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Uma literatura que se quer crítica Diluição de fronteiras entre a crítica literária e a ficção contemporânea


Renata Magdaleno

Uma literatura que se quer crítica Diluição de fronteiras entre a crítica literária e a ficção contemporânea


© Renata Magdaleno, 2019 © Papéis Selvagens, 2019

Coordenação Coleção Stoner Rafael Gutiérrez, María Elvira Díaz-Benítez Capa e diagramação Martín Rodríguez

Fotografias de capa e internas Ariel Subirá Revisão Brena O`Dwyer

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA)

Este livro foi realizado com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

Magdaleno, Renata, 1974-. M189I Uma literatura que ser crítica: diluição de fronteiras entre a crítica literária e ficção contemporânea / Renata Magdaleno. - Rio de Janeiro, RJ: Papéis Selvagens, 2019. 136p. : 16 x 23 cm - (Stoner; v. 12)

Bibliografia: p. 127-132 ISBN 978-85-85349-13-4

1. Crítica literária. 2. Literatura - Crítica e interpretação. I. Título.

[2019] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com

CDD 801.95


À Marina e Olivia, razão de tudo. Ao Ariel, pela parceria. Aos meus pais e meu irmão, por todo apoio, sempre.


Sumário

Apresentação O passado da crítica e a busca por espaço A influência do contexto digital Ensaios

Um autor em movimento: uma reflexão sobre o escritor brasileiro contemporâneo através da obra de João Gilberto Noll A viagem e a escrita: trânsito entre gêneros e territórios em Martín Caparrós e Andrés Neuman Viagens e diários Porque a vida é feita de encontros

O casamento entre a crítica e a ficção: uma reflexão sobre a crítica literária contemporânea a partir de Divórcio, de Ricardo Lísias Introdução Divórcio, uma história em duas partes Parte 1 Parte 2

Escrita performática na crítica contemporânea: uma reflexão a partir de El tiempo de la convalecencia, de Alberto Giordano Do real para o virtual A escrita e a performance Escrita e novas tecnologias São como as roupas rasgadas no meio da passarela

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Entrevistas Florencia Garramuño Ana Kiffer Diana Klinger

Agradecimentos Referências bibliográficas

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Apresentação No fim do século XX escritores como Italo Calvino e Ricardo Piglia refletiram sobre a permanência da literatura no novo milênio. Não era o livro como objeto que estava em questão, mas a própria literatura num mundo que mudava de panorama, por conta dos avanços tecnológicos, da globalização, mas também pelas imposições do mercado. Em Seis propostas para o próximo milênio (1990), Calvino destaca, em texto da década de 1980, os valores que fariam dessa arte um bem ainda valioso para o próximo século. Na conferência “Três propostas para o próximo milênio (e cinco dificuldades)”, proferida na Casa de las Américas, Cuba, em 2000, Piglia desloca a questão para a América Hispânica e se pergunta qual seria a contribuição da literatura vinda da margem para os novos tempos. O milênio chegou, os novos tempos se instauraram e essa mesma questão continua a preocupar os escritores nos dias de hoje. Analisando a literatura brasileira, uma série de autores nacionais publicou livros que refletem sobre o papel do escritor e da escrita no mundo de hoje. É possível citar como exemplo os romances Lorde (2004) e Berkeley em Bellagio (2002), de João Gilberto Noll; Chá das cinco com o vampiro (2010), de Miguel Sanches Neto; Cordilheira (2008), de Daniel Galera; e Divórcio (2013), de Ricardo Lísias. Em meio a tramas ficcionais, a maioria com forte traço autobiográfico, um personagem escritor reflete, entre outras coisas, sobre a condição do autor nos dias de hoje, sobre a função da escrita, sobre a possibilidade de permanência desse profissional e de sua escrita no mundo contemporâneo e sobre um mundo que mudou de panorama no fim do século XX e continua nesse processo. Todos romances que, de alguma forma, desempenham também um papel de crítica literária, ao pensar a literatura, o autor, as obras. Analisar esses textos me faz deslocar a questão que motivou escritos como os de Calvino e Piglia para o campo da crítica literária e pensar sobre a permanência da crítica e as transformações que chegam ao setor com os novos tempos. A preocupação em garantir uma permanência aparece perpassada em diferentes setores do mundo literário. Inicialmente, parecia haver uma tentativa em abrir o campo, buscando atingir um público maior e, assim, garantir sua


