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9 771984 316005

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ISSN 1984-316X

ANO 9 - Nº 95 - JANEIRO/FEVEREIRO DE 2017 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


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IMAGEM DO MÊS FOTO: ALBERTO MIRANDA

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CHILE EM CHAMAS A claridade que você vê na foto não é a de um belo pôr do sol. Trata-se de um incêndio que devastou mais de 200 hectares de florestas nos arredores de Valparaíso, no Chile, em janeiro deste ano. A cidade é apenas uma das dezenas que vêm sofrendo com queimadas que já consumiram mais de 150 mil hectares de matas e deixaram milhares de desabrigados. Segundo o governo chileno, 90% dos focos de incêndio foram provocados pela mão humana e são potencializados pelas mudanças climáticas: nesta época do ano, a temperatura média no país fica acima de 30ºC. JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  03


EXPEDIENTE

YARA TUPYNAMBÁ Bambuzal, Rio Doce

FOTO: JÚLIO HUBNER

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Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Cristiane Mendonça, Luciana Morais e Vinícius Carvalho

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com

EDITORIA DE ARTE André Firmino

DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

COLUNISTAS Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda. ecologico@souecologico.com

REVISÃO Gustavo Abreu

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br

CAPA Foto: Edvard Munch/Arte Sanakan

VERSÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

(*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

5,17 tCO2 e Setembro e Outubro de 2016

souecologico ecologico


Está cada vez mais fácil viajar por Minas Gerais COM O VOE MINAS GERAIS, VOCÊ TEM ACESSO AÉREO A 17 CIDADES MINEIRAS E, AGORA, COM DESCONTOS E CONDIÇÕES ESPECIAIS. • Desconto de 10% nas compras feitas com, pelo menos, 30 dias de antecedência. • Desconto de 20% nas compras a partir de cinco passagens. • Na compra de ida e volta, desconto fixo de R$ 100,00 no bilhete de retorno, independentemente do trecho escolhido. CONFORTO E RAPIDEZ PARA VOCÊ. INTERLIGAÇÃO AÉREA PARA MINAS GERAIS. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO PARA TODOS.

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ÍNDICE

CAPA

DONALD TRUMP PÕE O CAPITALISMO EM PRIMEIRO LUGAR E DESDENHA DA NATUREZA PARA MANTER OS ESTADOS UNIDOS COMO POTÊNCIA ECONÔMICA.

20 PÁGINAS VERDES OLAVO MACHADO, PRESIDENTE DA FIEMG, FALA SOBRE A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PARA SE VENCER A CRISE

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ECOLÓGICO NAS ESCOLAS É HORA DE CONHECER AS ORIGENS E AS CARACTERÍSTICAS DOS ARQUIPÉLAGOS BRASILEIROS

E mais... CARTAS DOS LEITORES 08 CARTA DO EDITOR 10 ECONECTADO 14 GENTE ECOLÓGICA 16 SOU ECOLÓGICO 18 FELIS CONCOLOR 24 ESTADO DE ALERTA 26 ARTIGO 38 POLÍTICA AMBIENTAL 40 DENÚNCIA 46 VII PHW 52 CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL 56 PERFIL 58 INOVAÇÃO AMBIENTAL 66

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ENSAIO FOTOGRÁFICO COM IMAGENS PROJETADAS DE ÍNDIOS NA FLORESTA, PHILLIPPE ECHAUROX FAZ UM ALERTA MUNDIAL PELA PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE

GESTÃO & TI 69 EMPRESA & MEIO AMBIENTE 70 NATUREZA MEDICINAL 78 VOCÊ SABIA? 80 MEMÓRIA ILUMINADA 86

Pág.

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CARTAS DOS LEITORES

“Li 'Árvore da Vida'. Um livro complexo e instigador que tenta responder uma pergunta: o que é a vida?” Valdomiro Lourenço Nachornik, via Facebook “O amor é a emoção que dá, na história da evolução dos hominídeos, possibilidade ao surgimento da linguagem. Pois, o amor é a emoção que permite os encontros recorrentes. A rejeição é outra emoção e não permite encontros recorrentes, pois leva à separação. A indiferença, para Maturana, é o oposto dessas duas emoções. E afirma que amor e rejeição não são opostos um ao outro.” Schrley Schram, via Facebook “Uma abordagem rica e repleta de razão. Muito bom e pertinente!” Gurgel Mendes, via Google+ “Li todos os livros de Maturana. Uma pena que nem todas as pessoas enxerguem o poder do amor.” Mirela Vasquez, via Google+

l DO IBAMA PARA O IBAMA Texto fala sobre a carta aberta que gestores e fiscais do Ibama enviaram à presidente do órgão, Suely Guimarães, pedindo socorro e mais recursos

“Se os próprios funcionários que trabalham no órgão estão pedindo socorro é porque a coisa está feia. Aliás, horrível, pois o desmatamento na Amazônia aumentou quase 30% ano passado e o Cerrado e a Mata Atlântica viraram sala de visita de degradadores.” Natanael Carlos Viana, via e-mail “E como o Governo Federal pretende alcançar desmatamento zero se nem a equipe do órgão responsável por fiscalizar, monitorar e proteger o meio ambiente recebe investimento e atenção para executar efetivamente essas ações?” Mara Carvalho, via e-mail l MEMÓRIA ILUMINADA – HUMBERTO MATURANA A vida, a obra e o pensamento ecológico e amoroso do neurobiólogo chileno

08  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

l ENSAIO FOTOGRÁFICO Livro “Parques e Reservas – Patrimônio das Minas Gerais” mostra as riquezas naturais e históricas do quarto maior estado brasileiro em 220 imagens

“Li a reportagem ‘Patrimônios Geraes’ sobre o livro na última edição da Ecológico e fiquei super feliz! Ficou linda e emocionante a matéria. É muito bom compartilhar um trabalho e ver que as pessoas estão curtindo. Obrigada!” Silvana Terenzi, da Lucca Cultura e Tecnologia, autora do livro l SALVE A AMAZÔNIA! “A vontade que tive foi de chorar de tristeza ao saber que em 2016 foi devastada na Amazônia uma área equivalente a cinco cidades de São Paulo. São criminosos que cometem um dos maiores crimes contra a humanidade, contra a Mãe Natureza que tem tudo de bom para dar a todos e merece o nosso maior respeito. Esses gananciosos, inconscientes e inconsequentes, merecem, quando tiverem sede, esgoto para beber. Para respirar: fumaça. Para matar a fome: dinheiro e barras de ouro. E mesmo assim, se aplicar este tratamento de choque, levará anos para aprenderem. Porque são parasitas, só se satisfazem devastando, destruindo e acumulando,


FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

EU LEIO “Atuo como professor dos ensinos fundamental e médio. Em sala de aula, tenho utilizado a Revista Ecológico como um instrumento precioso, o qual me permite explorar novos conhecimentos e curiosidades, que enriquecem a minha prática de ensino. As minhas aulas ficaram mais interessantes e diferenciadas com a ajuda da revista, que já conhecia mesmo antes de me formar. Quando coloco na pauta de minhas aulas textos retirados da Ecológico, meus alunos ficam deslumbrados com os assuntos ambientais abordados de maneira interativa. A forma como trabalho com a publicação em sala de aula não se limita apenas em interpretações de textos complementares, também a utilizo como fonte de leitura informativa e de pesquisa para os alunos. Como leitor, professor e admirador da revista, deixo a dica para aqueles que também atuam em sala de aula: façam da Revista Ecológico uma aliada à sua prática de ensino e as suas aulas vão se tornar cada vez mais inovadoras.” Elberte Luiz Feitosa, professor de Geografia da rede pública

Vida para as populações locais e para a biodiversidade. As áreas preservadas pela CENIBRA abrigam mais de 4.500 nascentes que fornecem água limpa para a fauna, flora e para uso das comunidades situadas próximas às propriedades da Empresa.

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

esquecendo que não são donos de nada e não fizeram nada; quando nasceram encontraram tudo aí. E se acham no direito de destruir. Mesmo assim, a Mãe Natureza trabalha 24 horas por dia, sem parar um segundo sequer para nos dar o alimento, mas, de vez em quando, precisa dar um puxão de orelha em seus filhos com calor de matar, frio de matar, enchentes, etc., pela ingratidão e falta de respeito. Salve a Amazônia! Salve o Brasil! Salve o Planeta Terra!” Saulo de Tarso de Sousa Gomes, assinante da Revista Ecológico e morador de Jeceaba (MG)


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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

REPRODUÇÃO da capa da JB Ecológico, em comparação com a Revista Ecológico: só acabou o ponto de interrogação

O REGRESSO

AMERICANO? E

u me lembro, com gratidão, de quando conheci Ricardo Boechat, um dos profissionais mais conceituados do país, hoje âncora do Jornal da Band. Foi nas águas de março de 2002, dez anos depois da Rio/92. Ele era diretor de redação do Jornal do Brasil. E era com quem eu tinha de alinhar a estreia editorial da então revista JB Ecológico, ex-Estado Ecológico, do jornal Estado de Minas, cujo projeto levei mineiramente 10  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

debaixo do braço. Nessa época, a opinião pública internacional estava boquiaberta com a postura anunciada do então presidente dos EUA, George W. Bush, que disputava, contra o ambientalista Al Gore, a mesma cadeira que Donald Trump já ocupa na Casa Branca, com apoio declarado da indústria petroleira. Além de os EUA não ratificarem o Protocolo de Kyoto, Bush ainda se justificou com o mesmo na-


cionalismo errático de Trump, vide o que ditadores como Hitler causaram à humanidade e à própria Alemanha: “Somos, sim, o maior poluidor do mundo. Mas, se for preciso, vamos poluir ainda mais para evitar uma recessão na economia americana”. Ele ainda provocou a ira da comunidade científica internacional ao permitir, logo após ser eleito, a exploração de petróleo em diversos santuários naturais do Alasca.

o mesmo copo de morte que hoje ameaça todo o planeta e sua humanidade, à mercê de outros terroristas que Donald Trump dispõe; vide o exemplo de Putin, amigo do ditador Bashar al-Assad, cuja guerra na Síria, em seis anos, já soma mais de 300 mil mortos, entre eles, 15 mil crianças. Bush, em sua guerra antiterrorista, dizimou densas florestas e rios para desespero da população sobrevivente no Afeganistão. Além de 10 mil aldeias destruídas pela opção militar dos EUA, quando o ex-presidente suspendeu o despejo de bombas no Afeganistão, oito dos 10 rios que ainda sobreviviam à seca natural também morreram abruptamente. Isso sem falar das dezenas de represas e reservatórios d’água vazios que, mesmo pequenos, eram como uma miragem real para toda vida humana e natural daquele país.

SEM MONTANHAS Bélico nacionalista, Bush fez mais, tal como Trump também anunciou, atiçando o Estado Islâmico. Em resposta para o ataque ao World Trade Center, em 2001, ele fez mais que o terrorista Bin Laden. Vitimou civis inocentes, principalmente velhos e crianças no Afeganistão, mais pessoas que todos os americanos mortos nas Torres Gêmeas, naquele trágico VOLTANDO AO BOECHAT Como disse John 11 de setembro. Eu lhe mostrei, então, o projeTal como seu inimigo terrorista, o Lennon, "todos nós to gráfico e editorial da primeique Bush fez na natureza e no meio ra edição da JB Ecológico. Ele temos um Hitler ambiente daquele país? olhou as páginas já diagramadas. Simplesmente bombardeou e dentro da gente. Viu, com os seus olhos de lince, o destruiu, reduziu a pó, duranMas também temos conteúdo sobre o Bush e me disse te dois meses seguidos, uma das sem rodeios: paz e amor". paisagens mais exóticas e des- Esse cara é um terrorista! Está conhecidas do planeta. E isso Qual é a sua, aterrorizando a natureza e o funa virada de 2012, justamente o Donald Trump? turo de todos nós. ano que a Organização das Na- E quanto à capa? Perguntei-lhe. ções Unidas (ONU) havia ins- Ué, rapaz?!! Você está no Jornal do Brasil! Taca a tituído como sendo o “Ano Internacional das Montanhas”. cara grande dele, pra mostrar quem é o maior poAlguém poderia perguntar, como publicamos luidor e inimigo público número um do planeta e na primeira JB Ecológico: da humanidade! - Mas o Afeganistão, com uma vegetação e Quinze anos depois, agora com a Revista Ecoagricultura escassas, já não era um deserto? Os lógico, eu me lembro do mestre Boechat: seria bombardeios americanos destruíram o quê? Trump terrorista, uma versão piorada de Bush? Como se os 24 milhões de afegãos, desde a inÉ o que você, caro leitor, cara leitora, pode vasão soviética em 1979, comessem e bebessem conferir nesta nossa reportagem de capa sobre só areia... Não plantassem, nem disputassem, o novo e polêmico presidente do segundo país palmo a palmo com as vacas e as cabras, o verde ralo que, teimoso, ainda nascia e era cultivado mais poluidor do planeta, atrás apenas da China. Como disse John Lennon, “todos nós temos naquele solo ancestral degradado. Segundo relatório do Alto Comissariado das um Hitler dentro da gente. Mas também temos Nações Unidas para Refugiados, a estupidez am- paz e amor”. Qual é a sua, Donald Trump? Boa leitura! biental de Bush foi além. Transformou-se na gota Até a próxima lua cheia.  de veneno ideológico que faltava para entornar JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  11


UM F I LM E DA CO N S E R VA

“Eu sou o mais antigo tem

THIAGO L A

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go templo da natureza.”

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sta falando.org.br


ECONECTADO

CRISTIANE MENDONÇA

INSTAGRAM VERDE FOTO: RENAN KATAYAMA / WIKIMEDIA

TWITTANDO

“Plantar os alimentos que consumimos sempre foi uma tradição na minha família!”

FOTO: REPRODUÇÃO

@RodrigoHilbert Rodrigo Hilbert, apresentador

A nutricionista, chef de cozinha e apresentadora do canal GNT, Bela Gil, é ferrenha defensora de uma alimentação saudável baseada em alimentos orgânicos. Uma de suas frases mais famosas - “Você pode substituir...” (que ela utiliza para se referir a opções mais saudáveis)-, virou meme na internet. Brincadeiras à parte, a baiana, que é filha do cantor e músico Gilberto Gil, não perde a oportunidade de defender essa causa nas suas mídias sociais. No Instagram @belagil, ela mostra sua rotina, dá dicas de reaproveitamento de alimentos e de consumo consciente, além de compartilhar algumas receitas. FOTO: REPRODUÇÃO / INSTAGRAM

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ECO LINKS Tem vontade de implementar a coleta seletiva no seu condomínio, mas não sabe por onde começar? No site da Revista Ecológico compartilhamos dicas para quem deseja destinar os resíduos residenciais de uma forma sustentável. Temas como responsabilidades compartilhadas e empresas especializadas em coleta são abordados no texto. Confira em www.goo.gl/4OnD3H

“É isso mesmo que queremos? Exterminar a maior diversidade humana desse planeta? Ou nos aliarmos aos que sabem cuidar?” @mariamaliasouza - Maria Amalia Souza, Fundo Socioambiental CASA

“Ambientalistas, atenção às Assembleias Legislativas que estão na agenda dos ruralistas.” @mariomantovani Fundação SOS Mata Atlântica 14  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

A matéria sobre a carta aberta que os gestores de núcleos e responsáveis pela Fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) dos estados enviaram à presidente do órgão, Suely Guimarães, pedindo socorro, foi a mais acessada no site em dezembro passado. A solicitação tem vários motivos, incluindo a pouca atenção que a autarquia vem recebendo do governo federal. Quer saber mais? Acesse: www.goo.gl/uhTPBX FOTO: ASCOM / IBAMA

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

MAIS ACESSADA


RÁDIO

Você tem um encontro espiritual com o Padre Reginaldo Manzotti de segunda a sábado, às 10h, na Rádio América.

americabh.com.br

radioamericaam750

(31) 3209-0750


FOTO: JOSÉ CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

GENTE ECOLÓGICA FOTO: NARODOWY INSTYTUT AUDIOWIZUALNY

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“Em uma vida líquida moderna não há laços permanentes. Perdemos a arte das relações sociais e da amizade.” ZYGMUNT BAUMAN, sociólogo e escritor polonês, autor de “A vida líquida”, sobre a efemeridade atual das relações humanas, recém-falecido aos 91 anos. Segundo sua esposa, Aleksandra, ele foi para a “eternidade líquida”

“Se você pensa que pode, ou se pensa que não pode, de qualquer modo está certo.”

FOTO: ROBERTO FILHO / DIVULGACÃO

HENRY FORD, empresário norteamericano, fundador da Ford Motor Company

“Quem erra com amor tem a chance de aprender e transformar o mundo. Mas quem erra com ódio cego atira e mata.” ZÉLIA DUNCAN, compositora e cantora 16  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

“Nunca fui apegado a cargo, mas à vida.” TEORI ZAVASCKI, ministro do STF e relator da Operação Lava Jato, vítima de acidente aéreo fatal no litoral fluminense em 19 de janeiro

“Continuar com o protecionismo é como se fechar em um quarto escuro. É certo que evita o vento e a chuva, mas também a luz e o ar.” XI JINPING, presidente chinês, em resposta às posições protecionistas de Donald Trump, novo presidente dos EUA, durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça


EMANUELLE ARAÚJO, atriz

DANIELA MERCURY, cantora

PATRÍCIA BASTOS Com mais de 20 anos de experiência em comunicação corporativa, ela assumiu a liderança da área de Comunicação da Tetra Pak no Brasil. Em tempo: a marca aposta na liderança da indústria responsável, através de uma abordagem sustentável dos negócios. Seu slogan é “Protege o que é bom”.

FOTO: SÉRGIO ZACCHI

“Quero a rua para andar e cantar. Pra mim, gente na rua é canteiro de flor. É como arar a rua de novo, trazer terra, natureza, humanidade, amor.”

LENINE O cantor e compositor pernambucano deu voz ao último filme da segunda temporada da campanha "A Natureza está Falando", da ONG Conservação Internacional. Ele interpreta "O Céu" e se junta à lista de personalidades que participaram da iniciativa para inspirar a sociedade sobre a importância de se preservar o meio ambiente.

“Água. Se não reflorestar, vai faltar.” ANTÔNIO FERNANDES, presidente do Clube da Semente do Brasil

SIDEMBERG RODRIGUES, diretor de Sustentabilidade da ArcelorMittal Brasil

FOTO: DIVULGAÇÃO

MINGUANDO

“A tecnologia acelerou o ritmo da vida em detrimento de rumo. As pessoas correm muito sem saber para onde estão indo. Não param mais para pensar nem observar, e isso as torna infelizes. A felicidade passa pela paz. Sem paz não há realização.”

FOTO: DIVULGAÇÃO

FOTO: CÉLIA SANTOS / DIVULGAÇÃO

FOTO: ROBERTO VALVERDE / DIVULGACÃO

“Amor? Quanto mais clichê, melhor. Amor por estar vivo, por si e pelo outro, por passear pelas esquinas da vida e poder sorrir mesmo com céus nublados.”

FOTO: REPRODUÇÃO

FOTO: JOSÉ CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

CRESCENDO

PHILIP ANSCHUTZ Em janeiro, jornais e sites do mundo inteiro denunciaram que o empresário, um dos 40 homens mais ricos dos EUA, realizou centenas de doações a grupos anti-LGBT e a entidades que negam o aquecimento global e fazem lobby pela aprovação de leis que beneficiam empresas poluidoras do meio ambiente. Anschutz é dono da AEG, uma gigante internacional do setor de entretenimento, e tem fortuna avaliada em US$ 11 bilhões.

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  17


SOU ECOLÓGICO

SILÊNCIO NOS HOSPÍCIOS. MORREU ANTONIO SIMONE Morreu no último dia 27 de janeiro, em BH, aos 67 anos, de infarto do miocárdio, o médico psiquiatra Antonio Soares Simone. Foi ele quem liderou, nos anos 1980, a revolta psiquiátrica que pôs fim aos manicômios públicos em Minas Gerais. À frente da Associação Mineira de Saúde Mental, foi ele também quem trouxe ao Brasil o seu colega italiano Franco Basaglia, autor de uma lei que proibiu a construção de novos hospícios naquele país. Em 1979, após visitar o Hospital-Colônia de Barbacena - acompanhado de Simone – Basaglia declarou à imprensa que o que viu ali, a exemplo também dos hospitais Galba Veloso e Raul Soares, não eram casas de saúde, mas “verdadeiros campos de concentração nazistas”. E que todas as pessoas que trabalhavam nesses hospícios, sem exceção, desde os atendentes até seus diretores, “exerciam os papéis de carcereiros e torturadores”. Acusado de subversivo, na época, por fazer esta mesma denúncia antes da vinda de Basaglia, Antonio Simone chegou a ter o seu diploma ameaçado de ser cassado pelo Conselho Regional de Medicina. Portador de diabetes, que muito o debilitou, sua última aparição pública aconteceu em maio de 2016. Foi durante a estreia da peça “Nos Porões da Loucura” (baseada no livro homônimo que lancei e tem prefácio escrito por Simone), em um lotado Grande Teatro Sesc Palladium, na capital mineira. Ao ser citado, ele foi carinhosamente aplaudido pela plateia. Graças à sua subversão, a exemplo de outras lideranças do movimento, como o psiquiatra Jairo Toledo, que coordenou “in loco” o processo da mudança; e o cineasta Helvécio Ratton, autor do

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FOTO: GLÁUCIA RODRIGUES

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UM DOS ÍCONES da revolução psiquiátrica que pôs fim aos manicômios públicos de Minas na década de 1980, Antonio Simone também foi o responsável por trazer ao Brasil o psiquiatra italiano Franco Basaglia

filme “Em Nome da Razão”, não existe mais o antigo “Colônia” de Barbacena. Foi ali, no maior e mais desumano hospício do Brasil, construído em 1903, que 60 mil pessoas morreram de abandono e maustratos, 75% delas – o que foi comprovado depois – sem quaisquer transtornos mentais. Grande Simone!


