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ANO 9 - Nº 97 - ABRIL DE 2017 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


JUNTOS, FAZEMOS A DIFERENÇA.

Edirlando Ferreira, empregado Usiminas, com sua esposa Rosilene e seus filhos Larissa e Edirlando.

Para a Usiminas, a parceria ideal é sempre aquela que melhora a vida das pessoas. Com esse objetivo, o Projeto Xerimbabo se tornou um grande sucesso, levando educação ambiental para mais de 2,4 milhões de visitantes em três décadas de existência. Já o “Caminhos do Vale” pavimentou cerca de 450 km de estradas rurais, beneficiando mais de meio milhão de moradores do Vale do Aço. Esses projetos, e muitos outros, são exemplos concretos de como a construção em conjunto com as comunidades gera resultados positivos. Acesse nosso site e conheça outras iniciativas que fazem a diferença. www.usiminas.com


IMAGEM DO MÊS

PELOS CORAIS AMAZÔNICOS Em uma manifestação recente na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, mais de 500 pessoas formaram a mensagem “Defenda os Corais da Amazônia” para simbolizar o apoio da população à campanha do Greenpeace que pede a proteção desses corais. Bioma marinho único, ele foi revelado ao mundo apenas em 2016 e já está ameaçado pela iminente exploração de petróleo. A ação foi articulada pelo Greenpeace em parceria com o artista norte-americano John Quigley. Em um segundo momento, o grupo formou a frase “Petróleo Não” – um recado direto à empresa francesa Total e à britânica BP. Ambas compraram o direito de explorar blocos de petróleo na costa do Amapá, perto dos corais. A Total planeja começar suas atividades até o final deste ano. Um de seus blocos está a apenas oito quilômetros da área conhecida do novo bioma. ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O03

FOTO: FERNANDA LIGABUE / SPECTRAL Q / GREENPEACE

FOTO: RAFAEL ROLIM / SPECTRAL Q / GREENPEACE

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YARA TUPYNAMBÁ Campo com Microlícias Serra do Cipó

EXPEDIENTE

FOTO: SILVIO COUTINHO

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Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Cristiane Mendonça, Luciana Morais e Vinícius Carvalho

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com

EDITORIA DE ARTE André Firmino

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

COLUNISTAS Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda. ecologico@souecologico.com

DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

REVISÃO Gustavo Abreu CAPA Arte: Sanakan / Divulgação / André Firmino

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

VERSÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br (*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com

3,30 tCO2e Jan/Fev de 2017

souecologico ecologico


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A emissora da padroeira de Minas


“O Bento – Terra da Gente” foi eleito o melhor documentário de televisão pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNNB) e recebeu o prêmio Clara de Assis – 2017. A produção retrata como moradores do distrito de Bento Rodrigues (MG) lutam para recuperar suas vidas, após sofrerem com a devastação do maior desastre ambiental já ocorrido no país. Apoio:

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ÍNDICE

CAPA A PROMESSA POLÊMICA E A ESPERANÇA AINDA NÃO CONCRETIZADAS PELO EX-GOVERNADOR DO ESTADO DO MATO GROSSO E ATUAL MINISTRO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO BLAIRO MAGGI

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PÁGINAS VERDES

RODRIGO PERPÉTUO, SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO ICLEI, FALA DA IMPORTÂNCIA DA BIODIVERSIDADE NAS CIDADES

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ECOLÓGICO NAS ESCOLAS ENTENDA COMO OS GÊISERES SÃO FORMADOS E QUAL É A DINÂMICA DE SEU FUNCIONAMENTO

E mais... CARTAS DOS LEITORES 10 CARTA DO EDITOR 12 ECONECTADO 14 GENTE ECOLÓGICA 16 SOU ECOLÓGICO 18 ESTADO DE ALERTA 35 INOVAÇÃO AMBIENTAL 36 GESTÃO & TI 39 ÁGUA E TECNOLOGIA 40 ENCARTE ESPECIAL FIEMG (1) 45 CULTURA 56

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VOCÊ SABIA? CONHEÇA CURIOSIDADES SOBRE OS CORVOS, AS AVES INTELIGENTES, QUE MANTÊM BOA RELAÇÃO COM OS HUMANOS

AGRONEGÓCIO 60 RECURSOS HÍDRICOS 66 ENSAIO FOTOGRÁFICO 82 NATUREZA MEDICINAL 90

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VENHA VIVER PAIXÕES À PRIMEIRA VISTA, AO PRIMEIRO PRATO E AO PRIMEIRO PASSEIO.

EM CADA CANTO, UMA MINAS INESQUECÍVEL. Das cidades históricas à natureza exuberante. Da aventura ao sagrado. Em cada passeio, sabores, tradições e a hospitalidade que só Minas Gerais tem. Venha e se encante. visiteminasgerais | #turismomg


CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

OPÁGINAS VERDES - "NÃO TEREMOS MAIS PESCA NO BRASIL" Entrevista com Monica Peres, diretora-geral da ONG internacional Oceana

“Não existe fiscalização do litoral brasileiro. E uma pesquisa realizada no Sul, por exemplo, pode mostrar realidade diferente de outra região. Se não fizer um trabalho de monitoramento e divulgação nas prefeituras, colônias e associações de pesca, não vai funcionar a proibição, pois os pescadores vão continuar pescando em todo o Brasil.” Paulo Guedes, via Facebook “Não se investe em pesquisa e fiscalização! As decisões são tomadas por políticos analfabetos!” Filipe Viegas de Arruda, via Facebook OPOLÍTICA AMBIENTAL Os dois últimos grandes desafios que o novo prefeito de BH terá de enfrentar, ao lado do governador Fernando Pimentel OMATÉRIA DE CAPA - FRACKING, NÃO! A exploração de gás de folhelho já poluiu o solo e a água de vários países e agora chega "de mansinho" ao Brasil

“Nós, brasileiros, não podemos permitir que isso aconteça no país. Já temos problemas demais com exploração de energia baseada em combustíveis fósseis. Queremos soluções limpas, e que o Brasil seja referência nisso.” João Pedro Vicente, via e-mail OECOLÓGICO NAS ESCOLAS – PASSARINHAR É PRECISO! Matéria fala sobre a importância das aves para o equilíbrio ambiental e as espécies ameaçadas

“Façamos igual aos pássaros: quando viajar, leve sementes de árvores para que no futuro possamos viver num mundo melhor! Caso não estejam por aqui, parentes, filhos e netos podem seguir o seu exemplo. Mesmo que não vivam com você!” Mayrink Nilo, via Facebook “Ficou muito bacana a matéria sobre as aves. Aliás, a revista toda está recheada de excelentes matérias. Agradecemos a toda a equipe da Ecológico pelo apoio à nossa ONG e à atividade de observação de aves.” Adriano Peixoto, diretor-presidente da ECOAVIS 10 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

“A questão é que todos esses desafios eram praticamente os mesmos de prefeitos passados. Todos se propuseram a resolver, mas a conta sempre é deixada para o próximo pagar. Enquanto isso, o meio ambiente continua a ser esfolado frente aos nossos olhos.” Emannoely Vieira, via e-mail EU LEIO “Estar atualizada com o mundo é primordial nos dias de hoje. E uma das formas mais gostosas de me manter em dia com as informações é lendo a Revista Ecológico. É uma publicação densa e cheia de assuntos abrangentes, além das imagens serem encantadoras, muitas das vezes até poéticas. Enquanto a maioria dos veículos de comunicação estão preocupados em fazer acusações e sensacionalismo, a Ecológico preocupa-se na solução dos problemas enfrentados, no diálogo entre intituições e a sociedade.”

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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FA L E C O N O S C O Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

Vanda Ribeiro, fotógrafa


O SISTEMA FIEMG INVESTE PARA QUE A INDÚSTRIA MINEIRA SEJA MODERNA, COMPETITIVA E SUSTENTÁVEL.

MINAS SUSTENTÁVEL: Programa criado em 2011 que apoia, incentiva e orienta empresários mineiros a adotarem processos produtivos mais sustentáveis e eficientes. • 5.287 empresas visitadas. • 299 municípios atendidos. • 407 licenças ambientais concedidas por meio da parceria com o Minas Sustentável. • 1.281 empresas orientadas para a ecoeficiência. • 2.861 trabalhadores e empresários capacitados.


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CARTA DO EDITOR HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

E A CARNE “VERDE”, MAGGI?

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FOTO: FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM / ABR

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mundo inteiro, capitalista e carnívoro, assistiu ao desempenho “salve a Pátria” de Blairo Maggi, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ao longo de toda a truncada Operação Carne Fraca. Impetuoso e pragmático, como é de seu estilo, ele não deixou por menos. Vestiu até macacão higiênico para entrar nos frigoríficos e conhecer as suas entranhas e vísceras. E, assim, evitar que o maior país produtor de carne bovina do planeta tivesse um prejuízo estimado de até US$ 1,5 bilhão. Não teve. Para um setor que, novamente livre e aquecido, vide a fome de uma população global de sete bilhões de habitantes, deverá capitalizar até R$ 15 bilhões em exportações até o final deste ano, o estrago financeiro não deverá passar de US$ 140 milhões, que também será compensado. Como bem apontou a colega Bianca Alvarenga, na Revista Veja, em uma ação conjunta, tanto o Governo Temer quanto as empresas exportadoras de carne conseguiram evitar uma “indigestão” maior ainda. Acabaram se mexendo para aprimorar a necessária fiscalização, através de uma Medida Provisória com penas mais duras do que as previstas na regulamentação insustentável de 1952. O capitalismo, o ministro e todo o setor produtivo sabem bem disso, como tudo que é vivo na natureza, é criativo, adaptativo e multiplicativo. Ele se reinventa o tempo todo, para não morrer. E, pelo contrário, continuar vivo, lucrando cada vez mais, após recuperar, com um simples e futuro aumento nos preços, qualquer tragédia carnívora atual. Aí é que o ministro Blairo Maggi entra, de novo, na dança agropecuária e vital do planeta. Ele sabe, igualmente, que toda espécie de vida animal ou vegetal sobre a Terra, seja uma simples borboleta até a baleia mais majestosa, se extinta, é para sempre. Enquanto governador do Mato Grosso, em sua época, o Estado mais devastador e predatório da ainda resiliente Amazônia Legal Brasileira, ele venceu, em 2005, com 37,2% de indicações, o vergonhoso prêmio “Motosserra de Ouro”, do Greenpeace. Ou seja, apontado, depois de Lula (26,3%), como a “personalidade brasileira que mais contribuiu para a destruição (e extinção gradativa) de toda a biodiversidade que ainda se abriga na última grande floresta tropical e refrigerador naturalmente climático do planeta”. Entrevistado pela Ecológico, nessa época, o gover-

BLAIRO MAGGI, em busca da nota 10 em meio ambiente: depende dele fazer da pecuária brasileira um setor mais sustentável

nador Maggi não se abalou. Agricultor e pecuarista, ele aceitou, parcialmente, as críticas. E contra atacou, seguro e desafiante: “Minha defesa é achar que contra trabalho não há argumento. O que temos de fazer é trabalhar. Deram-me zero na área ambiental. Vou mostrar que somos capazes de tirar um dez!” Daí a pergunta que a Ecológico lhe refaz nesta edição, já passados onze anos dessa sua promessa: por que, do mesmo jeito que atuou em defesa da carne vermelha, nem sempre sustentável, ele e o Governo Temer, incluindo a própria indústria da carne, seus grandes e rentáveis frigoríficos, não implantam a “Operação Carne ‘Verde’”, 100% sustentável, conscientes de que a pecuária extensiva e predatória continua sendo responsável por 65% da destruição em curso e galopante da Amazônia? E que os 35% de natureza e meio ambiente já perdidos ali não têm preço? E se tivesse, certamente seria infinitamente maior que os US$ 1,5 bilhão de perda superestimada por Maggi na Operação Carne Fraca? É esta a nova pergunta mais patriota ainda, caro Blairo, que lhe fazemos. É o que você, caro leitor, cara leitora, vai continuar acompanhando nesta primeira edição outonal da sua Ecológico. Boa leitura, até à próxima lua cheia! O


“Terra enfrenta catastrófica perda de espécies.” - THE GUARDIAN 22 de julho de 2006

“Toma essa, extinção: pandas gigantes e outros animais resistem.” - THE GUARDIAN 05 de setembro de 2016

A WayCarbon completa 10 anos. E, assim como o mundo, vivenciamos grandes transformações. Não acreditamos em causas perdidas, mas na capacidade de solucionar desafios e alcançar grandes objetivos.

www.blog.waycarbon.com


ECONECTADO CRISTIANE MENDONÇA

“Salve o plano de energia limpa para proteger nosso ambiente para famílias, animais e fazendas!”

FOTO: UN CLIMATE CHANGE

@MarkRuffalo Mark Ruffalo, ator

“Está acontecendo! Pequim fechou sua última fábrica de carvão. Ar mais limpo, o planeta mais limpo!”

FOTO: PLATINUM

@CFigueres - Christiana Figueres, diplomata

INSTAGRAM VERDE Araquém Alcântara é um dos fotógrafos de natureza mais reconhecidos do Brasil. Nascido em Florianópolis (Santa Catarina), ele conta que foi uma foto de onça, feita em 1979, em uma viagem para a Amazônia, que o fez dedicar toda sua carreira aos temas ambientais. No seu extenso portfólio, é possível apreciar belíssimas imagens de animais selvagens, povos indígenas e toda variedade da flora. Fotografias que podem ser apreciadas no Instagram dele, @araquemoficial. Sorte a nossa!

FOTO: REPRODUÇÃO INSTAGRAM

FOTO: GAGE SKIDMORE

TWITTANDO

ECO LINKS Uma plataforma que reúne experiências sistematizadas de boas práticas de gestão nos municípios. Esse é o mote da “Rede Juntos”, um banco de dados on-line organizado pelo “Programa Juntos”, da Comunitas. A iniciativa atua em 15 cidades brasileiras por meio de mais de 70 frentes de trabalho e já atingiu mais de 24 milhões de cidadãos. O trabalho envolve líderes empresariais e a sociedade civil no debate de ações para a melhoria da gestão pública e o aprimoramento dos serviços prestados aos cidadãos. Experiências que estão sendo disponibilizadas na plataforma por meio de cartilhas, vídeos e documentos. Acesse comunitas.org e juntos.plurall.net

MAIS ACESSADA

“Trump entra para a história como o presidente dos EUA que mais afrontou a Ciência, e também, o mais subserviente à indústria do petróleo.” @andretrig André Trigueiro, jornalista 14 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

“O Cordel da Simplicidade” foi o texto mais acessado no site da Revista Ecológico em março. A matéria fala sobre o cearense Bráulio Bessa que, por meio da literatura de cordel, exalta profissões – como a de professor –, aborda questões do cotidiano, como o combate ao mosquito Aedes Aegypti e, sobretudo, celebra sentimentos e atitudes capazes de “adoçar” as nossas vidas, como amor, respeito, gentileza e honestidade. Também ficou com vontade de colorir o seu dia? Acesse o texto no link a seguir: goo.gl/2TQrZG

FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

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FOTO: ALEX FERREIRA / CÂMARA DOS DEPUTADOS

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GENTE ECOLÓGICA

“Águas são muitas, infindas.” PERO VAZ DE CAMINHA, escrivão português relatando, há mais de 500 anos, a natureza descoberta do Brasil

“Não só o Brasil tem uma dívida com a Amazônia, mas também o mundo. Está na hora de buscarmos essa compensação. Os organismos internacionais já estão maduros e estou disposto a liderar esse processo de busca de recursos.”

“Deus quer. O homem sonha. E a obra acontece.”

FOTO: BHTEC

SARNEY FILHO, ministro do Meio Ambiente, falando aos secretários de Meio Ambiente da Amazônia Legal

“Um parque tecnológico precisa estar conectado a essa lógica da energia limpa e da preservação ambiental. Usando energia solar, reduzimos a utilização da energia termoelétrica, que é poluidora e cara.”

FERNANDO PESSOA, poeta português

“Se uma planta não consegue viver de acordo com sua natureza, ela morre. Assim também o homem.” HENRY DAVID THOREAU, poeta e naturalista norte-americano

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FOTO: TOMAZ SILVA / ABR

RONALDO PENA, presidente do BHTec

“Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos; o sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza.” PAPA FRANCISCO


FOTO: RIJKSOVERHEID

“O objetivo é avançar juntos, não regressar, literalmente, à idade do carvão.” SHARON DIJKSMA, secretária de Estado de Meio Ambiente da Holanda, ao comentar a indefinição dos Estados Unidos e de Donald Trump sobre a participação no Acordo de Paris

MANOEL MÁRIO DE SOUZA BARROS, superintendente regional de São Paulo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e diretor do Agronegócio da Câmara Internacional, sobre a crise da carne FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

FOTO: LÚCIO BERNARDO JR. / CÂMARA DOS DEPUTADOS

RONALDO BARCELOS Coordenador do projeto "Guerreiros da Amazônia", série de três livros com a missão de divertir e educar crianças do Brasil sobre a necessidade de se preservar a Floresta Amazônica e seus povos, ele acaba de relançar a primeira obra com um detalhe inovador: as páginas contêm verniz com microcápsulas repelentes que, acionadas durante o manuseio, podem manter longe o mosquito transmissor da dengue, chikungunya, zika , malária e febre amarela.

FÁBIO RAMALHO, deputado federal (PMDB-MG)

MINGUANDO

“Claro que somos parecidas. Ela é médica e eu sou médica. E eu sou uma menina bonita e ela é uma menina bonita.” SOPHIA BENNER, de dois anos, em resposta a uma vendedora que a perguntou se “não queria uma boneca parecida com ela”. Sophia escolheu a boneca negra

“O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.” ELIANE BRUM, jornalista

JOSÉ PRIANTE A Comissão Mista responsável por analisar a Medida Provisória 756/16 aprovou o parecer do deputado (PMDB-PA) que propõe a alteração dos limites da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim e cria a Área de Proteção Ambiental (APA) do Jamanxim, no município de Novo Progresso (PA). Segundo a WWF- Brasil, a medida deixa 660 mil hectares de áreas protegidas no oeste do Pará vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.

FOTO: DIVULGAÇÃO

“Vamos exigir ação por parte do governo, não vamos pedir. Senão, o rio São Francisco vai secar na Bahia nos próximos anos e a vazão em Minas diminuirá mais ainda.”

FOTO: GLÁUCIA RODRIGUES

FOTO: DIVULGAÇÃO

“Foi um ponto fora da curva. E comprometeu a imagem do setor mais produtivo do país e seu compromisso com o desenvolvimento sustentável.”

CRESCENDO

JOSÉ MAYER O ator global foi acusado por uma figurinista de assédio sexual e acabou assumindo a culpa em uma carta pública divulgada no início de abril. O episódio gerou grande repercussão no país, principalmente nas redes sociais, onde diversas profissionais, incluindo atrizes da emissora, vestiam camisas com os dizeres "Mexeu com uma mexeu com todas". A Rede Globo suspendeu o ator de futuras produções na emissora. ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O17


FOTO: ROBERTO LINSKER

SOU ECOLÓGICO

Segundo acordo temático firmado pela Revista Ecológico com o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, em Brasília, a 8ª edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza” - o “Oscar da Ecologia brasileira” 2017 terá como seu homenageado principal, este ano, não apenas uma personalidade, como é tradição. Mas um casal distinto planetariamente na causa que mais deveria preocupar os governantes e ainda pode salvar a humanidade do seu destino em comum. Trata-se do casal Lélia Warnick e Sebastião Salgado, ambos responsáveis, a exemplo da última publicação “Gênesis”, pelos documentários fotográficos e editoriais mais audaciosos, importantes e esperançosos sobre o estado ambiental do planeta. Retrataram a morte em transe de milhares de pessoas refugiadas da seca na África e a tragédia de Mariana no Rio Doce, o maior e antiecológico acidente já ocorrido na história brasileira. A data da solenidade da premiação, este ano, teve de ser antecipada, em função do encontro climático mundial , a COP-23, de 06 a 17 de novembro, em Bonn, na Alemanha: será no dia 26 de outubro, na capital mineira. O anúncio e o regulamento das inscrições e indicações ao 8º Prêmio Hugo Werneck, sob o tema “A Terra pede Paz”, serão lançados virtualmente no dia 22 de abril, instituído pela ONU como o “Dia do Planeta Terra”. Confira como se inscrever e concorrer à maior, mais amorosa e jornalística premiação ambiental do Brasil acessando o site www.premiohugowerneck.com.br 18 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

FOTO: RICARDO BELIEL

A Terra pede paz!

LÉLIA WARNICK e Sebastião Salgado: homenagem dupla FOTO: PAULO DE ARAÚJO / MMA

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HIRAM FIRMINO, acompanhado do ex-ministro José Carlos Carvalho, entrega a Sarney Filho a estatueta Hugo Werneck 2016 de “Melhor Político”: “Só o amor à causa, como de Lélia e Sebastião” - declarou o ministro – “pode salvar o planeta”


FOTO: ARQUIVO PESSOAL

ADEUS, DR. VERDE! Semana dessas, como de costume, passei na sala do médico otorrinolaringologista João José de Castro, em BH, para uma mais conversa que consulta, de tanto que viramos confidentes ambientais. Aos 83 anos, ele tinha um sítio em Abaeté (MG), onde lutava há quatro anos junto ao Instituto Estadual de Florestas (IEF) para conseguir duas licenças ambientais. Uma para poder reflorestar o terreno já devastado. E outra para barrar e utilizar, de maneira sustentável, a pouca água que ainda brotava ali. Passei em vão. Contemporâneo de Apolo Heringer, na Faculdade de Medicina da UFMG, de quem sempre falávamos, o amigo médico das minhas orelhas secas não estava mais. Havia morrido de acidente de trânsito, na véspera do carnaval, indo com a mulher Fabiana e sua filha Júlia para o seu verde particular. Um verde e uma água que ele tentou legalmente preservar. Tudo por culpa da precariedade cada dia pior dos nossos órgãos públicos ambientais. Nossos IEFs, IGAMs, FEAMs e SEMADs que tanto amamos,

JOÃO JOSÉ de Castro: na sua sala, está faltando ele

defendemos e continuam sem condições de chegar a tempo, até o cidadão comum. É de doer o coração e a nossa inteligência. Obrigado, dr. João, pelas consultas de sabedoria. A natureza te agradece mais ainda pelas quatro mil mudas de árvores que você conseguiu plantar clandestinamente. E esconder do governo, ouvindo este seu paciente subversivo. O

Os mineiros conhecem bem a força do diálogo, da liberdade e da democracia. Por isso, na Assembleia Legislativa, os representantes do povo debatem ideias e consultam a população para criar leis que tragam mais qualidade de vida e desenvolvimento para o campo e a cidade. Participe! É com você que a Assembleia se torna, cada vez mais, o poder e a voz do cidadão.

almg.gov.br


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PÁGINAS VERDES

“TEMOS DE EMPODERAR A BIODIVERSIDADE URBANA" Cristiane Mendonça e Luciano Lopes

FOTO: ANDRÉ FIRMINO

redacao@revistaecologico.com.br

RODRIGO PERPÉTUO: "Infelizmente, a biodiversidade ainda é vista nas cidades como estorvo"

20 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

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Secretaria de Meio Ambiente de uma cidade ou Estado não pode ser mais uma caixinha, tem de transversalizar todos os assuntos. Do mesmo jeito, a questão do desenvolvimento sustentável não é só do secretário de Meio Ambiente. É do prefeito, ele deve ser o principal interlocutor.” A frase, do secretário-executivo do ICLEI para a América do Sul, Rodrigo Perpétuo, aponta um desafio que grande parte das cidades ainda precisa resolver para colocar a sustentabilidade como elemento norteador do poder público. Nesta entrevista à Ecológico, Rodrigo ressaltou a importância dos governos locais no enfrentamento às mudanças climáticas, principalmente nas questões relativas aos recursos hídricos. “O modelo da gestão de águas do século passado não pode ser repetido”, afirma ele. Em 22 de março último, apresentou sua palestra “Água e Cidades Uma Perspectiva do Fórum Mundial das Águas” – da qual reproduzimos também alguns trechos a seguir – na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Nela, ele falou sobre a contribuição do ICLEI para fazer Minas e o Brasil protagonistas do evento. Formado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), ele também é especialista em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral e em Cooperação Descentralizada pela Universidade Aberta da Catalunha, Espanha. Também acumulou experiências no setor privado, trabalhando com gestão de negócios, tecnologia e educação internacional; e na academia, como professor de Relações Internacionais. Confira seus recados: NASCIMENTO DO ICLEI “A organização nasceu no começo da década de 1990, a partir do anseio de prefeitos do mundo todo para participar da ECO-92. A Assembleia Fundacional do ICLEI foi realizada na sede das Nações Unidas, em Nova York, e reuniu 200 prefeitos. Esse movimento cresceu e hoje abrange 1.500 governos locais que militam em torno da organização. São cidades de todos os tamanhos, desde megacidades, estados também, a municípios de menor porte. No caso da América do Sul, temos cerca de 50 membros que representam, aproximadamente, 100 milhões de habitantes, com concentração particularmente em São Paulo. No nosso planejamento para os próximos anos, vamos fortalecer a aproximação com nossos parceiros. Isso também prevê a abertura de um escritório em Belo Horizonte.”


