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Pelos Caminhos do Cafundรก Paisagem e memรณrias de um quilombo carioca


Luz Stella Rodríguez Cáceres

Pelos Caminhos do Cafundá

Paisagem e memórias de um quilombo carioca


© Luz Stella Rodríguez Cáceres, 2019 © Papéis Selvagens, 2019

Coordenação Coleção Stoner Rafael Gutiérrez, María Elvira Díaz-Benítez Capa e diagramação Martín Rodríguez

Imagem de capa e fotos internas Luz Stella Rodríguez Cáceres Intervenção na imagem de capa Ariel Subirá Revisão Carolina Maia

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA)

Este livro foi realizado com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

Cáceres, Luz Stella Rodríguez, 1976-. C118p Pelos caminhos do Cafundá: paisagem e memórias de um quilombo carioca / Luz Stella Rodríguez Cáceres. - Rio de Janeiro, RJ: Papéis Selvagens, 2019. 300 p. : 16 x 23 cm - (Stoner; v. 13)

Bibliografia: p. 283-297 ISBN 978-85-85349-14-1

1. Antropologia - Brasil. 2. Negros - Posse da terra - Rio de Janeiro (RJ). 3. Quilombos - Rio de Janeiro (RJ). I. Título.

[2019] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com / papeisselvagens.com

CDD 306.32098153


Para Antonia e Manuela Para que sigam o caminho sem esquecer a raiz


Sumário Siglas

Apresentação Introdução

1. O tempo que alcancei: narrativas sobre o passado e outros marcos da memória O surgimento do passado como ferramenta de luta Três marcos da memória em Vargem Grande

2. Pai Tertuliano, vó Astrogilda e Pingo, o guardião: de memórias familiares a patrimônio cultural Origem do terreiro de Astrogilda, despedida de Tertuliano e a missão de Pingo O altar um universo das trocas O patrimonio: da memória familiar para a cena política Patrimônio como enquadramento da memória e como mediação

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3. A arte de falar mal dos outros e outras maledicências Riso, performance e fofoca O pasquim, criação coletiva feita para ser esquecida Relato de seres do mundo-mais-que-humano

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4. Paisagem, memória e parentesco Aqui todo mundo é parente Núcleos: uma associação entre parentesco e paisagem Retórica da ausência e dos movimentos A agência da natureza nos assuntos dos homens O caminho: mediações entre projetos humanos e devires não-humanos O burro Empreitadas

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Caderno de imagens

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Paisagem e memória Do mapa mental ao mapa cartesiano

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5. Do caminho à trilha. As perspectivas do lazer e do habitar na Transcarioca 185 A perspectiva do habitar 186 Polifonias do lazer 190 A trilha 196 Trilha Transcarioca 202 Sinalização, divulgação e os conflitos das perspectivas 209 Quilombo rumo a uma relação mais simétrica com o Estado e a sociedade? 215 6. Desbravando o Sertão Carioca: etnografia da reinvenção de uma paisagem Dos sertões ao Sertão Carioca: a prevalência de um mito de origem Sim senhores, o Rio tem seu sertão Do livro para a avenida O Ecomuseu do Sertão Carioca e a memória como reação à expansão urbana O velho sertão de volta à imprensa O sertão da academia comprometida e militante As mulheres do sertão carioca e seus quitutes Do campo à cidade e vice-versa Agradecimentos

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Bibliografia 283


Siglas ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias BCM – Banco de Crédito Móvel CEP – Código de Endereçamento Postal CCPEPB – Conselho Consultivo do Parque Estadual da Pedra Branca CEPPIR – Coordenadoria Especial de Promoção das Políticas de Igualdade Racial Consea-Rio – Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Município do Rio de Janeiro CRAS – Centro de Referência de Assistência Social DAP – Declaração de Aptidão ao Pronaf FCP – Fundação Cultural Palmares IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IEF – Instituto Estadual Florestal INCRA – Instituto de Colonização e Reforma Agrária INEA – Instituto Estadual do Ambiente MC – Mosaico Carioca MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário MMA – Ministério do Meio Ambiente NEATS – Núcleo de Estudos em Ambiente, Território e Sistemas Agroalimentares PEPB – Parque Estadual da Pedra Branca PEU – Plano de Estruturação Urbana PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar PPP – Parceria Público Privada Pronaf – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar Rede CAU – Rede Carioca de Agricultura Urbana SAF/MDA – Secretaria da Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional WWF – World Wildlife Fund


Apresentação José Reginaldo Santos Gonçalves PPGSA/IFCS/UFRJ Ao longo das densas páginas deste livro o leitor é incessantemente levado a estranhar (e a repensar) uma série de palavras e imagens, uma série de categorias de pensamento que frequentam de maneira naturalizada o nosso cotidiano social, cultural e político. Esse trabalho de estranhamento não é realizado de modo genérico, abstrato, mas a partir de uma sólida perspectiva etnográfica, onde se explora sistematicamente o que os antropólogos clássicos chamaram de “ponto de vista nativo”. Ou seja: uma descrição atenta e uma análise sensível das relações sociais e das representações coletivas que assume determinado grupo ou segmento social em relação ao universo, à sua própria existência e ao espaço físico e social que habita. O foco desta brilhante etnografia (fruto de alguns anos de trabalho de campo antropológico da autora) são as respostas sociais, culturais e políticas que um determinado segmento social na cidade do Rio de Janeiro (social e politicamente autodesignados como “quilombolas”) vem oferecendo às ações do Estado e do chamado “mercado” (em especial, as empresas imobiliárias) no sentido de transformar em “mercadoria” o território que habitam na região do Maciço da Pedra Branca. Território cujo valor é, do ponto de vista dos seus habitantes, construído a partir de sua experiência existencial, histórica e de sua memória coletiva, sendo a base de sua auto-percepção coletiva, incompatível portanto com a condição abstrata e quantitativa de “mercadoria”. Ao descrever e analisar uma situação social marcada pelo tenso e permanente confronto entre diversas e incomensuráveis posições e concepções frente a uma determinada ordem (ou desordem) territorial, a autora ilumina o papel desempenhado por uma constelação de categorias (espaço, paisagem, ecologia, memória, história, patrimônio, entre outras), seja na manutenção, seja no questionamento, seja na interrupção e na possibilidade de transformação daquela ordem sociocultural, econômica e política. Um aspecto central da situação descrita e analisada pelo