Acesse o blog do Hiram:

FOTO: REPRODUÇÃO

FOTO: ARTE ECOLÓGICO

hiramfirmino.blogspot.com

“O GRITO”, de Edvard Munch, e o “não escutar” do novo governo americano: desespero existencial

grito infinito da Natureza” . Foi nesta obra que a Revista Ecológico buscou inspiração visual para produzir a reportagem de capa desta edição, sobre o que a humanidade pode esperar do novo presidente da segunda potência mais poluidora do planeta. Edvard Munch não está aqui para se defender. Mas, a partir da nossa realidade planetária, do sistema solar conhecido, não existe o grito infinito da natureza. Mas, sim, o seu grito finito, vide que a extinção da vida e de qualquer ser vivo, incluindo nós no final da pirâmide, é para sempre! Coisa que a maioria dos nossos políticos, tal como Trump, não consegue entender. Aceitar, enfim, que o planeta sobrevive sem nós, e não o contrário. Que quem tem de ser salvo primeiro, nesta ordem, é a Terra e não o ser humano. É muito para a nossa arrogância? O filme “Trump” já começou. Mas o the end pode ser mudado. Ainda!

RÁDIO 100% MEIO AMBIENTE Ouvir uma rádio que toca música de qualidade e ainda deixa o ouvinte por dentro das últimas notícias relacionadas à área ambiental. Essa é a proposta da Rádio Web Ponto Terra, inaugurada em novembro e cujo slogan é “100% meio ambiente”. A emissora é uma iniciativa da ONG Ponto Terra, dirigida pelo presidente do Partido Verde (PV) de Minas Gerais, Ronaldo Vasconcellos. O político que tem uma sólida experiência na área ambiental é um dos apresentadores do canal que possui 24 horas de programação. A emissora pode ser acessada pelo link www.radioponterra.16mb.com, e também está disponível para celulares e tablets no Google Play e na Apple Store por meio do aplicativo iRádios.

FOTO: DIVULGAÇÃO

O GRITO INFINITO DA NATUREZA X DONALD TRUMP Fazendo par com a “Mona Lisa” de Leonardo da Vinci, com status de ícone cultural, o célebre quadro “O Grito” é uma das obras mais importantes do movimento artístico expressionista. Pintado em 1893 pelo norueguês Edvard Munch, ele representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O plano de fundo é a doca de Oslofjord, em Oslo, ao pôr do sol. A fonte de inspiração do artista, filho de um pai controlador, foi a sua própria vida pessoal, com conflitos internos de toda ordem. Quando criança, viu sua mãe e sua irmã morrerem. Outra irmã foi internada em hospital psiquiátrico. E por aí afora, tal como ele descreveu sobre o seu famoso e intrigante quadro: “Passeava com dois amigos ao pôr do sol. O céu ficou de súbito vermelho-sangue. Eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta. Havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade. Foi quando senti o

VASCONCELLOS e sua rádio que toca ecologia

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  19


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PÁGINAS VERDES

“COM A EDUCAÇÃO, PODEMOS MUDAR E SALVAR O BRASIL” Hiram Firmino e Luciana Morais

FOTO: ALESSANDRO CARVALHO

redacao@revistaecologico.com.br

OLAVO MACHADO: “Não haverá indústria se não tivermos pessoas preparadas para trabalhar”

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A

indústria mineira fechou 2016 com queda em sua produção de cerca de 7%, na comparação com o desempenho de 2015. Ainda assim, mantém a confiança em um 2017 melhor – com projeção de crescimento de 0,9% no estado – e apostando na educação como um dos caminhos para superar a crise ética, política e econômica que assola o Brasil. Durante o balanço de fim de ano, em tradicional almoço com a imprensa, o presidente da Federação das Indústrias em Minas Gerais (Fiemg), Olavo Machado Junior, ressaltou a importância do apoio à educação fundamental e profissionalizante. E ponderou: “2017 poderá ser mais fácil se trabalharmos imbuídos de que podemos fazer mais. No Sesi/Senai, estamos investindo e oferecendo, efetivamente, uma educação de qualidade; por meio dela, podemos mudar o Brasil.” Confira, a seguir, alguns trechos de sua apresentação: l RECURSOS PRÓPRIOS “É imprescindível expandir o apoio ao ensino fundamental e profissionalizante no Brasil, tarefa que a indústria mineira tem realizado com sucesso cada vez maior, por meio do Sesi e do Senai. Acredito que muitos de vocês, que representam a mídia, não saibam o que estamos fazendo entre as nossas montanhas, em termos de investimento pesado e continuado em educação.” “O Sistema S é financiado por uma contribuição parafiscal (compulsória), criada no governo Getúlio Vargas, que é recolhida pelas empresas. Hoje, cerca de 90% dos alunos do Sesi/Senai são filhos de operários da indústria. E, conforme expliquei, todo nosso investimento em educação é feito com recursos dos próprios empresários, que recolhem um percentual sob a folha de pagamento,

sem descontar um tostão sequer do trabalhador.” l DESTAQUE NO ENEM “O Sesi Minas tem se destacado na avaliação das escolas participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2015, entre as dez melhores escolas Sesi do país, nove eram mineiras. Agora em 2016, evoluímos ainda mais: todas as 12 primeiras colocadas são escolas do Sesi MG. Considerando o ranking das 20 primeiras escolas Sesi, em nível nacional, 15 são do nosso Estado.” “Não escolhemos os melhores alunos para participar das provas do Enem. Ao contrário, pagamos para que todos aqueles que estejam em condições de prestar o exame o façam. E, felizmente, vários deles estão saindo das nossas escolas direto para as melhores universidades federais.”


O L AVO M A C H A D O

FOTO: DIVULGAÇÃO

Presidente da Fiemg

QUEM É ELE Com experiência na área empresarial, direção sindical e em cargos públicos, o belohorizontino Olavo Machado Júnior, 68 anos, é formado em engenharia elétrica pela PUCMinas. Empresário do setor elétrico, é diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e atua na diretoria da Fiemg desde 1978. Foi secretário-adjunto de Indústria e Comércio de MG, presidente do Centro Tecnológico (Cetec/MG), presidente do Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Minas, diretor da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee/MG e Abinee/SP) e vice-presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

l PRIMEIRO LUGAR NA USP “Ano passado, o aprovado em primeiro lugar no curso de estatística da USP, em São Paulo, foi um aluno do Sesi do Sul de Minas.” “O Sesi Minas é uma das maiores redes de ensino privado do Estado e alcançou resultados expressivos nos últimos cinco anos. Foram 69 mil matrículas na educação básica e 32 mil alunos matriculados no programa de Educação de Jovens e Adultos.” l MEDALHA DE OURO “Em 2015, fomos vencedores da WorldSkills, maior competição de ensino profissional do mundo. Realizada a cada dois anos, ela ocorreu pela primeira vez em São Paulo, com a participação de estudantes de mais 60 países e conquistamos duas medalhas de ouro. Na classificação geral, a equipe brasileira ficou com 11 medalhas de ouro, 10 de prata e seis de bronze, além de 18 certificados de excelência. Esses e outros resultados comprovam que nós, da indústria mineira, estamos investindo e oferecendo, efetiva-

JOVENS aprendizes do Senai: formação que abre portas

“O Sistema S é uma contribuição compulsória criada não pelo governo, mas pelas próprias empresas, no Governo Getúlio Vargas.” mente, uma educação de qualidade; por meio dela, podemos mudar o Brasil.” l ESCOLA MÓVEL “Temos, ainda, o programa Escola Móvel. Uma escola itinerante, que vai até as cidades ensinando um ofício às pessoas. Atualmente, temos 19 unidades móveis e 26 kits didáticos transportáveis, além de salas de aulas equipadas com gerador de energia elétrica próprio e ar-condicionado. Não importa se o cidadão sabe ler ou escrever: oferecemos cursos que variam de 40 a 320 horas/aula e

todos saem de lá habilitados em alguma profissão.” “Com o Escola Móvel, o Sesi já esteve em 301 municípios mineiros, nos quais formou 39 mil alunos, com uma taxa de empregabilidade de 79%. Isso significa que dos 39 mil formados, 30.810 conseguiram trabalho e sustento para suas famílias. Tentei apresentar esse programa ao Mercadante [Aloizio Mercadante, ex-ministro da Educação], mas ele não quis conhecer...” l PARCERIAS “Estamos atentos também à importância das novas parcerias. Um exemplo é a nossa atuação com a Codemig (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais), no Programa de Revitalização e Modernização de Distritos Industriais, lançado em maio de 2015 pelo governo estadual. Até 2018, serão investidos R$ 30 milhões na infraestrutura e no apoio à gestão das empresas instaladas nos 53 distritos industriais, das diferentes regiões.”

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PÁGINAS VERDES

FOTO: MARIANA NETO

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FIQUE POR DENTRO

“Um exemplo de parceria é a nossa atuação com a Codemig na revitalização e modernização dos Distritos Industriais.”

FUTURO ÉTICO E DE PROSPERIDADE  Anualmente, o Senai Minas oferta mais de 3,6 milhões de matrículas em cursos voltados para 28 segmentos da indústria. Da receita líquida com a contribuição compulsória, 69% são destinados a vagas gratuitas. O Senai Minas também conta com uma rede tecnológica com laboratórios de apoio à indústria e aos pesquisadores.  O Sesi Minas, por sua vez, investe na educação básica e na formação de jovens e adultos. Em 2014, foram 2,4 milhões de matrículas. Outros 4,5 milhões de trabalhadores foram beneficiados com ações ligadas à promoção da segurança e da saúde no trabalho.

ENSINO profissionalizante: tendência em alta

l FUTUROS ENGENHEIROS “Outro foco da atuação do Sistema Fiemg em educação é o programa Futuros Engenheiros. Por meio dele, universitários matriculados e frequentes do 5º ao 10º participam de cursos de formação complementar mais prática, com foco na realidade da indústria. Com isso, têm a oportunidade de desenvolver competências técnicas e habilidades comportamentais para atuar no setor industrial com mais conhecimento. Desde 2013, tivemos sete edições do programa e formamos 55 turmas, com 1.021 participantes. ”

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l CRENÇA “O que move a Fiemg e seus 138 sindicatos filiados – que representam milhares de empresas de todos os setores e segmentos industriais – é a crença de que a educação é e sempre será fundamental para a construção de uma indústria forte, moderna, diversificada, inovadora, desenvolvedora de tecnologia e, sobretudo, capaz de agregar valor ao produto industrial de Minas.” “Esses resultados nos animam a seguir adiante. Afinal, sabemos que não haverá indústria se não tivermos pessoas preparadas para nela trabalhar. A indústria mineira tem uma função social importante e procuramos cumpri-la da

 A Fiemg e seus 138 sindicatos filiados divulgaram, em dezembro, um manifesto intitulado “Basta!” criticando o comportamento do poder público e cobrando soluções urgentes para a crise. No documento, a entidade destaca: “Precisamos de um choque de ética, de brasilidade e de compromisso com o país. O primeiro passo é a punição exemplar dos responsáveis por esse cenário de calamidade, ao qual deve seguir-se um patriótico pacto entre os brasileiros – um grande entendimento nacional que assegure ao Brasil e aos brasileiros o acesso a um futuro de prosperidade na economia, de tranquilidade na política e de prevalência da ética”.

Confira o documento na íntegra acessando: goo.gl/OJDESh

melhor forma. Sempre conscientes de que podemos crescer, melhorar e sermos cada vez mais eficientes.” SAIBA MAIS

www.fiemg.com.br


O L AVO M A C H A D O

FOTO: DIVULGAÇÃO

Presidente da Fiemg

Senai, exemplo nacional Um terço dos brasileiros já passou pelas suas salas de aulas e oficinas profissionalizantes l 65 milhões de brasileiros formados em 73 anos de história: é como se um terço da população atual do país tivesse passado pelas salas de aula e oficinas da instituição. Os estudantes ficam entre 50% e 70% do tempo total da formação em laboratórios e oficinas.

do Senai em todo o país. Quinze cursos de formação profissional já foram adaptados para esses alunos, entre eles: operador de microcomputador; mecânico de manutenção de motocicletas e de motores ciclo Otto, comum em carros de passeio; eletricista industrial; pedreiro de alvenaria.

l Pesquisas da instituição mostram que 70% dos técnicos de nível médio são contratados na área no ano seguinte ao término das aulas. A renda das pessoas já empregadas, mas que fazem um curso no Senai, também é impactada positivamente. Com o diploma em mãos, o aumento dessa renda supera os 20%.

l Em 2014, o Senai destinou 68,3% dos recursos arrecadados para a oferta de cursos gratuitos para a população. De um total de 3,6 milhões de matrículas realizadas ano passado, 1,049 milhão foram ofertadas de forma gratuita, dentro do sistema de gratuidade regimental e do Pronatec-Bolsa Formação.

l Desde 2007, 80 mil pessoas com algum tipo de deficiência passaram pelas salas de aula e oficinas

l Em 2013, foram iniciadas as atividades da rede de Institutos Senai de Inovação, que conta com 15 unidades em operação em nove estados brasileiros.

SENAI E SESI-MG EM NÚMEROS  O Senai MG tem 36 unidades operacionais com serviços tecnológicos, 28 laboratórios e mais de três mil empresas atendidas.

No CIT – Campus Cetec (Centro de Inovação e Tecnologia) estão três institutos de inovação e cinco institutos de tecnologia, com 23 mestres e 24 doutores. Já foram investidos R$ 149 milhões em estrutura. 

 Em Itajubá, no Sul de Minas, está sendo implantado, com previsão de entrada em operação em 2018, o Instituto Senai de Inovação – Centro Empresarial de Desenvolvimento e Inovação da Indústria Elétrica

e Eletrônica (ISI/CEDIIEE), com investimentos de R$ 400 milhões e nove laboratórios.  No CIT – Campus Cetec, já está em funcionamento o Laboratório Aberto Senai, com atendimento, até agora, de 30 startups e 12 micro e pequenas empresas. Também está em andamento o Fiemg Lab, programa criado para funcionar como acelerador de empresas de base tecnológica e startups. O investimento é de R$ 9 milhões e, em uma primeira fase, serão analisados projetos de mais de 100 empresas.  No campo da formação de técnicos qualificados para a indústria

mineira, o Senai recebeu, de 2011 a 2016, 690 mil alunos em cursos de aprendizagem industrial, técnicos, de qualificação e aperfeiçoamento.  Atuando na educação desde 1950, o Sesi oferece as seguintes modalidades: educação infantil (de 0 a 5 anos), ensino fundamental (6 a 14 anos), ensino médio (15 a 17 anos) e o ensino médio do Sesi articulado com a educação profissional do Senai (Ebep).  O Sesi oferece, ainda, Educação de Jovens e Adultos para aqueles que não concluíram a educação básica em idade correspondente, além de projetos especiais, tais como a educação tecnológica. 

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SELVA DE CONCRETO

FOTO: REPRODUÇÃO

FELIS CONCOLOR redacao@revistaecologico.com.br

É AGRO. E DAÍ?

O agronegócio, que também se diz pop, não divulga o que faz pelo meio ambiente. Daí sua imagem pública nada amigável com a natureza

É

o que confirma o último barraco protagonizado pelo setor contra a escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense, cujo enredo para o carnaval deste ano - “Xingu, o clamor que vem da floresta” – não agradou ao segmento que hoje responde por um quarto do PIB nacional. Conforme primeiro registrou o jornalista Ancelmo Gois, na sua coluna em “O Globo”, intitulada “O Império Contra-Ataca”, para a Sociedade Rural Brasileira e a Associação Brasileira de Criadores de Zebu, a letra contribui para “a perpetuação na sociedade do velho preconceito contra o homem do campo”. Já para a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador, a vítima é o próprio cavalo, segundo ela, também repudiado de “forma errônea” na letra. Para Cahê Rodrigues, carnavalesco da Imperatriz,

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o setor apenas perdeu mais uma chance de ficar calado: “Nunca foi nossa intenção agredir o agronegócio, setor produtivo de nossa economia a quem respeitamos e valorizamos. Combatemos, sim, em nosso enredo, o uso indevido dos agrotóxicos que poluem os nossos rios, matam os peixes e coloca em risco a vida de seres humanos, sejam eles índios ou não, além de trazerem danos irreversíveis para a fauna e a flora do país”. A preocupação é com o índio, prosseguiu Cahê: “Quando a Imperatriz decidiu levar o Xingu para a avenida, tinha uma razão muito forte. Ela quer dizer apenas: respeitem o nosso índio e aprenda, com ele, a amar o que chamamos de Brasil”. A Revista Ecológico conferiu a letra e selecionou as críticas e apelos mais fortes. Em nenhum deles é citado literalmente o agronegócio. Em linguagem


FOTO: DANIEL BELTRÁ/ GREENPEACE

FOTO: REPRODUÇÃO

pop, isso significa que o próprio setor vestiu a carapuça. Em vez de ficar calado ou mostrar o tanto que já começa a fazer pelo meio ambiente onde atuam, os ruralistas radicais e suscetíveis preferiram se identificar, vestir a fantasia da ignorância e desdenho do que sempre fizeram impunemente com a natureza até antes do advento da consciência ecológica e do desenvolvimento sustentável. Confira esses versos: “...O Belo Monstro rouba as terras dos seus filhos./ Devora as matas e seca os rios./ Tanta riqueza que a cobiça destruiu.../ Sou o filho (do Xingu) esquecido do mundo. / Minha cor é vermelha de dor. / Meu canto é bravo e forte./ Mas é hino de paz e amor... o índio luta pela sua terra./ Da Imperatriz vem o seu grito de guerra. Salve o verde do Xingu!/ A esperança, a semente do amanhã.../ Herança, o clamor da natureza a nossa voz vai ecoar e preservar!”. Conforme a Ecológico registrou em sua edição anterior, melhor seria o setor se preocupar com as lágrimas derramadas pela top model Gisele Bündchen. Isso aconteceu, com repercussão mundial, quando ela sobrevoou a Floresta Amazônica, viu e foi informada pelo Greenpeace que 65% da destruição que seus lindos olhos verdes testemunharam ainda é causada, insustentavelmente, pela agropecuária extensiva. Também estratégico seria o agronegócio brasileiro responsável fazer um brainstorming com a sua principal líder e formadora de opinião pública, a ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu, do PMDB-TO, para ela não piorar mais a imagem em reconstrução do setor. E não repetir mais “pérolas” como esta: “Nós desmatamos, sim. Não para deixar áreas ao léu. Mas para fazermos uma das melhores agriculturas do mundo”. Áreas ao leu? Léu significa “à toa”. Matas, rios e florestas à toa, como se o planeta e a humanidade não precisassem da sua biodiversidade? É assim que, sem conferir nem agregar qualquer valor, apenas para serem desmatados e transformados em pastos, Kátia Abreu ainda vê a natureza e o meio ambiente perfeitos criados por Deus? É daí que vem o clamor planetário contra o setor, muito além do “é tech, é pop, é tudo”. Muito além do Xingu. Lembrando também o sábio e necessário conceito da educação ambiental: não basta à galinha botar o ovo. Mesmo sem agência de publicidade, ela também cacareja para influenciar outras galinhas a

PECUÁRIA extensiva na Amazônia: isso é tech, é tudo?