RODRIGO PERPÉTUO

FOTO: MARCELO ROSA / PBH

Secretário-executivo do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade - América do Sul

QUEM É ELE

Rodrigo Perpétuo iniciou sua experiência com a gestão pública a convite da Prefeitura de Belo Horizonte, cidademembro do ICLEI, em 2005, para estruturar e chefiar a Secretaria de Relações Internacionais. À frente da Secretaria Municipal, foi secretário-executivo da Rede Mercocidades, que trabalha pela participação das cidades sulamericanas nos processos de integração regional. Também presidiu o Fórum Nacional de Secretários e Gestores Municipais de Relações Internacionais (Fonari) de 2011 a 2013, coordenou a realização do Congresso Mundial ICLEI, em 2012, e, três anos depois, assumiu a Secretaria de Relações Internacionais do Estado de Minas Gerais até aceitar o convite do ICLEI.

BIODIVERSIDADE “Infelizmente ela ainda é vista nas cidades como estorvo. É a árvore que ‘estragou a calçada’ ou que ‘caiu no carro’, a ‘água que inundou’ a casa, o parque que ‘dá praga’... Os projetos desenvolvidos pelo ICLEI têm como objetivo colocar a biodiversidade no seio da estratégia de desenvolvimento urbano.” ENGAJAMENTO DAS CIDADES “Se o problema socioambiental não afeta sua vida diretamente, ele é invisível. Trabalhar na administração pública me fez perceber isso: que os problemas invisíveis são de todos precisam ser da consciência coletiva. E só vão ser resolvidos se tiverem uma colaboração mais ampla. Trabalhar esta perspectiva de futuro a partir do engajamento das

“Talvez BH seja o melhor exemplo, ao lado de Recife, de cidade brasileira preparada para o enfrentamento das mudanças climáticas.” cidades significa contribuir para a construção de um movimento consistente de transformação, que tem uma pegada global. A agenda de internacionalização nas cidades é, cada vez, mais a agenda do desenvolvimento sustentável. Se uma cidade tem um programa internacional, mas se ele não dialogar com a nova agenda urbana, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e com a agenda do clima, não terá resultados.” PROJETOS EM ANDAMENTO (1) “O objetivo é empoderar a biodiversidade como elemento ordenador da vida urbana. Estamos iniciando agora um ciclo de quatro anos com três projetos grandes, de grande porte. O primeiro é o ‘Urban Leds – Uma Agenda de Desenvolvimento Sustentá-

vel de Baixo Carbono’. Trata-se da adoção de uma estratégia por parte das cidades, passando pela conscientização dos prefeitos, também dos membros do Legislativo, e a partir daí um diálogo com a sociedade civil e no papel que as cidades têm frente à agenda climática. Isso inclui inventários de gases de efeito estufa e planos de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças do clima. Em um segundo momento, já focado na sua implementação, a estratégia será trabalhada em oito municípios - Belo Horizonte, Betim e Contagem estão entre eles. Vamos dialogar com parceiros, agências internacionais e nacionais, instituições financeiras e buscar soluções de aperfeiçoamento técnico e oportunidades de políticas de baixo carbono.”

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ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O21


PÁGINAS VERDES

FOTO: FERNANDA MANN

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PROJETOS EM ANDAMENTO (2) “Os outros dois projetos estão ligados à questão da biodiversidade. Ambos são financiados pelo governo alemão e serão implementados em paralelo, mas numa política de integração muito forte. O primeiro irá debater os marcos regulatórios para a biodiversidade no Brasil chamando a atenção para a participação dos municípios. No segundo, vamos trabalhar com cidades das regiões metropolitanas para dialogar exatamente essa perspectiva de integração desses mecanismos dos marcos internacionais nos seus planos diretores.” EXEMPLO BRASILIS “O município precisa se credenciar como um instrumento para dialogar com as agências nacionais e internacionais de financiamento público. Hoje existe, entrando no sistema internacional, uma grande quantidade de recurso ligada à questão das mudanças climáticas. O processo de implementação do Acordo de Paris, por exemplo: são US$ 100 bilhões por ano. É muito dinheiro, que vai para o setor privado. Aqui em Minas Gerais, na siderurgia, há o exemplo fantástico de um projeto que a PNUD vem implementando, que se chama ‘Siderurgia Sustentável’. Ele trata da substituição de tecnologia de fornos das siderúrgicas para incentivar o uso do carvão vegetal e suprimir ao máximo o uso do carvão mineral. Isso tem efeitos outros, como plantio de árvores, envolvimento do pequeno produtor rural, pesquisa. É um projeto para ser desenvolvido ao longo de quatro anos e com aporte de R$ 160 milhões. São iniciativas 22 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

“Marcio Lacerda foi o prefeito que deu mais condições para a área ambiental trabalhar.” assim que devem ser multiplicadas em Minas e no Brasil.” AGENDA SUSTENTÁVEL “A Secretaria de Meio Ambiente de uma cidade ou Estado não pode ser mais uma caixinha, tem de transversalizar todos os assuntos. A questão do desenvolvimento sustentável não é só do secretário de meio ambiente. É do prefeito, ele deve ser o interlocutor e não síndico. Precisa ser capaz de lidar com as demandas da cidade, transitar entre a boa administração dos problemas rotineiros e a construção de uma visão de futuro que faça sentido e retorne para o muni-

cípio, para que ele vença seus desafios. Marcio Lacerda foi um dos prefeitos que mais se aproximou disso no Brasil. Ele deu condições para a área ambiental trabalhar de maneira transversal, com as demais áreas. Mas não capitalizou, apropriando-se politicamente disso.” COOPERAÇÃO COM O ESTADO “O Termo que assinamos com o Governo de Minas Gerais nos abrirá espaço para uma relação muito profícua e a agilidade e urgência que temos para tratar as questões ambientais que batem à porta. Inclusive com a questão da água, que também integra o acordo de cooperação.” “Este acordo evidencia a preparação de Minas para o 8o Fórum Mundial da Água, que acontecerá ano que vem pela primeira vez no Brasil. Estamos dialogando com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), com o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e também queremos a Prefeitura de Belo Horizonte unindo-se a este esforço conjunto.” “A nossa presença objetiva trazer para as prefeituras de municípios mineiros uma possibilidade de acesso ao que há de melhor em termos de boas práticas municipais pelo desenvolvimento sustentável, ligadas ao clima, em termos da valorização da biodiversidade.” BELO HORIZONTE “Talvez BH seja o melhor exemplo, ao lado de Recife, de cidade brasileira preparada para o enfrentamento das mudanças climáticas. A capital mineira tem um inventário de emissões atualizado, plano de ação e análise de vulnerabilidade climática


RODRIGO PERPÉTUO Secretário-executivo do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade - América do Sul

que acabou de ser entregue no final do ano passado, além de um selo de edificações sustentáveis que poderia estar veiculado a incentivos fiscais. Mas ainda existe uma baixa apropriação política desses instrumentos por parte da administração pública municipal. Se você sair daqui, do Brasil, Paris hoje é a grande líder, principalmente com toda a restrição de veículos com alto índice de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEEs) e a assertividade nas informações que trabalham no planejamento ambiental do município. Há também a Cidade do México, que emite bônus verdes, conseguiu implantar uma política de transporte ecologicamente efetiva e fez um trabalho de liderança internacional de pactuação. Isso incentivou o prefeito a ter uma ação conjunta e transversal pelo clima na cidade, além de uma política de comunicação que traz as questões sociais junto com a sustentabilidade.” GUIA DE AÇÃO “É um trabalho de sensibilização, e também de monitoramento, na ótica da sociedade civil. É uma metodologia de treinamento, que está acessível às cidades. A dinâmica de sensibilização é muito complementar. Estamos tentando agora, com o Ministério do Meio Ambiente, transformar o conteúdo do Guia em ensino a distância.”

FINANCIAMENTO “A questão climática está afetando a todos, principalmente, os recursos hídricos. A partir do Acordo de Paris nós temos uma série de compromissos e de oportunidades, porque junto com eles também virá o financiamento para aquelas políticas públicas que estejam sintonizadas com essas diretrizes internacionais.”

entra nas vias formais se perde. E também os investimentos caros que se fazem para tratar a água. A visão tradicionalista preconiza a questão da drenagem, do afastamento dos esgotos, mas o gestor contemporâneo precisa olhar para as águas urbanas de forma a considerar o manejo integrado, de forma a considerar o reúso como parceiro também na questão das ligações irregulares. Antes, era uma questão higienista, de a sujeira estar longe. Mas agora, a questão ambiental traz uma visão do mais importante recurso natural como parte necessária do nosso ambiente, e as possíveis reutilizações do recurso já recirculado também precisam ser compreendidas e regulamentadas. A tônica precisa ser conviver com essa água, tratá-la bem, tê-la como algo positivo na paisagem urbana.”

FINANÇAS VERDES “Elas são importantes porque permitem acesso a instrumentos efetivos possibilitados pelas políticas climáticas eficientes. E também refletem um comprometimento não só do setor público, mas de todos que militam pelo desenvolvimento sustentável. É essencial que elas estejam alinhadas tanto com o planejamento quanto com os compromissos assumidos.”

MOTIVAÇÃO “A agenda do desenvolvimento sustentável é uma agenda a ser construída agora. Apesar de precisar de uma percepção política mais vigorosa, ela precisa de uma apropriação dos jovens para ela mesma ter sua sustentabilidade. O que me move é a possibilidade de contribuir para que a juventude consiga sentar nas cadeiras e nas posições de liderança em condições de manejar um mundo melhor. E fazer isso a partir das cidades.” O

REÚSO DE ÁGUA “Trinta por cento da água que

www.sams.iclei.org

SAIBA MAIS

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

FOTO: UESLEI MARCELINO / REUTERS

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APÓS DOMADA a Operação Carne Fraca, continua nas mãos do ministro Blairo Maggi fazer mais para tornar o agronegócio brasileiro 100% sustentável e salvar a Amazônia da pecuária predatória

OPERAÇÃO CARNE

SUSTENTÁVEL A promessa polêmica e a esperança ainda não concretizadas pelo ex-governador do Estado do Mato Grosso e atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Felis Concolor redacao@revistaecologico.com.br

O

mesmo Blairo Maggi, homem forte do Governo Temer que atuou com mãos de ferro em defesa dos frigoríficos atingidos pela Operação Carne Fraca, diante dos olhos compradores do mundo, ainda tem uma dívida enorme diante

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da natureza e da humanidade. Espécie de “bombeiro-chave” do país, ele nos deve uma atuação muito mais patriota e planetária ainda, em nome de todos os brasileiros e não brasileiros, que comem ou não comem carne, forte ou fraca.

Que atuação é essa? Fazer o país, maior produtor de gado do mundo, optar, com a mesma garra, pelo boi “verde”, através da pecuária intensiva e com responsabilidade socioambiental. E assim, sem ser mais extensivo e predatório, o setor não desma-


ROBERTO CARLOS, na edição 68 da Ecológico, de abril de 2014: ele perdeu a oportunidade de encabeçar a luta pela preservação da Amazônia e pelo consumo sustentável e saudável de carne

tar mais a Amazônia, responsável que ele ainda é, em 65% dos casos, conforme já apontou a ONG Greenpeace. E em até 80%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Não destruir nem ocupar mais, de maneira insustentável, a última grande floresta tropical do planeta, também apontada pelos cientistas não mais como “pulmão” do mundo, mas como o seu maior e natural “refrigerador” climático. Foi o que o próprio Blairo, 11 anos atrás, enquanto governador de Mato Grosso, chamado de “Rei da Soja” e de “Estuprador da Amazônia”, prometeu aos ambientalistas. Vide a entrevista exclusiva que ele concedeu à repórter Maya Santana, da então JB Ecológico, antecessora da Revista Ecológico atual: “De-

ram-me zero na área ambiental. Vou mostrar que sou capaz de tirar um dez!” Foi o que ele declarou a plenos pulmões, na época, referindo-se às duras críticas não apenas dos ambientalistas, mas de toda a imprensa nacional e internacional. Isso se deu logo após o Ministério do Meio Ambiente ter divulgado números estarrecedores, mostrando que a taxa de desmatamento da Amazônia, em 2003/2004, havia sido a segunda maior de todos os tempos. E Mato Grosso, sob seu governo, era o campeão da derrubada e queima de árvores nativas para, depois do fato consumado, poder plantar soja e criar pasto para o gado. Se não bastasse, segundo o grito permanente dos ambientalistas, a

quantidade de terras já devastadas, degradadas, ociosas e abandonadas pelo país afora. Pouco tempo depois, o Governo Blairo Maggi também se viu atingido pela Operação Curupira, que prendeu dezenas de pessoas envolvidas em falcatruas na concessão de licenças pelo Ibama para desmatamento no Estado. Embora a grande maioria dos detidos fosse formada por funcionários federais, o seu governo foi quem levou chumbo grosso: “Aceito as críticas” - respondeu Blairo. “Acho que tínhamos problemas, sim. Mas não do tamanho que venderam para a opinião pública internacional. A verdade é que, no meio do caminho, viram que a tempestade era grande demais para o governo federal. E botaram o nosso go-

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

verno junto”, garantiu. Mais. Dizendo-se profundamente atingido pelos dois episódios, o atual ministro contra-atacou. Disse que iria trabalhar incessantemente para tornar seu estado, não apenas o mais agrícola do Brasil, maior produtor de soja e algodão, mas também uma referência na questão ambiental. Nessa época, sua administração havia assumido a gestão florestal do estado, antes atribuição do Ibama, aparando as arestas com o Ministério do Meio Ambiente, então dirigido pela senadora Marina Silva: “Nosso relacionamento com ela é dez! É a ministra com quem mais converso e me dá mais atenção” – enfatizou o ministro, que é engenheiro agronômo e natural de Torres (RS) e chegou ao Mato Grosso em 1979. Então com 49 anos, e confessando nada gostar de ser chamado de “Rei da Soja”, o maior empresário do agronegócio brasileiro respondeu assim às perguntas que reproduzimos aqui, com o seu estilo franco e sem papas na língua:

ECOLÓGICO: A que atribuir, então, a má vontade que toda a imprensa nacional e internacional e têm com o senhor, no quesito meio ambiente? BLAIRO MAGGI – Acho que é a mim mesmo. A minha empresa é uma das maiores plantadoras de grãos do Brasil. E virei governador. Quer alvo melhor para atingir? Eles atribuem o desmatamento a mim, pessoalmente, quando, há mais de 20 anos, minhas empresas não abrem um só hectare de terra. E tudo o que é meu foi adquirido dentro do que a legislação permitia e 26 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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PECUÁRIA EXTENSIVA – Atividade desenvolvida em grandes extensões de terra, geralmente onde há floresta suprimida, com gado solto e sem grandes aplicações de recursos tecnológicos. Segundo a ambientalista Maria Dalce Ricas, superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), “não existe nada que degrade mais o solo e evite a volta da floresta do que pata de boi”.

permite. Quem desmata são os outros. Eu cumpro a lei. ECOLÓGICO: Os jornalistas deturpam suas declarações? Uma das maiores críticas que recebi foi por causa de um contexto. A primeira, foi que achamos que podemos explorar 40% do território mato-grossense com agricultura e pecuária. Até agora, temos 30-32% do território natural alterado, vamos chamar assim, com as atividades econômicas. Eu achava que podia ser 40%. Aí o repórter, em vez de escrever 40% do Estado do Mato Grosso, escreveu 40% da Amazô-

nia. A segunda foi de que não sou de abraçar árvore. O que se conclui é que eles já vêm pautados e detonam a gente. ECOLÓGICO: Esta é a sua defesa? Minha defesa é achar que contra trabalho não há argumento. O que temos que fazer é trabalhar. Deram-me zero na área ambiental. Eu não aceito. Vou mostrar que somos capazes de tirar dez. Imprensa alguma vem aqui para entender o que estamos fazendo para diminuir o desmatamento, como estamos organizando os setores produtivos para aderirem aos projetos


FIQUE POR DENTRO

O Maior exportador mundial de carne bovina, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro alcançou R$1,26 trilhão em 2015, representando 21% do PIB total brasileiro. Já o PIB da pecuária chegou a R$ 400,7 bilhões, 30% do agronegócio nacional. O O Brasil tem 215,2 milhões de cabeças de gado, distribuídas em 167 milhões de hectares. Isso equivale a uma ocupação/lotação média de 1,25 cabeça por hectare. O Conforme dados do IBGE, entre os 20 municípios com os maiores rebanhos bovinos do país, 11 estão na região Centro-Oeste. O líder do ranking é São Félix do Xingu, no Pará, com mais de 2,2 milhões de cabeças, 1% do total nacional.

PECUÁRIA INTENSIVA – É desenvolvida em áreas menores, geralmente em regime de confinamento ou semiconfinamento. São utilizados recursos tecnológicos avançados, como reprodução por inseminação artificial, técnicas melhoramento genético, alimentação balanceada e cuidados sanitários, como vacinação e tratamento de enfermidades.

de licenciamento liccenciamento ambiental. Quer apenas o sensacionalismo. ECOLÓGICO – O que efetivamente o seu governo tem feito para combater o desmatamento? Adotamos inúmeras medidas. Além do “Olho Ecológico”, um sistema de monitoramento via satélite, que vai nos mostrar em tempo real o que está acontecendo para agirmos mais prontamente, nós criamos uma Secretaria de Meio Ambiente, cujo secretário, Marcos Machado, tem plenos poderes, um orçamento maior e melhor estrutu-

ra para trabalhar. Criamos um novo Código Ambiental do estado, discutido democraticamente com toda a sociedade organizada. Os próprios produtores passaram a ter um entendimento muito maior do assunto. ECOLÓGICO – Em que aspecto, por exemplo? Hoje, o produtor mato-grossense comunga do mesmo pensamento da ministra do Meio Ambiente e do ministro do Trabalho. E é o meu pensamento também. Não podemos estar fora mais do que a legislação permite, nem na questão trabalhista nem na

O A produção intensiva de animais requer enorme quantidade de água e alimentos. O cultivo de grãos para a fabricação desses produtos disputa espaço diretamente com a produção de alimentos para humanos. A atividade agropecuária acaba expandindo suas fronteiras para áreas onde antes existiam florestas e uma enorme biodiversidade. O A criação de gado em escala industrial também gera grande quantidade de resíduos, que acarretam para a poluição do solo e dos sistemas hídricos subterrâneos, além de aumentar a emissão de gases de efeito estufa. O De acordo com a Embrapa, a demanda global pela produção sustentável de alimentos, incluindo carne, coloca o Brasil em posição de importância estratégica, com previsão de participação da ordem de 40% no que se refere ao abastecimento de alimentos até 2050 quando, segundo estimativas da ONU, a população global chegará a 9,7 bilhões de habitantes.

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

O compromisso do Mato Grosso Criado em 2016, o Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac) é responsável por definir os critérios para atestar a qualidade da proteína produzida no estado, por meio do selo “Carne de Mato Grosso”. Trata-se do primeiro instituto do país nesse segmento e do sexto no mundo. Atualmente, o Mato Grosso detém o maior rebanho bovino do Brasil – totalizando mais de 29 milhões de animais – e mais de 60% de áreas preservadas. Durante a Conferência do Clima (COP-21) realizada em Paris, em 2015, o governo do Mato Grosso lançou a “Estratégia: Produzir, Conservar e Incluir”, por meio da qual se comprometeu a reduzir o desmatamento ilegal a zero até o ano de 2020, além de promover ações para conter o aquecimento global. Essa estratégia envolve, entre outras ações, a busca da eficiência da produção agropecuária e florestal no estado, aliada à conservação da vegetação nativa e à recomposição de passivos ambientais. Em 2012, o Instituto Centro Vida (ICV) lançou um projeto-piloto de promoção das boas práticas na

ambiental sob pena de ambiental, de, no futuro, e esse futuro é amanhã, caírem as barreiras comerciais e diminuírem os impostos que precisamos recolher. Esses benefícios tarifários vão exigir de nós, como contrapartida, a obediência às legislações ambiental e trabalhista. Isso é uma realidade moderna. Se não estiver com suas obrigações ambientais, sociais e trabalhistas em dia, o

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pecuária bovina em 14 propriedades da região de Alta Floresta, maior polo de pecuária no norte de Mato Grosso. Nessas fazendas, foi testado um novo modelo produtivo de gestão integrada da propriedade. As intervenções foram baseadas na aplicação das Boas Práticas Agropecuárias (BPA) para Gado de Corte, da Embrapa. Os resultados demonstraram a viabilidade desse modelo, com forte melhora na produtividade, lucratividade, qualidade da produção e sustentabilidade ambiental. No segundo semestre de 2014, teve início a fase de disseminação dessa proposta, por meio do “Programa Novo Campo – Praticando Pecuária Sustentável na Amazônia”. A adesão é voluntária. Para fazer parte, pecuaristas, frigoríficos, empresas de varejo, instituições financeiras, empresas ou profissionais de assistência técnica precisam atender critérios e compromissos pré-estabelecidos como forma de garantir a sustentabilidade em toda a cadeia de pecuária.

Brasil poderá ser impedido de fazer mercado internacional. ECOLÓGICO: Seu colega Zeca Dirceu, governador do Mato Grosso do Sul, foi muito criticado porque queria instalar usinas de álcool no Pantanal. O senhor também é um crítico dessa ideia? Nós não permitimos isto aqui, mas tão somente o turismo ecológico e a pecuária extensiva, que

existe já há 300 anos, anos em perfeita harmonia com o ecossistema pantaneiro. As pessoas que vivem longe daqui não têm conhecimento disso. ECOLÓGICO - O senhor é ligado à natureza? Nasci no meio do mato, do ladinho de Foz do Iguaçu. Lá era floresta pura, só tinha madeireira. Eu já vim formado de lá,


FOTO: FÁBIO NASCIMENTO / GREENPEACE

PASSADO AINDA A SER COMPENSADO

MATO GROSSO possui o maior rebanho bovino do Brasil. Em 2014 eram mais de 5,2 milhões de cabeças, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. De acordo com o PRODES, entre agosto de 2014 e julho de 2015, o estado perdeu 40% mais florestas que no ano anterior

em 1979. 1979 E continuo do interior, interior moro no interior e minha atividade é junto da natureza. Sou agricultor. Se tem alguém que precisa do meio ambiente para sobreviver é o agricultor. Ele precisa estar em harmonia; do contrário, não consegue ver chuva, nem perceber a temperatura ideal para fazer as coisas. Minha atividade tem uma ligação direta com o meio ambiente. Te-

mos consciência de que, que se tem alguém que pode prejudicar ou preservar a natureza, é o agricultor. Como pessoa física, tenho esse entendimento. Como governador, mais ainda, tanto que, desde o ano passado, a questão ambiental tornou-se a nossa prioridade número um. ECOLÓGICO - Como é seu relacionamento com o

Segundo o Greenpeace, com apenas dois anos de governo, Blairo Maggi transformou o Mato Grosso em estado campeão nacional de desmatamento. Ou seja, responsável por 18% do total de biodiversidade que tombou junto da Amazônia Legal Brasileira no estado que administrava. Dos 12,5 mil quilômetros quadrados desmatados ali, 8,4% deles foram feitos de forma ilegal. Uma área total equivalente a 8,6 mil campos de futebol por dia. Mesmo assim, Blairo não se comoveu. Ao contrário, ele declarou ao “New York Times”, na época, que um aumento de 40% na taxa anual de desmatamento do Mato Grosso não “significava nada”. Ele respondeu: “Não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Não há razão para se preocupar. Estamos falando de uma área maior que a Europa toda e que foi muito pouco explorada”. Polêmico, devido à repercussão negativa causada, ele passou a adotar, gradativamente, uma postura mais sustentável e de diálogo com os ambientalistas. Apontado pela Revista Época, em 2009, como um dos “100 brasileiros mais influentes do país”, quatro anos depois ele assumiu a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, em Brasília, com uma performance mais interessada e progressista.

