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ANO 9 - Nº 93 - OUTUBRO/NOVEMBRO DE 2016 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


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IMAGEM DO MÊS

FOTO: SOLON QUEIROZ / EM - D. A. PRESS

BELEZA E DOR O cenário que serviu de inspiração para Guimarães Rosa escrever "Grande Sertão: Veredas", seis décadas atrás, também corre perigo. A crise hídrica, as altas temperaturas, as queimadas e o desmate continuado têm dizimado a paisagem desses oásis do sertão. A presença de buritis, que só crescem perto de locais onde há muita água, já não é mais garantia de se encontrar o precioso e sagrado líquido. A maioria dos rios da região norte de Minas, entrando pela Bahia, não é mais perene. Eles viraram estradas secas. Foi o que mostrou, com dor e beleza (vide foto), a série de reportagens “As Veredas de Rosa”, do jornal Estado de Minas, assinada pelo repórter Luiz Ribeiro e o fotógrafo Solon Queiroz. Um registro comovente. Parabéns!


EXPEDIENTE

FOTO: ROBERTO MURTA

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CORUJA-BURAQUEIRA (Athene cunicularia)

Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

REPORTAGEM Cristiane Mendonça e Luciana Morais EDITORIA DE ARTE André Firmino COLUNISTAS Leonardo Boff, Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza REVISÃO Gustavo Abreu

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda. ecologico@souecologico.com

CAPA Fotos: Greenpeace /Rodrigo Baleia/ Divulg./Bschwehn/Terezinha de O. Lima

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL Fábio Vincent fabiovincent@souecologico.com

VERSÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

(*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

5,17 tCO2 e Setembro e Outubro de 2016

souecologico ecologico


VAMOS MOSTRAR COM QUANTAS ÁRVORES PLANTADAS E ÁREAS RECUPERADAS SE FAZ O FUTURO.

Idealizado pelo Governo do Estado de Minas Gerais e coordenado pela Codemig, o projeto Plantando o Futuro visa ao plantio de 30 milhões de árvores, de diversas espécies, em 20 mil hectares, até 2018. A iniciativa busca também recuperar 40 mil nascentes, 6 mil hectares de matas ciliares e 2 mil hectares de voçorocas. Contamos com a participação dos mineiros nesse projeto. Porque todos queremos um estado ambientalmente sustentável para nós e nossos filhos.

www.plantandoofuturo.mg.gov.br

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ESSE CALOR TÁ DE MATAR O PLANETA É HORA DE PENSAR NO FUTURO


E A A Record Minas apoia o VII Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza e reconhece a importância de ideias e atitudes que ajudam a salvar nosso planeta.


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ÍNDICE

CAPA

DESMATAMENTO, QUEIMADAS E USO INADEQUADO DO FOGO PARA “LIMPAR" TERRENOS INTENSIFICAM O EL NIÑO E AMEAÇAM A AMAZÔNIA.

20 PÁGINAS VERDES EM ENTREVISTA À ECOLÓGICO, MAURICIO DE SOUSA REVIVE A INFÂNCIA, FALA SOBRE SEU CONTATO COM A NATUREZA E SUSTENTABILIDADE NOS QUADRINHOS

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ECOLÓGICO NAS ESCOLAS INVESTIR EM SANEAMENTO BÁSICO É ESSENCIAL PARA REDUZIR GASTOS COM SAÚDE PÚBLICA. ENTENDA O PORQUÊ

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ENSAIO FOTOGRÁFICO O FOTÓGRAFO ITALIANO ANTONIO RUSSILLO MOSTRA A RELAÇÃO HOMEM-ANIMAL SOB A PERSPECTIVA DO OLHAR

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E mais... CARTAS DOS LEITORES 10 ECONECTADO 11 CARTA DO EDITOR 12 GENTE ECOLÓGICA 16 SOU ECOLÓGICO 18 ESTADO DE ALERTA 26 CÉU DE BRASÍLIA 40 EMPRESA & MEIO AMBIENTE 42 LITERATURA 46 INOVAÇÃO AMBIENTAL 52 RECURSOS HÍDRICOS 56 VOCÊ SABIA? 66 MUDANÇAS CLIMÁTICAS 68 NATUREZA MEDICINAL 76 ECOTURISMO 78 PERFIL 92 MEMÓRIA ILUMINADA 102


CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

município. Deve haver estudos científicos sobre o problema e como pode ser corrigido.” Laura Bastos, via Facebook “Rio de Janeiro, cidade maravilhosa só vista de cima. Do Corcovado, de preferência.” Paulo Iasbeck, via Facebook l RESTAURAÇÃO E REFLORESTAMENTO PARA FREAR O AQUECIMENTO Para reduzir em 43% suas emissões, o Brasil terá de recuperar 12 milhões de hectares de florestas

“Juntando as reflexões decorrentes do editorial 'A Terceira Chance' com o artigo do ministro José Serra, cabe uma colocação: o Brasil está perdendo uma oportunidade de ouro quando líderes de todo o mundo, como o Papa Francisco, falam da necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis. O Brasil é único país do mundo que tem siderurgia a carvão vegetal, mas a mesma está desaparecendo aos poucos pela competição predatória com produtos siderúrgicos da Índia e da China, principalmente, produzidos a partir de carvão mineral. A produção de carvão vegetal gera empregos em grande número nas zonas rurais e sequestra carbono da atmosfera.” José Geraldo Rivelli (foto), diretorpresidente do Instituto Xopotó “Se não fizeram em muitos anos a despoluição, vão fazer algo desta envergadura em quatro anos? Ainda mais no Brasil, onde corrupção, superfaturamento e hiperburocracia entravam tudo!” Luciano G. Silva, via Facebook l A REALIDADE DESASTROSA O biólogo Mario Moscatelli faz um alerta sobre a poluição e a falta de saneamento básico no Rio de Janeiro “Há três décadas que sei disso e não vejo nenhuma preocupação política em resolver o problema, que diz respeito à gestão do 10  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

l EMPREENDEDORISMO - CRIS GUERRA Em nova palestra, a jornalista, escritora e blogueira de moda fala sobre como momentos de crise podem se transformar em boas oportunidades “Que matéria linda! Revista Ecológico, muito obrigada, de coração!” Cris Guerra, via Twitter l PÁGINAS VERDES – MARIA JÚLIA COUTINHO Entrevista com a jornalista e repórter do tempo, da Rede Globo, Maju Coutinho “Maju, você além de linda, é competente! Adoro seu visual! Cada vestimenta que dá gosto de ver. Adoro você!” Graça Parente, via Facebook EU LEIO “A Revista Ecológico é minha leitura predileta hoje em dia. Ela é plena de verdades um tanto quanto cruéis e, ao mesmo tempo, de esperanças reais sobre o nosso viver no planeta. Há harmonia e ética em seu jornalismo. Inspira credibilidade.” Luiz Gomide Walthe, artista e apresentador cênico

FOTO: REPRODUÇÃO TOUTUBE

l CARTA DO EDITOR - A TERCEIRA CHAVE Hiram Firmino fala sobre o atraso na despoluição da Baía de Guanabara, um dos compromissos do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas 2016

FOTO: FÁBIO GOMES

“Não entendo: a tecnologia permite este rastreamento - satélite, drones, etc. E o Fundo Nacional tem grana! Se o Governo quiser, põe fim nisto!” Betânia Lara, via Facebook

FOTO: GUALTER NAVES

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FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br


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ECONECTADO

CRISTIANE MENDONÇA

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

TWITTANDO

“Minha maior dica é: o ‘sim’ mais importante está sempre escondido atrás de muitos “nãos”. Então corra atrás sem desistir!” @Fernanda_Gentil Fernanda Gentil, jornalista e apresentadora

INSTAGRAM VERDE FOTO: REPRODUÇÃO INSTAGRAM

Ela tem apenas 16 anos, mas já viveu experiências que deixariam muitos adultos admirados. A paulista Gabriela Shapazian (foto), juntamente com sua mãe Kety Shapazian, decidiu que elas não iriam apenas falar sobre a crise mundial dos refugiados, mas fazer algo concreto para ajudar. Por isso, mãe e filha já viajaram duas vezes - a segunda, inclusive, Gabriela foi sozinha para atuar de forma voluntária na Grécia, ajudando imigrantes da Síria, do Afeganistão e de outros lugares que chegam de barco às ilhas do país, que é porta de entrada para a Europa. Em novembro, ela fará sua terceira viagem para os campos da Grécia. Mãe e filha arrecadam verbas vendendo flores artificiais num projeto chamado “Flores para os Refugiados”, no mercado da Vila Madalena, em São Paulo. Na foto ao lado, reproduzida do seu Instagram @gabishapazian, ela diz: “No cemitério de coletes salvavidas em Eftalou”. Nota 10 para ela!

FOTO: DIVULGAÇÃO

ECO LINKS FOTOS: UNICEF / KHUDER AL-ISSA

“A inovação é, sim, possível no setor público.”

FOTO: ANDRÉ KOPSCH

@cristinapalmaka Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil

“O relacionamento que estabelecemos com quem trabalhamos é uma parte importante do nosso cotidiano e afeta a saúde.” @abilio_diniz - Abílio Diniz, empresário

Se você ficou tocado pelo exemplo da Gabriela, também pode ajudar os refugiados, que, segundo o Papa Francisco, vivem “a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial”. A Unicef é uma das instituições aptas a receber e reverter doações em vacinas, kits de educação, compra de cobertores e sachês com micronutrientes para as crianças imigrantes. Basta acessar o link que leva diretamente para as doações: goo.gl/egUz0d ou o site www.unicef.org.br

MAIS ACESSADA

FOTOS: UNICEF / KHUDER AL-ISSA

“Brasil ratifica acordo que prevê a restauração e reflorestamento de 12 milhões de hectares até 2030” foi a matéria mais acessada no site da Ecológico durante o mês de outubro. O governo brasileiro ratificou em setembro, em Brasília (DF), a contribuição do país para o Acordo de Paris. Entre as principais medidas brasileiras para atingir a meta de reduzir em 43% suas emissões de gases de efeito estufa nos próximos 14 anos está a restauração e o reflorestamento de uma área equivalente à metade da área total do estado de São Paulo. Quer saber mais? Acesse: www.goo.gl/qLCuyR OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  11


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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

A LARGUEZA DE KALIL

ALEXANDRE KALIL: ele já tem um plano de desenvolvimento sustentável para BH

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a roça da minha infância em Caxambu, a gente costumava dizer que, quando alguém fazia uma proeza qualquer, de pura sorte, tipo um gol inesperado ou matar uma bola sete improvável no final de uma sinuca, essa pessoa era “larga”. Tinha sorte na vida. Era “larga” no sorriso, nas palavras, nos gestos. Acreditava sobremaneira em si mesma e no acaso. Pois é isso que pode explicar e acontecer com Alexandre Kalil, o novo prefeito de BH, a exemplo de João Dória, em São Paulo. Ao afirmar, em sua campanha, que não precisava conhecer nem inventar nada para administrar a ex-Cidade Jardim, a “Paris brasileira” ou Cidade Vergel, assim declarada nos versos de Olavo Bilac, ele foi e pode ser “largo”. Atirou no que queria e acertou no que não viu.

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Este acerto, caso Kalil queira sabiamente se apropriar de mais sorte ainda, tem nome, data e assinatura: chama-se “Plano Estratégico BH 2030 – Uma visão de futuro para uma cidade de oportunidades, sustentável e com qualidade de vida”. Um estudo propositivo feito e lançado discretamente por Marcio Lacerda, como é do seu feitio apartidário, à avaliação pública na tarde de 8 de junho deste ano, “Dia Nacional dos Oceanos”. Coincidentemente, nas comemorações da Semana Mundial do Meio Ambiente. Eu também estava lá, na Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), mais precisamente no Auditório Juscelino Kubitschek (olha outra lembrança estadista e “larga”), cobrindo o encontro. Um evento à mineira que, democraticamente, através do Fórum de Assuntos Estratégicos, reuniu as cabeças mais lúcidas da sociedade belo-horizontina, incluindo autoridades, empresários, representantes dos órgãos governamentais e do meio acadêmico, além de jornalistas e diretores dos principais meios de comunicação da capital. E me orgulhei, apartidariamente, mais uma vez. Afinal, devo confessar, em meus mais de 30 anos de profissão, como repórter de Cidade no jornal Estado de Minas, na velha Rua Goiás, desde os governos Oswaldo Pieruccetti, Maurício Campos, Hélio Garcia e Sérgio Ferrara até hoje, eu nunca vi isso. Um prefeito, como Lacerda, abraçar pra valer a tal da sustentabilidade que tanto pode salvar a natureza que resta do planeta, com a gente junto. Alguém capaz de pensar e administrar BH com visão empresarial, pragmática, com planejamento e resultados mensuráveis a curto, médio e longo prazos. Alguém que, também testemunhei, como ambientalista, conseguia ficar com as mangas da camisa arregaçadas, horas a fio, em eventos sobre sustentabilidade na administração pública e na vida da população. Isso, várias vezes, de manhã à noite, como prefeito-aprendiz em meio ambiente natural e social, coisa que poucos políticos conseguem dar conta, participando e ouvindo como um curioso estudante. Querendo aprender para aplicar, enfim, porque a sustentabilidade, não à toa, é hoje uma das 10 palavras mais acessadas na rede mundial de computadores. E ainda incomoda tanta gente atrasada, preconceituosa, fechada, medrosa e sem tesão na vida pública.


FOTO: REPRODUÇÃO

Este plano estratégico, fácil de acessar no site da PBH, é muito mais que os tais chamados e politizados orçamentos participativos. Vai além deles. É de uma preciosidade técnica e política inovadora, que pode imantar de largueza o futuro que teremos com Kalil. Basta ele, ao contrário de quase todos os seus antecessores, ouvir e refletir sobre o que já nos disse um querido e saudoso colega de profissão, chamado José Geraldo Bandeira de Melo. Nada menos que o maior cronista político que este país já teve, depois de Carlos Castello Branco, o Castelinho, e sua visibilidade no Jornal do Brasil. Ex-assessor de imprensa do Governo Aureliano Chaves e ex-presidente do Centro de Cronistas Políticos e Parlamentares de Minas Gerais (CEPO), com sede na ALMG, o sábio Bandeira costumava dizer que o que mais atrapalha a maioria quase absoluta dos políticos que viram administradores públicos no Brasil é o fato, enganador e míope, de acreditarem que toda a história começa e termina com eles. Ou seja, assim que eleitos, passam os primeiros dois anos tão somente querendo apagar a lembrança mesmo que positiva de seus antecessores (troféus, projetos em andamento, assessores e funcionários de confiança etc.). E os outros dois anos restantes, tentando inventar algo diferente, sempre personalístico, e não a continuidade maior do que vinha dando certo. E aí, seu tempo termina. E o que iniciaram fazer logo será também desdenhado pelo próximo ocupante da pasta, jogado na lata de lixo da descontinuidade, do não fazer, em prejuízo de todos nós. O plano apartidário de uma Belo Horizonte possível, melhor e com mais qualidade de vida pensada até 2030 já existe, caro e “largo” Kalil. Idem, Lamac, ele está aí. Tal como uma bola sete na beira da caçapa ou uma bola de couro à frente do gol sem goleiro no Mineirão. Trata-se de um plano minucioso e realista, nada mágico. E por isso mesmo, revolucionário. Seguindo as metodologias clássicas de planejamento, já na sua terceira atualização, coisa rara de também se ver na administração pública, este documento procura dar respostas consistentes às cinco questões básicas que mais deveriam abalizar os sonhos e largueza de qualquer novo governante. São elas, tão universais quanto municipais: Onde estamos? Aonde podemos chegar? Aonde queremos chegar? Como chegaremos lá? Por onde começar?

HERANÇA rara na política deixada por Marcio Lacerda: é só dar continuidade

Qual a visão de futuro, enfim, queremos ter para a nossa ex-“Roça Grande”? Uma cidade próspera, ativa e inovadora? Uma cidade sem miséria e inclusiva? Uma cidade bem desenhada, sustentável, com mobilidade urbana? Uma cidade saudável, escolarizada e segura? Ou todas elas? Boa sorte, Kalil e Lamac! Que a lembrança do grande Bandeira de Melo lhes inspire, embeleze e alargue o horizonte. É o que a Revista Ecológico deseja e torce, à véspera de BH sediar o “VII Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, desta vez sobre a temática das mudanças climáticas, cujo destino global de céu ou inferno para o planeta e sua humanidade depende da contribuição de cada um de nós. Boa leitura! Até a próxima lua cheia.  OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  13


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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

Minha experiência com Kalil Meu primeiro e único contato com Kalil ocorreu no dos clubes, à saída do estádio, quando seu time perdia. início de 2015, à véspera de sua substituição como preO que a Secretaria fez, na época comandada por Irã sidente do Atlético, por Daniel Nepomuceno. Quem Cardoso? Através de uma campanha memorável, conintermediou nosso encontro foi a colega Adriana Bran- vocou as mesmas torcidas para ajudá-la a replantar co, então sua assessora de imprensa. O objetivo da vi- e cuidar das mais de 40 mil árvores que depois virasita foi solicitar-lhe a adesão também do Galo, a exem- ram uma floresta ao redor do estádio, inclusive dando plo do Cruzeiro e do América, na Campanha “Clube sombra e amenizando o clima local. Floresta essa (ô Unidos pelo Planeta – Por uma cultura de paz e amor saudade) que não existe mais. Virou cimento e asfalà natureza”, da Revista Ecoto quando da última reforma lógico, uma iniciativa de dedo Mineirão, por ocasião de mocratização da informação BH sediar a Copa do Mundo. Clubes Unidos pelo Planeta ambiental junto às suas resOu seja, o Projeto “Clubes pectivas torcidas. O objetivo Unidos pelo Planeta” é o resdo encontro era pedir a ele gate e engajamento de toautorização para usarmos o das as torcidas na causa que emblema do glorioso CAM hoje mais deveria preocupar no nosso adesivo de carro a humanidade, por se tratar institucional “Sou Atlético, de sua própria preservação, a Sou Ecológico”. exemplo do que continuamos Em contrapartida, como fazendo com a natureza e o acontece desde então, basta meio ambiente que nos resta. o torcedor digitar a expresPacientemente, Kalil ouviu são “Sou Ecológico” em seu essa e outras histórias. Chacomputador ou celular para mou a Adriana e disse lacoter acesso irrestrito e gratuinicamente, sem pestanejar: to a todo o conteúdo da mais “Olha aqui. Se essa camparespeitada publicação sobre nha é boa para a natureza, sustentabilidade, responsaentão ela é boa pro Atlético. Pode usar o símbolo do Galo, bilidade social e educação ambiental na grande mídia sim. É só assinarmos um conimpressa e digital brasileira, trato de praxe”. feita de Minas para o país, Após o sucesso da campacom circulação em todos os nha, um último e recorrente capítulo aconteceu, confirdias de lua cheia. Confesso que fiquei apreensivo, tendo em mente um mando a máxima do velho e sábio Bandeira de Melo, Kalil que, diziam até as línguas atleticanas, era impa- de que o problema e a burrice maior dos políticos e diciente e negociador, por origem e tradição de família: rigentes brasileiros é que eles acham que toda a histó“Ele, ceder assim de mão beijada uma das marcas mais ria começa e termina com eles. E não a continuidade históricas do futebol?”. que estava dando certo com os seus antecessores. FinPois aconteceu o contrário. Ele me recebeu e ouviu do o contrato com o Kalil, a Ecológico tentou, inúmepacientemente. Expliquei-lhe que, logo após a sua ras vezes, falar com Daniel Nepomuceno para renocriação nos governos Hélio Garcia/Sérgio Ferrara na vá-lo dar continuidade à campanha. Nada. Ele nunca PBH, a então recente Secretaria Municipal de Meio retornou um telefonema nem e-mail. E sem o Atlético, Ambiente constatou que 78% das mudas de árvores time do meu coração, o sucessor de Kalil conseguiu que a prefeitura replantava continuadamente nas ave- acabar com a ideia de todos nós, também cruzeirennidas Antônio Carlos e Carlos Luz (ex-Catalão), mais ses e americanos, estarmos ecologicamente unidos.  em outros acessos até o Mineirão, eram depredadas, SAIBA MAIS quebradas violentamente pelos torcedores raivosos www.revistaecologico.com.br 14  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016


sistemafaemg.org.br

MAIS DE 40% DO PIB MINEIRO VEM DO AGRONEGÓCIO

Graças ao trabalho dos produtores rurais, Minas é uma potência na agricultura, pecuária e florestas plantadas. Além de alimentos de qualidade, os produtores fornecem matérias-primas para tecidos, remédios, móveis e combustíveis. Isso significa mais empregos, mais renda e mais força para a economia de Minas Gerais. O Sistema FAEMG tem orgulho de representar o homem do campo que tanto tem contribuído para o desenvolvimento do nosso estado.

A UNIÃO E A FORÇA DO CAMPO


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GENTE ECOLÓGICA

“Sofremos muito com o pouco que nos falta. E gozamos muito pouco com o muito que temos.”

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

WILLIAM SHAKESPEARE, dramaturgo e poeta inglês

“As pessoas só veem o lado bonitinho. Fazem carinho nas vacas e depois vão à churrascaria.” “Adote o ritmo da natureza; o seu segredo é a paciência.”

FERNANDA TAVARES, modelo. Militante ambiental, ela é vegetariana e desde 1998 recusa trabalhar para grifes que fabricam peças de roupas com peles de animais

FOTOS: DIVULGAÇÃO

RALPH WALDO EMERSON, filósofo e poeta norte-americano

“Quando o trabalho é prazer, a vida é uma grande alegria. Quando o trabalho é dever, a vida é uma escravidão.” MÁXIMO GORKI, escritor, ativista político e dramaturgo russo

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“A indústria e o Estado de Minas Gerais precisam do Rio Doce limpo e produtivo.” OLAVO MACHADO, presidente da Fiemg, durante participação em um evento econômico no Japão


JAMES LOVELOCK, ambientalista britânico

“Influenciar não é para qualquer um, mesmo famoso, repleto de likes e seguidores. Estamos órfãos de pensadores, de líderes. Para ser mais exato, de inspiradores.”

DANIELA MERCURY, cantora e embaixadora da Unicef

FOTO: FERNANDO FRAZÃO / AGÊNCIA BRASIL

ALAIN S. LEVI, CEO da Motivare, agência de marketing promocional

“O nosso desafio é encontrarmos um modelo próprio de desenvolvimento que promova a igualdade social e a preservação do meio ambiente.”

“Não estamos vivendo uma crise só do capitalismo. Nossa crise é existencial, da espécie, de depredar e consumir muito mais que a natureza pode nos dar. Nós usamos um terço das terras que desmatamos em todo o planeta. O resto está abandonado, virando desertos para as gerações seguintes. Não podemos destruir mais.” SEBASTIÃO SALGADO, fotógrafo e presidente do Instituto Terra, ao receber o “Prêmio Personalidade da Câmara de Comércio França-Brasil”, no Rio de Janeiro

SARNEY FILHO O ministro de Meio Ambiente acompanhou, recentemente, a reunião da Comissão Internacional da Baleia (CIB), na Eslovênia, para a criação de um santuário de 20 milhões de quilômetros quadrados no Atlântico Sul para preservação do mamífero. Apesar dos votos não terem sido suficientes para criar o santuário, os membros aceitaram o convite de Sarney Filho para que a próxima reunião da CIB seja realizado no Brasil, em 2018. A luta continua! TRIPADVISOR O maior site de viagens do mundo anunciou que não venderá mais ingressos para roteiros com atividades turísticas cruéis com os animais. A decisão acontece menos de seis meses depois do lançamento da campanha “Silvestres. Não Entretenimento”, da World Animal Protection, que reuniu mais de 558 mil assinaturas em uma petição assinada por protetores da vida animal de todo o mundo.

MINGUANDO

DONALD TRUMP Durante sua campanha eleitoral, o novo presidente dos Estados Unidos disse que iria "cancelar" o Acordo de Paris e cortar apoio financeiro para programas de mitigação das mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU). Aguarde a próxima Ecológico!

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FOTO: LUCIO BERNARDO JR

FOTO: CÉLIA SANTOS

FOTO: BRUNO COMBY

“Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir.”

CRESCENDO


SOU ECOLÓGICO

CLARET (E UM NOVO AEROPORTO) VEM AÍ Reconhecido e alçado de maneira surpreendente como presidente da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), o engenheiro agrônomo Antônio Claret de Oliveira (foto), formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), sua terra natal, tem impressionado seus pares no comando deste seu novo desafio profissional, sediado em Brasília (DF). Ex-diretor de Sustentabilidade da Vallourec & Mannesmann Tubes, ele tem em seu currículo a implantação de uma bem-sucedida cultura de paz e diálogo com as comunidades dos bairros que se formaram ao redor da antiga e ex-poluente siderúrgica. Inclusive, em idos remotos, quando não se falava em meio ambiente, a fumaça vermelha da ex-Mannesmann era tanta que servia de rota para os pilotos saberem se estavam chegando a BH. E a prova da sua experiência em gestão de conflitos, Claret demonstrou recentemente. Agendado para receber representantes de 160 mil pessoas que vivem hoje nos 40 bairros ao redor do Aeroporto da Pampulha, e reclamam não só do barulho, mas do que pode acontecer no futuro incerto daquele terminal estratégico para a população da capital, ele não se fez de rogado. Trouxe todos os seus diretores para também conhecerem e conversarem, sem medo, com os moradores. Resultado ecológico: sob o slogan de “eu também sou de BH e quero o melhor para a cidade onde minha família vive e merece deslocamento aéreo com qualidade de vida”, Claret acabou criando uma agenda positiva de interação com os moradores. Questão ambiental séria a ser resolvida de um lado, vide o horror de poluição sonora causada dia e noite pelos diversos helicópteros que atuam na Pampulha; um novo, moderno e sustentável aeroporto também está nos

FOTO: MARCOS TAKAMATSU

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ANTÔNIO CLARET, à frente da Infraero: pensando globalmente e agindo localmente

planos de Claret. Mais entusiasmado que nunca. Até lanchonete com preços populares faz parte do plano de voo 2017 para o aeroporto mais querido dos belo-horizontinos. “Aguardem a próxima chamada!” – disse ele à Ecológico.

SUCESSÃO NAS EMPRESAS O jornalista Emerson de Almeida, atual presidente da Diretoria Estatutária da Fundação Dom Cabral (FDC), seu cofundador e dirigente há 35 anos, lançou seu último e aguardado livro. Desta vez, sobre o tema polêmico da sucessão nas empresas. Inspirado em Nelson Rodrigues, o título já diz a que veio, sem meias verdades: “A Sucessão como ela é – De sentimentos a jogos políticos nas organizações”. A noite de autógrafos foi no Campus BH da FDC. Com direito a um “Graças a la vida” depois, o bom vinho que ele produz em sua vinícula em Mendonça, na Argentina.

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FOTO: DIVULGAÇÃO / CENTRO IDESCA

SAIBA MAIS www.idesca.com.br

FOTOS: DIVULGAÇÃO

FÓRUM DAS ÁGUAS Realizado pelo Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (Cibapar) no auditório da Fundação Dom Cabral, em Alphaville, o “Fórum das Águas” discutiu soluções de preservação ambiental para a Serra da Moeda. A discussão que perpassa o panorama sobre a Serra é o plano de ação da Agenda 2030, composto pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), e que serve de referência para os próximos 14 anos. “A região é um verdadeiro museu a céu aberto, com riquezas de recursos naturais e um grande acervo histórico e ambiental que precisa ser conservado. A Serra da Moeda tem muito potencial para se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade”, destaca Breno Carone, presidente do Centro Internacional para o Desenvolvimento Sustentável e Conservação Ambiental (Centro IDeSCA). Para ele, esta é a proposta de reflexão trazida pelo Fórum: “É necessário mais engajamento em ações ecológicas desenvolvidas no Brasil e no mundo para a garantia de um futuro melhor tanto para o ambiente quanto para as pessoas BRENO CARONE que vivem na região”.

