__MAIN_TEXT__
feature-image

Page 1

Glossรกrio de Derrida


Glossário de Derrida

Trabalho realizado pelo Departamento de Letras da PUC-Rio Supervisão geral de Silviano Santiago

Segunda edição


© Livraria Francisco Alves Editora, 1976 © Papéis Selvagens, 2020 Coordenação Editorial Rafael Gutiérrez, María Elvira Díaz-Benítez, Antonio Marcos Pereira Diagramação Martín Rodríguez Imagem de capa e imagens internas Lena Bergstein (Agradecemos à artista pela cessão de seus desenhos realizados exclusivamente para esta edição.) Revisão Joca Wolff Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG) Santiago, Silviano, 1936-. S235g Glossário de Derrida / Organizador Silviano Santiago. - 2.ed. - Rio de Janeiro (RJ): Papéis Selvagens, 2020. 136 p. : il.; 16 x 23 cm ISBN 978-85-85349-18-9

1. Derrida, Jacques 1930-2004 - Crítica e interpretação 2. Filosofia francesa. I. Título. CDD 194

[2020] papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Carta de Jacques Derrida para Silviano Santiago, cedida gentilmente para esta edição.


Sumário

Prefácio Repetição e diferença. Silviano Santiago e a prisão como modelo de escrita raúl rodríguez freire

11

Introdução à primeira edição de 1976 Silviano Santiago

29

Convenções

31

Glossário

33

Posfácio Silviano e Derrida, contemporâneos radicais Ana Skinner

115

Índice

129

Agradecimentos

133

Sobre Silviano Santiago

135


Prefรกcio


Repetição e diferença Silviano Santiago e a prisão como modelo de escrita1 raúl rodríguez freire Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso As artes têm um desenvolvimento que não vem de apenas um indivíduo, e sim de toda uma força adquirida: a civilização que nos precede. Não é possível fazer qualquer coisa. Um artista capacitado não pode fazer o que for. Não existiria se não empenhasse mais do que seus dons. Não somos donos de nossa produção; a produção nos é imposta.

Henri Matisse, Reflexões sobre a arte No campo propriamente literário, nossa época ficará conhecida e reconhecida pelo desejo de não deixar que o acontecimento poema, conto ou romance, tenha vida solta e exclusiva.

Silviano Santiago, Circulação do poema sem poeta (Carlos Drummond de Andrade) I Com a virada de século, temos visto proliferar trabalhos dedicados a Jacques Derrida, e não são uma exceção aqueles concentrados no que com bastante precaução poderíamos denominar sua “terminologia”. Entre os que circulam, encontramse Le vocabulaire de Jacques Derrida (2001), o primeiro e talvez o mais interessante dessa série, posto que seu autor, Charles Ramond, decidiu concentrar-se exclusivamente nos chamados termos indecidíveis (contra, entre, hímen, etc.), assim como nos compostos (ex. artefactualidade, circonfissão, fantomaquía, etc.), com o fim, se isso é possível, de “restituir claramente a lógica e a coerência do gesto 1

Tradução de Davis Diniz, 2019.


12 | Glossário de Derrida

derrideano”2. Por volta de cinco anos mais tarde, também em francês e sob a organização de Manola Antonioli, publicou-se Abécédaire de Jacques Derrida, um trabalho algo mais ambicioso, embora cada termo tenha a limitação de concluir-se, isto é, de oferecer uma definição mais ou menos completa, acompanhada de um “ver” que remete a outros termos3. Sua pertinência, contudo, possivelmente se encontra na consideração de nomes que, na hora de compreender o trabalho de Derrida, resultam centrais: Freud, Husserl, Gadamer, Lacan, Mandela, Descartes, entre outros. Em inglês, são dois os livros que se publicaram nesse sentido, A Derrida Dictionary 4 e The Derrida Dictionary5, o primeiro a cargo de Niall Lucy (2004) e o segundo de Simon Morgan Wortham (2010). O interessante de ambos é que no próprio trabalho de “definição” estão inscritos termos que remetem a outros, e assim sucessivamente. Quanto à diferença que possuem (à parte da sútil, porém importante distinção a/the), seria a seguinte: a obra de Lucy trabalha os termos que têm maior circulação no texto derrideano (se entendemos por isso tanto os textos assinados por Derrida quanto os outros que lhe têm sido dedicados), ao passo que a de Morgan decidiu encarregarse dos títulos (Papel-máquina, Força de lei, Aporias, por exemplo) e, como a de Antonioli, também de alguns nomes próximos (Blanchot, Benjamin, Bataille, para citar alguns), embora de maneira diferente, pois em The Derrida Dictionary tão-só aparecem com suas datas para logo derivar a títulos em que foram trabalhados. Que o Glossário de Derrida tenha ainda potência para somarse a esses textos, e sair invicto, é algo que atesta a lucidez por meio da qual Silviano Santiago decidiu tomar parte em um trabalho tão espinhoso como o de tentar apresentar um pensamento que se realiza precisamente subtraindo-se a toda sistematização, e sobretudo a uma sistematização a que o formato dicionário/ vocabulário/abecedário bem poderia codificar, recortar e classificar para, finalmente, neutralizar. Produzido faz já quatro décadas, e apenas poucos anos antes de que o nome de Jacques Derrida começasse a reconfigurar a cena internacional da crítica e da 2

Charles Ramond. Le vocabulaire de Jacques Derrida. Paris: Ellipses, 2001, p. 3.