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livro é a presença de uma área oficialmente reconhecida como um “parque” (o Parque do Maciço da Pedra Branca). Segundo a autora,

“[...] para os atuais moradores do maciço da Pedra Branca a existência do parque é um importante marco na sua história, que modelou de forma significativa as maneiras de habitar o espaço e continua tendo efetiva ingerência na suas vidas. O impacto do parque sobre os habitantes advém do fato que a própria noção de parque nas suas origens está associada a representações de natureza que não são universais, vinculando-se a modelos de fruição, formas controladas de uso dos recursos naturais, processos de gestão do público e ideais sobre a relação entre homem, ambiente e cidade. Esses modelos seguem na maioria das vezes apenas a pauta de uns poucos segmentos urbanos da sociedade, tornando-se fonte de tensões e conflitos entre os habitantes de dita área e os administradores das mesmas, fruto de suas diferentes percepções sobre o espaço e as noções de ambiente e paisagem.”

Aí reside um dos vetores centrais dos conflitos descritos e analisados pela autora. As contradições de natureza social, econômica e política são mediadas por categorias de pensamento divergentes relativamente a espaço e paisagem. Se por um lado, para indústria imobiliária e para a indústria turística, essas duas noções são entendidas como objetos passíveis de serem quantificados e trocados no mercado, para os habitantes dessa área elas assumem uma dimensão qualitativa, na medida em que está associado às práticas sociais, econômicas e culturais do grupo, às relações de parentesco, relações étnicas e religiosas. O espaço, que para a indústria imobiliária é quantificado e tem um preço de venda, é para os seus habitantes não um objeto, mas a base física, social e simbólica de sua auto-percepção individual e coletiva. A paisagem, concebida de modo naturalizado pela indústria imobiliária, pela indústria turística e mesmo pelas agências de preservação do patrimônio, é para eles não exatamente um objeto “natural” a ser contemplado, mas parte essencial de suas praticas cotidianas, sendo entendida como uma extensão relacional dessas práticas. Nesse aspecto, vale assinalar, essa dimensão relacional envolve o solo, plantas, árvores, insetos, animais e entidades mágico-religiosas. São as relações de troca entre esses elementos, esses habitantes “não humanos” e os habitantes humanos dessa área que estruturam a sua noção de


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paisagem. Como dissemos, esta não é um objeto a ser contemplado ou a ser alvo de um planejamento ou de empreendimentos econômicos; ela é entendida como um universo de agentes vivos com os quais se mantêm relações de troca social e simbólica, uma extensão das práticas sociais, econômicas e religiosas que os habitantes realizam em seu cotidiano. Desse modo, o espaço, assim como a paisagem, para esses habitantes existem numa dimensão temporal, o tempo das relações genealógicas, de suas relações com os mortos, ou o tempo histórico das transformações pelas que passou aquela região. Esta é certamente uma dimensão que se opõe radicalmente às concepções de espaço e paisagem enquanto mercadorias. A própria categoria “natureza” vem a ser desestabilizada nas análises empreendidas nesse livro. O espaço oficialmente classificado como Parque do Maciço da Pedra Branca pressupõe a noção de uma natureza enquanto objeto intocado, puro, autêntico, suposta fonte de renovação física e espiritual para seus habitantes. Ao explorar o universo mental e social dos habitantes dessa área, a autora revela uma natureza que se apresenta menos como objeto de contemplação e mais como “caminhos”, um espaço que se realiza na medida em que é percorrido pelas práticas sociais e culturais dos seus habitantes. Ao fazer um uso criativo da antropologia de Tim Ingold, ela explora a perspectiva sugerida por este autor, na qual habitar um espaço não é apenas agir sobre o mundo, mas se mover com ele. Nesse sentido, é a partir do próprio ponto de vista dos habitantes do maciço da Pedra Branca que se articula uma crítica radical à ideia de natureza como um objeto de contemplação ou um objeto de exploração técnica e econômica. Desenha-se aí uma análise simétrica das relações entre seres humanos e natureza. Outra categoria presente no universo dos habitantes dessa área é a de “patrimônio cultural”. Aqui também a autora nos oferece uma análise esclarecedora sobre os patrimônios culturais enquanto categorias nativas. Este aparece, sob tal olhar, não como um objeto juridicamente definido, passível de um “tombamento”, mas como um notável mediador entre diversas categorias do universo cultural nativo. Em outras palavras, o que entendem por patrimônio é parte inseparável de suas práticas e representações cotidianas, incorporando outras categorias tais como memória, história, parentesco, etnicidade, espaço e paisagem. Nesse sentido, embora os habitantes do Maciço da Pedra Branca, enquanto atores políticos