Ministério do Meio Ambiente? Antes era mais difícil, principalmente por causa da ambiguidade das leis. Houve um determinado momento em que a lei federal era mais liberal do que a nossa. Podia-se desmatar 8o% das áreas de Cerrado, Cerradão, etc. Mesmo as matas, podia-se substituí-las em 50%. E a área de transição, entre o que era Floresta Amazônica e Cerrado, entra-

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

Abençoado pela natureza e o maior rebanho do país FOTO: WWF / ADRIANO GAMBARINI

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PECUÁRIA no Pantanal Mato-grossense: natureza e homem em harmonia

Apesar da devastação causada pela atividade agropastoril insustentável, há mais de uma dezena de anos atrás, quando a Ecológico esteve com o governador Blairo Maggi, o Mato Grosso era um dos estados mais singulares do País, por abrigar três grandes biomas brasileiros: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado. Como se não bastasse este privilégio concedido pela natureza, tudo que se planta em suas terras de excepcional qualidade dá, o que faz do estado um autêntico celeiro do país. Ele era e continua sendo o maior produtor nacional de soja, com 20% para exportação e 80%, interno, para alimentar o gado. Com apenas 8,5% do seu território ocupado pela agricultura,

va dentro da classificação como Cerradão. O governo do estado, não nesta gestão, mas na outra, criou uma lei mais restritiva: nas áreas de transição, pode-se desmatar 50% e não 80%, como permitia a lei nacional. Esses conflitos legais não existem mais. ECOLÓGICO - Os países mais 30 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

tamanha produtividade aliada à tecnologia, e ao solo fértil, plano e diversificado, Mato Grosso continua tendo tudo para se transformar na maior (e mais sustentável) plataforma de alimentos do mundo. Tinha 50% da sua cobertura vegetal ainda intacta. Um total de 17% da área do estado era ocupado por reservas indígenas, incluindo o Parque Nacional do Xingu, e 24% pela pecuária. O que poucos sabem é que Mato Grosso, além de grãos, é o maior produtor de pescado de água doce do país, responsável por 20% da produção brasileira, seguido pelos estados do Pará e Tocantins. Seu potencial está na natureza, leia-se na abundância de rios e lagos em seu território.

ricos deveriam dar mais recursos para que o Brasil possa cuidar da Amazônia? Não só dar dinheiro. Eu vi na imprensa, outro dia, países que pagam para não desmatar ou até para reflorestar em outros lugares. Acho que é na França. Ali eles pagam 24 euros por hectare para você não ocupar a terra e

deixar a vegetação se recuperar. Aqui, se exige que as pessoas não façam nada com o meio ambiente, mas não oferecem qualquer compensação ou incentivo financeiro. A preservação aqui é feita pelo particular, pela iniciativa privada. O governo federal também tem um ônus para cuidar e não consegue fazer renta-


FOTO: BRUNO KELLY / GREENPEACE

O exemplo da Amazônia PROMESSA acreana: crescer a produção de carne sem desmatamentos

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) lançou, em 2014, um vídeo sobre a pecuária intensiva. De forma didática, ele mostra o funcionamento do sistema de intensificação e traz dois exemplos de produtores que mudaram sua forma de atuar. E, com isso, conseguiram obter melhores resultados, tanto em termos produtivos quanto de conservação ambiental. Dados do instituto mostram que se apenas metade das propriedade rurais do Acre adotarem práticas mais intensivas, a produção de carne no estado pode crescer a uma taxa de 2,2% sem novos desmatamentos. A intensificação da pecuária é uma prática que ajuda não só o produtor, mas também o meio ambiente. Afinal, se um boi é abatido com dois anos e não com quatro anos e meio, como no

bilidade de nada. nada Se o mundo inteiro quer a preservação da Amazônia onde, repito, 14 milhões de brasileiros têm direito aos benefícios do desenvolvimento sustentável, ele deveria nos pagar alguma coisa. ECOLÓGICO - É possível plantar soja em larga escala com

sistema convencional, as emissões de gases que contribuem para o aquecimento global, como CO2 e metano, caem pela metade. Além de usar uma área menor para a produção e evitar desmatamentos, a emissão por quilo de carne no sistema intensificado é cerca de 48% menor do que o tradicional. Enquanto no primeiro são emitidos 39 kg de CO2 por quilo de carne, no segundo esse valor chega a 74 kg. Segundo o Ipam, diversos estudos científicos comprovam que a área aberta na Amazônia é mais do que suficiente para aumentar várias vezes a produção de proteína animal. O desafio, portanto, é investir em novas tecnologias e na adoção de práticas produtivas mais sustentáveis.

preservação ambiental? Perfeitamente, e não só com relação à soja. Você pega um município nosso, igual Lucas do Rio Verde, que tem toda a sua área possível de exploração aberta. Ele consegue manter 35% de todas as suas matas naturais intactas. Ocupou-se o que era possível para fazer agricultura diversa

e o resto se preservou. preservou ECOLÓGICO - O senhor disse que nos últimos dez anos o Grupo Amaggi não desmatou um só hectare na Amazônia e que a expansão da produtividade do grupo foi obtida utilizando tecnologia cada vez mais avançada. Por que que esta

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

O trabalho do Greenpeace Há mais de dez anos o Greenpeace Brasil mantém uma campanha que busca alertar a opinião pública sobre a expansão da criação bovina na Amazônia e os impactos dessa produção no meio ambiente. Em 2009, a ONG publicou o relatório “A farra do boi na Amazônia”, que deu origem ao “Compromisso Público da Pecuária”, assinado por alguns dos maiores frigoríficos do país.

“Eu li um relatório da ONU, lançado em 2006, chamado ‘Livestock’s Long Shadow’ (A Enorme Sombra do Gado). O estudo afirma que a indústria da pecuária é responsável por 18% dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta e todos nós.” Paul McCartney, incentivador do Movimento Mundial “Segunda Sem Carne”

forma de explorar o Mato Grosso não é seguida por outros empresários? O Grupo Amaggi está há muito tempo aqui. Nós fizemos a nossas aberturas bem lá atrás, quando não havia essa discussão, na década de 1980. As leis eram outras. Fomos adquirindo outras áreas prontas, já abertas. Para aumentar a área de produção, tem que haver a ocupação do Cerrado e isso é permitido 32 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

Segundo a entidade, tal iniciativa, em conjunto com a “Moratória da Soja”, foi considerada por pesquisas recentes como uma das inciativas mais relevantes para a queda do desmatamento nos últimos anos. Além disso, o Greenpeace monitora incessantemente o avanço do desmatamento na Amazônia, por meio de análises de dados e expedições regulares, com foco na produção de commodities e os danos associados à expansão do agronegócio sobre a floresta. “O Greenpeace nunca deixou de expor e investigar o problema da pecuária e continuaremos de olho, cobrando e colocando o dedo em todas as feridas abertas da cadeia de produção, até o dia em que árvores não sejam mais tombadas para dar lugar à criação de gado na Amazônia”, pontua a ONG em seu site. Diante do recente “escândalo da carne”, o Greenpeace suspendeu as negociações com o Grupo JBS. E justificou: “Por considerar extremamente grave as denúncias que pesam contra a JBS, o Greenpeace suspende as negociações com a empresa relacionadas à implementação do ‘Compromisso Público da Pecuária’ até que a JBS possa comprovar, de fato, que a carne vendida é própria para o consumo e livre de desmatamento, trabalho escravo e conflitos com terras indígenas e áreas protegidas.”

Fontes: Embrapa, Greenpeace, governo do Mato Grosso, Ministério do Meio Ambiente e WWF Brasil.

por lei. Outra coisa que as pessoas não entendem é que, legalmente, você pode tirar a vegetação para fazer o que quiser, dentro do percentual permitido. No caso do Cerrado, até 1996, eram 80% de ocupação. Hoje, são 65%. E 35% de reserva. Se o ministério do Meio Ambiente se negar a dar a autorização, o cidadão pode ir ao Ministério Público, que vai conseguir a licença para ele. Uma vez que

cumpra a legislação ambiental, com os critérios ali colocados, ninguém tem o direito de impedir que esse produtor retire a vegetação para fazer pastagem ou plantar. O que não se pode permitir é fora desses percentuais. Então, quando eu digo que o Grupo Amaggi há mais de oito anos não desmata, é porque nós já fizemos isso lá atrás. ECOLÓGICO - Qual posição


FOTO: BRUNO KELLY / GREENPEACE

De acordo com o INPA, mais que os 65% estipulados pelo Greenpeace, 80% do desmatamento da Amazônia Legal, região com maior número de reses do país, é causado pela pecuária extensiva insustentável

que o Grupo Maggi ocupa hoje no estado? Somos mais fortes na área comercial do que na área de produção. Só que nosso negócio sempre foi produzir, e não vamos abrir mão disso. Está no sangue. Eu gosto de ver a lavoura, de plantar e ir lá colher. A gente faz isso com amor e responsabilidade. Nosso grupo é signatário de vários acordos internacionais que proíbem

qualquer relacionamento comercial do setor com produtores que tenham trabalho escravo e não cumpram procedimentos socioambientais em suas propriedades. A Amaggi hoje, cujos procedimentos também exigimos dos nossos fornecedores, é 100% auditada por empresas internacionais, idôneas e independentes. ECOLÓGICO – Como empresário

e político bem-sucedido, qual a sua visão de futuro para o Brasil? Sou otimista. Se os brasileiros se conscientizarem sobre a necessidade do desenvolvimento sustentável e cumprirem a legislação ambiental no lugar onde estão, nós não teremos problemas no futuro. ECOLÓGICO – E quanto ao planeta? Se você for lá nos EUA, vai ver

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ESPECIAL “E A CARNE ‘VERDE’, MAGGI?”

Esperança ou desesperança?

que eles não deixaram uma só árvore na beira dos seus córregos. Pegaram o Pantanal deles, as terras alagadiças da Califórnia, transformaram-no todo em terra agrícola, sem preservar nada. O Mato Grosso é o estado que mais recolhe embalagens de agrotóxicos do mundo. Não é nem só do Brasil: 95% das embalagens que vêm para cá são recolhidas, recicladas e transformadas em matéria-prima novamente. Nem os EUA fazem isso. Essa é a verdade. Não tem ninguém no mundo que possa fazer agricultura e pecuária sustentáveis, com preservação ambiental e responsabilidade social igual ao Brasil. Eu desafio alguém a me mostrar o contrário”. REVISTA ECOLÓGICO, 10 anos depois – Em nome da carne “verde” (economicamente sustentável, ambientalmente correta e socialmente mais justa), sem a necessidade de degradar o solo nem cortar uma só árvore na Amazônia, com a palavra, Blairo Maggi! O Em tempo: até o fechamento desta edição, a Ecológico não conseguiu retorno da assessoria do ministro. 34 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

Em novembro de 2016, ao lado de José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente e quem mais representou o Brasil na Conferência Mundial do Clima (COP-22, em Marrocos), a imprensa e a opinião pública internacional se surpreenderam com Blairo Maggi. Além de defender a sustentabilidade dos produtos agrícolas brasileiros no mercado global, em função de cumprirem regras ambientais mais rigorosas que nos outros países, ele afirmou: “Só haverá paz no mundo quando tiver alimento na mesa de todos. O nosso produtor rural precisa ser compensado por isso, pelo serviço e cuidado ambientais que tem com a terra, preservando a natureza”. O ministro reforçou que o Brasil ainda tem “61% de suas matas nativas preservadas, além de ser responsável por 14% da água doce disponível do planeta”. Ele defendeu, é claro, a pecuária brasileira, em contraponto a opiniões de que a produção de gado contribui para poluir a atmosfera. Ele lembrou que, a exemplo dos eucaliptais, os plantios de capim em crescimento também sequestram gás carbônico. Blairo, enfim, só não recuperou e aumentou a sua nota perante os ambientalistas porque esqueceu de destacar uma informação relevante: nunca antes, na história deste país, o desmatamento da Amazônia cresceu tanto. E pouco o governo tem interesse, poder e vontade política de enfrentá-lo. Enquanto Maggi está à frente do agronegócio, o setor mais próspero da economia brasileira, graças à natureza, em plena e mais grave crise econômica do país, Sarney Filho, pela segunda vez no comando do Ministério do Meio Ambiente, tem o mais ínfimo orçamento no organograma oficial do Governo Temer, a exemplo de seus antecessores. Haja “clima” para enfrentarmos juntos, ambientalistas, produtores e consumidores, as mudanças apolíticas do inferno climático que já começou! FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

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SAIBA MAIS Para assistir a vídeos e ler um artigo sobre o assunto, acesse: “Pecuária intensiva: novo paradigma de produção da Amazônia” goo.gl/A2ShtI “Programa Novo Campo – Estratégia de pecuária sustentável na Amazônia” goo.gl/JK3ePa PARA ler a matéria sobre o choro amazônico de Gisele Bündchen, acesse: goo.gl/CM0qyR

“Precisamos falar sobre pecuária e conspirações”, Greenpeace goo.gl/zxzRbe


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ESTADO DE ALERTA MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

E ASSIM CAMINHA O RETROCESSO

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este meu “escrito”, praticamente vou reproduzir - com autorização - trechos do excelente artigo do biólogo catarinense João de Deus Medeiros, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina, sobre o Projeto de Lei (PL) 6.268/16 do deputado Valdir Colatto que libera caça no Brasil: “O mundo foi criado para o bem do homem e as outras espécies devem se subordinar a seus desejos e necessidades. As plantas foram criadas para o bem dos animais e esses para o bem dos homens, já dizia Aristóteles. E ele foi além: os animais domésticos existem para labutar, os selvagens para serem caçados. Para os estoicos, a natureza existe, unicamente, para servir aos interesses humanos.” “O homem era o fim de todas as obras de Deus, visto como o centro do mundo, ponderou Francis Bacon. Quando os animais tornam-se incômodos, declarava Henry Moore no século XVIII, os homens têm o direito de contê-los, ‘pois não há como discutir que somos mais valiosos que eles’. Mesmo Santo Agostinho e Tomás de Aquino palpitaram sobre o tema, esclarecendo que o sexto mandamento, contra o assassinato, não valia para não humanos. Influenciados pelo cristianismo ocidental, não há dúvidas de que os principais expoentes do início do período moderno adotavam uma postura intrinsecamente antropocêntrica. Civilização era uma expressão umbilicalmente associada à conquista da natureza, reforçada pela negação cartesiana da existência da alma nos animais, equiparando esses seres inferiores a meros autômatos.” “O deputado Valdir Colatto parece ser ferrenho adepto de Francis Bacon. Diz-se defensor da natureza” - desde que os seres humanos estejam em primeiro lugar. Apresentou o PL 6.268, mascaran-

ATENÇÃO, Valdir Colatto: nós e os animais estamos de olho. Nenhuma insustentabilidade será tolerada

do-o de princípios e diretrizes para a conservação da fauna silvestre no Brasil. Por um pequeno lapso, ironiza João, esqueceu-se de incluir um artigo instituindo o “dia do caçador”. Crente na interpretação de que o Criador colocou todos os animais em nossas mãos, seu PL diz que poderemos matar animais silvestres e comercializar sua carne e peles. Estimular caça para proteger cultivos agrícolas já foi saudada como medida moderna na Inglaterra de 1533, com leis paroquiais remunerando caçadores. Colatto chega ao cúmulo de propor que eutanásia de bichinhos resgatados em áreas de empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental também será admissível. Resgata-se e mata! “Temam e tremam criaturinhas, pois isso não é tudo”: se aprovado, o PL poderá conceder licença para aprisionamento, caça, abate, pesca, captura, coleta, exposição, transporte e comércio de animais da fauna silvestre, assim como para destruir ninhos, abrigos ou criadouros naturais, ou realizar qualquer atividade que impeça sua reprodução. O deputado propõe também uso de cães para caçar até em Unidades de Conservação (UCs), provavelmente na esperança de que nelas haverá maior número de animais para serem mortos. “Colatto é a modernidade esperada por aqueles que não apenas amam o passado, mas que se julgam superiores, escolhidos, ungidos a serem os melhores, os donos do mundo.” E João de Deus Medeiros conclui: “Talvez seja esse o PL que mais simbolicamente posiciona os parlamentares tupiniquins frente à sua busca pela eternização de uma moral vitoriana, essencialmente hipócrita, burguesa e injusta, onde bichos, mas também bichas, índios, negros, mulheres, crianças e trabalhadores podem ser vistos como seres inferiores”. E assim retrocede a humanidade. O (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).


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FOTO: NILTON ROLIN

INOVAÇÃO AMBIENTAL

LIXO COMO GERAÇÃO

DE ENERGIA A produção de biogás desponta como uma fonte alternativa de energia e também como solução que beneficia vários aspectos econômicos, sociais e ambientais no país Iaçanã Woyames redacao@revistaecologico.com.br

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44% do diesel ou 73% do gás natural consumido no país. Para o presidente da Abiogás, Cícero Bley Jr., o biogás é uma fonte limpa e renovável, mas ainda negligenciada no Brasil. “Há que se considerar também que o biogás ocorre em situação descentralizaFOTO: ABIOGÁS/DIVULGAÇÃO

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geração de energia elétrica a partir do biogás produzido pela decomposição do resíduo orgânico ou dejetos de animais tem sido apontada como solução ambiental, técnica e financeiramente viável para as próximas décadas no Brasil. Trata-se de um segmento que entra definitivamente no planejamento energético oficial e que tem grande potencial de desenvolvimento. A Associação Brasileira de Biogás e Biometano (Abiogás), por exemplo, considera que o potencial nacional é de cerca de 71 milhões de metros cúbicos de biometano, sendo 50 milhões de m³ no setor sucroenergético, 15 milhões de m³ no setor de alimentos e 6 milhões de m³ no setor de saneamento básico, resíduos sólidos e esgotos domésticos. Isso equivale ao consumo de

CÍCERO Bley: “A produção de biogás tem impacto positivo na economia local e regional”

da, com grande impacto positivo na economia local e regional, não necessita de investimentos em redes de transmissão, transporte ou de distribuição, ou pode utilizar integralmente a logística do Gás Natural Comprimido (GNC) e ainda pode ser injetado em gasodutos de distribuição. Outro aspecto importante é que o biogás é produzido com a digestão anaeróbica de resíduos orgânicos de qualquer origem, que, de forma organizada, são submetidos como substratos para processos de biodigestão anaeróbica.” Cícero reforça ainda que o biogás é um combustível gasoso utilizável na geração de energia elétrica, térmica ou automotiva, que geradas com biogás reduzem emissões de gases do efeito estufa, notórios agentes do aquecimento


ENERGIA NO BRASIL Alexandre Alves, diretor da Inseed Investimentos, reforça que o contexto energético brasileiro é a principal resposta pela crescente demanda pelo biogás, já que ele passa pela mais profunda mudança de sua história. “O elevado preço da tarifa de eletricidade é um dos fatores representativos no chamado “custo Brasil”, que vem se tornado ainda maior nos últimos três anos. Isso se deve aos altos custos da geração térmica a gás natural e óleo diesel, que chegam a ser de 10 a 20 vezes superiores ao da geração hidráulica. Outro problema grave para parte do mercado é a falha na entrega de energia, isto é, a interrupção no fornecimento. Ela tornou-se recorrente nos últimos tempos e, de maneira geral, é um índice que piorou nas concessionárias, seja por insuficiência na geração ou por problemas na distribuição. Além do transtorno no período da falta de energia, com eventuais paradas de produção, para muitos setores as consequências são ainda maiores”, relata. Para ele, entre as alternativas consideradas para diversificar a atual matriz energética e mitigar parcialmente os problemas vividos pelo consumidor, está a geração distribuída, que passou a ser discutida com maior intensidade no Brasil próximo ao final de 2000 e cujas iniciativas de gover-

FOTO: ZBR FOTOGRAFIA

global. “No caso da energia elétrica é importante destacar que a geração com biogás é considerada energia elétrica de base, ou seja, contínua, ao contrário de outras energias renováveis, que são intermitentes. As centrais termoelétricas a biogás, quando têm disponibilidade excedente de biogás, podem se transformar em centrais flex, produzindo biometano para uso como combustível na mobilidade urbana e rural.”

GUILHERME Richter, Leonardo Mauro Jr., Bruno Richter e Fábio França: o empreendedorismo na CHP é sustentável

no começaram a ser implementadas no início da década atual. “Dentro desse contexto tem-se as fontes renováveis, com destaque para a solar fotovoltaica, eólica e o biogás, que vem ganhando papel de destaque.” COMBUSTÍVEL LIMPO O biogás é um combustível limpo, de fonte renovável, proveniente da decomposição de matéria orgânica e que possui propriedades semelhantes ao do gás natural. Segundo a Abiogás, a produção traz benefícios econômicos, ambientais e sociais. Para o produtor ou empresário, ele poderá utilizar energia elétrica ou térmica gerada pelo biogás para o abastecimento interno de sua propriedade ou empresa, fazendo com que o consumo de lenha ou eletricidade caia drasticamente. Além disso, poderá receber créditos ao fornecer energia para a rede. Há ainda a possibilidade de geração de biometano, biocombustível que pode ser usado em veículos convertidos a GNV (Gás Natural Veicular), deixando de consumir diesel ou gasolina, cortando custos. E o biofertilizante proveniente da transformação do biogás também poderá ser reaproveitado ou vendido.

Para o Brasil, com o aumento da produção agroindustrial, gera-se receita e arrecadação para o país. Em termos ambientais com a produção do biogás por meio do reaproveitamento – principalmente de dejetos de animais – o produtor ou empresário deixa de contaminar o solo, lençóis freáticos, rios e açudes. Além disso, evita-se lançar na atmosfera gases de efeito estufa (que provocam a elevação da temperatura do planeta), como o metano e dióxido de carbono produzidos pela decomposição dos dejetos ou pela redução no acionamento das termelétricas a combustível fóssil. Já no campo social, ao retirar resíduos ou dejetos do meio ambiente, evita-se odores desagradáveis e a proliferação de doenças causadas por moscas atraídas por esse material. Outra vantagem social é a democratização do uso de energia. Por ser uma produção descentralizada, consegue-se levar eletricidade e gás para abastecer cozinhas, por exemplo, a comunidades que não teriam acesso.

CHP: INOVAÇÃO EM BIOGÁS Um bom exemplo de empresa que atua com inovação ambiental na área de biogás e gás natural

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INOVAÇÃO AMBIENTAL

é a CHP Brasil Indústria e Comércio de Geradores Ltda, localizada no estado do Rio de Janeiro, que desenvolve, produz e comercializa motogeradores a gás natural canalizado e a biogás para geração e cogeração de energia (eletricidade e vapor/frio). A empresa possui múltiplas configurações de soluções para clientes, que vão desde o uso de biogás em fazendas produtoras de leite e cooperativas, shoppings, clubes recreativos e condomínios, até centros de distribuição de varejo (produção de energia com biometano e que pode vir a resfriar as câmaras frias da unidade). Fábio França, diretor da CHP, explica que a empresa vende uma solução em eficiência energética no formato de projetos. “Oferecemos soluções completas para geração de energia com biogás, através de geradores a partir de 66 KVA. A tecnologia nacional desenvolvida pela CHP Brasil visa aproveitar todo o poder energético deste combustível limpo e sustentável de baixo custo de produção, gerando economia em relação aos gastos de energia elétrica e térmica e possibilitando um incremento de receita com a comercialização da energia gerada.” Na área rural, por exemplo, há a possibilidade de zerar a conta de energia nas granjas de suínos, aves, gado leiteiro, entre outros. “Para o sistema elétrico brasileiro, esta geração distribuída contribuiu com grande alívio de demanda e/ou controle de tensão, reduzindo perdas no transporte da energia e postergando investimentos na repotencialização de toda a malha”, defende Fábio. Ele conta que a CHP surgiu pela visão estratégica dos sócios que acreditam que os combustíveis líquidos serão substituídos, em um futuro próximo, pelos 38 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

O Rio de Janeiro foi o primeiro Estado a transformar esgoto em energia. O lodo do esgoto, que passa por processos de tratamento físico e biológico, é convertido em biodiesel e biogás, usados na geração de energia combustíveis gasosos. Onde o biogás/biometano, será o vetor de expansão da oferta, sustentável, de energia para nossa sociedade. A união de esforços entre a Arapongas Mecânica Pesada Ltda., empresa com 63 anos de mercado especializada na retífica de motores pesados, e da Gerastar, empresa com 17 anos de atuação na venda, instalação, locação e manutenção de geradores diesel, é um exemplo. O filho do fundador da Arapongas, Leonardo Mauro Jr., engenheiro mecânico pela UFRJ, cresceu no setor de mecânica de propulsão. E desenvolveu como trabalho de conclusão da faculdade um projeto de adaptação de um motor diesel para operar com biogás proveniente de ETE (Estação de Tratamento de Efluentes).

