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ANO 10 - NO 106 - 31 DE MARÇO DE 2018 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


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EXPEDIENTE

FOTO: LEONARDO MERÇON

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Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Fernanda Mann e Luciana Morais

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com

MÍDIAS DIGITAIS Bruno Frade

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

EDITORIA DE ARTE André Firmino

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda.

EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

COLUNISTAS (*) Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza REVISÃO Gustavo Abreu

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte - MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br

CAPA Arte: Sanakan [sobre obra de Thomas Cole (1801–1848)]

EDIÇÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

(*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

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Cemig. Energia que gera mais oportunidades para todos.

Neste exato momento, tem alguém utilizando a energia da Cemig no campo, na cidade, na indústria, a favor do meio ambiente e nas ações sociais da empresa, em cada canto de Minas Gerais. É com essa mesma energia que a Cemig está preparada para reduzir as desigualdades sociais e regionais por meio de programas como Eletrificação Rural, Energia Inteligente e Tarifa Social. Em cada investimento em novas tecnologias, em cada ação cidadã, a Cemig está trabalhando para construir o presente com os olhos no futuro da nossa gente.

• Em 2 anos, energia fornecida para 40 mil novas famílias na área rural • R$ 600 milhões investidos no uso racional da energia • Mais de 110 mil famílias beneficiadas pelo programa Energia Inteligente • Até 65% de desconto para consumidores de baixa renda pela Tarifa Social • 100% de desconto na tarifa para indígenas e quilombolas

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ÍNDICE

CAPA

8º FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA UNE ESPECIALISTAS, SOCIEDADE E REPRESENTANTES DE 172 PAÍSES PARA DEBATER A QUESTÃO HÍDRICA E COMPARTILHAR SOLUÇÕES INOVADORAS DE GESTÃO DA ÁGUA.

Pág.

20 PÁGINAS VERDES O PESQUISADOR E AGRICULTOR SUÍÇO ERNST GÖTSCH FALA À ECOLÓGICO SOBRE AGRICULTURA SINTRÓPICA E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

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MEMÓRIA ILUMINADA APÓS QUASE 20 ANOS DE LANÇAMENTO, O LIVRO “ÁGUA”, DO JORNALISTA MARQ DE VILLIERS, MANTÉM-SE ATUAL AO MOSTRAR O IMPACTO DA CRISE HÍDRICA NO PLANETA

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SUSTENTABILIDADE FUNDAÇÃO AMAZONAS SUSTENTÁVEL COMPLETA UMA DÉCADA DE LUTA PARA MANTER A FLORESTA AMAZÔNICA EM PÉ

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E mais... CARTAS DOS LEITORES 10 CARTA DO EDITOR 12 ECONECTADO 14 GENTE ECOLÓGICA 16 SOU ECOLÓGICO 18 GESTÃO & TI 52 ENCARTE ESPECIAL FIEMG (10) 53 ESTADO DE ALERTA 66 O VIÉS MÉDICO NA LITERATURA DE GUIMARÃES ROSA (2) 67 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS 71 RECICLAGEM 76 ENSAIO FOTOGRÁFICO 82 NATUREZA MEDICINAL 86


VOCÊ JÁ COMPARTILHOU NOTíCIA FALSA? ReVISTAS

Eu acredito!

Você sabe de onde vêm as notícias que recebe? Checa as informações? Antes de compartilhar notícias você consulta se foram publicadas em uma mídia clássica? Disfarçadas, com linguagem alarmante e sem apuração jornalística, elas estão influenciando leitores que não conseguem identificar o que é verdadeiro e o que é falso. Não compartilhe informações sem checar a fonte! Com conteúdo comprovadamente consistente, as revistas produzem reportagens seguras e confiáveis, seja na versão impressa, on-line, no celular ou em vídeo. AssociAção NAcioNAl de editores de revistAs #revistAeuAcredito i www.ANer.org.br

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1 IMAGEM DO MÊS

FOTO: JORGE CARDOSO / 8o FMA

CADA GOTA CONTA As mensagens deixadas pelos participantes em painéis do “8o Fórum Mundial da Água”, realizado em Brasília (DF), mostra o quanto os brasileiros seguem indignados pela forma com que governo e empresas ainda tratam a questão da água. E indicam, principalmente, que ninguém esquece o fato de os temas “meio ambiente” e “crise hídrica” serem injustamente deixados de lado nos debates eleitorais.

08  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018


VOCÊ JÁ FOI ENGANADO POR UM CONTEÚDO FALSO? REVISTAS

Eu acredito!

Os jovens estão preocupados em buscar informações confiáveis, revela a pesquisa Trust in News, realizada em 2017 pelo Kantar Ibope Media. E 72% dos entrevistados confiam mais em revistas que em outras mídias. As revistas impressas, online, no celular ou em vídeo, fornecem conteúdo relevante, investigativo e em um ambiente seguro. AssociAção NAcioNAl de editores de revistAs #revistAeuAcredito i www.ANer.org.br

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CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

fraternidade e, principalmente, pelo correto exercício da atividade.” Laura Viçosa, via e-mail “Sou fã de Guimarães Rosa. Sabia que ele era médico, mas nunca parei para analisar, em suas obras, esse jeito de olhar a medicina. Conheço poucos médicos que olham o paciente com os olhos do coração – são poucos, inclusive, que têm a paixão pela profissão nos olhos e no jeito de lidar com gente. Que a série seja inspiração para todos eles.” Manuel Oliveira, via e-mail

l PÁGINAS VERDES - MARCUS VINÍCIUS POLIGNANO “A água é um recurso natural essencial para a vida humana. É muito desrespeitado e agredido pela ignorância e ganância dos homens que só pensam em dinheiro. Somos uma espécie que iremos extinguir nós mesmos. Com tanta evolução, estamos a cada dia mais ignorantes.” Raimundo Miranda, via Facebook

“Contaminam as águas sem pensar na gravidade das consequências. E essas águas correm para o mar. Matá-lo é morrer com ele, que é responsável pela produção da maior parte do oxigênio que respiramos. Não podemos esquecer que os ecossistemas estão interligados; uns dependem dos outros. Respeitar a natureza é um dever de todos.” Célia Malheiro, via Facebook l SÉRIE ESPECIAL - “O VIÉS MEDICO NA LITERATURA DE GUIMARÃES ROSA” “Uma história mais que fantástica e nossa aula magna de medicina antiga.” Pedro Fonseca, via Google+

“A série sobre Guimarães Rosa nos lança um outro olhar sobre a medicina, aquele que deveria guiar todos os médicos: a relação, o cuidado e o tratamento com os pacientes devem, sim, ser movidos pelo amor, pela 10  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

l MUNDO VASTO - DESMATAMENTO PODE INTENSIFICAR O AQUECIMENTO GLOBAL “A população deve começar não comprando além do mínimo necessário que venha de uma árvore morta. Parece impossível, mas não. O consumo de produtos feitos de madeira é abusivo sim, e a indústria desrespeita as leis enquanto está tendo lucro. Vamos começar a fazer nossa parte e parar de fazer de conta que não sabemos de nada?” Lhona M., via Facebook l MEMÓRIA ILUMINADA – O PENSAMENTO MÁGICO DE WALT DISNEY “A Disneylândia é um local que, apesar da diversão e da fantasia que oferece, é um oásis de consumismo. Contudo, não tira o mérito da visão de sustentabilidade que Walt Disney tinha.” Daniela Mascarenhas, via Google+ EU LEIO “Passei a olhar para o céu para saber quando será a próxima lua cheia. E assim, poder receber e degustar cada novo exemplar da Revista Ecológico que chega na minha casa. Mesmo não sendo da área ambiental, eu simplesmente leio a revista numa ‘sentada’, de tanto que gosto dela. De maneira leve, analítica e indagativa, ela aborda o estado do mundo e da natureza que ainda temos e não sabemos valorizar. Parabéns a toda a equipe!”

FOTO: DIVULGAÇÃO

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FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

Carlos Grossi, arquiteto


VOCÊ ACREDITA EM TUDO O QUE LÊ? REVIsTAs

Eu acredito!

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As pessoas estão confusas por receberem grande quantidade de notícias falsas. Sejam impressas, online, no celular ou em vídeo, as informações divulgadas pelas revistas são reais e baseadas em pesquisa e investigação jornalística. Leitores de revistas são mais envolvidos e propensos a recomendar suas matérias nas redes sociais. AssociAção NAcioNAl de editores de revistAs #revistAeuAcredito i www.ANer.org.br

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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

SEREMOS NÓS OS DEGREDADOS

FILHOS DE EVA? S

egundo o livro “Os Exilados da Capela”, de autoria do escritor espírita Edgard Armond, publicado em 1949, há uma tribo rudimentar na África na qual os moradores acreditam que seus ancestrais não nasceram na Terra. Mas, sim, vieram rebaixados de um outro planeta mais evoluído. Mesmo sem qualquer instrumento óptico, eles veneram o céu estrelado e apontam uníssonos, com os dedos, onde fica esta outra sua casa de origem. É Capela, perto da Constelação de Órion. Pois essa história, se verdadeira, pode ser a história espiritual da humanidade que ainda não foi contada. Segundo Armond, havia uma civilização adâmica muito mais desenvolvida que a nossa, em termos morais e intelectuais, que habitava o quarto planeta em órbita de Capela. Nem corpo físico esses seres tinham mais, tamanha sua evolução espiritual. Só corpo etéreo e energia. Um tipo de humanidade em paz consigo mesma e com a natureza do planeta em que vivia. Até que surgiu uma minoria desses seres meio “fora do eixo”. Espíritos amorais e de índole má, corruptos e sem ética que, ao longo do tempo, foram crescendo em números cada vez maiores, a ponto de desestabilizar o equilíbrio energético do planeta. A turma do bem, comandada por espíritos mais iluminados, interveio e não deixou que isso acontecesse. Realizou uma eleição geral e, em nome da harmonia defendida pela maioria, decidiu-se democraticamente pela eliminação dessa ameaça real. Degredados, aqueles seres contrários foram despachados para uma esfera terrestre menos evolutiva de aprendizado. Algo como repetirem de ano, no Planeta Terra, onde estamos desde então. Sem corpos físicos para se reproduzir aqui e enfrentar a adversidade da natureza hostil, cheia de feras e climas mutantes, seus espíritos tiveram de encarnar nos primatas mais evoluídos que existiam 12  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

no planeta: nos macacos, gorilas e chimpanzés. Isso também explicaria o nosso elo perdido, como espécie Homo sapiens que somos hoje. Seríamos então, todos nós, descendentes de Capela, vide o nosso lado obscuro no paraíso? Vide o que estamos fazendo cada vez mais de ruim, de corrupto, de antiético, de ignorante e de criminoso com a natureza do planeta? Com a água, o bem mais valioso que mantém a vida na Terra? E com o próximo, igualmente sedento e sem amor ao nosso lado? Melhor rezarmos a oração da “Salve Rainha” que nossos pais nos ensinaram e não prestávamos atenção nas palavras, enquanto crianças: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida (água), doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas...” Salvemos, portanto, o 8o Fórum Mundial da Água, o maior evento ambiental pós Eco/92, pela primeira vez realizado no Hemisfério Sul do planeta, mais precisamente no coração do planalto central do Brasil, junto às últimas águas de março fechando o verão. É o que a Revista Ecológico reporta nesta sua edição especial, úmida de informação e esperança, de modo a evitar que sejamos exilados pela segunda vez, por ainda não termos aprendido a lição nem agradecido pela biosfera celeste maravilhosa que nos abriga. Este planeta Terra não por acaso chamado “Água”. Água amazônica e franciscana que, aos poucos, se escasseia, respondendo, em desertos, aos nossos pecados hídricos de cada dia. Nem tudo, caros leitores, está perdido. Segundo apontou o Fórum, que teve a participação de cientistas e representantes hídricos de 172 países, ainda existe água nas lágrimas da natureza. Boa leitura! Até a próxima lua cheia. 


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FOTO: LEANDRO DITTZ

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“Até 2030, 40% das reservas hídricas do planeta podem simplesmente evaporar. Segundo o Unicef, hoje cerca de três em cada 10 pessoas no mundo (2,1 bilhões) não têm acesso à água potável em casa.”

FOTO: REPRODUÇÃO

@andretrig - André Trigueiro, jornalista e escritor

“Pela 1ª vez o sistema de Justiça esteve no Fórum Mundial da Água. O Conselho Nacional do Ministério Público e o Ministério Público Federal também participaram do Fórum Alternativo Mundial da Água. Na Declaração do Ministério Público sobre o Direito à Água afirmamos que ela é direito humano, e não mercadoria.” @ivanafarina - Ivana Farina, procuradora de Justiça 14  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

ECO LINKS CEIVAP O Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP) lançou o seu aplicativo sobre a gestão hídrica na bacia durante o 8o Fórum Mundial da Água, realizado este mês na capital federal. A ferramenta disponibiliza as principais informações do Paraíba do Sul e também do Comitê. Com design simples e intuitivo, os usuários têm acesso a dados sobre o monitoramento da bacia, andamento de projetos, mapas, notícias, agenda de ações e um glossário completo esclarecendo as principais dúvidas sobre os recursos hídricos. Para fazer o download gratuito, acesse o Google Play ou o AppStore por meio dos links goo.gl/Fe8iun e goo.gl/sZW7Gj NOSSA ÁGUA A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e o Instituto Akatu desenvolveram o app “Nossa Água” com o objetivo de sensibilizar a sociedade em relação aos impactos sociais e ambientais que um consumo desordenado pode causar. Com o cenário permanente de racionamento de água que vivemos hoje, o aplicativo orienta o usuário a adotar hábitos de consumo consciente e ainda auxilia no equilíbrio ecológico e financeiro. A plataforma oferece também um game e dicas práticas sobre a melhor forma de consumir a água em casa e no trabalho. Saiba mais no link goo.gl/cezgis

MAIS ACESSADA A matéria “Encontro Ecológico”, sobre a reunião dos ambientalistas e conselheiros da Revista Ecológico com o governador Fernando Pimentel, foi o texto mais lido da edição 105 no site da publicação. Na ocasião, foram discutidas as ações e demandas do setor e a importância de se construir uma política eficiente e financeiramente autônoma para o meio ambiente. O governador também anunciou a criação de seis Unidades de Conservação. Para ler o conteúdo na íntegra, acesse: goo.gl/bDpz1k

FOTO: FERNANDA MANN

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GENTE ECOLÓGICA

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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“Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar.” ZYGMUNT BAUMAN, sociólogo polonês (1925-2017)

“A gestão sustentável da água e o saneamento para todos precisam ser tratados com maior senso de urgência e importância. A água deve estar no cerne do desenvolvimento sustentável!” MARINA SILVA, ex-ministra de Meio Ambiente e porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade

“Quem tem gratidão, tem caráter.” CARLOS CALAZANS, gerente do Centro de Terapia Renal Substitutiva e da Urgência e Emergência do Hospital Márcio Cunha de Ipatinga

“Não devemos nos esquecer jamais que vontade política, a serviço de cidadãos informados e mobilizados, ainda pode mover o mundo. Mesmo agora, em face da catástrofe ecológica.” BERTRAM MUELLER, hidrólogo alemão

“Adapte-se! Seja água.” BRUCE LEE, ator e instrutor de artes marciais norte-americano (1940-1973) 16  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018


FOTO: PEDRO DAVID / DIVULGAÇÃO

“A natureza é importantíssima na vida de toda a humanidade, mas parece que as pessoas ainda não descobriram do que ela é capaz, se não a respeitarmos.”

FOTO: MARCELO SCANDAROLI

FOTO: LILI FERRAZ

MILTON NASCIMENTO, cantor e compositor

CRESCENDO

PATRÍCIA PILLAR

A atriz, que participará da nova supersérie da TV Globo, “Onde Nascem os Fortes”, locada na aridez de São João do Cariri, na Paraíba, também foi brindada pelas últimas águas de março. Em pleno sertão, onde não chovia há sete anos, ela viu o céu jorrar água em abundância: “Foi a coisa mais linda! Bonito de doer! Dias depois já estava tudo verdinho!”, recorda a atriz, que compartilhou a imagem em seu Instagram. ACCORHOTELS

MARUSSIA WHATELY, coordenadora da articulação “Aliança pelas Águas”

“Todos nós (água, florestas, plantas, animais, seres humanos…), que dividimos este lindo planeta, somos conectados. Não podemos danificar uma parte desse conjunto sem ferir o todo. Nós dependemos desse equilíbrio para nossa sobrevivência.” GISELE BÜNDCHEN, modelo e ambientalista

“O céu é o mar de Brasília.” JUSCELINO KUBITSCHECK, ex-presidente da República (1902-1976)

ANGEL GURRÍA

O secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi condecorado, no 8o Fórum Mundial da Água, com o “6o Prêmio Mundial Rei Hassan II”, pelo seu trabalho em prol de uma maior solidariedade e inclusão para garantir a segurança da água e a justiça climática. O prêmio, concedido pela Secretaria do Estado Marroquino Encarregada pela Água, homenageia a memória do falecido rei e sua visão estratégica para a gestão integrada e sustentável dos recursos hídricos daquele país. MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  17

FOTO: JOSÉ CRUZ/ AGÊNCIA BRASIL

“É fundamental trazer a questão de que muitos dos usos da água que são citados como conflitantes são autorizados por aqueles que têm o domínio da água no Brasil.”

Por meio de adesão ao “Plant for the Planet”, programa global de reflorestamento financiado pela economia da lavagem de toalhas nos hotéis, a rede hoteleira já plantou cinco milhões de árvores em mais de 280 projetos de reflorestamento e agroflorestas em 26 países. Mais de 75% dos hotéis da rede já aderiram ao programa. A expectativa é chegar a 10 milhões de árvores plantadas até 2021.


SOU ECOLÓGICO

FOTOS: ECOLÓGICO

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OS HOMENAGEADOS receberam o troféu “Laços da Amizade” do presidente da ONG Ponto Terra, Ronaldo Vasconcellos (último à direita)

MEMÓRIA AMBIENTAL Na celebração dos seus 18 anos de atividades, realizada com simplicidade no auditório do CREA-MG, na capital mineira, a Organização Ponto Terra foi elegante. Aproveitou a presença seleta do público e prestou uma homenagem aos ambientalistas históricos de Minas Gerais. Quem mais foi reverenciado e agradeceu em nome dos companheiros de luta e ideal, foi o professor Angelo Machado, que preside a Fundação Biodiversitas. Mesmo com problemas de saúde, o decano dos ambientalistas compareceu à homenagem ANGELO MACHADO foi surpreendido com um happening do ator Carlos Nunes, que encena no teatro a adaptação do e não perdeu o bom humor: “Na minha idade e condições físicas, subir escada virou esporte livro "Manual de Sobrevivência em Coquetéis e Recepções com Buffet Escasso", de autoria do homenageado. radical” – disse ele. E ganhou também o carinho de Maria Dalce Graças à maioria dos companheiros ali condecorados com o troféu “Laços da Amizade”, como lembraram José Cláudio Junqueira e Roberto Messias Franco, conselheiros da Ecológico, é que Minas e o Brasil têm hoje preservados, para sempre, o Parque Nacional da Serra do Cipó; o Parque Estadual do Rio Doce, chamado de “A Amazônia mineira”; o Parque Municipal das Mangabeiras, a maior área verde protegida de BH; e a Mata do Jambreiro, em Nova Lima, a maior área original de Mata Atlântica que sobrou em toda a Região Metropolitana, dentre outras conquistas verdes. Também foram lembrados: a Revista Ecológico, que agradece a distinção verde, e Hugo Werneck, in memoriam. E Célio Valle, ausente, que virou fazendeiro e não sai mais do mato, onde diz estar experimentando a sustentabilidade na prática. 18  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018


Acesse o blog do Hiram:

hiramfirmino.blogspot.com PIEDADE HÍDRICA A primeira experiência em compartilhamento de gestão hídrica, envolvendo uma empresa privada de saneamento, uma Área de Proteção Ambiental (APA) e moradores preocupados com a questão ambiental, está acontecendo no sopé da Serra da Piedade, na histórica Caeté, sob as graças de Nossa Senhora da Piedade, a padroeira de Minas. Tratase de um convênio recém-assinado entre o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) do município e a Associação Comunitária Quintas da Serra (ACQS), cujo objetivo é diagnosticar as nascentes que ainda brotam nas matas ao redor da Serra. E, depois, definir um prognóstico capaz de otimizar a distribuição, o uso sustentável e a regularização das águas ainda abundantes, como por milagre, em meio a tanto verde. À frente da superintendência do SAAE está o biólogo Renê Renault, ex-secretário municipal de Meio Ambiente, Cultura e Turismo de Caeté, cuja maior experiência foi ter gerenciado, durante três anos, a criação e a gestão da APA-Sul, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na pauta, a criação de um Conselho Consultivo e um plano de manejo de flora e fauna, por se tratar de uma autossustentável Unidade de Conservação.