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no espaço público, sejam capazes de acionar o patrimônio como instrumento de políticas identitárias, reivindicando uma pauta de direitos juridicamente definidos, há, simultaneamente, uma outra face dessa categoria, cujos significados são tecidos pelas práticas cotidianas e pela memória coletiva. Uma apresentação não deve se alongar, correndo o risco de abusar do tempo e da paciência do leitor. Antes de encerrar, no entanto, gostaria de assinalar um último ponto, que julgo especialmente importante para avaliarmos a contribuição desse livro aos debates socioculturais e políticos atualmente. Se é próprio da moderna expansão capitalista, o processo de universalização da produção de mercadorias, este livro nos mostra que esse processo não ocorre de modo evolutivo e unilinear, muito menos de modo inexorável, mas articula-se necessariamente, numa teia de contradições, a uma série de ações sociais e políticas de resistência que podem impor limites e mesmo interromper aquele processo. Aí residem possibilidades objetivas que sustentam a esperança de redenção dos oprimidos. Para explorar politicamente aquelas possibilidades e atender a essa esperança, é necessário que se libertem as categorias dos oprimidos em relação às malhas intelectuais dos discursos dominantes: os discursos do mercado, os discursos tecnocráticos do planejamento urbano, e mesmo certas vertentes dos discursos ecológicos. Este livro nos oferece concretamente um exemplo bem sucedido desse trabalho de desnaturalização das categorias dominantes e de exploração intelectual e política das chamadas “categorias nativas”. Sem esse trabalho, restringe-se perigosamente o horizonte das ações políticas voltadas para uma transformação radical de uma situação de opressão socioeconômica e cultural. Uma leitura especialmente oportuna para os dias atuais. Rio de Janeiro, primavera de 2018


Introdução Foi em 8 de julho de 2016 que o Secretário Estadual do Meio Ambiente, André Corrêa, visitou a comunidade quilombola do bairro Vargem Grande, na cidade do Rio de Janeiro. O propósito da sua visita era a instalação de uma placa na qual se reconhecia a presença centenária de uma comunidade afrodescendente nas entranhas do Maciço da Pedra Branca. Transformado no parque estadual que leva seu nome em 1974, esse espaço é considerado a maior área da cidade coberta por mata atlântica. Trata-se portanto de um parque natural que não só é habitado por populações tradicionais, como também faz fronteira com dezessete bairros da cidade. O reconhecimento da existência de grupos familiares no interior do Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), por parte do Estado é o resultado de um longo percurso de resistência. Desde o momento da fundação do parque foram numerosos os embates e perseguições empreendidos por parte dos órgãos de controle ambiental contra os pequenos agricultores da área. Esse contexto enuncia dois termos: moradores e parque, sendo a evolução do conceito parque, as políticas ambientais, os imaginários da conservação e suas paulatinas mudanças amplamente pesquisados. Em contrapartida, muito pouco tem se discutido sobre as formas de interpretar, vivenciar e perceber o ambiente por parte da população nativa, tida por muito tempo como “não-ecológica” ou como ameaça para a preservação da natureza. As reflexões que compõem este livro são resultado de uma pesquisa que se iniciou com a pretensão de entender as percepções que mediam a relação da população quilombola de Vargem Grande com a paisagem do Maciço da Pedra Branca. A relação entre parque e habitantes tem estado emoldurada por debates mais amplos, atravessados pela crise ambiental, nos quais a biodiversidade, o acesso aos recursos genéticos e as mudanças climáticas globais são temas que transcendem os contextos locais e colocam em diálogo ideais e práticas relacionadas com o meio ambiente, a paisagem e a natureza. Porém, no espaço desta pesquisa, as práticas cotidianas dos seus habitantes se distanciam desses debates macro para tomar forma nos atos cotidianos mais corriqueiros: os embates diários ditados por práticas agrícolas, o


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cuidado de animais de carga, a manutenção dos caminhos que levam à escola, o planejamento das roças e feiras, o trabalho na cidade e a atenção aos pequenos comércios. O dia a dia desses habitantes também esta imbuído numa visão de mundo na qual estão presentes trocas espirituais com os ancestrais, redes de parentesco e narrativas que tecem caminhos, memórias, encontros e formas políticas de ação. Os dados coletados no trabalho de campo foram decisivos na aproximação às epistemologias locais dos moradores tradicionais da área, principalmente na desmontagem da oposição entre natureza e cultura (Latour, 1994). Aos poucos a pesquisa também foi exibindo formas locais de pensamento e gramáticas que desestabilizavam outras dicotomias arraigadas nas ciências sociais, tais como passado e presente, memória e história, tradição e modernidade, sujeito e objeto, campo e cidade, urbano e rural. Reconhecer plenamente as histórias complexas e os contextos que cercam as dimensões envolvidas permitiu o aparecimento de intermediações, hibridismos e trânsitos que escapam a classificações fixas, sustentados em um modelo cognitivo pautado pela hibridação de espaços, espécies, seres e sujeitos, memórias e políticas. Habitar dentro de uma área de conservação ambiental não é como habitar em qualquer outro lugar. Para os atuais moradores do Maciço da Pedra Branca, a existência do parque é um importante marco na sua história, que modelou de forma significativa as maneiras de habitar o espaço e continua tendo efetiva ingerência nas suas vidas. O impacto do parque sobre os habitantes advém do fato que a própria noção de parque nas suas origens está associada a representações de natureza que não são universais, vinculando-se a modelos de fruição, formas controladas de uso dos recursos naturais, processos de gestão do público e ideais sobre a relação entre homem, ambiente e cidade. Esses modelos seguem na maioria das vezes apenas a pauta de uns poucos segmentos urbanos da sociedade, tornando-se fonte de tensões e conflitos entre os habitantes de ditas áreas e os administradores das mesmas, frutos de suas diferentes percepções sobre o espaço e as noções de ambiente e paisagem. É preciso logo aqui lembrar que o objetivo principal para a criação de parques naturais no final do século XIX nos Estados Unidos era a preservação de áreas em estado natural para o usufruto dos habitantes urbanos. Assim, na gênese do conceito está implícito