3

Manola Antonioli (coord.). Abécédaire de Jacques Derrida. Paris: Sils Maria, 2007.

4

Niall Lucy. A Derrida Dictionary. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

5

Simon Morgan Wortham. The Derrida Dictionary. London & New York: Continuum, 2010.


Prefácio | 13

filosofia, este Glossário imediatamente inscreve, e se inscreve, na desconstrução, suspendendo a figura do autor, pois, tal como nos é indicado na apresentação, foi realizado não apenas sob um critério de anonimato, mas, também, por meio de uma revisão final coletiva. Depois, como farão outros mais tarde, cada verbete reenvia a outro, fazendo com que cada um suplemente o outro, mediante um tecido ou uma intertextualidade que rompe com a intenção de fixar algum significado: um significante remete a outro significante, desterrando assim a possibilidade de um fechamento conceitual. O feito de que este pioneiro trabalho se sustente por meio dos primeiros seis textos de Derrida, publicados em 1967 (Gramatologia, Escritura e diferença, A voz e o fenômeno) e em 1972 (Disseminação, Margens da filosofia, Posições), textos que contêm e configuram a emergência de um (seu) pensamento que nos anos seguintes não fará senão proliferar e radicalizar-se (como em Glas, em Cartão-postal ou em Ulisses gramofone), é o que outorga força a este Glossário, que os reuniu e apresentou de maneira desconstrutiva, ao mesmo tempo em que contribuiu para sua disseminação de maneira impensável. Por isso, há que se destacar que os então jovens estudantes de mestrado que, motivados por Silviano, se interessaram pelo pensador francês, são hoje reconhecidos pesquisadores e professores de pós-graduação, além de tradutores. Ana Skinner, por exemplo, traduziu Espectros de Marx e Circonfissão, dois dos principais textos derrideanos publicados na última década do século passado; e ela destaca na página web de O Globo, no dia 4 de outubro de 2014, a propósito da influência de Derrida no Brasil, o que a seu juízo seria a importância de seu antigo professor: “Se tivesse de imaginar motivos para o sucesso de Derrida nos estudos literários, ressaltaria, sobretudo, esse primeiro contato com a filosofia, contada em prosa por Derrida, e o gesto preciso de Silviano diante do momento político brasileiro, em 1975: apresentar aos estudantes de Letras um texto em que é encenado o poder subversivo da escrita”. Evando Nascimento, um dos principais leitores contemporâneos de Derrida, destacou que este Glossário foi por muito tempo uma referência solitária em seu país (e vemos que não só no Brasil), porém com a suficiente potência para contribuir para a disseminação da desconstrução. Por outra parte, a extensa e completa bibliografia que Geoffrey Bennington incluiu no final de seu derridabase, outra tentativa de apresentação conceitual (“obra por meio da qual [se]


14 | Glossário de Derrida

responde ao longo de uma numerosa série de tópicos, encabeçados por suas correspondentes palavras-chave, a praticamente tudo o que alguém gostaria de saber sobre Derrida mas que teria vergonha de perguntar”6), assinala que este Glossário corresponde à sexta obra que a nível internacional encarrega-se de seu trabalho. Na verdade, se repararmos no fato de que sua apresentação começou dois anos antes de sua publicação, e que em 1976 apareceram outros dois livros dedicados a Derrida, sem nenhuma dificuldade poderemos afirmar que Silviano foi um dos primeiros críticos a ocupar-se séria e detidamente da desconstrução. Que alguns de seus ensaios mais importantes tenham sido escritos entre 1970 e 1971 é algo que reforça a ideia, ao indicar que Silviano não operou como reprodutor, e sim como produtor, enriquecendo a partir da margem, de um país dependente, uma estratégia de leitura que lhe permitiu contribuir para o descentramento do eurocentrismo, ao descontruir o pensamento metafísico tão enraizado na América Latina por meio de uma política identitária telúrica, defendida historicamente pelos principais intelectuais produzidos no subcontinente. Por isso, vale a pena recordar que em seu primeiro livro ensaístico, publicado no mesmo ano do Glossário, Silviano leu desconstrutivamente a poesia de Carlos Drummond de Andrade. O título daquele ensaio, Circulação do poema sem poeta – tomado de um verso escrito em 1968 pelo próprio Drummond em função da morte de Manuel Bandeira –, nem sempre é evidente no próprio objeto (livro), pois se vê subsumido sob o nome do poeta que cobre a capa, ao mesmo tempo em que indica corresponder ao quarto livro da coleção “Poetas modernos do Brasil”, dirigida por Affonso Ávila, amigo de Silviano e que o convidara a escrever sobre Drummond. Sem dúvidas, esse belo título (e a leitura desconstrutora) já se anunciava na edição crítica de Iracema, realizada por Silviano em 1975, onde chamava a atenção para o esquema metafórico pai/filho por meio do qual José de Alencar designa a si próprio e a sua obra, o que revela o radical contraste apresentado pelo poema drummondiano7. De maneira que Manuel Garrido. “Prólogo”. In.: Geoffrey Bennington e Jacques Derrida. Jacques Derrida. Trad. María Luisa Rodríguez. Madrid: Cátedra, 1994, p. 11. 6