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sobrevivência. Conforme as pesquisas avançaram, percebi que a questão era um pouco mais complexa, envolvendo diferentes fatores. Observei, quando comecei a pensar sobre essa temática, uma série de mudanças em diferentes setores que pareciam apontar para essa abertura do campo. Nos jornais, os cadernos literários gradativamente mudavam o perfil: em vez de centrar exclusivamente na literatura ou apresentar resenhas dos livros que chegam às livrarias, havia uma preocupação em refletir também sobre questões do momento. Com a crise que atingiu a imprensa os veículos precisaram se adaptar a uma série de modificações na sociedade, em decorrência do surgimento de tecnologias que mudaram os hábitos dos leitores, o espaço para a literatura diminuiu drasticamente nos jornais impressos. O Prosa&Verso, por exemplo, antigo suplemento literário do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, deixou de ser um caderno independente e ganhou apenas duas páginas na editoria de cultura aos sábados (em 2019, o espaço de sábado também acabou e a literatura deixou de ter uma área de destaque). A linha adotada pelo jornal carioca, porém, continuou ampla, apesar do espaço físico reduzido. No mercado editorial, o exemplo que parecia confirmar a questão foi a venda de parte da Companhia das Letras para uma grande editora estrangeira. O jornal O Estado de São Paulo publicou, no dia 5 de dezembro de 2011,1 uma matéria em que justificava a venda de 45% das ações da maior editora brasileira, especializada em literatura, dizendo que a empresa visava com a associação atingir um público maior, abocanhando duas lucrativas áreas: o mercado de livros didáticos e o digital. No campo acadêmico, observamos a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) alterar o seu curso de pós-graduação do departamento de Letras de Estudos de Literatura (brasileira e portuguesa) para o abrangente Literatura, Cultura e Contemporaneidade, que amplia o campo de estudo e, consequentemente, o público interessado. A mudança não revela apenas uma preocupação em atingir o público, mas faz pensar sobre o caráter fluido das fronteiras que delimitam o literário. O cenário mudou um pouco do início da primeira década do século XXI para o fim, em decorrência do desenvolvimento de Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,penguin-compraparte-da-companhia-das-letras,806949,0.htm. Consulta realizada em: jul. 2017. 1


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tecnologias ligadas à comunicação. Algumas das principais editoras passaram não apenas a divulgar os seus lançamentos, em uma lista exibida em seus sites com as novas publicações, mas também a produzir conteúdo: vídeos apresentando os livros, entrevistas com autores, colaboradores escrevendo crônicas mensais etc. É o caso, por exemplo, do blog do grupo Companhia das Letras e do site da editora Rocco. Todas também passaram a alimentar páginas nas mídias sociais. Estratégias para chamar a atenção e criar burburinho, que parecem buscar o mesmo efeito da ampliação de temáticas, que vai além do literário, atrair um público maior, sobreviver em um mercado acirrado. Feiras literárias tradicionais também expandiram suas temáticas. Foi o caso da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, o evento dedicado a literatura mais popular do país e que inspirou a criação de filhotes, eventos semelhantes, espalhados por outros estados. Apesar do nome, a Flip contou com edições em que a literatura não estava presente na maioria das mesas. Em entrevista para o Suplemento Pernambuco,2 a curadora da Flip de 2017, Joselia Aguiar, comentou a questão, fazendo uma análise que foi além do contexto da festa: Desde o fim da EntreLivros,3 tenho assistido a muitos casos, de publicações e mesmo eventos que, a certa altura, investem em atualidades. E conseguem, sem dúvida, gerar mais noticiário “quente” para a cobertura jornalística. Se reparar, há uma quantidade de suplementos que deixaram de existir, e não apenas no Brasil, em todo o mundo. Esse raciocínio, o de que para aumentar a audiência não se pode ter apenas literatura, é permanente, é triste e nem sempre é tão claro e consciente (Gomes, 2017, p. 7).4

Essa busca por permanência e por uma espécie de adaptação,

Entrevista publicada na edição de julho de 2017. Disponível em: http://www. suplementopernambuco.com.br/images/pdf/PE_137_web.pdf. Consulta realizada em jul. 2017. 2