"Em vez de ficar calado ou mostrar o que já começa a fazer pelo meio ambiente onde atuam, os ruralistas radicais e suscetíveis preferiram vestir a carapuça da ignorância do que sempre fizeram impunemente com a natureza." repetirem o milagre da vida sobre a Terra. O agronegócio é esse ovo. É vida, é verde, é preservação e sustentabilidade. Tudo junto, separado e interdependente, desde quando o homem desceu das árvores e a agricultura foi inventada.  SAIBA MAIS

Para entender o choro amazônico de Gisele Bündchen, acesse: goo.gl/CM0qyR

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MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

FOTO: REPRODUÇÃO

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ESTADO DE ALERTA

A

FLORESTAS MAIS VAZIAS

caça a animais silvestres no Brasil foi proibida país, além de contribuir para a cultura da crueldade e em 1967. Não se pode dizer que tenha acabado, da violência. Crianças que aprendem a amar os animas diminuiu muito, principalmente nos esta- mais serão estimuladas a matá-los, como ocorre nos dos onde a atuação das polícias ambientais é mais EUA, pior exemplo de violência resultante do porte forte e a educação é de melhor nível. Mesmo assim, de armas. Boa parte das mortes que lá acontecem, a morte de animais por caçadores que desafiam a lei incluindo de crianças, é resultante da fácil aquisição de armas para caça. contribui para a extinção de espécies. Com exceção da Floresta Amazônica - onde a poValdir Colatto, “brilhante” expoente da bancada ruralista na Câmara dos Deputados, é autor do PL pulação de animais silvestres, apesar dos registros de desmatamento, caça e incêndios, ainda é 6.268/16, que legaliza a caça a animais silvestres. Sempre a postos para apreO PL 6.268/16, de grande; no restante do país, as “florestas sentar ou apoiar propostas que vão autoria do deputado vazias” são “marca registrada”. Mesmo ignorando a crueldade da caça e o direito dos permitir e estimular desmatamento Valdir Colatto, irá animais silvestres à vida, as populações e degradação, ainda tem coragem de contribuir para existentes não suportariam. Nos parques e distorcer a realidade, argumentanestações ecológicas onde se pressupõe hado que a caça, desde que controlada, a cultura da ver menos caça, avistar animais silvestres, pode ajudar a combater espécies exócrueldade e da principalmente da mastofauna (mamífeticas que oferecem riscos ao ecossisteviolência ros de forma geral), é pura sorte, pois além ma. Ele cita o javali europeu, conhede morrerem de medo da espécie humana, cido como javaporco, que tem caça liberada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente sua população é mínima. Se o PL passar, assistiremos e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Con- ao aceleramento absurdo da extinção de espécies anivenientemente, esquece-se que isso é exceção e que mais no país. E mais uma vez, um PL de grande interesse tamtem sido usada para matar outras espécies, pois a caça é feita com cães que estraçalham os animais de bém tramita sem qualquer discussão com a sociedaforma repugnante e que obviamente não distinguem de e com segmentos técnicos e científicos como pesa espécie das demais. E caçadores certamente apro- quisadores e órgãos de meio ambiente. Uma enquete da Câmara sobre o projeto registrou até o momento veitam a oportunidade para matar outros animais. O PL certamente recebe aplausos vigorosos da que 84% dos deputados votantes são contra a legaliindústria de armas brasileira e de suas congêne- zação da caça.  res, principalmente americanas, que ampliarão seu SAIBA MAIS mercado de morte. goo.gl/8QTFmP O PL não é só contra o meio ambiente. É contra a (*) Superintendente-executiva da Associação paz e será incentivo à liberação do uso de armas no Mineira de Defesa do Ambiente (Amda). 26  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017


1 MATÉRIA DE CAPA

TRUMP BIN LADEN BUSH? Novo presidente dos Estados Unidos promete “erradicar o terrorismo da face da Terra”, mas se recusa a avançar na resposta às mudanças do clima. Qual terror, afinal, nos aguarda? Vinícius Carvalho

ARTE: SANAKAN

redacao@revistaecologico.com.br


O

ano é 2030, avisa a Organização Mundial de Saúde (OMS). A cada duas horas, o número de mortes adicionais provocadas por doenças associadas à mudança do clima superará todos os assassinatos reivindicados até hoje pelo Estado Islâmico fora do Iraque e da Síria. O equivalente, em mortes, a 83 atentados às Torres Gêmeas por ano. Ou ainda a 13 ataques diários como os detonados pela Al Qaeda no metrô e nas ruas de Londres em 2005. Pode não parecer terror para Trump, cujo país despeja mais de 20 toneladas de carbono por segundo na atmosfera da Terra. Mas certamente é para parte da população mundial que assiste, atônita, ao líder da segunda nação mais poluidora do mundo dar de ombros para o aquecimento global. Só no dia da posse, Trump mandou retirar todas as menções à “mudança do clima” que constavam do site da Casa Branca. Anunciou o fim do “Plano de Mudança Climática” do ex-presidente Barack Obama, prometeu flexibilizar a legislação de recursos hídricos do país e previu 30 bilhões de dólares adicionais em salários para os americanos com a retirada de regulações ambientais “desnecessárias”. Anunciado com pompa, o plano é baratear a energia nos Estados Unidos suspendendo regulações ambientais e liberando terras públicas para novos negócios em petróleo, carvão e gás. Com isso, Trump espera “destapar” parte dos US$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados no país, gerar um crescimento rápido de 4% ao ano - ainda que sujo - e amealhar royalties suficientes para financiar o superplano de US$ 1 trilhão de dólares em infraestrutura que prometeu durante a campanha. Tudo sob o mesmo pretexto – e lance de marketing - de todos os falcões americanos desde Richard Nixon: a promessa de uma América autossuficiente em energia e livre da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Quais as opções de Trump? Como o mundo reagirá? E quem liderará, nos Estados Unidos, a resistência? É o que a Revista Ecológico pergunta nesta reportagem especial dedicada a um outro sonho americano possível.

QUEM É ELE? Nascido em 14 de junho de 1946 no bairro novaiorquino do Queens, Donald Trump é o segundo dos cinco filhos de Fred Trump, um empresário imobiliário de origem alemã, e Mary MacLeod, uma imigrante escocesa. Enviado na adolescência a uma escola militar, formou-se em Economia na Universidade da Pensilvânia e tornou-se o favorito do pai para sucedê-lo no comando da empresa Elisabeth Trump & Son, dedicada ao aluguel de imóveis de classe média nos bairros nova-iorquinos de Brooklyn, Queens e Staten Island. Trump assumiu as rédeas da companhia em 1971, rebatizada como Organizações Trump, e levou os

negócios da família para Manhattan. Enquanto o pai construía casas para a classe média, ele optou por torres luxuosas, hotéis, casinos e campos de golfe. Já nos anos 1980, tinha em construção empreendimentos como a Trump Tower, o Trump Plaza e cassinos em Atlantic City. Comprou também os direitos dos concursos Miss USA, Miss Universo e Miss Teen. Mas se notabilizou mesmo nos EUA ao apresentar o reality show “O Aprendiz”. Em 2016, a revista Forbes classificou Trump como a 324ª pessoa mais rica do mundo e a 113ª nos Estados Unidos, com um patrimônio líquido de 4,5 bilhões de dólares.

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1 MATÉRIA DE CAPA

As ameaças de Trump A saída dos EUA do Acordo do Clima de Paris A Convenção sobre a Mudança do Clima é o espaço no qual os países associados à ONU definem compromissos conjuntos para responder às mudanças climáticas. No penúltimo encontro, realizado em Paris, chegou-se ao maior acordo já conseguido até aqui: 197 países – incluindo os EUA – se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C, aci-

ma dos níveis pré-industriais, até 2100. A parte dos EUA no acordo inclui corte de emissões da ordem de 28% até 2025 e apoio em dinheiro para países menos desenvolvidos se adaptarem à mudança climática. O acordo enfureceu Trump, que já classificou o “conceito de aquecimento global” como um “embuste perpetrado pela China para tornar as manufaturas americanas não competitivas”.

O QUE PODE ACONTECER? Trump tem, pelo menos, três opções. A primeira, e mais improvável, é permanecer no Acordo assumindo as metas de Obama. A segunda é oficializar a saída definitiva dos Estados Unidos, o que demandará votação no Congresso e amplo desgaste internacional. E a terceira, e mais provável opção, será fazer um pouco dos dois: manter-se formalmente no Acordo para não ceder espaço à China, mas sem se mover para reduzir as emissões nos Estados Unidos.

“Vamos procurar amizade e boa vontade com as nações do mundo - mas vamos fazer isso com o entendimento de que é o direito de todas as nações colocar seus próprios interesses em primeiro lugar.”

O PERFIL DAS EMISSÕES AMERICANAS l Segundo país mais poluidor do mundo, depois da China, os Estados Unidos emitem 18% de todo gás de efeito estufa da Terra. l Só o petróleo responde por quase metade de todas as emissões americanas (42%), a uma média de 19 milhões de barris por dia (ou algo como a queima de três trilhões de litros diários). l Em seguida vem o carvão, um dos combustíveis

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fósseis mais poluentes do mundo, que responde por 32% das emissões americanas e 39% de toda eletricidade gerada nos Estados Unidos (algo como a queima de 2,1 milhões de toneladas de carvão por dia). l E por fim vem o gás natural, responsável por 27% da energia elétrica que abastece os lares e indústrias americanos. O país consome nada menos que um quinto de todo gás natural produzido mundialmente.


ARTES: SANAKAN

O fim do Plano de Energia Limpa Apresentado por Obama como “o mais importante passo que os EUA já deram para combater a mudança climática”, o Plano de Energia Limpa dos Estados Unidos foi lançado em 2015 com a promessa de reduzir em 32% as emissões de 3.100 usinas de geração elétrica do país movidas a carvão, petróleo e gás natural.

A meta ridicularizada por Trump prevê a redução de emissões da ordem de 870 milhões de toneladas de carbono, 318 mil toneladas de dióxido sulfúrico e 282 mil toneladas de dióxido de nitrogênio pelos Estados Unidos até 2030. Emissão anual equivalente à de 166 milhões de carros ou 70% de toda a frota americana.

O QUE PODE ACONTECER? O imbróglio deve ser decidido pela Suprema Corte, onde já correm 24 processos movidos pela indústria fóssil e por estados americanos contra a medida. Mas Trump pode protelar a implementação do plano mesmo que a justiça vote a favor das restrições. É que eventuais disputas judiciais entre estados e União só devem começar a valer após o fim do prazo para os estados começarem a implementar suas metas. Nesta data, em 2022, Trump só estará na Casa Branca se eleito para um segundo mandato.

“O problema com o conceito de aquecimento global é que os Estados Unidos gastam uma fortuna para consertá-lo, enquanto a China e outros países não fazem nada.”

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1 MATÉRIA DE CAPA

A exploração de terras públicas protegidas

A plataforma energética de Trump envolve também a abertura de terras públicas americanas para a exploração de combustíveis fósseis. Segundo define seu novo plano de energia, a meta é “destapar” parte dos U$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados nos Estados Unidos por meio da retirada de restrições em áreas protegidas. Um dos empreendimentos mais polêmicos é o oleoduto Keystone XL, que promete reduzir em 40% a dependência energética americana da Venezuela e do Oriente Médio. Com capacidade para transportar 830 mil barris de petróleo por dia, o oleoduto de 1.897 quilômetros pretende ligar o estado de Alber-

ta, no Canadá, às refinarias do Golfo do México, no sul dos EUA. Em novembro de 2015, depois de várias consultas, o Departamento de Estado concluiu que o projeto “não servia ao interesse nacional dos EUA”. Já o Gasoduto Dakota Access, de 1.886 quilômetros, serviria para transportar o petróleo das reservas da Dakota do Norte até o estado do Illinois. O percurso atravessa o lago Oahe e territórios já demarcados de tribos indígenas Sioux, que se queixaram do impacto da construção para o seu sistema de distribuição de água e da destruição de sítios arqueológicos considerados sagrados pelos povos nativos.

O QUE PODE ACONTECER? Trump já emitiu memorandos para acelerar a aprovação de ambos os projetos. Um avanço mais radical sobre o território americano, contudo, dependerá de revisão da chamada Roadless Rule. Promovida por Bill Clinton em 2001, a legislação colocou 58 milhões de acres de florestas nacionais fora do alcance da mineração. Trump quer também eliminar a chamada “Regra dos EUA para as Águas”, ato que regulamenta a Lei Nacional de Águas e os níveis aceitáveis de emissão de nitrogênio em zonas hídricas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos. Neste caso, a flexibilização beneficiaria também o agronegócio.

“Precisamos tirar vantagem dos US$ 50 trilhões estimados em reservas inexploradas de xisto, petróleo e gás natural, especialmente nas terras federais que o povo americano possui.”

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ARTES: SANAKAN

A redução de investimentos para o monitoramento do clima Limitar pesquisas climáticas que fornecem base científica para a comprovação da mudança do clima é um sonho antigo dos aliados de Trump. Um dos primeiros alvos deve ser a Divisão de Ciência da Terra da NASA, uma das maiores fornecedoras de dados para os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) sobre fenômenos como o derretimento das calotas polares, a acidificação dos oceanos e a escalada das temperaturas na Terra.

A rede de satélites de agência espacial americana é reconhecida pela comunidade científica internacional como uma das principais fontes de dados que ajudam a monitorar e analisar os efeitos da atividade humana no clima global. Entre esses programas está a missão Gravity Recovery and Climate Experiment, que consiste em dois novos satélites que devem ser lançados entre 2017 e 2018 para estudar como o planeta está reagindo às mudanças climáticas.

O QUE PODE ACONTECER? Trump já indicou que pode eliminar as pesquisas da Nasa sobre o clima global em favor da exploração do espaço profundo. A medida provavelmente levaria à transferência da maior parte dos dois bilhões de dólares previstos no orçamento da Divisão de Ciência da Terra para a Divisão de Exploração Espacial, que inclui missões como a ida a Marte e o envio de sondas para além do Sistema Solar.

“Eu não acredito muito numa mudança climática causada pelo homem. Acho que nós temos riscos muito maiores.”

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1 MATÉRIA DE CAPA

O mundo reage “A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social.” “O Acordo de Paris é irreversível de fato e de direito. Não se trai uma promessa de esperança.”

Angela Davis, ativista norte-americana

François Hollande, presidente francês

“O Acordo de Paris foi produzido com muita luta. Todos os seus signatários precisam cumpri-lo e não abandoná-lo. É uma responsabilidade que precisamos assumir para com as futuras gerações.” Xi Jinping, presidente da China

“Espero que Trump compreenda a seriedade e a urgência do fenômeno da mudança climática.” Ban Ki-Moon, ex-secretário-geral da ONU

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ARTE: SANAKAN

“A parceria com os EUA continua a ser um pilar fundamental da política externa alemã. Esperamos enfrentar os grandes desafios do nosso tempo: a luta pelo bem-estar econômico e social e uma política climática voltada para o futuro.” Angela Merkel, presidente da Alemanha

“Por causa de políticas erradas, a posição da América na comunidade internacional e na opinião pública mundial diminuiu. A crescente ruptura dos EUA com a Europa e com o mundo exacerbará essa posição.” Hassan Rouhani, presidente do Irã

“Bem-vindos à revolução do amor, à rebelião, à nossa recusa enquanto mulheres a aceitar essa nova era da tirania. Eu escolho amor. Vocês estão comigo? Digam comigo: Nós escolhemos amor!” Madonna, cantora norte-americana, durante participação na Marcha das Mulheres, em Los Angeles (EUA)

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1 MATÉRIA DE CAPA

MARCHA contra Trump em Washington: a maior parte da população quer que os EUA apoiem o Acordo do Clima

Acordo do Clima de Paris. O Greenpeace fez um dos protestos mais contundentes até aqui, após colocar uma enorme faixa com a palavra “Resist” numa grua a poucos quarteirões da Casa Branca. Segundo Karen Topakian, uma das diretoras da organização ambientalista, “as pessoas deste país estão prontas para resistir e para se erguer de uma forma como nunca fizeram antes”. 

ARTE: SANAKAN

As mesmas avenidas de Washington que Donald Trump não conseguiu encher na data de sua posse foram tomadas, no dia seguinte, por centenas de milhares de pessoas insatisfeitas com o novo ocupante da Casa Branca. Mais de meio milhão de manifestantes, segundo os organizadores, marcharam por Washington D.C.: o maior protesto a um presidente recém-empossado já realizado na histórica americana. Nova York, Chicago, Boston e Atlanta uniram-se à marcha contra a agenda ultraconservadora de Trump, que também teve atos em cidades como Berlim, Londres, Sydney e Cidade do Cabo. “A luta para salvar o planeta, interromper as mudanças climáticas, para garantir acesso a água das terras do Standing Rock Sioux, à Flint, Michigan, a Cisjordânia e Gaza. A luta para salvar nossa flora e fauna, para salvar o ar – este é o ponto zero da luta por justiça social”, discursou uma das líderes do movimento, a ativista Angela Davis. O grupo aposta, para a luta, na própria sociedade americana. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de Yale no início deste ano, sete em cada dez americanos disseram que a mudança climática está ocorrendo, contra apenas 13% que dizem que ela não é real. Além disso, a maior parte dos americanos - 69% - diz que os EUA deveriam apoiar o

FOTO: ASTRID RIECKEN / EPA

A resistência

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1 ARTIGO

Mudança e esperança José Carlos Carvalho (*)

“N

ão se trai uma promessa de esperança”. Com essa frase, o presidente da França, François Hollande, resumiu as expectativas da comunidade internacional sobre as incertezas geradas pela eleição de Trump, em relação ao cumprimento climático global. Se o novo presidente americano confirmar suas intenções, como vem fazendo, corremos o risco de um efeito em cascata: elas servirão de pretexto para que países como China e Índia, grandes emissores de Gases de Efeito Estufa (GEEs), além de outros, possam alterar suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas, em português) ou mesmo postergar seus compromissos. A China e a Índia sempre foram resistentes a um acordo mandatório e reagiram a compromissos com metas. Por sua vez, os EUA, embora recaia agora sobre Trump a responsabilidade por um eventual fracasso do Acordo de Paris, nunca subscreveram a Convenção de Proteção da Biodiversidade e o Protocolo de Kyoto, mesmo durante os governos Clinton (com Al Gore, de vice) e nos dois mandatos de Obama. Isso reflete uma posição historicamente reacionária dos americanos, agora reforçada com a vitória dos republicanos para as duas casas do Congresso. Daí a necessidade de uma nova economia, destacando que os fundamentos da economia clássica e neoclássica, ao não valorar os ativos ambientais e não considerar os custos da degradação do meio ambiente, inviabi-

liza que a sustentabilidade se estabeleça como paradigma de um novo modelo de desenvolvimento. Sem mudanças da matriz econômica, notadamente da indústria, energia e agricultura, não será possível implantar os novos paradigmas da prosperidade. Nesse contexto, a única mudança certa continuará sendo a mudança do clima. TEMPOS DIFÍCEIS Parece, enfim, que a civilização ensoberbou-se, atirada à fúria hedonista, à compleição consumista, cada vez mais longe de qualquer resquício de humanidade, sem ternura, nem afeto. Mas, temos de ser otimistas, não estamos próximos do fim. O planeta tem bilhões de anos e a civilização humana é um átimo desse tempo. Mesmo que o nosso arraigado antropocentrismo ainda turve o nosso olhar e nos faça esquecer que somos parte da natureza, que a Terra é o lar da humanidade, chegou a hora de escolhermos um novo caminho não perecível. Afinal, Trump não decidirá sozinho. Embora sua arrogância o faça crer que pode tudo, ele terá que decidir com o resto do mundo. Aí, quem sabe, vislumbraremos a rota da sobrevivência comum, da sustentabilidade e da harmonia com a natureza. Da austeridade, da fraternidade entre os povos, da paz e da solidariedade planetária, capazes de nos trazer um novo renascimento.  (*) Ex-ministro de Meio Ambiente.


AMBIENTE É O NOSSO MEIO SUSTENTABILIDADE

FOTO ALFEU TRANCOSO

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1 POLÍTICA AMBIENTAL

OS DESAFIOS DE

KALIL FOTO: DIVULGAÇÃO

Além de devolver a importância política que a secretaria municipal de Meio Ambiente já teve, quando da sua criação, cujo modelo democrático de gestão e legislação avançada já serviu de exemplo para várias capitais do país, Kalil tem cinco “pedreiras” ambientais para resolver

KALIL com seu vice, Paulo Lamac, na Mata do Planalto: a hora de implantar soluções para os problemas ambientais de BH chegou. Mas elas serão prioridades? 40  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

Hiram Firmino e Luciano Lopes redacao@revistaecologico.com.br

O

novo prefeito de BH, Alexandre Kalil, tem uma responsabilidade enorme pela frente. Não será fácil. Mas ele prometeu, a seu jeito: “Meio ambiente é o seguinte: não vamos deixar agredir o que ainda temos de natureza. Temos de cuidar dos parques e jardins, e existe um órgão ambiental (a secretaria verde) que não funciona. Tem gente qualificada lá, é só fazê-la funcionar. O trabalho de sustentabilidade não representa voto, por isso que o meio ambiente que nos resta ainda é tão desconsiderado e maltratado”. E deu exemplo, com propriedade: “Podemos acabar com a maioria dos problemas de saúde na capital cuidando, preventivamente, do saneamento básico. Evitar doenças, ao invés de tratá-las depois” ��� ele afirmou na campanha, durante encontro com ambientalistas. Quais os seus principais desafios, diante da desimportância histórica acumulada tanto pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que pode ser a sua “menina dos olhos”, quanto pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), a sua “ferramenta política”? Pretende valorizar os dois para consolidar, de maneira sustentável, o desenvolvimento econômico e o crescimento imobiliário com a preservação da pouca natureza que nos resta? É o que a Revista Ecológico e os ambientalistas históricos da capital mineira sugerem a seguir.


FOTO: TAVINHO MOURA

DEZ toneladas em média de lixo ainda são retiradas por dia da Lagoa da Pampulha: até quando?