PROJETO TRANSFORMA ESGOTO EM ENERGIA Rio de Janeiro foi o primeiro Estado a transformar esgoto em energia. O lodo do esgoto, que passa por processos de tratamento físico e biológico, é convertido em biodiesel e biogás, usados na geração de energia. Na estação de tratamento, todo o trabalho é no sentido de separar os resíduos (lixo e lodo) da água. O lodo gera biogás e escuma (gordura), que movem as usinas.

Uma outra parte é enviada a uma centrífuga e a uma unidade de secagem. O resultado é a retirada de até 70% da umidade, com a condensação do lodo em pellets (resíduo seco) que, livres de agentes patogênicos, podem ser usados como fertilizantes. Além disso, o lodo também é transformado em carvão. O projeto foi implementado com recursos da FINEP (R$ 600 mil), no ano de 2005, o que veio a ser o primeiro protótipo da CHP Brasil, sendo instalado na ETE de Alegria no Rio de Janeiro, com funcionamento até hoje.

INVESTIDA DO FIMA A CHP Brasil recebeu aporte de R$ 7,5 milhões de reais do Fundo FIP InSeed FIMA, criado pelo BNDES e gerido pela Inseed Investimentos, em 2016. O objetivo do investimento foi estruturar a CHP produtiva e comercialmente e permitir que reforce sua estrutura de pesquisa e desenvolvimento para incrementar seu pipeline de produtos. O capital está alocado para aumentar a capacidade produtiva com a implantação de fábrica própria (a primeira do Brasil dedicada exclusivamente para ottorização de motores para equipar motogeradores a gás e biogás), ampliar a força comercial e diversificar os nichos de atuação. Lembrando que o FIMA ainda está em busca de empresas com tecnologia limpa. O Fundo tem R$ 165 milhões de capital comprometido para aporte em até 20 empresas. O objetivo é permitir que as empresas investidas ampliem de forma significativa o impacto positivo de seus negócios no desenvolvimento de uma economia de baixo impacto ambiental, com alta rentabilidade. O SAIBA MAIS www.inseedinvestimentos. com.br/fundos/fima/


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GESTÃO & TI ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

#BEBEE A

dvirto que não estou em crise onomatopeica, não pretendo buzinar a tecnologia nem mudei de assunto, assim, sem mais nem por quê. A onda é de hashtag e, se já defendi #bepush, chegou a vez de #bebee. Mãos à obra, vamos explicar. Nosso corpus aqui é a língua inglesa. Então, traduzindo, grosso modo, seja uma abelha! - Seja uma abelha? É isso, mas não é. Converse com quem entende e pergunte o que faz uma abelha ser abelha. Cedo ou tarde vai te falar de hexágonos e dirá que são a forma mais econômica de se fazer favos. Mas a abelha também é “apis”, latim! Tico e teco cooperam em minha mente: Seja uma abelha; seja um hexágono; seja apis! O símbolo vira estratégia: APIs quer dizer “application programming interface”, conjunto de rotinas e padrões de um software para que outros aplicativos usem suas funcionalidades. No final do dia, o fenômeno das APIs quer dizer software como serviço, rápido de ser usado, com o menor custo possível e em nuvem. Nada representaria melhor o fenômeno que... abelhas! Imagine qualquer serviço digital, qualquer coisa mesmo que possa ser consumida por outros aplicativos. Imaginou? Pois o que você pensou pode ser construído como uma API. Quem consome manda a encomenda. Milissegundos depois a API dá a resposta! Quem constrói a interface, se é que vai existir uma, é você. Quer vender notícias? Construa uma API! Quer vender a previsão do tempo? Construa uma API! Quer vender projetos arquitetônicos? Construa uma API! Quer fazer coaching? Construa uma API! Quer entregar receitas de culinária? Construa 39 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

uma API! O mundo está virado em APIs, porque elas são fáceis de consumir e se empilham e se organizam como favos. Você escolhe, usa e paga centavos de uma miséria por um único uso, tudo somado e a conta vindo no final do mês, feito conta d’água. Os grandes fabricantes e fornecedores de software e serviços seguiram a regra do #bebee e transformaram seus principais produtos em APIs. O mesmo vai acontecer com a maioria dos aplicativos de mercado. Muitos deles serão literalmente desmontados em APIs para que o consumidor possa lançar mão apenas das partes que interessam e deixar as que não lhe servem na prateleira. Tornar-se API é, em última instância, tornar-se, mais que nunca, vendedor de serviços de consumo barato e rápido em nuvem. Todos precisam prestar atenção nisso e pensar nas APIs que vão cercar o seu negócio. E é preciso começar logo. Para quem já sabe que será digital, quer queira ou não, para quem entende que terá que aceitar o #bepush, some aí na receita ser abelha: #bebee. Se isso ficar buzinando na sua cabeça, terei cumprido minha missão de evangelizar. O

TECH NOTES OComo funciona uma API

goo.gl/xDcPOC OUsando APIs como estratégia

goo.gl/8Zy1G8 O Top 50 APIs

goo.gl/6RKoBA (*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arvorea Instituto.


FOTO: ANDREW SHIVA

1 ÁGUA E TECNOLOGIA

100% da água utilizada em Tel Aviv, capital de Israel, é reaproveitada. Na agricultura, o reúso chega a 70%

WATEC 2017 CARAVANA PELO DESERTO Seminário Bilateral Minas-Israel aponta como a cooperação tecnológica entre os dois países pode transformar a gestão da água e o futuro, em particular, da mineração. E convida o setor para participar de um dos maiores eventos hídricos do Oriente Médio J. Sabiá redacao@revistaecologico.com.br

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m 2050, mais de 60% da população mundial irá sofrer com a escassez de água de qualidade. A informação, divulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU), assombra e parece ser um cenário cada dia mais perto de se materializar. A única saída é

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uma integração maior, assertiva e eficaz entre os países pela boa gestão do recurso natural mais importante do planeta e também pelo desenvolvimento de tecnologias limpas. Este também foi um dos pontos centrais destacados por Oded Distel, diretor do NewTech, Pro-

grama Nacional de Água e Energias Renováveis do Ministério de Economia de Israel, no “Seminário Minas–Israel Oportunidades e Soluções Sustentáveis em Mineração”, na Fiemg, em Belo Horizonte. O país, desértico e com recursos naturais escassos, buscou alternativas e tecnologias


O Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel entrou em vigor em 2010 com o objetivo de eliminar as barreiras ao comércio de bens e de aumentar e diversificar as oportunidades de comércio entre os países. Desde a entrada em vigor do Acordo no Brasil, a tarifa aduaneira foi reduzida conforme a classificação da mercadoria. As demais reduções se darão no dia 1º de janeiro de cada ano subsequente, até que em 1º de janeiro de 2019 quase todos os produtos possuam isenção total do imposto de importação. A cada ano, cerca de 700 empresas israelenses exportam um valor total de US$ 1 bilhão para o Brasil, distribuídos em cerca de 1.200 itens. Desse total, ¾ já obtiveram isenção do imposto de importação.

sustentáveis para a sua população com a pouca quantidade de água disponível. “Israel recebe uma média de um bilhão de metros cúbicos de água de chuva por ano. Mas o nosso consumo anual é de dois bilhões. Se não fizéssemos a reutilização, não haveria água em nosso país”, afirmou ele. Oded falou ainda sobre o sistema inovador de plantas dessanilizadoras implantado lá e da constante campanha de conscientização, principalmente entre as crianças, para que a sociedade continue economizando e mantendo a qualidade da água. “A água é uma prioridade nacional no Estado de Israel. Se não reutilizássemos, não teríamos agricultura. O reúso, mais a economia de água, é uma questão

MARCOS MANDACARU, Oded Distel e Maurício Neves: intercâmbio de experiências no uso e reúso sustentáveis do recurso natural mais valioso e ameaçado do planeta

de mentalidade e de cultura”, ressalta. Hoje, a dessalinização, que é o processo de separação/ retirada de sal da água do mar, responde por 750 milhões de metros cúbicos de água consuFOTO: CARLOS CONDE

Você sabia que produtos de Israel têm imposto de importação reduzido ou isento?

FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR

FIQUE POR DENTRO

ADAIR EVANGELISTA, superintendente de Desenvolvimento Industrial do IEL/Fiemg, apresentou o "Programa de Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio Doce", que incluir até reclusas para torná-lo navegável novamente

midos no país. O diretor do Israel NewTech – que une startups, empreendedores, empresas, multinacionais, universidades, órgãos reguladores e desenvolvedores de políticas e investidores para a entrega de soluções inteligentes para desafios globais na área de tecnologia limpa – explicou ainda que a Tecnologia da Informação (TI) não é um setor específico da economia daquele país. Ele perpassa todos os outros segmentos, incluindo a mineração. E a TI pode ser uma aliada para a atividade minerária, que tem importância fundamental para a economia brasileira, continuar inovando. “Tudo está mudando o tempo todo a olhos vistos. A TI está modificando as produções e contribuindo para aperfeiçoar setores como medicina e agricultura. Já estão sendo utilizadas tecnologias específicas para cada cultura e, assim, evitar o desperdício de água, por exemplo.” ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O41


Enquanto nos sistemas urbanos do mundo 25% da água é perdida antes mesmo de ser utilizada, e 90% de toda água residuária é rejeitada, lembra Oded Distel, Israel reutiliza mais de 70% de toda sua água consumida para a agricultura. DESAFIO HERCÚLEO Marcos Mandacaru, responsável pelo Desenvolvimento Industrial da Fiemg, ressaltou que a questão da água é um desafio hercúleo para o setor de mineração. “O tema mineração-água nos move no sentido de trazermos parcerias internacionais para solucionar problemas que são de grande relevância para Minas e o Brasil. E um grande desafio para a competitividade da indústria que deu nome ao estado.” Segundo ele, “Israel tem sido um parceiro de grande relevância por concentrar um grande número de empresas de alta tecnologia, seja em TI seja com soluções tecnológicas para a mineração. Recentemente tivemos a satisfação, juntamente com parceiros dos governos estadual e federal, de lançar com o Daniel Kolbar, no IETEC, a iniciativa ‘IOT for Mining’. Assim como o Rio de Janeiro tem o cérebro do petróleo, queremos que BH, por meio do BHTec, seja o cérebro da mineração”. Marcos ressaltou, ainda, a posição de destaque de Minas Gerais na produção de minério: o estado é responsável por 100% da produção de chumbo, lítio e zinco do país. Noventa e cinco por cento da de prata. Noventa por cento da de nióbio. Oitenta e nove por cento da grafita e 69% da produção de minério de ferro. Sem contar os 53% do ouro produzido no país, mais 53% da produção bruta de diamantes e 50% da de fosfato. “Queremos que Minas Gerais traga oportu-

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FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR.

1 ÁGUA E TECNOLOGIA nidades para as tecnologias gerais, que seja o ‘estado das Minas e das tecnologias gerais’. E Israel é um parceiro importante para nós. Estamos de portas abertas para receber as empresas israelenses para explorar os negócios de cooperação na área de pesquisa e desenvolvimento.” ÁGUA NO DESERTO Já Maurício Neves, superintendente da Área de Indústrias de Base do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destacou que os projetos de inovação brasileiros e a parceria com Israel geram um grande potencial de desenvolvimento para o país. “O uso da tecnologia, somada à abordagem eficiente da sua aplicação e à difusão tecnológica, contribuirão para criar uma mineração sustentável e mais moderna. É hora de buscar a mineração 4.0, melhor sensoriamento e melhor aproveitamento de água, sem barragens”, defendeu ele, lembrando que projetos inovadores poderão receber maior alocação de investimentos pelo banco. Para Oded Distel, a indústria da mineração precisa também atrair mais talentos com capacidade de desenvolver e de implementar essas inovações. “Em Minas Gerais existem muitos talentos. Se conseguirmos engajar a indústria e o setor financeiro poderemos multiplicar as soluções tecnológicas”, diz ele, que finalizou sua participação no evento convidando o público para a Conferência “WATEC 2017”, que acontecerá em Tel Aviv entre 12 e 14 de setembro próximo, e que tem como tema as tecnologias hídricas e o controle ambiental. A ideia é reunir parceiros, autoridades, empresários e jornalistas brasileiros, em uma verdadeira “caravana pelo deserto”, para conhecer os

“Temos uma filosofia, que vem do Judaísmo, que nos faz agir pensando em como podemos melhorar o mundo. É o que estamos tentando fazer na área de tecnologia, de saúde, água, agricultura – com a irrigação por gotejamento – e muitas outras áreas que tocam no dia a dia de cada um de nós. É uma forma de gerar conhecimento para tentar fazer este mundo melhor.” DANIEL KOLBAR, cônsul para Assuntos Econômicos do Israel Trade Investment

exemplos sustentáveis de gestão e manutenção da água de Israel para replicá-los e multiplicá-los no Brasil. SAIBA MAIS www.fiemg.com.br israeltrade.org.br (21) 3259-9148 rio@israeltrade.gov.il (11) 3095-3111 saopaulo@israeltrade.gov.il watec-israel.com


“Queremos deixar um legado” “Não tenho dúvida de que a mineração necessariamente vai ter de passar por uma rediscussão dos seus aspectos tecnológicos. A cadeia produtiva mineral tem de chegar ao consumidor, que exige cada vez mais produtos de qualidade, que não sejam danosos ao meio ambiente e devem ser compatíveis com a capacidade de consumo dos vários segmentos. Não tenho dúvida também, por exemplo, que ‘barragem’ no futuro é um negócio que vai virar um ‘palavrão’. Isso significa que novas tecnologias para a mineração a seco vão ser necessárias, terão de ser desenvolvidas ou aprimoradas. É um processo natural. Quantas barragens existem Brasil afora, principalmente em Minas? Todas elas devem ser controladas de forma adequada, para que não aconteça o mesmo, infelizmente, que aconteceu com o projeto da Samarco. Ninguém, é claro, faz barragem para ser rompida. Quanto ao uso da água, no Brasil sempre falamos que o problema está ligado à falta de chuvas. Será? Quando olhamos Israel, que tem um consumo muito maior que a sua capacidade de gerar o recurso, fica mais fácil entender a importância de se investir na gestão e no uso da água - que pertence ao povo e é administrada pelo Poder Público. Em nosso país, temos absurdos: investimos em tratamento de água para ela ser jogada no vaso sanitário. Limpamos as calçadas com água tratada que deveria ser bebida. O próprio modelo de tratamento no Brasil tem de ser repensado. Gastamos recursos demais para a água ser usada de forma inadequada. Queremos deixar um legado: da mesma forma que Israel quer melhorar o mundo, a Fundação Renova quer melhorar a região afetada. Não adianta, ao final do dia, implantarmos vários programas e a região ficar como antes. Precisamos falar de recuperação também no que concerne ao saneamento e tratamento de esgoto. Não é só cumprir aquilo que foi acordado com as autoridades, sejam elas municipais, estaduais ou federais. É fazer mais. É resolver o problema de saneamento como um todo. A sustentabilidade começou com a parte mais focada em meio ambiente, mas é muito mais isso. Temos de encontrá-la na geração do emprego, nas tecnologias... Vejo com satisfação que os vários programas que estamos discutindo têm de se integrar, de tal forma que a gente crie

FOTO: METSO

Wilson Brumer (*)

WILSON BRUMER: "Barragem no futuro será 'palavrão'"

uma região sustentável. Se nós tirarmos da região a atividade minero-metalúrgica, o IDH da região do Vale do Rio Doce deve ser comparável ao das áreas mais pobres de Minas Gerais. Temos uma enorme responsabilidade, que é como desenvolver econômica e socialmente esta região aproveitando, infelizmente, o que aconteceu. Não adianta ficar olhando para trás. Não podemos perder a oportunidade de fazer um grande projeto de desenvolvimento econômico e social para a região. São vários municípios, burocracias têm de ser vencidas, mas isso não importa. Os problemas nós vamos vencer. O que não podemos deixar é sermos vencidos por eles. Que os esforços não fiquem isolados. O que nós pudermos fazer juntos – Fiemg, Israel, outros órgãos públicos, a Fapemig –, para que possamos entregar algo muito melhor do que estava lá, será feito. Como presidente do Conselho Curador da Fundação Renova, já me abro para ser o interlocutor. E o nosso presidente-executivo, Roberto Waack, tem a mesma filosofia: transformar a região afetada em uma área mais sustentável do que era antes. O problema do Rio Doce é um problema de décadas, piorado agora pelo que aconteceu na Samarco. Mas a Fundação Renova tem tudo para transformar este desafio em um grande exemplo de recuperação e sustentabilidade.” O (*) Presidente do Conselho Curador da Fundação Renova, durante participação no Seminário Bilateral Minas-Israel.

ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O43


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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (1) ENTREVISTA: OCTĂ VIO ELĂ?SIO ALVES DE BRITO

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FOTO: LUCIANO LOPES

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le nasceu em Belo Horizonte, mas passou boa parte de sua vida na cidade histĂłrica de Ouro Preto, a 97 km da capital mineira, onde formou-se em EngeQKDULDGH0LQDVH0HWDOXUJLD&DVDGRHSDLGHWUrVĂ€OKRV OctĂĄvio ElĂ­sio Alves de Brito ĂŠ especialista em Engenharia EconĂ´mica pela PUC Minas, cursou AnĂĄlise e Administração de Projetos, Marketing e AnĂĄlise de Risco em Cambridge, nos EUA, e no Banco Mundial (BIRD). E ainda acumulou passagens pela Escola de Minas de Ouro Preto e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foi professor. Seu contato com a pasta ambiental começou no Governo Aureliano Chaves, com o professor JosĂŠ Israel Vargas (quando foi criada a Secretaria de CiĂŞncia e Tecnologia), e se fortaleceu na segunda gestĂŁo do Governo HĂŠlio Garcia, na dĂŠcada de 1990, quando foi SecretĂĄrio de CiĂŞncia, Tecnologia e Meio Ambiente. Ele, que tambĂŠm jĂĄ havia sido secretĂĄrio estadual de Educação, no Governo Tancredo Neves/HĂŠlio Garcia, ressalta a importância das escolas para a preservação dos recursos naturais. “NĂŁo hĂĄ segurança hĂ­drica sem educação para as ĂĄguasâ€?, defende. Na Assembleia Nacional Constituinte participou ativamente nas ĂĄreas de educação, ciĂŞncia e tecnologia, meio ambiente, e foi a favor da nacionalização do subsolo e da criação de um fundo de apoio para a reforma agrĂĄria, entre outros. Em 2009, compĂ´s a diretoria da AgĂŞncia Reguladora de Abastecimento de Ă gua e Esgotamento SanitĂĄrio de Minas Gerais. Agora, como consultor ambiental da Federação das IndĂşstrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para o FĂłrum Mundial da Ă gua, ele reforça a equipe que terĂĄ como objetivo fortalecer a imagem do Estado como potĂŞncia hĂ­drica brasileira. O FĂłrum, que deverĂĄ reunir mais de 60 mil pessoas de todo o mundo em BrasĂ­lia (DF), em março de 2018, ĂŠ um espaço importante de diĂĄlogo, em que os paĂ­ses tambĂŠm poderĂŁo mostrar seus exemplos e contribuiçþes nas ĂĄreas de segurança hĂ­drica, gestĂŁo integrada da ĂĄgua, mudanças climĂĄticas, governança, saneamento bĂĄsico e saĂşde. É o que vocĂŞ confere a seguir nesta entrevista exclusiva Ă EcolĂłgico:

OCTĂ VIO ELĂ?SIO, consultor ambiental: "A ĂĄgua jĂĄ ĂŠ uma commodity negociada na Bolsa de Valores"


Qual Ê a importância do Fórum Mundial da à gua no contexto atual em que vivemos? Ele Ê uma grande vitrine para o mundo. É o maior evento internacional sobre ågua. Foi criado pelo Conselho Mundial da à gua com sede em Marselha, na França, e um conselho diretor formado por 36 membros, sendo quatro deles brasileiros. Seu presidente Ê Benedito Braga, secretårio de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, um homem de universidade, que tem uma tradição de trabalho na årea hídrica. Inclusive, jå atuou na Agência Nacional de à guas (ANA), onde dirigiu a Comissão Brasileira para Programas Hidrológicos Internacionais (Cobraphi). O senhor jå participou de alguma edição do evento? O sÊtimo Fórum Mundial da à gua aconteceu na Coreia, em 2015. Lå foi decidido que o próximo evento seria no Brasil. A edição coreana teve 40 mil participantes, 168 países, oito chefes de estado. Fui aos fóruns mundiais de Marselha, na França, e Istambul, na Turquia. Percebi que eles foram lugares de encontros, mas o GLiORJR ÀFDYD UHVWULWR IHFKDGR DRV eventos. Ao se decidir realizå-lo no Brasil, estabeleceu-se a necessidade de se concluir e por em pråtica o que IRLGHÀQLGRQD&RUHLDHWHURVREMHWLvos de Desenvolvimento Sustentåveis GHÀQLGRV SHOD 8QHVFR218 FRPR base. A partir daí, foi se desenhando um projeto temåtico para o novo Fórum. E ele tinha de ser aberto. 4XDQGRRVHQKRUDÀUPDTXHR evento era fechado, se refere à GLÀFXOGDGHGHVHLPSOHPHQWDUDV açþes localmente? Sim. Mas, principalmente, que a sociedade participasse. E a Comissão Organizadora Internacional, com a participação local, incluíram isso na estratÊgia do encontro, pois a ågua

FOTO: LEO SANTANA

MINAS RUMO AO FĂ“RUM MUNDIAL DA Ă GUA 2018

“O FĂłrum serĂĄ uma oportunidade de nos mostrar diferentes do que aconteceu com o desastre da Samarco e do Rio Doce. E aprendemos e evoluĂ­mos com isso.â€? assume um especial destaque em seminĂĄrios de especialistas e de organizaçþes comprometidas com a questĂŁo ambiental. As imprensas brasileira e internacional vĂŞm noticiando Ă exaustĂŁo a escassez hĂ­drica e os eventos climĂĄticos extremos. Temos que aproveitar essa oportunidade. Ver o fĂłrum como um momento de nos mostrar diferentes do que aconteceu, por exemplo, com o desastre da Samarco e do Rio Doce. O Benedito Braga disse uma coisa muito importante apĂłs o FĂłrum da Coreia: “O mundo estĂĄ mudando rĂĄpido e a ĂĄgua representa o risco nĂşmero um

em termos de impacto na comunidade global, por estar conectada diretamente com questþes como alimentação, energia, saúde e desenvolvimento. É importante gerenciar esse recurso com cuidado e sabedoria�. E a questão da ågua se transformar em commodity? Ela vem se tornando commodity. E infelizmente jå estå sendo negociada na Bolsa de Valores. Na Austrålia, jå existe negociação de contratos futuros de ågua. Michael Burry, um investidor americano, que atÊ foi reWUDWDGRQXPÀOPHUHFHQWH ´$*UDQ-

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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (1)

de Aposta�), decidiu investir nisso tambÊm. Mas não na Bolsa. E sim na melhor forma de se apostar em ågua: a produção de alimentos em regiþes abundantes do recurso.

“Minas serĂĄ protagonista no FĂłrum. TerĂĄ uma comitiva representativa do que vem sendo feito na construção da segurança hĂ­drica. E a Fiemg jĂĄ vem atuando nessa direção junto ao setor empresarial.â€?