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PÁGINAS VERDES

"O homem é o câncer do planeta. Mas pode deixar de ser" Luciano Lopes e Fernanda Mann (*) redacao@revistaecologico.com.br

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FOTO: FERNANDA MANN

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uando visitou o Brasil pela primeira vez, nos anos 1960, o pesquisador e agricultor suíço Ernst Götsch ficou encantado com a natureza exuberante do nosso país. E também impressionado pela forma como ela vinha sendo destruída pelas monoculturas. Na época, Ernst já trabalhava com melhoramento genético vegetal no renomado Instituto Zurique-Reckenhol, na capital suíça, e depois passou também a desenvolver sistemas agroflorestais. Depois de morar na Costa Rica, mudou-se para o Brasil no início dos anos 1980, quando adquiriu uma fazenda – que recebeu o nome de “Fugidos da Terra Seca” – no município de Piraí do Norte, sul da Bahia. O solo pobre da região, arrasado pelo desmatamento e pela criação de gado, era o cenário perfeito para implantar os sistemas que desenvolvera. Deu certo. A iniciativa do suíço mudou a paisagem local, trazendo a Mata Atlântica de volta. Hoje, nos mais de 500 hectares da propriedade [350 deles foram transformados em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e 120 em Reserva Legal (RL)], floresta e agricultura convivem em harmonia. Quatorze córregos, antes secos, renasceram no solo revegetado e fizeram Ernst mudar o nome da fazenda para “Olhos D’Água”. Aos 70 anos, o agricultor também é o criador do conceito de “agricultura sintrópica”, conjunto de

ERNST GÖTSCH: "O planeta é um macroorganismo. Suas relações são baseadas unilateralmente no amor incondicional e na cooperação"

técnicas e práticas que conciliam produção agrícola e recuperação de áreas degradadas. Por meio do estabelecimento de áreas altamente produtivas e independentes de insumos externos, garante ele, há naturalmente a oferta de serviços ecossistêmicos, regulando o clima, favorecendo o solo e o ciclo da água. Com jeito simples e sorriso marcante, o pesquisador afirmou, em depoimento à Ecológico, durante sua participação no “Seminário Internacional sobre Mudança Climática e Biodiversidade”, realizado no

Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), que o ser humano tem de parar de interferir de forma desarmoniosa nos ecossistemas. “O homem é o câncer do planeta. Só pensa em como pode se aproveitar das coisas. E nunca o que pode fazer para ser útil dentro do sistema”, ressalta. E deixou uma mensagem: “As pessoas podem fazer o que quiserem, mas devem respeitar apenas uma lei: a do macroorganismo, que é a Terra”. Confira a entrevista:


E R N S T G ÖT S C H

FOTO: PAULO PEREIRA / GREENPEACE

Pesquisador e agricultor suíço

“Criamos civilizações que só sabem devastar florestas e exaurir os recursos naturais. E não se dão conta de que, no final, não é a natureza que vai desaparecer. Mas sim o homem.” Qual é a diferença entre agrofloresta e agricultura sintrópica? Na agrofloresta, plantam-se elementos arbóreos com herbáceas, como a banana, o mamão, etc. Já agricultura sintrópica é um conceito que passeia pelos princípios da ética e do funcionamento da vida do planeta. Ela é baseada em técnicas que usam a sucessão natural como ferramenta para implantação e manutenção de cada passo. A agricultura sintrópica não se trata apenas de rotação ou consórcios. Entendemos a lógica sintrópica que rege a vida no planeta e sincronizamos nossos plantios a essa lógica, reestabelecendo ecossistemas ao mesmo tempo em que produzimos. Sintropicamente, como se dá as relações entre as espécies? O planeta é um macroorganis-

mo. As relações são baseadas unilateralmente no amor incondicional e na cooperação. E não na concorrência ou competição fria, que é como o homem acredita ser. Se ele age dessa forma, chega ao ponto em que estamos hoje: não há interação entre as pessoas, porque ninguém quer ser explorado. E esse ato de recusa acaba causando escassez de alimento e água, conflitos, guerras, falência e morte. A aplicação dos princípios incondicionais da cooperação faz com que todos os que interagem entre si sejam prósperos e abundantes. A abundância é o fundamento, a precondição para a paz. De que forma o princípio da cooperação está presente em seu trabalho diário? Sou um agricultor apaixonado

e trabalho com companheiros fiéis. Eles não fingem, não mentem, amam o que fazem. É maravilhoso estar com eles. Significa então que cada indivíduo é importante no todo... Sim. Em um macroorganismo, qualquer interação desarmoniosa entre as partes que o constituem provoca modificações no ambiente. O que estamos enfrentando hoje é resultado disso. Os impactos ao ambiente e as alterações provocadas nele aumentam e se agravam de forma exponencial. Nos últimos 10 mil anos, temos convivido com essa realidade primeiro localmente e depois globalmente. O resultado é um colapso da civilização, com falta de água, comida e guerras. Como a agricultura sintrópica

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PÁGINAS VERDES

FOTO: SHUTTERSTOCK

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“Quem chama cerrado de savana provavelmente nunca viu uma. Na savana, as girafas é quem podam as árvores.”

FOTO: ANDRÉ JANZ

pode contribuir para mudar essa realidade? Quando se sente ameaçado, explorado, o ser humano prontamente reage, não aceita. Isso também acontece com as plantas e os animais. Como agricultor, quero que o resultado das minhas interações seja benéfico, para assim ter efeitos unilateralmente positivos para todas as espécies. Quando você olha uma delas como inimiga, a coisa muda... Está se referindo às pragas e doenças que atingem as plantações? Sim. Quer uma comparação? Combatê-las é a mesma coisa que pegar uma metralhadora e matar bombeiros que vêm para apagar um fogo na sua casa. Estimular a interação entre integrantes de um sistema “imunológico” e depois eliminá-los não é inteligente. A meu ver, as pragas otimizam os processos da vida na natureza e se proliferam porque têm uma tarefa a realizar: a de seleção e equilíbrio natural. Pode citar um exemplo prático? Quando temos uma inflama22  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

ção, há um aumento de glóbulos brancos. Combatê-los com antibióticos não resolve o caso. Trará alívio por um determinado tempo, mas não eliminará a causa da inflamação. Se fizermos isso de forma contínua, surge a doença crônica. O sistema entra em colapso e morre. Isso tem muito a ver com a agricultura. Por que o ser humano ainda reluta em se ver como parte de um macrossistema? Ele é o câncer do planeta. De certa forma, o ser humano se comporta de modo ensimesmado e alheio ao exterior, fechando-se em seu próprio mundo. Só pensa em como pode se aproveitar das coisas. E nunca o que pode fazer para ser útil dentro do sistema. E mais: apenas o homem e seus animais domesticados vivem do princípio do imperativo categórico, que é quando o ser humano eleva suas crenças ao status de lei universal. Isso significa agir quando quer, da forma que quer e apenas em benefício de si mesmo. Resumindo: você tem de agir de modo que aquilo que você faz para o próximo seja o mesmo que você espera receber.

O senhor já afirmou que, se uma árvore não estiver mais cumprindo sua função ecológica em um sistema, ela deve ser suprimida. Poderia explicar melhor essa questão? A maioria das pessoas desconhece as funções da natureza. Sobre a questão das árvores, faço a poda para tentar criar ecossistemas naturais parecidos com os originais. Antigamente, por todo o Brasil havia florestas. Desde os Pampas, no Rio Grande do Sul, até o Cerrado. Aliás, se você pensar em noções de biodiversidade e proteção o próprio nome, “cerrado”, é contraditório para um bioma, correto? [O termo cerrado significa “fechado”, “coberto”, como o bioma era originalmente]. Biodiversidade é algo muito importante. Ano passado, plantei milhares de sementes de mirtáceas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Elas estavam crescendo bem. Poucas semanas depois, botaram fogo na região e as mirtáceas viraram cinzas. O parque foi um dos poucos locais em que vi exemplares grandes dessa espécie, algumas com flores de dez centímetros. Apesar dis-


E R N S T G ÖT S C H

Pesquisador e agricultor suíço

Qual é a diferença? Quem chama cerrado de savana provavelmente nunca viu uma. Na savana, há muitos herbívoros e os antílopes são bem maiores do que os do cerrado. É o caso dos hipopótamos, das zebras e dos elefantes, que são essenciais para o manejo da floresta. Na savana, as girafas é quem podam as árvores! A maioria dos cientistas afirma que o senhor tem uma visão mais teleológica (finalidade das coisas) do que teológica (manifestação divina) do meio ambiente. Concorda com eles? Acredito que cada indivíduo, de cada espécie e de todas as gerações, está preparado para cumprir suas funções movido pelo prazer interno, uma força única que lhe dá energia para realizar tais tarefas. Quando isso acontece, seu trabalho não é mais “o suor do seu rosto”, é algo gratificante, prazeroso. É como chegar ao fim de um excelente dia de trabalho, feliz da vida, deitar-se na cama e dizer: “Poxa, hoje foi um dia bom!”. É assim que deveríamos chegar ao fim de nossas vidas, com a boa sensação de que cumprimos nossa missão. Mas isso geralmente não acontece. Por quê? Antes de chegar à chamada terceira idade, as pessoas ficam rancorosas e com medo de morrer. E muitas vezes acabam não fazendo o que devem ou é preciso. Se você cumpriu o seu papel, sairá de cena, porque o planeta e a natureza precisam seguir em frente. Outro fato importante é que cada ser que aparece na Terra automaticamente transforma

REFLEXÕES DE ERNST FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

so, ainda tem quem pense que cerrado é savana...

“O paraíso é o lugar onde você cumpre a sua função e é feliz por isso.” “E se nós melhorássemos as condições que damos às plantas em vez de ficar tentando buscar características genéticas nelas que as façam suportar nossos maus-tratos?” “Complementar à entropia, a sintropia caminha do simples para o complexo, no sentido do aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada.”

seu metabolismo para se adaptar. E é o macroorganismo que define para onde você vai. Mas o ser humano continua arrogante... Infelizmente. Não consegue enxergar que não é a espécie mais inteligente que habita o planeta. É preciso descer desse falso pedestal! Se observarmos nosso comportamento como espécie, veremos o quanto somos ignorantes. Hoje, temos milhares de pesquisas e estudos louváveis de descoberta e descrição das espécies existentes na Terra. Mas ainda não foi possível mapear todas. Parte das que sobreviveram está mapeada. Mas, e aquelas que destruímos sem nem mesmo conhecê-las? Em sua visão, há alguma lei ecológica universal que reja todas as outras e, indiscutivelmente, deva ser respeitada? Sim. A lei da Terra, do macroorganismo, do qual somos parte. É ele quem define como devemos pensar e agir para fazer a vida continuar no planeta. Já pensou se tivéssemos de respeitar ape-

nas as próprias leis que criamos? Leis não podem ser dadas em nome apenas da economia e do dinheiro. Não somos deuses do Olimpo para criarmos as nossas próprias leis. O que fazer, então, para que a natureza siga seu ciclo harmonioso e o ser humano tenha sua sobrevivência assegurada? As pessoas podem fazer o que quiserem, mas devem respeitar apenas uma lei: a do macroorganismo. Não temos outro lugar conhecido para viver no universo. Essa nossa relação desarmoniosa com a Terra induz modificações, tornando nossa presença inoportuna. Criamos civilizações que só sabem devastar florestas e exaurir os recursos naturais. E não se dão conta de que, no final, não é a natureza que vai desaparecer. Mas sim o homem.  * Colaboração: Dayana Andrade e Felipe Pasini.

SAIBA MAIS

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Elemento puro e divino, a água é um presente de Deus para todo o mundo. Por isso, é seu dever preservá-la. A Rede Catedral de Comunicação Católica apoia essa causa.

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MATÉRIA DE CAPA

“OS RETIRANTES”, de Portinari, pintado em 1944, retrata o drama de 22% de brasileiros nordestinos que nunca mais voltarão para onde nasceram, por conta da d'água

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FOTO: REPRODUÇÃO

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A SEGUNDA EXPULSÃO

DO PARAÍSO? Maior evento ambiental no Brasil desde a ECO/92 confirma nossa condenação climática planetária como 11,2 bilhões de refugiados hídricos até o ano 2100 Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

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m 1999, quando foi publicada a edição de seu livro “Água”, o escritor e jornalista sul-africano Marq de Villiers descreveu o que ele testemunhou na Nigéria, na Mãe África Ocidental, onde o Homo sapiens surgiu. E se expandiu depois de maneira predatória jamais vista em outra espécie, dizimando até hoje seus iguais e a natureza que os criou. Descreveu Villiers (leia mais na página 60), com o olhar sensível de repórter: “Fiquei em um vilarejo onde uma ONG americana havia instalado uma bomba de água movida a energia solar e um tanque reservatório galvanizado; ambos estavam funcionando perfeitamente após cinco anos de sua instalação. Na Nigéria, no outro lado da fronteira, uma bomba similar havia quebrado e, numa noite, uma criança abrira a válvula do tanque e toda a água escorreu, ensopando a terra crestada. A criança foi espancada. Mas já era tarde demais: a água se fora e todos os habitantes do vilarejo se mudaram. Eles nunca voltaram.” Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050 metade dos sete bilhões de habitantes que já somos desde o dia primeiro de janeiro de 2018 também não terá mais como permanecer viva, trabalhar e sobreviver. E será inútil e desumano espancar todas as nossas crianças travessas. Até lá, nossa terra natal ou

adotiva já fará parte de um planeta morto e ensolarado ao extremo, sem uma gota d’água doce sequer para beber. Seremos todos refugiados hídricos. Esta previsão é, sim, de secar a garganta. Metade dos futuros 1,1 bilhão de africanos, os mais pobres e destituídos seres humanos do planeta, não terá solo agrícola para plantar. Do mesmo modo, metade dos 4,1 bilhões de asiáticos, a mais rica (e em desenvolvimento) população pujante do planeta, também estará mortalmente desidratada. E, até 2100, se nada mudar e não modificarmos nossa relação com a natureza e a água que nos mantêm vivos, 11,2 bilhões de Homo

sapiens estarão irreversivelmente condenados ao inferno climático. Será esse o alcance democrático do aquecimento global somado ao revide implacável da natureza que ainda agredimos, tamanho o nosso desamor, ignorância e desrespeito pela complexidade cósmica-terrestre que nos criou junto deste planeta maravilhoso. Tudo o que continuamos fazendo com ela, como uma mais apropriada espécie de Homo estupidus que parecemos ser, nos será respondido em ondas de calor e acontecimentos ambientais extremos. Tal como os oceanos que, em suas praias, nos devolvem o lixo que lhe enviamos na forma de rios poluídos. Tal como nos lembra o trecho do tema musical da novela “O Outro Lado do Paraíso” (TV Globo) – “tudo que você faz um dia volta pra você”. O ser humano prefere ainda se achar intocável, provisoriamente seguro no seu endereço terreno e refrigerado artificialmente. A menos que surja, a tempo, o Homo ecologicus, será este o futuro comum que nos espera e estamos acelerando, tão científico e comportamental quanto bíblico (leia sobre a primeira “Expulsão do Paraíso” no link goo.gl/AzqQfz)? É o que a Revista Ecológico discute, nesta edição, com a cobertura jornalística do 8o Fórum Mundial da Água. Acompanhe!

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MATÉRIA DE CAPA

FOTO: EOGHAN RICE

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250 MILHÕES de pessoas morrem, por ano, de doenças provocadas pelo consumo de água contaminada

Morrendo de água podre Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

Segundo Relatório da ONU sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, cujo tema este ano é “Soluções baseadas na Natureza para a Gestão da Água”, a boa notícia é que ainda dá tempo de mudar. O mesmo planeta e a mesma humanidade que já sofrem com a escassez d’água e pedem socorro também têm boas alternativas de gerenciamento, advindas principalmente do meio empresarial, à disposição. O maior exemplo disso foi dado pelos israelenses que, graças a uma tecnologia inovadora, chegam a reaproveitar uma única gota d’água até seis vezes em suas agriculturas irrigadas, em pleno deserto, por gotejamento. Basta um mínimo de vontade política, também apontou o estudo 28  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

da ONU. E é esse o grande perigo, para não dizer... entrave real. A exemplo da maioria da sociedade civil, que continua perdulária no uso diário da água, ainda sem consciência e prática ambientais, apenas seguindo a manada rumo ao matadouro climático, a política e os políticos atuais ainda não se sensibilizam com a questão hídrica. Como disse Edson Duarte, secretário de Articulação Institucional do Ministério do Meio Ambiente, no Water Business Day, evento da CNI e do CEBDS que antecedeu a abertura do Fórum, sobre a realidade sem precedentes no Semiárido brasileiro: “O povo nordestino sempre conviveu com a seca. Agora não mais: 22% daquela gente já perdeu a esperança,

tamanha a gravidade da seca. Viraram refugiados hídricos. Estão indo para São Paulo, como retirantes de onde nunca mais voltarão”. Uma prova sutil dessa dissociação com quem os deveria proteger foi dada pelo Governo Temer na abertura oficial do Fórum. Ao compor a mesa, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho que, inclusive, tem o apoio da maioria das entidades ambientalistas, não foi convidado pelo presidente para se assentar à sua direita, como manda o protocolo oficial. Temer decidiu ou permitiu que ele ficasse no último lugar na mesa. E sem direito a fala. O mesmo Temer que nasceu no município de Tietê, já nadou e brincou quando criança em suas águas originaria-


estrangeiros que estiveram presentes no Fórum ficaram certamente impressionados ao saber que, em pleno início do século 21, a maioria dos rios brasileiros ainda é usada como privada pública. E isso considerando que o nosso país concentra 12% de toda a água hoje disponível para consumo humano no planeta. Apesar de toda essa nossa oferta global advinda da natureza, 41% de toda a água tratada no país é desperdiçada. Quase a metade, 40% dela, ainda se perde no trajeto das companhias de água e esgotos até a torneira. Segundo mostrou relatório da Agência Nacional de Águas (ANA), um em cada quatro brasileiros mora em residências desprovidas de coleta e tratamento de esgoto. A tragédia não é só tupiniquim. É mundial. Mais de 30 bilhões de toneladas de lixo urbano continuam sendo jogadas nos rios do planeta. E, pasmem, 80% desse descarte criminoso é de origem doméstica. São as pessoas que fazem isso. E não somente as empresas, como ainda se pensa. Pelo contrário, pela escala de produção, imagem pública, interesse econômico e capacidade de mobilizar investimentos – o 8o Fórum Mundial OS SEM-ESGOTO TRATADO da Água também mostrou isso – Autoridades, políticos e cientistas quem mais faz a sua parte, dentro da FOTO: MARCELO CAMARGO / AGÊNCIA BRASIL

mente limpas. E hoje, coincidência rara na história política nacional, é presidente do país mais hídrico e devastador do planeta. Mesmo tendo a caneta na mão, jamais se importou, como estadista que poderia ser, em enfrentar e resolver a poluição horripilante do Rio Tietê, que ainda faz feder o coração urbano de São Paulo, a quinta maior cidade do planeta. Não tentou o que a Inglaterra conseguiu com o seu Rio Tâmisa, e a França, com o Sena. Muito menos conteve o desmatamento recorde já de 20% da Amazônia, a última e maior floresta tropical do planeta, responsável por ainda fazer chover em todas as regiões do Brasil por meio dos “rios voadores”. Na sua cartilha presidencial ou travesseiro de estimação, parece ainda não constar a lembrança de um mandamento empunhado pelo Greenpeace e pela Fundação SOS Mata Atlântica em luta pelo “Desmatamento Zero”: “Onde tem árvore, tem água”. E vice-versa. É o que se pode concluir tendo em vista o baixíssimo orçamento do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama e demais órgãos ambientais oficiais.

TEMER e autoridades na abertura oficial do Fórum: o ministro do Meio Ambiente brasileiro é o último à sua esquerda e não teve direito a fala

visão sustentável de que poluição não significa lucro, é o setor empresarial. Não os governos. Resultado global: por falta de outra opção, 700 milhões de seres humanos convivem e sobrevivem com água contaminada. Outros 250 milhões morrem, por ano, de doenças provocadas pelo consumo de água podre. OS SEM-AGRO Nem o lucrativo e proclamado agronegócio brasileiro, que tanto tem salvado a balança comercial do país, está hidricamente seguro. Não há outro setor mais dependente de água. Nem vítima mais diretamente ligada ao que acontecerá na Amazônia. Como o Ministério do Meio Ambiente também advertiu no Fórum, se a devastação da última grande floresta planetária - via agricultura tradicional e pecuária insustentável - atingir o índice de 25% até 2030, será tarde demais para buscar uma solução! O processo da sua autodegradação será irreversível. A imagem que se projeta na Amazônia é a de árvores destruídas uma a uma, sem a menor condição de se manterem em pé por conta das raízes expostas e do solo pobre, caindo como num efeito dominó. Sem floresta nem água, o regime das chuvas que nascem e se propagam dali por aspiração, também mudará de maneira drástica e irreversível. E isso impactará, de cara, todo o agronegócio. Ele não continuará nem agro nem pop. Deixará de ser o celeiro de alimentos do mundo, por falta d’água! Foi o que anteviu o poeta anglo-americano W. H. Auden (1907-1937): “Milhares viveram sem amor, mas ninguém viveu sem água”. Ele pode estar terrivelmente certo. Se continuarmos sendo o Homo sapiens que nos tornamos, morreremos aos milhares. Sem água e sem amor.