Em uma nota ao prólogo da primeira edição de Iracema, Silviano escreve: “Das constantes mais curiosas no texto alencariano, está o fato de usar sempre o esquema metafórico pai/filho para designar-se a si mesmo enquanto autor e livro [...]. O texto não pode circular sem a benção do pai [...]. Esse cuidado extremo pela sorte do 7


Prefácio | 15

em ambos os trabalhos de Silviano nos damos conta da força que guardam suas leituras com um pensamento como o de Derrida, e particularmente com um texto como “A farmácia de Platão”, central para todo o Glossário. Por isso, vale a pena citar por extenso umas linhas de Circulação do poema sem poeta: Assim é que o “pai” do discurso se ausenta do próprio discurso no momento em que lhe dá o estatuto de escritura, no momento em que seu filho-texto se torna independente. Sem a ajuda do pai, como afirmava Platão dentro da metafísica ocidental, o discurso rola daqui prali, caindo nas mais diversas mãos, que não sabem bem o que fazer com ele. [...] Derrida procura mostrar como o escrever é o negar da “presença” paterna, é exterminá-la com um golpe de estilete assassino, é dar ao texto a condição (agora vista positivamente) de sempre repetir a mesma coisa, mas ao mesmo tempo deixando que diferentes portas se abram para que novos olhos possam interpretar o texto significativo e suplementarmente. É, em outras palavras, dar ao texto o estatuto de filho bastardo. De filho que, assassinado o pai, começa a negar sua “presença” como fonte de significado8.

A seguir então tratarei de apresentar o trabalho que Silviano veio desenvolvendo já há um bom tempo, à luz de seu encontro com a escrita derrideana. Por este ano (2014) e este mês (outubro) coincidirem com uma década da morte de Derrida, este pequeno texto se faz como uma pequena homenagem. II Publicava-se em 1972 um ensaio que teria enorme impacto na disciplina antropológica, um ensaio que, de certa forma, propiciava texto (seu livro, dentro do esquema) redunda em uma característica excepcional de Alencar: é o escritor brasileiro onde mais claro fica o desejo de sempre cercar, cercear, o caminho livre do texto, quer o precedendo ou sucedendo por meio de prefácios e posfácios ou o protegendo com notas explicativas. [...] Sendo assim, torna-se difícil a livre interpretação do texto-filho na medida em que o autor-pai se quer fazer “presente” no momento da leitura”. Iracema (edição comentada por Silviano Santiago). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975, pp. 10-11. 8

Silviano Santiago. Carlos Drummond de Andrade. Petrópolis: Vozes, 1976, pp. 31-32.


16 | Glossário de Derrida

o caminho para a inscrição e exercícios retóricos e poéticos em seu próprio corpo escritural, possibilitando assim um giro radical que a antropologia não via possivelmente desde que um Lévi-Strauss escrevera Tristes trópicos. Refiro-me a “Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galo balinesa”, ensaio em que Clifford Geertz passou a estudar a cultura como se esta fosse um conjunto fechado de textos. Uma enxuta nota de rodapé nos indica que sua preocupação pela “semântica social” – em detrimento da “mecânica social” – está marcada pelo que a respeito escreveu Paul Ricoeur em Freud, uma interpretação da cultura (lido em sua tradução inglesa). Daí resultar estranho que em vez de realizar um trabalho interpretativo, determinado pela suspeição, termine buscando e afirmando o sentido profundo da cultura balinesa, mediante apelação a uma descrição densa que lhe permitiria compreender uma briga animal que toma como uma metáfora fechada sobre si mesma: “a interpretação consiste em tratar de resgatar ‘o dito’ de suas ocasiões passageiras e fixá-lo em termos suscetíveis de consulta”9, agrega ao texto que inicia A interpretação das culturas, talvez seu livro mais importante, publicado em 1973 em Nova Iorque. Publicava-se nesse mesmo ano e na mesma cidade uma pequena plaquette que, sob um enigmático título, considerava também a possibilidade de estudar a cultura como texto, porém o fazia completamente distanciado de uma semiologia profunda, e ainda mais de uma cultura ou texto que se pretenda ler como se se encontrasse fechado: Latin American Literature: the Space in Between, a primeira seleção ensaística de Silviano Santiago, apresenta ou põe em circulação uma estratégia gramatológica de leitura que acentuaria não o fechamento, mas a disseminação de um jogo textual infinito10. À diferença de um Geertz, que vê a cultura como “um conjunto de textos [...] que o antropólogo tenta ler por sobre os ombros daqueles a quem eles pertencem” (p. 321), afirmando com isso a superioridade exclusiva e autoritária de seu ponto de vista

Clifford Geertz. “Um jogo absorvente: Notas sobre a briga de galos balinesa”. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p. 321. 9

Silviano Santiago. “Latin American Literature: the Space in Between”. In: Latin American Literature: the Space in Between. Buffalo, N.Y.: Council on International Studies, 1973, pp. 1-19. 10


