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Dorival Caymmi: a pedra que ronca no meio do mar


VĂ­tor Queiroz

Dorival Caymmi A pedra que ronca no meio do mar


Š 2019, Vítor Queiroz Š 2019, PapÊis Selvagens

Coordenação Coleção Stoner Rafael GutiÊrrez, María Elvira Díaz-Benítez   ϔ   Martín Rodríguez

  “YemanjĂĄâ€?, de Hector PĂĄride BernabĂł, CarybĂŠ - Ăłleo sobre tela, 485 x 685mm, 1986.    Carolina Maia   ­  Ă ngel MarĂ­n    Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero GonzĂĄlez (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-ColĂ´mbia) | Jeffrey CedeĂąo (PUJ-BogotĂĄ) Juan Pablo Villalobos (Escritor-MĂŠxico) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | MĂ´nica Menezes (UFBA)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG) Q3d

Queiroz, VĂ­tor, 1983Dorival Caymmi: a pedra que ronca no meio do mar / VĂ­tor Queiroz Rio de Janeiro (RJ): PapĂŠis Selvagens, 2019. 268 p. : 16 x 23 cm - (Stoner; v. 10)



 Ď? ÇŁ ǤÍ´ÇŚÍ´ ISBN 978-85-85349-04-2



Ǥ   ǤʹǤ ÇĄ  ǥnjʹͺnj Ď? Ǥ;ǤÇŚ musicologia. I. TĂ­tulo. II. SĂŠrie. CDD 782.42164

[2019] PapĂŠis Selvagens papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Para John Monteiro e meu avô Francolino Neto,   . Para minha mãe, Grácia Queiroz, e para o grande amigo Daniel Dinato.


MARICOTINHA

Ď?     Ď?     ǥ Ǩ Mas se, por exemplo, chover Mas se, por exemplo, chover‌ nĂŁo vou. Diga a Maricotinha Que eu mandei dizer que eu nĂŁo tĂ´. NĂŁo tĂ´, nĂŁo vou NĂŁo vou, nĂŁo tĂ´. Ď?      Ď?     ǥ Ǩ Mas se, por exemplo, chover Mas se, por exemplo, chover‌ nĂŁo vou.  Ď? ÇĄ

ǼÀ   Ǩ Nem tô, nem vou Nem vou, nem tô.   1

  ĂŠ uma das Ăşltimas composiçþes de Caymmi. Foi lançada por ele e por Tom Jobim em 1994, no CD Ă˜   (Jobim, 1994, faixa 9).

1


Sumário Prefácio 11 Agradecimentos 15 Introdução – Ói eu! 21 1. Doutorado, congado e reisado 22 2. A matéria prima dos sonhos 28 3. Cabelos brancos, aquela coisa toda 31 4. Olha o vento 34 Intermezzo Um intelectual baiano 38 5. Auô, uma história sem feitiçaria 42 Intermezzo O que não pode ser dito de nenhuma outra maneira 47 6. A pedra que ronca no meio do mar 48 Capítulo 1 – Não jogue os búzios, mãe Menininha! 55 1. Aquela terra de mistérios e igrejas 57 Intermezzo Uma canção que se pareça com a minha Stella 60 2. Salvador, 09 de março de 1968 63 3. A Pedra da Sereia 65 4. Pardo, paisano e pobre 70 Intermezzo Os Pândegos da África 77 5. Uma cadeira na Academia 79 6. Itapuã 84 7. Me dá medo que ele tenha uma coisa 89 8. A atmosfera morna das estrelas 93 9. Com uma graça muito natural 100 Coda Dorival Caymmi – vinte anos depois, a volta do ϐ$ ×%ou % &' 'ϐ*²' %++  ++' ǣ+­ +0*0 +0+Ǩ Caderno de imagens Caymmi em atividade A volta para Salvador