Revista editada por Joselia Aguiar e que existiu de 2001 a 2008. Segundo a curadora, um dos motivos que fez a revista perder leitores foi buscar ampliar a temática, numa tentativa de garantir um público maior. 3

Disponível em: www.suplementopernambuco.com.br/images/pdf/PE_137_web. pdf. Consulta em: jul. 2017. 4


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também aparece refletida na crítica literária contemporânea. O II Seminário Internacional de Crítica Literária, organizado pelo Itaú Cultural em São Paulo, de 7 a 9 de dezembro de 2011, teve como uma das reflexões bases a pergunta: Qual o sentido da crítica nos dias de hoje? A pesquisadora argentina Josefina Ludmer, presente no evento, traçou um panorama que ressaltava a mudança de uma cultura da biblioteca para uma cultura dos meios e das redes. Para sobreviver a essa transformação, segundo Ludmer, a crítica deve mesclar-se com a ficção e outras disciplinas para, assim, penetrar na “imaginação pública”, um conjunto de saberes que circulam na sociedade. Uma reflexão que ela havia iniciado em Literaturas posautónomas (2007), polêmico texto que publicou na internet, ganhou réplicas em diferentes sites e que detecta uma série de livros de escritores argentinos, publicados no início do século XXI, que ultrapassavam as fronteiras da literatura e pareciam inclassificáveis: Estas escrituras no admiten lecturas literarias; esto quiere decir que no se sabe o no importa si son o no son literatura. Y tampoco se sabe o no importa si son realidad o ficción. Se instalan localmente y en una realidad cotidiana para ‘fabricar presente’ y ése es precisamente su sentido [...] Representarían a la literatura en el fin del ciclo de la autonomía literaria, en la época de las empresas transnacionales del libro o de las oficinas del libro en las grandes cadenas de diarios, radios, TV y otros medios. Ese fin de ciclo implica nuevas condiciones de producción y circulación del libro que modifican los modos de leer (Ibid.).

No texto, ela pensa como essa literatura se transformou e passou a refletir esses novos tempos. O que é literatura, segundo ela, passou a ter uma resposta diferente no século XXI, da proferida nos séculos XX ou XIX. No debate de São Paulo ela pensa a mesma questão focando na crítica literária ou numa crítica que perde suas fronteiras e se mesclaria à ficção e à linguagem literária. Uma crítica que se quer literatura? Responder sim a esta pergunta seria apresentar uma possibilidade de permanência da crítica na atualidade, de adaptação a uma sociedade que ganhou o hábito da leitura ágil da internet, que foi bombardeada pela imagem e cujos produtos culturais sofrem grande pressão do mercado? Em 2017, foi lançado o livro Literatura e artes na crítica contemporânea, resultado de um seminário realizado em 2015 na


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PUC-Rio, dedicado a pensar o papel da crítica a partir dos anos 2000. No texto de apresentação, “O lugar da crítica na literatura e nas artes contemporâneas”, Heidrun Krieger Olinto e Karl Erik Schollhammer refletem sobre o contexto, a existência de uma crítica que perdeu um determinado poder de cultivar gostos e direcionar leituras, mas que, ao mesmo tempo, ganhou liberdade de escolha de objeto de análise, formato de escrita e suporte de publicação: Sem consenso mínimo acerca dos seus objetos de investigação, ela própria se tornou uma prática generalizada de disjunção e dissidência, de um lado, desacreditada e depreciada pela suposta perda do seu poder crítico de intervenção na vida social, pela expansão da cultura de mercado, por exemplo, e de outro, exaltada por sua criatividade indisciplinada abrindo espaço até para uma identificação com a própria dimensão artística. Este ambiente intransparente explica o mal-estar com a crítica e os diagnósticos de sua morte (Olinto & Schollhammer, 2017, p. 10).