1 - DESPOLUIÇÃO DA PAMPULHA

Ano passado, graças ao empenho pessoal do prefeito Marcio Lacerda (leia-se também Leônidas Oliveira, seu presidente da Fundação Municipal de Cultura mantido no cargo por Kalil), o Complexo Arquitetônico da Pampulha recebeu o título de “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). E uma das condições para que a condecoração seja mantida é a despoluição total da Lagoa da Pampulha, que há décadas sofre com línguas de esgoto clandestinas e a poluição de suas margens e águas. Dentro do prazo determinado pela Unesco, o Consórcio Pampulha Viva, que realiza a despoluição, tem de concluir as ações em curso de melhoria da qualidade da água da lagoa. E, de-

pois disso, terá de manter os níveis de purificação durante mais um ano. A Sudecap realiza diariamente a limpeza do espelho d’água da lagoa, com a utilização de dois barcos e uma balsa. Esta ação terá de ser intensificada pela nova administração, além da adoção de novas soluções de recuperação ambiental, uma vez que o volume médio diário de lixo recolhido ao seu redor é de 10 toneladas durante o período de estiagem e o dobro no período chuvoso. CEREJA DO BOLO Desde as administrações e obras somadas de Marília Campos e Carlin Moura à frente da Prefeitura de Contagem, que o córrego Sarandi, principal contribuinte em volume d´água da lagoa, deixou de despejar 80% do esgoto químico, advindo da Cidade Industrial, que

chega à Pampulha. Ou seja, só falta ambas as prefeituras captarem e tratarem os 20% restantes de poluição. Nos últimos dois anos, mesmo atritados, Marcio Lacerda e Fernando Pimentel, leia-se a Copasa, também fizeram um dever de casa impensável e quase completo: descobrir os despejos clandestinos de esgotos domésticos, tanto ao longo do Sarandi, em Contagem, como às margens dos seis córregos que também caem na Pampulha, em BH. E interligá-los à rede sanitária pública, até seu tratamento na Estação do Onça, antes de encontrar com o Arrudas rumo ao Velho Chico. A cereja do bolo do atual prefeito é essa: manter e intensificar a parceria com o Estado que, ao longo de quatro anos, pode virar a realidade sonhada pela população. Se Kalil conseguir terminar o

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FOTO: CLÁUDIO GRECO

1 POLÍTICA AMBIENTAL

FOTO: RODRIGO QUEIROGA

A MINERADORA Lagoa Seca quer que o Comam volte atrás na obrigação legal de que a empresa recupere a área degradada e a devolva à população

COMPLEXO AMBIENTAL da Serra do Curral: ficou para Kalil a decisão de retomar o diálogo pela criação de um corredor ecológico ao redor de todo o cartão-postal natural de BH

Programa Intermunicipal de Despoluição da Lagoa da Pampulha, ele será lembrado como o JK ecológico que a ex-Cidade Jardim ou ex-Paris brasileira ainda não teve.

2 - PARQUE MUNICIPAL LAGOA SECA 42  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

Em 2015, após quase 50 anos de exploração permitida pela prefeitura nas franjas da Serra do Curral, logo atrás da Vila Acaba Mundo, no Sion, a Mineradora Lagoa Seca solicitou, ao Comam, a renovação da Licença de Operação (LO) até 2012. Uma das condicionantes para a sua con-

cessão foi a criação de um parque ecológico de uso público em toda a área degradada, com cinco milhões de metros quadrados, e que seria o maior da Grande BH. Mais de 10 anos depois, com o fim das atividades da mina a céu aberto, a mineradora não cumpriu o combinado.


Ainda conseguiu uma nova licença para continuar operando uma mina subterrânea. E quer que o Comam volte atrás na obrigação legal, como contrapartida ao licenciamento ambiental, de recuperar toda a área degradada e entregar um parque para a população. E, sim, ao contrário, poder implantar um condomínio de luxo, com prédios residenciais e comerciais no local, dentro de um macro projeto de paisagismo via parceria pública privada. O destino de Kalil é o mesmo e pode reacender uma antiga discussão que Marcio Lacerda não teve a coragem de encarar: a difícil, mas não impossível, tarefa de reunir os proprietários e partes interessadas e efetivamente instituir a criação do adiado parque, consorciado ou não com o setor imobiliário, como um direito natural aos mais de 2,5 milhões de habitantes de BH. Uma solução fácil, também apontada por Lacerda, não vigorou. Seria simplesmente ligar toda a área a ser recuperada com o restante já preservado da serra. Torná-la um parque natural, sem gastos com edificações, apenas de contemplação. E assim evitar o fluxo maciço de visitantes e seus carros, vans e ônibus, no já adensado trânsito congestionado da região. Solução ecologicamente correta.

3 - COMPLEXO AMBIENTAL DA SERRA DO CURRAL

Outro esperado olhar ambiental de Kalil continua na emblemática Serra do Curral, eleita de-

FOTO: GOOGLE EARTH

“É inadmissível que, em pleno século XXI, se derrube mais Mata Atlântica para construir prédios.”

O QUE RESTOU da "intocável" Mata do Planalto: "A Prefeitura tem de mediar uma transferência da obra para outro local", disse Kalil

mocraticamente pela população como o cartão-postal natural de BH, fazendo limite com a exuberante quantidade de verde e água de Nova Lima. Daí a importância estratégica da criação do Parque Municipal Lagoa Seca, que fica no meio do caminho, entre os parques Mangabeiras e Paredão da Serra. Se Kalil conseguir isso, estará irreversivelmente fortalecido outro sonho dos ambientalistas e ex-prefeitos da capital, desde Maurício Campos: a criação de um gigantesco corredor ecológico ao redor de toda a Serra do Curral, protegendo-a de vez, desde o Parque-Mata da Baleia até a sua ligação com o Parque Estadual do Rola Moça. E daí pra frente até a Serra da Calçada, em Moeda, tendo como unidades de conservação (UCs) centrais o Parque das Mangabeiras, as RPPNs do Jambreiro, Vale dos Cristais e Samuel de Paula. Bem como a ligação natural, além do Rola Moça, das estações ecológicas de Tumbá, Cercadinho e Fechos. É de onde são retirados

70% das águas que abastecem a zona sul de BH. Sem falar na maravilhosa e pouco conhecida trilha turística implantada e abandonada pela prefeitura no cimo maravilhoso da serra que tanto chateou Drummond, vide seu poema “Triste Horizonte”. O primeiro passo para a criação não apenas deste corredor, mas do Complexo Ambiental da Serra do Curral também sonhada por Lacerda, foi dado em dezembro de 2015, com a assinatura de um protocolo de intenções entre as prefeituras de BH e Nova Lima, e o Instituto Estadual de Florestas (IEF), representando o Governo do Estado. Veio 2016 com as eleições e tudo parou. Agora é só chamar o seu colega Vitor Penido e fazer acontecer!

4 - MATA DO PLANALTO

Está aí um dos mais simbólicos desafios ambientais que Kalil herdou: o embate pela preservação da Mata do Planalto, um dos mais importantes e derradeiros redutos verdes de BH, vem mobi-

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lizando moradores vizinhos numa luta que se arrasta há sete anos, contra a construção de mais de 700 apartamentos em parte da área, que tem quase 120.000 m2. Durante sua campanha, Kalil visitou o local acompanhado de seu vice, Paulo Lamac, e afirmou como colírio para as ONGs que defendem a sua total implantação e preservação: “Essa mata é intocável! A prefeitura tem que mediar uma transferência para que a obra seja feita em outro lugar. Existe um déficit de moradia de 76 mil residências na cidade. São dois problemas, portanto. Mas é inadmissível que, em pleno século XXI, se derrube mais Mata Atlântica para construir prédios” - afirmou. Só o tempo dirá se Kalil irá manter a promessa.

5 - INFERNO SONORO (1)

Cerca de 70% das reclamações registradas na Secretaria Municipal de Meio Ambiente se referem a ruídos, apontam os ambientalistas. É preciso fortalecer a fiscalização da poluição sonora, bem como intensificar o monitoramento de fontes poluidoras reincidentes, visando, principalmente, a resolução de conflitos entre áreas residenciais, bares e restaurantes. Criar mecanismos de incentivo para a realização de atividades em locais apropriados e novas áreas de lazer também são reivindicações constantes dos moradores. Desafio difícil para uma cidade chamada “dos barzinhos”, cuja população também tem o direito de dormir em paz. Mais. Corre na Câmara Municipal um projeto de lei de interesse dos pastores evangélicos para aumentar de 70 para 80 decibéis o volume máximo de som permitido para as suas igrejas, mesmo que seus fiéis e não fiéis fiquem mais surdos precocemente. Isso porque toda surdez 44  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

FOTO: REPRODUÇÃO

1 POLÍTICA AMBIENTAL

PALCO DA ESPLANADA: Por que a PBH não transfere para ali os eventos que agridem o Parque das Mangabeiras e sua vizinhança?

é lenta, progressiva e incurável. Até Deus é contra!

BARULHO INFERNAL (2)

Um outro desafio correlato que Kalil terá que acertar com a Fundação Municipal de Cultura e a Belotur. Por mais bacana que seja a programação de eventos musicais realizados pela PBH aos sábados e domingos, viver ao lado das várias praças públicas da capital, vide até mesmo na Praça JK, no Sion, tem sido um inferno para as populações vizinhas, principalmente de terceira idade, que não têm para onde fugirem. Não dá nem para ver e ouvir televisão, tamanho o barulho infernal e anti-democrático o dia inteiro. É um horror de samba-funk e outros ritmos que a maioria da população não conhece, nem curte. Sem preconceito. Em tempo: absurdo maior acontece em pleno estacionamento do Parque das Mangabeiras, para o horror acrescido da natureza salva e preservada ali com tanta luta. Ou seja, a permissão, pela PBH, de

realização de festas e shows de rock pesado até às 10 horas da noite. Perguntar não ofende: por que não concentrar esse merecido apoio que a prefeitura dá à classe artística-musical no Palco da Esplanada, na área externa do novo Mineirão, cuja reconstrução para receber a Copa das Confederações eliminou milhares de árvores ali plantadas pelos torcedores, como a Ecológico já mostrou? Hoje ali é só cimento e dinheiro público gastos em vão. Ninguém merece tamanha desolação e espaço apropriado não utilizado, caro Kalil.  Saiba, na próxima edição, quais são as duas outras “pedreiras”, essas grandes e delicadíssimas, do ponto de vista político. Mas que, se enfrentadas com coragem apartidária e amor social acima de tudo, podem fazer do Kalil mais que um prefeito ecológico; um estadista, na história de BH. Aguarde e acompanhe!

SAIBA MAIS

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1 DENÚNCIA

A DESTRUIÇÃO

CONTINUA

O Governo Temer permitir o aumento do desmatamento na Floresta Amazônica indica uma coisa: o Brasil ainda caminha na rota do retrocesso. E 2016 foi uma prova lastimável desse suicídio global

E

m 29 de novembro passado, em vez de se alarmar, o Governo Federal divulgou os dados preliminares do desmatamento de 2016. A taxa foi de 7.989 km2, um aumento de 29% em relação ao ano anterior. O Brasil tem muito o que perder com isso, não só do ponto de vista ambiental, mas também do político, social e econômico. Tal aumento não pode se tornar corriqueiro, nem ameaçar os grandes avanços ambientais do país nos últimos anos. É necessário que a sociedade, como um todo, aja para questionar este aumento e demandar, direta e indiretamente, o cumprimento da legislação ambiental, bem como

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o de uma produção mais sustentável. Este, inclusive, não foi o primeiro repique no desmatamento. Em janeiro de 2014, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), em colaboração com o IMAZON e o Instituto Socioambiental (ISA), publicou uma nota técnica alertando para o fato de que o aumento de 28% na taxa de desmatamento na Amazônia brasileira em 2013 (5.891 km2) poderia ensejar um descontrole crescente da destruição florestal na região nos anos seguintes. Infelizmente, tal prognóstico se confirmou. A taxa de 2015 atingiu 6.207 km2 e a de 2016, recém-anunciada pelo Instituto Nacional de Pesquisas


Espaciais (INPE), alcançou a previsão do fim do ano passado: 7.989 km2. Esse valor é o maior desde 2008, quando o desmatamento atingiu lastimáveis 12.911 km2. Naquele ano, drásticas medidas foram tomadas pelo governo, entre elas a criação da “Lista de Municípios Prioritários da Amazônia”, seguido do bloqueio ao crédito para produtores daquelas regiões. O recente aumento de 29% na taxa de 2016 em relação ao ano anterior não deixa dúvidas de que a tendência de redução, observada a partir de 2005, foi definitivamente revertida. O desmatamento na Amazônia em 2016 foi o maior registrado nos últimos quatro anos, mas o perfil fundiário de onde ele aconteceu permaneceu o mesmo – incluindo propriedades privadas, onde mais houve derrubada, apesar do avanço do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Além disso, o ranking dos dez municípios que mais desmataram mudou pouco nos últimos anos. “Depois de se conseguir reduzir o desmatamento para um patamar médio de seis mil quilômetros quadrados por ano, observamos primeiro uma estagnação e, agora, uma explosão de 29% em 2016. Isso mostra que o Brasil precisa melhorar as estratégias de responsabilização de quem desmata ilegalmente, mas também estimular e premiar quem faz direito”, explica a diretora de Políticas Públicas do IPAM, Andrea Azevedo. De acordo com a análise, houve pouca variação na contribuição do desmatamento por categoria

fundiária nos últimos anos: a maior derrubada aconteceu nas propriedades privadas (35,4% do registrado), seguidas por assentamentos (28,6%) e terras públicas não destinadas mais áreas sem informação cadastral (24%). l INCREMENTO DO DESMATE

As áreas sem informação cadastral tiveram participação considerável no acréscimo do desmatamento de 2016 em relação a 2015: 17%. Uma hipótese forte para explicar esse fator são as propriedades privadas que desmatam antes de entrarem no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – cujo prazo final de adesão foi estendido a maio deste ano. Outra hipótese é que elas estejam em áreas com conflitos fundiários e grilagem em terras públicas não identificadas. Nessa categoria fundiária, os estados de Mato Grosso e Maranhão respondem por 25% do desmatamento total. Colniza, o município que mais desmatou em Mato Grosso, apresenta uma grande área derrubada com esse perfil. A segunda categoria que aumentou a derrubada de florestas em 2016 foi a dos assentamentos, com 16% de incremento em relação ao registro feito no ano anterior. As APAs, que são um tipo de unidade de conservação com governança quase que exclusivamente particular, registraram o maior aumento percentual entre 2015 e 2016 (36%), indicando o papel do ente privado na conversão florestal nessas áreas. As unidades de conservação infelizmente também

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FOTO: GREENPEACE / DANIEL BELTRÁ

O MONSTRO do desmatamento acordou: em 2016, Pará, Mato Grosso e Rondônia responderam juntos por 75% da degradação do bioma amazônico


1 DENÚNCIA desmatadas e mais apoio para quem mantém seu ativo florestal, bem como mais participação do mercado e do sistema bancário no controle do desmatamento. Outro aspecto muito importante se refere à governança ambiental ligada ao desmatamento e à implementação do Código Florestal. l A CONTRIBUIÇÃO DOS ESTADOS Nesse sentido, o envolvimento dos municípios no Amazonas, Acre e Pará tiveram, nessa ordem, o processo deve voltar a ser fortalecido. A predominância do desmatamento em áreas maior aumento de taxa de desmatamento entre 2015 e 2016. Em termos absolutos, a maior área desma- privadas indica a necessidade urgente da impletada foi registrada nos estados do Pará, Mato Gros- mentação efetiva do Código Florestal. “O CAR é um so e Rondônia, que juntos respondem por 75% do instrumento de baixo custo de monitoramento de total desmatado em 2016. As terras privadas deram desmatamento, mesmo pequeno, nas propriedades. a maior contribuição ao desmatamento em cinco Com a emissão de notificações, pode-se desestimular dos nove estados da Amazônia Legal: Amapá, Mato a prática”, reforça Andrea Azevedo, do IPAM. Esse sisGrosso, Tocantins, Pará e Maranhão. Em três estados, tema também pode ser utilizado como instrumento que informe o desmatamento após Roraima, Acre e Amazonas, predo2008, para uso de todo sistema crediminaram os desmatamentos nos tício público e privado. assentamentos. Em Roraima, 35% Por outro lado, não somente melhodo desmate ocorreu em duas áreas rar as estratégias de responsabilizapúblicas não destinadas. Em Mato ção é importante. É preciso incentivar Grosso e Maranhão, 25% ocorpráticas sustentáveis e premiar entes reram em áreas sem informação privados que fazem a coisa certa é cadastral, como mencionado anfundamental. Alguns exemplos são a teriormente. Rondônia foi o único melhoria e a facilitação do acesso a estado onde o desmatamento em crédito, com mais linhas para ampliar unidades de conservação (26,8%) o uso de áreas abertas e para restaufoi campeão, sendo que quase ração ambiental; a total regulamentatodo aconteceu dentro da categoção e implementação do artigo 41 do ria de uso sustentável. Código Florestal, que estabelece insEntre os dez municípios que trumentos econômicos para conserOS DADOS analisados pelo mais desmataram, cinco se situam vação e regeneração; a compensação IPAM sobre o desmatamento no Pará: Altamira, São Felix do são do Prodes de quem tem ativo florestal em áreas Xingu, Novo Repartimento, Portel de risco, entre outros. e Novo Progresso. No Amazonas No caso da inibição do desmatamento especulaforam Lábrea e Apuí, ambos localizados no sul do estivo, que ocorre nas áreas públicas sem destinação e tado, região que tem apresentado elevados índices de nas sem informação cadastral (e, portanto, sem godesmatamento nos últimos anos. vernança), é preciso estabelecer planos mais efetivos Em Rondônia, predominou o desmatamento na de destinação de áreas, reativar o trabalho com mucapital, Porto Velho, e Nova Mamoré; em Mato Grosnicípios críticos, para estimular o envolvimento da so, em Colniza, município que já é figura constante governança ambiental local, e ampliar os recursos e (há pelo menos quatro anos) no alto do ranking esa eficácia de ações de comando e controle. Por fim, o tadual. Nos últimos anos, esses dez municípios têm aumento do desmatamento em unidades de conserse mantido consistentemente na lista dos que mais vação, principalmente perto da BR-163 e das hidrelédesmatam na Amazônia. tricas de Rondônia, mostra que é preciso consolidar essas áreas com melhor gestão e governança. l AGENDA POSITIVA Dessa forma, elas podem manter seu propósito de Mesmo dentro de um contexto de crise política e conservação dos serviços ecossistêmicos, da biodieconômica que o Brasil vive nos últimos dois anos, versidade e do modo de vida das populações locais, para se manter a queda na taxa de desmatamento, além de servirem como barreira ao avanço à destruihá de se ter um esforço feito por toda sociedade, ção da maior floresta tropical do planeta. com uma nova estruturação das ações de comando e controle, criação de uma agenda positiva de SAIBA MAIS incentivos à eficiência da produção em áreas já www.ipam.org.br FOTO: BRUNO KELLY / GREENPEACE

tiveram um aumento expressivo do desmatamento em seu interior, de 14%. É o caso do eixo da BR-163 (Cuiabá-Santarém), com destaque para a Floresta Nacional do Jamanxim, onde graves problemas de ocupação irregular acontecem.

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FOTO: VINÍCIUS MENDONÇA / ASCOM IBAMA

PANORAMA DO DESMATAMENTO

A TAXA mais baixa de desmatamento no bioma, nos últimos 20 anos, foi registrada em 2012: 4.571 km2

l NOS ESTADOS do Amazonas, Acre e Roraima, o predomínio da destruição aconteceu em assentamentos. Em Rondônia, prevaleceu o desmatamento em unidades de conservação, seguido bem de perto pela categoria de assentamentos. Ainda há em torno de 25% de desmatamentos em áreas sem identificação nos estados de Mato Grosso e Maranhão. l OS POLÍGONOS de desmatamento que predominaram em 2016 continuam sendo aqueles de até 30 hectares, perfazendo uma área de 60% dos desmatamentos totais (o “puxadinho” continua).

Grosso; todos apareceram no ranking dos “dez mais” nos últimos quatro anos. l NA PRÁTICA, o país terá de chegar em 2020 com aproximadamente 3.925 km² de desmatamento anual, um caminho na direção do anseio da sociedade em zerar o desmatamento na Amazônia, compreendendo um importante passo para a estabilização climática, sem comprometer o desenvolvimento econômico e social da região.

l NOS ASSENTAMENTOS, 87% dos polígonos desmatados têm até 10 hectares. Desses, 68% da área responde a polígonos maiores de seis hectares. Polígonos entre seis e 10 ha costumam exigir maquinário, o que não sugere o padrão típico de desmatamento realizado pela agricultura familiar, que varia de um a três hectares e feito prioritariamente com mão-de-obra familiar.

l De 2009 a 2015 o desmatamento mantevese estagnado em um patamar médio de 6.080 km2. Em 2012, ainda obteve-se a taxa mais baixa registrada nos últimos 20 anos na Amazônia (4.571 km2). Na sequência, foram registrados sucessivos aumentos e pequenos recuos. Tal dinâmica já indicava que “a gordura” fora queimada e que o esforço de redução para taxas ainda menores, como estabelecido na PNMC (Política Nacional de Mudanças Climáticas), seria maior e mais desafiador.

l DOS DEZ MUNICÍPIOS que mais desmataram em 2016, cinco estão localizados no Pará, dois no Amazonas, dois em Rondônia e um em Mato

l NOS ÚLTIMOS dois anos, as taxas registradas pelo INPE aumentaram, chegando em 2016 a 7.989 km2 , a maior desde 2008.