Prefácio | 17

metropolitano11, Silviano desconstrói a mirada imperial mediante um modo de interpretação cultural por meio do qual todo texto sempre e indefectivelmente remete a outros textos, abrindo-se para a possibilidade de que uma cultura dependente surpreenda o centro não só nele infiltrando-se ao despurificá-lo, mas mostrando que sua suposta unidade referencial é uma ficção, isto é, contribuindo para o descentramento da Europa, para sua provincialização, e, ao fazê-lo, abre-se uma hibridez radical descentrada e descentrante. De maneira que esse indecidível entrelugar impede todo fechamento e centralidade, ao mesmo tempo que desvela como vontade de poder qualquer leitura que busque subtrair-se ao movimento da suplementariedade. O ensaio conhecido hoje como “O entrelugar do discurso latino-americano” consiste então no primeiro intento, sério e acertado, de trabalhar com a desconstrução no Brasil e também na América Latina, desenvolvendo um conjunto de ferramentas que colocam em xeque as ideias metafísicas da crítica latino-americana tradicional. Silviano encara o assalto às metrópoles ao assinalar que “[a] maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e de pureza”12. Com isso, desloca a atenção a partir da aparente passividade da margem em direção ao trabalho, “ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo”13. Mas esse trabalho, recordemos, lido em 1971, dava conta também de um deslizamento que levava seu autor da literatura para a cultura enquanto tropo preferencial de interpretação. A literatura estava inscrita em um registro metafísico, ao passo que a cultura, que não estava menos, começava a ser fortemente atacada pela emergência de críticos anticoloniais, o que abria sua leitura a um jogo de indícios e apropriações que alguns anos depois dariam lugar aos estudos pós-coloniais. Desde os primeiros até os seus últimos ensaios, Silviano não deixou de operar desconstrutivamente. Em As raízes e o Para uma rotunda crítica a Geertz, ver Vincent Crapanzano. “El dilema de Hermes. La máscara de la subversión en las descripciones etnográficas”. In: James Clifford e George Marcus (eds.). Retóricas de la antropología. Trad. José Luis Moreno-Ruiz. Barcelona: Júcar, 1991, pp. 91-122. 11

Silviano Santiago. “O entre-lugar do discurso latino-americano”. In: Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 18. 12

13

Idem.


18 | Glossário de Derrida

labirinto da América Latina, por exemplo, aparece “[o] entre como lugar da descontrução da identidade do conceito e do conceito de identidade”14. “A situação atual do problema teórico, de que estamos nos servindo descritivamente”, assinala na sequência Silviano, “só ocorreu a partir dos 1970, quando é o próprio do conceito e o próprio da identidade como consciência da permanência da personalidade nacional ou continental que caem por terra”15. Com a ajuda de Derrida, o crítico mineiro lê em chave anagramática as figuras do pachuco e do barão, indagando nas cadeias de significantes em que se movem, e, ao fazer isso, reinscreve a problemática da diáspora no século XXI, porém não o faz a partir de “cima”, a partir “das relações interculturais de caráter internacional [que] se davam principalmente no âmbito das chancelarias ou das instituições de ensino superior”, e sim a partir do que hoje chamaríamos de posições “subalternas”. Em uma bela frase, Silviano destaca: “O camponês salta hoje por cima da Revolução Industrial e cai a pé, a nado, de trem, navio ou avião, diretamente na metrópole pós-moderna. Muitas vezes sem a intermediação do necessário visto consular”16. Um desenvolvimento exemplar em que se descontrói radicalmente o multiculturalismo liberal, amparado no caso do Brasil (porém não só no Brasil) pela ideologia da cordialidade. Uma estratégia de leitura como essa abre olhares interpelativos sobre a colonização, a dependência e a cultura que visualizam um campo ativo que suspende a noção de imitação, ao mesmo tempo que contesta suas forças coercitivas. No mesmo ano em que Silviano apresenta sua aposta na diferença do texto latino-americano e, por extensão, de todo texto, Roberto Fernández Retamar (1971) vociferava sua releitura do arielismo rodoniano, e colocava na boca de Caliban o grito metafísico do “nosso”. Não resta dúvida de que Próspero impôs seu monolinguismo, porém a forma que adquire sua renúncia reinstala a força dominante, não a diminui. A possibilidade de um pensamento “latino-americano” leva implicitamente ao reconhecimento de um pensamento “europeu”, Silviano Santiago. As raízes e o labirinto da América Latina. Rio de Janeiro: Rocco, 2006, pp. 37-38. (Grifos do original). 14

15

Ibid, p. 38. (Grifos do original).

Silviano Santiago. “O cosmopolitismo do pobre”. In: O cosmopolitismo do pobre. Crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 52. 16