Em muitos dos textos da coletânea, assinados por pesquisadores de diferentes universidades e nacionalidades, aparece a constatação de uma crítica que perde fronteiras definidas, mesclando-se às artes, à ficção, experimentando formatos e deixando-se contaminar pela mídia. A presença desses textos híbridos pode não ser novidade, afinal, desde Dom Quixote (1605), de Miguel de Cervantes, existe a inclusão da crítica na ficção, como uma reflexão sobre o próprio ato da escrita. Sobre o assunto, Luiz Costa Lima afirma: “O espaço do ficcional em Cervantes supõe a atualização do exercício crítico no próprio ato de criação. Para tanto, lhe é capital o recurso do distanciamento, a capacidade de o autor ver-se de fora do que relata” (Costa Lima, 1986, p. 58). No fim do século XX, houve ainda uma tendência mundial de os textos literários apresentarem gêneros híbridos, que aparecem mesclados e ultrapassam a simples forma. No ensaio “Ruptura dos Gêneros na Literatura LatinoAmericana” (1976), Haroldo de Campos encontra indícios desse gesto reflexivo sobre a própria escrita e seu processo em textos de Machado de Assis, como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), estabelecendo um jogo crítico entre escritor e leitor. O Ateneu (1888), de Raul Pompéia, é um exemplo de como os autores costumavam expor suas ideias


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dentro das tramas literárias durante o mesmo período. Um dos personagens profere três conferências que demonstram as ideias do escritor em relação à cultura brasileira, à arte, e à ligação da escola com a sociedade. Machado não insere suas ideias nos discursos dos personagens, mas dialoga com o leitor em brechas abertas ao longo dos romances, refletindo sobre a própria obra e o ato da escrita. A partir dos anos 30 e 40, do século XX, se consolida nas obras narrativas latino-americanas a reflexão sobre a escrita e a mescla de teoria com ficção, primeiramente na obra do argentino Macedonio Fernández (um marco na região) e, depois, em Jorge Luis Borges, que apresenta uma literatura que a todo momento se volta sobre si mesma e faz da crítica um gênero literário tão valorizado como tantos outros. Uma tendência que influenciou e ainda influencia diversos autores. Os textos híbridos também não são uma exclusividade da literatura latino-americana contemporânea, a tendência aparece presente também em livros de escritores estrangeiros. O sul-africano J. M. Coetzee é um exemplo, com uma obra que mescla romance, ensaio e autobiografia. Seus textos levam constantemente a reflexões sobre a literatura, a escrita e o papel do escritor. No Brasil, o crítico literário e escritor Silviano Santiago se tornou uma referência na escrita híbrida, produzindo romances e contos, nos quais, muitas vezes, reflexões autobiográficas aparecem mescladas à ficção e a um pensamento crítico sobre a literatura. No fim do ano de 2016, o autor lançou um dos livros mais emblemáticos para a análise dessa questão: Machado. No romance, Silviano narra os últimos três anos de vida do autor de Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas, enfatizando a doença, os ataques epiléticos constantes e a medicação que corrói rapidamente sua saúde. A palavra romance aparece estampada na capa da publicação, mas, nas páginas, há uma mistura de ficção, aspectos históricos da cidade do Rio de Janeiro, fatos reais da vida de Machado de Assis e análises críticas sobre sua obra. Enquanto fala do escritor, Silviano se apresenta, aparece como pesquisador em atuação, e é como se, ao discorrer sobre o fim da vida do autor, estivesse também falando do fim de sua própria vida, pensando na decadência de seu próprio corpo. Mescla aspectos pessoais com outros históricos. Revela detalhes dos bastidores de sua pesquisa. Vemos Silviano, personagem de seu romance, avistando na


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vitrine de uma livraria o exemplar com a correspondência do autor. Acompanhamos suas associações entre a biografia de Machado e sua obra, investigando o contexto de uma época dentro de textos clássicos como Esaú e Jacó (1904). O mergulho na vida do autor ainda faz com que ele se funda ao personagem que pesquisa, se imagine uma reencarnação do Bruxo do Cosme Velho. Silviano nasceu no mesmo dia em que morreu Machado de Assis, 29 de setembro. Machado morre em 1908, Silviano nasce em 1936. Coincidências vão estreitando a trajetória dos dois, até que crítico e escritor se confundem em uma única pessoa. Um leitor do romance familiarizado com pesquisas profundas não estranharia a metamorfose. Qualquer um que já tenha pesquisado a fundo uma temática acaba enxergando o seu tema de análise nos mais diferentes momentos e aspectos de sua vida. Machado é um romance, mas o livro é também um grande ensaio sobre os bastidores da crítica literária, suas intersecções com a ficção e os traços subjetivos por trás das análises. O passado da crítica e a busca por espaço Para refletir sobre a crítica literária brasileira e suas particularidades parece, ainda, essencial revisitar e comparar com importantes momentos de seu passado. Em Papéis colados (1993), Flora Süssekind define os anos 40 e 50 do século XX como o início da crítica moderna no Brasil, um momento de tensão entre dois modelos de críticos existentes. De um lado, estava o que a autora chama de crítica de rodapé, publicada nos jornais por autores sem especialização, que ela define como defensores do autodidatismo e da resenha como exibição de estilo. Essa crítica não especializada, que reinava no país nas primeiras décadas do século XX, tinha três características formais bem distintas: [...] a oscilação entre a crônica e o noticiário puro e simples, o cultivo da eloquência, já que se tratava de convencer rápido leitores e antagonistas, e a adaptação às exigências (entretenimento, redundância e leitura fácil) e ao ritmo industrial da imprensa; a uma publicidade, uma difusão bastante grande (o que explica, de um lado, a quantidade de polêmicas e, de outro, o fato de alguns críticos se julgarem verdadeiros ‘diretores de consciência’ de