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MATÉRIA DE CAPA

NO BRASIL, mais de 70% do uso da água vai para sistemas de irrigação na agricultura

O desafio complexo no campo Luciana Morais, Luciano Lopes, Cristiana Andrade e Bruno Frade redacao@revistaecologico.com.br

Num planeta de mais de sete bilhões de pessoas, pressão aumentada sobre recursos naturais de toda espécie, a gestão de recursos hídricos se coloca como questão ímpar para todas as nações, principalmente quando se trata de dar acesso universal à água potável e produzir alimentos. Calcula-se que a agricultura – incluindo aqui os cultivos, a pesca, a atividade florestal e a pecuária – seja um dos motivadores da escassez de água e também prejudicada por ela. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), 70% da extração de água em nível mundial se destina à produção de comida, num cenário em que se prevê o aumento de 50% na demanda por alimentos até 2050. Nesse contexto, é preciso levar em conta ainda as mudanças climáticas, 30  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

que no século 21 deixaram mais alarmados dirigentes de países e ambientalistas, tamanhos foram os reflexos no processo de degelo da Antártida, secas extremas, inundações e outros tantos fenômenos climáticos, que, além de atingirem duramente núcleos urbanos, afetaram muitas áreas rurais. No Brasil e em outros países em desenvolvimento, o tempo parece apertado para o cumprimento da Agenda 2030 da ONU, que estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles o ODS 6 – “Água potável e saneamento”; ODS 2 – “Fome zero e agricultura sustentável”; ODS 13 – “Ação contra a mudança global do clima”; e ODS 14 – “Água e vida”. Todos eles intrinsecamente interligados. Para se ter ideia, a Índia, em 2000, tinha cerca de 19 milhões de poços mecanizados ou por tubos, enquanto em 1960 esse montante era de

menos de um milhão. Essa evolução nos campos indianos representou um importante esforço do país em combater a pobreza, mas, por outro lado, resultou no desenvolvimento de um sistema de irrigação que gerou estresse hídrico. No Brasil, a realidade é similar à de outros países em desenvolvimento: mais de 70% do uso da água vai para sistemas de irrigação na agricultura. De acordo com o Atlas Irrigação, produzido pela Agência Nacional de Águas (ANA) em 2017, o país tinha 6,95 milhões de hectares equipados com sistemas de irrigação, retirando 969 mil litros por segundo da fonte (rios ou reservas subterrâneas), sendo que a projeção para 2030 é de 1,33 milhão de litros por segundo. TRANSFORMAÇÃO DIGITAL Esse cenário coloca o país entre os 10 com maior área irrigada do plane-


FOTO: FAO / ALESSIA PIERDOMENICO

ta, e tem capacidade para aumentar as lavouras em até cinco vezes. Mas, diante do cenário de escassez, é importante que setor produtivo, governo e sociedade dialoguem para responder à pergunta: o Brasil pretende ampliar essas áreas ou busca encontrar formas e técnicas melhores para expandir as áreas de plantio, sem gastar mais água? Na visão do presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, os desafios são complexos, uma vez que a agricultura está inserida em cadeias globais de produção. “Pre“Juntos podemos aplicar cisamos olhar para o nexo alimento/ estratégias para evitar que a água/natureza. O Brasil tem muitas escassez de água nos impeça riquezas, seis biomas complexos e é um grande exportador de alimen- de alcançar nossa ambiciosa tos. Temos grandes bacias hidro- missão de erradicar a fome, manter a paz e não deixar gráficas compartilhadas com outros países, como Argentina e Bolívia. ninguém para trás.” Então, inserir o país nessa perspecJOSÉ GRAZIANO DA SILVA, tiva transnacional, inclusive do pondiretor-geral da FAO/ONU to de vista das mudanças climáticas e dos impactos que sofremos aqui, é fundamental, uma vez que uma suas águas. Está tudo resolvido? Não, ação que tomo no meu território, não está. Mas temos investido em impacta diretamente meu vizinho.” alternativas, como os sistemas inteLopes disse ainda acreditar que grados (lavoura/pecuária, lavoura/ estamos vivenciando uma trans- floresta). Dos 70 milhões de hectares formação digital que vai gerar uma cultivados no país, 12 milhões estão mudança de paradigma na chamada integrados”, acrescentou. lavoura de precisão. Segundo ele, 40 anos atrás a realidade do Brasil era EXPERIÊNCIAS 70% de trabalho na terra e 30% INTERNACIONAIS de tecnologia. Hoje é o inverso. “A Durante debate sobre água para agritecnologia está passando por uma cultura e a produção de alimentos, a revolução, com o uso de drones e ministra de Alimentação e Meio Amsistemas que conseguem calcular a biente da Espanha, Isabel Garcia Tequantidade exata de água que deter- jerina, enfatizou a mudança que seu país teve de adotar para tornar seu minada planta precisa.” Maurício Lopes lembrou ainda sistema mais eficiente e causar menor as grandes instituições científicas impacto ambiental. A Europa tem mais de 50 milhões que produzem conhecimento nessa área e políticas públicas que orien- de hectares em áreas irrigadas e a Estam sobre o zoneamento e o risco panha é o país que lidera esse ranking. climático em várias regiões do país. “Nossa agricultura é forte e esses sis“A aprovação do Código Florestal foi temas são muito importantes para a mandatória no sentido de obrigar o população rural. Ocorre que, com as produtor a proteger seus biomas e mudanças climáticas, passamos a usar

irrigação onde anteriormente não havia necessidade. Então, a Espanha se viu diante de erradicar a fome e a pobreza, apostar numa economia social e ambiental, reduzir emissões de gases, tudo para ratificar o Acordo do Clima de Paris, com um sistema de irrigação antigo. Precisávamos adotar uma visão de sustentabilidade ambiental, com redução de consumo de água e uso desse recurso de forma moderna”, explicou Isabel. E qual foi a mágica? O processo teve início em 2004, quando o país começou a substituir equipamentos em uma área de 1,5 milhão de hectares, aumentando a eficiência no uso dos recursos hídricos com a redução de 10% do consumo da água e expandindo a área de irrigação; e deixando de usar fertilizantes agressivos nos cultivos. “Mudamos o modelo de governança, e foi o que deu esse resultado positivo. Investimos em treinamento para agricultores e em campanhas de comunicação com eles, para que entendessem o novo processo. Estamos investigando novos modelos de produção de água, como reúso e dessalinização; e novas tecnologias para o agricultor. Essa tomada de decisão mais eficiente é nossa meta até 2025 para termos maior consciência no uso da água”, acrescentou a ministra espanhola. A economista Cláudia Sadoff, diretora-executiva do International Water Management Institute, ponderou que o grande desafio das nações produtoras de alimentos é pensar em todas as possibilidades de uso consciente da água diante da menor disponibilidade dos recursos hídricos. “Temos de pensar na água azul (rios e lagos), na verde (capturando do solo e das florestas e biomassa) e em como equilibrar irrigação tradicional com a água da chuva de forma global. Não há mais como pensar numa propriedade local. É preciso pensar e agir coletivamente.”

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MATÉRIA DE CAPA

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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FÁTIMA CABRAL: "O ofício do agricultor é a profissão mais importante do planeta"

“Lucro é ter sombra para trabalhar ” Ela acredita na adoção de relações mais harmoniosas entre as pessoas e a natureza, na força do cooperativismo e trabalha para assegurar um presente e um futuro com mais segurança hídrica e alimentar para todos. Foi amparada nessas convicções que a produtora rural Fátima Cabral, presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera), no Distrito Federal (DF), recebeu aplausos e emocionou participantes durante o painel “Agricultura e serviços ecossistêmicos: produtores rurais podem 32  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

salvar rios e ainda lucrar?”. Com sua fala franca e cadenciada, Fátima relatou experiências do dia a dia em sua propriedade de 40 hectares, a Chácara Pé na Terra. Ela trabalha com o marido e os três filhos. Produz alimentos em sistema de agrofloresta, por meio do plantio consorciado de culturas agrícolas com espécies arbóreas. “Hoje, somos 45 produtores. Estamos numa região de grande importância para a segurança hídrica de cidades como Sobradinho e Planaltina. Acreditamos que cuidar da natureza dá lucro sim; e que nosso lucro é re-

flexo de um cuidado intensivo com a natureza e com a água, que é a nossa grande mãe.” Para Fátima, o resgate do valor do agricultor é um dos mais valiosos diferenciais da Aprospera, que também atua em sintonia com outros programas de apoio à agricultura sustentável, como o Produtor de Água, da Agência Nacional de Águas (ANA). “O ofício do agricultor é a profissão mais importante do planeta. É o agricultor que alimenta o cientista, o médico e faz a comida chegar do campo às mesas”, ponderou.


ENTENDA MELHOR

PRODUÇÃO de alimentos em sistema de agrofloresta: plantio consorciado de culturas agrícolas com espécies arbóreas

Convicta de que os benefícios de se preservar água, solo e plantas não podem ser medidos apenas sob a perspectiva do dinheiro, a agricultora ensinou: “Lucro é ter sombra para FOTO: PEDRO VENTURA / AGÊNCIA BRASÍLIA

PARTE DA SOLUÇÃO A maioria dos associados da Aprospera vive na região do Assentamento Oziel Alves III, bem como dos núcleos rurais Pipiripau e Taquara, na divisa com Goiás. As ações de manejo e de cuidado hídrico e florestal são baseadas no conceito de Comunidades que Sustentam a Agricultura, as chamadas CSAs. A entidade reúne 10 das 22 Comunidades existentes no DF. Um dos objetivos das CSAs é assegurar o escoamento de alimentos agroecológicos de forma direta ao consumidor. “Enquanto as nossas florestas vão crescendo, vamos produzindo água, mandioca, milho, hortaliças e frutas, além de relações mais saudáveis entre toda a cadeia envolvida. Somos parte de uma nova realidade e também da solução para a crise hídrica que atormenta diferentes regiões”, pontuou Fátima.

FOTO: DIVULGAÇÃO NATTURIS

l Atualmente, o programa Produtor de Água contabiliza 57 projetos em andamento, em sete regiões metropolitanas, incluindo mananciais responsáveis pelo abastecimento das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Campo Grande, Palmas e Rio Branco. São cerca de 400 mil hectares trabalhados, com mais de 22 mil produtores cadastrados, dois mil deles recebendo pela prestação de serviços ambientais. As ações se refletem em incremento da conservação ambiental e em ganhos de qualidade hídrica para 5 milhões de brasileiros. Em Minas Gerais há 33 projetos em várias etapas de implantação e recebendo diferentes tipos de apoio da ANA.

JORGE WERNECK, da Embrapa: irrigação com foco na economia de água

trabalhar. É ver nossos jovens preservando sementes. É quando o marido larga o veneno (agrotóxico) e pega o facão para manejar a floresta”. TECNOLOGIA GANHA-GANHA Sobrinho-neto do “pai” do ambientalismo brasileiro, o mineiro Hugo Werneck (1919-2008), a quem a Revista Ecológico é dedicada, o pesquisador da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, defendeu a importância do manejo hídrico na agricultura, em especial da irrigação. De acordo com ele, são inúmeras as tecnologias e novidades nessa área, incluindo o uso de sensores remotos para estimativas de evapotranspiração e aplicativos de telefone celular que ajudam a otimizar a irrigação com foco na economia de água. Para Werneck, que também é

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MATÉRIA DE CAPA

diretor da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), três pontos devem ser aprimorados no manejo da irrigação: o uso de plantas, com a opção por espécies mais resistentes à seca; investimento em instrumentos e equipamentos; e capacitação da mão de obra envolvida. “Com algumas técnicas de manejo de irrigação e com o monitoramento tanto da água no solo quanto climático, conseguimos reduzir de 20% a 30% da água usada na agricultura.” Outra medida sustentável, destacou o pesquisador, é o Sistema de Plantio Direto (SPD) na palha, que dispensa o revolvimento do solo, sendo efetuado sem as etapas do preparo convencional, como a aração. Com isso, protege o solo do impacto direto da chuva, evitando o escoamento superficial (enxurrada) e erosão. “É uma tecnologia ganha-ganha. O produtor ganha com a redução de custos e, o meio ambiente, com o aumento do estoque de carbono, a diminuição do escoamento superficial e a proteção da biodiversidade.” PARCEIRO DA PRESERVAÇÃO Para o coordenador de Implementação de Projetos Indutores da Agência Nacional de Águas (ANA), Devanir Garcia, a água que abastece as cidades é fruto do trabalho de produtores rurais comprometidos com ações de conservação hídrica e da biodiversidade e, portanto, eles merecem receber por isso. “Temos de superar a visão ultrapassada de considerar o produtor rural um vilão; ele é um grande parceiro da restauração ambiental e hídrica”. Garcia apresentou resultados do Produtor de Água, programa de adesão voluntária de pagamento por serviços ambientais, no qual agricultores que adotam práticas e manejos conservacionistas e de melhoria da 34  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

DEPOIMENTO “Sou engenheiro ambiental e mobilizador. Coordeno projetos do programa Produtor de Água na região do Alto São Francisco, em municípios como Piumhi, Doresópolis e São Roque de Minas, além de alguns no entorno do Lago de Furnas, entre eles Formiga, Pimenta e Passos. Atuamos na mobilização de entidades parceiras de produtores rurais. Um dos nossos focos é a educação ambiental, sempre em sintonia com ações voltadas para a conservação do solo e da água. Temos várias melhorias implantadas em propriedades, como o plantio de mudas e o cercamento de nascentes. Os projetos estão em fase inicial e a expectativa é que os produtores comecem a receber pelos serviços ambientais prestados em um ano. A situação em São Roque de Minas, infelizmente, é crítica em termos de degradação. A nascente geográfica do Velho Chico, em Medeiros, não tem qualquer proteção ou cercamento. A nascente histórica, por sua vez, localizada no Parque Nacional da Serra da Canastra, sofre anualmente com queimadas e assoreamento. É preciso unir esforços. Do contrário, no curto e médio prazo não teremos água em quantidade e qualidade suficientes para abastecer a população da região.”

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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Dirceu de Oliveira Costa (foto), representante da Associação Regional de Proteção Ambiental (ARPA), com sede em Passos (MG)

cobertura vegetal em suas terras são recompensados financeiramente. O programa tem como base o conceito provedor-recebedor, com foco na melhoria da qualidade e quantidade de água nos mananciais, por meio de incentivo financeiro aos produtores. O agricultor participante tem de comprovar a adoção de boas práticas, tais como o sistema de plantio direto e a construção de terraços e barraginhas. “A legislação prevê que quem usa deve pagar pela água. Então, quem a produz merece receber.” Presidente da Comissão Internacional de Irrigação e Drenagem

(ICID), o engenheiro sul-africano Felix Reinders, especialista em agricultura e irrigação, alertou: “Em escala global, 38% dos rios estão poluídos e temos 55% menos terras plantáveis em razão do uso excessivo de agrotóxicos.” Criada em 1950, a ICID reúne uma rede de profissionais em diferentes partes do mundo, atuando também na gestão de inundações. SAIBA MAIS

www.ana.gov.br facebook.com/Arpa-Associacao-Regional-de-Protecao-Ambiental


RESPOSTAS NA BÍBLIA Em conversa com a Ecológico, ao fim do painel, Shelley disse gostar muito de Minas Gerais, onde já esteve em quatro ocasiões, desde que

INVESTIMENTO em tecnologia para dessalinização da água do mar e aprimoramento da agricultura: Israel é referência mundial

assumiu seu posto em Brasília, há pouco mais de um ano. “Ainda este mês, estarei em Uberlândia. Vou tratar de questões ligadas à água na agricultura, etc.” Num debate em que muito se falou sobre tecnoloFOTO: DIVULGAÇÃO

Intensificar o compartilhamento de experiências e a cooperação mútua com o Brasil para avançar na oferta de soluções e melhoria da ecoeficiência hídrica. Esse é um dos focos da atuação do Embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley. Durante um painel sobre escassez de água na agricultura, coordenado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Shelley deu atenção especial ao compartilhamento de iniciativas em prol do acesso à água de qualidade. Bem-humorado e falando em português, ele lembrou que as práticas na agricultura são dinâmicas e estão mudando constantemente, mas que tecnologias desenvolvidas no passado também são relevantes para a adaptação às mudanças climáticas hoje. “A seca forçou Israel a maximizar sua produção agrícola por unidade de terra, ou seja, a produzir mais com menos. Atualmente, 80% da água consumida no país vem do mar, é dessalinizada. Os 20% restantes vêm dos rios, das chuvas e fontes subterrâneas. Cada estado tem a sua própria gestão. Felizmente, não precisamos mais fazer a ‘dança’ da chuva nas escolas”, brincou. O embaixador apresentou as principais mudanças tecnológicas ocorridas naquele país nos últimos 60 anos. Entre elas, sistemas de irrigação que asseguram aumento da eficiência no uso da água em mais de 90%.

FOTO: ITAMAR GRINBERG

“A água é única”

YOSSI SHELLEY: eficiência hídrica e educação para o consumo

gias, ele – que é bacharel em Direito e Engenharia Civil – foi o único a refletir sobre a relação do ser humano com a água sob uma perspectiva mais holística, independentemente das crenças religiosas individuais. “Em 2004, enfrentamos uma severa crise hídrica e o governo passou a empreender esforços para dessalinização da água do mar. Pensamos, pensamos e recorremos à Bíblia que, acredito, tem respostas para tudo. Está lá, na primeira página: “E Deus criou um grande mar...”. Seria apenas para crescer peixes? Penso que não, a água dessalinizada assegura nossa sobrevivência. Também é preciso educar as pessoas para o consumo consciente. Não há um elemento alternativo à água, ela é única.” SAIBA MAIS

www.embassies.gov.il/brasilia/ facebook.com/IsraelinBrazil

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MATÉRIA DE CAPA

FOTO: DIVULGAÇÃO

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O SEMIÁRIDO se estende por 1.554,4 mil km2 do território brasileiro

A experiência do Semiárido “O desafio é superar o velho conceito de combate à seca, avançando para uma concepção mais holística e efetiva de convivência com o semiárido brasileiro.” Esse foi um dos temas que marcou o painel de debates “Desafios enfrentados pela agricultura familiar no uso da água”. Coordenador da associação Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) na Paraíba, Luciano Silveira apresentou ações de mobilização social para o uso sustentável da terra, da água e da biodiversidade, com foco exatamente em estratégias de convivência com o Semiárido, região que se estende por 1.554,4 mil km2 do território nacional. A AS-PTA é uma das organizações integrantes da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), que envolve centenas de outras instituições e 36  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

trabalha em prol do fortalecimento da agricultura familiar e da promoção do desenvolvimento rural sustentável. Por meio de sua atuação, também subsidia a elaboração, a implantação e o monitoramento de políticas públicas. Silveira destacou o histórico de estiagem no Semiárido, lembrando que, nos últimos 500 anos, foram registradas 72 secas, sendo 32 delas plurianuais. “Temos de avançar em gestão e também na adoção de estratégias de convivência, e não de combate à seca. Não se combate a neve na Sibéria, convive-se com ela”, comparou. EXPERIÊNCIA COMPARTILHADA De acordo com Silveira, o trabalho da ASA Brasil é inspirado no conhecimento tradicional das comunidades, sobretudo no papel das mulheres

agricultoras. Ele fez críticas ao sistema agroalimentar dominante. E citou os fortes impactos provocados pelos padrões elevados e insustentáveis de consumo de água na produção, processamento e distribuição de alimentos, cujo modelo também se reflete em maior degradação ambiental e exclusão social. A agroecologia para convivência com o semiárido, por sua vez, se apoia em soluções integradas ao que a própria natureza provê, por meio, por exemplo, da relocalização dos sistemas agroalimentares e valorização da cultura alimentar local, tendo a agricultura familiar como base. “Já promovemos 3.600 intercâmbios, envolvendo quase 62 mil participantes. Outro diferencial do trabalho é o registro de informações sobre o compartilhamento de


ENTENDA MELHOR

PROGRAMA Cisternas nas Escolas: seis mil instituições rurais com água para beber e cozinhar

l A agricultura responde por 70% do consumo global de água, usada principalmente na irrigação. A indústria demanda 20% do total e os 10% restantes são destinados ao uso doméstico, sendo o percentual de consumo humano inferior a 1%.

FOTO: ASA BRASIL / REPRODUÇÃO SITE

l Em 2025, 1,8 bilhão de pessoas viverão em países ou regiões com falta d’água e 2/3 da população poderá enfrentar a escassez total. l Atualmente, estima-se que quase metade da população mundial viva em áreas com potencial escassez de água por pelo menos um mês ao ano.

experiências. Cerca de duas mil iniciativas estão sistematizadas em boletins. E mais: graças ao programa ‘Cisternas nas Escolas’, temos seis mil escolas rurais com água para beber e cozinhar. Água é direito, não mercadoria”, finalizou. ORIENTAÇÃO AOS JOVENS Enquanto acompanhava o debate, na plateia, Edite Caires, secretária municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Dom Basílio, contou que o município, localizado no Sudoeste da Bahia, é um importante centro produtor de frutas no Brasil. “Temos aproximadamente 12 mil habitantes e 70% deles vivem no meio rural e dependem da agricultura. Dom Basílio vem sofrendo com as crises hídricas há cinco anos. Chove pouco na região e boa parte da população depende de recursos da Defesa Civil e do abastecimento por caminhão-pipa.”