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FOTO: DANIEL BELTRÁ / GREENPEACE

1 BIODIVERSIDADE

QUASE 220.000 hectares de Mata Atlântica foram regenerados no Brasil entre 2009 e 2015, em nove dos 17 estados que integram o bioma

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A REGENERAÇÃO

AVANÇA

Levantamento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo INPE aponta Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina como os estados que mais recuperaram a floresta em 30 anos

FOTO: ECOLÓGICO

Boa notícia! A Fundação SOS Mata Atlântica e o to zero: “Agora, o desafio é recuperar e restaurar Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) as florestas nativas que perdemos. Embora o ledivulgaram em janeiro uma avaliação inédita da vantamento atual não assinale as causas da regeregeneração da Mata Atlântica. O “Atlas dos Re- neração, ou seja, se ocorreu de forma natural ou manescentes Florestais da Mata Atlântica”, que de iniciativas de restauração florestal, é um bom monitora a distribuição espacial do bioma, iden- indicativo de que estamos no caminho certo”, obtificou a regeneração de 219.735 hectares (ha), ou serva Marcia. Ao longo da história, a ONG foi responsável o equivalente a 2.197 km2, entre 1985 e 2015, em nove dos 17 estados do bioma. A área correspon- pelo plantio de 36 milhões de mudas de árvores nativas espalhadas pelo país, esde a aproximadamente o tamanho pecialmente nas áreas de preserda cidade de São Paulo. vação permanente, no entorno de Paraná foi o estado que aprenascentes e margem de rios prosentou mais áreas regeneradas dutores de água, além de restauno período avaliado, num total de rar uma área em Itu, uma antiga 75.612 ha, seguido de Minas Gerais (59.850 ha), Santa Catarina fazenda de café, que hoje é destinada para atividades relacionadas (24.964 ha), São Paulo (23.021 ha) a questões de conservação dos e Mato Grosso do Sul (19.117 ha). recursos naturais e restauração O estudo, patrocinado pela Braflorestal. desco Cartões e com execução téc“Durante o monitoramento, nica da Arcplan, analisa a regeneconstatou-se a existência de ouração sobre formações florestais tras áreas ocupadas por comuque se apresentam em estágio ininidades de porte florestal em dicial de vegetação nativa, ou áreas MARCIA HIROTA: "Estamos versos estágios intermediários de utilizadas anteriormente para no caminho certo" regeneração, áreas essas que depastagem e que hoje estão em estágio avançado de regeneração. Tal processo se vem ser mapeadas e divulgadas em futuros estudeve tanto a causas naturais quanto induzidas dos”, esclarece Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador por meio do plantio de mudas de árvores nativas. e coordenador técnico do estudo pelo INPE. Nos últimos 30 anos, houve uma redução de 83% do desmatamento do bioma. De acordo com Márcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SAIBA MAIS www.sosmataatlantica.org.br SOS Mata Atlântica, sete dos 17 estados da Mata www.inpe.br Atlântica já apresentam nível de desmatamen-

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FOTO: DIVULGAÇÃO

VIAS PAVIMENTADAS na região de Santana do Paraíso (MG): solução sustentável para o agregado siderúrgico

CAMINHOS DO VALE Programa socioambiental da Usiminas doa produto beneficiado para prefeituras que desenvolvem iniciativas socioambientais

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cipação socioambiental – uma das ações desenvolvidas por um grupo de trabalho (GT Coprodutos) que envolve diversas áreas da empresa – já beneficiou mais de 500 mil pessoas desde o início das doações, em 2015. O destino do agregado siderúrgico produzido na Usina de Ipatinga são os municípios da região que atendem a uma série de requisitos socioambientais, econômicos e estruturais definidos pela Usiminas. FOTO: WILIAM DE PAULA

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or muito tempo, o agregado siderúrgico – resultante do beneficiamento da escória de aciaria e oriundo do processo produtivo da indústria do aço – era destinado principalmente para grandes projetos de pavimentação rodoviária e ao aterro controlado. Uma mudança de paradigma transformou esse material, por meio da segregação e beneficiamento, em coprodutos com diversas aplicações em mercados como agricultura, cimento, lastro ferroviário, construção civil e reciclagem interna. O programa “Caminhos do Vale”, da Usiminas - que lhe valeu o reconhecimento como “Melhor Projeto de Parceiro Sustentável” na última edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade” -, viabiliza a pavimentação de estradas rurais no Vale do Aço a partir desse agregado. A iniciativa já aplicou mais de um milhão de toneladas utilizadas em cerca de 600 quilômetros de estradas rurais, na restauração de 50 quilômetros de vias urbanas e na recuperação de 35 pontes, encostas e áreas degradadas. Ao todo, o projeto de coparti-

ROBERTO MAIA: "As prefeituras irão garantir a correta aplicação do agregado doado"

“Temos a preocupação de nos certificar e aprovar, por meio de critérios como investimentos em projetos nas comunidades, infraestrutura de equipamentos, além de recursos humanos, financeiros e técnicos, que as prefeituras irão garantir a correta aplicação do agregado doado”, afirma Roberto Maia, diretor-executivo da Usina de Ipatinga. MAPEAMENTO De acordo com Henrique Hélcio Eleto dos Santos, coordenador do GT Coprodutos da Usiminas, foram mapeadas 57 prefeituras para receberem o agregado siderúrgico. Dessas, cinco foram escolhidas inicialmente: Ipatinga, Santana do Paraíso, Coronel Fabriciano, Timóteo e Marliéria. Neste ano, esse número deverá ser ampliado para 17 municípios. “As prefeituras que não foram contempladas nessa primeira fase foram incentivadas a melhorar ou instituir um programa de gestão ambiental e a promover iniciativas socioambientais, como a recuperação e proteção de nascentes, plantio de árvores, cuidados com a fauna e flora, entre outras ações”, explica Henrique.


Em Marliéria, foram oito nascentes e diversas áreas degradadas recuperadas, 169 nascentes mapeadas e um curso de recuperação e proteção de nascentes implementado para a comunidade, em parceria com o Senar Minas (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). O objetivo é promover a consciência ambiental no uso dos resíduos. Entre as iniciativas em Santana do Paraíso, um programa de educação ambiental foi implementado nas escolas do município, com a proposta de conscientizar os estudantes sobre a correta disposição de resíduos, uso racional da água e conservação de áreas de preservação permanente. Outro projeto instituído, o Horta Municipal, envolve a comunidade, em parceria com a prefeitura, na alavancagem da economia local por meio da melhoria na logística e distribuição de produtos rurais. Além disso, o projeto promove a doação dos alimentos produzidos aos lares de idosos e à população carente do município. Para Henrique, o Programa Caminhos do Vale proporciona às comunidades envolvidas maior conforto, segurança e mobilidade. “Com a pavimentação, evita-

FOTO: LEONARDO GALVANI

HENRIQUE Hélcio (à esq.), com o Grupo de Trabalho Coprodutos: "As melhorias nas vias rurais possibilitaram acesso rápido e fácil dos moradores"

-se o isolamento que ocorria devido à precariedade das estradas no período chuvoso. As melhorias realizadas nas vias rurais possibilitam um acesso rápido e fácil dos moradores das comunidades às sedes dos municípios, ampliando significativamente a assiduidade dos alunos nas escolas rurais. Em Marliéria, o acesso escolar, que era de 77% em 2014, subiu para 100% no ano seguinte, após as obras de pavimentação realizadas por meio do programa.” Já para a Usiminas, o Programa Caminhos do Vale superou as expectativas em relação à promoção FOTO: DIVULGAÇÃO

Em Marliéria, foram oito nascentes e diversas áreas degradadas recuperadas, 169 nascentes mapeadas e um curso de recuperação e proteção de nascentes implementado para a comunidade, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Minas)

da preservação ambiental e ao desenvolvimento social, proporcionando destinações sustentáveis aos resíduos gerados no processo industrial, reduzindo o descarte do coproduto em Aterros Controlados e otimizando estocagem e recursos financeiros. “A proposta do Grupo de Trabalho Coprodutos é consolidar novas aplicações, transformando o agregado siderúrgico em matéria-prima para o desenvolvimento de outros produtos como cimento, corretivo, fertilizantes agrícolas, artefatos de concreto e lastro ferroviário, entre outras possibilidades”, finaliza.

O AGREGADO siderúrgico pode ser transformado em coprodutos a serem aplicados em segmentos como agricultura e construção civil

2 JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  53


FOTO: ANDRÉ FIRMINO PEREIRA

SABIÁ-LARANJEIRA artesanal feito de agregado siderúrgico: do resíduo à arte

Acostumada a fazer trabalhos artesanais com tecidos, a pedagoga, artesã e contadora de histórias Adriane Lima recebeu o desafio de criar arte a partir de um material inusitado: o agregado siderúrgico da Usiminas, que é originado do processo produtivo na Usina de Ipatinga. O convite foi feito pelo Instituto Cultural Usiminas como o ponto de partida para a realização de oficinas na última edição da Expo Usipa, feira de negócios realizada anualmente no Vale do Aço. O objetivo era ensinar ao público maneiras criativas de transformar o material antes visto somente como rejeito industrial em arte sustentável. “Quis criar algo que unisse os dois universos, o da Usiminas e o de Ipatinga, que têm histórias interligadas. O bem natu54  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

ADRIANE utiliza retalhos de uniformes, pó de agregado siderúrgico e o agregado em pedra na confecção dos passarinhos artesanais

ral mais reconhecido da cidade são os pássaros, muito presentes nos quintais das casas, especialmente o sabiá-laranjeira”, explica Adriane. A artista mergulhou em um trabalho de pesquisa para desenvolver o pássaro artesanal, que utiliza retalhos de uniformes da usina, pó

FOTO: ANDERSON MARTINS PEREIRA

Arte e sustentabilidade

de agregado siderúrgico e o agregado em pedra, que serve de suporte para a peça. “Inicialmente, só usaria o pó para rechear o corpo do passarinho. É um material muito interessante, bastante moldável. Meu marido trabalha há 30 anos na Usiminas e me contou que o


material existe também em forma de pedra. A partir daí, selecionamos as que tinham tamanho e formato adequados.” Depois da realização da primeira oficina, que foi um sucesso de público, o sabiá artesanal criado por Adriane alçou voos maiores. “Faço parte da associação de artesãos de Ipatinga, a Casa do Ar-

PASSO A PASSO l OS RETALHOS dos uniformes usados pelos funcionários da Usina de Ipatinga são recortados de acordo com o molde do sabiá-laranjeira. l OS TECIDOS são costurados – exceto as asas, que serão coladas depois – e um furo é deixado para que o pó do agregado siderúrgico seja introduzido com a ajuda de um funil. Depois de o passarinho ser preenchido, o furo é fechado. l A PEDRA de agregado siderúrgico, já selecionada de acordo com o tamanho e o formato, é lavada e colada ao sabiá. l AS ASAS recebem um produto para evitar que o tecido desfie e são coladas.

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FOTO: FELIPE LESSA

FOTO: ELVIRA NASCIMENTO

PENÉLOPE PORTUGAL: "Com criatividade, é possível encontrar formas de reutilizar materiais gerados pela atividade da indústria do aço"

tesão, e buscávamos algo que representasse a nossa ecologia urbana. O passarinho acabou sendo um passo importante nesse processo, principalmente por aliar símbolos conhecidos da população local”, afirma a artista. De acordo com Adriane, as peças têm sido cada vez mais solicitadas por familiares, amigos e moradores que querem presentear visitantes. A diretora do Instituto Cultural Usiminas, Penélope Portugal, destaca a importância de se aliar sustentabilidade e arte. “Fazemos parcerias com artistas da região para levar à comunidade atividades lúdicas que utilizam o agregado siderúrgico como matéria-prima, como na pintura e na ilustração, por exemplo. Esse trabalho mostra que, com criatividade, é possível encontrar formas de reutilizar materiais gerados pela atividade da indústria do aço”, afirma a diretora. 


1 CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

TRÊS CONSTRUTORAS, TRÊS EXEMPLOS MRV, Direcional e Masb confirmam a tendência de mais verde, eficiência energética e economia em seus projetos FOTO: DIVULGAÇÃO

MRV MAIS VERDE Boa e ecológica notícia do setor para a capital mineira: a MRV acaba de divulgar o balanço de quantas novas árvores ela plantou nas regiões onde atua com os seus empreendimentos imobiliários. De 128 mil espécies espalhadas pelo país, 6.274 foram plantadas em BH. E, segundo José Luiz Esteves, gestor executivo de Saúde, Segurança e Meio Ambiente, mesmo batendo meta, a política de desenvolvimento sustentável da empresa não vai parar por aí. “Pelo contrário, isso não vai nos acomodar. A MRV tem a sustentabilidade como valor, o que significa que vamos continuar plantando árvores em grande escala, em todos os municípios onde estivermos presentes”, disse ele. A natureza agradece.

FOTO: GLAUCO LÚCIO

JOSÉ LUIZ: árvores como valor

FOTO: DIVULGAÇÃO

O EDIFÍCIO SEDE: reconhecimento gratificante

EDIFÍCIO Soul Jaraguá: conciliar é preciso e lucrativo 56  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

DIRECIONAL GANHA SELO PROCEL O edifício-sede da Direcional Engenharia, em BH, recebeu o Selo “Procel de Economia de Energia para Edificações”, concedido pela alta eficiência energética do projeto, o qual também apresenta elevado potencial de economia e redução de impactos ambientais. Na avaliação, a empresa recebeu nota máxima nos três sistemas mensurados: envoltória, iluminação e condicionamento de ar. “Esse reconhecimento é muito gratificante. Nós estamos entre um seleto grupo de edificações eficientes do Brasil e essa é a confirmação da nossa expertise em desenvolver empreendimentos sustentáveis”. Foi o que destacou Pedro Paulo Capparelli, superintendente de Engenharia Técnica da Direcional. Fundada em 1981, a empresa é a segunda maior construtora do país, presente em 26 cidades de 12 estados brasileiros. JACARANDÁ INCORPORADO Vem da Construtora Masb outro exemplo que, melhor que jogar um pé de jacarandá portentoso no chão, é incorporar sua beleza no projeto construtivo e comercial. Foi o que ela fez na construção do Edifício Soul Jaraguá, no bairro de mesmo nome, próximo ao Aeroporto da Pampulha. Para evitar o seu corte, a empresa preferiu recuar um pouco o projeto construtivo para não atrapalhar nem diminuir o crescimento da bela árvore. Resultado confirmado por Bárbara Souto, que responde pela área de incorporação da Masb: “O que perdemos com o recuo da área ganhamos a mais com a valorização e embelezamento ambientalmente corretos da obra”. 


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PERFIL FOTO: DIVULGAÇÃO / ADCE-MG

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ANTONIO BATISTA, presidente-executivo da FDC: "O Brasil nunca precisou tanto de bons professores e líderes"

“A EDUCAÇÃO É

REVOLUCIONÁRIA” Bia Fonte Nova

redacao@revistaecologico.com.br

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recente almoço-palestra promovido pela Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE Minas), no auditório da Fiemg, em Belo Horizonte, teve como convidado o atual presidente-executivo da Fundação Dom

58  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

Cabral (FDC), Antonio Batista da Silva Junior. À frente da melhor escola de negócios da América Latina, ele falou sobre os “Desafios do líder no contexto atual” e frisou que a educação é ferramenta essencial para transformar a socieda-

de, rumo a um mundo melhor para todos. Otimista, ele lembrou que a atual crise brasileira somente será superada com a emergência de novas lideranças. Confira, a seguir, os principais destaques de sua apresentação:


QUEM É ELE Mineiro de Belo Horizonte, Antonio Batista da Silva Junior, 53 anos, tomou posse no começo deste ano. Ele substituiu Wagner Furtado Veloso, que passou a integrar o Conselho Curador da FDC. Doutor em administração de empresas e especialista em Business Policy pelo Insead (França), Batista atuou como diretor-executivo de Programas Customizados, professor de Estratégia Competitiva e Alianças Estratégicas e em projetos de desenvolvimento organizacional. Pelo 11º ano consecutivo, a FDC foi eleita a melhor escola de negócios da América Latina, segundo o ranking de educação executiva 2016 do jornal britânico Financial Times. Ela ocupa, ainda, o 17º lugar no ranking geral, que classifica as melhores escolas de negócios de todo o mundo. É casado e tem dois filhos.

l CORAÇÃO DA ATIVIDADE “Tenho muito orgulho de pertencer à Fundação Dom Cabral (FDC), instituição na qual estou há 27 anos e que, felizmente, tem valores muito próximos aos da ADCE Minas. Sobretudo no que se refere à ética e ao sentido de utilidade pública, uma vez que ambas têm a sociedade como o coração da sua atividade.”

desenvolvimento de executivos, não só em Minas e no Brasil, mas também no exterior.”

l 40 ANOS DA FDC “O convite para que eu assumisse a presidência-executiva partiu do professor Emerson de Almeida, nosso fundador, e surgiu no esteio de uma grande reflexão estratégica que fizemos. Afinal, a FDC celebrou 40 anos de existência. É uma data extremamente marcante, que nos incentiva a olhar tanto para trás, para tudo o que construímos, quanto para frente, para os projetos que ainda precisamos construir. Graças a Deus, construímos uma imagem muito boa, em especial no que se refere ao

l DE PERNAS PARA O AR “Vou compartilhar aqui algumas ideias que constam de nossa reflexão estratégica. Quero começar com uma frase: ‘Estamos vendo o mundo de pernas para o ar’. As transformações são imensas e o mundo não é mais como antigamente. O homem foi muito feliz no processo civilizatório. Conseguiu dominar a natureza interna e externa através da tecnologia: chegou à lua, criou produtos e serviços até então impensáveis.” “No entanto, ainda nos mostramos intolerantes ao diálogo e

CAPA da edição histórica da Revista Ecológico sobre a mensagem de esperança de líderes e educadores

pouco abertos ao diferente. Como resultado, temos assistido a vários conflitos ideológicos e étnicos, no Brasil e no restante do mundo. Além do desenvolvimento tecnológico, que faz negócios erodirem e surgirem numa velocidade impressionante, a transformação dos organismos internacionais e o terrorismo são outros fenômenos do mundo contemporâneo.” l DESIGUALDADE É DESAFIO “No Brasil, não é diferente. Vivemos o paradoxo do crescimento/ riqueza versus desigualdade. No século 20, registramos uma das maiores taxas de crescimento da história, nos posicionando entre as dez maiores economias mundiais.