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seu público, como costumava dizer Álvaro Lins); e, por fim, a um diálogo estreito com o mercado, com o movimento editorial seu contemporâneo (Süssekind, 1993, p. 15).

Do outro, uma geração de críticos formada pelas universidades e faculdades de filosofia do Rio de Janeiro e São Paulo (criadas, respectivamente, em 1938 e 1934), interessados na especialização e na pesquisa acadêmica. Em meados dos anos 1940, portanto, o passe para entrar no mundo da crítica não era mais o mesmo das primeiras décadas do século. Até então, esse modelo autodidata tem enorme poder e influência, mas esses profissionais especializados, que saíam das universidades, passaram a minar os que ocupavam as seções culturais dos jornais até então, ganhando, gradativamente, mais prestígio. Um embate que marca também uma substituição do jornal pela universidade como templo da cultura literária. As décadas de 1960 e 1970 são, portanto, anos universitários para os estudos literários. Um período de constante atualização nas principais correntes críticas e metodológicas, como se existisse ainda uma necessidade de autoafirmação frente às correntes contemporâneas da crítica, uma tentativa de acabar com o atraso. É o momento em que a atenção se volta para as correntes imanentistas, como o Formalismo Russo, o New Criticism e o Estruturalismo, que adotavam métodos rígidos de análise literária, centrados no texto e na linguagem, que iam ao encontro da onda de valorização da ciência que marcou o século XIX e o início do XX. Ironicamente, são correntes críticas que chegam ao país em uma época em que estão deixando de ser aplicadas na Europa e Estados Unidos. Ocorre, porém, uma dificuldade de publicação dessa produção acadêmica em jornal ou livro. Os cadernos literários se ocupavam em reservar espaço para noticiar apenas os lançamentos e há uma pausa nas colaborações universitárias, o que pode ser visto como uma represália a esse crítico de formação, que “expulsou” o críticojornalista do lugar que ocupava. O resultado dessa falta de escoamento da produção é uma crítica que se volta sobre si mesma, criando jargões e expressões próprias, aparentemente ininteligível para um leitor não especializado. Sem acesso ao público mais abrangente dos jornais, se fecha em uma linguagem mais acadêmica, que recebe


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uma avalanche de observações negativas. No artigo “Os livros de cabeceira da crítica” (2007), Eneida Maria de Souza lembra que a mídia via com repulsa o enfoque universitário. Para exemplificar a questão, recorda o IV Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado em 1977 na PUC-Rio. Os jornais da época, que escreveram sobre as discussões, reforçaram “o abismo entre escritor e crítica, motivado pela acusação de estar a produção universitária distanciando-se do público, pela sofisticação de sua linguagem” (Cunha, 2007, p. 16). As teses e trabalhos apresentados eram classificados como incompreensíveis. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a época era de crescente espetacularização e havia a reivindicação por textos mais atraentes e acessíveis, que atingissem um público mais abrangente. Nos anos 1980, Flora Süssekind acredita que o crescimento editorial desestimulou o surgimento de uma crítica mais atenta, já que o interesse era vender livros e não analisá-los. Um cenário que forçou uma adaptação por parte dos críticos: E é via ensaísmo que esta crítica se defronta agora com dois antagonistas possivelmente mais poderosos que os críticos de rodapé de 40. De um lado, um mercado editorial crescente e muitas editoras interessadas em promoção, não em crítica. De outro, uma indústria cultural onde só parece haver lugar para a palavra afirmativa, a ‘campanha’ (promocional ou demolidora), o slogan, e que precisa, portanto, desqualificar todo tipo de texto argumentativo. Em meio a essa pressão, a figura mutante do crítico brasileiro moderno. Cronista, jornalista, scholar, professor, teórico, ensaísta: sucedem-se e por vezes convivem papéis diversos (Süssekind, 1993, p. 14).