Com a chuva escassa, a atual administração municipal tem investido na construção de barragens, na limpeza de aguadas e na ampliação das redes tubulares para garantir melhor qualidade de vida à população. Recentemente, em articulação com o governo federal, por meio de emendas FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Fonte: FAO/ONU

parlamentares, conseguiu recursos para instalar uma adutora e abastecer a cidade com água da barragem Luiz Vieira, localizada no município de Rio de Contas. “Somos um município tipicamente agrícola, com destaque para o cultivo de maracujá e manga, para comercialização, e a agricultura familiar para subsistência. A maioria dos agricultores abastece suas lavouras com água de poços artesianos/tubulações. Este Fórum é desafiador, são muitas as informações. Em abril, teremos uma Conferência Municipal de Meio Ambiente e estou coletando dados sobre diferentes experiências. Espero colaborar para a divulgação de boas práticas no campo, orientando principalmente os nossos jovens”, ponderou Edite, que tem formação na área de humanas, sociais e gestão ambiental. SAIBA MAIS

EDITE CAIRES: experiências para melhoria da vida no campo

www.asabrasil.org.br www.dombasilio.ba.gov.br

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MATÉRIA DE CAPA

RIO SENA, na Cidade Luz: revitalização assegurou a volta de 30 espécies de peixes às suas águas hoje limpas

Água e prefeitos trabalhando juntos Fatigados por tanta pressão – que vai do assoreamento, passa pela intensa carga de retirada de suas águas para abastecimento das cidades e para a agricultura, ao despejo de descargas de rejeitos industriais de toda natureza e de esgotamento sanitário de grande parte das cidades brasileiras, os rios, grandes ou pequenos, pedem socorro. No mundo todo. Autoridades locais e regionais são os principais atores da gestão das águas nos municípios: elas reúnem órgãos articuladores de políticas socioambientais e representam o interesse público. Por isso, precisam planejar em médio e longo prazo ações de conservação e manejo dos recursos hídricos, pois podem 38  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

agir como verdadeiros convocadores de mudanças. E comunicar o verdadeiro valor da água para toda a população é tema a ser difundido no planeta. Todos devem participar: empresa que distribui e trata a água, governo local, indústria, setor produtivo e comunidade. Essas foram algumas das conclusões do painel “Reflexões: como águas e prefeitos podem trabalhar juntos”. Daiana Macuaba, diretora da Companhia Nucana Water, na Zâmbia, ressaltou a importância de empresas distribuidoras de água serem transparentes e colaborativas nas cidades onde atuam. “Nossos clientes de consumo são os cidadãos. Por isso, precisamos

convocar todos a participarem do debate e do planejamento que envolve os recursos hídricos. A comunicação tem papel fundamental nesse processo, pois é preciso disponibilizar informações”, comentou, citando a importância de se comunicar a previsão adequada da água nas cidades. “Essa foi uma estratégia usada de forma inteligente pelo governo da Catalunha, na Espanha, que enfrentou uma seca extrema, recentemente. Com comunicação verdadeira, eles conseguiram sensibilizar a população a gastar menos de 100 litros de água/pessoa/dia. As pessoas entenderam como deviam consumir e economizar os recursos e a campa-

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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nha funcionou.” Nesse contexto, é importante ressaltar o papel do cidadão no local onde vive e sua responsabilidade frente a questões como escassez de água e produção de resíduos. Essas não são responsabilidades apenas dos governos, mas de todos. E é necessário que população e dirigentes locais reflitam sobre a água e seus usos: é aceitável pensar que diante da falta de água para tantos povos no mundo ainda usamos água tratada para jogar no jardim, lavar a calçada ou limpar o carro?

TERESINA: saneamento e infraestrutura mudam realidade de 100 mil habitantes

fraestrutura ambiental está transformando a vida de 100 mil habitantes numa região pobre da cidade, que concentra 13 bairros. Convivendo com inundações frequentes de diques construídos para conter possíveis cheias dos rios Parnaíba e Poti, condições precárias de habitação, a comunidade sofria ainda com poucas LAGOAS DO NORTE oportunidades de renda. Firmino Filho, prefeito de Teresina Pela primeira vez, Teresina firmou (PI), mostrou como um projeto de in- parceria com um organismo internacional, o Banco Mundial, e fez um empréstimo de US$ 33 milhões para avançar no projeto “Lagoas do Norte”. “Partimos do saneamento inicial, coletando e tratando o esgoto; fizemos a melhoria sanitária nas residências de baixa renda; reassentamos 500 pessoas que viviam em áreas de risco; demos acesso a saneamento para 25 mil pessoas; elaboramos e executamos o plano diretor, que previu a drenagem urbana nessa área; e construímos um parque para lazer e fonte de renda para as famílias, além de termos transformado os diques em lagoas. Precisamos de continuidade nos projetos, independentemente FIRMINO FILHO: continuidade política e legado socioambiental das gestões”, contou Firmino Filho.

rio, nada disso tem futuro. O cidadão precisa calcular quanto gasta de água por dia e passar a economizar. Não adianta o governo impor tarifas punitivas, limitar o volume de água para cada um ou aplicar multas. É preciso transformar o comportamento do indivíduo”, comentou Nielsen.

FOTO: PEDRO FRANÇA

EDUCAÇÃO AMBIENTAL Luciano Pinheiro, prefeito de Jacobina, no Nordeste baiano, frisou os anos de mau uso da água e a necessidade de se criar políticas públicas conjuntas para as cidades. “Precisamos compreender melhor o ciclo da água para planejarmos ações efetivas. Também é de extrema importância preparar as novas gerações para essa realidade, por meio da educação ambiental.” O caso da dramática seca enfrentada pela Cidade do Cabo, na África do Sul, foi demonstrado num vídeo no qual o prefeito, Ian Nielson, falava abertamente às pessoas: “Depois do declínio de nossas reservas e lagos, reduzimos o consumo a 25l/pessoa/ dia. A abordagem foi conservadora e adotada para um cenário catastrófico. Em dois meses, conseguimos sair do consumo de 1,2 milhão litros/dia para 900 mil litros/dia, uma economia considerável.” Nielson frisou que o resultado foi fruto de uma gestão e de uma comunicação fortes. A maior lição da crise hídrica em Cidade do Cabo? É necessário trabalhar com fontes diversificadas de água. “Não dá para centrar apenas na água superficial. Por isso, temos investido em plantas de dessalinização e água subterrânea. Mas sem a mudança de hábito do usuá-

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MATÉRIA DE CAPA

DESDE 1979, Itaipu promoveu o plantio de mais de 44 milhões de mudas nas margens brasileira e paraguaia de seu reservatório

Quando e onde a natureza é a solução Em 2003, Itaipu Binacional, maior geradora de energia limpa e renovável do planeta, buscou na natureza inspiração para desenvolver uma iniciativa socioambiental exemplar em melhores práticas de gestão da água. Foi assim que nasceu o Programa Cultivando Água Boa (CAB), que hoje já abrange 65 projetos e ações desenvolvidos na Bacia Hidrográfica do Rio Paraná, em 29 municípios da área de influência do lado brasileiro de Itaipu. Por meio de um processo integrado, participativo e de responsabilidade compartilhada – que envolve governos, empresas e atores locais, como produtores rurais, comunidades indígenas e catadores de materiais recicláveis–, o progra40  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

ma promove a gestão sustentável da bacia hidrográfica a partir de processos naturais. O sucesso do programa foi tão grande que a iniciativa foi reconhecida no Prêmio Água para a Vida da ONU em 2015, na categoria Melhores Práticas em Gestão da Água. O CAB também foi homenageado no Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza, no mesmo ano, por sua contribuição para a conservação do mais importante recurso natural do planeta. A bem-sucedida gestão compartilhada das águas do Rio Paraná por Itaipu, mostrou o seu diretor de Coordenação Executiva, Pedro Domaniczky, continua gerando benefícios igualmente para o Brasil e

o Paraguai: “Estamos localizados na Bacia do Prata, uma das maiores do Hemisfério Sul, onde temos sob nossos pés o Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta. É essa a nossa responsabilidade com as gerações futuras. Em 45 anos de lições apreendidas, podemos dizer que o Prata é um rio que une dois países, e não apenas gera energia, mas desenvolvimento, conhecimento e sustentabilidade juntos. Nossa visão é a de que não são os governos os principais atores de um território hídrico. Mas as pessoas, como seus necessários protagonistas”. O Cultivando Água Boa é exemplo de como tecnologias que melhoram a quantidade e a qualidade da água

FOTO: DIVULGAÇÃO ITAIPU

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FOTO: ALEXANDRE MARCHETTI / ITAIPU BINACIONAL

FOTO: DIVULGAÇÃO ITAIPU

PEDRO DOMANICZKY: "O Rio da Prata une dois países, e não apenas gera energia, mas conhecimento e sustentabilidade”

AUDREY AZOULAY, diretora-geral da Unesco: "Não temos água suficiente para sete bilhões de pessoas"

podem ser criadas também a partir da reprodução de processos de comunidades que vivem e atuam diretamente na natureza. É o que também mostra o “Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018”, que aborda a efetividade das “Soluções Baseadas na Natureza (SbNs)” para a gestão da água. Atualmente, estima-se que 3,6 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) vivem em áreas que apresentam uma potencial escassez de água por pelo menos um mês por ano, e essa população poderá aumentar para algo entre 4,8 bilhões e 5,7 bilhões até 2050. Nesse contexto, utilizar as SbNs para gerenciar a manutenção e a disponibilidade de água é mais que urgente. “Sem uma adoção mais rápida das SbNs, a segurança hídrica continuará a diminuir, e provavelmente de forma rápida. Elas oferecem meios essenciais para ir além das abordagens convencionais. No entanto, a necessidade e as oportunidades para a ampliação da implementação delas continuam sendo subestimadas”, ressalta o relatório, produzido em parceria com outras 31 instituições

do sistema da ONU e 39 parceiros internacionais que formam a ONU Águas (UN Waters). CONDIÇÕES FAVORÁVEIS A resposta para os desafios que envolvem a criação de condições favoráveis para que as SbNs sejam adotadas por governos é que elas necessariamente não exigem recursos financeiros adicionais. “Normalmente, elas envolvem o seu redirecionamento ou o uso mais efetivo dos financiamentos já existentes. Investimentos em infraestrutura verde estão sendo mobilizados graças ao crescente reconhecimento do potencial dos serviços ecossistêmicos em oferecer soluções sistêmicas que tornam os investimentos mais sustentáveis e mais custo-efetivos no longo prazo”, garante o relatório. Para Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, é preciso constantemente buscar e implementar soluções para a gestão da água a fim de superarmos os desafios de segurança hídrica. “Muitas pessoas no mundo vão entrar em uma zona de risco em pouco tempo. Isso afeta a paz mundial. Não temos água

ENTENDA MELHOR

l A demanda mundial por água tem aumentado a uma taxa de aproximadamente 1% por ano, devido ao crescimento populacional, ao desenvolvimento econômico e às mudanças nos padrões de consumo, entre outros fatores, e continuará a aumentar de forma significativa durante as próximas duas décadas. l As SbNs apoiam uma economia circular, que é restauradora e regenerativa por sua própria essência, e promove uma maior produtividade dos recursos, visando reduzir os desperdícios e evitar a poluição, inclusive por meio do reúso e da reciclagem. l Também apoiam os conceitos de crescimento e de economia verdes, os quais promovem o uso sustentável dos recursos naturais e aproveitam os processos naturais como fundamento das economias. Essa utilização das SbNs no setor hídrico também gera cobenefícios no campo social, econômico e ambiental, incluindo a melhoria da saúde humana e dos meios de subsistência, o crescimento econômico sustentável, empregos dignos, a reabilitação e a manutenção de ecossistemas, além da proteção/desenvolvimento da biodiversidade.

suficiente para sete bilhões de pessoas. E, se não fizermos nada, cinco bilhões delas estarão vivendo em áreas com baixo acesso à água em 2050”, alerta. SAIBA MAIS

www.itaipu.gov.br www.unesco.org

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MATÉRIA DE CAPA

A tragédia que ainda incomoda Com o auditório repleto e fechadas as duas grandes portas – sem autorização para ninguém mais entrar –, o painel que tratou da tragédia ambiental de Mariana (MG) foi, de longe, um dos mais concorridos do Fórum. Nas cadeiras, escadas e no chão, gente de todo tipo: ambientalistas, jornalistas, representantes de ONGs, especialistas em água, representantes governamentais. Todo mundo queria ouvir os dados mais atuais referentes ao rompimento da 42  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

Barragem de Fundão, em novembro de 2015, que deixou 19 mortos, mais de 700 famílias desabrigadas e um rastro de destruição ambiental sem precedentes. Eram muitas as perguntas e dúvidas: quantas famílias já foram assentadas? E os peixes, já voltaram ao rio? A lama foi retirada por completo? Em quantos anos o estrago ambiental será sanado? Já foram investidos quantos milhões de reais? Em quantos anos tudo voltará a ser como em 4 de novembro de 2015,

um dia antes da tragédia? Voltar ao que eram o rio, as pessoas, as águas… bem, isso não será possível. Todos eles mudam diariamente. De percurso, de condição de vida, de perspectiva. Isso é fato. Mas o que foi reparado, os programas em curso e as expectativas em relação ao futuro, essas são muitas e de longo prazo. A estimativa é de, pelo menos, mais oito anos de ações intensas ao longo de mais de 600 quilômetros, entre Mariana e a foz do Rio Doce.


FOTO: ANTONIO CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

RUÍNAS de Bento Rodrigues: memória e amor social ainda soterrados

Durante o painel, o balanço das ações atuais coordenadas pela Fundação Renova – entidade de gestão autônoma criada depois da assinatura do Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC) entre a Samarco e as controladoras Vale, BHP e a União e diversas autarquias federais e estaduais – foi apresentado pelo seu presidente, Roberto Waack. As diretrizes de ação são definidas pelo Comitê Interfederativo (CIF) – que tem a participação de órgãos de Minas Gerais e do Espírito Santo, e acompanha ações e estabelece canais de participação da sociedade civil. Hoje, dois anos e meio depois do rompimento da Barragem de Fun-

dão, um longo e extenso cadastro ainda está sendo feito: ele tem cerca de 30 mil famílias inscritas, totalizando cerca de 70 mil pessoas, e deve ser concluído em sua totalidade no segundo semestre deste ano. “Há muitas pessoas neste cadastro que não foram impactadas diretamente pelo acidente. Então, a primeira parte, a maior, vai ser concluída agora, e a segunda, no segundo semestre. O fato de ter sido cadastrado não significa categoricamente que vai ser beneficiado. Cada caso é um: propriedades rurais têm um tipo de indenização; pescadores, outro”, frisou Waack. Segundo ele, o cadastro é importante também para nortear programas de educação e cultura e os demais projetos estruturantes que visam entender a realidade atual do Rio Doce. As ações de reparação em todo o trecho impactado pelo rompimento já receberam aportes de R$ 3,4 bilhões desde novembro de 2015, de um total de cerca de R$ 12 bilhões previstos até 2030. Mas esse valor pode ser maior, chegar a R$ 20 bilhões. Tudo vai depender do comportamento da natureza, dos rejeitos ainda sedimentados em vários trechos do rio, do que

ainda precisa ser reparado. Sob a responsabilidade da Renova estão 42 programas e projetos, entre eles o reassentamento das pessoas atingidas, o pagamento de indenizações, a manutenção da qualidade da água na bacia do Rio Doce e a retomada da atividade econômica dos municípios afetados. “Temos cerca de 15 mil casos de indenização, que devemos concluir até o meio de 2018. A maioria delas é em dinheiro. Só no que diz respeito a ações de água, já investimentos cerca de R$ 1 bilhão, com auxílios emergenciais, indenizações, danos morais e materiais por falta de água. O prazo de recuperação relacionado ao rejeito é variável, pois temos 17 situações e cada uma tem um prazo. Acreditamos que nos próximos três anos estaremos com 80% das ações previstas equacionadas, mas nosso prazo é de 10 anos de monitoramento dessas ações”, acrescentou. QUESTÃO CRÍTICA Parte do projeto da Fundação Renova para a compensação dos danos ambientais envolve a restauração do rio além do desastre: inclui a recuperação de cinco mil nascentes, um programa com R$ 500 milhões para saneamento (construção de estações

ROMPIMENTO da Barragem de Fundão motivou algumas das capas mais marcantes, tristes e esperançosas da história da Ecológico

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MATÉRIA DE CAPA

SOMA DE ESFORÇOS Antes de ser presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, Lucinha Teixeira já morava em GoREASSENTAMENTO de famílias que perderam suas casas só deverá ser concluído em 2019

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ROBERTO WAACK: “Não dá pra falar em recuperação ambiental da Bacia do Rio Doce com 80% de esgoto ainda sendo jogado nas suas águas”

vernador Valadares. Segundo ela, fazendo uma retrospectiva histórica, antes do rompimento de Fundão, a maior parte dos municípios convivia com lixões, não tinha estações de tratamento de esgoto e o rio estava com a vazão bem menor, apesar da ocorrência frequente de enchentes. “O comitê, subdividido em 12 pequenos comitês dos seus tributários, desde sua criação, em 2002, desenvolveu trabalhos contínuos de monitoramento do rio, orientação sobre

uso racional de recursos hídricos na agricultura, recuperação de nascentes e várias outras atividades. Depois que o Instituto BioAtlântica (IBIO) se tornou agência da bacia do Doce e elaborou um mapa com sua vulnerabilidade, disponibilidade hídrica, biodiversidade e ponto de degradação, foi possível planejar melhor nossas ações. Hoje, o projeto Rio Vivo abrange 54 cidades, mobilizando 6,4 mil propriedades”, elencou Lucinha. Ela diz que os parâmetros de qualidade da água no Rio Doce estão dentro da série histórica da bacia, feita pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), órgão do governo de Minas que fiscaliza os recursos hídricos no Estado. No cenário da realidade que o rio tinha antes do acidente e agora, ela diz que “atualmente é uma soma de esforços, troca de experiências e uma busca por articular todas as ações que estão sendo colocadas em prática”. Para ela, é essencial que todas as ações de segurança hídrica, reflorestamento, assistência técnica aos agricultores e recuperação das nascentes sejam, de fato, executadas. SAIBA MAIS

fundacaorenova.org FOTO: ANTONIO CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

de tratamento de esgoto e gerenciamento de resíduos sólidos) de prefeituras de 39 municípios e reflorestamento de 40 mil hectares. “Não dá para falar da recuperação do rio e seus 113 tributários com 80% de esgoto sendo jogado nas águas, sem recuperar matas ciliares e nascentes. Essas ações têm prazo mais longo. Por exemplo, o modelo de restauração florestal depende da vontade e adesão do dono da terra. A fundação não tem terra. Então, o dono só vai aderir se vir essa possibilidade como algo que faça sentido econômico para ele. As nascentes já estão sendo cercadas: até o fim do ano serão mil.” Questionado sobre quando o Rio Doce voltará ao estado anterior à tragédia, Waack afirmou que o rio sofre com situações de degradação há mais de 500 anos. “Ele já está com parâmetros similares aos de antes do acidente. A natureza tem mostrado uma capacidade forte de regeneração. Com certeza, com tudo o que está sendo feito, ele estará em melhores condições no futuro.”

FOTO: NETUN LIMA

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O Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), a Artigo 19, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e a Conectas protocolaram denúncia junto ao Escritório do Alto Comissariado dos Direitos Humanos das Nações Unidas, alegando que o Estado brasileiro vem histórica e sistematicamente violando o direito humano de acesso à água potável e aos serviços de saneamento básico. A denúncia foi entregue pessoalmente ao relator especial da ONU para o assunto, Leo Heller, durante o 8o Fórum Mundial da Água. Heller, que é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em epidemiologia, informou que avaliaria o relatório e faria os encaminhamentos necessários. Ao fazer um balanço sobre o Fórum e o cenário que vê no exterior, se comparado à realidade brasileira, o relator disse não poder comentar dados brasileiros, em razão de seu contrato com a ONU. Mas afirmou que em suas missões mundo afora vê violações aos direitos humanos (DHs) de acesso à água até mesmo em países ricos, como Estados Unidos e Irlanda. “Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 6.1 e 6.2 apontam para a universalização da água potável e do saneamento e o não cumprimento deles pelos países é uma violação dos DHs. Em Detroit, que passou por um processo de desindustrialização e cuja população atual é majoritariamente pobre e negra, há uma série de problemas de acesso à água por mulheres e no período do inverno, para aquecer as casas. No Norte da França, há uma crise gravíssima que envolve os refugiados; na Irlanda, há dois anos, moradores de rua foram proibidos de usar banheiros públicos, todos casos de violação dos direitos hu-

FOTO: FERNANDO FRAZÃO

Direitos violados

FALTAM investimentos públicos na oferta de água potável e tratamento de esgotos: déficit é nacional

manos de acesso a sanitários e à água”, elencou. Segundo o relatório entregue a Leo Heller pelas entidades, mais de 34 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e mais de 100 milhões não têm seus esgotos sequer coletados. A situação em termos de coleta e tratamento de esgoto de 3.083 municípios (55% do total) não é sequer conhecida, uma vez que tais informações não estão documentadas oficialmente no sistema nacional. O último levantamento aponta que apenas 1.693 municípios (30%) tinham seus respectivos planos municipais de saneamento em 2017. Os dados foram informados pelos denunciantes. Segundo a Artigo 19 – organização internacional de direitos humanos que atua na defesa e promoção da liberdade de expressão e do acesso à informação pública – os investi-

mentos do governo brasileiro vêm caindo anualmente, com um corte de 45% entre 2012 e 2018. “Para este ano foram liberados R$ 1,6 bilhão para o saneamento em todo o Brasil. Ao mesmo tempo em que a União vem investindo cada vez menos no setor, os montantes que retira do sistema aumentam. Somente em 2016, a União recolheu R$ 2,5 bilhões das 27 empresas estaduais e distrital de saneamento na forma de imposto de renda e contribuição social”, informou a entidade. A conclusão do grupo é que esse cenário coloca em xeque o cumprimento da meta de universalização do acesso à água potável e à coleta e tratamento de esgoto até 2033, conforme prevê o Plano Nacional de Saneamento Básico. Pelo contrário: mantidos os investimentos atuais, somente em 2054 a plena universalização será alcançada.