PAULO BESSA e ALEXANDRE SION: missão nacional

A UBAA VEM AÍ Paulo Bessa Antunes e Alexandre Oheb Sion são os primeiros presidente e vice-presidente eleitos e já empossados da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA). Formada por advogados públicos e privados com atuação na área ambiental, e professores de direito ambiental, a nova sigla foi criada com a participação de mais de 250 associados, durante solenidade no auditório da AdvocaciaGeral da União, em São Paulo. A propósito, o concorrido evento também comemorou os 35 anos da Lei Federal 6.938/81, que criou a Política Nacional do Meio Ambiente. SAIBA MAIS ubaa@direitoambiental.com

Vida para as populações locais e para a biodiversidade. As áreas preservadas pela CENIBRA abrigam mais de 4.500 nascentes que fornecem água limpa para a fauna, flora e para uso das comunidades situadas próximas às propriedades da Empresa.


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PÁGINAS VERDES

“EU ACREDITO NAS

CRIANÇAS” Luciana Morais

FOTOS: DIVULGAÇÃO

redacao@revistaecologico.com.br

MAURICIO de Sousa: "As crianças de hoje ensinam os pais e adultos a serem pessoas melhores" 20  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

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uas histórias e personagens povoam o imaginário de crianças e adultos em 30 países. Em 2007, ele “caiu” no samba paulistano como enredo da escola Unidos do Peruche. De 2011 a 2014, vendeu mais de 3,5 milhões de livros somente no Brasil. Em 2012, foi indicado em pesquisa Ibope como o sexto escritor mais admirado do país. Ano passado, quando completou 80 anos de idade, recebeu homenagens variadas. Numa delas, a companhia Avianca estampou na fuselagem de um Airbus um adesivo em que ele aparecia como o piloto da Turma da Mônica, ao lado de suas famosas criações. Em outubro, dias antes de comemorar mais um aniversário, o cartunista e desenhista Mauricio de Sousa abriu espaço em sua concorrida agenda para um bate-papo com a Revista Ecológico. Mentor criativo de um verdadeiro império de entretenimento, ele relembra os banhos de rio que tomava na infância e diz que as novas ideias e os bons sentimentos são o combustível da vitalidade. E, com sabedoria, afirma: “Acredito muito nessas crianças de hoje, pois sei que estão muito mais bem informadas do que as de gerações anteriores. Muitas vezes, são elas que ensinam os pais a serem melhores. Elas são puras e transparentes. É o que nós, adultos, deveríamos ser para sempre!”. Confira, a seguir:


MAURICIO DE SOUSA

Cartunista e desenhista, criador da Turma da Mônica

O senhor nasceu no interior de São Paulo. Como foi a sua infância: cresceu em contato com a natureza e os animais? Minha infância foi em Mogi das Cruzes (SP). Lá, tomávamos banho de rio e pegávamos frutas nas árvores da rua. Nos contentávamos com brinquedos fabricados por nós mesmos e isso fazia da infância um mundo bem mais criativo. O contato com a natureza era constante. Como e quando criou seu primeiro personagem infantil? O que o inspirou? Meu primeiro personagem foi o Capitão Picolé, que era um pouco parecido com o Horácio. Eu desenhava dentro dos meus cadernos escolares. Depois, criei o Bidu inspirado em meu cachorrinho de infância, o Cuíca. Na Conferência Rio+20 foram lançados o livro “Turma da Mônica – Cuidando do Nosso Planeta” e a revista “Turma da Mônica – Cuidando do Mundo”. Como foi a preparação do conteúdo dessas publicações, no que se refere à adequação da linguagem para tratar de temas como reciclagem de lixo, aquecimento global e consumo consciente para o público infantil? Felizmente, temos uma boa equipe de pesquisa e prezamos a divulgação das informações corretas, pois sabemos que as próprias crianças acabam por cobrar dos adultos uma postura mais ecológica. Temos também revistas específicas tratando da sustentabilidade, como as citadas na pergunta, em nos-

sas revistas de linha e até mesmo nas peças e shows da Turma da Mônica ao vivo. Como embaixador do Instituto Trata Brasil, o senhor apoia o movimento em prol da melhoria do saneamento básico no país. Qual tem sido a sua contribuição nessa parceria? Já fizemos uma primeira revista em quadrinhos, que está sendo distribuída em escolas, explicando a importância do saneamento básico para a saúde, a qualidade de vida e a sustentabilidade. Mas esse é um trabalho constante que o Trata Brasil vem desenvolvendo e outras ações certamente poderão ser desenvolvidas. Qual é a sua visão/conceito de sustentabilidade? Para mim, chegamos a um ponto da evolução em que se não tomarmos cuidado com o meio onde vivemos, preservando as florestas, os rios e o ar, acabaremos com os seres vivos sobre a face da Terra. E será (um caminho) sem volta.

QUEM É ELE Mauricio Araújo de Sousa, filho de Petronilha Araújo de Souza e Antonio Mauricio de Souza, nasceu em Santa Isabel (SP), em 27 de outubro de 1935. Passou parte da infância em Mogi das Cruzes, desenhando e rabiscando cadernos escolares. Mais tarde, seus traços passaram a ilustrar cartazes e pôsteres para comerciantes da região. Aos 19 anos, mudou-se para São Paulo e, durante cinco anos, trabalhou no Jornal Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo), escrevendo reportagens policiais (foto). A partir de uma série de tiras em quadrinhos com Bidu e Franjinha publicadas semanalmente na Folha da Manhã, Mauricio iniciou sua carreira. Nos anos seguintes, criou diversos personagens — Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho, Horácio, Raposão, Astronauta etc. Até que, em 1970, lançou a revista da Mônica, com tiragem de 200 mil exemplares, pela Editora Abril. Em 1986, levou as revistas da Turma da Mônica para a Editora Globo, onde permaneceu até 2006. Atualmente, está na Panini. Um de seus mais recentes sucessos é a revista Turma da Mônica Jovem, na qual os personagens estão com cerca de 15 anos de idade. A tiragem chega a atingir marcas expressivas, de mais de 500 mil exemplares mensais. Nos últimos anos, Mauricio também expandiu seu universo para diversos públicos, com projetos como as Graphics MSP, nas quais autores convidados reinterpretam seus clássicos personagens em seus próprios estilos. Outro destaque é Mônica Toy, que aposta nos traços 2D, no estilo toyart, e em animações sem diálogos e bem-humoradas, para cativar os mais diversos públicos. São mais de 10 milhões de visualizações dos vídeos da série no canal oficial da Turma da Mônica no YouTube.

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PÁGINAS VERDES

VÁRIAS edições especiais da Turma da Mônica sobre sustentabilidade já foram lançadas

Como avalia a percepção das crianças e adolescentes de hoje em relação à questão ambiental? Acredito muito nessas crianças de hoje, pois sei que estão muito mais bem informadas do que as de gerações anteriores. Como comentei antes, muitas vezes são elas que ensinam os pais e os adultos a serem melhores. Por isso, penso que daqui a 20 anos as discussões ambientais terão outra “cara”, cada vez mais conscientes e preocupadas com o futuro da humanidade.

Saíram de Férias”. A produção é da Quintal Digital. Deve estrear nos cinemas em 2017.

E em relação à Turma da Mônica: há algum novo projeto? O que os fãs podem esperar? Sempre há novidades, porque somos uma espécie de fábrica de ideias. Logo, teremos o primeiro filme live action (personagens reais), baseado na graphic novel Laços, que lançamos em 2013, com texto e desenhos dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, que são daí de Belo Horizonte (MG). Foi um grande sucesso de vendas e agora chegará ao cinema. O diretor é o Daniel Rezende, que se destacou nos últimos anos com premiações e até indicação ao Oscar pela montagem de filmes como “Cidade de Deus”, “Diários de Motocicleta” e “O Ano em que Meus Pais

Tem algum acontecimento marcante ou situação inusitada para contar do tempo em que trabalhou como repórter policial? Vários. Afinal, apesar de cobrir histórias policiais eu não suportava ver sangue... Por isso, pedia para o meu fotógrafo ir antes para ver a pessoa em óbito e me descrever a cena do crime.

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O senhor já disse que o personagem Horácio é seu alter ego. Que traços de sua personalidade e filosofia de vida estão presentes nele? Eu gosto de todos os personagens, assim como um pai gosta de todos os seus filhos. Mas o Horácio tem realmente um pensamento humanitário e ecológico como o meu. E isso não é mera coincidência.

Tem algum animal de estimação? Temos um cachorrinho de pouco mais de dois anos a quem demos o nome de Bidu. Foi um presente meu para a minha esposa, Alice Takeda. Também temos um tanque com várias carpas, inspirado em um jardim japonês.

O senhor completou 81 anos, tem muitos filhos, netos e bisnetos. Que valores norteiam a sua relação com a família? Quero todos próximos na medida do possível. Nos fins de semana, por exemplo, procuro manter encontros com todos os que podem ir para a minha casa. Como tive dez filhos, 11 netos e agora três bisnetos, pode ter certeza de que a festa é boa! Acredita em Deus, segue alguma religião? Sou católico de criação. Mas, como tenho leitores de todas as religiões, acredito sobretudo na necessidade da fé. Há algum segredo para se manter ativo e produtivo aos 81? É importante ter novas ideias e objetivos que deem combustível para os bons sentimentos e as alegrias da vida. Que recado deixa aos nossos leitores, a fim de contribuir para melhorar a relação entre as pessoas e a conservação do planeta? Ouçam as crianças, que são puras e transparentes. É o que nós, adultos, deveríamos ser para sempre!


MAURICIO DE SOUSA

Cartunista e desenhista, criador da Turma da Mônica

CARTUNISTA tem milhares de produtos com os seus personagens, que fazem a alegria dos fãs em quase 30 países

ANIMAÇÃO E SOM Mauricio de Sousa também foi pioneiro na montagem de estúdios de animação e som no Brasil. Criou desenhos animados exibidos com sucesso na TV e no cinema, que foram depois lançados em vídeo e DVD. Desde 2010, seus desenhos são exibidos no Cartoon Network, em diversos horários no Brasil e na América Latina.

Com mais de 150 contratos de licenciamento, em 13 diferentes setores da economia, Mauricio tem quase três mil itens com seus personagens, em diversas categorias. Reúne produtos que vão desde jogos, brinquedos, roupas, calçados e acessórios até itens de decoração, higiene pessoal, papelaria, alimentação, vídeos e DVDs, além de revistas e livros. FOTOS: REPRODUÇÃO

Os quadrinhos e tirinhas de jornais criados por Mauricio de Sousa estão presentes em cerca de 30 países. No Brasil, suas revistas respondem por 86% das vendas no mercado, alcançando a impressionante marca de um bilhão de revistas publicadas. Não por acaso, ele é considerado o maior formador de leitores do país. Aos seus quadrinhos, também se juntam centenas de livros ilustrados, revistas de atividades, álbuns de figurinhas, DVDs, livros tridimensionais e em braile, além de produtos licenciados. A vocação para ensinar, orientar e informar – sempre de forma leve e bem-humorada – fez com que Mauricio recebesse, em 1998, do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a “Medalha dos Direitos Humanos”. Em 2001, foi agraciado com o título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade La Roche, de Pittsburgh (EUA), pelos serviços prestados ao público infantil.

FOTO: AGÊNCIA BRASIL

O maior formador de leitores do país

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PÁGINAS VERDES

Mais ecológico personagem da Turma da Mônica, Chico Bento é fruto das observações de seu criador sobre o homem do campo, morador do alto do Tietê, próximo a Mogi das Cruzes e ao Vale do Paraíba. Seu nome foi emprestado de um tio-avô de Mauricio de Sousa, que ele não chegou a conhecer, mas sobre o qual ouviu muitas histórias engraçadas, contadas por sua avó Dita, também retratada em quadrinhos. Chico foi criado em 1961, mas sua primeira revista só foi lançada em agosto de 1982. Nela, até hoje, a Turma da Roça – formada por Rosinha (namorada de Chico), Zé Lelé, Hiro, Zé da Roça, a professora Dona Marocas, o padre Lino e vários outros personagens –, vive histórias num ambiente divertido e pacato do interior. Quando surgiu, nas tiras de jornal, Chico era uma versão mirim de Jeca Tatu, personagem clássico de Monteiro Lobato. Ele representa a pureza, a simplicidade e a simpatia que caracterizam as pessoas do

FOTOS: REPRODUÇÃO

Chico Bento, o mais ecológico

interior. Mora na Vila Abobrinha, onde nada e pesca no rio, dorme na rede e brinca com os amigos. Tem carinho enorme pelos animais, como a galinha Giselda, o porquinho Torresmo e a vaca Malhada. Em março de 2013, Mauricio homenageou a indicação do atual Papa Francisco. Em quadrinho pu-

blicado no Twitter, Chico, com seu tradicional sotaque caipira, comemorou: “Tô orguioso do meu nome! Acho qui o pessoar do Vaticano lê minhas historinha!”. Na verdade, a homenagem poderia ter sido em dose dupla. Afinal, o Papa Francisco é sucessor de Bento XVI, outro xará desse simpático personagem.

Mônica, a grande estrela Criada em 1963, Mônica foi inspirada na filha de mesmo nome de Mauricio de Sousa que, desde pequena, chamava a atenção por sua forte personalidade. A “dentuça” estreou nas tiras de jornal do Cebolinha e teve a sua primeira revista publicada em 1970. Estrela de cinema, teatro, campanhas educativas e comerciais da TV, Mônica também é embaixadora do Unicef: a única personagem de quadrinhos do mundo a ter essa honra.

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MAURICIO e a filha Mônica no programa de Hebe Camargo: ela foi a inspiração para criar a personagem mais famosa dos quadrinhos


MAURICIO DE SOUSA

Cartunista e desenhista, criador da Turma da Mônica

Lembranças amorosas “Eu estava no colo de minha mãe. Percorríamos uma estrada de terra, cercada de árvores, paisagens bonitas, muito verde. Tinha chovido e o meio da estradinha estava cheio de poças de lama. Assim, minha mãe, meu pai e mais algumas poucas pessoas que nos acompanhavam escolhiam a lateral da estrada, onde a terra era mais elevada, sem barro. Estávamos saindo de Santa Isabel para visitar um sítio distante, incrustado no meio de montanhas. Depois a memória dá um branco e já me encontro num casebre de móveis rústicos, redes na salinha de entrada. Sou acomodado numa delas e durmo. A memória volta para quando já estou desperto de novo, ainda no colo de minha mãe, ao lado de um ribeirão de águas limpas que corre por pedras esverdeadas pelo limo. Grandes árvores cercam todo o ribeirão, mas deixam passar porções brilhantes de sol, faiscando na água. Meu pai, de cuecas, está pulando de pedra em pedra. Quase escorregando aqui e ali, para preocupação de minha mãe. Nessa linha de recordações remotas, vem à memória outro momento em que ainda sou filho único (mal andava) e estávamos, eu, meu pai e minha mãe num ponto de estrada em Itaquaquecetuba, aguardando o ônibus que nos levaria até Santa Isabel. O tempo era quente, o ônibus, pelo visto, demoraria. Assim, meu pai aproveitou que havia um tanque de água corrente logo ao lado da estrada, bem escondido por arbustos e grandes pedras, tirou a roupa dele, a minha, e me levou para dentro d’água. Com todo o cuidado, foi mergulhando meu

corpo. E eu gostei. Era novidade. Tudo diferente. Provavelmente meu primeiro banho de rio. Com uma mão, meu pai fazia cadeirinha pra mim. Com outra segurava minhas costas. Minha mãe, à margem, observava com expressão divertida e calma. Cueiros e fraldas de pano serviram de toalha, o sol terminou de secar e dali a pouco estávamos no ônibus, no último banco. Só havia lugar ali. Cinquenta anos depois, falei destas recordações para minha mãe. Ela se espantou muito. Eu era muito pequeno! Como é que me lembrava de tudo? Mas confirmou que os fatos recordados aconteceram, mesmo. O exercício de revolver a memória, rever o vivido, entender o acontecido à luz da experiência acumulada, pode servir para nos explicar muito de nossas vidas. Mas pode, principalmente, nos lembrar que tudo o que vivemos de mais intenso e feliz, nos foi trazido com amor. O amor que eu sentia brotando de minha mãe, quando me aninhava no colo, enquanto percorria as estradas de terra e barro; que eu sentia quando meu pai me sustentava com a cabeça fora d’água no banho do ribeirão; e nos inúmeros gestos de carinho, amor, que recebi pela vida afora através de todos os que me amaram e que amei. E me lembro disso quando tenho o privilégio de poder dar a mão a uma criança necessitada, amedrontada ou carente. Ela nunca se esquecerá.”  MAURICIO DE SOUSA, em crônica de 1998.

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ESTADO DE ALERTA MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

CONSUMO CONSCIENTE É SUSTENTÁVEL?

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FOTO: SHUTTERSTOCK

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onforme consta no site do Ministério do Meio Ambiente, consumo consciente “é uma contribuição voluntária, cotidiana e solidária do cidadão para garantir a sustentabilidade da vida no planeta”. Já o Instituto Akatu define que “consumir de forma consciente é levar em consideração os impactos ambientais e sociais da produção, uso e descarte de produtos e serviços”. Pode-se deduzir que ambos pressupõem conhecimento do ciclo de vida de produtos e serviços por parte dos cidadãos, condição prévia para que evitem supérfluos e geração de resíduos desnecessários. Mas, consumo consciente não é responsabilidade somente dos consumidores finais. Instituições públicas e privadas têm responsabilidade talvez maior do que a deles. O Brasil ainda está engatinhando nesta área. Em Minas, exemplo conhecido que podemos citar é o Projeto AmbientAção, de iniciativa da Feam. A “trancos e barrancos”, ele conseguiu até a adesão de outras secretarias do Estado e algumas normas relativas a compras e contratação de serviços pela máquina pública. Se são observadas, só Deus sabe. Na prática, desperdício e estrago de materiais são a “lei”, mesmo considerando que evitá-los seria positivo para os cofres públicos. Os cemitérios de carros são mostras disso. No setor privado de forma geral (incluindo prestação de serviços médicos, lazer, transporte, eventos e outros), a adoção de ações relativas ao consumo consciente é também ainda pontual. Na construção civil, algumas empresas já se preocupam com desperdício de água, cimento, brita e outros materiais - mas o setor como um todo continua sendo uma catástrofe ambiental. Consumo desnecessário e desperdício estão em todos os lugares: nas residências, indústrias, repartições públicas, hospitais, farmácias, escolas, igrejas, bares, restaurantes, eventos e por aí afora. É uma verdadeira orgia “romana” que come os recursos naturais do planeta, confirmando as primitivas ideias de que eles são infinitos e ilimitados, e que a espécie humana poderá continuar se reproduzindo à vontade. Há instituições que ainda se indignam com a simples ideia de controle da natalidade. Principalmente aquelas que vivem da pobreza alheia. Porém, consumo consciente não é sinônimo de

Consumo desnecessário e desperdício estão em todos os lugares. É uma verdadeira "orgia romana" consumo sustentável. Podemos por exemplo reduzir ao máximo o gasto de combustível (consumo consciente), mas poderíamos diminuir muito mais seu uso e dos carros (consumo sustentável), se o transporte coletivo for eficiente. Se consumo consciente já é difícil de ser adotado, o sustentável nem se fala, pois pressupõe mudanças muito mais radicais que possibilitem manter estoque de recursos naturais suficientes para manter o equilíbrio ambiental do planeta. Leia-se fauna, flora, água, solo e ar, cuja exploração já ultrapassou em muito a fronteira da possibilidade de manter vivos nove bilhões de seres humanos.  (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).


1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

A AMAZÔNIA

QUE ARDE Desmatamento, queimadas e uso inadequado do fogo para “limpar” terrenos intensificam o El Niño e seguem destruindo a maior floresta tropical do planeta. Até quando ela conseguirá permanecer de pé?

O

ano de 2016 caminha para ser o mais quente já registrado. Enquanto isso, no Brasil, um dos El Niños mais intensos das últimas décadas exacerbou a estação seca em boa parte da Amazônia.

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Quando esses dois quadros se juntaram ao uso inadequado do fogo nos últimos meses, vastos quinhões da Amazônia arderam, com graves consequências para as populações, para a economia e para a natureza.


Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a área queimada na região em setembro chegou a 54,5 mil quilômetros quadrados, maior do que o Estado do Rio de Janeiro – extensão pouco menor do que em setembro de 2015, contrariando previsões iniciais de potencial recorde neste ano. Nem por isso há o que se comemorar: largas áreas de vegetação foram incendiadas. “Sabemos que está ocorrendo o aumento da estação seca na Amazônia e uma alteração no ciclo hidrológico, mas ainda não sabemos direito as causas”, diz o cientista Paulo Artaxo, professor na Universidade de São Paulo (USP) e conselheiro do IPAM. De acordo com dados da NASA (Agência Espacial Norte-Americana), o solo da Floresta Amazônica está menos úmido em 2016 do que esteve em 2005 e 2010, dois anos que também registraram secas extremas. A área queimada no bioma aumentou 110% em 2015 em relação à área queimada em 2006, segundo cálculo baseado em informações do INPE. Enquanto isso, a área de corte raso caiu 56%, ficando estacionada ao redor de 5.000 km2.

Em todo o mundo, as regiões de floresta tropical têm aquecido em média 0,26°C por década desde meados de 1970. “A Amazônia está sofrendo um processo de estresse hídrico devido ao aumento de 1,5°C no último século”, explica Artaxo. “Ao ter um ambiente com uma temperatura alta se aproximando de limiares, isso pode trazer uma fragilidade maior para a região.” Quando diferentes forças – atividades humanas, como mudança no uso do solo e emissões de CO2, mais fatores naturais, como El Niño – atuam sobre uma mesma região ao mesmo tempo, pesquisas científicas combinadas a políticas públicas precisam ser prioritárias. “Políticas públicas de longo prazo, monitoramento, presença do Estado e governabilidade estadual são essenciais para definir os próximos rumos do ambiente e da população como um todo”, diz o cientista. “Uma estratégia muito importante para o país é melhorar o monitoramento ambiental dos processos que estão acontecendo na Amazônia. Mudanças no uso do solo são só a primeira alteração ambiental numa cadeia muito grande – é preciso monitorá-la completamente.”

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FOTOS: LUNAE PARRACHO/MARIZILDA CRUPPE/GREENPEACE /ARTE SANAKAN

CONTRASTE triste ampliado pelo El Niño: de um lado, a mata verde assiste, incólume, o seu outro lado queimar


FOTO: ROGÉRIO ASSIS / GREENPEACE

1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

FOGARÉU do El Niño: em agosto e setembro de 2015, foram detectados quase 445 mil focos de calor no bioma

O menino que esquenta a Amazônia Em agosto e setembro, o INPE detectou 425.178 focos de calor no bioma amazônico. Nos mesmos meses de 2015, foram registrados 444.942 focos, cerca de 4% a mais. Já a área queimada cresceu pouco mais de 5%, de 102.965 para 108.655 quilômetros quadrados, na mesma comparação. Esse fogaréu todo responde pelo nome de El Niño (“O Menino”, em espanhol), que começou no ano passado e só foi perder força no primeiro semestre de 2016. El Niño é um fenômeno natural climático como consequência do aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico na altura da costa do Peru. Conhecido por alterar globalmente os índices pluviométricos e os padrões de vento, no Brasil ele atinge as regiões de formas diferentes. Ao modificar a distribuição de calor 30  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

e umidade, o El Niño geralmente causa excesso de chuva no Sul do país e redução no Nordeste e no Leste da Amazônia. No período de 2015-2016, a temperatura da superfície do Oceano Pacífico foi a mais alta registrada desde 2001, quando começou o monitoramento de queimadas por satélite. Para piorar, a temperatura da superfície do Oceano Atlântico também esteve acima do normal, o que intensificou a seca e, por consequência, as queimadas na Amazônia este ano. ALTA INTENSIDADE O último grande El Niño foi registrado entre 1997 e 1998. O fenômeno causou uma intensa seca na Amazônia, o que aumentou significativamente as queimadas. Naquele período, estudos do

IPAM com IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostraram que na Amazônia os prejuízos com o fogo chegaram a quase 10% de PIB (cerca de US$ 5 bilhões na época). Em 1998, só o SUS (Sistema Único de Saúde) gastou mais de US$ 10 milhões com tratamento de problemas respiratórios na região devido à fumaça das queimadas na região. No Nordeste, a estiagem provocou uma perda de R$ 1,8 bilhão devido a quebras de produção. No Sul, as chuvas ficaram acima da média histórica, causando tempestades e enchentes. Neste ano, o El Niño foi, além de intenso, extenso. “Ainda não podemos atribuir essa intensidade do fenômeno ao aquecimento global; serão necessárias mais investigações”, explica o pesquisador sênior do IPAM, Paulo


Moutinho. “Mas o que se pode já dizer é que, se o avanço do desmatamento e da mudanças climática continuarem, o cenário de grandes secas em boa parte da Amazônia poderá ser algo bem comum no futuro.” O (DES) CONTROLE DO FOGO O fenômeno El Niño forneceu o ambiente para as queimadas proliferarem em 2015 e 2016. Mas, ele sozinho não explica por que tantos focos de calor surgiram na Amazônia. Essa conta é do homem. Na Amazônia, é praticamente impossível que o fogo apareça por causas naturais. Raios, por exemplo. Se o número de focos de calor aumentou neste ano é porque alguém riscou o fósforo em uma situação altamente favorável à propagação das chamas. “A frequência do fogo natural na Amazônia, ou seja, de quanto em quanto tempo uma mesma área queima sem interferência humana, é de 500 a 1.000 anos”, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora do IPAM. “Pela ação humana, nós diminuímos essa frequência para 24 anos, sendo que há lugares que já queimaram até 12 vezes nesse mesmo período.” É uma alta frequência de queima, à qual a vegetação não tem tempo para se adaptar”. O resultado é uma mortalidade elevada de árvores, mesmo quando o fogo é rasteiro. Alencar mapeou o histórico do fogo em 24 anos no Sudeste da região, utilizando dados de sensoriamento remoto e identificando quantidade de material no solo. Sua conclusão é que, apesar de o fogo ser considerado um distúrbio natural da floresta, a forma que se faz o manejo da terra está alterando seu regime na Amazônia, pois ele mexe na dinâmica da região, enquanto as

O TRIÂNGULO DO FOGO Queimadas surgem quando estes três elementos estão juntos

Fonte: Nasa; modelo de infográfico da Piktochart.

mudanças climáticas potencializam seus efeitos. “A floresta tem a capacidade de retenção de água no solo, mas não está se recuperando desse processo de seca intensa”, diz a diretora do IPAM. Há um déficit de água acumulada na floresta, que parece aumentar ano após ano. Por isso, qualquer fagulha tem potencial de virar labaredas. “São vários eventos que se sobrepõem, sem que haja um tempo de recuperação do solo.” Um desses eventos é a conversão de uma área florestada para um campo de soja ou de pasto. Um estudo realizado pelo também pesquisador do IPAM Divino Silvério ao redor do Parque Indígena do Xingu (MT) aponta que áreas de produção têm a temperatura da superfície de 4°C a 6°C, em média, mais alta em comparação a uma área florestada. “Ao desmatar, o sistema perde capacidade de retirar água do solo mais profundo. Assim, a energia do sol que seria utilizada para gerar vapor d’água passa a ser utilizada para aquecer o solo. Desta forma, o sistema se torna muito mais quente e mais seco”, explica Silvério.