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o uso público de espaços, concebidos não só como autenticamente naturais, mas especialmente inabitados, acrescentando o contraste com áreas urbanas densamente povoadas, industrializadas e poluídas. A ideia da natureza como local de inspiração e renovação também desempenhou um papel fundamental na criação do Serviço Nacional de Parques em 1916 nos EUA, estratégia que depois viria a inspirar vários modelos de conservação natural no mundo e no Brasil (Diegues, 1996). Vale a pena ressaltar também que as políticas de conservação de áreas ambientais não estiveram desmembradas da dimensão lúdica e espiritual proporcionada pela apreciação de paisagens de grande beleza cênica. À medida que tais paisagens ganharam singularidade na sua existência, imprimiram traços identitários ao inspirar obras de arte, fotografias, músicas e literatura que carregam o espirito nacional. A transformação da natureza em paisagem é um fruto da modernidade (Simmel, 1996) e terá seu grande auge no século XIX com a fotografia e o desenho, quando a representação do território assume o lugar da nacionalidade. A incorporação dessas representações como expressões autênticas da nação tornou as paisagens legados nacionais que participavam da biografia e autoimagem das nações (Shwarcz, 2014; Chuva, 1998). Essa extensão do nacionalismo aos traços naturais do território concilia-se com o acréscimo do adjetivo nacional dado aos parques públicos, indicando por sua vez que estes deveriam ser tutelados pelo Estado como um patrimônio da nação. No caso do Brasil, o Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), incluiu a natureza na política oficial do patrimônio nacional. Este documento declarava “sujeitos a tombamento os monumentos naturais, bem como os sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria humana.” (Brasil, Decreto-Lei nº 25/1937, Art. 2, § 2º). É preciso aclarar que antes dessa iniciativa a natureza brasileira já estava sendo tratada como patrimônio da nação. As primeiras leis não visavam a transformação da natureza em monumento a ser preservado em seu aspecto primitivo, intocável, senão que apontavam para a regulamentação de sua exploração com miras a garantir a conservação das águas, dos minérios e


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de espécies da fauna, zelando pela não extinção das riquezas do país. Assim, a patrimonialização da natureza partiu antes de mais nada da necessidade do seu conhecimento e da valorização de suas possibilidades econômicas e científicas, visualizadas como repositórios geológicos e biológicos da diversidade e do conhecimento (Moraes, 2004). Françoise Choay (2001) vai além dessa apreciação e propõe entender o processo de patrimonialização da natureza como uma evolução do patrimônio cultural e, portanto, uma estratégia política para narrar a memória e identidade de uma nação. No caso brasileiro, a inclusão da natureza na política de proteção do patrimônio nacional tinha, para os idealizadores do Sphan, vinculados fortemente ao movimento modernista, um papel articulador da identidade nacional. A predominância do meio geográfico e os aspectos regionais da natureza foram desde muito cedo fatores definidores da identidade brasileira. Praticamente desde 1808, quando a Coroa portuguesa inaugurou no país a sede de sua Corte, o Brasil foi definitivamente associado a um lugar de natureza abundante e quase infinita. Desde então viajantes, naturalistas e artistas como os da Missão Francesa de 18161 ajudaram a articular os modos pelos quais o Brasil seria observado não só pelos de fora, mas também pelos de dentro. Brasil se tornou a metonímia para a zona tórrida e para a natureza selvagem, exuberante, grandiosa e opulenta (Brizuela, 2012; Schwarcz, 2014). A natureza então brinda representações de memórias coletivas e introduz elementos subjetivos fundadores das identidades individuais e coletivas. Como um dos símbolos da nação, as narrativas que cercam a natureza por vezes a monumentalizam. Abundam assim discursos em que a natureza é vista como atemporal e transcendente, anterior ao humano, e por tal separada e distante. Não parece fácil fugir do caráter monumental que se imputa à natureza, no qual ecoam a grandeza e imensidão. Nas retóricas sobre a natureza, quanto mais palpável e visível é o objeto natural, maior é o manifesto de realidade e operacionalidade social que se outorga ao discurso sobre ele produzido. É como se o tamanho material do A Missão Artística Francesa foi um grupo de artistas que chegou no Brasil no início do século XIX sob o amparo de Dom João VI. Tal empreendimento, liderado por Joachim Lebreton, introduziu no país, entre outras coisas, o sistema de ensino superior acadêmico das artes plásticas mudando aos poucos o panorama das BelasArtes. 1