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MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  45


MATÉRIA DE CAPA

FOTO: VALTER CAMPANATO / AGÊNCIA BRASIL

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ATRAÇÕES reuniram visitantes de todas as idades: informação e formação de uma nova consciência de cuidado com a água

A vila da cidadania ecológica

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Seu colega, Rodrigo Furtado, da mesma idade, disse não gastar água da torneira ao escovar os dentes, tampouco ficar muito tempo no banho. “São regras que meus pais colocaram. Na minha casa tem piscina e usamos muito pouco. Eu acho que o correto seria a gente compartilhar

essa água com quem não tem, com outras crianças, e ensiná-las também a economizar.” A professora de ciências do Mackenzie, Ana Paula Ferreira, juntamente com outros docentes, levou 150 alunos à Vila Cidadã para reforçar os conceitos ambientais repasFOTO: CRISTIANA ANDRADE

Um espaço para brincadeiras, diversão, jogos, mas repleto de aprendizado, conceitos e valores importantes para serem adotados no dia a dia. Foi dentro desse espírito que a Vila Cidadã, construída para receber milhares de crianças dos ensinos fundamental e médio, da rede pública e particular, se tornou um dos espaços mais visitados do Fórum. Para Mariana Bruno Duzzi, de 11 anos, aluna do sexto ano do ensino fundamental da Escola Mackenzie, a mostra foi um reforço nos conceitos que já tinha visto em sala de aula e aplica em casa. “Acho importante as crianças aprenderem a economizar água. Na minha casa nós já economizamos, apesar de termos fosso e bomba. Eu, normalmente, tomo banho de cinco minutos. Só quando lavo o cabelo é que demoro uns 10”, contou.

RODRIGO e Mariana com a professora Ana Paula: conceitos aprendidos em sala de aula reforçados na prática


CONSCIÊNCIA E EDUCAÇÃO Éric Henrique de Sousa, de 21 anos, aluno do curso técnico de assistente administrativo do Senai, também foi à Vila Cidadã com uma equipe da escola. Se disse consciente sobre as questões hídricas e fazer sua parte. Ele mora em Novo Gama (GO), a 40 quilômetros de Brasília (DF) e por lá não há racionamento de água, como ocorre na capital federal. “Mesmo sem o racionamento, acho importante adotar ações de economia e também esse debate sobre a água. Em casa, faço economia com banhos rápidos, mas também aproveito a água da chuva num reservatório para lavar roupas e a área externa”, explicou. Presente na Vila Cidadã por meio do Projeto Golfinho, ação social da Caesb, concessionária de água e esgoto de Brasília, o professor Maurício Ferreira da Silva custava a dar conta de tantas crianças. Teve se dividir com outros colegas para levar, com segurança, a meninada. “Nossos alunos são crianças em vulnerabilidade

FOTO: WILSON DIAS / AGÊNCIA BRASIL FOTO: FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM / AGÊNCIA BRASIL

sados em aula. “Diante dos sinais de escassez aqui em Brasília, com o racionamento, e em outras partes do mundo, precisamos repensar tudo: saneamento, consumo individual, nossas horas no banho, a relação água e saúde”, disse. Questionada sobre as alterações previstas pelo Ministério da Educação para implantar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), Ana Paula acredita que o conteúdo que hoje já é repassado transversalmente na maioria das escolas, vai ser mais reforçado ainda. “Um dos focos da BNCC é a sustentabilidade, além de permitir que a criança letrada seja capaz de entender o que acontece na sua vida e no mundo. ESPAÇO simula coleta de lixo no mar: plástico é vilão da mortandade de animais Ou seja, que tenha a capacidade de enxergar a questão do meio ambiente como um todo.”

alunos. Muito importante”, disse.

JOGO Trilha do Cerrado: aprendizado sobre um dos biomas mais ricos do mundo

social de Sol Nascente, uma comunidade bem carente de Ceilândia. Elas são selecionadas pelas próprias escolas onde estudam para participar do Projeto Golfinho, que trabalha, além

das questões ambientais, ética, valores humanos e cidadania. Participar das atividades lúdicas na Vila Cidadã é uma coroação do trabalho que desenvolvemos ao longo do ano com os

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MATÉRIA DE CAPA

SABÃO ECOLÓGICO FOTO: CRISTIANA ANDRADE

Cursando Letras no Instituto Federal de Brasília (IFB), Alessandra Teixeira, de 40 anos, era, possivelmente, uma das “alunas” mais experientes presente na Vila Cidadã. Ela comandava um estande que mostrava um sabão ecológico, feito com resíduos de óleo de cozinha e casca de pequi. “Há cerca de um ano, vimos produtores de pequi descarregando um caminhão com cascas do fruto em um córrego entre Taguatinga e Samambaia (cidades-satélite de Brasília). E fizemos uma abordagem com eles, do quão poluente aquela ação era para o curso d’água. Descobrimos que a casca do pequi ALESSANDRA TEIXEIRA: compartilhando saberes com a sociedade era riquíssima em gordura e, essa gordura, em interação com a soda, dava um sabão muito bom!”, lembrou Alessandra. A partir daí, a estudante, em interação com outros colegas do IFB, em especial com o pessoal do Núcleo de Estudos Agroecológicos, ofereceu uma capacitação para esses produtores de reaproveitamento do pequi. “Nossos experimentos para chegar ao sabão levaram seis meses, para encontrarmos o ponto bom da mistura. Descobrimos que era melhor deixarmos as cascas fermentarem sozinhas a cozinhá-las”, contou. E, como não poderia deixar de ser, Alessandra Teixeira compartilhou com a Revista Ecológico a receitinha. “Afinal, por sermos alunos de uma escola pública federal, devemos compartilhar os conhecimentos com a sociedade.” Confira:

Modo de fazer: Coloque 7 kg da casca de pequi no galão metálico e tampe. Deixe essa casca fermentar por oito dias. 

Pegue o litro de água quente e dissolva a soda por 40 minutos. Mexendo bem. 

Jogue essa mistura no galão metálico e mexa bem. Jogue a mistura no molde que quiser (no caso do IBF, eles fizeram moldes retangulares, com restos de madeira, e forraram com papel). 

INGREDIENTES 

7 (sete) quilos de casca de pequi (foto)

1 (um ) quilo de soda cáustica.

Deixe o sabão secar por oito dias para dar o ponto do corte.

1 (um) litro de água quente.

1 (um) galão de tinta vazio (sim, aquele de metal). 

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O produto não fica com cheiro de pequi e, apesar da cor amarronzada, não mancha.

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RevistaEcológico.pdf 1 26/03/2018 16:25:30

Congresso Ambiental VIEX O grande encontro de líderes do setor de meio ambiente

19, 20 E 21 DE JUNHO BLUE TREE PREMIUM MORUMBI, SÃO PAULO - SP

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Alexandre Sion, Sócio, Sion Advogados · Alexandre Waltrick Rates, Presidente, FATMA - Fundação do Meio Ambiente · Aljan Machado, Diretor de Meio Ambiente, CTG Brasil · Ana Cristina Pasini da Costa, Diretoria de Avaliação de Impacto Ambiental, CETESB · Ana Maria de Oliveira Nusdeo, Presidente, Instituto O Direito por um Planeta Verde · Andrea Hafner, Gerente de Meio Ambiente, Vale · Claudio Klemz, Especialista em Políticas Públicas da Equipe de Àgua, TNC · Daniel Smolentzov, Procurador do Estado de São Paulo Chefe, MP SP · Evandro Mateus Moretto, Presidente, Associação Brasileira de Avaliação de Impacto · Flavia ResendeCoordenadora de Projetos em Práticas Empresariais e Políticas Públicas, Instituto Ethos · Isabel Peter · José Gouvêa, Gerente, CSN - Companhia Siderúrgica Nacional · Larissa Amorim, Diretora de Licenciamento Ambiental, IBAMA · Marcelo Sodré, Margarete Schimidt, Margarete Schimidt, Coordenadora do GT Carreiras Sustentáveis, ABRAPS · Marina Freire, Siqueira Castro Advogados · Patricia Iglecias, Superintendente de Gestão Ambiental, USP · Rafael Feldmann, Mattos Filho Advogados · Ricardo Ribeiro Rodrigues, ESALQ/USP · Roberto Stanchi, Coordenador da Coordenação Nacional de Licenciamento, IPHAN · Rodrigo Cury Bicalho, Advogado, Secovi-SP · Rogério Menezes, Presidente, ANAMMA · Simone Nogueira, Sócia, Siqueira Castro Advogados · Thomaz Toledo, Diretor Institucional, Ambientare · Walter José Senise, WSENISE Advocacia · Werner Grau Neto, Pinheiro Neto Advogados

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MATÉRIA DE CAPA

ÁGUA E NATUREZA não dependem de nós, humanos. Nós é que dependemos delas

Frutos de um mesmo amor Uma reflexão ecumênica para reavivar a esperança e a gratidão pela existência de todas as formas de vida. Movidos por esses e outros bons sentimentos, num palco decorado com arranjos de gérberas brancas – símbolo da beleza e da energia positiva da natureza –, representantes de diferentes crenças se reuniram para dialogar sobre “Água e Espiritualidade”. Num tocante encontro do sagrado com a vida, a plateia se emocionou com a bênção da água, enquanto o adocicado cheiro de manjericão tomava conta do auditório lotado. Foram inúmeras as mensagens positivas e também marcantes os alertas sobre a urgência de reconexão com a água, 50  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

com a natureza e com a teia que sustenta a existência humana no planeta. Respeito, cuidado, cooperação e ética foram alguns dos valores citados e, não por acaso, cada vez mais esquecidos em tempos de rotinas marcadas pelos excessos da tecnologia e pela impessoalidade dos aparatos eletrônicos. “Compartilhar saberes é ampliar horizontes. Revigora nosso elo com o sagrado, tendo a natureza como algo divino e, a água, como a grande fonte da vida. A água é um ser de confluência, elemento vital que nos une ao universo”, pontuou a mediadora do painel, a primeira-dama do Distrito Federal, Márcia Rollem-

berg, explicando que o encontro teve como inspiração a convergência e a fluidez das águas. Invocando Deus como “O Clemente” e “O Misericordioso”, o presidente do Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil, Abdel Halim, disse que a água é um instrumento de purificação enviado por Deus. “Nem a terra nem os céus: o dono da água é o nosso Senhor e Criador. A humanidade deve se voltar para o caminho ensinado por Deus, pautado na ética, na moralidade, na boa conduta, na justiça e no bom caráter.” Fundador do Ministério Sara Nossa Terra, o bispo Robson Rodovalho relembrou ensinamentos de Cristo. “Je-


ENCONTRO ecumênico teve inspiração na fluidez e na convergência das águas

chem os potes. Que sejamos, mulhe- seres de irmãos e irmãs, porque tores e águas, mais respeitadas.” dos emanam de um mesmo amor, de um mesmo cuidado do Criador. BENDITA E BENFAZEJA Não podemos ver a água como uma A encíclica “Laudato Si’”, do Papa criatura que nos serve e está semFrancisco, foi citada pelo secretário- pre à nossa disposição. Tampouco -geral da Conferência Nacional dos ela pode servir de instrumento de Bispos do Brasil (CNBB), dom Leo- dominação, ser sinônimo de mercanardo Stein. Ele ressaltou duas pala- doria, de dinheiro. A água é bendita, vras consideradas essenciais na rela- é benfazeja, é preciosa e útil. Não ção homem-água: cuidado e cultivo. pode ser poluída, negociada.” “São Francisco chamava todos os Conselheira Nacional de Cultura Alimentar, a jovem Tainá Marajoara conclamou: “Vivemos tempos de escassez e contaminação, mas sabemos que há saídas. Temos de abrir nossos corações para os caminhos que nos levam à água limpa. À água limpa para as nossas sementes, para nossas florestas, para as nossas crianças e para todo o planeta”. E completou: “Sou filha de um povo que veio do fundo, do Marajó: a barreira entre o oceano e o Rio Amazonas. Ambos merecem cuidado, assim como cada um de nós, cada fruta, cada peixe e cada grão de areia”. Que a água, a esperança e a gratiENCÍCLICA "ecológica" do dão continuem fluindo. Papa Francisco alerta para Abundantemente.  importância do cuidado e cultivo FOTO: JEON HAN / KOREA.NET

RESPEITO MÚTUO Para Arismar Léon, representante da Associação Médico-Espírita do Distrito Federal, quando o homem alcançar o real entendimento de sua condição como ser espiritual numa vivência humana, dará a devida atenção ao próximo, ao planeta e a todos os elementos que o compõem, incluindo a água. “Origem de todas as formas de vida, a água também é veículo do bom convívio social. Em nossa doutrina, a enxergamos ainda como remédio indispensável à saúde do corpo físico e espiritual. Esse encontro ecumênico confirma uma tendência do próximo milênio, levando o homem a se aproximar de seus semelhantes, num processo de crescimento, aprendizado, respeito mútuo e cooperação, em prol de um planeta melhor para todos”, afirmou. Porta-voz das matrizes africanas, Rosy Mary, da Casa de Oxumaré, em Salvador (BA), lembrou a correlação entre a água e o feminino. “Todos viemos do útero, fomos gestados na água. Ela é importante principalmente para as mulheres, que lavam, cozinham e alimentam o mundo. Quando a água fica longe e escassa, são sempre as mulheres que vão buscá-la, são elas que en-

FOTO: SÉRGIO DUTTI

sus é a água viva. Ela é um dos maiores milagres da natureza e o melhor símbolo da espiritualidade. Água é vida, é paz, é tudo de que precisamos.” O antropólogo Roberto Crema, reitor da Unipaz, destacou a importância da integração das tradições espirituais e, sobretudo, da ciência com a consciência. “Da água depende a reconstrução do projeto humano. Para que haja uma transformação no mundo, o encontro com o sagrado precisa acontecer no interior de cada um de nós e se expandir na ecologia social e planetária.”

MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  51


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A

GESTÃO & TI

ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

O SEGREDO DA ÁGUA

cabo de ouvir o Dr. Dj. Patil, matemático e cientista da computação norte-americano, explicar que tudo são dados. Tudo, quero dizer, todos os problemas do mundo, segurança, saúde, educação e, concluo, água! Faz todo o sentido do mundo pensar assim, que a tecnologia está mudando a nossa vida e mudando para melhor. Dizia William Edwards Deming, grande estatístico estadunidense: “Não se gerencia o que não se mede, não se mede o que não se define, não se define o que não se entende, e não há sucesso no que não se gerencia.” No nosso planeta big data, saber o que acontece com as águas vai salvá-las. Desenvolver meios de limpar os mares e os rios, preservar as nascentes, mapear tudo o que acontece onde nosso bem mais importante nasce e deságua é o que importa. Água, meu amigo, é energia! Corria 1970 e o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Em Israel, minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares, em fontes, em riquezas.

E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia.” Corria 1970, entendeu? Quarenta e oito anos atrás nosso poeta se espantava com a tecnologia criando desertos molhados. Sabe o que aconteceu de lá para cá? Uma revolução, meu amigo. Só que nossos governos parecem não se importar com isso. Não entendem os dados. Não entendem a estatística e, por isso, não gerenciam. Você sabia que o esgoto de sua casa pode sair limpinho de volta para os rios? E sabia que podemos produzir energia suficiente para tirar água do mar e beber o quanto quisermos e que Israel, sempre Israel, já faz isso? O “Dia Mundial da Água” bem podia ser o “dia da tecnologia da água”, porque o homem pegou os recursos hídricos do planeta e sujou, sujou, sujou... E agora precisa limpar, limpar, limpar. Não faltam exemplos de sucesso e não faltam possibilidades; certo que falta vontade! Vamos nos pôr a caminho de Jerusalém, da terra onde, em se plantando, não dava nada e agora dá. Arregacemos as mangas. Liguemos nossos computadores e recolhamos os dados. Vamos entender, definir, medir e gerenciar a água! É só assim, com a mágica dos bits, que, não por milagre, vamos construir um jardim para nossos filhos. 

TECH NOTES l 1.Tratando água em pequena escala

goo.gl/ovHQuJ

l 2. Quem é Dj. Patil?

goo.gl/Kx6St3

l 3. Sempre Israel

goo.gl/bccDqw

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(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.


“Em gestão de águas, desperdiçar é demoníaco, economizar é humano e produzir é divino.” DEMÓSTENES ROMANO FILHO, jornalista e escritor

ENCARTE ESPECIAL (10)


ENCARTE ESPECIAL FIEMG (10) FOTOS: MIGUEL ÂNGELO / CNI

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REPRESENTANTES DA FIEMG e da CNI durante o Fórum: parceria bem-sucedida em prol da indústria sustentável

Fiemg cumpre missão “O resultado foi muito positivo e, nossa expectativa, plenamente cumprida.” A constatação é do gerente de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Wagner Soares Costa, ao fazer um balanço da participação da entidade que, em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), instalou um dos estantes mais visitados do Fórum. Um dos destaques da participação da Fiemg se deu durante o “Encontro de Negócios”, realizado no dia 22, reunindo representantes de 182 empresas de 25 países (84 delas brasileiras, de 14 estados). “Minas Gerais marcou presença com 19 empresas e temos relatos de perspectivas concretas de realização de novos negócios”, frisou Costa. Além de estreitar relações com representantes de governos internacionais, tais como Israel, Espanha e Portugal, a equipe de Meio Am54  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

A edição do Fórum Mundial da Água no Brasil foi a maior já realizada. Recebeu mais de 120 mil pessoas de 172 países, além da presença de 12 chefes de Estado. As 300 sessões temáticas realizadas no Centro de Convenções Ulysses Guimarães tiveram a participação de 10,6 mil congressistas biente da Fiemg também recebeu no estante o staff de instituições nacionais, tais como da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Ibama. Outro ponto alto do Fórum foi a apresentação de boas práticas de gestão hídrica adotadas por indústrias mineiras, sobretudo de tecnologias vol-

tadas para reúso e economia de água, em diferentes setores produtivos. Ao longo de toda a semana, ocorreram inúmeras palestras e seminários que atraíram não só o empresariado, mas também representantes da sociedade civil, principalmente integrantes de comitês de bacias hidrográficas. “Foi uma excelente oportunidade de aproximação e diálogo, contribuindo para que a indústria deixe de ser vista pela sociedade apenas como uma grande usuária/ consumidora de água. São inúmeros os exemplos de que o setor vem investindo maciçamente em novas tecnologias e soluções, numa prova clara do nosso compromisso com a gestão hídrica responsável e sustentável. E não poderia ser diferente. Afinal, todos dependemos da água”, concluiu Costa. SAIBA MAIS

www.fiemg.com.br www.worldwaterforum8.org


FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

FIQUE POR DENTRO

AÇÕES SUSTENTÁVEIS DA FIEMG

“Mostramos aos milhares de participantes do evento como o setor atua de forma estratégica, com pesquisa, inovação e tecnologia, para que os recursos hídricos sejam diferenciais para Minas Gerais e para o Brasil ganhar em competitividade e em sustentabilidade.” OLAVO MACHADO, presidente da Fiemg

l Programa de Economia Circular em Distritos Industriais: em 2017, a Fiemg, baseada nos resultados do Sistema Integrado de Bolsa de Resíduos e do Programa Mineiro de Simbiose Industrial, lançou esse programa que visa propor planos de negócios coletivos para as indústrias de um Distrito Industrial e sua área de influência, criando um ambiente sustentável de trocas de recursos, com clara redução de uso dos recursos naturais, especialmente os hídricos. l Minas pelas Águas: movimento da Gerência de Meio Ambiente responsável pelas orientações sobre a legislação de recursos hídricos vigente e sobre os principais instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, como a cobrança pelo uso da água, a outorga, o cadastro de usuários, etc. Representa o setor industrial no conselho de recursos hídricos e comitês de bacia do domínio do Estado e da União. Também possui forte atuação em ações de gestão do uso dos recursos hídricos. Entre os resultados estão: - Lançamento do “Pacto de Minas pelas Águas” para mais de 1.000 colaboradores da indústria em todas as regionais e sede;

Com uma programação diferenciada, o estande da Fiemg/CNI foi palco de palestras e seminários que abordaram temas como o uso racional de água na indústria, tecnologias sustentáveis, economia circular e oportunidades de negócios e investimentos

- Redução acima de 30% do consumo de água nas unidades do Sistema Fiemg, por meio da campanha “Todos pela Água”; - Apoio institucional na obtenção de mais de 1.785 outorgas de direito de uso de recursos hídricos em todo o estado de Minas Gerais; - Representação em 38 comitês de bacia hidrográfica e 34 centros de treinamento.

