 toneladas e embarcam numa viagem de várias semanas, mas o trajeto é arriscado nessas aldeias flutuantes. Uma tempestade ou um acidente pode tirar a vida dos passageiros. MULTIDÃO NA PRAIA DE IPANEMA, ZONA SUL, RIO DE JANEIRO, BRASIL Na zona sul carioca se encontra uma das praias mais conhecidas do Brasil: a praia de Ipanema, lugar democrático e ponto de encontro do carioca em busca do lazer e prática de esportes. Foi perto desse cenário que Vinícius de Moraes e Tom Jobim se inspiraram para compor “Garota de Ipanema”, em 1962. A música se transformou em um símbolo da bossa nova e é cantada no mundo inteiro. É lamentável, no entanto, que nesta paisagem um grande número de praianos tenha o hábito de deixar para trás o lixo acumulado. No pôr do sol, a beleza excepcional coabita com uma grande quantidade de lixo. No último feriado do carnaval, a empresa de limpeza pública do Rio coletou mais de 76 toneladas de lixo no local. O Brasil tem 8mil km de litoral, ao longo do qual moram 26% dos seus habitantes. Nesse sentido, é importante considerar que este litoral está cada vez mais ameaçado pela subida do nível do mar. De acordo com o instituto oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), o mar subiu 40 centímetros em um século, ou seja, quarenta milímetros por ano. De acordo com a Marinha Brasileira, a elevação do nível do mar já afeta diretamente as atividades costeiras, e inúmeras praias do Rio já sofreram erosão sem precedentes. A praia do Leblon, situada na mesma linha da praia de Ipanema, é uma das mais vulneráveis do Rio. 110  ECOLÓGICO | AGOSTO DE 2013

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A TERRA

VISTA DO CÉU

CASA INUNDADA NO SUL DE DACCA, BANGLADESH Bangladesh é uma planície deltaica percorrida por uma vasta rede de 300 rios. De junho a setembro, quando chegam as chuvas diluvianas da monção de verão, os rios saem de seus leitos e inundam quase a metade do território. Habituada a esse ciclo natural, parte da população vive sobre ilhotas fluviais efêmeras formadas de areia e lama acumuladas pelas correntes. Em 1998, 2/3 do país ficaram submersos durante muitos meses, após a maior inundação do século XX, que matou 1.300 pessoas e destruiu as casas de 31 milhões de bangladeshianos. Consequência do aquecimento global, as catástrofes climáticas são cada vez mais numerosas e, seis anos depois, novas inundações, tão devastadoras quanto as precedentes, atingiram o país. O Bangladesh é o país mais densamente povoado do mundo. É também um dos mais pobres e um dos mais ameaçados pelos efeitos das mudanças climáticas. Nas próximas décadas, milhões de bangladeshianos poderão ser obrigados a se mudar para fugir da submersão progressiva devido a elevação do nível do mar. Em 2010, mais de 38 milhões de pessoas foram deslocadas por causa de catástrofes ligadas a eventos meteorológicos extremos, segundo o Centro de Monitorização de Deslocados Internos (IDMC): nesse ano, 15 milhões de chineses e 11 milhões de paquistaneses foram expulsos de suas casas por inundações.

VOLTA DA PESCA EM KAYAR, SENEGAL Dotados de uma alternância sazonal de correntes frias ricas em nutrientes vindos das ilhas Canárias e de correntes quentes equatoriais, os 700 km do litoral senegalês têm uma fauna marinha abundante. Essa riqueza alimenta a pesca costeira, 80% artesanal, praticada com linhas ou redes a bordo de pirogas de madeira motorizada. Mas ela também atrai traineiras de congelação europeias e chinesas, com melhor desempenho, que, graças à assinatura de acordos de pesca, exploram intensivamente os recursos. Existe também uma pesca pirata que a marinha senegalesa tem dificuldade em controlar. Com uma produção anual de cerca de 400 mil toneladas e 600 mil empregos diretos e indiretos, a atividade ainda é o primeiro recurso econômico do Senegal. Atum, sardinhas e pescados são, na maior parte, vendidos na própria praia, nos locais de desembarque das pirogas. Os peixes são secos, defumados e salgados antes de serem conduzidos para o interior do país. Para os senegaleses, como para um bilhão de pessoas no mundo, o oceano representa a primeira fonte de proteínas animais. AGOSTO DE 2013 | ECOLÓGICO  XX