COMBATE Justamente num ano que se previa crítico, o Insttuto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) teve menos dinheiro para combater incêndios florestais na Amazônia. O Prevfogo, programa do Ibama que todo ano contrata brigadistas para combater queimadas sobretudo em terras indígenas e assentamentos, teve R$ 24,2 milhões no ano passado e contratou 1.400 pessoas. Neste ano, após dois cortes orçamentários e uma complementação, foram R$ 22 milhões, que bastou para contratar 900 pessoas. “Com o aumento do salário mínimo, a despesa total cresceu, mas o orçamento não acompanhou. Por isso contratamos menos brigadistas”, explica Gabriel Zacharias, chefe do Prevfogo. Segundo ele, uma estratégia que o programa tem usado nos últimos anos é tentar fazer o manejo do fogo usando o conhecimento tradicional dos índios (23 das 49 brigadas do Prevfogo são indígenas). “Não dá para simplesmente dizer para não queimar. O que nós estamos fazendo é resgatar, por exemplo, a

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FOTO: MANU DIAS/GOVBA

FOTO: SIDNEY OLIVEIRA / ARQUIVO AG PARÁ

FOTO: DANIEL BELTRÁ / GREENPEACE

FOTO: BRUNO KELLY / GREENPEACE

1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O DESMATAMENTO para criação de pasto e a venda ilegal de madeira contribuem para aumentar os efeitos do aquecimento global. Com o solo exposto ao calor e a escassez de água, a produção de alimentos também é impactada

informação de quando os avós dos índios queimavam”, diz Zacharias. “O horário da queimada, por exemplo, importa muito na disseminação do fogo.” MAIS FOGO, MENOS COMIDA O fogo é uma técnica antiga utilizada pelos índios, para limpar a área e preparar a terra antes do cultivo. No passado, quando usado, o fogo não causava tantos problemas. Porém, em um ambiente cada vez mais seco, as condições naturais do clima que os indígenas estavam acostumados não são mais as mesmas. O risco de se perder o controle do fogo – porque a chuva atrasou, por exemplo – é bem maior agora. Consequentemente, há mais incêndios florestais e muitos indígenas estão perdendo seu cul32  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

tivo de subsistência. Segundo a pesquisadora do IPAM, Ane Alencar, é preciso entender como as políticas públicas podem auxiliar em ano de seca extrema e trabalhar com os índios a melhor forma de manejo para enfrentar o problema. “É preciso criar os mecanismos para que eles tenham essa visão de médio prazo e possam se adequar às novas condições climáticas”, afirma Alencar. Uma alternativa para a criação desta visão mais abrangente do problema está na plataforma SOMAI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena), desenvolvida pelo IPAM. Por meio dela, os povos tradicionais têm acesso a informações que impactam suas terras. Com o apoio do Google, nos

próximos meses, um boletim digital, o “Alerta Clima Indígena”, será lançado para levar dados climáticos com mais antecedência aos indígenas. “Muitos povos indígenas já relatam mudanças nos seus calendários agrícolas, afetando diretamente a segurança alimentar. Ferramenta como o SOMAI e o “Alerta Clima Indígena” apoiarão tomadas de decisão importantes na gestão territorial, visando a ações de adaptação para esses povos”, afirma a coordenadora do núcleo indígena do IPAM, Fernanda Bortolotto. PRODUÇÃO EM RISCO Não só o cultivo de subsistência precisa de adaptação. No Pará, o segundo Estado que mais produz cacau no Brasil, os agricultores


OS EFEITOS INVISÍVEIS DO FOGO Além das labaredas e grandes colunas de fumaça, as queimadas provocam efeitos danosos e de longo prazo que não são imediatamente visíveis. O primeiro é o empobrecimento do solo. Especialmente em áreas em que o fogo é recorrente, ou seja, quando ele é usado como ferramenta agrícola, ele degrada e afeta a fertilidade da terra, e reduz tanto a produção agrícola quanto sua capacidade de produção. Nutrientes essenciais às plantas, como nitrogênio, potássio e fósforo, são eliminados. Além disso, a prática reduz a umidade do solo e acarreta na sua compactação, resultando em um processo erosivo. Na Amazônia, as queimadas se somam ao desmatamento e a secas extremas para ampliar esse processo, uma vez que cada um desses fatores alimenta o seguinte. Com a crescente demanda por alimentos, a saúde do solo, que é um recurso finito, é uma preocupação mundial. De acordo com a

Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) cerca de 32% das terras do mundo estão degradadas. “No Brasil 40% do PIB vem do uso do solo. Se fizermos o manejo de forma equivocada, vamos comprometer o futuro e a segurança alimentar da população. Por isso, é preciso investir na conservação, na recuperação e no bom uso do solo”, explica o diretor-executivo do IPAM, André Guimarães. AQUECIMENTO GLOBAL Outro efeito é o impacto no clima. Além de reduzir a capacidade das florestas em armazenar o carbono, as queimas são responsáveis por liberar uma grande quantidade de CO2, o principal gás do efeito estufa, na atmosfera. Estimativas globais indicam que 70% a 80% do CO2 que chega à troposfera pela queima de biomassa em um ano vem de regiões equatoriais e subtropicais. Na terceira Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças do Clima, divulgada neste ano, as

emissões de gases estufa pelo fogo seguidas de desmatamento correspondem a 350 milhões de toneladas de CO2 equivalente (tCO2e) em 2010, que são 63% das emissões totais de uso de solo, como explica o cientista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Raoni Rajão. “Há também as emissões de mais de 450 milhões de tCO2e que, por serem de fogo que não ocasionaram desmatamento, não são contabilizadas, já que parte disso pode voltar para a floresta em recuperação”, diz. Quanto mais gases estufa na atmosfera, piores são as mudanças climáticas e mais intensos e frequentes serão os eventos extremos, como as secas – que, por sua vez, alimentam mais fogo, num círculo vicioso e extremamente perigoso para a Amazônia e para quem vive na região. É como diz Paulo Moutinho, do IPAM: “Enquanto desmatamento e queimadas forem uma prática corrente na Amazônia, não haverá equilíbrio”. SAIBA MAIS www.ipam.org.br

FOTO: GREENPEACE / RODRIGO BALEIA

FOTO: BRUNO KELLY / GREENPEACE FOTO: MANU DIAS/GOVBA

estão sentindo os impactos da seca. No verão de 2015, diversos produtores relataram a mortalidade de cacaueiros. Esse ano, a safra que deveria ser colhida até agosto atrasou e é esperada uma perda de 50% da produção. Até os produtores mais antigos estão surpresos com a situação desse ano. Élido Trevisan é um médio produtor em Medicilândia (PA), que produz cacau desde 1977. Ele conta que, em uma safra normal, sua produção é de 1.500 quilos por hectare, mas esse ano vai cair para 900 quilos. “É uma queda muito grande na colheita do cacau, ainda mais considerando que essa foi a única safra do ano. Estamos sofrendo, porque ficamos nove meses sem produção.”

UM DOS efeitos das queimadas é o empobrecimento do solo, que degrada e afeta a fertilidade da terra

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1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS CIENTISTAS afirmam que limitar o aquecimento global a menos de dois graus reduzirá a intensidade de tempestades e secas longas

Reduzir é mais que preciso Relatório da agência ambiental da ONU alerta que o mundo deve tomar medidas urgentes para cortar mais 25% das emissões previstas em 2030 Os países devem aumentar urgentemente sua meta de cortar mais um quarto das emissões globais dos gases de efeito estufa previstas em 2030. Só assim a humanidade terá a chance de minimizar o perigo das mudanças climáticas. É o que alertou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), por meio do seu relatório anual “UNEP Emissions Gap Report”. Lançado na véspera da entrada em vigor do Acordo de Paris, o relatório revela que as emissões em 2030 deverão atingir de 54 a 56 gigatoneladas de dióxido de carbono - muito acima do nível de 42 gigatoneladas necessário para que haja uma chance de limitar o aquecimento global a 2°C (em 34  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

comparação com os níveis pré-industriais) neste século. Uma gigatonelada é aproximadamente equivalente às emissões geradas pelos transportes na União Europeia (incluindo a aviação) ao longo de um ano. Os cientistas concordam que limitar o aquecimento global a menos de 2°C neste século reduzirá a probabilidade de tempestades mais intensas, secas mais longas, aumento do nível do mar e outros impactos climáticos severos. Mesmo a meta mais abaixo, de 1,5°C, só reduzirá, em vez de eliminar, os impactos. Mesmo se as promessas de Paris forem totalmente implementadas, as emissões previstas para 2030 colocam o mundo na rota

de um aumento de temperatura de 2,9°C a 3,4°C neste século. Esperar para aumentar a ambição provavelmente desperdiça a chance de atingir a meta de 1,5°C, além de aumentar o uso da tecnologia intensiva em carbono e inflar o custo de uma transição global para baixas emissões. “Estamos avançando na direção certa: o Acordo de Paris irá desacelerar as alterações climáticas, assim como a recente Emenda de Kigali para reduzir os HFCs”, afirma Erik Solheim, chefe do Programa de Meio Ambiente da ONU. “Ambos mostram forte compromisso, mas ainda não o suficiente se quisermos ter uma chance de evitar graves mudanças climáticas. Se


FOTO: ALUÍSIO MOREIRA-SEI

não começarmos a adotar medidas adicionais agora, começando com a próxima reunião climática em Marrakesh, vamos lamentar uma tragédia humana evitável. O crescente número de refugiados climáticos atingidos pela fome, pobreza, doença e conflito será um lembrete constante do nosso fracasso. A ciência mostra que precisamos nos mover muito mais rápido.” A necessidade de ações urgentes foi reforçada pelo fato de que 2015 foi o ano mais quente desde que começou o acompanhamento da temperatura do planeta. A tendência continua, com todos os primeiros seis meses de 2016 sendo os mais quentes já registrados. No entanto, as emissões continuam a aumentar, diz o relatório. A Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, aprovada no mês passado, tem como objetivo reduzir o uso de hidrofluorcarbonetos. Estudos iniciais indicam que isso poderia reduzir outros 0,5°C se ela for totalmente implementada, embora uma taxa significativa de redução das emissões não comece antes de 2025. Além disso, embora os membros do G20 estejam coletivamente no caminho certo para cumprir suas promessas para 2020 feitas na COP de Cancún, elas não conseguem criar um ponto de partida suficientemente ambicioso para que se alcance o objetivo de temperatura do Acordo de Paris. No entanto, o relatório do PNUMA apresenta uma avaliação das tecnologias e oportunidades para fazer os cortes adicionais necessários, incluindo atores não estatais, a aceleração da eficiência energética e o cruzamento com os objetivos de desenvolvimento sustentável. Atores não estatais (como o setor privado, as cidades, as regiões e outros atores subnacionais, como grupos de cidadãos) podem reduzir várias gigatone-

INVESTIR em energia limpa é essencial para evitar o uso de combustíveis fósseis

ladas até 2030 em áreas como agricultura e transportes, desde que muitas iniciativas cumpram seus objetivos e não substituam outras ações. ENERGIA SUSTENTÁVEL A área de energia limpa é outra que pode trazer ganhos. Os investimentos em eficiência energética aumentaram 6% para US$ 221 bilhões em 2015. Estudos mostram que, para um investimento entre 20 e 100 dólares por tonelada de dióxido de carbono, o potencial de redução de emissões gerado pela eficiência energética (em gigatoneladas) até 2030 é de 5,9 para edifícios, 4,1 para indústria e 2,1 para transportes. Um novo relatório divulgado pela 1 Gigaton Coalition mostra que os projetos de energia renovável e eficiência energética implementados nos países em desenvolvimento de 2005 a 2015 reduzirão as emissões em quase meia gigatonelada até 2020, incluindo ações de países que não fizeram promessas formais em Cancún. “Os projetos apoiados internacionalmente sobre energia renovável e eficiência energética estão fazendo contribuições significativas para reduzir as emis-

sões globais de gases de efeito estufa”, afirma Børge Brende, ministro de Relações Exteriores da Noruega. “Graças ao trabalho da 1 Gigaton Coalition podemos medir e relatar o impacto desses projetos para ver o quanto ainda temos que avançar para alcançar a meta climática. Esta é a forma como a coalizão pretende inspirar os países do mundo a aumentar a sua ação e meta sobre as alterações climáticas através do setor da energia”. Finalmente, a ação climática está entrelaçada com os objetivos de desenvolvimento sustentável. Os primeiros impactos das mudanças climáticas podem minar nossa capacidade de cumprir as metas até 2030 e o fracasso em cumprir a meta de ação climática terá implicações ainda maiores para manter o progresso do desenvolvimento pós-2030. A implementação bem-sucedida do Acordo de Paris e da agenda dos objetivos de desenvolvimento sustentável dependerá da capacidade dos governos de desenvolver metas nacionais que atendam ambos e que aproveitem as oportunidades comuns.  SAIBA MAIS

web.unep.org/emissionsgap

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FOTO: HIRAM FIRMINO

1 SAÚDE

GRAFISMO do artista Rogério Fernandes nos tapumes da obra interrompida: Drummond também convocado

CLAMOR ROSA

O Grupo Oncomed, que adquiriu as ruínas do antigo Hospital Hilton Rocha, em BH, reúne centenas de pacientes e ex-pacientes num protesto em forma de abraço contra uma decisão-surpresa do Ministério Público Federal Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

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medida liminar que suspendeu as obras de construção do novo e avançado centro de excelência médica para tratamento e prevenção de câncer aos pés da Serra do Curral, após sete anos de luta e aprovações ambientais em âmbito municipal e estadual, partiu de uma ação impetrada pela promotora Mírian do Rosário Moreira Lima, procuradora da República em Minas Gerais, acompanhada do promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador da Pro-

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motoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico. O primeiro protesto contra essa desumanidade aconteceu na manhã nublada do último sábado de outubro. Os manifestantes, vestidos a caráter contra a escalada da segunda doença que mais ceifa vidas hoje no planeta, se reuniram e depois deram as mãos ao redor do hospital pretendido pela Oncomed, no Alto das Mangabeiras. Não mais o saudoso hospital-fundação Hilton Rocha. Mas, agora,

muito além do que ele foi. Além de trazer de volta a oftalmologia científica-social que o mestre Hilton praticava, o novo centro avançado acrescenta a cardiologia e, sobretudo, a cancerologia, com tecnologia de ponta tanto para tratamento quanto para prevenção da doença. Tudo dentro da proposta de uma nova e ecológica edificação médica-hospitalar em harmonia com a natureza que compõe a Serra do Curral, eleita pela população o cartão-postal natural da capital mineira.


ROBERTO FONSECA à multidão: “Nossa luta é contra essa decisão desumana do MPF” FOTOS: DIVULGAÇÃO

PELA VIDA Foi assim que o abraço rosa aconteceu. A multidão, em silêncio, primeiro ouviu esta certeza do médico Roberto Fonseca, presidente do Grupo Oncomed: “Ao contrário de agredir a paisagem, o nosso projeto prevê justamente o contrário, que é qualificar ambientalmente o antigo hospital há anos abandonado e em desuso. Além desta qualificação ecológica que irá integrar o futuro hospital com a sua vizinhança, vamos implantar e revitalizar, em contrapartida, todo o sonhado corredor ecológico que os ambientalistas e os sucessivos prefeitos de Belo Horizonte e Nova Lima sempre sonharam interligar ao redor da serra, para interligar e conectar a fauna e a flora locais”. Atendendo uma condicionante do licenciamento ambiental obtido junto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de BH, leia-se autorização pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), a proposta compensatória do Grupo Oncomed é reflorestar toda a franja sul da Serra do Curral. Desde a entrada do Parque das Mangabeiras, já interligado naturalmente com o Parque da Baleia, até a Praça Israel Pinheiro, passando pelo Parque Municipal Paredão da Serra, além da instalação de equipamentos médicos esportivos de terceira idade para uso da comunidade local. Como acrescentou Roberto Fonseca, em termos de ecologia humana, “o que estamos trazendo para os pés desta serra é tão somente ganho ambiental, saúde e mais qualidade de vida. Ao contrário dos boatos negativos, dos interesses escusos e sem fundamento que tentam barrar as obras, reforço que, justamente por se tratar de um hospital de tratamento de câncer, não haverá sirenes de ambulância

MANIFESTANTES em caminhada silenciosa: protesto da mesma cor a favor do hospital

nem pronto-socorro. Assim, o silêncio, uma das características da região do Mangabeiras, será mantido, acrescido de maior segurança aos seus moradores”. “Infelizmente” – continuou o presidente da Oncomed - “mesmo depois de consecutivas aprovações da prefeitura e de pareceres ambientais da Fundação Biodiversitas, que comprovam que o nosso projeto está em total consonância com a legislação ambiental e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mais uma minuciosa avaliação e liberação por parte

do Ministério Público Estadual, vem agora essa decisão desumana por parte da esfera federal. Ou seja, mesmo diante de toda a nossa legitimidade, inclusive com o Alvará de Construção emitido favoravelmente pela Secretaria Municipal Adjunta de Regulação Urbana, em maio deste ano, deparamo-nos com a inesperada interrupção das obras em outubro, após sete anos de embate, o que representa um verdadeiro retrocesso na luta contra o câncer”. Em sua opinião, isso significa que a população belo-horizontina irá perder 220 novos leitos,

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

1 SAÚDE

PACIENTES e ex-pacientes da Oncomed dão as mãos ao redor do abandonado ex-Hilton Rocha: esperança rosa

considerando a capacidade do pretendido novo hospital da Oncomed em atender 13 mil internações/ ano, além de realizar 180 mil exames e 65 mil atendimentos ambulatórios em oncologia, oftalmologia e cardiologia em um mesmo lugar, com equipamentos de última geração. E tendo os próprios moradores vizinhos da região como os primeiros e privilegiados beneficiários. Enquanto a polêmica continua, lembrou Roberto, disparam os números de diagnósticos e de óbitos por câncer em BH. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer calculam que, até o fim deste ano, são previstos quase 10 mil novos casos somente na capital, somando-se todas as neoplasias: “Afinal, quem de nós, que temos parentes e amigos próximos, podemos desprezar, abrir mão de um serviço de saúde de qualidade, confiança e comprometimento, principalmente quando falamos de uma doença que assola uma grande fatia da população? É por isso que vamos resistir e jamais parar de lutar. Nossa luta é pela vida!”- conclamou.  SAIBA MAIS goo.gl/VrUv3R

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SEM DISTINÇÃO “Só quem teve ou tem uma pessoa próxima acometida de câncer, seja rico ou pobre, sabe como essa doença é terrível e precisa de um tratamento diferenciado, humanizado e de ponta. Não é à tôa que estamos aqui, no pé desta serra, lutando pela construção do hospital que, me parece, incomoda o alto padrão da vizinhança que o repudia. O maior homem que já pisou neste planeta pregava nas montanhas e para os pobres, sem distinção.” Mário Werneck, presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB-MG ASSASSINATO, NÃO! “Não podemos deixar esse absurdo acontecer em nossa cidade. Eu sou paciente da Oncomed em outro hospital de câncer dela, onde sou chamada pelo nome e tratada com carinho. Tenho dois filhos e sou testemunha da debilidade que essa doença nos provoca. Impedir mais vagas e leitos hospitalares para a população é um assassinato.” Kênia Orsine Maciel, paciente DESAMOR AO PRÓXIMO “Minha mãe perdeu um seio para o câncer e sei o que isso provoca de dor e necessidade de auxílio em toda a família. Temos de reacreditar no ser humano. A construção desse hospital, ao contrário dos que querem impedi-lo, significa um ato concreto de amor ao próximo.” Luiz Carlos Bernardes, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais


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ESPAÇO LIVRE

FERNANDO PIERONI (*) redacao@revistaecologico.com.br PARQUE Nacional da Serra da Capivara, no Piauí: falta de compartilhar responsabilidades quase levou ao seu fechamento

COMO SALVAR NOSSOS PARQUES?

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ecentemente, vimos o Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, prestes a fechar suas portas e privar o público do acesso a tesouros arqueológicos que são Patrimônio Cultural da Humanidade. Foi uma situação extrema, desencadeada pela escassez de recursos e dificuldades de gestão. O episódio foi só uma amostra de problemas estruturais relacionados à vulnerabilidade dos parques brasileiros e à ameaça que isso representa para a manutenção do nosso patrimônio ambiental e cultural. Os desafios para a gestão de parques não são exclusivos do Brasil. A diferença está nas saídas encontradas. Bons exemplos vêm dos Estados Unidos, Nova Zelândia e África do Sul, que incrementaram suas gestões justamente com maior ou menor envolvimento da iniciativa privada em atividades de turismo e conservação. O Brasil, entretanto, apenas dá seus primeiros passos nessa direção. Ao menos três conces-

FOTO: VAGNER CARVALHEIRO

sões em parques nacionais - do Iguaçu (PR), da Tijuca (RJ) e Marinho de Fernando de Noronha (PE) - já apontam o potencial de sucesso. Apenas em Iguaçu, o número de visitantes dobrou: em 1998, no início da concessão, a média era de 760 mil pessoas por ano e, em 2015, chegou a 1,6 milhão. Não há segredos. É possível conjugar interesse público e qualidade de gestão privada com geração de oportunidades econômicas e oferta de saúde e bem-estar para toda a sociedade. Basta que os contratos firmados respeitem a vocação de cada parque e a política pública pretendida para essas áreas promovam o desenvolvimento local e garantam a sustentabilidade financeira para os parceiros privados. A expansão desse debate abrirá um caminho seguro para atrair investimentos e garantir eficiência para os parques brasileiros. Eles precisam disso para realizar plenamente as razões de sua existência: conservação da

FIQUE POR DENTRO

INSTITUTO SEMEIA Criado em 2011, é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos. Com sede em São Paulo (SP), trabalha para transformar áreas protegidas em motivo de orgulho para todos os brasileiros. Atua nacionalmente no desenvolvimento de modelos de gestão e projetos que unam governos, sociedade civil e iniciativa privada na conservação ambiental, histórica e arquitetônica de parques públicos. E na sua transformação em espaços produtivos, geradores de emprego, renda, impostos e oportunidades para as comunidades do entorno, sem perder de vista sua função de provedores de lazer, bem-estar e qualidade de vida. Site: www.semeia.org.br

biodiversidade, desenvolvimento socioeconômico e promoção do uso público.  (*) Especialista em infraestrutura e parcerias público-privadas e diretor executivo do Instituto Semeia. ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016  39


CÉU DE BRASÍLIA FOTO: GREENPEACE / DANIEL BELTRÁ

DESMATAMENTO AMAZÔNICO

O Ministério do Meio Ambiente promoveu, em Brasília, o “Seminário Técnico-Científico de Análise dos Dados do Desmatamento da Amazônia Legal”. O evento reuniu representantes do governo federal, da comunidade acadêmica e da sociedade civil organizada para analisar os novos dados do desmatamento no bioma, elaborados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. De acordo com o Inpe, o desflorestamento na Amazônia Legal, entre junho de 2014 e agosto de 2015, chegou a 6.207 km².

QUINTAIS PRODUTIVOS

A Embrapa Agroindústria Tropical, em parceria com as Empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Ceará e do Rio Grande do Norte, vai executar o projeto "Implantação de quintais produtivos, captação e uso racional da água como estratégias de desenvolvimento sustentável da propriedade familiar no semiárido do Nordeste brasileiro". A ação consiste em fazer com que as famílias de pequenos produtores possam obter seu sustento a partir da fabricação de doces, geleias e compotas artesanais. A matéria-prima dos produtos deverá ser originada a partir da implantação dos quintais produtivos nas propriedades.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL?

Segundo relatório lançado recentemente pela Unesco, sobre o tema “Educação para as pessoas e o planeta: criar futuros sustentáveis para todos”, 60% dos estudantes brasileiros com idade de 15 anos têm conhecimento básico sobre temas ambientais. “No Brasil, vemos uma educação focada em determinados conteúdos para o Enem. Os currículos são pautados apenas por livros didáticos. Não se vê a educação como esse instrumento de qualificação da vida das pessoas, para aprender a ser, conviver e fazer”, ressalta o documento, que aponta a necessidade de se repensar a formação dos professores e valorizar novas metodologias de ensino no país. FOTO: FERNANDA MANN

ANIVERSÁRIO ECOLÓGICO

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (foto) e a Área de Proteção Ambiental (APA) Cavernas do Peruaçu, unidades de conservação (UCs) contíguas administradas pelo ICMBio no norte de Minas Gerais, celebraram, respectivamente, 17 e 27 anos de criação em outubro. O feito foi comemorado com uma reunião do Conselho Consultivo, credenciamento de 24 novos condutores ambientais para o parque, exposição de artesanato e produtos extrativistas e show musical com artistas locais. 40  ECOLÓGICO | OUT / NOV DE 2016


EMPRESA & MEIO AMBIENTE

PLANTANDO O FUTURO Projeto de recuperação ambiental criado pelo Governo de Minas Gerais e lançado em março deste ano já alcançou 20% de sua meta

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esenvolvimento e sustentabilidade estão sendo semeados juntos no solo mineiro. E o projeto “Plantando o Futuro”, uma iniciativa do Governo de Minas Gerais para plantar 30 milhões de árvores até dezembro de 2018, é a prova disso. Responsável pela coordenação e pelo apoio logístico e operacional da ação, a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) evidencia com o projeto a sua política de gestão ambiental. A meta é compatibilizar crescimento econômico e conservação do meio ambiente. Além de oferecer à população a oportunidade envolvente de ser protagonista do desenvolvimento sustentável, o projeto vem incen-

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tivar o reflorestamento, contribuir para preservar a natureza e promover o bem-estar dos mineiros. Com isso, pretende alcançar uma ampla mobilização social, conscientizando a população para que se aproprie da iniciativa e participe ativamente do plantio, da manutenção e da fiscalização. A iniciativa prioriza áreas degradadas, nascentes de rios e seus afluentes e matas ciliares, bem como a arborização urbana, com vistas ao plantio de árvores em todos os municípios do Estado, contemplando os 17 Territórios de Desenvolvimento definidos pelo Governo estadual. PRIMEIROS FRUTOS O projeto “Plantando o Futuro” já apresenta resultados positivos. Nos

primeiros meses de atuação, desde a publicação do Decreto 46.974, no dia 22 de março de 2016, que instituiu oficialmente a iniciativa, conseguiu viabilizar, por meio de convênios e licitações, a produção e o possível plantio de mais de seis milhões de mudas de árvores. O montante representa a recuperação de, aproximadamente, quatro mil hectares, equivalente a mais de 20% da meta estipulada. O projeto visa o plantio de 30 milhões de árvores, o que compreende a recuperação de 40 mil nascentes, seis mil hectares da mata ciliar e dois mil hectares de áreas degradadas, em todos os Territórios de Desenvolvimento de Minas Gerais, até dezembro de 2018. Em março de 2016, o “Plantando o Futuro” assinou convênio com o


IMAGEM ILUSTRATIVA: JORGE SANTOS

FIQUE POR DENTRO

30 milhões de mudas até dezembro de 2018.

O

objetivo é plantar

O

projeto já conseguiu viabilizar a produção e o plantio de mais de

IMAGEM ILUSTRATIVA: REPRODUÇÃO

6 milhões de mudas - cerca de 4 mil hectares (mais de 20% da meta).