É o que chamam de â€œĂĄgua virtualâ€?? Isso. VocĂŞ planta soja aqui e o que se exporta ĂŠ toda a nossa ĂĄgua que foi XWLOL]DGD QD SURGXomR 8P REMHWLYR IRUWHKRMHpGHĂ€QLURTXDQWRGHiJXD tem em cada um desses produtos. E ĂŠ por isso que o Brasil desponta como importante nesse contexto - porque ele tem ĂĄgua. É claro que precisamos Minas deve ser protagonista. TerĂĄ ter consciĂŞncia do que estamos exuma comitiva expressiva e represenportando, porque tem ĂĄgua tambĂŠm. tativa do que vem sendo feito aqui na construção da segurança hĂ­drica. Na EncĂ­clica “Laudato Siâ€?, o Papa E a Fiemg vem atuando nessa direFrancisco lançou um convite para ção, especialmente junto ao setor construirmos o futuro do planeta empresarial. É o caso, por exemplo, SRUPHLRGDUHĂ H[mRGRGLiORJR do programa Minas SustentĂĄvel, que e do encontro generoso entre abrange as micro, pequenas e mĂŠdias as pessoas. É aĂ­ que se encaixa o empresas e o Pacto de Minas pela FĂłrum? Ă gua. O FĂłrum serĂĄ uma oportuniExatamente. E o tema da Campanha dade de construir parcerias e mostrar da Fraternidade da Igreja CatĂłlica casos de sucesso de sustentabilidade para este ano ĂŠ “Fraternidade: Biona construção da competitividade. mas Brasileiros e Defesa da Vidaâ€?. A ideia principal ĂŠ apresentar Minas Tudo estĂĄ se convergindo para essa *HUDLVFRPRXPDSRWrQFLDKtGULFDGR oportunidade que falei hĂĄ pouco que Brasil, vendendo sua imagem positio Brasil terĂĄ. Para completar, ainda va em gestĂŁo descentralizada, partiteve a escola de samba Portela, que cipativa e sustentĂĄvel dos recursos venceu o carnaval do Rio de JaneihĂ­dricos. Mostrar o trabalho que estĂĄ ro, depois de 30 anos, com o tema sendo desenvolvido junto Ă s bacias “O Rio que passou em minha vidaâ€?. KLGURJUiĂ€FDVHVSHFLDOPHQWHDGR5LR Temos de fazer 2017 ser o ano de Doce, na construção de um desenmobilização em prol da ĂĄgua. E esse volvimento sustentĂĄvel, com envolvimovimento tem dois objetivos: fazer mento da comunidade. E as açþes em com que o evento vĂĄ alĂŠm dos esandamento pela Fundação Renova, pecialistas e envolva a comunidade, Fundação Dom Cabral, setores pĂşbliprincipalmente os jovens. cos e privado. E o segundo? Deixar um legado, que ĂŠ a mudança da forma de desenvolvimento, do compromisso a favor dos recursos naturais, especialmente com a ĂĄgua. O que Minas Gerais irĂĄ apresentar no evento? 48 OECOLĂ“GICO | ABRIL DE 2017

Como a Fiemg vem se preparando para o Fórum? Ela faz parte da Seção Brasil (ligada à Agência Nacional das à guas - ANA) dos membros do Conselho Mundial da à gua, que coordena as açþes de preparação e realização do 8º Fó-

rum. Com a Fapemig, mostraremos os avanços de Minas em ciĂŞncia, tecnologia, inovação e as parcerias em rede com universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo, tanto na preservação e manutenção da ĂĄgua quanto na solução de desastres ambientais. A ComissĂŁo Organizadora do FĂłrum, inclusive, vem atuando dentro de uma sistemĂĄtica inovadora, buscando sugestĂľes e recolhendo experiĂŞncias entre participantes. De que forma isso estĂĄ sendo feito? A partir do prĂłprio site do FĂłrum Mundial da Ă gua. Desde o dia 13 de fevereiro, o site disponibilizou a plataforma pĂşblica global “Sua Vozâ€?, em que qualquer cidadĂŁo ou instituição pode deixar sua contribuição. Isso ĂŠ uma beleza, porque tem gente do mundo inteiro participando do diĂĄlogo online. E sendo mobilizada. A plataforma terĂĄ trĂŞs rodadas de oito semanas: fevereiro-abril; maio-julho; e agosto-outubro de 2017. SĂŁo seis salas de discussĂŁo, com moderadores, contemplando os temas Clima, 3HVVRDV 'HVHQYROYLPHQWR 8UEDQR Ecossistema e Finança. Junto Ă Fiemg, estamos acompanhando e preparando um documento a partir dessas FRQWULEXLo}HVDĂ€PGHOHYDUWDPEpP uma proposta mais alinhada com a sociedade para o FĂłrum. É um convite-provocação: fazer com que todos sejam solidĂĄrios a uma estratĂŠgia multidisciplinar de sustentabilidade. Quais sugestĂľes apresentadas na plataforma sĂŁo interessantes para serem levadas ao FĂłrum? A importância da interrelação entre biomas, qualidade e quantidade de ĂĄgua. Esta, inclusive, foi uma SRQWXDomRGH*ODXFR.LPXUDXPGRV moderadores. Ele lembrou de dados importantes: o Cerrado, que perdeu 50% de sua cobertura vegetal e abriga as nascentes das principais bacias


FOTO: ÉLCIO PARAÍSO - PBH

MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

FONTES da Praça da Liberdade: símbolo histórico , e agora também hídrico, da capital mineira

KLGURJUiÀFDV EUDVLOHLUDV 6HJXQGR D Embrapa Cerrado, 8 das 12 regiões KLGURJUiÀFDVQDVFHPQRELRPD das águas do Rio Paraná, 70% das do Tocantins-Araguaia e 90% da água que chega à foz do Rio São Francisco. Outro tema interessante, e que é pouco tratado na mídia, é a questão das águas subterrâneas. A comunicação entre ciência, clima, gestão da água e políticas setoriais. Também há a falta de saneamento básico em países como Nigéria, Índia, Paquistão, Zâmbia e Mauritânia. O Fórum pode, inclusive, fazer o mundo avançar na universalização do acesso à água

potável, como defendeu um dos participantes da plataforma on-line. Por que a Fiemg está se concentrando tanto no Fórum Mundial das Águas? Porque o 8o Fórum é um indicativo de mudanças e de metas e o setor empresarial deve ser proativo neste processo. Daqui a um ano, é preciso mostrar o que foi feito, que avançamos, que os objetivos foram alcançados. Nessa preocupação de mobilizar a sociedade, foi organizado, dentro da Seção Brasil, o “Programa Rumo a Brasília 2018”. Ele visa mobilizar cidades para

o Fórum. Já aconteceu eventos em Belém (PA), Salvador (BA), Cidade do México, Buenos Aires (Argentina) e Santiago, do Chile. A ideia é colocar Belo Horizonte na rota. A proposta é que seja outubro deste ano. Temos de ensaiar, nesse período, para que BH seja a “Capital da Água”. Nessa mobilização, quem será envolvido? Todo mundo, do jovem ao empresário, governo, lideranças, sociedade civil. A Fiemg já está em contato com a Prefeitura de Belo Horizonte e a Secretaria Estadual de Cultura bus-

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cando parceria para uso do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. A ideia Ê que, em cada um dos museus, seja realizado um evento sobre ågua. E tambÊm hå o envolvimento das escolas para que haja palestras, aulas e dinâmicas que promovam a educação para o uso consciente desse recurso natural tão importante.

Clima (segurança hídrica e mudanças climåticas); Pessoas (ågua, saneamento e saúde); Desenvolvimento (ågua SDUD SURGXomR VXVWHQWiYHO  8UEDQR (gestão integrada de ågua, resíduo urbano); Ecossistema (ågua e ecossistemas, biodiversidade); e Finança ÀQDQFLDPHQWRSDUDVHJXUDQoDKtGULca). Todos esses temas foram pensados dentro de uma sistemåtica de aperfeiçoamento das ediçþes anteJå vem sendo pensada uma riores do Fórum e são perpassados programação cultural e ambiental para quando BH por outros temas transversais: comsediar o programa? partilhamento; capacitação; ciência Sim. Música, bandas, teatro, dança, e tecnologia; sustentabilidade. O gastronomia. E isso inclui tambÊm grande foco Ê a educação ambiental. mostrar a Pampulha como Patrimônio 1D 5,2 D 8QHVFR DÀUPRX TXH 0XQGLDO GD 8QHVFR R 3DUTXH GDV a educação para as åguas Ê ampla. Mangabeiras, que era uma årea de Não envolve apenas aquela educação mineração; e o Museu de Inhotim, formadora de hidrólogos e cientisLGHP e FRPR VH À]pVVHPRV XPD tas que vão pesquisar e estudar a versão preliminar do Fórum Mundial questão da ågua. Mas tambÊm aqueles que são responsåveis por pensar da à gua em Minas. as leis, que formam opinião, mais a educação informal e a mídia. Quais os temas e tópicos propostos para debate no Fórum? Qual o papel da mídia nisso?

SEGUNDO SE S E EGU GU GU GUN UN ND N DO Octåvio Occtå O ttåvi åvviio Ellís E Elísio, lís ísio io, "não "não "n ão hå hå sse segurança eg gu ura ranç nça h nça hí hídrica íd drric ica sem educação se sem ed e du uccaç açã ão o para pa para ra as as åguas" åg å gu ua ass"" as

É ela a responsĂĄvel por fazer a mudança de pensamento da sociedade em relação Ă necessidade urgente de se preservar a ĂĄgua. NĂŁo hĂĄ desenvolvimento sustentĂĄvel sem segurança hĂ­drica. E nĂŁo hĂĄ segurança hĂ­drica sem educação para as ĂĄguas. Em uma entrevista que a Revista EcolĂłgico fez com o sr. hĂĄ sete anos, o senhor disse que “lutava para ser otimista e ter sempre o sentimento de esperançaâ€?. Essa luta ainda continua? Continuo otimista e esperançoso. Quando vejo algo como o FĂłrum Mundial da Ă gua acontecer, me dĂĄ esperança sim. Isso ĂŠ o que me alimenta. O recado que deixo a todos ĂŠ para nĂŁo perderem a oportunidade de entender que o que aconteceu com o Rio Doce e a mineração deve se constituir em oportunidade de mudança. Infelizmente, o que choca ĂŠ que provoca mudança. E o desastre tinha de acontecer em um estado FKDPDGR 0LQDV *HUDLV FRQVLGHUDGR a “caixa d’ågua do Brasilâ€?, e em um rio onde foram cavadas as primeiras minas e que foi cenĂĄrio da Corrida do Ouro. As mineradoras devem procurar alternativas que nĂŁo sejam o uso da ĂĄgua e a produção de rejeito. Devem adotar a economia circular, de reduzir, reutilizar e reciclar. É hora de fazer diferente. EM TEMPO: A EcolĂłgico irĂĄ acompanhar e mostrar a preparação de Minas e do Brasil para o FĂłrum, em suas prĂłximas ediçþes atĂŠ Ă  realização do evento mundial, em março de 2018, em BrasĂ­lia (DF).

SAIBA MAIS Para participar e deixar sua contribuição para o FĂłrum Mundial das Ă guas, acesse a plataforma “Sua Vozâ€? no site www.worldwaterforum8.org

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MINAS RUMO AO FĂ“RUM MUNDIAL DA Ă GUA 2018

BRAS�LIA serå a sede da 8a edição do Fórum, que reunirå mais de 60 mil pessoas e representantes de 100 países

A CAMINHADA COMEÇOU Seminårio realizado em BH marca o início da preparação de Minas Gerais para o encontro internacional Marcela Campos Rosa redacao@revistaecologico.com.br

A

s Minas Geraes jĂĄ se encontram a todo o vapor para PRVWUDU VHXV GHVDĂ€RV H exemplos sustentĂĄveis no 8Âş FĂłrum Mundial da Ă gua, o maior evento global sobre recursos hĂ­dricos, e que este ano serĂĄ realizado pela primeira vez no HemisfĂŠrio Sul. Esta foi a principal abordagem do “SeminĂĄrio CiĂŞncia e Tecnologia – Ă gua e Produçãoâ€?, realizado pela Federação das IndĂşstrias do Estado de Minas *HUDLV )LHPJ HP%HOR+RUL]RQWH e que marca o inĂ­cio da preparação rumo ao evento. O tema desta edição do FĂłrum ĂŠ “Compartilhando Ă guaâ€? e tem como missĂŁo promover a conscientização popular sobre o uso e a gestĂŁo dos recursos hĂ­dricos, construir compro-

missos políticos e provocar açþes em temas críticos relacionados à ågua. Minas abriga alguns dos rios e baFLDV KLGURJUiÀFDV PDLV LPSRUWDQWHV para o abastecimento do país. Mas tambÊm ainda sofre com a escassez hídrica que assola o Brasil desde 2015. Dados divulgados recentemente pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) apontam que 46 municípios mineiros jå estão em período vigente de seca ou estiagem. Esse cenårio, inclusive, impacta diretamente o setor industrial, segundo maior consumidor de ågua no mundo (22%), atrås apenas do setor agropecuårio (com 70% do uso), segundo dados da Organização das 1Do}HV8QLGDVSDUDD$OLPHQWDomRH

Agricultura (FAO). Segundo o presidente da Fiemg, Olavo Machado Jr., o uso e a boa gestĂŁo de recursos hĂ­dricos ĂŠ de extrema importância, independentemente do setor. “A recente crise hĂ­drica enfrentada pela RegiĂŁo Metropolitana de Belo Horizonte, e que ainda persiste em diversas regiĂľes do Estado, representa um enfĂĄtico alerta para a urgĂŞncia de investirmos em tecnologias destinadas a economizar e tratar nossas ĂĄguas. NĂŁo podemos relaxar!â€?, enfatiza. 3DUDYHQFHUHVVHGHVDĂ€RROtGHUHPpresarial citou o “Pacto de Minas pelas Ă guasâ€?, iniciativa da Fiemg lançada em 2015 com a presença do governador Fernando Pimentel. Realizada em parceria com o governo estadual, indĂşs-

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SAIBA

MAIS

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Fórum Mundial da Água é o maior evento global sobre o tema e é organizado pelo Conselho Mundial da Água, uma organização internacional que reúne interessados na gestão dos recursos hídricos. O evento contribui para o diálogo no processo decisório a nível global, visando o uso racional e sustentável do recurso. Por sua abrangência política, técnica e institucional, uma de suas características é a participação democrática de um conjunto de atores de diferentes setores. A iniciativa é organizada a cada três anos juntamente com o país e a cidade anfitriã. Ao todo, já ocorreram sete edições em sete países de quatro continentes: África, América, Ásia e Europa.

Site: worldwaterforum8.org/pt-br

trias e entidades representativas do setor produtivo, o Pacto se tornou um instrumento fundamental para evitar o agravamento da crise hídrica, destacando ações pontuais de utilização e reúso de água, bem como de mudanças nas práticas de produção. Olavo também citou as ações da Fiemg no apoio e na busca permanente da inovação. “Projetos como o ‘Fiemg Lab’, lançado no Dia Mundial da Água, e o ‘P7 Criativo’, que começa a operar em breve, incentivam startups e iniciativas intensivas em tecnologia para a indústria.” TRABALHO CONJUNTO Em parceria com a Fiemg, o Conselho de Empresários para o Meio Ambiente (Cema), está desenvolvendo ações de divulgação e apoio à participação de Minas no 8º Fórum Mundial da Água. Segundo seu presidente, José Alberto Salum, a instituição se junta ao esforço de todo o Sistema Fiemg para que, até março de 2018, 52 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

discuta-se amplamente o tema da gestão de recursos hídricos: “O primeiro passo dado foi o seminário. A proposta agora é apresentar e discutir a importância da inovação tecnológica e os gargalos para seu desenvolvimento e ampliação em todas as cadeias produtivas, no apoio a produtos e processos com o menor impacto sobre nossas coleções hídricas, nossos rios, aquíferos, lagos e reservatórios”. Já a secretária-executiva do Cema, Patrícia Boson, adiantou que uma série de eventos temáticos será realizada na capital mineira em consonância com o Fórum. E incluem desde mobilizações até exposições nos museus do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em BH. Elas abordarão desde a história da água até sua importância para elementos culturais como a cachaça. E, mais recentemente, as cervejas artesanais. Patrícia acredita que o Fórum Mundial é uma oportunidade para que Minas ocupe um espaço de destaque no evento: “O foco principal é o Estado e sua vantagem competitiva no que concerne à disponibilidade hídrica, capacidade gerencial para um desenvolvimento sustentável, oportunidades de investimento, base tecnológica consistente e uma indústria engajada com o que há de mais

ALBERTO Salum: "A proposta é discutir a inovação tecnológica"

moderno na competitividade”. POSTURA NECESSÁRIA Também presente no seminário, Newton Lima Azevedo, um dos 35 governadores integrantes do Conselho Mundial da Água, ressaltou o valor da palavra juntos para que ações concretas sejam realizadas. Ele conta que o programa “Rumo a Brasília 2018” foi idealizado após a conscientização e mobilização de milhares de pessoas na América Latina. “A questão da seca nos estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro nos ajudou, pois a sociedade descobriu que realmente poderia e pode, cada vez mais, faltar água em suas torneiras. Seja no bairro do Leblon, no Rio, ou em qualquer outro lugar do planeta”, apontou. “A minha geração foi culpada, omissa ou conivente com essa situação. 0DV ÀTXHL IHOL] DR YHU GXUDQWH D idealização do Fórum como a nossa MXYHQWXGH HVWi QRV ¶DVÀ[LDQGR· FRP boas ideias sobre o tema da água”, disse ele, acrescentando que é necessário que a sociedade civil seja ainda mais participativa. “Precisamos ter mais postura para H[LJLU GRV JRYHUQRV RX ÀFDUHPRV como estamos agora. Muitos sofás ainda são jogados nos rios pela população; mas ela continua colocando a culpa no prefeito”, conclui Azevedo.

PATRÍCIA Boson: "Minas merece ocupar um espaço de destaque"

NEWTON Azevedo: "Precisamos ter mais postura"


FOTOS: SEBASTIĂƒO JACINTO JR.

MINAS RUMO AO FĂ“RUM MUNDIAL DA Ă GUA 2018

OLAVO MACHADO durante o primeiro seminĂĄrio preparatĂłrio para o evento global: "Cuidar das ĂĄguas ĂŠ dever e responsabilidade de todos"

'Molhando' a pauta contra a escassez &RQĂ€UDRVSULQFLSDLVWUHFKRVGRGLVFXUVRGRSUHVLGHQWHGR6LVWHPD)LHPJ 2ODYR0DFKDGRQRSULPHLURHYHQWRRĂ€FLDOUHDOL]DGRQR(VWDGR “O DEBATE sobre recursos hĂ­dricos e sobre o desenvolvimento de tecnologias inovadoras nessa ĂĄrea ĂŠ de fundamental importância para o futuro da indĂşstria. Estamos convencidos da necessidade imperiosa de redução do consumo de ĂĄgua, da importância de elevarmos o reuso e a reciclagem de ĂĄgua! Estas sĂŁo açþes imperativas para a competitividade de nossas empresas.

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do que uma visĂŁo romântica de defesa de um bem natural, enxergamos a escassez hĂ­drica como uma enorme ameaça ao desenvolvimento econĂ´mico, social e ambiental GH 0LQDV *HUDLV H GR %UDVLO 2X seja, cada vez temos de ‘molhar’ as pautas das nossas atividades, em se pensando um futuro comum para toda a humanidade’.â€? “A RECENTE CRISE hĂ­drica enfrentada pela RegiĂŁo Metropolitana de Belo Horizonte – e que ainda persiste em diversas regiĂľes de MiQDV*HUDLV²UHSUHVHQWDXPHQIiWLco alerta para a urgĂŞncia de inves-

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“&8,'$5'$6É*8$6 ĂŠ dever e responsabilidade de todos! O equilĂ­brio hĂ­drico das nossas cidades e das ĂĄreas rurais ĂŠ uma preocupação real e atual da indĂşstria. Muito mais O

tirmos em tecnologias destinadas a economizar e tratar nossas ĂĄguas. NĂŁo podemos relaxar!â€? “EM 2015, no ponto mais agudo da crise, o FĂłrum das Entidades Empresariais mineiras se associou DR *RYHUQR GR (VWDGR SDUD FRQVtruir o Pacto de Minas pelas Ă guas, lançado tambĂŠm aqui, na sede da nossa Federação das IndĂşstrias, com a presença ilustre do governador Fernando Pimentel.â€?

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“OS ESFORÇOS para o desenvolvimento de inovação e tecnologia estĂŁo presentes em uma sĂŠrie

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ABRIL DE 2017 | ECOLĂ“GICO O53


de açþes coordenadas pelo Sistema Fiemg. O “PROJETOS como o Fiemg Lab, lançado na Ăşltima semana, no Dia Mundial da Ă gua, e o P7 Criativo, que começa a operar em breve, incentivam startups e iniciativas intensivas em tecnologia para a indĂşstria.â€?

“$ 48(67ÂŽ2 +ĂŒ'5,&$ certamente jĂĄ ocupa - e ocuparĂĄ cada vez mais - posição de destaque nessas açþes que se somam Ă s pesquisas desenvolvidas nos laboratĂłrios do nosso Centro de Inovação e Tecnologia Senai-Fiemg, no Campus Cetec.â€?

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tativas, o poder pĂşblico e toda a sociedade do nosso Estado.â€? “SABEMOS muito bem que esta ĂŠ uma missĂŁo que nĂŁo se cumpre da noite para o dia! É preciso planejamento e engajamento das nossas empresas, do governo, de entidades representativas da sociedade. Foi assim que trabalhamos - com grande sucesso - no ‘Pacto de Minas pelas Ă guas’. SerĂĄ desta mesma forma que conduziremos as açþes do FĂłrum Mundial da Ă gua atĂŠ março do ano que vem.â€?

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O “2 6,67(0$ ),(0*, por meio do Sesi, disponibiliza para toda a indĂşstria mineira o ‘Programa Minas SustentĂĄvel’. Criado em 2011, O “DEBATER ESTE TEMA e planeeste programa incentiva e orienta MDU D SDUWLFLSDomR GH 0LQDV *HUDLV os empresĂĄrios mineiros a adotano 8Âş FĂłrum Mundial das Ă guas, rem processos produtivos cada vez que acontece em BrasĂ­lia, em mar- mais sustentĂĄveis.â€? ço de 2018, ĂŠ a missĂŁo Ă qual nos dedicamos neste momento, de alta O “26 5(68/7$'26 sĂŁo expresrelevância para o setor produtivo sivos. Nossos tĂŠcnicos jĂĄ visitaram mineiro, suas entidades represen- 5.287 empresas, em 299 diferentes

municĂ­pios. Por meio do sapoio do ‘Minas SustentĂĄvel’, 407 licençass ambientais foram concedidas para empresas mineiras. Outras 1.281 foUDPRULHQWDGDVSDUDDHFRHĂ€FRHĂ€ ciĂŞncia, e 2.861 trabalhadores e empresĂĄrios foram capacitados. “ESTE ANO, em parceria com D6HPDG0*RÂś0LQDV6XVWHQWiYHO¡ participa ativamente do projeto ‘FAPI’, voltado para a fiscalização preventiva na indĂşstria. Cada Regional da Fiemg jĂĄ estĂĄ sediando um workshop, com participação GR *RYHUQR GR (VWDGR SDUD TXH as açþes sejam explicadas e a regularização incentivada.â€? O

“e 0$,6 80$ $dÂŽ2 que vai muito alĂŠm do cumprimento de normas e da legislação ambiental, mas que constrĂłi novos horizontes para que nossas empresas sejam sustentĂĄveis e, cada vez mais, hĂ­dricas e competitivas.â€? O

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As ĂĄguas crescem porque se encontram. Tal como a proposta de uniĂŁo da Fiemg rumo a BrasĂ­lia, em 2018

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FOTO: ALFEU TRANCOSO

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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (1) MINAS RUMO AO FĂ“RUM MUNDIAL DA Ă GUA 2018


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1 CULTURA

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Quem te conhece NÃO ESQUECE JAMAIS Memorial Vale inicia exposição itinerante “Mineiridades”, que percorrerá sete cidades do Estado para reforçar, ainda mais, os valores, a tradição e a essência de ser mineiro J. Sabiá redacao@revistaecologico.com.br

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REPRODUÇÃO

ou mineiro e, portanto, um bocado suspeito para falar de Minas Gerais. A cada lugar que viajo pelo meu Estado, mais se fortalece a minha sensação de pertencimento: sinto-me em casa, seja na cidade seja no campo. Acredito que

isso acontece porque “Minas são muitas”, como certa vez escreveu o mestre Carlos Drummond de Andrade. E, dentro dela, também são muitas as memórias, as pessoas, as histórias, as tradições, as religiosidades e tantas preciosidades culturais que são comuns à nossa história. Quem visita o Memorial Vale, na Praça da Liberdade – indis-

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cutivelmente o coração verde e cultural da capital mineira – tem a oportunidade gratuita de resgatar a essência do que é ser mineiro e passear pelos momentos mais importantes da história de nosso Estado, que é mostrada no museu. Mas aqueles que ainda não puderam visitá-lo, agora também terão a chance de experimentar essa viagem cultural ao


FOTOS: WASHINGTON ALVES/LIGHT PRESS

Cada cidade que receber a exposição terá um edital de fotografias, que posteriormente resultará em uma mostra no Memorial, em BH, com as imagens vencedoras

REPRODUÇÃO da sala Jequitinhonha: valorização da arte de nosso povo

interior de nós mesmos na sua própria cidade. Trata-se da exposição “Memorial Vale Itinerante Mineiridades”, que já chegou a Nova Lima, na Região Metropolitana de BH, primeira parada do roteiro. Desde 16 de março, a mostra está aberta ao público no hall da Prefeitura Municipal. A população terá a chance de vivenciar a mesma sensação de quem visita o museu. Os sons, as imagens e os aromas de salas como “Barroco Mineiro”, “A Fazenda Mineira”, “Caminhos e Descaminhos” e “Jequitinhonha” estão lá, à espera dos filhos de Minas e também de outros estados, para despertar memórias afetivas. Virtualmente, eles ainda poderão acessar o acervo completo do Memorial Vale por meio de um totem. Depois de montada em Nova Lima, até o final de abril, a exposição segue para Brumadinho (maio a junho), Ouro Preto (junho a julho), Itabirito (agosto a setembro), Congonhas (setembro a outubro), Itabira (outubro a dezembro) e Santa Bárbara (dezembro de 2017 a janeiro de 2018), cidades que têm sua história ligada à mineração, assim como é o Estado que a leva no próprio nome.