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JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  59


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P E R F I L - A N TO N I O B AT I S TA DA S I LVA J U N I O R

No entanto, o abismo entre o andar de cima e o de baixo (classes sociais) persiste. O grande desafio de nossa geração é aproximar esses extremos, diminuindo a desigualdade e forjando uma classe média forte. Nenhum país cresce e se desenvolve sem uma classe média forte, atuante como consumidora e politicamente participativa.” l DEMOCRACIA IMPERFEITA “Somos um país de prós e contras. Temos baixo nível de inovação e de abertura para o mundo exterior: são raríssimas as nossas marcas globais. O setor público, por sua vez, não entrega serviços essenciais, como transporte/mobilidade, saúde, segurança e educação. Temos instituições fortes, uma economia diversificada, mas em termos de infraestrutura ainda há muitas deficiências.” “Vivemos numa democracia imperfeita. Afinal, no Brasil enfrentamos graves problemas de governança, corrupção, falta de transparência e baixo nível de participação política, fatores que levaram a uma crise de confiança que, por sua vez, decorre de uma crise de liderança.” “Para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa recente, o Exército é a instituição na qual os brasileiros mais confiam. Não tenho nada contra o nosso glorioso Exército, mas não era para ser assim... A classe menos acreditada é a dos políticos, seguida da dos homens de negócios/executivos. Essa percepção dos brasileiros é, sem dúvida, reflexo da crise de liderança que enfrentamos.” “Essa crise de confiança nas instituições atinge até mesmo a Igreja. Uma realidade que nos leva a fazer uma ampla reflexão sobre ética e a relação entre o público e o privado. Acredito que a crise atual só será superada com a emergência de novas lideranças, e o Brasil, nunca precisou tanto de bons líderes 60  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

“Acredito que a crise atual só será superada com a emergência de novas lideranças, e o Brasil nunca precisou tanto de bons líderes e de bons empreendedores como agora.” e de bons empreendedores como agora. Somente com líderes fortes, regidos por uma nova ética e com um novo jeito de atuar nas diferentes esferas: empresarial, política, religiosa, social, etc. teremos um país e um mundo melhores.” l AGENTES DO PROCESSO “O empreendedor é um sujeito que tem duas características básicas. Primeiro, a vontade de fazer algo significativo. Segundo, a coragem de assumir riscos. Na FDC, frisamos sempre que precisamos de executivos que sejam menos escravos da performance e mais agentes do progresso. Gestores capazes de pensar sistematicamente, para além do econômico-financeiro e de maneira sistêmica, considerando não só o crescimento de suas empresas, mas sobretudo o desenvolvimento do país.” l GÊNIO DA GARRAFA “Nesse contexto, também é importante refletir sobre o papel da educação, das pessoas e das escolas de negócios. Quero lembrar aqui alguns conceitos, como o de capital humano, surgido há cerca de 50 anos, com o norte-americano Gary Becker [1930-2014], ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Capital humano são todas as capacidades e habilidades de um indivíduo. E, segundo Becker, a educação é o único caminho que

permite às pessoas aumentarem o seu capital humano.” “Portanto, a educação é revolucionária. Só ela salva, transforma o indivíduo e as corporações. O sujeito é o que ele sabe e conhece. E quando uma pessoa se instrui, ninguém mais toma conta dela. Para mim, o processo de educação e de aprendizagem é como ‘tirar o gênio da garrafa’. Uma vez aberta a garrafa, ele se liberta, é outro a partir daí.” “Ao longo dos últimos anos, o Brasil registrou avanços importantes no desenvolvimento da educação. Ainda estamos atrasados em vários aspectos, mas a agenda e o foco, sem dúvida, evoluíram. Hoje, considera-se muito mais a qualidade do que a quantidade. Mas o Brasil só colocou 100% das crianças na escola no fim do século 20. Nos anos 1970, quando éramos um país de 90 milhões de habitantes – época em que comecei a frequentar a escola primária –, só 40% das crianças iam para a escola. A Argentina, por exemplo, colocou 100% de suas crianças na escola no fim do século 19.” l CAPACIDADE DE DIÁLOGO “Mas e no campo da educação executiva: por que as empresas procuram as escolas de negócios? Na FDC, treinamos cerca de 35 mil executivos brasileiros e estrangeiros por ano. Elaboramos cerca de 300 programas customizados e temos 600 empresas de médio porte associadas ao Programa Paex [Parceiros para a Excelência, voltado para o aumento da competitividade e dos resultados]. O primeiro motivo que leva as empresas a nos procurarem é o interesse em melhorar seus resultados financeiros. Nesse exato momento, temos 300 professores espalhados pelo Brasil, ajudando as empresas em sua gestão econômica.” “Em segundo lugar, as empresas buscam a FDC para desenvolver


l NOVAS IDEIAS “É importante estar atento aos novos paradigmas que estão surgindo, fazendo com que as empresas e as corporações revejam, por exemplo, o conceito de resultado. O resultado financeiro continua sendo vital, ele é o oxigênio das empresas. Mas a forma como elas o alcançam está mudando. Ele não está mais centrado apenas na produtividade e na eficiência do trabalho, está em outros meios e em outros valores.” “O resultado financeiro foi o mantra dos anos 1980/1990, quando Michael Porter [professor da Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas mundiais em estratégias de competitividade] nos ensinou que quanto mais robusta fosse a estratégia de uma empresa, maior seria a sua lucratividade frente ao concorrente. Essa era a máxima de Porter.” “Mas será que o conceito de resultado financeiro mudou por que cansamos de medir o desempenho das empresas por EVA [valor econômico agregado], por VLP [valor presente líquido] e por Ebitda [lucro antes do pagamento de impostos, juros e depreciações]? Claro que não. Mudou porque novas ideias e conceitos surgiram no mundo.” l NOVOS CONCEITOS “Hoje, está claro que o conceito de resultado tem que se transformar de financeiro para sustentável. Ou seja, o que determina a performance da empresa não é o resultado financeiro em si, mas também a sua capacidade de se sustentar no mercado. Não adianta só ter lucro; é preciso demonstrar respeito, ter transparência e abertu-

FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

seus líderes. Querem ter em suas equipes executivos que sejam cada vez mais capazes de pensar para além do próprio umbigo, de olhar para fora e para frente e, se preciso, de inventar o futuro.”

“Capital humano são todas as capacidades e habilidades de um indivíduo. E, segundo o norte-americano Gary Becker (1930-2014), vencedor do Prêmio Nobel de Economia, a educação é o único caminho que permite às pessoas aumentarem o seu capital humano.”

ra para dialogar com a sociedade e com todos os seus stakeholders [diferentes públicos de interesse].” “Na prática, isso envolve uma série de outras variáveis, entre elas o conceito de reputação. Afinal, o capital reputacional é tão importante quanto o capital produtivo/ financeiro. Reputação é sinônimo de respeito, da credibilidade que uma organização carrega.” “Outra variável importantíssima é o conceito de resiliência. Todos sabemos que problemas sempre vão acontecer, seja com produtos, serviços ou no relacionamento com clientes. Cabe às empresas se perguntarem qual é a sua capacidade de enfrentar desafios, de se adaptar e de promover as transformações necessárias para superar as crises e os momentos difíceis.”

l DISPERSÃO DO PODER “Quero citar também alguns fenômenos que estão ocorrendo em escala mundial e impactando de forma direta a vida das pessoas e das organizações. O primeiro é a dispersão do poder. Antigamente, ele estava concentrado na propriedade dos fatores de produção, no capital físico, no capital financeiro e na terra. Com tempo, ele migrou para outros lugares. Hoje, o poder está nas mãos da sociedade, das ONGs, do cidadão comum.” 

Em tempo: para ler o texto na íntegra, acesse www.revistaecologico.com.br

SAIBA MAIS

www.fdc.org.br www.adcemg.org.br

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  61


INFORME PUBLICITÁRIO

VIVEIRO de mudas construído em Itabira, em operação desde o ano passado, produzirá 2,8 milhões de mudas até 2018

PLANTANDO O FUTURO

AVANÇA

Projeto que promove a recuperação do meio ambiente em Minas Gerais entra na fase de plantio em áreas degradadas

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“Projeto Plantando o Futuro”, coordenado pela Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), inicia 2017 promovendo o plantio de 600 mil mudas de árvores. As mais de 61 espécies nativas da Mata Atlântica e do Cerrado foram produzidas em viveiro construído em Itabira, na Região Central do Estado, por meio de convênio assinado com o Instituto Espinhaço.

62  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

O viveiro de Itabira começou a funcionar no segundo semestre de 2016. Ele conta com 14 profissionais que cuidam de todos os processos da cultura arbórea, desde o trato com as sementes até a fase de retirada das plantas para reintrodução na natureza. O local continua em processo de ampliação para gerar 1,2 milhão de mudas até o fim deste ano e 1,6 milhão até dezembro de 2018. Atualmente na fase de mobilização social e operacional para os

plantios, o “Plantando o Futuro” está usando como metodologia para definição de áreas prioritárias a sobreposição e a convergência de quatro pilares. O primeiro deles leva em consideração os levantamentos das necessidades dos órgãos públicos de fornecimento hídrico: a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), os Serviços Autônomos de Água e Esgoto (SAAE) e os Serviços de Saneamento Integrado do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Copa-


Coryntho José de Oliveira Filho, integrante do Instituto Espinhaço

nor). Nesse aspecto, o foco é a melhoria do serviço público oferecido diretamente ao cidadão mineiro. MAIS EFICIÊNCIA Outro ponto de sustentação são os dados registrados pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR), que garantem ao governo estadual e ao “Plantando o Futuro” informações necessárias para construir políticas ambientais mais eficientes. Os dados de cada propriedade rural possibilitam o monitoramento da situação das Áreas de Preservação Permanente (APPs), das de Reserva Legal, das florestas e dos remanescentes de vegetação nativa, bem como das Áreas de Uso Restrito e daquelas já consolidadas. Para assegurar a análise precisa dos mananciais existentes em cada local também estão sendo contemplados os diagnósticos e os planos diretores dos comitês regionais de bacia hidrográfica do Estado. A metodologia torna-se completa com a inclusão também das informações detalhadas pelos Mapas de Zoneamento Ambiental Produtivo (ZAP) e dos Mapas de Vulnerabilidades

BENEFÍCIOS REAIS De acordo com o diretor-administrativo do Instituto Espinhaço, Felipe Xavier, o cruzamento dessas informações nunca havia sido feito. “Depois de analisados, esses quatro critérios serão lançados em mapas, que serão sobrepostos. As áreas que reunirem os quatro pilares ou a maioria deles terão maior foco”, ressalta. Xavier salienta que o acompanhamento do plantio não termina quando a muda é colocada na terra. “Em cada área, firmamos um termo de adesão ao projeto com o proprietário e também um termo de responsabilidade pelas mudas. A partir daí, nossa equipe técnica elabora um plano de recuperação

e efetua o plantio. Após essa etapa, é feito um monitoramento da muda durante 120 dias. Se ela morrer, plantamos outra”, explica. Na linha de frente da produção de futuras florestas, o viveirista Pedro Arthur de Oliveira acredita que o trabalho diário com cada semente e muda trará benefícios reais para a população mineira. “Qualquer um fica feliz ao ver que as plantas são tratadas com carinho. Com o cuidado que você tem, elas respondem ficando bem vistosas. Todos aqui têm o mesmo sentimento, são da região e têm esse trato com a terra. As mudas produzidas aqui vão ser introduzidas na natureza para um bem comum, que é a produção de água, e isso já dá uma satisfação enorme”, conclui.

SAIBA MAIS

www.codemig.com.br www.plantandoofuturo.mg.gov.br

FOTOS: DIVULGAÇÃO / PLANTANDO O FUTURO

“O que o Instituto Espinhaço identificou como oportunidade é a união dos entes que trabalham nesse ramo há anos. Cruzamos as informações para fazer um processo que envolva todos. Até então, cada um trabalhava com foco em sua região específica.”

Climáticas, ambos do Governo de Minas Gerais. Essas ferramentas permitem a adequação socioeconômica e ambiental de propriedades, com foco na sustentabilidade.

TRANSFERÊNCIA de mudas da sementeira para tubetes

2 JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  63


FOTOS: DIVULGAÇÃO

INFORME PUBLICITÁRIO

UMA EMPRESA do oeste de Minas Gerais conseguiu dar uma solução sustentável e economicamente viável ao resíduo sólido gerado no beneficiamento do granito, que é usado para produzir tijolos ecológicos e peças pré-fabricadas

Indústria mineira dá seu exemplo Atento à importância de compatibilizar a conservação dos recursos naturais com o crescimento da economia, o Governo de Minas Gerais tem apostado também na sinergia com o setor produtivo. Exemplo disso é o “Banco de Boas Práticas Ambientais na Indústria”, criado em 2013, numa iniciativa conjunta da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). Seu objetivo é identificar e divulgar boas soluções adotadas pelas indústrias em seus processos fabris ou gerenciais, que resultem na redução do consumo de água, energia elétrica, matérias-primas e insumos, fomentando a produção de bens e serviços com menor impacto ambiental.

64  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

A adoção dessas práticas ecológicas garante ainda um diferencial competitivo às empresas participantes, assegurando a redução dos custos de produção e beneficiando também o consumidor final. Para 2017, a expectativa da FIEMG e da FEAM é ampliar a divulgação do Banco de forma a abranger mais setores industriais, aumentando o conhecimento técnico das empresas para a melhoria da gestão ambiental. De 2013 até agora foram publicados nove estudos de casos, de diferentes setores: mineração, laticínios, rochas ornamentais, siderurgia, revestimentos cerâmicos, açúcar e álcool. A publicação de um case rende uma validação à empresa. Outro ponto importante é que vá-

Para 2017, a expectativa da FIEMG e da FEAM é ampliar a divulgação do Banco de Boas Práticas Ambientais de forma a abranger mais setores industriais, aumentando o conhecimento técnico das empresas para a melhoria da gestão ambiental


ENTENDA MELHOR

l O “Banco de Boas Práticas Ambientais na Indústria” é aberto a iniciativas de qualquer tipo de atividade econômica, sujeita ou não aos procedimentos de licenciamento ambiental, desenvolvida em Minas Gerais. l Para participar, acesse o link goo.gl/OPdHXg e preencha o formulário acrescentando informações sobre a empresa e a iniciativa. Depois, envie-o para o e-mail boaspraticas@ meioambiente.mg.gov.br l O(s) formulário(s) deve(m) ser acompanhado(s) de documento que autoriza a publicação da(s) iniciativa(s), com assinatura do representante legal da empresa. l A inclusão no banco somente é feita após a análise das informações pelas equipes da FEAM e FIEMG. Adicionalmente, poderá ser realizada uma visita técnica para melhor compreensão das práticas adotadas pelas empresas. l Poderão ser inscritas várias iniciativas por uma mesma empresa, devendo ser preenchido um formulário para cada iniciativa. SAIBA MAIS

Gerência de Produção Sustentável da FEAM: (31) 3915-1111 Gerência de Meio Ambiente da FIEMG: (31) 3263-4504

rios exemplos publicados passam a ser replicados por outras empresas, funcionando como fórum de troca de experiências. “Sabemos que muitas indústrias têm a ecoeficiência como premissa de suas atividades e esses exemplos precisam aparecer. Nossa intenção é ampliar a divulgação do Banco no interior de Minas Gerais, por meio dos nossos escritórios regionais e

APÓS ANÁLISE laboratorial, o resíduo de granito foi considerado não perigoso e não inerte, garantindo seu uso múltiplo em produtos da construção civil

com o apoio da FEAM”, salienta o analista ambiental da FIEMG Breno Aguiar de Paula.

ESFORÇO RECONHECIDO Entre as boas práticas já validadas estão os exemplos do setor de granito. Uma empresa pioneira no ramo de desdobramento de chapas no oeste de Minas conseguiu dar destino sustentável e rentável ao resíduo sólido gerado no beneficiamento do granito. Ele é usado como matéria-prima para a produção de tijolos ecológicos e peças pré-fabricadas, tais como pisos, meios-fios, lajotas e muros. A alternativa desenvolvida também visa transformar esse resíduo em argamassa para reboco. O reconhecimento da FEAM/FIEMG, obtido em 2016, colocou a empresa em situação privilegiada em relação aos concorrentes. Hoje, ela tem um processo industrial bem organizado, com métodos e práticas de gestão ambiental profissionalizadas e eficientes.

O trabalho foi iniciado em 2011 e o atual patamar só foi alcançado graças ao comprometimento da liderança da empresa. Ela compreendeu e compartilhou a visão de que a gestão ambiental pode ser mais do que um simples suporte à atividade produtiva, e sim uma forma de mensurar a eficiência dos processos e aumentar a produtividade da indústria. 

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  65


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FOTO: DIVULGAÇÃO LAMIECCO

INOVAÇÃO AMBIENTAL

PARA CADA 3 m² de piso ecológico são usadas 30 garrafas PET e um pneu de veículo de passeio

DE PET A PISO LAMINADO Produtos são confeccionados a partir da reciclagem de garrafas, onde inovação e sustentabilidade orientam todas as etapas do processo Iaçanã Woyames

redacao@revistaecologico.com.br

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ateriais que levariam até 400 anos para serem decompostos na natureza são reaproveitados no desenvolvimento de produtos que atendem às indústrias moveleira, automobilística, de eletroeletrônicos e construção civil, entre outras. É o que faz a Lamiecco, indústria situada no município de Montauri (RS), a cerca de 230 km de Porto Alegre, focada na produção de revestimentos ecológicos cujos produtos são confeccionados a partir da reciclagem de garrafas PET. “Reciclamos mais de oito milhões de PETs por mês. Para cada 3 m² de piso ecológico usamos 30 garrafas pet e um pneu de veícu-

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lo de passeio. Já no revestimento para parede e box, usamos dez garrafas por metro quadrado”, conta Alexandre Figueiró, diretor-presidente da Lamiecco. Figueiró conta que a empresa atua com processos com impacto significativo no meio ambiente disponibilizando produtos com alto valor agregado. O próximo lançamento da marca ocorrerá em breve. “Trata-se de um piso patenteado pela Lamiecco e criado para substituir os pisos vinílicos. Todos os lotes do produto têm atestado de qualidade”, afirma. Ele diz que o preço será de 10% a 15% mais competitivo. “Com a vantagem de ser sustentável e com capacidade superior de atenuar

FIQUE POR DENTRO

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Fundo FIP INSEED FIMA - Fundo de Inovação em Meio Ambiente tem R$ 165 milhões de capital comprometido para aportar em até 20 empresas de tecnologias limpas. Desde 2012, a INSEED Investimentos, gestora do Fundo, prospectou 1.271 empresas e 12 desenvolveram seu projeto de investimento. Já foram aprovados R$ 36,2 milhões em sete empresas. Informações e inscrições pelo site: www.inseedinvestimentos.com.br/fima


COMO FUNCIONA O processo de reaproveitamento do material começa com a separação das garrafas por cores e por origem (as enviadas por coleta seletiva têm a reciclagem facilitada), seguida pela remoção de rótulos e tampas. Depois de passar por uma linha de superlavagem, onde é descontaminado com água quente e produtos químicos, o material é transformado em flocos plásticos. Por um processo de extrusão, os flocos são derretidos e fundidos novamente em formato laminar. O equipamento, importado dos Estados Unidos, produz até uma tonelada de lâminas a cada hora. Após o resfriamento, as chapas passam pela texturização, onde ganham formato e cor conforme a encomenda do cliente. Além de cuidar do meio ambiente, Figueiró garante a beleza e qualidade aos projetos de decoração que utilizam os Pisos Ecológicos Lamiecco. “Fabricados com tecnologias limpas e matérias-primas de origem reciclada, são 100%

FOTO: FLÁVIA SCHENATTO

FOTO: DIVULGAÇÃO LAMIECCO

ruído, por conta da borracha de pneu que faz parte da composição do produto.” A empresa desenvolve seus produtos com base em matérias-primas recicladas. A reciclagem movimenta empregos diretos e indiretos, desde a coleta de materiais até o seu processamento. Unidades de captação, seleção de matérias-primas e cooperativas de catadores, por exemplo, abastecem o setor de reciclagem. Desta forma, incentivamos atividades de inclusão social e coleta seletiva. A indústria recicla anualmente mais de 100 milhões de garrafas PET. A previsão é que, com o lançamento do Piso Ecológico, a Lamiecco passe a demandar também mais pneus reciclados, que serão utilizados na composição do produto.