111 112 115


ItapuĂŁ Sentimentos azues

117 118

CapĂ­tulo 2 – Cançþes praieiras 119 1. ItapuĂŁ, 27 de junho de 1954 120 Intermezzo Cançþes praieiras 128 2. A trama do bordado 130 3. O sargaço da marĂŠ 136 Ǥ Ď?*²' 0 5. Filho da casa real da inspiração 147 6. O ponto mais alto da criação brasileira 151 CapĂ­tulo 3 – Se quiser falar de mim... 157 1. Vagabundagem 158 2. Maurino, DadĂĄ e Zeca 162 3. A carta roubada 173 Intermezzo Os patriarcas da baianidade 186 4. Fartura 189 5. Se quiser falar de mim... 196 6. Buda NagĂ´ 200 7. Sargaço-mar 205 8. Querer morrer para viver com YemanjĂĄ 208 Coda ²%  ­ Í´ 9. Promessa de pescador 212 ConclusĂŁo – A pedra que ronca no meio do mar 1. Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2008 2. O Corpo do Patriarca 3. Intimidade 4. AuĂ´ Coda Os otĂĄs de XangĂ´

219 220 224 228 233

²   Ƥ

CrĂŠdito das imagens

245 265

240


PrefĂĄcio Aprender com Caymmi, sempre Gustavo Rossi1

Na histĂłria da MPB (MĂşsica Popular Brasileira), o nome do cantor e compositor baiano Dorival Caymmi (1914-2008) brilha como uma de suas joias mais raras, um de seus muiraquitĂŁs mais prezados, cujo encanto parece afetar a tudo e a todos que experimentam a sua presença. Seja pela originalidade poĂŠtica e rĂ­tmica de suas cançþes, seja pela importância que elas vieram a assumir nos prĂłprios modos de se contar essa histĂłria, Caymmi se impĂľe como * % 6*+ 0 +7+ ²' 06*+ÇĄ%+ 7*% + 0ÇĄ8& %+0%zer incontornĂĄveis, ou, simplesmente, como   da mĂşsica e da cultura brasileiras. Um clĂĄssico, digo, nĂŁo por mera questĂŁo de antiguidade, tampouco por qualquer ideia de atemporalidade, mas sim + +7+  :6*+ 0 08&%+% +++0 +'Ď?' % 0+Dz' um lugar prĂłprio numa continuidade culturalâ€?; um clĂĄssico no tocante ao particular “efeito de ressonânciaâ€? logrado por determinadas  0Č‚+0+*'  % +0Č‚ %+Ď?­ %'+  =+Ǣ2 um clĂĄssi'ÇĄ+Ď?ÇĄ6*+''+ +:+% %+ÇĄ+'  +0 social e simbĂłlico que elas exercem na organização do espaço-tempo %+*'+ '=+'** * Ă€0'Ǥ%+'+@ +Ď?+@  entre a Época de Ouro da RĂĄdio Nacional e o surgimento da Bossa  ÇĄ ÇĄ Ď? ÇĄ +'+ + +0+ +@  ++Dz*%00Çł  + Ď?  &  % 00 ' ­   * ÇĄ+ Ď?  6* ÇĄ 0 palavras de um de seus mais notĂĄveis conterrâneos, Caetano Veloso, Dorival Caymmi seria nada menos do que um “centro. Um polo. Um 7 % ' '*7+ ²' Ǥ++0Ă—++ %+0+ *%00dzǤ3 Eis o Ă­cone Dorival Caymmi, principal personagem deste belo 1 Gustavo Rossi ĂŠ antropĂłlogo pela Unicamp, autor dos livros 

  ­ ǣ     

     (Annablume/Fapesp, 2009) e       

ÇŁ   

       ­Ù        (Editora % '  ÇĄÍ´ČŒÇĄ  $+'+% % ² +0%++0+0%+Í´ʹǤ 2

Italo Calvino, 

!     , SĂŁo Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 14.

Caetano Veloso, “Sob o jugo de sua calmaâ€?, O Globo, Rio de Janeiro, 24/04/2014. DisponĂ­vel em: https://oglobo.globo.com/cultura/sob-jugo-desuacalma-12308899. Acesso em: 20 jan. 2018. 3