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ESPECIAL YANN ARTHUS - BERTRAND

20 ANOS DE RETRATOS DO PLANETA

MOÇAS CARREGANDO BALDES AO PAÍS DOGON, PERTO DE BANDIAGARA, MALI Durante a estação seca na África, mulheres e meninas percorrem frequentemente 10 km a pé para coletar água para tarefas domésticas. Na África subsaariana, estima-se que 40 bilhões de horas por ano são dedicadas a essa tarefa. Para buscar água, as moças abandonam os estudos. No país Dogon, o analfabetismo atinge mais as mulheres do que os homens e a prática da poligamia e das mutilações genitais femininas são justificadas por um conjunto de razões sociais e religiosas. Estatísticas revelam que no Mali mais de 92% das mulheres sofrem excisões (às vezes até com 4 anos de idade) em todas as regiões, no meio urbano ou rural e em diferentes etnias. Mais de 80% dos malianos (homens e mulheres) pensam que essa prática deve ser mantida e veem qualquer argumentação contrária como um ataque ao encontro de sua identidade e cultura. Essas mutilações ainda são consideradas necessárias para que as jovens sejam “bem educadas” e aptas ao casamento. Na África, 3 milhões de jovens sofrem excisão a cada ano. As regiões mais atingidas por essa prática são a África (28 países) e também algumas regiões do Oriente, do sul e do leste das Ásia (Iêmen, Indonésia e Malásia). Em 2008, segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 100 e 140 milhões de mulheres seriam vítimas de práticas bárbaras.

PISCINÃO DE RAMOS, ZONA NORTE, RIO DE JANEIRO, BRASIL Esse grande lago artificial, com 26.414 m² recobertos por uma camada de polietileno e capacidade para 30milhões de litros de água salgada, é conhecido como “Piscinão de Ramos”. Cercado por 15 favelas, o local situado no bairro de Ramos, Zona Norte da cidade, foi construído em 2001 com o objetivo de oferecer uma área de lazer aos moradores de bairros populares da região que não podiam mais frequentar as praias da Baía de Guanabara devido à poluição. Essa baía, hoje em perigo, já teve lindas praias claras onde o banho, a pesca e o lazer eram praticados pela população carioca até os anos 1950. Um dos maiores desafios do Piscinão de Ramos é a sua limpeza. As estruturas sanitárias para receber a multidão são muito reduzidas, especialmente para um lugar que chega a receber 60 mil pessoas em um fim de semana ensolarado. 112  ECOLÓGICO | AGOSTO DE 2013

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A TERRA

FOTOS YANN ARTHUS - BERTRAND

VISTA DO CÉU

GRANDE FONTE HIDROTERMAL PRISMÁTICA, PARQUE NACIONAL DE YELLOWSTONE, WYOMING, EUA Situado num planalto vulcânico nos EUA e criado em 1872, Yellowstone é o mais antigo parque nacional do mundo. Enquanto os norte-americanos concluíam a “conquista do Oeste” e massacravam os últimos bisões, alguns tiveram a intuição de que a natureza devia ser protegida. O parque se estende por 9.000 km² e apresenta a maior concentração de fenômenos geotérmicos do globo. Com um diâmetro de 112 m, a Grande Fonte Hidrotermal Prismática é a bacia termal mais vasta do parque, e a terceira do mundo em tamanho. O espectro de cores, razão do seu nome, é devido à profundidade da água. Reserva da biosfera desde 1976 e inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1978, ele recebe, em média, 3 milhões de visitantes a cada ano. Mesmo representando 250 milhões de empregos, o turismo tem um impacto negativo sobre o meio ambiente, os recursos naturais e as culturas locais. COLHEITA DE ALGODÃO NAS MARGENS DO EUFRATES, SÍRIA Com uma superfície de 185.000 km² para quase 20 milhões de habitantes, a Síria se beneficia de um clima de tipo mediterrâneo. A agricultura representa quase 30% do PIB e emprega 1/3 da população ativa. Nos anos 1970, para sedentarizar as populações nômades, o Estado pôs à disposição dos beduínos lotes de terra para o cultivo do algodão. Apesar de menos lucrativo do que as culturas de frutas e legumes, o algodão ocupa o segundo lugar das exportações do país e coloca a Síria em nono lugar mundial entre os países exportadores dessa fibra têxtil. Aqui, são as mulheres que colhem o algodão, protegendo-se do sol e da poeira do algodão, fonte de alergia, com véus. Essa cultura foi desenvolvida sem controle de salinidade dos solos. No fim do século XX, quase 40% das terras aráveis do país eram salinas demais para a agricultura. Hoje, um programa de agricultura biossalina foi desenvolvido, garantindo a mistura controlada das águas subterrâneas salinas e a água doce do Eufrates, a fim de expandir as culturas de trigo, cevada, eucalipto, acácias e diversas espécies forrageiras. Escolhidas por seus interesses alimentares, essas culturas estabilizam os solos e fornecem matéria orgânica suficiente para melhorar a produção.