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objeto reafirmasse a própria coerência do discurso científico ou popular, ilustrando algum tipo de verdade. “Imponente”, “eterna e permanente”, “original” e “fonte de autenticidade” são epítetos que acentuam a monumentalidade intrínseca nos discursos que representam a natureza. E no entendimento de que toda monumentalidade tem no cotidiano seu avesso (Gonçalves, 2002), dei-me à tarefa de indagar sobre a cotidianidade dos habitantes do setor de Vargem Grande do PEPB. A perspectiva etnográfica me permitiu uma aproximação aos conhecimentos locais e às categorias nativas do espaço habitado, que mais que unidade de conservação é um lugar de memórias e encontros, atravessado pela experiência diária de habitar, integrada em práticas que reforçam que as coisas não são “naturalmente dadas” nem “culturalmente construídas”, mas o resultado de um processo de co-construção (Ingold, 2000). Para os habitantes do maciço a paisagem não é algo que se aprecia à distância, mas formas que se entrelaçam à memória e aos antepassados. A agricultura, as histórias relacionadas aos tempos de antes, as referências míticas e ancestrais e as formas de narrar causos, parentes e memórias participam dessa co-construção do mundo. Do mesmo modo, as perdas, os movimentos, os deslocamentos, as ausências e as perpétuas transformações compõem uma paisagem vivida. Parentes e vizinhos que partiram continuam presentes no espaço e são o urdimento de uma retórica das ausências na paisagem. Meus principais informantes durante o trabalho de campo foram agricultores. Ainda que a busca por trabalho, tanto de caráter temporário ou mesmo definitivo na cidade seja um fenômeno crescente na comunidade, principalmente, entre os jovens, a categoria roça é estruturante do sentimento de pertencimento territorial, longe de uma centralidade econômica. Dei atenção aos agricultores e suas práticas inicialmente pelo fato de estarem mais presentes no local quando realizei o trabalho de campo, o mesmo trabalho ainda me revelou quanto a agricultura funda visões de mundo que entremeiam pessoas, plantas, animais e ambientes, o que a torna fonte de múltiplas conexões e devires. O trabalho do agricultor é “fazer acontecer” frutos na terra, e ao comercializar sua safra na cidade o agricultor estabelece vínculos entre sua roça com o meio urbano. O empreendimento agrícola é uma forma de habitar o mundo e, como afirma Ingold (2000), habitar não é apenas


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agir sobre o mundo, mas se mover com ele. Deste modo, se impõe uma nova forma de compreender as práticas de um agricultor, as quais não transformam a paisagem, pois elas são parte do mundo transformando-se a si mesmo. Economicamente, a agricultura de Vargem Grande teve um maior destaque entre as décadas de 1930 e 1970. Ela vem minguando paulatinamente e hoje em dia uma boa parte dos moradores se dedica a outras atividades econômicas, muitas vezes fora da roça, mas ela permanece fonte de referência, identidade e memória. A diminuição da agricultura reflete as mudanças que operam a conjunção de fatores tais como o avanço da urbanização, a especulação imobiliária, a valorização do solo urbano a custas do desaparecimento do uso rural e a ausência de políticas públicas para apoiar e estimular a agricultura no município, com a consequente mudança de vocação dos moradores (Soares, 1981; Santos, 2007; Santos & Fernandes, 2012). Essa mudança na paisagem do Maciço sintetiza também uma tensão entre dois fenômenos: de um lado, o esvaziamento dado pela saída de moradores tradicionais, o que de certa forma permitiu a renovação natural da floresta, e, de outro lado, a pressão imobiliária nas áreas de amortecimento, dada pela progressiva densificação urbana. No meio dessa tensão entre conservação ambiental, pressão imobiliária e saída dos habitantes que não podiam se manter mais dentro da área do parque, a família Santos Mesquita se mobilizou na busca pelo reconhecimento como comunidade remanescente de quilombo por parte da Fundação Cultural Palmares (FCP), que em setembro de 2014, fez entrega da certidão.2 Essa data marca o início de uma mudança da relação entre os habitantes do Maciço e o parque natural. Foi também a partir desse momento que eu iniciei a pesquisa etnográfica no local, num contexto extremamente favorável “Certificar” uma comunidade quilombola é diferente de “titular” o território dessa comunidade: “Na certificação, dá-se apenas o reconhecimento oficial de uma situação preexistente, de um território formalmente ocupado, ou seja, altera-se o status social do grupo, sem promover a sustentabilidade desse status (Rodrígues, 2010). Deste modo, para garantir a existência de uma comunidade quilombola é preciso demarcar e titular o território. É na titulação onde se completa em toda a sua extensão o potencial político do reconhecimento identitário. A maioria dos processos oficiais para quilombos se estancam na titulação, já que ela significa quebrar com as lógicas tradicionais de apropriação e concentração da terra no Brasil. 2


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para a minha entrada em campo. Fui acolhida pela família Santos Mesquita ao longo de oito meses de convívio e varias visitas esporádicas que aconteceram depois. Os membros da família também foram meus informantes privilegiados e me levaram a conhecer pessoas de outros núcleos familiares. O trabalho de campo me aproximou não apenas do repertório do processo organizativo local em torno da nascente questão quilombola, senão também de um conjunto de fatos cotidianos, menos enquadrados no interior de uma política identitária e mais ligados às percepções locais, relações sociais e epistemologias próprias expressadas no entrecruzamento de duas categorias analíticas: a memória e a paisagem, que foram uma constante durante a pesquisa em Vargem Grande. Antes de prosseguir com a descrição do conteúdo dos capítulos que compõem este volume, é preciso explicar um pouco do local onde a pesquisa aconteceu. Localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, Vargem Grande é um bairro que está dividido em duas porções, a parte alta, que está dentro dos limites do PEPB, e uma parte baixa que corresponde à área urbana, cujo eixo central é a Estrada dos Bandeirantes. Essa parte do bairro tem deixado de lado certa ruralidade, transitando para o adensamento urbano. É um espaço híbrido que combina a presença de antigas casas de estilo português de um ou dois andares, condomínios de casas, casas de veraneio, casas de artistas, clubes privados e alguns lotes sem construções onde ainda predomina o verde. Duas pequenas favelas e os mais novos prédios de altura que encarnam a ameaça das mudanças urbanas coexistem com pequenos comércios de vendas, supermercados, igrejas evangélicas, oficinas mecânicas, viveiros, restaurantes e botecos. A pesquisa transcorreu na parte alta do bairro, que corresponde à área do parque, ao qual se acessa pela Estrada Pacuí e depois pela Mucuíba, uma rua poeirenta e sem calçadas, guardada por ambos os lados por casas, alguns sítios, clubes e haras. Na medida em que se vai ascendendo pela serra, a estrada se torna mais estreita. Ao alcançar os 100 metros acima do nível do mar, encontra-se a rua chamada Luís Borracha; mais uns metros para o alto encontra-se a placa azul que indica o limite do PEPB, a pequena e branca capela de Nossa Senhora da Conceição. Fora a placa, não há nenhum traço visível na paisagem que demarque o início do parque.