ALEXANDRE FIGUEIRÓ: “Retiramos oito milhões de garrafas PET por mês do meio ambiente e as utilizamos na fabricação dos produtos”

ecológicos e garantem proteção por muito mais tempo. Retiramos mais de oito milhões de garrafas PET por mês do meio ambiente e as utilizamos na fabricação de nossos produtos, que atendem às demandas de diversos segmentos de acordo com necessidades específicas. Práticos e resistentes, vão da obra ao móvel. São chapas, bobinas e fitas de borda em cores sólidas e acabamentos especiais ou madeirados. Reunindo estilo, técnica e sustentabilidade, fornecemos soluções sustentáveis, tecnicamente eficientes e esteticamente alinhadas com as necessidades do mercado de revestimentos de superfície”, reforça o diretor. No segmento industrial, a Lamiecco atua junto ao setor moveleiro e de construção civil. No segmento corporativo, seus revestimentos se adequam às necessidades técnicas e estéticas de diversos nichos, tais como hotelaria, educacional, saúde e corporativo. “Oferecemos também produtos para o varejo e atuamos em boutiques de revestimentos, home centers e revendas”, reforça. A Lamiecco possui ainda o CTL (Centro Tecnológico Lamiecco), responsável pelo Sistema de Ga-

rantia de Qualidade (SGQ) e o PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovações). “Garantimos o controle da qualidade dos produtos, que atendem às normas requisitadas pela ABNT”, reforça Alexandre. Entre as novidades deste ano, a empresa vai lançar o Piso Ecológico, cuja patente de inovação coloca a Lamiecco como única fabricante no mundo a produzir pisos flexíveis a partir da reciclagem de PET e pneus, o Lamiecco Extra, revestimento com alta resistência superficial para substituição de laminados de alta pressão e o Lamiecco Fixa Fácil, revestimento autoadesivo prático e higiênico que permite obras e reformas sem sujeira e interdição de áreas. “A Lamiecco hoje conta com 70% de sua carteira de clientes formada por revendas em todo o Brasil e 30% por indústrias moveleiras, entre as quais estão as principais marcas do segmento”, reforça Alexandre. COMO FUNCIONA A Lamiecco é uma das

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  67


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INOVAÇÃO AMBIENTAL

Ficou sem saber o que fazer com o jornal velho? A Cooperativa de Artesanato Futurarte, criada pela Instituição Social Ramacrisna com o objetivo de gerar trabalho e renda para mulheres em vulnerabilidade social da zona rural de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte (MG), transforma jornal velho em lápis. Um exemplo de empreendedorismo inovador-sustentável que une os benefícios de um produto comum com o diferencial da sustentabilidade. Os lápis são produzidos de forma artesanal: folhas inteiras de jornal são enroladas em torno do grafite com uma técnica criada e aprimorada pelas cooperadas. Nenhum produto químico tóxico é adicionado. A cola especial usada une o jornal ao grafite de forma que a textura fica similar à tradicional madeira usada na confecção desses objetos. A coleção conta também com outros 19 itens como nécessaires, Kit Chá Comigo, Kit Café, Giz de Cera Sustentável, entre outros. Todos produzidos com material reaproveitado - como jornal, arames, banners – e com peças de tear e cerâmica criados dentro da própria cooperativa. Saiba mais: www.futurarte.com.br

FOTO: SUELLEN RUDIGER

Jornal que vira lápis

Um outro exemplo interessante no mercado é a Insecta Shoes que transforma peças de roupas usadas de brechó e tecido feito de garrafas de plástico recicladas em botas, oxfords, sandálias e slippers. Com apenas dois anos de vida, a empresa já reciclou 2.100 peças de roupas, 630 kg de tecidos e 1.000 garrafas pet. Cada parte do sapato tem um porquê e um objetivo de redução de dejetos, reinserindo produtos que seriam jogados fora, gerando um novo produto. Desta forma a sola é feita de borracha reciclada, com excedente da indústria, que é triturada e prensada. Contraforte e Bico: as partes que dão forma e estrutura para os sapatos são feitas de plástico reciclado. Já o tecido têm duas linhas, uma de tecido vintage, que reaproveita tecidos de segunda mão ou roupas de brechó; a outra é feita de tecidos de garrafa PET reciclada e/ou algodão reciclado. A palmilha é formada por restos de tecidos e outros materiais que são sobras da indústria, os quais são processados e reformatados. Nenhum dos produtos tem origem animal. Saiba mais: www.insectashoes.com.br

investidas do FIP INSEED FIMA – Fundo de Inovação em Meio Ambiente, gerido pela Inseed Investimentos, primeiro fundo do Brasil destinado ao segmento de inovação aplicada ao meio ambiente. E os recursos recebidos em 2014 foram destinados à ampliação da capacidade produtiva, Pesquisa & Desenvolvimento e em contratações para posições de liderança. O CEO afirma que a relação en68  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017

tre sustentabilidade e inovação sempre marcou o desenvolvimento dos produtos. “Essa postura resultou no aporte de R$ 9 milhões, feito em janeiro de 2014, pelo FIMA.” Segundo ele, os recursos foram utilizados para ampliar o mix de produtos e na compra de equipamentos. Hoje, cerca de 30% do faturamento já vem dos novos produtos. Também ampliamos o uso de ferramentas para planejamento estratégico e

FOTO: RICARDO ARA

Insecta shoes

implantamos controles. “A nossa parceria com a Inseed, por meio do FIP INSEED FIMA, uniu competências que vão contribuir para atingirmos nossos objetivos. Por meio desse acordo, há o equilíbrio societário e vamos aliar nosso conhecimento da indústria com o conhecimento em gestão estratégica da equipe da Inseed para alcançar o crescimento sustentável da Lamiecco”, reforça Figueiró. 


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GESTÃO & TI

ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

#BEPUSH A LA FERNANDO PESSOA

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nova onda do império (ou será o imperativo da nova onda da internet?), que o douto e-leitor escolha, é o #bepush. Pura presunção da minha parte, fui eu quem a inventou, mas não me penitencio. Tem tanta gente dizendo pra você: faça isso... faça aquilo... Sou só mais um na multidão. Push, do inglês, é “empurrar”. Fica feio dizer isso: “empurre a escolha para o freguês”. Sejamos mais tecnológicos e, nem por isso, menos educados. O tecnicismo push significa ofertar algo através de um dispositivo, de um site, de um aplicativo, do que for. Para uns é empurrar mesmo. Eu te entrego o produto que você não quer, trinta dias de graça, promessa de cancelamento automático e, nada disso acontecendo, por conta de sua desatenção, ó você pagando pelo que nunca comprou. Vingo-me de ti, que mal me consideras, junto com Álvaro de Campos, um dos heteronômios do poeta Fernando Pessoa: “Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. 0 dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara.” Vingo-me assim, desmentindo! Meu push é honesto, é serviço, é escolha. Funciona assim: nesses novos tempos de robôs que falam e aprendem sobre mim, quero que meus fornecedores me conheçam e me ofereçam o que de melhor tiverem para minha escolha. As companhias aéreas sabem, e se não sabem, deviam saber, tudo de minha parte. Se viajo, trabalhando, quero sentar na frente, via de regra não tenho bagagem e o corredor é minha escolha. Se viajo em férias, despacho as malas, vai a família toda junta: vale o fundão, a turma do gargarejo, vale até o banheiro, todo mundo espremidinho. Vai que eu queria então receber um push: - Roberto, vimos que você vai viajar com sua família. São quatro com você, não é isso? Quer reservar os lugares 23A, B, C, E e F? Só clicar! Só alegria!

#Prontoeuqueria! Mas não é o que fazem! Entopem meu e-mail de ofertas que eu nem leio. Mas quando eu preciso deles, cadê? Esses são tempos de ser #push, todo mundo tem que ser. Imagine você entrar no Netflix e, em lugar de sugestões, você poder receber ofertas de acordo com sua personalidade, seus gostos, o que você já viu, mas não o filme inteiro. Imagine você conseguir ver o pedacinho exato que vai te emocionar e servir pra você dizer: vou ver agora! Imagine você entrar no supermercado e o carrinho dizer: “Boa noite, Roberto, você esteve com a gente no dia tal e comprou um bom vinho a um preço fantástico. Temos aqui uma oferta parecida pra você com desconto! Exclusivo!”. Aí você chega lá e vê que o desconto é só para você, de verdade, que não é o mesmo que estava no folheto e todo mundo podia comprar. Sim, estamos em tempos de #push, mas precisa ser #push honesto. Dizem que os robôs vão tomar o lugar de muitos e que isso é muito perigoso... Eu, de meu lado, acho que perigoso é as pessoas usarem a tecnologia com desonestidade. Eu, de meu lado, prefiro um robô honesto, fazendo push das coisas que eu gosto de verdade, a um vendedor humano me empurrando ofertas que eu nunca desejei comprar. 

TECH NOTES l Brinque com o Watson TED e conheça

técnicas de PUSH para conteúdo watson.ted.com

l Faça esta pesquisa no Watson TED para

aprender sobre escolhas:“What about having so many choices to buy so that you can not make a good choice?”. Basta entrar em watson.ted.com, logar com o Facebook e colar essa pergunta. Você vai aprender muito sobre escolhas... (*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.

JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO

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FOTO: MARCOS SUGUIO/DIVULGAÇÃO NATURA

1 EMPRESA & MEIO AMBIENTE

EXEMPLO BRASILIS Ranking global Corporate Knights elege a Natura como a empresa mais sustentável do Brasil

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fabricante de cosméticos subiu 42 posições em relação a 2016, FOTO: DIVULGAÇÃO

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ão é preciso ir para fora do país para encontrar empresas compromissadas com a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável. E que, inclusive, já incorpora, de forma visionária, a sustentabilidade em seus processos de produção, na manutenção responsável das matérias-primas e em seus produtos. A Natura é um exemplo disso. De acordo com o ranking Global 100, elaborado pela companhia canadense de mídia e pesquisa Corporate Knights, a empresa 100% brasileira foi apontada como a mais sustentável do país e a 19ª do mundo. Esta é a oitava vez consecutiva que a Natura aparece na lista. A

JOÃO PAULO FERREIRA: "A sustentabilidade perpassa toda a nossa história"

quando ocupou o 61º lugar. O levantamento das 100 empresas mais sustentáveis foi apresentado em 17 de janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Elas tiveram os melhores desempenhos entre quase cinco mil companhias analisadas com valor de mercado superior a US$ 2 bilhões. A lista, que está em sua 13ª edição, é determinada por 14 indicadores de sustentabilidade, incluindo a receita que as companhias usam por unidade de energia consumida, a relação entre a remuneração do presidente da empresa e o salário médio dos colaboradores, a capacidade de inovação e o percentual de impostos pagos.


A Natura tem a gestão integrada dos aspectos financeiro, social, ambiental e cultural incorporada em sua cultura organizacional e em todos os seus processos. Foi a primeira companhia de capital aberto a se tornar uma Empresa B certificada, em dezembro de 2014, e tem como ambição gerar impacto positivo para a sociedade até 2050. “A sustentabilidade perpassa toda a nossa história, desde a opção pelo modelo de negócios de venda direta – gerando renda para mais de 1,8 milhão de consultoras – até o desenvolvimento, a fabricação e a distribuição de nossos produtos”, afirma o presidente da Natura, João Paulo Ferreira. O uso sustentável da biodiversidade amazônica é um dos

principais vetores de inovação da companhia, que tem mais de 80% de seus ingredientes de origem vegetal. Seus produtos também se diferenciam pelo uso de álcool orgânico em todas as linhas de perfumaria e por suas embalagens ecoeficientes, com materiais reciclados pós-consumo, PET reciclado e refis. “As empresas do Global 100 são expoentes poderosos da ideia de que fazer melhor para a sociedade e o planeta também pode ser financeiramente recompensador”, disse Toby Heaps, CEO da Corporate Knights. 

FIQUE POR DENTRO

SAIBA MAIS

www.natura.com.br www.corporateknights.com/ reports/global-100

Fundada em 1969, a Natura é uma multinacional brasileira de cosméticos e produtos de higiene e beleza. Líder no setor de venda direta no Brasil, registrou R$ 7,9 bilhões de receita líquida em 2015, possui mais de sete mil colaboradores, 1,9 milhão de consultoras e operações na Argentina, Bolívia, Chile, México, Peru, Colômbia e França. A estrutura da companhia é composta por fábricas em Cajamar (SP) e Benevides (PA), oito centros de distribuição no Brasil, um hub logístico em Itupeva (SP) e centros de Pesquisa e Tecnologia em São Paulo (SP) e Nova Iorque (EUA).

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OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  XX


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1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - ARQUIPÉLAGOS BRASILEIROS Com dimensões continentais e belas paisagens, Brasil tem arquipélagos oceânicos e fluviais que são verdadeiros santuários de vida e biodiversidade Luciana Morais

redacao@revistaecologico.com.br

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om mais de 40% de seu território coberto pela maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, o Brasil também é superlativo quando se trata do seu litoral e de seus rios. E nesses dois cenários – de águas salgada e doce – ricos tanto em beleza paisagística quanto em biodiversidade, os arquipélagos são um verdadeiro convite à viagem e às novas descobertas. Em um tratado da ONU, em 1995, foi reconhecido que o território brasileiro aumentou em 3.646.514 km2, passando a ter 12.161.390 km2. Essa área extra é oceânica e diz respeito à Zona Econômica Exclusiva, que se estende da plataforma continental ao talude continental. Dentro desse polígono há muitas riquezas minerais, biológicas e paisagísticas, incluindo muitos arquipélagos. As ilhas costeiras e oceânicas, em grande parte, compõem a costa rochosa, que ainda é pouco conhecida cientificamente. Segundo

especialistas, apenas no estado do Rio de Janeiro 49% de todo o litoral é rochoso e a maior parte é formada por ilhas. Os estados de São Paulo e de Santa Cantarina também têm grandes extensões de litoral rochoso com arquipélagos. SUBIDA DO MAR As ilhas costeiras se desenvolvem sobre a plataforma continental que vai até a profundidade de 200 metros e tem rochas idênticas às do continente. Mesmo porque, há 20 mil anos, no período glacial, toda essa região marinha estava emersa, ou seja, o nível do mar estava a 130 metros abaixo do atual. Essas ilhas eram, naquela época, apenas morros e montanhas no continente. Com a subida do nível do mar, a partir de 18 mil anos atrás, essas elevações ficaram ilhadas. Por outro lado, entre três e seis mil anos atrás o nível do mar oscilou bastante e chegou a 4,5 metros acima do atual, transformando montanhas,

como o Pão de Açúcar, em ilhas. Algumas ilhas costeiras mais conhecidas abrigam capitais de estado, como São Luís (MA), Vitória (ES) e Florianópolis (SC). No entanto, há centenas de ilhas médias e pequenas, principalmente entre Santa Catarina e Rio de Janeiro, por terem costa montanhosa. Muitas ilhas são famosas pelo turismo, como Itaparica (BA), Ilha Grande (RJ) e Ilhabela (SP). Há ainda muitas ilhas costeiras reconhecidas por sua importância ecológica. Nelas existem diferentes formações, tais como: costa rochosa (falésias, costões e lajes), estuários, baías, planícies e praias. Sobre elas se desenvolvem ecossistemas de costão, mangues, restingas e recifes de corais. ABRA OS OLHOS As ilhas oceânicas geralmente emergem de grandes profundidades e são compostas de rochas vulcânicas, ou seja, já foram vul-

Você sabia...

...que o Arquipélago Malaio, localizado entre os oceanos Índico e Pacífico, com mais de 20 mil ilhas é o maior do mundo em área? Suas ilhas se dividem por territórios da Indonésia, Filipinas, Singapura, Brunei, Malásia, Timor-Leste e Papua-Nova Guiné.

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cões no passado. O arquipélago de Trindade (ES), por exemplo, tem sua base a cinco mil metros de profundidade e fica a 1.100 quilômetros da costa. Fernando de Noronha (PE) também nasce de grande profundidade. O arquipélago oceânico mais próximo é o dos Abrolhos, distante cerca de 70 km da costa brasileira, no extremo sul da Bahia, composto também por rochas vulcânicas, sobre as quais se desenvolveram recifes de corais. Em virtude da grande visitação turística e depredação, inclusive pela pesca, foi criado em abril de 1983 o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o primeiro dessa categoria no país. De acordo com a tradição nos meios náuticos, o nome Abrolhos tem origem na advertência: “Abra os olhos!”, encontrada em antigas cartas náuticas dos portugueses aos navegantes, alertando para o perigo representado pela grande quantidade de recifes submersos existentes na região. O Arquipélago de Noronha, formado por 21 ilhas de origem vulcânica, também precisou ser transformado em área de preservação em razão do turismo predatório. Seu território foi anexado ao estado de Pernambuco em 1988

e apenas a maior das ilhas, Fernando de Noronha (16,2 km2), é habitada. A entrada de visitantes é limitada e se cobra uma taxa de preservação ambiental. As ilhas de Trindade e Martim Vaz (ES) têm 10,7 km2 de área. São usadas como base da Marinha e também para atividades de observações meteorológicas, não ocorrendo ocupação humana. São as ilhas brasileiras mais distantes, mas com muitas histórias impressionantes, que merecem ser conhecidas. Vale destacar, ainda, algumas ilhas oceânicas bem pequenas e distantes, como os minúsculos penedos de São Pedro e São Paulo (PE), que afloram 900 km a nordeste do litoral. O Atol das Rocas (RN), por sua vez, é um pouco maior, e fica a 250 km do continente. O acesso é difícil, devido à presença de recifes de corais, e ele foi transformado em reserva biológica em 1979.

FIQUE POR DENTRO

TIPOS DE ARQUIPÉLAGOS Continentais: conjunto de ilhas formadas por rochas do continente. Acredita-se terem evoluído a partir da fragmentação do supercontinente Pangeia, episódio que separou os continentes como são formados atualmente. Vulcânicos: formados por erupções vulcânicas marítimas, localizam-se longe dos continentes e no meio dos oceanos, na Dorsal Oceânica, onde há maior concentração de vulcões submarinos, responsáveis por sua estruturação. Eles são produzidos na zona de divergência de placas tectônicas, onde elas continuam se separando. Coralíneos: formados por carbonato de cálcio, substância proveniente do exoesqueleto de corais e madrepérolas, que se depositam em águas rasas.

ILHAS FLUVIAIS No quesito água doce, o Brasil também é privilegiado. O Arquipélago de Marajó, com 40,1 mil km², é o maior conjunto de ilhas fluviomarinhas do mundo, banhadas pelos rios Amazonas e Tocantins

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JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  75


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - ARQUIPÉLAGOS BRASILEIROS ças, curiosamente o dobro do número de habitantes da região. A Ilha de Bananal é genuinamente fluvial e a maior do mundo nesse critério. Com 25 mil km², está localizada no Tocantins, entre dois grandes rios: o Javaés e o Araguaia, nas divisas com Goiás e Mato Grosso. Reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera, abriga aldeias indígenas das etnias Javaés e Karajá. Outro destaque brasileiro é o

Arquipélago de Anavilhanas, situado no Rio Negro (AM), numa área de mais de 350 mil hectares. O parque nacional, criado em 2008, se estende pelos municípios de Manaus (30%) e Novo Airão (70%). A parte fluvial do parque, com mais de 400 ilhas, representa 60% da unidade de conservação. O principal atrativo turístico é a interação com os botos-vermelhos, além dos passeios de barco e das trilhas terrestres.

ANAVILHANAS O parque nacional funciona o ano inteiro. Na seca (de setembro a fevereiro) é possível desfrutar das praias de areias brancas que emergem por todo o arquipélago. Na cheia (de março a agosto) a atração são as trilhas aquáticas de igapó, com passeios de barco por dentro das florestas alagadas. Em qualquer época, porém, é possível visitar o Flutuante dos Botos, nadar no Rio Negro, conhecer comunidades tradicionais ribeirinhas e o artesanato local. A partir de Manaus, é possível chegar a Novo Airão, sede do parque, de carro, táxi-lotação, ônibus ou barco.

FERNANDO DE NORONHA Com 3.500 habitantes, Noronha é formado por 21 ilhas. A principal e maior ilha é a que dá nome ao local, única habitada. As demais estão contidas na área do parque marinho, um dos santuários ecológicos mais importantes do mundo. Para chegar até lá de avião, há dois voos diários partindo do Recife e dois de Natal. Pelo mar, a dica são os navios que atracam no local de outubro a fevereiro.

FOTO: LINCOLN BARBOSA

e também pelo Oceano Atlântico. Esse arquipélago cresce constantemente em função do gigantesco aporte de sedimentos trazidos diariamente pelo Rio Amazonas. A cidade de Belém (PA) fica a sudeste do canal que separa Marajó do continente. Com 16 municípios, sua capital é Soure, berço da tradicional cerâmica marajoara. O arquipélago é famoso, ainda, por ter o maior rebanho de búfalos do Brasil, com cerca de 600 mil cabe-

ABROLHOS O parque nacional protege mais de 91 mil hectares de áreas marinhas, abrangendo o Recife de Timbebas, o Parcel dos Abrolhos e o Arquipélago dos Abrolhos, composto pelas ilhas Redonda, Siriba, Sueste, Guarita e Santa Bárbara. Anualmente – de julho a novembro – recebe as exuberantes baleias Jubarte, que aproveitam suas águas quentes, tranquilas e pouco profundas para acasalar. A cidade mais próxima é Caravelas (BA). Para Teixeira de Freitas, distante cerca de 80 km de Caravelas, há voos comerciais regulares, com partidas de Confins (MG). 76  ECOLÓGICO | JAN/FEV DE 2017


FOTO: DIVULGAÇÃO

TRÊS PERGUNTAS PARA...

ANTÔNIO PAULO DE FARIA

Professor-doutor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especializado em Geomorfologia Fluvial/Costeira, Hidrologia e Dinâmica de Ambientes de Montanha

MARAVILHAS NATURAIS A região de Abrolhos abriga a maior biodiversidade marinha conhecida em todo o Atlântico Sul. Quais são, do ponto de vista geológico, as principais peculiaridades desse arquipélago? Abrolhos é de formação vulcânica, mas fica no meio da plataforma continental. Ao contrário das outras ilhas oceânicas que nascem de grandes profundidades, sua base está a poucas dezenas de metros de profundidade. O vulcão é de formação antiga, cerca de 50 milhões de anos. Nessa época, a América do Sul estava começando a se afastar da África. Todavia, quando esse vulcão se formou, o Atlântico ainda não existia, havia apenas um golfo. Ele teve fase continental e marinha. Com a movimentação da placa tectônica, o antigo vulcão se afastou da fonte de magma, que fica exatamente onde ocorre a separação dos continentes e, com isso, se extinguiu. Talvez por isso, Abrolhos seja especial para o Brasil. Está em águas quentes e rasas e é formado por rochas vulcânicas. Essas rochas geralmente têm muitas cavidades formadas por fendas de tamanhos e formas variados, servindo de abrigo para a fauna marinha. Há uma relação direta entre rugosidade da rocha e diversidade de espécies marinhas. Quais são as maiores ameaças à conservação ambiental dos arquipélagos brasileiros? A maior ameaça direta é o turismo predatório. O excesso de pessoas traz dano à fauna e à flora. Além disso, boa parte das pessoas não é educada para frequentar ambientes sensíveis. A pesca em larga escala é outro problema sério. Barcos com redes enormes passam perto dos arquipélagos, arrastando indiscri-

Nós apoiamos essa ideia!

minadamente muitas espécies, incluindo as não comerciais e frágeis. Outra ameaça são os navios que jogam as águas de lastros em ambientes exóticos. Eles não podem navegar vazios porque ficam instáveis. Para melhorar a navegabilidade, quando não têm carga, seus tanques são enchidos de água marinha. Ao chegarem a outro país, despejam essa água repleta de organismos exóticos provenientes de outros continentes, que viram pragas e causam grande impacto na fauna local. Como a maioria das ilhas brasileiras fica na rota dos navios, esse problema é constante. Rapel e escalada são atrativos turísticos em arquipélagos do Brasil e do exterior. Montanhista há 30 anos, o senhor já abriu mais de 100 vias de escalada. Que experiências pode nos contar? Abri muitas linhas de escalada em diversas ilhas do litoral do Rio de Janeiro. Algumas foram com objetivo científico, para coletar amostras e mapear a geologia. Descobri muitas coisas interessantes, principalmente, pude entender melhor como o litoral do Sudeste do Brasil evoluiu e observar a diferença do impacto das ondas nos costões e nas falésias. Isso influencia diretamente a fauna e a segurança da costa rochosa. Em relação à escalada como atividade esportiva, é uma sensação indescritível escalar longe das cidades, dos carros e, ao mesmo tempo, poder observar uma fauna magnífica. Infelizmente, observamos também muito lixo levado pelas correntes marinhas. Mas o mais triste é constatar a enorme quantidade de detritos deixados pelos pescadores. Tudo isso é possível observar lá do alto dos paredões. 