 Prevê recuperar 40 mil nascentes, seis mil hectares da mata ciliar e dois mil hectares de áreas degradadas. IMAGEM ILUSTRATIVA: JORGE SANTOS

Instituto Espinhaço para produção de seis milhões de árvores específicas da Mata Atlântica e do Cerrado. A ação vai contemplar 53 municípios da região da Serra do Espinhaço e beneficiar mais de um milhão de pessoas. Em abril, foi assinado, em Belo Horizonte, convênio com o Centro Cultural Francisca Veras para viabilizar a produção de 2,88 milhões de mudas de árvores nativas em parceria com 27 assentamentos para a reforma agrária. A cooperação entre a entidade e a Codemig vai até dezembro de 2018. A previsão é que as mudas recuperem uma área de, aproximadamente, 2,6 mil hectares. O projeto assinou, ainda, convênio com o Instituto Estadual de Florestas (IEF) para recuperação da capacidade de produção dos viveiros de Corinto, Patos de Minas e Leopoldina. Os três em conjunto produzirão dois milhões de mudas/ano para atender o “Plantando o Futuro”. Também foi assinado convênio com o Grupo Dispersores de Brasópolis para recuperação de 200 nascentes e plantio de 130 mil mudas na Bacia do Rio Sapucaí. Com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), foi firmado convênio para produção e plantio de 40 mil mudas em Lambari. Também por meio do “Plantando o Futuro”, o Fundo de Recuperação, Proteção e Desenvolvimento Sustentável das Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais (FHIDRO) liberou projeto no valor de R$ 5,5 milhões ao Instituto Terra, para recuperação de mil nascentes na Bacia do Rio Manhuaçu, afluente do Rio Doce. Além de ações concretas, a coordenação do projeto também tem atuado na sua divulgação em diversas regiões do Estado. Foi realizado em março, na capital mineira, um workshop com os 36 Comitês de Bacia Hidrográfica de Minas Gerais para apresentar e debater o projeto. A equipe do “Plantando o

 A iniciativa pioneira contempla os 17 Desenvolvimento de Minas Gerais.

Territórios de

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IMAGEM ILUSTRATIVA: JORGE SANTOS

EMPRESA & MEIO AMBIENTE

O objetivo do "Plantando o Futuro" é também trazer de volta as florestas que perderam lugar para o capim, como na região do Espinhaço, recompondo os ecossistemas da Mata Atlântica e do Cerrado

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Futuro” já fez contato com mais de 100 cidades do estado para apresentar as diretrizes da proposta a prefeituras e instituições parceiras. NOVAS PARCERIAS A Codemig e a Via 040, responsável pela gestão da Rodovia BR-040, assinaram um Termo de Cooperação para a recuperação de 1.200 hectares distribuídos em 31 municípios do estado. A parceria abrange áreas com necessidade de recuperação florestal apontada pelo projeto “Plantando o Futuro”. O Termo de Cooperação, válido até dezembro de 2018, surgiu da necessidade da Via 040 de executar plantios compensatórios definidos junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como parte do licenciamento para duplicação e construção de praças de pedágio ao longo da rodovia. Dessa forma, a Via 040 comprometeu-se a definir as melhores práticas para o reflorestamento e a recuperação de nascentes em regiões que abrangem as ações do “Plantando o Futuro”, bem como a identificar informações das áreas para plantio de espécies nativas. Por sua vez, a Codemig irá realizar o cadastro e o mapeamento das possíveis áreas de plantio nos municípios interceptados pela BR-040. A partir da identificação, a Via 040 avaliará a aptidão do solo, as características climáticas, o relevo, os acessos, cercamentos e o compromisso do proprietário em não suprimir a vegetação introduzida nos locais. O compromisso entre as partes passou a valer no dia 20 de outubro último, quando o Termo de Cooperação foi publicado no Diário Oficial de Minas Gerais.

SAIBA MAIS

www.codemig.com.br www.plantandoofuturo.mg.gov.br


A origem do projeto A decisão do Governo estadual de investir na preservação do meio ambiente por meio do plantio de mudas e recuperação de nascentes leva em consideração o compromisso firmado pelo Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU), que visa à restauração e à recuperação de 12 milhões de hectares até 2030, bem como o relatório da entidade que prevê que, em 2030, o mundo enfrentará um déficit no abastecimento de água de 40%. 

CONSTRUÇÃO de viveiro em Itabira, em parceria com o Instituto Espinhaço: três milhões de novas árvores para a Mata Atlântica e o Cerrado

17 Territórios de Desenvolvimento FOTO: CENTRO FORMAÇÃO FRANCISCA VERAS – DANIEL AUGUSTO

SEMENTES que germinam: a iniciativa do Governo de Minas Gerais vem conquistando mais parcerias a cada dia

ABRANGÊNCIA

• Alto Jequitinhonha • Caparaó • Central • Mata • Médio e Baixo Jequitinhonha • Metropolitano • Mucuri • Noroeste • Norte • Oeste • Sudoeste • Sul • Triângulo Norte • Triângulo Sul • Vale do Aço • Vale do Rio Doce • Vertentes

FOTO: INSTITUTO ESPINHAÇO – CORYNTHO FILHO

O “Plantando o Futuro” surgiu a partir de um Grupo de Trabalho criado em agosto de 2015, que envolveu sete secretarias de Estado – Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; Fazenda; Governo; Planejamento e Gestão; Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; Educação; e Agricultura, Pecuária e Abastecimento, além de diversas empresas públicas, autarquias e fundações ligadas ao Governo de Minas Gerais.

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1 LITERATURA

A DIÁSPORA DE MARIANA Novo livro do jornalista J.D. Vital revisita o susto que Minas Gerais levou quando o arcebispo mandou mais de 100 seminaristas para casa por serem contra o celibato obrigatório J. Sabiá

redacao@revistaecologico.com.br

A

pós sua última obra “Como se faz um Bispo, segundo o Alto e o Baixo Clero”, o jornalista J. D. Vital volta às canchas do jornalismo literário com um novo livro-reportagem. Desta vez, sobre o fechamento do Seminário São José, em Mariana (MG), a Cidade dos Bispos, em 1966. Trata-se de “A Revoada dos Anjos de Minas”, publicado pela editora Autêntica, de leitura fácil e cativante, onde ele narra o famo46  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

so episódio que abalou a Igreja e escandalizou os mineiros: o fechamento do bicentenário Seminário Maior de Mariana, em 1966, pelo arcebispo Dom Oscar de Oliveira. “De repente, mais de 100 seminaristas, muitos já na bica da ordenação sacerdotal, foram ‘expulsos do paraíso’ e enviados para casa ou para suas dioceses de origem. Despejados da primeira escola de ensino superior fundada em Minas Gerais no

século XVIII, esses jovens reviveram, como os judeus banidos de Jerusalém, uma espécie de diáspora.” Segundo Vital, o motivo da crise foi uma pesquisa de opinião realizada entre os seminaristas, cujo resultado revelou que 90% deles eram contra o celibato obrigatório: “Os bons ventos do Concílio Vaticano II, encerrado um ano antes, sopravam a poeira depositada nos educandários tradicionais de


ELE

J.D. Vital é graduado em Filosofia e em Comunicação Social pela UFMG. Trabalhou como repórter nos jornais Diário de Minas, O Globo e O Estado de São Paulo, e como comentarista da TV Manchete e da Rádio Alvorada. Foi chefe da assessoria de imprensa e relações públicas dos governos Tancredo Neves e Hélio Garcia. É gerente de Comunicação da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e membro da Academia Marianense de Letras. Presidiu a Banda de Música Santa Cecília, de Barão de Cocais. É fundador e membro do Comitê Diretor da International Association of Religion Journalists (IARJ), com sede em Nova York.

REGISTRO HISTÓRICO da revoada ocorrida na Cidade dos Bispos

Minas. Fascinava a rapaziada, mas incomodava a hierarquia”. A repercussão foi tão avassaladora que até o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade publicou no jornal “Estado de Minas”, em 15 de setembro de 1966, uma crônica que o repórter Vital também conseguiu

recuperar das cinzas da memória jornalística mineira: “Drummond não apenas chorou o fim do Seminário Maior. Ele se disse assombrado, junto às fotos memoráveis mostrando os seminaristas carregando malas, violão e tralhas nas alamedas de frente ao Seminário São José.

DRUMMOND: dor e assombro

Tiradas por Evandro Santiago, elas registraram o início da revoada, da diáspora de Mariana”. É o que a Revista Ecológico mostra a seguir, com a publicação, na íntegra, de “Roque, a expulsão do paraíso”, um dos capítulos do novo livro de Vital. Confira!

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FOTO: CARLOS ALBERTO PEREIRA

FOTOS: REPRODUÇÃO

QUEM É


1 LITERATURA

Roque, a expulsão do paraíso

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va à procura de uma foto do lançamento da pedra fundamental de uma igreja em Ipatinga, na década de 1950, pelo arcebispo Dom Helvécio Gomes de Oliveira. Disse que viajou para Ipatinga de jipe com padre Efraim Solano Lopes, quando ainda não existia a rodovia 381. “Certamente, passamos por estradas de terra e por dentro de municípios da Arquidiocese, como Barão de Cocais, hoje fora da rota para lá”. Dom Helvécio, décimo bispo e segundo arcebispo de Mariana, amava aquela região. Ele foi o responsável direto pela criação do Parque Estadual do Rio Doce e seu nome deveria estar inscrito no panteão dos precursores da consciência ecológica no Brasil. Atendendo à sua sugestão, em defesa da flora e da fauna, o governador Benedito Valadares assinou em 14 de julho de 1944 decreto oficializando a Unidade de Conservação. Em reconhecimento, o Instituto Estadual de Florestas deu o nome de Lago Dom Helvécio, com 700 hectares de espelho d’água, 32 metros de profundidade. A Lagoa do Bispo, como é conhecida popularmente, é o principal reservatório natural do sistema lacustre local,

com cerca de 40 lagos, dentro da bem preservada Mata Atlântica. A caminho do Seminário Maior, Vicente Roque Dutra carregava o oboé e recordações da orquestra. Em 18 de novembro de 1965, por exemplo, lambe-lambes distribuídos em Ouro Preto anunciavam para o Teatro Municipal o concerto da Orquestra e Coro do Seminário São José de Mariana. Roque acha que foi sua última participação na orquestra. O repertório, de qualidade, expressava o alto grau musical do grupo: J. P. Sousa (“Diplomat March”, marcha americana); Tchaikovsky (“Tema Favorito do Concerto nº 1”), Puccini (“Un bel di vedremo”, bela ária da ópera Madame Butterfly) e o popular “L’hymne à l’amour” (Monnot – Piaf ) figuravam na primeira parte do programa. Na segunda parte, Franz Schubert (“Sinfonia n° 8 Inacabada”), Mascagni (“Intermezzo Sinfonico”, da vibrante Cavalleria Rusticana) e, para delírio das mocinhas de Ouro Preto, o então aclamado sucesso de Charles Trénet, “La Mer”. Na parte três, o coro entrava em cena, a capella, com “Santa Maria”, de A. Schweitzer, e a bocca chiusa no segundo ato de FOTOS: REPRODUÇÃO

m setembro de 1966, Vicente Roque Dutra voltou a Mariana. Ele se encontrava em Belo Horizonte, afastado do seminário desde o início do ano para tratamento de saúde. Vicente Roque Dutra tocava oboé. Nas apresentações da orquestra do padre Maia, recebia o foco de luz que realçava as estrelas do grupo. A licença médica transformara-se em férias prolongadas que duraram até sete de setembro. Dois ou três dias após a parada da Independência, ele se dirigiu ao Seminário Maior com o oboé que tocava na orquestra. Alguém lhe telefonara solicitando que comparecesse ao Seminário Maior com o instrumento que levara para casa. Roque pensou que o pessoal da orquestra o queria para algum concerto. Soubera que não surgira nenhum outro oboísta na sua ausência. Roque conhecia até as pedras do calçamento do caminho. Nascera em Mariana, em março de 1945, tinha 21 anos de idade. Ele e o violinista José Newton Garcia Araújo formavam a dupla caçula do segundo ano de Teologia. Vestira a batina desde criança, como coroinha. Em setembro de 2015, Vicente Roque Dutra anda-

DOM HELVÉCIO e o Parque Estadual do Rio Doce, a “Amazônia Mineira”, que ele criou: “Seu nome deveria estar inscrito no panteão dos precursores da consciência ecológica no Brasil” 48  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016


Madame Butterfly. E, por fim, para arrepiar ainda hoje os músicos remanescentes daquela noite gloriosa, a “Marcha triunfal” (final do II ato de Aida), de Giuseppe Verdi. “Miguel Vital na clarineta e eu na flauta fazíamos um dueto”, relembra Paulo Roberto Magalhães, passados 50 anos. “A gente ensaiava sem parar no recreio e nas horas de folga. O resultado foi sensacional” – acrescenta o então seminarista do curso de Filosofia. Em março de 1966, a edição de número 68 da revista Quatro Rodas circulou com ampla matéria sobre a Semana Santa em Ouro Preto e Mariana, ilustrada com uma foto de parte da orquestra, todos de batina: José Maria Araújo no contrabaixo; Geraldo Eustáquio Ferreira, o Dadinho, José Newton Garcia Araújo, Nelson Froes, Jonil Luiz e José Ferrer no violino, Paulo Roberto Magalhães na flauta e Miguel Vital na clarineta. O nível da Orquestra do Seminário Maior estonteava os visitantes de Mariana, muitos deles de Belo Horizonte, habituados apenas a bandas militares ou a pequenas orquestras populares que acompanhavam os cantores da Rádio Inconfidência. Padre José Rocha Netto (recém-ordenado) e José Moreira Magalhães sobressaíam-se como regentes daquele grupo de virtuoses. Eles substituíram padre Maia. Primeiros violinos: José Maria Araújo no contrabaixo; José Newton Garcia Araújo, José Magaly F. Junqueira e Aparecido Benedito de Faria. No grupo dos segundos violinos, padre Herval Ferreira, também ordenado naquele ano, Geraldo Eustáquio Ferreira, Nelson Froes, Jonil Luiz de Souza, Josué da Silva Abreu.

A ORQUESTRA tocando na Catedral de Mariana, durante a Semana Santa em 1966, registrada pelo fotográfo Armando Rozário na Revista 4Rodas: memória preservada

Na viola, José Ferrer Carvalho, e no cello, Ismael José Vilela. Contrabaixos com José Maria Araújo e João Ribeiro de Souza. Vicente Roque Dutra no oboé; Miguel Vital na clarineta, e Paulo Roberto de Magalhães na flauta. Pistom e trombone: Gilberto Borges Barroso e Héliton Dias de Oliveira. Trompa, Geraldo Porfírio; José Resende Vilela, no piano;

“O nível da Orquestra do Seminário Maior estonteava os visitantes de Mariana” José Eugênio da Fonseca, no harmônio; e na percussão, Luciano Tolentino. O coro não perdia em qualidade para o Madrigal Renascentista da capital mineira, na época, sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky. Primeiros tenores: Rogério R. Vilela, João Augusto de Carvalho, Geraldo Antônio Lisboa, Eustáquio Afonso de Souza, Arquimedes de

Andrade, João Emílio de Souza e José Carlos D’Angelo. Grupo dos segundos tenores: Benedito Clóvis Diniz, Joel Pereira Dias, José Ivanir Américo, Célio B. Damasceno, João Gabriel Teixeira e José Adauir da Silva. Barítonos: Wallace Campos Ferreira, José Nacif Nicolau, Wanderley Rodrigues, Felipe Caetano da Silva, Carlos Jurandir Ribeiro, José Delfino dos Santos, Délcio Gomes Faria e Roberto Gomes Morais. Por fim, os baixos: Pedro Donati, Joaquim de Souza, José Telésforo Miranda, Vicente do Carmo Alves, Adair Eustáquio Moreira, Antônio Assis e Antônio José Leal. Quando cheguei ao mata-burro que fica no portal de entrada do Seminário, trombei com seminaristas carregando malas. Imaginei que estivessem de saída para o trabalho pastoral nas paróquias. Mas era muita gente saindo ao mesmo tempo. Estranhei. Perguntei o que estava acontecendo. Um deles me disse que Dom Oscar havia mandado todo mundo para casa. Foi assim que Vicente Roque Dutra tomou conhecimento do fechamento do seu seminário.  OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  49


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GESTÃO & TI

ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

QUERO SER UMA STARTUP

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e repente, startup! Foi como descobrir a pedra fundamental, a solução para todos os males, a suprema política de desenvolvimento. Experimente dizer numa roda de amigos, num debate político, acadêmico ou econômico: - Pessoal, fundei uma startup! Todos te olharão com outros olhos! A palavra vai purificar instantaneamente suas intenções e te tornar “cool”, descolado. Não precisa ser uma startup de tecnologia. Pode ser qualquer coisa, sei lá, o seu “Joãozinho” da esquina que não abriu uma padaria com seu acerto de fundo de garantia: abriu uma startup que inova a tecnologia de pães! Pronto: sucesso garantido. As palavras têm força e mudam a realidade. Só que não! Startups são um fenômeno, mas ainda são empresas. Precisam cumprir as leis, pagar salários em dia, registrar ponto, dar férias, pagar impostos - tudo isso sendo inovadoras e disruptivas. Só que as nossas leis caducaram e as relações trabalhistas não sabem traduzir em direito o acordo de meia dúzia de estudantes que decidiram cada um fazer a sua parte e acertar no final. A história comprova em “facebooks” e “apples”. Belo dia um se desentende e pensa: “que startup que nada, isso aqui foi emprego!”. Está feito o inferno! E há aquela empresa grande que, inspirada pelos mais renomados teóricos mundiais da gestão, precisa aprender a trabalhar com startups, mas, de verdade, quer é contratar mão de obra barata e cabeças pensantes a preço de banana. Existe também o cara que teve uma grande ideia, mas não quer administrar nada. Não quer crescer sua empresa, quer mesmo é ser vendido. Na cotação atual, estimo, uma startup começa falando de dois milhões de reais em investimentos, não importando o que faça e não contando direito que investimento é esse.

TECH NOTES

Peraí, leitor, não sou contra startups! Não me entenda mal! Só que, enquanto o modelo de emprego vai caducando, mostre-me, por favor, quantas escolas passaram a formar seus alunos pra criar e administrar uma empresa? Seja em medicina, letras, tecnologia da informação, educação, a verdade é que sobram dedos na mão pra contar quantas se preocupam genuinamente com isso. É um bom tempo para que cursos de administração ensinem seus alunos a arte da parceria com profissionais empreendedores de outras áreas, tornando as coisas mais administráveis! Tempo para que legisladores reconheçam a mudança do mundo e sindicatos a discutam de forma séria.Tempo melhor ainda para que políticos legislem para adequar o futuro de nossas jovens empresas a leis que lhes permitam prosseguir, prosperar e serem vendidas ainda sadias. Porque a história é contada por vencedores e mitos empreendedores são raros. A maioria das startups não passa de laboratório para aqueles que, inventando-se inovadores, descobrem-se seguidores, empregados, talvez melhores empregados, depois de terem empreendido e fracassado. Fui uma startup um dia, mas o termo não existia. Em quase 30 anos no mercado de tecnologia da informação, um mercado que se transforma exponencialmente, sou uma startup todo dia. Sou uma startup agora, porque o mercado nunca me esperou e sempre exigiu atitude ousada e inovação. E por falar em inovação, termino repetindo minha definição dela que, por decorrência, também define startup: inovar é pensar o mundo sem aquilo que você é e aquilo que você faz! Só assim encontraremos a essência do que o mundo precisa pra funcionar e a verdadeira vocação de querer, precisar e poder transformar a vida das pessoas pra melhor. 

l O que é mesmo uma startup?

goo.gl/4zy2dd

l Veja quantas definições existem para inovação

goo.gl/AsBtQb

50  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

(*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.


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INOVAÇÃO AMBIENTAL

TECNOLOGIA EM NOME DA

SUSTENTABILIDADE Com conhecimento acadêmico aliado à prática de mercado, Oxi Ambiental usa a tecnologia a favor de soluções para problemas ambientais, como tratamento de solo, água e efluentes Iaçanã Woyames e Renata Rocha redacao@revistaecologico.com.br

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uso consciente dos recursos ambientais faz com que cada vez mais pessoas e instituições busquem soluções sustentáveis para seus negócios. Um exemplo disso é a Oxi Ambiental, empresa que conta com recursos do FIP INSEED FIMA – Fundo de Inovação em Meio Ambiente, criado pelo BNDES e gerido pela INSEED Investimentos. Neste semestre, o fundo investiu um aporte de capital superior a R$ 3 milhões na empresa, que oferece soluções inovadoras para descontaminação de solo, água e efluentes por meio de processos químicos modernos. Segundo João Pirola, gerente da INSEED Investimentos, boa parte do aporte será utilizado para fortalecer o time comercial e posicioná-la como “toughtleader”, ou seja, referência no setor. “A Oxi Ambiental é líder em conhecimento, já que seu diretor, Juliano de Almeida Andrade, possui grande especialização em processos químicos de oxidação e redução avançada, base da tecnologia da empresa. Ele é um dos grandes acadêmicos brasileiros neste assunto, com mestrado e, agora, em fase de finalização de Doutorado em Química Ambiental. Em consequência, temos uma empresa extremamente

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inovadora que alia conhecimento acadêmico com prática de mercado. Solucionando de fato os problemas de contaminação em um segmento em que os prestadores de serviço não dominam profundamente as técnicas. E, simplesmente, compram produtos do exterior e aplicam sem conhecê-los de fato”. Para João, os recursos, além de turbinar a saúde financeira da empresa, ampliam o impacto favorável das inovações em meio ambiente para toda a sociedade. A INSEED tem ainda como meta a conquista de clientes industriais de grande porte, especialmente indústrias químicas e petroquímicas. “Neste ano, a Oxi Ambiental deve faturar cerca de R$ 3 milhões, mas a perspectiva de crescimento futura com a entrada do aporte é que em cinco anos ela chegue ao menos a R$ 15 milhões.” Atuando em todo o território nacional, a Oxi Ambiental elabora de forma personalizada estudos e projetos de todas as modalidades que compõem os processos de consultoria, engenharia e planejamento ambiental com foco no gerenciamento de áreas contaminadas. De forma prática, o que a empresa oferece são serviços de remediação (descontaminação) de solos e água

FIQUE POR DENTRO

O Fundo FIP INSEED FIMA - Fundo de Inovação em Meio Ambiente tem R$ 165 milhões de capital comprometido para aportar em até 20 empresas de tecnologias limpas. Desde 2012, a INSEED Investimentos, gestora do Fundo, prospectou 1.271 empresas e 12 desenvolveram seu projeto de investimento. Já foram aprovados R$ 36,2 milhões em sete empresas. Alexandre Alves, diretor de prospecção da INSEED, explica que a estratégia Fundo contempla três eixos de investimento: Soluções Ambientais: gestão e recuperação de resíduos sólidos, reúso e tratamento de água e efluentes, descontaminação do solo e recuperação de paisagens e despoluição do ar e redução da poluição sonora. Tecnologias Avançadas: gestão e uso sustentável de energia, materiais alternativos, construções verdes e agropecuária sustentável. Novos Modelos de Negócios: serviço de logística e mobilidade urbana, ecofranquias e novos projetos e desenho de produtos e serviços sustentáveis. Informações e inscrições pelo site: www.inseedinvestimentos.com.br/fima


FOTO: ACERVO OXI AMBIENTAL

O DIFERENCIAL da empresa é a estratégia em campo e laboratório, que resultam em diagnósticos mais precisos

subterrânea para construção civil, indústrias e postos de combustível, utilizando tecnologias químicas combinadas oxidativas e redutivas que permitem eliminar uma gama ampla de contaminantes no solo e na água, com destaque para metais pesados, biocidas (agrotóxicos), fármacos e fenóis, que são difíceis de serem tratados com processos tradicionais. “Hoje é comum essas contaminações não serem completamente resolvidas nos métodos tradicionais, fazendo com que esses processos perdurem por anos, sem resolução definitiva”, explica Juliano Andrade, sócio-fundador da Oxi Ambiental. Segundo ele, o diferencial da empresa é a estratégia em campo e no laboratório. “Através de avaliações criteriosas e equipamentos modernos, identificamos os principais pontos de interesse e concentramos ener-

gia para um diagnóstico preciso que permite desenvolver projetos robustos com excelente relação custo/benefício”. A companhia tem cases de sucesso que comprovam a completa descontaminação da área em menos de um ano utilizando tecnologias químicas inovadoras, enquanto as técnicas convencionais demandam acima de três anos para remediar uma área, além de ter eficiência bastante comprometida na degradação dos contaminantes. “Os custos das tecnologias de remediação ambiental da Oxi são significativamente menores que as técnicas concorrentes, pois além da redução do prazo, traz outros benefícios importantes como a redução e até completa eliminação de gastos consideráveis envolvidos com manutenção de equipamentos, hora técnica de engenheiros, energia elétrica e insumos, como carvão ativado,

que são insumos imprescindíveis nas técnicas alternativas, porém completamente desnecessários nas tecnologias aplicadas pela Oxi. Além disso, as tecnologias são comprovadas por muitos especialistas e pesquisadores. São consideradas técnicas emergentes mais rápidas e eficazes existentes no cenário mundial”, destaca Juliano. Há outros benefícios e vantagens das soluções da empresa, entre elas: a aplicação de tecnologias versáteis e robustas que não emitem ruídos sonoros, não consomem energia e nem produzem gases tóxicos. As cinéticas química (velocidade das reações) são muito elevadas, por isso, o tempo para encerrar o projeto de Remediação tende a ser reduzido e muito eficiente, fazendo com que os custos de operação também sejam minimizados. Não existe a necessidade de contratação de pessoal esOUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  53


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FOTO: ACERVO OXI AMBIENTAL

INOVAÇÃO AMBIENTAL

A OXI Ambiental oferece tecnologias versáteis e robustas que não emitem ruídos sonoros, não consomem energia e nem produzem gases tóxicos

pecializado para ficar operando o sistema e nem presente no site durante todo o tempo de Remediação. Não há a necessidade de bombeamento da água subterrânea, o que exclui a necessidade de quebrar pisos, abrir valas ou até mesmo a instalação de tubulações ou bombas de grande porte. É de fácil aplicação, não requer equipamentos caros e nem procedimentos especiais. O contaminante não é transferido de fase e sim tratado quimicamente in-situ, por isso não há custos com remoção, transporte e disposição final das matrizes contaminadas, seja solo e/ou água, entre outros”. O diretor destaca também que a tecnologia da Oxi Ambiental não requer a interrupção, em nenhum momento, das atividades rotineiras de produção ou operação da empresa, e nem a realização de obras civis no terreno. “Além disso, a tecnologia a ser utilizada não requer a demolição de imóveis (prédios, galpões, etc.) construídos sobre a área contaminada. Com isso, certamente economizará tempo e recursos gastos com demolição, retirada, carregamento e transporte dos entulhos, além da disposição final em aterro. Também não serão utilizadas, em nenhuma etapa do projeto, máquinas pesadas como trator, retroescavadeira, caminhões ou guindastes.” Outro sócio da Oxi Ambiental, Ricardo Gonçalves complementa explicando o que há de novo no mercado: “Embora a comunidade venha se preocupando há muito tempo com a poluição ambiental, a contaminação de efluentes por produtos químicos não foi reconhecida como um problema sério até o final dos anos 1980. Adicionalmente, poucos anos atrás, a avaliação do grau de pureza de efluentes

após o tratamento final era considerado apenas em casos limitados, extremos. Hoje a busca por soluções inovadoras e mais eficazes que os tratamentos convencionais tornou-se um ingrediente essencial em diversos nichos de mercado, incluindo, por exemplo, setores laboratoriais, farmacêuticos, eletrônicos, e em vários outros segmentos”. DA ACADEMIA PARA O MERCADO Fundada em 2011 a Oxi Ambiental é fruto de vários anos de estudo do químico Juliano Andrade. Inclusive, algumas das soluções oferecidas pela empresa são resultado de sua tese de mestrado na Unicamp e, agora, em fase de término do doutorado na USP. Juliano conta que a empresa foi criada a partir da percepção de uma grande demanda do mercado. “Trabalhando como consultor técnico ambiental, identifiquei que a maioria das empresas presentes no Brasil tinha a mesma técnica para resolver diferentes problemas. E, assim como na medicina, um único remédio não cura todas doenças. Cada caso é um caso e também percebia isso na área de remediação ambiental.” Para Juliano, os riscos de ter uma solução única são muito grandes, já que tudo deve ser levado em conta: a composição, a dosagem, o tempo da solução, o tratamento e, claro, o problema. Além disso, o diretor revela que o mercado sempre foi muito carente de mão de obra qualificada. “Criamos a Oxi a partir de estudos na Academia e também ao perceber que mais do que encontrar as soluções, o mercado precisava de uma empresa que entendesse o problema, determinasse o diagnóstico, desenvolvesse a solução e aplicasse a tecnologia adequada, desen-


volvendo processos ambientais com margens mais rentáveis.” O químico já foi diversas vezes premiados por suas pesquisas. Antes mesmo do nascimento da empresa, ele teve seu projeto inovador de remediação ambiental em áreas contaminadas por hidrocarbonetos de petróleo reconhecido pela Unicamp. E logo depois em 2006 e 2007 teve o projeto reconhecido como alternativa competitiva, mais rápida e mais eficaz na degradação química de compostos orgânicos em processos ambientais em comparação às técnicas convencionais aplicadas no mercado, também reconhecido pela universidade. E bem recentemente, em maio de 2016, sua produção foi premiada pela Inova no “Prêmio Inventores” da Unicampo, na categoria “Patente Ambiental Concedida”. Os estudos de Julia-

no não cessaram: atualmente, ele está desenvolvendo o doutorado na USP na área de engenharia química voltado para hidrometalurgia, uma área da engenharia que estuda reações que ocorrem em sistema aquoso envolvendo metais não-ferrosos aplicados a processos de indústrias químicas e metalúrgicas. Juliano conseguiu transformar seus estudos e pesquisas em soluções efetivas para o mercado. Para ele, ainda existe uma distância muito grande entre os trabalhos desenvolvidos nas universidades até sua chegada ao mercado, principalmente no Brasil. Para diminuir essa ponte, ele acredita que os estudiosos devem sempre buscar a ajuda de terceiros, de modo que realize um trabalho em equipe, ouvindo opiniões de outras áreas, e, assim, amplian-

do seu networking. “Ministrei aulas de remedição ambiental durante 10 anos para grandes profissionais do mercado. Conheci outras pessoas e ouvi os principais problemas e dificuldades do setor.” Para o químico, mais do que desenvolver projetos ambientais, suas pesquisas, o trabalho da Oxi Ambiental tem bases conceituais que geram benefícios para toda a cadeia de valor. “Nosso papel é fazer com que as tecnologias ambientais tenham ciclos produtivos sustentáveis”, ressalta.  SAIBA MAIS