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conversamentos alfeu trancoso (*) redacao@revistaecologico.com.br

Os Valores Éticos

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se dá a essas disciplinas formativas. Na educação dos filhos, exemplo e presença dos pais são duas formas poderosas para o cumprimento dessa tarefa formadora. Diante da necessidade de trabalhar, pai e mãe encontram pouco tempo para ficar com os filhos. Sobra para a escola, mas ela sozinha não dá conta de tudo isso. A religião é também outro centro importante de formação humana. Mas quantas denominações religiosas estão atrás do “lucro” fácil e do êxtase terapêutico tão em moda hoje? E, por cima de tudo, ainda temos de enfrentar os desvios de uma sociedade consumista que gera comportamentos antiéticos, que são os promotores nefastos da violência cotidiana, do erotismo sem limites e do consumo a todo custo? O amor à natureza, por exemplo, é um valor perene que não está à mercê das oscilações existenciais ou sociais de quem o pratica, pois aquele que ama verdadeiramente o mundo natural sabe que esse sentimento será presença constante enquanto durar a sua vida. Do ponto de vista ético, quem ama, ama para sempre, porque o amar antes de ser um sentimento é um valor ético. Na vida conjugal, por exemplo, a fidelidade não é uma obrigação, mas um merecimento, já que posso desejar outras, mas minha mulher não merece, portanto, se não devo, eu não posso. No tocante às questões ecológicas, ao assumirmos a educação ambiental, teríamos uma responsabilidade imensa pela frente: sensibilizar as pessoas para que elas participem da construção de uma nova maneira de se comportar diante dos outros e da natureza. Essa educação traria no seu ideário um elenco de valores contínuos de cuidado, de respeito e de responsabilidade com o natural. É com esse material que poderíamos formar a espinha dorsal de uma sociedade mais ética e ecológica.  leandro inocencio

O

espírito capaz de se compadecer e de se solidarizar é necessariamente um ser mais cooperativo e menos competitivo. Essas atitudes estão ligadas a valores que orientam e justificam tais comportamentos. Um valor é uma experiência transmitida ou vivida que elegemos para dar sentido à nossa vida cotidiana. Esse valor é considerado uma referência justa, verdadeira e, portanto, necessária. São os valores éticos ou de consciência. Como eles são constantes, orientam nossa conduta - valor moral - pela vida inteira. E é pelo valor ético que nossa vontade é controlada independentemente da presença do outro. É muito comum ouvirmos: ninguém está vendo! Como se, na ausência dos outros, pudéssemos agir à vontade. O imperativo categórico de Kant é claro nesse sentido: “Aja de tal forma que sua conduta seja um exemplo para todos!”. Posso desejar ou ter certas vontades, mas, pensando bem, não devo - valor de consciência -, logo não posso. Isso significa que a minha conduta deve estar sempre condicionada a um valor maior, isto é, a um ato da consciência. Esta consciência é o conjunto de valores que foram introjetados pela cultura em todos nós desde que começamos a nos entender por gente. Daí a importância tanto da família quanto da escola na formação da pessoa humana. Mas certos princípios morais mudam com o tempo, isto é, são históricos. Já os valores éticos continuam perenes, pois exprimem ideais superiores que são universais. Podemos citar alguns, como a solidariedade, a compaixão, a honestidade, a generosidade e a responsabilidade. Como são universais, eles valem em todos os lugares e em todos os tempos. Felizmente, são imunes aos relativismos tão em voga. Educar não é somente ensinar as pessoas uma profissão, mas também passar experiências espirituais que vão dignificar uma conduta pelo resto da vida. Infelizmente, em nossas escolas, pouca atenção

(*) Ambientalista e professor de Filosofia da PUC Minas

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Quem planta รกrvore, colhe Sustentabilidade


Revista ECOLÓGICO - Edição 60 - Amor de Fotógrafo