Prefácio | 19

obliterando que a possibilidade de um pensamento tal se levante sobre uma centena de contatos transculturais, violentos uns, calmos outros, porém sempre a partir de um entrelugar que torna impossível o determinismo de uma origem, quer dizer, este entre é, também, uma forma de se referir ao que Derrida chamou de arquitraço. E se a ideia de um discurso “europeu” é factível, unicamente o é a partir de um trabalho histórico de repressão. III A prática desconstrutora que reconhecemos na escrita de Silviano está fortemente ancorada em sua atividade docente, não apenas porque o imprescindível Glossário de Derrida tenha sido composto por estudantes de mestrado no momento de voltar ao Brasil, mas sim porque foi em seus cursos, inclusive antes de entrar em contato com o chamado pós-estruturalismo e em particular com a desconstrução, que começou a ler, de certa forma, já desconstrutivamente, e, ao fazer isso, anunciava a transformação de uma literatura comparada que se sustentava sobre as dicotomias hierarquizantes de original/cópia e fonte/influência. Já nos primeiros momentos dos anos sessenta, Silviano lia a carta de Pero Vaz de Caminha (assim como o sermão de Antônio Vieira) de maneira notável: “Em 1962... descobri que estava estruturada em volta de uma metáfora, a metáfora da semente. Semen est verbum Dei [O sêmen é o verbo de Deus]. E organizei minha leitura em função do fato de que a carta tratava de uma semente metafórica que era valorizada – o verbo, a palavra de Deus –, e de uma semente não-metafórica que era depreciada”17 por originar-se no que hoje chamaríamos de criatural. Na sequência, Silviano poderá afirmar: “A partir daí, comecei a traçar uma cadeia histórica [...] havia uma fascinante descendência intertextual [mediante um movimento de repetição e diferença] na história da cultura e da literatura brasileira”18, posto que esta metáfora se reinscreverá mais tarde nos livros como Iracema, de José Ver “The Word of God” (escrito em 1969). In.: Latin American Literature: the Space in Between, pp. 45-57.

17

Helena Maria Bousquet e Lucia Maria Lippi Oliveira. “Entrevista com Silviano Santiago”. In.: Revista Estudos Históricos, número 30, volume 2, 2002, p. 158. 18


20 | Glossário de Derrida

de Alencar (1865), Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1915), Pau-Brasil, de Oswald de Andrade (1925), e Macunaíma, de Mário de Andrade (1928)19. Como vemos, trata-se de uma cadeia que articula, que enxerta um texto sobre outro, e, ao fazer isso, nenhum poderá ser considerado isoladamente, e sim “diferenciando-se na repetição, como um diálogo entre o mesmo e o outro”. Silviano, já com a ajuda derrideana, escreverá em “Análise e interpretação”, ensaio de introdução aparecido no mesmo ano do Glossário, o seguinte: Recoloca-se, portanto, a problemática do “sujeito” (do “autor”, em termos literários), pois não existe mais uma origem clara e altissonante que se deve buscar no processo de explicação do texto [...] Tem-se de pensar em um momento anterior confuso – confusão de escrituras –, pois os textos só falam significativamente a partir da inserção. Tomando como exemplo os poemas de Oswald de Andrade da História do Brasil (na coletânea Pau-brasil), pode-se dizer que o autor da Carta de Pero Vaz Caminha seria tanto este quanto o poeta paulista, os dois, na medida em que um se inscrevia dentro do outro e vice-versa, abandonando-se assim também uma visão cronológica e unívoca do estudo do texto literário, ou cultural de modo mais geral20.

Tempo e autor, teleologia e centro, são aqui desconstruídos de uma só cajadada, desorganizando as classificações e as histórias literárias, inserindo o “passado” no “presente” e o “presente” no “passado”, mediante um jogo suplementar por meio do qual Silviano continua lendo a cultura. Podemos imaginar então a alegria que deve ter sugerido para essa leitura o encontro com “A farmácia de Platão”, onde Derrida escreve: à relação das sementes fortes, férteis, engendrando produtos necessários, duráveis e nutritivos (sementes frutíferas) com as sementes fracas, logo esgotadas, supérfluas, dando nascimento a produtos efêmeros (sementes floríferas). De um lado, o agricultor paciente e sensato (ho noün ékhon georgós); de outro, o jardineiro de luxo, apressado e jogador. De um lado, o sério (spoudé); de outro, o jogo (paidía) e a festa (heorté). De um lado, a cultura, a Silviano Santiago. “A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial – um depoimento”, manuscrito (2014). 19

20

Silviano Santiago. “Análise e interpretação”. In.: Uma literatura nos trópicos, p. 243.


Prefácio | 21

agricultura, o saber, a economia; de outro, a arte, o gozo e a despesa sem reserva21.

O resultado desse diálogo já se deixava notar no primeiro curso que Silviano deu na PUC-RJ, em 1972, intitulado “A semente, ou a impossibilidade de escrever a origem”, curso por meio do qual se iniciava a disseminação de um pensamento antimetafísico que lhe permitiria transformar radicalmente os estudos literários do Brasil e da América Latina22. Assim o ressalta outra de suas alunas de mestrado, quando começaram a reler a história cultural do Brasil: “do século XVI ao século XX, a literatura brasileira, ou melhor, a cultura brasileira, foi revisitada, reescrita em seus diversos períodos, em uma perspectiva interdisciplinar, onde o discurso da literatura, da historiografia, da sociologia e da etnologia dialogavam dramaticamente, desvelando através de diversas marcas textuais, um processo de réplica e violência cultural até então encoberto. Assistiase naquele momento [nas aulas de 1975 e 1976], ao início de um processo pedagógico cultural hoje disseminado em várias linhas de pesquisa nos cursos de pós-graduação de literatura do país”23. Essa leitura, contudo, viu-se por sua vez favorecida por outro encontro, o da literatura latino-americana que “abre o campo teórico em que é preciso se inspirar durante a elaboração do discurso crítico de que ela será o objeto”24. Cortázar e sobretudo Borges permitiram pensar a literatura como tradução paródica global, entendendo por tradução não a anulação de “todo o jogo de significações contido

Jacques Derrida. A farmácia de Platão. Tradução de Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005, pp. 101-102.