Oxi Ambiental– Investida FIMA – gestão INSEED Investimentos Rua Manuel Faria Inojosa, 103, São Miguel, São Paulo (SP).

www.oxiambiental.com.br www.inseed.com.br


1 URBANISMO

O PROGRAMA de Pesquisa e Monitoramento dos recursos hídricos da área do projeto da CSul será desenvolvido em 24 meses e acompanhará os ciclos de dois anos hidrológicos FOTO: ROSSANA MAGRI

PROTAGONISMO HÍDRICO

CSul se torna pioneira em Minas Gerais e dá exemplo ao país ao contratar estudos para conhecer a geologia e hidrologia local antes de implementar seu empreendimento urbanístico sustentável no Vetor Sul da Grande BH

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os últimos três anos, uma grave crise hídrica vem assolando o Brasil. Grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, foram forçadas a pensar novos modelos de captação e abastecimento de água e chegaram até a racionar o fornecimento em algumas regiões. Paralelamente a isso, vários outros problemas vêm contribuindo para o agravamento dessa situação. Um deles é a ocupação desordenada do território, que contribui para a impermeabilização do solo e afeta a recarga de aquíferos, além de dizimar nascentes e áreas de matas nativas, hábitats de várias espécies

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da nossa fauna e flora. Como, então, mudar essa realidade? É possível que os projetos urbanísticos possam, de fato, conviver de forma harmoniosa com a natureza? Perfeitamente. E as empresas de desenvolvimento urbano estão cada vez mais preocupadas em preservar os ambientes naturais que receberão seus novos projetos, principalmente em tempos de escassez hídrica. É o caso da CSul Desenvolvimento Urbano, que em 2015 lançou um novo modelo sustentável de empreender, morar e viver, a ser implantado nos próximos 45 anos na região da Lagoa dos Ingleses – confluência das BRs 040 e 356, no município de

Nova Lima, Vetor Sul da Região Metropolitana de BH. O Masterplan da CSul leva a assinatura do arquiteto e urbanista Jaime Lerner e prevê a criação de três subcentralidades na região, com ocupações de uso misto, áreas residenciais, áreas de lazer, áreas empresariais, amplamente servidas e estruturadas por uma rede de comércio e serviços de pequeno, médio e grande portes. “É um projeto elegante, não elitista, onde vão morar pessoas das mais diversas camadas sociais. Estamos 100% inseridos na Apa Sul e nossa proposta foi concebida em sintonia com o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de BH (PDDI), que visa criar outros


FOTO: ROSSANA MAGRI

ESTUDO PIONEIRO O empreendimento tem a sustentabilidade como principal norteadora das ações. Além de contemplar um índice de área verde por habitante que será sete vezes maior (entre 92 m2 e 129 m2) que o da capital mineira e seguir um protocolo de sustentabilidade baseado em 10 pilares (leia mais a seguir), outra iniciativa inovadora da CSul possibilitará uma percepção mais abrangente da disponibilidade hídrica da região. Trata-se do “Programa de Pesquisa e Monitoramento dos Recursos Hídricos”, estudo pioneiro que será referência no segmento urbanístico do país, e permitirá um amplo conhecimento da realidade hídrica local tanto no uso racional dos recursos hídricos quanto para sua conservação. O programa foi iniciado no primeiro semestre deste ano e segue todas as orientações dos técnicos da Superintendência

FOTO: DIVULGAÇÃO/CENTRO IDESCA

pontos de adensamento urbano, com oferta de moradia, emprego e serviços variados. O objetivo é desafogar a capital mineira”, afirma Fabíola Carvalhido, gerente de Urbanismo da CSul, durante participação no seminário “Fórum das Águas 2016 – Nosso Futuro Comum”, realizado recentemente na Fundação Dom Cabral, em Alphaville.

O PROGRAMA da CSul foi apresentado durante o “Fórum das Águas”, realizado pelo Centro IDeSCA na Fundação Dom Cabral, em Alphaville

Regional de Meio Ambiente (Supram), órgão responsável por planejar, supervisionar, orientar e executar as atividades relativas à política estadual de proteção do meio ambiente e de gerenciamento dos recursos hídricos formuladas e desenvolvidas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad). “Após a apresentação dos estudos de disponibilidade de águas superficiais e subterrâneas junto à Supram, encomendamos mais esse novo estudo para detalhar a dinâmica regional dos recursos hídricos. As novas análises serão uma evolução do conhecimento que temos até hoje e auxiliarão na identificação de fontes po-

tenciais capazes de atender a demanda de abastecimento do empreendimento, sem trazer prejuízos ao meio ambiente e à região”, revela Fabíola. A CSul está investindo R$ 8 milhões na realização do estudo. Com ele, serão reunidos dados e informações capazes de atestar a segurança hídrica para o desenvolvimento do projeto. Para acompanhar periodicamente o comportamento dos recursos hídricos superficiais, foi definida há dois meses numa área superior à do empreendimento uma rede inédita de monitoramento ambiental. Ela é composta por poços tubulares profundos, poços rasos, piezômetros, estações fluviométricas, estação de monitoramento pluviométri-

“O desenvolvimento do programa é muito importante para o nosso empreendimento, uma vez que a outorga e a implantação de um projeto do porte da CSul será possível quando da comprovação e garantia de soluções para o abastecimento futuro de água em conformidade com a legislação pertinente.” FABÍOLA CARVALHIDO, gerente de Urbanismo da CSul

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FOTO: DIVULGAÇÃO/CENTRO IDESCA

FOTO: DIVULGAÇÃO/CSUL

1 URBANISMO

MAURÍCIO Bertachini: “Teremos um banco de dados completo sobre a hidrologia da região”

co e vertedores que irão realizar a compilação, transmissão e armazenamento de dados. Com todo o conteúdo reunido, será possível atuar pontual e sustentavelmente em todo o território do empreendimento. “A rede de monitoramento irá proporcionar a criação de um banco de dados completo sobre a região, quantificando as vazões das principais drenagens e criando um modelo hidrológico numérico, com representação do meio físico. Assim, será possível simular a resposta do aquífero às interferências, respeitando a hidrologia e o ciclo da reserva renovável de água subterrânea”, destacou Maurício Bertachini. Ele é diretor de Monitoramento e TI da MDGEO, empresa de consultoria contratada pela CSul para executar o programa e que também desenvolve diversos projetos relacionados às águas subterrâneas, na área de mineração e meio ambiente. A coleta das informações e o escopo com os resultados apurados - a serem utilizados para o andamento das ações - deverão ser entregues até 2018. SAIBA MAIS

www.csullagoadosingleses.com.br 58  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

NO INVENTÁRIO dos pontos de água mapeados pela MDGEO, a CSul estendeu a abrangência do estudo (em amarelo) para além da área do empreendimento (em vermelho)

O PROGRAMA ETAPAS 1) Implantação da Rede de Monitoramento; 2) Monitoramento dos recursos hídricos; 3) Definição do potencial hidrogeológico e simulação de cenários; 4) Avaliação do potencial hídrico; 5) Relatório técnico para outorga de pesquisa hidrogeológica. OBJETIVOS DA REDE DE MONITORAMENTO um banco de dados meteorológicos, nível de água e vazão dos córregos (modelo hidrogeológico); l Quantificar as vazões das principais drenagens (interação entre precipitação e recarga do aquífero); l Determinar a variação do nível de água (interação entre os Sistemas Aquíferos regionais e locais); l Fornecer dados para elaboração do modelo hidrogeológico numérico (simulações de cenários futuros). l Elaborar


FOTO: DIVULGAÇÃO/CSUL

CONHEÇA O PROJETO CSUL

O MASTERPLAN contempla espaços mistos, com residências e comércios. Foi planejado de forma que os moradores possam ter acesso a bens, serviços, emprego e moradia em três subcentralidades

A ÁREA total do empreendimento em licenciamento é superior a 20 milhões de metros quadrados. É o planejamento integral em detrimento da realidade de fracionamento dos licenciamentos urbanísticos. l

O PEDIDO DE CONCESSÃO da Licença Prévia (LP) foi protocolado em fevereiro de 2015 na Supram Central Metropolitana. A CSul optou por licenciar integralmente o Masterplan. l

DEPOIS DE 100% implantado e ocupado, o projeto terá 64% de área permeável em terreno natural. Com isso, o escoamento e a infiltração da água da chuva irão favorecer o dimensionamento do sistema de drenagem. l

A CSUL irá criar uma Unidade de Conservação na Serra da Moeda, que terá aproximadamente 317 hectares e possibilitará a formação de um corredor ecológico interligando o Monumento Natural (Mona) da Serra da Moeda ao complexo ambiental formado pelo Mona Serra da Calçada e o Parque Estadual da Serra do Rola Moça. l

O EMPREENDIMENTO segue os 10 pilares do Protocolo de Sustentabilidade da CSul: ocupação e desenho urbano; qualidade ambiental; ecossistema e biodiversidade; mobilidade e acessibilidade; gestão de energia;

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gestão de água; materiais e recursos; gestão de resíduos; informação, comunicação e tecnologia; governança e desenvolvimento local. CONFORME legislação federal de parcelamento do solo (Lei nº 6.766/1979), a CSul entregará os sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário prontos para a concessionária operar. Os esgotos serão 100% coletados e tratados em conformidade com a realidade já existente na região do empreendimento. l

NO QUESITO mobilidade urbana, o projeto da CSul contribuirá para a retenção e redução dos fluxos pendulares dos bairros já existentes na região e dos municípios do entorno. Com as centralidades, os moradores não precisarão se deslocar até a capital para ter acesso a bens e serviços, o que irá evitar grandes deslocamentos. l

PARA ASSEGURAR as diversas formas de sustentabilidade adotadas na implantação do empreendimento e mantê-las ao longo de sua vida útil, a empresa criou o “Prêmio CSul de Qualidade Urbana” (leia mais na próxima página), que reconhecerá ideias e práticas que incentivam um modo de vida mais sustentável nas cidades, com a adoção de conceitos de ocupação urbana e ações que promovam o bem-estar coletivo. l

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1 URBANISMO

Bons exemplos Prêmio CSul de Qualidade Urbana incentiva e destaca ações que promovem o desenvolvimento coletivo sustentável no Vetor Sul da RMBH A CSul Desenvolvimento Urbano promoveu no dia 20 de novembro, no Espaço CSul Lagoa, na Lagoa dos Ingleses, a cerimônia de entrega do “Prêmio CSul de Qualidade Urbana”. Na oportunidade, três projetos e duas práticas foram homenageados. Os vencedores receberam um troféu e ainda assistiram a uma apresentação da Orquestra Ouro Preto, que abrilhantou o evento com trilhas sonoras do cinema. Os projetos e práticas vencedores foram enquadrados em quatro dos 10 eixos temáticos pré-definidos pelo edital. Um dos eixos foi “Materiais e Recursos”, que contemplou dois vencedores: Thiago Henrique Martins Pereira, com um projeto que visa a reutilização de resíduos provenientes do lixo para gerar energia elétrica; e a RKM Empreendimentos Imobiliários, com o projeto do edifício Kadosh, que será erguido no bairro Vale do Sereno e recebeu a certificação “Selo Casa Saudável”, a primeira no mundo a considerar a saúde e o bem-estar do usuário na construção civil. No eixo “Governança e Desenvolvimento Local”, a premiada foi Giselle Christina Felix. Seu projeto é a Vila Carpe Diem, um espaço com 23 casas especialmente projetadas para idosos que sofrem de demência e/ou Mal de Alzheimer, proporcionando a eles o máximo de autonomia para serem mais ativos e saudáveis. Entre os cases de sucesso ou projetos que já estão sendo implementados, o destaque na categoria “Gestão de Resíduos” foi a Vallourec Mineração, que produz pisos intertravados utilizan60  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

do rejeitos de minérios. No eixo “Ocupação e Desenho Urbano”, a Brigada Mirim - Horta Viva Comunidade Ativa da Associação dos Condomínios Horizontais – Espaço Social Transformar, foi a ganhadora. A iniciativa oferece a oportunidade aos membros da Comunidade do Bairro Jardim Canadá, especialmente crianças e adolescentes de classes menos favorecidas, de trabalharem em hortas comunitárias colhendo alimentos saudáveis, nutritivos e saborosos, em um ambiente de convivência e compartilhamento de experiências. A Associação dos Condomínios Horizontais – Espaço Social Transformar, por se enquadrar na categoria “Organizações da Sociedade Civil”, conforme previsto no edital, além do “Troféu Qualidade Urbana” recebeu um aporte financeiro calculado de acordo com o valor da iniciativa determinado no ato da inscrição. Para Jacqueline Aparecida Pinto, integrante da associação, o Prêmio CSul é um grande incentivador de ideias, dá visibilidade a pequenos projetos e estimula novas práticas e pensamentos. “A premia-

ção abre portas para que essas organizações possam apresentar seus trabalhos, mobilizar comunidades e motivar a construção de projetos que visam melhorar a qualidade de vida das pessoas”, afirma. Jacqueline ainda destaca que receber o prêmio foi gratificante: “O mais importante foi o reconhecimento do trabalho da nossa equipe, voluntários, pais e alunos que se empenharam para colocar em prática um projeto com poucos recursos, muito carinho e grande efetividade”. Para a gerente de Comunicação da CSul, Paula Gomides, a proposta do prêmio é transformar a região da Lagoa dos Ingleses promovendo o bem-estar coletivo e criando novas oportunidades com soluções criativas. “Nossa intenção é valorizar ideias que apresentam conceitos de desenvolvimento sustentável para a região, beneficiando a comunidade e fomentando projetos que proporcionem qualidade de vida para a população. Estamos pensando o futuro da região e para isso é fundamental a adoção de práticas sustentáveis no presente”, assegura. 


FOTO: THIAGO LONTRA

Nยบ 41


FOTO: ARISON JARDIM / SECOM /ACRE

1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS – SANEAMENTO BÁSICO DESAFIO governamental: se saneamento fosse prioridade, 36,3% dos rios brasileiros não estariam com qualidade ruim ou péssima, como indica uma recente pesquisa da SOS Mata Atlântica

Boa parte dos gestores não se dá conta de que investir em saneamento é essencial para reduzir gastos com saúde pública. Só com a criação do Ministério das Cidades e da Lei 11.445, em 2007, o assunto ganhou mais notoriedade no Brasil Luciana Morais

redacao@revistaecologico.com.br

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avar as mãos, escovar os dentes, usar o banheiro, tomar um banho. Se você acredita que esses simples hábitos de higiene fazem parte da rotina de todos os habitantes do planeta, está enganado. Ainda é preciso avançar muito para superar a grave crise sanitária que envergonha o mundo: enquanto seis bilhões de pessoas têm telefone celular, apenas 2,5 bilhões contam com instalações sanitárias adequadas. Cercado de tabus e na maioria das vezes relegado a segundo plano – certamente por estar associado a um ato fisiológico que deveria ser corriqueiro na vida de todo ser humano –, o uso de banheiro, com vaso sanitário limpo e seguro, ainda é privilégio de poucos. Segundo estimativas da ONU, em pleno século XXI, apesar de todo avanço tecnológico e científico experimentado, mais de um bi62  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

lhão de pessoas seguem fazendo suas necessidades ao ar livre, contaminando a natureza e colocando em risco a saúde coletiva. A falta de saneamento e de higiene favorece a transmissão de uma série de doenças, tais como diarreia, cólera e hepatite. Na África Subsaariana, onde 25% da população pratica a defecação ao ar livre, a diarreia é a terceira maior causa de morte entre crianças menores de cinco anos. Estudos indicam que uma criança morre a cada 2,5 minutos em razão do consumo de água não potável e do contato com esgotos em todo o mundo. E mais: sete em cada dez pessoas sem acesso a saneamento básico vivem em áreas rurais. Na Libéria, um dos países africanos mais afetados pelo letal vírus ebola, metade dos seus 4,2 milhões de habitantes não usa banheiros.

VERGONHA E VIOLÊNCIA Historicamente, as meninas e as mulheres são as que enfrentam os maiores riscos diante da ausência de banheiros em suas casas, escolas e comunidades. Afinal, além da falta de privacidade, elas convivem com a vergonha e o medo da violência física e sexual a cada vez que precisam urinar ou defecar em locais improvisados. Não por acaso, a ONU instituiu o Dia Mundial dos Banheiros, celebrado em 19 de novembro. “A falta de estruturas sanitárias adequadas tem um efeito dominó, pois prejudica a busca e o desfrute de outros direitos humanos essenciais, tais como o direito à saúde e à educação. Do total de doenças registradas entre a população mundial, 4% delas estão associadas à ausência do saneamento básico”, já alertou o brasileiro Léo Heller,


FIQUE POR DENTRO

EM PROL DO SEMIÁRIDO A falta de estruturas sanitárias adequadas não é apenas uma das principais causas de adoeciBRASIL TEM ABISMO No Brasil, o descaso com o sanea- mento no planeta. Ela também mento se reflete num abismo cres- tem impactos negativos sobre a cente. De um lado estão as cidades educação, pois compromete o que caminham rumo à universali- aprendizado e o rendimento dos zação desses serviços e, do outro, alunos em sala de aula, levando municípios completamente para- em muitos casos à evasão escolar. dos no tempo. Segundo dados do Sem garantia de acesso a banheiInstituto Trata Brasil, metade da ros seguros e limpos, as meninas população brasileira não conta são as mais propensas a abandonar os estudos. com coleta de esgoto. Em termos Portanto, tão importante nacionais, apenas 40% dos esgoquanto construir banheiros e tos gerados são tratados, sendo aumentar o número de criano restante – equivalente a cerca ças atendidas por redes sade cinco mil piscinas olímpinitárias eficientes, é difuncas por dia – lançado diredir noções de higiene e de tamente na natureza e nos cuidado corporal entre rios, sem qualquer tipo estudantes, professores de tratamento. e suas famílias. No BraO “Ranking do Sasil, um exemplo poneamento nas 100 sitivo de atuação é Maiores Cidades”, a parceria firmada elaborado com entre a marca Vim, base em dados da população por meio da Fundo Sistema Nadação Unilever, cional de Inforainda pratica a e o Unicef voltamações sobre defecação ao da para a melhoSaneamento, do ar livre ria das condições Ministério das Cisanitárias de mais dades, relativos a crianças e adolescen2014, indica que 35 tes do semiárido. milhões de brasileiros Com a colaboração também não recebem água tratada em suas casas. Mais de quatro mi- do Instituto Trata Brasil, mais de lhões vivem sem acesso a ba- 1.600 crianças já foram beneficianheiros e aproximadamente das pelo programa. Iniciado em 50% das escolas também não 2013, o projeto da Unilever promoveu uma campanha de constêm acesso à coleta de esgotos. Como se não bastasse, 37% de cientização e divulgou mais de toda a água tratada pelas empre- dez vídeos, mostrando histórias sas de abastecimento é perdida de pessoas que sentem o probleem razão de vazamentos, liga- ma na pele todos os dias, sofrenções clandestinas (gatos) e erros do com a falta de estrutura sanide medições dos hidrômetros. A tária e a exposição a doenças. Depois de atuar na consciensoma do volume de água perdida anualmente nas redes de dis- tização das comunidades, a emtribuição das cidades avaliadas presa doou sua verba de produdaria para encher seis sistemas ção publicitária relativa ao ano de 2014 para construir banheiros na da Cantareira, em São Paulo. relator especial da ONU sobre Água e Saneamento.

25%

l O Brasil viveu décadas de total falta de recursos financeiros para o saneamento básico. A partir de 2007, com a criação do Ministério das Cidades e da Lei 11.445, o saneamento finalmente ganhou mais notoriedade federal. l Estabeleceu-se também, com base na Lei 11.445, que cada município deveria ser responsável pela elaboração e entrega dos Planos Municipais de Saneamento Básico (PMSB), nos quais toda expansão sanitária da cidade seria planejada e debatida com a sociedade. O PMSB é condição essencial para obter recursos federais para a execução das obras previstas. l Na lista das dez cidades com a pior condição na coleta de esgoto, retratadas no “Ranking do Saneamento nas 100 Maiores Cidades”, desenvolvido pelo Instituto Trata Brasil, duas não têm qualquer tipo de atendimento: Ananindeua e Santarém, no Pará. l Em Belém, também no Pará, os serviços atendem apenas 12,7% da população. As demais cidades deficitárias são: Rio Branco (AC); Juazeiro do Norte (CE); Teresina (PI): Manaus (AM); Jaboatão dos Guararapes (PE); Macapá (AP) e Porto Velho (RO). Dos dez municípios com a melhor situação no quesito coleta de esgoto, por sua vez, boa parte fica em São Paulo. Em Minas, os destaques são: Belo Horizonte, Contagem e Uberaba. l Estudos da ONG britânica WaterAid revelam que a Índia, segundo país mais populoso do mundo, atrás apenas da China, lidera o ranking de pessoas sem acesso ao saneamento, totalizando mais de 700 milhões de habitantes. A Índia também registra a maior quantidade de habitantes que defeca ao ar livre por quilômetro quadrado no mundo: 173 pessoas.

região, inclusive para aqueles que participaram da campanha no ano anterior. O resultado já aparece na sala de aula, com alunos mais saudáveis, mais felizes, com melhores condições de aprendizado e maiores chances de desenvolver seu potencial humano futuro.

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VOCÊ SABIA? Que segundo relatório publicado pelo Banco Mundial, o Brasil ocupa a 112ª posição num ranking de saneamento entre 200 países? A situação precária do saneamento também se reflete na longevidade da população. A expectativa de vida no Brasil, de 73,3 anos em 2011, é menor que a média da América Latina (74,4 anos). Em relação aos países mais próximos, o Brasil também fica atrás da Argentina (75,8 anos) e do Chile (79,3 anos).

FOTOS: REPRODUÇÃO

1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS – SANEAMENTO BÁSICO GLOSSÁRIO ADUTORA: conduto destinado a ligar as fontes de abastecimento de água bruta às estações de tratamento de água, situadas além das imediações dessas fontes. Designa, ainda, os condutos ligando estações de tratamento, situadas nas proximidades dessas fontes, a reservatórios distantes que alimentam as redes de distribuição. ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ESGOTOS (ETE): estrutura onde se trata o efluente doméstico ou industrial, através de processo físico-químico e biológico, antes de ser lançado nos corpos d’água.

FIQUE POR DENTRO Saneamento básico é o conjunto de medidas que visam preservar ou modificar o meio ambiente, com a finalidade de prevenir doenças e promover a saúde. O planejamento e a gestão adequada desses serviços contribuem para a valorização, proteção e uso responsável e sustentável dos recursos naturais, em especial da água e do solo. A universalização do acesso à agua de qualidade e ao esgoto tratado contribui, ainda, para o desenvolvimento local/regional e a melhoria da qualidade de vida das populações. Conheça aqui os serviços que compõem o saneamento básico: A) Abastecimento de água potável: atividades, infraestruturas e instalações necessárias ao abastecimento público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e os respectivos instrumentos de medição. B) Esgotamento sanitário: atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, tratamento e disposição final 64  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

adequados dos esgotos sanitários, desde as ligações prediais até o seu lançamento no meio ambiente. C) Limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos: atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destinação final do lixo doméstico e do originário de varrição/limpeza das vias públicas. Vale ressaltar que, em relação aos resíduos provenientes de serviços de saúde, resíduos industriais e comerciais, a responsabilidade é dos próprios geradores. D) Drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: atividades, infraestruturas e instalações operacionais de drenagem, transporte, detenção ou retenção, para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição final das águas drenadas. FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Sites ONU Brasil, Instituto Trata Brasil, Agência Nacional de Águas e Agência Brasil.


TRÊS PERGUNTAS PARA...

ÉDISON CARLOS

Presidente-executivo do Instituto Trata Brasil

“SANEAMENTO É SAÚDE” Como o senhor avalia o ritmo das ações voltadas para ampliação/oferta de água, coleta e tratamento de esgotos no Brasil? O saneamento básico teve avanços de 2007 até 2015, porém aquém do necessário. Dos R$ 16 bilhões anuais necessários para concretizar os serviços de água e esgoto no país, seguindo as diretrizes do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), de 2013, conseguimos chegar no máximo a R$ 12 bilhões, em 2014 (último dado publicado). Isso gerou atrasos na universalização do saneamento, colocando em risco o plano de universalizar a água tratada e os esgotos à população brasileira até 2033. Como o Instituto Trata Brasil avalia anualmente o andamento do saneamento nos 100 maiores municípios, se analisarmos a evolução dos investimentos dessas cidades – que representam 40% da população do país –, os serviços de água e esgoto só serão universalizados perto de 2050. Com a recessão econômica atual, somada aos constantes baixos investimentos, certamente viveremos anos de dificuldade no setor, se nada for feito. O que falta para que os gestores públicos, em especial os prefeitos, invistam efetivamente em saneamento? Saneamento é prevenção de doenças, ou seja, é saúde! Para assumir compromissos em qualquer esfera, os gestores públicos precisam sentir que a população demanda esses serviços. As pessoas se acostumaram a cobrar soluções para a saúde, a educação e a segurança, mas se esquecem do saneamento. Hoje, há maior sentimento de que o saneamento precisa ser mais cobrado, para se manter na agenda pública. Estudos do Trata Brasil comprovam que as melhores cidades em saneamento gastam menos com doenças de veicula-

Nós apoiamos essa ideia!