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MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  55


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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (10)

Durante o Fórum, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lançou o “Compromisso Empresarial para a Segurança Hídrica”. Pelo menos 18 empresas assinaram o documento e se comprometeram com a gestão responsável da água, com a promoção da eficiência hídrica nas indústrias e com o combate ao desperdício. São seis compromissos, norteados em três pilares: disponibilidade, uso e destinação da água. “Diante da realidade de escassez que estamos vendo, é preciso que não somente as indústrias façam a sua parte. Mas também o governo, promovendo o saneamento, e os próprios cidadãos, que deveriam ser conscientizados sobre a importância de usar água racionalmente”, afirmou Marina Grossi, presidente do CEBDS. “O compromisso é o primeiro passo para a criação de uma plataforma, na qual as empresas irão comparti-

FOTO: SÉRGIO DUTTI

Compromisso empresarial

MARINA GROSSI: "O brasileiro que mora em prédio nem sabe quanto gasta com água mensalmente"

lhar suas melhores práticas e oferecer à sociedade transparência sobre a utilização da água em suas atividades”, explicou, acrescentando que a plataforma ficará como um legado do Fórum e poderá servir de base para influenciar outras empresas a também adotarem medidas inspiradas nas ex-

periências relatadas. Entre as instituições signatárias estão Anglo American, Ambev, Braskem, Ecolab, Aegea, CPFL Energia, CPFL Renováveis, Eletrobrás, BRK Ambiental, Grupo Boticário, Heineken, Natura, Vedacit, Coca-Cola, New Steel e Unilever. Nas redes sociais, o CEBDS lançou a campanha #TodosJuntosPelaÁgua. Segundo Marina, o objetivo é mostrar que a responsabilidade do uso da água é de todos e não só do setor empresarial e da agricultura, por exemplo. “No Brasil ainda há muito desperdício: a cada 100 litros de água coletados e tratados, em média, apenas 63 litros são consumidos. Ou seja, 37% da água no Brasil é perdida, seja com vazamentos, roubos e ligações clandestinas, falta de medição ou medições incorretas no consumo, resultando num prejuízo de R$ 8 bilhões. SAIBA MAIS

cebds.org

Representando o setor industrial, a Fiat Chrysler Automóveis (FCA) marcou presença no Fórum, onde apresentou algumas de suas práticas de gestão hídrica. Durante sua participação, no Espaço Brasil, o gerente de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho da FCA para a América Latina, Cristiano Felix, detalhou ações de preservação e recirculação hídrica que fazem da montadora uma das referências no Cone Sul, além de lhe assegurar reconhecimentos nacionais, como o Prêmio ANA 2017. “Graças ao Prêmio ANA, fomos selecionados para participar do Fórum ao lado de outros vencedores, que também apresentaram seus 56  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

FOTO: L. NOVA/ FCA GROUP / DIVULGAÇÃO

Destaque hídrico

CRISTIANO FELIX: "Nosso compromisso com a água é uma estratégia de longo prazo"

cases. A gestão hídrica é extremamente importante para o futuro das empresas, todas precisam de água.

Se não nos agirmos agora, de forma responsável, no futuro certamente vamos pagar por isso, como empresa e como sociedade. Nosso compromisso com a água é uma estratégia de longo prazo”, ressaltou Felix. A água usada no processo produtivo da FCA é proveniente das estações de tratamento de efluentes. O índice de recirculação é de mais de 99%, ou seja, o efluente é tratado e retorna à operação. O recorde nacional de reúso de água no grupo é do Polo Automotivo Fiat, em Betim (MG): com 99,6%, volume suficiente para abastecer 318 mil pessoas/mês. SAIBA MAIS

mundofca.com


SISTEMAS que abastecem a Região Metropolitana de BH, como o do Rio Manso, serão beneficiados com o acordo

Em prol dos mananciais O 8o Fórum Mundial da Água também trouxe mais uma boa notícia para Minas Gerais. O Governo do Estado, por meio da Copasa, firmou parceria com a Fundação Banco do Brasil para a continuidade das ações do Programa Pró-Mananciais, responsável por mobilizar as comunidades e parceiros estratégicos locais - reunidos no Coletivo Local de Meio Ambiente (Colmeia). O objetivo é proteger e conservar nascentes e mananciais usados para o abastecimento da rede pública. Entre as principais atividades desenvolvidas pelo Pró-Mananciais - que se espelha no Programa Cultivando Água Boa, de Itaipu - estão o cercamento de nascentes, o plantio de mudas nativas em mata ciliar e a implantação de bacias de contenção de enxurradas. O Colmeia participa de maneira colaborativa das etapas de diagnóstico, planejamento, construção e acompanhamento do plano de ações na microbacia escolhida. Serão investidos R$ 8,5 milhões nas próximas ações do programa, que inclui ainda a abertura e a adequação de estradas, e a implementação de tecnologias sociais, como fossas sépticas biodigestoras e cisternas para captação de água da chuva. Desenvolvido pela Copasa, o Pró-

FOTO: SINARA CHENNA

FOTO: VERONICA MANEVY / IMPRENSA MG

FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

O TERMO foi assinado pela presidente da Copasa, Sinara Meireles, e o presidente da Fundação Banco do Brasil, Asclépius Soares (à esq.), na presença do chefe da Assessoria Técnica da concessionária mineira, João Bosco Senra (à. último à dir.)

-Mananciais teve início em 2017, envolvendo 58 cidades mineiras, com ações de proteção e recuperação das águas, desde as nascentes até o ponto de captação. “Com esse termo de cooperação, serão beneficiadas comunidades em microbacias que asseguram o abastecimento humano de várias cidades mineiras. A meta é beneficiar 149 municípios de diferentes regiões, incluindo cidades da Grande Belo Horizonte, como Sabará, Matozinhos e São José da Lapa”, detalhou João Bosco Senra, chefe da Assessoria Técnica da presidência da Copasa.

A Fundação Banco do Brasil, lembrou Senra, tem grande expertise na área de tecnologias sociais e permitirá que as próprias comunidades escolham aquelas que serão adotadas para a recuperação dessas microbacias. “Com esse apoio e maior engajamento popular, certamente ganharemos agilidade na implantação das ações. A intenção é abranger, nos próximos anos, todos os 636 municípios em que a Copasa atua.”  SAIBA MAIS

www.copasa.com.br www.fbb.org.br MARÇO DE 2018 | ECOLÓGICO  57


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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (10)

O desafio de universalizar os serviços de saneamento no Brasil tende a ficar cada vez mais distante. A constatação é de representantes da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) que, durante o 8o Fórum Mundial da Água, reafirmaram seu posicionamento contrário à proposta de revisão do Marco Legal do Saneamento no país, por meio de Medida Provisória (MP). Uma das principais críticas da ABES está centrada no fato de o governo federal não se valer de um projeto de lei, considerado instrumento mais democrático – e de discussão mais ampla – para amparar as mudanças pretendidas. “O uso de medida provisória só se justifica em dois critérios fundamentais: relevância e urgência. Apesar de assunto relevante, o mesmo não é caracterizado pelo fundamento da urgência, mesmo porque os atores envolvidos não tiveram tempo suficiente para elaborar o texto da medida proposta. As mudanças são relevantes e estruturais. Portanto, devem ocorrer após intenso debate 58  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

FOTO: ESPAÇO SP / DIVULGAÇÃO

Saneamento urgente

“No Brasil, 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável. Água, saneamento e saúde são bens públicos.” ROGÉRIO SIQUEIRA, presidente da ABES/MG

com todo o setor de saneamento e com o Congresso Nacional”, ponderou a entidade, em seu posicionamento sobre o assunto.

Presente no debate promovido no primeiro dia do Fórum, o presidente da ABES-MG, Rogério Siqueira, ressaltou que a missão da entidade é lutar pela universalização do saneamento no país. “Para cada real investido em tratamento de esgoto e acesso à água limpa economizam-se R$ 4 em saúde. Para nós, água, saneamento e saúde são bens públicos”, concluiu. Na abertura do Fórum, o presidente Michel Temer informou que o Executivo está elaborando um projeto de lei para “modernizar” a legislação e incentivar investimentos em saneamento básico no país. No entanto, ele não detalhou a proposta nem informou quando ela será enviada ao Congresso Nacional. SAIBA MAIS

www.abes-mg.org.br


FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

A campanha #SomosMaisSaneamento foi apresentada no estande da CNI/FIEMG durante o 8o Fórum Mundial da Água. A iniciativa envolve mais de 30 organizações que atuam em prol da agenda de saneamento básico, entre as quais a CNI. Seu objetivo é fortalecer o debate sobre o setor mais atrasado da infraestrutura no Brasil. O gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, ressaltou a importância da campanha para engajar entidades a favor da universalização do saneamento no país. “A campanha é uma oportunidade para esse tema tão relevante estar presente na agenda brasileira de prioridades”, destacou Bomtempo. Estiveram presentes no lançamento da campanha políticos, em-

FOTO: MIGUEL ÂNGELO / CNI

#SomosMaisSaneamento

DAVI BOMTEMPO: em defesa do engajamento solidário

presários e representantes de órgãos ambientais; o presidente do Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos

de Água e Esgoto (Sindcon), Alexandre Lopes; o especialista sênior do Banco Mundial Marcos Thadeu Abicalil; e o coordenador da Fundação Amazonas Sustentável, André Ballesteros. Lopes falou sobre a iniciativa da campanha e a importância de a sociedade continuar partilhando suas preocupações a respeito do saneamento, como forma de engajar mais pessoas em prol do direito ao esgotamento sanitário. “O tema precisa ser discutido em âmbito nacional e colocado como prioridade na campanha eleitoral. O serviço de saneamento precisa ser levado com urgência a quem mais necessita”, afirmou. SAIBA MAIS

www.portaldaindustria.br

Water Business Day Em pleno domingo, véspera do Fórum, cerca de 250 representantes dos setores público, privado e do terceiro setor participaram das atividades do “Water Business Day”. O encontro foi organizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a Rede Brasil do Pacto Global. As discussões passaram por três eixos temáticos:  Caso da Água nos Negócios Circulares, que traçou barreiras e oportunidades para a circulação de ideias, propostas e bons exemplos de gestão hídrica no setor privado;

Riscos – Medidas, Monitora-

mento e Relatório, que explorou crucial para a segurança da água; os índices e instrumentos utilizados para monitorar e reportar ques-  Transparência e qualidade das tões relacionadas; informações;  Gestão da Água para avançar  Ação coletiva entre o negócio, os nos Objetivos de Desenvolvimen- governos, ONGs e outras partes into Sustentável (ODSs) e criar um teressadas; Valor Compartilhado, que buscou entender o papel da gestão corpora-  Necessidade de uma estrutura tiva da água no alcance do ODS 6. regulatória que aumente a confiança entre o negócio, o governo e a sociedade e crie um ambiente sadio em RECADOS DO EVENTO investimentos como um fator-chave, especialmente para o reúso de água;  A indústria é parte da solução  Valoração da água pelas emprepara as questões hídricas; sas para assegurar o investimento  Construir a confiança: promoção apropriado nas soluções a longo da colaboração entre o negócio e as prazo (infrastrutura, tecnologia, partes interessadas como um fator ação coletiva, etc.). 

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MEMÓRIA ILUMINADA - MARQ DE VILLIERS FOTOS: DIVULGAÇÃO

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VILLIERS: "Espancar todas as crianças do mundo não vai nos trazer a água de volta"

A DOR DA

FALTA D’ÁGUA 60  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018


Quase duas décadas depois de seu lançamento, uma das principais obras do jornalista sul-africano mostra que a sociedade avançou pouco na proteção, respeito e manutenção da água Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

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uando o assunto é água, provavelmente não há alguém mais preparado para falar do recurso natural no meio jornalístico do que Marq de Villiers. Nascido em 1940 na cidade de Bloemfontein (conhecida como a “Cidade das Rosas”), o jornalista sul-africano conviveu com a escassez de água desde cedo. Viveu a infância em uma região árida, em que um poço perfurado pelo avô era a única fonte de água da família. Quando iniciou sua carreira no jornalismo, no início da década de 1960, já sabia que a água seria um tema constante em sua vida, e não apenas uma questão técnica a ser pesquisada. A prova disso é seu livro “Água”, lançado em 1999 e que ganhou uma reedição ampliada e revisada. A obra, como o próprio Villiers define, é resultado de mais de 30 anos coletando amostras de água em várias partes do mundo. E, incrivelmente, permanece atual. Villiers conversou com vários especialistas em recursos hídricos, incluindo hidrólogos, para entender melhor como funciona o ciclo da água, sua disponibilidade, usos e abusos. Desenvolveu diagnósticos da situação do recurso natural de locais que visitou, analisou o impacto da escassez para as comunidades e a biodiversidade local e também conheceu bons exemplos de conservação. “Quando comecei a escrever este livro, achei que entendia de água. Mas eu não entendia, não verdadeiramente. Eu sabia de onde vinha a água da minha pequena fonte e como a cobertura formada pela floresta sustentava o lençol freático, mas não tinha conhecimento real da intrincada interconexão do sistema hidrológico global”, disse o jornalista, que recebeu dois prêmios canadenses pelo livro (Canadian Science Writers Award e Governor General’s Award for Non Fiction). Apesar de mostrar a insatisfação das pessoas

AS DUAS primeiras edições do livro, de 1999 e 2003, foram um sucesso de vendas

na forma como as autoridades e as empresas ainda tratam a questão hídrica, Villiers afirma que a água se tornou um recurso ameaçado não apenas “pelas ações deliberadas de homens perversos, os corporativistas violadores da fantasia ecológica”. Mas também pelos “pequenos atos de muitas, inúmeras pessoas comuns, que sempre os praticaram”. A seguir, a Revista Ecológico convida você, caro leitor, a uma viagem ao mundo literário e informativo de “Água”. Conheça e rememore conosco a realidade hídrica global sob o olhar realista, mas também otimista e espirituoso, de Marq de Villiers:

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MEMÓRIA ILUMINADA - MARQ DE VILLIERS

“Os seres humanos podem viver um mês sem comida, mas morrerão em menos de uma semana sem água.”

l BEM UNIVERSAL “Quando eu ainda era criança compreendi que sem água tudo morre, mas só bem mais tarde fui entender que ninguém ‘possui’ a água. Ela pode nascer na sua propriedade, mas só passa por lá. Você pode usar e abusar dela, mas ela não lhe pertence. É parte do bem universal, não uma ‘propriedade’, mas parte do sistema de sustentação da vida.”

xisto argiloso do substrato. A aproximadamente 250 metros, os perfuradores encontraram um aquífero. E embora eu na época fosse apenas uma criança, ainda me lembro das gotas frias e claras da água do centro do mundo misturando-se às lágrimas do velho na poeirenta terra da fazenda. Para meu avô, aquilo era um milagre, uma coisa pura e boa, a vida extraída da rocha.”

l MEMÓRIAS “Cresci em uma zona árida, na austera mas bela paisagem do Grande Karoo, na África do Sul, nas proximidades do que meus ancestrais chamavam de Thristland (“Terra da Sede”). Lá os rios raramente fluíam. Durante a maior parte do ano eles ficavam reduzidos a poças barrentas, que algumas vezes até desapareciam. Meu avô foi fazendeiro nessas terras incertas, e a água – a ideia da água, a ânsia pela água – consumiu sua vida.”

“Meu avô era um homem que entendia o solo e sabia como funcionavam os sistemas naturais, e ele provavelmente tinha uma compreensão intuitiva de como a água havia sido guardada nos interstícios das rochas subterrâneas tantos séculos antes. Acho que ele considerava isso um presente de Deus, para ser usado de forma sábia e sem esbanjamento, mas de qualquer forma usado, como a chuva, que também é dada por Deus, para produzir as coisas que os fazendeiros devem produzir. Ele nunca soube da assustadora finitude da água.”

“Perto do fim da vida, meu avô trouxe um equipamento de perfuração e escavou um buraco de 300 metros de profundidade na rocha e no

l PRODUÇÃO “O problema com a água – e existe um problema com a água - é que não se está produzindo mais

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água. Não se está produzindo menos, mas também não se está produzindo mais. Hoje existe a mesma quantidade de água no planeta que existia na préhistória. As pessoas, no entanto, estão fazendo mais – muitíssimo mais do que é ecologicamente sensato – e todas essas pessoas são dependentes da água para viver, para seu sustento, para se alimentar e, cada vez mais, para suas indústrias.”

l INDIFERENÇA “Os seres humanos podem viver um mês sem comida, mas morrerão em menos de uma semana sem água. Eles consomem, desperdiçam-na, envenenam-na e, inquietantemente, mudam os ciclos hidrológicos, indiferentes às consequências: muita gente, pouca água, água nos lugares errados e em quantidades erradas.” l AMBIENTALISMO “O movimento ambientalista, agora acostumado aos paroxismos desanimadores das profecias malthusianas, previu crescentes conflitos universais entre demanda e oferta. Ismael Serageldin, então presidente do Banco Mundial para assuntos relacionados ao meio ambiente e ex-presidente da Comissão Mundial da Água, declarou rudemente alguns anos atrás que ‘as guerras do século XXI serão travadas por causa da água’. Ainda que tenha sido severamente criticado por sua opinião, ele se recusou a desmenti-la.” l CRISE “A água está em crise na China, no sudeste da Ásia, no sudoeste da América, no norte da África – na verdade, na maior parte da África, com exceção das bacias do Congo, do Níger e do Zambezi. Mesmo na Europa há escassez de água. Seca já não é uma palavra estranha à Inglaterra, onde os lençóis freáticos já declinavam no início da década de 1990.” l SAARA “O Saara é o maior deserto do mundo, a apoteose da seca, mas mesmo sobre a superfície ou pouco abaixo dela ele não é totalmente desprovido de água. Vários grandes rios nascem fora dos seus limites, correm através do deserto ou nele desaparecem, impactando de várias maneiras sua superfície e suas águas subterrâneas.”

FOTOS: SHUTTERSTOCK

“A quantidade de água existente no planeta com certeza não mudou desde as eras geológicas: o que tínhamos então continuamos a ter. A água pode ser poluída, maltratada e mal utilizada, mas não criada nem destruída. Ela apenas migra.”

“A cada oito segundos morre uma criança por causa da contaminação da água potável.” l EGITO “As reservas de água do próprio Rio Nilo, o berço da civilização, estão em perigo. O Egito é um usuário eficiente da água, mas os egípcios estão consumindo absolutamente todo o suprimento disponível. E a população está crescendo mais de 3% ao ano. Há um milhão de novos egípcios a cada nove meses.” l CHINA “Em milhões de hectares no norte da China, o lençol freático está decrescendo a uma taxa de um metro por ano. A irrigação, e seu desperdício de água escoada – leva a culpa.” “A China, com 22% da população mundial e somente 6% de sua água doce, já se encontra em sérios problemas: um terço dos poços do noroeste já secou e mais de 300 cidades já sofreram falta d’água.”

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MEMÓRIA ILUMINADA - MARQ DE VILLIERS

l SANEAMENTO “Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água potável limpa e mais de 2,9 bilhões não têm acesso a serviços de saneamento. A realidade é que a cada oito segundos morre uma criança por causa da contaminação da água potável, e o saneamento tende a ficar cada vez pior, principalmente devido à tendência mundial de deslocamento do homem do campo para as favelas dos centros urbanos.” l DEGRADAÇÃO “Somente um terço da água que flui anualmente para o mar é acessível aos homens. Dessa quantidade, mais da metade já tem destino e está sendo usada. Esta proporção talvez não pareça muito, porém, a demanda vai dobrar em 30 anos. E muito do que se encontra disponível está degradado por aluvião erodido, esgotos, poluição industrial, produtos químicos, excessos de nutrientes e pragas de algas.” l AQUECIMENTO GLOBAL “Há 18 mil anos, o gelo cobria um terço da superfície terrestre. Agora, somente 12% permanecem nas fronteiras geladas, e esta proporção está diminuindo. E diminuirá mais, e mais rapidamente, se o aquecimento da Terra realmente existir.”

l MUDANÇA CLIMÁTICA “A mudança climática regional pode alterar profundamente os ecossistemas hidrológicos locais. Pode afetar a distribuição das bacias, deslocar os lenções de água subterrânea e causar desertificação em alguns lugares e inundações em outros. A mudança climática global causará, obviamente, as mesmas coisas. Só que em maior escala.” l ÁGUAS SUBTERRÂNEAS “A química das águas subterrâneas está sendo modificada em escala global. As ações humanas já fizeram com que a média de ‘aditivos’ dissolvidos crescesse em 10%, e no caso do sal, do sódio, do cloro e do sulfato, em um terço. Soluções de fertilizantes, herbicidas e pesticidas, produtos químicos tóxicos, orgânicos e inorgânicos, e traços de radioatividade são encontrados em todo o mundo. A situação é pior nos Estados Unidos, principalmente porque lá a indústria química é mais inventiva e a lavoura tornou-se dependente do uso pesado de pesticidas, mas também porque lá praticamente não há nenhum rio que não esteja represado ou aquífero que não seja explorado.”