21

Também deveríamos lembrar, nesse sentido, um dos primeiros ensaios de Silviano: “Desconstrução e descentramento”. In.: Tempo Brasileiro, núm. 41 (jan.-mar.), 1973, pp. 76-97. Esse ensaio se inicia ressaltando que a desconstrução “identificase como o desejo de questionar três (pré)conceitos básicos por meio dos quais se fundou a construção da metafísica ocidental: o fonocentrismo, o logocentrismo e o etnocentrismo”. 22

Evelina Hoisel. “Silviano Santiago e a disseminação do saber”. In.: Eneida Maria de Souza e Wander Melo Miranda (orgs.). Navegar é preciso, viver: escritos para Silviano Santiago. Belo Horizonte, Salvador, Niterói: UFMG, EdUFBA, EdUFF, 1997, p 48. 23

Silviano Santiago. “O entre-lugar do discurso latino-americano”. In.: Uma literatura nos trópicos, p. 29. 24


22 | Glossário de Derrida

neste termo”25, como fizeram, por exemplo, os herdeiros de Platão, que optaram por termos menos perigosos e neutralizáveis para traduzir fármakon. Pelo contrário, enquanto repetição e diferença, aqui a tradução libera e amplia o jogo citacional até transformar, traduzindo-o, o suposto texto “original”. O primeiro grande ensaio que apresenta essa estratégia desconstrutora é “Eça, autor de Madame Bovary”, título indicativo de uma leitura que busca derrubar as categorias fixas mediante as quais se pensava o romance realista oitocentista, invertendo e logo transgredindo a obra flaubertiana, suplementando-a mediante a incorporação do imaginário e do inconsciente. Com essa leitura, Silviano pretende esclarecer não a dívida de Eça de Queirós “para com Flaubert, mas o enriquecimento suplementar que ele trouxe para o romance de Emma Bovary; se não enriquecimento, pelo menos como Madame Bovary se apresenta mais pobre diante da variedade de O primo Basílio”26. Como se pode notar, afirmar a pobreza de uma importante obra francesa e, como tal, metropolitana, quando se a compara com um romance proveniente de um país periférico, nesse caso, Portugal, tem implicações radicais para a crítica cultural, ao mesmo tempo em que suspende o modus operandi da literatura comparada, que unicamente perceberia pobreza e inferioridade com o que, antes de distanciar-se do discurso neocolonial, viria a afirmá-lo. Porém a astúcia de Silviano aqui é dupla, pois, podendo fazê-lo, decide, além do mais, não trabalhar com textos brasileiros, driblando com isso as possíveis arengas que buscariam fixá-lo em uma posição nacional revanchista. Por outra parte, também esse ensaio foi onde Silviano começou a desenvolver a forma-prisão como possibilidade teórico-literária ou como ficção teórica. Não lhe interessa buscar a obra invisível, aquela que (se) repete sem diferença, como o Quixote de Pierre Menard, pois isso implicaria refutar “a liberdade da criação (tanto a visível quanto a invisível)27. O que se pretende é, pelo contrário, a transgressão explícita do modelo, posto que uma vez que tal reescrita acontece, “original” e “cópia” se suplementam até constituir parte de um 25

Consultar o verbete para “Tradução”.

Silviano Santiago. “Eça, autor de Madame Bovary”. In.: Uma literatura nos trópicos, p. 61. 26

27

Ibid, p. 58. (Ênfase minha).


Prefácio | 23

mesmo tecido. Sem dúvida, quando Menard instala “a prisão como forma de conduta”28, instala também a possibilidade de colocar o olhar na diferença que se inscreve em toda repetição: “Assim, a obra de arte se organiza a partir de uma meditação silenciosa e traiçoeira por parte do artista que surpreende o original nas suas limitações, desarticula-o e rearticula-o consoante à sua visão segunda e meditada da temática apresentada em primeira mão na metrópole”29. Para se dar conta dessa liberdade, Silviano recorre na sequência a outro texto de Borges, “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, belo título que contem uma metáfora que nos faz recordar indefectivelmente do jardim de Adônis rechaçado no Fedro por Platão: Imagina que um agricultor inteligente possua sementes e lhes dá valor, e das quais queira obter frutos. Pensaria tal homem seriamente em plantar suas sementes durante o verão nos jardins do Adônis e gostaria de vê-las desenvolvidas como plantas dentro de oito dias? Seria possível que o fizesse de bom grado, mas simplesmente a título de cerimônia religiosa, por ocasião das festas de Adônis30.