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livro de VĂ­tor Queiroz, 

# ÇŁ  ! 

    mar. Resultado de tese de doutorado defendida em 2017 no Departamento de Antropologia da Unicamp, o trabalho nos convida a pensar justamente a natureza e o escopo desta força icĂ´nica que cerca a car + %' 0 Ǥ0  '% %++' +²' ÇĄ%+0+  0'tingencias histĂłricas e sociais em meio Ă s quais Caymmi foi se transformando, ainda em vida e muito precocemente – a partir da dĂŠcada %+Č‚ÇĄ* +0 Âą'+%+²0*0 ++ %+Dz   ' Çł%  mĂşsica popular brasileira, ou melhor, numa espĂŠcie de entidade que habitava jĂĄ um “plano outroâ€?: o plano dos ancestrais consagrados, 6* 0+ 0  %0ÇĄ '*8  00' ­  + Ď? ­  00    0+  +dicadas por geraçþes sucessivas de mĂşsicos, artistas e intelectuais. Mas hĂĄ um enigma aĂ­. Como bem percebe VĂ­tor, a transformação de Caymmi nessa entidade de qualidades mesmo “sobre-humanasâ€? ganhou força e se consolidou, a rigor, numa razĂŁo inversa ao crescente desa +'+% Ă—  ÇĄ:  +00 7 ²' %+0+*'  Ď?Ă€0'ÇĄ6*+ÇĄ' % +I 0++$+'%ÇĄ7 %* ++0+ 7 0 % dos palcos, dos olhares e das apariçþes pĂşblicas. AliĂĄs, nĂŁo somente dos palcos, como tambĂŠm dos estĂşdios de gravação, bastando dizer que, entre 1967 e 2008, ano de sua morte, lançaria tĂŁo somente um Ăşnico ĂĄlbum autoral, # (1972), e nĂŁo mais do que 16 cançþes inĂŠditas interpretadas por ele mesmo. Ora, como entender tamanho feito? Como explicar a manutenção da sacralidade inabalĂĄvel da obra deste artista de corpo tĂŁo precocemente 

  e ausente? Quais os fundamentos simbĂłlicos do â€œĂ­coneâ€? Caymmi? Qual a expressividade de Caymmi e sua obra para pensarmos a mĂşsica e a sociedade brasileiras do sĂŠculo XX? Por meio de uma discussĂŁo primorosa da trajetĂłria social e da carreira do compositor baiano, VĂ­tor procura responder a essas e muitas outras perguntas lançando mĂŁo de uma abordagem que, *+  &Ď?' ÇĄ  ++%+0+ *  Ď? +0+% estrito ou tampouco estreito do termo. Mesmo porque, para VĂ­tor, o que importa nĂŁo ĂŠ tanto o indivĂ­duo Caymmi: unitĂĄrio, coerente, indivisĂ­vel e sempre coincidente aos limites de um corpo biolĂłgico. Seu foco, antes, ĂŠ a construção da “pessoaâ€?, ou seja, a complexa trama de   ÇĄ ++0ÇĄI+0ÇĄ' 0ÇĄ8+0+Ď?'­Ù+0  +% 06* 0 Caymmi pode ser incorporado, materializado, dividido, multiplicado e, deste modo, incessantemente atualizado enquanto entidade virtualmente transcendente e onipresente na cena musical brasileira.


PrefĂĄcio | 13

 Àǥ 7+I+@ +00 % * ÇĄ %+ %+* Dz Ď? +0+%% dzǣ estendida na medida em que nĂŁo separa a trajetĂłria do artista das    e dos imaginĂĄrios engendrados “porâ€? e “atravĂŠsâ€? dele. JĂĄ adianto, portanto, ao menos aos leitores mais afeitos a (ou afoitos por) essencialismos categĂłricos, que aqui nĂŁo hĂĄ de nos ser revelada qualquer verdade quanto a um Caymmi que possa existir para alĂŠm ou aquĂŠm das   , das muitas “mĂĄscarasâ€? forjadas ao longo de sua trajetĂłria, como se 