Os anos 1990 sofreram um afrouxamento teórico, depois da busca desenfreada por atualização de teorias e métodos, dando lugar ao exercício da prática interdisciplinar e cultural. Uma influência, em parte, dos Estudos Culturais, linha de pensamento interdisciplinar. Mas também por conta da influência dos meios de comunicação e um mercado cada vez mais acirrado, que empurraram esses críticos a adotar um discurso mais acessível: A proliferação de outros meios de divulgação do saber, como as revistas culturais, os jornais e a televisão irá acarretar


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transformações no discurso crítico. Uma vez sensível aos temas mais gerais e munido de dicção mista, esse discurso terá condições de estabelecer a ponte entre a academia e a esfera pública, através de inúmeros meios de comunicação de massa (Cunha, 2007, p. 20).

Se na época da crítica de rodapé o autodidata foi “substituído” pelo acadêmico, nesse período de abertura disciplinar o discurso crítico se beneficia dos meios de comunicação de massa. A interdisciplinaridade e a multiplicidade de perspectivas teóricas, inspiradas no modelo dos estudos culturais, trouxe uma abertura que mudou o panorama do pensamento crítico brasileiro, mas que, consequentemente, gerou uma série de pontos de vista negativos em relação aos “excessos cometidos”. Eneida Maria de Souza chama atenção, por exemplo, para a possibilidade de diluição do objeto de estudo: Necessário lembrar que a marca autoral de distintos textos constitui uma das mais importantes conquistas do discurso crítico contemporâneo, entendendo-se, porém, que este sujeito que volta à cena enunciativa mostra-se ainda de forma frágil e marcado pela ausência. O excesso de naturalização e de proximidade do sujeito com o objeto de análise tem provocado a imensa enxurrada de textos críticos que nada têm a dizer uma vez que se perderam na relação imaginária aí criada (Cunha, 2007, p. 21).

A estudiosa faz sua análise em plena década de 1990. Desde então a internet abriu ainda mais as possibilidades de divulgação do saber e aumentou as pressões de mercado. Para a teórica argentina Mónica Bernabé, a globalização e avanços tecnológicos advindos com a internet trouxeram mudanças para os espaços tradicionalmente ocupados pelos textos críticos e literários. No artigo “La cultura de las humanidades en los tiempos de la posmodernidad”, publicado no livro Idea crónica (2010), afirma a forma como o campo literário mundial se desenvolveu e enumera novos meios, eventos e veículos surgidos nos últimos anos que modificaram as formas tradicionais de produção e circulação literária: De hecho, el proceso se aceleró notablemente con la expansión de Internet provocando una absoluta dispersión del campo de


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la cultura y de la literatura, ahora diseminados en la academia, la web, las revistas especializadas, los comentarios de los blogs, los suplementos de los periódicos, los congresos de literatura, los premios que promueven los multimedios, los programas de televisión cultural, las ferias del libro cada vez más populares. Se diría que la literatura no ha muerto sino que se han modificado sustancialmente las formas tradicionales de su producción, circulación y consumo (Bernabé, 2006, p. 160).

Os impactos dessas transformações atingem não apenas o cenário brasileiro, mas mundial, e fazem com que a análise do contexto atual não respeite fronteiras nacionais, encontrando semelhanças em diferentes países. A mudança de panorama destacada por Bernabé reforçaria a necessidade de busca de inserção em um mercado cada vez mais competitivo. Em Leitores, espectadores e internautas (2008), o antropólogo argentino Néstor García Canclini chama atenção para um aumento da pressão do mercado sobre a produção cultural e artística. O autor dedica um capítulo de seu livro ao que ele chama de “a necessidade de provocar assombro”, que teria como objetivo atrair o público. Para o autor, as artes de vanguarda trabalhavam com o assombro, mas numa época de mercado competitivo e fronteiras alargadas, as editoras criaram essa necessidade do assombro e de atrair a atenção do público para a obra. “No momento em que as artes deixaram de chamar-se de vanguarda, cederam ao mercado, às galerias, aos editores e à publicidade a tarefa de provocar assombro para atrair público” (Canclini, 2008, p. 14). Surge, cada vez mais, a necessidade de criar atrativos que tornem o texto crítico também mais “vendável”. Uma análise superficial do mercado literário contemporâneo parece apontar para um aumento de possibilidade de divulgação da criação literária e crítica. A internet trouxe mais poder de autopublicação e as mídias sociais facilitaram a divulgação. Enquanto o espaço para a literatura diminuiu nos jornais impressos, aumentou o lançamento de revistas eletrônicas dedicadas ao tema e/ou ao mundo dos livros. O inédito poder de voz que a internet e seus canais, como as redes sociais, possibilitaram para o público de uma forma geral trouxe uma nova dinâmica para quem escreve literatura ou sobre literatura. É preciso se fazer presente, constantemente presente, criar uma imagem e provocar assombro.


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A influência do contexto digital As novas tecnologias mudaram a organização das sociedades e a forma como os indivíduos se relacionam. Interferem também na escrita e na leitura de textos. Para contextualizar esse panorama, recorro a Henry Jenkins, pesquisador norte-americano, especialista em meios de comunicação, suas evoluções e a interferência nos modos de vida da sociedade. Em 2009, o autor publicou Cultura da convergência, livro em que utiliza exemplos do universo do entretenimento, das séries de televisão e de grandes produções cinematográficas, para pensar uma época em que os meios de comunicação deixam de ser os únicos detentores da informação. Uma época em que cada um tem o poder da fala, passa a ter uma voz que pode ser pública, o poder de contestar o que está sendo dito e de produzir o seu próprio conteúdo. Período em que esses conteúdos passeiam por diferentes suportes, muitas vezes, sem o conhecimento e/ou a intenção de quem o produziu. Um conteúdo produzido para a TV, pode ser comentado pela audiência nas redes sociais, pode ser reapropriado pelo autor de um blog, reescrito por esse, pode inspirar alguém a destacar trechos e estampá-los em camisetas... Acabam os limites que separariam mídias novas de mídias antigas, já que o comportamento do público, que migra de uma para outra, indiscriminadamente, une tecnologias de tempos distintos. Para quem escreve desponta a possibilidade de publicar sua arte sem a necessidade de uma editora, em blogs, por exemplo. Com o surgimento das mídias sociais o poder de voz parece enfatizado e o ambiente propício para ganhar mais visibilidade (Recuero, 2009), tentar criar uma reputação e conquistar espaço no mercado. Considerar um ambiente com novas tecnologias é também levar em conta que o papel deixa de ser o único suporte para a escrita literária. De que forma esse cenário pode influenciar a literatura e a crítica contemporâneas? Pierre Lévy, em As tecnologias da Inteligência (1998), defende que, ao pensarmos a questão, a tendência é buscarmos exemplos que demonstrem e comprovem experimentações na área, mas, em vez disso, deveríamos observar como as transformações acontecem em cascata; mudanças de tecnologia criam novos hábitos e necessidades, que possibilitam a criação de materiais que atendam a estas novas demandas e/ou quem os produz já incorporou esses novos hábitos e