ção hídrica do que aquelas que não investem nada. A partir do momento em que a população entender – e isso já está acontecendo – que o saneamento é a infraestrutura mais básica de que ela necessita, a visão dos gestores públicos certamente mudará. Nos debates para as eleições municipais deste ano já observamos essa tendência de discutir mais o saneamento, pelo menos nos grandes centros do país. E em relação às inovações na cadeia do saneamento no Brasil, o que esperar nos próximos anos? Sempre há novas tecnologias chegando ao mercado e isso é muito bom. Elas podem melhorar os processos industriais, mas não podemos dizer que o saneamento no país é deficitário por falta de tecnologias. Precisamos, primeiro, solucionar os problemas básicos da ausência de coleta e tratamento dos esgotos, que são feitos com tecnologias já existentes e conhecidas. Para áreas urbanas, são as redes de água e coleta de esgotos, bem como as estações de tratamento dos esgotos. Para as áreas isoladas e rurais, há várias tecnologias disponíveis, que funcionam para um pequeno grupo de moradias ou até mesmo para uma única família. A Embrapa Instrumentação, órgão de pesquisa do governo federal, por exemplo, trabalha com o conceito de fossa séptica biodigestora. Ela trata esgotos domésticos por meio de bactérias decompositoras (anaeróbicas) presentes no esterco bovino. Ao final do processo, o esgoto se transforma em água limpa (não potável), que pode ser usada na irrigação de certas culturas ou descartada sem riscos de contaminar o solo. Há ainda soluções industriais, cuja instalação é feita na saída dos esgotos das residências. 


1 VOCÊ SABIA?

Campos Cristiane Mendonça

redacao@revistaecologico.com.br

Q

uem vê pela primeira vez uma região tomada pelos campos rupestres tem a sensação de contemplar um jardim exótico. Árvores de pequeno porte, galhos retorcidos e flores de singela beleza se misturam na paisagem, onde o minério de ferro é abundante. Confira, a seguir, seis curiosidades sobre a rica biodiversidade desses ambientes:

FORTE COMO UMA ROCHA

A palavra rupestre significa “aquilo que é relativo ou que cresce em rochas”. Palavra ideal para compor a definição de um tipo de vegetação que cresce entre pedras, é típica do bioma Cerrado e pode ser vista em locais com altitudes superiores a 900 metros. Nos campos rupestres é possível encontrar espécies típicas da flora brasileira como flor-do-pau, árvore-do-papel, clusia, guatambu, bromélias e orquídeas.

LOCALIZAÇÃO

Os campos rupestres são comuns nas montanhas de Minas Gerais, Bahia e Goiás. Quem quiser apreciá-los - ao vivo e em cores - pode viajar pelas serras mineiras do Cipó, Caraça, Canastra, além de cidades como Diamantina e Ouro Preto. Em geral, esse tipo de vegetação ocorre em mosaicos, ou seja, não possuem trechos contínuos.

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LEI DA SOBREVIVÊNCIA

Mas, como os campos rupestres sustentam tamanha diversidade de espécies, se lá estão reunidas todas as condições não propícias para o desenvolvimento de um vegetal? Essa foi uma das perguntas que orientaram pesquisadores da Unicamp que se dedicaram exclusivamente ao estudo dessa vegetação. A conclusão é que existem entre as plantas desses locais diversos mecanismos de aquisição de nutrientes e água.


FOTO: JEILSON ANDRADE

Rupestres

BIODIVERSIDADE

Apesar de ocuparem 0,8% do território nacional, abrigam cerca de 1/3 da nossa biodiversidade vegetal, ou seja, 11 mil espécies de um total de 33 mil, segundo dados divulgados por uma pesquisa da Unicamp. Biodiversidade surpreendente, considerando que seus solos costumam ser pedregosos, ácidos, pobres em nutrientes e com baixa absorção de água, já que a chuva se esvai facilmente pelo terreno rochoso e arenoso.

BOM EXEMPLO

Um desses meios de sobrevivência, também segundo pesquisas da universidade de Campinas (SP), é o exemplo da Carnivoria. A família das plantagináceas apresenta folhas diminutas enterradas na areia branca, com as quais consegue atrair, prender e digerir vermes que vivem no solo conhecidos como nematoides. Cada um se vira como pode!

IMPORTÂNCIA

Vale lembrar que os campos rupestres estão, normalmente, em topos de montanhas que possuem nascentes de rios importantes. Entre eles, o São Francisco, na Serra da Canastra, em Minas. Por isso, as plantas desses ambientes têm papel essencial na preservação das águas, ao diminuir o escoamento e aumentar a infiltração da água da chuva.

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1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

CANA ELÉTRICA

I Seminário Mineiro de Bioeletricidade, promovido pela Siamig, destacou o potencial da cana-de-açúcar na produção de energia limpa e enfrentamento, pelo governo brasileiro, do aquecimento global J. Sabiá

redacao@revistaecologico.com.br

S

e o título deste texto faz você pensar que cana-de-açúcar dá choque, enganou-se. O “choque” de que falamos aqui é o da inovação ambiental, de uma matéria-prima, uma alternativa limpa e sustentável que terá papel fundamental no futuro da matriz energética brasileira: a biomassa da cana-de-açúcar. A eletricidade gerada a partir do vapor resultante da queima do bagaço da cana foi o tema do “I Seminário Mineiro de Bioeletricidade”, realizado pela Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), na capital mineira. Representantes de associações nacionais, empresários e especialistas do setor participaram do encontro, que reuniu mais de 150 participantes no auditório da Fiemg. “A bioeletricidade é uma energia renovável e limpa e sua geração acontece próximo ao centro de carga. É complementar à geração hídrica, já que é produzida nos períodos mais secos do ano, além de ser fabricada aproveitando-se os resíduos da produção de açúcar e etanol, em vez de desperdiçá-los”, afirmou Mário Campos, presidente da Siamig. E completou: “A grande estrela do nosso negócio é a cana-de-açúcar. Os produtos originários desta planta extraordinária representam 16,9% da oferta de

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energia no Brasil, sendo a principal fonte renovável da nossa matriz energética. Este evento é uma oportunidade para se conhecer melhor essa energia, dentro da categoria biomassa, com 77% de potência outorgada em 2015 e que ofertou ao Sistema Integrado Nacional (SIN) 20.400 GWh”. Esta oferta, aponta ele, poderia prover o atendimento de energia elétrica a 10,5 milhões de lares brasileiros. “E evitou a emissão de 8,3 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, marca que somente seria atingida com o cultivo de 58 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos.” Apenas em Minas Gerais, que tem ótima vocação para a produção de energia a partir da biomassa de cana, os investimentos no setor possibilitaram que a produção de cana fosse quadruplicada em dez anos. “As 35 usinas em operação no Estado geram mais de 61 mil empregos diretos em mais de 125 municípios canavieiros. Todas as usinas são autossuficientes na produção de energia para fabricação do açúcar e do etanol. Vinte e duas unidades já vendem o excedente e outras duas estão programadas para iniciar a comercialização de energia em 2017. Essas usinas representam mais de 85% da cana moída em Minas Gerais”, informa Campos.


“A sociedade precisa entender o setor” FOTO: DIVULGAÇÃO / SIAMIG

Confira os trechos do discurso do presidente da Siamig, Mário Campos: l “O SETOR SUCROENERGÉTICO mineiro detém 8,3% da potência outorgada em Minas Gerais, em 2015, e colocou no sistema cerca de 2 mil GWh, o equivalente a ter provido de energia um milhão de residências e ter evitado a emissão de cerca de 800 mil toneladas de CO2 na atmosfera. Para se ter uma ideia, essa redução na emissão dos gases de efeito estufa só seria atingida se cultivássemos 5,6 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos.” l “HÁ ALGUNS ANOS era possível obter um excedente de energia exportável de 75 MWh para cada 1.000 toneladas de cana moída, hoje já existem empresas chegando a 100 MWh. Algumas empresas já funcionam por até 320 dias por ano, utilizando assim, cada vez mais e de forma eficiente os ativos biológicos, industriais e de logística da matéria-prima. Todo esse potencial está nas nossas mãos e tem grande sinergia com o que foi determinado no Acordo Climático de Paris, através da INDC brasileira.” l “A BIOELETRICIDADE já representou 32% do crescimento da geração de energia em 2010. Em 2016, representará 8% e as projeções apontam que em 2020 representará apenas 2% se não for incentivada. E por que ocorreu essa grande queda? Falta ao setor uma política setorial de longo prazo, crível, clara e encorajadora para atrair novamente investimento em bioeletricidade.” l “O BRASIL precisa debater a fundo como iremos cumprir as metas do acordo climático com os setores econômicos e a sociedade e estabelecer as diretrizes. Para isso é muito importante o planejamento energético, a transparência e credibilidade (evitar o passado das intervenções), discutir uma governança mais adequada ao setor elétrico nacional e encontrar um equilíbrio entre os leilões de longo prazo e o crescimento do mercado livre. Novas formas de financiamento de energia vêm aí também dentro do conceito de Greenbank, e o BNDES fechando as portas para a geração não renovável.” l “PRECISAMOS também estar antenados às mudanças

O representante da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), José Mauro Coelho, enfatizou que o Brasil está na vanguarda do uso de energia renováveis e o papel do setor sucroenergético pode ser ainda maior.

CAMPOS: “Quando se fala em energias renováveis, esquece-se da cana, só se lembra da energia eólica e da solar” do mercado. Vivemos a Era do Empoderamento do consumidor. E como esse fenômeno irá interferir nas projeções do mercado elétrico, com tendência cada vez maior ao incremento do mercado livre e com as oportunidades na geração distribuída, um modelo de negócio disruptivo, um desafio para a regulação.” l “HÁ GRANDES OPORTUNIDADES a partir do momento que o consumidor passar a escolher de onde virá a energia que ele consumirá, imaginem o potencial de geração de valor para os produtores e para o mercado de energias verdes. Uma oportunidade de transformar isso em um diferencial competitivo e de reputação para as empresas brasileiras no contexto mundial.” l “TEMOS CONVICÇÃO do nosso papel na economia, mas a sociedade precisa entender o setor como um fornecedor de energia renovável para o Brasil, criando valor de mercado, empregos, novas tecnologias, formando profissionais e gerando renda para o nosso desenvolvimento sustentável.”

SAIBA MAIS

www.siamig.com.br Para assistir ao vídeo com o discurso de Mário Campos no evento, acesse www.revistaecologico.com.br

“Minas Gerais tem uma participação importante na bioeletricidade do cenário brasileiro, há necessidade de complementariedade com a geração hídrica e esse é um ponto positivo para essa energia.”

MAIS INVESTIMENTOS Segundo Jaime Finguerut, membro da Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial, há necessidade de mais investimento tecnológico para que a cana alcance o dobro de produtividade

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FOTOS: DIVULGAÇÃO / SIAMIG

1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

A COLHEITA da cana já é 100% mecanizada e a tecnologia para produção de bioeletricidade tem evoluído rapidamente

que tem hoje. “Estamos colocando no saco de açúcar, no tanque de etanol e no fio de eletricidade somente 0,6% do que a cana oferece. Poderíamos estar colocando quatro vezes mais”, afirmou. A cana-de-açúcar é uma das plantas mais eficientes na trans-

dução de energia solar. “Tem grande capacidade de fotossíntese e enorme capacidade de se adaptar a diferentes ambientes, tendo em vista sua complexidade genética”, afirma ele, que também é assessor de Tecnologia do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).

CANA SUSTENTÁVEL l Os produtos da cana-de-açúcar são limpos porque a planta absorve grande quantidade de CO2 durante a fotossíntese. l O setor sucroenergético deixou de emitir 7,5 milhões de toneladas de gás carbônico equivalentes apenas na safra 2015/2016. l Com a oferta de etanol hidratado, o setor possibilitou o consumo de 9,1 bilhões de litros nos últimos 10 anos. l Em 2015, a bioeletricidade participou com 77% de potência outorgada dentro da biomassa e ofertou ao Sistema Integrado Nacional 20.400 GWh. l Esta potência outorgada resultou na economia de 14% do uso de água dos reservatórios do submercado elétrico do Sudeste/Centro-Oeste. l Em Minas, a oferta de bioeletricidade pelo setor evitou a emissão de 797 mil toneladas de CO2 na atmosfera (equivalente ao plantio de 5,6 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos).

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Jaime, que ministrou a palestra “Visão de mercado para novos produtos e negócios com biomassa de cana”, também destacou outros potenciais da cana-de-açúcar. “Sabemos, hoje, usar muito bem a fração solúvel da fotossíntese da cana (um terço do total): a sacarose. Com a produção de açúcar e etanol, geramos aproximadamente 2% do PIB, com mais de 800 mil empregos no interior do país. Com o outro terço da fotossíntese, o bagaço, permitimos que a produção de açúcar e álcool seja a mais sustentável do mundo. E ainda geramos bioeletricidade, adicionando valor à cana e substituindo outras fontes de eletricidade”, afirma ele, tendo como referência a energia gerada por meio de combustíveis fósseis. “A outra parte da fotossíntese, as folhas, as pontas da cana e as palhas, é menos utilizada. A palha pode substituir parte do bagaço na queima das caldeiras, e o bagaço liberado pode ser usado para outros fins, como fabricar etanol de segunda geração”, reforça Jaime, apontando diferen-


FIQUE POR DENTRO

l O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de açúcar e o segundo maior produtor de etanol. l O valor bruto movimentado pela cadeia sucroenergética supera US$ 100 bilhões por ano, com um PIB de aproximadamente US$ 40 bilhões (2% do PIB Brasileiro). l A utilização de fontes de energia renovável reduziu a emissão de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 300 milhões de toneladas de CO2eq de março de 2003 até meados de 2015. O FIM do desmatamento na Amazônia e a opção ecológica do etanol são as duas apostas do Brasil no acordo climático mundial

tes soluções energéticas a partir da cana-de-açúcar. Ao todo, foram realizadas 13 palestras no evento, em que os especialistas demonstraram também o potencial dessa matéria-prima para geração do biometano, o gás ecológico pro-

"A produção brasileira de açúcar e álcool é a mais sustentável do mundo." JAYME FINGUERUT, membro da Associação Brasileira de BiotecnologIa Industrial

veniente da vinhaça (subproduto do etanol), e que pode ser um importante substituto ao diesel em caminhões e ônibus. Essa tecnologia já vem sendo empregada em várias partes do mundo com a utilização da vinhaça, por exemplo, em fábricas de cervejas e rum. PRINCIPAIS DESAFIOS As perspectivas do setor para o futuro são animadoras, garante Mário Campos, presidente da Siamig. “De acordo com o último Plano Decenal de Expansão de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a geração de bioeletricidade sucroenergética para a rede tem potencial técnico para chegar a mais de seis vezes o volume ofertado atualmente.” Mas ainda há desafios pela frente. É preciso atender aos compromissos do país, via iNDC (Contribuição Nacional Determinada), assumidos no Acordo de Paris. O primeiro deles é “expandir o uso doméstico de

l A cana-de-açúcar é a primeira fonte de energia renovável do país (15,7% da matriz nacional). Além do etanol, o setor produz energia elétrica com potencial estimado em 18,8 GW médios até 2024 (equivalente a mais de quatro usinas de Belo Monte).

fontes de energia não fóssil, aumentando a parcela de energias renováveis no fornecimento de energia elétrica dos atuais 11,6% para ao menos 23% em 2030, bem como da eólica, de outras biomassas e da solar”. O segundo, aumentar a participação de biocombustíveis na matriz energética brasileira para 18% até 2030, incluindo o etanol. Outro detalhe importante: o setor defende uma solução de incentivo conjunto para o etanol e a bioeletricidade no planejamento energético do país. E repudia retrocessos (leia mais a seguir), como o Projeto de Lei 1.013/2011, que libera a produção e venda de carros de passeio a diesel no país, em detrimento à ampliação do uso do etanol, que é comprovadamente menos poluente.

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1 MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Presidente da Frente Parlamentar Mineira em Defesa do Setor Sucroenergético, o deputado Antônio Carlos Arantes lembrou que a sustentabilidade é uma busca contínua pelo mundo inteiro e o setor sucroenergético vem mostrando que isso é possível. Seja com a cana, que produz o etanol usado nos carros, um combustível limpo e renovável. Seja com a bioeletricidade; e com o açúcar, que é o principal energético consumido pelo ser humano: “Agora, até plástico biodegradável está sendo fabricado da folha da cana”, ressaltou.

Ele lembrou que onde tem cana plantada tem desenvolvimento, por isso o setor responde por 2% do PIB e gera cerca de 850 mil empregos. “Antigamente diziam que a cana estragava o solo, mas é o contrário. Diziam que cana era sinônimo de escravidão, mas a geração hoje de empregos mostra que é o contrário. Que onde tinha cana era sinal de poluição, o que não é mais verdade. E, ainda, que sobrava um monte de bagaço que o produtor não sabia o que fazer com ele, mas agora virou energia. Enfim, a

FOTO: GUILHERME BERGAMINI

Ganhos e perdas

ANTÔNIO CARLOS ARANTES

cana hoje é produzida de maneira ambientalmente correta. Isso mostra o avanço da tecnologia e o empenho do setor em fazer a diferença no Brasil e no mundo, ambos ameaçados pelas mudanças climáticas”, ressaltou.

Para o deputado Gil Pereira, presidente da Comissão de Minas e Energia da ALMG, a redução do ICMS possibilitou o aumento da arrecadação: “Portanto, caso seja elevada a tributação, como pre-

FOTO: CARLOS ALBERTO / IMPRENSSA MG

Efeito oposto tende o atual governo, o efeito esperado será o oposto. Ou seja, queda da receita estadual e perda de postos de trabalho. Isso é ainda mais grave no atual contexto econômico recessivo”. GIL PEREIRA

O presidente do Grupo Coruripe, Jucelino Sousa, frisou sua preocupação e a intranquilidade que medidas como essas geram no ambiente de negócios. “Minas Gerais está em retrocesso, pois há pouco

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mais de um ano reduziu a alíquota do ICMS do etanol hidratado no estado. E agora, com esta proposta de desincentivar o produto gerando incertezas, infelizmente os investimentos não voltarão”, afirmou.

FOTO: DIVULGAÇÃO

Amargo regresso

JUCELINO SOUSA


FOTO: DIVULGAÇÃO / SIAMIG

O SEMINÁRIO reuniu líderes do setor sucroenergético

Retrocesso, prudência e cautela BRASIL JÁ É REFERÊNCIA “Temos igualmente um dos maiores programas de biocombustíveis do planeta. O Brasil já é, no contexto mundial, uma economia de baixo carbono. E a questão bioenergética, inclusive, é um cacife muito grande de que dispomos para trabalhar daqui por diante. Nós já estamos agindo, no plano diplomático, para incentivar e criar os canais para a difusão do etanol de segunda geração, o E2G. Temos que transformar o etanol numa commodity. Para o Brasil, não é ruim que outros países do mundo produzam etanol, seja o de primeira ou de segunda geração, este último, que é produzido a partir da celulose, em última análise, de resíduos. Por O RECADO de Serra: "O etanol quê? Porque ao criarmos um mercado vai nos fazer líderes mundiais" mundial de etanol: na medida em que mais países produzam – e nós vamos ser os líderes –, o etanol poderá transformar-se numa commodity, o que será uma grande vitória. Não apenas econômica daqueles que faturam em cima, que produzem cana, que produzem resíduos, mas uma vitória do mundo e uma alavanca importante para que o Acordo de Paris possa chegar mais rapidamente aos objetivos a que se propôs. Isso coincide plenamente com o interesse econômico brasileiro.”

FOTOS: GEORGE GIANNI

O “I Seminário Mineiro de Bioeletricidade” foi marcado pela surpresa dos produtores com outro Projeto de Lei polêmico, além do 1.013/2011. Agora, em nível estadual: trata-se do PL 3.810/16, enviado pelo governo à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na noite anterior ao dia do evento, propondo a elevação da alíquota do etanol hidratado dos atuais 14% para 20% (podendo ser reduzido a 16%) e de 29% da gasolina para 30%. De acordo com o presidente da Siamig, Mário Campos, caso seja aprovado, o PL representa um grande retrocesso em termos de competitividade do etanol, e dessa forma, um retrocesso ambiental. “Esperamos do governo e dos deputados mineiros prudência e cautela na análise desta proposta. Afinal, a política de incentivo ao etanol no estado representou o início da recuperação desta indústria depois de seis anos de grande crise”, destacou. 

JOSÉ SERRA, ministro de Relações Exteriores durante a ratificação do Acordo de Paris

OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  73


FOTOS: MARCOS GUIÃO

1

NATUREZA MEDICINAL

MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

"Nóis viemo pra cá pra sê feliz. Deus num tem tristeza..."

RAPÉ DE SABEDORIAS P assei uma semana no município de Morro da Garça (MG) tomando ciência das plantas da região e dos muitos raizeiros e benzedores, homens e mulheres, que vivem ali. Lá me arranchei num antigo casarão na praça principal, que já serviu de pensão nos tempos de dona Zoé e Pretinha (que Deus as tenha). Mas as muriçocas me tocaram de lá depois da primeira noite. Num me alembro de ter tomado tanta ferrada numa noite só... Pra tentar melhorar o ânimo no dia seguinte, fui em busca da benzeção de dona Maria Xonada, mulher de alma leve, que se parece mais um beija-flor de tantas delicadezas. Proseamos uma tanteira sobre as plantas, a vida e Deus. Apesar do calor alucinante, saí dali com a alma leve. Os dias foram se passando e, já nas horinhas de voltar pra casa, deu-se de formar uma roda de prosa com vários personagens locais dotados de grande sabedoria. Teve um deles, Geraldo de Lúcia, que num esquentou o lugar, ficou só peruando no entorno. De pronto, ele soltou uma receita infalível pra abrandar cólica de recém-nascido: basta a mãe espremer um pouco de seu leite por riba da barriguinha do bebê e massagear. De acordo com testemunhagem, num demora um tim pra melhorar. Outro que falou bonito foi Tico Brito, homem de grande fé e forte poder de benzeção. Os casos de depressão tratados por ele invariavelmente têm indicação para o vivente mudar a cama de lugar e virar o colchão, além de caçar 76  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

um jeito de sair pra dança, contar umas histórias, tomar um gulinho, arrumar um violão e cantar, jogar uma água fria no lombo, arejar a alma. “Nóis viemo pra cá pra sê feliz, Deus num tem tristeza... e pode escrevinhar que a fé cura, mas a cisma mata!” Já o Tonho do Dino contou um caso de ofensa de cobra, dizendo que “a melhor benzeção pra isso é soro na veia lá no hospitar. Uma jaraquinha daquelas miudinha picou meu pé e quase que eu fui...”. Mas ficou a recomendação de que o cabra ofendido de bicho mau num pode pular cerca e nem cruzá corgo. Aquilo o veneno se esparrama num átimo. A certa altura da prosa, todos os raizeiros tiraram do bolso uma latinha de rapé e se seguiu uma sessão infindável de cheiros e espirros. Seu Joaquim, com o rosto sereno, a tudo ouviu sem dar palpite. Mas questionado, discorreu em fala mansa e compassada a fazeção do rapé que trata das sinusites e rinites: primeiro se dá uma torrada nas sementes de girassol, tirando as cascas. Depois se elege outras plantas, que pode ser imburana, hortelã, eucalipto, alecrim, essas plantas de cheiro. Todas devem ser bem secas e torradas levemente antes de pilar e obter o pó. A mistura pode ser variada, aumentando um tanto aqui, diminuindo outra acolá, a gosto do freguês. Sabedoria e saúde sempre andam de mãos dadas. Inté a próxima lua cheia!  (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


1 ECOTURISMO

ORA, DIREIS, OBSERVAR BALEIAS A Ecológico vai até o Arquipélago-Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral baiano, testemunhar as baleias jubarte livres da extinção em todo o Oceano Atlântico Sul Ocidental do planeta Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

M

eu colega jornalista Silvestre Gorgulho, editor incansável da “Folha do Meio Ambiente”, já tinha cantado a bola desde sempre: “Quer dar um presente grandão e inesquecível para o seu amor e seus olhos ainda em vida? Então vá a Abrolhos, no sul da Bahia, observar o balé namorador e reprodutivo das baleias jubarte. O melhor período para vê-las, até 50 metros de distância, praticando o amor natural e, assim, se perpetuando em beleza e quantidade, é entre julho e novembro.