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Nesse cruzamento de ruas estão os primeiros núcleos das famílias quilombolas e o bar Tou Na Boa, administrado por Maria Lúcia e sua filha Giselle, da família Santos Mesquita. O boteco é ponto de divulgação de notícias locais e parada obrigatória de visitantes da área do parque, como banhistas e cavaleiros que deixam na frente seus cavalos enquanto bebem e comem. Um pouco mais acima desse ponto se identificam casas de pessoas mais abastadas. De fato, a combinação de núcleos de residentes nativos com mansões e casas mais luxuosas dentro da área do parque não é incomum. Há outros caminhos e estradas que desde a parte baixa de Vargem Grande permitem subir à serra. As pessoas que usam esses caminhos não precisam passar pela estrada Mucuíba nem pela Luís Borracha, o que às vezes dificulta a divulgação com rapidez de informações e notícias que se geram nessa parte do bairro. No meu caso, sempre que subi a serra, eu o fiz por essas estradas e caminhos onde se concentram os núcleos da família Santos Mesquita. Ao longo do trabalho de campo visitei e passei por todos os demais caminhos e núcleos, mas meu ponto de partida sempre foi o Caminho do Cafundá, na maioria das vezes em companhia de algum dos membros da família Santos Mesquita. Com relação ao conteúdo que será apresentado resta expor que não pretendo impor aos capítulos que compõem este texto uma falsa unidade. Eles são ensaios exploratórios que se debruçam principalmente sobre as percepções espaciais e temporais das famílias habitantes desse setor do maciço da Pedra Branca. Alguns dos capítulos tiveram primeiras versões publicadas em forma de artigo para revistas das ciências sociais. Os textos são explorações que se estendem para as diversas representações da paisagem, do tempo e das cosmologias locais percebidas através da memória, das práticas de lazer e militâncias das quais participam os quilombolas, segmentos populacionais do bairro e visitantes do parque, entre outros. Se por um lado a exploração dessas percepções permitiu ter uma compreensão de relações mais simétricas entre pessoas e elementos da natureza, o que leva a descobrir a agência de muitos desses elementos nas relações sociais, essa abordagem não prescinde de uma certa política das representações, onde a paisagem é também o lugar de disputas e de inscrição de processos históricos e culturais dos sujeitos em ação. Nesse sentido, os aportes de Ingold (2000) a respeito de como


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corpos e paisagem geram a si mesmos mútua e simultaneamente foram inspiradores para achar uma simetria entre a cultura e a natureza, nos permitindo expandir o alcance etnográfico a relações entre humanos e não-humanos, que de outra forma passariam inadvertidos. Contudo, é necessária uma precaução: não escapamos nunca do mundo das representações, já que a paisagem de Ingold não deixa de ser em si mesma uma representação da relação entre natureza e cultura. Do mesmo modo, ainda que possamos reportar simetrias entre humanos e não-humanos, os primeiros também não escapam do mundo das categorias coletivas do entendimento, cuja percepção da paisagem não está alheia a pensamentos, relações sociais e políticas. Deste modo foi possível ver como elementos da paisagem são apanhados nas vidas das pessoas, como estas lhes conferem significados e como tais elementos são incorporados no contexto histórico e social dessas vidas. Para além dos objetivismos e subjetivismos que cercam a paisagem, Tilley (2004) propõe um entendimento mais holístico desta, conectando corpos, movimento e lugares num todo definido como “[...] conjuntos de relações percebidas e incorporadas entre lugares, uma estrutura de sentimento, emoção, dwelling, movimento e atividade prática humana numa região geográfica que pode ou não possuir fronteiras ou limites topográficos” (Tilley, 2004, p. 25). Nesta definição, lugares constituem corpos e vice-versa; corpos e lugares constituem paisagens. Lugares reúnem pessoas, memórias, estruturas, histórias, mitos e símbolos. Paisagens reúnem o mental e o material, o simbólico e o prático, o selvagem e o doméstico; elas são também coleções de lugares e significados. Deste modo, paisagens são fortes meios de socialização e conhecimento, com forte influência nas identidades pessoais e sociais. Por fim, uma ressalva é importante: com Simmel (1996) aprendemos que a paisagem não é uma categoria universal, presente em todo tempo e cultura. Dita constatação não promove uma abdicação dela, mas propõe como desafio entender como a natureza é ressignificada segundo as diferentes lógicas culturais, levando-nos a compreender quais são os aspectos da subjetividade humana, os sentimentos e os vínculos afetivos estabelecidos com determinado fragmento da natureza que permitem seu rearranjo de uma forma específica. Esse recorte ocorre mediante um processo em que o conjunto de objetos contidos nesse excerto são inter-relacionados