   delas houvesse uma face e os sentidos inconspurcados do artista e sua obra. Nada dis0Ǩ*%   % %++%0²@0  Ă€'0 ' ­ %0+0+ trabalho decorre do fato de que, nele, busca-se fazer exatamente o contrĂĄrio disso. Em outras palavras, ao invĂŠs de pelejar inutilmente para expurgĂĄ-las ou neutralizĂĄ-las, o livro explora ao mĂĄximo as +0% %+0ÇĄ0+7+0+ 0  ²' 0%+00 0  , evidenciando, assim, as linhas de força de uma certa “mitologia caymmianaâ€? no âmbito da qual criador e suas criaturas tanto se confundem quanto mutuamente se criam como se incriados fossem. É a partir dessa mitologia que VĂ­tor se aproxima do seu personagem e delimita seu duplo objetivo. De um lado, compreender o processo de envelhecimento social e consagração musical de Dorival Caymmi para, deste modo, lançar luz, sobretudo, aos seus Ăşltimos quarenta anos de carreira, perĂ­odo em que, cada vez mais ausente dos palcos e dos +0ĂŻ%0ÇĄ+  0* Ď?*  ĂŻ' 0+  +' I % + +  $ %   Ď”   por diferentes geraçþes de artistas da MPB. Por outro lado, interessa a VĂ­tor apreender uma questĂŁo das mais relevantes,  Âą *Č‹*%+% ++ČŒ  % ÇĄ6*+%I +0 +ÇĄ Ď? ÇĄ Ă  “cor do velhoâ€?. Melhor dizendo, com acuidade e destreza, o autor %+0 0+@0%+0+%+ ++@ + ²' 0%+ ' I ­ + seus rebatimentos nas imagens e na produção caymmianas – nexos quase invariavelmente apreensĂ­veis mais no registro sutil das “ex +00Ă™+00+'0 0Çł%6*+% 0 Ď?  ­Ù+0+6*Ă€' 0ÇĄ +%%  em que Caymmi, embora um dos “grandes epĂ­gonos de certa brasilidade mestiça e cordialâ€?, jamais lançaria mĂŁo de uma identidade ' %+Ď?% + +%+ *% %+0Ǥ  00+08+00 +0 +'Ă€Ď?'0ÇĄ  % Âą   ÇĄ 0 0sim como o objeto do livro, seu autor tambĂŠm ĂŠ muitos e um ao mesmo tempo. AntropĂłlogo, historiador, poeta, mĂşsico e pesquisador de mĂŁo cheia e % ­ ÇĄ 0Ď?$%+& , todas estas    de VĂ­tor se conjugam na construção de uma escrita que impressiona


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e assombra, não somente pela “escuta” sensível ao amplo espectro %+7+06*+I ȋ+ * ǡ * ǡ7 ϐ ǡ *0' 0ǡ entrevista e, obviamente, música), como também pela multiplicidade de pontos de vistas simultâneos com que consegue apreender a vida e a obra de Dorival Caymmi, sem jamais encerrá-las a apenas * %+0* 0 * ­Ù+0 00À+0Ǥ0ϐ0' ­ +  + +tativos, Vítor soube converter em chave de problematização histórica e antropológica algo que, segundo Caetano Veloso, João Gilberto '0*  %I+ 0 +Dz²%  ­ dzǣDz ++0+ +%+++0  apreendendo com Caymmi”. E continuamos a aprender, só que, agora, através do olhar renovado de Vítor Queiroz e deste seu trabalho, 6*+ 00   ϐ*  ' *  +7+ ²'  %0 +0&+  6* quer especialista ou curioso a respeito da história da música popular brasileira.


Agradecimentos

XangĂ´ havia perdido a guerra. Todos os sĂşditos da cidade e toda a sua coorte haviam abandonado aquele homem, um dos maiores governantes de OyĂł. Somente uma dĂşzia de ministros de +0 % Č‚ 6*+  0  %+ Ď?'   '$+'%0ÇĄ   0ÇĄ ' Dz0 doze obĂĄs de XangĂ´â€? – e OyĂĄ, a mais jovem de suas muitas mulheres, apoiavam agora o rei derrotado. Depois de ter incendiado acidentalmente o palĂĄcio real de OyĂł e de fugir com OyĂĄ, que tambĂŠm era chamada de IansĂŁ, ele desapareceu num bosque sagrado. Seus inimigos disseram logo: — % Ǩ% ǨČ„ o rei se enforcou. Ato contĂ­nuo, seus doze Ăşltimos partidĂĄrios correram atĂŠ o bosque para recuperar os corpos do soberano e de sua rainha, mas encontraram apenas uma ĂĄrvore # queimada. Ela havia sido fulminada por um raio e, logo depois, uma voz ensurdecedora se ouviu: —    Ă˜  ÇĄ    Č„ viverĂĄ ele para sempre, o clarĂŁo do raio. Os obĂĄs de XangĂ´ começaram a gritar entĂŁo, alegremente: — %*  Ǩ%*  Ǩ — o rei estĂĄ vivo, ele nĂŁo se enforcou. Essa ĂŠ a origem do trovĂŁo.1 +'%    +00+   ' +00+  +0 +'Ă€Ď?'  6*+ muitos dos protagonistas das prĂłximas pĂĄginas relacionaram-se diretamente com ele – pelo menos no contexto simbĂłlico-litĂşrgico %+ + % ²@Âą Ă˜78&ÇĄ+  % Č‚ÇĄ ++'+ %ÇŚ%+ certa forma. Dorival Caymmi e Gilberto Gil (ambos %  * # ), Jorge Amado (ObĂĄ Arolu) e Hector PĂĄride BernabĂł, o CarybĂŠ (ObĂĄ & ), foram obĂĄs de XangĂ´. Este mesmo orixĂĄ, numa das continuaçþes possĂ­veis do mito, prova que estĂĄ vivo observando secretamente a cidade de OyĂł e castigando as injustiças da vida social com seus raios. Mais tarde, alguns cortesĂŁos (necessariamente sĂĄbios, bons observadores e capazes de circular por cĂłdigos e Para maiores informaçþes sobre o orixĂĄ XangĂ´ (ৢà ngĂł) – 