A RELIGIOSIDADE é uma característica cultural forte dos mineiros

Em cada lugar que “Mineiridades” passar, informações sobre a história da cidade e de seus moradores serão incorporadas, valorizando, assim, também a cultura local. “A exposição leva conhecimento sobre parte da história de Minas Gerais e também interage com cada município por onde circulará, pois há um vitrine de memórias de cada cidade, depoimentos de moradores sobre o que é ser mineiro e uma programação tem-

porária associada com atrações da localidade. O objeto maior da iniciativa é ampliar o acesso à cultura das comunidades abarcadas”, afirma Wagner Tameirão, gestor do Memorial Minas Gerais Vale. É como diz a poesia atemporal de Drummond: “Ser mineiro é ser religioso e conservador, é cultivar as letras e artes, é ser poeta e literato. É gostar de política e amar a liberdade. É viver nas montanhas, é ter vida interior. É ser gente”.

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Um museu de

experiências O Memorial Minas Gerais Vale é dividido em três pavimentos. São 31 salas que misturam cenários virtuais e reais e levam o visitante a interagir com questões que perpassam toda a história de Minas, do século XVIII ao XXI. Aberto em 2010, o prédio que abriga o Memorial Vale era a antiga sede da Secretaria do Estado da Fazenda de Minas Gerais. A edificação histórica, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) é datada de 1897 e marca o local onde foi lançada a pedra fundamental da cidade. A seguir, conheça alguns dos ambientes do museu:

FOTOS: JOÃO MARCOS ROSA/AGÊNCIA NITRO

1 CULTURA

FOTO: ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA

CAMINHOS E DESCAMINHOS Minas tem muitos caminhos. No passado, eles levavam os viajantes e comerciantes às riquezas do Estado enfrentando o clima e a paisagem áspera, passando por montanhas e vales, tendo a companhia do sertão. Hoje, nosso Estado oferece ao homem moderno trilhas ainda à sua espera. Na sala “Caminhos e Descaminhos”, os visitantes conhecem alternativas de turismo ecológico no Estado e são convidados a se reconectar à rica natureza mineira.

FOTOS: JOÃO MARCOS ROSA/AGÊNCIA NITRO

BARROCO SAGRADO E PROFANO

FOTO: ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA

O espaço é formado por um telão oval, ornamentado por uma borda dourada com detalhes suntuosos. Além dos vídeos que mostram o pensamento, a filosofia, a paixão e a fé no coração dos homens, em meio à representatividade da arte barroca, o espaço é acarpetado e permite que os visitantes possam assistilos sentados. Na tela, música, teatro, cotidiano e devoção se unem para mostrar como o barroco influenciava a fé do povo mineiro, sempre conduzido e iniciado na educação dos valores e fundamentos da religião cristã.

A FAZENDA MINEIRA Para a concepção do espaço, Gringo Cardia, responsável pelo projeto de curadoria e museografia do Memorial Vale, utilizou elementos que fazem parte do cotidiano das fazendas – de fôrmas de bolo a arados, cantis e moringas de barro a móveis rústicos. Detalhe: os objetos estão fixados no teto e na parede do espaço, simbolicamente fazendo com que o visitante se sinta mesmo em um ambiente rural. O SAIBA MAIS www.memorialvale.com.br

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JUNTOS, FAZEMOS A DIFERENÇA.

Edirlando Ferreira, empregado Usiminas, com sua esposa Rosilene e seus filhos Larissa e Edirlando.

Para a Usiminas, a parceria ideal é sempre aquela que melhora a vida das pessoas. Com esse objetivo, o Projeto Xerimbabo se tornou um grande sucesso, levando educação ambiental para mais de 2,4 milhões de visitantes em três décadas de existência. Já o “Caminhos do Vale” pavimentou cerca de 450 km de estradas rurais, beneficiando mais de meio milhão de moradores do Vale do Aço. Esses projetos, e muitos outros, são exemplos concretos de como a construção em conjunto com as comunidades gera resultados positivos. Acesse nosso site e conheça outras iniciativas que fazem a diferença. www.usiminas.com


1 AGRONEGÓCIO

UMA PONTE PARA

NOVOS MUNDOS Com conhecimento e capacitação, Projeto Realizando Sonhos, do Instituto Café Solidário, transforma a realidade de 120 crianças, adolescentes e mães de Buritizeiro, no Norte de Minas Luciana Morais De Buritizeiro/MG (*) redacao@revistaecologico.com.br

P

or trás de cada rosto se descortina um turbilhão de sentimentos. Algumas histórias são de ‘cortar’ o coração. Em poucos minutos de conversa, João Vitor dos Reis Santos, de 10 anos, demonstra resignação de gente grande. Vai das lágrimas ao riso tímido, enquanto conta ter perdido a mãe, doente, há poucos dias. Já órfão de pai e caçula de sete irmãos, João foi morar com uma tia.

60 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

“Fico melhor aqui, porque tudo é bom, principalmente a capoeira. Quando crescer, quero ser carreteiro para poder viajar e conhecer muitos lugares”, planeja, com olhos de esperança. É num bairro de casas simples, com ruas de terra, que se cruzam histórias de vida como a de João e brota a semente de um futuro melhor para inúmeras famílias de Buritizeiro. Banhado pelo Rio São Francis-

co, o município norte-mineiro, distante 357 quilômetros de Belo Horizonte, tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil: 0,659 na escala que vai de 0 a 1. O motor da transformação social e cultural em curso na cidade é o “Realizando Sonhos”. Um projeto que abre suas portas diariamente e oferece cursos gratuitos para 120 crianças e jovens, de seis a 18 anos, além de


ALIMENTO PARA A ALMA O capricho e a dedicação da equipe responsável estão estampados em cada detalhe e ambiente. Ampla e delicadamente decorada, a nova casa é um verdadeiro oásis de aconchego para as turmas que, de segunda a sexta, nos turnos da manhã e tarde, participam das oficinas de pintura, bordado, corte/ costura, violão, flauta, canto, capoeira, teatro e dança. Há samambaias, folhagens e vários objetos que remetem à cultura barranqueira do Velho Chico, como as tradicionais carrancas de madeira. Quadros pintados pelas crianças dão ainda mais cor e vida ao hall da recepção. Na fachada e muros, os modernos grafites do artista plástico belo-horizontino Ataíde Miranda, feitos especialmente para o projeto, chamam a atenção. Um pé de araticum, fruta típica do Cerrado, sombreia parte da cal-

çada, bem na entrada, enquanto mudas de laranja, limão e jabuticaba esverdeiam ainda mais o gramado que margeia o anfiteatro. Sentada perto de um canteiro com camarás amarelos, Janaína Campos da Silva, de 32 anos, faz questão de dizer que o “Realizando Sonhos” mudou a sua vida. Após perder um bebê com cinco meses de gestação, ela entrou em depressão. “Só consegui parar de tomar remédio depois que comecei a fazer as aulas de costura e violão. O Instituto não realiza só os meus sonhos, não. Ele realiza a minha vida inteira. Se deixar, eu falto morar aqui, de tanto que gosto de tudo. Graças a Deus.” A cada turno, os participantes têm direito a uma refeição completa, além de café/lanche, preparados pelas auxiliares Regina Célia Bastos e Maria Aparecida Souza, a Cidinha. No dia da visita da Ecológico, em fevereiro, o cheiro do feijão refogado com bastante bacon e linguiça fritos – apelidado de “gordo” e um dos preferidos da meninada – aguçava o apetite. “A maioria raspa o prato e ainda repete. A mudança pra cá foi muito boa. Além da cozinha maior e toda equipada, temos também

o refeitório”, comenta Cidinha. “Fico feliz de ver que eles estão aprendendo a comer mais verduras e legumes. Mas o melhor de tudo é receber o carinho da criançada: esse é o melhor alimento para a alma”, emenda Regina.

FOTO: LUCIANA MORAIS

mães de diferentes idades. Tudo começou em 2011, a partir da ajuda financeira dada pelo Instituto Café Solidário ao então Projeto Bola Pra Frente, coordenado pela Cáritas Paroquial de Buritizeiro. O Café Solidário é o braço de responsabilidade social mantido pelas empresas do grupo mineiro Montesanto Tavares. Com sede em Belo Horizonte, atua há 12 anos na produção, importação, transporte, armazenagem e exportação de café e também é proprietário da Fazenda Atlântica Agro, na vizinha Pirapora. Tocada pelas carências da região, a direção da Montesanto decidiu ir além. Abraçou integralmente o projeto que, com o tempo, mudou de nome e ampliou o seu alcance, sem contar com qualquer recurso do município. Uma das conquistas mais recentes é a construção da sede própria do “Realizando Sonhos”, inaugurada em dezembro do ano passado, no Bairro Alto São Francisco.

JOÃO VITOR: aos 10 anos, ele é exemplo de resignação e de esperança no futuro

AULA DO CONHECIMENTO A disciplina das turmas e a brancura das blusas do uniforme impressionam. Tudo flui sem gritos ou correria. Enquanto uns dedilham o violão, outros se concentram na costura. Pintar e bordar, só no sentido literal mesmo. Depois das salas de aula, o anfiteatro é o principal ponto de encontro para as diferentes atividades oferecidas ao longo do dia. Em especial, a roda de capoeira ao som do berimbau e muitas palmas. É também no anfiteatro que acontece uma das atividades mais bacanas do projeto. A chamada aula do conhecimento. Quem explica seu conceito e objetivo é a sua idealizadora, Patrícia Fonseca, superintendente do Instituto Café Solidário e diretora da Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano. “A ideia é ampliar os horizontes das crianças, difundindo conhecimento e mostrando a elas que o mundo é muito mais do que a realidade de carências, desigualdade e violência aqui da região. Não é uma aula maçante, formal. É mais lúdica, ministrada pelos próprios monitores e com recursos simples, como fotos, jogos e vídeos. Assim, monitores e alunos têm a chance de aprender juntos a descortinar a diversidade cultural, as novidades e também as belezas do mundo”, pondera Patrícia. O tema do dia da nossa visita foi ‘As Setes Maravilhas do Mundo Moderno’. Monumentos mundialmente famosos, como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e o Taj Mahal, na Índia, foram apresentados às crianças sob a forma de um jogo da memória.

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ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O61


AGRONEGÓCIO 1 AGRONEGÓCIO

SEM PRECONCEITO Com 28 mil habitantes, Buritizeiro não tem calçamento em 90% de suas ruas. A bicicleta é o meio de transporte oficial de boa parte das crianças, mães e monitores até o projeto. Uma delas é a ‘tia’ Lorena Borges. Simpática e boa de prosa, ela encara com tranquilidade o desafio de ensinar o ofício da avó, costureira, a meninos e meninas. Isso mesmo. No projeto, não há espaço para preconceito e tabus. E a garotada, claro, agradece. “Aqui não tem separação, não. A gente aprende de tudo, inclusive a costurar e bordar. Além de conhecer todas as partes da máquina e o seu funcionamento, já aprendemos costura reta, oval etc. Daqui a um tempo vamos aprender a tirar medidas e usar moldes para fazer roupas”, revela Wendel Júlio, de 13

FOTOS: GUARDA CHUVA PRODUÇÕES

Folhas A4, com fotos e informações sobre cada maravilha, foram dispostas no chão. Pequenos pesos, em formato de galinha-d’angola, evitavam que elas fossem viradas pelo vento. O desafio da turma era acertar onde estava o par certo de cada imagem.

PATRÍCIA FONSECA: valorização das pessoas e de seus dons

anos, filho de Janaína e fã declarado da dupla sertaneja mato-grossense Maiara & Maraísa. As aulas iniciais do curso de corte e costura, explica Lorena, incluem teoria e exercícios de destreza, para que todos usem as máquinas com controle e segurança. São atividades que requerem concentração e paciência e, portanto, ajudam as crianças no aprendizado das dife-

OFICINAS DE PINTURA, bordado, corte/costura, violão etc. são oferecidas diariamente, em dois turnos

62 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

rentes disciplinas escolares. Para Lorena, só o fato de conseguirem controlar sozinhos a máquina de costura, já é uma vitória e tanto. “Muitos têm só seis, sete anos e costumam dizer que ela, às vezes, mais parece touro bravo. Se pisar forte demais no pedal, ela dispara e embola a linha toda”, brinca. No caso das mães, as aulas ajudam a aliviar as despesas domésticas. “Só de economizarem 10, 15 reais toda vez que precisam trocar um zíper ou dar bainha numa peça, já vale o que aprendem aqui. Para mim, não importa a profissão que as crianças vão escolher ou como as mães vão se beneficiar das aulas no futuro. Ensino que o mais importante é fazer tudo com amor. O Instituto é uma luz em nossas vidas, uma ponte para novos mundos”, resume. Pedagogo e administrador, Duílio Pimentel, coordenador-geral do “Realizando Sonhos”, sintetiza o foco do projeto em uma frase: o desejo de fazer a diferença na vida das pessoas. “Aqui também tenho a oportunidade de crescer como profissional e ser humano todos os dias. Sonho ver trabalhos como o nosso sendo replicados em outras cidades. Se mais empresas e institutos quiserem, podem fazer o mesmo. Basta querer de verdade.” Respeitada e querida por todos, Patrícia lembra: “A vida fica mais fácil e leve quando aprendemos a usar nossos dons; sem ficar infeliz ou perder tempo tentando ser o que não somos. Quem sabe não surge daqui um grande nome do bordado, da costura ou da música? Só o tempo dirá. Por hora, estamos abrindo nossas portas, corações e semeando conhecimento, cultura, ética, respeito e patriotismo. É assim que queremos seguir avançando”, diz, já planejando oferecer aulas de etiqueta à mesa para os seus pupilos.


PLANTIO de mogno africano consorciado com café arábica ocupa uma área de seis hectares

No berço do ouro verde Do outro lado da ponte, em Pirapora, as águas do Velho Chico sustentam a maior floresta de mogno africano (Khaya ivorensis) do Brasil em hectares plantados: 500. O berço onde cresce o chamado “ouro verde”, em razão da alta rentabilidade estimada na colheita dessa madeira nobre, é a Fazenda Atlântica Agro. Pioneira na clonagem de mudas em parceria com universidades, a propriedade também tem mogno plantado em consórcio com café arábica numa área de seis hectares. Outros 288 hectares são exclusivamente dedicados ao café, 60 deles plantados recentemente. “A colheita ocorre geralmente em abril e é 100% mecanizada. Este ano, esperamos produzir 5 mil sacas, de 60 quilos. Em 2018, a expectativa é mais que duplicar, chegando às 12 mil sacas”, estima o gerente-geral, Fernando Miranda. Em pivôs irrigados, são pro-

duzidas três variedades de grãos: topázio, catuaí 62 e o IBC-12, também conhecido como café-uva, devido à cor mais escura e ao generoso tamanho dos frutos. Há ainda 900 hectares de pasto – com gado nelore para corte e reprodução – e outros 917 hectares protegidos sob a forma de áreas de preservação permanente e reserva legal. O Cerrado típico da região abriga vários mamíferos, como lobo-guará e raposa, além de aves. Passarinhos cantam por toda parte e uma ema passou em desabalada carreira pertinho do carro da reportagem, antes de se embrenhar na mata. GAROTA PROPAGANDA A cada dois anos, a Atlântica Agro sedia o Seminário de Mogno Africano – evento que está em sua terceira edição, promovido pela Associação Brasileira dos Plantadores de Mogno Africano (ABP-

FIQUE POR DENTRO

OBRA DE PORTINARI As oficinas do "Realizando Sonhos" têm uma temática diferente a cada semestre. Em 2015, por exemplo, os participantes conheceram a vida e a obra do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962). Depois de produzir pinturas e bordados inspirados nas criações do artista, visitaram Belo Horizonte, onde viram de perto os paineis de sua autoria, na Igrejinha da Pampulha, conheceram os museus do Circuito Cultural da Praça da Liberdade e apresentaram um espetáculo de Natal, durante a confraternização dos funcionários da sede do Grupo Montesanto, no Bairro Estoril. SINFÔNICA JOVEM O Instituto Café Solidário também apoia entidades assistenciais e patrocina projetos culturais. Em Santa Luzia, na Grande BH, custeia mensalmente alimentos e fraldas geriátricas para 26 idosos atendidos pelo Asilo Renascer. Já a Banda Sinfônica Jovem de Pirapora recebeu R$ 100 mil este ano para manter a formação musical de 130 crianças e jovens de baixa renda. “Se não fosse a doação do Instituto, já teríamos fechado as portas. O mais importante é formar pessoas de bem. E, se possível, também bons músicos”, afirma o presidente e fundador, Ansfrido André de Oliveira. À frente da banda, que toca do clássico ao pop, está o maestro Alex Domingos. Ele é um dos criadores da Vesperata de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, atração de fama internacional. “Aqui, criamos a Sinfonia do Velho Chico, quando nos apresentamos no lendário vapor Benjamim Guimarães, ancorado no São Francisco”, conta Alex, ao lado esposa, Bernadete, que cuida da iniciação musical das crianças. SAIBA MAIS: www.institutocafesolidario.org.br www.atlanticaagropecuaria.com.br Que tal ouvir Sinfônica Jovem de Pirapora agora? www.facebook.com/ bandasinfonicajovemdepirapora

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ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O63


MA). Criada em 2011, a entidade tem como meta fazer do Brasil o maior produtor de florestas plantadas da espécie no mundo. Hoje, o país tem cerca de 10 mil hectares, a maioria com idade entre um e sete anos. A primeira colheita, portanto, deve ocorrer daqui a cinco/sete anos. “Por causa do clima quente e de poucas chuvas, optou-se pelo plantio irrigado, que tem se mostrado uma decisão acertada, diante do ótimo desenvolvimento do nosso mogno. São 276 árvores por hectare, com espaçamento 6x6 metros, adubação balanceada e orientação do crescimento para que tenhamos um produto final de alta qualidade”, detalha Miranda. Os plantios começaram em 2009 e a produtividade esperada é de 320 m³ de madeira serrada com 15 anos de idade. Outro cartão de visita são os 12 hectares de campos experimentais que, após várias pesquisas e plantios, permitem comparar o desenvolvimento do mogno ao de outras espécies, como o cedro

FOTO: GUARDA CHUVA PRODUÇÕES

1 AGRONEGÓCIO

CASA SEDE da Fazenda Atlântica Agro: mesa com raiz de mogno africano é um dos destaques da decoração

australiano, a teca e o eucalipto. Já a casa-sede é uma espécie de “garota propaganda” do mogno africano, presente em móveis, objetos decorativos, divisórias, tetos e no piso do deck, próximo à pis-

cina. A madeira usada na confecção de todas as peças veio de uma floresta certificada no Pará. O (*) A repórter viajou a convite do Instituto Café Solidário.


GARY WHITE e MATT DAMON, co-fundadores da Water.org, e o cálice no destaque: estimulando o respeito à água e uma melhor qualidade de vida para todos

UM CÁLICE, CINCO ANOS Stella Artois lança campanha para ajudar a promover o acesso à água potável no Brasil em parceria com a Water.org, ONG co-fundada pelo ator Matt Damon

A

marca de cervejas Stella Artois e a ONG Water. estabelecemos com a Water.org”, ressalta Paula Lindenorg, co-fundada pelo ator norte-americano Matt berg, vice-presidente de marketing da Ambev. Damon e por Gary White lançaram um convite Para contribuir com a ação, Stella lança três cálices sustentável aos seus consumidores: fazerem parte da exclusivos e de edição limitada que terão as vendas ingeração que está contribuindo para mudar tegralmente revertidas à Water.org. Com o cenário da escassez de água potável. Tratao mote #1Cálice5anos, a iniciativa ga-se da campanha global “Buy a Lady a Drink” rante que, a cada item vendido no país, (“Pague um Drink a uma Mulher”), que já cinco anos de água serão fornecidos a beneficiou 14 países e chegou ao Brasil no comunidades mapeadas pela ONG, com mês em que se comemorou o Dia Mundial implementação prevista para o segundo da Água com o objetivo de impactar e engasemestre de 2017. jar os brasileiros sobre a questão. Os cálices, inspirados na arte local do “Sempre repetimos que o nosso sonho é Brasil, Camboja e Uganda, apresentam unir as pessoas por um mundo melhor. Em arte exclusiva de artistas de cada região direção a isso, assumimos um compromisbeneficiada. No Brasil, a cerveja conviso genuíno com mulheres e famílias brasidou Fernando Chamarelli, artista autodiPAULA LIDENBERG: leiras que não têm acesso à água potável. E data, que mescla estilos e inspirações que “Assumimos um para alcançar esse sonho de construir um resultam em grandes obras surrealistas. compromisso com mundo melhor, nós trabalhamos em atiDesde o lançamento da campanha famílias que não têm tudes proativas com parcerias como a que acesso à água potável” “Buy a Lady a Drink”, há dois anos, Stel66 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

FOTOS: DIVULGAÇÃO

1 EMPRESA E AMBIENTE


la Artois ajudou mais de 800 mil pessoas a terem acesso a água tratada. Uma delas é a Elizabeth, uma jovem mãe costureira de North Kapuonja, do Quênia. Por meio do programa comunitário capitaneado pela Water. org, o acesso à água limpa possibilitou a jovem a deixar de caminhar até seis horas por dia para coletar água para sua família. Em todo o mundo, as mulheres gastam um total de 200 milhões de horas coletando água diariamente. O apoio de Stella Artois contribui para o aumento da qualidade de vida dessas mulheres, permitindo-as a dedicarem o seu tempo aos seus sonhos, como o de Elizabeth, que voltou a costurar. “Eu tenho quatro filhas e é muito difícil imaginar elas terem que andar muitas horas todos os dias para pegar água, assim como milhares de mulheres fazem diariamente”, afirma Matt Damon, co-fundador da Water.Org. “Precisamos colocar um ponto final neste caminho. Com a parceria com Stella Artois, estamos convidando consumidores ao redor do mundo a nos ajudar com isso”, completa. Dados da Water.org indicam que a cada 90 segundos uma criança perde a vida devido a uma doença relacionada à agua. Para ajudar a reverter este cenário, até 2020, Stella Artois tem como objetivo fornecer, em parceria com a ONG, água limpa a 3,5 milhões de pessoas. “A água é essencial para a nossa vida. E também parte fundamental do nosso legado de 600 anos de história e da Stella Artois que produzimos hoje. É um recurso compartilhado que, acreditamos, precisa ser conservado e, principalmente, acessível a todos. Queremos convidar nossos consumidores a fazer parte dessa geração que marcará essa mudança e a deixarem o seu legado no mundo”, destaca Daniel Feitoza, gerente de marketing de Stella Artois. Para sensibilizar ainda mais pessoas a contribuírem para a causa, a marca lançou uma campanha digital na qual Matt Damon apresenta a história de Elizabeth (acesse o link goo.gl/slLqRP). O projeto conta ainda com a veiculação de uma campanha global estrelada pelo ator, com filme para TV e mídias digitais. O SAIBA MAIS

FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

Os cálices poderão ser comprados em www.1calice5anos.com.br por R$ 19,90. www.stellaartois.com.br / water.org

O TEMPO que Elizabeth gastava para ir pegar água agora ela usa para trabalhar com costura

O Siissteem ma Feecom omércio MG, Sesc e Seen nac eesstá presente em em todo o est s ado de Min naas Geeraaiis G is com m o objetivo de fortal taleceerr o ta com o ércio de ben ns, serrviçoss e turris ismo.. A Entidade atua de forma integrada para oferecer u um ma rede red re dee exclu xcclu usi siva iva va de p prrot oteç eçção ão e serv seervviçço oss, be bene bene nefic efic fi iiaand ndo eem mpr pres esár á io ios, os t ab tr ballha had do orrees, es, s, sua uas fa famí famí míli lias aass e com omun uniuni dade da ade des. s. São ão aççõ õeess qu uee vis isam sam m for orta tale ta leceer a eco ec on nom omia ia e levvaarr cul ulttura tu uraa, saaúd de,, lazzeerr e capa p ci pa c taaçãão p prrofi fiss fi sssiona nal a nal miilh m lhar a ess de pe pesssoaas. s. Ass ssim m, o Siist stem eem ma F Feeco com méérc érc rcio cio o MG, G, S sscc e Sen Se enac trraaba balh balh ha co om vo você ocêê paarra co onsstr trui ru r u um m futu fu tu uro o mellh ho or pa paraa to odo dos. s.

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INFORME PUBLICITĂ RIO

FACILIDADE: processo de cadastramento de proprietĂĄrios interessados em proteger nascentes ĂŠ desburocratizado

MAIOR OFERTA DE Ă GUA

NO SUL DE MINAS A participação ativa de cidadãos, ao permitir açþes de recuperação de olhos d’ågua em suas propriedades, contribui para o projeto atingir um de seus principais objetivos: a restauração de 40 mil nascentes em todo o Estado

O

“Projeto Plantando o Futuroâ€?, em parceria com a ONG Grupo Dispersores, iniciou em fevereiro a recuperação de 200 nascentes e a restauração de 157 hectares de Mata Atlântica no Sul de Minas. A introdução inicial de 6.500 mudas na natureza e a proteção de dez nascentes, em nove municĂ­pios da regiĂŁo, foi executada com apoio de proprietĂĄrios rurais, das prefeituras e do poder pĂşblico estadual. 2 FRQYrQLR Ă€UPDGR HP RXWXbro de 2016 entre a Companhia de

68 OECOLĂ“GICO | ABRIL DE 2017

Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), coordenadora do “Plantando o Futuroâ€?, e o Grupo Dispersores, se estende atĂŠ dezembro de 2018. Batizada de “Projeto de Olho nos Olhos – Proteção e Recuperação de Nascentesâ€?, a iniciativa tem como diretrizes a ampla mobilização social e o auxĂ­lio tĂŠcnico para os cidadĂŁos interessados em aderir ao processo de reconstituição ambiental. As atividades de cercamento de dez nascentes e plantio das mudas nos bairros SertĂŁozinho (distrito de Luminosa, BrazĂłpolis), Cochos (Pa-

raisópolis), Serra dos Toledos (Itajubå), Boa Vista (Piranguçu), Dos Pintos (Wenceslau Braz), Rio ClaUR 'HOÀP 0RUHLUD  0XQGR 1RYR (Gonçalves), Belo Ramo (Pedralva) e Balaio (Santa Rita do Sapucaí) foram realizadas após os proprietårios fornecerem informaçþes båVLFDVSRUPHLRGHXPDÀFKDGHFDdastro distribuída nas comunidades e instituiçþes parceiras. No cadastro, foram descritos dados como o tamanho de cada proSULHGDGHDVFRRUGHQDGDVJHRJUiÀcas, disponibilidade mínima de årea


PARA RECUPERAR uma nascente Ê preciso restaurar a mata ciliar no entorno do olho d’ågua. A nascente Ê cercada com mourþes e arame farpado, o que impede o pisoteio animal e a consequente compactação do solo. O

AO LONGO DO TEMPO, a nascente reorestada e protegida provoca o aumento da vazão de ågua. Com o crescimento da capacidade hídrica no local, o curso d’ågua abastece os auentes que desåguam nos rios principais. O

LOCAIS DE ATUAĂ‡ĂƒO do “Projeto de Olho nos Olhosâ€? deďŹ nidos no convĂŞnio ďŹ rmado entre o Grupo Dispersores e a Codemig: Ă rea de Proteção Ambiental (APA) FernĂŁo Dias, localizada na Serra da Mantiqueira, o Alto da Bacia do Rio SapucaĂ­ e as Bacias dos Rios Grande, Jaguari e Piracicaba. O

micida e adubo de arranque, tipo de composto que acelera o crescimento inicial da planta, aumentando suas chances de sobrevivência nos períodos iniciais de desenvolvimento. A mão de obra para execução

FOTOS: GRUPO DISPERSORES

EDUCAĂ‡ĂƒO AMBIENTAL De acordo com o Grupo Dispersores, o plano de trabalho prevĂŞ a recuperação e a proteção de mais 95 nascentes atĂŠ dezembro deste ano H GH RXWUDV  DWp R Ă€P GH  Atualmente, 78 proprietĂĄrios jĂĄ estĂŁo cadastrados. Ao serem selecionados, eles recebem moirĂľes, arame farpado, grampos e esticadores, alĂŠm de insumos, como mudas nativas, for-

FIQUE POR DENTRO FOTO: IMAGEM ILUSTRATIVA

para inclusĂŁo no projeto, estado de degradação e tambĂŠm informaçþes para contato. AlĂŠm das famĂ­OLDVEHQHĂ€FLDGDVDSULPHLUDIDVHGH execução do “Projeto de Olho nos Olhosâ€? contou com o envolvimento de 80 pessoas. TambĂŠm participaram dessa fase a equipe gestora do Grupo Dispersores, por meio da empresa contratada por eles para executar trabalhos de campo, a Emater, as secretarias de Meio Ambiente, os ComitĂŞs de Bacia HidrogrĂĄfica dos Rios Grande e SapucaĂ­ e colaboradores do “Programa Cultivando Ă gua Boa (CAB)â€?. O CAB ĂŠ uma iniciativa implementada no Estado em 2015, a partir da assinatura de um termo de cooperação entre o Governo de Minas Gerais e a Itaipu Binacional.

das atividades tambÊm Ê subsidiada, bem como o monitoramento dos plantios e os cercamentos das nascentes. Parte das mudas nativas p SURGX]LGD SHOR YLYHLUR à RUHVWDO da própria ONG, em Brazópolis, que tem capacidade para produzir 50 mil mudas por ano. Das quase 7 mil mudas jå plantadas, 2.500 são de produção da entidade. O Grupo Dispersores segue fazendo o cadastramento de novas åreas e as vistorias tÊcnicas. TambÊm serå realizada, no período mais seco que se aproxima, a proteção de novas åreas e o preparo do terreno para plantios na próxima estação chuvosa. A entidade, como determina o convênio assinado com a Codemig, tambÊm vai promover açþes de divulgação do projeto e de educação ambiental. SAIBA MAIS

A DEMARCAĂ‡ĂƒO das nascentes evita a entrada de animais e o pisoteio da ĂĄrea, que acarretaria a compactação do solo e diďŹ cultaria a regeneração da mata

www.codemig.com.br www.plantandoofuturo.mg.gov.br

2 ABRIL DE 2017 | ECOLĂ“GICO O69


FOTO: IMAGEM ILUSTRATIVA

INFORME PUBLICITÁRIO

Avanços no

licenciamento ambiental Visando atuar de forma integrada, transversal e participativa, o Governo de Minas Gerais promoveu importantes alterações na legislação ambiental do Estado, por meio da publicação do Decreto Estadual 47.137/2017, da Deliberação Normativa 213/2017, do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), bem como da Lei Estadual 21.972/2016. O objetivo das mudanças é desburocratizar e racionalizar a análise dos processos de licenciamento. Uma das principais inovações é a possibilidade do licenciamento concomitante, permitindo que duas ou três fases do processo (licença prévia, licença de instalação e licença de operação) sejam analisadas simultaneamente, quando as características técnicas assim o permitirem. Dessa forma, será possível ace-

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lerar o andamento dos trâmites de licenciamento sem perda de qualidade técnica nas análises. Além disso, os prazos das licenças passam a ser os mesmos regulamentados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). De acordo com a coordenadora do Núcleo Jurídico da Gerência de Meio Ambiente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Paula Meireles Aguiar, as recentes alterações na legislação contribuem de IRUPDVLJQLÀFDWLYDSDUDDPHOKRULDQD gestão dos processos de regularização ambiental em todo o Estado. “A retomada do funcionamento das Câmaras Técnicas Especializadas – compostas por um número UHGX]LGR GH SURÀVVLRQDLV H HQWLGDdes com maior familiaridade com a matéria – tem permitido discussões

de natureza técnica, contribuindo para a melhoria do desempenho ambiental das atividades.” De igual forma, salienta a advogada, a previsão de modalidades de licenciamentos de maior ou menor complexidade (modelo trifásico, concomitante ou VLPSOLÀFDGR  SHUPLWLUi XPD PHOKRU DGHTXDomR jV TXHVW}HV HVSHFtÀFDV de cada empreendimento ou tipologia de atividade. “Todavia, é preciso ressaltar que a LQVXÀFLrQFLDGHWpFQLFRVSDUDDQiOLVH dos processos autorizativos, tanto nas Superintendências Regionais de Meio Ambiente (Suprams) quanto no Instituto Estadual de Florestas (IEF) e no Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), permanece como o grande obstáculo para uma PDLRUHÀFiFLDQRIXQFLRQDPHQWRGR Sistema Estadual de Meio Ambiente


FIQUE POR

DENTRO

O Em 2016, a Semad recebeu

8.454 requerimentos de autos autorizativos, entre licenças ambientais e solicitaçþes de Autorização Ambiental de Funcionamento (AAF), modelo de autorização para empreendimentos menores, com pequeno potencial poluidor e que não necessita passar pela aprovação do Copam, sendo deferido pelos próprios tÊcnicos da Secretaria. O A Semad tem cerca de 200

servidores em seu corpo tĂŠcnico e jurĂ­dico para a anĂĄlise de todos os pedidos, entre os proďŹ ssionais lotados em sua sede, na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte, e nas nove Suprams, localizadas nas principais regiĂľes de Minas. OAtualmente, o Estado divide os empreendimentos em seis classes: Classe 1 (pequeno porte e pequeno ou mĂŠdio potencial poluidor); Classe 2 (mĂŠdio porte e pequeno potencial poluidor); Classe 3 (pequeno porte e grande potencial poluidor ou mĂŠdio porte e mĂŠdio potencial poluidor), Classe 4 (grande porte e pequeno potencial poluidor); Classe 5 (grande porte e mĂŠdio potencial poluidor ou mĂŠdio porte e grande potencial poluidor); Classe 6 (grande porte e grande potencial poluidor).

e Recursos HĂ­dricos (Sisema).â€? Segundo Paula Aguiar, os analistas poderiam ser realocados, em sua maioria, para a anĂĄlise de atos autorizativos, tais como licenças, outorgas e Documentos Autorizativos para Intervenção Ambiental (DAIAs), que correspondem ao passivo de processos no Estado. “TambĂŠm considero bastante oportuna a capacitação dos servidores, nĂŁo somente do ponto de vista tĂŠcnico, mas especialmente no que se refere

Ă uniformização de posicionamentos e interpretaçþes jurĂ­dicas entre os diversos ĂłrgĂŁos que compĂľem o 6LVHPD +RMH D PDLRU GLĂ€FXOGDGH p a alta rotatividade dos tĂŠcnicos (em razĂŁo dos baixos salĂĄrios) e a alteração constante de interpretação ou SRVLFLRQDPHQWRV SUHYLDPHQWH GHĂ€nidos e adotadosâ€?, pondera. PAPEL DOS MUNICĂ?PIOS Aprovada pelo Copam em fevereiro, a Deliberação Normativa 213 estabelece o conceito de impacto local e regulamenta critĂŠrios para que os municĂ­pios possam fazer o licenciaPHQWR DPELHQWDO &RP D GHĂ€QLomR das novas regras – previstas na Lei Complementar 140, publicada pelo *RYHUQR )HGHUDO HP  ² Ă€FDP delimitadas as responsabilidades de cada ente federativo no processo de concessĂŁo das licenças. Os municĂ­pios que desejarem assumir o licenciamento ambiental de alguns tipos de empreendimentos deverĂŁo respeitar uma sĂŠrie de critĂŠrios. Entre eles, que o impacto gerado se restrinja apenas ao seu territĂłrio. TambĂŠm ĂŠ necessĂĄrio que tenham legislação ambiental municipal, ĂłrgĂŁo ambiental capacitado e conselho de meio ambiente. A aprovação da DN 213 ĂŠ considerada uma vitĂłria do Governo de Minas Gerais, que muito se empenhou para que a Lei Complementar 140 IRVVH Ă€QDOPHQWH UHJXODPHQWDGD QR Estado. Assim, ganham o povo e as empresas mineiras em geral, na medida em que a difusĂŁo dos processos de licenciamento poderĂĄ conferir maior celeridade Ă s anĂĄlises, sem perda da qualidade, desafogando os balcĂľes das Suprams e permitindo aos servidores do Sisema concentrar esforços nos empreendimentos de grande porte/potencial poluidor. “O exercĂ­cio da competĂŞncia originĂĄria municipal para o licenciamento ambiental constitui uma das principais medidas para reduzir a sobrecarga de demandas junto ao Sisema. É preciso, ainda, insistir no fato de que os municĂ­pios que pre-

Os municĂ­pios que desejarem assumir o licenciamento ambiental de alguns tipos de empreendimentos deverĂŁo respeitar uma sĂŠrie de critĂŠrios. Entre eles, que o impacto gerado se restrinja apenas ao seu territĂłrio

tendem realizar o licenciamento deverão se estruturar e se capacitar adequadamente para tal função. Entendo que nem todos os 853 municípios mineiros deverão exercer essa competência, mas àqueles que R À]HUHP FDEHUi REVHUYDU DV OHLV e regulamentos vigentes e buscar trabalhar apenas com determinadas tipologias de atividades, conforme a vocação da localidade ou região�, conclui Paula Aguiar. O

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ESPAÇO LIVRE CARLOS NOBRE (*) redacao@revistaecologico.com.br

E SE OS EUA ABANDONAREM O

ACORDO DE PARIS? U

m candidato à presidência de um país nega, durante campanha eleitoral, consenso científico amplamente estabelecido em décadas de pesquisas sérias sobre fatos de grande impacto global. Após ser eleito, mantém posição ambígua e nomeia negacionistas como altos dirigentes de seu governo. Esses dão visibilidade a uma minoria de “cientistas” negacionistas e suspendem – ou atrasam – a implementação de políticas públicas de mitigação. A descrição caberia nas palavras, ações e intenções do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas refere-se, na verdade, ao que aconteceu entre 1999 e 2008 na África do Sul, durante a presidência de Thabo Mbeki. O dirigente sul-africano negou obstinadamente que o vírus HIV fosse a causa da AIDS e, com isso, atrasou em uma década o uso de antirretrovirais no sistema público de saúde do país. Alguém poderia atribuir tamanho obscurantismo científico a um baixo grau de desenvolvimento de

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um país, com diminuta capacidade de apropriação da melhor ciência para benefício da população. Ou poderia dizer que tal postura seria típica de regimes totalitários, em que a ciência deve conformar-se à ideologia. Esse teria sido o caso, por exemplo, de Trofim Lysenko, presidente da Academia de Ciências Agrícolas da União Soviética, negando a genética mendeliana e atrasando o avanço da agricultura local entre 1920 e 1964. Entretanto, um exemplo de obscurantismo científico no que toca à política e às mudanças climáticas acontece hoje nos Estados Unidos, país que é a grande potência científica mundial, cuja comunidade de pesquisadores é a que mais contribui para o avanço do conhecimento sobre o aquecimento global antropogênico e as mudanças do clima no planeta. Contraponha o cenário atual ao legado do ex-presidente americano Barack Obama. Em 2015, na construção de consensos meses antes da Conferência do


“Um exemplo de obscurantismo científico no que toca à política e às mudanças climáticas acontece hoje nos Estados Unidos. ” Clima da ONU, em Paris, os Estados Unidos firmaram caberiam retrocessos. Além disso, está suficientemenvários acordos bilaterais. Um deles com o Brasil. Em te demonstrado por fatos econômicos que as energias junho daquele ano, os presidentes dos dois países assi- renováveis têm potencial para gerar milhões de emnaram acordo de cooperação para reduzir as emissões pregos nos Estados Unidos e sua adoção em massa, de gases do efeito estufa. O documento estabelece, longe de impedir o crescimento do país, impulsionará por exemplo, as metas de 33% de energias renováveis o desenvolvimento da gigantesca economia americana matriz energética brasileira e de 20% de renováveis na. Centenas de empresas e investidores americanos na matriz elétrica – além da contribuição da hidroele- chegaram a pedir durante a campanha eleitoral que tricidade em ambas metas – até a Casa Branca não abandonasse o 2030. O acordo prevê também acordo climático, afirmando que parcerias para tornar a agricultura o fracasso dos Estados Unidos em de ambos os países mais produticonstruir uma economia de baixo va e com menos emissões. carbono ameaçaria a prosperidaSe a administração Trump der de nacional. as costas ao histórico Acordo de Mas o risco de os Estados UniParis, de 2015, as consequências dos deixarem o Acordo de Paris diplomáticas serão imensas e neexiste. Se isso acontecer – ou se o gativas para os Estados Unidos país colocar o pé no freio de sua em todas as dimensões – e numa implementação –, outros países já escala muito maior do que foram se preparam para ocupar o vácuo, as repercussões diplomáticas principalmente China e Alemadesfavoráveis quando George W. nha, projetando-se como líderes Bush retirou o país do Protocolo mundiais em tecnologias limpas. de Kyoto, em 2001, como admitiAinda que a cooperação ciendo pelo próprio ex-secretário de tífica e tecnológica com os EstaEstado Collin Powell. O ex-predos Unidos na questão climática, sidente chegou a dizer meses energética e agrícola seja de intedepois do ocorrido que um dos resse estratégico para o Brasil, temotivos para ter rejeitado Kyoto remos que seguir adiante o curso “Desde que assumiu era que o protocolo prejudicava a do protagonismo que construímos a Casa Branca, Trump em ações concretas de mitigação economia americana. Dezesseis anos mais tarde, Doescolheu negacionistas das mudanças climáticas. Não nos nald Trump volta a usar um disfaltam desafios nessa área, como o do aquecimento global de reduzir urgentemente o desmatacurso semelhante como justificativa. Mas o estilo imprevisível para desempenhar altas mento na Amazônia e no Cerrado, e do atual presidente americano em muito a presença das funções, um claro sinal aumentar não permite antever se sua adnovas energias renováveis em nossa de retrocesso no ritmo matriz energética. ministração chegará ao extremo de retirar os Estados Unidos do O obscurantismo do presidente de implementação das Acordo de Paris. Inegável é que, Mbeki custou a vida de mais de 330 medidas de redução de mil sul-africanos, que não tiveram desde que assumiu a Casa Branca, o republicano escolheu negaacesso aos antirretrovirais capazes emissões de GEEs.” cionistas do aquecimento global de lhes prolongar a vida. A irresponpara desempenhar altas funções, um claro sinal de sável cegueira do presidente Trump na questão cliretrocesso no ritmo de implementação das medidas mática poderá ter um impacto infinitamente maior e de redução de emissões necessárias para atingir as por muitas décadas ou séculos para o planeta Terra e metas preconizadas em Paris, de manter o aumento todas as espécies vivas, inclusive o Homo sapiens, se da temperatura global abaixo de 2°C. ultrapassarmos algum limite planetário sem volta. O O lado otimista da história é que o movimento mun(*) Climatologista, membro da Academia Brasileira dial de desinvestimento em termoelétricas a carvão de Ciências, membro-estrangeiro da Academia de Ciências dos Estados Unidos e senior fellow do WRI BrasilSite. pode ser mesmo um caminho sem volta – e, então, não

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Foto: © Russell A. MITTERMEIER / WWF-Canon 2PLQXWRGDOLJDomRDSDUWLUGHWHOHIRQH¿[RpGH5LPSRVWRVHDSDUWLUGHFHOXODUpGH5LPSRVWRV

1yVSUHFLVDPRV GHVXDDMXGD Nossas grandes riquezas naturais, a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica são destruídas a cada dia. E para frear esta situação, precisamos do seu apoio. O WWF-Brasil é uma organização brasileira que, com a sua ajuda, desenvolve projetos de conservação da natureza e uso sustentável dos recursos naturais. Contribuindo para o WWF-Brasil, você colabora diretamente com ações para construir uma vida melhor para as gerações de hoje e do futuro.

)DoDDGLIHUHQoD$¿OLHVHDR::)%UDVLO Conserve o seu planeta. Ainda dá tempo.