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pelo intelecto, constituindo um novo conjunto, ou melhor, uma nova totalidade. Espero então poder oferecer aqui uma dimensão das formas como a paisagem é vivenciada e como é ancorada por diferentes meios à memória. O primeiro capítulo, O tempo que alcancei: narrativas sobre o passado e outros marcos da memória, traz uma perspectiva antropológica sobre as reflexões que os atores sociais elaboram sobre o tempo. Ao refletirem sobre o seu passado, as famílias que compõem o movimento quilombola em Vargem Grande narram os acontecimentos que têm significado imediato, estabelecendo uma temporalização que versa sobre os fatos considerados socialmente relevantes que têm fundado marcos da memória coletiva, e que respondem aos interesses e preocupações dos atuais grupos familiares. Nesta reflexão o tempo apresenta uma natureza social não abstrata, sendo o ritmo da vida coletiva o marcador das temporalidades que operam na sociedade. Aqui as mudanças sociais que têm tido impacto na paisagem não são marcadas por datas, mas por “tempos” ou períodos que são designados por nomes que articulam espaços e modos de habitar. O modo de refletir sobre os tempos que marcam sua história parte de situações sociais concretamente vividas. No pedido de reconhecimento ante a FCP, elaborado pela família que lidera o processo, figura como parte importante da sua história a existência de um centro de umbanda espírita, chefiado por Astrogilda, a falecida matriarca que deu origem ao atual núcleo familiar do Caminho do Cafundá. Comunidade Cafundá Astrogilda foi o nome proposto na solicitação de reconhecimento como comunidade quilombola feita ante a FCP e portanto o nome que aparece na certidão entregue. O nome foi sugerido à época pela ONG Panela de Barro, parceira e assessora do processo, para homenagear a matriarca Astrogilda como fundadora do terreiro localizado no Caminho do Cafundá. A expressão Cafundá seria uma variação da palavra “cafundó”, que quer dizer lugar ermo, escondido, distante. No dossiê entregue à FCP encontrei aquela que seria a primeira logomarca da comunidade quilombola, um preto velho no meio de uma igreja de duas naves, que seria o altar da Astrogilda. Naquela primeira aproximação, não imaginava a importância de Tertuliano nas memórias familiares, que é o ponto central do segundo capítulo.


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Pai Tertuliano, vó Astrogilda e Pingo, o guardião: de memórias familiares a patrimônio cultural é uma abordagem das memórias do guia espiritual do terreiro, um preto velho que se tornou referência em Vargem Grande, muito além do círculo familiar. Os objetos litúrgicos do desativado terreiro permanecem sob custódia familiar, oferecendo um suporte material para suas memórias e desempenhando hoje uma função de autoconsciência familiar e coletiva. Frente ao novo horizonte de direitos, interessa entender o trânsito de uma herança familiar para o âmbito da política e da visibilidade, contemplando o patrimônio como uma categoria que estabelece mediações entre diversos domínios, social e simbolicamente construídos. A história que os descendentes de Astrogilda e Celso dos Santos Mesquita narram hoje versa sobre a origem do terreiro que ambos chefiaram ao longo das suas vidas. Localizado no Caminho do Cafundá, o centro espírita foi um importante articulador das relações sociais da família e da vizinhança e emerge hoje como um lugar de memória e como mito de origem da comunidade quilombola. No autorreconhecimento como negros e, posteriormente, como quilombolas, as memórias do terreiro da avó Astrogilda cumpriram um papel importante. A arte de falar mal dos outros e outras maledicências apresenta uma análise sobre a natureza da oralidade, que a meu modo de ver termina por definir os contornos de uma comunidade mais além das delimitações políticas ou geográficas. Atos narrativos estão presentes no cotidiano de trabalhos, festejos e lazer. A troca verbal das experiências vividas promove a criação de uma comunidade narrativa que se expressa em várias situações que destacam a arte de relatar e conversar, onde além dos canais de sociabilidade se expõe uma filosofia sobre a vida, o mundo existente e as relações sociais que o criam. Mediado pela narração o mundo é interpretado, ordenado e transmitido aos outros. Neste momento me permito explorar não apenas o conteúdo das narrações, mas também os formatos assumidos pelos atos narrativos tais como performances corporais, fofocas e pasquins. À luz das próprias transformações do espaço, os moradores da serra observam um declínio dos formatos narrativos, como consequência do processo de mudanças em que traços rurais vão cedendo espaço para formas mais urbanas, cujos códigos socioculturais oferecem uma vasta heterogeneidade. Essas memórias narradas e transmitidas possuem uma íntima imbricação com a paisagem no Maciço da Pedra Branca. À