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São milhares delas migrando do frio nada sexy ou estimulante dos mares do sul”. E lá fomos nós, eu e Eloah, com sua câmera a tiracolo, na lua cheia de outubro. Primeiro de avião, de BH até Teixeira de Freitas, na divisa de Minas com Bahia. O que se economiza em prazer, no final das contas, sem o batidão de volante pelas nossas esburacadas e perigosas rodovias, vale a pena. Como também vale alugar um carro ali e, em menos de uma hora, estar e se hospedar na pacata

cidade de Prado, localizada estrategicamente no centro dos principais destinos e deslocamentos turísticos. Seja subir 84 quilômetros de praias desertas até a Barra do Cahy, onde o Brasil primeiro foi descoberto, e onde se come a melhor lagosta da região. Seja descer outro tanto, entre fazendas e coqueirais, até o que sobrou de Caravelas, cidade fundada no século XVI, que já foi o mais importante porto baleeiro na época do Brasil Colônia. Ou seja, onde mais se caçava e


antes da caça mundial que quase extinguiu a espécie também em águas brasileiras. A única tristeza que perdura neste partir para a aventura fica a seis quilômetros dali, por conta do “Porto de Areia, ponto final, da Bahia-Minas, estrada natural, que ligava Minas ao porto ao mar...”, letrado por Fernando Brant e cantado por Milton Nascimento. Lembra dessa canção? É sobre a famosa estrada de ferro que, até 1949, ligava Araçuaí a Caravelas. E hoje não existe mais. Governos passados e sem visão de futuro arrancaram até os dormentes pra ninguém se lembrar dela. A única referência urbana que persiste hoje ali, em meio a um cenário de favelamento e pobreza, é um pôster afixado num poste de luz, na entrada do povoado, contando a história cantada da E. F. Bahia e Minas. A VIAGEM O dia amanhece vermelho-lilás. De volta ao cais de Caravelas, um catamarã moderno e seguro nos aguarda. Muita fruta, sucos também, coletes salva-vidas obrigatórios e companhias alegres de vá-

rias partes do Brasil e do mundo. A viagem, também de esperança no ser humano pós-consciência ecológica, tem início. Parece que em câmara lenta, devido ao limite de velocidade da embarcação (de até 20 km/h), para não assustar nem atropelar as baleias. Alguém lembra e elogia o braço ambiental da Petrobras que, desde 1988, segundo o site www. baleiajubarte.org.br, é a patrocinadora oficial deste esforço heroico para proteger a espécie em toda a região de Abrolhos. Agora, estamos adentrando, portanto, quase quatro horas de ida e outras quatro de volta, numa aventura do amanhecer ao pôr-do-sol, o principal berçário em todo o Oceano Atlântico. Quantas baleias existiam ali? Evelyn Froes, aluna de graduação em Biologia Marinha e estagiária da Petrobras junto ao Instituto Jubarte, sediado em Caravelas (BA), responde com alegria e justificado orgulho: “Até 350 mil antes do período de caça, que as reduziu em até 95%, ameaçando sua existência. Mas, hoje, somente nesta costa braESPETÁCULO JUBARTE: longas nadadeiras peitorais que atingem até um terço do seu comprimento

FOTO: BSCHWEHN

matava baleias, inclusive para retirar seus óleos e iluminar os lampiões, as ruas, o comércio e o frenesi que a atividade causava. E hoje é considerado o melhor lugar do mundo para sair do continente e avistar bandos de até 11 baleias machos disputando uma única e desdenhosa fêmea. E para ver também a maior concentração de filhotes protegidos pelas supermães, como ocorreu em quase metade dos grupos avistados em nossa visita a partir dali até o Arquipélago-Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. A pequena e histórica cidade de Caravelas fica no extremo sul da Bahia. É o ponto, ainda no chão baiano, mais próximo das quatro ilhas que formam Abrolhos, a apenas 70 quilômetros dali. Os primeiros visitantes da região foram os portugueses, que navegavam pelo Rio Caravelas já em 1503. Desde então, outras personalidades como o naturalista inglês Charles Darwin, também estiveram ali, maravilhando-se com a rica fauna local e, mais ainda, com as baleias jubarte, muito mais numerosas


1 ECOTURISMO

(Des) mamando das mães A baleia jubarte é uma espécie cosmopolita, habita todos os oceanos e realiza uma migração anual. Durante o verão, se dirige às águas polares para se alimentar e durante o inverno migra para águas tropicais e subtropicais para acasalar e dar à luz. Assim, no hemisfério sul, as jubartes chegam por volta de junho/julho e permanecem até novembro/dezembro, quando retornam para as áreas de alimentação. As áreas de reprodução da espécie são tipicamente próximas a ilhas ou continentes e/ou associadas a ambientes coralíneos. A espécie se reproduz ao longo da costa nordeste do Brasil e o Banco dos Abrolhos é o maior berço reprodutivo do Atlântico Sul. Para conhecer melhor seu ciclo de vida vamos imaginar como seria a vida de uma jubarte: estamos em agosto, próximo ao arquipélago dos Abrolhos. Após 11 ou 12 meses de gestação uma fêmea entra em trabalho de parto. A baleia começa a ter contrações e na fenda genital aparece a primeira porção do filhote. Em outras espécies de cetáceos em que foi acompanhado o parto, a cauda do filhote aparece primeiro, ao contrário do que é observado em outros mamíferos. Isso ocorre porque até a ocasião do nascimento o aporte de oxigênio do filhote é repassado através do cordão umbilical. Mas, neste momento, o cordão se rompe e o recém-nascido precisa chegar rapidamente à superfície para respirar pela primeira vez. É possível que sua mãe nade sob ele e o apoie em suas costas, ajudando-o a subir à superfície, onde ele então infla seus pulmões pela primeira vez. Sua pele é cinza claro e sua nadadeira dorsal ainda é mole e dobrada para facilitar o nascimento. Embora as jubartes possam ter filhotes em anos consecutivos, em 80  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

geral o intervalo entre os nascimentos é de dois a três anos. Sempre nasce um único filhote, já medindo cerca de quatro metros de comprimento e pesando por volta de 800 a 1.000 kg. Após nadar e respirar, o filhote irá mergulhar e mamar pela primeira vez. O leite das baleias possui um alto teor de gordura, cerca de 40%, que irá fornecer a energia necessária para o crescimento do filhote. Durante a amamentação, os pesquisadores frequentemente observam a fêmea com o corpo em posição vertical, com a cabeça voltada para o fundo do mar e a nadadeira caudal exposta acima da superfície. Supõe-se que desta forma as glândulas mamárias permaneçam mais próximas da superfície, permitindo que o filhote suba para respirar com mais facilidade. SOBREVIVÊNCIA CRÍTICA Os próximos meses serão críticos para a sobrevivência do filhote, quando ele estará mais sujeito ao ataque de predadores como tubarões, poderá ficar emalhado em redes de pesca ou, caso se perca de sua mãe, poderá morrer por inanição. Por isso, as baleias jubarte permanecem o tempo todo ao lado de seus filhotes, mantendo um contato corporal intenso neste período. Se algum barco se aproxima a fêmea mantém seu corpo entre o filhote e a embarcação, como forma de protegê-lo. Por volta dos seis aos 10 meses de vida, o filhote irá desmamar. Neste

período é provável que ele intercale o consumo do leite materno com a captura de krill (Euphasia superba), um pequeno crustáceo semelhante ao camarão que ocorre em abundância nos mares polares durante os meses de verão. É importante que tanto a mãe como seu filhote consigam ingerir uma grande quantidade de krill. As jubartes só se alimentam durante o verão e precisam acumular energia na forma de gordura. Esta reserva energética permite que suportem um jejum de alguns meses durante a temporada em águas tropicais, onde não existe seu alimento preferido. Após este período, o filhote fará com a mãe sua primeira migração de retorno ao local onde nasceu. Com o fim do verão e a proximidade do inverno, a baleia e seu filhote iniciam a longa viagem de volta. Ao chegarem ao Brasil o filhote, já independente e tendo aprendido a rota de migração, poderá permanecer mais algum tempo junto de sua mãe ou separar-se dela, passando a interagir com outros grupos. Nesta fase terá entre oito e nove metros de comprimento. Embora independente, ainda não estará completamente desenvolvido. Ele irá realizar ainda quatro ou cinco migrações completas antes de atingir sua maturidade sexual por volta dos quatro ou seis anos de idade, quando medirá de 11,6 a 12 metros de comprimento. As fêmeas dão à luz pela primeira vez por volta dos seis anos de idade.


velhos amigos compartilhando suas lembranças. O mesmo diz a nós, jornalistas e caras-pálidas turistas ali extasiados. “O planeta ainda tem solução. Viva a não extinção geral das espécies, incluindo a nossa!” - eu já deliro, consciente, enquanto Eloah empunha a máquina fotográfica ao ouvir alguém gritando: “Baleia!”. Olho o horizonte e não enxergo nada. Só uns borrifos d’água à flor do mar distante e em ondas. Outro alguém completa: “Elas submergem e emergem em até 21 minutos, no máximo, para respirarem”. E, finalmente, acontece! São várias delas desaparecendo e reaparecendo gigantes e graciosas, perfiladas como numa escola de samba ou

procissão comportada de Reis. Como num desfile, sem qualquer burburinho humano, em espaços bem menores de tempo, à superfície marinha. O barco tenta aproximar. E elas mergulham não se sabendo previamente aonde irão aparecer em seguida. E retornam aqui e ali, em grupos distintos à nossa volta, tanto com filhotes ou sem eles, ainda em cerimônia de acasalamento. É um espanto mesmo, e dos bons. E impossível não notar que nos seguindo inocentemente até outro avistamento simbólico no percurso, afastando-se do litoral, está o famoso farol de Abrolhos. Datado de 1861, é o segundo mais antigo farol construído e em funcionamento nas águas marítimas FOTOS: ELOAH RODRIGUES

sileira, a gente consegue avistar até nove mil delas ao longo desses cinco meses de acasalamento e amamentação”. Eu me lembrei do que me disse, uma vez, outra bióloga guerreira, a mestre em Educação Ambiental pela UFMG Angela Lutterbach: “Extinção é para sempre!” Sua colega Evelyn continuou explicando que o fascínio de se estudar o comportamento e a sobrevivência das baleias vem do fato de elas terem também, como nós, uma longa expectativa de vida. Estima-se que possam viver mais de 50 anos, se não forem vítimas do impacto humano. Dessa forma, pesquisadores e baleias podem continuar compartilhando décadas de suas vidas um com o outro, assim como

UM OUTDOOR na estrada Prado-Caravelas já dá pistas da emoção gigante que nos aguarda OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  81


brasileiras. Seu recado literal aos marinheiros, então portugueses de primeira viagem à região, continua atual : “Abram os olhos!”. Daí “Abrolhos” de hoje. A partir dessa visão, nossas retinas também já enxergam lá longe, no horizonte preservado, as cinco ilhotas que compõem o arquipélago de Abrolhos, criado e mantido desde 1983, como uma Unidade de Conservação. Uma, sob a jurisdição da Marinha, onde até hoje existe uma casinha reformada e fechada, esperando o ex-presidente Lula e sua família revisitarem a ilha, conforme prometeram. E as demais, sob a vigilância do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), onde as embarcações se atracam, podendo suas tripulações até pernoitar dentro delas, mas jamais descer. A gente se aproxima de uma delas, a única permitida para visitação em terra, e confirma. Experimentar Abrolhos não significa conhecer apenas alguns rochedos de pedras vulcânicas aflorados, sem graça e sem vida, tamanha a viagem em alto mar. Pelo contrário, criado e preservado como parque desde 1983, Abrolhos lembra uma Fernando de Noronha em miniatura, tamanha a quantidade de aves também avistadas. São milhares de atobás, grazinas e fragatas cruzando, em profusão, suas pequenas ilhas. Ou protegendo seus ninhos e filhotes. Há ainda

FOTOS: ELOAH RODRIGUES

1 ECOTURISMO

LEMBRANÇA TRISTE da ferrovia e do “velho maquinista com seu boné” que não existem mais


Curiosidades l O nome científico da baleia jubarte é Megaptera novaeangliae, que significa “grandes asas” e “Nova Inglaterra”, local onde a espécie foi descrita pela primeira vez.

l A expectativa de vida é de 60 anos.

l Chega ao Brasil entre os meses de julho e novembro para se reproduzir nas águas quentes dos trópicos.

l Alimenta-se de krill (camarão minúsculo), especialmente nas regiões polares. E não se alimenta, durante quase meio ano, enquanto está na costa brasileira namorando e curtindo os filhotes. Já de dezembro a julho, as baleias seguem para a Antártica para se alimentarem.

l O maior berço reprodutivo do Oceano Atlântico Sul Ocidental está no litoral da Bahia, em Abrolhos.

l Suas nadadeiras peitorais podem atingir até 1/3 do seu comprimento total.

l Sua gestação dura cerca de 11 meses.

l No salto, as baleias jubarte chegam a expor até 2/3 de seu corpo.

l Está presente em todos os oceanos.

l O filhote costuma medir quatro metros e pesar 1,5 tonelada. l Um adulto pode medir até 16 metros e pesar 40 toneladas, o que equivale ao tamanho de um ônibus e um carro.

l Os machos da espécie cantam para chamar a atenção das fêmeas. l O peso de uma baleia é equivalente ao de oito elefantes juntos.

COMPORTAMENTOS DA JUBARTE

Arqueamento

Batida de cabeça

Exp. da nadadeira peitoral

Exp. caudal durante mergulho

Cauda parada

Batida caudal

Salto

Espiar


84  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

FAROL de Abrolhos: desde 1861 alertando os navegantes

TRIPULAÇÃO COMPANHEIRA do catamarã da Horizonte Aberto: Tatiane Nascimento (cozinheira), Cláudio Pestana (marinheiro), Benedito Fernandes (comandante), Joyce Trindade (guia) e Evelyn Froes (bióloga) FOTO: SHUTTERSTOCK

tantas tartarugas, como os diferentes cardumes multicores de peixes nadando conosco, sem estranhamento, em suas águas translúcidas. Um prazer lúdico que dura pouco. Logo, é hora de voltar, almoçar e começar a longa viagem de volta. Como brinde turístico, o barco contorna a “ilha de Lula” e se direciona novamente rumo ao balé das baleias em seu trajeto. A novidade agora não é mais vê-las submergindo e voltando à superfície em azul marinho. Isso elas continuam fazendo, com os seus até 16 metros de comprimento e 40 toneladas de peso, auxiliadas por longas nadadeiras peitorais que atingem até 1/3 do seu comprimento total. Mas são os solteiros e futuros papais-baleias saindo com os seus corpos, imensos, quase todos fora da água, como se quisessem alcançar o céu agora em azul dourado. Para, após serem vistos por suas possíveis pretendentes, tombarem violenta e graciosamente no mar profundo. Esse comportamento, porém, pode ser apenas conversa de pescador, sem qualquer base científica. Segundo os técnicos do Instituto Baleia Jubarte, o fato de as baleias saírem em linha reta fora do mar não tem nada de romântico, como tenta nos convencer a nossa vã fantasia. Elas, machos ou fêmeas, solteiras ou casadas, ainda não se sabe ao certo, realizam essa proeza apenas para “espiar” o mundo à sua volta. E que mundão de esperança e inveja positiva! A gente se despede assim, depois de vê-las em close. Quem sabe um dia, seguindo o seu exemplo, a nossa espécie também sairá, para sempre, da lista de animais ameaçados de extinção? Boa viagem! 

FOTOS: ELOAH RODRIGUES

1 ECOTURISMO

FAUNA EXUBERANTE das ilhas: nenhum predador à vista!


FOTO: ELOAH RODRIGUES

FOTO: CRISFERRARI1500

A “MINI Fernando de Noronha”: deslumbre a apenas 70 km do continente

BANDEIRA DO BRASIL com o arquipélago ao fundo: esperança na ida e na volta


1 ECOTURISMO UMA JUBARTE “espia” o mundo à sua volta

Vitória da vida contra a extinção O Brasil tirou a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) da lista de espécies ameaçadas de extinção graças ao aumento da população desses animais no litoral do país, onde cruzam e geram novos filhotes. A espécie foi reclassificada para “quase ameaçada”, status que demanda a continuidade de trabalhos de conservação. Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Baleia Jubarte, há quase três décadas existiam entre 500 e 800 animais vivendo apenas na região de Abrolhos, no sul da Bahia – principal concentração delas. Em 2011, quando foi realizada a última contagem aérea, foram avistados 14 mil animais. Até o próximo censo, previsto para este ano, o número pode saltar para 20 mil. No país, elas são encontradas na costa do Espírito Santo e Bahia entre julho e novembro, onde permanecem para procriação. De dezembro até junho, seguem para a Antártica, onde se alimentam de krill (invertebrados parecidos com o camarão).

86  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

IMPACTO HUMANO Com exemplares que podem medir até 16 metros de comprimento e pesar mais de 40 toneladas, as jubartes foram, por muito tempo, alvo da pesca predatória no Brasil. Sérgio Cipolotti, biólogo e coordenador ambiental do Instituto Baleia Jubarte, explica que o declínio de espécimes começou em meados do século 17, “quando eles eram caçados para extração de óleo, que era usado para abastecer candeeiros para iluminar as cidades, e no preparo de carnes”. Com a queda populacional das jubartes e de outras baleias em todo o planeta, criou-se a Comissão Internacional Baleeira (CIB), que teve entre seus principais resultados a imposição de uma moratória de caça a partir de 1986. Ugo Versillo, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), explica que, no ano seguinte, 1987, o Brasil proibiu a caça. 

SAIBA

MAIS

Os caxaréus jubartes cantam durante a temporada reprodutiva, provavelmente com a função de atrair as fêmeas ou afastar outros machos. Essas canções são constituídas por frases repetitivas chamadas temas, cantadas em longas sequências de repetição. O canto difere entre as diferentes populações que existem no mundo e varia a cada temporada, sendo alterado lentamente até se tornar uma canção completamente distinta após cinco anos. Geralmente os machos cantores são observados sozinhos e indivíduos de diferentes populações produzem canções diferentes, o que tem sido utilizado para caracterizar e diferenciar cada população de baleia jubarte. Foram registrados cantos similares entre baleias jubarte brasileiras e baleias do Gabão, na África, levantando a hipótese de que em algum momento de seu ciclo de vida – talvez durante a rota migratória ou mesmo na área de alimentação – os machos das duas diferentes populações tiveram a oportunidade de se encontrar e de intercambiar temas e frases.


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CULTURA E MEMÓRIA: Estação Ciência reúne objetos que representam a história do povo mineiro

VIAGEM À HISTÓRIA DE MINAS A Ecológico inicia sua excursão à Estação Ciência, da Anglo American, e mostra como ela se tornou uma referência cultural e ambiental para estudantes e pesquisadores de todo o país Cristiane Mendonça

redacao@revistaecologico.com.br

Q

uem chega ao município de Conceição do Mato Dentro, a 167 quilômetros de Belo Horizonte, tem as montanhas como companhia. São muitas e estão por todos os lados. Elas reforçam aquele ar bucólico do interior que se tornou um dos símbolos de Minas Gerais. Conceição é cercada pela Serra do Espinhaço, que apresenta ali apenas uma parte da sua longa cadeia montanhosa de cerca de 1.200 quilômetros, que se estende desde a Serra de Ouro Branco, na Região Central de Minas, até a Serra de Jacobina, no norte da Bahia. É nesse cenário, com seus solos ricos em minério de ferro, que a história da evolução do homem e da natureza também pode ser encontrada. É onde en88  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

contramos um espaço para celebrar o passado, o presente e o futuro da região. Inaugurada em 2014, a “Estação Ciência Anglo American – Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço” foi idealizada pela Anglo American para resgatar e disseminar o conhecimento sobre a cultura, o patrimônio histórico e arqueológico do entorno do Minas-Rio, localizado no KM-194 da Rodovia MG-10. A Estação Ciência já foi visitada por mais de 10 mil pessoas desde a sua inauguração e recebe pesquisadores, estudantes da região, famílias e funcionários da empresa, com uma média de 60 visitas por dia. O local possui anfiteatro, um jardim de espécies de campo rupestre, borboletário, viveiro de mudas,

espaço de pesquisa e cinco núcleos temáticos. FORMAÇÃO E ORIGEM A viagem a este polo de conhecimento no coração da Serra do Espinhaço começou numa quinta-feira iluminada de setembro. A temperatura do dia girava em torno de 34º graus e, em cada uma das cinco salas, uma parte da história de Minas nos aguardava. Nossos acompanhantes na visita são o coordenador de Desenvolvimento Sustentável da Anglo American Tiago Alves, e a analista de Meio Ambiente, Claudiana Souza, que nos explicam em detalhes cada informação que os espaços trazem. A primeira sala é uma oportunidade para compreender como a vegetação e o solo da região


FOTOS: ANGLO AMERICAN / DIVULGAÇÃO

foram formados. E como se estabeleceram, ali, os povoados que contribuíram para a formação do povo mineiro. O foco da sala é a biodiversidade, a paisagem natural da região e os estudos ambientais e científicos realizados no início da implantação do empreendimento Minas-Rio. E a aula começa. Lá vem a “Memória Natural das Serras do Sapo e Ferrugem”, prendendo a nossa atenção, tamanha a beleza das imagens e informações nos painéis disponíveis da sala. Ali, o visitante conhece os minerais encontrados na região em diversas formas, tais como canga, uma formação superficial do itabirito; hematita, que tem maior teor de ferro; e o itabirito friável, composto por camadas de ferro que conferem não só uma beleza especial à rocha, mas também serve como indício da formação de toda região. “É interessante perceber que houve uma formação geológica no processo de sedimentação do

VIVEIRO de mudas: espécies típicas do campo rupestre e de mata atlântica são cultivadas em local aberto à visitação

ferro e do quartzito e uma alternância de camadas que, muito provavelmente, aconteceu em ambiente marinho. Um tipo de formação que dificilmente ocorreria em um local onde não existisse água. Característica que ajuda a datar a rocha e entender o passado geológico”, explica Tiago Alves.

RICA BIODIVERSIDADE Vivenciada a parte de nossa história geológica, a exposição passa para o seu segundo momento. É hora de conhecer mais sobre a fauna e flora da região e a rica biodiversidade que se esconde por trás daquelas serras permeadas por espécies do campo

PLANTAS TÍPICAS Na Estação Ciência existem dois ambientes dedicados às plantas nativas: o viveiro de mudas e o jardim temático. Eles são constituídos por espécies de plantas dos campos rupestres que crescem, geralmente, em ambientes acima de 900 metros de altitude, em terrenos pedregosos e com baixa absorção de água. São muito comuns em Conceição do Mato Dentro, por conta da Serra do Espinhaço (MG), mas também são encontradas na Chapada Diamantina (BA), Goiás e Mato Grosso. No jardim temático, bromélias e orquídeas típicas, além de canelas-de-emas, trazem a beleza da flora para perto do visitante. O solo é composto por canga e as espécies estão plantadas e distribuídas naturalmente para reproduzir como elas são encontradas nos altos das serras. A analista de Meio Ambiente Claudiana Souza nos conta que “algumas das plantas parecem estar secas, mas isso é uma característica das espécies dos campos rupestres para resistir à falta d’água nos períodos mais críticos”. Na primeira chuva, aos poucos elas voltam a florescer, mostrando o poder que a natureza tem de adaptação e sobrevivência. Ao lado do jardim, o viveiro de mudas rivaliza com ele a atenção dos visitantes. Lá, são cultivadas 60 espécies diferentes da flora nativa e o processo de conservação das plantas é acompanhado diariamente por especialistas e monitores ambientais.

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rupestre, que predominam e se multiplicam na região. Para se ter uma ideia, somente no livro “Fauna – Leste Atlântico do Espinhaço Meridional”, produzido pela Anglo American por meio da Bicho do Mato Editora para atender uma das condicionantes da fase de implantação do Minas-Rio, estão registradas mais de 300 espécies nativas daquele hábitat. Animais como jararaca, pica-pau-do-campo, furão, coruja-buraqueira, gambá-de-orelha-branca, jaguatirica, lobo-guará e tatus seguem imortalizados na obra e nas matas da região. Essas espécies podem ser encontrados entre 30 a 40 quilômetros da Estação Ciência e são monitoradas constantemente por meio de projetos desenvolvidos pela mineradora. Além dos animais nativos, a exposição também dá atenção especial à espeleologia, que abrange o estudo de cavernas e cavidades subterrâneas. A área de abrangência do Minas-Rio possui 230 grutas conhecidas e 81 catalogadas. “Até 2007, ano em que a empresa iniciou os estudos na área, não havia publicação ou relato formal sobre as cavernas de ferro”, ressalta Tiago. A multiplicidade do conteúdo gerado sobre os ambientes cavernícolas permitiu também a produção de outro livro dedicado especialmente ao tema, também disponível para consulta no museu. Trata-se do “Cavernas da Serra do Espinhaço Meridional”, obra que aguça ainda mais a curiosidade do visitante pela excentricidade dos animais que habitam as cavernas, como aranhas e mariposas albinas. Além de o visitante poder apreciar algumas fotografias e informações em exposição, há também um vídeo em 3D que dá uma noção de como essas grutas se confi90  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

FOTOS: ANGLO AMERICAN / DIVULGAÇÃO

1 EDUCAÇÃO AMBIENTAL

MEMÓRIA AFETIVA: visitantes encontram objetos centenários comuns à tradição mineira

guram. E o melhor: uma delas, denominada Lapa do Fogão, foi adaptada, de acordo com a legislação, para receber visitantes. O PASSADO DE NÓS MESMOS Saímos “das cavernas” e fomos iniciar uma viagem no tempo. Estamos no Núcleo Arqueológico, visitando o passado de nossa gente, apreciando agora algumas das peças pré-históricas (separadas em vitrines por período) produzidas pelas mãos humanas e que foram encontradas durante as escavações arqueológicas no âmbito do Minas-Rio. Vemos pedaços de madeira escurecida, últimos vestígios de uma roda antiga. Cacos de porcelanas, sendo algumas francesas, nos mostrando que nos séculos 18 e 19 havia um intenso intercâmbio entre os nativos e estrangeiros por meio da troca de mercadorias. Em outra vitrine, pedaços de panelas de barro de argila formam delicados quebra-cabeças, que só mesmo o olhar de um arqueólogo poderia unir. Mais adiante, os artefatos surpreendem mais e nos levam à pré-história, com fragmentos de rochas que formavam machados para abate de animais ou pedras mol-

SAIBA

MAIS

A Estação Ciência é aberta gratuitamente ao público de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 17h. Para visitas de grupos acima de 15 pessoas, é preciso agendar com antecedência através do e-mail educação.ambiental@ angloamerican.com

dadas pelas mãos humanas que era utilizadas como objetos cortantes. “Esse acervo veio de 88 sítios arqueológicos que a Anglo American identificou. Já são 150 mil peças coletadas e que estão guardadas para serem expostas alternadamente. Este material está arquivado e sua manutenção conta com os cuidados do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas e do Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire de Lagoa Santa (CAALE). É o maior investimento em arqueologia feita por uma empresa privada na região centro-sul do Brasil até hoje”, conta Tiago Alves. Mas o núcleo também esconde outras raridades: os registros de pinturas rupestres encontradas na região. O coordenador de Desen-


INSETOS O borboletário é um espaço lúdico onde são cultivadas plantas próprias para a reprodução de borboletas típicas da região de Conceição do Mato Dentro. Nos pésde-couve plantados no local, por exemplo, é possível encontrar dezenas de lagartas, além de esvoaçantes borboletinhas amarelas. A área funciona em consonância com o laboratório da Estação Ciência, onde são realizadas atividades de apoio à pesquisa sobre fauna e flora. É onde também as pupas das borboletas crescem para, depois, serem transferidas para o borboletário, que acolhe aproximadamente 350 indivíduos de cinco espécies diferentes.

volvimento Sustentável da Anglo American conta que o Espinhaço está inscrito numa província arqueológica chamada de Tradição Planalto, um conjunto de signos e formas que se repetem sistematicamente nas pinturas rupestres. “Você vai daqui até o Mato Grosso, quase no Piauí praticamente, e daqui até o Sul de Minas, que é uma extensão geográfica enorme, e vai ver praticamente as mesmas temáticas representadas com pinturas de animais utilizando pigmentos vermelhos”, relata. CULTURA E MEMÓRIA A segunda sala é um convite à história da formação da cultura local. O ambiente evidencia a relação que Conceição do Mato Dentro tinha com cidades como Serro e Diamantina, considerados grandes motores econômicos nos tempos da exploração do diamante. A primeira fundição de ferro localizada na cidade de Morro do Pilar, as passagens de naturalistas conhecidos, como o francês Auguste Saint-Hillaire no início do século 19, além de registros feitos em vídeo e imagens das festas religiosas e dos processos de produção de alimentos típicos da região, brindam o visitante com sua importância histórica.

O BORBOLETÁRIO: proteção e multiplicação das “cores que voam”

Nesse momento, a imaginação nos leva para as fazendas de nós mesmos, para a infância, o cotidiano do campo. A Estação Ciência desperta nossas lembranças. Seja no ferro de passar antigo, daqueles que eram aquecidos com carvões em brasa, seja no moedor de carne, nas fôrmas de madeira para se fazer queijo e requeijão, na roda de moer cana-de-açúcar. E até mesmo nas violas, que provavelmente embalaram muitas serestas sob os céus estrelados de Conceição, e que estão expostos naquele oásis de conhecimento. “Esses instrumentos têm valor museológico? Não. A ideia é que as pessoas venham aqui e se identifiquem com

O LIVRO está disponível para consulta no museu

aquilo que fazia parte do cotidiano delas. É um espaço de memórias afetivas”, reforça Tiago. ENTENDER ESTRELAS Estamos no final de nosso passeio pela Estação Ciência, mas animados em conhecer os dois últimos núcleos do museu. Neles, as exposições são sempre temáticas e mudam conforme as temporadas. No primeiro deles, os visitantes entram num recinto que simula uma gruta. No teto, um vídeo nos dá a ideia de como os povos antigos viam as estrelas em noites sem luzes artificiais ou poluição atrapalhando a contemplação natural. Por último, somos convidados a desenhar nas paredes de uma gruta cênica, registrando ali a nossa contribuição cultural moderna, eternizando nossas identidades. A Estação Ciência é assim: permite que quem a visite possa criar, passear na sua própria interpretação da história a partir de elementos que persistem no tempo e nos ensinam como chegamos até o presente. Saí do museu com o sentimento de que a história do homem na Terra é misteriosa, complexa. Mas, ao mesmo tempo, maravilhosa! Até a próxima viagem!  OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  91


FOTO: ARQUIVO GERALDO L. NETO/VINHA DE LUZ

1 PERFIL

A ECOLOGIA ESPIRITUAL DE

FRANCISCO

Ele não foi apenas médium e filantropo. Chico Xavier, o maior brasileiro de todos os tempos, era um ativista socioambiental e pregava o respeito a todos os seres – humanos, animais e espirituais Cristiane Mendonça

Colaboração de Luciano Lopes redacao@revistaecologico.com.br

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menino que nasceu Francisco de Paula Cândido, em Pedro Leopoldo (MG), no início do século 20, e que anos mais tarde seria conhecido nacionalmente como Chico Xavier, teve seu nome ligado não somente à Doutrina Espírita, que ele ajudou a difundir. Mas também ao exemplo da caridade concreta e do amor à natureza. Chico acampou sua alma e coração no trabalho do conforto aos irmãos e irmãs sofredores. Suas psicografias ajudaram muitas famílias, reergueram seus corações e almas ao prisma da eternidade e da fraternidade. Abriram mentes para o respeito ao Criador e à Criação, criando um elo de integração a eles. Junto a amigos e companheiros de fé, cresceu a bênção da filantropia. Chico realizou muitas ações para ajudar ao próximo. Entre elas, destaca-se o tradicional jantar às quintas-feiras, com distribuição gratuita de pão e leite, mais a entrega das cestas básicas aos sábados. Filas a perder de vista se formavam no “Refeitório Amigos Anônimos Chico Xavier”, no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba (MG), onde o médium viveu seus últimos 41 anos. Como a Revista Ecológico mostrou na primeira parte desta série, Chico ia além de pregar o amor ao próximo, a caridade diária e a tolerância mútua. Era um defensor do meio ambiente e tinha uma forma distinta de fazê-lo: sem alarde, sem mídia. Com sabedoria, suas orientações sobre o cuidado com os recursos naturais e o ser humano tinham mais impacto do que uma manchete de jornal. Quem as ouvia, internalizava o ensinamento e passava à frente, entre a família e amigos. E os livros foram um instrumento importante para registrar essas pílulas de sabedoria ecológica e espiritual.