  

&(òrÏৢà ) dos trovþes, das pedreiras, da realeza Yorubå e consequentemente da justiça – e seus mitos, cf. Verger (1999) e Prandi (2001). 1


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locais diversos) herdaram essa função de vigilância comunitĂĄria, '+ +%ÇŚ0+0Dz$0% +dzȋ8*&ČŒÇ¤+ ++ + ÇĄĎ? ++ÇĄ desempenhou o papel de oju obĂĄ do terreiro que congregou todos os artistas mencionados acima. XangĂ´, que era tambĂŠm o orixĂĄ de Caymmi, tem, por outro lado, pavor da morte, conforme veremos na   deste livro. O candomblĂŠ – religiĂŁo que estarĂĄ presente ao longo de todo este trabalho – ĂŠ precisamente, porĂŠm, uma religiĂŁo “de possessĂŁo e da morteâ€? (Lima, V., 2010, p. 287), de acordo com um de seus maiores estudiosos. Apesar disso, as atividades rituais que acompanham a fĂŠ nos orixĂĄs costumam ser extremamente festivas, ruidosas e coloridas. Os obĂĄs de XangĂ´, no mito acima, nĂŁo poderiam imaginar  0Ď?' % 6*+  +*7   %++0 00*   + * 0 + 0 + + outros tempos. O rei deles – derrotado, provavelmente, numa guerra ' % Ď?  %  % %+ Âą%  +0+ÇŚ 7 '   Č‚ +  ÇĄ % ­   + comeria, efetivamente, atravĂŠs dos  %+ĂŻ+ 0Ď?Âą0'* 0ÇĄ brasileiros, nigerianos, argentinos, estadunidenses, etc. É preciso morrer, afinal de contas – total ou parcialmente, fĂ­sica ou socialmente – para poder circular tanto, atravĂŠs de outros espaços, de outras ideias, de outros  , de outras  . Este ĂŠ um dos argumentos centrais deste livro, que ĂŠ uma versĂŁo revista da minha tese de doutorado. Talvez ele (e ela) tenha(m) sido elaborado(s), sem que eu me desse conta, como uma espĂŠcie de homenagem inconsciente Ă  memĂłria de John Manuel Monteiro. Dedico este trabalho, entĂŁo e em primeiro lugar, a John, que me incentivou quando eu ainda nĂŁo tinha a mĂ­nima ideia do que queria fazer, orientou a escrita do meu projeto logo depois, continuou a me incentivar (mesmo quando eu passei a ter ideias demais), insistiu para que eu desse aula na graduação, junto com Christiano Tambascia, e foi, acima de tudo, um amigo querido que +*'0*  +'  +0' +% +0% 0*%+ 0Ď? + ²' 0 *  0Č‹  ČŒ%  Ǥ Agradeço a todos os outros alunos que John Monteiro orientava ou supervisionava naquele momento, logo antes de morrer Č‚0 +@  ++'²06*+Č‹8*'0000 0'+ 0ČŒ  ²+ÇĄ +0 ++   dele vivos. Este livro ĂŠ dedicado tambĂŠm ao meu avĂ´, Francolino Neto, *$+% + ­ %+ +* Ď?$%+ Ă˜Ç¤+* Ă˜ÇĄ