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medida que a pesquisa sobre as histórias e memórias avançava, a paisagem aparecia reelaborada, recriada e revisitada a partir de diferentes óticas. A percepção nativa do espaço nessa pesquisa foi dada mediante a exploração da paisagem como categoria de pensamento que permite a narração das memórias das redes do parentesco e vizinhança das famílias quilombolas. No capítulo Paisagem, memória e parentesco a categoria de paisagem ganha protagonismo ao ser narrada e se tornar registro e testemunho das vidas, atividades e itinerários das gerações passadas que deixaram suas marcas e pegadas nela. À diferença da paisagemobjeto, compreendida como uma entidade externa e separada que se observa à distância, o capítulo apresenta a perspectiva de uma relação mais simétrica entre paisagem e moradores, desafiando a separação ontológica entre sujeito e ambiente, não sendo possível falar da paisagem do maciço sem fazer referências a parentes e ancestrais cujas memórias permanecem atreladas a caminhos, casas e roças. As famílias que hoje pleiteiam a titulação das suas terras no Maciço da Pedra Branca não são as únicas habitantes dessa paisagem. Além de moradores de classe alta que têm na serra casas de veraneio e sítios, o maciço também recebe visitantes urbanos ligados a universos sensoriais pautados pelas suas próprias histórias e educação. Percorrendo a mesma floresta, indivíduos diferentes não são sensíveis aos mesmos dados, explica Le Breton (2016). Surge então a tensão entre as perspectivas do habitar e do lazer, analisadas aqui a partir da experiência dos moradores tradicionais, que têm sofrido as consequências da transformação do seu lugar em unidade de conservação ambiental. Mais além dos conflitos emanados da restrição de usos de espaço para os moradores do parque, o capítulo Do caminho à trilha: as perspectivas do lazer e do habitar na Transcarioca procura entender o confronto de visões, interesses e experiências ambientais existentes entre as perspectivas dos habitantes locais e da população urbana visitante. A aspiração a usufruir da oferta ambiental por parte de segmentos urbanos, longe de ser homogênea, se alimenta de contrastantes e particulares “expectativas de natureza” que nem sempre comungam com os desejos dos ambientalistas e promotores de trilhas ao interior do PEPB. Essas trilhas que hoje são promovidas com fins turísticos têm sua origem na ocupação centenária da área,


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seus particulares modos de vida e os circuitos de comércio que marcaram a história da zona oeste do Rio de Janeiro. Nesse contexto sobressai o ambicioso projeto da Trilha Transcarioca, que procura atrair caminhantes profissionais para realizar uma travessia de longo percurso unindo a Floresta da Tijuca ao Maciço da Pedra Branca. Dito projeto foi útil para explorar na pesquisa as diferentes camadas de realidade que se entrelaçam. A aproximação a essa problemática permite aflorar que não existe uma única floresta, mas uma infinidade de percepções segundo os ângulos de aproximação, expectativas e pertenças socioculturais (Le Breton, 2016). Ingold (1992) reitera que a natureza só existe como a construção do observador. O que importa é o meio ambiente, ou como o mundo é constituído em relação às atividades de todos os organismos que contribuem para sua formação. Essa perspectiva não tenta negar a realidade biofísica, mas seu princípio de realidade difere do cartesianismo porque o sujeito de conhecimento está profundamente implicado no mesmo processo de construção do mundo (Ibid.). Colocar a perspectiva do lazer em comparação à perspectiva do habitar estimula uma compreensão sobre discursos e verdades construídos em nome da natureza e as formas concretas com que estes autorizam agendas e intervenções particulares que configuram o biológico e o social. A imagem de um bairro rural, ligado à natureza, com a esplêndida paisagem florestal do Maciço da Pedra Branca ao fundo, tem se transformado em um polo de ecoturismo, onde passeios a cavalo, aluguel de sítios, criação de plantas ornamentais e trilhas rústicas somam-se a outros dois fatores de atração: o “Polo Gastronômico”, com restaurantes rústicos e sofisticados; e o “Rio Water Planet”, um dos maiores parques aquáticos da América do Sul. Inaugurado em 1998, abriga em seus 400.000 m2 de área mais de 30 atrações diferentes. O capítulo Desbravando o Sertão Carioca está dedicado à compreensão de uma outra leitura da paisagem, entendida como cenário de memórias afetivas e fonte de identidades que se confrontam com o avanço das transformações urbanas que vêm modificando profundamente a antiga ruralidade dos bairros Camorim, Vargem Grande e Vargem Pequena. Com essa análise fica claro, por um lado, que as paisagens podem ser conscientemente concebidas para expressar as virtudes de uma determinada comunidade política ou


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social e que, por outro lado, são mobilizadas e imbuídas em retóricas de toda ordem, tanto ecológicas como identitárias. A mais recente aceleração urbana, produto do Plano de Estruturação Urbana (PEU) das Vargens, que passou a permitir densidades e verticalidades habitacionais, ameaça não apenas um estilo de vida, tido por mais tranquilo, mas também as próprias áreas de amortecimento do PEPB. À medida que esses avanços e modelagens urbanísticas propõem mudanças radicais capazes de trazer para o entorno o universo das relações impessoais e do anonimato, emerge um movimento retrospectivo que olha para o passado e encontra nas crônicas de Armando Magalhães Corrêa o espelho de um tempo mítico que reunia no seu seio florestas mais densas, povoadas por uma população sertaneja local afastada da modernidade carioca. O Sertão Carioca, nome da obra de Magalhães Corrêa escrita em 1936, reaparece na cena contemporânea a partir das interpretações realizadas por pesquisadores, moradores do bairro e quilombolas. A difusão da obra entre alguns setores de Vargem Grande e outros bairros da zona oeste carioca é sintomática de um certo regime de tempo histórico (Hartog, 2013), que ecoa as reivindicações das famílias quilombolas. A paisagem aqui serve de suporte para a memória de outros segmentos sociais do bairro que justamente sentem ameaçada a paisagem afetiva que habitam e conhecem. Sertão carioca é um poderoso apelo, não necessariamente homogêneo, que vem ganhando repercussão. É uma categoria que evoca valores, afetos e interesses diversos com pontos em comum, e também por vezes antagônicos, com a pesquisa acadêmica, o ativismo social e a preservação histórica. Esse capítulo se conecta com várias das reflexões propostas ao longo dos demais capítulos, mas se imbrica especialmente com as narrações do passado e da memória, que se fundem no presente para configurar um prisma através do qual o presente e passado são modelados, trazendo à tona o status mítico dessa categoria que resume uma certa brasilidade.

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Pelos caminhos do Cafundá (preview)  

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