“O crescimento populacional, propulsor de todo o aumento das demandas de recursos, está no cerne do problema da desertificação.”

l QUANTIDADE “Os lagos de água doce e os rios, onde o ser humano consegue água para seu consumo, contém somente 9.000 km3, ou seja, 0,26% de todo o estoque global de água doce, que significa só 3% do estoque do mundo. Se toda a água da Terra fosse armazenada em um recipiente de cinco litros, a água doce disponível não encheria uma colher de chá.” l OCEANOS “Lamentar a morte dos oceanos pode ser prematura, mas o equilíbrio dos oceanos está começando a mudar à medida que o despejo de poluentes no mar começa a afetar a sua composição química. Às vezes, a natureza pode mudar um estado estável para um caos incontrolável, mas o homem, enteado da entropia, está fazendo isso bem mais rapidamente.” l AUMENTO DA POPULAÇÃO “O crescimento populacional, propulsor de todo o

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aumento das demandas de recursos, está no cerne do problema da desertificação. Mais gente significa mais animais e mais vegetação cortada para lenha e para construção. O rebanho adicional, que se faz necessário com o crescimento da população pisoteia e compacta o solo, reduzindo a infiltração da pouca água existente, causando erosão e danificando o solo.”

l SUBSTÂNCIAS NOCIVAS “Que os pesticidas e fertilizantes químicos têm o seu próprio pacote de consequências desastrosas é bem sabido. Mas o fato de que a irrigação (o fornecimento de água limpa para as plantas que dela precisam) traz em si um outro conjunto inesperado de dificuldades surgiu como uma surpresa desagradável.” “Está ficando cada vez mais claro que a salinidade e a crescente concentração de substâncias nocivas na água são o calcanhar de Aquiles da revolução da irrigação, ameaçando enormes áreas de terras antes produtivas. O problema é simples de apontar, mas desalentadoramente difícil de resolver: sem um


FIQUE POR DENTRO

Marq de Villiers morou na Espanha, Inglaterra, Canadá e atualmente vive nos Estados Unidos. Casado com a diretora e editora de arte Sheila Hirtle, acumula passagens pelos jornais “The Toronto Telegram”, a agência Reuters e as revistas “Toronto Life”. Ele também é dono de uma vinícola na Califórnia (EUA).

“O Saara está se expandindo. Quatro mil anos atrás, os hipopótamos brincavam aqui.” grande cuidado e um habilidoso manejo, a irrigação, de maneira quase inevitável, causa o encharcamento, o esgotamento e a poluição de água, bem como a elevação da salinidade do solo. Se não for dada a devida atenção a estes problemas, eles podem vir a matar o solo definitivamente.” l ESTADOS UNIDOS “Os Estados Unidos são um país que parece ignorar o fato de ser visto por interessados observadores de fora como enérgico, criativo, vulgar, ganancioso e ridículo, além de detentor de um recorde assustador de pilhagem do meio ambiente. Mas nas questões relativas à água, é simultaneamente dissipador e cuidadoso, predatório e econômico, e de espantosa capacidade, quando os americanos se interessam por uma questão.” “A economia enriqueceu, sem dúvida... As terras que tinham se tornando secas em função do mau uso agrícola e de horríveis abusos foram estabilizadas e salvas dos ventos desertificantes... Os recursos ‘desperdiçados’ – rios e aquíferos – foram colocados em uso produtivo. No entanto, o custo de tudo isso foi uma espoliação tanto do patrimônio natural quanto do futuro econômico. Até agora, foi a natureza que pagou o preço mais alto.” l ÁFRICA “Em todo o leste africano – na verdade, em toda a

África – é normal as pessoas andarem um quilômetro, ou dois, ou seis para procurar água. Nas áreas mais áridas, as pessoas percorrem distâncias ainda maiores, e às vezes, só o que encontram é um tanque lamacento por causa do uso excessivo.” “Mais de 90% dos africanos ainda cavam a terra em busca de água, e as doenças veiculadas pelo recurso natural, como tifo, disenteria, esquistossomose e cólera, são comuns. Em algumas áreas, os poços estão tão abaixo da superfície da terra que é necessário que as pessoas formem correntes humanas para passar a água.” l MALI E NIGÉRIA “Em Mali, fiquei em um vilarejo onde uma ONG americana havia instalado uma bomba movida a energia solar e um tanque reservatório galvanizado; ambos estavam funcionando perfeitamente após cinco anos de sua instalação. Na Nigéria, no outro lado da fronteira, uma bomba similar havia quebrado e numa noite uma criança abrira a válvula do tanque e toda a água escorreu, ensopando a terra crestada. A criança foi espancada. Mas já era tarde demais: a água se fora e todos os habitantes do vilarejo se mudaram. Eles nunca voltaram.”  SAIBA MAIS

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ESTADO DE ALERTA MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

DISCURSOS E FÓRUNS NÃO PROTEGEM A ÁGUA

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m 22 de março, comemorou-se o “Dia Mundial da Água” e o Brasil sediou um fórum de mesmo nome em Brasília (DF), que fervilhou de gente de todos os tipos e nacionalidades. O evento tem seu lado positivo: falar do recurso natural e da sua preservação. Lembrar que sem ele não há vida. Conhecer e trocar propostas, experiências e iniciativas positivas. Hipócritas e oportunistas de plantão fizeram discursos inflamados, aproveitando o momento para se exibir como defensores convictos do meio ambiente. E os governos reafirmaram insistentemente sua preocupação com o assunto. Mas a verdade é que o Brasil e seus entes federativos, Estados e municípios, estão longe de terem políticas sérias de proteção dos recursos hídricos. Cientistas alertam reiteradamente que a destruição da Floresta Amazônica alterará ainda mais o regime de chuvas em toda a América (incluindo Minas Gerais), e possivelmente no mundo. A principal fonte de emprego e renda em várias regiões ainda com florestas é derrubar árvores e botar fogo nelas. Inclusive incendiar os veículos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os governos atuais (e os que os antecederam) continuam tentando acender vela para “Deus” preservar a floresta e o “Diabo” agronegócio, madeireiras, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e seus assentamentos corruptos e degradadores. Mas a “vela de Deus” é muito menor e queima muito mais rápido do que a do “Diabo”, porque as políticas pú-

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blicas que estimulam e apoiam a derrubada da floresta permanecem. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o respectivo Programa de Recuperação Ambiental (PRA), previstos no Código Florestal Ruralista Brasileiro, que prevê cadastramento das propriedades rurais informando situação de nascentes e cursos d’água e sua recuperação através do PRA, já foi adiado três vezes. A etapa de cadastramento deveria ter terminado em maio de 2014. Sob o ponto de vista técnico, proteger a água não é complicado. Depende de políticas agrícolas que levem em conta sua proteção e uso, mudanças no licenciamento ambiental, uso do solo e, é claro, paralisar o desmatamento agora e reflorestar áreas importantes para recuperação e proteção de aquíferos. A longo prazo, destruir a Amazônia é mais grave do que a situação do Rio de Janeiro. As forças armadas que sustentamos com nossos impostos deveriam ser deslocadas também para protegê-la. Quem tem ou teve poder neste país não quer ou não teve coragem para enfrentar a situação. E no contexto político que ainda parece ser de longo prazo, marcado pelo individualismo, mediocridade, ignorância, frivolidade, omissão e deseducação estarrecedora da maior parte da população que mantém as quadrilhas políticas que dominam o país, o cenário é muito ruim. Mas os exércitos de Brancaleone que lutam e agem para defender o meio ambiente mantêm viva a esperança de que alguma coisa restará para o futuro.  (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente.


FOTO: THIAGO FERNANDES

ENCARTE ESPECIAL (II)


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ENCARTE ESPECIAL (II)

Hanseníase Eugênio Goulart

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hanseníase é uma doença infecciosa causada vários meses. E com poucos dias de uso dos medicapelo Mycobacterium leprae, também conhe- mentos o paciente deixa de ser contagiante. Apesar cido como bacilo de Hansen, que acomete a de a incidência da doença ter diminuído no Brasil, pele e os nervos, podendo deixar sequelas. É registra- vários novos casos surgem a cada ano, alguns deles da na história da humanidade desde os hieróglifos ainda diagnosticados muito tardiamente. egípcios e já ganhou o título de “doença mais antiga Por força de lei, os hansenianos eram compulsodo mundo”. Recebeu os nomes de lepra, morfeia, mal riamente internados em leprosários, que eram verde lázaro e, mais recentemente, mal de Hansen. No dadeiras prisões. Somente em 1962 foi revogada essa grego, a palavra “lepra” significava “algo que desca- lei. Vários anos mais tarde os leprosários mudaram ma”. É citada na Bíblia como castigo divino, e no livro de nome, passando a abrigar apenas os doentes que Levítico, do Antigo Testamento, está escrito: Guarda- não tinham mais como se reintegrar à sociedade. -te da praga da lepra e tem diligente cuidado de fazer Guimarães Rosa conviveu de perto com a enfertudo segundo o que te ensinamidade durante sua formação rem os sacerdotes [...]. médica e nos poucos anos Atualmente, o único nome em que clinicou. No seu livro que a Medicina utiliza para “Magma”, escrito no início da a doença é hanseníase, em década de 1930, que, todavia, homenagem ao médico nofoi publicado somente após rueguês Armauer Hansen, sua morte, há um poema descobridor da bactéria caucom o título “Reportagem”, sadora da enfermidade. Para que certamente se refere ao evitar o estigma em relação Leprosário Colônia Santa Izaaos doentes é recomendada bel, que ficava no município a não utilização da denomide Betim, a quarenta quilônação “lepra” como diagmetros de Belo Horizonte. A nóstico clínico. Afinal, como maria-fumaça era o principal escreveu o escritor inglês meio de transporte para se Mycobacterium leprae, bactéria Graham Greene: Lepra é uma chegar ao local e, coincidentecausadora da hanseníase palavra, não é uma moléstia. mente ou não, era esse trem de Nunca acreditarão que lepra se ferro que fazia a ligação entre cura. Palavra não se cura. a capital mineira e Itaúna, município onde ficava a Trata-se de uma doença transmitida de pessoa a vila de Itaguara: pessoa por meio de secreções, como a saliva. É adquirida após contatos sucessivos ao longo do temO trem estancou, na manhã fria, po, geralmente em ambiente domiciliar. O bacilo num lugar deserto, sem casa de estação: tem alta infectividade (pode infectar grande númea parada do Leprosário... ro de pessoas), porém tem baixa patogenicidade Um homem saltou, sem despedidas, (poucas pessoas adoecem). deixou o baú à beira da linha, Clinicamente, manifesta-se com manchas de cor e foi andando. Ninguém lhe acenou... clara, com diminuição da sensibilidade no local. Todos os passageiros olharam ao redor, Também podem aparecer placas avermelhadas e com medo de que o homem que saltara nódulos, que na face podem ser deformantes. Como tivesse viajado ao lado deles... atinge os nervos, pode causar a atrofia de dedos, as Gravado no dorso do bauzinho humilde, mãos e os pés perdem a mobilidade, permanecendo não havia nome ou etiqueta de hotel: defeitos físicos como sequela. Atualmente, a hansesó uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo níase é curável, mesmo que o tratamento demore Socorro... 68  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018


FOTO: RONALDO ALVES

PORTAL Grande Sertão, em Cordisburgo (MG), tem estátua de Guimarães Rosa feita pelo artista plástico Leo Santana

O trem se pôs em marcha apressada, e no apito rouco da locomotiva gritava o impudor de uma nota de alívio... Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso, mas ele ia já longe, sem se voltar nunca, como quem não tem frente, como quem só tem costas... Na época em que Rosa clinicava não havia tratamento efetivo, e o isolamento do enfermo era a principal medida a ser tomada. Diante da impotência da Medicina em combater a infecção, existiam superstições sobre a doença, como, por exemplo, evitar nomeá-la diretamente. No livro “Sagarana” há uma referência a essa prática, no conto “São Marcos”: [...] nem dizer lepra, só o “mal” [...], e uma outra citação breve, no conto “Corpo Fechado”, do mesmo livro: Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro... No livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no conto “Cara-de-bronze”, há também uma citação direta à hanseníase: O fazendeiro patrão não saía do quarto, nem recebia os visitantes, porque tinha uma erupção, umas feridas feias brotadas no rosto. Seria lepra? Lepra, mal-de-lázaro, devia de ser, encontrar-se um rico fazendeiro nesse estado não era raridade. Lamentava-se, a doença. O ar ali, era triste, guardado pesado. No “Grande Sertão: Veredas” um personagem importante foi o chefe jagunço Sô Candelário, muito admirado por Riobaldo, que gostava de ficar sob suas ordens. O parágrafo seguinte é uma verdadeira aula

sobre hanseníase, com conhecimentos que ainda mantêm a atualidade: Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. Pai dele tinha adoecido disso, e os irmãos dele também, depois e depois, os que eram mais velhos. Lepra - mais não se diz: aí é que o homem lambe a maldição de castigo. Castigo, de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Sô Candelário. Vivia em fogo de ideia. Lepra demora tempos, retardada no corpo, de repente é que se brota; em qualquer hora, aquilo podia variar de aparecer. Sô Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa, espiar seus braços, a ponta do cotovelo, coçava a pele, de em sangue se arranhar. E carregava espelhinho na algibeira, nele furtava sempre uma olhada. Danado de tudo. A gente sabia que ele tomava certos remédios - acordava com o propor da aurora, o primeiro, bebia a triaga e saía para lavar o corpo, em poço, “(para a beira do córrego ia indo, nu, nu, feito perna de jaburu. Aos dava. Hoje, que penso, de todas as pessoas Sô Candelário é o que mais entendo. As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta futura da lepra; e, no mesmo tempo, do mesmo jeito, forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo. O médico Guimarães Rosa sabia que

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ENCARTE ESPECIAL (II) FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

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COLÔNIA Santa Isabel em Betim (MG): lembrança triste do preconceito que a sociedade tinha dos hansenianos

o contágio efetivo, por exigir contatos múltiplos, é geralmente intrafamiliar, que as crianças são mais suscetíveis que os adultos, que a demora em manifestar os sintomas e sinais é outra característica da hanseníase, que uma das manifestações mais frequentes é o aparecimento de manchas hipocrômicas no corpo, e que essas lesões determinavam a perda da sensibilidade da pele no local. A ausência de tratamento, naquela época, fazia com que inúmeras alternativas de cura fossem tentadas. Sô Candelário “bebia a triaga”, ou teriaga, que é uma mistura de dezenas de componentes, que se acreditava como uma panaceia para várias doenças, inclusive um antídoto eficaz em envenenamentos. É citada em textos antigos há milênios, e a fórmula exata era um segredo muito bem guardado. Galeno, no século II d. C., formulou uma mistura de 64 substâncias, quando o composto recebeu o nome de teriaga. Muitas variações de composição se faziam necessárias, devido a dificuldades de obtenção, já que inicialmente usava-se, por exemplo, o ópio. Porém, continha várias plantas medicinais e carne de cobra dessecada, que se supunha imune a venenos. No conto “Substância”, do livro “Primeiras Estórias”, surgem outras referências à hanseníase. Ao descrever a personagem principal nesse texto, informa que: [...] o pai, razoável bom-homem, delatado com a lepra, e prosseguido, decerto para sempre, para um lazareto. Nessa frase é significativo o fato de o homem ter sido “delatado”, já que as leis brasileiras de então impunham a “captura” dos hansenianos e a internação compulsória. E “lazareto” era outro nome empregado para leprosário. Logo adiante, no mesmo conto, são expostas as dúvidas de Sionésio quanto à saúde da amada Maria Exita, cujo pai havia sido enviado ao leprosário:

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Se a beleza dela - a frutice, da pele, tão fresca, viçosa - só fosse por um tempo, mas depois condenada a engrossar e se escamar, aos tortos e roxos, da estragada doença? - o horror daquilo o sacudia. Como já referido, Guimarães Rosa utiliza-se do verbo “escamar”, que remonta à origem grega da palavra “lepra”. Usa ainda, numa referência direta à hanseníase, a expressão “estragada doença”. Uma visita hoje à Colônia Santa Izabel permite uma recuperação, em parte, de histórias dos tempos antigos. O acesso não é mais pela ferrovia, que foi desativada, mas por uma estrada de rodagem asfaltada. A portaria está em ruínas, com a fachada coberta de mato, porém alguns prédios estão razoavelmente conservados. Documentos antigos relatam que a área era cercada por muitos fios de arame farpado, para impedir fugas. Ali residem ainda seres humanos que viveram tempos sombrios. As casas continuam a abrigar alguns internos, pessoas que perderam para sempre seus vínculos familiares. Também podem ser encontrados pequenos vilarejos pelo interior de Minas Gerais que tiveram início a partir de hansenianos refugiados. Quando não eram internados à força, e, principalmente, quando não havia leprosários disponíveis, os doentes tinham que se exilar. O indivíduo acometido, muitas vezes junto com sua família, era obrigado a partir e procurar locais isolados para viver. Geralmente, buscavam as desabitadas regiões montanhosas, onde nem sequer seriam vistos. Nos planaltos e nos grotões das serras do Espinhaço, da Mantiqueira e da Canastra ainda podem ser encontrados povoados que se formaram devido ao estigma da hanseníase dos primeiros moradores. Atualmente, a doença desapareceu e ficaram apenas os descendentes dos pioneiros. São pessoas saudáveis, que vivem relativamente bem, cultivando a terra e comercializando com os turistas, que buscam as águas cristalinas que descem das montanhas. Evitam falar do passado, a não ser alguns, mais velhos, que são filhos ou netos de hansenianos, os quais, todavia, nunca adquiriram a doença. Com um tom de mágoa, relembram os tristes tempos de discriminação.  Em 1930, ainda em Itaguara (MG), Guimãraes Rosa mal sabia que outra doença iria se alastrar por toda a região rural, a ponto de muitas fazendas serem abandonadas. É o que você vai acompanhar na próxima edição. APOIO CULTURAL:


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FOTO: ACERVO CBHSF/ JOÃO ZINCLAR

1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - RIO SÃO FRANCISCO

O RIO SÃO FRANCISCO tem 2.700 km de extensão

Entenda por que essa maravilha natural merece ser preservada e protegida. Aperfeiçoamento da gestão hídrica na bacia hidrográfica pode evitar colapso ambiental Luciano Lopes

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urante o 8o Fórum Mundial da Água, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) lançou uma nova versão de seu “Plano de Recursos Hídricos”. O objetivo é integrar esforços para a construção do Pacto das Águas (proposta que visa à incorporação da questão hídrica do rio nas pautas política e institucional dos estados beneficiados por suas águas) para o Velho Chico e seus afluentes. Elaborado com a participação da sociedade, o Plano, que pode ser consultado no site oficial do comitê (cbhsaofrancisco.org.br), define as melhores formas de uso das águas do Rio da Integração Nacional – a fim de mantê-las limpas e próprias para consumo e para a manutenção da biodiversidade. Além de estabelecer projetos e metas para as próximas duas décadas, o plano orienta a aplicação de recursos provenientes da cobrança pelo uso da água.

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Ele também estrutura ações que efetivamente podem garantir a sustentabilidade de toda a bacia, que se estende por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás e Distrito Federal. Recentemente, a implemen-

TO BA

PE AL SE Foz

DF GO MG Nascente

A BACIA do Velho Chico abrange seis estados brasileiros mais Distrito Federal

tação do Plano ganhou força por meio da assinatura de um protocolo de intenções entre o CBHSF e o Governo da Bahia. Segundo Anivaldo Miranda, presidente do Comitê, a intenção é “incrementar a gestão eficaz e pactuada das águas e estimular o desenvolvimento sustentável em uma vasta e estratégica área, que corresponde a cerca de 8% do território brasileiro”. O protocolo de intenções já rendeu seu primeiro fruto: a Bacia do Rio Corrente, que deságua no Velho Chico, foi selecionada pelo CBHSF e pelo governo baiano para implementação urgente de instrumentos efetivos de gestão hídrica. A região foi considerada prioritária por sofrer constantemente com graves conflitos locais relacionados ao uso da água. Embora preocupantes, conflitos como esse são apenas uma parte dos problemas que ameaçam a soberania hídrica do maior rio que


corta Minas Gerais. Em alguns trechos por onde ele passa, o cenário é desolador: o nível da água está tão baixo que é possível atravessá-lo a pé. Somam-se a isso a derrubada de matas ciliares, o lançamento de esgoto, que tem poluído e assoreado cada vez mais o rio e seus afluentes, e o polêmico projeto de transposição para levar suas águas para o semiárido nordestino. IMPORTÂNCIA MÚLTIPLA O Rio São Francisco nasce no Parque Nacional da Serra da Canastra, no oeste de Minas Gerais, próximo ao município de São Roque de Minas. Tem 2.700 quilômetros de extensão e, por ter grande dimensão territorial (639.217 km2), sua bacia hidrográfica foi dividida em quatro regiões: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco (leia mais a seguir). Um dos poucos corpos d’água brasileiros a banhar mais de um bioma – passa por fragmentos de Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, ecossistemas costeiros e insulares –, o Velho Chico é, definitivamente, uma dádiva do sertão. O rio é fonte de sobrevivência para mais

de 18 milhões de pessoas e tem 58% de sua bacia localizada no “Polígono das Secas”, área que se situa majoritariamente na Região Nordeste, também se estendendo ao Norte de Minas, e que anualmente sofre com períodos críticos e longos de estiagem. O Velho Chico também constitui base importante para o suprimento de energia elétrica da região Nordeste do país. Os represamentos construídos nas últimas décadas, informa o CBHSF, suprem nove usinas hidrelétricas em operação no curso do rio. O São Francisco representa ainda um extraordinário potencial para o desenvolvimento do transporte hidroviário. Estima-se que a extensão navegável em sua calha chegue a 1.670 quilômetros. Só para se ter ideia do que isso representa, o trecho navegável entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) é de 1.313 km. Outra expressão da importância econômica e social está no Vale do Rio São Francisco, que se tornou um polo de produção agrícola, com destaque para a produção de manga e uva. Apenas

FIQUE POR DENTRO l O Rio das Velhas é o maior afluente do São Francisco. Tem 801 km e nasce no município de Ouro Preto (MG), no Parque Municipal Cachoeira das Andorinhas. Deságua no Velho Chico no distrito de Guaicuy, em Várzea da Palma. l Em 2010, a Fundação ZooBotânica inaugurou o “Aquário do Rio São Francisco”. Construído pela Prefeitura de Belo Horizonte, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, no zoológico da capital mineira, é considerado o maior aquário temático do país: tem 3.000 m2 de área e 22 tanques, totalizando mais de um milhão de litros de água. E contém mais de 1.200 indivíduos de 45 espécies de peixes nativos do Velho Chico.

em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) são cerca de 35 mil hectares de área plantada, responsáveis pela exportação de mais de 700 mil toneladas de frutas. São números da agricultura irrigada fortalecidos pela subsistência dos pequenos produtores rurais às margens do Velho Chico, além do artesanato, da criação de animais e da pesca.