Agradecimentos | 17

um advogado conhecido, era um digno representante da burguesia negra baiana de outrora. Foi em sua imensa biblioteca (que ocupava um andar quase inteiro de sua casa, em IlhĂŠus) que eu descobri o mundarĂŠu dos livros. Foi com ele que eu ouvi pela primeira vez tambĂŠm, com uns quatro ou cinco anos de idade, a    de Dorival. GrĂĄcia Queiroz, minha mĂŁe, foi, desde muito antes do inĂ­cio Ď?' %  +06*0 6*+%   + +0+  $ÇĄ*  000++ %+ '   Ď?+ÇĄ +ÇŚ%0 0  + + 0 ' IǤ  0  %I+  6*+ +'+ %+ +0++ ' ++ %0 0  0 %  $   Ď?  +0 +'Ă€Ď?' '%+%' Ă—  0'+00 0ÇŁDz ²ǥ      ­  Č‚Ǥ V    ­      â€? ou “Ă€ ÇĄ       ÇŚ       Ǥ     ! dzǤ$  +6*+ % +0++ +0++ÇĄ+Ď?ÇĄ em todas as etapas deste trabalho e de todas as maneiras possĂ­veis: por telefone, ao vivo, de carro, de aviĂŁo, etc. Minha vĂł Pupu, mĂŁe dela, disse hĂĄ muito tempo que queria ++ %* Ǥ ÇĄ Âą%+0²njÇĄ+*+ +% + *' $+ sua estante, na companhia de seus inĂşmeros santos. Em seu nome e em nome do tio Alcir, meu guru, agradeço a toda a minha famĂ­lia pelo incentivo constante. * +  ÇĄ  'Ď? ­  +  '* '% %+ %0 0 0ÇĄ intelectuais e religiosos que eu pude entrevistar nos meus dois primeiros anos de pesquisa (e que abriram suas portas para + +'++  + 0* 0 ' 0 0ÇĄ +0ĂŻ%0 + +²0ČŒÇĄ  +*   $ÇĄ obviamente, nĂŁo teria sido possĂ­vel. Antes de mais nada, agradeço imensamente a toda a famĂ­lia Caymmi – especialmente Ă  Stella Aponte Caymmi, Dori, sua mulher Helena Leal, Danilo, dona Dinahir,  ÇĄ+0+*Ď?$*   – por terem dividido comigo tantas coisas, pensamentos e emoçþes Ă­ntimas, deixando-me ver, ainda, um monte de objetos, quadros, etc., que haviam pertencido a Dorival (ou seja, ao pai, avĂ´, sogro e irmĂŁo deles). A famĂ­lia do pintor CarybĂŠ mereceria, alĂŠm do meu agradecimento individual, um caloroso aplauso coletivo. Dona Nancy +0* Ď?$  +ÇĄ6*++ +'++   +++6*+   


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   +² % 7 0 +'  & %+ +  Ă—ÇĄ %*  incansavelmente, com muito empenho e criatividade, a obra desse