Chico frequentemente chamava os animais de “nossos irmãos”. Não é raro ouvir ou ler histórias de amigos próximos de Chico sobre a forma única como ele tratava essas criaturas. No livro “Mandato de Amor”, uma publicação da União Espírita Mineira, há duas passagens que ilustram bem o exemplo. Uma delas conta que, ao datilografarem psicografias recebidas, Chico observava em silêncio um besouro que insistentemente pousava na máquina de escrever de seu amigo Waldo Vieira. Waldo, irritado, arremessou o bicho contra a parede duas vezes. Incansável, o inseto mais uma vez alçou voo e, desta vez, foi parar na máquina de Chico, que pegou o besouro com cuidado, abriu a janela e soltou-o lá fora, dizendo: “Besouro, se você não conseguiu desencarnar através de Waldo é porque você é como eu: tem uma missão a cumprir no mundo. Vá com Deus!”. Em outra passagem do mesmo livro, Chico comenta: “Podemos nos considerar como irmãos mais

velhos e mais experimentados dos animais. Ora, se nós já sabemos que a lei divina institui a solidariedade entre os seres, por isso, podemos facilmente concluir que a nós, seres humanos, Deus outorgou a condução e a proteção de nossos irmãos mais novos, os animais”. E acrescentou: “Que dizermos das devastações inconsequentes do meio ambiente? Tudo isso se resume em graves responsabilidades para os seres humanos!”, alertou. AMOR AOS ANIMAIS Para Chico, desenvolver a ecologia interior era um dos principais passos para transformar a nossa relação com o meio ambiente e com o próximo. Esse conceito, inclusive, é defendido por pensadores modernos, como o professor e teólogo Leonardo Boff. Ele acredita que “sem uma revolução espiritual será difícil sairmos da atual crise planetária”. E alerta que, caso não façamos um novo acordo com a vida e com a Terra, seguiremos errantes e solitários: “A partir da ecologia inte-

“Nós, seres humanos, estamos na natureza para auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar.” Chico Xavier

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1 PERFIL

ocasião, a casa de Chico em Uberaba estava sendo invadida por formigas. Eurípedes Higino, filho adotivo do médium, falou sobre a possibilidade de eliminá-las usando formicida. Em defesa dos insetos, Chico então pediu “um prazo para conversar com elas”. No dia seguinte, o médium se deitou ao lado de onde as formigas passavam em fila indiana e comunicou: “Olha, minhas irmãs, o assunto é grave! E vocês precisam entender uma coisa: se a casa pertencesse somente a mim, não tinha problema, eu permitia vocês ficarem. Mas moro com dois CONVERSANDO COM companheiros que também têm AS FORMIGAS Geraldo conta episódios que mos- direito sobre a casa. Um deles está tram como o médium também muito nervoso com a presença possuía uma personalidade leve e das senhoras aqui. Vocês vêm do bem-humorada. Em uma dessas lote vago ao lado. Lá não tem dono passagens, ele conta que, em certa e vocês podem ficar lá, fazer sua casa, cavar na terra e fazer uma morada subterrânea. Ninguém vai se incomodar! Mas, aqui, não. Aqui tem proprietário e um deles está nervoso. Ele prometeu que, se em 48 horas vocês não saírem vai tomar uma providência e jogar formicida. Vai ser uma matança geral!” - sentenciou. O que aconteceu no dia seguinte? Noventa e nove por cento das formigas desapareceram. Poucas reapareceram depois. Geraldo, curioso, perguntou: “Chico, o que você acha dessas que voltaram? Ficarão ao sabor do formicida?”. E o médium respondeu: “Deixei porque elas são subversivas. Eu avisei, GERALDO LEMOS: "Chico transmitia amor à natureza, conversava com os animais" mas elas não quiseram ir embora!”.

vista que gastaríamos várias encarnações para reconstruir o que fora destruído”, alerta. “Chico transmitia um amor à natureza e aos animais que era impressionante. Ele faz lembrar a figura de São Francisco de Assis, que também conversava com os bichos. Todas as mensagens do santo caminham nessa direção: a consciência expandida de que tudo é criação divina, desde a pedra, a formiga, o animal, as aves, enfim, até a própria Terra e os seres humanos”, completa.

FOTO: LUCIANO LOPES

rior, a Terra, o sol, a lua, as árvores, as montanhas e os animais não estão apenas aí fora, mas vivem em nós como figuras e símbolos carregados de emoção”. Esta aí a teoria que Chico Xavier, o homenageado da sétima edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, aplicava: somos todos integrados. É o que contou o médium e amigo Geraldo Lemos Neto, que conviveu por quase duas décadas com Chico, à Ecológico, sobre o exemplo do ícone do Espiritismo que apontou 2019 como a data-limite para abraçarmos a cultura da paz entre os povos e o respeito ao meio ambiente. Caso a humanidade sucumbisse aos conflitos, o mundo de regeneração custaria muito mais a vir. “Poderia demorar outros mil anos, tendo em

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Natureza esquecida? FOTO: GERMÂNIA GONÇALVES

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É PRECISO uma aliança intermunicipal para salvar as águas do Açude do Capão, poluído por esgoto doméstico e lixo FOTO: DIVULGAÇÃO

ma das passagens mais marcantes da história de Chico Xavier no Espiritismo é o episódio em que ele se encontra, pela primeira vez, com Emmanuel, seu mentor espiritual. Era o ano de 1931 e Chico estava às margens do Açude do Capão, em Pedro Leopoldo. Naquela época, o rio possuía águas limpas e Chico gostava de passar os domingos lá, lendo e refletindo. Foi nas margens bucólicas do Açude que ele ouviu de seu guia espiritual que “teria como missão publicar 30 livros e perseguir três metas na vida: disciplina, disciplina e disciplina”. Mais de 70 anos depois, Chico chegaria aos mais de 400 livros publicados. Mas o lugar que deveria ser hoje um dos cartões-postais de Pedro Leopoldo, infelizmente, definhou. O rio está poluído por esgoto e o local onde o médium orava em silêncio e recebeu sua missão espiritual não é mais seguro para visitantes. Nas duas vezes em que a reportagem da Ecológico esteve na cidade foi aconselhada por moradores a não visitar o Açude, uma vez que pontos próximos a ele são constantemente utilizados por usuários de drogas. Segundo a gerente de Desenvolvimento Ambiental da prefeitura de Pedro Leopoldo, Silvany Geralda Corrêa, estão sendo construídos mais sistemas de esgotamento para minimizar a poluição do Ribeirão da Mata, que desemboca no Capão. Ela conta que há, inclusive, uma estação de tratamento que atende alguns bairros centrais e já está em funcionamento. “A Copasa já está construindo o esgotamento do bairro São

OS ATORES André Dias e Ângelo Antônio, interpretando Emmanuel e Chico Xavier no filme de Daniel Filho, com o Açude do Capão fictício ao fundo: bom seria se o rio estivesse limpo assim

Geraldo, onde fica o Açude. Mas ainda não existe o tratamento da água. As obras estão na etapa da canalização principal e depois serão feitas as ligações nas casas da região para que o esgoto não seja despejado in natura, como ocorre atualmente”, esclarece. A gerente admite que para o Açude do Capão se tornar novamente um cartão-postal da cidade, mais ações precisam ser feitas. Outros

municípios próximos também despejam esgotos em suas águas, além do lixo, que é jogado nas margens pela própria população. Segundo Cleber Torres, gerente da Divisão de Apoio a Expansão e Fiscalização (DVEX) da Copasa, as obras para instalação de novos sistemas de esgotamento em Pedro Leopoldo “foram iniciadas em novembro de 2015 e têm previsão de término para maio de 2017”.

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E o memorial?

No início desta década, o sonho dos pedro-leopoldenses e espíritas de ter um espaço cultural que preservasse a vida e obra de Chico Xavier quase se materializou. Em 2010, a Prefeitura da cidade assinou um termo de cooperação com a Fundação Cultural Chico Xavier para acompanhar a construção da sede do “Memorial Chico Xavier”, no Açude do Capão, que já havia sido iniciada e tinha previsão de ser inaugurada em 2012. Mas não foi o que aconteceu. Hoje, a obra está parada. As paredes já levantadas sofrem com a ação do tempo. Quase seis anos depois, a construção abandonada parece buscar reflexo do esquecimento governamental nas águas poluídas do Capão. Sem o Memorial, perdem o governo, a população, o Espiritismo e a cultura brasileira. Segundo Geraldo Lemos, pre-

A OBRA do Memorial às margens do Açude do Capão, antes de ser paralisada, em registro do jornal "O Observador", em 2011

sidente da Fundação, “o Governo Federal, por meio do Ministério das Cidades, repassou um valor que na época era de R$ 4 milhões. E a Prefeitura, em contrapartida, investiria mais R$ 400 mil. Todo o gerenciamento da obra, desde o projeto à sua construção, ficou a

cargo do governo municipal”. A primeira etapa foi concluída. “Mas quando chegou a segunda, a empresa responsável por dar sequência à construção identificou que as fundações de concreto haviam sido feitas no lugar errado. Assim, os prazos estipulaO MEMORIAL Chico Xavier, em Uberaba, é vizinho à exuberante Mata do Carrinho

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FOTO: RENATO COBUCCI/ IMPRENSA-MG

1 PERFIL


FONTES: Livros “Chico Xavier – Mandato de Amor”/ Francisco Cândido Xavier e Geraldo Lemos Neto; “O Voo da Garça – Chico Xavier em Pedro Leopoldo”, de Jhon Harley; “Pedro Leopoldo vista por Chico Xavier”, de Geraldo Lemos Neto; Acervo fotográfico da Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo; Vinha de Luz Editora (www.vinhadeluz.com.br); União Espírita Mineira (www.uemmg.org.br).

FOTOS: RENATO COBUCCI/ IMPRENSA-MG

dos não foram cumpridos e os recursos disponibilizados retornaram ao Governo Federal, fazendo com que o Memorial ficasse inviabilizado”, lamentou. Também foram feitas tentativas de captação de recursos junto à iniciativa privada, mas não houve avanços. A Ecológico entrou em contato com a Secretaria Municipal de Cultura de Pedro Leopoldo para comentar o assunto. Mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno. Em Uberaba (MG), cidade em que Chico morou de 1959 até sua desencarnação, em 2002, o final foi mais feliz. A Prefeitura municipal retomou as obras da construção de um memorial para homenagear o médium em 2015. Dividida em três fases, a obra foi realizada com recursos do Ministério do Turismo (MTur), que destinou R$ 4,3 milhões para as duas primeiras etapas. Na terceira, a prefeitura investiu R$ 620 mil. Localizado na Mata do Carrinho, o “Memorial Chico Xavier” foi projetado pelo arquiteto Paulo Trajano e entregue no dia 10 de junho último, durante a cerimônia de entrega da Comenda da Paz, que leva o nome do médium e é uma homenagem do Governo do Estado a personalidades que contribuíram para a paz e o bem-estar da sociedade. No acervo do Memorial, que terá em sua infraestrutura livraria, lanchonete e anfiteatro, já estão disponíveis 187 obras do médium. O espaço, também terá um holograma que reproduzirá psicografias e áudios de Chico. 

O VICE-GOVERNADOR Antônio Andrade, durante a entrega da Comenda da Paz no Memorial: exaltação ao legado social do médium

O ESPAÇO tem acervo bibliográfico com 187 obras e em breve ganhará um holograma do médium OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  97


1 ENSAIO FOTOGRÁFICO

FOTO: ANTONIO RUSSILLO

ÁGUIA CHILENA (Geranoaetusmelanoleucus)

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AVES DE

RAPINA Fotógrafo italiano mostra a relação entre o homem e animais sob a perspectiva do olhar Cristiane Mendonça

redacao@revistaecologico.com.br

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icos recurvados e pontiagudos, voos poderosos, garras fortes e visão de longo alcance. Essas são apenas algumas características das aves de rapina, que também se destacam pela forma impressionante e ágil de capturar suas presas. E pelo seu olhar profundo, que ao mesmo tempo hipnotiza, provoca calafrio e curiosidade, como fazem as águias e corujas. Quando observamos as imagens feitas pelo fotógrafo italiano Antonio Russillo, que vive há anos na capital mineira, a sensação é a mesma. Nelas, Russillo capta essa magia hipnotizadora, que evidencia a interação entre ser humano e aves e como eles, tão diferentes, se conectam pela visão. Utilizando um jogo de luzes único, que o fotógrafo conta ser fruto de equipamentos que ele próprio produz, as imagens são ao mesmo tempo simples e majestosas.

Ele conta que uma de suas principais inspirações foram as obras dos pintores Caravaggio, também italiano, e que viveu no século 16, e Rembrandt, um holandês que viveu no século 17. As obras de ambos tinham em comum a utilização de luz e cor em primeiro plano sobre um fundo escuro. “Desde criança fui impactado muitas vezes pelas obras desses pintores, que traziam cenas num contexto dramatizado”, comenta. Russillo conta que a ideia de fotografar as aves de rapina surgiu de uma conversa com o amigo biólogo Wellington Rodrigues, cuidador desse tipo de animais. “Nossas paixões em comum, fotografias e cervejas artesanais, se estenderam para uma ideia de registrar em imagens as aves”, ele revela. Já as pessoas que participaram do ensaio são amigos e conhecidos, incluindo a própria filha, Chiara, de quatro anos. Confira:

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1 ENSAIO FOTOGRÁFICO CORUJA SUINDARA (Tyto furcata)

ÁGUIA CHILENA (Geranoaetus melanoleucus)

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QUEM É ELE Antonio Russillo tem 61 anos e nasceu na pequena Ruoti, na Itália. Passou metade da vida em Salermo, e a outra em Modena. Terapeuta corporal, recebeu em 2004 o convite de um professor de shiatzu para dar aulas em um projeto voluntário na cidade de Planaltina, em Goiás. Depois disso, visitou duas vezes o Brasil e, em 2006, decidiu morar no país, onde se casou e constituiu família. Ele conta que se dedica à fotografia “desde os tempos do filme em negativo”, e que precisou passar por uma reciclagem para mergulhar no mundo da fotografia digital. Seu trabalho fotográfico não se limita aos ensaios artísticos. Ele também gosta de registrar eventos e celebrações, como casamentos e aniversários. “O que você expressa é o resultado de várias vivências na vida. E a fotografia é uma forma de mergulhar na experiência de reproduzir imagens o mais profundamente possível.”

SAIBA MAIS

FOTOS: ANTONIO RUSSILLO

Página no Facebook: Antonio Russillo Foto AR

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MEMÓRIA ILUMINADA

FOTO: TEREZINHA DE OLIVEIRA LIMA

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A GRANDE SÍNTESE DE

PIETRO UBALDI Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

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filósofo espiritualista Pietro Ubaldi sempre foi consciente da missão que lhe foi reservada em sua última encarnação. Nasceu em Foligno, Itália, em 1886, filho de pais ricos, descendentes da alta nobreza italiana. Mas, desde pequeno, já se mostrava inclinado para as coisas do espírito. O desabrochar espiritual começou no ginásio, quando estudou a evolução humana e as obras de Charles Darwin e conheceu as obras do decodificador do Espiritismo, Allan Kardec. Ubaldi era poliglota – falava fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, português e tinha conhecimentos em latim e grego. Formou-se em Direito e Música, mas não seguiu as profissões. Lançou 24 livros. E estudou diferentes correntes filosóficas e religiosas, destacando-se como um dos grandes pensadores do século XX. Contemporâneo do médium Chico Xavier, teve importância magna no entendimento da evolução do espírito. Sua obra “A Grande Síntese”, lançada em 1937, aponta um caminho em que a ciência encontra a espiritualização, oferecendo uma solução palpável para os problemas do universo. E vai além: leva o homem ao encontro de Deus, por meio da ascensão espiritual, superando a dor e a morte, aceitando as leis naturais, a maravilha divina que é a natureza, e reconhecendo o amor como o fio que conduz à Verdade. “Deus está em todas as coisas. As vozes da natureza falam-nos Dele. Atrás da aparência, toda forma traz uma íntima substância imaterial de que é efeito e a mantém em vida pela contínua reconstituição, pertence ao mundo espiritual, trazendo um traço, embora mínimo, da face de Deus. Só assim, contemplando essa face interior da natureza, poderemos nos aproximar Dele.” Mais: “A visão das obras de Deus produz paz e esquecimento; diante da divina beleza da criação, aquieta-se a tempestade do coração; paixão e dor adormecem em lento e doce canto sem fim”, dizia. Confira, a seguir, outros pensamentos de Ubaldi:

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MEMÓRIA ILUMINADA – PIETRO UBALDI l AMOR “O amor, como a dor, tem uma função fundamental de conservação, coesão e renovação. É parte integrante do funcionamento orgânico do universo. O impulso não se destrói, mas se reforça e eleva; o desejo não se mata, mas se guia para uma contínua elevação.” “A função do amor é criar, conservar, proteger.” l VIVER NA ORDEM “Quanto mais aprenderdes a viver na ordem, tanto mais diminuirão vossas atribulações, e quanto mais desobedecerdes à Lei, tanto mais elas crescerão. Não vedes que cada coisa tem seu lugar na natureza? Que aconteceria se o mar quisesse usurpar o espaço que pertence à terra, e se esta quisesse invadir o céu? Tudo é belo e há lugar para tudo, inclusive para vossa vida, porque tudo está organizado e em paz. Mas logo que esta ordem e esta paz se perturbem, surge para todos o desastre. Só se respeitardes as regras indispensáveis da vida, estabelecidas por Deus, é que Ele poderá dar-vos a felicidade, de que elas são a condição essencial.”

também quais são os limites desta, pelo fato de não morder quem passa pela estrada, mas só quem entra no terreno ou na casa do seu dono.” l ESPÍRITO “Sede inteligentes à altura de vossa ciência; sede modernos, ultramodernos, e vislumbrareis o espírito, que é a realidade do amanhã, e o tocareis com o raciocínio, o refinamento de vossos órgãos nervosos, com o progresso de vossos instrumentos científicos. O espírito está aí, à espera, e fará vibrar as civilizações futuras.” “Não sabeis que todas as descobertas humanas nasceram da profundidade do espírito que contatou com o além? De onde vem o lampejo do gênio, a criação da arte, a luz que guia os líderes dos povos, senão deste mundo, de onde vos falo? As grandes ideias que movem e fazem avançar o mundo, acaso as encontrais no ambiente de vossas competições cotidianas, ou no mundo dos fenômenos que a ciência observa? Então, de onde vêm?” “Diante das grandes paixões que outrora moviam os povos, hoje o espírito se encontra adormecido no ceticismo; de tal forma caiu no vazio, que não tem força para rebelar-se, nem sombra de interesse, ainda que para negar; tornou-se um nada recoberto por sorridente máscara; desceu ao último degrau, está na última fase de esgotamento: a indiferença. Esse é o quadro de vosso mundo espiritual.”

l LEI DO TRABALHO “A lei do trabalho é uma lei biológica fundamental. Cada ser, inclusive o animal, considera que lhe pertence em propriedade o que ele O LIVRO é um dos mais conhecidos de Ubaldi em todo o mundo conquistou com o seu esforço, isto é, trabalho, vencendo todos os obstáculos, seja da natureza seja dos seus rivais na luta pela vida. Assim as abelhas sabem que a colmeia cheia de l EVOLUÇÃO mel é produto seu, que lhes pertence, e por isso “Não digais: felizes os que podem viver sem saber não deixam que se lhe roube o mel por direito de e sem perguntar. Dizei antes: felizes aqueles cujo propriedade e de legítima defesa do fruto do seu espírito jamais se sacia de conhecimento e de bem, trabalho. Assim o cão, que em troca do pão que que lutam e sofrem por uma conquista cada vez recebe do seu dono lhe dá a defesa da casa onde mais alta. Lamentai os satisfeitos da vida, os inertes, este habita, sabe que deve compensar com este seu os apagados; o tempo deles é apenas ritmo de vida trabalho de defesa o soldo que recebe em forma de física e transcorre sem criações. Eles recusam o esforço alimento, que depois, com pleno direito, defende destas elevadas compreensões que vos ofereço e não como sua legítima propriedade. O cão compreende existe luz no amanhã para o espírito que adormece.” 104  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016


l DIFERENÇA “Entre a planta, o animal e o homem só existe a diferença devida ao caminho maior ou menor que foi percorrido.”

“A vida é tão frágil, tão vulnerável e, no entanto, tão poderosa, que é praticamente indestrutível.”

l CICLOS “Observai o círculo pelo qual passam as águas, do estado de chuva ao de rio e de mar e, por evaporação, voltam ao estado de nuvens e chuva; um ciclo contínuo, idêntico, no entanto, a cada rotação muda um pouco, e vai amadurecendo um ciclo maior, o da dispersão das águas por absorção na terra e difusão nos espaços; ciclo que caminha para a lenta morte do planeta. O ciclo volta sobre si mesmo, mas sempre com pequeno deslocamento progressivo de todo o sistema.” “Olhai em torno de vós. Cada fato nasce por abertura de um ciclo: começa, expande-se até um máximo, depois retorna sobre si mesmo. Tudo procede assim. Qualquer coisa que queirais fazer, tereis de abrir um ciclo que depois fechará. A semente de vossos atos está no vosso pensamento; cada ação vos proporciona uma semente mais complexa, capaz de produzir outra ação ainda mais complexa. Tal como a semente produz o fruto e o fruto produz a semente, o pensamento produz a ação e a ação produz o pensamento. O princípio da semente, como o encontrais na natureza, é o princípio universal de expansão e contração dos ciclos.” l TRABALHAR NO BEM “Quem fica ocioso para. Quem pratica o mal desce e arruína o próprio eu, destrói a luz de sua compreensão. Quem trabalha no bem sobe e dilata-se a si mesmo, cria a própria riqueza de concepção e potência da alma.” l DEUS “A Lei é Deus. Ele é a grande alma que está no centro do universo. Não centro espacial, mas centro de irradiação e de atração. Desse centro, Ele irradia e atrai, pois Ele é tudo: o princípio e suas manifestações. Eis como Ele pode — coisa inconcebível para vós — ser realmente onipresente.” “Não procureis Deus apenas fora de vós, tornando-O concreto em imagens e expressões de matéria, mas O ‘sentis’, sobretudo, em sua forma de maior poder dentro de vós, na ideia abstrata,

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estendendo os braços para o universo do espírito, que vos aguarda.” “As leis de Deus são imutáveis porque são perfeitas. O que é perfeito não pode ser alterado nem corrigido.” l BEM E MAL “O universo é uma inexaurível vontade de amar, de criar, de afirmar, em luta com um princípio oposto da inércia, feito de ódio, de destruição, de negação. O primeiro é positivo e ativo, o segundo é negativo e rebelde. Deus e diabo são os dois sinais (+ e -) do dualismo. É luta, mas é equilíbrio; é antagonismo, mas é criação porque, pelo choque e pelo contraste, nasce uma criação, um amor e uma afirmação cada vez mais vasta. O bem serve-se do mal para progredir, compreende o mal e o constrange a seus fins. No bem está o futuro da evolução e o mal é o oposto, em que se apoia o bem para subir. A instabilidade das coisas não é uma condenação, mas uma escada de progresso.” l MATÉRIA “A matéria nasce, vive e morre, para renascer, reviver e tornar a morrer, tal como o homem, eternamente.” l EXPERIÊNCIA “O ponto máximo de vossa vida psíquica custa a chegar e, por vezes, só aparece no fim, muito depois da juventude do viço físico, última delicada flor da alma. Depois a consciência dobra-se sobre si mesma, OUT/NOV DE 2016 | ECOLÓGICO  105


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MEMÓRIA ILUMINADA vem a reflexão, o fruto da experiência é absorvido e assimilado, chega a maturidade do espírito num corpo decadente. Poucos, só os evoluídos, chegam rápido; muitos chegam tarde; alguns, os mais novos na vida psíquica, nunca chegam.” l RENOVAÇÃO “Não mais guerra, mas paz; não mais antagonismos e egoísmos individuais e coletivos, destruidores de trabalho e de energias, mas colaboração; não mais ódios, mas amor. Cumpra cada um o seu dever e a necessidade de luta cairá por si. Só a retidão produz equilíbrio estável nas construções humanas, ao passo que a mentira representa um fundamental desequilíbrio, irremediável vício de origem que destrói tudo. A justiça suprimirá o gigantesco esforço da luta, que sobre vós pesa como uma condenação.” l VIDA “A vida é um impulso íntimo.” “Filha da energia onipresente, a vida está em toda a parte no universo, nascida do mesmo princípio universal e diferentemente desenvolvida, como resultante exata do impulso determinante e das reações das forças ambientais.” “A vida, ansiosa por expandir-se e evoluir, mantém seus braços abertos às forças ambientais, que são introduzidas em grande quantidade; as reações multiplicam-se e a consciência, ávida de sensações, enriquece-se e aperfeiçoa-se. Complica-se sua estrutura; nada se perde, nem um ato, nem uma prova passam sem deixar sua marca. Transformase a consciência primordial, a forma que a reveste, o ambiente que a circunda, num processo lento de ajustamentos contínuos. O ser torna-se cada vez mais sábio por ter vivido, pelas experiências acumuladas; especializa sua capacidade. Nasce o instinto e uma consciência mais complexa que lembra, sabe e prevê.” l NATUREZA “A natureza viva é, sem dúvida, inteligente e finalística, tendendo à própria conservação. Descobrimos leis da natureza e dominamos algumas de suas forças, mas egoisticamente. A natureza não dá saltos, e, de fato, ela realiza a evolução por meio do transformismo lento e gradual.” “Olhai em torno de vós. O panorama da vida 106  ECOLÓGICO | OUT/NOV DE 2016

“A natureza não abandona a luta e acende alhures a necessária reação para sua conservação.” terrestre, só por si, é imenso. A profusão dos germes, a potencialidade das espécies é tão grande que, sem a reação dos germes e espécies opostas ou concorrentes, uma só delas bastaria para invadir todo o planeta. A vida é tão frágil, tão vulnerável e, no entanto, tão poderosa, que é praticamente indestrutível. Observai os tesouros de sabedoria, como são profusos em suas formas. Quanta perspicácia sutil, que requintes de astúcia, que resistência de meios, que complexidade de arquitetura na construção orgânica, que economia e exatidão na divisão do trabalho e, ao mesmo tempo, que elasticidade! Vedes sintetizada na vida a mais alta sabedoria da natureza. Como seria possível que fenômenos reveladores de tão profunda inteligência e sabedoria, diante das quais a vossa se desorienta, tivessem acontecido assim, irracionalmente, e fossem filhos do acaso?” “Tudo é periódico e equilibrado na natureza. Estamos sujeitos a uma vontade cósmica contra a qual o homem nada pode.” “A natureza não abandona a luta e acende alhures a necessária reação para sua conservação.” 

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