“Onde estão as minhas veredas?” dando aula para os simples: ABC de pescadores, tabuada de mulheres que somam filhos e netos multiplicando esperança. É Rio de profecias, de beatos e poetas, de agouros, juras e votos, de caboclos e carrancas, conjugando o fraseado em verso, prosa e cantigas, colhidos do sentimento alinhavado do povo que, no acanhado da fala, O RIO foi batizado diz também suas verdades, com o nome do santo fragmentando lições. “Quem na padroeiro da ecologia beira do Rio São Francisco viver, rico não há de ser, de fome e sede não há de morrer e mais de uma camisa não há de ter”. É isto que o Rio pede a cada um, pede a nós, tão pouco: a sobrevivência. Tão muito: a sustentação do direito conferido de unidade nacional.”

FOTO: MONIQUE RENNE

“O Rio São Francisco é franciscano no milagre da grandeza, no ser próximo dos pobres, na cantilena da força, no simples de vocação. Sendo o rio da unidade, sofre em cada contenção pelos tropeços dos homens, faz-se triste de águas turvas, poluídas, sem o transluzir perfeito que a nascente preparou. Pelo sertão segue o Rio, no amedronto das beiradas de belezas destruídas, seja no Alto, Médio ou no Baixo, entre afluentes mirrados e contaminados, esbarrando em Três Marias que, dificultando a piracema, faz conter a força viva do seu milagre de peixes, sua multiplicação. Cantam benditas suas águas, pela Barra de Urucuia, onde o povo, comungando, reparte o peixe e o pequi. O Velho Chico pergunta, como andarilho cansado, onde estão suas veredas, cenários de Tatarana, o palco de Guimarães. Questionando certo progresso, São Francisco lacrimeja, ouvindo sobre recursos ambientais e programas que se escasseiam nos rumos, se enfraquecem nos meandros das definições estéreis e resvalam do seu leito. Ele é um Rio de fé. Não lhe bastasse o seu nome, não cumprisse o seu destino, seria ainda bom mestre

NESTOR SANT’ANNA, jornalista, produtor cultural e conselheiro da Revista Ecológico

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ACERVO CBHSF / JOÃO ZINCLAR

1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - RIO SÃO FRANCISCO

POLUIÇÃO no Rio São Francisco na cidade de Ibotirama (BA): cena recorrente em quase toda a bacia hidrográfica

Curiosidades do Velho Chico

l Mais de 18 milhões de pessoas habitam a Bacia, que

abrange 507 municípios brasileiros.

l A vazão média do rio é de 2.850 m3/s. Ele recebe

água de 168 afluentes, sendo 90 na margem direita e 78 na esquerda. Setenta por cento do volume de água do rio é gerado em Minas Gerais.

l A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco é dividida

em quatro regiões: Alto São Francisco (que vai da nascente até o município de Pirapora, no centro-norte mineiro); Médio São Francisco, onde, ao escoar no sentido sul-norte, atravessa todo o oeste da Bahia até Remanso (BA); o Submédio São Francisco, quando, ao sair de Remanso, o rio desce para o leste até a divisa de Bahia e Pernambuco; e o Baixo São Francisco, entre os estados de Alagoas e Sergipe, onde o Velho Chico deságua no mar. l As demandas urbanas e industrial de água do

rio, mais expressivas no Alto São Francisco, se

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relacionam, sobretudo, com siderurgia, mineração, indústria química, têxtil, de papel e equipamentos industriais. Ainda há empresas e residências que lançam indiscriminadamente efluentes nas calhas do São Francisco e de seus afluentes. Segundo o CBHSF, uma das áreas onde a poluição é mais crítica é a Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde se registra, além dos esgotos domésticos e industriais, uma alta carga inorgânica, proveniente da extração e beneficiamento de minério.

l Em 2014, 116 municípios decretaram situação de

emergência devido à falta d’água em Minas Gerais – 77 deles situados na Bacia do São Francisco. A estiagem prolongada também chegou a secar sua nascente, na Serra da Canastra, no período. l No dia 03 de fevereiro é comemorado o “Dia da

Navegação do São Francisco”. A data foi instituída pelo Governo Federal porque neste dia, em 1871, foi inaugurada oficialmente a navegação no rio. FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco / Revista Chico / Ministério da Integração Nacional / Plano de Recursos Hídricos da Bacia FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Hidrográfica do Rio São Francisco / CBH Velhas. Elat/Inpe, Cemig e PUC Minas/Tempo Clima.


FOTO: ACERVO CBHSF/ IANO MASCARENHAS

TRÊS PERGUNTAS PARA...

JOSÉ MACIEL NUNES DE OLIVEIRA

Vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco

DESAFIOS FRANCISCANOS Qual é hoje, em síntese, a realidade ambiental e hídrica da Bacia do Rio São Francisco? É, sem dúvida, a pior já enfrentada. Estamos passando por um período de estiagem, os níveis dos reservatórios da bacia ainda estão baixos e as consequências para a população são grandes - como a salinização da foz e a mortandade de peixes nas lagoas marginais. Além da situação hidrológica, há também o forte aumento de retirada de água do rio, em especial para as grandes irrigações. Atualmente, quais são os principais desafios em relação à outorga de água na bacia? Quantos usuários estão cadastrados e como as metodologias de cobrança de uso da água têm contribuído para a gestão hídrica do rio? Os usuários de água da Bacia não estão contabilizados em um cadastro único. Como a bacia tem uma grande extensão, inclusive com a gestão compartilhada de seis estados e o Distrito

Nós apoiamos essa ideia!

Federal, esse é o desafio para aprimoramento dos mecanismos mais eficientes de cadastro de usuários e outorgas cada vez mais confiáveis. A nova metodologia de cobrança aprovada pelo CBHSF premia aqueles usuários que fazem boa gestão de sua água, utilizando por exemplo o reúso e o auxílio da tecnologia. Iniciamos as tratativas com os estados da Bacia para auxiliarmos na implementação dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, em especial o cadastro de usuários para auxiliar a outorga. As obras de transposição do São Francisco foram iniciadas há mais de 10 anos. Qual a sua opinião sobre o projeto? Ele, de fato, irá trazer mais segurança hídrica para o semiárido nordestino? A transposição ainda não está de fato acontecendo, apenas em um pequeno trecho no Eixo Leste. O CBHSF se posicionou contrário à obra, alegando entre outros fatores a falta de um melhor planejamento e a forma como o projeto foi colocado. Estamos no Conselho Gestor da Transposição acompanhando as discussões sobre como será a gestão dessas águas. E estaremos de olho para que seja cumprida a outorga que foi concedida. 

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1 RECICLAGEM

ADEUS, ÓLEO DE FRITURA Um pequeno gesto que faz muito pela natureza e pela saúde humana

O

de litros de água potável. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Danilo Vieira Júnior, a ação continuará ao longo do ano e a população pode contribuir separando o óleo vegetal acondicionando em garrafas PET bem vedadas e depositando nos pontos de coleta. Além de evitar entupimentos da rede de esgotos e a contaminação da água - lembrou ele para as crianças da rede escolar - esse resíduo ainda pode ser reciclado e transformado em vários produtos, como o biodiesel: “Tal como a natureza exuberante que temos, todos nós ganhamos. Imagine, então, se outros municípios nossos vizinhos também adotarem a ideia?”.  SAIBA MAIS

www.novalima.mg.gov.br goo.gl/eVuQ3r

FOTOS: DIVULGAÇÃO

óleo de fritura é um dos maiores inimigos do meio ambiente. Quando descartado de maneira incorreta, pode causar o entupimento das tubulações e a contaminação da água, do solo e do ar, colocando em risco a vida de diversas espécies, inclusive o homem. Com o objetivo de contribuir para a preservação ambiental, a Prefeitura de Nova Lima (MG) já implantou, desde 22 de março, “Dia Mundial da Água”, 10 “EcoPontos” de coleta desse resíduo em diversas regiões da cidade. Como resultado positivo, em apenas uma semana o município (que tem o maior número de nascentes da Região Metropolitana de BH - mais de 800 delas preservadas) coletou 420 litros de óleo de fritura usado. E, com isso, deixou de contaminar 420 milhões

ADESÃO VERDE: Danilo Vieira explica a ação para os alunos da rede escolar

COMO ACONDICIONAR E DESCARTAR O ÓLEO

Após o uso, espere o óleo esfriar

Com o auxílio de um funil, coloque o óleo em uma garrafa PET

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Deposite a garrafa fechada no ponto de coleta

Óleo coletado é igual a biodiesel


A Revista Ecológico apresenta:

Mostra

NOS PORÕES DA LOUCURA Baseado no livro homônimo de Hiram Firmino Dramaturgia e direção de Luiz Paixão

Teatro Exposição Debates Filmes .com/nosporoesdaloucura nosporoesdaloucura.com.br

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1 SUSTENTABILIDADE

FAS 10 ANOS Fundação Amazonas Sustentável completa uma década fazendo a floresta valer mais em pé do que derrubada Hiram Firmino

De Manaus (AM) redacao@revistaecologico.com.br

S

ediada em Manaus, capital do Amazonas e coração pulsante da maior floresta do planeta, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) comemorou, com muita emoção e números positivos, seu décimo aniversário. Eleita a melhor ONG da Região Norte do Brasil em 2017 pelo Instituto Doar, a FAS celebrou a redução do des78  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

matamento de 58% na sua área de atuação, graças às iniciativas de geração de renda para quase 40 mil pessoas, moradores ribeirinhos de 16 Unidades de Conservação (UCs ) no Estado. Desde sua criação em 2008, fruto de um acordo entre o Banco Bradesco e o Governo do Amazonas, a fundação já estabeleceu 189 parcerias, entre elas

uma com a Coca-Cola Brasil, mantenedora do Fundo Amazônia/BNDES, que financia o Programa Bolsa Floresta (PBF), e outra com a Samsung Brasil, parceira do Programa Educação e Saúde (PES). Juntas, as organizações ajudam a levar ações de empoderamento e cidadania socioambiental para uma área de 10,9 milhões de hectares, equi-


FOTOS: RODRIGO TOMZHINSKY

“Ao propiciarmos melhor qualidade de vida, saúde e educação para os povos ribeirinhos, nós evitamos que seus filhos abandonem a riqueza, a paz e a proteção da floresta para viverem nos rios poluídos e favelas na periferia de Manaus.” VIRGÍLIO VIANA, presidente da FAS

valente ao tamanho de Portugal. “Chegamos até aqui com a sensação de termos feito um trabalho com resultados significativos, com impactos concretos sobre a melhoria da qualidade de vida das comunidades à beira dos nossos rios e a conservação das nossas florestas. Isso é possível, sim. É garantir cidadania, reduzir desigualdades e valorizar a maior riqueza em biodiversidade que só a Amazônia e o Brasil, com sua imensidão de água, têm”, destacou Virgílio Viana, superintendente-geral da FAS. “Melhorar a qualidade de vida dos ribeirinhos é a nossa missão maior. Fortalecidas e organizadas, essas comunidades evitarão o desmatamento e protegerão a

Floresta Amazônica, que é fundamental para as chuvas que chegam ao Sudeste e Centro-Oeste e, portanto para a economia do país”, enfatizou o presidente do Conselho de Administração da Fundação, Benjamin Sicsú. INSPIRAR SOLUÇÕES Nessa década, promover soluções inovadoras para a conservação da floresta tem sido o eixo principal de atuação da FAS. Seu programa pioneiro, Bolsa Floresta, já saltou de quatro para 40 mil beneficiários, que fortalecem suas práticas participativas e incrementam sua atuação com quatro subprogramas responsáveis por geração de renda, melhoria de qualidade de vida e empoderamento para ri-

beirinhos moradores de UCs. “O objetivo é assegurar a eles condições de atuação mantendo a floresta em pé, por meio da geração de renda sustentável, da valorização do saber tradicional e do fortalecimento de lideranças da floresta”, completou a coordenadora-geral da iniciativa, Valcleia Solidade. Segundo ela, isso tornou possível o apoio da Fundação em 16 cadeias produtivas prioritárias, como cacau, castanha, manejo sustentável de madeira de pequena escala, óleos vegetais, açaí, artesanato e turismo. Fornecer, de forma participativa, investimentos em ações estruturantes, além de formação e capacitação. Investimentos que

FESTEJO AMAZÔNICO: funcionários, líderes comunitários, fundadores e conselheiros da FAS foram homenageados com troféus

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FOTOS: ANDRÉ PESSOA

1 SUSTENTABILIDADE

FOTO: ECOLÓGICO

RDS DO RIO NEGRO: professores, jovens e crianças da região recebem educação de qualidade em plena floresta

MONSENHOR Marcelo Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia de Ciências Sociais do Vaticano: "Laudato Si'" na beira d'água

mudaram a vida de pessoas que desmatavam a floresta há décadas, como Roberto Brito, 37, morador da comunidade Tumbira. Foi como ele agradeceu, durante a solenidade simples, mas emotiva, acorrida na sede da fundação, inclusive regada a lágrimas: “A gente não sabia o que era sustentabilidade. E os projetos trouxeram uma visão nova e que a gente se abriu para ouvir. A partir disso, eu mesmo nunca mais derrubei um pé de árvore para vender. E hoje me orgulho de mostrar as árvores que eu cuido e preservo para quem visita a nossa comunidade”. Roberto é gerente da Pousada 80  ECOLÓGICO | MARÇO DE 2018

RDS DO JUMA, no Rio Madeira: onde a comunidade acolheu o primeiro projeto de créditos de carbono por desmatamento evitado no Brasil

Garrido, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, cuja comunidade passou a contar, em 2010, com escola, alojamento para alunos e professores, laboratório de informática e biblioteca, incluídos no Núcleo de Conservação e Sustentabilidade (NCS) Agnello Uchôa Bittencourt. Desde a criação, seus moradores passaram a receber visitantes de 20 países, como uma das atividades de renda mais importantes hoje do Rio Negro. EDUCAÇÃO CIDADÃ Reduzir as desigualdades e promover o direito à educação, saú-

de e cidadania em comunidades ribeirinhas se tornou um dos objetivos estratégicos da FAS para o alcance do desenvolvimento sustentável na Amazônia. Por isso, desde 2012, a fundação também desenvolve o Programa de Educação e Saúde (PES), que leva educação formal adaptada à realidade amazônica para 622 estudantes de áreas remotas, por meio dos nove Núcleos de Conservação e Sustentabilidade (NCS) construídos em parceria com Samsung Brasil, Marriott International, Coca-Cola Brasil e Bradesco.  SAIBA MAIS

fas-amazonas.org.br


UM FILME DA CONSERVAÇÃO INTERNACIONAL

“Eu alimentei espécies maiores do que vocês. Eu já fiz espécies maiores do que vocês passarem fome.”

MARIA BETHÂNIA É ~

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1 ENSAIO FOTOGRÁFICO

APARADOS DA SERRA Plínio Felício Bordin Jr. 2003

MEMÓRIAS HÍDRICAS


LAGO MELIQUINA Sergio Alejandro Muñoz 2008

E

FOTO: OSMAR LADEIA

ste ano completam-se 10 anos da morte do tegrava a Comissão Julgadora), Mário sempre ia às jornalista e advogado Mário Viegas. Fundador lágrimas. Ficava tocado pela beleza dos animais, principalmente dos passarinhos, e da Sociedade Ornitológica Mineira (SOM), uma das primeiras ONGs das paisagens registradas pelos parambientais do Brasil, foi ele quem ticipantes, fossem eles profissionais ou amadores. À época da morte do evitou, junto com os companheiros jornalista, em novembro de 2008, ambientalistas Hugo Werneck e Célio o banco de imagens da SOM tinha Valle, que o Parque Estadual do Rio Doce fosse cortado ao meio por uma mais de 20 mil fotos extasiantes estrada industrial na década de 1990. sobre a biodiversidade brasileira. Algumas delas foram publicadas Mário era conhecido por seu gêanteriormente na extinta revista JB nio difícil, mas ao mesmo tempo Ecológico com autorização de Vieamoroso. Editor do antigo “Jornal gas (após a realização dos concurdo Meio Ambiente”, também foi redator de “A Última Hora”, no Rio sos, a SOM também passava a ter direito de uso e publicação das fotos). de Janeiro, e diretor da sucursal miPara homenagear esse grande comneira da “Tribuna da Imprensa”. Sua paixão pelo meio ambiente era tão MÁRIO VIEGAS criou um dos panheiro de luta ambiental, a Ecológico reproduz, a seguir, algumas das grande que criou o concurso “Fotoconcursos fotográficos mais grafe a Natureza”, um dos mais conimagens, vencedoras ou não, que concorridos do país corridos de Minas Gerais e do país. concorreram nos concursos fotográfiNo momento de selecionar as fotos finalistas cos da SOM e também encantaram Mário Viegas. Confira: com os jurados (a Revista Ecológico também in-

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1 ENSAIO FOTOGRÁFICO

ANANAÍ Luiz Cavalcanti Damasceno 2008

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VENTO E CALOR Hildburg Schiemann 2008


PESCANDO NO ALVORECER Márcio Cabral 2008

RIO DAS PEDRAS Márcio Hamilton Protzner de Oliveira 2007

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NATUREZA MEDICINAL

MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

A BROTAÇÃO DAS ÁGUAS

N

FOTO: MARCOS GUIÃO

uma modesta estradinha que me leva até a roça, sempre passo ao largo de um paredão de pedras, onde, nos antigamente, brotava uma bica d’água fria, pura e limpa. Mas, há mais de dez anos, ela simplesmente sumiu, derivado de motivos muitos. Diminuiu sem base a quantidade de chuva que tem caído na região nos últimos anos. Além disso, o fazendeiro dono dessas terras até recentemente derrubou um bocado da mata que margeava o caminho dessa nascente, plantou capim e soltou o gado na área. O resultado não poderia ser diferente, né mesmo? Dava tristeza passar naquele trecho e ver tudo seco num lugar onde já tomei muito banho depois que a mulherada lavava a trouxa de roupa. Mas deu passagem de um ano desde que as terras foram vendidas e o gado retirado. Daí entrou o verão e, com ele, desceu um manto de chuva que há muito não se via nessas paragens.

O desfecho foi o retorno da nascente. Parei de lado sem muita coragem até de tocar naquelas águas, deveras emocionado. Mas aos cadinhos fui entendendo que ela estava ali linda, singela, transparente pra saciar nossa sede mesmo. Com alguma cerimônia, tomei uma golada larga e senti o mesmo sabor adocicado lá de outras eras. Ainda inebriado, dei saída e fui abrindo trilha no capim orvalhado até sentir minhas calças completamente encharcadas. No tentame de escapar do orvalho, fiz um revolteio e, pra minha surpresa, acabei atolado num brejo, que até dias atrás num tava ali. Aquela tanteira de água atravessando meu caminho da roça foi me encantando e dei de abrir ainda mais os olhos pra dar reparo em tudinho. Foi quando vi, pouco mais adiante, uma moita de folhas verdes bem graúdas de chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus), planta que leva esse nome por aparentar um chapéu mesmo, até de ponta dobrada. Saí pisando e atolando na beirada do corguinho que surgira de pouco pra chegar nas suas touceiras, que só prosperam direto dentro de lagoas, brejos ou cursos d’água. Tanto descaso com as águas e a chuva se apartando do sertão, ela tinha distinguido dali, mas agora tava de volta. Tem folhas grandes e tesas, mas basta a retirada delas pra que num tim fiquem todas encarquilhadas, sinalizando demasiada desidratação. Afamada pela ação diurética, é um bom anti-inflamatório do trato urinário e dá ritmo ao coração, além de aliviar os sintomas do reumatismo e das doenças de pele derivadas de intoxicação por bebida, comida ou remédio. É no mínimo curiosa essa estreita relação do chapéu-de-couro com as águas, seja drenando os líquidos corporais ou na dependência total delas para sua sobrevivência A questão que envolve a temática da água hoje em dia é muito complexa e não vai ser resolvida com o ressurgimento dessa pequena nascente aqui na roça. Mas esse acontecido me deu um alento danado! Até a próxima lua! 

CHAPÉU-DE-COURO

Echinodorus grandiflorus

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(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


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SE ESTAMOS FALANDO DE 70% DO PLANETA, VAMOS PRECISAR DE 100% DOS ESFORÇOS. Um dia não basta para dedicar à água toda a atenção que ela merece. É urgente transformar palavras como preservação, economia e reuso em ações concretas do nosso dia a dia. Afinal, preservar a água é celebrar a vida.

22 de março. Dia Mundial da Água.

Revista Ecológico - Edição 106  

Confira a Revista Ecológico Ed. 106 > 8º Fórum Mundial da Água une especialistas, sociedade e representantes de 172 países para debater a qu...

Revista Ecológico - Edição 106  

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