0 Ǥ * ' 0+*0 * 0 ++0ÇĄ + 0  ² *  &  sobre CarybĂŠ no Facebook, um museu interativo e duas galerias em Salvador, alĂŠm de disponibilizarem a obra dele para exposiçþes,  " , tatuagens, etc. Sem dĂşvida, o exemplo delas deveria ser imitado pelos familiares de todos os artistas e de todas as pessoas pĂşblicas jĂĄ falecidas. Agradeço aos funcionĂĄrios da Fundação Pierre Verger, que me permitiram ir atĂŠ a biblioteca e atĂŠ o quarto de dormir desse    Ă˜7 '²0ÇĄ Âą%+'0* Č‹*  $ %+*  $ČŒ 0+ 0%+0* 0ĂŻ+ 07 Ď? 0Ǥ As famĂ­lias Caymmi e CarybĂŠ, junto com a Fundação Pierre Verger, foram, alĂŠm disso, extremamente gentis e generosas ao  I +  *' ­ % 07 Ď? 0*I % 0+0+*+Ǥ Tive o raro privilĂŠgio de ouvir Rosa Passos cantar o sambacanção ValerĂĄ a Pena, de Dorival,   e sĂł para mim, durante uma entrevista muito Ăştil e agradĂĄvel. Obrigado, Rosa. TambĂŠm pude atravessar o espelho que costuma separar os cientistas humanos %+ 0+*0 + '* +0 +  ²0 +0 +06*+'Ă€+0Ǥ    praticamente meia garrafa de uĂ­sque com AntĂ´nio RisĂŠrio, ouvindo segredos impublicĂĄveis e declaraçþes bombĂĄsticas; ao lacrimejar junto com Peter Fry depois de ter acompanhado o curso das lembranças desse homem de sensibilidade singular; e ao cantarolar junto com Gilberto Gil no meio de uma entrevista que terminou virando um lero muito do divertido e cheio de cumplicidade. Agradeço ao terreiro do OpĂ´ AfonjĂĄ (especialmente ao ogĂŁ Eduardo e Ă  MĂŁe Detinha de XangĂ´,   ) pelas poucas, mas importantĂ­ssimas, horas de sossego que eu passei por lĂĄ. O candomblĂŠ ĂŠ uma religiĂŁo que prima pela cortesia, pela atenção e pela amabilidade. Eu nĂŁo poderia deixar de agradecer, entĂŁo, Ă  $  Ă—  ' 0 ÇŚ%+ÇŚ0 ÇĄ ²@Âą@* ²ǥ  %axĂŠ e por % ' ++0 Ǩ Entrevistei ainda Lydia HortĂŠlio e Robert Slenes. Ambos sĂŁo meus mestres e meus amigos queridos, sĂŁo intelectuais de rara integridade que me formaram e que sempre foram, para mim,  %+0%+0%+*%ÇĄ%+ Ď?00 +%+% Ǥ Robert (ou melhor, Bob) foi o meu primeiro orientador. AlĂŠm de ser o maior responsĂĄvel por eu ter seguido uma carreira


Agradecimentos | 19

' %²' ǡ  0+ + + ' * ' 0+* +*0 0ǡ 0* 0 0 % 0ǡ 0*  'ϐ ­  + 0*  @    &+ + '$+'+Ǥ A ideia de publicar este livro, além do mais, partiu dele. Muito   %ǡ+*6*+ % 7+00 Ǩ * Agradeço imensamente aos amigos que acompanharam, de perto e desde o início, a elaboração deste livro. Carol Cavazza, Rafael Serra, Kelly Baldini e Chico Dias de Andrade são os membros mais chegados da família que encontrei +   0Ǥ0+ ±%+'²0 ±ǡ%+'²06*+$& 0 dividem comigo as viagens, as conversas, os problemas, as refeições, *%ǡ+ϐǤ %+­ ±:&   0 ǡ $  + ǡ Mariana Marques, Talita Castro, Michele Lima, Gláucia Destro, Vanessa Ortiz, Patrícia Gimeno, João Fred de Oliveira, Inácio Dias de Andrade, André Oliveira, Lucas Spinelli, Luís Otávio, Ricardo Normanha e Diogo Cardoso. Este livro é dedicado a um amigo em especial, Daniel Dinato. Ele, que apareceu em minha vida e em pouco tempo se tornou um dos meus grandes parceiros, foi responsável em grande medida +  ϐ I ­  %+0+   $Ǥ * + %  + À% %+ +0'   deste texto, Dani me incentivou, criou um horário e uma rotina junto comigo e, ainda, me fez encontrar tempo para beber cerveja, muita cerveja. Dividimos, e continuamos a dividir, nossas alegrias e nossas tristezas com um respeito, um carinho e um companheirismo que são únicos. * Agradeço, com muito carinho e reconhecimento, à Heloísa Pontes e a Luiz Gustavo Freitas Rossi, que me orientaram no doutorado. Contar com a precisão, com o rigor e com a empolgação %+'²0%0ǡ+ %00 +0ǡ 7 ȋ+ǡ  7    + % %+ǡ continuará sendo por muito tempo) um dos maiores aprendizados da minha vida. Muito obrigado, professores Robert Wayne Slenes, meu querido Bob, Rose Satiko, André Domingues, e Christiano Tambascia, que foram os integrantes da banca de defesa da tese que, um ano e


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meio depois, se transformaria neste livro. Agradeço imensamente à Fundação de Amparo à Pesquisa %0 %%+  *ǡ  ǡ ²' ϐ ' % %  +06*0  que deu origem a este trabalho, e a Maria Elvira Díaz Benítez, em +% %  ±0+ +0ǡ ++@ +'*% %ǡ '²'  e companheirismo na preparação desta publicação.

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Dorival Caymmi. A pedra que ronca no meio do mar (preview)  

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