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propaga essa transformação. A forma como os escritos foram organizados dentro dos livros, com sumário, capítulos e notas de rodapé, possibilitou uma relação diferente com o texto, da que existia com os manuscritos. Nos acostumamos a ler os exemplares aos pedaços, muitas vezes, fora da ordem tradicional, seguindo a indicação do sumário. Com o surgimento da internet novas tecnologias surgiram, criando novos hábitos e relações. Lévy cita o exemplo do hipertexto. Nos livros impressos, eles já estão presentes em notas de rodapé, fazendo com que a leitura linear seja quebrada com referências a outros textos. Com a chegada da internet o hipertexto ganha inúmeras janelas e ligações aparentemente intermináveis, que podem deixar o leitor cada vez mais distante do texto original. “Isto se torna a norma, um novo sistema de escrita, uma metamorfose da leitura, batizada de navegação” (Lévy, 1993, p. 37), afirma o autor. Esta nova possibilidade, por outro lado, criaria um novo hábito no leitor, que se acostuma a leituras múltiplas e complementares, que acha natural mudar de ambientes e plataformas. Roger Chartier (2016)5 defende que, apesar das modificações que a internet trouxe para o mercado editorial, o livro digital não tomou o lugar do impresso. Do ano em que escrevo, 2018, o livro digital ainda não superou o de papel em contexto mundial. Contudo, o ambiente virtual possibilitou uma literatura e uma crítica expandida, que muda de suportes, assim como o hábito dos leitores. Escrever em diferentes suportes, internalizar caracteres que nascem nos meios digitais, pode não apontar apenas para a necessidade de se adequar a um novo panorama para atingir um público mais abrangente, pode não significar apenas tirar proveito desse inédito poder de voz para chamar atenção, criar reputação, garantir permanência no mercado, pode não representar apenas a criação de uma espécie de performance para criar burburinho, proporcionar assombro. Pode se referir também à internalização de novos hábitos de escrita e leitura que fazem com que estes acabem propagados. Nos ensaios a seguir algumas dessas questões são discutidas. No primeiro, textos de João Gilberto Noll estão em foco. Em dois romances autoficcionais, há a reflexão sobre o lugar do escritor Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/para-historiador-rogerchartier-book-jamais.substiuira-livro-fisico-19813577. Acesso em: ago. 2017. 5


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latino-americano na contemporaneidade. É ficção, recheada de análise crítica, pensando a literatura produzida na América Latina num contexto mundial. No segundo ensaio, a partir dos romances de dois autores argentinos escritos em trânsito, Andrés Neuman (Como viajar sin ver?, 2010) e Martín Caparrós (Una luna, 2009), a intenção é refletir sobre a rotina do escritor contemporâneo e seus reflexos na produção. Os dois autores fazem com que o próprio formato da escrita reflita as discussões críticas presentes nestes romances/ensaios. No terceiro, a análise se detém na própria escrita de textos híbridos da literatura contemporânea, ficção e crítica. A reflexão aparece a partir de livros de Ricardo Lísias (2013). Na escrita do autor há experimentações de formatos, a constante reflexão sobre a função da literatura e a defesa de uma produção que precisa se distanciar do rótulo de bem-comportada. Ficção, crítica e performance aparecem misturadas. O último ensaio pensa sobre performances literárias e experimentações de novos formatos e suportes analisando El tiempo de la convalecencia (2017), diário que o crítico argentino Alberto Giordano escreveu no Facebook, entre 2014 e 2015, enquanto se recuperava de uma forte depressão. Aspectos biográficos, trechos ficcionais e análises críticas estão mesclados em seu livro. Os quatro ensaios, portanto, se detém em textos ficcionais que ultrapassam fronteiras e apresentam também um pensamento crítico. Para complementar as reflexões sobre o tema, achei pertinente entrevistar três pesquisadoras: Florencia Garramuño, Ana Kiffer e Diana Klinger. A intenção era pensar como textos produzidos não por escritores, mas por críticos literários e estudiosos da literatura, também vêm quebrando fronteiras, apresentando interseções com a ficção e com relatos autobiográficos (diante deles é possível fazer distinção entre escritores e estudiosos? Os dois não aparecem fundidos nessas produções?). A pesquisadora argentina Florencia Garramuño há anos analisa os textos híbridos presentes, principalmente, na literatura brasileira e argentina contemporâneas, e destaca a presença de Silviano Santiago como representante desse movimento. A professora da PUC-Rio, pesquisadora e escritora Ana Paula Kiffer mescla gêneros e formatos em seus escritos, mas, na entrevista, ressaltou a dor e a delícia de transgredir fronteiras dentro do ainda


Apresentação | 25

tradicional meio acadêmico. Professora da UFF, Diana Klinger comenta a experiência de escrever Literatura e ética (2014), livro em que mescla reflexões teóricas, com ficção e experiências subjetivas. As três ainda foram clicadas pelo fotógrafo Ariel Subirá para esta publicação, mostrando seus ambientes de criação e espaços de trânsito. Uma provocação sobre o lugar que esse crítico deveria ocupar: em primeiro plano, mostrando a escrita “teórica”, ela também, como um processo criativo, ou nos bastidores, comentando o contexto e as produções literárias? A intenção desse livro não é esgotar a temática, mas lançar questões e funcionar como um convite à reflexão conjunta.

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Uma literatura que se quer critica (preview)  

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