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NATUREZA MEDICINAL

MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

GONÇALO ALVES (Astronium fraxinifolium)

FOTO: MARCOS GUIÃO

GONÇALO ALVES

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sol já se ia alto e o suor escorria feito riacho pelo cangote, juntando a camisa no corpo e sungando as calças já úmidas na cinta. Guardei o facão na bainha e fiquei mirando os forros do mundo, azulado nos fundos ramiados com as penugens de nuvens aqui e acolá. Fadiga muita nessa correção de trecho na buscação de remédios. Ufh! Inda bem que o embornal já tava cheio e a missão dando ponto de cumprida. Fiquei me alembrando de como se dei com a planta que havia acabado de colher, a Gonçalo Alves (Astronium fraxinifolium). Pra começo de prosa logo me espantei com essa planta que tem nome e sobrenome de gente. Como assim? De onde veio isso? Inté hoje num fiquei sabendo a origem e se alguém souber me escreva contando; eu agradeço por demais. De princípio, me embaraçava um pouco na hora de diferençá ela de outra, mas com o passar dos anos fui criando intimidade com as árvores do Cerrado. Daí descobri seu cheiro, que é muito aparentado com manga e num demorou um tim pra botá reparo no empareado das folhas. Por fim, peguei o jeitão dela e hoje só bato o olho e já identifico. Serventia muita ela tem e também gastei tempo pra tomar ciência de tudo. De premero era só uso das cascas no xarope lambedor e depois foi se desdobrando. Utilidade boa me contou um militar aposentado lá das bandas de Curvelo, que teve a mulher entrevada na cama sem consentimento pra

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movimentação. Dor montada nas juntas, ela era o retrato do sofrimento. Remédio sem quantidade e ela já enojada de tanto médico dando palpite e solução nenhuma. Certo dia, ele se alembrou do avô apregoando as qualidades do Gonçalo e foi pro Cerrado buscar as entrecascas. Despois colocou numa garrafa de vinho, deixou uns dias antes de coar e a mulher deu de tomar um cálice pela manhã e outro mais na boca da noite. Pois bem. Passou-se três meses, a mulher sarou completamente e inté hoje nem registro tem das doradas antigas. Fama mesmo ela alcançou quando foi levada pelo astronauta Marcos Pontes (aquele cabra simpático de cabeça branca que tava toda hora na TV ) para “passear” na estação espacial. Ele fez uma experiência, plantando sementes de Gonçalo lá nas alturas e comprovou que elas germinaram mais rápido. Que coisa né? Inté o Gonçalo já teve no espaço e nóis aqui ainda rastejando... Mas as aventuras dessa planta-gente num para aí não. Suas cascas têm paladar bem apertento e ajuda se o caso for diarreia. O banho alivia muito a queimação das hemorroidas e as folhas secas transformadas em pó são polvilhadas nas feridas com ótimos resultados cicatrizantes. Como se viu, é uma tanteira de utilidade numa pessoinha só. Inté a próxima lua!  (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


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UM RIO CHAMADO

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redacao@revistaecologico.com.br

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uando se trata de números, o Rio Amazonas não tem nada de modesto. Ainda bem! Essa dádiva hídrica cruza a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia. Recebe água de mais de mil afluentes, alguns deles, com mais de 1.600 quilômetros de extensão. E possui profundidades que variam entre 50 e 120 metros! Saiba mais a seguir:

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ANTEPASSADO

Num passado remoto, o ancestral do rio Amazonas já desaguou no Caribe. Pelo menos essa foi a conclusão a que chegaram pesquisadores que encontraram fósseis de três gêneros de bagres extintos em áreas desérticas no noroeste da América do Sul. “O rio só teria conseguido mudar seu trajeto, perder seu braço que ia para o norte e passar a correr para o leste, como é seu curso atual, após o fim do longo processo de soerguimento da porção mais setentrional dos Andes. A consolidação da grande cadeia de montanhas teria empurrado as águas do Amazonas para longe de sua porção caribenha, que secaria para sempre e se tornaria uma zona árida”, segundo informações divulgadas na edição 216 da revista Pesquisa Fapesp.

RIQUEZA FLUÍDA

GRANDIOSO

O Amazonas é considerado o rio mais extenso do mundo, com 6.992,06 quilômetros de extensão, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Fica à frente do Rio Nilo, a dádiva do Egito, que possui 6.852,15 quilômetros.

VÁRIOS NOMES

O Amazonas nasce na Cordilheira dos Andes, no Peru, e deságua no Oceano Atlântico, junto ao Rio Tocantins, no Delta do Amazonas, localizado no norte brasileiro. Da nascente à foz, o Amazonas tem diferentes nomes, tais como: Apurimac, Ene, Tambo e Ucayali. Ao entrar no Brasil, na cidade de Tabatinga (AM), é chamado de Solimões e se estende até a confluência com o Rio Negro, próximo a Manaus, onde enfim recebe o nome de Amazonas.

Estima-se que o maior rio do mundo é responsável por 15% a 20% da água doce despejada nos oceanos. Volume que carrega em si uma riqueza orgânica que serve de alimento para os organismos marinhos. Anualmente, o Rio Amazonas transporta até 27 milhões de toneladas de matéria orgânica para regiões do Atlântico distantes da costa. Esses detritos são constituídos por queimadas, restos de plantas, animais e seres vivos microscópicos da floresta que chegam ao rio levados pelo vento e pela chuva.

DESCOBERTA

Em 2016, pesquisadores noticiaram uma outra grande descoberta sobre o Amazonas. A 200 quilômetros da desembocadura do rio, escondido sob uma espessa pluma de sedimentos, existe um enorme e rico recife de corais. Estima-se que ele se estenda por 900 quilômetros da costa, entre o Maranhão e a Guiana Francesa. Em suas águas turvas existem espécies endêmicas, algumas delas, esponjas com até dois metros de diâmetros que pesam mais de 100 quilos.

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1 ENSAIO FOTOGRÁFICO

AS VEIAS ABERTAS

DA AMAZÔNIA Cristiane Mendonça

redacao@revistaecologico.com.br

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Quando a floresta vira índio para nos chamar a atenção ppe Echaroux. Com objetivo de alertar sobre o desmatamento da Amazônia e o desrespeito às terras indígenas, as fotografias mostram faces de índios projetadas nas árvores da região, reforçando a relação dos povos tradicionais com a preservação das matas. Os rostos são de índios da tribo Surui, que pediram a Echaroux que compartilhasse seu pedido de socorro com o resto do mundo. Localizados na terra indígena Sete de Setembro, no estado de Rondônia, esses povos denunciam que a cada dia mais de 300 caminhões de madeira ilegal saem de suas terras, o que representa 600 hectares de florestas desmatadas. “Desde o início de 2016 estamos passando por uma invasão total de madeireiras e mineradoras de diamante e ouro”, lamenta o chefe da tribo, Almir Surui Narayamoga. Denúncia que ganha força no rosto triste de cada índio refletido nas árvores da floresta. Confira a seguir algumas das imagens:

FOTO: PHILIPPE ECHAROUX /REPRODUÇÃO

Quando o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu o célebre livro “As veias abertas da América Latina”, em 1971, uma de suas principais denúncias era como os povos indígenas vinham sofrendo, desde o início do século 16, com a chegada dos colonizadores e suas práticas de violência, pilhagem e desrespeito às terras latinas. A obra, que permanece atual, foi escrita num período em que as ditaduras militares se instalavam pelo continente latino-americano. E que a rodovia Transamazônica rasgava não só a maior floresta tropical do planeta, mas também fazia vítimas: segundo investigações da Comissão Nacional da Verdade (CNV), mais de oito mil índios foram dizimados. Quarenta e sete anos depois do lançamento do livro, a realidade não mudou. Indígenas continuam sendo assassinados e suas terras permanecem sendo invadidas, saqueadas e roubadas. É o que demonstra a série de imagens “Floresta de Sangue”, feitas pelo fotógrafo francês Phili-

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1 ENSAIO FOTOGRÁFICO FIQUE POR DENTRO

Philippe Echaroux é um fotógrafo francês, nascido em Marselha no ano de 1983. Antes de se tornar um fotógrafo profissional, Philippe trabalhou como assistente social em sua cidade natal. Em 2008, ele descobre a emoção de tirar fotos, e já no ano seguinte, Philippe ganha o "Prêmio Dior Internacional de Fotografia". Hoje Philippe é bem conhecido por seus retratos "menos de um minuto" de celebridades de todo o mundo e é considerado um dos mais jovens mestres deste ofício.

SAIBA MAIS

FOTOS: PHILIPPE ECHAROUX /REPRODUÇÃO

www.philippe-echaroux.com www.facebook.com/Philippe-Echaroux

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FOTOS: ANTONIO RUSSILLO

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MEMÓRIA ILUMINADA

DARCY, o educador incansável: "O nosso espírito há de florir"

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FOTO: CLÁUDIO VERSIANI / CB / D.A PRESS

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“Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios.”

A ECOLOGIA EDUCACIONAL DE

Darcy Ribeiro

A poética intelectual do antropólogo que mostrou ao mundo um Brasil miscigenado, culturalmente rico e verde por natureza Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

“S

ou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.” Foi assim que o próprio Darcy Ribeiro, antropólogo mineiro, nascido no Cerrado exuberante da Montes Claros de 1922, se autodefiniu. Na vida carnal, foi muitos. De escritor a político, de marido a senador, não teve filhos. Talvez por isso, e pensando naqueles que nascem a cada minuto neste Brasil verde e amarelo, mudou a cara da educação no

país, desenvolvendo projetos pedagógicos, sociais e estimulando a criação de melhores escolas e instituições de ensino. Inquieto como todo intelectual que busca transformar o mundo em um lugar melhor, fez da causa ecológica uma missão. Morou anos na Amazônia, defendeu os índios, foi exilado. De volta ao Brasil, foi adotado pela cidade do Rio de Janeiro, onde se elegeu vice-governador e senador. Falecido em 1997, em decorrência de um câncer, foi imortalizado. Para os índios, ficou na memória. Dos livros, textos e palavras, deixou a lição de que o Brasil tem vocação para terra abençoada. É o que a Revista Ecológico, a fim de rememorar sua obra e seus pensamentos, 20 anos após sua partida, apresenta a seguir:

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MEMÓRIA ILUMINADA – DARCY RIBEIRO l BRASIL

“O Brasil é a melhor província e o melhor povo do mundo para se fazer um país. Mas é muito difícil. É muito fácil fazer uma Austrália. Basta caçar uns ingleses e holandeses, jogar no mato e mandar matar os índios e pedir que repitam a paisagem inglesa. No caso do Brasil, não. É a partir de seis milhões de índios desfeitos, 12 milhões de negros desafricanizados e de uns poucos milhares de portugueses que se refaz um povo, um gênero novo de gente que nunca existiu. (...) E ainda não encontrou o seu destino.” “Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros.” “O Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.” l DEUS

“Deus é minucioso. A obra dele é acabada, perfeita. As criaturas mais reles desse mundo, como os cupins, são maravilhas da perfeição. Cada partezinha articulada com as outras, todas compondo um bicho completo, perfeito, capaz até de se refazer, multiplicado. Se em tudo Deus foi assim tão detalhado, que dirá na criatura preferida, racional, criada assim perfeita para louvar o Criador? Somos a perfeição das perfeições.” “Assim Deus nos fez para sofrer e durar, pecar e purgar. Matéria mais dura que o mais duro ferro é o nosso ser. Minha carne apodrecível, quando se liquefaz e escorre, deixando uma cinza de ossos para durar e depois se acabar, não está finando não. Está é parindo minha alma, livre, afinal, para durar eternamente.” l ALMA

“Espero em Deus é que a alma dure sem doer dores da carne, nem angústias do espírito. Chega já de achaques de peito podre e pesadelos de espírito desvairado.” “O que importa não é o corpo corrupto, corruptível,

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FOTO: ROGÉRIO ASSIS / GREENPEACE

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l QUEIMADAS

“Vão do Paraná. A mata florestal maior desse mundo. Saída virgem da mão de Deus. Tanto verde. Um mundo imenso de léguas de mata; da mata mais alta e espessa. Eu fiz aquela mata tremer, urrar, ardendo inteira debaixo do meu fogo, aceso na maior fogueira que jamais se viu.” “Aquele mundo verde, entroncado, poderoso, aberto em palmas, esgalhado, lá no alto, debaixo do meu fogo escureceu. Acinzentou. De repente, o que vimos foi o ar grosso, recheado de fumaça, estremecer animado como se ganhasse vida. Era o turbilhão de abelhas, marimbondos, cigarras, besouros que rodopiavam enlouquecidos.” “Me lembro, corno hoje, o chão do outro lado tremer e remexer fervendo de cobras rastejando em desespero no meio de tatus, tamanduás, caxinguelés desnorteados. Onças de todo pelame saltavam n'água esturrando. Vi, até com pena, um veado atado no chão, querendo fugir sem poder: tinha os pés queimados.”

“Dias e dias, semanas e semanas durou o fogaréu queimando. (...) Por fim, o fogaréu cessou e o mundo morreu. Lá ficou a terra aberta, exposta como uma ferida, debaixo do céu escaldado, arfante. (...) Aquela queimada minha, dissolvida, foi um purgante que dei ao mundo.”


é a alma. Esbugalhado ou não, vou apodrecer para liberar meu outro eu, espiritual, minha alma eterna. Nela serei outro. Não como os outros eus que fui. Ela é o outro que me habita. Sou sua morada, onde ela cresceu, envelheceu, amadureceu, como um parasita. A alma é um bicho-de-pé que habita nosso corpo? Não, é ela que, eterna, me dá continuidade.”

“Nela permaneci sempre eu, não igual, porque vim acumulando as experiências dos eus que fui: aprimorando, me aperfeiçoando. A alma é aço fino, inoxidável. Incorruptível.” “Alma é a roupa que a gente veste, que nos protege e com a gente padece. Quando resta, no fim, é a gente mesmo, resumida.” l INDIGNAÇÃO

“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.” l MULO

“Mulo até que não é nome ruim demais, ou não seria, se não fosse por essa qualidade de bicho estéril que também é minha. O mulo animal, cria de égua com jumento, ou de jegue com cavala, é bicho enxuto de carnes, de pouco luxo no comer, duro no trabalho, bom.” l SILÊNCIO

“Meu mundo é silêncio. Quando desligo o rádio e volto ao natural, o que fica é o silêncio. Tão silencioso que ouço o pio de uma saracura a meia-légua, piando. Meu ouvido fino nesse silêncio ouve o vento zunindo na copa das jaqueiras ou das mangueiras, conforme vente do nascente ou do poente. Se, por um instante, tudo cala, o silêncio grita. Aí durmo.” l CHUVAS

“Nessas alturas planas, suspensas, de ares leves, apenas sobrevivo. Às vezes, a chuva exagera e chove dias sem parar. Às vezes, são as ventanias que ventam sem sossego. Às vezes, caem raios, dia e noite, como se o mundo fosse acabar. Os aguaceiros, as ventanias e

as tempestades me atormentam demais. Eu me sinto um inseto, sem ar, no meio de um mundo aguado, ventoso, desatinado. Só não me entrego ao desespero porque não é de homem desandar.” l VIAJAR

“Viajar montado, com tropa própria, é ver tudo lá de cima. É reger os homens, os bichos, as coisas. É ter o mundo submisso. Meu mundo viajei, tropeiro comandei, montado firma na besta e mais firma na vida. Ô estradas tantas deste mundo que já não verei. Caminhos de terra, na seca são regos de pó, poeirentos. Nas águas, lodosos passos de barro mole, atoleiros. Rios de gente caminhante, cortando retos as planuras do Cerrado ou subindo tortos, íngremes morrarias de pedrais.” “Estradas do meu mundo, terrosas, batidas de tanto andar por elas. Viajar é trotar pelos poeirais, nas secas; pelos lodaçais, nas águas. Viajar estradeiro, no meio dos homens, que encabeçam cada lote de tropa, é viver vivendo vendo viver, convivendo. Não se pode é parar. Parei. A estrada que tenho agora, diante de mim, é só do retorno, por palavras, aos idos meus que não estão mais nesse mundo. Estão só no meu peito.” l AUTORRETRATO

“Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com a minha marca nos mundos que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Muito mais. Sou um homem de fazimentos.” “Eu não sou ruim nem bom. Não nego que exista gente melhor que eu. Conheci alguns. Digo é que esse mundo de Deus não é dos bons, nem pode ser. Um mundo cheio de compaixão pelos fracos seria um mundo fraco. Um mundo com muita atenção com os tristes e desenganados seria um mundo triste, no máximo resignado.” JAN/FEV DE 2017 | ECOLÓGICO  89


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MEMÓRIA ILUMINADA – DARCY RIBEIRO l MUNDO

“O mundo é como é: lugar de briga. Assim é, e a gente que cai nele nua e desamparada que nem eu, então, o que tem de fazer não são bondades. É o que for preciso pra sair da lama. Os donos da vida que nem eu, agora, podiam, talvez, mudar as regras do mundo pra fazer dele um paraíso geral.” l ÁGUA

“Muita água minha foi dar no Velho Chico, buscando mais água em que se dissolver, purificar. Outras sujas águas daquelas minhas, descendo o Tocantins, foram ferver na boca do Amazonas, lá por Belém do Pará. Só lá, no maior agual do mundo, repousaram.” l HOMEM

“Coitado do homem que tem pena de si mesmo. Eu não. Tenho é ressentimento. Amargura. Infelicidade não é comigo.” l TRABALHADORES DO CAMPO

“Do mundo lá de fora, não sei nada. Suponho que seja igual. Mas desse mundão brasileiro, goiano, mineiro, baiano, sei de sobra. Nele sou mestre. Aqui temos gastado gente sem conta, nos séculos da cristandade. Aqui, civilizamos os índios ou acabamos com eles, pondo fim naquela existência inútil que levavam, à toa, à toa. Também negros sem conta, caçados na África e trazidos para cá, nós metemos no trabalho e gastamos na produção.” “Nosso serviço está aí para quem quiser ver? Léguas de matas derrubadas a poder de fogo ou de punho de homem, convertidas em fazendas de lavoura e criatório. Aí está, nossa obra debaixo da luz do sol, para a glória de Deus. O diabo é que mesmo gastando tanta gente, o povo cresce sem parar, se multiplica que é um horror nas fazendas, nas cidades. Para quê?”

l MEMÓRIA

“Meu viver é essa especula. Rememorar. Reviver, de coração pesado em palpitações, ou leve, vibrante, idos da vida vivida.” “Comi a vida. Agora, rumino meus recordos de curraleiro, carreiro, soldado, muleiro, tropeiro fazendeiro. Tudo isso fui. Hoje, pastoreio essa fazenda da memória.” l ENVELHECER

“Envelhecer é isso. É ir restringindo o mundo da gente, reduzindo a convivência. É ir-se resumindo até caber, inteiro, dentro da gente mesmo. Quando o recolhimento se completa, só resta morrer, e, enquanto não morrer, viver como eu vivo, pra dentro enrustido. Ruminando idos vividos.” l MORTE

l IGREJA

“A morte bem que podia ser o fim do mundo. Fim total, de não ficar nada. Nem memória do que foi. Nem necessidade de recomeçar. A vida, minha vida, o mundo inteiro teria sido um acaso, um equívoco: sucedeu e acabou. Ninguém soube. Ninguém viu. Não gosto disso não. Preciso saber de um Deus que tenha memória de mim, que saiba ajuizar meus feitos, que cobre minhas contas.”

“Qual é a minha igreja? Acho que é o fazimento do mundo. É continuar brigando pro mundo funcionar. É cair feito doido em cima dos outros, para ajudarem o mundo a se erguer.”

“Não pedi para nascer, mas não quero ter sido carrapato à toa, que viveu e morreu ignorado, desprezível. Não pode ser. Somos a flor da criação divina. O espírito há de florir na Glória.” 

“Por minha mão o mundo melhorou. Por onde passei ficou o sinal do trabalho de um homem. Aí é que está onde e no que tenho de ser julgado.”

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Revista Ecológico - Edição 95