O cultivador inteligente, afirmava um pouco antes a famosa alegoria, não trabalha como o jardineiro, cuja preocupação principal seria a festa (eortes). Não, o semeador é, a seus olhos, responsável e paciente, e busca o terreno apropriado para plantar sua semente. Outra é, sem dúvida, a leitura de Silviano, que graças a Borges, inscrito com duas epígrafes em “A farmácia de Platão”, decidiu brincar com as flores que se disseminam pelos caminhos do jardim literário. Menard havia refutado compor outro Quixote; diferentemente de seu “complacente precursor”, havia refutado portanto a “colaboração do acaso”. Não pretendia nem sequer “ensaiar variantes de caráter formal ou psicológico”, seu projeto era o sometimento irrestrito “ao texto ‘original’”31. Tal proceder implica, agrega Silviano, “uma aceitação da escrita como um dever lúcido e consciente”, que se 28

Ibid, p. 60. (Ênfase minha).

29

Ibid, p. 66.

Platão. “Fedro”. In.: Diálogos: Mênon. Banquete. Fedro. Tradução direta do grego de Jorge Paleikat. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999, p. 180. 30

Jorge Luis Borges. “Pierre Menard, autor do Quixote”. In.: Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 41. 31


24 | Glossário de Derrida

exemplifica na “escolha consciente por parte do autor diante de cada bifurcação e não mero produto do acaso da invenção”32. Em outras palavras, trata-se de uma opção por inscrever-se no espaço do já escrito, e, uma vez que se consegue habitá-lo, traçar uma diferença. A literatura assim se apresenta como um mundo similar ao castelo que Homero rege no inferno de Dante, um castelo que cada escritor e cada obra reescrevem e povoam voluntariosamente. A literatura, ou certa forma de literatura, parece ser então a tradução incessante do já-dito que logrou construir algo que hoje poderíamos chamar de arquivo, se tal termo não estivesse lamentavelmente tão desgastado. Como o Foucault que pensou a linguagem ao infinito, vemos o arquivo como uma produtiva farmácia que reúne “todas as originalidades jamais inventadas”, como diria Alan Pauls33 em seu livro sobre Borges, uma farmácia da qual podemos tomar os elementos que nos permitem desajustar o presente. Tal metodologia não foi empregada unicamente para ler ou exercer a crítica literária e sim também para escrever de maneira tal que se desorganize ou desconstrua a clássica distinção entre obra e crítica. Em liberdade, o romance em que Silviano escreve o diário falso de Graciliano Ramos, também é um projeto que se esboça sobre uma forma-prisão que dá lugar, escrita e reescrita, ao descentramento da figura autoral a partir da emergência de Gracilviano, afortunado neologismo cunhado por Nelson Mota, na ocasião do lançamento do romance: Em liberdade é um livro que se constrói sobre outro, Memórias do cárcere. O narrador/personagem do diário falso deveria dar continuidade, em princípio, ao narrador/personagem das memórias. Minha opção estética não foi a da ruptura do artista com o passado, representada pela paródia, típica do modernismo brasileiro dos anos 20. Minha opção de escritor foi a do pastiche. [...] A opção foi deliberada e não produto do azar (não sou graciliniano assim como outros foram kafkianos ou borgianos, sem saber que o estavam sendo)34. Silviano Santiago. “Eça, autor de Madame Bovary”. In.: Uma literatura nos trópicos, p. 58.

32

33

Pauls, Alan. El factor Borges. Barcelona: Anagrama, 2004, p. 114

Raúl Rodríguez Freire e Mary Luz Estupiñán. “Crítica y diferencia. Entrevista a Silviano Santiago”. In.: Silviano Santiago. Una literatura en los trópicos, p. 268. 34


Prefácio | 25

Nesse livro, o jogo com a prisão é duplo, verídico e ficcional, pois Silviano não só aceitou deliberadamente a prisão como lugar teórico, bem como o seu revés, um revés que poderíamos chamar de o cárcere das memórias, isto é, do já-escrito, desvelando com isso que nesse romance Graciliano Ramos está fora da prisão na vida, porém dentro dela na literatura. Gracilviano então seria um nome que poderíamos denominar derrilheiro, de uma escrita em guerra permanente contra a metafísica ainda encarnada na crítica literária e cultural neoconservadora que campeia no século XXI. Gracilviano, nome disseminador inscrito, vale a pena assinalá-lo, em um belo texto que Mota intitulou “As flores de Gracilviano”, o que nos relembra, mais uma vez, o jardim reprimido por Platão. Quiçá não seja ocioso reparar neste momento que seu último romance tem por título Mil rosas roubadas... a ideia, ao que parece, é abastecer infinitamente o jardim da escrita, plantando ou roubando. IV Gostaria de encerrar este pequeno texto com dois exemplos produtivos por meio dos quais se pode apreciar a força do que ensinou Silviano. O primeiro nos proporciona Idelber Avelar, em sua leitura de María, de Jorge Isaacs, enquanto o outro, não sem me encabular, proporciona minha leitura de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, leituras que, em conjunto, nos permitem perceber como, a despeito de Sócrates, a crítica desconstrutiva não para de florescer. Em “Eça, autor de Madame Bovary”, Silviano assinala o que me parece ser a potência que se pode encontrar em uma escrita que conscientemente decide usurpar antropofagicamente outra que lhe “antecede”: A obra segunda, porque comporta em geral a crítica da anterior [...] Neste processo de desmistificação, o discurso segundo pressupõe a existência de outro, anterior e semelhante, ponto de partida e ponto de chegada, circuito fechado em que as decisões a serem tomadas pelo narrador ou pelas personagens diante de cada “bifurcação” já estão mais ou menos previstas e prescritas pelo original. A liberdade a ser tomada existe muito mais no plano da arquitetura geral do romance do que propriamente nas mudanças


26 | Glossário de Derrida

mínimas que poderiam ser estabelecidas para o comportamento das personagens35.