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FOTO: SHUTTERSTOCK

Nยบ 45


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - GÊISERES Formação de gêiseres requer condições geológicas e geotérmicas especiais. Em todo o mundo, estima-se que existam cerca de mil. O Parque das Águas de Caxambu, no Sul de Minas, abriga um deles Luciana Morais redacao@revistaecologico.com.br

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FOTO: VANESSA JULIDORI

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enômenos raros e existentes em apenas algumas regiões da Terra, os gêiseres costumam protagonizar belos espetáculos naturais, graças às suas fontes jorrantes que lançam misturas de água, vapor e gases a dezenas de metros de altura, atraindo turistas e aguçando a curiosidade de muita gente mundo afora. Conceitualmente, um gêiser é uma nascente termal que entra em erupção quase periodicamente, lançando uma coluna de água quente e vapor acima da superfície terrestre. Sua formação requer condições geológicas e geotérmicas especiais. Estima-se que existam cerca de mil gêiseres em todo o mundo. Praticamente metade deles fica no Parque Nacional de Yellowstone, que se estende pelos estados de Wyoming, Montana e Idaho, nos Estados Unidos. A Península de Kamchatka, na Rússia, tem quase 200 gêiseres, enquanto na América do Sul a região geotermal mais famosa é a de Atacama, no Chile, onde apenas o Vale de El Tatio abriga cerca de 80 nascentes termais. Já a ilha Norte da Nova Zelândia e a região de Hveravellir, na Islândia, têm cerca de 15 gêiseres cada uma. Para a formação de um gêiser é preciso haver uma camada superior que permita o movimento de águas subterrâneas, ou seja, um aquífero conectado via fraturas quase verticais a um substrato de rochas quentes (aquecidas pelo magma). As águas que penetram

BATIZADO de Fonte Floriano de Lemos, o gêiser de Caxambu, no Sul de Minas, está localizado no Parque das Águas

pelo conjunto vertical de fraturas sofrem superaquecimento e há formação de vapor, que fica confinado nas suas partes inferiores. A atividade ou erupção de um gêiser ocorre quando a pressão de vapor confinado torna-se maior que a pressão da coluna d’água nas partes superiores das fraturas e, consequentemente, leva à expulsão de águas misturadas com vapor. Logo após essa expulsão, a pressão nas fraturas diminui, permitindo a entrada de águas frias e o novo confinamento de vapor proveniente dos substratos. O processo, então, se repete. PONTUALIDADE IMPRESSIONANTE Obviamente, o período de erupção de um gêiser depende princi-

palmente de dois fatores: da altura da coluna de água nas fraturas e da taxa de aquecimento no seu interior. Em alguns casos, isso acontece com grau de pontualidade impressionante. O famoso Old Faithful, no Parque Yellowstone, por exemplo, lança jatos com 30 a 50 mil litros de água, que ultrapassam 50 metros de altura. As erupções ocorrem em intervalos que variam de 33 minutos a uma hora e meia e duram, em média, de dois a cinco minutos. Na região de Rotorua, na Nova Zelândia, uma das principais atrações é o gêiser Pohutu. Ele entra em atividade cerca de 20 vezes por dia e lança colunas d´água a até 30 metros de altura. Suas erupções podem durar alguns minutos ou


A PALAVRA 'gêiser' tem origem islandesa e significa “fonte jorrante”

persistir por dias. A maior registrada até hoje durou mais de 250 dias, entre 2000 e 2001. De forma geral, os gêiseres geotermais ocorrem em áreas de atividades vulcânicas. Contudo, segundo especialistas, é importante notar que a sua atividade também pode ser desencadeada pelos escapes de gases naturais, como o dióxido de carbono ou o metano. CAXAMBU É ATRAÇÃO O Brasil se encontra numa região geológica praticamente isenta de atividades vulcânicas recentes. Contudo, em Minas Gerais, estado conhecido como “caixa d’água do Brasil”, há um gêiser. Batizado de Fonte Floriano de Lemos, está localizado no Parque das Águas de Caxambu, no Sul de Minas, região famosa por seu “Circuito das Águas”, onde ocorre um número significativo de fontes termais e minerais em cidades como São Lourenço, Cambuquira e Lambari. O gêiser de Caxambu, que figura entre os principais atrativos turísticos da região, jorra água mineral

sulfurosa em intervalos variáveis, junto com gás natural, ambos provenientes do interior da Terra. Por esse motivo, é considerado como pertencente a uma classe especial de gêiseres. A pressão do gás é alta e o gêiser se manifesta pelo menos três vezes ao dia, formando uma coluna de água com temperatura média de 27ºC e alcance de até oito metros de altura. As águas desse gêiser são distribuídas através de uma construção cônica, que faz lembrar um grande cogumelo. Seus banhos medicinais são indicados para tratar infecções na pele, reumatismo e artrite. Há, ainda, outras manifestações geotermais em Caldas Novas (GO), em Caldas de Jorro (SC), em Jaú (TO) e em General Carneiro (MT). Nesses locais, ocorrem aborbulhamentos de águas termais misturadas com emanações de gases. Nos leitos dessas fontes termais, é fácil observar manifestações semelhantes a minigêiseres. A palavra gêiser tem origem islandesa e significa “fonte jorran-

te”. Segundo registros, no Oeste da Islândia ela teria sido usada pela primeira vez, com o sentido atual, em 1294 para descrever um estranho buraco que ‘cuspia’ fortes jatos de água quente e vapor de dentro da Terra. Desde então, o uso desse termo tornou-se universal. Recentemente, a agência espacial norte-americana (Nasa) encontrou evidências da presença de atividades semelhantes à de gêiseres em Europa, uma das 67 luas do planeta Júpiter. As imagens, que indicam gêiseres ejetando vapor de água, foram captadas pelo telescópio espacial Hubble. Com essa descoberta, tornou-se possível monitorar as atividades termais de satélites que atravessam várias camadas de gelo. Segundo alguns pesquisadores planetólogos, a Europa poderia ser considerada lugar com maior probabilidade de abrigar vida sustentada por gêiseres em nosso Sistema Solar.

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ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O77


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - GÊISERES

Como funcionam 5

Vapor de água

Água do degelo Água quente expelida

1 4 Vapor e água quente

Água infiltrada

Depósitos de água

3 2

Água aquecida

Lençol

Rochas aquecidas pelo magma Magma

Crédito: Andressa Boligian. Revista Jimbozine. Disponível em: www.jimbozine.com.br. Acessado em: 16.03.17

A figura acima indica os seguintes processos associados à ocorrência de gêiseres:

3. Com o calor, a água é aquecida continuamente e atinge temperaturas acima do ponto de ebulição.

1. A água (do degelo ou das chuvas) infiltra-se no subsolo e alimenta o lençol de água.

4. Em determinado momento, ao expandir seu volume, a mistura de água e vapor d’água sobe pelas fissuras das rochas até a superfície. Ocorre, então, a erupção do gêiser.

2. As águas do lençol, por sua vez, são aquecidas pelas rochas (porosas e muito quentes) que se localizam muito próximas ao magma.

5. Logo após a erupção, inicia-se nova infiltração de água fria pelas fraturas, que é aquecida e alimenta a repetição do ciclo.

OAs camadas de subsolo em regiões vulcânicas têm o primeiro ingrediente necessário para a ocorrência de um gêiser: camadas de magma incandescente. Situadas a poucos quilômetros da superfície, essas camadas funcionam como uma chama de fogão, aquecendo a água da chuva ou de neve derretida que penetra no subsolo. OEm reservatórios nas rochas semipermeáveis, o líquido atinge temperaturas superiores a 200ºC. À medida que esquenta, este ganha pressão, aumenta de volume e empurra a coluna d’água para cima. É o mesmo processo que ocorre nas estâncias termais, mas com uma diferença importante: nos gêiseres, as rachaduras que levam a água à superfície são muito mais largas. OAssim, quando a pressão é forte o suficiente para expulsar a mistura de líquido e vapor dos reservatórios, o jato d´água sai de uma vez só, na forma de uma erupção. Horas depois de se esvaziarem com esses jatos escaldantes, os depósitos 78 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

subterrâneos voltam a se encher de água fria e o show se repete. OAlém de raros, os gêiseres também são frágeis. Fenômenos geológicos corriqueiros, como tremores de baixa intensidade, podem pôr fim aos jorros d’água. Foi o que ocorreu com a lendária fonte de Waimangu, na Nova Zelândia. Nascido de uma erupção vulcânica em 1888, esse gêiser chegou a disparar jorros de 480 metros – altura superior à das Torres Petronas, na Malásia, que são os prédios mais altos do mundo, com 452 metros. No entanto, em 1904, um deslizamento de terra alterou o fluxo da água subterrânea e acabou com o espetáculo. OOs intervalos entre as erupções dependem de uma série de variáveis, tais como: fluxo de calor, quantidade e velocidade das correntes de água subterrâneas, bem como a natureza do conduíte principal do gêiser e as conexões (semelhantes a encanamentos) existentes debaixo da terra.


FOTO: ARQUIVO PESSOAL

TRÊS PERGUNTAS PARA...

VALIYA MANNATHAL HAMZA GEOFÍSICO E PESQUISADOR EMÉRITO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL (RJ)

RECURSOS GEOTERMAIS As águas de nascentes termais são usadas para terapias corporais e tratamentos de beleza. É correto afirmar que elas são naturalmente terapêuticas? Há indícios de que banhos em águas de gêiseres podem contribuir para melhorias na pele, além de garantir sensação de bem-estar. Acredita-se que isso ocorra em consequência da ação de características químicas das águas sobre a pele. Obviamente, banhos diretos são possíveis somente em águas de gêiseres com temperaturas amenas (menor que 38ºC) ou de gás. Quais sãos os principais elementos e/ou minerais contidos nas águas termais? As composições químicas das águas termominerais apresentam variabilidade, sendo geralmente classificadas em classes aniônicos e catiônicos. No primeiro grupo ocorrem íons de bicarbonato, cloreto e sulfato. Pode ocorrer também, em quantidades menores, fluoreto, sulfato e sulfureto. No grupo de catiônicos as principais são: sódio, potássio, cálcio e magnésio. Além de boro, carbonato, fluoreto, ferro e nitrato, em menores quantidades. Com isso, as águas termais hidratam e revitalizam a pele, auxiliando na reposição

Nós apoiamos essa ideia!

de minerais perdidos pelo organismo. A energia geotérmica, proveniente das camadas internas da Terra, é renovável, abundante e apontada como alternativa para conter o aquecimento global. O Brasil tem ações voltadas para seu uso, como aquecer a água de edifícios e sistemas de calefação. Que perspectivas o senhor vislumbra para o país nos próximos anos? O território brasileiro se encontra situado numa região isenta de atividades magmáticas recentes. Os recursos geotermais identificados, em profundidades rasas (menores de 1.000 m), são do tipo baixa entalpia, ou seja, de conteúdo calorífico baixo. A melhor forma de aproveitamento desses recursos seria através do uso de bombas térmicas, para fins de aquecimento ambiental ou em processos agroindustriais. Recentemente, estudos realizados pelo Laboratório de Geotermia do Observatório Nacional indicaram a existência de recursos geotermais de alta entalpia em profundidades maiores que cinco quilômetros, em diversos locais no país. O aproveitamento desses recursos poderia ser, sem dúvida, uma das formas de conter os efeitos nocivos da queima de combustíveis fósseis, como o carvão e o petróleo. O

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1 VOCÊ SABIA?

CORVOS SÃO SÍMBOLOS

DE INTELIGÊNCIA Cristiane Mendonça redacao@revistaecologico.com.br

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squeça a ideia de que os corvos, assim como é mostrado nos filmes de terror e suspense, simbolizam o mau agouro ou provocam medo nas pessoas. Eles são considerados aves com capacidade cognitiva, podendo, inclusive, se relacionar muito bem com seres humanos. Confira, a seguir, algumas curiosidades!

COMO SÃO Os corvos pertencem à família Corvidae e habitam as chamadas zonas temperadas dos continentes. Vivem em bandos com uma estrutura hierárquica bem definida, formando, geralmente, casais monogâmicos. Sua alimentação é onívora, ou seja, inclui pequenos invertebrados, sementes e frutos. Alguns se alimentam de carne putrefata, como os urubus.

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CAPACIDADE Segundo o professor da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha, Onur Güntürkün, “os pássaros são tão capazes quantos nós, seres humanos”. Embora não possuam neocórtex – um tipo de capa do cérebro que possui grandes quantidades de neurônios que comandam funções complexas –, algumas espécies possuem capacidades cognitivas comparáveis à dos mamíferos. Entre elas, o pesquisador destaca, as gralhas e... os corvos!


FOTO: REPRODUÇÃO

AMIZADE Em 2015 a amizade entre Gabi Mann, uma menininha americana que vive em Seattle, e alguns corvos ganhou destaque no site da BBC. Ela conta que aos poucos criou o hábito de alimentar as aves que viviam próximas à sua casa. E, conforme fortaleciam a “amizade”, os corvos começaram a trazer para ela pequenos “presentes”. Botões,, clipes p de papel, brincos, s, entre outros objetos, que agora fazem m parte da coleção dos itens que Gabi bi guarda com carinho.

A CIÊNCIA NCIA EXPLICA! Mas, se você está pensando que essa situação é apenass a visão romântica de uma garotinha, se enganou! anou! Segundo o professor de Ciências da Vida a Selvagem, da Universidade de Washington (EUA), UA), John Marzluff, formar um vínculo com um corvo não é uma tarefa difícil. Basta ser constante nas recompensas que você oferece a eles. Marzluff, e o colega Mark Miller, fizeram m um estudo sobre corvos e pessoas. Os cientistas stas constataram que seres humanos e essass aves “podem ter um essoal, já que entendem relacionamento pessoal, ns dos outros”. os sinais uns

FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

YOUTUBE O canal de vídeo mais famoso da internet tá recheado h d d d õ audiovisuais di i i está de produções que mostram corvos nas situações mais inusitadas. Em um deles, a ave joga nozes em uma via com intenso trânsito, para que os carros quebrem a casca dura, e assim, eles possam comer a polpa. Em outro, o alimento do corvo é guardado em uma caixa transparente, e a ave consegue utilizar três ferramentas em sucessão para retirar a comida. Uma linha de raciocínio incomum para outras espécies de pássaros!

FONTES: Revista Fapesp e BBC.

ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O81


1 ENSAIO FOTOGRÁFICO ESCOLA GUINARD

IDEIAS DE AÇO Expedição no MM Gerdau, na Praça da Liberdade, em BH, celebra as quatro décadas de carreira do arquiteto Gustavo Penna

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m comemoração ao Dia Nacional do Aço, o MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal recebeu, no início deste mês, a exposição “Ideais de Aço”, do premiado arquiteto Gustavo Penna. A mostra gratuita, que conta com o apoio da Gerdau, celebra os 40 anos de carreira do arquiteto e reunirá 13 maquetes de projetos, além das imagens e informações completas do conceito arquitetônico de cada obra. O conteúdo poderá ser acessado por meio de um sistema de QR Code. 82 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017

As obras representam os projetos emblemáticos da carreira do arquiteto belo-horizontino e mostram a versatilidade do aço como elemento arquitetônico. Seja no uso estrutural aparente, como na Escola Guignard, seja como o cubo que eleva o pé direito da sala central, na Casa Lincoln. A exposição ficará em cartaz até 07 de maio. SAIBA MAIS www.mmgerdau.org.br www.gustavopenna.com.br


FOTOS: JOMAR BRAGANÇA

FUNDAÇÃO ZERENNER

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ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O83 MARÇO DE 2017 | ECOLÓGICO OXX


1 ENSAIO FOTOGRÁFICO FOTOS: IMAGENS CASA DIGITAL

MUSEU REGINA MUNDI

FOTO: IMAGENS CASA DIGITAL

PARQUE MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE

XX OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017


FOTO: JOMAR BRAGANÇA FOTO: JOMAR BRAGANÇA

QUEM É ELE

CASA LINCOLN

Gustavo Penna é formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde lecionou por três décadas. É arquiteto e fundador do escritório GPA&A. Conquistou prêmios internacionais, como o "World Architecture Festival (WAF)" e o "Architizer A+Awards". É membro do Conselho Curador da Fundação Oscar Niemeyer e da Fundação Dom Cabral. Sóciofundador da Academia de Escolas de Arquitetura e Urbanismo de Língua Portuguesa (AEAULP). Ele também é autor de projetos como o Expominas (Centro de Feiras e Exposições de Minas Gerais), o Monumento à Liberdade de Imprensa e o novo edifíciosede do Ministério Público do Trabalho (ambos em Brasília), o Memorial da Imigração Japonesa, na Pampulha, os Museu de Congonhas (Patrimônio Cultural da Humanidade), Santana e Regina Mundi, o novo Estádio do Mineirão, a Escola Guignard (considerada uma das 30 obras mais relevantes da arquitetura no Brasil). Com 04 livros publicados, seus trabalhos já foram expostos no Brasil e no exterior, pelos principais sites, revistas e livros de arquitetura e design do mundo. ABRIL DE 2017 | ECOLÓGICO O85


MEMÓRIA ILUMINADA

FOTO: DIVULGAÇÃO

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86 OECOLÓGICO | ABRIL DE 2017


HUMOR VERISSIMO Conheça um pouco da história de Luis Fernando Verissimo, o escritor gaúcho famoso por seus contos e crônicas bem humoradas

Cristiane Mendonça redacao@revistaecologico.com.br

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ui apaixonada por ele durante um bom conhecido nacionalmente. Autor de dezenas de livros, entre eles, “Cométempo. Afinal, sempre gostei de homens bem humorados e o escritor gaúcho Luis dias para se ler na escola”, “Para gostar de ler”, Fernando Verissimo é um expert no assun- “As mentiras que os homens contam”, “Sexo to! No entanto, como toda paixão, a minha na cabeça”, “Todas as histórias do analista de também se transformou um dia. E hoje está Bagé”, e criador de quadros para o programa “Planeta dos Homens”, da guardada na estante das TV Globo, na década de minhas boas memórias. “O centavo a mais 1970, ele também é a menMas vez ou outra retorno é a perdição dos nossos te por trás de crônicas que às palavras de Verissimo corruptos. É a tentação inspiraram séries de TV, para matar a saudade. como “A comédia da vida Foi assim que me torirresistível. O centavo a privada”, nos anos 1990, nei leitora assídua desse mais é uma metáfora para também na Globo, e “Amor escritor nascido em Porto Alegre, no dia 26 de seo excesso, para não saber Verissimo”, mais recentemente, no canal GNT. tembro de 1936, e filho de quando parar.” Com 80 anos de idade, outro grande mestre da casado, pai de três filhos e nossa literatura: Érico VeLuis Fernando Verissimo, no texto “A Carne”, publicado no Jornal O Globo avô, Verissimo é um dos esríssimo. Apesar da fama critores mais citados na inde extremamente tímido e da aparência bonachona, Luis Fernando fez ternet, recebendo a autoria, às vezes, de textos da ironia e do humor seus traços mais marcan- que nem foram escritos por ele. No entanto, tes no mundo literário, nos cartuns e na televi- como literatura e humor são uma mistura para são brasileira. Jornalista, começou sua carrei- bons e poucos, a Revista Ecológico separou alra no Jornal Zero Hora, na capital gaúcha, no gumas frases verdadeiras para você se deliciar final de 1966. Mas foi como escritor que ficou e descontrair um pouco. Confira:

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MEMÓRIA ILUMINADA – LUIS FERNANDO VERISSIMO OTEMPOS MODERNOS

depois da masturbação e do suicídio.”

“Uso o computador como uma máquina de escrever com memória, uso bastante o Google, que fornece erudição instantânea, e não poderia mais viver sem o e-mail. Mas não frequento muito a internet. E participaria de qualquer passeata contra o telefone celular.”

OLER “De certa maneira, livro é melhor do que sexo. Você pode tomar um uísque antes, depois e durante. Livro é sempre com a luz acesa. E livro nunca está com dor de cabeça.”

OCARREIRA “Até os 30 anos, fora umas traduções do inglês, eu nunca tinha escrito nada e não tinha intenção alguma de ser escritor. Muito menos jornalista. Foi quando eu comecei a trabalhar em um jornal, com mais de 30 anos, e me deram um espaço assinado para fazer. Foi aí que eu descobri que sabia fazer aquilo.” OAMERICANOS “É bom ser americano. Você ganha em dólar, não tem nenhuma dificuldade para dizer o “th” em inglês e, o melhor de tudo, nunca precisa crescer.” OCASAMENTO “O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança.” OSELFIE “Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma,

OPOLÍTICA “A desmoralização da política e dos políticos deve preocupar a todos, porque a falência da política é a falência da democracia. A conclusão de que o que não está funcionando é a própria democracia é perigosa. O que falta é mais democracia. Mais liberdade, igualdade e fraternidade, o trio maravilha.” OLIBERDADE “Eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.” OHUMOR “Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.” OMÍDIA “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.” OAUTOCONHECIMENTO “O mundo é como um espelho que devolve a cada FOTO: GUINNESS WORLD RECORDS

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“Depois de uma certa idade é temerário fazer aniversário. Que agonia! Todo ‘parabéns’ soa, mesmo dito numa boa, como ironia.”

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“O casamento é como um número de trapézio, um precisa confiar no outro até de olhos fechados.” pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos. A maneira como você encara a vida é que faz toda diferença.” OESCREVER “Quem lembra do Pelé lembra que ele era um jogador muito objetivo. Mesmo quando ele fazia uma grande jogada, uma jogada bonita, era sempre em direção ao gol. Não era o brilho pelo brilho. Era sempre em direção ao gol. Acho que isso deveria ser uma lição para o escritor. Ir sempre em direção ao que deseja transmitir. Sem firulas, sem fugir do objetivo principal do trabalho. Acho que eu tenho essa, digamos, virtude que o Pelé tinha. Se, no caminho para o gol, você fizer alguma coisa espetacular, se esforce em parecer que foi por obrigação.”

começam a enternecê-los. Você passou de herói a embaraço e está terminando como figura.” OMÃES “Mães, como se sabe, formam uma irmandade fechada com ramificações internacionais. Como a máfia. As mães também oferecem proteção e ameaçam os que se rebelam contra elas com punições terríveis que vão da castração simbólica à chantagem sentimental. Pior que a máfia, que só joga as pessoas no rio com um pouco de cimento em volta.” OVIDA “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada e dirigida pelo Sylvester Stallone.”

OOPERAÇÃO CARNE FRACA “Chamar de Carne Fraca a operação contra a corrupção nos frigoríficos e o escândalo dos fiscais da indústria de alimentos que recebiam propina para não fiscalizar nada é genial. A ação poderia se chamar ‘Carne Podre’ ou ‘Nome aos Bois’, mas aí não teria o mesmo valor literário e irônico. Carne Fraca é perfeito. Serviria mesmo para todo o conjunto das ações policiais e jurídicas a partir do começo da Lava-Jato. A corrução existe, afinal, porque a carne é fraca.”

OMEIO AMBIENTE “Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada, e em torno do Sol de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do Planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico – e sem taxa de administração.”

OPAIS “Você sabe que acabou a adolescência dos filhos quando os seus vexames, em vez de envergonhá-los,

“Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo.” O

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NATUREZA MEDICINAL MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

ERVA-DE-SANTA-MARIA

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Chenopodium ambrosioides

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FOTO: MARCOS GUIÃO

lgumas plantas medicinais trazem consigo histórias impregnadas da cultura popular. É o caso da Erva-de-Santa-Maria (Chenopodium ambrosioides), também conhecida como mastruz lá mais no Norte e Nordeste brasileiros. Durante prosa solta no avarandado da casa de Chico da Mata, ele se alembrava dos seus tempos de criança quando “...mãinha fervia Santa Maria com leite e dava nóis pra tomá no sentido de livrá nóis das bicha. Aquilo era ruim sem base, só de vê o chero vorto lá na conzinha da fazenda. Mas nóis tratava de verme era dejeito...” A tradição diz que ferver a planta no leite pode transformá-la num vermífugo dos mais potentes. Ele continuou a balançar na rede e, enquanto coçava a cabeça, as lembranças deram de brotar. “Teve uma vez que Guiomar de Antero arribou as perna

pra cima num tombo abestado berando o fogão. Nisso o braço dela estralou e, na fadiga daquela dorada, acabou pegando um carro por conta e deu entrada na Santa Casa lá da cidade. Gente assim mais na idade deve de se cuidar mais, e os dotô puseram nela três pedaçico de ferro pra agarantir. Pois ela vortô pra casa e deu da banhar a ofensa com sumo de mastruz, além de tomá uns gulinhos vez por outra.” Passado coisa de uns mês, ela deu retorno lá no hospital pra arrancamento dos pedaçico de ferro. Mas daí o braço se apresentou “verde” por dentro e por fora. Aquilo juntou de gente pra tentar limpar, mas quá! Ninguém entendia e nem explicava tamanho alarido, e Guiomar foi ficando desconfiada de que tinha um treco errado pela tanteira de médico arrodeando. Melindrada, indagou o motivo do furdunço e um dos dotô explicô que eles nunca tinha visto carne e nem osso ficar verde... Aliviada, ela então explicou calmamente que “não é necessário fadiga, isso é derivado do suco das folhas da Erva-de-Santa-Maria batida com laranja que tomei pra ajudar encanar”. Foi um alívio geral, mas dos três pinos colocados teve um que tava tão garrado, que num teve jeito de retirá-lo. Ficou lá como prova de sucesso da encanadura da planta nas fraturas. Um dos médicos lhe perguntou como ela sabia disso e ela explicou: “Minha mãe fazia um emplasto e marrava as pernas das galinhas quando quebrava e elas recuperava loguinho. Quando saia uma galinhada, dava pra vê os pé delas verdinho, igual meu braço...” Andei dando uma olhada em outras fontes e vi que ela é cicatrizante e alivia as micoses, amenizando também o desconforto das picadas de insetos, combatendo ainda piolhos e pulgas. Mas é necessário cuidado no seu uso interno devido à presença de um ativo, o ascaridol, que tem potencial tóxico quando utilizada em excesso ou por muito tempo. Os sintomas da intoxicação vão de náuseas até convulsões. Portanto, usar pode, mas com bom senso. Inté a próxima lua! O

“Um dos dotô explicô que eles nunca tinha visto carne e nem osso ficar verde.”

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


Mais uma vez, a Gerdau se transforma. Afinal, essa é nossa tradição.

Para uma empresa de 116 anos, inovar é um processo fundamental. Atender às demandas de um mercado mais dinâmico e colaborar com o avanço do mundo dependem dessa atitude. É por isso que transformamos constantemente nosso sistema de gestão ambiental. Com iniciativas como o monitoramento on-line da qualidade do Rio Itabirito, na mina de Várzea do Lopes, em Itabirito, Minas Gerais, reafirmamos nosso compromisso com o meio ambiente. A Gerdau já é uma indústria 4.0. E não vamos parar por aí.

www.gerdau.com

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Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2017

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Revista Ecológico - Edição 97  

Capa A promessa polêmica e a esperança ainda não concretizadas pelo ex-governador do Estado do Mato Grosso e atual ministro da Agricultura,...

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