Quando li esse parágrafo pela primeira vez, as palavras liberdade e arquitetura ficaram rondando durante um longo tempo, posto que se oporiam sob uma lógica estruturalista, ao passo que aqui se suplementam, operação que, de alguma maneira, permite reler toda (a) história literária latino-americana. Para sua leitura de María (1867), assinala Idelber, pretendia determinar de que maneira é que inicialmente essa obra se concebeu como alegoria nacional. Isso porque no contexto em que Isaacs escreveu o romance o significante Colômbia estava longe de sua pretendida unidade e, se tal coisa foi pretendida, foi apenas a partir de uma leitura identitária canonizada a posteriori. De maneira que se se deseja ler María a contrapelo, isto é, como “alegoria não resolvida”, a aproximação então deve subtrairse à leitura que a inscreveu “como manifestação de um romantismo transposta para a América Latina que logo deveria ser julgado como imitação mais ou menos efetivada”36. Aqueles que se dedicaram a listar tudo o que Isaacs copiou do romantismo europeu não perceberam a curiosa originalidade do romance: não há, entre todos os grandes romances do romantismo europeu, nenhum no qual a representação da impossibilidade do amor tenha lugar nessa insólita figura que encontramos em María, a de um impedimento sem proibição. O amor de Efraín e María não é obstaculizado por nenhum dos típicos impedimentos dos tabus românticos (proibição, diferença de classe ou raça, inimizade entre os dois grupos sociais dos amantes, etc.), e sim porque o percorre uma insistente intempestividade37.

Quando perguntei a Idelber como havia desenvolvido essa leitura, imediatamente me disse que foi graças aos textos que Silviano havia escrito há mais de quarenta anos. Isso lhe permitiu reler um dos principais clássicos latino-americanos em chave suplementar e, de passagem, distanciar-se da importante leitura realizada por Doris 35

Silviano Santiago. “Eça, autor de Madame Bovary”. In: Uma literatura nos trópicos, p. 67.

Idelber Avelar. Figuras da violência: ensaios sobre narrativa, ética e música popular. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, p. 177. 36

37

Idem, p. 207.


Prefácio | 27

Sommer em seu Ficções fundacionais, que encontra no elemento judaico do romance uma metonímia exclusiva para a alteridade. Porém para Idelber, que também recorre à desconstrução neste ponto, “mais do que metáfora de um outro indizível, o judeu seria [...] a semente da alteridade que leva toda identidade ao interior de si mesma, atando-a uma herança que parece explicar o fracasso presente: o outro que insiste enquanto outro no interior do mesmo”. Vejamos agora como é que Os detetives selvagens podem ser lidos sob essa mesma estratégia. A primeira grande reescrita das obras homéricas, a Eneida, foi denominada inicialmente como Imitatio Homeri, e assim também foi como se condenou durante séculos – ainda depois de Dante – o virtuosismo de Virgílio, que supostamente não havia feito mais do que “plagiar” o “autor” da Odisseia e da Ilíada. Curiosamente, terá sido a aposta por uma radical diferença de uma firme repetição, o que, creio, impossibilitou perceber que Os detetives selvagens é a última reescrita homérica com a que tivemos contato, pelo menos em língua espanhola. Tal descuido possivelmente se deve a uma dificuldade para reconhecer como diria Gilles Deleuze – também a propósito de Menard – que “a repetição mais exata, a mais estrita, tem como correlato o máximo de diferença”38. As viagens de Ulisses Lima e Arturo Belano podem ser lidas como a mais radical desconstrução (que não é a simples inversão) do amor à Ítaca, como a narrativa do esgotamento daquela política de filiação que vincula até a morte (e, em alguns textos, inclusive além dela) terra e destino, pátria e vida. Trata-se de uma ruptura com a economia do retorno visivelmente explicitada nos vinte anos de viagem dos real-visceralistas. Se o Ulisses homérico fecha um círculo nômico, precisamente na casa paterna e em um dia em que Laertes se encontra lavrando (como bom semeador que era), o Ulisses de Bolaño preferirá avançar por um caminho para o qual não haverá retorno, desmistificando, suplementando a vida do mais famoso dos aventureiros. As consequências de tal viagem para a literatura latino-americana são radicais, pois nos move em direção a um entrelugar onde o latino-americano se dissemina, como diria García Madero, “em linha reta em direção ao desconhecido”. Entre Viña del Mar e Buenos Aires, outubro de 2014 Gilles Deleuze. Diferença e repetição. Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018 [1968], p. 34. 38

Profile for Papeis Selvagens

Glossário de Derrida (segunda edição)  

Produzido faz já quatro décadas, publicado inicialmente em 1976, e apenas poucos anos antes de que o nome de Jacques Derrida começasse a rec...

Glossário de Derrida (segunda edição)  

Produzido faz já quatro décadas, publicado inicialmente em 1976, e apenas poucos anos antes de que o nome de Jacques Derrida começasse a rec...

Advertisement

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded